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COLEÇÃO COMUNICAÇÕES
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Direção: Norval Baitello junior
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A Coleção Comunicações pretende mostrat o amplo e sedutor leque de
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horizontes e perpectivas críticas que se abre para uma jovem ciência que
não é apenas ciência social, mas que também se nutre e transita nas ciências z
da cultura bem como nas ciências da vida. Afinal, apenas sobrevivemos, UJ
como indivíduo e como espécie, se compartilhamos tarefas, funções e O
fruições, vale dizer, se desenvolvemos uma eficiente comunicação que nos
vincule a outras pessoas, a outros espaços, a outros tempos, e até a outras O
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dimensões de nossa subjetividade.
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Conheça os títulos desta coleção no final do livro.
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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação - CIP
Sumário
F668 Flusser, Vilém (1920 - 1991).
Natural: mente: vários acessos ao significado de natureza.! Vilém Flusser.-
São Paulo: Annablume, 2011. (Coleção Comunicaçóes).
164 p.: 14x21 cm.
ISBN 978-85-391-0260-0

1. Filosofia. 2. Teoria do Conhecimento. 3. Natureza. L Título. 11.Série.

lH. Vários acessos ao signíficado de natureza.

CDU 165
CD]) 121

Caralogação elaborada For Wanda Lucia Schmidr - CRB-8-1922

Natural:mente

Vários acessos ao significado de natureza

Caminhos (uma espécie de Introdução) 29


53
59
103
45
07
39
85
95
19
67
75
Ivan Antunes
Coordenação de produção: Grama
Dedos
Prados
Montanhas
Pássaros
Chuva
Alua
Vales
Vacas
A
O falsa
cedroprimavera
no parque
Vínícius Viana
Diagramação:
Revisão: Juliana Biggi
Capa: Carlos Clémen
Finalização: Vinícius Viana

Conselho Editorial
Eduardo Penuda CafLizal
Norval BaiteIlo junior
Maria Odila Leite da Silva Dias
Celia Maria Marinho de Azevedo
Gustavo Bernardo Krause
Maria de Lourdes Se_keíf(in memoriam)
Pedro Roberro Jambi
Lucrécia D'Alessio Ferrara

1"edição, julho de 2011

© Edirh Flusser

ANNABLUME edirora . comunicação


Rua M.M.D.C., 217. Buranrã
05510-021 . São Paulo. SP . Brasil
Tel. e Fax. (011) 3812-6764 - Televendas 3031-1754
www.annablume.com.br
Ventos 113 Caminhos
Maravilhas 121 (Uma espécie de Introdução)
Botões 129
Neblina 137

Natural: mente (uma espécie de conclusão) 147

Duas experiências estão confluindo para ignorar o


redemoinho das reflexões a serem relatadas em seguida.
A primeira é a última passagem do autor pelo Passo de
Fuorn que une o vale do Enghadin com a rede de vales
alto-adigianos no encontro das fronteiras da Itália, Áus-
tria e Suíça. A segunda é a visita recente que o autor fez
aos menires de Carnac na Bretanha. Antes de permitir às
duas experiências confluírem, o autor deve descrevê-Ias.
O Passo de Fuorn é estrada asfaltada não muito lar-
ga, por não ser muito frequentada, já que comunica re-
giões pouco habitadas. É, no entanto, mantido livre da
neve durante o inverno todo, quando estradas mais im-
portantes estão fechadas ao trânsito, porque não existe
ligação alternativa entre as regiões que une. Trata-se de
estrada lateral da grande artéria que parte de Coira em
direção a Milão pelo passo de Maloia e que forma uma
8 Natura[;menre VIJ.,ÉM FLVSSER 9

das passagens norte-sul do centro europeu. Sai daquela ar- Até que o autor leu, em um livro de paleoantropologia,
téria em Zernez, no vale do Enghadin (não muito longe que Passo de Fuorn foi, durante incontados milênios, o
de São Moritz dos milionários americanos e dos xeiques caminho das manadas de cavalos selvagens,do gado "U r"
petrolíferos, e de Sils Maria do Nietzsche zaratustriano), e das renas, perseguidas pelos caçadores paleolíticos, nos-
sobe pelo Parque Nacional do Enghadin até a altura de sos antepassados. O traçado da estrada atual foi "constru-
uns 2.300 metros, desce pelo vale do Vanosta das aldeias ído" por tais manadas. O projeto da estrada é dos cavalos,
ladinas e castelos gados e langobardos e pelo vale do Alto dos touros, das renas. Apenas a sua execução atual é pro-
Adige, nos quais se confunde com a estrada que Drusus duto de trabalho humano, como devem ter sido incontá-
construiu para vencer os réticos e alcança, em Bolzano veis execuções anteriores. Se projeto e ideia foram consi-
(a clássica "Pons Drusi"), a auto-estrada Munique-Roma derados conceitos parentes, quem teve a ideia de fazer a
que é, por sua vez, a Via Flaminia pela qual Germânico estrada foram os animais da tundra. Foram elesos que ou-
penetrou em nome de Roma nas florestas teu tônicas, e saram. E nós, que viajamos de automóvel de Bolzano para
pela qual, em sentido contrário, o Imperador Henrique Zarnez, estamos apenas seguindo os seus passos, exata-
viajou, penitente, para submeter, em Canossa, a coroa do mente como o faziam os caçadores, nossos antepassados.
Santo Império germânico à autoridade do Papa romano. ~em viaja para a Bretanha, como o fez o autor
Ao ligar, assim, transversalmente, duas artérias importan- na semana passada, penetra região misteriosa por mul-
tes, a estrada do Passo de Fuorn (nome ladino que sig- tiplicidade de razões: por causa de curiosas construções,
nifica, obviamente, Passagem do Forno) parece ser obra chamadas "calvários", que a caracterizam; por causa do
recente de engenharia, destinada a descarregar parte do Mont-Saint-Michel, esse monstro monástico, esse Mon-
trânsito pesado de caminhões que rolam, em cadeia inin- te Athos do Ocidente; por causa das lendas pseudocris-
terrupta, entre o centroeuropeu e a península italiana. tãs dos bretões que para lá se mudaram, depois de terem
Obra de engenharia recente e ousada que exigiu a aplica- sido expulsos da "grande" Bretanha pelos anglo-saxões,
ção dos métodos mais avançados da tecnologia. os quais continuam "bretonando" até hoje, quando sua
O autor viajou por ela repetidas vezes e sempre ad- língua e cultura desapareceram na pátria inglesa há mui-
mirou não apenas as majestosas vistas de cumes e geleiras, to; por causa daquele curiosíssimo povo celta, chamado
mas também a beleza da suas curvas. Destarte, o espírito "o povo do mar = armoricano", que jamais foi realmente
humano, munido dos instrumentos da ciência, conseguiu domado nem pelos romanos, nem pelos gauleses,nempe-
literalmente perfurar os segredos da natureza e abri-Ias Ias bretões, nem pelos francos, nem, diga-se de passagem,
à contemplação, e conseguiu fazê-Ia na forma de beleza. pelos burgueses parisienses que estão construindo seus
10 Natural:mcnte VILf:M FLUSSER 11

edifícios de apartamentos nas praias "armoricanas". (Mas Os milhares de menires que cobrem a planície em
também estão sendo domados, como o está sendo o resto torno da aldeia de pescadores e cultivadores de ostras "be-
do Ocidente, pela cultura de massa, de modo que passam, lonnes", chamada Carnac (nome que sugere misteriosa-
atualmente, de "armoricanos" para americanos.) No en~ mente o Egito, e, por seu sufixo "-ac", passado que aponta
tanto, a região é misteriosa principalmente por causa dos além da Idade do Bronze), parecem, à primeira vista, um
povos que antecederam os armoricanos, e dos quais pou- amontoado de ruínas espalhadas caoticamente, como se
co ou nada se sabe, a não ser que construíram (se é que um edifício de proporções transumanas tivesse ruído em
"construir" é o termo certo), entre os anos 6000 e 4000 terremoto. Mas, pouco a pouco, o observador vai desco-
antes de Cristo, aqueles conjuntos incríveis de pedras em brindo que o que parece ser acaso caótico é, na realidade,
Carnac e, do outro lado do Canal, em Stonehenge. ~e ordem ultracomplexa. As pedras não parecem, sob obser-
gente era essa, que mais de 2000 anos antes da construção vação mais meticulosa, uma espécie de estátuas "objets
da primeira pirâmide egípcia levantava absurdamente mi- trouvés" ou "minimal art" de proporções gigantescas, mas
lhares de pedras pontudas e irregulares, centenas das quais elementos de cercas invisíveis ou desaparecidas. E tais su-
pesam um múltiplo do peso do Obelisco na Place de La percercas, quando mentalmente reconstituídas, passam a
Concorde, cuja ereção exigiu o esforço máximo da téc- delimitar centenas de caminhos que se cruzam e recruzam
nica iluminista, e todo o ardor romanticamente revolu- em desenho geométrico altamente sofisticado. A visão
cionário da República Francesa? O autor não encontrou, mental faz surgir um conjunto de avenidas e alamedas co-
até agora, na literatura consultada, resposta satisfatória a lossais dentro do qual o menir individual passa a ser ape-
tal pergunta. Encol1trou apenas interpretações fantásti- nas elemento de traçado, apesar de suas proporções gigan-
cas do tipo "O despertar dos mágicos", ou interpretações tescas. E se as próprias rochas se transformam em anões
banais do tipo freudiano "phallus". Tais interpretações e em tal labirinto, que dizer de nós homens? Passamos a ser
outras semelhantes não satisfazem. Porque diante de toda formigas que correm, 'desorientadas, dentro de avenidas
obra humana surge a pergunta do motivo e da finalidade e alamedas destinadas a seres de ordem de grandeza dife-
da obra. Já que é isto que distingue cultura de natureza: rente, que procuram apalpar, com suas antenas mentais,
as obras da cultura têm significado, são decodificáveis. Os os menires individuais a fim de descobrirem quais os se-
menires de Carnac são absurdamente misteriosos, por- res que outrora caminhavam pelas avenidas. Sem dúvida:
que perdemos a chave do código que lhes confere o seu os menires foram colocados nos seus devidos lugares por
significado. Não sabemos mais por que e para que foram gente como nós, embora com esforço e métodos dificil-
elevados, e somos obrigados a "interpretá-Ios", em vez de mente imagináveis. Mas o projeto da construção não
po dermos "1'
e-1os " . pode muito bem se ter originado na mente dessa gente.
12 Natural:mentc VILÉM FLUSSER 13

A construção não pode ter servido a nenhuma necessi- à sua idade; os caminhos antigos, os pré-históricos, seriam
dade sua. Tal projeto deve ter tido origem diferente, ter aqueles cujos planos e projetos caíram rio esquecimento
sido "inspirado" de alguma maneira na mente dos cons- e, por isso, parecem a nós, observadores tardios, não te-
trutores. Ao construírem os "alinhamentos" de Carnac, rem sido deliberados. Os fenômenos não confirmam, no
os povos ignorados, habitantes da Bretanha pré-egípcia, entanto, tal afirmativa. Os caminhos do sal e do âmbar
devem ter obedecido a projetos por eles próprios ignora- que cruzam a Europa são antiquíssimos, e revelam, no en-
dos, a fim de abrirem caminhos com finalidade ignorada. tanto, projetos deliberados. E o Passo de Fuom é uma das
As duas experiências relatadas confluem num pon- mais recentes passagens alpinas. ~erer, pois, afirmar que
to: o do projeto de caminhos. E as reflexões se põem a quanto mais antigo um caminho, tanto menos artificial
girar em torno de tal ponto em círculos rapidamente cen- e, portanto, tanto mais "natural" será, não se sustenta. A
trífugos, já que os termos "projeto" e "caminho" são pre- naturalidade ou artificialidade de um caminho não é fun-
nhes de significado. Tal fuga do centro pode, no entanto, ção da sua idade, não pode sê-Io, já que a história não é
ser disciplinada, se o pensamento se agarrar a um único simplesmente processo de artificialização crescente, mas
aspecto, por assim dizer concreto, do problema que sepõe processo que retoma periodicamente às fontes naturais
quando as duas experiências confluem - o problema de das quais brota. Outra tentativa de explicar a diferença
os projetos dos caminhos humanos não serem necessaria- deve ser ensaiada.
mente humanos. No caso do Passo de Fuorn, o projeto Talvez esta: os quatro exemplos de caminhos, suge-
parece ter sido pré-humano e, no caso do alinhamento do ridos neste ensaio, podem ser reagrupados, tendo por cri-
Carnac, parece ter sido extra-humano. Se o pensamen- tério não seu projeto, mas a função à qual servem. O pas-
to se agarrar a este aspecto, torna-se possível a distinção so de Fuorn e a Transamazônica servem ao transporte de
entre dois tipos de caminho: os projetados, traçados, mercadorias e de pessoas; Camac e o Eixo Monumental
imaginados, programados por deliberação clara, distinta servem como símbolos, transportam mensagens. É claro,
e consciente, e os outros. Exemplos do primeiro tipo se- o critério não é exclusivista. O Eixo Monumental é, tam-
riam o Eixo Monumental de Brasília e a Transamazôni- bém, canal pelo qual funcionários dos diversos Ministé-
ca, e exemplos do segundo, o Passo de Fuorn e Camac. rios se dirigem ao local de trabalho, e as alamedas de Car-
Tal distinção pode contribuir para o aprofundamento da nac devem ter também servido de estradas aos "druidas".
compreensão da dialética entre natureza e cultura. E o Passo de Fuorn e a Transamazônica são também sím-
Somos tentados a afirmar que a diferença entre ca- bolos de algo (o primeiro, talvez, do Mercado Comum,
minhos conscientemente deliberados e os outros se deve a segunda, certamente, do Brasil Grande). No entanto, a
14 Natural.:mente VILÉM FLUSSER 15

função simbólica predomina num dos dois pares, e a fun- altivos rumo a um destino que eles próprios projetaram.
ção econômica no outro, pois, se partirmos do critério da Pelos caminhos misteriosos, "naturais", os homens cami-
função, a diferença entre caminhos deliberadamente pro- nham seguindo os passos de seres ignorados ou vagamen-
jetados e os outros se torna mais clara. te intuídos, rumo a um destino ignorado ou vagamente
O Passo de Fuom é estrada muito mais tecnicamen- intuído. Ou, como em Camac, sem rumo aparente. E já
te elaborada que a T ransamazônica, a qual não passa, em que há estes dois tipos de caminho, há também dois tipos
largos trechos, de caminhos de terra. Neste sentido, o de "homo viator".
Passo de Fuom é mais "artificial", mais "cultura" e me- No entanto, tal distinção entre caminhos "naturais"
nos "natureza". No entanto, a Transamazônica se impõe e "artificiais" sugere, à primeira vista, conceito inteira-
muito mais à paisagem que atravessa, avança não apenas mente insatisfatório de "arte" e de "cultura". "Cultura"
nela, mas contra ela. Devora a floresta, enquanto o Passo seria, de acordo com tal critério, a imposição deliberada
de Fuom a salienta. Neste sentido, a Transamazônica é de um significado humano ao conjunto insignificante de
muito mais artificial e cultural: representa muito mais a "natureza", e "arte" seria o método pelo qual o espírito
vitória da deliberação humana sobre as condições natu- humano se impõe sobre a natureza. Embora muitos pos-
rais impostas ao homem. O código do qual o Eixo Mo- sam efetivamente esposar tal conceito, é ele inteiramente
numental participa enquanto símbolo (avião que decola insatisfatório, e a contemplação do Passo de Fuom e de
rumo a um futuro esplêndido, Alvorada, Brasil Grande, Carnac o prova. Fosse satisfatório o conceito, a Transa-
etc.) é muito mais denotativo, claro e distinto que o có- mazônica seria progresso cultural sobre o Passo de Fuorn,
digo do qual participa Camac, e não apenas porque dele e o Eixo Monumental seria obra de arte mais significativa
perdemos a chave. O código de Camac deve ter sido que Camac, porque na T ransamazônica e no Eixo Mo-
sempre obscuro e altamente conotativo. A mensagem numental o espíríto humano se impõe mais nitidamente
do Eixo Monumental exige, pois, leitura diferente da de sobre a natureza das Gerais e da Floresta. Na realidade, o
Carnac: mais intelectual que intuitiva. Neste sentido, o Passo de Fuom se apresenta como obra de arte ao propor-
Eixo Monumental é muito mais artificial e cultural que cionar vivências fortes (ao revelar "visões da realidade"),
Carnac: representa muito mais a vontade humana de dar e Carnac se apresenta como testemunho de uma cultura
sentido ao mundo, de maneira que a artificialidade de um perdida e esquecida, mas tão significante e "válida" quan-
caminho parece não depender da sua elaboração, nem da to o é a nossa. Portanto, caminhos antinaturais não são
sua função, mas do clima existencial que o cerca. Pelos necessaríamente frutos de uma arte mais "evoluída" e cul-
caminhos "artificiais", "culturais", os homens caminham tura não é necessariamente antinatureza.
16 Natural:mente VILÉM FLVSSER
17

Os dois tipos de caminho sugerem, pelo contrário, misteriosos. Porque o Passo de Fuorn e Carnac de um
que há dois tipos de cultura, cada qual aplicando arte dife- lado, e a T ransamazônica e o Eixo Monumental do outro,
rente. O primeiro tipo de cultura seria produto do esfor- são casos de limite ("Grenzsituationen"). A maioria dos
ço de elaborar e fazer resplandecer sempre mais a essência caminhos é como a autoestrada Del Sole e a via Dutra,
da natureza, e sua arte seria o método pelo qual tal essên- ou como a rue de Seune ou a rua Direita, mais ou menos
cia é revelada. O Passo de Fuorn e Carnac seriam obras mal traçadas, e que são traçados "mal" porque o espírito
desse tipo de cultura. O segundo tipo de cultura seria, humano não conseguiu se impor de todo. É por tais cami-
efetivamente, ptoduto do esforço deliberado de impor nhos que caminhamos, via de regra.
projetos humanos sobre a natureza e de fazer resplande-
cer sempre mais a essência do espírito humano, e sua arte
seria o método pelo qual tal essência é revelada. A Tran-
samazônica e o Eixo Monumental seriam obras desse tipo
de cultura. No entanto, tal esquematização simplifica o
problema. Provavelmente, os dois tipos de cultura e arte
não existem, nem jamais existiram, em estado puro. E que
toda cultura concreta e toda arte são mistura ou síntese
dos dois tipos propostos. O que torna extremamente pro-
blemático não apenas querer distinguir, ontologicamen-
te, entre várias culturas, mas também querer estabelecer
rigorosa dialética entre cultura e natureza.
Isto implica que o "homo viator" não é um ser que
pode escolher entre caminhos deliberados e caminhos
misteriosos, e que pode fazê-Ia deliberada ou espontane-
amente. Implica, ao contrário, que o "homo viator" é um
ser que caminha ora por caminhos deliberados, ora por
caminhos misteriosos, e o faz ora deliberadamente, ora
espontaneamente, e que, na maioria das vezes, caminha,
em parte deliberadamente, em parte espontaneamente,
por caminhos parcialmente deliberados e parcialmente
Vales

Temos várias maneiras de relacionar-nos com a na-


tureza, algumas das quais podem ser chamadas "sobrena-
turais", "teóricas" ou "perspectivas" (segundo os nossos
vários gostos). Uma de tais maneiras é encarar a natureza
como se fosse um mapa. Invertemos, sob tal visão, a rela-
ção epistemológica entre paisagem e mapa. O mapa não
mais representa a paisagem, mas agora é a paisagem que
representa o mapa. O mapa não mais serve de instrumen-
to para nos orientar na paisagem, mas agora é a paisagem
que serve de instrumento para nos orientar no mapa. A
verdade deixa de ser função da adequação do mapa à pai-
sagem, e passa a ser função da adequação da paisagem ao
mapa. Tal furioso idealismo, inculcado em nós nos giná-
sios, se exprime na sentença "o mar é azul, e as possessões
inglesas são vermelhas". Sob tal visão, vales passam a ser os
caminhos pelos quais a água corre em direção ao oceano.
Visão "científica", esta?
20 Naturalrmente VILÉM FLUSSER 21

Temos, no caso, determinado modelo. O da circu- Cavaleiro errante, judeu errante. Estrangeiro. Mas não
lação da água. Não importa aqui a origem do modelo. O integralmente. Se eu ando pelo vale da sombra da mor-
modelo prevê (no sentido de "manda" e de "profetiza") te, Tu estás comigo. Como então é verde o meu vale! No
que uma das fases do ciclo da água seja a descida da água entanto, o vale é meu, e eu não sou dele. Não sou dele
das serras por vales. A observação da paisagem confirma porque eu também disponho de mapa, ao qual meu vale
o modelo. Ou seja: a paisagem se adapta ao modelo (ao deve responder "sim ou não", adequar-se. Meu mapa,
"mapa"). Respondeu "sim". Os vales são respostas afirma- meu engenho, é este.
tivas à investigação "espiritual" (formal) do mapa. Loucu-- A humanidade é horda de invasores, de imigrantes.
ra? Sim, no sentido do "espírito" ser loucura, do homem ser Invade a paisagem há, provavelmente, uns 8 milhões de
animal louco. E não, no sentido do "espírito" ser negação, anos. Em várias levas. Em busca de renas, mamutes, gra-
do homem ser animal que pode mudar vales construindo míneos, gado, sal, carvão, eletricidade, em suma, em busca
da felicidade. De onde vem a horda, não se sabe. Prova-
represas. Para quem é engenheiro, tal visão do vale é "ade-
velmente, é questão "falsa" esta; não há método para res-
quada". Para quem mora no vale, essa visão é louca. Mas
pondê-Ia. Embora não pareça ser "falsa", já que 8 milhões
será que engenheiros não podem morar nos vales? Não po-
de anos não são tanto tempo, afinal de contas. Mas para
dem. Enquanto engenheiros, moram nos mapas.
onde vai a horda, isto se sabe. Sobe. Sobe ao longo dos rios
Eu não sou engenheiro e moro num vale. Ou moro?
e dos riachos em sentido contrário ao da água. Sobe pelos
Embora não seja engenheiro, sou, eu também, homem.
vales. Os vales são as artérias pelas quais sobe o sangue do
Animal louco. Também eu fui expulso do paraíso, e não
rio da humanidade. E os estreitos vales montanhosos são
apenas os engenheiros. Não posso morar no vale, ou, pelo
os capilares. Neles, a invasão estagna. São eles represas em
menos, não o posso integralmente. Também eu moro,
sentido contrário ao do engenheiro. No meu mapa, os
parcialmente, no reino dos engenhos, embora os meus
primeiros são os últimos: os bandeirantes mais corajosos
engenhos não sejam os do engenheiro. Não faço, como
que formam a ponta da lança invasora e penetram os vales
faz o engenheiro, "ciência da natureza". Sou, ai de mim,
mais estreitos são lá represados para formarem os últimos
humanista. Minha loucura é outra. Vales, para mim,
vestígios da horda. Eu moro (no sentido problemático do
também são caminhos. Não, por certo, da água. Mas ca-
termo) em um vale estreito montanhoso. Agora respon-
minhos para homens. Eis porque não posso morar no vale
da "sim ou não", meu vale. Responda a minha pergunta
tão integralmente quanto nele moram, por exemplo, as "perspectivista", "historicista", humanista.
corças. Corças andam no vale, e eu ando por ele. Atraves- Este vale aqui, no último tempo interglacial, era pro-
so o vale (seja de lágrimas, seja de sorrisos). Homo viator. vavelmente habitado por homens da espécie heidelberg,
22 Natural:menre VILÉM FL USSER 23

quando a planície lá embaixo já era habitada por homines Meu vale não é interessante apenas pelo fato de eu
sapientes. ~ando a planície já era neolítica e plantava morar nele. Pode ser generalizado. Não é assim que hm-
grama, aqui ainda caçavam paleoliticamente cabras alpi- ciona o "espírito": generalizando, classificando, projetan-
nas. ~ando a planície falava rético e usava bronze, aqui do para "cima"? Isto é: esvaziando? Este meu vale concre-
ainda havia aldeias neolíticas sem divisão de trabalho. to aqui pode ser generalizado para a forma vazia: "classe
Aqui ainda se falava rético, quando, na planície (e pelo de vales". Por isso é interessante. Pode servir de exemplo
mundo afora), já se falava latim e grego. ~ando o médio concreto da classe abstrata "vales". Inversão epistemoló-
alemão dominava o Santo Império, aqui se falava ladino. gica, portanto. Meu vale é interessante porque, feita a in-
E hoje se fala alemão, quando a planície já fala italiano. versão, permite perguntas do tipo: tradição ou progresso?
Mas nos pequenos vales laterais ainda se fala ladino. E o No meu mapa, vales são os lugares para onde o progresso
rético ainda não morreu nos pequenos aglomerados nos avança e onde estagna. Mas onde estagna com determi-
abismos acima de 3.000m. E existem casas camponesas nada estrutura. Na estrutura da "memória" no sentido
construídas neoliticamente. E há, nos laguinhos isolados platônico, biológico, psicológico, cibernético (e talvez
ao pé das geleiras,gente que pesca paleoliticamente. E não outro). Vales, no meu mapa, são armazéns da informa-
haverá, nos rostos dos montanheses, traços neanderthal e ção, conservas. Conservadores tradicionais, portanto. No
heidelberguianos? Meu vale respondeu: "sim, sou estru- meu mapa, o progresso corre morro acima para ser arma-
turado de acordo com o teu mapa". Moro em represa da zenado nos vales mais estreitos. No meu mapa, a meta do
história da humanidade, na qual o "anterior" passa a ser progresso é ser conservado. É que meu mapa é mapa de
o "mais vale acima", e o "posterior" o "mais vale abaixo". humanista, não de engenheiro. Por isso, o "nunc stans"
Estratihcação contrária à da geologia, esta. Não surpre- do vale aparece nele como meta do "panta rhé", como
endentemente: as "humanidades" têm mapas contrários Changri Lá, em suma. Todo humanismo é utópico: visa
aos das" ciências da natureza". O tempo corre em direção à estreita plenitude do vale e vê na ampla vacuidade da
oposta nas duas disciplinas. Nas ciências da natureza cor- planície apenas estágio de percurso.
re rumo à entro pia; nas humanidades, rumo à informação Primeira tentativa de resposta: vales são articula-
crescente. A água corre em direção oposta à do rio da hu- dos. São estreitos e cercados de obstáculos que permitem
manidade. A estratificação histórica do meu vale se opõe poucas e difíceis passagens. Tal articulação os torna "or-
à sua estratihcação geológica, como o "espírito" se opõe gânicos", isto é, dificilmente mecanizáveis. Não podem
ao mundo. Porque o mundo é passagem, e o "espírito" é ser facilmente enchidos de "massas" que se movem me-
aventura. canicamente. Não se pode construir neles com facilida-
24 Natural:menre VILtM FLUSSER 25

de pirâmides faraônicas, circos máximos ou bancos de dirão que armazenar informação (negentropia) é a meta
cinquenta andares. Tais coisas não cabem bem em vales, da humanidade. E dirão ainda que vales (memórias, tra-
não por serem os vales "pequenos". As montanhas que os dição, negentropia) não são lugares parados, nos quais
cercam são muito mais altas que pirâmides, circos e ban- mais nada acontece. São, pelo contrário, lugares nos quais
cos, e a vivência do vale é de grandiosidade. Não por se- a informação é constantemente reagrupada e reestrutu-
rem "pequenos" os vales, mas por serem articulados, não rada. Falando comunicologicamente: vales são os lugares
servem eles a culturas de "massa". Portanto, o progresso nos quais os discursos das planícies são dialogados. Por
massificador da planície se destina a ser articulado ("lm- isso, vales são os lugares de pensadores e de poetas. Desde
manizado") nos vales. Heráclito até Nietzsche. Desde Davi até Rilke. Mas não
Segunda tentativa de resposta: vales abrigam. Todo para profetas. Profetas não habitam vales. Meu mapa não
vale forma um universo, com sua própria fauna e flora, comporta profetas. Devo ampliá-Io.
um pouco diferente da do próximo vale. Com sua própria Profetas passam pelos vales e sobem até o cume da
economia e estrutura social, sua própria arquitetura, mú- montanha. Dão um passo além dos habitantes do vale.
sica, suas próprias lendas. E os universos são os vales que E depois voltam. Na volta, nem sequer descansam no
não se comunicam entre si, mas apenas com a planície que vale que atravessam. Dirigem-se diretamente à planície
é comum a todos. É neste sentido que vales abrigam: não para contar sua "nova". Contam a vista que tiveram no
por isolarem do resto do mundo, mas por comunicarem cume. Para eles, o vale é canal entre planície e cume, e en-
indiretamente e por grandes voltas. Isto talvez distinga tre cume e planície: canal bivalente. Na ida, é canal entre
redundância e ruído. Na volta, canal entre ruído e infor-
as culturas que brotam de uma rede de vales estreitos das
culturas das planícies: são "confederativas", e não "federais" mação nova. Na ida, é canal entre alienação massificada e
como estas. Por exemplo: as culturas grega, judia, tibetana, solidão; na volta, entre solidão e engajamento. Eis o que é
vale em mapa projetado do cume da montanha. Não mais
tolteca e incaica, em comparação às culturas romana, meso-
potâmica, hindu, maia e chipcha. Portanto, a "civilização" represa, mas meio do caminho. Em tal mapa, quem está
da planície destina-se a ser aculturada nos vales. no vale está no meio do caminho da sua vida. E a pergunta
que se põe em tal mapa é esta: quem está no vale ainda es-
Outras respostas do mesmo gênero são possíveis e
tará subindo, ou já estará descendo? Ainda será pensador
facilmente formuláveis. Todas dirão que a história é pro-
(reformulador do discurso da planície, da "prosa"), ou já
cesso que tem vales por meta. Ou que acontecimento é
será poeta (preparador de um novo discurso)?
processo que tem memória por meta. Ou que progresso
Pois em tal segundo mapa (que não é mais histori-
é processo que tem tradição por meta. Em suma, todas
cista, mas tão formal quanto o é o do engenheiro), a hu-
26 Naturahmente VII.ttvl FLUSSER 27

manidade não aparece mais na forma de um rio que sobe poderá voltar a ser integrado. A "volta" jamais pode ser
pelos vales, mas na forma de uma circulação que fira em cancelamento da "ida". ~em volta não é o mesmo, é alte-
sentido contrário ao da água. Sobe pelos capilares dos va- rado. Ficou informado, mesmo se não subiu até o cume. Eis
les estreitos, projeta gotas até os cumes, e tais gotas vol- a decisão que deve tomar quem subiu pelo vale: solidão sem
tam, carregadas de "novas", para vivificarem as planícies. garantia de volta, ou volta sem ter visto o cume.
Tal circulação da humanidade sobe em grandes rios (as Os que nasceram nos vales não veem os cumes.
grandes "tendências"), ramifica-se em deltas na serra (as Olham o solo que cultivam, e, raras vezes, a planície a seus
várias "heresias"), alcança os cumes em gotas individuais pés na qual trocam o produto do seu trabalho. Olham a
(os grandes "heresiarcas"), que se evaporam e reconden- planície raras vezes, porque está, geralmente, coberta de
sam em chuva vivificante (a "profecia"). Em consequên- bruma. Por isso, os que nasceram nos vales creem que
cia, são os vales, em tal segundo mapa, caminhos diferen- nasceram acima das nuvens. Estão enganados. Nasceram
tes dos que são no primeiro. Não são mais caminhos que no meio do caminho. Como estão enganados os que l1as-
conduzem à meta. São caminhos de iniciação para a volta. ceram na planície e dela jamais saíram. Creem que nas-
Caminhos" decisivos". ceram debaixo do céu, quando, na realidade, nasceram
~em jamais subiu pelo vale, jamais viveu. Vegeta debaixo da bruma que não lhes permite ver os vales nem
no plano. A terceira dimensão, a do sublime, lhe falta. os cumes. Mas quem nasceu na planície e subiu pelo vale
Mas quem subiu pelo vale e lá ficou, tampouco viveu. vê primeiro os cumes, íngremes e inacessíveis. E depois
Arrancou suas raízes, é verdade, desalienou-se. Mas ficou vê o solo verdejante do vale. Mas, como é viajante, vê a
no ar, na disponibilidade. Deve decidir-se. Subir mais paisagem como se fosse confirmação de mapas que carre-
ainda, ilosar-se mais ainda naqueles cumes que Rilke cha- ga no bolso. Dois mapas. O primeiro mostra o vale como
mou "os do coração", os quais nem sequer águias habi- caminho que leva à meta. O segundo mostra o vale como
tam. Arriscar-se à solidão da qual Unamuno diz que nela epiciclo que leva à volta. O primeiro mapa foi projetado
"perdeu a sua verdade". E em tal decisão não pode esperar no clima pesado da planície e visa a libertar o viajante. O
por nenhum Virgílio, ou Godot, ou não importa que guia segundo mapa foi projetado no próprio vale, e visa a mu-
alpinista. Ou então voltar à planície sem ter corrido o ris- dar a planície e seu clima. Os dois mapas são igualmente
co da subida, não, por certo, para reintegrar-se, mas para adequados. A paisagem, se consultada, responde "sim" a
engajar-se. Porque, para quem está no vale, a integração se ambos. A decisão: "qual dos dois mapas devo utilizar?"
tornou impossível. É para ele, doravante, sinônimo de pro- não pode ser tomada à base dos próprios mapas. Ambos
miscuidade. Por ter subido o vale, é apocalíptico, e jamais são igualmente apropriados. Nem à base de uma compa-
28 Natural:mente

~ entre os mapas, a'b aseed" um meta-mapa. " Por ser


raçao Pássaros
"meta", não será mais apropriado. A decisão a ser tomada
deverá ser "absurda" (sem base).
E isto representa o limite da loucura que é o espí-
rito humano. É perfeitamente possível projetar mapas.
É perfeitamente possível inverter a relação entre mapa
e paisagem, e consultar, não o mapa para se orientar na
paisagem, mas a paisagem para orientar-se no mapa. Tais
loucuras são perfeitamente possíveis. Mas quando se trata
de tomar decisão, mapas não servem. Decisões autênticas
são absurdas. E o absurdo é o concreto (o não-classificá-
vel), o não-generalizável, o não-formalizável. ~ando é
tomada a decisão, a .loucura desaparece. A decisão se dá
no concreto. Vales são os caminhos da decisão, lugares Não podemos mais vivenciar o seu voo como o vi-
concretos. Lugares, nos quais se torna necessário, em venciavam os nossos antepassados: como um desejo im-
dado momento, jogar fora todos os mapas, sob pena de se possível. Pássaros deixaram de ser aqueles entes que habi-
pairar no "sobrenatural", no "teórico", na "perspectiva". tam o espaço entre nós e o céu, para se transformarem em
Justamente por serem os vales lugares quase sobrenatu- entes que ocupam o espaço entre os nossos automóveis e
rais, quase teóricos, quase perspectivistas, são eles situa- nossos aviões de passeio. Do elo entre animal e anjo pas-
ções de limite. A decisão neles é, de acordo com Jaspers, saram a objetos de estudo do comportamento em grupos.
um decifrar, e não um resolver-se. Em suma, vales são lu-
Se quisermos enquadrar a nossa vivência de pássaros na
gares onde a disponibilidade pode, se assim for decidido, dos nossos antepassados, deveremos dizer que para nós
passar a ser engajamento. todos os pássaros são o que para eles eram as galinhas: en-
tes que voam, mas precariamente. Pois tal modificação da
nossa atitude com relação aos pássaros e ao voo (provo-
cada pela aviação e astronáutica) tem efeito significativo
sobre a nossa visão do mundo. Perdemos uma das dimen-
sões do tradicional ideal da "liberdade" e perdemos o as-
pecto concreto da tradicional visão do "sublime".
30 Natural:mente VrLÉM fLUSSER 31

A tentativa de intuir a visão que os nossos antepas- como aparelhos voadores, embora tais aparelhos não te-
sados tiveram do vo é dificultada por dois fatores: pela nham tido pássaros, mas equações da aerodinâmica por
nossa própria visão do voa e pelo mito do voa. As duas modelos. Neste sentido, aviões são instrumentos menos
dificuldades rompem a nossa ligação com a nossa tradição "naturais" que alavancas e espelhos: não têm por modelo
de duas formas opostas: a primeira exclui-nos da tradição, coisas da natureza. E se captamos o voa de pássaros com
a segunda nos faz participar dela de uma maneira inteira- modelos da aviação (e o fazemos espontaneamente) é que
mente nova. Em outros termos: por termos visão diferen- estamos desnaturalizando espontaneamente tal voa.
te do voa dos pássaros, não podemos compreender bem Os nossos antepassados devem ter tido outros mo-
como o viram os nossos maiores. E por participarmos do delos para captar os três tipos de voa. O falcão deve ter
mesmo mito do voa não podemos compreender como os voado como a nuvem, o beija-flor como o beijo, a andori-
nossos maiores adequavam a sua visão do voa ao mito. nha como a flecha. (E outros modelos são sugeridos pela
Procurarei ilustrar as duas dificuldades. literatura, fonte da nossa compreensão da visão dos nos-
Observemos três tipos de voa de pássaro: o do fal- sos maiores.) Mas para nós tal visão tradicional do voa
cão, o do beija-Ror e o da andorinha. Espontaneamente, é necessariamente poetizante e kitschizada, isto é, senti-
se oferecem três modelos para captá-Ias: o falcão paira mentalmente falsa. ~em diz atualmente que beija-flores
como um planador, o beija-flor como um helicóptero beijam flores (e não que se mantêm em voa vertical acima
e a andorinha voa como um caça. Se formos refletir so- das flores), está sendo insincero, porque o modelo do heli-
bre os três modelos, constataremos que sua relação com cóptero se impõe espontaneamente. ~erer ver o voa dos
os fenômenos que captam é complexa: os três aparelhos pássaros como o viram os nossos maiores é querer kitschi-
de voa modelares são parcialmente cópias dos próprios zar tal voa, e isto é ilustração da primeiradificuldade.
pássaros, e parcialmente resultado de um desenvolvimen- O mito do voa, tal como se manifesta em inúmeras
to que se tornou viável depois do abandono do pássaro mitologias e em inúmeros sonhos, e tal como inspirou
como modelo de voa. De modo que tomar aparelhos vo- inúmeros sonhadores desde o alfaiate de Ulm e Leonardo
adores como modelos de pássaros não é a clássicainversão até J ules Verne e a N.A.S.A., continua ativo em nós tan-
"modelado-modelo", que tanto caracteriza a nossa visão to quanto agia em nossos maiores. Aliás, a tese de acordo
das coisas. Compreendemos os braços como alavancas, com a qual mitos são "projetos" constantes, provocado-
porque braços eram os modelos de alavancas, e vemos res da história, mas não superáveis por esta, parece bem
espelhos como superfícies de lagos, porque superfícies de fundada tanto na psicologia, quanto na sociologia. Mas
lagos eram modelos para espelhos. Mas vemos os pássaros o mesmo mito tem para os que têm experiência com voa
32 Natural:mcnte ViLÍ~M FLVSSER 33

impacto inteíramente diferente daquele que têm para os Não podemos, pois, mais vivenciar o voo dos pás-
nossos antepassados, para os quais voar era sonho impos- saros como o vivenciavam os nossos antepassados. Mas
sível. Se voamos de jato de São Paulo para Paris somos tal incapacidade nossa nos permite, paradoxalmente, ver
tomados de sensação ambivalente: de uma parte, sabemos melhor que eles o que o voo dos pássaros significava para
que voamos muito "melhor" que falcões (mais alto, mais eIes. EI
'es ta Ivez acre d'ltassem que "voar como passaro
'" e,
longe e mais rapidamente), e que, portanto, a nossa rea- ver o mundo de cima e transpor obstáculos invencÍveis.
lídade está superando o nosso míto. De outra parte, sen- Portanto, distância e líberdade. Mas tal tipo de "sublíma-
timos que voar em jato não é o "recado" do mito, e que ção" e liberdade não nos atrai: conhecemos a sua reali-
não pode ter sido isto que inspirava Ícaro. e Leonardo. Ao dade. Há, no entanto, outra carga do sonho "voar como
ter deixado de ser sonho impossível, o mito passou a ser pássaro" que os nossos antepassados sentíam sem tê-Ia
sonho insonhável, mas persiste. Se uma das teses básícas salientado claramente. A de ultrapassar a bidimensionali-
do marxismo é que os sonhos são mortos ao realizarem- dade. O fato de sermos prisioneiros da bidimensionalida-
se, o lado dialétíco de tal tese é esquecido: sonhos mortos de não é comumente reconhecido. Temos a ilusão de que
persistem. Podemos, é claro, voar, e podemos fazê-Io "me- os nossos movimentos ocorrem nas três dimensões do es-
lhor" que sonhava Leonardo, mas simultaneamente pre- paço. Na realidade, no entanto, a nossa condição terrena
ferimos o sonho de Leonardo à nossa realidade. E nada
nos condena ao plano (à superfície da Terra). Apenas as
adianta se chamarmos o Aeroporto de Fíumícino (essa nossas mãos nos oferecem abertura para a terceira dimen-
vulgaridade característica da nossa realidade de voas), são, para a "concepção", "apreensão" e "manipulação" de
"Aeroporto Leonardo da Vincí". corpos. Voar como pássaro é poder utilizar o corpo todo
Para os nossos antepassados, a observação do voo como se fosse mão, poder movimentar-se inteiramente
do falcão, do beija-flor e da andorínha foi visão de sonho dentro do espaço. Este é o aspecto do mito do voo que se
impossível. "Se fosse passarínho e tivesse duas asas, voaria torna visível depois de realizados os seus aspectos "eleva-
até junto de tí", diz uma canção popular, canção que é ção" e "superação de barreiras".
impossível cantar atualmente com honestidade. Os nos- Se observarmos o voo dos pássaros, estamos na pre-
sos antepassados projetavam o mito do voa nos pássaros,
sença de corpos que se movimentam livremente nas três
e o fazíam espontaneamente, porque os pássaros estavam
dimensões do espaço, e que assumem atitudes tridimen-
na origem do mito. Mas nós não podemos mais fazê-Io,
sionais em todos os seus gestos. Não apenas "subir" e "des-
porque a nossa realídade do voo ultrapassou o voa dos
cer" é equivalente ao "para trás", "para frente", "para a
pássaros sem ter ultrapassado o mito, e isto é ilustração da
direita" e "para a esquerda", mas "inclinar a asa" é equiva-
segunda dificuldade.
34 Naturalancnte VlLl~M .rI,USSER 35

lente a "virar a esquina". Estamos na presença de seres que O homem distingue-se dos demais animais terres-
devem tomar, em toda situação dada, decisões entre um tres por sua posição ereta: por ser seu· corpo todo uma
número muito maior de alternativas que seres terrenos: investida rumo ao espaço aberto. Tal posição permite
as diagonais que se oferecem como caminhos de fuga ou ao homem "conquistar o espaço" a partir do plano. (O
de ataque a pássaros não formam círculos, mas esferas. O pássaro não precisa conquistar o espaço, está nele.) Mas a
pássaro em voo não é, como o é o animal terrestre, centro posição ereta humana não resulta na libertação do corpo
de estrutura vital de círculos interferentes, mas de esferas humano todo em direção ao espaço. Abriu apenas o parâ-
interferentes. As formações de aves em migração obede- rnetro dos movimentos tridimensionais para várias partes
cem às regras da geometria tridimensional, e o "misterio- do corpo, e possibilitou às mãos a manipulação tridimen-
so" sentido de orientação das aves é misterioso para nós, sional de corpos.
porque se orienta dentro das três dimensões do espaço. Mãos são órgãos especificamente humanos, torna-
"Voar como pássaro" seria poder movimentar-se, decidir- dos possíveis graças à postura ereta, que se movimentam
se, organizar-se e orientar-se na tridimensionalidade. no espaço com aproximada liberdade. Mãos vivem em cli-
Os animais terrestres, e mais particularmente o ho- ma estruturalmente semelhante ao clima no qual vivem
mem, não são inteiramente privados da abertura em dire- pássaros em voo. O pássaro em voo é mão voadora, mão
ção ao espaço aberto. Mas a "terceira" dimensão não passa liberta de corpo, corpo virado mão inteiramente. O mo-
de uma série de epiciclos superpostos sobre o plano. Os vimento da mão é apreensão, compreensão, concepção
movimentos das pernas, dos pescoços e dos rabos são in- e modificação dos corpos "em profundidade", isto é, no
vestidas para dentro da terceira dimensão a partir do pla- espaço. O mito do voo é isto: liberdade para apreender,
no. E os sentidos, e mais especialmente a vista, são órgãos compreender, conceber e modificar em profundidade.
que recolhem informações vindas das três dimensões so- Para os nossos antepassados, o pássaro era elo entre
bre um ponto no plano. Para os animais terrestres, inclu- animal e anjo. Não é anjo ainda, porque é sujeito ainda
sive o homem, o espaço é um oceano que banha a ilha pla- à atração da Terra. Levanta da Terra, concentra seu in-
na que habitam. Daí a semelhança entre pássaro e peixe: teresse sobre aTerra, volta para aTerra e faz sobre ela
ambos são habitantes do oceano-espaço. Pássaros nadam o seu ninho. É mão ligada ao corpo da Terra por braço
no ar, como peixes voam na água. A diferença é que o voo invisível. Anjo é pássaro extraterreno. Concentra o seu
do pássaro salienta a liberdade do movimento espacial, e interesse sobre o espaço e mora no espaço. É mão liber-
o nado do peixe salienta o seu condicionamento. O mito ta de corpo. O mito do espírito-pomba. Anjo é ente que
do peixe tem clima diferente do clima do mito do voo. apreende, compreende, concebe e modifica "livremente":
VILÉ,M FLUSSER 37
Natllral:mente
36

o espírito puro. Mão liberta do corpo é espírito puro. O lização em dimensões apenas vagamente sonhadas pelos
voa do pássaro é seu modelo. nossos antepassados. Voa de pássaro enquanto distância,
Os voas a jato de São Paulo para Paris superam o superação de barreiras, e também enquanto espiritualiza-
sonho de Leonardo, mas não atingem a dimensão "liber- ção pela tridimensionalidade. Mas ao vivenciarmos o voo
tadora" do mito do voa. São feitos da bidimensionalida- como desejo realizável, estamos desmistificando o desejo
sem nos libertarmos do mito. Não podemos ter mais de-
de: ligam duas cidades em mapa plano. Os voas a jato de
Tóquio para Paris ligam as duas cidades pela rota polar e sejos impossíveis. O que nos resta é o desejo impossível
impõem nova projeção plana do Globo. São mais "espiri- de termos desejos impossíveis. Será visão apocalíptica ou
tuais", porque demonstram o caráter projetivo do plano, visão integrada a nossa visão dos pássaros em voa?
mas continuam feitos do plano. Mas as experiências do
Sky-Lab apontam além do pássaro em direção do anjo. Os
astronautas que vivem em gravitação zero e passeiam peIo
espaço procuram transformar em mãos seus corpos. Uma
descrição fenomenológica das suas experiências faz falta
e seria reveladora. Cassiano Ricardo tem, neste sentido,
poesia chamada "Gagarin". Mas persiste o dito marxista:
os sonhos são mortos quando realizados. Virar pássaro,
virar mão, virar anjo é matar a passaridade, a manidade, a
angelicidade. Porque o sonho da liberdade e do sublime,
quando realizado, revela o condicionamento como con-
tradição da liberdade, e o cotidiano como contradição do
sublime. Isto se refere tanto a astronautas ("anjos tecno-
lógicos"), quanto à sociedade comunista ("sociedade de
anjos"). Mitos são realizáveis e matáveis, mas persistirão
enquanto pesos mortos depois de realizados.
Não podemos mais vivenciar o voa dos pássaros
como o vivenciavam os nossos antepassados: como desejo
impossível. Vivenciamos o seu voa como desejo realizável,
parcialmente já realizado, e parcialmente em vias de rea-
Chuva

A observação da chuva pela janela é acompanhada


de sensação de aconchego. Lá fora, os elementos da na-
tureza estão em jogo e sua circularidade sem propósito
gira como sempre. ~em está preso em seu círculo fica
exposto a forças incontroladas. Parte impotente do seu
girar violento. Cá dentro, estão em jogo processos dife-
rentes. ~em está do lado de dentro dirige os eventos. Eis
a razão da sensação do abrigo: é a sensação de quem está
na história e cultura, e contempla a turbulência sem signi-
ficado da natureza. As gotas que batem contra a vidraça,
projetadas pela fúria do vento, mas incapazes de penetrar
a sala, representam a vitória da cultura contra a natureza.
~ando observo a chuva pela janela, não apenas me en-
contro fora dela, mas em situação oposta a ela. Tal situ-
ação caracteriza cultura: possibilidade de contemplação
distanciada da natureza.
40 Natural:mente VILÉM FLVSSER 41

No entanto (e infelizmente), não é isto que temos to. A Revolução Francesa passará a ser fenômeno histó-
em mente ao falarmos em conquistas da cultura: estarmos rico de acordo com uma explicação, e fenômeno natural
sentados em lugar seco e quente, contemplando a chuva (como o é a migração das aves), de acordo com outra. Os
fria, fumando cachimbo e ouvindo Mozart. Infelizmente, que nela se engajaram e por ela morreram o fizeram por
temos em mente coisas como "controle de chuva". Pre- ingenuidade: não recolheram todas as explicações dispo-
tendemos mudar a estrutura dos eventos da natureza. níveis. Não posso aceitar isso.
Romper sua circularidade, fazê-Ios correr linearmente Voltarei a olhar a chuva pela janela para ver se ela
em busca de um propósito por nós escolhido. Chuva não me diz algo a respeito. Eis o que está dizendo: aqui fora
mais como fase da circulação eterna da água, mas como está chovendo, lá dentro estás abrigado. Isto é a distin-
fase de uma deliberada irrigação do meu campo. Se a chu- ção categórica entre natureza e cultura. Natureza é como
va tivesse sido vencida, não mais cairia como cai agora chuva: provoca a sensação de impotência; cultura é como
("chuva de setembro, de todo setembro desde sempre"), a sala: provoca sensação do abrigo. Conquistar a natureza
mas cairia como "esta chuva programada para as quatro não é mudar sua estrutura, mas seu clima. Mas isto pro-
horas da tarde de hoje". Seria chuva histórica, porque blematiza todo o progresso humano. Teremos conquis-
sujeita a programas, portanto, parte da cultura, não da tado a natureza "essencialmente" no curso, por exemplo,
natureza. Vista da janela, tal chuva não se distinguiria da- dos últimos 200 anos? No sentido de termos aumentado
quela que está caindo agora, e, no entanto, estaria caindo o terreno da sensação do "estarmos abrigados"? Estará o
do lado de cá, não de lá, da janela da cultura. homem do século 20 se sentindo mais abrigado que o do
Isto dá calafrios. Parece ser a mesma chuva, e não o é século 18? Será mais" culto" neste sentido? Sem dúvida, a
por ser "cultura"? Não o é, não por ser diferente, mas por observação da chuva exige que redefinamos nosso engaja-
ter estrutura diferente? A linear da história, não a circular mento em cultura.
da natureza? E não adiantará olhá-Ia para saber-se isto? Romper a circularidade dos eventos naturais, fazê-
~e coisa terrível! Não posso distinguir entre cultura e los correrem linearmente em busca de propósito, progra-
natureza olhando para as coisas, mas apenas aprendendo má-Ios: este é o engajamento recomendado pelos tecno-
a respeito delas. Se olho pela janela e vejo chuva, cadeiras cratas e pelo estabelecimento. Chuva, não mais circular e
e árvores, não posso saber quais dessas coisas são cultura, boa para nada, mas chuva linear e boa para irrigar campos.
quais natureza. Dependo de outros para dizer-me. Eis o que dizem os tecnocratas: cultura é transformar algo
Não posso aceitar isto. Se isto for verdade, não terei que é bom para nada em algo que é bom para propósito
mais critério próprio para não importa que engajamen- deliberado. Cultura é injeção de "valores" no conjunto
42 Natural~!nente VILÉM FLVSSER 43

isento de valor chamado "natureza". Coisas são naturais cima de mim sem me ter consultado. É esta a razão por-
(dizem os tecnocratas) quando não permitem que sejam. que me sinto bem ao observá-Ia: oponho-me a ela. Chu-
julgadas "más" ou "boas". E coisas são culturais quando va transformada em irrigação programada não é nem má
são "boas". Por isso, as ciências da natureza são "isentas de nem boa (e não importa que os tecnocratas o contestem).
valores" (wertftei): tratam de coisas isentas de valores. E Não é nem má nem boa, porque o seu valor dependerá
os tecnocratas continuam: o verdadeiro engajamento em daquilo que irriga. E será boa apenas se aquilo que irriga
cultura é engajamento em produção de "bens", isro é, de for coisa que me abriga. Mas se aquilo que a chuva irriga
coisas "boas". Os tecnocratas estão enganados e estão nos for coisa que me condiciona, a programação da chuva terá
enganando. produzido um mal pior que os males da natureza. T ecno-
Na realidade, quem está "isento de valor" (wcrtjrei) é eratas não apenas não bastam, mas podem vir a ser peri-
a tecnologia. As coisas são produzidas pela técnica, estas gosos. O "progresso", se não for controlado por crítica de
sim, não são nem más nem boas. As coisas da natureza, es- valores, pode ser mais perigoso que o imobilismo.
tas são todas más, porque me condicionam e me tornam A chuva que observo pela janela me dá sensação boa,
impotente. Se não fossem más as coisas da natureza, não se porque me sinto libertado dela. Estou sentado em sala
explicaria o engajamento em cultura. É sempre engajamen- quente e seca, posso contemplar a chuva. Posso observá-
to contra a natureza. As coisas da técnica são eticamente Ia, não apenas para depois manipulá-Ia, mas também para
julgá-Ia. Estou em situação que permite juízos de valores.
neutras, e passam a ser boas se me abrigam, e más, se me
condicionam. Produzi-las é necessário, mas não basta. É Em situação de "disponibilidade" com relação à chuva.
Em situação de liberdade. Posso convidar outros para en-
necessário, porque resulta em coisas potencialmente boas.
trarem em minha sala, a nm de discutirmos o problema
Mas não basta, porque pode resultar em coisas más se per-
da chuva. Lá fora está chovendo, e nós cá dentro, ao abri-
dermos a consciência da cultura. Se "progresso" for, como
go, discutindo como manipular a chuva para que seja boa.
o afirmam os tecnocratas, um processo ao longo do qual
eventos naturais são transformados em eventos lineares, Isto é que é cultura. Não chuva manipulada e programa-
da, mas chuva sujeita à discussão livre. No fundo, o que
então "progresso" (e "ordem") não basta. O que urge, para
é bom é apenas a liberdade. As coisas são boas apenas na
que "progresso" tenha sentido, é manter e rennar a capa-
medida em que contribuem para me libertar. E isto é exa-
cidade crítica dos valores (a capacidade ética, política, em
tamente também a medida da cultura. Tecnologia ainda
suma: liberdade). T ecnocratas não bastam.
não é cultura. E tecnocracia (governo da tecnologia não
A chuva que observo pela janela é má (e não importa
controlado) é anticultura. Em suma: cultura é tecnologia
que alguns românticos o contestem). É má, porque cai em mais liberdade.
44 Natural~mente

A chuva que observo pela janela é que me ensina


isto. Ensina que sou eu e os próximos quem confere va-
o cedro no parque
lor e dá significado. Cultura não é questão de chuva (seja
controlada e programada ou não), mas é questão da sen-
sação que provoca nos que a observam pela janela. Em
outros termos: se observo a chuva pela janela, vejo que a
única justificativa de engajamento em cultura é aumen-
tar o terreno da liberdade (aumentar a sala a partir da
qual observo a chuva). A chuva ensina que a dignidade
humana não se resume na luta contra a natureza. Há,
entre natureza e cultura (entre chuva e sala), uma região
eticamente neutra, mas potencialmente perigosa, a região
da programação isenta de valores. A região do estabele- Fato curioso: árvores são quase invisíveis.Toda ten-
cimento não-político (dos técnicos de irrigação de cam- tativa de contemplá-Ias o prova, Há, entre contemplador
pos). A dignidade humana exige também que tal região e árvore, névoa densa de múltiplas camadas. A luz do farol
seja apropriada. Mas na situação atual é obviamente mais da intenção contempIativa é refletida por tal névoa, e a
fácil lutar contra a natureza que apropriar o estabeleci- contemplação se transforma em reflexão sorrateiramente
mento. Em consequência, há sempre menos chuva natu- e sem que o contemplador possa interferir nisto. Há algo
ral, sempre mais chuva programada, e sempre menos salas em torno de árvores que, por ser nebuloso, é misterioso.
a partir das quais não importa que tipo de chuva possa Se olho peIa minha janela e procuro contemplar o cedro
ser contemplado. Se isto continuar assim, o resultado será
que se ergue, majestoso, no centro do meu parque angevi-
este: estaremos todos expostos sem interrupção a chuvas no, devo admitir este fato como ponto de partida que me
torrenciais programadas, mas proclamaremos aos quatro é imposto pela situação na qual me encontro.
ventos (que uivarão em torno de nós em coro programa- Por certo, árvores são parcialmente invisíveis por
do) que estamos sendo irrigados. razões por assim dizer físicas e biológicas, já que a sua
maior parte está escondida no solo. Tal fato corriqueiro
e aparentemente óbvio tende, no entanto, a ser esqueci-
do por muitos daqueles pensadores que tomam árvores
por modelos de estruturas. (E árvores de fato são modelos
46 Natural:mente VILÉM FLUSSER 47

preferidos.) Darei um único exemplo. Toda uma cosmo- vejo árvore, vejo pulmão verde, e vejo tal pulmão tanto
visão e filosofia do século 19 (a "biologizante") concebe morfológica quanto funcionalmente. Um pouco mais
o mundo como processo que tende a se ramificar em próximo da mesma árvore, mas ainda facilmente remo-
obediência a um "principio" que Schopenhauer chamou vível, está o fantasma do "abrigo". Não vejo árvore, vejo
de "principium individuationis". O sistema darwiniano guarda-chuva, tanto em sentido físico quanto metafórico
ilustra bem tal estrutura dinâmica, para a qual a "árvore do termo. Outros espectros se agarram à árvore bem mais
genealógica" serviu de modelo. Tal cosmovisão e filosofia firmemente. Por exemplo, os espectros da "fertilidade", o
é um historicismo que se oferece como alternativa à visão d o .,paus
h 11 " , o d'"a arvore d"d
a VI a "(111'
. ~an d o taIS
. espectros
dialética da história e surgiu, efetivamente, em oposição a são penosamente removidos, e a essência da mesma árvo-
Hegel. Mas é claro e mais que óbvio que o modelo de tais re parece querer revelar-se, verifica-se que ainda não é a
sistemas não é a árvore toda, mas apenas aquela parte da arvoridade que se mostra, mas alguns preconceitos ainda
árvore que é visível acima do solo. ~cm toma a árvore mais profundos, e que talvez nem sequer tenham nome.
toda por modelo de sistema, deve haver-se com estrutura Of' ato e que a re 1-"1 ,,,,
açao )omem -- arvore ·dd a e
e carrega
que se ramifica em duas direções opostas. De maneira que tanta carga imemorial (e talvez consequência da "origem"
a árvore toda é modelo de sistema dialético no mais exa- arbícola humana), que a tentativa de captar a essência da
to significado do termo. Os pensadores darwinianos do árvore geralmente fracassa. Os preconceitos são tantos
século 19 se esqueceram da parte subterrânea da árvore que se recusam a ser postos entre parênteses e eliminados
(o que, obviamente, em nada afeta a "verdade" dos seus provisoriamente.
enunciados). Não procurarei, portanto, captar a essência do cedro
Mas não é tal "invisibilidade parcial" que se interpõe no meu parque, mas apenas um único aspecto seu. Este: o
entre a árvore e o seu contemplador da maneira nebulosa clima estranho e estrangeiro que irradia. Já que não capta-
mencionada. São fantasmas, ectoplasmas, espectros e cor- rei a cedridade do cedro, talvez captarei algo da estranheza
pos etéreos que pairam em torno de árvores e as tornam e estrangeiridade? Afinal, sou tão estranho e estrangeiro
inacessíveis. Tais divindades arbóreas habitam todas as no meu parque angevino quanto o é o cedro. Não poderá
mitologias, inclusive a judaica e a grega, fontes inescapá- tal comunhão do "estar-no-mundo" meu e do cedro for-
veis da nossa visão do mundo. Mencionarei alguns desses mar base para uma visão intuitiva? Ou estarei, desde já,
fantasmas. O mais próximo do contemplador e, portan- antropomorfizando o cedro? Estarei, desde já, caindo na
to, o mais fácil a ser removido é o espectro do "pulmão" armadilha de um dos espectros, o "antropomórfico", que
que encobre a árvore enquanto fenômeno concreto. Não encobrem o cedro? Na armadilha na qual caiu, e na qual
48 Natl1ra1:mente VILÉM FLUSSER 49

morreu, o menino do "Erlenkoenig" de Goethe? Parece Não significarão, pelo contrário, um aspecto da sua "ce-
ser mais prudente procurar captar a estrangeiridade do dridade"? Em outros termos, não terá a presença do cedro
cedro em forma de perguntas, não de afirmativas. ~em no seu Líbano nativo o mesmo clima que tem no parque
sabe, certas respostas poderão ser provocadas no próprio angevino? Se formulo a pergunta assim, o cedro se cala.
cedro? Perguntas provocantes que fazem falar o cedro. Necessariamente, porque o cedro está aqui e não no Líba-
Primeira pergunta: Como sei que o cedro é estran- no, e não pode falar em nome de "outro cedro". Formula-
geiro? Resposta: sei que aquela árvore lá é cedro, e que da assim, a pergunta é tipicamente insignificativa. Pequei,
cedros são plantas nativas do Líbano, não da França. Tal ao ter formulado a pergunta assim, contra o primeiro
resposta não serve. Não foi dada pelo cedro, mas por meus mandamento da honestidade: "Não tirarás fenômenos
livros escolares. Atenção, no entanto. A resposta não é in- do seu contexto!" A pergunta deve ser reformulada, para
teiramente impertinente. "Cedros do Líbano": não signi- ser significativa.
fica isto o Rei Salomão e a construção do Templo? E não Reformularei a segunda pergunta: As respostas que
há algo de tal significado em torno do cedro no parque? o cedro deu à primeira pergunta significam que ele se dis-
Ou não passará isto de um de tais espectros? tingue do seu contexto por ser cedro ou por ser estran-
Reformularei a primeira pergunta: Como o cedro geiro? A resposta que o cedro dá a tal pergunta pode ser
me diz ser ele estrangeiro? De várias maneiras. O ser ver- resumida assim: Sou estrangeiro por ser cedro. Sou fiel a
de é diferente do verde em torno. A sua "Gestalt" pira- mim mesmo, na minha cor, na minha "Gestalt", nos meus
midal e hierarquicamente escalada destoa das "Gestalten" pinhões, não me assimilo ao parque. Pois exatamente por
cônicas das árvores em torno. A forma torturada dos seus isto mesmo domino o parque. Centralizo o parque, dou-
ramos, o elemento caótico nele que não obstante é inse- lhe forma e sentido. O parque é o parque que é graças a
rido em totalidade harmônica, os distingue radicalmente mim: parque em torno de cedro. Não fosse eu cedro, por-
das copas suaves em torno. Os seus pinhões monumen- tanto, estrangeiro no parque, o parque não teria sentido.
tais não têm paralelo nos frutos do parque. O seu tronco Eu sou o ruído do parque que transforma a sua redundân-
elefantino soa como trombeta em orquestra de cordas. cia em informação significativa. Destoo, e tal dissonância
Mas, principalmente, a sua presença domina o parque, é o núcleo da música do parque. É isto o significado das
não apenas pela sua grandeza, mas também por algo que minhas respostas: Sou estrangeiro por ser cedro, e é ape-
deve ser chamado "majestade". Estas são respostas dadas nas com relação à minha estrangeiridade que o resto do
pelo próprio cedro e devem ser aceitas. parque se torna nativo. "Ser estrangeiro" é, pois, no hlll-
Segunda pergunta: Aceitando embora tais respostas, do, isto: revelar ao contexto que ele próprio não é estran-
como sei que significam a "estrangeiridade" do cedro? geiro. Sou estrangeiro não em mim, mas para o parque.
50 Natural:mente VU ..ÉM FLUSSER 51

Respostas muito problemáticas estas. Vêm formula- Reformularei a terceira pergunta: Como sei que a
das em discursos dos quais conheço bem a origem. São nogueira (e, como ela, o parque todo), é nativa do Anju,
os discursos da filosofia existencial, da teoria da informa- e desta forma torna dialeticamente o cedro estrangeiro?
ção, da musicologia. Pode o cedro recorrer a tais tipos de U ma torrente de respostas jorra da nogueira. O seu verde
discurso? Perfeitamente. Com efeito, não pode, a não ser de verão com leve suspeita de ferrugem outonal articula
recorrer a tais tipos de discurso. Porque o cedro se dá a primeira metade de setembro, "na qual estamos". A sua
para mim, e se lhe permito falar, é para que fale dentro copa cônica é elemento, mas também resumo, da "Ges-
dos meus discursos. Com efeito, as respostas à minha pri- talt" da paisagem toda. A riqueza das nozes que carrega
meira pergunta também foram articuladas por discurso é testemunho da fertilidade onipresente do Anju e da
meu, embora tenham sido aparentemente mais concre- França. O clima pacífico, a um tempo temperado e rico
tas. Apenas o discurso de tais respostas foi o da linguagem de seivavital que irradia, é o clima do ambiente todo, tal
corriqueira. De modo que sou obrigado a aceitar também como penetra os poros, os pulmões, as sensações, e até
as respostas à minha segunda pergunta. os pensamentos de todos aqui presentes. O Anju todo,
Provocam terceira pergunta: Se o cedro é presen- a França toda estão na aura da nogueira, e basta contem-
ça estranha e estrangeira no parque, porque dele destoa plar a nogueira com suficiente paciência para descobrir a
por sua fidelidade à cedridade, como sei que é o cedro essência da França. As respostas múltiplas que a nogueira
está dando à minha pergunta podem ser assim resumidas:
que é estrangeiro, e não o parque? Em outros termos: se
Sou nativa por ser nogueira, e sou nogueira por ser nati-
ser estrangeiro é um ser relativo a outro ser, não haverá
va, e não há nisto nenhum problema. Não preciso afirmar
reversibilidade? O cedro é estrangeiro para o parque e o
minha nogueiridade, nem ser fiel a ela. Isto tudo está se
parque estrangeiro para o cedro? Uma resposta se impõe
dando por mim, em torno de mim, e por causa de mim,
imediata e espontaneamente: sei que o cedro é estrangei-
com toda espontaneidade e naturalidade. E isto é, possi-
ro e o parque não é, porque o cedro é uma única árvore, e
velmente, um aspecto da "natureza": ser assim, esponta-
o parque são muitas. Tal resposta quantificante deve ser
neamente e sem problema. A nogueira (e o parque todo)
recusada, embora, como o são todas as quantificações, seja
é natureza angevina. E, em contraste com isto, o cedro
razoável. Deve ser recusada, porque não fere a essência da
não é natureza, mas cultura angevina É cultura, porque se
estrangeiridade. Foi dada, com efeito, não pelo cedro, mas
afirma, é fiel a sipróprio, e dá sentido ao parque todo. Em
pelo meu raciocínio indutivo e enumerativo. Devo refor-
suma, é estranho e estrangeiro.
mular minha pergunta, e dirigi-Ia, não ao cedro, mas ao Pois isto é resposta surpreendente. (Devo confessar
parque. Por exemplo, à nogueira vizinha do cedro. que me surpreendeu ao ter se formulado no curso des-
52 NaruraI:mcnte

te ensaio. Não esperava por ela.) A resposta da nogueira Vacas


provoca redefinição dos conceitos "natureza" e "cultura"
em termos diferentes dos costumeiros: Natureza como
minha circunstância espontânea e isenta de problemas, é
cultura como presença estranha e estrangeira na minha
circunstância, que se auto afirma e, portanto, dá sentido
à natureza. Isto precisa ser ruminado em outra oportuni-
dade. O que importa, no presente contexto, é isto: Meu
conhecimento prévio (botânico ou outro) a respeito de
cedro e nogueira não toca o problema da estrangeiridade.
Por exemplo: a nogueira pode perfeitamente ser origi-
nária de florestas distantes e ter sido importada para cá,
por exemplo, pelos celtas. Não obstante, é essencialmen-
São máquinas eficientes para a transformação de
te nativa. O cedro pode ter-se perfeitamente adaptado à erva em leite. E têm, se comparadas com outros tipos
circunstância angevina, e pode, inclusive, vingar melhor de máquina, vantagens indiscutíveis. Por exemplo: são
aqui que no Líbano nativo, e vingar melhor que a própria autorreprodutivas, e quando se tornam obsoletas, a sua
nogueira. Não obstante, é essencialmente estrangeiro. "hardware" pode ser utilizada na forma de carne, couro
Preconceitos não ferem essências,as quais se revelam ape- e outros produtos consumíveis. Não poluem o ambiente,
nas em contemplações como é esta do meu parque. Acaba e até seus refugos podem ser utilizados economicamente
de se revelar um aspecto da essência da estrangeiridade. como adubo, como material de construção e como com-
Da seguinte forma: Estrangeiro (e estranho) é quem bustível. O seu manejo não é custoso e não requer mão
afirma seu próprio ser no mundo que o cerca. Assim, dá de obra altamente especializada. São sistemas estrutu-
sentido ao mundo, e de certa maneira o domina. Mas o
ralmente muito complexos, mas, funcionalmente, extre-
domina tragicamente: não se integra. O cedro é estran- mamente simples. Já que se autorreproduzem, e já que,
geiro no meu parque. Eu sou estrangeiro na França. O portanto, a sua construção se dá automaticamente sem
homem é estrangeiro no mundo.
necessidade de intervenção de engenheiros e desenhistas,
esta complexidade estrutural é vantagem. São versáteis,
já que podem ser utilizadas também como geradores de
energia e como motores para veículos lentos. Embora te-
54 Natural:mentc VILÉM FLUSSER 55

nham certas desvantagens funcionais (por exemplo: sua da vaca é isto: a surpreendente gama de variações que o
reprodução exige máquinas em si antieconômicas, "tou- seu protótipo permite. O protótipo é fundamentalmen-
ros", e certos distúrbios funcionais exigem intervenção de te simples (tem sido elaborado, por exemplo, por Picasso
especialistas universitários, de veterinários, caros), podem nas Tauromaquias), mas tal simplicidade mesma permite
ser consideradas protótipos de máquinas do futuro, que um número grande de estereótipos diferenciados. Trata-
serão projetadas por uma tecnologia avançada e informa- se, no protótipo da vaca, de autêntica obra aberta. Há,
das pela ecologia. Com efeito, podemos afirmar desde já entre os estereótipos, os que se adaptam a mentalidades
que vacas são o triunfo de uma tecnologia que aponta o nacionais e até regionais (vaca suíça, holandesa, inglesa),
futuro. os que se adaptam paisagisticamente (vacasdos Alpes, dos
Se considerarmos o seu "design", a nossa admiração prados, das estepes), e até estereótipos baratos destinados
pelo inventor da vaca ainda aumenta. Embora se trate aos povos subdesenvolvidos (zebu, vaca centro-africana).
de máquina altamente automatizada e controlada por Isto, no entanto, não esgota a "mensagem estética"
computador instalado dentro da própria máquina (cé- da vaca. Os estereótipos são fornecidos ao consumidor
rebro), e embora o seu funcionamento esteja garantido acompanhados de um "modo de usar" que equivale a um
por sistema cibernético de equilíbrios elétricos e quími- convite de participação em jogo. O comprador de vacas
cos altamente refinados, a forma externa da máquina é de pode, se assim desejar, projetar seu próprio modelo, "cru-
simplicidade e economia de elementos surpreendente e zando raças". De maneira que a compra de vaca não con-
altamente satisfatória esteticamente. A impressão que a dena o comprador a um consumo passivo, mas abre espa-
vaca deixa é a de uma obra bem integrada em si e dentro ço a uma participação ativa no "jogo das vacas".De modo
do seu ambiente. O seu "designer" não se deixou influen- que finalmente a teoria dos jogos ficou absorvida signifi-
ciar por tais ou quais tendências estéticas da atualidade cativamente pela tecnologia. Podemos vislumbrar um es-
(embora possamos descobrir no desenho da vaca certos tágio futuro, no qual o progresso tecnológico não será pri-
elementos barrocos indisfarçáveis, e embora seu desenhis- vilégio de alguns especialistas apropriados pelo aparelho
ta traia a influência de certas tendências biologizantes do administrativo, mas jogo do qual as "massas"participarão
século passado), mas o "designer" seguiu intuição esté- ativamente, variando protótipos livremente. O inventor
tica caracteristicamente sua. Por exemplo: a mobilidade da vaca provocou autêntica revolução tecnológica, tanto
elegante do rabo contrasta com a maciça imobilidade do em sentido funcional quanto estético, que abre horizon-
resto da obra e cria tensão apenas sugerida por Calder e tes para um novo "estar-no-mundo" do homem do futu-
seus seguidores. Mas o que impressiona mais no "design" ro. Conseguiu isto ao ter sintetizado os conhecimentos
56 Natural:mcnte VIL.ÉM FLUSSER 57

mais avançados da ciência e os métodos mais refinados da Em seguida, o modelo humano por trás do produto é es-
tecnologia com sensibilidade estética aguda e com visão quecido, e o produto se estabelece,por sua vez, em mode-
clara estrutural, cibernética e informada pela teoria dos lo para o conhecimento e comportamento humano. Por
jogos. Não resta dúvida: a vaca representa fundamental exemplo: as máquinas a vapor são tomadas por modelos
"decolagem". do homem no século 18, as fábricas químicas no século 19
Mas não deixa de representar também perigo e ame- e os aparelhos cibernéticos atualmente. Tal retroalimen-
aça. Na medida em que vacas se tornarem sempre mais tação nefasta entre o homem e seus produtos é aspecto
numerosas e baratas (processo inevitável dado o ímpeto importante da alienação e autoalienação humana.
do progresso) e outras máquinas de tipo semelhante sur- Pois a paulatina substituição das máquinas atuais
girem, ocorrerá transformação sutil, mas profunda, no por máquinas tipo "vaca" poderá resultar em tal identifi-
ambiente humano. As máquinas atuais, às quais a huma- cação "homem = vaca". O homem pode não reconhecer
nidade vem se adaptando em processo penoso desde a Re- na vaca o seu próprio projeto, pode esquecer que a vaca
volução Industrial, serão paulatinamente substituídas por é resultado de sua própria manipulação da realidade em
máquinas tipo "vaca".Já que tais máquinas impõem um obediência a um modelo seu, e aceitar a vaca como algo
ritmo vital diferente e toda uma práxis diferente, surgirá de alguma forma "dado" (por exemplo: pode aceitar a
a necessidade de readaptação que terá, necessariamente, vaca como uma espécie de "animal", portanto, parte da
por consequência, nova alienação individual e coletiva. A "natureza"). Em tal caso, a vaca assumirá autonomia on-
fantasia pode prever não apenas dissolução das grandes tológica e epistemológica, e virará, por assim dizer por
cidades e formação de pequenos aglomerados em torno trás das costas do homem, modelo do próprio homem.
de vacas (a serem chamadas, por exemplo, "aldeias"), mas Justamente por tratar-se de máquina altamente sofistica-
em consequência disto, também, a dissolução da estrutu- da e antropomorfa (todas as máquinas são, aliás, antro-
ra básica da sociedade e sua substituição por outra apenas pomorfas, pela razão indicada), a essência "máquina" da
imaginável. No entanto, o pior não será isto. vaca pode vir a ser encoberta. Em nada adiantarão, em
É conhecida a tendência humana para "espelhar-se" tal caso, "explicações genéticas" da vaca, explicações que
nos seus produtos. O processo é aproximadamente este: o provarão ser a vaca resultado de manipulação humana. O
homem projeta modelos para modificar a realidade. Tais impacto da vaca se dará em nível existencial, no contato
modelos são tomados do corpo humano. Por exemplo: o diário com ela. Em tal nível, todas as "explicações" se tor-
tear tem por modelo o dedo humano, e telégrafo o nervo nam irrelevantes (como são irrelevantes tais "explicações"
humano. O modelo é realizado na forma de um produto. atualmente para os que têm contato diário com compu-
58 Natural:mente

tadores). A mera presença cotidiana da vaca exercerá sua Grama


influência "vaquificante". A fantasia se recusa a imaginar
a consequência disto.
No entanto, é preciso enfrentar o perigo. A fanta-
sia deve ser forçada. Revela a visão de uma humanidade
transformada em rebanho de vacas. Uma humanidade
que pastará e ruminará satisfeita e inconsciente, consu-
mindo erva, na qual uma elite invisível de "pastores" tem
interesse investido, e produzindo o leite para tal elite. Tal
humanidade será manipulada pela elite de maneira tão
sutil e perfeita que se tomará por livre. Isto será possível
graças à automaticidade do funcionamento da vaca. A li-
berdade ilusória encobrirá a manipulação "pastoril" per-
feitamente. A vida se resumirá às funções típicas da vaca: Na frente da minha casa cresce grama. Não é curioso
nascimento, consumo, ruminação, produção, lazer, re- isto? ~ero dizer: não é curioso o verbo ao qual recorri
produção e morte. Visão paradisíaca e terrificante. ~em para dizer que há grama na frente da minha casa? Por que
sabe, ao contemplarmos a vaca, estamos contemplando o não digo que na frente da minha casa crescem, também,
homem do futuro? formigas e um gato? E por que não há verbo que descreva
O futuro é, no entanto, apenas virtualidade. Ainda é a ocorrência específica de grama na frente da minha casa?
tempo de agirmos. O progresso não é automático, Por que não posso dizer "grameia", como digo "chove"
mas resultante de vontades e liberdade humanas. O ou "neva"? E se digo que há gramado na frente da minha
progresso rumo à vaca pode ser ainda sustado. Não, por casa, estarei afirmando algo estruturalmente idêntico às
certo, "reacionariamente". Não pela tentativa de negar as afirmativas de que há, também, formigueiro e chuva na
vantagens óbvias da vaca e a força da imaginação criativa frente da minha casa? Obviamente, a língua portuguesa
que nela se manifesta. Mas pela tentativa de apropriar a tem um jeito de impor sobre o meu pensamento determi-
vaca às verdadeiras necessidades e aos verdadeiros ideais nadas formas que me fazem captar os fenômenos do mun-
humanos. A vaca é, sem dúvida, ameaça. Mas também de- do sob aspectos determinados por tais formas. Capto a
safio. Deve ser enfrentada. grama como algo que cresce, e isto é o essencial da grama.
No caso das formigas e gatos, o seu crescer é captado por
Narurabnenrc VILÉM FLUSSER 61

mim como acidente. E capto a grama como elemento de muito menos como cresce o cedro. A essência da grama,
um coletivo (O gramado), que é essencialmente diferente revelada pela língua, não é a sua "plantidade", mas o fato
de coletivos tanto do tipo "formigueiro" quanto do tipo de que a grama pode ser deixada crescer ou pode ser cor-
"chuva". Deposito confiança na "sabedoria" escondida na tada. A essência da grama é sua cortabilidade. É espécie
língua: creio que a língua "sabe" por que impõe tais for- do mesmo gênero ao qual pertencem também cabelos
mas sobre o meu pensamento. Creio que a "essência" da e unhas. Gênero este essencialmente manipulável por
grama é revelada para mim, enquanto "crescer" e enquan- manicure. A técnica adequada à manipulação da grama
to elemento de determinado tipo de coletivo, através das é ensinada nos salões de beleza. O crescer da grama é es-
formas da língua portuguesa. Sou obrigado a crer nisto. sencialmente diferente do crescer do cedro (e também do
Do contrário, cairia em mutismo ou em excentricidades trigo). O critério de tal diferença essencial está na práxis.
linguísticas do tipo: "na frente da minha casa está parado O barbeiro é quase competente para a grama, não para o
um exército de gramas". Mas, ao dizer isto, tropeço no cedro. Mas tal diferença essencial é escondida pelo verbo
caminho do meu discurso. ~e excentricidade linguís- "crescer" da língua portuguesa. ~em também isto seja
tica foi esta? O exército parado de gramas não captará, registrado.
ele também, um aspecto da "essência" do meu gramado, A cortabilidade da grama (que lhe é essencial) está
aspecto este escondido pela língua corriqueira? E não ligada, aparentemente, ao caráter do coletivo do qual é
terá isto a ver com o famoso "poder revelador da poesia"? elemento. Coletivos do tipo gramado, cabeleira e barba
Não acabo, por acaso, de dar palavra à grama, num senti- são cortáveis, coletivos do tipo trigal são colheitáveis, e
do husserliano, a saber: dar "nova" palavra à grama? Não coletivos do tipo pinheiral são manipuláveis de outra ma-
acabo de ter permitido à grama articular-se, para mim, de neira. (Para não falar em coletivos do tipo formigueiro e
uma maneira portuguesa relativamente nova? Não darei, família de gatos.) Mas acaso unhas não serão igualmente
a tal pergunta, nem resposta afirmativa nem negativa a es- cortáveis, e não será isto o "essencial" das unhas? ~al é
tas alturas. Registrarei a pergunta. o seu coletivo, "unhal", "unhado" ou "unheiro"? A
N a frente da minha casa crescegrama. Como cresce, tentativa de correr ao socorro da "sabedoria" escondida
um pouco mais adiante, trigo. E como cresce, no centro na língua portuguesa falha: a essência da grama é escon-
da cena vista da minha janela, um cedro frondoso. "Cres- dida pelo verbo "crescer", até se forçarmos ligação entre
cer" será pois a forma na qual a língua capta a essência tal verbo e o substantivo "gramado". Devemos constatar
da planta? Erro. A grama na frente da minha casa cresce um tanto extralinguisticamente que a grama pertence,
muito mais como crescem os cabelos na minha cabeça, e essencialmente, à classe dos fenômenos cortáveis, à qual
62 Natural:mente 63
VILÉM F.LUSSER

pertencem também o cabelo e a unha, mas não o trigo, a Pontos de vista sob os quais a diferença entre gramado e
formiga e o gato. (Embora tal classificação se torne possí- humanidade se dilui são desumanos, portanto, pecamino-
vel apenas graças à língua e por intermédio da língua.) O sos. Argumento apreciável contra certas religiosidades.
que surpreende é o fato de que tal classificação não coin- Grama é essencialmente cabelo da Terra, e cabelo es-
cide de maneira alguma com as classificações científicas sencialmente grama do corpo. De que ponto de vista? Do
ditas "objetivas". ponto de vista do barbeiro e jardineiro. Tais pontos de
Tais classificações objetivas (como aliás todo o dis- vista não foram assumidos aleatoriamente, foram impos-
curso científico) tendem a encobrir a essência dos fenô- tos pelo fenômeno mesmo. Não podemos assumir não
menos que explicam. Dizem, por exemplo, que grama importa que ponto de vista perante a grama. Não, por
e trigo são parentes próximos e parentes longínquos do exemplo, o ponto de vista do geólogo ou do banqueiro.
cedro, mas que seu parentesco com formigas é muito Embora estes pontos de vista também abranjam grama e
remoto, e que sua relação com cabelos e unhas é hierar- cabelo, não captarão o que é essencial em ambos. Para ge-
quicamente confusa. É que a objetividade científica é, na ólogos e banqueiros grama e cabelo não ocupam o centro
realidade, resultado de determinado ponto de vista sobre do interesse; para barbeiros e jardineiros ocupam. A es-
o mundo, ponto de vista este tomado inconscientemen- sência se revela apenas quando o fenômeno contemplado
te por preferencial sem justificação explícita, e assumido ocupa o centro do interesse.
inconscientemente. Por certo, o ponto de vista científico Grama é essencialmente cabelo da Terra. É proble-
não pode ser o assumido por Deus "sub specie aeterni". ma, como o é não importa que fenômeno nos cerca. O
Porque sob tal ponto de vista a cortabilidade se revela es- problema da grama é este: deixar crescê-Ia ou cortá-Ia. É
sência de numerosos outros coletivos: dos pinheirais, dos problema prático, prova que grama é fenômeno concre-
formigueiros e da humanidade. Somos, de tal ponto de to. Não se trata de explicá-Ia, trata-se de modificá-Ia. Não
vista, essencialmente tão cortáveis quanto o é a grama. Se é problema do tipo: "qual a distribuição dos números
assumirmos ponto de vista tão distanciado, não apenas primos na série natural de números?", porque provoca
a humanidade se revelará espécie de gramado, mas toda a práxis. Não, obviamente, de um ponto de vista objetivo,
biosfera espécie de musgo cortável a cobrir a superfície do mas do ponto de vista do jardineiro. Objetivamente, o
planeta T erra. Tal ponto de vista distante, no entanto, não problema da cortabilidade da grama surgirá muito tarde
é nem científico nem existencialmente relevante. Apenas no discurso que explica a grama. Primeiro, surgirão pro-
distâncias mensuráveis em unidades temporais e espaciais blemas relativos a,morfologia, metabolismo, genética etc.
compatíveis com as dimensões humanas são significativas. da grama. Prova que o ponto de vista objetivo (científi-
64 Natural:mcnre VILÉM FLL'SSER 65

co) abstrai e desconcretiza a grama. O ponto de vista do moda. Dizem que disto depende a própria sobrevivência
jardineiro capta a essência da grama concreta. Mas é fato da humanidade. Abaixo o aparelho cortador de grama,
que o jardineiro pode cortar a grama cientificamente. A porque abaixo todo aparelho! O ponto de vista do bar-
ciência é uma volta longa que passa pelos labirintos da beiro (ou do antibarbeiro, que é a mesma coisa) contesta
abstração para reencontrar o fenômeno concreto do qual o ponto de vista do aparelho (o do operário e dono de
partiu. Tal volta enriquece a práxis (e a visão) concreta do fábrica de automóveis e cortadores de grama). As barbas
jardineiro. Mas quando se trata de descobrir a essência da longas de ambos os pontos de vista são, no entanto, cortá-
grama (sua cortabilidade), melhor é pôr entre parênteses veis. Corno é cortável a barba longa da contradição entre
tal volta. o ponto de vista ético da fábrica de cortadores e o ponto
Grama é essencialmente cabelo da Terra. A decisão de vista estético do jardineiro. ~em corta barbas assim
de deixá-Ia crescer ou cortá-Ia depende, em parte, da si- transcende modas (é transmoderno). Estruturalista? Sim,
tuação cultural na qual nos encontramos. É, em parte, mas estruturalista-barbeiro que precisa cortar sua própria
questão de moda. "Beautify America, have a hair cut" barba. Cortar a própria barba: práxis reflexiva?
(embeleze a América, corte os cabelos), implica tam- Grama é essencialmente cabelo da Terra. Deixar
bém: ("corte ou não teu gramado"). "The Greening of crescê-Ia é permitir à Terra que seja. Atitude chthonica,
America" (O tornar verde a América) é visão da Améri- telúrica etc., portanto. Atitude contrária à repressão urâ-
ca do ponto de vista do jardineiro e barbeiro. Tal ponto nica (espiritual) da Terra exercidapelo aparelho (de cortar
de vista pode ser descoberto, aliás, em muita especulação grama). Cabelo é essencialmente grama do corpo. Deixar
da Nova Esquerda (Marcuse), e de uma "filosofia" inspi- crescê-Io é permitir ao corpo que seja. Atitude contrária
rada pela ecologia. Há esteticismo implícito em muitas à repressão do corpo pelo aparelho. O corpo-Terra, con-
dessas tendências novas, porque tais tendências nascem junto não-histórico em revolução contra a história pro-
em salões de beleza. Para a Nova Esquerda, o proletário movida pelo espírito-aparelho. Rousseau-Marx-Marcu-
portador do futuro não é, aparentemente, o metalúrgico, se? Não, fundamentalmente. Fundamentalmente: salão
mas o barbeiro. Será efetivamente novo tal esteticismo? de beleza. Esteticismo nietzschiano em rebelião contra o
Ou não será romântico, com barbas (e gramados) lon- "niilismo" do judeu-cristianismo. Urge definir melhor a
gas? Crítica impertinente. Tudo o que é novo tem, em relação entre grama e Terra, e entre cabelo e corpo, para
certo sentido, barba longa. "Nil novi sub sole." Mas não descobrir fenomenologicamente a Terra por trás da gra-
esqueçamos que a essência da barba é sua cortabilidade. ma e o corpo por trás do cabelo. Grama e cabelo "cobrem"
Não cortar a grama, deixar crescê-Ia, está atualmente na Terra e corpo. É por culpa da grama e do cabelo que não
66 Narural:menre

os vemos. Será grama ainda Terra (Magna Mater, útero Dedos


etc.) e será cabelo ainda corpo (conjunto de experiências
concretas e de gestos)? Não, porque grama e cabelo são
essencialmente cortáveis, e Terra e corpo essencialmen-
te incortáveis. Terra não é cortável, porque fundamenta.
Corpo não é cortável, porque está sempre presente co-
migo. Terra e corpo são incortáveis, porque não estão no
tempo. Daí a sua não-historicidade. Deixar crescer grama
e cabelo é ainda decisão histórica (espiritual, enquadra-
da no aparelho): é deixar encoberta a não-historicidade
da Terra e do corpo. Possivelmente, o método oposto é
mais indicado? Cortar grama e cabelo tão radicalmente
que apareça a Terra e o corpo? Fazer funcionar o aparelho
até que ele próprio se leve ao absurdo? O barbeiro como Procuro observá-Ios enquanto batem as teclas da
proletário portador do futuro, no sentido de "revelador" máquina de escrever para produzirem o presente texto.
da concreticidade não-histórica da Terra e do corpo? Ou Tarefa dura, porque situação complexa. Devo observar
será isto colaborar com o aparelho e ser por ele absorvido? os dedos enquanto escrevem texto que tem a observação
Não: é apropriar o salão de beleza. de dedos por assunto. Mas tarefa apaixonante. Porque a
As falhas da "sabedoria da língua" com relação à gra- complexidade da situação se deve ao constante espelhar-
ma foram devidamente registradas. É que a língua faz par- se da observação no observado. Trata-se, portanto, da
te do aparelho cortador de grama. É possível transcender complexidade das situações reflexivas. Ao observar os
a língua e o aparelho. A visão fenomenológica o permite. dedos, reflito-me neles, e os dedos se refletem em mim,
Mas depois é necessário recorrer novamente à língua e ao ao serem observados. ~ando concentro meu interesse
aparelho. A visão fenomenológica o permite. Mas depois sobre os dedos, encontro a mim próprio em tal centro. Eu
é necessário recorrer novamente à língua e ao aparelho, sou meus dedos e os meus dedos são eu. Eu sou deles tan-
para forçá-Ios a funcionarem contra si próprios e em fa- to quanto eles são meus. Possivelmente, a co-implicação
vor da essência da grama. Programa razoáveL entre eu e dedos seja a essência dos dedos?
Para contornar a complexidade da situação, procu-
rarei descrevê-Iaem termos simples. Estou sentado numa
68 Natural:mente
VILÉM FLUSSER 69

cadeira. A cadeira é produto da civilização ocidental, e, posso fazê-Io. A análise dos meus dedos não revelará a
se for analisada, revelará a história do Ocidente. Encaro história do Ocidente, como o fará a análise da cadeira, da
uma escrivaninha. A escrivaninha pertence ao mesmo máquina, do alfabeto, da língua portuguesa. Por certo:
conjunto do qual a cadeira é parte. A contraposição "ca·· o gesto dos meus dedos sobre as teclas poderá, se anali-
deira -- escrivaninha" é estrutura característica de deter-
sado, revelar-se gesto historicamente determinado. Mas
minadas situações da minha cultura. Sobre a escrivaninha os próprios dedos não: não são produtos da história da
está colocada uma máquina de escrever "Olivetti". Tra- cultura. Tenho a forte tentação de dizer que são produtos
ta-se de um instrumento para escrever levemente pa1<~o- da história da natureza. Tenho modelos muito poderosos
tecnológico (produto da técnica do início do século 20). (por exemplo, o darwiniano), que me levam a dizer isto.
A máquina tem teclas marcadas com letras do alfabeto E a dizer, portanto, que os meus dedos são fenômenos
latino. Tais letras são modificações históricas de símbolos naturais que foram inseridos em situação cultural, a qual
que se originaram no Oriente Próximo há aproximada- doravante transforma, informa, em suma, condiciona os
mente 3.000 anos. Meus dedos batem nas tecIas em deter-
seus gestos. Cultura como violentação da natureza.
minada ordem. A ordem visa produzir sobre uma folha Tal descrição da situação seria, no entanto, inteira-
de papel inserida na máquina sentenças da língua portu- mente desapropriada. Não captaria o seu clima. Tal clima
guesa. É, pois, determinada pela ordem de tal língua. O não é o da violentação dos meus dedos por um estabe-
Português é modificação histórica de uma hipotética fala lecimento cultural composto de aparelhos sincronizados
indo-europeia. As sentenças portuguesas visadas pelos (embora várias tendências atuais, inclusive a Nova Es-
meus dedos são articulações dos meus pensamentos. Tais querda, acreditassem que o seja). Não se trata, na situa-
pensamentos foram programados pelas condições eco- ção, de uma "desnaturação" ou "aculturação" dos meus
nômicas, sociais, culturais, em suma, históricas, que me dedos. Não se trata disto, e a observação do gesto dos de-
determinam. Viso destacar o papel da máquina quando dos o prova. Não se movimentam maquinalmente, em-
pronto, para que seja lido por outrem. Tal outro poderá bora se movimentem dentro e sobre várias "máquinas" (a
decifrar a mensagem no papel por participar da mesma de escrever, o alfabeto, a língua portuguesa). O seu movi-
cultura da qual eu participo. De maneira que a situação mento é deliberado, isto é, articula minha liberdade. Os
toda, em seus elementos e sua estrutura, é característica dedos escolhem determinadas teclas e recusam outras, e
de determinada cultura. Meus dedos estão inseridos nela. escolhem tais teclas criteriosamente. É verdade que os cri-
Mas será que isto me autoriza a considerar meus de- térios são impostos sobre os dedos (pela organização do
dos como se fossem parte integrante de tal cultura? Não teclado, pelas regras da língua e pela estrutura dos meus
70 Natural:mente VILÉM FLUSSER 71

pensamentos). Mas tais critérios tornam possíveis e dão A máquina de escrever foi feita para servir de ins-
sentido aos movimentos dos dedos, isto é, abrem um trumento a meus dedos. É um prolongamento dos meus
campo de escolha. Os meus dedos são livres na situação dedos. Mas é daro que a relação "máquina - dedos" não
descrita. Com toda a dialética da liberdade que a análise é simples, mas dialétíca, e por isso mesmo facilmente re-
da situação revela. Em outros termos: a situação é cul- versível. Para que os dedos possam servir-se da máquina,
tural, e por isto mesmo um campo de liberdade para os devo aprender o manejo. Devo conhecê-Ia. Macacos po-
meus dedos. Para formulá-Io paradoxalmente: a cultura é dem bater à máquina sem conhecê-Ia, e se um milhão de
natural para os dedos, e fora dela os dedos não são como macacos baterem a um milhão de máquinas durante um
"devem ser": livres.
milhão de anos produzirão necessariamente o presente
Como são os dedos fora da cultura? Portanto, não texto. Necessariamente, mas não deliberadamente. O co-
violentados, não apropriados pelos aparelhos estabele- nhecimento da máquina é o pressuposto da liberdade. A
cidos? ~al o movimento natural dos dedos? O seu re- liberdade não é um campo intermediário entre o acaso
pertório é reduzido. Coçam, arranham, talvez apontem e estatístico e a necessidade. Tal campo não existe, já que
furem. E agarram-se a objetos felpudos. Tais movimentos o acaso estatístico se confunde com a necessidade, e o
são observáveis em recém-nascidos, e, por projeção, nos milhão de macacos o prova. A liberdade surge por salto
primatas. São, estes sim, movimentos condicionados. dialético acima do acaso e da necessidade, salto este pos-
São, em tese, perfeitamente explicáveis peIas ciências da sibilitado pelo conhecimento. Sem o conhecimento, a
natureza. Refletem condições internas do corpo (tensões máquina de escrever não é coisa da cultura, mas condição
termodinâmicas e químicas, informação genética etc.) e natural, como o é para macacos. Existem muitas situa-
condições do ambiente. Em situações naturais os dedos ções, aparentemente culturais, nas quais manejamos apa-
são inteiramente determinados. A "revolução" tardia- relhos como se fôssemos macacos. Porque os ignoramos
mente romântica que visa libertar os dedos da violentação parcial ou inteiramente. Em tais situações os aparelhos
pelo aparelho (por exemplo pelo "princípio do prazer") funcionam, e os nossos dedos funcionam. E é contra tais
visa, na realidade, a reduzi-Ios a movimentos coçadores. situações funcionais que as revoluções se insurgem. Para
A verdadeira revolução não seria a retirada dos dedos do libertar os dedos.
aparelho, mas a apropriação dos aparelhos pelos dedos. A Para podermos conhecer a máquina de escrever, os
situação descrita, na qual escrevo o presente texto, pode nossos dedos devem aprender, empiricamente ou por
servir de modelo para todas as situações culturais depois de técnicas "ad hoc" elaboradas, a manejá-Ia. Isto é, devem
tal revolução apropriadora. Por issodeve ser reconsiderada. aprender a fazer movimentos apropriados à máquina e,
72 Natura1:mente VIJ,ÉM FLVSSER 73

neste sentido, serem apropriados por ela. Mas não se trata tuação por meus dedos, e transcendo-a observando dedos
de apropríação alienante. Trata-se de processo dialético, que são meus. Sei, graças a tal transcendência, que estou
no qual a máquina é apropriada pelos dedos ao serem os escrevendo o que quero, e não, como os macacos, o que
dedos apropriados por ela. Durante tal processo vão se der o acaso, nem, como a datilógrafa, o que foi encomen-
revelando determinadas virtualidades tanto da máquina dado a ela. Tal saber da minha livre vontade é insofismá-
quanto dos dedos. Aprender é isto: verificar o que pode vel, embora saiba também da total determinação do meu
ser feito com a máquina e com os dedos. Ou melhor, o ato de escrever, e da minha decisão de fazê-Io. Trata-se
que os dedos podem fazer com a máquina, e o que a má- de dialética da minha consciência, e o marciano jamais
quina pode provocar que os dedos façam. De maneira que poderá constatá-Ia. Por isso, a liberdade não é explicável,
máquina e dedos passam a formar os dois horízontes de e quando explicada, deixa de sê-Io. E, no entanto, o fato
uma relação dialética (a do escrever), na qual um horizon- de eu estar escrevendo livremente é por mim constatável
te é para o outro. A máquina é para os dedos (feita para concretamente. É o fato visado por toda revolução ver-
eles), e os dedos são para a máquina (movimentam-se de dadeira.
Os meus dedos são insofismavelmente livres na si-
forma apropríada a ela). Mas a relação entre máquina e
dedos não é simétrica (sob pena da situação do escrever tuação descrita, embora tal fato não possa ser explicado.
se tornar efetivamente alienante, como é o caso de datiló- Pelo contrário, toda explicação da situação encobrirá o
grafas em repartições e bancos). A relação não é simétri- fato da liberdade, ao apontar as forças que determinam
ca, porque o movimento da máquina é determinado pelo o movimento dos meus dedos. Toda explicação revelará
movimento dos dedos que articulam liberdade. que a situação cultural e natural na qual me encontro por
Tal falta de simetria não é observável objetivamente. mediação dos meus dedos me determina totalmente, ao
Um marciano observando o processo de escrever que en- determinar o movimento dos dedos. Toda explicação é,
volve macacos, datilógrafas e a mim, não notará diferença. portanto, desculpa para os defensores das situações alie-
Por mais cuidadosamente que observar as três situações, nantes. Mas, curiosamente, também para os seus contes-
constatará apenas a dialética entre acaso e necessidade, tadores. Os defensores dirão que a liberdade não existe,
jamais a liberdade. Esta é constatável apenas por mim, que é preconceito, e justificarão assim o poder alienante
que escrevo e simultaneamente transcendo a situação e determinado r do aparelho (seja ele tecnocrático, polí-
na qual escrevo. Não a transcendo como a transcende o tico ou tradicionalmente consagrado). Os contestadores
marciano: distanciado. T ranscendo-a participando. Não recomendarão, é verdade, a abolição dos aparelhos deter-
"metafisicamente", mas engajadamente. Engajo-me na si- minadores, mas por métodos que evocam os dedos dos
74 Natural:mente

macacos que batem, furiosamente, as teclas de máquinas A lua


de escrever até destruí-Ias. ~erem libertar as datilógratàs
ao transformá-ias em macacos. Embora, pois, aparente-
mente haja contradição entre defensores e contestadores,
há, na realidade efetiva, colaboração entre ambos. Chim-
panzés colaboram com gorilas porque ambos concordam
que existe contradição entre o condicionamento cultural
e o natural do homem. Apenas os defensores das situa-
ções alienantes optam pelo condicionamento da cultura,
e os contestadores pelo condicionamento da natureza.
Mas tal contradição entre cultura e natureza não existe
necessariamente. A cultura pode vir a ser a natureza do
homem. Já o é, com efeito, em determinadas situações, Pertencia, até recentemente, à classe das coisas vi-
como a descrita. E a cultura, enquanto natureza do ho-
síveis, mas inacessíveis ao ouvido, cheito, tato ou gosto.
mem, é o campo da liberdade. Nela, os dedos podem rea- Agora, alguns homem tocaram nela. Isto terá tornado a
lizar suas virtualidades. Eis o que revela a observação dos
Lua menos duvidosa? Descartes afirma que devemos du-
meus dedos enquanto batem o presente texto.
vidar dos nossos sentidos porque, entre outras razões, eles
se contradizem mutuamente. Até agora, a Lua era percebi-
da por um único sentido. Não houve contradição de sen-
tidos, portanto. Agora, tal contradição se tornou possível.
Podemos, doravante, duvidar da Lua, mas de maneira di-
ferente. Por exemplo: como sabemos que alguns tocaram
nela? Por termos visto o evento na TV e por termos lido
nos jornais a respeito. Imagens na TV são duvidosas, po-
dem ser truques. Se vêm acompanhadas da inscrição "live
ftom the Moon", passam a ser, não apenas duvidosas, mas
suspeitas. ~em diz "está chovendo, e isto é a verdade",
diz menos que aquele que diz apenas "está chovendo". E
quanto aos jornais, a sua credibilidade não é absoluta. De
76 Natural:mente
VILÉM FLUSSER 77

maneira que podemos duvidar que a Lua foi tocada. Mas tura. Tal senso comum me manda ver "fases da Lua", mas
tal dúvida será ainda menos razoável que a outra: a Lua não (ainda), "propriedade daNASA".
será ficção ou realidade? Menos razoável, porque é menos Será a visão o sentido mais comum que o senso co-
razoável duvidar da cultura que da natureza. Duvidar da mum, isto é, comum a todos os que têm olhos? Todos os
natureza é razoável, se for feito metodicamente, porque que têm olhos podem ver a Lua? Máquinas fotográficas e
resulta nas ciências da natureza. Mas duvidar da cultura
formigas? Não será antropomorfismo dizer que a Lua é
(da TV e dos jornais) aparentemente em nada resulta. vista por formigas? Se eu construir uma lente estrutural-
Já que a Lua passou (conforme TV e jornais) do campo mente idêntica ao olho da formiga, verei a Lua? Ou have-
da natureza para o da cultura, melhor é não mais duvi- rá senso comum apenas aos olhos humanos, o qual manda
dar dela. Passou da competência dos astrônomos, poetas aos homens verem a Lua? Haverá doença de vista ociden-
e mágicos para a dos políticos, advogados e tecnocratas. E tal que me manda ver "fases da Lua", e outra doença mais
quem pode duvidar destes? A Lua é doravante proprie- geralmente humana que manda ver a Lua?
dade imobiliária (embora móvel) da NASA Pode haver ~l11do olho a Lua em noites claras não vejo saté-
maior prova de realidade? A Lua é "real state" = estado lite da NASA, embora saiba que o que vejo é satélite da
real, e todas as dúvidas a seu respeito cessaram. Mas, ainda NASA. Continuo vendo satélite natural da Terra, a mi-
assim, há certos problemas. Relativos, não tanto à própria nha visão não integra o meu conhecimento. Tal falta de
Lua, mas ao nosso estar-no-mundo. Problemas confusos. integração do conhecimento pela visão caracteriza deter-
Falarei em alguns dentre eles. minadas situações, as chamadas "crises". É ptovável que
~ndo olho a Lua em noites claras, não vejo um os gregos do helenismo sabiam que a Lua é bola, mas con-
satélite da NASA. Vejo um C, ou um D ou um círculo tinuavam a ver uma deusa nela. É provável que os mela-
luminoso. Vejo "fases da Lua". A Lua muda de forma. nésios saibam ser a Lua satélite da N ASA, mas continuam
Aprendi que tal mudança é aparente, que a Lua mesma vendo símbolo de fertilidade nela. Em situação de crise a
não muda de forma. Por que "aparente"? A sombra da cosmovisão não consegue integrar o conhecimento.
Terra não será tão real quanto o é a Lua? O senso comum Para ver a Lua, preciso olhá-Ia. Não preciso escutar o
manda que eu veja mudanças não da "Lua em si", mas da vento para ouvi-lo. Posso, mas não preciso. Para ver, preci-
"minha percepção da Lua". Tal senso comum não se es- so gesticular com os olhos e com a cabeça. "Levar os olhos
tende a povos primitivos. Tais povos veem a Lua nascen- para o céu." Preciso fazer o que cachorros fazem para ou-
do, morrendo e renascendo. Vejo a lua, não apenas com vir ou cheirar: gesticulam com o nariz e os ouvidos. Seu
os olhos, mas também com o senso comum à minha cul- mundo deve ser diferente do nosso. Para nós, sons e chei-
78 Natura1:mcntc VILÉM FLUSSER 79

ros são dados, mas luzes são provocadas pela atenção (ges- "olhá-Ia de perto" pode significar olhá-Ia com maior aten-
ticulação) que lhes damos. Para cachorros, sons e cheiros ção para vê-Ia mais claramente. Pois se, em noites claras,
são igualmente provocados. Vivemos em dois mundos: eu for olhá-Ia com tal maior atenção, verei porque a vejo
um dado e outro provocado pela atenção que lhe damos. enquanto fenômeno da natureza. Não posso vê-Ia quan-
Nisto a vista se parece com o tato: dirige-se para o fenô- do e onde quero. Embora deva querer vê-Ia para vê-Ia,
meno a ser provocado. A explicação "objetiva" que a vista tal querer meu é condicionado pela própria Lua. A Lua
é recepção de emissões de ondas eletromagnéticas (como é provocada pelo meu querer vê-Ia, mas tal querer se dá
o ouvido é recepção de ondas sonoras) encobre o fato que dentro das regras de jogo da própria Lua. A Lua impõe
olhos são mais parecidos com braços que com ouvidos. sobre mim suas próprias regras de jogo. Por isso, é difícil
Buscam, não ficam parados. Isto é importante em casos duvidar dela e manipulá-Ia. A Lua não é minha imagina-
como o é a Lua, a qual é visível, mas não audível. Foi bus- ção, é uma coisa da natureza.
cada, não foi negativamente percebida. Meu olhar provou que a Lua não é imaginação mi-
Culturas que não levantam o seu olhar para o céu, nha, mas por enquanto nada provou quanto ao seu ser
mas concentram sua atenção no solo (as chamadas "telú- natureza ou cultura. Sim, provou-o. A lua é cabeçuda.
ricas") não buscam, não "produzem" a Lua. Culturas que Impõe suas regras de jogo. Só vejo onde ela está por uma
passam o tempo olhando o céu (as chamadas "urânicas"), necessidade dela própria, necessidade esta chamada "leis
"pró-duzem" a Lua que passa a ocupar papel importante da natureza". As coisas da cultura não são assim cabeçu-
em tais culturas. A Lua é, neste sentido, "produto" de das. Estão onde devem estar para servir-me. Se quero ver
meus sapatos, olho na direção em que devem estar, vejo-
determinadas culturas. Como então posso afirmar que a
NASA transformou a Lua de fenômeno natural em fenô- os e utilizo-me deles. Isto é a essência da cultura. Se quero
meno cultural (em instrumento da astronáutica) ao tê- ver a Lua, sou obrigado a olhar na direção em que ela está
por necessidade. Isto é a essência da natureza. Por isso,
Ia tocado? Se a Lua sempre tem sido produto da cultura
vejo a Lua enquanto fenômeno da natureza, embora saiba
"urânica" que é a nossa? Para responder a tal pergunta,
que atualmente a Lua não mais está onde está por neces-
devo olhar a Lua mais de perto.
sidade, mas agora está onde deve estar para servir de pIa-
~e significa "olhar de perto"? Pode significar
taforma para viagens rumo a Vênus. Ainda não sou capaz
aproximar-se da Lua subindo montanha ou em foguete.
de ver a utilidade da Lua. Vejo-a cabeçudamente inútil.
Pode significar aproximá-Ia com telescópio e truques se-
Vejo-a como se fosse ainda satélite natural da Terra.
melhantes. Mas não preciso significar isto. Como a Lua
Mas meu olhar não deu resposta satisfatória à mi-
não é um dado, mas um buscado pela atenção dada a ela
nha pergunta. Não perguntei porque vejo a Lua como
80 Naturabnente VlI,f:M fiL U S S ER 81

coisa natural a despeito da NASA, mas porque a vejo as- T aI preconceito do senso comum é logicamente
sim a despeito do fato de ser ela, desde sempre, produto contraditório, ontologicamente falso, existencialmente
do aspecto "urâníco" da minha cultura. Não perguntei, insustentável, e deve ser abandonado. E, se conseguir afas-
portanto, pela minha incapacidade de integrar conheci- tá-Io, verei a Lua mais claramente. Vejo agora, surpreso,
mento novo, mas pela minha incapacidade de rememorar que a Lua, longe de ser fenômeno da natureza em vias de
origens. Devo ajudar meu olhar para provocá-Io a dar res- transformar-se em cultura, é, e sem foi fenômeno da cul-
posta a uma pergunta assim difícil. Por que não vejo que a tura que está começando a transformar-se em natureza.
Lua foi originalmente provocada por minha cultura, mas Eis o que é, na realidade, cultura: conjunto de coisas ne-
a vejo como se fosse dada? A resposta começa a articular- cessárias que se tornam progressivamente mais indispen-
se. Porque sou ambivalente quanto à minha cultura. De sáveis. E eis o que é, na realidade, natureza: conjunto de
um lado, admito que minha cultura é composta de coi- coisas desnecessárias e dispensáveis. Natureza é produto
sas que esperam, fielmente, serem por mim utilizadas. De tardio e luxo da cultura. O meu olhar para a Lua o prova,
outro lado, devo admitir que não posso passar sem tais da seguinte maneira:
coisas. Por isso, a Lua é o exato contrário dos meus sapa- Imaginemos por um instante que a NASA tivesse
tos. A Lua é necessária, mas dispensável. Os sapatos são realmente transformado a Lua de natureza em cultura.
deliberados (desnecessários), mas indispensáveis. A Lua Então seria um caso excepcionalmente feliz para um "re-
impõe suas regras sobre mim por sua cabeçuda necessida- torno à natureza". Bastaria cortar as verbas da NASA e a
de. Os sapatos me oprimem por sua desnecessária indis- Lua voltaria a ser assunto para poetas, e escaparia à com-
pensabilidade. Por isso, não posso ver que a Lua foi, ori- petência dos tecnocratas. Porque o romantismo (a partir
ginalmente, provocada por minha cultura. Por que teria de Rousseau até inclusive os hippies) é isto: cortar as ver-
minha cultura provocado algo necessário e dispensável? bas da NASA. Mas terá sido isso um "retorno"? Não, terá
É que minha visão é deformada por um preconceito sido um avanço. Antes da NASA, a Lua era produto da
que faz parte do senso comum da minha cultura: tudo que cultura "urânica" ocidental que tinha por meta projetada
é necessário e dispensável chamo "natureza", tudo que é a sua derradeira manipulação pela NASA. Os nossos an-
desnecessário e indispensável chamo "cultura". Progresso
tepassados neolíticos olharam para a Lua (e assim a "pró-
é transformar coisas necessárias e dispensáveis em desne-
duziram") a fim de transformá-Ia, em última instância,
cessárias e indispensáveis. Natureza é anterior à cultura,
em plataforma para Vênus. E é isto que estamos vendo
e progresso é transformar natureza em cultura. ~ando
quando para ela olhamos, nós, os seus descendentes: sím-
a NASA tocou a Lua e a transformou em plataforma, foi bolo de fertilidade, deusa, satélite natural, são várias fa-
dado mais um passo em direção ao progresso.
82 Natural:rnente VILÉM FLUSSER 83

ses do caminho rumo à plataforma. Vemos a Lua sempre romântica natureza? Tal pergunta, no entanto, não toca a
como potencial plataforma, embora não o saibamos cons- Lua. Ela continua imperturbável em seu caminho neces-
cientemente. A NASA está em germe dentro do primeiro sário e por enquanto dispensável. Perguntar assim nada
olhar dirigido rumo à Lua. adianta. Nada adianta levar até ela os olhos. "Lifi: no your
Pois cortar as verbas da NASA seria um passo além eyes to it, for it moves impotentIy Just as you and L"
da própria NASA. Transformaria a Lua em objeto de
''1'art pour l' art", desnecessário, dispensável, e cantável
por poetas. E a um tal objeto podemos chamar "objeto de
natureza" em sentido existencialmente sustentável. Tal
transformação de cultura em natureza está se dando por
todos os cantos. Nos Alpes, nas praias, nos subúrbios das
grandes cidades. Os românticos do século 18 "descobri-
ram" a natureza (isto é, a inventaram), e os românticos do
nosso" fin de sciec1e" a estão realizando. Um dos métodos
de tal transformação se chama "ecologia aplicada". Se tal
método for aplicado à Lua, ela virará natureza. De manei-
ra que quando formos olhar, em noites claras, a Lua, e a
virmos enquanto fenômeno da natureza, estaremos ven-
do não o passado pré-NASA. da Lua, mas o seu estado
pós-NASA. A nossa visão será profética, isto é, inspirada
pelo romantismo. E, com efeito, é isto que sempre faze-
mos: olhamos a Lua romanticamente. Por isso a vemos
como se já fosse objeto da natureza, e não como sabemos
que ela é: objeto de uma cultura que visa transformá-Ia
em plataforma.
Resposta perturbadora esta. A Lua é vista como ob-
jeto de natureza, isto é, como derradeiro produto da nos-
sa cultura. Como, em tal situação, engajar-me em cultura,
se ela tende a transformar-se em sua própria traição, em
Montanhas

~em se aproxima de uma serra a partir de uma pla-


nície, quem repentinamente suspeita que aquelas formas
nebulosamente azuis que apareceram no horizonte pode-
riam ser montanhas, pode nutrir os seguintes pensamen-
tos: suspeito que tais formas no horizonte são montanhas,
e não nuvens, embora pareçam ser nuvens, porque sei que
montanhas, vistas de longe, se parecem com nuvens. Se
não o soubesse, a suspeita de montanhas não me teria
ocorrido. Dentro de alguns minutos confirmarei ou não
a suspeita: verei se tais formas são montanhas ou nuvens.
Mas suponhamos que nunca tivesse visto montanhas
nem tivesse ouvido falar nela: obviamente não teria dúvi-
da que tais formas no horizonte são nuvens. E, dentro de
alguns minutos, quando tais formas se tivessem revelado
não-nuvens, que veria? Não teria eu experiência tão extra-
ordinária e violenta que sofreria choque? Choque capaz
86 Natural:mente VILÉM FLUSSER 87

de matar-me? ~em conhece apenas planícies, para que Admitindo que nós vemos montanhas mediante
a paisagem é sempre plana, dificilmente sobreviverá ao preconceitos culturais (ocidentalmente, século vinte-
confronto com algo tão intensamente extraordinário, mente, burguesamente etc.), será que o montanhês e o
tão gigantescamente absurdo como o são as montanhas. nômade as veem sem preconceito (ingenuamente)? Não,
A emoção que sentimos ao aproximarmo-nos de uma por certo. O montanhês as vê (se é que as vê em sentido
serra é sombra pálida e tardia do sacro terror que de- rigoroso) condicionado por sua cultura. E o nômade foi
vem ter vivenciado os nossos antepassados siberianos condicionado por sua cultura para não esperar por elas, e
ao terem vislumbrado, pela primeira vez, a cordilheira daí seu choque. A "visão ingênua sem preconceitos" não é
do planalto pamiriano. (Isto é, se for correta a hipótese visão primitiva, original, ou anterior a toda cultura. É vi-
de nossa ascendência dos povos da estepe.) Tal terror são almejada por uma elite da cultura ocidental, produto
primordial deve estar soterrado no fundo do nosso in- tardio de todo um milenar desenvolvimento. A ingenui-
consciente coletivo. dade é um ideal de uma cultura desenganada, ideal este
Olhar montanhas com olhos emprestados aos nô- alcançável por métodos deliberados. Ingenuidade não
mades da estepe não é, no entanto, a única maneira de deliberada é inimaginável e não existe (nem em crianças).
olhá-Ias "sem preconceito". Outra é olhá-Ias com olhos Mas continua sendo fato: quem quiser ver monta-
de montanhês que nunca deixou sua terra. Como vê a nhas como são, e não como determinados preconceitos
montanha quem conhece todas as trilhas que sobem seu nos fazemcrer que são,deveprocurar vê-Iasingenuamente.
flanco, toda a sua fauna e flora? Vê ele a montanha com E deve procurar fazê-Io deliberadamente, isto é, olhá-Ias,
as trilhas, os animais e as plantas como nós a vemos? Ou não pelos olhos de supostos "primitivos", mas por olhos
vê ele trilhas, animais e plantas inseridos em estrututa construídos especialmente para visões ingênuas nos labo-
geral chamada "montanha"? De modo que nós vemos ratórios dos especialistas em fenomenologia. Em outros
montanha coberta de determinados acidentes, e ele vê termos, se procuro "conceder a palavra às montanhas para
determinadas coisas relacionadas entre si em forma de que me revelem o que são", estou assumindo atitude con-
montanha? Pergunta irrespondível, porque não podemos dicionada por um determinado estágio, altamente sofisti-
emprestar os olhos nem do montanhês, nem do nômade cado, de minha cultura. Tal aparente contradição parece
da estepe. Estamos condenados a olhar montanhas pelas ser inevitável,e não invalida necessariamente os resultados
lentes dos preconceitos da nossa cultura. Vivemos, em porventura alcançados pela visão ingênua deliberada.
consequência disso, em um mundo no qual montanhas, Suponhamos, pois, que sou um burguês do século 20
vistas de longe, parecem nuvens. que se aproxima do Jura pela estrada de Bourg-en-Bresse,
88 Narural:mcntc VILÉM FLUSS.ER 89

para vê-lo como é, e não para vê-lo como o veem os turis- atualmente os jatos em busca do aeroporto de Genebra.
tas. (Turistas sendo burgueses do século 20 que se aproxi- (Apenas, suponho, não havia época, nem o lado Leman
mam do Jura pela estrada de Bourg-en-Bresse para vê-lo para ser sobrevoado, nem os Alpes, nem a Europa.) Isto
como deve ser conforme determinados modelos.) Minha não é conhecimento, é salada mal digerida de informação
tarefa será a de conseguir visão deliberadamente ingênua escolar assimilada superficialmente. É preconceito. E, no
do Jura, e isto implica a suspensão dos preconceitos que entanto, como que por encanto, o preconceito saiu dos
nutro a respeito dele. Mas aí posso verificar que tais pre- livros para penetrar o mundo concreto. Não posso fazer
conceitos não são necessariamente empecilhos para ver a de conta, sem mais nem menos, que o preconceito é des-
essência da montanha. Podem, pelo contrário, ser media- contável quando olho estas montanhas. Já que me lem-
ções poderosas para a minha visão da "montanhidade". brei dele, o pterodáctilo está tão presente nelas quanto o
Até quando se trata de preconceitos superficiais que pa- são as folhas de outono (embora ocupe ordem de realida-
recem não tocar o fenômeno da montanha mesma. Com de diferente). Posso fazer duas coisas: controlar meu pre-
efeito, estou verificando exatamente isto ao me aproximar conceito a respeito do jurássico na próxima livraria em St.
do Jura pela estrada. Nutro vários preconceitos a respeito Claude, e depois olhar as montanhas com conhecimento
do Jura, e alguns de tais preconceitos se referem ao nome mais correto (embora necessariamente superficial e cien-
(ao mero nome) da serra. Ao tentar pôr entre parênteses tificamente sem interesse). Não alcançarei, destarte, visão
um de tais preconceitos (tarefa modesta e aparentemente ingênua das montanhas. Ou posso tentar reduzir o meu
facílima), acontece o seguinte: preconceito, não totalmente, mas para chegar até a sua
Lembro-me do ginásio que existe um período na essência, a qual é esta: montanhas são coisas que têm his-
história da Terra que se chama "jurássico" e que ocupa a tória, ou, mais exatamente, biografia. ~e acontecerá se
época central da Idade Média da Terra. Suponho que tal eu for olhar estas montanhas por um preconceito assim
nome se deve ao fato de terem servido as rocas do Jura às reduzido? Isto:
primeiras pesquisas de tal período (o qual, se não estou ~ando digo que estas montanhas aqui têm uma
enganado, está ligado aos gigantescos répteis). Pois isso biografia, quero dizer que são processos que se iniciam
significa que esta serra que estou começando a subir se por sua formação ("nascimento"), acabam por seu nivela-
formou durante tal período, e que as rochas esbranqui- mento ("morte") e passam por estágios nos quais aciden-
çadas que começam a luzir por entre as árvores das flores- tes podem modifícá-Ios. Aparecem enquanto algo novo
tas multicolores serviam outrora a brontossauros botar (como gatinhos recém-nascidos e automóveis zero qui-
seus ovos, e a pterodáctilos a levantar voo como fazem lômetro) envelhecem, são usados e abusados (como gato
90 Natu1"a1:mentc VILÉM FLUSSER 91

que perdeu um olho ou carro de segunda mã.oque passou ritmo específico, e é por isto que vejo que a montanha
por acidente de trânsito), e desaparecem da superfície não é coisa viva: não por não ser feita com aminoácidos
(como gato morto e automóvel refundido). ~ando olho ou por ser grande, mas por obedecer a ritmo diferente. Se
estas montanhas agora, estou vendo apenas um momento pudesse penetrar tal ritmo, teria aberto acesso à essência
da sua biografia. E agora, que assumo tal preconceito a seu da montanha. Mas não consigo fazê-Io.
respeito, vejo-o claramente. Os montes do Jura estã.ona Penetrar um ritmo é co-vibrar, estar em "simpatia".
flor da idade, o Massif Central pelo qual passei ontem é Tal simpatia é considerada "conhecimento" pelo pitagó-
anciã.o decrépito, e os Alpes do outro lado do lago (dos ricos. Concebiam eles o mundo como contexto de coisas
quais vejo os contornos violentos) estã.oem plena puber- ,; que vibram em vários ritmos, e conhecimento como sim-
dade. Não se trata mais de preconceito: vejo-o nitidamen- patia com todos os ritmos. Tal conhecimento era possível
te no fenômeno mesmo. Mas isso é importante: não o te- graças à matemática e à música, porque estas são as estru-
ria visto, se não tivesse nutrido o preconceito. turas de todos os ritmos possíveis. Se olhar a montanha
Vejo também que embora a montanha seja processo como a olho agora, estou vendo-a pitagoricamente: estou
de estrutura diacrônica semelhante à do meu carro e da tentando descobrir a sua essência, isto é, seu ritmo. Mas
minha mão, há esta diferença: minha própria biografia com esta diferença: não creio mais que posso chegar até
engloba a do meu carro, e é englobada pela da monta- lá matematicamente. Sei que a matematização da monta-
nha. Meu carro é acidente na minha vida, e minha vida nha terá por consequência várias ciências da natureza, e
é acidente na história da montanha. Isto doravante não é não a descoberta da essência da montanha. Porque a ma-
preconceito: posso vê-Io se olhar meu carro, minha mão temática nã.o é a estrutura de todos os ritmos possíveis,
e esta montanha. Vejo concretamente que o carro é mais mas apenas a do intelecto humano. ~anto à música,
efêmero que a mão, e a mão mais que a montanha, e vejo nada sei a respeito da sua eficiência como método para
descobrir essências de montanhas. Pouco tem sido ela
que tal fato nada tem a ver com o tamanho e o material da
coisa. O carro é maior que meu corpo, mas vejo que posso utilizada com este propósito no curso da minha cultura.
sobrevivê-lo. O carro é feito de aço que é mais durável que Mas suspeito que ela tem ritmo humano tanto quando a
o material da montanha (para nã.o falar do material do matemática, já que é parente próximo desta. Olho a mon-
meu corpo), mas vejo que a montanha sobreviverá ao car- tanha mais ou menos como o fez Pitágoras, sinto, como
ro. A diferença está no ritmo das três coisas (carro, mão, ele, o ritmo da montanha. Mas perdi a convicçã.ode que
montanha), e eu vejo, por mais incrível que isto seja, tal tal ritmo é articulável matematicamente, e que números
diferença. Aquilo que chamamos "vida" é processo com são a essência da montanha. Se perder convicções é ser
92 Naturabmentc VILÉM :FLUSSER 93

mais ingênuo, sou mais ingênuo que ele. Estamos, ele e eu, fazê-lo? ~e responda a tal pergunta quem conseguir
nos dois extremos opostos do processo chamado "história penetrar mais profundamente a essência da montanha.
da ciência da natureza". Ele ignorava tudo a respeito de pte- Tarefa perfeitamente viável por múltiplos métodos dife-
rodáctilos, e eu ignoro tudo a respeito da essência da mon- rentes do meu (todos eles deliberados). ~anto a mim,
tanha. A história da ciência é um processo ao longo do qual procurarei passar algum tempo no seio da montanha.
diminui o saber "essencial" e aumenta a "ingenuidade". Não enquanto nômade, nem montanhês, nem criança,
Não posso entrar em simpatia com a montanha. Pois nem turista, mas enquanto quem não consegue e nem
tal incapacidade minha é uma maneira pela qual a monta- quer suspender determinados preconceitos a respeiro do
nha se revela. Revela-se coisa cujo ritmo pode ser sentido, ': Jura. Enquanro quem está condenado a viver com tais
medido, até manipulado, mas não absorvido existencial- preconceiros e, às vezes, está até gostando disso. Outro
mente. Isto é um aspecto da essência da montanha: ser tipo de ingenuidade?
coisa que obedece a ritmo existencialmente incaptável.
A fé pode remover montanhas, e buldôzer pode fazer o
mesmo. Mas nada pode fazer com que capte o seu ritmo.
Está lá, parada e muda, passiva em sua beleza majestosa,
e agora que subi nela vejo que suas rochas sincronizam a
sua diacronicidade em camadas paralelas, fazendo do "an-
terior" o "mais baixo". Vejo como se desfralda sob o sol de
outubro, com chamas das cores da sua floresta. Sei e sinto
a pulsação da qual é possuída, mas não posso pulsar com
ela. É demasiadamente diferente do meu ritmo. É isto
que tenho em mente quando digo "montanha": ritmo in-
captável a despeito de todo conhecimento. No entanto,
se não existisse o conhecimento, tal essência não se teria
revelado. Tivesse eu suspendido o conhecimento, a mon-
tanha se teria calado a respeito do seu ritmo incaptável.
Não consegui suspender meu preconceito com res-
peito a uma determinada conotação de nome "Jura". T al-
vez não quis suspendê-lo? Tive eu razão por não querer
A falsa primavera

A paisagem que vejo quando olho pela janela não


é como deve ser, e as coisas lá fora não sabem como se
comportar. É meados de fevereiro e a paisagem deveria
estar coberta pelo manto do inverno. Os prados deveriam
dormir, protegidos pela neve. Os riachos e as cachoeiras
deveriam estar aguardando, parados e congelados, a for-
ça libertadora do sol de março. Os pinheiros deveriam
estar carregando, altivos, a sua ornamentação de cristais
brilhantes. As macieiras deveriam parecer mortas, com
seus ramos contorcidos, nus, clamando pela ressurreição
em forma de flor e folha. As corças e os veados deveriam
ter deixado seus rastros sobre a neve, já que deveriam ter
descido até o vale em busca de alimento. As únicas coisas
móveis na paisagem vistas pela minha janela deveriam ser
uns corvos no centro do gramado coberto de neve, uns
pardais no terraço buscando migalhas e o cachorro felpu-
do do vizinho afundando desajeitadamente as patas na samento do Ocidente. Se digo que a paisagem não é como
neve. O azul do céu matinal deveria estar contrastando deve ser, estou falando em justiça ("diké"). Se digo que as
com a brancura brilhante da paisagem na transparência coisas não sabem o que fazer (o prado, as cachoeiras, os
de um ar a dez graus abaixo de zero. Assim deveria ser a pinheiros, os pássaros, as corças), não estou antropomor-
cena. Mas a que vejo é diferente. fizando as coisas. Estou vendo-as como se fossem órgãos
O prado na frente da minha casa é de uma cor cin- de um superorganismo vivo e, neste momento, doente
zenta de palha, mas deixa entrever em determinados lu- ("cosmos"). ~ando estou descrevendo a desordem lá
gares um leve tom verde, como se estivesse acordando de fora, estou falando em ritmo ("pathos"). Em suma, o que
um sonho perturbado. No flanco das montanhas as ca- estou vendo pela minha janela é "natureza" no sentido
choeiras descem por rochas nuas que a neve descobriu ao de "physis". O que vejo é que as coisas naturais têm difi-
ter-se retirado para alturas acima de 1.200 m. Os pinhei- culdade de encontrar o seu lugar justo na natureza, que,
ros são verdes como o são em julho. As macieiras, quan- portanto, a situação que vejo não é natural, e, por isso, é
do olhadas de perto, parecem cobertas de leves suspeitas falsa. A situação natural, agora em meados de fevereiro, é
de botões e brotos. E o terraço está cheio de pássaros de a situação de inverno. O que vejo é falsa primavera.
canto, de peito azul, ou vermelho, ou amarelo, ou de bico Repito: não escolhi as categorias aristotélicas inten-
preto e amarelo. Não conheço as espécies, mas sei que de- cionalmente. Como poderia ter feito isto ? Tais categorias
veriam estar na África, e não nos Alpes. Em suma, a pai- não são as minhas. Jamais diria intencionalmente que a
sagem é como deveria ser em fins de março. Não, retifico. paisagem não é como deveria ser em fevereiro. Nas minhas
Se estivéssemos realmente em fins de março, o prado es- categorias, o "dever ser" se refere à cultura, e a natureza é
taria todo levemente verde, e as primeiras flores estariam isenta de valores. De modo que, para mim, a paisagem não
brotando nele. Os insetos estariam sobrevoando o prado, é como deve ser, se houve erro na plantação das macieiras.
de modo que os pássaros não estariam no meu terraço, Jamais diria eu intencionalmente que as coisas não sabem
mas caçando os insetos. E os pinheiros não seriam verdes como se comportar. Nas minhas categorias, as coisas não
como em julho, mas daquele verde-claro típico da prima- "sabem". Obedecem as regras de um jogo ("leis da natu-
vera. O que vejo pela janela não é primavera. reza") que as determinam. Jamais diria intencionalmente
Não resta dúvida, a descrição da vista da minha ja- que a primavera que vejo é "falsa". Nas minhas categorias,
nela é aristotélica, mas não o é intencionalmente. Minha a falsidade é propriedade de sentenças, ou, em sentido di-
paisagem impõe sobre a descrição as categorias aristotéli- ferente, é aspecto estético de obras humanas. E, intencio-
cas, aparentemente superadas há tantos séculos pelo pen- nalmente, jamais afirmaria que a paisagem ao meu redor
98 Natural:mentc VILÉM FLUSSER 99

sofre de alguma injustiça por ter sido perturbada a sua or- Não posso negar que as categorias foram impostas
dem. Diria que há, no caso, várias "ordens" superpostas e sobre mim de alguma maneira pelas coisas mesmas. Os
interferentes. Uma de tais ordens é a da rotação da Terra pássaros no meu terraço, que lutam pelas migalhas que
em torno do seu eixo ("inverno - primavera"). Outra é a minha mulher lá colocou, sofrem "realmente" a falta de
dos ventos, determinada, entre outros fatores, por ptoces- insetos. "Realmente" não é "natural" que as macieiras se
sos solares. "Explicaria", intencionalmente, a situação em abram agora, já que os botões vão morrer com o próxi-
meu redor por irrupção de ventos oceânicos quentes nos mo frio que fatalmente vQltará a cobri-Ias de neve. "Real-
vales alpinos, irrupção pouco provável, mas perfeitamen- mente" não é "justo" que a neve se tenha retirado para tão
te possível e, em tese, previsível. Não há, pois, nas minhas alto, porque com a próxima nevada se formarão lençóis
categorias de captação da situação, lugar para conceitos sem substrato e, portanto, avalanches. De forma que "re-
"morais" como é o da justiça. almente" pássaros, macieiras e neve estão desorientados.
Digo mais: creio saber como surgiram as categorias Estão sendo "realmente" enganados e não "deveriam fa-
aristotélicas, porque vingaram durante a Idade Média, e zer" o que estão fazendo. Não parece ser Aristóteles quem
porque e como foram superadas no Renascimento. Creio diz isto, mas as coisas mesmas.
que tais categorias são resultado de determinada práxis e É clato que posso me safar do problema epistemo-
determinada ideologia característica da Antiguidade tar- lógico que está surgindo e atravessando meu caminho e
dia. A saber: da práxis artesanal e da ideologia latifundiá- minha garganta, de pelo menos duas maneiras. Posso di-
ria e mercantil ateniense. Creio que tais categorias conti- zer que é Aristóteles, afinal de contas, quem está falando,
nuaram em vigor durante a Idade Média, por terem sido e não as coisas mesmas. Porque Aristóteles mora em mim,
adaptadas à ideologia feudal (eclesiástica), para constitu- bem perto da superfície da minha consciência, lá dorme
írem apologia da estrutura social então vigente. E creio sono leve, e foi despertado pelos acontecimentos lá fora.
que tais categorias foram substituídas por outras por uma Os ventos oceânicos que invadiram meu vale provoca-
burguesia revolucionária com práxis e ideologia diferen- ram em mim recaída epistemológica de mais de dois mil
tes. De modo que creio saber que as categorias aristoté- anos. E posso também dizer que os pássaros, as macieiras
licas reRetem um "estar-no-mundo" humano histori-
e a neve de fato falam nas categorias aristotélicas, porque
camente determinado e há muito superado, e não uma Aristóteles formulou tais categorias em observações su-
suposta "estrutura objetiva" da realidade. E, no entanto, perficiais como a minha. Mas que pássaros, macieiras e
recorri a elas espontaneamente ao descrever a paisagem neve passam a falar em categorias mais" avançadas", quan-
que me cerca. do observados mais cuidadosamente e com métodos mais
100 Natural:mente VILÉM FLUSSER 101

refinados. De modo que as categorias nas quais falam as e Aristóteles é menos plausível. Mas há, no Brasil, ao con-
coisas dependem da atenção que lhes presto. E que lhes trário daqui, divisão dramática entre dia e noite, por não
estou prestando, ao descrever a paisagem, atenção "super- flutuar tanto, como aqui, a duração do dia ao longo do
ficial" (aristotelizante). Ambas as maneiras de me safar do ano. Pois imaginemos que, em São Paulo, em determina-
problema são igualmente "boas", e, se analisadas, talvez da noite, o sol nasça às três horas da manhã, mas de forma
sejam redutíveis uma sobre a outra. Mas não me satisfa- que se possa ver que se porá de novo dentro de meia hora.
zem, e o problema persiste. Não seria acontecimento impossível no sentido rigoroso
Não me satisfazem porque não posso crer que a do termo. Apenas acontecimento infinitamente menos
primavera que vejo é "falsa" apenas se eu a olhar superfi- provável que a irrupção do vento oceânico nos vales al-
cialmente, e passa a ser fenômeno meteorológico perfei- pinos. Se trataria de falsa manhã, muito mais falsa que a
tamente "normal" se eu a olhar mais atentamente. Creio falsa primavera aqui descrita, por muito menos provável,
que a situação em meu redor é ambas as coisas: fenômeno mas de acontecimento do mesmo tipo. ~e acontece-
meteorológico normal e falsa primavera. E que isto não ria? Ficaríamos todos loucos, os homens e as coisas. Em
depende da atenção que lhe presto. Apenas acontece nada adiantaria dizer que a loucura não é razoável, que
que vejo o fenômeno meteorológico se olhar a situação é primitiva, e que o fenômeno é perfeitamente explicá-
de uma das duas maneiras, e falsa primavera se a olhar da vel quando observado mais atentamente. ~e houve, por
outra. Admito que tenho várias maneiras de olhar a coi- exemplo, interferência da estrela "Proxima Centauri" no
sa, e que meu olhar provoca diferentes aspectos na coisa. nosso sistema solar, muito rara, mas em tese perfeitamen-
Mas não posso admitir que tais aspectos foram postos lá te previsível. ~e se trata, pois, de fenômeno normal, que
por meus olhares. Os pássaros falam linguagem expressiva confirma, e não invalida, as categorias da astronomia. Um
demais, e imperativa demais para eu poder admitir isto. argumento assim não adiantaria. Ficaríamos loucos todos
No presente caso são os pássaros mesmos que exigem ser a despeito dele. Porque embora o argumento seja "verda-
olhados aristotelicamente. Se eu me transportar mental- deiro", a manhã continua sendo falsa.
mente para o Brasil, o problema se tornará possivelmente No caso hipotético da falsa manhã paulista, a lingua-
mais claro. gem do Sol não imporia sobre nós categorias aristotélicas
No Brasil, o ritmo das estações não é perfeitamente (como faz a falsa primavera), senão categorias muito mais
articulado. Não há, como aqui, diferença essencial entre antigas. Categorias primordiais do tipo "Rá", e "Aton", e
meados de fevereiro e fins de março. De maneira que a "Marduk" e "Chemech". Mitos solares. Por ter rompido
"physis" é menos dramática (a Páscoa é menos patética), o Sol na falsa manhã paulista, tais categorias mÍticas pri-
102 Natllrahmente

mordiais, ficaríamos loucos. E por ter rompido o vento Prados


aqui apenas categorias aristotélicas, não ficamos loucos,
apenas desnorteados. Pois todas as categorias (as míticas,
as aristotélicas, as da ciência moderna, e outras) são for-
mas nossas de ver as coisas. Historicamente explicáveis
como produtos da dialética entre práxis e ideologia. Mas
nem por isto aleatoriamente impostas sobre as coisas. Pelo
contrário, reveladoras de determinadas camadas nas coi-
sas. No entanto, curiosamente reveladoras. As categorias
espelham "algo" das coisas, mas o fazem, todas, de forma
aproximada. As coisas podem romper as categorias: todas.
Pode haver falsa manhã e falsa primavera, e pedras podem
cair com aceleração não geométrica, em suma: todas as
categorias podem ser "falsificadas" pelas coisas. ~ando
~ando os observo, recortados na massa compac-
isto se dá, ficamos desnorteados, ou enlouquecemos, ou
ta da floresta, formando clareiras de suave luz na som-
simplesmente elaboramos novas categorias. Igualmente
bra misteriosa que os cerca, não é tanto em Heidegger, o
"falsificáveis". E a nossa reação às falsificações dependerá
glorificador dos prados, que penso. (Embora não tenha
da profundidade das camadas na nossa consciência (e nas
a certeza se o leitor brasileiro se dá conta que "Heideg-
coisas), nas quais as categorias estão localizadas.
ger" significa" cultivador das clareiras na floresta".) Penso
Não vivemos, pois, em uma, mas em muitas natu-
mais no seb'lwdo verso das Metamorfoses, onde é descrita
rezas. Na natureza captável pelas categorias da nossa ci-
a situação na Idade de Ouro: "Sponte sua sine lege fidem
ência da natureza. Na "physis" aristotélica, na natureza
rectumque colebant", isto é, "espontaneamente, sem lei,
cheia de deuses, na natureza criada por Deus. Todas essas
cultivavam a fé e aquilo que é certo". Lido no seu contex-
naturezas estão lá, fora da janela, mas também cá dentro.
Interferem, "realmente", uma na outra. E, por vezes, uma to, e lido no ginásio, o verso impressiona pela beleza da
delas predomina. Como, neste momento, está predomi- sua música, pela elegância das suas palavras, e pela gran-
nado a "physis" aristotélica por ter sido rompida na forma diosidade do seu ritmo. E quanto ao seu significado se-
da falsa primavera. Irrompeu, por ter sido rompida. E isto mântico, este parece estar ligado às últimas palavras do
não é mais uma "explicação", mas depoimento de vivên- verso precedente: "quae vindice nuHo" (na ausência de
cia concreta. juízes). Mas relembrado o verso durante a observação de
104 Naturabnente VILJ~M FLVSSER 105

prados, a sua carga semântíca adquire dimensões novas. sexual ("actio") pelo qual o campo ("ager") se tornava co-
E é pratícamente inevitável relembrá-lo para quem tem lhível (agricultura). Mas não imediatamente. Era preciso
"cultura clássica",já que se trata de verso que se gravou esperar para poder colher ("colere") aquilo que nascerá
profundamente na sua mente. no campo ("natura"). Tal esperar e a esperança do senhor
Relembrando o verso assim, toda palavra vai adqui- em sua virtude imperial e imperiosa eram "cultus". Em
rindo uma aura de significados que penetra a visão do suma, "colere" é a vitória, pacientemente esperada, da vir-
prado. Merece ser analisada. Mas a palavra decisiva é a úl- tude dominadora e imperiosa sobre a natureza, e resulta
tima: "colebant". Duvido que sejapossível, na atualidade, em cultura.
traduzi-Ia adequadamente. Perdemos a vivência do verbo O prado pacífico que observo, cercado do mistério
"colere", embora possamos ainda vivenciar dois dos seus da floresta, vibra com o clima de tal significado do verbo
substantivos derivados: "cultus e "cultura". Dizer que "colere". É pacífico, por ser campo de batalha vitoriosa.
"colere" significa "colher", ou "cultivar", ou "cultuar", ou "Pax romana" é sinônimo de "Imperium romanum", em-
"esperar por", é não ter compreendido o seu clima. Por bora tenhamos esquecido que pacifismo e imperialismo
certo; o clima é de agrícultura, é estético e religioso, e é se confundiam originalmente. O prado é pacífico, porque
submisso, mas há, em tal clima, algo mais que nos escapa. tem sido dominado pela virtude paciente há muito tem-
Se o verso afirma que os nossos mÍtícos maiores "colhiam po. É difícil para nós captarmos, intelectualmente, que
a fé e o certo", é principalmente a esse algo que está alu- ação e paixão, atividade e passividade, são os dois lados da
dindo. Mas o prado pode ajudar-nos a captar tal algo. mesma atitude: da atitude que transforma natureza em
O prado ou o campo, em latim, é chamado "ager". cultura. Intelectualmente é difícil, mas é fácil vivencial-
Mas já que "ager" e "actio" são os substantivos do verbo .mente na contemplação do prado. O prado irradia a sín-
"agere", talvez seria melhor dizer que, para os romanos, tese pacífica de uma atividade e passividade milenar, isto
prado e campo eram "campos de ação", isto é, campos de é, irradia natureza domada.
batalha. Batalha contra que inimigo? Contra o próprio As encostas da montanha, que agora carregam os
campo. A meta era dominar o campo. "Dominar", isto é, prados cercados de florestas, outrora devem ter sido co-
submeter à casa ("domus"). ~em lutava no campo con- bertas de floresta densa. Outrora, mas não sempre. Na
tra o campo era "dominus" (senhor da casa). Era "macho" última época glacial devem ter sido cobertas parcialmen-
("vir") e lutava com "machismo" ("virtus"). Em "virtude" te de geleiras, e parcialmente de tundra. Nessa tundra,
("virtus") de tal machismo o campo se submetia ao domí- os nossos antepassados devem ter caçado renas e cavalos.
nio ("imperium") da casa ("domus"). Tratava-se de ato· Depois, a floresta avançava impiedosamente com o recuo
106 Natural;mente VILÉM FLVSS.ER 107

do gelo, mas os nossos antepassados não recuaram, embo- a enfrentamos. Mas, assim mesmo, não exemplificam o
ra ameaçados de fome pelo desaparecimento dos animais estar-no-mundo dos nossos maiores. Representam, pro-
da tundra. Não eram animais, os nossos antepassados, vavelmente, um modo de vida regressivo, e certamente
eram "domini", tinham virtude, agiam e tinha paciência, um modo de vida ultrapassado pela maioria da huma-
eram cultos. Não recuaram como recuaram os animais da nidade. Os nossos antepassados, pelo contrário, eram
tundra, nem se adaptaram à floresta que avançava como vanguarda do exército do espíriro humano que avançava
se adaptaram as espécies que agora habitam. Enfrentaram contra a natureza. A pedra e o fogo eram armas por eles
a floresta, altivos e retos: "fidem rectumque colebant". E inventadas e elaboradas revolucionariamente, e a ideia
a enfrentaram, não por terem sido obrigados a fazê-Io: do prado a ser escolhido e cultivado era fruto de fantasia
"sine lege". Enfrentaram-na por terem sido gente: "spon- revolucionária, utópica e previamente jamais imaginada.
te sua". Espontaneamente, isto é, segundo a sua natureza Não eram primitivos, no sentido de terem sido menos so-
de homens. É, portanto, natural que tenham aberto cla- fisticados na sua reflexão ou na sua práxis que as gerações
reiras na floresta para dominá-Ia. Em virtude de terem presentes. Pelo contrário, se procurarmos intuir sua ima-
sido homens, é natural que nossos antepassados "esco- ginação, sua disciplina e seu rigor de pensamento e ação
lheram" = "excolebant" determinados lugares na floresta (por exemplo, se procurarmos intuir a mente do inventor
para transformá-Ios em cultura, em prados. do arco), devemos concluir que suas capacidades mentais
Sabemos aproximadamente como agiam. Avan- nada deviam às da nossa mais refinada elite.
çavam contra a floresta com pedra e fogo. Mais difícil é Temos provas dos Edisons entre as supostas "hor-
intuir como escolhiam. Para poder escolher determina- das" desbravadoras de prados (cerâmica, limas de pedra,
do lugar em contexto dado, e para poder recusar todos os agulhas de osso). Somos obrigados a admitir os Einsteins
demais lugares, é preciso estar além do contexto, vê-Io de entre eles (os que calculavam o trajeto da flecha e o princí-
fora. A dificuldade que temos é a de intuir tal transcen- pio da cunha). Temos provas dos seus Picassos (a elegân-
dência em gente tão "primitiva" como presumimos terem cia dos ornamentos). Somos obrigados a admitir os seus
sido os nossos antepassados. É que tendemos a compará- Kants (os que criticavam o princípio da cunha e a elegân-
los com os indígenas atuais, e nem sequer avaliam,os bem cia dos ornamentos), e os seus Kafkas (os que procuravam
como os indígenas atuais estão no mundo. Esses indíge- um sentido por trás de tal ação e paixão). Devemos, pois,
nas que vivem em nível paleolítico, como os nossos an- imaginar os diálogos em rorno das fogueiras nos prados
tepassados dominadores da floresta, seguramente enfren- recém-cultivados mais como reuniões de pesquisa e re-
tam a natureza pela mesma transcendência pela qual nós flexão avançadas, e menos como os "potlachs" atuais dos
108 Natural:mente
VILÉM FLUSSER 109

Índios nas Aleutas. Do contrário, não compreenderemos Mas o prado, se consultado, dá a resposta. Embora
a elegância, a perfeição funcional e a suavidade arrojada saibamos ser ele produto da cultura, e embora possamos
dos prados nas encostas da montanha. Aquilo que OvÍ- descobrir na sua "Gestalt" e nos seus mínimos detalhes a
dio chama de "fidem et rectum". E a observação do prado mão e o espírito humanos, não podemos negar ser ele par-
permitirá também penetrar um pouco no clima religioso te integrada da natureza. Digo mais: a vivência do prado,
dos nossos antepassados. A saber: o que OvÍdio tinha em da sua erva, das suas flores, dos seus insetos e até das vacas
mente ao dizer que os nossos antepassados da Idade de que nele pastam é uma das mais intensas vivências de na-
Ouro "fidem colebant" (cultuavam a fe).
tureza que podemos ter, e deitar num prado ensolarado
O termo "rectum" ovidiano não nos causa demasia-
é entrar em comunhão com a natureza. Tal vivência não
da dificuldade, porque o prado prova estar no lugar certo,
é facilmente explicável. Não, por exemplo, dizendo que
correto, adequado. O critério da "retidão", que, de acordo
com OvÍdio, os nossos antepassados aplicavam esponta-
° prado emana o clima de natureza intensificada por ter
sido conquistado há tantos milhares de anos, e que um
neamente, é critério econômico, técnico, pragmático,
bairro industrial emana o clima de antinatureza, por ser
metódico, pelo qual os nossos antepassados superavam a
conquista recente. Isto não explica a vivência, porque a
caça e se iniciavam na agricultura. É o critério tecnocrá-
horta que cerca a casa camponesa no prado é igualmente
tico que marca a passagem do paleolítico para o neolítico
antiga, mas não nos impressiona sendo natureza. Não é a
(da Idade de Ouro para a Idade de Prata). (Embora OvÍ-
sua idade, nem a sua localização, nem a sua flora a fauna,
dio talvez não tenha exatamente isto em mente. Porque
nem aspectos da mesma ordem que tàzem com que o pra-
"rectum", para os romanos, faz parte do trinômio "pul-
do, por ser cultura, é natureza intensificada. É, o critério
chre, bene, recte" (belo, bom, correto), portanto, implica
de acordo com o qual foi escolhido para deixar de ser flo-
a noção da verdade). Mas, seja como for, podemos con-
resta e passar a ser prado. A saber: ".fides".
cordar com OvÍdio que o prado observado confirma que
um dos critérios da escolha na transformação da natureza Em virtude de serem homens, os nossos antepassa-
dos tinham ".fides", isto é, eram .fiéis a si próprios, à sua
em cultura foi o da adequação às metas econômicas visa-
própria natureza, e à natureza que os cercava. Eram-no es-
das. A prova disso é que os prados continuam funcionan-
do economicamente até os nossos dias, e que o agricultor pontaneamente, sem dogma nem ideologia ("sine lege").
montanhês que os habita vive deles, e muito bem, como Viviam de acordo e em acordo consigo e com o mundo no
deles viviam os nossos antepassados. O problema é, repi- qual estavam (Idade de Ouro). Esta era a sua religiosidade
to, o de saber o significado do segundo critério, chamado ("fides''): ser fiel ao que sou e ao que me cerca. Mas tal
por OvÍdio de "fides". fidelidade não é, como tendemos a pensar, "adoração pri-
110 Naturahmente VILÉM FLUSSER 111

mitiva da natureza". Não é um render-se ("super-stitio" às prado por eles criado há tantos milhares de anos. O prado
forças da natureza. Porque tal rendição não é natural ao nos permite (como permitiu a Ovídio) captar também o
homem e, portanto, não é fidelidade à natureza humana. significado do primeiro verso do epos: "Áurea prima satã
Ser fiel a si próprio, para o homem, é ir contra a natureza, est aetas quae vindice nullo". (No início foi semeada a
utilizar o critério do "rectum". A natureza não é como Idade de Ouro, e não havia juízes.)
deve ser, e deve ser retificada, e isto é atitude de fidelidade
à natureza humana. Portanto, "fidem rectumque" não é
contradição, mas complemento. "Pides" é o aspecto pas-
sional, paciente e passivo, "rectum" o aspecto dramático,
ativista e ativo da virtude humana, pela qual a natureza
é transformada em cultura. O prado é como é (a saber:
natureza intensificada) por ser articulação da fidelidade à
natureza. Ao terem transformado os nossos antepassados
a floresta em prado, provocaram nela a essência natural e
a salientaram. Continuavam fiéis a ela. O prado, por ser
cultura (e não a despeito de ser cultura), é essencialmente
natureza. Porque foi produzido sob o critério de "fides".
Sob o critério de uma religiosidade integrada.
Os nossos antepassados não eram paisagistas. Não
visavam integrar a cultura na natureza. Não sentiam con-
tradição entre cultura e natureza. Não "fidem rectumque
colebant", isto é, sintetizavam fé com tecnologia, e, ao
produzirem cultura, revelavam a essência da natureza.
Não eram, como os paisagistas, alienados da natureza em
procura da superação da alienação por ação deliberada.
Para eles, cultura era o que é natural ao homem e, portan-
to, apropriado à natureza toda. E podemos nós, seus des-
cendentes alienados, sorver ainda um pouco a sua inte-
gração característica da Idade de Ouro, ao deitarmos em
Ventos

Em certas noites, o vento cerca minha casa com fú-


ria desesperada, por não poder derrubá-Ia, ou pelo menos
entrar nela por alguma janela ou porta entreaberta. Em
tais noites, minha casa se transforma naquele castelo for-
tificado que resiste aos elementos do qual trata tanta li-
teratura passada. Efetivamente, sinto-me abrigado e em
paz comigo mesmo e com o mundo, enquanto o vento
procura sacudir os alicerces da casa. Sei que o vento não
conseguirá entrar, e que nisto se distingue de ladrões e da
polícia secreta. Tenho confiança na solidez da construção
da casa (cultura), com relação à força enorme, mas cega,
dos elementos da natureza. Mas não confio na construção
quando se trata de resistir a forças menores, mas dirigidas,
como o são as da cultura. Minha casa não resistirá nem à
polícia, nem a ladrões, nem muito menos a bombas. Nem
sequer a uma ordem da Prefeitura para derrubá-Ia. Mas a
114 Natural:mentc VILÉM FLUSSER 115

diferença entre vento e polícia não pode ser a diferença invisível, e isto confunde o nosso conceito de "realida-
entre cegueira e ação planejada. Para mim, o vento, em- de" que é conceito visual, não auditivo. Confunde, por
bora cego, é previsível por boletim meteorológico, mas a exemplo, a hierarquia imposta sobre a nossa mente pela
polícia ataca de surpresa. É que o vento obedece a uma sintaxe das nossas línguas. Tal hierarquia é nítida quando
ordem cega, mas publicamente conhecida e, portanto, se trata de coisas visíveis.Na sentença "o sol brilha", não
manejável. A polícia, os ladrões e as bombas obedecem há dúvida de que "sol" é o sujeito e "brilha" o predicado.
a ordem parcialmente secretas, parcialmente muito mal Mas a sentença "o vento uiva" é reversível. "Uivo" pode
conhecidas, e parcialmente contraditórias e, portanto, ser o sujeito e "venta" o predicado. O vento é essencial-
não manejáveis. A Prefeitura, que obedece a ordens apa- mente fenômeno acústico (onda sonora). O sol, no en-
rentemente emanadas do público, aparentemente emite tanto, emite ondas, é o substantivo das ondas. O vento é
ordens públicas, e me permite aparentemente adaptar-me o próprio verbo, embora substantivado. A rigor, o vento
às suas ordens e influir nelas, é na realidade força contra é impredicável. Dizer que o vento uiva é dizer tautologia.
a qual toda proteção é ineficiente. É que a força do ven- Há coisas na natureza que são visíveis, mas inaudí-
to é quantificável, mas ainda não é possível dizer-se que a veis. O sol, a lua, as estrelas, em suma, as coisas celestes.
polícia ataca em tal lugar e momento com força oito. As Coisas "substantivas". Por serem inaudíveis, são distan-
ciências da cultura ainda não alcançaram e talvez jamais tes e não podemos aproximar-nos delas. Porque a vista
alcançarão a exatidão das ciências da natureza. O terror é sentido que nos separa das coisas, e o ouvido sentido
outrora provocado pelo furacão o é agora pela bomba. que nos mergulha nelas. O mundo visto é circunstância,
Mas o terror da bomba é profano. O sacro terror foi supe- o mundo ouvido é mundo participado. As coisas da na-
rado pela solidez da construção da casa. tureza que são audíveis, mas invisíveis, como o furacão e
No entanto, não se pode negar que algo da sacralida- a brisa, penetram por nossas narinas, bocas e poros. São
de perdida ainda cerca o vento. ~ando uiva em torno da coisas "verbais", não "substantivas". São vozes que nos
minha casa posso ainda vivenciar, embora palidamente chamam. Correm em sentido contrário ao das nossas
(porque protegido pela casa), a tremenda mensagem que próprias vozes e podem ser incomparavelmente mais po-
o seu uivar outrora transmitia. Nas palavras de VrchIicky: derosas (como vento que uiva em torno da minha casa).
"Jeho písen stáIá, veliky jest Alá" (seu canto constante, No entanto, são essencialmente coisas do mesmo tipo das
Alá é grande). Tal mensagem se deve, quiçá, ao fato de o nossas próprias vozes. Já que tais coisas nos penetram, e
vento ser coisa invisível. É coisa e sei disto perfeitamente. já que são essencialmente como nós, são excessivamente
Pode ser medido, pesado e localizado no espaço. Mas é próximas para serem "contempladas". Portanto, não são
116 Natural:mente VILÉM FLUSSER 117

apenas invisíveis, são inimagináveis. A nossa relação com Ambas as "sacralidades" estão superadas tecnica-
tais coisas é dialógica, não imaginativa. Dois limites da mente e teoricamente. Mas não existencialmente. Em
natureza, duas "sacralidades": o limite das coisas visíveis, certas noites, quando vento cerca minha casa com fúria
mas inaudÍveis, e o das coisas audíveis, mas invisíveis. O desesperada, posso ainda ouvir a voz da "sacralidade". A
primeiro é "substancial", e é sacro por ser inaproximável. despeito da solidez da construção da casa, e a despeito
O segundo é "verbal", e é sacro por ser inimaginável. O das informações teóricas das quais disponho. Por certo,
primeiro pode ser chamado "espectral", se por "espectro" a solidez e a informação disponível interferem na men-
entendermos aparição silenciosa. O segundo pode ser sagem do vento. Mas não podem destruí-Ia. Interferem
chamado "espiritual", se por "espírito" entendermos so- da seguinte maneira: minha mente é produto de duas
pro inimaginável. tradições contraditórias e jamais satisfatoriamente sinte-
Ambas as "sacralidades" estão superadas tecnica- tizadas. Da tradição da voz e da tradição da imagem. Do
mente, e neste sentido a humanidade ultrapassou os limi- mandamento, e da ideia. Do verbo, e do substantivo. Da
tes da natureza. A Lua, uma das coisas visíveis, mas inau- decisão existencial, e da metafísica especulativa. Não pos-
dÍveis, foi, como se diz, "conquistada". De deusa passou a so simplificar o dilema ao dizer que a tradição do invisível
plataforma. E os ventos, há muito, prope1em moinhos e é a judia, e a do inaudÍvel é a grega. É dilema anterior às
duas culturas fundantes da minha mente. Já na cultura
velas. De espíritos que sopram como querem, passaram a
forças que sopram como nós queremos. E ambas as "sa- judia há elementos imaginativos, embora os profetas se
tenham esforçado por expurgá-Ios. E já na cultura grega
cralidades" estão superadas teoricamente por síntese pro-
há elementos dialógicos, embora o "logos" tenda sempre
fanizadora. O "vento" passa a ser "energia", o "sol" passa
a idealizar-se.O dilema entre "vento" e "coisaceleste" não
a ser "matéria", e um passa a ser aspecto teoricamente
reversível do outro. Formalmente falando, inventamos a é o entre "olam habá" e "topos uranikós" (o mundo que
vem e o lugar celeste), mas é o dilema muito anterior en-
linguagem da matemática, na qual não há mais substan-
tre o estar-no-mundo de quem ouve, e o de quem vê, de
tivos nem verbos, mas apenas funções relacionais. E tais
quem é chamado e se decide, e de quem tira o véu e con-
funções funcionam. Na forma, por exemplo, da Bomba.
templa. Tal dilema é insuperável, porque assumir uma
Por síntese teórica que funciona na práxis profanamos
das alternativas é amputar metade da própria mente. E
ambas as "sacralidades", os "espectros" viraram "espíri-
isto interfere na recepção da mensagem do vento que uiva
tos", os "espíritos" viraram "espectros", e o nosso terror em torno da minha causa.
é doravante profano. É o terror das equações, e é sob o
Mas não pode destruí-Ia. Porque o vento uiva, isto
"equilíbrio do terror" que vivemos doravante. é, fala. Portanto, não é coisa. Coisas não falam. O vento
118 Natural:mente VILÉM l~L USSER 119

não é um algo; é um alguém a quem devo responder, é um nem cristãos, nem muçulmanos (os que afirmam que es-
Tu que me chama para eu ser Eu. Por ser um Tu, o vento tão recebendo a mensagem "ortodoxalmente") poderão
não pode ser imaginado, concebido, conhecido e mani- admitir ser a mensagem que eu recebo a "verdadeira".
pulado. Deve ser ouvido, recebido, reconhecido e segui- Afirmarão que a voz do vento que cerca minha casa não
do. ~ando o vento é imaginado, concebido, conhecido é a verdadeira voz, e que eu estou sendo supersticioso ao
e manipulado, como é na técnica e teoria, deixa de ser permitir ao vento que fale. Mas o diálogo com tais orto-
vento, e passa a ser movimento de ar, é "objetivado". E o doxos é, para mim, difícil. Sou incapaz de ouvir as vozes
vento não é objeto: é meu outro. Não é; existe. Por isso, que eles afirmam que ouvem (as "verdadeiras"), e devo
diz Buber: "Deus não é: creio n'Ele". E Angelus Silesius: admitir que desconfio, não tanto do fato de que as ou-
"Ich Weiss, dass ohne mich Gott nicht ein Nu kann le- vem, quanto da veracidade de tais vozes. Porque duvido
ben" = sei que sem mim Deus não pode viver sequer um que sepossa eliminar as interferências teóricas e técnicas a
instante. O vento é vento para mim, se eu lhe permitir ponto de permitir a tais vozes que falem. Suspeito que os
ser vento. E se não lhe permitir, será movimento de ar, ortodoxos fazem violência contra as interferências para
e não vento. Se não lhe permitir ser vento, será proble- poderem ouvir, e que, em consequência, o que ouvem é
ma da aerodinâmica, parcialmente já resolvido. Mas se falso. Mas não insisto muito em tal desconfiança, dúvida
lhe permitir ser vento, será enigma. Se não lhe permitir e suspeita minha. Estou disposto, com leve inveja, a ad-
ser vento, perderá a voz, e passará a ser vibração em de- mitir hipoteticamente que eles ouvem o que eu não ouço.
cibéis manipuláveis. Será mudo. Mas agora, nesta noite ~anto a mim, devo contentar-me com o enigma que
em que cerca minha casa com fúria desesperada, o vento ouço no vento que uiva em torno de minha casa. ~em
fala. Porque estou disposto a ouvi-lo. Por isso, a prece que sabe, trata-se, para eles e para mim, do mesmo enigma?
diz "Chemá Israel,JHYH elohenu JHYH ekhád" (ouça, ~e deve, mas não pode, ser decifrado?
lutador por Deus, JHYH é nosso Deus, JI-IYH é um), é O vento uiva, nesta noite, em torno da minha casa.
prece e não afirmação indicativa. Diz: "ouça!" O vento Sinto-me abrigado, porque sei que, ao contrário das for-
que cerca minha casa com fúria desesperada nada indica; ças nefastas da cultura, ele não pode entrar casa adentro.
impera. Se eu lhe permitir isto. Essa é a sua mensagem. E simultaneamente procuro permitir, a despeito disso,
A despeito de todas as interferências ainda a recebo em que o vento me fale. ~e me penetre sem penetrar-me.
noites como esta.
É a dialética entre o conhecimento que se fecha ao objeti-
Por certo, as interferências fazem com que não rece- var, e o reconhecimento que se abre ao permitir ao outro
ba mais a mensagem em forma "ortodoxa". Nem judeus, que seja. Situação insustentável, porque minadora tanto
120 Natura1:menre

do conhecimento quanto do reconhecimento. Situação Maravilhas


característica do fim de um jogo, ou do início de um jogo
novo. Perda do conhecimento da fé, e da fé no conheci-
mento. Situação na qual o visível se torna invisível, e o
audível inaudível. Situação nossa, a despeito de tanta con-
versa relativa à "audiovisualidade". É preciso que o vento
uive furiosamente, para eu ainda poder ouvi-Io um pou-
co e palidamente. Mas sei que o vento que cerca minha
casa é, objetivamente falando, movimento de um gás, e sei
que, objetivamente falando, a palavra "gás" tem a mesma
raiz etimológica que a palavra "chaos". De maneira que
sei que o que cerca minha casa não tem fundamento, em-
bora seja meteotologicamente previsível e embora obede-
ça a regras cegas. Tal saber meu da falta de fundamento Sei que uma das "provas" tradicionais da existência
por baixo das regras que ordenam a natureza é um saber de Deus é que a natureza revela determinado propósito,
que já é quase um reconhecimento. É uma maneira de se isto é, deliberação criadora. Não me lembro da primeira
perder a fé no conhecimento pelo próprio conhecimento. vez em que fui exposto a tal argumento. Mas não duvido
Não é, por certo, uma conquista da "fé", no significado que isto deve ter ocorrido durante um passeio, e que deve
que os ortodoxos dão ao termo. Mas não deixa de ser uma ter sido minha ama que, ao apontar uma flor maravilhosa
abertura. Porque o "caos" do qual o vento me fala não é o ou a maravilhosa cor de um pássaro, iniciou minha ten-
acaso de um movimento browniano no gás em torno da ra mente à metafísica e à teologia. Deve ter sido minha
minha casa. É o "caos" uivante. E esta é a interpretação ama e não minha mãe, porque amas, mais que mães, ten-
que dou à mensagem do uivo: "and this is alI the wisdom dem para o romantismo. Nem me lembro quantas vezes
I I I
can reap: came like water, and like wind go". e sob que formas variadas o mesmo argumento em prol
de um Deus criador do mundo me foi repetido. Deve ter
sido muitas vezes e sob formas sempre mais complexas.
Mas lembro-me, isso sim, e nitidamente, da primeira vez
quando vivenciei a falsidade de tal "prova". Devia ter
uns oito anos e meu tio me levou à pesca. Mostrou-me
122 Natural:mcnte VILÉM FLUSSER 123

como enfiar minhocas em anzóis e a práxis da minhoca às críticas dos maiores de oito anos, e como tais críticas
na minha mão fez com que a ideologia do Deus criador podem ser formuladas a despeito da pressão formidável
do mundo maravilhoso se tenha evaporado para mim exercida pela ideologia sobre crianças de oito anos. As
definitivamente. Deve ter sido uma vivência forte, mis- perguntas teológicas perguntarão como a fé consegue
tura de nojo, dó e sentimento de culpa, mas o que deve resistir ao peso morto do dogma de um Deus-criador,
ter prevalecido foi a descoberta da estupidez brutal de como tal dogma pode ser absorvido por uma religiosida-
um suposto criador de minhocas, peixes e pescadores. É de "dialógica", e porque deve ser mantido a despeito das
difícil analisar, em retrospectiva, o que se passou então dificuldades morais, científicas e filosóficas insuperáveis.
na minha mente infantil, mas lembro-me perfeitamente Mas são as perguntas epistemológicas que interessam nes-
que deixei de crer em Deus-criador por piedade de Deus. te momento em que estou sentado no meu terraço enso-
Como se tivesse compreendido intuitivamente que a hi- larado, contemplando as maravilhas da natureza. Porque
pótese de um Deus-criador do mundo é contrária a toda foi a contemplação de tais maravilhas que motivou a lem-
fé em um Deus do amor e da esperança. Intuitivamente brança da "prova" de Deus enquanto criador da natureza.
devo ter compreendido que o Deus responsável pela mor- A cena que estou contemplando (paisagem hibernal
te da minhoca exclui o Deus ao qual recomendava toda despertando, hesitante, sob os raios provocadores de um
noite "todos os adultos e todas as crianças". É daro que sol de quase primavera) está encoberta por várias cama-
estou falsificando a vivência infantil ao dizer que "optei das "explicativas" e "interpretativas" da minha cultura:
contra o Deus dos filósofos para poder conservar o Deus por meus preconceitos. Contemplá-Ia significa exata-
existencial", mas são estas as palavras que me ocorrem na mente procurar retirar, ou furar, ou tornar transparentes
tentativa de explicar o então vivenciado. tais camadas encobridoras, a fim de vê-Ia imediatamente.
Não sei até que ponto a experiência relatada é típica, Tarefa desesperada, porque as mediações culturais que se
mas deve ser muito típica, já que aos oito anos não pode interpõem entre mim e a cena são a minha maneira de
haver muita originalidade. Pois se é típico para a idade de estar na cena. A comunicação imediata, a "unio místi-
oito anos recusar a "prova" da existência de Deus pela ob- ca", visada pela contemplação, é meta desesperada, por
servação da natureza, várias perguntas surgem. Tais per- ser, ela própria, preconceito imposto por minha cultura.
guntas podem ser ordenadas em três grupos: a) perguntas Existem métodos, técnicas, exercícios, iogas, "reduções
sociológicas, b) teológicas e c) epistemológicas. As socio- fenomenológicas" etc., que afirmam poder provocar tal
lógicas perguntarão como, por que e quando a hipótese comunicação imediata, e tal tecnicidade, por si só, já au-
do Deus-criador surgiu, de que forma conseguiu resistir toriza desconfiarmos dela. Porque parece ser contradi-
124 Narural:mente VILÉM :FLUSSER 125

tório querer alcançar o contato imediato mediante algo. da cena contemplada "repete a filogênese da arte". Não,
~erer deliberar a espontaneidade. Há um sabor empíri- por certo, "corretamente". Cometo anacronismos. E não
co e pragmático em todo misticismo que o torna amargo. estou à altura do meu tempo. No momento, por exem-
No entanto, contemplar no sentido de procurar deixar plo, estou vivenciando a cena "classicamente", e este é o
de explicar e interpretar não é empresa necessariamente primeiro motivo de eu maravilhar-me: por que será que
frustrada; embora não conduza à comunicação imediata a cena contemplada "se parece" com cenas setecentistas?
com o contemplado, pode remover preconceitos. Con- Graças às camadas éticas, estou sendo provocado
templação pode ser crítica não discursiva dos discursos pela cena a engajar-me nela ou contra ela. Não é tão fácil
explicativos e interpretativos. descobrir a estratificação de tais camadas, como no caso
As camadas que encobrem a cena por mim contem- das estéticas, talvez por ser a história da "razão prática"
plada são projeções da minha mente, a qual, por sua vez, é contraditória e cheia de recaídas. Mas posso, isto sim,
sistema programado pela história da minha cultura. Com distinguir três formas básicas, três "modelos de compor-
efeito, um método eficiente para eu me tornar consciente tamento". A cena contemplada não é como deve ser, e
da minha programação é a crítica das camadas encobrido- eu devo mudá-Ia. Ou a cena contemplada me convida a
ras da cena. Reconheço-me nas camadas encobridoras, e entregar-me a ela, ou a cena contemplada não passa de
digo mais: sou tais camadas, sou esta específica cobertura bastidores do palco no qual ajo. Sem dúvida, o fato de
da cena. Ao procurar removê-Ia estou, com efeito, procu- eu ter me lembrado da minhoca faz com que eu esteja,
rando retirar-me a mim próprio dela, para permitir à cena no momento, assumindo o primeiro modelo de compor-
que seja ela mesma. E ao procurar retirar-me, verifico o tamento. Acho cruel e revoltante a cena que vejo, vibro
que sou: sistema historicamente programado para captar com justa ira, e gostaria "remould it nearer to the heart's
a cena. Este é o primeiro passo da contemplação: verificar desire". Mas sei, simultaneamente, que tal atitude revo-
que a observação da natureza é uma crítica da história da lucionária faz parte do meu programa. E isto é o segundo
cultura. motivo de eu maravilhar-me: por que será que hoje a cena
Posso distinguir, muito nitidamente nas camadas me chama ao combate, e ontem a mesma cena me cha-
encobridoras, os famosos três tipos: as estéticas, as éticas e mou à paz do gozo passivo?
as explicativas. Graças ao primeiro tipo, estou vivencian- A lembrança das minhas minhocas provoca, na con-
do a cena contemplada hiper-realisticamente, expressio- templação da cena, principalmente a crítica das camadas
nÍstica e impressionisticamente, naturalística e romanti- explicativas. O fato é que, embora tais camadas pareçam
camente, e assim por diante. A minha vivência concreta se superar mutuamente, não se cancelam. E isto é o ter-
126 Naturahmente VILÉM FLUSSER 127

ceiro e maior dos motivos de eu maravilhar-me. Sem dú- pode criar vida e fazer com que evolua. Em tese. Pois é
vida, as camadas explicativas são "progressivas", e a mais isto que caracteriza o progresso das camadas explicativas.
recente explica "melhor" que as mais antigas. "Melhor", As mais recentes são mais formais, mais do tipo "jogo",
por sintetizar dialeticamente as mais antigas. Nisto as que as anteriores, e por isto "melhores". As anteriores são
camadas explicativas se distinguem estruturalmente dos "piores", porque dizer que Deus criou a vida nada explica,
dois demais tipos. Não tem sentido dizer que a camada não aponta as regras do jogo. E é por isto que as cama-
hiper-realista permite vivenciar "melhor" a cena que a ca- das anteriores não podem ser retiradas. Por não aponta-
mada classicista, nem que o modelo de comportamento rem regras, encobrem melhor a cena. Por não explicarem
revolucionário permite agir "melhor" sobre a cena que o "bem", funcionam melhor enquanto camadas encobrido-
modelo neutralizante. Mas tem sentido dizer que a expli- raso E por encobrirem melhor, tornam a cena visível. Na
cação da origem da vida que contemplo na cena, e que é explicação do tipo Monod, a cena se torna quase invisível:
oferecida por Jacques Monod, é "melhor" que a explica- não vejo mais a vida, vejo o jogo vazio. Para ver, preciso
ção oferecida por Darwin, e muito "melhor" que a ofere-· de mediação grossa, por exemplo, Deus. Se "refino" Deus,
cida pela tese de que "Deus é o criador da vida". Pois por não vejo maisa cena.
que, se assim é, tais camadas superadas não desaparecem? Não estou gostando disso nem um pouco. Então
Por que continuam a encobrir a cena? Esta é, com efeito, preciso de Deus enquanto criador do mundo para poder
a pergunta que foi provocada pela lembrança da minho- vê-lo, embora saiba que Deus é uma péssima explicação
ca: por que, já sei explicar a vida em torno de mim muito do mundo? Embora saiba que se assumo o Deus-criador
melhor, por que a explicação "Deus" continua a atrapa- não posso amá-Ia? Preciso de Deus para que o mundo não
lhar minha visão da cena?
se evapore em formas vazias e transparentes, embora saiba
Creio que tenho a resposta a tal pergunta, mas não que o mundo "não evaporado" é um contexto aparente
estou gostando dela. A explicação da origem da vida dada que consiste em minhocas espetadas? E mais: não apenas
por Jacques Monod é obviamente "formal": um jogo. Ele preciso e exijo tal Deus, como não posso me livrar dele?
próprio fala em "jogo da evolução do RNA" e aponta as Não estou gostando disso, e este meu não-gostar é a ma-
suas três regras: a stérica, a da complementariedade, e a do ravilha de todas as maravilhas. O mundo é maravilhoso,
cooperativismo. Dadas tais regras, a vida passa a ser expli- porque se o "descubro" desaparece, e se deixo encoberto
cável enquanto processo "necessário", no sentido curioso passa a ser horrível. E, finalmente, porque as duas alterna-
de ser necessário o acaso. E não apenas passa a ser explicá- tivas não são opções verdadeiras: sou obrigado a ambas.
vel, como, em tese, reconstruÍvel. ~em conhece o jogo, Tanto ao "formalismo" quanro ao "wormlike feeling".
128 Natural:mente

Sou obrigado tanto a "refinar Deus", quanto a crer no Botões


Criador a despeito de todas as explicações progressivas
das quais disponho.
Sei perfeitamente que a natureza, se analisada, não
revelará um propósito Divino, mas um jogo cego entre
acaso e necessidade. E sinto que, se me decidir a ver pro-
pósito na natureza, este será diabólico, não Divino. E si-
multaneamente sei que se me livrar do Demiurgo (coisa
que não posso), a natureza desaparecerá diante dos meus
olhos. Essa total confusão epistemológica, ética e estética
é minha maneira de encarar a natureza e minha maneira
de procurar superar o abismo que me separa dela. Não é
isso maravilhoso? Sim, a natureza é maravilhosa: consiste
em minhocas espetadas nas quais admiro um Criador o Os ramos das macieiras debaixo do meu terraço
qual sei que não passa de projeção de uma dialética creti- mudaram desde ontem. ~ando os vi pela última vez pa-
na entre acaso e necessidade. reciam elementos de uma estrutura vazia e eram, como
convém a elementos de estrutura, cinzentos, nus e cla-
ros. Com efeito, a horta que cerca minha casa oferecia
ontem visão "estrutural" e "formal" em sentido radical
de tais termos. Era contexto composto de estruturas do
tipo "árvore", isto é, de formas ramificadas. Por certo, es-
sas "árvores" eram estruturas complexas. Os ramos não
apenas partiam do tronco em lugares geometricamente
determináveis, para depois se bifurcarem diversas vezes e
hierarquicamente. Havia também um elemento pertur-
bador da ordem. Os ramos se contorciam, pareciam re-
cruzar-se em vários lugares, e alguns dos ramos eram mais
fortes que outros. Mas isto não os impedia de servirem
de modelos de estrutura. Pelo contrário, por terem sido
I
130 Naturabnente

v,Ü. 'cem, m
I

estruturas complexas, serviam melhor para serem preen- ramente possível para o efetivamente real foi dado. O fu-
chidas de conteúdo. Minha visão das macieiras projetava turo se transformou em presente. Ontem, a flor estava no
nelas vários conteúdos. Por exemplo: esta macieira aqui futuro das macieiras, hoje está presente.Para as macieiras
"ilustrava" a estrutura da evolução da vida, esta outra a es- soou como trombeta durante a noite: estão todas muda-
trutura da genealogia das línguas flexionais, e esta terceira das. Tal revolução ontológica não me permite mais vê-
a estrutura das ciências da natureza. Este ramo aqui "re- Ias como se fossem estruturas. Sou obrigado, doravante,
presentava" o ramo dos vertebrados, e este outro o ramo a vê-Ias como se fossem tendências rumo a um destino.
das línguas latinas, e este terceiro o ramo da química inor- Tendências rumo à flor e ao fruto. Não que seu aspecto
gânica. E a visão da minha horta permitia, ontem, jogo estrutural tenha sido eliminado. Mas está "aufgehoben".
divertidíssimo da fantasia. Esta macieira aqui não servia As estruturas agora sustentam um processo. Processo que
para Darwin, porque seus ramos tendiam a formar copa visa à meta determinada. Maçãs, e não a casa dos Habs-
horizontal, mas servia muito bem à genealogia da casa burgos ou a genealogia das línguas são doravante o "con-
dos Habsburgos. E esta outra macieira era indicada para teúdo" da forma das macieiras. Tal milagre (porque todo
a genealogia linguística, porque vários ramos se entrecru- salto ontológico, toda revolução é milagre) se chama "pri-
zavam para depois se separarem, e porque o tronco era mavera". E não importa que se repita todos os anos. Não
. composto de vários sub-troncos. importa, no "kykIos tés genéseos", que se trata de cicio. O
Tal jogo da fantasia não é mais possíveL A razão é que importa é que se trata de geração, do surgir de algo
que choveu durante a noite, e hoje, quando abri a janela, novo. A forma da geração, do processo revolucionário,
vi que os ramos das macieiras mudaram. Estão cobertos de se superpõe sobre a forma do cicio, da repetição, e este é
botões que sei (embora não os veja) que serão flores bran- o milagre. O eterno retorno como vontade do poder, o
cas e rosadas. Por enquanto, são botões modestos, pertur- botão de todo março como revolução, Nietzsche e Marx
bações leves e apenas visíveis da superfície lisa dos ramos. como irmãos gêmeos, eis como sou obrigado a "ler" as mi-
Uma espécie de doença da pele das macieiras. Mas sei que nhas macieiras.
tal doença é sintoma de saúde. As macieiras despertaram O que vejo, pois, ao olhar minha horta, não é mais
durante a noite para o seu destino. O "virtual" neles (a visão estrutural, mas trágica: vejo o destino. Por isso disse
flor) irrompeu, chegou à tona. Ao "virtual" se acrescen- que sou obrigado a "ler" as macieiras. Está escrito nelas
tou, durante a noite, o "necessário", e passou, esta manhã, ("maqtub") que darão flor e fruto. Assim deverão ser, não
a ser "realidade". O milagre da transfiguração operou-se poderão fugir de si mesmas. "So musst du sein, dir kannst
nas macieiras durante a noite. O salto ontológico do me- du nicht entfliehen"). ("Worte, orphisch." Goethe.)
132 Natural~mente VILÉM FLUSSER
133

Não vejo mais estruturas, vejo Édipo na minha horta. não é a descoberta do fim (da "finalidade"), mas a pros-
Compreendo, ao olhar os botões, porque Édipo, ao ter pecção do possível (da "liberdade"). Viver, para mim, não
procurado tragicamente fugir do seu destino, na realida- é encontrar meu sentido, mas dar sentido. O sentimento
de o cumpria. Matar o pai, dormir com a mãe, e arrancar trágico da vida e do mundo (o fatalismo) não me é estra-
os olhos da cara é tão fatal para Édipo, como é para as nho, mas é sentimento submerso. O que domina em mim
macieiras irromper em botões, dar fIor e fruto, perder as é a vivência do absurdo. Para mim, "necessidade" não é
folhas e cristalizar-se em estrutura. ~erer evitar matar o o fim, mas a causa. Para mim a natureza não é livro es-
pai para Édipo é como querer evitar dar fIor para as ma- crito que devo ler para poder viver "corretamente". Não
cieiras. Se não tivesse matado o pai, não teria sido Édipo, sou nem órfico nem maometano. Para mim, a natureza é
e se não tivessem irrompido botões, não seriam macieiras. conjunto sem significado, que adquire significado apenas
Mas há esta diferença entre Édipo e minhas macieiras. A quando eu e os meus semelhantes o transformam em cul-
hybris, o heroÍsmo condenável e condenado, é impossível tura. Para mim, é isto que distingue natureza da cultura:
para as macieiras. São trágicas sem sabê-lo. São Édipos in- cultura é texto legível (mundo codificado) escrito sobre o
conscientes. A sua tragédia o é para mim, não para elas. fundo natural sem significado ("wertfrei = isento de valo-
Mas quem sabe Schopenhauer tenha razão, e a tragédia res"). Como podem os botões revolver, assim, as catego-
seja o oceano comum do qual macieiras e eu brotamos, a rias impostas sobre mim por minha cultura antitrágica e
vontade trágica que é representada pelas macieiras de um antifatalista?
lado, e por mim de outro, nesta primavera? A questão pode ser facilmente driblada, se eu re-
Mas como tudo isso é possível?Como podem os bo- correr à lógica formal, mas nem por isso será resolvida.
tões impor sobre mim visão trágica do mundo? O próprio Posso dizer que, formalmente, existem três grupos de
termo "destino" soa estranhamente aos meus ouvidos. "explicações": (a) as finalísticas que dizem "para", (b)
Não se adapta, de forma nenhuma, à minha vivência do as causais que dizem "por causa" e (c) as estruturais que
tempo. Não penso "finalísticamente", mas "causalmente" dizem "desta forma". Por exemplo: (a) pássaros fazem
ou "estruturalmente". O mundo não é, para mim, tragé- ninhos para neles guardarem ovos, (b) pássaros fazem
dia, mas teatro do absurdo. O futuro, para mim, não é ninhos por causa dos seus instintos e (c) pássaros fazem
meta fatalmente "predeterminada", ma~horizonte aberto ninhos em jorma de cones. O tipo (a) de explicação é o
de virtualidades realizáveis. Para mim, o caminho não é a mais satisfatório, porque torna o explicado algo que tem
viagem em busca da destinação ("destino"), mas viagem sentido. O tipo (c) é o menos satisfatório, porque explica
aventurosa sem meta ("sentido"). "Futuração", para mim, apenas formalmente. A história do pensamento começa
134 NaturaI:mente Vn.ÉM FtUSSER 135

por explicações do tipo (a), vê-se obrigada a abandoná-Ias destino são "verdadeiros" no caso. Explicar os botões e a
em favor de explicações do tipo (b), e atual e penosamen- primavera de forma causal ou estrutural é "explain them
te está abandonando também a causalidade em prol do away", desexplicá-los. E a questão é exatamente esta: por
formalismo. A história do pensamento é, pois, a história que os botões e a primavera impõem sobre mim o sen-
de explicações que se tornam menos satisfatórias com o timento trágico e evocam o futuro enquanto destino, a
correr do tempo. Mas tal erosão da satisfação (e do signi- despeito de todas as demais explicações que passam a ser
ficado) não acontece em todos os campos com o mesmo insatisfatórias e, portanto, nada explicam?
ritmo. Dizer que "chove para molhar a terra" é explicação Não sou nem órfico nem maometano, e a natureza
atualmente inaceitável. Mas dizer que "animais têm olhos não é para miin nem conjunto de símbolos nem livro es-
para ver" ofende menos. Com efeito, a biologia é menos crito por Alá. Não creio que é possível "decifrar" a natu-
formal que física, porque expHcações finalistas são menos reza e, assim, descobrir-lhe o seu "profundo significado",
ofensivas nos fenômenos dos quais trata. Os botões im- nem creio que Alá, em seu amor pela humanidade, ditou
põem sobre mim o sentimento trágico do mundo por se- ao seu profeta um segundo livro, o Alcorão, que permite
rem fenômenos biológicos, os quais explicações finalistas a leitura do primeiro livro, o da natureza. Estou conven-
não ofendem tanto. Mas posso me livrar facilmente de tal cido de que a natureza é conjunto sem significado e pro-
sentimento trágico se me lembrar que atualmente já exis- pósito e que a dignidade humana é dar um significado hu-
tem explicações causais e formais para botões que tornam mano à natureza e impor-lhe propósitos humanos. Estou,
o sentimento trágico sentimento anacrônico, primitivo e com efeito, convencido de que humanizar a natureza é
"supera do ". realizá-Ia, e que, sem ser humanizada, a natureza não pas-
A questão foi, destarte, driblada, mas de nenhuma sa de mera virtualidade humana. Por exemplo: estou con-
forma resolvida. Porque a resposta introduziu o conceito vencido de que os botões que estou contemplando nada
da "satisfação" sem tê-Io elaborado. É justamente de satis- têm de trágico, mas visam a maçãs a serem transformadas
fação que se trata. ~ando olho os botões que irrompe- em suco pelo qual Merano é famosa. ~e as macieiras es-
ram nas minhas macieiras, explicações causais e formais tão lá porque foram plantadas por horticultores. Fazem
não me satisfazem. E a satisfação é o único critério existen- parte, não da natureza, mas da cultura. Têm propósito e
cial da verdade. É o que Heidegger chama "das stimmt" = sentido: o propósito e o sentido que lhes foram impostos
assim está de acordo. A "Stimmung" = o clima dos botões pelos horticultores, e, no entanto, os botões lá na minha
e da primavera é o sentimento trágico do mundo. De ma- horta falam a sua própria linguagem, insofismável. Falam
neira que as "explicações" finalistas e o futuro enquanto em transfiguração, propósito trans-humano e trágico, e
136 Natural:mcnte

falam em destino. E o que dizem é verdade. Embora se- Neblina


jam cultura, continuam sendo natureza neste significado
milagroso e misterioso do termo.
De maneira que não sei dar resposta à pergunta. Sou
vítima de duas honestidades ou desonestidades. É deso-
nesto negar que minha horta obedece a propósitos huma-
nos, que é uma realização da bela vontade humana que
se impõe sobre a mera virtualidade natural e, assim, lhe
confere valor e significado. E é desonesto negar que mi-
nha horta dá um significado à vida dos horticultores, um
significado que estes próprios "escolheram" (embora pro-
blematicamente). Mas é igualmente desonesto negar que
os botões que irromperam durante a noite passada articu-
lam forças fundamentais, e que os sucos que pulsam nos o boletim meteorológico, irradiado às dez horas
ramos das macieiras pulsam também, tragicamente, nas da noite, há vários dias começa com a mesma sentença:
minhas veias, e nos propelem, as macieiras e a mim, rumo "depois da dissolução de neblinas matinais persistentes ..."
a um destino inescapável. Não sei dar resposta à pergunta, E, efetivamente, toda manhã, ultimamente, acordo com
a não ser, talvez, esta: A "hybris edipiana", o heroÍsmo trá- aquela luz leitosa de um sol que não consegue romper os
gico que é a dignidade humana, é fazer hortas e sucos de véus que o encobrem. Infelizmente, trata-se de situação
maçã, em desafio desesperado ao suco trágico e misterioso tão carregada de literatura e de chavões que tenho gran-
que ilTompe em certos momentos catastróficos como o é de dificuldade em vivenciá-Ia concretamente. A neblina
o dos botões na primavera. matinal está "encoberta de densa neblina ideológica" que
precisa ser removida para eu poder ver a neblina não me-
tafórica lá fora. Esse esforço de remoção mostrará que é
possível dividir a humanidade em dois tipos: os que gos-
tam, e os que não gostam da luz difusa. Os "fãs" de histó-
rias misteriosas, e os que resolvem palavras cruzadas. Os
profundos e os iluministas. Os inspirados e os desconfia-
dos. Os que estão interessados no fundo geral e universal
138 Natural:mente VILÉM Fl,USSER 139

do qual as coisas se destacam vagamente e os que estão Estou com Goethe quando diz: "Man suche nichts hin-
interessados nas diferenças pelas quais as coisas se distin- ter den Phaenomenen. Sie selbst sind die Lehre". (Nada
guem. Em suma, os metafísicos e os fenomenologistas. O procuremos por trás dos fenômenos. Eles próprios são o
primeiro tipo procura penetrar pela neblina, o segundo ensinamento.) Por isso, procurarei remover a neblina me-
procura removê-Ia. Por que o primeiro a afirma e o segun- tafórica que encobre a neblina matinal, para tentar vê-Ia
do a nega. São, creio, duas atitudes fundamentalmente me sua concreticidade.
opostas, e entre elas se ergue o grande diviso r de águas que Moro em uma casa de cujo terraço se desfralda pa-
divide a humanidade. Mas se trata de atitudes, não de si- norama vasto. Vale amplo cercado de várias fileiras de
tuações diferentes. Todos os homens, por serem homens, picos cobertos de geleiras. A vista avança das montanhas
estão na neblina, queiram ou não queiram. mais próximas para os cumes majestosos no horizonte
Pois eu não quero estar nela. Embora deva confessar em torno. Mas não hoje. Hoje, vejo apenas a horta que
que não me é estranha a atitude dos "fãs" da neblina e que cerca minha casa, e adivinho, vagamente, os contornos
sou repetidas vezes vítima da sedução exercida pelo "mis- dos pinheiros que cercam a horta. Meu horizonte é, hoje,
tério", optei pela atitude desconfiada. Remover neblinas, estreito. Mas, ao dizer isto, duas dúvidas me assaltam. A
e tentar mostrar que são neblinas e não algo, me parece primeira diz que, não tivesse eu visto o panorama ontem,
ser a única atitude digna. Optei contra a profundidade e não saberia hoje que meu horizonte é estreito. A segun-
a favor da superficialidade. Porque creio que por trás da da dúvida diz que todos os horizontes são igualmente
neblina não se esconde algo profundo, mas que a neblina amplos por serem horizontes, isto é, limites do finito em
é uma ilusão que encobre superfície concreta por trás da direção ao infinito. A primeira dúvida implica que a ne-
qual nada se esconde. Isto não é, como parece, jogo de pa- blina é limitação apenas para quem sabe ser ela neblina. A
lavras. Ao contrário dos pensadores profundos, não creio segunda implica que querer ampliar horizontes removen-
que a meta última seja chegar até o fundo da neblina, mas do neblinas é tarefa absurda. Ambas as dúvidas devem ser
que, depois de rasgada a neblina, começa a verdadeira ta- consideradas sob o prisma da neblina concreta que cerca
refa: a de tentar apreender e compreender a superfície ex- minha casa, e a segunda antes da primeira.
posta. O pensamento profundo me parece ser mais super- Há anedota que conta da conquista de Siracusa pe-
ficial que o pensamento que procura captar a superfície los romanos. Um centurião penetrou a casa de Arquime-
das coisas. Creio que a profundidade germânica da pri- des para convidá-Ia a ser engenheiro das legiões romanas.
meira metade do século, por exemplo, é mais superficial Arquimedes recusou afirmando que não dispunha de
que a superficialidade anglo-saxônica do mesmo tempo. tempo para isso. Os problemas do círculo o absorviam.
140 Narurabnente VILÉM FLUSSER 141

o centurião se admirou diante de tanta alienação: como A posição cínica perante a neblina que cerca minha
preocupar-se com círculos, quando o Império estava con- casa é esta: o horizonte que vejo hoje é tão bom quan-
quistando o Orbis terrarum? "Justamente", respondia to o que vi ontem. O horizonte do caboclo nordestino
Arquimedes. "Pretendo mostrar que não adianta aumen- é tão bom quando o de um estudante em Harvard. E a
tar a circunferência de círculos porque a relação entre posição estoica perante a neblina em torno de minha casa
circunferência e raio é constante." Em face de alienação é esta: se aceitar o horizonte de hoje como aceitei o de
tão subversiva, o centurião não podia deixar de matar ontem, estarei contente com ambos. O caboclo será fe-
Arquimedes. A anedota não pode ser arquivada como liz, não se procurar ampliar seu horizonte, mas se procu-
parábola do conflito entre engajamento em história e rar contentar-se. As posições cínica e estoica são lógica e
engajamento em formas. Porque o verdadeiro problema, existencialmente inderrubáveis hoje como em Siracusa e,
colocado pela anedota, é este: se o progresso, visto formal- neste sentido, o argumento arquimédico contra o cenru-
mente, não tem sentido, se ampliar horizontes é perma- rião e contra o próprio Arquimedes continua perfeito. As
necer parado na mesma forma, que sentido tem estudar duas posições são a verdadeira superação da política, não
formas? Em outros termos, se os círculos de Arquimedes
pela teoria, mas pela negação de valores. Mas são posições
tornavam absurdas as máquinas bélicas romanas (embora
insustentáveis eticamente hoje tanto quanto em Siracusa,
tais máquinas se baseassem neles), o que estava fazendo
e a neblina em torno da minha casa dá a prova disto. Bas-
Arquimedes? Teoria pura? Superação da política pela
ta eu sair do terraço e caminhar rumo aos pinheiros que
contemplação das formas? Sim, mas ao contemplar as
diviso no horizonte. O horizonte cederá aos meus passos.
formas, acaso Arquimedes não estava, ele também, am-
Ontem, quando não havia neblina, o horizonte não teria
pliando horizontes? Isto é, continuava parado na mesma
cedido. O horizonte nebuloso é eticamente (praticamen-
forma?O problema da anedota é este: o argumento arqui-
te) removível porque cede. O horizonte de visão dara
médico contra o centurião pode ser virado contra o pró-
não cede. São dois horizontes diferentes. O primeiro é
prio Arquimedes. Não assim: o centurião é progressista e
condição indigna, pois me limita porque o permito. . O
Arquimedes reacionário alienado. Isto seria o argumento
segundo é condição digna, porque não posso ultrapassá-
do centurião romano. Mas assim: Arquimedes é tão pro-
Ia. Por isso, devo me engajar em horizontes claros e con-
gressista, portanto absurdo, quanto o é o centurião roma-
tra nebulosos. Porque apenas depois de ter removido os
no. Ambos avançam dissipando neblinas. Apenas nebli-
horizontes nebulosos verei os verdadeiros limites que me
nas diferentes. Se o argumento arquimédico for correto,
teoria é tão absurda quanto práxis, e resta, em Siracusa e são impostos. ~erer remover neblinas não é, pois, etica-
mente, tarefa absurda. Porque não visa à "ampliação de
hoje, apenas cinismo ou estoicismo.
142 Natural:mente VILÉM FLUSSER 143

horizontes" (isto, sim, seria absurdo), mas ao encontro lhantes (ambas encobrem a realidade), a neblina concreta
dos verdadeiros horizontes não amplificáveis. "Deside- é fenômeno natural, e a metafórica fenômeno da cultura.
ologizar" não é libertar (isto, sim, seria absurdo), mas é A concreta é dada, a metafórica feita. A concreta é um en-
permitir às verdadeiras condições que apareçam. cobrir-se da realidade pela própria realidade, a metafórica
A outra dúvida provocada pela minha neblina, a que é deliberada cobertura da realidade por fazedores de véus
diz que neblina o é apenas para quem já sabe tratar-se de ("Schleiermacher"). De modo que devemos distinguir
neblina, não pode ser desprovada pragmaticamente como entre dois tipos de "mistérios": a obscuridade da realidade
a considerada. Porque a dúvida afirma que quem não é mesma, e a obscuridade feita por obscurantistas. Em ou-
morador da minha casa e, portanto, sabe do panorama de tros termos, mesmo se conseguíssemos remover todas as
ontem, não tem motivo para caminhar rumo aos pinhei- neblinas ideológicas, ainda não encontraríamos a super-
ros. É, por assim dizer, cínico e estoico espontâneo, e não fície resplandecente da realidade, mas neblinas concretas
deliberado. Aceita a limitação da neblina, e contenta-se e como a em torno da minha casa. A indignidade dos ideó-
adapta-se, porque a toma por verdadeira. A dúvida afir- Iogas não é, pois, a de obscurecerem a clareza da realida-
ma, com efeito, que quem é vítima de ideologia não pode de, mas o mistério da realidade. Os marxistas primitivos
saber disto, já que toma sua ideologia por conhecimento e ingênuos (não os autênticos e sofisticados) cometem o
objetivo. Isto é conhecida tese marxista. Por isso deve, de erro de crer que desideologizar significa já desalienar da
acordo com o marxismo, toda desideologização partir da realidade. Tal crença é, ela própria, ideologia. Desideolo-
classe opressora (a única que sabe se tratar de ideologia). gizar é, pelo contrário, abrir-se para neblinas concretas. É
"A burguesia é a consciência do proletariado." E, por isso, neste sentido que Bloch pode dizer que a verdadeira re-
os oprimidos resistem aos esforços de desideologização: ligiosidade será possível apenas depois da dissipação das
são cínicos e estoicos esponteneamente. Exemplo: Che religiões estabelecidas. É, no fundo, este o seu "princípio
Guevara e os camponeses bolivianos. Não existisse, pois, esperança" .
contradição dentro da própria classe opressora (consci- A neblina concreta em torno da minha casa não é
ência dialética da ideologia), não haveria jamais motivo apenas para quem viu o panorama de ontem. Emana cli-
para remover ideologias. Todos os "ópios" funcionariam ma diferente. O clima de ontem foi o da clareza, na qual
eternamente, porque perfeitamente. apareciam as diferenças. O de hoje é o da luz difusa, na
Mas a neblina concreta em torno da minha casa qual as diferenças são borradas. Ontem foi "natural"
permite dissipar a dúvida da seguinte maneira: embora a distinguir e hoje é "natural" mergulhar no indistinto.
neblina concreta e a metafórica sejam fenômenos seme- Ontem foi a razão e hoje é a intuição que é "adequada"
144 Natural:mente YILÉM FLUSSER 145

à cena. Embora eu não queira estar na neblina, embora mos distinguir entre elas. Apenas graças à distinção (ra-
prefira o panorama de ontem, não posso esquivar-me do zão), podemos mergulhar na verdadeira neblina.
clima de hoje. Embora queira pertencer aos desconfiados,
não posso deixar de inspirar a nebulosidade concreta que
me cerca. Justamente por ter tentado remover a neblina
metafórica, sou obrigado a permitir que a neblina concre-
ta me banhe e penetre por meus poros. E este é o "ensi-
namento do fenômeno" (para falar com Goethe): o sen-
timento religioso se impõe concretamente apenas depois
da tentativa de negar e remover os véus ideológicos das
religiões estabelecidas.
Não sei se tem sentido falar-se em "religiosidade na-
tural" provocada por climas como o é o da neblina em tor-
no da minha casa. Melhor talvez seria falar "religiosidade
transcultural", religiosidade depois da decepção com as
religiões feitas. A neblina em torno da minha casa não é,
autobiograficamente falando, anterior às neblinas ideoló-
gicas que obscurecem minha visão das coisas. É posterior
a elas, e visível depois de deliberado esforço para removê-
Ias. O autêntico "homo religiosus" não é "primitivo". O
"primitivo" (se é que existe) é vítima das ideologias mais
grotescas. O autêntico "homo religiosus" é um desconfia-
do (e um decepcionado). É o que descobriu que a remo-
ção das neblinas metafóricas resulta no mergulho em ne-
blinas concretas. ~em sabe é isto a dignidade: remover
neblinas metafóricas para mergulhar em concretas? Ser
antiobscurantista para poder mergulhar no verdadeiro
escuro? Mas aí deve ser confessada a terrível dificuldade
de distinguir entre a obscuridade feita e a dada. Mas deve-
Natura!: mente
(uma espécie de conclusão)

Os ensaios contidos no presente livro não exigem,


se tomados cada um por si, que o leitor seja a eles intro-
duzido. Devem poder sustentar-se, cada um por si, pelo
seu próprio peso. E na medida em que não se sustentam,
falham enquanto ensaios. Considerados cada um por si,
os ensaios não formam uma totalidade. Em tal nível de
leitura podem ser lidos não importa em que sequência:
são tão díspares quanto o são seus temas. Sob este prisma,
o presente volume é coleção de ensaios, no sentido de co-
lheita sem critério de escolha. A saber: coleção ocasional,
fruto do acaso. Os assuntos dos quais os ensaios tratam
ocorreram ao autor no curso da sua vida, e foram por
ele assumidos na medida em que ocorreram: casualmen-
te. ~em adquiriu o hábito de permitir a todo assunto
ocasional ocupar o centro do interesse, e quem o toma
por pretexto para largar um fluxo de reflexões, conhece
148 Natural:mcntc
VILÉM FLUSSER 149

o fascínio exercido não importa por que encontro com foi o fato de que os assuntos da totalidade dos ensaios são
não importa que experiência (a qual passa a ser aventura). experiências com coisas da cultura. É como se as experiên-
Conhece, pois, o motivo do presente livro. Isto explica cias pelas quais o autor passou ao longo desses anos todos
também organicamente a desigualdade estilística dos en- tivessem sido exclusivamente encontros com a cultura
saios presentes. Cada ensaio tem o estilo imposto sobre que nos cerca. Como se a natureza não tivesse existido
ele pelo seu assunto. Mas a dialética "assunto/estilo", ou para ele, ou como se tivesse sido empurrada para o hori-
"conteúdo/forma", ptoblematiza tal afirmativa. É certo, zonte da sua experiência cotidiana. Duas interpretações
o assunto se impõe sobre o estilo. Igualmente certo é que desse fato se ofereciam: (a) o autor é "intelectual" e per-
todo assunto é assunto apenas depois de ter sido assumi- deu o contatb com a natureza, e (b) a sociedade tecnológi-
do de uma forma ou outra. A desigualdade estilística dos ca e administradora, da qual o autor participa, perdeu tal
presentes ensaios é, pois, consequência do jogo dialético contato. Ambas as interpretações são provavelmente cor-
pelo qual várias experiências ocasionais se impuseram so- retas, mas não satisfazem. Deve haver razão mais radical
bre o autor e por ele foram assumidas para serem assuntos e menos óbvia que faz com que o autor e a sociedade não
de ensaios. De maneira que nem os assuntos nem o estilo mais vivenciem a natureza, ou o façam excepcionalmente.
dos presentes ensaios exigem explicação introdutiva. São E tal razão deve estar ligada a uma mutação do conceito,
ocasionais, frutos do acaso do viver, e o acaso não pode da vivência e do valor designados por "natureza", muta-
nem precisa ser explicado. Ocorre "naturalmente". ção em curso atualmente.
Mas o presente volume permite também leitura em Para descobrir tal razão, ou pelo menos se aproxi-
nível diferente. Já que esse nível, embora implícito nos mar dela, o autor fez duas coisas: a) reuniu dez dos en-
ensaios, não é explicitado neles, o autor se vê obrigado saios já feitos em coleção publicada em Paris e chamada
a fazer esta conclusão explicativa. Ei-la. Fascinado pela "A força do cotidiano". Os ensaios escolhidos tratam de
riqueza inesgotável de uma experiência concreta, e pelo experiências com coisas indubitavelmente culturais, com
poder catalisador que toda experiência tem sobre o pensa- instrumentos, tais como: bengalas, garrafas, canetas, ócu-
mento, o autor escreveu, no curso dos últimos anos, toda los, tapetes, muros, espelhos, livros, camas e automóveis.
uma série de ensaios do tipo contido no presente volume. O propósito da escolha foi o de ilustrar o poder exercido
Tais ensaios foram, em grande parte, publicados em vá- pelos instrumentos (pela cultura) sobre a vida cotidiana.
rias revistas brasileiras, americanas, alemãs e francesas, e
Ilustrar como a cultura, longe de libertar o homem da de-
especialmente no "Suplemento Literário" d'O Estado de terminação pelas forças da natureza, se constitui em con-
S. Paulo. O que impressionou o autor, em retrospectiva, dição determinadora. Portanto, em "segunda natureza".
150 Natural:mcnte VILÉM FLUSSER 151

Destarte, procurou o autor ilustrar como o homem da refutada ou deixada aberta. O que o autor espera é que
atualidade vivencia a cultura: não como algo feito, mas muito aspecto por ele não suspeitado surgiu ao longo dos
como algo dado, portanto, como natureza. O homem ensaios. Porque a suspeita que era a hipótese inicial não
atual perdeu o contato com a natureza no significado tra- era o único, nem o mais importante motivo para os pre-
dicional do termo (ou está perdendo) porque a cultura sentes ensaios. O fundamental motivo era, como sempre,
está assumindo existencialmente o impacto da natureza o fascínio exercido pelas experiências relatadas.
no significado tradicional do termo; b) não satisfeito com No entanto, a suspeita inicial confere aos ensaios
tal "prova negativa", o autor procurou abrir-se, de início certa unidade. Não apenas no sentido de tratarem de coi-
deliberadamente, depois sempre mais espontaneamente, sas tidas por' naturais pelo senso comum e pela tradição,
a experiências tidas por naturais no significado tradicio- mas também no sentido de eles formarem uma sequência
nal do termo. O resultado são os presentes ensaios. O discursiva pela seguinte razão: no esforço de confirmar
propósito inicial era a suspeita de que tais experiências ou refutar sua suspeita, o autor submetia as suas experi-
naturais não se distinguem em seu impacto existencial ências com coisas naturais a testes sucessivos.Estabelecia,
das culturais, e que, portanto, a distinção ontológica en- nesses testes, várias e sucessivasnegações da posição "na-
tre natureza e cultura não se sustenta existencialmente tureza". Assim, em "Chuva", procurou negar a natureza
no presente contexto. De acordo com tal suspeita, a dis- pela "cultura", no significado de "manipulação planeja-
tinção ontológica a ser feita atualmente seria entre expe- d a."E .mero
"C d ", procurou nega- , Ia pe I"o estran h o ", no
riências determinantes e experiências libertadoras, duas significado da natureza ser "natural", e do seu oposto ser
categorias ontológicas que desprezam as tradicionais de "introduzido de fora". Em "Vacas",procurou negá-Iapelo
"natureza/cultura", ou "dado/feito". Agora, ao reconsi- "artificial", no significado de natureza ser espontânea, e
derar os ensaios aqui apresentados, o autor é incapaz de o seu oposto ser deliberado (técnica, arte). Em "Grama",
dizer se essa suspeita inicial foi confirmada ou refutada procurou negá-Ia pelo sujeito, no significado de ser a na-
pela sua pesquisa. tureza "objeto" de um sujeito a ela oposto. Em "Dedos",
Isto não é, na opinião do autor, necessariamente procurou assumir a natureza como a "sanidade" e seu
defeito. "Ensaio" é isto: tentativa de ver em que dá uma oposto como "opressão", "manipulação" ou "aparelho".
hipótese de trabalho. E o interessante do ensaio não é Em "Lua", procurou mostrar a natureza como resultado
o resultado, a hipótese confirmada ou refutada. O inte- tardio e romântico da cultura. Em "Montanhas", procu-
ressante é o que se mostra ao longo da experiência em- rou elaborar os significados opostos do conceito "histó-
preendida. A suspeita inicial pode ter sido confirmada, ria" para a natureza e para a sociedade. Em "Pássaros", fez
152 Narural:mentc VlLF:M lhJL'ssER 153

o esforço de ver a natureza como conjunto significativo, e tureza" está tão fundamentalmente enraizado nas nossas
a opôs a um código que permite a leitura de tal significa- línguas e no nosso pensamento que continuará a atrapa-
do. Nos "Vales", procurou ver a natureza como palco do lhar nossa vivência e os nossos atos.
drama da humanidade. Em "Prados", procurou mostrar a Mas, mais importante que a descoberta da vacuida-
natureza como testemunho dos feitos humanos, portan- de do termo "natureza" ao longo dos ensaios foi outra. À
to, como contexto de dados que se dão em níveis suces- medida que o autor foi aplicando os seus pares dialéticos
sivos. Em "Falsa Primavera", procurou opor o conceito aos fenômenos contemplados, estes se esquivavam a res-
grego da natureza ("physis") ao conceito da ciência da na- postas. Não permitiam serem forçados a responder "sim"
tureza. Em "Maravílhas", procurou fazer o mesmo com o ou "não" às duas alternativas propostas. A "Chuva" não
conceito judeu-cristão (criação), em oposição ao conceito respondeu com "sim" ou "não" à pergunta: "chuva de se-
da ciência da natureza. Em "Ventos", tentou elaborar a tembro é o contrário de irrigação de campo?" A "Neblina
oposição entre a natureza como "hierophania", e a natu- não respondeu com"sim" ou "não" à pergunta: "neblina
reza como "mandalnento transcendente". Em "Botões", matinal é o contrário de neblina ideológica deliberada?"
procurou opor os dois climas que emanam da natureza: o Os fenômenos davam respostas inesperadas ao autor,
do sentimento trágico e o do absurdo. E, em "Neblina", confundiam as suas perguntas e rompiam os seus pre-
procurou opor a mistificação da natureza pelo espírito conceitos. A série de ensaios precedentes obedece a testes
ideológico ao autêntico mistério de uma realidade que se mais ou menos disciplinados, e é, neste sentido, sequência
esconde ao revelar-se.
discursiva. Mas quanto às conclusões oferecidas pelos en-
O autor se dá conta perfeitamente que não esgotou saios, estas não formam sequências discursivas. É como se
as variantes possíveis de um jogo dialético que tem a na- os inícios dos ensaios tivessem sido pendurados discipli-
tureza por tese. Com efeito, veio a acreditar que esse jogo nadamente sobre varal linear e discursivo, e como se os fi-
é praticamente ilimitado. ~em assume a natureza como nais dos ensaios tivessem balançando desordenadamente
tese pode assumir praticamente tudo como antítese da no vento que sopra das próprias experiências, cabeçudas
natureza. Na opinião do autor, isto problematiza a via- e indomáveis. De modo que em tal nível de leitura o pre-
bilidade do termo "Natureza". Termos tão amplos amea- sente volume se apresenta linearmente discursivo quanto
çam se tornarem vazios e isentos de significado. Está pos- à sua intenção, e caoticamente inconclusivo quanto aos
sivelmente na hora de abandonarmos o termo "natureza" seus resultados. ~em lê os ensaios na ordem pretendida
em favor dos termos mais modestos e mais significativos. pelo autor verificará como tal pretensão foi desprezada
Tal proposta é obviamente utópica porque o termo "na- pelas experiências concretas relatadas. O deliberadamen-
154 Natural:mente VILl~M F'LUSSER 155

te planejado fracassou diante da concreticidade das coi- perança de poder pesquisá-los mais tarde, depois de ter
sas. "Naturalmente". resolvido os problemas menos interessantes.
Com tal confissão, esta explicação poderia dar-se por Não importa, no presente contexto, explicar esse
satisfeita. Mas o autor crê que deve acrescentar mais dois fenômeno curioso. Explicações são fáceis, desde a formal
apartes. O primeiro, de ordem mais ou menos teórica, é (astronomia e mecânica são disciplinas matemátizaveis)
que facilite a inserção do presente volume no contexto até a historicista (a práxis da burguesia revolucionária
das livrarias e bibliotecas, e que facilite, pois, a rotulação revela mecanismos, e sua ideologia encobre o nível social
do presente volume e sua colocação em estante apropria- da realidade). O que importa é a constatação do fato de
da. O segundo aparte, de ordem mais subjetiva, é que jus- que a física (disciplina que estuda o movimento de corpos
tifique a publicação do presente volume no contexto da inanimados) se estabeleceu, absurdamente, como primei-
literatura brasileira da atualidade. ro conjunto sistematizado do conhecimento moderno, e,
a) É lugar-comum dizer que ocorreu, durante a Ida- em consequência, como modelo de todos os conjuntos
de Média tardia, uma reviravolta ou revolução no pen- seguintes. Pois a física se toma por "ciência da natureza",
samento, na sensibilidade e na valoração do Ocidente, e, não exatamente no significado de "physis" (embora o ter-
consequentemente, uma reviravolta ou revolução na ação mo Física pareça sugeri-lo), mas porque "physis", para os
e paixão, no "estar-no-mundo", dos que participam de tal gregos, era conjunto animado de coisas animadas e inani-
cultura. Um aspecto importante de tal reviravolta ou re- madas, e "natureza", para a física, é conjunto inanimado
volução é a chamada "descoberta" (ou "redescoberta") da de coisas animadas e inanimadas. Mas, em todo caso, o
natureza. Uma das consequências dessa "descoberta" é o progresso da ciência moderna era avanço a partir da natu-
fato curiosÍssimo de que o conhecimento científico ini- reza rumo ao homem e à sociedade.
ciou um avanço progressivo a partir do horizonte rumo Tal progresso está atualmente por encerrar-se. Não
ao centro. Iniciou pela pesquisa de coisas extremamente apenas no sentido de ter a ciência atualmente estendido a
"desinteressantes" e existencialmente distantes (astrono- sua competência para abranger também o homem e a so-
mia, mecânica), e avançou lentamente em direção a coisas ciedade e, portanto, não pode mais avançar, apenas poder
mais "humanamente significativas" (biologia, psicologia, tornar-se mais minuciosa, mas no sentido mais radical de
sociologia). A história da ciência moderna está marcada ter a ciência atualmente esbarrado contra uma fronteira
por tal curiosíssima inversão de interesse. É como se o insuperável. Enquanto o saber científico perambulava
conhecimento científico tivesse inicialmente suspendido por regiões extra-humanas, nas quais o homem não está
deliberadamente todos os assuntos que interessam, na es- existencialmente interessado, era possível manter a ficção
156 Nattlral:mente VILÉM FLUSSER 157

do conhecimento objetivo. Mas agora, quando o saber nutre a ilusão de ser disciplina pura de um homem que
científico está penetrando regiões nas quais o homem está. transcende a realidade.
implicado (interessado), tal distinção fictícia entre o obje- Isto significa,entre outras coisas,que a físicaestá dei-
to conhecÍvel e sujeito conhecedor se torna insustentável. xando de ser modelo de todas as ciências, e as que tratam
Em tais regiões, o homem é simultaneamente objeto e su- de fenômenos mais concretos (como a teoria da comu-
jeito do conhecimento. Tal barreira oposta ao progresso nicação) estão tendendo a se estabelecerem em modelos.
do conhecimento científico é aspecto importante daquilo Portanto, de certa maneira está recomeçando, "ab ovo", o
que Husserl chamou de a crise da ciência do Ocidente. esforço todo de conhecer cientificamente o mundo que
Em termos que interessam no presente contexto, aquela nos cerca. De certa maneira, somos atualmente tão igno-
curiosíssima natureza da qual o progresso científico par- rantes e ingênuos quanto o foram os pioneiros da ciên-
tiu para investir contra o homem e a sociedade, está. se cia moderna. E como eles estavam obrigados a carregar
revelando agora horizonte ficticiamente objetivo, e não nas costas o peso do aristotelismo, nós somos obrigados a
fundamento sólido, daquela realidade concreta na qual carregar o fardo muito mais pesado dos" conhecimentos
estamos implicados. objetivos" acumulados por eles.Não se trata, por certo, de
Tal crise da ciência (a qual pode, por sua vez, ser ex- peso morto. Mas de peso que deve ser "posto entre aspas
plicada como uma das razões de uma crise geral, ou como para uso futuro" (para falarmos novamente com Hus-
manifestação de revolução mais profunda, pouco impor- serl), sob pena de continuarmos esbarrando, futilmente,
ta) exige uma reformulação radical tanto dos métodos da contra a barreira da objetividade.
ciência quanto do interesse da ciência pelas coisas.Tal re- Essa nova ignorância e ingenuidade, às quais esta-
formulação está ocorrendo ao nosso redor. ~anto ao in- mos condenados pela nossa crise, tem sua vantagem. Po-
teresse pelas coisas, este se dirige atualmente para as mais demos olhar o mundo que nos cerca como se ninguém
próximas e nas quais estamos mais implicados. A direção jamais o tivesse olhado. Somos todos pioneiros. E, como
do avanço do conhecimento está se invertendo. ~aJ1to tais, podemos ousar tudo. Por exemplo, podemos ousar
aos métodos, estes se fundamentam sobre a inter-relação empreender catálogos das coisas que nos cercam. Já que
entre conhecedor e conhecido, e sobre os efeitos que o somos os primeiros a penetrar no campo, o critério da es-
próprio conhecimento tem sobre o conhecedor e o co- colha para a catalogação é nosso. ~e outros venham de-
nhecido. Em outros termos, a ciência está se tornando pois criticar-nos; serão bem-vindos. Mas, no momento,
autoconsciente enquanto atividade de um homem inse- não importa que um inventário é melhor que nenhum,
rido na realidade e interessado em modificá-Ia, e não mais desde que obedeça duas regras mencionadas: a) primeiro,
158 Naturahmentc VILÉM FLUSSER 159

devem ser inventariadas as coisas que nos interessam, e b) mas contra a natureza. Teria sido livro diferente. Não
devemos admitir que o nosso interesse pelas coisas, embo- apenas aspectos diferentes da natureza teriam surgido à
ra imposto sobre nós por elas, as torna coisas. tona, mas o próprio tema teria sido diferente. Porque o
O presente volume, como aquele editado em Paris, termo "natureza" significa no Brasil experiência, valor e
que o procede, é tentativa de inventário no significado conceito diferentes dos significados na Europa. Tal dife-
mencionado, uma das numerosas tentativas atualmente rença e "overlap" dos significados não é explicável apenas
em curso. Pode ser rotulado como "científico", mas não por diferenças na geografia a história dos dois "mundos".
no significado tradicional do termo. Faz parte daquele Não se trata apenas do fato de ser o clima brasileiro "mais
contexto de pesquisas ("fenomenológicas", "comunico- quente", ou 'a sociedade brasileira "mais nova". A raiz da
lógicas", pouco importa como chamá-Ias) que podem re- diferença é mais profunda, e tem a ver com os dois climas
sultar em uma ciência do futuro. Por isso, os resultados existenciais diferentes. O europeu tende a refugiar-se na
apresentados pelos presentes ensaios não interessam mui- natureza para escapar às ameaças da cultura, e tal tendên-
to. O que interessa é a atitude perante o mundo que neles cia não é recente (por exemplo, devida ao romantismo e
se manifesta. (Se é que tal atitude se manifesta neles efeti- semelhantes ideologias escapistas). Já os gregos e os roma-
vamente.) O autor crê que, com todas as suas falhas, erros nos tinham o seu bucolismo. No Brasil, que sofre cons-
e omissões, o presente livro faz parte de uma literatura tante influência europeia, tal tendência para "um retorno
embriônica que será considerada "científica" no futuro, e à natureza" não é desconhecida, mas é, como tanta outra
da qual autores como Husserl, Ortega, Bachelard etc. são influência importada, pouco mais que gesto vazio. O bra-
os iniciadores. sileiro, ao contrário do europeu, tende a aglomerar-se em
O presente volume foi escrito na Europa. Mais exa- centros densamente povoados para escapar às ameaças da
tamente, à beira do Loire, num vale alpino, e em viagens natureza. Isto se manifesta de muitas formas: pela "má
pela Europa. Inescapavelmente, tal fato se reRete nos en- distribuição" da população brasileira no território dispo-
saios. A experiência com a "natureza", que lhes é assunto, nível, pela tendência de construir edifícios altos em cida-
é experiência com natureza europeia. O autor duvida que des pequenas com excesso de terrenos baldios, pelas aglo-
podia ter escrito ensaios do mesmo tipo em circunstân- merações em poucas praias das muitas disponíveis, pelos
cia brasileira. Não por ser a natureza brasileira diferente clubes de campo superlotados. Tais tendências opostas
da europeia, mas por razão mais profunda. Na Europa, correspondem a climas existenciais diferentes. O europeu
a natureza é acessível, no Brasil é inimiga. Se o autor ti- se sente fundamentalmente ameaçado pelo seu próximo:
vesse escrito os ensaios noBrasil, teria escrito não sobre, é o clima do "homo homini lupus". O brasileiro se sente
VILfM FLVSSER 161
160 Natural:mentc

fundamentalmente ameaçado por forças extra-humanas. dar à superação de mal--entendidos. Mas essenão é o caso
Por isso, o europeu está fundamentalmente engajado na do presente volume. Foi escrito por quem viveu a maior
modificação da sociedade, e o brasileiro na da natureza. parte de sua vida no Brasil e voltou para a Europa natal
E por isso existe solidariedade fundamental embora nem com mente e sensibilidade fortemente abrasileiradas. Por
sempre palpável na sociedade brasileira, que lhe confere quem, em outros termos, está engajado nas coisasbrasilei-
aquele característico sabor de humanismo e simpatia cuja ras, embora tenha, por sua biografia e situação geográfica
falta é tão sentida na Europa. atual, certa empatia com a natureza europeia. Como se
Pois tal diferença, que não é de antagonismo, mas justifica, em tal caso, a publicação do presente volume?
de "overlap" (já que também existem no Brasil tendências A resposta se liga, curiosamente, ao argumento pre-
para a identificação com a natureza, exemplificadas em cedente que tinha a presente crise epistemológica por
Guimarães Rosa e, na Europa, tendências muito fortes assunto. Um dos pontos salientados em tal parágrafo foi
para a fuga da natureza, exemplificadas nas "banlieues" o da necessidade de admitir o fato do conhecedor estar
parisienses) é fonte de um dos muitos mal-entendidos implicado no conhecido. Portanto, da necessidade de ad-
entre os dois mundos. O europeu não consegue captar o mitir que a "objetividade" no sentido de conhecimento
profundo engajamento do brasileiro contra a sua nature- de um sujeito que paira por cima do conhecido é ideal
za, e toma tal engajamento por alienação, já que para ele impossível e quiçá indesejável. Tal admissão não impli-
engajamento significa sempre luta em prol de uma socie- ca nem a impossibilidade nem a indesejabilidade de um
dade mais humana. E o brasileiro não consegue captar a distanciamento do conhecedor com respeito ao a ser co-
situação europeia, que lhe parece já inteiramente "acul- nhecido. Pelo contrário, admitida a "objetividade" como
turada", sem nada mais a fazer, já que, para ele, "fazer" é ideal impossível, o distanciamento passa a ser desejável,
domar a natureza. Tal mal-entendido é trágico, porque os porque não pode mais ser confundido com transcendên-
dois mundos estão condenados a viver juntos e, portanto, cia irresponsável. Um distanciamento assim, que admite
obrigados a se comunicar significativamente. o seu profundo empenho no conhecível, mas procura um
Considerando este fato, surge a pergunta de como ponto de vista amplo e despreconcebido, passa a ser a ver-
justificar a publicação de um volume que trata da natu- dadeira atitude científica pós-objetiva.
reza europeia no contexto da literatura atual brasileira. Um leitor atento dos presentes ensaios verificará o
A resposta a tal pergunta seria simples se o presente vo- engajamento do autor nas coisas brasileiras entre as linhas
lume tivesse sido escrito por um europeu. Em tal caso, a que descrevem as experiências com a natureza europeia.
justificativa seria a contribuição que tal volume poderia O autor descreveu sobre a natureza europeia para o leitor
162 Natural:mente

brasileiro não apenas para informá-Io, mas para dialogar COLEÇAo COMUNICAÇÕES
Direção: Norval Baitello junior
com ele, porque o autor está inteiramente desinteressado
em uma possível modificação da realidade europeia. Não Títulos publicados:
está inserido nela, é estranho e estrangeiro na Europa. Tal
Língua e realidade, de Vilérn FIusser
desinteresse lhe confere distância das experiências que
A ficção cética, de Gustavo Bernardo
descreveu, mas está profundamente interessado em uma Mimese na cultura, de Günter Gebauer e Christoph Wülf
A história do diabo, de Vilém FIusser
possível modificação da realidade brasileira em diálogo
Arqueologia da mídia, de Siegfried Zielinski
com outros. Tal interesse evita que seu distanciamento Bodenlos, de Vilérn Flusser
se torne transcendência irresponsável. Por sua situação O universo da~ imagens técnicas, de Vilém Flusser
A escrita, de Vilém FIusser
biográfica e geográfica,portanto, o autor pode servir de
A época brasileira de Vilém Flusser, de Eva Batlickova
testemunha brasileira dos aspectos da realidade europeia Pensar entre línguas, de Rainer Guldin
que relatou nos presentes ensaios.E esta é a justificativa do Homem & Mulher, uma comunicação impossível?, de Ciro Marcondes Filho
Medio~fera, de Malena Segura Contrera
autor de querer publicar o presente volume no Brasilagora. A dúvida, de Vilém Flusser
A paciência do leitor à presente explicação deve es- Filosofia da caixa preta, de Vilérn FIusser
tar esgotada a estas alturas. Há muitas outras coisas que Natural:mente, de Vilém Flusser
Afilosofia da ficção de Vilém Flusser, de Gustavo Bernardo (org.)
o autor teria gostado de acrescentar, mas deve refrear sua
tendência de pegar o leitor pelo braço para seduzi-Io a
caminhar com ele pelos campos, prados, bosques e mon-
tanhas incrivelmente belos e perigosamente convidativos
da Europa. Abandona, pois, tal tentativa, e entrega, sem "
"

mais, o presente guia turístico nas mãos do leitor brasilei- .'
l'
.'
ro. "Guia turístico", desde que por "turismo" seja enten- ··
.'
dido o sinônimo atualizado do termo "teoria". Turismo ·
·

ou teoria é visão interessada, mas despreconcebida da- •

~,
quele ente provisório e estrangeiro no mundo chamado
"homo viator".