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RAGO, Elisabeth. "Amor, sexo e anarquia" [Espanha,


1936]

Letralivre, n° 33, ano 06 - 2002.

"Es que no es digna la satisfacción de los instintos sexuales ?" :

Em janeiro de 1936, a revista anarquista Estudios, publicada mensalmente em Valência, na


Espanha, inclui entre os inúmeros artigos que discutem questões de saúde e da moral, uma
seção denominada "Consultório Psicossexual", aberta aos leitores. Através de cartas dirigidas
ao Dr. Felix Martí Ibáñez, especialista em Sexologia, são apresentadas problemas sexuais,
sentimentais e afetivo de várias ordens, aos quais o médico procura responder, tentando
identificá-los a partir de sua especialidade.

O diálogo aberto entre o médico libertário e os seus leitores na revista é das muitas frentes em
que ele se engaja, ao pôr em prática aquilo que considera sua tarefa principal : a reforma
eugênica sexual, na Espanha revolucionária. Segundo ele e seus companheiros libertários,
muitos dos quais também médicos, tratava-se de tirar do país o atraso secular em que se
encontrava, criando as condições para a transformação dos hábitos da população, para a
formação de uma juventude aberta para a vida, livre dos preconceitos e das repressões
impostas pelo conservadorismo burguês e pelo obscurantismo religioso.

Focalizo os principais temas que emergem nas trocas e diálogos ocorridos neste espaço da
revista, assim como no conjunto dos artigos aí publicados, entendendo que, ao abordar
questões referentes à sexualidade, ao corpo e à moralidade, eles revelam a preocupação dos
anarquistas em construir uma nova moral sexual e em transformar as relações de gênero no
sentido da emancipação sexual tanto da mulher, quanto do homem. Para além de suas
interpretações acerca dos problemas sexuais e amorosos, os libertários expõem suas práticas
e experiências nessa área, constituídas num período, bastante denso de nossa história, isto é,
durante o período da Revolução Espanhola.

Temos tido vários registros dos acontecimentos políticos, econômicos e sociais do período, já
que se trata de um dos momentos mais interessantes do século 20, em se considerando as
criações revolucionárias em múltiplos campos da vida humana, como as coletivizações das
fábricas e dos campos e as inovações libertárias na educação e na área da saúde, em várias
regiões da Espanha, entre 1936-1939.

Mais recentemente, alguns trabalhos ligados à área de estudos feministas, focalizam a


experiência das mulheres revolucionárias, sua participação na esfera pública e as questões da
moralidade para os anarquistas, durante o processo revolucionário. Martha Ackeslberg - Free
Womem of Spain de 1991 (Indiana University Press) e Mary Nash Defying Male Civilization :
Womem in the Spanish Civil War, publicado em 1995 (Ardem Press) analisam a atuação das
mulheres libertárias durante a Guerra Civil Espanhola, procurando perceber em que medida
sua presença na esfera pública alterou de fato a dominação masculina, ou abalou os conceitos
e valores tradicionais a respeito da divisão sexual dos papéis na sociedade. Mesmo que
concluam pelo fracasso das propostas libertárias, esses livros mostram a grande
desestabilização causada pela atuação dos anarquistas naquele período de profunda
esperança, em que se anunciava a possibilidade de reorganização da sociedade em bases
mais solidárias e criativas.

O objetivo maior deste trabalho é destacar o projeto libertário de construção de uma nova moral
sexual, as formas de problematização dos temas apresentados e as respostas sugeridas,
resgatando um debate histórico e experiências inovadoras que, como é de se supor,
encontraram profundas dificuldades para serem implementadas, numa Espanha
profundamente conservadora e religiosa. Ao mesmo tempo, os problemas levantados mostram
a permanência não apenas das imagens e metáforas a partir das quais se constrói a
experiência sexual, mas ainda a reincidência das dificuldades nesta área, encobertas por um
profundo silêncio que apenas começa a ser quebrado em nosso tempo.

A reforma moral dos libertários

A Revolução Espanhola (1936-39) foi o momento privilegiado para que os anarquistas


pusessem em prática várias de suas concepções a respeito da construção de novas formas de
vida social. Certamente, desde sempre, eles procuraram implementar suas propostas de
organização social, questionando o poder em todas as dimensões da vida em sociedade,
defendendo a autogestão nas fábricas e no campo, construindo as "escolas modernas",
praticando o amor livre, recusando o casamento civil e religioso, recusando a representação
política, em nome da autonomia pessoal. As discussões em torno do amor e da sexualidade
ganharam um maior espaço entre suas preocupações, já que seriam fundamentais para a
construção de uma nova moral e de um novo homem, livre de preconceitos, dos tabus, das
crenças obsoletas e das repressões sexuais.

Vários temas compõem o repertório das discussões que a revista apresenta mensalmente,
entre 1934-36. "Nova Moral Sexual", "A Educação Sexual. A Puberdade", "O Instinto Sexual",
"A Mulher e a Nova Moral", "O Pudor na Bíblia", "Prostitutas !", "Juventude e Liberdade", "O
Culto Fálico na Roma Antiga", "Em torno ao problema eugênico no Aborto", "Uma Utopia
Sexual" são alguns dos sugestivos títulos dos artigos publicados, na grande maioria assinados
por homens e por médicos. Uma das poucas escritoras da revista, aliás, é a libertária brasileira
Maria Lacerda de Moura, já bastante conhecida em nossos meios.

Esses textos apontam para a construção da sociedade libertária, onde novas formas de amar,
de viver a sexualidade, de se relacionar com o corpo, de conhecer o mundo e respeitar o
próximo seriam possíveis. Para tanto seria necessário criar condições de esclarecimento
sexual da população, através de cursos e programas de educação sexual, assim como da
implantação de postos, estabelecimentos e outras instituições de atendimento prático.

Amor livre e plural, divórcio, maternidade consciente, aborto, fim da prostituição e criação de
estabelecimentos de higiene para fins sexuais são algumas das propostas apresentadas pelos
anarquistas, nessa direção.

Sugiro acompanhar por um momento alguns dos temas que emergem nas trocas de
correspondência entre o Dr. Ibáñez e seus leitores, em geral, homens e mulheres de várias
idades pertencentes ao mundo do trabalho e identificados ao anarquismo. A seção é aberta às
cartas dos leitores em janeiro de 1936, afirmando-se como um espaço para consulta de
problemas íntimos psicossexuais com o Dr. Ibáñez. A leitura das cartas enviadas ao longo do
ano revela uma forte preocupação com o comportamento sexual das mulheres, seja na
perspectiva dos companheiros e esposos que as escrevem, seja na das próprias mulheres.
Contudo, isso não significa que os únicos temas abordados refiram-se à mulher, numa
atividade explícita de indicar aos homens o caminho para introduzi-la à vida sexual, ou em
outras palavras, para ensiná-la a ajustar-se às necessidades masculinas, como vemos nos
manuais de "higiene do amor", publicados em vários países, no período. Trata-se de uma
tentativa de promover a interação entre os casais, ou então, de ajudar o indivíduo a encontrar-
se e resolver suas dificuldades a partir de conhecimentos bastante especializados na área da
psicanálise e da sexologia, de Freud e de Havellock Ellis.

Como afirma o Dr. Ibáñez, o consultório é uma espécie de santuário que visa trazer alívio não
mais às "dores espirituais", mas às "dores sexuais".

Um dos temas mais freqüentes trazidos nas cartas refere-se à questão da incapacidade de
amar das mulheres, ou da frigidez feminina. Assim, a primeira carta apresentada é escrita por
um homem de 42 anos, casado há oito com uma mulher cinco anos mais jovem, lamentando
seu fracasso em faze-lo conseguir "o êxtase amoroso no ato sexual", dificuldade que se
acentua após o nascimento do segundo filho.

As respostas do médico mostram as concepções médicas sobre o corpo e as sexualidade da


mulher, no período. Destinam-se a trabalhadores(as) identificados com o anarquismo, o que se
deduz pela maneira de apresentação dos leitores como "companheiros" ; aliás, o próprio
médico se coloca como um anarquista revolucionário comprometido com a Revolução em
curso. Discutindo o problema da frigidez feminina, o Dr. Ibáñez entende que há as causas
endógenas e as exógenas. Estas remetem às dificuldades masculinas, como ejaculação
precoce, ou impotência sexual relativa, ou ainda o uso de uma técnica sexual inadequada, que
levaria à insatisfação sexual da mulher. Aconselha o doutor :

"Examine objetivamente sua própria sexualidade, não apenas em sua constituição, mas em
sua técnica",

já que, "uma preparação amatória curta da mulher origina nela uma sobrecarga em sua
sensibilidade", que não sendo satisfatória resulta numa grande frustração. Entre as causas
endógenas da frigidez feminina, destaca as alterações endócrinas e sugere a consulta a um
especialista. Aí afirma que esta frigidez depois do segundo filho é muito comum nas mulheres e
tenta explicar :

"a influência anestésica sobre a erótica feminina do nascimento do filho" pelo traumatismo do
parto ; enquanto defesa psíquica pelo medo da gravidez ; pelo deslocamento do potencial
efetivo da mãe para o filho.

Em outra carta revelando a mesma dificuldade em relação ao orgasmo feminino, o médico


sugere que o homem considere o psiquismo feminino. As fantasias criadas desde a
adolescência em relação ao ato sexual e ao parceiro provocam um choque no embate com a
realidade ; portanto , propõe a reversão do quadro apresentado com a ajuda de um psicólogo
para que a mulher reverta "as imagens eróticas indesejáveis e as substitua pelas normais, na
construção de uma sensibilidade amorosa normal".

Esboçando um histórico da "evolução erótica da mulher", recorta três momentos fundamentais :


uma fase de auto-erotismo, em que a menina se ama e em que passa muitas horas se
adorando no espelho, ou mimando a boneca em que se projeta a si mesma, numa atitude
totalmente narcisista. A segunda fase, a da "projeção parental da sexualidade", marcada pelos
complexos de Édipo e de Eletra, é um momento heteroerótico, em que a jovem passa a se
apaixonar também pelos outros. Já a terceira fase, a da "especificidade erótica", o objeto de
desejo desloca-se para homens específicos. Finalmente, a mulher chega ao casamento e aí
emergem os problemas.

É interessante observar a preocupação feminista do médico que, ao contrário do pensamento


médico conservador do período, entende que a mulher deve ter direito ao prazer sexual, tema
recorrente na literatura anarquista desde o século anterior. Por isso, prega ele aos seus leitores
do sexo masculino :

"Se queremos ser homens livres, temos de desejar a liberdade sexual para a mulher em suas
experiências amorosas ; se desejamos ser revolucionários temos de começar por revolucionar
nosso espírito dominando nossos egoísmos." ("Lãs que no Saben Amar y las que no Puedem
Amar", fev. 1936, n° 150).

Outro tema de discussão remete à menopausa. Respondendo ao leitor aflito diante da ausência
de orgasmo da esposa e diante de sua entrada na menopausa aos 40 anos, o Dr. Ibáñez
informa que assim

"como sucede com sua esposa, não é um fato infrequente em nosso país."
A menopausa é identificada pelo médico como "o ocaso da sexualidade feminina", momento
em que a mulher deixa de ter desejo e capacidade sexuais, que no homem não terão data
marcada para acabar. A menopausa, isto é, o momento em que a mulher deixa de ter
condições de engravidar, é confundida com um período em que morre para a vida sexual, no
imaginário médico do período.

Analisando cautelosamente o caso exposto na carta pelo marido angustiado, o médico observa
que com um "horizonte sexual" tão triste, pois ela teve cinco partos e nenhum "êxtase" em sua
experiência sexual, ela só poderia querer encurtar o "indesejável caminho erótico", e chegar ao
"crepúsculo final de uma sexualidade dolorida e insatisfeita". Daí a menopausa precoce.

Também dos problemas sexuais masculinos se ocupa o médico anarquista, a exemplo da


impotência. De um lado, critica o esposo que, num segundo casamento, como diz em carta, só
consegue ter prazer ao projetar a imagem da primeira esposa, já falecida, sobre a segunda,
durante a cópula. A este comportamento denomina de "adultério espiritual" e recomenda uma
maior concentração nas qualidades da esposa atual para um desempenho mais positivo.

Mas, a análise se torna mais interessante quando ele discute o "homossexualismo psicológico",
a partir de outro caso exposto em carta. Trata-se de um trabalhador que, passando a
freqüentar a casa do amigo, estabelece uma relação íntima com sua esposa, de certo modo,
com sua própria conivência, já que cada vez mais o marido deixa espaço livre para o amigo. Ao
final, ele deixa sua esposa, enquanto o outro busca explicação para o caso. Para o médico,
trata-se de um caso de "homossexualismo psicológico", propiciado pelo adultério, já que
estando vinculado à esposa, o marido consegue atrair outro homem para dentro de sua casa e
indireta ou simbolicamente relaciona-se com este. Finalmente, algumas cartas colocam o
problema de companheiros fiéis, mas muito interessados pelas figuras femininas nas ocasiões
sociais. Ao que o Dr. Ibáñez define como erotomania, comportamento doentio decorrente de
um forte sentimento de inferioridade por parte do homem.

"Negócios do aborto"

O tema da legalização do aborto se destaca como um dos mais importantes na reforma


eugênica promovida pela Revolução na figura do Dr. Ibáñez, diretor geral do Sanidad e
Asistencia Social da Generalidad da Catalunha, ao lado de Federica Montseny, que se torna
Ministra da Saúde durante o governo de Largo Caballero. Em dezembro de 1936, é
estabelecido um decreto que permite a interrupção da gravidez,

"seja qual for a causa que o motive, dando um golpe assim ao curandeirismo assassino e
dotando o proletariado de um modo científico e eficaz de controlar sua natalidade, sem temor
aos riscos que ele poderia trazer..." (jan. 1937, n° 160)

Demonstrando o avanço da medida, já conhecida na Suíça, desde 1916, na Checoslováquia,


no Japão e na Rússia, durante os anos 20, o médico anuncia sua adoção na Catalunha,
enquanto uma das principais conquistas revolucionárias para as mulheres. Condenando as
medidas repressivas do aborto que levavam ao infanticídio e à morte da mulher proletária,
afirma que deste modo

"o aborto salta da clandestinidade e incompetência em que foi verificado até hoje, e adquire
uma alta categoria biológica e social, ao converter-se em instrumento eugênico ao servi ;co do
proletariado." (n° 160)

Defendendo a importância da "reforma radical", o doutor mostra que ela permitirá


paradoxalmente diminuir a taxa de abortos, já que ao lado dos centros destinados a ele,
funcionarão outros destinados à fusão popular de recursos anticoncepcionais,

"pois nosso ideal eugênico é que a mulher possua uma sólida cultura eugênica, que lhe permita
evitar o aborto e não recorrer a ele senão como último recurso (...)".
Além disso, a reforma eugênica do aborto, tirando-o das mãos dos charlatães e traficantes de
remédios, permitirá reduzir a mortalidade feminina por esta causa. Nesse sentido, ele entende
que o projeto valoriza a maternidade e consagra o direito da mulher ao seu próprio corpo :

"Saudemos todos, irmãs e irmãos proletários, a reforma eugênica do aborto desde a


Consejería de Sanidad y Asistencia Social (...). Liberadas sexualmente, as mulheres proletárias
serão no futuro as criadoras dessa nova geração de trabalhadores, prenúncios românticos da
nova era."

Ao fazer um balanço das criações revolucionárias da Consejería de Sanidad y Asistencia


Social, na Catalunha, nos meses em que a CNT participa do Consejo de Gobierno, e elogiando
fortemente a atuação de Federica Montseny, o médico destaca : a descentralização da
Sanidad e a municipalização dos médicos ; a constituição de conselhos locais e da comarca, a
criação de hospitais intermunicipais ; a "socialterapia", isto é, a reeducação dos doentes,
asilados e crianças em centros especiais :

"nossos estabelecimentos para crianças substituíram o regime carcerário de antes pela vida
livre em regime aberto, com o que o sol que irrompe abundantemente nos estabelecimentos
simboliza também a luz que penetra nas velhas normas."

A defesa da "maternidade consciente" a exemplo do que ocorre na Maternidad de las Corts,


caminho para os centros da natalidade é outro dos pontos destacados, assim como a
instauração dos "liberatórios da prostituição", casas de recolhimento das mulheres. Vale notar a
crítica às teorias "pseudocientíficas" do Dr. Lombroso. Finalmente, o médico defende a criação
de consultórios psicossexuais de orientação juvenil e do Instituto de Ciências Sexuais da
Catalunha, onde seriam realizados estudos e pesquisas sobre sexualidade.

Finalmente, os anarquistas se ocuparam da criação de espaços do prazer sexual. É o que


aparece no artigo "Uma Utopia Sexual", publicado em janeiro de 1937.

"Uma Utopia Sexual"

O autor, Mariano Gallardo, inicia o artigo perguntando-se por que se critica a busca de prazer
sexual :

"Es que no es digna la satisfacción de los instintos sexuales ?"

Critica a repressão sexual e afirma suas intenções :

"Precisamente o que aspiro com meus estudos sexuais é a criação de uma ética sexual nova e
livre, que torne desnecessária a prostituição."

Para acabar com ela, propõe a criação de estabelecimentos sexuais higiênicos, onde homens e
mulheres acorreriam quando necessitados. Ele imagina o "motel" de seus sonhos :

"Nesses estabelecimentos não haveria como população permanente senão o pessoal médico e
os encarregados do estabelecimento (...)."

O pessoal que o freqüentaria seria "movediço e transeunte", formado por indivíduos de ambos
os sexos,

"sãos e em idade de razão e de expansão voluptuosa."

Os médicos realizariam exames de prevenção e facilitariam o acesso aos métodos


contraceptivos. Haveria camas nos estabelecimentos e outros objetos considerados
necessários para o fim a que se destinam. Finalmente, se viessem além de casais, homens e
mulheres desacompanhados, formar-se-iam dentro do estabelecimento,
"casais de amantes para um momento. (...) A mulher ou o homem que não encontrassem
ninguém de seu gosto, voltariam outro dia (...)"

Concluindo, Gallardo defende-se ante a possível crítica ao projeto, observando estar


comprovado que a necessidade sexual nem sempre está unida ao amor e que a juventude não
pode receber educação sexual sem os meios para usufruí-la. Finalizando : entre fracassos e
vitórias...

Os anarquistas foram vítimas de muitas críticas, sobretudo por parte dos historiadores
marxistas que, ao abrirem as portas para sua entrada na memória histórica, condenaram-nos
aos porões por incapacidade política, romantismo ingênuo e esperança utópica, vale dizer,
impossível. Ao mesmo tempo, num momento marcado por esta historiografia, para a qual os
temas da sexualidade, do corpo, da mulher não tinham a mesma importância que os temas
políticos e econômicos, o projeto de reforma moral e sexual dos libertários certamente passava
bastante despercebido ou desvalorizado enquanto puro romantismo. Certamente, cada
sociedade escolhe o passado que quer celebrar e a partir de que registros pretende inventá-lo.

Contudo, algumas observações podem nos levar a refletir um pouco mais de profundidade
sobre o projeto social e moral libertário. Ao colocar- se como um pensamento "de fora" e
excêntrico, o anarquismo desloca o foco de investimento estratégico do campo da política
institucional para o da moral, afirmando que a luta se volta contra todas as formas de poder
constitutivas das relações sociais e sexuais.

Para Malatesta, aliás, o anarquismo resulta da vontade pessoal e coletiva, de um profundo


amor pelo próximo dificilmente captado pelas teorias científicas. Criticando violentamente as
instituições, o anarquismo dissolve os enquadramentos identitários que normatizam e
sedentarizam. A liberdade é, assim, ponto capital nesse pensamento que rejeita a separação
entre meios e fins. Nesse sentido, entende que o amor e desejo escapam totalmente as
codificações morais instituídas pela sociedade burguesa desde o século 19. é claro que, em se
tratando de uma moral construída sobretudo nos meios operários, os anarquistas enfrentaram
enormes críticas e dificuldades e, aliás, eles mesmos as enfrentaram com lucidez de sempre.
Assim, discutindo o amor livre, "tema delicado e difícil", uma das principais figuras do
anarquismo espanhol, Federica Montseny se pergunta em "A Mulher, Problema do Homem"
artigo publicado na Revista Blanca, em 1932 :

"quem, até agora, colocou em prática o verdadeiro amor livre ?"

que não seja apenas deixar de casar-se no religioso e no civil e mesmo sabendo que

"o matrimônio é o túmulo do amor."

A relação entre os gêneros

"continua sendo a união subordinada de uma mulher a um homem, união mais penosa, mais
coatora da liberdade feminina, porque ao prescindir da aprovação social, a deixa, na debilidade
de sua desorientação e do equívoco moral em que ambas as morais a colocam, mais à mercê
do carão" (pág.10)

O esforço para libertar-se do laço matrimonial

"a oferece temerosa e indefesa ao capricho masculino e ante a animosidade familiar e social."

Sem falar

"desse outro amor livre, que consiste em provar mulheres, abandonando- as ao cabo de dois
meses com a insolência triunfante de sedutor." ;
ou de uma forma disfarçada de prostituição que praticam algumas mulheres, diz ela. E qual
será o futuro do amor, pergunta, deixando claro sua recusa do "comunismo amoroso",
preconizado por Armand na França. Também acha difícil responder, pois em cada indivíduo,

"o amor tem uma manifestação, uma variedade e um conceito.

"Montseny entende que a modernização da sociedade liberou a mulher do domínio do patriarca


para coloca-las nas fábricas e oficinas sob o domínio do patrão. Sem modelos, passou-se da
mulher francesa para o tipo americano, em que

"o cabelo curto iguala as cabeças."

Desanimada, diz que não vê solução para o problema do dois sexos no mundo em que vive,
embora aponte

"o individualizamento do amor ?"

como saída. E este exige uma nova mulher, mas também um novo homem. Os anarquistas
preparam o amor livre, criticando a prisão representada pelo casamento monogâmico
indissolúvel ; defenderam o divórcio ; procuraram resolver o problema da prostituição criando
"liberatórios da prostituição", casas de recolhimento para as mulheres desamparadas.
Entenderam que deveria haver espaços especiais para o sexo livre, entendido enquanto uma
necessidade humana ; legalizaram o aborto, afirmando deste modo poder valorizar a
maternidade e deixa com que a mulher decidisse da livre opção pela gravidez.

Muitas décadas depois, salta à vista o pioneirismo de suas propostas, muitas das quais foram
incorporadas e são hoje amplamente praticadas em nossa sociedade, sobretudo nos setores
sociais voltados à critica do autoritarismo em suas práticas cotidianas. Outros pontos, a
exemplo do aborto e da prostituição, ainda são feridas abertas em nosso mundo e as respostas
oferecidas hoje ainda estão muito aquém do patamar estabelecido por aqueles revolucionários
nos anos 20 e 30. De qualquer modo, as possibilidades históricas estão dadas e se tornam
cada vez mais conhecidas, permitindo ampliar o repertório de respostas possíveis que nossa
sociedade quer conhecer. Resta saber que mundo, afinal, queremos.

Contribution de : CREAGH Ronald


Dernières modifications : 3 novembre 2005

RAGO, Elisabeth
Cet auteur a également écrit :
AA - RAGO, Margareth. "Cartographies d’une anarchiste : Luce Fabbri et l’expérience de l’exil".

Pour en savoir plus :

Contrôle des naissances


CHAPELIER, Émile et Eugène-Gaspard MARIN.Ayons peu d’enfants. Comment et pourquoi  ?
Au temps des illustrés : L’histoire vraie de Croc Mitaine
CHAPELIER, Émile. Limitons les naissances  ! Réponse au cardinal MERCIER .
HUMBERT, Jeanne.- Archives. (2) Présentation de Francis Ronsin, avec l’aide d’Isabelle Ubeda.
HEM DAY, pseud. de Marcel ou Henri DIEU. (1902-1969). Anarchiste belge, libraire et historien.
Bibliographie
FAURE, Sébastien (1858-1942). Biographie et Bibliographie
Dans une autre langue : Anarchism, Science and Sex. Eugenics in Eastern Spain, 1900-1937 (en)  SONN, Richard. " ’Your
body is yours’ : Anarchism, Birth Control, and Eugenics in Interwar France" (en)  MASJUAN BRACONS, Eduard. La Ecología Humana
en el Anarquismo Ibérico  : Urbanismo «  Orgánico  » o Ecológico, Neomalthusianismo y Naturismo Social. (es)  (...)
LACERDA DE MOURA, Maria

MALATESTA, Errico (1853-1932)


CES VISAGES DÉVORÉS PAR LA PASSION...
Bertolucci, Franco. "Lieux et mythes de l’anarchisme italien au XIXe"
FRACCARO, Elis. Malatesta  : Biographie en image d’une figure de proue de l’anarchisme italien
SIÉ, Jean. (Université de Toulouse II) « Les Anarchistes et la Guerre de 14-18 »
LANZA, Luciano. "Bref voyage dans l’économie qui n’existe pas"
HEM DAY. Le Manifeste des Seize
Colson, Daniel. L’anarchisme et les discontinuités de l’Histoire - 2 -
BERTI, Nico. "Note d’histoire sur la Première Guerre mondiale"
L’INTERNATIONALE ANARCHISTE ET LA GUERRE
MALATESTA, Errico. (14 décembre 1853, Santa Maria Capus Vetera, Italie -22 juillet 1932, Rome,
Italie). Biographie et Publications
VAN DER WALT, Lucien. "Les anarchistes contre l’impérialisme"
GUÉRIN, Daniel, éd. Ni dieu ni maître, anthologie de l’anarchisme
L’autre prince anarchiste : Warlaam TCHERKESOFF.
COLSON, Daniel. "Subjectivités anarchistes et subjectivité moderne".
Réponse de Malatesta au "Manifeste des Seize"
MALATESTA, Errico.- La Pensée de Malatesta. Gaetano MANFREDONIA
Les Arditi del Popolo et les premiers mouvements d’opposition au fascisme en Italie
Pa Kin. "Lettre de LI Pei kan à la C.R.I.A. [Commission des Relations Internationales Anarchistes]", 18
mars 1949
Une polémique libertaire : Déterminisme et Volontarisme.- Introduction
La Question sociale : les affinités discrètes de la presse anarchiste internationale
Dans une autre langue : GUÉRIN, Daniel, éd. Né dio né padrone (it)  NETTLAU, Max. Bibliografia (it)  La guerra civil
española de Hugh THOMAS (es)  "Vivendo la mia vita". Intervista a Luce Fabbri di Cristina Valenti. (1° Parte) (it)  ADAMS, Jason.
"Non-Western Anarchisms : Rethinking the Global Context". -4- (en)  FRACCARO, Elis. La rivoluzione volontaria  : biografia per
immagini di Enrico Malatesta (it)  NETTLAU, Max.- Bibliography (nl)  Biography (en)  ADAMS, Jason. "Non-Western Anarchisms :
Rethinking the Global Context". -3- (en)  APOSTOLO, Marco. "Pensiero e Volontà nell’itinerario politico di Errico Malatesta (it)  (...)

MARTÍ IBÁÑEZ, Felix (Dr.)


CLEMINSON, Richard. "Hygiène publique, santé et sexualité : Quelques concepts anarchistes"
Dans une autre langue : GRAHAM, Robert. Anarchism. A Documentary History of Libertarian Ideas (en)  (...)

MONTSENY, Federica (Madrid, 1905-Toulouse, 1994). Militante anarchiste espagnole


Dans une autre langue : Historia negra de una crisis libertaria de Älvarez RAMÓN (es)  MONTSENY, Federica.
Bibliografía (es)  Living Utopia (Vivir la utopia) (en)  1969 (5-6-7 dicembre) Torino. Anarchici e anarchia nel mondo contemporaneo
(it)  FREDERICKS, Shirley F. "The Social and Political Thought of Federica Montseny, Spanish Anarchist, 1923-1937" (en) 
MONTSENY, Federica.- Archives (en)  Film : "Federica MONTSENY MAÑE" (es)  "Teruel ha caido" (es)  (...)

RAGO, Margareth
Dans une autre langue : RAGO, Margareth. "Luce Fabbri e a Utopia Libertária", (pt)  RAGO, Margareth. "Entre a História e
a Liberdade. Luce Fabbri e o Anarquismo Contemporâneo," (pt)  FABBRI, Luce :- Margareth RAGO, "A liberdade entre a Utopia e a
História : Luce Fabbri e o Anarquismo na América do Sul", (pt)  FABBRI, Luce. El camino  : hacia el socialismo sin estado  : en cada
paso la realidad de la meta . (es)  RAGO, Margareth "A experiência feminina do Anarquismo no Brasil", (pt)  (...)

Sexualité et différentiation sexuelle (Gender theory)


GUÉRIN, Daniel. "Le Nouveau monde amoureux de Fourier"
GUÉRIN, Daniel. "Pour la révolution sexuelle nippone"
Néo-malthusianisme
GUÉRIN, Daniel. "Entretiens avec Daniel Guérin"
VIAUD, Marcel. " La libre disposition de son corps ".
GUÉRIN, Daniel. "L’explosion"
E. Armand et "la camaraderie amoureuse" Le sexualisme révolutionnaire et le combat contre la jalousie
GUÉRIN, Daniel. "Le message de délivrance de Kinsey"
06-07 Octobre. Paris, EHESS : "Socialisme et sexualité".
GUÉRIN, Daniel. "Journal trop intime"
Armand E. (1872-1962) Pseud. de Ernest-Lucien Juin. Ceci n’est pas une bibliographie
GUÉRIN, Daniel. Kinsey et la sexualité
2006 Octobre 6-7. Paris, EHESS : "Socialisme et sexualité"
GUÉRIN, Daniel. "Statistiques et sexualité. Encore Kinsey. Lettre de Daniel Guérin"
ARMAND, E. (1872-1962). Pseud. de Ernest-Lucien Juin. Biographie
FOURIER, Charles. Vers la liberté en amour
GUÉRIN, Daniel. "De la répression sexuelle à la Révolution"
"Daniel Guérin « à confesse »"
GUÉRIN, Daniel, Boris FRAENKEL, Michel CATTLER, Constantin SINELNIKOFF, Marc
KRAVETZ et Jacques DELATTRE(ed.), Société et répression sexuelle. L’œuvre de Wilhelm Reich
Dans une autre langue : CLEMINSON, Richard. "First Steps towards Mass Sex-Economic Therapy  ? Wilhelm Reich and the
Spanish Revolution". (en)  BATTAN, Jesse Frank. "The Politics of ’Eros’  : Sexual Radicalism and Social Reform in Nineteenth-Century
America," (en)  White, Roger. Post Colonial Anarchism  : Essays on race, repression and culture in communities of color 1999-2004 (en) 
KOENIG, Brigitte Anne. " American anarchism : The politics of gender, culture, and community from Haymarket to the First World War "
(en)  FERRANDINO, M.M. "Patriarchy and Biological Necessity  : A Feminist and Anarchist Critique" (en)  MARSO, L. J. "A Feminist
Search for Love : Emma Goldman on the Politics of Marriage, Love, Sexuality and the Feminine" (en)  LE BLANC, Ondine Eda. "
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MOYA, Jose. "Italians in Buenos Aires‚ Anarchist Movement  : Gender Ideology and Women’s Participation" (en)  BLATT, Martin Henry.
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La Guerre d’Espagne (1936-1939)


"Un Autre futur". Un film de Richard Prost
CAPA, Robert. Reportages photographiques
MARTINEZ, Miguel. "L’exil des Anarchistes espagnols en Algérie."
ENCKELL, Marianne. "La position de la Suisse durant la Guerre d’Espagne"
PRUJA, J. C. Premiers camps de l’exil espagnol  : "Prats-de-Mollo", 1939
BOJ, Marie-Claire. "Les Camps de concentration français en 1939. Etude sur les réfugiés espagnols".
TÉLLEZ SOLÁ, Antonio (Tarragone, Espagne, 1921-Perpignan, France, 26/03/2005)
France 1996 : "Transmission d’héritage anarcho-espagnol à Toulouse"
Photos de la guerre civile
FROIDEVAUX, Michel. "Les avatars de l’anarchisme. La révolution et la guerre civile en Catalogne,
1936-1939, vues au travers de la presse anarchiste"
Sail Mohamed, ou la vie et la révolte d’un anarchiste algérien
Événements majeurs
NICOLAS, P. [pseud. de LAZAREVITCH, Nicolas]. A travers les révolutions espagnoles
CARPENA, Pepita. "L’accueil de la France aux réfugiés espagnols"
Les Tortures durant la guerre
SAÏL, Mohamed Ameriane ben Amezaine.- "Mohamed SAIL (né le 14 Octobre 1894 à Taourirt [Aït
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MARIN, Progreso. Exil  : témoignages sur la guerre d’Espagne, les camps et la résistance au
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ALBEROLA, Octavio. "Le Déclin idéologique et révolutionnaire de l’anarcho-syndicalisme espagnol"
ROSELL, Pepito. "Dans la résistance, l’apport du mouvement libertaire"
MINNIG, Albert Minnig et Edi GMÜRPour le bien de la Révolution
DOMMANGET, Maurice. 9. L’essor mondial de « L’internationale » après guerre
Conférences et articles de Daniel Colson
WAINTROP, Edouard. "Ces Arabes, héros perdus de la guerre d’Espagne : Portraits de combattants"
EINSTEIN, Carl. "La Colonne Durruti"
Les Humbles  : revue littéraire (mensuelle) des primaires : Roubaix (1911-1914), puis Paris (1916-
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BLANCHON, Jean-Louis. « Une Expérience libertaire en Cerdagne : Pugcerda (1936-1937) »
GOLDBRONN, Frédéric et Frank MINTZ. " Les collectivités dans la Révolution espagnole de 36"
DARTOIS, Pierre.- "Les Anarchistes et la guerre espagnole"
FLORÈS Jean-Marie. "Les Anarchistes aragonais et le pouvoir : 1936-1937"
ESTERLE, Maryse "Juillet à septembre 1936 à Cadix (Espagne)  : les travailleurs face aux militaires",
1944 24 août. Les Républicains espagnols et la Libération de Paris
MERCIER-VEGA, Louis. Refus de la légende
TÉLLEZ SOLÁ, Antonio. Bibliographie
Paco. Visions de l’Espagne libertaire
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Feuilleton radiophonique : "Souvenirs de la guerre d’Espagne du 19 juillet 1936 au 9 février 1939"
Histoire intellectuelle du mouvement. Quelques temps forts
GIMENEZ, Antoine & les Giménologues. Les Fils de la nuit. Souvenirs de la Guerre d’Espagne
L’Espagne révolutionnaire
CARPENA, Pepita (Barcelone, Espagne 1919 - Marseille, France 5 juin 2005)
Durruti 1896-1934
DUNAS, Lucie.- "La Vie d’Anselme Zapata, militant anarchiste de la CNT, capitaine de l’armée
républicaine espagnole, réfugié politique en France"
VAN DEN ZEGEL, Stefan. "Parcours de militants libertaires autou de la guerre d’Espagne. Eléments
pour une étude de l’engagement politique."
Une utopie réalisée. Quand l’Espagne révolutionnaire vivait en anarchie.
MERCIER-VEGA, Louis (Bruxelles, 1914-1977), pseud. de Charles Cortvrint.
Solidarité internationale antifasciste
"Diego". Un film de Frédéric Goldbronn
La Guerre civile et la Révolution en Espagne (1936-1939)
SANGENIS, José, "Témoignage sur les camps d’exil en France en 1939",
Dans une autre langue : Land and Freedom (Tierra y Libertad) (en)  GARCIA, Miguel García. Unknown heroes  :
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(en)  Enseñanzas de la revolución española de Vernon RICHARDS (es)  NICOLAS, L. (pseud. of Nicolas LAZAREVITCH) "Failure of
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(en)  CASPANI, Manuela. "’L’Adunata dei Refrattari’ e la rivoluzione spagnola" (it)  (...)

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