Você está na página 1de 2

Este poema relata um passeio do sujeito poético pelo campo, acompanhado de uma

prima ("lírica excursão, de intimidade"), no qual se inclui o episódio das formigas


trabalhadoras.

As personagens intervenientes são o sujeito lírico e a prima. O sujeito poético é


claramente um homem citadino (usa um trajo inadequado ao campo): "Eu de jasmim na casa
do casaco / E de óculo deitado a tiracolo", apresentando-se, assim, como o perfeito "dândi"
num passeio rural, que fuma cachimbo e vê o campo como um passatempo. Mas o campo é
também fonte de inspiração ("No campo; eu acho nele a musa que me anima"). Considera-se,
ainda, "ocioso, inútil, fraco", em comparação com as formigas que "Arrastam bichos, uvas e
sementes; / E atulham, por instinto, previdentes, / Seus antros quase ocultos na parede". Por
último, revela, talvez, pouca sensibilidade, ao rir do cuidado da prima para não pisar as
formigas. Enfim, trata-se de um proprietário rural de visita à quinta, a quem os trabalhadores
"fazem grandes barretadas!", em sinal de respeito, e que observa a sua vinha com orgulho:
"Verdeja, vicejante, a nossa vinha".

A prima é "Criança encantadora", meiga e educada ("Em quem eu noto a mais sincera
estima / E a mais completa e séria educação"); é cuidadosa, dizendo ao primo "Apaga o teu
cachimbo junto às eiras"; brincalhona e vaidosa ("Colhe-me uns brincos rubros nas ginjeiras!"),
querendo enfeitar-se, como qualquer criança, com as ginjas; adora a natureza, aprecia o ritmo
dos trabalhos do campo ("Quanto me alegra a calma das debulhas!") e respeita a natureza no
seu todo, desviando-se das formigas para não as pisar ("Tu não as esmagares contra o solo!").
Usa "um chapéu de palha, desabado" e apoia-se no cabo de uma sombrinha.

O espaço físico, o campo, é caracterizado, ao longo do poema, como "a musa",


detentor de "paz, salubridade", um espaço repleto de "claridade", "robustez", "acção",
desenhado através das leiras e das eiras e onde os saloios cantam aos bois. É o espaço da
"calma das debulhas", das "aldeias tão lavadas", dos "Bons ares! Boa luz! Bons alimentos!",
dos "saloios vivos, corpulentos", das "ramagens / Dos olivais escuros", dos rebanhos que
regressam das pastagens, dos "milhos, nuvens e miragens", dos lugares calmos e das vinhas
verdes e vicejantes.

O sentido associado a este espaço, ao campo, é claramente positivo. O campo é o


espaço da claridade, um lugar solar, saudável, robusto, cheio de força e de viço. Este é, assim,
visto como um espaço edénico, uma espécie de paraíso, pleno de vida e transmitindo
felicidade.

Na estrofe 5, encontram-se várias aliterações: no 1.º verso, em "Na ribeira abundam as


ramagens" e nos 3.º e 4.º versos em "Regressam os rebanhos das pastagens; / Ondeiam
milhos, nuvens e miragens" do som nasal (n e m e do som r); há ainda uma interrogação
retórica ("Onde irás") e uma imagem do movimento dos campos de milho e das nuvens no
céu, fustigados pelo vento, sugerida pela forma verbal em "Ondeiam milhos, nuvens e
miragens". O conjunto destes recursos expressivos confere a esta estrofe um visualismo e um
movimento que a transformam numa espécie de quadro/fotografia do espaço referido.

Na estrofe 6, em "Numa colina azul brilha um lugar caiado", é de notar a presença de


uma metáfora, na associação da brancura do lugar com o brilho da "colina azul"; em "Belo!",
de uma frase exclamativa que culmina a descrição das belezas do campo; do diminutivo, com
toda a conotação de ternura, na alusão à "sombrinha" da prima; e, por último, em "Verdeja,
vicejante, a nossa vinha", a aliteração do (v).

O episódio das formigas pode ser visto como uma espécie de alegoria: as formigas "em
sociedade, espertas, diligentes" são uma metáfora do trabalho, da dedicação em prol da
comunidade e também do campo, enquanto o sujeito poético "ocioso, inútil, fraco / (...) de
jasmim na casa do casaco / E de óculo deitado a tiracolo!" poderá ser entendido como a
metáfora de cigarra, que canta no verão e, no inverno, quer viver à custa dos outros,
chegando, por vezes, a sucumbir... O sujeito poético, pelas características que apresenta, pode
também ser o símbolo da cidade.

O caráter visualista e o predomínio das impressões visuais estão bem patentes ao


longo de todo o poema, pois no decurso da "lírica excursão", o sujeito poético revela-se
sensível às belezas do campo, que enaltece na sua descrição: "Que aldeias tão lavadas!" (de
notar o emprego do advérbio de intensidade "tão", reforçando a limpeza das aldeias); "Bons
ares! Boa luz! Bons alimentos!" (note-se a repetição do adjectivo); "Olha: os saloios vivos,
corpulentos" (apelo ao destinatário para que veja mesmo). Os segmentos textuais "Na ribeira
abundam as ramagens / Dos olivais escuros", "Regressam os rebanhos das pastagens",
"Ondeiam milhos, nuvens e miragens", "Numa colina azul brilha um lugar caiado", "Verdeja,
vicejante a nossa vinha", "No atalho enxuto, e branco das espigas (...) / Esguio e a negrejar em
um cortejo, / Destaca-se um carreiro de formigas.", "Arrastam bichos, uvas e sementes; / E
atulham, por instinto, previdentes, / Seus antros quase ocultos na parede" constituem uma
sucessão de imagens visuais. Finalmente, o sujeito poético fica silencioso - "E, silencioso, eu
fico para trás" - provavelmente para registar, guardar bem no seu íntimo, todas as impressões
visuais, todas as imagens daquele paraíso e, para isso, precisa de silêncio, de recolhimento.