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UniEvangélica

Instituto Saber

MÓDULO: PSICANÁLISE DA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA

Prof. Esp. Luciana S. L. Tourinho

PROGRAMA DE PÓS–GRADUAÇÃO EM
PSICOPEDAGOGIA

__________________________________________________________________

Novo Gama - 2005


INSTITUTO SABER Telefones (61): 30373760-30373766 / E-mail:
sabercultura@sabercultura..com.br

Psicanálise com crianças e adolescentes

Ementa

A psicanálise contempla o ser humano como um todo, primeiramente e depois em


suas especificidades. A Psicanálise proporciona a conscientização dos transtornos
psíquicos direcionando as possibilidades de mudança, vindas do próprio sujeito.
Dessa forma o estudo e análise de crianças e adolescentes, com base nas teorias
psicanalíticas envolve o estudo do desenvolvimento humano e suas inter-relações.

Objetivos

Destinado àqueles envolvidos no atendimento de crianças e adolescentes, esta


disciplina visa situar e instrumentalizar os profissionais da área, além de promover
a capacitação de suas habilidades no tocante ao desenvolvimento infanto-juvenil.

Programa do curso

 Apresentação
 Base estrutural e instrumental
 A transferência
 Fases do desenvolvimento

 Fase oral
 A modalidade incorporativa
 As etapas orais
 Fase anal
 O valor simbólico dos produtos anais
 As etapas anais
 Fase fálica
 Período de latência
 Fase genital

 Sexuação - Complexo de castração no menino e na menina


 Conceitos primordiais:
1. Falo
2. Narcisismo
3. Sublimação
4. Identificação
5. Supereu
6. Foraclusão

 O desenho
 O jogo simbólico
 Estimulação precoce (EP) e Psicanálise
 O Adolescer

Avaliação do Módulo

Elaboração de trabalho escrito. Analisar um caso de uma criança ou um


adolescente, traçar objetivos de atendimento e verificar a demanda da família e do
indivíduo.

Bibliografia

 CARACUSHANSKY, Sophia Rozzanna. A terapia mais breve possível –


avanços em práticas psicanalíticas. Ed. Summus, 1990.
 FERRO, Antonino. A técnica na psicanálise infantil – a criança e o analista: da
relação ao campo emocional (pg. 43 a 101). Ed. Imago, 1995.
 GOLSE, B. O desenvolvimento afetivo e intelectual da criança (pg. 205 a 209).
Ed. Artmed, 1998.
 JERUSALINSKY, Julieta. Enquanto o futuro não vem (pg. 132 a 145 e 258 a
294). Editora Ágalma, Salvador, 20102.
 KALINA, Eduardo. Tratamento de adolescentes psicóticos. Ed. Francisco
Alves, 1986.
 MOKOTOFF, Nora et al. Amarelinhas: psicopedagogia inicial – de bebê a
menino (pg. 42 a 48). Biblioteca Freudiana de Curitiba, 1994.
 Nasio, Juan David. Lições sobre os sete conceitos cruciais da psicanálise. Ed.
Jorge Zahar, 1989.

1
Fonoaudióloga Especialista em Diagnóstico e Tratamento dos transtornos na infância e adolescência com
base Psicanalítica.
Fonoaudióloga Clínica do Serviço Médico da Polícia Federal.
Fonoaudióloga Clínica da Escola Especial AMPARE.
 RAPPAPORT, Regina et al. Psicologia do desenvolvimento: teorias do
desenvolvimento – conceitos fundamentais, Vol. 1 (pg. 35 a 45 e 63 a 75). Ed.
EPU.

Aulas

Base estruturante e instrumental

 Aspectos estruturantes: psíquicos e orgânicos


 Aspectos instrumentais: aprendizagem, atividades da vida diária(AVD`S),
psicomotricidade, linguagem e memória.
 Os três enlaces : Real, Simbólico e Imaginário.
 Trabalhar as especificidades levando em conta o sujeito.
 Re-significação dos pais para com a criança.
 Situar o lugar do Outro Primordial.
 A estruturação: (recursos imaginários)

1. O jogo do “Fort-Da”;
2. Os objetos transicionais;
3. Os jogos corporais;
4. O jogo de esconde-esconde;
5. A brincadeira de cair;
6. A repetição (no brincar e no desenho);
7. Os amigos imaginários;
8. A identificação imaginária com super-heróis;
9. Cantos e contos infantis;
10. O fascínio de ouvir a própria história;
11. “Teorias” sexuais;
12. Medos e fobias;
13. A mentira;
14. Os devaneios;
15. A invenção de estórias.

A transferência
Transferência2

2
LAPLANCHE, J. e PONTALIS, J. B. Vocabulário de Psicanálise. Ed. Martins
Fontes.
Em Psicanálise designa:

 Processo pelo qual os desejos inconscientes se atualizam sobre


determinados objetos no quadro de um certo tipo de relação estabelecida
com eles (no quadro da relação analítica);

 Repetição de protótipos infantis, vivida com sensação de atualidade;

 O que caracteriza um tratamento psicanalítico propriamente dito (instalação,


modalidade + ou – , interpretação e resolução).

- Estado de carência/insatisfação que um sujeito apresenta a um


médico.

Em Freud: “Se a necessidade que uma pessoa tem de amar não é


inteiramente satisfeita pela realidade, ele está fadado de aproximar-se de cada
nova pessoa que encontra com idéias libidinais antecipadas. Assim, é
perfeitamente normal e inteligível que a catexia libidinal de alguém que se
acha parcialmente satisfeito, uma catexia que se acha pronta por antecipação,
dirija-se também à figura do médico.”

- Os investimentos recorrerão a protótipos.

Em Freud: “Decorre de nossa hipótese primitiva que esta catexia recorrerá a


protótipos, ligar-se-á a um dos clichês estereotípicos que se acham presentes
no indivíduo; ou, para colocar a situação de outra maneira, a catexia incluirá o
médico numa das séries psíquicas que o paciente já formou.”

- Intensidade da transferência em neuróticos em análise. A análise


como produtora de transferência.

Em Freud: “Em primeiro lugar, não compreendemos porque a transferência é


tão mais intensa em indivíduos neuróticos em análise que em outras pessoas
desse tipo que não estão sendo analisadas.”
Ex: produção de sonhos, sintomas incluindo o analista/terapeuta.
- A transferência como resistência à análise. O analista como o Outro
do sintoma.

Em Freud: “... pois nossa experiência demonstrou – e o fato pode ser


demonstrado com tanta freqüência quanto desejarmos – que, se as
associações de um paciente faltam (cessam), a interrupção pode
invariavelmente ser removida pela garantia de ele estar sendo dominado,
momentaneamente, por uma associação relacionada com o próprio médico ou
com algo a ele vinculado.”

Em Nasio: “Uma das respostas possíveis para definir a transferência em


psicanálise consistiria em defini-la como o momento particular da análise em
que o analista participa como sintoma do paciente.”
 “Quando sofro, lembro do meu analista; e quando penso nele, o que me
volta é a lembrança do meu sofrimento.”
 “Desde que comecei a vir aqui tenho a impressão de que tudo o que
acontece comigo está relacionado com o trabalho que estou fazendo com
você.”
 Eu engravidei, mas tenho certeza de que minha gravidez está
diretamente ligada à minha análise.”
* O analista está no lugar do destinatário do sintoma, e depois, mais
adiante, o de causa dele.

- Sujeito suposto saber.

Primeiro momento que faz com que um sujeito busque um tratamento,


seja ele qual for, para se livrar de um mal. O sujeito acredita que seu
médico/analista/terapeuta/educador possui um saber sobre ele e poderá
ajudá-lo.

- Saber suposto ao sujeito.

O analista faz parte do sintoma a ponto de causar o próprio sofrimento, o


próprio sintoma. O saber suposto está no próprio sujeito, no sujeito do
inconsciente e não no analista.

* Ao encontrar a representação que fora recalcado, todas as forças que a


puseram neste lugar atuam como resistência, a fim de manter a
representação no devido lugar.

Manejo de transferência – positiva e negativa.


- Positiva: divide-se em dois tipos – transferência de sentimentos
afetuosos e transferência de prolongamentos destes sentimentos no
inconsciente.

 Transferência afetuosa: facilita a relação analista-paciente na


medida em que ajuda o sujeito a superar as barreiras de fazer uma
confissão.

 Transferência dos prolongamentos destes sentimentos


afetuosos no inconsciente: “E assim somos levados à descoberta
de que todas as relações emocionais de simpatia, amizade,
confiança e similares, das quais podemos tirar bom proveito em
nossas vidas, acham-se geneticamente vinculadas à sexualidade e
se desenvolveram a partir de desejos puramente sexuais, através
da suavização de seu objeto sexual, por mais puro e não sensuais
que possam parecer à nossa percepção consciente.”

- Negativa: faz o paciente parar de associar livremente, não leva em


consideração as interpretações dos analistas ou as recomendações
médicas, educacionais etc. Normalmente o paciente abandona a análise.

Sexuação

Castração: não corresponde á acepção habitual de mutilação dos órgãos genitais


masculinos, mas designa uma experiência psíquica completa, inconscientemente
vivida pela criança por volta dos cinco anos de idade. O que marca essa
experiência é que, pela primeira vez, a criança descobre a diferença anatômica
entre os sexos. Um dos objetivos da análise é reativar, na vida adulta, a
experiência que tivemos na infância. “Admitir com dor que os limites do corpo são
mais estreitos que os do desejo.”

Complexo de castração no menino e na menina

Primeiro tempo: “todo mundo tem um pênis.” Crença universal de que todos os
seres vivos são dotados de pênis – não existe a diferença sexual. Para a menina,
o clitóris é equivalente ao pênis – do ponto de vista anatômico, nada falta no
corpo.

Segundo tempo:
- Nos meninos: o pênis é ameaçado.
- Nas meninas: o clitóris é pequeno demais para ser um pênis – “fui
castrada.”

Terceiro tempo:
- Nos meninos: existem seres sem pênis e portanto a ameaça é real.
- Nas meninas: a mãe também é castrada – ressurgimento do ódio pela mãe.

Quarto tempo:
- Nos meninos: a mãe também é castrada – emergência da angústia; saída
do complexo de Édipo.
- Nas meninas: nascimento do complexo de Édipo – três possíveis saídas

1. Ausência da inveja do pênis (recalcamento): desvio da sexualidade em


decorrência do impacto da diferença entre os sexos.
2. Vontade de ser dotada de pênis do homem: mantém a fantasia masculina
de que um dia ela poderá ter um pênis e assim ser igual aos homens.
Escolhas homossexuais evidenciam esta hipótese.
3. Vontade de ter substitutos do pênis: reconhecimento imediato e definitivo
da castração. Três estágios:
A. Mudança do parceiro amado – a mãe cede lugar ao pai. A filha volta-se
para o pai ao constatar que a mãe também é castrada e que só o pai
poderá restituí-la de sua perda.
B. Mudança de zona erógena – clitóris cede lugar à vagina. A libido
desloca-se do clitóris para a vagina, deixando a fantasia de gozar com
um pênis no coito para tornar a vagina o continente do pênis. A menina
recolhe a herança do corpo materno.
C. Mudança de objeto desejado – o pênis cede lugar a um filho.
Deslocamento do desejo de ter um pênis para ter um filho.
Esquema do complexo de castração no menino
Ausência de ódio pré-edipiano
Primeiro tempo
Universalidade do pênis
Segundo tempo
O pênis é verbalmente ameaçado pelo pai
Terceiro tempo
O pênis é ameaçado á visão do corpo nu da mulher
Quarto tempo
A mãe é castrada.
O menino pensa: “posso ser castrado como ela”
Emergência da angústia da castração
Tempo final
Separação da mãe – desejo dirigido para outras mulheres
Fim dos complexos de castração e de Édipo
Esquema do complexo de castração na menina
Ódio pré-edipiano
Primeiro tempo
Universalidade do pênis (clitóris) – ausência de ameaças verbais
Segundo tempo
Visualmente comparado ao pênis, o clitóris é “inferior”
Terceiro tempo
A mãe é castrada
A menina pensa: “fui castrada como ela”
Emergência da inveja do pênis – ressurgimento do ódio
Tempo final
Separação da mãe – desejo voltado para o pai e para outros homens
Fim do complexo de castração e nascimento do complexo de Édipo

Um complexo é uma ligação indissolúvel entre:


 As pulsões, sem finalidades diferentes, às vezes contraditórias, que o
sujeito pretende controlar; origem fisiológica; exigem ser saciadas.
 As interdições, de ordem cultural, que se opõem à realização de algumas
dessas pulsões; situação conflitante inconsciente manifestam-se no
comportamento.
Conceitos primordiais:
Angústia: reação emocional intensa como resposta a um perigo real ou
imaginário.
Sintoma: utilização quase irreconhecível da pulsão reprimida. O aparecimento do
sintoma liberta o sujeito da sua angústia e proporciona-lhe um sentimento imediato
de bem estar.

Falo

Falo imaginário

 A forma imaginária do pênis é a representação psíquica inconsciente que


resulta de três fatores: anatômico, libidinal e fantasístico.
 Anatômico: indica à criança parte presente ou ausente do corpo.
 Libidinal: carga libidinal acumulada que reflete nas apalpações auto-
eróticas da criança.
 Fantasístico: ligado à angústia provocada pela fantasia de perda do órgão.

Falo simbólico

 Objeto permutável – maneira de manter o desejo sexual.


 Padrão simbólico – possibilita os objetos a serem equivalentes.
 Significante da lei – corte entre mãe e crianaça.

Narcisismo

 Primário
 Secundário
 Imagem do eu e objeto sexual
 Identificação

Sublimação
Processo pelo qual a energia dos instintos sexuais é deslocada para atividades
ou realizações de valor social ou cultural, como atividades artísticas ou
intelectuais.

Identificação
Processo pelo qual o indivíduo se torna idêntico a outro pela assimilação de traços
ou atributos daquele que lhe serve de modelo. Nesse processo o indivíduo pode
assimilar aspectos de outra pessoa, como também identificar em outros aspectos
seus. È através das identificações que desde o princípio a personalidade se forma
e se diferencia.

Supereu ou superego

Uma das três instâncias da personalidade , que Freud concebeu em um dos


modelos do aparelho psíquico. È formado a partir das identificações com os
genitores, assume o papel de vigilante e juiz.

 A autoridade parental internalizada durante o Édipo.


 O supereu é uma das duas partes de um eu dividido.

Foraclusão – permite à criança assumir seu próprio sexo, sendo capaz de


reconhecer limites.

 Falta de inscrição, no inconsciente, da experiência normativa da castração.

As fases de desenvolvimento
 Todo o instinto, pulsão biológica primitiva, participa de um dado que
caracteriza todas as manifestações vitais: o ritmo – fases de repouso e de
excitações alternadas, as pulsões instintivas estão sujeitas à repetição.
 O termo sexual, para psicanalistas não significa genital. Esse qualificativo,
genital, somente deve ser utilizado para certas manifestações da
sexualidade do sujeito. É sabido que o hedonismo da criança, “a busca do
prazer”, desperta extremamente cedo.
 O prazer gerado por via da excitação ritmada de qualquer zona corporal
deve ser, portanto, qualificado como sexual – mesmo quando não visa a
união de dois gametas. Conseqüentemente, o princípio da pulsão que
objetiva, na infância, à excitação de zonas erógenas muito numerosas –
qualquer parte do corpo pode se tornar a sua sede – não difere daquele
que, mais tarde, estará vinculado à vida genital do adulto e cujas
manifestações permaneceram incompreensíveis até S. FREUD.
Exemplos:
 A sucção do recém-nascido (fora das mamadas)
 A sucção do polegar, da ponta do lápis, do cigarro, e o beijo.
Portanto, o critério objetivo para o desenvolvimento psicológico do sujeito é o
critério afetivo: o comportamento do indivíduo em relação aos seus objetos de
amor (transicionais).

Fase oral

 A modalidade incorporativa
 As etapas orais
Nome dado à fase de organização libidinal que se estende desde o
nascimento até o desmame. Esta fase poderia ser chamada também, de “fase
bucal”, posto que está sob a primazia da zona erógena bucal (preensão labial,
dental, gustativo, deglutição, emissão de sons, aspiração e expiração do ar etc.).

 A necessidade fisiológica de chupar surge nas primeiras horas de vida.


Apesar de saciado, o bebê permanece durante o sono, a sugar os lábios.
 O prazer da sucção é auto-erótico e independe das necessidades
alimentares. O sujeito não tem a noção de um mundo exterior diferenciado
dele. Todos os momentos de sensação voluptuosa, o banho, a toilette, o
embalo, estão ligados à presença materna – pela visão, audição e tato. A
mãe é, por isso mesmo, percebida como objeto de amorosidade.
 Identificação com sua mãe, de acordo com esse primeiro modo de relação, que
subsistirá a vida toda; a criança se desenvolva armazenando passivamente as
palavras, os sons, as imagens, as sensações.
 As primeiras palavras são uma conquista que exige esforço, recompensado
pela alegria e as carícias do meio familiar. Paralelamente, aparece a
dentição, com sofrimentos, que exigem ser aliviados pelo ato de morder. A
criança encontra-se, agora, num período oral mais avançado, ativo.
 A criança morde tudo que lhe cai à boca: objetos, seio (se ainda mama). A
mordedura é a primeira pulsão agressiva. O modo como a mãe permite
esse ato da criança é da maior importância, uma vez que a aprendizagem
da língua materna depende disso.
 O desmame deverá começar entre os 4 -5 meses, ser progressivo e lento,
terminando entre os 7 e 8 meses. É necessário que a criança tenha apenas
ao seu alcance objetos possíveis de serem chupados e mordidos sem
perigo e sem provocar interdições e repreensões.
 É na fase oral que se registra a formação dos caracteres egoístas. Quer o
indivíduo seja homem ou mulher, o seu objeto de amor desempenhará o
papel de mãe nutriente.

A fase anal
 Para o sujeito de 1 a 3 anos de idade, nove décimos (9/10) dos
relacionamentos com os adultos estão circunscritos pela alimentação e
aprendizagem do asseio esfincteriano.
 No segundo ano de vida, sem destronar a zona erógena bucal, a maior
importância está concernida à zona anal. Esta é despertada bem mais
cedo.
 O sujeito atinge um maior desenvolvimento neuromuscular: a libido que
provoca a sucção lúdica da fase oral provoca, agora, a retenção lúdica
das fezes e da urina.
 Os cuidados higiênicos que se seguem à excreção são proporcionados pela
mãe. Portanto, a atuação materna, determina a atmosfera agradável ou não
do toalete feitas na criança. Apesar disso, emoções contraditórias se
associam à mãe: é a primeira descoberta de uma situação de
ambivalência. Através da conquista da disciplina esfincteriana a criança
descobre a noção de seu poder, de sua propriedade privada: os seus
excrementos que ela oferece ou não.
 Após a fase de brincar com seus excrementos, brincará e chafurdará na
sujeira, na lama, na água; esse deslocamento inconsciente, a atitude
mais ou menos severa dos hábitos de asseio, em geral, favorecerá ou
dificultará o desenvolvimento sadio da criança, bem como sua adaptação à
vida social com desenvoltura corporal e destreza manual.
 Por jogo ou prisão de ventre ocasional, a criança retém os seus
excrementos, o que se segue é uma agressão anal cometida pelo adulto
sob a forma de supositório ou clister. Para a criança, isso significa uma
economia.
 O interesse pelas matérias fecais pode ser sublimado nos pintores,
escultores, colecionadores de todos os gêneros e aqueles a quem, de
modo geral, interessa o manuseio do dinheiro.
 Desse modo, é aos componentes da fase anal que são atribuídos, no
adulto, os caracteres possessivos e mesquinhos, a avareza, posto que o
dinheiro representa os excrementos para o inconsciente da fase anal.
 Os objetos que se opõem às suas vontades são “maus”, “ruins”, agride-os;
é hostil a eles, bem como a tudo o que a eles se assemelha ou esteja
associado. Quando suas vontades se opõem às do adulto, cede porque, a
todo momento, tem necessidade do adulto e não pode perder sua
amizade. O adulto é para a criança o todo poderoso, divino e mágico, e é
pela obediência ou não que ele a torna favorável ou indiferente, quando não
perigosa.
 As pulsões agressivas espontâneas e as reações agressivas contra tudo o
que se opõe a ela devem ser proteladas; e se é o adulto que está em causa
tais pulsões e essas reações são deslocadas para objetos que recordem o
adulto; por associação, é a fonte do simbolismo: ou por representação, é a
fonte do fetichismo e do totemismo infantis (bonecas, animais de
estimação).
 Pensamento caracterizado pelos mecanismos de identificação e de
projeção, manifesta-se na fase anal.
Fase fálica

 Para “agradar” aos educadores e “comprar-lhes” seu amor protetor. A


criança consegue isso tanto melhor tendo em vista a concentração de seu
interesse na zona erógena fálica, cuja tensão fisiológica é visível nos
meninos pela existência de ereções, vinculadas nessa idade à micção ou à
defecação.
 Saber de onde vêm os bebês - tal interesse pode ser despertado por
diferentes razões: novo nascimento na família, identificação com
companheiros de brincadeiras, descontentes ou satisfeitos com a chegada
de um irmão ou irmã.
 Os “porquês” aflitos e insistentes das crianças de 4 anos, que mal escutam
as respostas do adulto, só aparecem após as primeiras reações às
perguntas diretamente sexuais feitas aos adultos e da noção de “proibido”
que as crianças extraem das respostas obtidas.
 Que diferença existe entre uma menina e um menino? Novamente os
adultos iludem a resposta. A criança usa, então, de seus conhecimentos
pessoais e, reportando-se à sua experiência da época músculo-
excrementícia, o que as meninas não o podem fazer. Isso é considerado,
para o rapaz, uma superioridade para ele, naturalíssima, enquanto a
menina imagina que o seu clitóris ainda crescerá.

 Por volta dos 5-6 anos, período em que as conversas e os jogos sexuais
eliminam todas as dúvidas. Contudo, antes dos 6 anos, o menino ainda
pensa que a menina “tem um mais pequenininho”, isto porque é incapaz
de ver qualquer coisa que não seja em relação a si próprio.
Aquisição de duas noções importantes:
 A noção de tempo – antes a criança reagia de acordo com as suas pulsões
imediatas, somente pelo prazer -, agora, existem o “daqui a pouco” e o
“amanhã”. Essa noção de tempo demanda diferentes internalizações: o
“amanhã” da semana ou do ano próximos, nem “muito cedo”, “muito breve”
ou “logo”. Bem mais tarde é que consegue adquirir a noção de “passado”,
que os termos “uma vez” e “ontem” traduzirão, aplicando-se tanto ao
passado imediato quanto aos dias mais distantes, aquém do presente, e
que dessa maneira se confundem com seus fantasmas.
 O fato de que um mesmo objeto tem vários usos e desenvolve, assim, a
necessidade de generalizações, fundamentada na busca de numerosas
motivações ligadas a um mesmo objeto.
 Diante de tudo que lhe interessa a questão “Para que serve isto?” Torna-
se o seu tema. Desprende-se, pois, pela primeira vez, do interesse antes
exclusivo às coisas em relação a si próprio. Ex.: o fogo é tudo que está
quente, “queimava”. Agora, “fogo é para aquecer” e é agradável quando faz
frio, é necessário também “para comer” etc.
 A criança possui agora a chave para muitos problemas. Surge o desejo de
fazer “como os grandes”, como os que têm mais do que ele... O desejo
engendra a ambição, a ânsia de superar a sua inferioridade utilizando, para
isso, de seus conhecimentos.
 O tagarelar é sinal de atividade mental fisiologicamente saudável para
todas as crianças de menos de 7 anos. A aprendizagem da contenção de
atividades paralelas à concentração mental deverá ser progressiva e
intercalada de momentos de relaxamento ruidoso e motor.
 O silêncio e a imobilidade da criança “ajuizada” raramente representam
para ela outra coisa senão mutilação dinâmica, redução ao estado de
objeto fecal, morte imposta e sofrida. Os tiques, o gaguejar, a insônia, a
enurese são os últimos refúgios da libido nos problemas sociais, vítima do
suplício de uma educação perversa.
 Quanto ao sentido real da morte, é preciso que veja morrer um animal ou
um ser amado para que a criança apreenda o sentido de ausência sem
retorno, de perda definitiva do objeto. A impotência do adulto diante da
morte, uma vez que não pode ressuscitar, como pode reparar ou restaurar
outras tantas coisas, faz a criança mergulhar de novo no mistério do
nascimento.
 A partir da fase anal, a menina se interessa por bonecas e o rapaz por
cavalos e automóveis.
 Na fase fálica, ela brinca de fazer comida para a boneca, de vesti-la, banhá-
la, embalá-la etc., identificando-se com a mãe, tentando imitá-la em gestos
e palavras.
 Os meninos, entregam-se a todos os jogos agressivos, banca o déspota,
adora causar medo e comandar. Identificam-se o mais possível com o pai e
com os homens que observam.
 Por volta dos 4 anos o menino entra em luta emocional aberta com o pai;
brinca de matá-lo etc, tentando resgatar toda a ternura da mãe. Entra no
período de Édipo.
 Entre os 3 anos e meio e os 4 anos, que ela começa comportando-se em
relação ao pai como uma pequena amorosa, coquete, sedutora,
concentrando todo o seu interesse libidinal no pai.
 Instala-se a situação edípica aos 4 anos e atingirá seu desenvolvimento
máximo por volta dos 6 anos? A criança deverá abandonar a rivalidade com
o genitor do mesmo sexo, como também identificar-se com ele. Deverá
desenvolver qualidades que farão do rapaz um homem e da menina uma
mulher.
 Declínio do impulso libidinal, inerente à fase de latência.
 Após 9 anos aproximadamente, essa retirada do impulso libido-pulsional,
acalma os conflitos, mesmo que não estejam inteiramente solucionados.
 Até os 12 anos, um recalque que jamais falha, empurra para o inconsciente
todas as curiosidades e todos os desejos sociais que tinham sido tão fortes
no segundo período da infância.

Fase de latência
 A fase de latência é empregada na aquisição dos conhecimentos
necessários à luta pela vida. As faculdades de sublimação entram
progressivamente em jogo e do ponto de vista das manifestações e
curiosidades sexuais é normalmente muda.
 Tendo em vista a repressão do interesse sexual evidencia-se o aspecto
cultural da fase de latência, fase não só passiva, mas também ativa.
 A libido, não imobilizada no inconsciente, estará inteiramente ao serviço de
um superego objetivo. O inconsciente também participa da aquisição
cultural, à conquista do mundo externo. O complexo de Édipo será
progressivamente e inteiramente dissociado.
 O valor e a importância das sublimações da fase de latência são muito
grande, o modo como a criança utiliza, esse período faz com que ela fixe ou
não, exagere ou elimine os componentes arcaicos da sexualidade e seus
componentes perversos.

Fase genital
 Esta fase depende do desenvolvimento saudável da fase anterior, a da
latência.
 A masturbação (terciária) faz-se acompanhar nessa fase de fantasmas
dirigidos a objetos escolhidos fora da família, muitas vezes aureolados de
um valor excepcional que os torna ainda inacessíveis e suscita um
desenvolvimento cultural no trabalho.
 Resta agora aprender a concentrar sua ternura e suas emoções num
mesmo ser, fixar uma escolha, após a desmistificação de escolhas
sucessivas, fixação necessária para a segurança vital dos filhos que
nascerão, eventualmente de um encontro ajustado, inter-humano,
emocional e genital bem sucedido.

O jogo simbólico
 O momento em que uma atividade infantil pode ser definida como lúdica, a
diversidade de brinquedos, o sentido a lhes atribuir, como o uso que pode ser
feito deles.
 Piaget: meios de evocação do pensamento pré-operatório ou simbólico.
 M. Klein: “A criança traduz, de um modo simbólico, suas fantasias, seus
desejos, suas experiências vividas.”
 O brinquedo confere ao bebê o controle de uma realidade molesta, já que ele
pode colocar em suas fantasias de reparação e projetar para o exterior os
perigos internos que o ameaçam.

O desenho
“A criança que deixa de desenhar ao entrar na escola, porque deixa de brincar (...)
está deixando uma forma de expressão que é sua, para seguir um padrão escolar
imposto (...) [a alfabetização] despreza assim a linguagem da criança que se
expressa através do desenho e do jogo e procura equipá-la com uma linguagem
ensinada (...)” (Ana Maria Albano Moreira)

 Representação do tipo de relações presentes no mundo emocional da criança,


numa certa medida aproximando-se também da realidade externa.
 Possibilidade de exteriorização e, na transferência, uma possibilidade de
projeção. Tal modalidade enriqueceu-se ao considerar os símbolos contidos no
desenho como o tecer, a trama do funcionamento mental da criança.
 Mentalização das fantasias de transferência da criança com a referência
corpórea, interpretado como um tipo de funcionamento mental existente
naquele momento.

Estimulação precoce e Psicanálise


Na infância ocorrem experiências fundamentais para as aquisições instrumentais
de psicomotricidade, de aprendizagem, de linguagem e para a constituição do
sujeito. Quando a criança apresenta algum transtorno, não se pode deixar o tempo
passar, devendo estabelecer critérios de detecção precoce. A intervenção é
importante para que não se enfatize apenas o transtorno, mas se sustente
significantes para a constituição psíquica e o desenvolvimento.

 A construção da identidade, da imagem de si, do outro e do mundo


 Winnicott (1965)
 As crianças têm prazer (físico e emocional) em todas as experiências de
brincadeiras.
 A criança aprecia concluir que seus impulsos agressivos podem ser
expressos sem retorno do ódio e da violência do meio para com ela.
 As crianças brincam para dominar angústias, controlar idéias ou impulsos
que conduzem às angústias se não forem dominados.
 A personalidade infantil evolui através de suas próprias brincadeiras e
invenções de brincadeiras feitas por outras crianças e por adultos.
 A brincadeira fornece uma organização para iniciação de relações
emocionais, propiciando o desenvolvimento de contatos sociais.
 A brincadeira, o uso de formas e artes e a prática religiosa tendem, por
métodos diversos mas aliados, a unificação e a integração geral da
personalidade.

O adolescer
A adolescência é uma fase de mudanças físicas e psicológicas que muitas vezes
não pode ser compreendida pela família.

A importância do ambiente familiar


 A importância das relações familiares
 O papel da escola

A PERDA DO CORPO INFANTIL

 As transformações corporais X mentalidade ainda infantil, num corpo que vai


se desenvolvendo em forma incontrolável para o sujeito.
 A sexualidade, que agora irrompe no nível genital, exige do adolescente uma
reformulação de seus mundos interno e externo.

 As restrições familiares e sociais, para “controlar” seus impulsos, chegam a


tornar seu desenvolvimento tão ameaçado que podem causar um retardo do
crescimento ou do aparecimento natural das funções sexuais próprias dessa
fase.

 Reformular a imagem mental que tem de seu próprio corpo o que só vai se
tornando possível à medida que ele/ela elabora a perda do corpo infantil e
consegue aceitar o novo corpo.

 O sêmen e a menarca tornam a identidade sexual evidente até na função


reprodutora da espécie.

 A intensificação da masturbação atesta a dificuldade de abandonar a


bissexualidade reinante até então, assim como tem também uma função
exploratória, de reconhecimento do próprio corpo e preparatória para o
exercício, genital vivido com plenitude.

A PERDA DOS PAIS DA INFÂNCIA

 Dependência/independência dos filhos em relação aos pais e vice-versa. O


desenvolvimento é vivido, na adolescência, com muita agressividade e culpa,
com avanços e regressões.
 A “ambivalência dual” onde ambas as partes desejam e temem o crescimento,
a maturação sexual e toda a responsabilidade e “riscos” que isso pode (ou
poderia) implicar.

 Os pais até então idealizados e supervalorizados pelo filho ou filha (fato e fator
necessário para um adequado desenvolvimento infantil), passam a ser alvo das
mais violentas críticas e questionamentos, e surge a necessidade de uma
busca de figuras de identificação fora do âmbito familiar.
 Tenta substituir muitos aspectos da sua identidade familiar por outra mais
individual e enriquecida por novos elementos do seu âmbito social.

A PERDA DA IDENTIDADE E DO PAPEL INFANTIL

 Adolescência: confusão de papéis, pois o adolescente não sendo mais criança


e não sendo ainda adulto, tem dificuldade em se definir nas diversas situações
da sua cultura.
 Avanço para a dependência o deixa temeroso e inseguro.

 Apoio do grupo onde ele deposita toda sua confiança e esperança, deixando o
cargo dos pais as mais significativas obrigações e responsabilidades.

 A adesão a grupos, nessa fase, tem uma função importante para o


estabelecimento de uma identidade adulta, pois facilita o distanciamento dos
pais, mencionado acima, e permite novas “identificações” levando a novas
configurações e reestruturações da personalidade.

 O adolescente experimenta vários papéis, identificando-se com diferentes


figuras ou grupos do seu meio social e assimilando valores e papéis fora do
meio familiar.

 Estas “perdas” se elaboram realizando verdadeiros processos de LUTO, no


sentido psicanalítico do termo. Isto obriga ao adolescente a utilizar todos os
seus mecanismos de defesa, especialmente os com uma “conduta turbulenta“
ou até “patológica”.

 O adolescente exterioriza seus conflitos e seus estilos elaborativos de acordo


com as suas possibilidades e as do seu meio, com as suas experiências e
estruturas psicofísicas.

 “Patologia” aos olhos e dentro dos preconceitos dos adultos de nossa cultura.

 Para pais, mestres, educadores e todos os que de alguma maneira trabalham


com adolescentes, consideramos fundamentais estas idéias e suas aplicações.

 Crises diversas e transitórias, que permitem uma aproximação mais objetiva e


menos preconceituosa em relação com a adolescência, que pode-se assim
formular como a “Síndrome da Adolescência Normal”.

O adolescer se apresenta com as seguintes características de comportamento:

1)  Busca de si mesmo e da identidade adulta:

 Fatos biológicos, como a mudança corporal com aparecimento das


características sexuais primárias e secundárias, ativação hormonal,
modificações de atitudes físicas e do manejo do corpo, que não poucas vezes
leva a um vagaroso processo de autoconhecimento.
 Uma identidade adolescente QUE PROCURA CONSTANTEMENTE TER A
DESEJADA IDENTIDADE ADULTA, que só se consegue evolutivamente e
elaborando o luto pela identidade infantil perdida.

 Diversas identidades: transitórias, ocasionais, circunstanciais e mudando com


maior ou menor rapidez e/ou intensidade. Quem sou Eu ?. É a pergunta que
muitas vezes se formula o adolescente.

2)  A tendência grupal:

 Busca da individualidade: o adolescente desloca o sentimento de dependência


dos pais para o grupo de companheiros e amigos, onde todos se identificam
com cada um.
 A aceitação revela-se na obediência as regras grupais em relação a tudo, o
que se observa na vestimenta, modas diversas, costumes e preferências de
todos os tipos.

 O grupo é importante e altamente significativo porque constitui o passo


intermediário no mundo externo para alcançar a identidade adulta.

3)  Necessidade de intelectualizar e fantasiar:

 Mecanismos de defesa frente ao que acontece a nível corporal (que não


poucas vezes se vivência como algo que acontece e ao que se “assiste”
passivamente).
 É um tipo de fuga para o interior, uma espécie de reajuste emocional, que leva
à preocupação por princípios éticos, filosóficos, sociais e políticos, que muitas
vezes implicam formular-se um plano de vida bem diferente do que se tinha até
esse momento, permite a teorização acerca de grandes reformas que poderiam
acontecer no mundo exterior.

 São os momentos de criatividade, de ilusões e de grandes projetos (que os


adultos se encarregam de frustar em nome da ordem e com medo do novo).
Porém é o que realmente move ao mundo e a sua cultura, permitindo assim a
evolução da humanidade toda.

4)  As crises religiosas:


 As crises religiosas do adolescente manifestam-se por atitudes de ateísmo ou
de misticismo, ambas geralmente como situações extremas e até cheias de
fanatismo.
 Passa por períodos de negação da religiosidade ou de exaltação da mesma, o
que revela a situação mutável do seu mundo interno (com ajuda do mundo
externo que em nome da “religião” justifica o crime e a exploração).

 Diante a religião o adolescente oscila entre uma atitude entusiasta ou


indiferente.

 Pode predominar mais uma crença, um fanatismo, que a religiosidade. A


atitude mais indiferente parece predominar em certos setores de classe média
e universitária.

5)  A deslocação temporal:

 Desorientação temporal, em que as urgências são enormes e as postergações


irracionais.
 Tudo pode chegar a ser “agora ou nunca”, ou um permanente “ainda temos
tempo”.

 Dimensão temporal vai adquirindo lentamente características discriminativas.


presente, passado e especificamente futuro, são noções que são elaboradas
durante a adolescência.

6)  A evolução sexual desde o auto-erotismo até a heterosexualidade:

 O estímulo biológico e cultural, praticamente empurra ao adolescente a iniciar-


se na atividade genital, no mínimo com fantasias.
 Tipo de jogo entre a atividade masturbatória e o começo do exercício genital,
que tem fundamentalmente um caráter basicamente exploratório. Inicialmente,
procura-se tímida, mais intensamente, um parceiro.

 O momento dos contatos, das carícias mais íntimas, e do “amor apaixonado”,


porém geralmente transitório e até fugaz. Os desejos são intensos e, nesta
sociedade, fortemente reprimidos e até vividos com culpa. A evolução sexual
adolescente vai de uma fase prévia de masturbação a uma atitude lúdica, que
leva à aprendizagem: jogos eróticos, bailes, esportes, carinhos, todos com
conteúdo exploratório de si mesmo e do outro.

 A relação genital: expressão de imaturidade, descontrole ou até também de


atividade lúdica. São poucos os casos de uma verdadeira e consciente
atividade genital responsável e com amor. Em algumas oportunidades, até o
coito tem características masturbatórias.
 O auto-erotismo com exploração da  genitalidade leva a heterossexualidade
afetiva amadurecida, que só se atinge quando a própria adolescência vai-se
apagando e surge o jovem com uma sexualidade responsável dentro de seu
particular sistema cultural estruturante.

7)  Atitude social reivindicatória:

 Sociedade: contradição entre as possibilidades materiais do ser humano, que


praticamente tudo pode (ou poderia), e o adolescente que frente a esse “tudo”
é marginalizado, levando a uma atitude social reivindicatória.
 Através de sua atitude e sua força ele tenta modificar a sociedade, que por sua
vez vive mudanças intensas, influenciando ao indivíduo.

 Os padrões sociais mudam muito pelo próprio impacto dos adolescentes e


jovens. Na medida em que o adolescente não encontra o caminho adequado
para a sua expressão vital e para a aceitação de uma possibilidade de
realização, não poderá jamais ser um adulto satisfeito.

 A juventude: naturalmente revolucionária do mundo a que tem em si o


sentimento místico da necessidade de mudança social.

 O jovem, normal e adequado a seu processo evolutivo, deve contestar e


reivindicar um mundo, uma sociedade, uma humanidade melhor, mais justa e
mais cheia de amor. Se fosse o caso, só por isso é necessário entender e
respeitar certas atitudes adolescentes, que ainda apavoram a muitos adultos.

8)  Contradições sucessivas em toda a manifestação da conduta:

 A conduta do adolescente está dominada pela ação. Ele não pode manter uma
linha de conduta rígida, permanente e absoluta, embora o queira.
 Sua personalidade é permeável e sua instabilidade necessária. Lida
permanentemente com o imprevisível, tanto no seu mundo interno como no
externo. Joga com seu corpo, sua alma, sua conduta de acordo com as
possibilidades confusas e confusionantes.

 Aparece contraditório com condutas mais variáveis, as mais adequadas a este


complexo momento evolutivo. Fixar-se numa só conduta, não corresponde a
um comportamento normal, nem ajuda a aprender da experiência.

9)  Separação progressiva dos pais:

 Para atingir a maturidade é necessário ter individualidade e independência


reais.
 A separação progressiva dos pais, a entrada na turma, e a posterior
individuação discriminativa são passos necessários do processo evolutivo
humano.
 Muitos pais em nossa cultura se angustiam frente ao crescimento dos filhos e
chegam até negá-lo. Existe a já mencionada “ambivalência dual” por ambas as
partes que às vezes é fonte de conflitos que atrapalham o crescimento físico e
psicológico normal. O conflito de gerações é uma realidade necessária para o
desenvolvimento sadio, tanto dos filhos adolescentes como o de seus pais.

10)  Constantes flutuações do humor e do estado de ânimo:

 Uma conquista, por mínima que seja entusiasma e alegra. Uma frustração 
aborrece e deixa triste. Isto acontece milhares de vezes ao dia. Sua luta com
os pais, a sociedade, os preconceitos, o medo, seus triunfos físicos, ou sua
realização intelectual, uma aprovação, uma rejeição; tudo constante e
vertiginosamente alternando no dia a dia, explicam os sentimentos de solidão e
os de exaltação. Estas mudanças de estado de ânimo são normais.
 Professores, pais, adultos em geral, podem se basear em estereótipos e
preconceitos que, em lugar de ajudar ao adolescente a viver esta etapa de
nossa vida evolutiva com maior segurança e liberdade, fazem deste importante
período vital à fonte de tormentos, angustias, medos e culpas totalmente
desnecessários e perturbadores.  

 O adolescente turbulento e violentamente contestador, alegre e triste existe.


Porém também existe aquele em quem a turbulência é mais interna que
externa. Pode “parecer” mais tranqüilo e até mais adaptado a sua realidade,
sua família, seu meio. Entretanto, em qualquer momento estoura com sua
“síndrome” em toda sua plenitudeÉ bom saber que existe um verdadeiro leque
de manifestações que mudam em intensidade e variedade externas.

Psicodinamicamente, acharemos as características assinaladas, algumas mais


intensas, outras menos, porém todas elas presentes, a chamada vida moderna
nos proporciona diferentes perspectivas do que podemos chamar de “fenômenos
humanos” :

1) Processos elaborativos dos lutos característicos desta fase evolutiva do ser


humano. (Indispensável para atingir e estabelecer uma identidade adulta em
nossa cultura);

2) Necessidade de se integrar a grupos onde se identifiquem;

3) Fantasiar com o imaginário e a saída do presente;

4) Questionamento crítico das religiões (especialmente da religião dos pais) e da


religiosidade em geral;

5) Distemporalidade;
6) Desenvolvimento da sexualidade: do auto-erotismo a práticas de genitalidade.
Identidade sexual definida;

7) Agressividade, violência, condutas sado-masoquistas, com ou sem


reivindicações sociais;

8) Contradições freqüentes nas manifestações da conduta (interjogos,


internos/externos de amor-ódio);

9) Separação progressiva ou brusca dos pais e/ou do grupo familiar;

10)  Flutuações do estado de ânimo, do humor, com uma base de predomínio


depressivo. ( KNOBEL, Maurício)

Modelo para apresentação de caso clínico

1. Identificação: Nome, Idade, ...


2. Genetograma
3. Motivo da consulta (sumário)
4. História atual do problema: a demanda
5. História passada e familiar (inclui história do desenvolvimento neuro-psico-
motor, gestação, condições de nascimento etc, bem como história das
famílias materna e paterna)
6. História médica (inclui tratamentos já realizados)
7. Avaliação dos aspectos transferenciais no tratamento
8. Hipótese diagnóstica (não somente o nome da patologia, mas explicitar a
dinâmica do diagnóstico)
9. Direção da cura.
10. Interrogações sobre a condução da cura.

Anexos

Textos complementares

Adolescência - Texto elaborado pela Ms. Marisa A. Elias


Os problemas da educação assumiram formas muito diversificadas, em função do
desenvolvimento e do contexto social, sendo de interesse de Freud observá-los
também à luz da psicanálise, na medida em que, é próprio da psicanálise valorizar
a influência da censura proveniente da organização social na gênese dos
distúrbios neuróticos.
Em “Três Ensaios sobre a teoria da sexualidade” o problema da educação foi
evocado, para sublinhar o benefício que o adulto pode extrair de energias infantis
não reprimidas, na medida em que elas fornecem material para o processo cultural
da sublimação.
Apesar de muito divulgada, não está, ainda, suficientemente salientado o fato de
que S. Freud, longe de ser um filósofo de opiniões originais e revolucionárias, foi,
sobretudo um homem de laboratório, antes de tornar-se psiquiatra. Suas teorias
se constituíam em hipóteses de trabalho, enquanto a seqüência de seus estudos
clínicos não lhes forneceria uma confirmação. É essa a razão pela qual se
assiste à evolução de suas concepções teóricas.
Se levarmos em conta as difíceis tarefas impostas ao educador, como sendo as
de reconhecer a natureza particular da constituição da criança, adivinhar através
de pequenos indícios o que se desenrola em sua vida psíquica inacabada,
dispensar-lhe a justa medida de amor e, não obstante, preservar uma parcela
eficaz de autoridade, diremos que a preparação do educador também inclui uma
sólida formação psicanalítica.
O educador conhecedor das inclinações humanas gerais da infância está
preparado para discernir as predisposições infantis que correm o risco de tomar
um rumo indesejável. Desse modo, Freud, elabora progressivamente uma
doutrina essencialmente original. Aos que vivem em permanente contato com as
crianças, necessárias se torna o registro do que vêem, a fim de que possam
fornecer numerosas observações em apoio às descobertas da Psicanálise.
Em seu clássico estudo, História Social da Criança e da Família, 3
referência obrigatória para todos interessados na problemática da criança e do
adolescente, Philippe Ariès oferece-nos um painel cuidadoso da evolução do
sentimento da infância e da família desde a Idade Média, assinalando
principalmente as mudanças ocorridas a partir da Idade Moderna.
O ponto de partida de suas reflexões é a constatação de que a
particularização da infância não existia na civilização medieval. Tão logo podiam
viver sem os cuidados da mãe ou da ama, as crianças ingressavam na sociedade
dos adultos, misturando-se a eles.
Na Idade Moderna, essa situação começa gradativamente a se alterar (o
clímax do processo ocorre no século XVII), e a criança passa a ser particularizada,
recebendo dos adultos atenções as mais diversificadas, que a reduzem, no
entanto, a um ser inocente, puro (assexuado?), débil, frágil, irracional, imperfeito,
que precisaria ser moldado pelos mais velhos. Carente de cuidados especiais,
esta criança se vê, então, forçada a sofrer rígido adestramento, via educação, com
um objetivo bem preciso: atingir sua “plena” maturidade, sempre dentro dos
padrões de moralidade e normalidade estipulados pela Igreja e pelas incipientes
3
ARIÈS, Philippe. História Social da Criança e da família. Trad. Dora Flaksman, 2 ed, Rio de Janeiro,
Zahar, 1981.
pesquisas psicopedagógicas. O surgimento da Literatura Infantil se dá justamente
nesse momento em que essa nova concepção de criança ganha força entre os
educadores.
Como indica Airès, a partir do século XVII ganha força a noção da
inocência infantil. Acredita-se, repito, que a criança necessita ser preservada dos
“perigos” do sexo. Tal concepção continua a vigorar nos séculos subseqüentes,
até ser radicalmente revista por Freud, no final do século XIX e início do XX. Ao
anunciar que toda neurose é infantil, ele procura repensar a importância do
estudo da criança e de seus traços nas mais diversas manifestações da vida
adulta, ao mesmo tempo em que reconhece a regularidade de uma pulsão sexual
no decorrer da infância. Cinco grandes fases são destacadas pelo criador da
psicanálise: fase oral, sádico-anal, fálica, período de latência e fase genital.
Freud, ao tratar da sexualidade da criança, não se detém no “normal”,
apontando o seu caráter perverso, os desvios que sofrem as forças pulsionais
sexuais. Obstáculos, rupturas, barreiras, limites, resistências, perdas, falta,
fracassos, são incessantemente sublimados. Se a pulsão busca o objeto, e o
objeto está perdido para o sujeito, a única continuidade que existe é a
continuidade pulsional.4
As fases que a psicanálise levanta são graus de organização que
adquirem seu sentido numa metapsicologia.5
Lacan, em seu retorno a Freud, ressalta ainda a criança, sublinhando
principalmente as relações do desenvolvimento com a estrutura, e toda a ênfase é
dada à questão da metáfora paterna. Conceitos fundamentais se insinuam –
estágio do espelho, jogo do fort-da, complexo de Édipo, frustração, privação,
castração – que o levam a indicar como a criança acaba por se posicionar com
relação ao significante Nome-do-Pai, assumindo seu desejo como assujeitado à lei
do Pai e à ordem da linguagem.
O conceito de criança sob a ótica da psicanálise: criança = sujeito do
inconsciente.

Referências Bibliográficas

1. JONES, E. “A vida e a obra de Sigmund Freud”, vol. 1. Imago Editora, p. 277.


R.J. 1989.

2. Idem, p. 290.

3. LAPLANCHE e PONTALIS. “Vocabulário da Psicanálise” Martins Fontes,


S.P. p.73.

5. FREUD, S. “A organização genital-infantil” (1923) Vol. IX, E.S.B. p. 19.

4
A propósito ver a tese de doutorado de Ana Maria Clark Peres. “O Infantil na Literatura” –
FALE/UFMG, 1994.
5
CHEMANA, Roland (Dir.) Dictionnaire de la psychanalyse. Paris. Larousse, 1993, p. 269 (Tradução
minha).
6. FREUD, S. “A dissolução do complexo de Édipo”. Vol. XIX (1923-1925) p.
217-224. E.S.B. p. 309-320.

7. NASIO, J. D. “Lições sobre os 7 conceitos cruciais da Psicanálise”. Trad.


Vera Ribeiro, Jorge Zahar Editor, p. 18. 1992. R.J.

10. SILVA, A.F.R. “O desejo de Freud”. Editora Iluminuras Ltda., 1994, p. 121.
S.P.

11. FREUD, S. “Algumas conseqüências psíquicas da diferença anatômica entre


os sexos”. (1925) vol. XIX. E.S.B. p. 315-6.

12. FREUD, S. “A feminilidade” in Novas Conferências de Introdução à


Psicanálise. Vol. XXII, E.S.B. p. 171.

Psicopatologia na adolescência

  A realidade cotidiana e o conhecimento mais adequado da psicologia do


adolescente implicam em estudos mais sérios e mais discriminativos entre o
“normal” e o “patológico”, falando desde o ponto de vista das perturbações
psicológicas.  Considerando a enorme importância que os fatores sócio-político-
econômicos possuem no determinismo de condutas “inadequadas” (segundo o
vértice desde onde são observadas), ou relativamente “adaptativas” (segundo as
circunstâncias em que acontecem), o problema da psicopatologia na adolescência
deve ser sempre considerado com uma boa margem de relatividade.  Todas as
patologias da nosologia conhecida podem dar-se durante este período da vida.
Não é possível ignorar a esquizofrenia, a debilidade mental, certos tipos de
depressões e quadros maníacos, delírios e até quadros demenciais.
 Logicamente todas as neuroses, carateropatias, psicopatias, “boderlines”,
personalidade “como se”, quadros tóxicos, toxicomania, perversões, alcoolismo,
quadros psicóticos orgânicos ou não e outros quadros de etiologia não muito bem
definida ainda, podem acontecer durante a adolescência. O importante é não
pecar por um “organicismo” limitante e meramente nosográfico, ou por um
“sociologismo” esterilizante e às vezes demagógico, e sim procurar pesquisar
mais, estudar melhor e aperfeiçoar o estudo da psicopatologia neste processo
evolutivo que é a adolescência.  

A chamada “Síndrome da Adolescência Normal” está cheia de


características, de personalidade e/ou conduta, que aos olhos dos adultos, podem
parecer como anormalidade. Sua análise permite, às vezes, com dificuldade,
reconhecer o que é próprio desta idade evolutiva (o normal) e o que
evidentemente transpõe os limites dessa evolução para entrar no campo da
psicopatologia, da real e verdadeira doença, que vai desde uma perturbação
emocional, até uma severa e bem estruturada psicopatologia.  Sob um enfoque
transcultural da adolescência, observa-se coincidências baseadas no
psicobiológico e no social que muitas vezes, molda a estrutura ao mesmo tempo
em que é configurada e mudada pelo interjogo indivíduo/sociedade. Na
adolescência tais mutações adquirem conotações dramáticas devido a sua
intensidade e rapidez de ação. Uma observação que fizemos, é como são
intensos e às vezes, como são fugazes os quadros clínicos da psicopatologia
adolescente.  Os problemas do adolescente são basicamente os mesmos. É
importante assinalar que, atualmente, em muitos países, o indivíduo tem a
oportunidade de enfrentar-se com suas aspirações, desejos e apetites.

As situações sócio-econômicas nas quais vive o/a adolescente, estimulado


e exigido por um lado, e privado e restringido por outro, fazem com que quando a
situação conflitiva torna-se intolerável, o/a adolescente, recorre ao delito, a
violência, a agressão franca, para obter através do que tecnicamente poderia se
chamar, de um “acting-out” psicopático, a satisfação de seus impulsos imediatos,
agora já fora de controle. Aqui já assinalo a patologia que significa a “psicopatia” e
que não é um simples e normal mecanismo de defesa.  É conveniente lembrar que
a violência de nossa sociedade representa uma forma de psicopatologia -
individual e social - resultante de uma falta de possibilidades de intercâmbio de
critérios e ações, aparentemente lógica e inevitável em certas ocasiões. Este fato
acaba numa atividade não-adaptativa e auto-destrutiva.  Existem séries de ações
sociais violentas que geram reações de violência masoquistas, produzindo
desestruturações  da personalidade na infância e na adolescência. Caberia até
perguntar-se, se não é isto mesmo o que certos setores sociais desejam, e que
não há dúvida que alguns setores doentios, da sociedade, procuram nos
adolescentes seu alvo para adoecê-los e submetê-los a uma “patologia”
específica, ligada a realidade ou a possibilidade de uma guerra, um vazamento ou
estouro radioativo, ao uso irresponsável de material nuclear, a restrição ou
privação alimentícia e/ou habitacional, e uma aprendizagem e estímulo da
violência na televisão, na fábrica, no campo, na rua, na escola e no lar...Cabe
destacar que a ação contra os outros é um estímulo permanente. A idéia de que a
gente tem “que defender-se”, pressupõe a eminência inevitável do ataque o que
mobiliza atitudes paranóides, freqüentes na adolescência.  Sob o ponto de vista
psicodinâmico, no processo da adolescência, a psicopatia está sempre presente
como estrutura ou mecanismo de defesa que facilita a elaboração dos lutos
normais do desenvolvimento adolescente, precisamente para poder conviver com
a atitude paranóide já mencionada.  Esta atitude - e estas defesas patológicas -
são determinadas por uma sociedade ameaçadora e injusta, que perturba e
confunde com mensagens contraditórias, que chegam a ser esquizofrenizantes.
Fala de respeito, amor, paz e direitos humanos, ao mesmo tempo que prepara
para a “luta” a “defesa armada”, dificultando, enormemente a convivência e a
conduta adaptativa.

É conveniente esclarecer que o termo “conduta adaptativa” não implica


submissão ou passividade. O adaptativo é o crítico estruturante, o questionamento
espontâneo para produzir as modificações sócio-econômico-culturais, cobradas
pela humanidade toda, e da qual o/a adolescente pode ser o porta-voz. Porém,
sem discriminar vira um “rebelde” masoquista, fanático e auto-destrutivamente
violento.  Assim não fica difícil entender que a soma do psicopatológico e o
paranóide em um organismo em plena reestruturação como o do adolescente, o
converte em um indivíduo altamente vulnerável à psicopatologia de qualquer tipo,
dependendo só da sua predisposição psico-orgânica. Como decorrência surge
uma psicopatologia com características muito específicas na adolescência. Já
mencionou-se que toda a patologia conhecida pode aparecer nesta etapa da vida.
Entretanto deve lembrar-se que seja qual for a que aparecer (por determinismos
internos e/ou externos) sempre terá os componentes adolescentes da psicopatia -
como defesa ou estrutura - e o particular, individual, processo de elaboração dos
lutos deste momento evolutivo, o que se fará com maior ou menor sucesso.

Em geral, se associam a estes quadros psicológicos um infantilismo ou


personalidade que denunciam a péssima elaboração dos mencionados “lutos”. A
reação do ou da adolescente, frente à identidade e suas perturbações conduzem a
conhecida “Síndrome de Difusão de Identidade”, processo psicopatológico típico
desta idade da vida. É um quadro tipo esquizofrenia aguda, porém fugaz ou de
pouca duração. As freqüentes “depressões reativas”, e os especiais processos
“maníaco-depressivos” da adolescência podem ser fixações do estado de ânimo
descritos na “Síndrome da Adolescência Normal”. Os quadros clínicos,
semelhantes aos dos adultos, levam consigo dependência infantil, queixas contra
os adultos e negativismo a procuras terapêuticas.  A “adição às drogas”, as
“perversões sexuais” e a “delinqüência juvenil”, são patologias que, na
adolescência, adquirem características muito específicas, plurideterminadas e
precisas, não se justificando por tanto, a pretensão de super simplificá-las 
tomando-as como “pseudopatologias expressivas de problemas só sociais”. Esta
atitude, aparentemente reivindicatória “a favor” dos adolescentes, prejudica a
compreensão dos problemas e a ajuda efetiva que pode ser oferecida aos
adolescentes na resolução de seus problemas e conflitos que levam a estas
severas psicopatologias. A atitude médico-psicológica de tolerância é
terrivelmente iatrogênica. È interessante que na Classificação Internacional de
Doenças, atualmente vigente (CID 10) e que vigora a partir de 1990, só existe um
aporte sobre perturbações que se iniciam na infância, ou na adolescência, entre
as quais, para a adolescência se menciona tão só especificamente: “Desordem de
conduta confinado ao contexto familiar”, “Distúrbio de conduta não-socializada”,
“Distúrbio de conduta socializada”, “Perturbação depressiva de conduta”,
“Perturbações inespecíficas de funcionamento social” e “Distúrbios não
específicos emocionais ou de conduta de começo na infância ou adolescência”.
Surpreende a pobreza diagnóstica e o que considero um descaso a esta etapa da
vida, sua real possibilidade de fixar graves perturbações psíquicas que só
aparecem aparentemente, nos adultos.

O abandono dos critérios diagnósticos e o estudo mais profundo da


psicopatologia através de um critério dinâmico biopsicossocial, facilitará a
capacidade clínica de discriminar o enfermo do adaptativo circunstancial, do que é
parte do processo de desenvolvimento do/da adolescente, ou fixação ou
regressão dentro desse mesmo processo, ou seja, ainda que “normal” pode
necessitar ajuda, do que já é patológico e, com adequado diagnóstico precisa de
TRATAMENTO. Ao se abandonar à limitação de uma abordagem nosotáxica
obsoleta (o simples rotular), deve-se adotar uma verdadeira NOSOLOGIA
compreensiva, que possa abranger e permita conhecer e reconhecer o conflito
adolescente, sua expressão normal ou patológica, a relação com o mundo, seu
encontro estruturante e sua solidão elaborativa.

 A fragilidade do adolescente, não é uma fantasia depreciativa, mas sim


uma realidade que vulnera o indivíduo e a sociedade e que exige  desde um
pessoal informado e compreensivo até um especialista altamente capacitado.
Reconhecer a psicopatologia é uma forma adequada de elaborar projetos
preventivos e métodos terapêuticos, ficando o profissional que lida com
adolescentes capacitado realmente para ajudar nesta etapa evolutiva do ser
humano.  Negar a psicopatologia deslocá-la só para o social ou familiar, é
iatrogênico e até criminoso, já que pretende-se apagar com “teorias” o que a
realidade clínica nos apresenta dia a dia, que exige estudo, pesquisa,
conhecimento e disponibilidade terapêutica. Não é fácil lidar com a psicopatologia
na adolescência, porém, reconhecendo os quadros clínicos, as condutas normais,
os diversos processos, etiopatogênicos, é possível ajudar efetivamente ao ser
humano numa de suas etapas vitais mais difíceis.

Bibliografia básica

1)  ABERASTURY, A e Cols. - “Adolescência” - Artes Médicas, Porto Alegre, 1980.


2)  GROISMAN, M. e KUSTNETZOFF, J.C. - “Adolescência e Saúde Mental”, Artes
Médicas, Porto Alegre, 1984.
3)  KNOBEL, M.; PERESTRELLO, M. e UCHÔA, D. de M. - “A Adolescência e a
Família Atual”, Livraria Atheneu, Rio de janeiro - RJ. 1981.
4)  World Health Organization. C.I.D.10. 1993. Artes Médicas, Porto Alegre

Autora: Alaide Degani de Cantone

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