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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ

INSTITUTO DE FILOSOFIA DE CIÊNCIAS HUMANAS

FACULDADE DE HISTÓRIA

DISCIPLINA: HISTÓRIA DA PAN-AMAZÔNIA (68h)

PROFESSOR: AGENOR SARRAF PACHECO

ALUNO(a): NEYDSON GUILHERME SILVA CORRÊA

PROVA ESCRITA

Com base nos textos “Caboclos na Amazônia: a identidade na diferença” de Carmen Izabel
Rodrigues e “A construção histórica do termo caboclo: Sobre estruturas e representações sociais
no meio rural amazônico” de Deborah Magalhães Lima, construa um TEXTO
COMPARATIVO destacando as formas de abordagem pelas pesquisadoras acerca da
construção da Identidade Cabocla na Amazônia.

No artigo “O ser da Amazônia: identidade e invisibilidade”, Fraxe, Witkoski e Miguez


ponderam que, ao se falar dos povos da Amazônia tornar-se-iam indispensáveis os
conhecimentos da grande diversidade ambiental e social da região, isto é, seria essencial tomar
como ponto de partida o desenvolvimento histórico particular da região. Para eles A Amazônia
nasce e se desenvolve no âmago e nos dilemas da moldura da civilização “euroantropocêntrica”.
Logo, para compreender esses grupos sociais é preciso desvendar seu cotidiano, é necessário
considerar o contexto contraditório no qual estão inseridas suas manifestações e práticas
culturais.

Ao aproximar as pesquisas das antropólogas Carmen Izabel Rodrigues e Deborah


Magalhães Lima a essas afirmativas podemos validá-las e tomar um ponto de partida para o
texto que segue, uma vez que, as autoras ao buscar uma compreensão acerca da formação ou
imputação de uma identidade amazônica, presente na figura do caboclo, recorrem as
construções históricas que remontam a formação dessa sociedade em suas estruturas de classe,
representações sociais e estereótipos.

Interpreto, a partir da análise das duas autoras que o conceito caboclo pode ser
compreendido como um conceito em disputa, haja vista este ser um rótulo acusativo, ou seja,
geralmente imposto sobre um grupo específico concedendo validação de identidades pela
oposição a um “outro”. Todavia, podendo ser apropriado e ressignificado em contextos
específicos.

Um exemplo desta afirmação é a classificação elencada por Carmen Izabel Rodrigues


em seu texto “Caboclos na Amazônia: a identidade na diferença”. Ao citar elementos que
compõem o processo identitário contemporâneo a autora diz que “às essencializações e
reificações presentes nos processos de construção de identidades e reivindicação de diferenças
culturais no mundo contemporâneo, com destaque à questão da identidade” (RODRIGUES,
2006, p. 120) são acionadas ou rejeitadas conforme reivindicações de projetos políticos, a
direitos humanos universais, respeito a práticas culturais ou pela apropriação ou negação dessas
identidades.

Temos então, a construção da identidade cabocla como uma construção simbólica,


dentro das práticas descritas por Pierre Bourdieu, em que diferenças são tornadas significativas
através de práticas sociais operadas cotidianamente por grupos que ora enfatizam, ora ignoram
ou obscurecem essas diferenças. Neste ponto tanto Rodrigues quanto Deborah Lima atingem
um consenso teórico ao concluir que, como categoria relacional, não há um grupo fixo
identificado como caboclo; o termo pode ser aplicado a qualquer grupo social ou pessoa
considerada mais rural, indígena ou rústica. Por não uma identidade clara, forte e socialmente
valorizada relacionada ao termo; o indivíduo acaba por construir sua noção para o termo,
geralmente ligada à sua condição social.

Deborah Magalhães Lima chega a afirmar que o arquétipo do caboclo também é


composto de traços culturais que distinguem seu modo de vida de uma existência branca e
urbana. Diz a autora:

As características de uma arquitetura distinta, os meios de transporte que usa seus


instrumentos de trabalho, seu conhecimento e modo de manejar os recursos da
floresta, seus hábitos alimentares, sua religiosidade, mitologia, sistema de parentesco
e diversos maneirismos sociais expressam a existência de uma cultura cabocla que é
básica para o conceito desse típico amazônida. (Lima, 2009, p. 13)

De fato, a existência de uma população rural que tem um estilo de vida distinto, em
estreito relacionamento com a floresta, poderia justificar que ela fosse agrupada como uma
categoria social especifica.

Poder-se-ia apreender nesse exemplo aquilo que Pierre Bourdieu Chamou de habitus,
isto é, uma configuração cultural, em que o processo de construção das práticas individuais e
coletivas passam a ser mediadas pela coexistência de distintas instâncias produtoras de valores
culturais e referências identitárias. Nesse caso, o processo de socialização das formações
modernas pode ser considerado um espaço plural de múltiplas relações sociais. Podendo assim,
ser considerado um campo estruturado pelas relações dinâmicas entre instituições e agentes
sociais distintamente posicionados em função de sua visibilidade e recursos disponíveis.

Dessa forma, podemos relacionar o conceito de habitus as formulações sobre a


identidade cabocla tendo-a como um instrumento conceitual para pensar a relação, a mediação
entre os condicionamentos sociais exteriores e a subjetividade dos sujeitos. Trata-se de um
conceito que, embora seja visto como um sistema engendrado no passado e orientando para
uma ação no presente, ainda é um sistema em constante reformulação. Habitus é uma noção
que auxilia a pensar as características de uma identidade social, de uma experiência biográfica,
um sistema de orientação ora consciente ora inconsciente.

Todavia, por não se tratar efetivamente de um grupo étnico ou social o termo aproxima-
se mais de uma representação. Ao analisar os argumentos das duas autoras é possível concluir
que a temática da identidade cabocla é, sobremaneira, construída por meio da alteridade, ou
seja, pela visão do outro. Não há uma afirmação explicita de ser caboclo mas sim uma aceitação
contextual do rótulo, no sentido de uma “identidade negativa”.

Os chamados caboclos, isto é, os pequenos produtores rurais amazônicos, não têm uma
identidade coletiva, nem um termo alternativo e abrangente de autodenominação. Segundo
Lima:

A única categoria de autodenominação comumente empregada por toda a população


rural é a de “pobre”. Noções mais fortes de identidade baseiam-se no parentesco, na
religião, na ecologia do assentamento e na ocupação econômica do grupo e do
indivíduo [...] Esses parâmetros não constituem uma base de unificação, mas de
diferenciação no interior da própria população rural. As famílias constituem a base da
formação de pequenos grupos e estão diretamente relacionadas à organização das
comunidades rurais. (Lima, 2006, p. 08)

Sendo assim, os aspectos responsáveis por indicar a categoria social caboclos são
econômicos, políticos ou culturais. Assim, o termo acaba referindo-se aos pequenos produtores
familiares da Amazônia que vivem da exploração dos recursos da floresta.

De acordo com Rodrigues houveram tentativas para uma reconstrução positivada dos
habitantes da Amazônia como “ribeirinhos”, “povos da floresta” ou “povos tradicionais”. Mas
que todavia não obtiveram o mesmo alcance que o termo já enraizado.

Deborah Lima ainda introduz a discussão a respeito dos migrantes e dos caboclos. Até
a primeira metade do século XX, ocorrera uma migração em grande escala de colonos do
nordeste do Brasil, principalmente em associação com a economia da borracha. Este evento
acirrara uma distinção entre esses novos tipos urbanos que migravam e os caboclos o que
acrescentou novos ares as disputas e imputações acerca do termo caboclo que levantariam
muitos debates na literatura amazônica e despertaria discussões também sobre superioridade
entre esses tipos e questões de raça.

Dois aspectos importantes levantados por Lima são de que “o fato do caboclo não ser
um termo de autodesignação estar relacionado, com a conotação pejorativa do termo e o
significado de “índio domesticado” que ele transmite entre a população rural” e também se
daria pelo fato do termo nunca ter sido efetivamente utilizado em associação a um movimento
político. Um exemplo bem sucedido deste ultimo ponto seria o da causa indígena.

Concluindo seus argumentos, Lima sugere que

uma referência ao termo caboclo evoca vários significados, sendo


os príncipais relacionados a noções de geografia (Amazônia, interior, rural), de
descendência e “raça” (indígena, mestiça), das hierarquias e relações sociais
(conquista ibérica, submissão, a relação de dívida e de crédito no aviamento, o par
patrão & freguês) – todas ligadas à história da ocupação européia da Amazônia.
(Lima, 2006, p. 26)

Não há uma identidade clara, forte e socialmente valorizada relacionada ao termo, senão
uma encenação pré-fabricada, uma aceitação dissimulada da nomeação que é imputada. “O
nome caboclo residiria apenas no discurso que se faz sobre uma outra categoria social.” (Lima,
2006, p. 29)
Referências

LIMA, Deborah de Magalhães. A construção histórica da categoria caboclo: Sobre


estruturas e representações sociais no meio rural. In: Novos Cadernos NAEA, v. 2, n. 2, p. 05-
32. UFPA. 1999.

Fraxe, Therezinha de Jesus pinto; Witkoski, Antônio Carlos & Miguez, Samia Feitosa. O ser
da Amazônia: identidade e invisibilidade. Ciência e Cultura, 61(3), 30-32. 2009.

RODRIGUES, Carmen Izabel. Caboclos na Amazônia: a identidade na diferença. Novos


Cadernos NAEA, v. 9, n. 1, p. 119-130. 2006.

SETTON, Maria da Graça Jacintho. A teoria do habitus em Pierre Bourdieu: Uma leitura
contemporânea. Revista Brasileira de Educação, 20, p. 60-70. 2002.