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2a edição | Nead - UPE 2009

Dados Internacionais de Catalogação-na-Publicação (CIP)


Núcleo de Educação à Distância - Universidade de Pernambuco - Recife

Monteiro, Maria Perpétua Teles


M775f Fonética e fonologia da língua portuguesa / Maria Perpétua Teles
Monteiro. – Recife: UPE/NEAD, 2009.
63 p.: il. – (Letras).

ISBN 978-85-7856-024-9

Conteúdo: fasc. 1 – Aspectos introdutórios da fonética e da fonologia; fasc.


2 – Fonologia e processos fonológicos da língua portuguesa; fasc. 3 - Proces
sos morfofonológicos e estilísticos; fasc. 4 - Variação Linguística: sincronia e
diacronia.

1. Fonética - língua portuguesa 2. Fonologia - língua portuguesa 3. Edu
cação a distância I. Universidade de Pernambuco, Núcleo de Educação a Dis-
tância II. Título
CDU 801.4806.90
Universidade de Pernambuco - UPE
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NEAD - NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA


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Recife - Pernambuco - CEP: 50103-010
Fone: (81) 3183.3691 - Fax: (81) 3183.3664
5

Fonética e
Fonologia
da Língua
Portuguesa
Prof.a Maria Perpétua Teles Monteiro
Carga Horária | 60 horas
Ementa
Objeto da Fonética e da Fonologia.
Aspectos descritivos da Fonética e da Fonologia da Língua Portuguesa.
Análise Fonológica.
Traços Distintivos.
Processos morfofonológicos e estilísticos.
Variação linguística: sincronia e diacronia.

Objetivo Geral
Introduzir, numa postura reflexiva, aspectos gerais dos parâmetros teóricos
sobre a estruturação dos sistemas fonético e fonológico da Língua Portuguesa.

Apresentação da Disciplina
Prezado aluno

Nos fascículos desta disciplina, pretendemos promover uma reflexão acerca do


sistema de caracterização e distinção dos segmentos sonoros da Língua Portu-
guesa a partir de parâmetros teóricos pertinentes ao estabelecimento de regras
e processos fonológicos. Inicialmente apresentaremos o objeto da fonética e da
fonologia e aspectos fonéticos do Português do ponto de vista da fonética articu-
latória. Em seguida, apresentaremos estudos referentes aos processos fonológi-
cos, morfofonológicos e estilísticos e encerraremos com estudos sobre a descrição
linguística em seu caráter sincrônico e diacrônico. Esperamos contribuir, mesmo
que de forma introdutória, para o seu processo de aquisição de conhecimentos,
compreensão e análise da fonética e fonologia do Português.
Fascículo 1 7

Aspectos
Introdutórios
da Fonética
Prof.a Maria Perpétua Teles Monteiro
Carga Horária | 15 horas
Objetivos Específicos
Apontar conceitos e fundamentos, identificando hipóteses explicativas,
relacionais e distintivas para os processos descritivos da fonética.
Realizar transcrições fonéticas do Português.

1. Introdução

1.1. Objeto da Fonética e da Fonologia. O Que É Isso?


Fontes: http://www.monica.com.br/cookpage/cookpage.cgi?!pag=comics/tirinhas/tira300
Fonte: BROWNE, Dik Hãgar. In: Folha de São Paulo, 16 de dez.1999, p.4-8.

Tirinha da Mônica.

Tirinha do Hagar.
8 Fascículo 1

Todos nós, como falantes de uma língua, fazemos físicas da onda sonora que é produzida pelo
reflexões sobre o uso e a forma da linguagem que ar ao passar pelo aparelho articulador. Com-
utilizamos. Qualquer indivíduo pode “falar sobre” preende o estudo das propriedades físicas dos
a linguagem e discutir aspectos relacionados à lín- sons da fala a partir de sua transmissão do fa-
gua que conhece usando parâmetros lingüísticos e lante ao ouvinte.
epilinguisticos. Essa atividade faz parte do “conhe- • Fonética instrumental: compreende o estudo
cimento comum” das pessoas. No entanto, espe- das propriedades físicas da fala, levando em con-
ramos também que você realize, sobre a língua e a sideração o apoio de instrumentos laboratoriais.
linguagem, atividades metalinguísticas, pois há um
ramo da ciência cuja preocupação e objeto de estu- Nossos estudos estarão concentrados nos aspectos
do é a linguagem, o que nos oferece elementos pró- fisiológicos da produção do som. Estudos que con-
prios e apropriados para falarmos sobre a língua. siderem as demais dimensões são objeto de outras
disciplinas (fonética experimental, fonética para-
Essa ciência é a Linguística. Ela está voltada para a métrica, entre outras).
explicação de como a linguagem humana funciona
e como são as línguas em particular, quer fazendo Atividade | Ao realizar a leitura das tirinhas,
o trabalho descritivo previsto pelas teorias, quer fale sobre a importância da fonética e da fo-
usando os conhecimentos adquiridos para bene- nologia.
ficiar outras ciências e artes que usam, de algum
modo, a linguagem falada ou escrita.
SAIBA MAIS!
Nas próximas páginas, trataremos de duas áre-
A fonética pode ser:
as dentro da tradição linguística que necessitam,
• Descritiva;
como as demais, de conhecimentos linguísticos • Histórica;
específicos para a realização de reflexões sobre a • Sintática.
língua: a Fonética e a Fonologia. Esses temas serão ira de Fonética Memb
ro
tratados em tópicos separados, porque, apesar de A Sociedade Brasile so cia tio n foi fun -
eti c As
da International Phon e:
as duas áreas lidarem com os sons usados na fala , de 1983. Acess
dada em 8 de junho
ol.uol.com.br/apres.htm
e pertencerem ao nível biológico do falar condi- http://sbfonetica.vilab
cionado psicofisicamente, diferem na perspectiva
com que estudam esses sons. Enquanto a fonética
tem como unidade o som da fala ou fone (substân- 2. Descrição Fonética
cia da expressão), trabalhando com os sons pro-
priamente ditos, como eles são produzidos, perce- 2.1. Aparelho Articulador
bidos e que aspectos físicos estão envolvidos em
sua produção, a fonologia opera com a função e O ser humano é capaz de produzir uma quantida-
organização desses sons em sistemas: o fonema (for- de variada de sons vocais. Para entendermos a pro-
ma da expressão). dução desses sons, faz-se necessário analisarmos
as partes do corpo humano que estão envolvidas
1.2. Áreas de Interesse da Fonética nessa produção:

A Fonética é a ciência que apresenta os métodos para • Pulmões: embora haja outras fontes de ar
descrição, classificação e transcrição dos sons da utilizadas na fala, os pulmões são a principal
fala. As principais áreas de interesse da fonética são: fonte, estando conectados à traqueia por dois
tubos bronquiais.
• Fonética articulatória: é aquela que leva em • Traqueia: vai dos tubos bronquiais até a la-
conta o que se passa no aparelho fonador, du- ringe, sendo responsável pela maior fonte de
rante a produção de sons. Compreende estu- energia para a produção dos sons da fala. É
dos fisiológicos e articulatórios. formado por anéis cartilaginosos, que se man-
• Fonética auditiva: é aquela que considera a têm unidos por uma membrana.
percepção do ouvinte. • Laringe: trata-se de uma válvula, cuja função
• Fonética acústica: centra-se nas propriedades principal é a de controlar o ar que sai e entra
Fascículo 1 9

nos pulmões, além de impedir que alimentos mandíbula e língua. Em sua parte interna,
entrem nos pulmões. É formada por várias encontram-se os alvéolos.
cartilagens. Algumas delas se movimentam, • Arcada alveolar: parte óssea localizada atrás
entre elas, as cartilagens que se ligam às cordas dos dentes superiores, antes do palato duro.
vocais. • Dentes: influem na fonação, porque podem im-
• Cordas vocais: na verdade, não são cordas, pedir, total ou parcialmente, a passagem de ar.
mas, sim, ligamentos de tecido elástico que es- • Lábios: duas pregas que marcam o final da ca-
tão unidos às cartilagens aritenoides (na parte vidade oral e do trato vocal. Sua constituição
de trás, chamada de posterior, da laringe) e à muscular permite grande plasticidade e mobi-
tireoide (localizada na parte da frente, chama- lidade, alterando a forma da cavidade oral.
da de anterior, da laringe) na laringe. Desse • Mandíbula: maxilar inferior. Graças a sua mo-
modo, as cordas vocais são fixas na tireoide, e bilidade, permite, também, alterações na cavi-
seu movimento de abertura se dá pelo movi- dade oral.
mento das cartilagens aritenoides. A abertura • Língua: trata-se de um grande músculo dota-
ou fechamento dessas cartilagens faz com que do de alto grau de mobilidade voluntária. É
as cordas vocais se abram ou fechem em dife- responsável pelas maiores modificações do vo-
rentes graus, provocando alterações na corren- lume e da geometria da cavidade oral. Possui
te de ar que vem do pulmão, o que provoca diferentes partes, a saber:
diferentes modos de fonação.

Fonte: [adaptado de] Fiorin (2007. p.15)


• Glote: corresponde à abertura, ao espaço en-
tre as cordas vocais, que pode assumir diferen-
tes formas, a depender da posição das cordas
vocais.
• Epiglote: cartilagem em forma de colher, cuja
função é a de fechar a laringe, de modo que o
alimento não entre na laringe e, portanto, nos
pulmões.
• Faringe: é um tubo muscular com forma de
um cone invertido, que vai da glote à base do
crânio. Através dele, ocorre a passagem do ar
para a respiração e para a fonação (via traqueia)
e do alimento ingerido (via esôfago). Ela se di-
vide em oro-faringe (que vai da glote até o véu
palatino) e naso-faringe (do véu palatino até as
fossas nasais).
• Véu palatino: refere-se à continuação do céu
da boca. Quando o véu palatino está abaixado, Partes da língua
a passagem velo-faringal encontra-se aberta, e
o ar pode passar pela cavidade nasal. É tam-
bém conhecido como palato mole (escorregue 1. ponta ou ápice (localizada na borda lateral
a língua pelo céu da boca que é possível sentir frontal da língua);
quando não há mais osso, o que deixa o tecido 2. lâmina (localizada na borda superior fron-
muscular mole). tal da língua);
• Úvula: trata-se de um prolongamento do véu pa- 3. centro;
latino. É também conhecida como campainha. 4. dorso;
• Cavidade nasal: espaço entre a passagem velo- 5. raiz;
faringal e as fossas nasais, separado da cavidade 6. sublâmina.
oral pelo palato duro. Quando o véu palatino
está abaixado, o ar transita por essa passagem. 2.2. Articuladores Ativos e Passivos
• Palato duro: parte superior da cavidade bucal,
fica localizada à frente do véu palatino, logo Os articuladores ativos têm a propriedade de mo-
após a arcada alveolar. É fixa e óssea. vimentar-se em direção ao articulador passivo, mo-
• Cavidade oral: formada pelos lábios, dentes, dificando a configuração do trato vocal. Eles são
10 Fascículo 1

assim denominados devido ao seu papel ativo na 10. Úvula


articulação consonantal. Os articuladores ativos 11. Lábio inferior
são: o lábio inferior, a língua, o véu palatino, as 12. Dentes inferiores
cordas vocais. 13. Ápice da língua
14. Lâmina da língua
Os articuladores passivos localizam-se na mandíbu- 15. Parte anterior da língua
la superior, exceto o véu palatino, que está localiza- 16. Parte média da língua
do na parte posterior do palato. Os articuladores 17. Parte posterior da língua
passivos são o lábio superior, os dentes superiores 18. Epiglote
e o céu da boca, que se divide em: alvéolos, palato 19. Laringe
duro, palato mole e úvula. Perceba que o véu pa- 20. Esôfago
latino (palato mole) pode atuar como articulador 21. Glote(cordas vocais)
ativo (na produção de segmentos nasais) ou como
articulador passivo (na articulação de segmentos
velares). A posição do articulador ativo em relação
ao passivo define o lugar de articulação dos seg- SAIBA MAIS!
mentos consonantais.
- quando o falante
Atividades linguísticas reflexão automática,
faz sobre a língua uma da.
Aparelho Fonador gramática internaliza
utilizando- se de sua lín gu a (fa lan te,
uário da
São aquelas que o us ele -
Fonte: [adaptado de] Silva (2008.p.30)

) faz ao buscar est ab


escritor/ouvinte, leitor po r me io da
municativa
cer uma interação co
qu e lhe pe rm ite ir construindo o seu
língua, o
ua do à situação, aos seus
texto de modo adeq
ionais.
objetivos comunicac

s - quando o usuário
Atividades epilinguísticara se comunicar. São
pa
constrói e reconstrói do
qu e su sp en de m o desenvolvimento
aquelas as su nto )
do tema ou do
tópico discursivo (ou ra, no cu rso da
ção, pa
ou aspectos da intera re-
o co mu nic ati va , tratar dos próprios
interaçã liza do s.
e estão sendo uti
cursos linguísticos qu ão pre sen tes
guísticas est
As atividades epilin re-
çõ es, co rre ções, pausas longas,
nas hesita so s, etc . ou , por
es, lap
petições, antecipaçõ a
interlocutor question
exemplo, quando um m ou co ntr ola a
de outre
a atuação interativa nv ers aç ão , indi-
nu ma co
tomada da palavra de
não falar por meio
cando quem deve ou res po sta s, so lici -
rguntas,
recursos diversos (pe
tações, etc.).
Aparelho fonador as - quando a língua
(articuladores, cavidades e glote)
Atividades metalinguístic
assunto, o tema, o tó-
o
se torna o conteúdo, ns-
da situ ação de interação, co
pico discursivo so bre a pró pri a
ecime nto
truindo- se um conh lín gu a
em que se usa a
língua. São aquelas
a língua.
para analisar a própri
1. Cavidade oral
2. Cavidade nasal
3. Cavidade nasofaringal
4. Cavidade faringal
5. Lábio superior
6. Dentes superiores
7. Alvéolos
8. Palato duro
9. Palato mole(véu palatino)
Fascículo 1 11

3. A Produção dos Sons na


Linguagem Humana
Texto Complementar
Imagine uma situação comunicativa em que você fi- e comunicação: v/civ12_5.
Língua, linguagem rg. br/ ana is/a nai s% 20i
casse examinando o seu modo de falar e o do seu ou- htt p:/ /ww w.f ilol og ia.o
htm
vinte. Observe a cena proposta por Auguste Renoir.

O que aconteceria com a comunicação? 3.1. Mecanismos para a


Produção de Correntes de Ar
Introdução
Para produção dos sons, a corrente de ar pode to-
mar duas direções: egressiva e ingressiva. A direção

Fonte: http://www.ze-card.com/images/renoir/renoir70.htm
egressiva é aquela em que o ar vai para fora dos
pulmões e é expelido por meio da pressão exercida
pelos músculos do diafragma, enquanto a direção
ingressiva é aquela em que o ar vai para dentro dos
pulmões. No caso dos sons do português, o meca-
nismo de produção é egressivo (sons plosivos).

As correntes de ar podem ser pulmonares, glotais


e velares. A corrente pulmonar é aquela que se ini-
cia nos pulmões e é responsável, além da fonação,
pelo ciclo respiratório. A corrente de ar egressiva
é usada em todas as línguas. Não há línguas que
utilizem a corrente pulmonar ingressiva para a pro-
dução de sons distintivos.
Auguste Renoir.
A corrente de ar glotal ou faringal usa o ar que está
acima da glote fechada e inicia a corrente de ar atra-
vés do movimento da laringe para cima e para bai-
Tão natural quanto o olfato, a visão e o paladar xo. Os sons produzidos pela corrente glotal ocor-
é o ato de falar para o ser humano. Esse ato é tão rem quando são produzidos pelo movimento dos
natural que só paramos para observar seu funcio- músculos da laringe para cima e são normalmente
namento nos casos de deficiência ou de falta. No conhecidos como ejetivos. Os sons produzidos
entanto, é essa capacidade de falar do modo como pela corrente de ar glotal ingressiva são realizados
o fazemos que distingue o ser humano de todos pelo movimento dos músculos da laringe para bai-
os outros animais. Quando um ser humano em xo, conhecidos como implosivos. O mecanismo de
condições “normais” tem algo a expressar a ou- corrente de ar glotálico não ocorre em português.
trem, entra em funcionamento seu sistema nervo-
so, impulsionando o aparelho fonador que opera A corrente de ar velar ou oral é produzida dentro
sobre a informação a ser transmitida e a codifi- da cavidade oral por meio do levantamento da par-
ca em determinados padrões de ondas sonoras (a te posterior da língua, que entra em contato com o
linguagem, o código, a mensagem). Esta operação véu palatino, fechando a parte posterior da cavida-
recebe o nome de codificação. Quando as ondas de e, na parte anterior, pelo fechamento dos lábios
sonoras, emitidas pelo falante, são conduzidas pelo ou pelo contato da língua com o céu da boca. A
ar atmosférico circundante, indo atingir o apare- corrente de ar ingressiva é conhecida como clique.
lho auditivo do ouvinte, que capta os sons conver-
tendo as ondas sonoras em atividade nervosa, que Deve-se ter em mente que o ar tem duas possibi-
é levada ao cérebro, a operação recebe o nome de lidades de saída: pela boca (sons orais [b], [s], por
decodificação. Está, assim, fechado o circuito e o exemplo), pelo nariz (sons nasais [n], [m], por exem-
processo que pode se repetir passando o ouvinte plo) ou por ambos ao mesmo tempo (sons nasaliza-
a falante. dos [ã], [õ], por exemplo).
12 Fascículo 1

3.2. O Aparelho Fonador e Os estriados, que podem obstruir a passagem da


Mecanismos de Produção dos Sons corrente de ar) e a glote (espaço decorrente da
não obstrução destes músculos laríngeos). A
Os sons utilizados no exercício da linguagem hu- função primária da laringe é a de atuar como
mana são vibrações com frequências, intensidades uma válvula que obstrui a entrada de comida
e durações características, produzidas por uma nos pulmões por meio do abaixamento da epi-
glote. O ato de engasgar envolve o fato de que
a epiglote não obstruiu a entrada de alimento

Fonte: [adaptado de] Bechara (2001. P.58)


no sistema respiratório. Então o ar dos pul-
mões sai, visando impedir a entrada do corpo
estranho (alimento) no aparelho respiratório.
• O sistema articulatório é constituído da farin-
ge, da língua, do nariz, dos dentes e dos lábios,
estruturas que se encontram na parte superior
à glote. Várias são as funções primárias desses
órgãos, dentre elas, comer, morder, mastigar,
sentir o paladar, cheirar, sugar, engolir.

Atividade
1. A partir da observação da obra de Renoir,
Aparelho fonador dos conhecimentos empíricos e científicos
apreendidos, discuta: É possível afirmar
Fonte: [adaptado de] Silva, (2008. P.24)

que a produção da fala é apenas uma ques-


tão biológica?

2. Identifique as partes do aparelho fonador


e complete o diagrama.

Os sistemas respiratórios, fonatório e articulatório

coluna de ar em movimento, que, tendo início


nos pulmões, na fase expiratória do processo de
respiração, percorre o chamado aparelho fonador.
As partes do corpo humano que compõem o apa-
relho fonador não têm como função primária a
produção de sons, mas outras funções, como ali-
mentação e respiração, compondo-se de três sis-
temas que, em função secundária, caracterizam o
aparelho fonador e são fisiologicamente responsá-
veis pela produção dos sons da fala.

• O sistema respiratório é constituído dos pul-


mões, dos músculos pulmonares, dos tubos
brônquios e da traqueia. O sistema respira-
tório encontra-se na parte inferior à glote, que
é denominada cavidade infraglotal. A função
Texto Complementar
primária do sistema respiratório é obviamente Aparelho fonador: relho.htm
m/sandrafelix.geo/apa
a respiração. http://www.geocities.co

• O sistema fonatório é constituído da laringe.


Nesta, localizam-se as cordas vocais (músculos
Fascículo 1 13

4.1. A Fonação
SAIBA MAIS!
Vídeos respiração: m/watch?v=Qujt9YKGzAY&featu É na laringe que se encontra o órgão que desem-
http://www.youtube.co penha papel bastante complexo na produção dos
re=related
m/watch?v=sQU4LVJr7
TI&featur sons da linguagem humana, as cordas vocais, que,
http://www.youtube.co
e=related
de acordo com sua tensão e abertura, determinam
er- os modos de fonação também conhecidos como
notam entre vozes div
As diferenças que se da s pe sso as ba- qualificadores de voz.
de s e
sas dos sexos, das ida e.
s dimensões da laring
seiam-se, em geral, na
Na respiração em repouso e na produção dos
e o
mo hotentote, zulu
Línguas africanas, co ida de s dis - chamados sons surdos ou desvozeados, as cordas
ues como un
bosquísmano, têm cliq ue s têm um us o vocais estão separadas, e a glote está aberta. O ar
ês, os cliq
tintivas. Em portugu beijo originado nos pulmões pode passar livremente,
uís tico , po r exemplo, o som do
paraling a-
cia, o muxoxo ou est o sem que haja vibrações. Estando a glote fechada,
que se lança a distân .
çar cavalos e as cordas vocais unidas, o ar tem que forçar pas-
lar da língua para ati
sagem, fazendo-as vibrar. Os sons resultantes são
Recordando um Pouco A História do
chamados sonoros ou vozeados.
Homem
ter As cordas vocais podem assumir outras posições e,
agem humana pode
Discute- se que a lingu os , ma s pe n- consequentemente, outros modos de fonação. Nos
100 mil an
surgido há cerca de en te - há cer ca sons sonoros, as cordas vocais estão juntas em toda
mais rec
semos numa época o a re-
altura, e devid a sua extensão, e a glote está igualmente fechada.
de 40 mil anos. Nesta
do po r ba se o registo arqueo- Se, porém, devido ao afastamento das aritenoides
construções ten dos
o aparelho fonador
lógico, sabe-se que ma r- houver uma pequena abertura na glote, o som re-
umas diferenças
Neandertais tinha alg ad am en te, sultante não é mais sonoro e, sim, sussurrado. Em
derno, nome
cantes do Homem mo o
en co ntr av a- se mais elevada. Iss português, ocorrem vogais sussurradas em varia-
a laringe um a mo bil ida de
a tin ha ção com vogais sonoras. Numa palavra como ‘lin-
significa que a língu ção
ssibilidade da produ
menor, limitando a po guística’, o i e o a após a sílaba tônica podem ser
de sons. pronunciados com sonoridade ou com sussurro.

4. Processo Fonatório Sendo a corrente de ar bruscamente interrompida


na glote pelo fechamento, por um período mais
prolongado das cordas vocais, o som resultante é
Introdução
denominado oclusão ou oclusiva, glotal.
Neste tópico, trataremos do processo fonatório ou
Nos sons aspirados, as cordas vocais continuam
fonação que corresponde aos diversos estados da
abertas, e não há vibração por um período mais
glote e da consequente excitação acústica da cor-
prolongado após a soltura da articulação da conso-
rente de ar ao passar pelas cordas vocais.
ante, quando os órgãos já estão posicionados para
a produção do segmento seguinte. Assim, sons as-
pirados são vogais surdas produzidas com a mesma
Fonte: (ns.rc.unesp.br/.../Pedro/cordas_vocais.htm)

protrusão labial e altura da língua da vogal que se

segue a uma consoante. Em inglês, ocorrem oclu-


sivas aspiradas, que são variantes posicionais das
oclusivas surdas.

Havendo uma vibração das cordas vocais e as par-


tes das aritenoides permanecendo separadas, pode
ocorrer um escape extra de ar. Os sons produzidos
sob estas condições são chamados murmurados.
São denominados tremulados os sons produzidos
Posições das cordas vocais
pela vibração lenta dos ligamentos das cordas vo-
cais, permanecendo as aritenoides separadas. Tre-
14 Fascículo 1

mulação e murmúrio podem ser usados com valor


distintivo em algumas línguas. SAIBA MAIS!
Fonte: [adaptado de] Fiorin
(2007. p.18)

Vídeo laringe: m/watch?v=FA58skByS


28&featu
http://www.youtube.co
re=related

m o uso da voz: antes/


Cuidados especiais co gia .com/trabalhos/estud
/www.fono
http:/ aud iolo
estudante-005.htm.

Modos de fonação
Fonte: [adaptado de] Callou (2005.p.21)

4.2. A Nasalização

Leia o poema de Carlos Drummond de Andrade

A Um Ausente

Tenho razão de sentir saudade,


tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Posições das cordas vocais no processo fonatório
Detonaste o pacto.

Detonaste a vida geral, a comum aquiescência


Atividade | Coloque a sua mão contra a par- de viver e explorar os rumos de obscuridade
te central anterior do pescoço (onde, nos ho- sem prazo sem consulta sem provocação
mens, temos o “pomo de Adão”). Pronuncie, até o limite das folhas caídas na hora de cair.
então, o som inicial da palavra “vá” de manei-
ra contínua (verifique que apenas a consoante Antecipaste a hora.
esteja sendo pronunciada). Depois pronuncie, Teu ponteiro enlouqueceu,
da mesma maneira, o som inicial da palavra enlouquecendo nossas horas.
“fé”. Faça alternância entre V e F algumas ve- Que poderias ter feito de mais grave
zes, pronunciando, apenas, a consoante. O do que o ato sem continuação, o ato em si,
que você observou? Que conclusão se pode o ato que não ousamos nem sabemos ousar
tirar em relação à produção dos dois sons? porque depois dele não há nada?

Na gravura abaixo, identifique e comente os Tenho razão para sentir saudade de ti,
estados da glote e os segmentos sonoros pro- de nossa convivência em falas camaradas,
duzidos em cada um deles. simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.


Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.
Fonte: http://www.jornaldepoesia.jor.br/drumm.html#aumausente

Texto Complementar
Laringe: fa/ cor po - Como podemos perceber, a nasalização é uma ca-
aof ran cis co. com .br /al
htt p:/ /w ww.co leg ios orio/laringe racterística bastante comum; ela ocorre obrigato-
irat
humano-sistema-resp
riamente em qualquer dialeto do português.
Fascículo 1 15

Fonte: [adaptado de] Callou (2005.p.22)

essa diferença ocorre pela não articulação da vo-


gal nasal, em final de palavra em posição tônica
ou postônica ou no meio da palavra em posição
tônica ou pretônica.Tais casos são denominados
nasalização. Note a diferença de significado em:
“la, lã; mito, minto; cadeia, candeia”. A nasaliza-
ção da vogal, nesses casos, é obrigatória. Dá-se o
nome de Nasalação ao metaplasmo, que consiste
na permuta de um fonema oral para nasal (morta-
dela > “mortandela”).

Vogais Nasais do Português Brasileiro


Sons orais e nasais

Fonte: [adaptado de] Silva


(2008. p.91)
Anterior Central Posterior
arred não arred não arred não

A nasalização é um mecanismo que, como o pro- arred arred arred

cesso fonatório, envolve aberturas e fechamentos Alta u


de uma passagem que conduz à outra. Os sons
Média e õ
orais são originados no momento em que, ao
passar pela glote, a corrente de ar encontra a pas- Baixa
sagem nasofaríngea fechada pelo levantamento do
véu palatino, escoando, assim, pela cavidade bucal. VOGAIS TÔNICAS NASAIS NO FINAL E NO MEIO DA PALAVRA
Estando o véu palatino abaixado e a passagem na-

Fonte: [adaptado de] Silva


(2008. p.91)
sofaríngea aberta, parte do fluxo de ar se desvia Vogais Tônicas Nasais
para cavidade nasal, dando origem aos sons nasais. Final de Palavra Meio de Palavra

(Figura anterior)
[ ] vim [‘v ] cinto [‘s tʊ]

Na prática, distinguem-se os sons nasais dos sons [e] não há cento [‘setʊ]
e
nasalizados. Nos nasais, há, além do abaixamen- [ã] lã [lã] santo [‘sãtʊ]
to do véu palatino, uma obstrução na cavidade
bucal causada pela aproximação dos dois articula- [õ] tom [‘tõ] conto [‘kõtʊ]
dores. É o que acontece com as consoantes m[m], [u] jejum [ʒe’ʒum]
u assunto [a’suto]
u
n[n] e nh[ñ]. Para a pronúncia do [m], o obstáculo
é formado na cavidade bucal pelo fechamento
dos lábios; em [n] pela junção da ponta da língua Atividade
com a parte posterior dos dentes e em [ñ] pela ar- 1. A partir da leitura do poema de Drum-
ticulação da lâmina da língua com o palato duro. mond, reflita sobre a importância da na-
Não havendo obstrução total na cavidade bucal, salização na expressividade do português.
o ar escoa também pela boca, e o som é chamado
nasalizado (caso das vogais). Neste caso, o abaixa- 2. Faça a transcrição dos segmentos vocálicos
mento do véu palatino altera a configuração da das palavras:
cavidade bucal e, portanto, a qualidade vocálica a. sim
das vogais nasais torna-se diferente da qualidade b. tonta
vocálica das vogais orais correspondentes. Um til c. janta
colocado acima da vogal marca a nasalidade. Veja os d. mundo
quadros nesta página. A nasalidade ocorre quando e. vento
uma vogal tipicamente oral é seguida de uma das
consoantes nasais (m, n, ñ). É o caso das palavras 3. Coloque os dedos, fechando a cavidade
cama, tema, time, dono, rumo e sonho. A nasali- nasal e pronuncie b, p, f. Agora pronuncie
dade é mais perceptível auditivamente com a vogal m, n, ã. O que aconteceu com a corrente
a. Com as vogais médias e, o e as vogais altas i, de ar, com a cavidade bucal e com a resso-
u, às vezes, fica difícil identificar se a nasalidade nância no momento em que você pronun-
ocorre ou não. A nasalidade não causa diferença ciou os diferentes segmentos sonoros?
de significado entre as palavras (janela, j[ã] nela);
16 Fascículo 1

4. Retire do poema: 5.1. Os Segmentos Vocálicos


a. Cinco palavras com apenas sons orais.
b. Cinco palavras com sons consonantais Os sons vocálicos são sons produzidos por uma
nasais. corrente de ar pulmonar egressiva, que faz vibrar,
c. Cinco casos de nasalização. normalmente, as cordas vocais. Os sons vocálicos
se opõem aos consonantais por serem acusticamen-
te sons periódicos complexos, constituírem núcleo
de sílaba e sobre eles poder incidir acento de tom
Texto Complementar e/ou intensidade. O que varia nos sons vocálicos é
Metaplasmos: a forma e o tamanho do trato vocal.
/wiki/Metaplasmo
http://pt.wikipedia.org
A Nomenclatura Gramatical Brasileira classifica as
vogais de acordo com quatro critérios:

SAIBA MAIS! 1. quanto à zona de articulação: as vogais podem


único
se restringe a um ser média: /a/; posteriores: /ó/, /ô/, /u/ e ante-
A nasalidade não O ab aix am en-
o so no ro. riores: /é/, /ê/, /i/;
segmento no contínu ssa ge m
a abertura da pa
to do véu palatino e pri os ao s so ns
nismos pró
nasofaríngea, meca ita 2. quanto à intensidade: as vogais podem ser tô-
na sa liza do s, não se dão em perfe
nasais e do vé u pa latino nicas (em que recai o acento tônico) e átonas
tam en to
sincronia com o levan dos
ssagem nasofaríngea (inacentuadas). Podem estar antes da tônica
e fechamento da pa mu m qu e a na-
sim é co
sons adjacentes. As no s, pe la síla ba. (pretônicas) ou depois (postônicas);
, ao me
salidade se estenda
3. quanto ao timbre: o timbre é o efeito acústico
resultante da distância entre o dorso da língua
e o véu do paladar, funcionando a cavidade
5. Mecanismos de Produção bucal como caixa de ressonância. O timbre é o
traço distintivo das vogais. Quanto ao timbre,
de Segmentos Consonantais
as vogais podem ser abertas: /a/, /á/, /ó/; fecha-
e Vocálicos das: /ê/, /ô/, /i/, /u/ e reduzidas: /a/, /i/, /u/. A
reduzida é proferida com menos nitidez, como
Introdução em casa, em que se comparando os segmentos
vocálicos, têm-se o primeiro aberto e o segun-
Talvez agora seja uma boa hora para levantar, abrir do reduzido ;
a boca em toda sua amplitude e deixar o “a” bem
forte sair e ainda deixá-lo continuar saindo por 4. quanto ao papel das cavidades bucal e nasal,
alguns segundos...Agora abra a boca do mesmo as vogais podem ser orais (/á/, /é/, /ê/, /i/, /ó/,
modo e pronuncie “b”. O que aconteceu? /ô/, /u/) e nasais (/ã/, / ~
e /, / ~i /, /õ/, / ~
u /).

A voz humana se compõe de tons (sons musicais)


e ruídos. Caracterizam-se os tons quanto às con- Destaca-se, também, o fator altura do corpo da
dições acústicas, por suas vibrações periódicas. língua, referindo-se à altura que a língua ocupa no
Uma primeira distinção que se faz desses tons e trato vocal durante a produção de um som. São
que podem ser utilizados nas línguas é entre conso- quatro os graus de altura da língua: alto em /i/ e /u/
antes (=ruídos), vogais (=tons) e os glides. Quanto (chita e chuva), médio-alto e médio baixo em /é/,
às condições fisiológicas de produção, a diferença /ó/, /ê/, /ô/ e baixo em /a/ (casa).
entre consoantes e vogais é que, para a produção
dos segmentos consonantais, a cavidade bucal está
total ou parcialmente fechada, podendo ou não ha-
ver fricção, enquanto que, para a dos vocálicos, a
passagem do ar, na cavidade bucal, se acha comple-
tamente livre, não é interrompida na linha central,
não havendo, portanto, obstrução ou fricção.
Fascículo 1 17

Quadro de classificação das vogais


Nos encontros vocálicos, costumam ocorrer dois
fenômenos: a diérese (hiatismo) e a sinérese (di-
Anteriores: /é/, /ê/, /i/ tonguismo). Chama-se diérese a passagem de
1. Quanto à Zona
Média: /a/ semivogal a vogal, transformando o ditongo em
de Articulação
Posteriores: /ó/, /ô/, /u/ um hiato: trai-ção= tra-i-ção; vai-da-de= va-i-da-
de; cai= ca-i.
Abertas: /a/, /é/, /ó/
2. Quanto ao Timbre Fechadas: /ê/, /ô/, /i/, /u/
Reduzidas: /a/, /i/, /u/ Chama-se sinérese a passagem de duas vogais de
um hiato a um ditongo crescente: su-a-ve = sua-
VOGAIS

3. Quanto ao Papel Orais: /a/, /é/, /ê/, ve; pi-e-do-so = pie-do-so; lu-ar = luar.
das Cavidades /i/, /ó/, /ô/, /u/
Bucal e Nasal Nasais: /ã/, /e /, / /, /õ/, / u/

Fonte: Bechara (2001. p.63)


Tônicas
4. Quanto à Intensidade
Átonas
a u i

Baixa: /a/
5. Quanto à Elevação
Médias: /é/, /ó/, /ê/, /ô/
da Língua
Altas: /i/, /u/

Fonte: [adaptado de] Bechara (2001.p.65) Posição das vogais /a/, /u/, /i/

5.2. Os Glides

Segmentos com características fonéticas não tão Texto Complementar


gais:
precisas, sejam de consoante ou de vogal. Fone- Classificação das vo ugues.com/index.php?i
dcanal
p://www.brazilianport
htt
ticamente, são fonemas que se caracterizam por =318
permitirem a passagem do ar sem obstrução e sem
fricção, com ressonância no centro do trato vocal
e por terem um espaço vertical para a passagem
do ar mais estreito do que as vogais a que são asso-
SAIBA MAIS!
ciados. Na ortografia, são descritos em português
como a segunda vogal em cai e mau (conhecidas O que é uma Vogal Epentética?
como glides, semicontoides ou semivogais). Fono- do
fenômeno caracteriza
logicamente, essas aproximantes se comportam A epêntese é um en tre du as co nso-
vo ga l
pela emissão de uma es-
como consoantes, isto é, não preenchem posições o representadas na
antes não líquidas, nã pa lav ra “p ne u”.
de núcleo da sílaba (assilábicas) e jamais são acen- crita, como, por exemp
lo, na
ns for ma est rut ura s
gal tra
tuadas. Representamos as semivogais i (e) por /y/ u A inserção desta vo tip o CV C.
em estrutura do
(o) por /w/. silábicas do tipo CC . No
Cada língua po ssu i uma vogal epentética
ga l em itid a en tre as
, a vo
português brasileiro ga l /i/ .
Observe que, em certos casos, em lugar de i ou u, o líquidas é a vo
duas consoantes nã ert an do int e-
pode-se grafar a semivogal e ou o, respectivamente, s vêm desp
As vogais epentética m
em observância às convenções do nosso sistema s est ud ios os , porém ainda existe
resses do ica no
a vogal epentét
ortográfico vigente, segundo as quais a semivogal poucos estudos sobre
iro .
dos ditongos orais é representada pelo grafema i, português brasile
e a dos ditongos nasais, pelo grafema e: pai/mãe,
distrai/distraem. Os encontros vocálicos dão ori-
gem aos ditongos, tritongos e hiatos. Os ditongos,
como os demais encontros vocálicos, podem ocor-
rer no interior da palavra (dizem-se intraverbais: Atividade
pai, vaidade) ou por aproximação, por fonética 1. Pronuncie em sequências as vogais i e a.
sintática, de duas ou mais palavras (dizem-se inter- Durante a posição de qual vogal, a posição
verbais: certa idade, inculta e bela). da língua se encontra mais alta? Classifi-
que umas dessas vogais como alta e outra
18 Fascículo 1

como baixa. Repita o exercício, observan- vos, sendo estes os lugares em que os articuladores
do a posição da língua durante a articula- ativos obstruem a passagem de ar. Deve-se lembrar
ção das vogais i e u. Classifique uma como que o trato vocal é um continuum que está sendo
anterior e a outra como posterior. dividido nos lugares de produção. Desse modo,
não há pontos fixos para a produção de sons. Por
2. Classifique os segmentos vocálicos i, ê (ipê), exemplo, o som [t] é produzido com a ponta da
a, ó (avó), ô (avô), u nas seguintes catego- língua contra os alvéolos. Alguns falantes podem
rias: alta, média alta, média baixa e baixa. produzir esse som, colocando a ponta da língua
um pouco mais à frente, de modo a encostar tam-
bém nos dentes superiores. São dezenove os fone-
6. Mecanismos De Produção mas consonantais do português: /p/, /b/, /t/, /d/, /k/
(cá), /g/, /f/, /v/, /s/, /z/, /x/ (chá), /j/ (já), /rr/ (carro,
De Segmentos Consonantais rei), /r/ (cara), /m/, /n/, /nh/ (banha), /l/, /lh/ (malha)
Introdução De acordo com a Nomenclatura Gramatical Brasi-
leira, classificam-se as consoantes quanto ao modo
Todas as línguas naturais possuem consoantes e de articulação, à zona de articulação, ao papel das
vogais. A cavidade orofaríngea é a câmara de resso- cordas vocais e ao papel das cavidade bucal e nasal.
nância onde o fluxo de ar é modificado pela ação
dos chamados articuladores. Os diferentes modos
6.1.1. Grau da Estritura e
por que o fluxo de ar é modificado permitem o
Modo de Articulação
estabelecimento de duas grandes classes de sons:
vogais e consoantes.
A posição assumida pelo articulador ativo em re-
lação ao passivo, indicando como e em que grau a
Observando a gravura abaixo, que observações
passagem da corrente de ar, através do aparelho fo-
você faz sobre esta última classe?
nador, limita-se neste ponto. A partir da natureza
Fonte: [adaptado de] Callou (2005. p.22)

da estritura, classificam-se os segmentos consonan-


tais quanto à maneira ou ao modo de articulação.
Assim as consoantes podem ser oclusivas e cons-
tritivas. A oclusão ocorre quando os articuladores
[b] [m] estão dispostos de tal forma que impedem comple-
tamente a saída do ar. O véu palatino está levanta-
do, e o ar que vem dos pulmões encaminha-se para
a cavidade oral. Oclusivas são, portanto, consoan-
tes orais. As consoantes oclusivas que ocorrem em
a b português são: /p/, /b/, /d/, /k/, /g/.
Segmentos consonantais (oral e nasal)
A constrição (pressão) ocorre quando os articula-
dores estão dispostos de maneira a permitirem a
saída parcial da corrente de ar. As consoantes cons-
Texto Complementar tritivas que ocorrem em português são: /f/, /v/, /s/,
nsoantes: /z/, /x/, /j/, /r/, /rr/, /l/, /lh/, /m/, /n/, /nh/.
Classificação das co lianportugues.co
m/index.
h t t p : / / w w w. b r a z i
php?idcanal=317 Nasal: nos sons nasais, os articuladores da cavida-
de oral estão fechados, impedindo a passagem do
ar. No entanto, o véu palatino encontra-se abaixa-
6.1. As Consoantes do, e o ar que vem dos pulmões escapa pelas ca-
vidades oral e nasal. Nasais são consoantes idên-
As consoantes podem ser classificadas pelo lugar, ticas às oclusivas, diferenciando-se apenas quanto
ponto ou modo da obstrução do ar e pela vibração ao abaixamento do véu palatino para as nasais. As
das cordas vocais. Os pontos de articulação são de- consoantes nasais que ocorrem em português são:
nominados de acordo com os articuladores passi- /m/ (má), /n/ (nua), /nh/ (banho).
Fascículo 1 19

Fricativa: os sons são produzidos por uma aproxi- o articulador passivo (arcada alveolar), e a corrente
mação dos articuladores, estreitando o trato vo- de ar é obstruída na linha central do trato vocal.
cal de modo que o ar sai produzindo fricção (esfre- O ar, então, é expelido por ambos os lados desta
gaço, atrito). A aproximação dos articuladores não obstrução tendo, portanto, saída lateral. As late-
chega a causar obstrução completa e, sim, parcial rais ocorrem em português, em: lá, palha, sal (da
causando a fricção. As consoantes fricativas que maneira como é pronunciada no Sul do Brasil ou
ocorrem em português são: fé, vá, sapo, zapata, em Portugal).
chave, já, rato (são exemplos do uso do r fricativo
- o português de Belo Horizonte e Rio de Janeiro). 6.1.2. Quanto ao Lugar ou
Zona de Articulação
Africada: é formada por uma oclusiva e uma frica-
tiva que devem ter o mesmo lugar de articulação, Temos:
ou seja, serem homorgânicas. Na fase inicial da
produção de uma africada, os articuladores pro- a. Bilabial: os sons bilabiais são produzidos pelo
duzem uma obstrução completa na passagem da fechamento ou estreitamento do espaço entre
corrente de ar através da boca, e o véu palatino os lábios (/p/, /b/, /m/). O articulador ativo é o
encontra-se levantado (como nas oclusivas). Na lábio inferior, e o passivo é o lábio superior.
fase final dessa obstrução (quando se dá a soltura b. Labiodental: são os sons produzidos pela obs-
da oclusão), ocorre, então, uma fricção decorren- trução parcial da corrente de ar entre o lábio
te da passagem central da corrente de ar (como inferior (articulador ativo) e os dentes incisivos
nas fricativas). O véu palatino continua levantado superiores (articulador passivo) (/f/,/v/).
durante a produção de uma africada. As africadas c. Dental: são os sons produzidos com a ponta
são, portanto, consoantes orais. As consoantes da língua (articulador ativo) contra a parte de
africadas que ocorrem em algumas variedades do trás dos dentes incisivos superiores (articula-
português são tia, dia. Para estes exemplos, ima- dor passivo) ou com a ponta da língua entre os
gine as pronúncias “tchia” e “djia”. Para alguns dentes. É o caso do the em inglês.
falantes de Cuiabá, ocorrem consoantes africadas d. Alveolar: os sons são produzidos com a pon-
em palavras como chá e já (quando pronunciadas, ta da língua ou lâmina da língua (articulador
respectivamente, tchá e djá. Na maioria dos diale- ativo) contra a arcada alveolar (articulador pas-
tos do português brasileiro, temos uma consoante sivo). Consoantes alveolares diferem de con-
fricativa nas palavras chá e já. soantes dentais apenas quanto ao articulador
passivo.
Vibrante: som produzido quando o articulador ati- e. Alveopalatal (palato-alveolar ou pós-alveola-
vo bate várias e rápidas vezes no articulador passivo, res): são sons produzidos com a lâmina da lín-
causando vibração. Em alguns dialetos do portu- gua (articulador ativo) contra a parte anterior
guês, ocorre esta variante em expressões, como “orra do palato duro (articulador passivo), logo após
meu!” ou em palavras, como marra. Certas varian- os alvéolos.
tes do estado de São Paulo e do português europeu f. Palatal: são os sons produzidos com o centro
apresentam uma consoante vibrante nestes casos. da língua (articulador ativo) contra o palato
Tepe: som produzido pela batida rápida e única do duro (articulador passivo).
articulador ativo no articulador passivo, ocorrendo g. Velar: são os sons produzidos pelo dorso da
uma rápida obstrução da passagem da corrente de língua (articulador ativo) contra o véu palatino
ar através da boca. O tepe ocorre em português nos ou palato mole (articulador passivo).
exemplos: cara, fraca. h. Uvular: os sons uvulares são produzidos pelo
dorso da língua contra o véu palatino e a úvu-
Retroflexa: a produção de uma retroflexa geral- la. Por exemplo, o orra(de orra, meu) produzi-
mente se dá com o levantamento e encurvamento do por alguns dialetos paulistas.
da ponta da língua (articulador ativo) em direção i. Glotal: são os sons produzidos pelas cordas
ao palato duro (articulador passivo). Ocorre no dia- vocais. Ocorre quando os músculos liga-
leto “caipira” e no sotaque de norte-americanos, mentais da glote se comportam como ar-
falando português, como nas palavras: mar, carta. ticuladores. Por exemplo, em rata (na pro-
núncia típica do dialeto de Belo Horizonte)
Laterais: o articulador ativo (ponta da língua) toca j. Faringal: são os sons produzidos pela raiz da
20 Fascículo 1

Fonte: [adaptado de] Cagliari (1997. p.55)


língua contra a parede posterior. Um exemplo
de som faringal é aquele som grave, produzi-
do quando limpamos a garganta. Os sons fa-
ringais não são tão comuns nas línguas. Um
exemplo de língua que se utiliza dos sons farin-
gais é a árabe.

6.1.3. Quanto ao Papel


das Cordas Vocais

Podem ser sonoras (vozeadas) e surdas (desvozeadas):

• Sonoras: /b/, /v/, /d/, /z/, /j/, /g/, /m/, /n/, /nh/,
/l/, /lh/, /r/, /rr/
• Surdas: /p/, /f/, /t/, /s/, /x/, /k/.

6.1.4. Quanto ao Papel das


Cavidades Bucal e Nasal

Podem ser:
Aparelho fonador/lugar de articulação
• Nasais: /m/, /n/, /nh/
• Orais: (todas as outras)

6.2. Diacríticos

Símbolo adicional utilizado junto à consoante Texto Complementar


para marcar uma propriedade articulatória secun-
dária. As articulações secundárias dos segmentos Diacríticos: /wiki/Diacr%C3%ADtico#Tipos_
http://pt.wikipedia.org
consonantais são: de_diacr.C3.A Dti cos

• Labialização: geralmente ocorre quando a con-


soante é seguida de vogais arredondadas (orais
ou nasais). Utiliza-se o w colocado acima ou à
direita do segmento para marcar a labialização. SAIBA MAIS!
Exemplo: [dʷ], [tʷ]
• Palatização: a palatização geralmente ocorre iderada
A letra h não é cons
ga l nem
quando uma consoante é seguida de vogais vogal nem semivo
is nã o é um
anteriores (orais ou nasais). Utiliza-se o símbo- consoante, po
So me nte ad quire
lo j colocado acima à direita do segmento para fonema.
importância, juntan -sedo
marcar a palatização. Exemplo: [tʲ], [dʲ] a outras letras pa ra formar
• Velarização: ocorre quando a lateral encontra- em iní cio de pa-
dígrafos e
etimoló-
se em final de sílaba. O símbolo utilizado para lavras por motivos
gicos. Junta às let ras r, s, c,
transcrever a lateral velarizada é [tˠ], [dˠ] os díg raf os con-
ç, u (para
• Dentalização: ocorre quando a ponta da lín- sonanta is) e m e n (pa ra os
for ma m
gua toca os dentes. Algumas consoantes em dígrafos vocálicos), -
s let ras dia crí
português podem ser articuladas como dentais o conjunto da
ue las qu e se jun tam
ou alveolares. Por exemplo, a pronúncia do t ticas (aq
valor fo-
em “tapa” pode se dar com a ponta da língua à outra para lhe dar
nético especial) .
tocando os dentes sendo, portanto, dental.
Exemplo: [ t̪ ], [ ɖ̪ ]
Fascículo 1 21
QUADRO Modos de Articulação e Fonação

Modos deArticulação Oclusivas Oclusivas Nasais Fricativas Fricativas Retroflexas Vibrantes Laterais
e Fonação Surdas Sonoras Sonoras Surdas Sonoras Sonoras Sonoras Sonoras

Lugares de Articulação
1. Bilabiais p b m

2. Labiodentais f v

3. Dentais t d n ɹ ɾ l

4. Alveolares s z r

5. Palato-alveolares ʧ ʤ ʃ Ʒ ɹ

ɲ
y
6. Palatais

7. Velares k g ŋ x Ɣ

8. Glotais ɂ h ɦ
Fonte: [adaptado de] Cagliari (1997. p.55)

Atividade
1. Indique os articuladores ativos e passivos na produção de cada lugar de articulação:

a. bilabial
b. labiodental
c. dental
d. alveolar
e. alveopalatal
f. palatal
g. velar

2. Observe o exemplo e complete os diagramas, classificando cada consoante quanto ao modo de


articulação e caracterizando-os da seguinte forma:
• Vozeamento: desenhe uma linha reta cruzando a glote para os segmentos desvozeados. Para os
segmentos vozeados, desenhe uma linha em zig-zag, cruzando a glote.
• Posição do véu palatino: complete o desenho com o véu palatino levantado, se o segmento for
oral. Se o segmento for nasal, complete o desenho com o véu palatino abaixado.

[z] [ʃ]

[k] [n]
22 Fascículo 1

• Articuladores: desenhe uma seta, sain- acrescenta-se um diacrítico para marcar a posição,
do do articulador ativo para o passivo. se o intuito for uma transcrição mais detalhada.
3. Categorize os segmentos consonantais do Para cumprir este papel, tem-se a tabela fonética in-
português quanto ao modo de articulação: ternacional (IPA - Internacional Phonetic Alphabet).
Esta tabela foi organizada de acordo com os traços
a. /p/, /b/, /t/, /d/, /k/, /g/ envolvidos na produção dos sons. A finalidade do
b. /f/, /v/, /s/, /z/, /x/, /j/, /r/, /rr/, /l/, /lh/, alfabeto fonético e de uma transcrição fonética é a
/m/, /n/, /nh/ de possibilitar a transcrição e a leitura de qualquer
som em qualquer língua por uma pessoa treinada.
Assim, o que se quer é que as convenções usadas
7. Alfabeto Fonético sejam inequívocas e estejam explicitadas. Uma
comparação entre as várias propostas de alfabetos
Por que precisamos usar, para representar os fonéticos mostra que há uma base comum advin-
sons nos estudos de fonética, um alfabeto da do alfabeto fonético internacional. E, na práti-
diferente do que usamos para escrever? ca, qualquer que seja o alfabeto adotado, ocorrem
sempre adaptações determinadas por conveniências
Vamos responder a esta questão a partir das razões ocasionais, tais como facilidade de datilografia, tipo-
apresentadas por Fiorin (2007), ao considerar que gráficas, maior legibilidade etc. Nos estudos sobre o
a fonética lida com a substância da expressão e, português, é bastante difundido o alfabeto de LA-
portanto, deve-se tentar registrá-la o mais fielmen- CERDA & HAMMARSTRÖM (1952) (CALLOU,
te possível. Em primeiro lugar, qualquer pessoa 2005). Em Silva (2008), encontramos uma tabela
pode ter se deparado com problemas ortográficos que lista os segmentos consonantais relevantes para
do tipo: emprego do x ou ch, g ou j, l ou lh. Isso a transcrição do português brasileiro. Veja abaixo.
ocorre porque, na ortografia, um som não neces- Logo após, a autora apresenta a transcrição fonéti-
sariamente corresponde a uma letra. Por outro ca, observações e exemplos de palavras que ilustram
lado, assim como temos uma letra que correspon- cada um dos segmentos da tabela apresentada.
de a mais de um som, um som pode corresponder
a mais de uma letra. Há muitos casos em que se Em Cagliari (1997), encontramos uma tabela que
usa uma combinação de letras para indicar um apresenta os símbolos do IPA, seguidos das letras usa-
determinado som (por exemplo, nh, lh.ch), em das para se escrever ortograficamente o português e
que uma letra representa mais de um som (x para de exemplos para facilitar a compreensão. Confira.
sexo) e em que se utilizam letras que não têm
Símbolos fonéticos consonantais relevantes
correspondente sonoro algum (h em hospital). para transcrição do português
Alveopalatal
Labiodental

Uma outra razão para a utilização do alfabeto fo-


Alveolar

Glotal
Bilabial

Palatal
Dental

Articulação
Velar
ou

nético é que o alfabeto ortográfico já é uma abs- Maneira Lugar


tração. Ninguém escreve como fala. A palavra
porta é igualmente grafada por cariocas, piraci- desv p t k
cabanos e gaúchos; no entanto, cada um pronun- Oclusiva
cia esse r de maneira diferente. Essa abstração é voz b d g
importante para a uniformização e o entendi- desv ʧ
mento (preocupação com o conteúdo), porém, Africada
ʤ
sendo a preocupação com o plano da expres- voz

são, deve-se tentar explicar cada som diferente. desv f s ʃ X h


Fricativa
Mesmo com toda essa preocupação com a des- voz v z Ʒ Ɣ ɦ
crição de cada som, não há uma generalização Nasal voz m n ɲ y
desses sons. Por exemplo, usa-se o [t] para no-
tar o primeiro som da palavra tacape e [ʧ] para Tepe voz ɾ
grafar o primeiro som de tia. No entanto, pode Vibrante voz ř
ocorrer de certas pessoas produzirem o [t], colo-
Retroflexa
r
cando-se a ponta da língua entre os dentes e os voz

alvéolos, como o fazem os gaúchos. Neste caso, Lateral voz l l


y lj
Fonte: [adaptado de] Silva (2008.p.37)
Fascículo 1

Fonte: Cagliari (1997. p.54)


23
24 Fascículo 1

Em “olhos” e “óleos”, temos também palavras ge-


ralmente consideradas homófonas no português.
Texto Complementar Contudo estes não são necessariamente sempre os
ernacional: casos envolvendo palavras homófonas. Elas podem
Alfabeto Fonético Int ki/Alfabeto_fon%C3%A9t
ico_
p://pt.wikipedia.org/wi
htt ter registro ortográfico idêntico. Veja por exemplo:
internaciona
“manga (fruta)” e “manga (de camisa)”. Salienta-se
aqui a natureza distinta entre pronúncia e repre-
sentação fonética. A pronúncia reflete como algo
foi pronunciado, e a transcrição fonética reflete a
maneira mais adequada de se registrar aquela pro-
SAIBA MAIS!
núncia. Sobre as palavras “cela” e “sela” e ‘olhos”
:
e filologia românicaire fox e “óleos”, podemos dizer que as palavras “cela” e
Transcrição fonética
co m. br/ sea rch ?cl ien t=f
htt p:/ /w ww.go og le. pt-BR%3Aofficial&channel=s& “sela” são homófonas e apresentam transcrições
-a&rls=org.mozilla%3A %C3%A9tico+reflex%C3%B5
fon
hl=pt-BR&q=alfabeto+ a+Google fonéticas idênticas: [‘sɛlə]. Note que em [‘sɛlə], os
uis
es&meta=&btnG=Pesq segmentos consonantais e vocálicos podem ser
inferidos a partir dos parâmetros articulatórios en-
volvidos em sua produção. Em “óleos” e “olhos”
temos duas palavras que podem apresentar pro-
Atividade | Identifique símbolos do Alfabeto núncias distintas para alguns falantes. Quando
Fonético Internacional que diferem dos conven- homófonas, têm na última sílaba uma consoante
cionados no Alfabeto fonético do português. lateral alveolar ou dental seguida de uma de uma
sequência de glide anterior+ vogal(GV) e tendo
como último segmento uma fricativa sibilante
8. Transcrições Fonéticas desvozeada([s] ou [ʃ ] dependendo do dialeto). A
questão que se coloca nesse tipo de transcrição é
Introdução quanto à escolha dos símbolos fonéticos a serem
utilizados. Destacamos, assim, as seguintes alterna-
Este tópico tem por objetivo discutir o uso de tivas: [‘ɔli̯̪ ʊs](VCVVC) e [‘ɔlʲʊs](VCVC). Portanto,
símbolos fonéticos para o registro de dados da uma transcrição fonética reflete não apenas os
transcrição da fala, considerando, especialmente, aspectos fonético-articulatórios de uma sequência
a transcrição de dados do português, de forma a sonora mas também a interpretação ou análise do
requerer do estudante a realização desta atividade. componente sonoro da língua. (SILVA 2008. p.106 a 108.)

Transcrição fonética e pronúncia Assim, quando se pretender representar a maior


são a mesma coisa? parte dos matizes fônicos (transcrição detalhada,
estrita- campo da fonética), mesmo os que não têm
função linguística, a transcrição deverá ser apresen-
Fonte: http://images.google.com.br/
imgres?imgurl=http://www.english

tada entre colchetes [ ]; quando se pretender repre-


sentar apenas os traços fônicos (transcrição ampla-
campo da fonologia) de uma função linguística, a
transcrição se fará entre barras oblíquas, / / (di-
ferencia fonema de letra). Não existe, na verdade,
experts.com.br

transcrição fonética perfeita, a não ser a que é reali-


Pronúncia e transcrição fonética zada com o registro do fato acústico bruto por meio
de aparelhos de análise do som, tais como os osciló-
grafos, porque não é possível representar todos os
As línguas naturais apresentam palavras que têm matizes fônicos de cada realização de um fonema.
sequências sonoras idênticas com significados di-
ferentes. Duas palavras pronunciadas da mesma Perceba que a notação fonológica é mais simples
maneira que apresentam significados diferentes que a fonética, visto que ela não se preocupa com
são chamadas de homófonas. O par de palavras as diversas variantes de um mesmo fonema, utili-
homófonas em português “cela” e “sela” tem o zando um só sinal nos casos em que a transcrição
registro ortográfico diferente para as duas palavras. fonética deve recorrer a vários signos diferentes,
Fascículo 1 25

para assinalar as principais variações (combinatórias, sociais ou individuais) de uma mesma unidade
distintiva. A consoante inicial da palavra rato será representada /r/ numa transcrição fonológica, mas,
de acordo com o sotaque regional do falante, ela poderá ser representada foneticamente [r], [R], [ ʁ ].

Atividade
1. Indique a forma ortográfica de cada uma das palavras a seguir:

2. Transcreva foneticamente as palavras:

a. elegante
b. carregamento
c. ajudante
d. congelados
e. amplitude
f. embrulhadinho
g. refrigerante
h. casamento
i. exílio
j. meiguice

3. Escolha um verso do poema de Drummond e faça a transcrição fonética. Considere seu idioleto.

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.


E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

(Disponível em: http://www.fabiorocha.com.br/drummond.htm)


26 Fascículo 1

RESUMO
A Fonética possui áreas de interesse. Estuda a produção dos sons da linguagem humana
e os órgãos envolvidos na produção da fala.

O falar humano é um ato natural. Para atender às necessidades de expressão e comuni-


cação, o ser humano codifica e decodifica a informação, utilizando-se da atividade de
vários órgãos produtores da fala.

A fonação refere-se ao processo de produção de sons por meio das cordas vocais, quando
estas vibram devido a uma explosão expiratória de ar, podendo produzir diferentes sons.
Na produção dos sons, há a distinção destes quanto ao papel das cavidades bucal e
nasal. Assim, os sons são classificados em orais e nasais. A nasalização ocorre quando
fonemas orais se opõem aos nasais.

As vogais são caracterizadas pela passagem livre do ar através da cavidade bucal, não
podendo haver para estas a classificação por ponto e modo de articulação. Classificam-
se, assim, as vogais quanto à zona de articulação, intensidade, timbre e papel das cavi-
dades bucal e nasal. As vogais se opõem às consoantes por serem acusticamente sons
periódicos complexos, por constituírem núcleo da sílaba e sobre elas poder incidir acento
de tom e/ou intensidade. Os sons que não se identificam como vogais ou consoantes são
chamados semivogais ou glides que, por fonologicamente se comportarem como conso-
antes, não assumem núcleo de sílaba e jamais são acentuados.

Consoantes são vibrações aperiódicas ou ruídos ocasionados pela obstrução parcial ou


total da corrente de ar devido à ação de dois articuladores. São fonemas assilábicos, clas-
sificados de acordo com a Nomenclatura Gramatical Brasileira a partir de quatro critérios:

1. quanto ao modo de articulação;


2. quanto à zona de articulação;
3. quanto ao papel das cordas vocais;
4. quanto ao papel das cavidades bucal e nasal.

Alfabético fonético é uma convenção usada para possibilitar a transcrição e a leitura de


qualquer som em qualquer língua, por uma pessoa treinada. O alfabeto proposto pela
Associação Internacional de fonética é um dos mais conhecidos e adotados, mesmo exis-
tindo várias propostas de alfabetos fonéticos com suas adaptações.

Transcrição fonética e pronúncia diferem, pois enquanto a pronúncia reflete a maneira


como algo é pronunciado, a transcrição fonética reflete a maneira mais adequada de se
registrar aquela pronúncia.

Glossário
Aritenoides – um par de pequenas pirâmides de cartilagem vos articulados com duas cláusuras (pontos de contacto)
que fazem parte da laringe. Nestas cartilagens, as cordas na boca, uma à frente, e outra atrás. A bolsa de ar no
vocais são anexadas. meio é rarefeita por ação sugadora da língua, ou seja, os
cliques acontecem devido ao mecanismo aéreo, ingressivo
Clique – som produzido com a língua ou os lábios sem a velárico/lingual.
ajuda dos pulmões. Tecnicamente, os cliques são obstruti-
Fascículo 1 27

Fonema – designa o som que, dentro de um sistema fônico sas. Fonética: Produção de Sons na Linguagem
determinado, tem um valor diferenciador entre vocábu- Humana. Aparelho Fonador. Alfabeto Fonético.
los. Corresponde aos sons elementares e distintivos que o
homem produz quando, pela voz, exprime seus pensamen- Fonologia: Fonema. Traços Distintivos. Arqui-
tos e emoções. fonema. Sistema Consonantal. Interpretação
da Vibrante. Sistema Vocálico. Vogais Nasais.
Idioleto – é uma variação de uma língua única a um indi- Vogais Assilábicas. Variação Fonológica. Estilís-
víduo. É manifestada por padrões de escolha de palavras e
tica Fônica. Alfabetização. Inclui nota sobre as
gramática, ou palavras, frases ou metáforas que são únicas
desse indivíduo. Cada indivíduo tem um idioleto; o arranjo autoras, bibliografia geral e comentada e índi-
de palavras e frases é único, não significando que o indi- ce de figuras, onomástico e remissivo).
víduo utiliza palavras específicas que ninguém mais usa.
Um idioleto pode evoluir facilmente para um ecoleto - uma CAGLIARI, Luiz Carlos. Alfabetização e Linguís-
variação de dialeto específica a uma família de indivíduos.
tica. São Paulo: Scipione, 1997.
Letra – sinal gráfico que, na escrita, representa o fonema.
Pode-se dizer ainda que a letra é uma realidade visual grá- (Este livro apresenta uma reflexão sobre o pa-
fica, e o fonema é uma realidade acústica. pel que a escola desempenha na sociedade,
possibilitando ao educador compreender a
Língua – é a linguagem que utiliza a palavra como sinal de
comunicação. Trata-se de um sistema de natureza gramati- natureza da escrita, suas funções e usos. É in-
cal, pertencente a um grupo de indivíduos, formado por um dispensável para quem se propõe à tarefa da
conjunto de sinais e de regras para combinação destes. É alfabetização. Nele se encontram fundamentos
uma instituição social de caráter abstrato, exterior aos in- sobre conhecimentos linguísticos úteis na busca
divíduos que a utilizam, que somente se concretiza através
da fala, que é um ato individual de vontade e inteligência.
de soluções para problemas técnicos relativos à
fala, à escrita e à leitura infantil).
Linguagem – todo sistema de sinais que nos permite reali-
zar atos de comunicação. FIORIN, José Luiz(org). Introdução à Linguística
II. Princípios de análise. 4 ed. 1ª reimpressão.
Protrusão – estado de um órgão que, em virtude do
crescimento, se acha colocado na frente de outros órgãos São Paulo: Contexto, 2007.
que ele normalmente não ultrapassa.
(Este livro expõe os princípios de análise dos
Som – movimento vibratório de um corpo sonoro. fenômenos da linguagem. Começa pelo estudo
dos sons (fonética e fonologia), passa pelo exa-
me da palavra e dos seus componentes (morfo-
REFERÊNCIAS logia), pela análise da sentença e chega até a
investigação dos sentidos (semântica), das ca-
BECHARA, Evanildo. Moderna gramática por- tegorias da enunciação (pragmática) e da or-
tuguesa. 37 ed. Ver. e ampl. Rio de Janeiro: ganização do discurso. Na análise semântica,
Lucerna, 2001. apresenta dois pontos de vista diferentes, para
que o leitor perceba que, no fazer científico,
(Esta obra, revista e ampliada, oferece ao leitor princípios teóricos distintos levam ao exame de
o extraordinário universo que é a Língua Portu- fatos diferentes ou a explicações diversas para
guesa em suas múltiplas manifestações e reúne a o mesmo fenômeno. É o segundo volume de
maior coletânea de assuntos gramaticais. Atua- Introdução à Linguística.
lizada no plano teórico da descrição do idioma,
e enriquecida por trazer à discussão e à orien- SILVA, Thaïs Cristófaro. Fonética e Fonologia do
tação normativa a maior soma possível de fatos português: roteiro de estudos e guia de exercí-
gramaticais levantados pelos melhores estudio- cios. 9 ed. 1ª reimpressão. São Paulo: Contex-
sos da Língua Portuguesa, dentro e fora do país). to, 2008.

CALLOU, Dinah. Iniciação à Fonética e Fonolo- (Este livro representa uma valiosa contribuição
gia. 10 ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005. aos estudos fonológicos brasileiros, por pro-
porcionar o conhecimento dos pressupostos te-
(O livro apresenta os principais fundamentos órico-metodológicos fundamentais de fonética,
da Linguística, tratando sobre: Língua Portu- fonêmica e fonologia, de maneira clara e numa
guesa. Fonética. Fonologia. Estudos e Pesqui- linguagem coerente e acessível. Além de expor
28 Fascículo 1

objetivamente aspectos teóricos da fonética e


fonologia, contém uma série de exercícios que
permite ao estudante praticar os conhecimen-
tos adquiridos.

______. Exercícios de fonética e fonologia. São


Paulo: Contexto, 2003.
(Este livro contém exercícios distribuídos em
cinco partes - fonética, fonêmica, fonologia
gerativa, fonologia autossegmental e teoria da
otimidade. Aponta o percurso necessário a pro-
fessores e estudantes de Fonética e Fonologia,
fazendo uma junção com eficiência entre a te-
oria e a prática).

TERRA, Ernani. Linguagem, língua e fala. São


Paulo: Scipione, 1997. p.12-17

(Este livro apresenta a língua como um bem


da humanidade. Conceitua e discute de forma
simples e clara: língua, linguagem e fala; gra-
maticabilidade e agramaticabilidade; signos,
índices, ícone, símbolos; norma culta, emprésti-
mos e transferência; o português do Brasil e de
Portugal; gramática, níveis de fala, gíria e con-
ceito de erro em língua. Em um último tópico,
apresenta a Linguística: Ciência da linguagem.
É, portanto, um livro importante para a com-
preensão dos conceitos básicos e fundamentais
da Linguística.

TRAVAGLIA, Luiz Carlos. Gramática e interação:


uma proposta para o ensino de gramática nos
1º e 2º graus. 8 ed. São Paulo: Cortez, 2002.

(Este livro contém uma proposta para o ensino


de gramática nas aulas de Português do 1º e 2º
graus, com fundamentos teóricos e farta exem-
plificação, respondendo a perguntas como:-
Para que ensinar gramática?- O que ensinar
nas aulas de gramática?- Como ensinar gra-
mática?- Como integrar o ensino de gramática
ao ensino de produção/compreensão de textos
e ao ensino de vocabulário? Para responder a
tais perguntas, propõem-se e inter-relacionam-
se concepções de linguagem e gramática e tipos
de gramática e tipos de atividades no ensino de
gramática, integrando-se de modo capaz de de-
senvolver a competência comunicativa do aluno
e outras habilidades, tais como raciocínio cientí-
fico, preparando-o efetivamente para a vida.
Fascículo 2 29

Fonologia
e Processos
Fonológicos da
Língua Portuguesa Prof.ª Maria Perpétua Teles Monteiro
Carga Horária | 15 horas
Objetivos Específicos
Identificar os principais conceitos e fundamentos da Fonologia.
Aplicar princípios da teoria fonológica na pesquisa, na análise e no ensino da
Língua Portuguesa.

Noções Básicas de Fonologia


Neste tópico, apresentaremos alguns conceitos básicos adotados pela teoria fo-
nêmica, visando apontar, de forma introdutória, como o fonólogo vê o sistema
sonoro de uma língua. Os termos fonologia ou fonêmica empregados referem-se
a tendências estruturalistas que tratam do estudo da cadeia sonora da fala. Um
dos objetivos da fonologia do tipo fonêmica é o de fornecer aos usuários o instru-
mental para a conversão da linguagem oral em código escrito.

1. Fonema
Segundo Callou (2005), a distinção feita tradicionalmente entre fonética e fonologia
na linguística é a base do conceito original de fonema desenvolvido por volta de
1920. Desde o aparecimento do termo, através dos tempos, o fonema tem sido
visto de diversas maneiras: de início, igualado a som da linguagem; depois conhe-
cido sob um prisma essencialmente psíquico; como intenção de significado; mais
tarde, sob o prisma físico, funcional e abstrato.

Nesse processo, a autora destaca momentos históricos e contribuições, apontando


que, no século XIX, o termo fonema já era usado, referindo-se à unidade de som, isto
é, a uma unidade fonética (fone) e não, a uma noção abstrata, que envolve oposição.
Já no final do século, nos trabalhos de Baudouin de Courtenay, surge, ao lado da
noção de som da fala, a noção de fonema, a partir de uma conceituação psicológica.
Courtenay via o fonema como um som ideal que o falante almejava alcançar no exer-
cício da fala, na qual realizava sons próximos a esse protótipo idealizado. Segundo ele,
o fonema era o equivalente psíquico do som da fala.

Contudo, somente a partir de 1930, nos trabalhos do Círculo Linguístico de


Praga, o conceito de fonema foi formulado com maior precisão. A noção, tal
como usada hoje, já estava implícita em Saussure, em sua dicotomia langue-
30 Fascículo 2

parole(língua-fala) bem como a ideia do contraste muda o significado e, segundo a fonologia, o i e o


fonêmico presente nos trabalhos iniciais de E. Sa- e, neste caso, têm o mesmo valor. Porém, num ou-
pir. O primeiro passo foi dado quando Saussure es- tro contexto, como em sílabas tônicas, a ocorrên-
tabelece distinção entre estudo sincrônico e estudo cia de i ou de e tem valor distintivo de palavras. Por
diacrônico das línguas. Antes à fonética competia exemplo, numa palavra como vi, se houver a troca
a descrição dos sons da língua e à fonologia, o es- de i por e, surgirá uma palavra nova, vê, com sig-
tudo histórico da mudança. Saussure não chegou nificado diferente. Esse som usado para distinguir
a formular sua conceituação, mas já tinha uma palavras, como no caso de i e do e das palavras vi e
ideia bastante clara de que os fonemas são, antes vê, é chamado de fonema da língua. Além da fun-
de tudo, entidades opositivas, relativas e negativas. ção opositiva que diferencia as palavras, o fonema
assume uma outra função dentro da cadeia fônica:
Para Trubetzkoy, o fonema passou a ter uma con- delimitativa ou demarcativa , a partir dos traços
ceituação funcional abstrata, a unidade mínima prosódicos ou supra-segmentais, a expressiva.
distintiva do sistema de som, e é como unidade
funcional que deve ser definido. O fonema é, Atividade | Amplie suas leituras sobre o que
então, a menor unidade fonológica da língua. significa ser estruturalista.
Bloomfield definiu o fonema como uma unidade
mínima de traço fônico distintivo, indivisível.

Foi esse conceito de fonema como elemento míni- Texto Complementar


mo do sistema da língua, que permitiu à linguística
moderna um enorme avanço metodológico, pois Fonema: sso.nom.br/gramatica/fo
nema.htm.
http://www.radames.mano
lhe forneceu uma unidade discreta, isto é, segmen-
tável de análise.

O russo Romam Jakobson veio a ter um papel deci-

cacaocrista.com.br/img/banner_
Fonte: http://www.comuni

alofone_sp.gif.
sivo dentro dos estudos fonológicos, contribuindo
para formular o conceito de unidade mínima, in-
divisível do fonema como unidade mais suscetível
de dissociar-se em unidades inferiores ou mais sim-
ples – os traços fônicos. Jakobson definiu o fone-
ma como um feixe de traços distintivos, chamando Alôfone
a atenção para o fato de o fonema corresponder a
um ato de atribuição de significado e jamais um
ato de plenitude de significação. O fonema é as- 2. Alofones
sim: uma subunidade carente de significado.
Como sabemos, pode acontecer de dois sons per-
O fonema é um som que, dentro de um sistema tencerem ou serem realizações do mesmo fonema.
fônico determinado, tem um valor diferenciador As diferentes realizações de um determinado fo-
entre os vocábulos. A realização fônica em si vai in- nema são denominadas seus alofones. O fonema
teressar à fonética, à fonologia interessa a oposição /a/, por exemplo, tem pelo menos três realizações
dos sons dentro do contexto de uma dada língua. diferentes em português. Em sílabas tônicas, ele
Ela se ocupa dos aspectos interpretativos dos sons, é pronunciado como [a], ou seja, com a cavidade
de sua estrutura funcional nas línguas. oral apresentando seu grau máximo de abertura. É
o que ocorre em pá, caso e ávido. Em sílabas áto-
Quando um falante diz, por exemplo, potxi, txia, nas finais, o mesmo fonema /a/ se apresenta com
tudu, tapa até, etc., a Fonética constata as pronún- um grau um pouco menor de abertura, o que é
cias diferentes tx e t, e a fonologia interpreta essa transcrito como [ɐ]. Preste atenção na pronúncia
diferença, atribuindo um valor único a esses dois de fala e casa; a vogal da sílaba tônica apresenta um
sons, uma vez que tx ocorre somente diante da grau de abertura maior do que o da sílaba átona.
vogal i, e o t diante de outro som que não seja i. Uma outra realização do fonema /a/ é a que encon-
Fato semelhante ocorre quando um falante diz ora tramos quando ele é nasalizado.Tanto em palavras
iscada, ora escada. A ocorrência de i ou de e não como lã como em palavras como cama, o /a/ tôni-
Fascículo 2 31

co é realizado com um grau de abertura menor do que ocorre em admirar, que é pronunciada como
que o do [a] tônico oral. Essa realização do fonema se houvesse um [i] entre o [d] e o [m], provocando a
/a/, embora se encontrem outras notações, pode aplicação da regra de palatização do [d], que passa
ser transcrita como [ã]. Uma transcrição feita como [dʒ]. O resultado é, portanto, a forma [adʒimi’rar].
[ɐ] [’kamɐ], com [a] oral e com abertura máxima em A principal conclusão a que devemos chegar é a de
sílaba tônica, precedendo uma consoante nasal, que onde ocorre [d], não ocorre [dʒ], e vice-versa.
no máximo produziria realizações estranhas, não Podemos dizer que esses dois fones ocorrem em
utilizadas pelos falantes. Perceba que se fez referên- distribuição complementar.
cia a três alofones distintos do fonema /a/. Se não
conseguirmos caracterizar dois segmentos suspei- Atividade | Observe as realizações dos fone-
tos como fonemas distintos, mas o caracterizamos mas na figura anterior. Apresente conclusões.
como realizações distintas de um mesmo fonema,
devemos buscar evidências para caracterizá-los
como alofones.
Texto Complementar
Dois sons diferentes podem funcionar sempre dis- Alofone: xu0oC&
.br/books?id=ivoQ6Q2
tintamente, num sistema linguístico. Nesse caso, http://books.google.com
pg=PA#PPA41,M1]
não há dúvida, eles são realizações de fonemas di-
ferentes, mas mesmo que eles sejam realizações de
um único fonema, a relação entre essas variantes
pode ser de tipos diferentes: SAIBA MAIS!
com
s – são produzidos
Os alofones estilístico en to de
2.1. Variação Livre como o alongam
intenção expressiva, a de
a vibração alongad
[e] em eeeeeu???!!! e
Em português, várias consoantes produzidas com a em burrrrro!!!
ponta da língua como articulador podem ser reali-
zadas de duas maneiras distintas, como alveolares
ou como dentais. Você pode verificar, pronuncian-
2.3. Par Suspeito, Par Mínimo e
do as palavras tom, dar, não e lá com a ponta da
língua encostada nos dentes superiores ou na ar-
Par Análogo
cada alveolar, ao produzir os sons iniciais de cada
Para que se entenda o funcionamento do sistema
uma dessas palavras. Se você disser que tem um
fonológico de uma língua, precisa-se fazer um le-
[‘gatʊ], e eu disser que tenho um [‘gat̪ ʊ], com cer-
teza temos o mesmo tipo de animal doméstico, vantamento de todos os sons que ocorrem nela
embora a pronúncia utilizada seja diferente. Não e depois passar a examiná-los para verificar quais
há qualquer possibilidade de distinguir significa- são distintivos ou não nessa língua. Como os sons
do em português através dessa posição. Podemos podem ser modificados de acordo com o contexto
dizer, então, que entre o [t] alveolar e o [t] dental, em que ocorrem, pode ser que dois sons diferentes
existe variação livre sociolinguisticamente falando. sejam apenas versões ligeiramente modificadas de
um mesmo elemento. Precisa-se, então, fazer um
2.2. Distribuição Complementar levantamento dos sons que são semelhantes na lín-
gua em estudo. Por exemplo, sons como [p] e [b] ou
[t] e [d] são bastante semelhantes, pois diferem um
Chama-se distribuição complementar a relação
entre alofones, quando um fone ocorre em deter- do outro apenas pelo fato de serem surdos e sono-
minados ambientes, e outro fone ocorre nos de- ros. Sons foneticamente semelhantes são aqueles
mais ambientes. Por exemplo, nos falares do por- que compartilham de uma ou mais propriedade fo-
tuguês do Brasil em que a palatização diante de [i], nética. Um par de sons foneticamente semelhantes
o [d] pode ser realizado de duas maneiras: como constitui um par suspeito.
[d] diante de tepe e diante de qualquer vogal que
não seja o [i]; ou como [dʒ] diante de [i]. Diante de O procedimento habitual de identificação de fo-
qualquer consoante que não o tepe, ocorre a forma nemas é buscar duas palavras com significados di-
[dʒ], mas, nesse caso, ocorre epêntese ou inserção ferentes cuja cadeia sonora seja idêntica. As duas
de um [i] entre o d e a consoante seguinte. É o palavras constituem um par mínimo. Assim, em
32 Fascículo 2

português, define-se /f/ e /v/ como fonemas dis- Em posição átona, os dois fonemas correlativos
tintos, uma vez que o par mínimo “faca” e “vaca” tornam-se intercambiáveis, sem que isso altere o
demonstra a oposição fonêmica. Assim o par mí- significado da forma. Por exemplo, em final de pa-
nimo “faca/vaca” caracteriza os fonemas /f,v/ por lavra como em bolo/bolu, não há oposição entre
contraste em ambiente idêntico. Um par de pa- os fonemas o e u. Assim, essa forma passa a ser
lavras é suficiente para caracterizar dois fonemas. escrita como /bolU/. O arquifonema passa a ser re-
Esse tipo de procedimento é chamado de teste de presentado por um símbolo, geralmente uma letra
comutação: altera-se o significante em um único maiúscula, que indica a perda do contraste entre
ponto e verifica-se se há alteração de significado. os dois fonemas, causada por uma neutralização.
O conceito de neutralização e o de arquifonema
Quando se confirma que há distinção sistemática (realização não-marcada resultante da neutraliza-
de significado entre pares desse tipo, tem-se que, ção) foi criado por Nicolai Trubertzkoy, fonólogo
nessa língua, os pares suspeitos formam pares mí- da escola de Praga (1890-1939). Algumas correntes
nimos. Basta encontrar pares mínimos para sons não aceitam a noção de neutralização e preferem
foneticamente semelhantes. Quando pares míni- tratar o fenômeno dentro da morfofonologia ou
mos não são encontrados para um grupo de sons morfofonêmica.
em uma determinada língua, pode-se se caracteri-
zar os dois segmentos em questão como fonemas 3.1. O arquifonema /S/
distintos pelo contraste em ambiente análogo.
Assim, duas palavras que ocorram em ambientes Em português, temos a oposição fonêmica entre
similares podem caracterizar o contraste em am- /s,z,ʃ,ʒ/. Os pares mínimos “assa, asa, acha, haja”
biente análogo, desde que a diferença entre os sons caracterizam o contraste fonêmico dos fonemas
não seja atribuída aos sons vizinhos, por exemplo, /s,z,ʃ,ʒ/ em posição intervocálica. Os pares mínimos
devido a processos de assimilação. Um exemplo “(ele) seca, Zeca, (ele) checa, Zeca caracterizam o
para demonstrar o contraste fonêmico em ambien- contraste fonêmico dos fonemas /s,z,ʃ,ʒ/ em início
te análogo pode ser em [s] e [z], em posição inicial, de palavra. Perceba que, caso haja a troca de um
no par de palavras “sumir/zunir”. Note que em fonema pelo outro, haverá mudança de significado
“sumir/zunir” além da diferença segmental de [s] de palavra. Note, contudo, que em oposição final
e [z], temos a diferença entre [m] e [n], precedendo de sílaba, o contraste fonêmico dos fonemas /s,z,ʃ,ʒ/
a vogal tônica. Não há razão para se supor que as desaparece. Pretende-se dizer com isso que, em po-
consoantes nasais [m] e [n] possam influenciar as sição final de sílaba qualquer, um dos segmentos
ocorrências de [s] e [z] (por assimilação, por exem- /s,z,ʃ,ʒ/ pode ocorrer sem prejuízo de significado.
plo). Portanto, o par de palavras ‘sumir/zunir” de- Observe a realização fonética que ocorre com a
monstra o contraste em ambiente análogo entre [s] consoante no final de sílaba, na palavra “mês”:
e [z], em posição inicial. [‘mes] ou [‘meʃ ]; [mezbu’nitʊ] ou [me ʒ bu’nitʊ] “ mês
bonito”. Em todos esses exemplos, podemos de-
preender o significado da palavra. Note, contudo,
Texto Complementar que a consoante final da palavra mês ocorre como
Neutralização e arq uifonema: xu0oC& qualquer um dos segmentos /s,z,ʃ,ʒ/. Este fato per-
/bo oks .go ogl e.c om .br/books?id=ivoQ6Q2
p:/
htt mite a conclusão de que houve uma neutralização
ina 66)
pg=PA#PPA66,M1( pág
dos fonemas /s,z,ʃ,ʒ/ em posição, em final de sílaba,
em português. Para neutralização, utiliza-se a no-
ção de arquifonema. O símbolo /S/ representará os
3. A Neutralização e o Arquifonema segmentos /s,z,ʃ,ʒ/ que ocorrem em final de sílaba,
contexto em que a neutralização ocorre.
O conceito de neutralização não deve ser confun-
dido com o de variação. Existe neutralização, quan- 3.2. Os arquifonemas /R/, /L/ e /N/
do há uma supressão das oposições entre dois ou
mais fonemas em determinados contextos, isto é, Em português, temos o “r” fraco e o “R” forte.
quando uma oposição é anulada ou neutralizada. Atesta-se contraste fonêmico (pares mínimos) en-
No sistema fonológico do português, em posição tre estes dois tipos de “R” somente em posição in-
pretônica, há uma neutralização entre [e] e [ɛ] e [o] tervocálica: “caro/carro; carreta/careta; sarar/sar-
e [ɔ], cuja posição é funcional em posição tônica. rar. O ‘r” fraco, que ocorre em palavra como “caro,
Fascículo 2 33

careta, manifesta-se como um tepe ou vibrante sim- 4. Traços ou


ples em qualquer dialeto do português: [ɾ]. O ‘R” Propriedades Distintivas
forte ocorre em início de sílaba (carro, rua, Israel).
Observe, agora, algumas ocorrências de ‘R” posvo- Cagliari (2002. p. 85) inicia este assunto pontuan-
cálico. Considerando a palavra “par”, temos [‘pah] do que a fala é um contínuo, que pode ser inter-
(Belo Horizonte), [‘paɾ] (São Paulo); /’paR/(fonêmi- pretado em função de segmentos, devido às carac-
ca); em parto, temos: [‘pahtʊ] em (Belo Horizonte), terísticas articulatórias, acústicas e auditivas e em
[‘paɾtʊ] (São Paulo). Perceba que, em Belo Horizon- função de unidades (segmentos) que se sucedem
te, ocorre o segmento [h], e o segmento [ɾ], em São no tempo. Com base na saliência auditiva, a de-
Paulo. A perda de contraste fonêmico em o ‘r” fraco composição da fala mais comum gera os segmentos
e o “R” forte é neutralizada no português em posi- representados por letras dos alfabetos fonéticos.
ção de final de sílaba. Nesse contexto - de posição É uma segmentação por blocos e linear. Todavia,
final de sílaba - utilizamos o arquifonema /R/ para cada um desses blocos pode ser decomposto nas ca-
representar fonemicamente o “R” posvocálico. madas que os compõem. Procedendo assim, tem-se
uma segmentação não das unidades que se suce-
Além do arquifonema /S/ e do /R/, o fonema /l/ dem no tempo, mas dos elementos que coexistem
que também pode ocorrer em posição posvocálica num determinado bloco ou segmento, num deter-
em “cal” /’kaL/ (forma fonêmica), aponta-se o ar- minado tempo da corrente da fala. Essas camadas
quifonema /N/ posvocálico nasal em “um” /’uN/ que compõem os segmentos são as propriedades
(forma fonêmica), em que se tem a sílaba travada fonéticas dos sons da fala e são usadas pela fono-
pelo arquifonema /N/. logia como propriedades distintivas ou não com
relação ao valor de informação fonológica.

Texto Complementar Assim em fonologia, propriedades ou traços distin-


rtu-
os de fonologia do po
Introdução aos estud tivos, ainda chamados funcionais, pertinentes ou
a 209):
guês brasileiro (págin ok s?i d= TFz WA q-
.co m. br/ bo relevantes, referem-se a unidades mínimas, contras-
htt p:/ /bo ok s.g oo gle
S7I0C&pg=PA tivas e são aquelas que irão distinguir, entre si, os
elementos lexicais. O caráter infinito das possibili-
dades humanas de articulação e o fato admitido de
que um mesmo indivíduo não realiza nunca, duas
Atividade
vezes seguidas, o mesmo som de maneira idêntica
1. Faça a transcrição fonética e fonológica
não impedem que se identifiquem sempre deter-
dos dados apresentados abaixo. Não es-
minado som de uma língua, cada vez que é ouvido,
queça que as transcrições fonéticas são
como sendo o mesmo som e não outro. Para os
feitas entre colchetes, e as fonológicas (fo-
linguistas de Praga, o que torna essa identificação
nêmicas), entre barras transversais:
possível é o chamado traço distintivo que pode ser
definido por seus componentes articulatórios e/
a. fugaz
ou acústicos. São traços articulatórios ou acústicos
b. arroz
pertinentes aqueles que servem para caracterizar
c. atroz
um fonema em face de outros que têm com ele
d. luz
traços comuns. São esses traços que interessam ao
e. susto
linguista. Ele irá, a partir deles, organizar o siste-
f. vespa
ma fonológico das línguas. Uma diferença mínima
g. lesma
entre duas unidades da língua constitui um traço
h. vesga
distintivo. (CALLOU, 2005. p. 38 e 39).
i. mês
j. mês passado
Historicamente, foram propostos vários tipos de
l. mês bonito
inventários de traços distintivos com o objetivo
m. mês alegre
de sistematização das unidades fonológicas e com
vistas a uma maior ou menor correlação com a re-
2. Considerando a atividade anterior, res-
alidade fonética. Não nos deteremos neste espaço
ponda: Que fonemas perderam a sua proprie-
a essa discussão teórica dos diferentes modelos
dade contrastiva em posição final de sílaba?
34 Fascículo 2

quanto ao caráter dos traços distintivos. zidos com aponta da língua como articu-
lador ativo, o que se move em direção ao
4.1. Traços Distintivos articulador passivo. São coronais, portanto,
sons como [s, t, l]. Algumas análises também
• Os denominados independentes dos articulado- consideram as vogais anteriores como coro-
res (não estão associados a um único articulador) nais. Todos os demais são não-coronais.
• [+ labial]: são labiais os sons produzidos com
• [+ consonantal]: corresponde intuitivamen- o lábio inferior como articulador ativo. Essa
te à divisão entre vogais e consoantes. Têm o classe abrange os sons bilabiais e labiodentais.
traço [+ consonantal] os sons que apresentam • [+ dorsal]: são dorsais os sons produzidos
um grande obstáculo à passagem do ar pela com a parte posterior da língua como arti-
parte central da cavidade oral, isto é, se há culadores ativo. Inclui as consoantes uvu-
neles um fechamento total (como nas oclusi- lares e velares, além das vogais posteriores.
vas, nas nasais, laterais e vibrantes) ou quase Algumas análises, no entanto, incluem
total (como fricativas). Dessa forma, as semi- todas as vogais entre os sons dorsais.
vogais ou glides ficam classificadas com o
traço [- consonantal] • Traços de modo de articulação: [+ sonoro],
• [+ vocálico]: são vocálicos os sons produzidos [+ nasal], [+ lateral].
sem impedimento à passagem de ar. Assim, • Outros traços: [+ anterior], [+ posterior], [+ ar-
como os sons [l, ʎ, r, ɾ] são produzidos com rela- redondado], [+ alto], [+ baixo].
tiva desobstrução do ar, eles são considerados • Traços não relevantes para o português: [+ aspi-
como tendo o traço [+ vocálico]. Por outro rado], [+ glotalizado].
lado, como os glides caracterizam-se por terem
o espaço da passagem do ar mais reduzido do Os traços com sinal (+) são marcados, e os com
que nas outras vogais, eles são caracterizados sinal (-) não são marcados. Em uma notação como
como [- vocálico]. [+ sonoro], não se lê a valência (o sinal +), mas
• [+ soante] ou [+ sonorante]: uma das for- se diz apenas sonoro. Na notação [- sonoro], por
mas de caracterizar essa oposição é dizer exemplo, diz-se não-sonoro ou surdo, não sendo
que têm o traço [+ soante] os sons que não costume dizer menos sonoro.
dificultam a produção das cordas vocais.
É atributo o traço [- soante] aos sons que
apresentam uma obstrução grande à pas- Texto Complementar
ços
sagem do ar, dificultando, dessa maneira, sobre o sistema de tra
Uma breve reflexão
essa vibração. Têm o traço [- soante], por- distintivos: bli cac oe s/
.br /ie l/s ite /al un os/ pu
tanto, as oclusivas, fricativas e fricadas. Os htt p:/ /w ww.un ica mp
textos/b00007.pdf.
demais sons (vogais, semivogais, nasais,
laterais e vibrantes) têm o traço [- soante]
• [+ contínuo]: os sons que têm o traço
[+ contínuo] são produzidos sem que haja Atividade | Pesquise e selecione dados do idio-
uma interrupção do fluxo de ar. Se houver leto de um falante de São Paulo e um gaúcho e
essa interrupção, considera-se que o som transcreva foneticamente esses dados, apresen-
tem o traço [- contínuo], o que abrange as tando observações sobre possíveis variantes.
oclusivas, africadas e vibrantes.
• [+ tenso]: são os sons produzidos com con-
siderável esforço muscular. A oposição 5. Aspectos Suprassegmentais
entre os chamados r fraco (o de era) e o r
ou Prosódicos
forte (o de erra) pode ser caracterizada por
esse traço, tendo eles os traços [- tenso] e
Podemos distinguir os sons uns dos outros por pro-
[+ tenso], respectivamente.
priedades que detectamos em cada um deles ou por
propriedades que só podemos detectar sintagmati-
• Os dependentes de um articulador
camente. Dentre as propriedades que detectamos
em cada um dos sons, encontra-se o modo de ar-
• [+ coronal]: são coronais os sons produ-
Fascículo 2 35

ticulação, os articuladores que os produzem(ativos g. operado


e passivos). Essas propriedades são chamadas de h. operador
segmentais. Dentre as propriedades que só pode- i. médica
mos identificar sintagmaticamente, temos o fato j. medica
de um som ser prolongado ou não, ser agudo ou l. medicado
grave. Essas propriedades são chamadas de supras- m. medicamento
segmentais ou prosódicas.

Dentre as propriedades suprassegmentais, en-


contramos o acento e os tons. O acento, familiar SAIBA MAIS!
a nós, falantes de português, pode ser manifes- emocional: o por-
Acento de insistência ou go do acento de
tado por qualquer um dos tipos de propriedade tuguês também faz empre o
ter, com o chamad
acústico (altura, intensidade e duração), ou por intensidade para ob eis efe ito s.Q ua n-
notáv
uma combinação de mais de um tipo dessas pro- acento de insistência, -se
se qu er en fat iza r uma palavra, insiste
priedades. Os tons se relacionam basicamente à do tôn ica . Os
te na sílaba
mais demoradamen na gra fia , est e
altura do som (no sentido de ser um tom relati- escritores costumam
indica r,
rep eti nd o a vo ga l da
,
vamente agudo ou relativamente grave: acento alongamento enfático bém
to de insistência tam
musical). Esses tipos de propriedades suprasseg- sílaba tônica. O acen ere nte da tôn i-
sílaba, dif
mentais (acentos e tons) podem ter importante pode cair em outra ôm en o do rec uo
l do fen
ca. A causa essencia entre
função de distinguir itens lexicais. O português e
ac en to po de ser a falta de sincronia
do lin gu ag em .A
as demais línguas românicas, o inglês, o alemão, através da
emoção e expressão, e ref orç a a vo z.
palav ra
são línguas de acento de intensidade; o latim e o emoção se adianta à
grego, por outro lado, possuem acento musical.
Numa língua como o português, o acento pode
ter uma função distintiva. Assim, em palavras
como sábia, sabia e sabiá, a acentuação distin- Texto Complementar
gue o significado delas. Em algumas línguas, são Dicionário de Lingu ística: xu0oC&
.br/books?id=ivoQ6Q2
os tons que distinguem o significado e não, a http://books.google.com
pg=PA#PPA5,M1.
acentuação. Como exemplo de língua que usa os gicas:
tons distintivamente, temos o japonês em que O acento em portugu ês-abordagens fonoló nto.htm.
itorial.com.br/releaseace
pares de palavras como háshì e hàshí, em que o http://www.parabolaed

primeiro significa “palitinho usado para comer”,


e o segundo, “ponte”.
6. Processos Fonológicos
Portanto, traços prosódicos ou suprassegmen-
tais têm função expressiva e devem ser consi- Como já vimos, os sons não são realizados da mes-
derados em conta numa descrição fonológica. ma maneira. Dependendo do contexto em que
O acento de intensidade deve ser marcado na ocorrem, os sons podem sofrer modificações. A
representação fonológica em que o símbolo [’] sistematização e organização desses sons, segundo
(símbolo de minuto) precede a sílaba tônica. sua estrutura e funcionamento, é objeto de estudo
Exemplo: para fabrica e fábrica, temos [fa’bɾika] da fonologia que elabora conceitos, procedimen-
e [’fabɾika] respectivamente. tos e processos para classificá-los. Vejamos alguns
desses processos fonológicos mais comuns.
Atividade | Transcreva foneticamente os da-
dos abaixo. Marque a sílaba tônica colocando 6.1. Processos que Acrescentam Traços ou
o símbolo [’] antes da sílaba acentuada: Mudam a Especificação dos Traços
a. sílaba a. Assimilação: refere-se a qualquer processo em
b. dissílaba que um som adquire características ou traços
c. silabar dos sons que o rodeiam;
d. silabado b. Nasalização: é um tipo de processo fonológico
e. ópera bastante comum em português. Quase toda
f. opera vogal tônica que precede consoante nasal se
36 Fascículo 2

nasaliza; 7. Análise Fonológica


c. Palatização: faz com que uma consoante se
realize como palatal, quando diante de vogal O domínio e aprofundamento dos conceitos e pro-
anterior palatal (tira, diabo); cedimentos apresentados nos tópicos anteriores
d. Harmonização vocálica: ocorre uma ação as- são necessários para uma análise fonológica (fonê-
similatória da vogal tônica sobre a pretônica mica) de uma língua. Para que essa atividade possa
(m[i]nimo], f[i]liz); ser efetivada, Cagliari (2002. p. 55) apresenta os
e Metafonia: ocorre uma ação assimilatória da seguintes passos:
vogal átona sobre a tônica. A metafonia é um
processo diacrônico, que irá explicar a pas- • O corpus: como a análise fonológica baseia-
sagem de metu a m[e]du. Sincronicamente, se em dados fonéticos da fala, a primeira pro-
plurais, como form[o]sos, comp[o]stos que vidência é coletar esses dados através de uma
a norma culta rejeita, explicam-se por extensão transcrição fonética detalhada e cuidadosa.
da regra de metafonia. Esse conjunto de dados, ou corpus, pode ser
constituído de palavras (cerca de 50), frases e
6.2. Processos que Inserem Segmentos textos. Posteriormente, haverá necessidade de
ampliação do corpus com mais exemplos e com
a. Ditongação: mudança fônica resultante de alter- outros tipos de ocorrência, como pequenos tex-
nância sincrônica ou de evolução diacrônica. Essa tos espontâneos, textos lidos, falas informais
mudança se deve à redução de um hiato ou a uma e discursos formais, conversas, diálogos etc.
segmentação de uma vogal em duas partes, for- • A tabela fonética: feitas as transcrições foné-
mando uma única sílaba. ticas e obtido um corpus, o passo seguinte é
b. Epêntese: fenômeno que consiste em interca- fazer o levantamento de todos os sons que
lar, numa palavra ou grupo de palavras, um fo- aparecem no corpus e colocá-lo em forma de
nema não etimológico por motivos de eufonia, tabela fonética. Essa tabela segue o padrão tra-
de comodidade articulatória, por analogia. Na dicional de classificação fonética dos sons.
palavra italiana e portuguesa inverno, houve • Os pares suspeitos: verificando os sons da ta-
epêntese em relação à palavra latina hibernum. bela fonética, fazem-se os balões ao redor dos
pares de sons foneticamente semelhantes para
6.3. Processos que Apagam Segmentos posterior investigação. Em geral, sobram alguns
sons que, por serem muito diferente dos de-
a. Tradicionalmente denominados síncope, afére- mais, precisam ser investigados separadamen-
se, apócope, a depender da posição em que se te, para ver, por exemplo, se não estão em dis-
encontre a vogal. tribuição complementar ou em variação livre.
b. Outros processos fonológicos que podem ocor- • Os pares mínimos: em seguida, procuram-se
rer nas línguas naturais podem ser determina- para cada par suspeito os pares mínimos en-
dos não só por certos traços distintivos mas contráveis no corpus. Todo par mínimo esta-
também pela prosódia e pela morfologia. (Es- belece o valor de dois fonemas, os quais come-
tes serão estudados um pouco mais à frente). çam a formar uma outra tabela: a tabela dos
fonemas nos moldes da tabela fonética.
Atividade | Pesquise e aponte: • Os ambientes análogos: para os casos de pares
suspeitos não resolvidos através de pares míni-
a. Sons foneticamente semelhante do portu- mos, recorre-se aos ambientes análogos, para
guês; verificar se são fonemas ou não.
b. Exemplos dos processos fonéticos estuda- • A distribuição complementar: a verificação de
dos.
que houve ou não distribuição complementar
obtém-se através de tabelas especiais de ocor-
rências dos sons foneticamente semelhantes.
Texto Complementar Faz-se necessário partir de uma análise mais
os
de Variantes de Léxic abrangente dos contextos em que esses sons
Geração Automática Re co -
iro para Sistemas de
do Português Brasile ocorrem e, depois, verificar qual é a distribui-
nhecimento de Fala: /Do cWeb /Se ara -
c.b r/~ fer nan do ção real que eles têm na língua.
htt p:/ /w ww.lin se. ufs
2003Variantes.pdf. • Os sons restantes: o passo seguinte consiste em
Fascículo 2 37

verificar o status fonológico dos sons que fica- modelo fonológico do tipo fonêmico, apresentado
ram isolados na tabela e que não participaram durante este fascículo, ilustra uma tentativa estru-
da discussão fonológica com outros sons. Não turalista de formalização do componente sonoro.
havendo dúvida, em princípio, esses sons são Correntes teóricas pós-estruturalistas, que tratam
fonemas independentes. Havendo dúvidas, es- do componente sonoro, são conhecidas como mo-
ses sons deverão ser investigados, comparados delos fonológicos aqui apresentados da fonologia
com outros sons e analisados para se saber se gerativa padrão à interface fonologia-sintaxe.
são alofones em variação ou apresentam um
valor de fonema. O Estruturalismo
• O inventário dos fonemas: neste momento, o
inventário de fonemas na tabela de fonemas Como já foi dito, o modelo fonêmico expressa
deve estar completo, e os processos fonológi- uma tentativa de formalização do componente
cos de distribuição dos fonemas e da ocorrên- sonoro. Em correntes estruturalistas, a investi-
cia de seus alofones já devem ser do conheci- gação do componente sonoro prevalecia sobre
mento do pesquisador. a análise de outras áreas (como a morfologia e
• Os processos fonológicos: um aspecto impor- a sintaxe, por exemplo). Na verdade, os proce-
tante da análise fonológica é a formulação de dimentos teóricos e metodológicos postulados
regras de distribuição dos fonemas e da reali- para a análise do componente sonoro dentro
zação de seus alofones. Todas as modificações de uma ótica estruturalista foram estendidos a
que os fonemas sofrem devem ser descritas e outras áreas da análise lingüística, contribuindo
formuladas de acordo com a tradição da fono- para o seu progresso como ciência. Dentre as
logia. Para que uma análise fonológica fique tantas discussões, temos que em uma análise fo-
mais completa, é necessário considerar não nêmica, deve-se ter um inventário fonético (que
apenas os aspectos segmentais mas também os lista os fonemas, alofones e informações sobre
fenômenos suprassegmentais, morfofonológi- a estrutura silábica ou suprassegmental). A uni-
cos, sociolinguísticos, pragmáticos etc. dade mínima de análise é o fonema. Pares míni-
• A transcrição fonológica: uma análise fono- mos caracterizam a oposição entre os fonemas;
lógica completa costuma apresentar o corpus Alofones caracterizam a variação expressa pela
transcrito com os fonemas. Desta forma, os distribuição complementar e o fonema constitui
dados aparecerão documentados com a trans- uma unidade mínima de análise, que tem um
crição dos fonemas dos itens lexicais e com papel contrastivo e concreto na investigação lin-
seus respectivos alofones. Com isto, a análise guística. É fato que os procedimentos teóricos
fonológica está concluída. e metodológicos postulados para a análise do
componente sonoro dentro de uma ótica estru-
Atividade | Identifique, em sua comunidade, turalista foram estendidos a outras áreas da aná-
um falante de quem você possa gravar uma lise linguística, contribuindo para o progresso
conversa e retirar algumas palavras que julgue desta. À linguística cabe analisar e formalizar o
interessantes para análise. Faça a análise dos supra-sistema que Saussure denominou língua.
dados selecionados. A fonte de dados para a análise linguística é a
fala que consiste da linguagem enquanto evento
físico (em termo de pronunciarem-se sequências
Texto Complementar de sons). Posteriormente, a proposta de inter-
gina 13): pretar-se o fonema como unidade mínima de
Modelos teóricos (pá m. br/ bo ok s?i d= TFz
WA q-
p:/ /bo ok s.g oo gle .co
htt análise será questionada e implicará mudanças
M1
S7I0C&pg=PA#PPA13, significativas para a teoria linguística.

Além da corrente fonêmica, outras propostas tive-


ram um caráter importante na elaboração e no
8. Modelos Fonológicos desenvolvimento da proposta estruturalista: a cor-
rente do Círculo linguístico de Praga (Trubetzkoy
Neste tópico, à luz de Silva (2008), teremos uma (1939) Jakobson (1967), as contribuições de Saus-
breve visão da trajetória pós-estruturalista da análi- surre (1916); Sapir(1925); Boloofield (1933); Mar-
se do componente sonoro das línguas naturais. O tinet (1968); Matto Câmara (1970).
38 Fascículo 2

A Fonologia Gerativa Padrão das representações e processos fonológicos.

Em 1965, Chomsky publica Aspects of the theory Fonologia Não-Linear


of syntax, apresentando uma proposta convincente
de interpretação e análise da estrutura linguística. • Fonologia CV: Na fonologia gerativa padrão,
Este trabalho revoluciona a relação interna dos estu- a proposta de formalização da silaba é repre-
dos linguísticos. O componente sonoro, que tinha sentada por Kahn (1976).Nesta proposta, o
um papel preponderante na análise linguística, pas- nódulo que representa a sílaba domina ime-
sa a ser visto apenas como parte integrante do me- diatamente seus constituintes, que são seg-
canismo linguístico. A proposta de análise gerativa mentos. De acordo com tal proposta, os tra-
assume a noção de processos. A fala é gerada a partir ços distintivos{consonantal] e [silábico] são
de transformações impostas a representações subja- excluídos das representações segmental. Isso
centes. As representações subjacentes pretendem es- dá lugar à presença das categorias C (para as
pelhar o componente linguístico internalizado que consoantes) e V para as vogais. Os elementos
o falante tem de sua língua. As representações sub- CV formam um conjunto de unidades tempo-
jacentes relacionam-se à competência linguística. A rais. Tais unidades possuem um status teórico
competência linguística opõe-se ao desempenho. O semelhante a C e V em perspectivas estrutura-
desempenho é formalizado pelas representações de listas, uma vez que se permite categorizar síla-
superfície, que pretendem refletir o comportamen- bas em termos de suas sequências segmentais.
to empírico da língua a ser analisada. Comparando- • Fonologia autossegmental: surge como uma
se a proposta gerativa ao modelo estruturalista, po- proposta teórica de interpretação da sílaba
de-se dizer que a competência relaciona-se à língua que se iniciou com o estudo de aspectos su-
e que o desempenho relaciona-se à fala. A inovação prassegmentais da fala, como tons acentos. Ar-
do modelo gerativo do ponto de vista teórico e me- gumentos gerais e motivação da teoria podem
todológico refere-se à noção transformacional de ge- ser encontrados em Goldsmith (1990).
ração de estruturas gramaticais e ao relacionamento
explícito que passa a ser definido entre a linguagem Fonologia de Dependência
e o mecanismo psicológico que o gera.
As teses que geraram a formulação da fonologia
O Modelo Natural de dependência surgiram na década de 1970. A
relevância da teoria de dependência para as re-
• Fonologia gerativa natural: tem como postu- presentações fonológicas e morfológicas pauta-se
ladores Vennemann(1972) e Hooper (1972, na proposta da analogia estrutural. Esta proposta
1976). Estes autores defendem que o compo- distingue a fonologia de dependência de outros
nente fonológico deve ocupar-se com transpa- modelos teóricos, uma vez que a representação fo-
rências e com a motivação fonética regular. To- nológica relaciona-se a aspectos de representação
das as outras regularidades devem ser tratadas morfológico e sintático.
com informações do componente morfológico,
buscando-se evitar soluções abstratas. A fonolo- Fonologia de Governo
gia gerativa natural busca definir os princípios
que regulam as regras foneticamente motivas A fonologia de governo assume que as relações
das não-produtivas. Além de investigar como de governo estabelecidas no processo de silabifi-
o léxico é estruturado, investiga se as restrições cação são universais. As relações de governo são
sequenciais devem ser definidas em termos de derivadas de princípios da gramática universal e
morfemas.Vennemann e Hooper propõem que juntamente com parâmetros específicos das lín-
a sílaba seja incorporada à teoria fonológica. guas naturais definem os sistemas fonológicos. A
• Fonologia natural: uma corrente alternativa fonologia de governo propõe um formalismo de si-
denominada fonologia natural surge com a labificação, representação, segmentação, interação
proposta de Stampe(1980). A diferença entre entre a fonologia e outros componentes da gramá-
a fonologia gerativa natural e a fonologia natu- tica e de organização do léxico. A proposta teórica
ral é que a primeira busca investigar a naturali- dessa teoria é de Kaye e Lowenstamm (1981-1985).
dade das regras fonológicas enquanto a segun-
da tem por objetivo caracterizar a naturalidade
Fascículo 2 39

Fonologia Lexical análise do componente sonoro. Trabalhos do por-


tuguês que adotam a fonologia de uso são os de
Na fonologia lexical, a interação entre os compo- Cristófaro-Silva e Oliveira (2202)].
nentes fonológico e morfológico dá-se por meio
da inter-relação das regras de diferentes domínios Atividade | Amplie suas leituras sobre a teo-
(fonológico e morfológico). A fonologia lexical ria apresentada por Chomsky. Reflita sobre o
propõe três níveis de representação: subjacente, le- conceito de competência linguística e discorra
xical e fonética. Dentre os títulos mais importantes sobre a contribuição dessa teoria para o ensi-
da fonologia lexical cita-se Kiparssky (1982), Mo- no de Língua Portuguesa na atualidade.
hanan (1982), Booij e Rubach (1984), Pulleybank
(19860), Inkelas (1989), Hargus e Kaisse (1993).

Teoria da Otimização

A teoria da otimização propõe um programa que ex- Texto Complementar


plicita um modelo de análise gramatical. A fonolo- aos
informação fonética
gia tem sido foco de pesquisa nessa linha. Têm-se re- Pela incorporação de
os:
modelos fonológicpr. vis tas /
ferência no trabalho de Prince e Smolensky (1991). br/ do cum ent os/ pd f_re
htt p:/ /w ww.let ras .uf
Um aspecto importante da teoria da otimização diz hpsilva.pdf]
respeito ao formalismo assumido. Assume-se que a
forma superficial de uma forma lexical é escolhida
com base na condição de satisfazer restrições gerais
sobre as representações de saída (output). Regras
fonológicas são ausentes no formalismo deste mo- Texto Complementar
delo. A teoria da otimização consiste de um pro-
Estruturalismo: .com.br/revisoes/filosofi
a/estrutu
grama de pesquisa de cunho gerativo que propõe http://www.vestibular1
metas para a linguística geral. Estas metas devem ralismo.htm;
_
t/edtl/ver betes/E/estruturalismo
ser alcançadas para todos os níveis da gramática. http://www2.fcsh.unl.p
checo.htm )

gina 68):
Interface Fonologia-Sintaxe Fonologia métrica (pá .co m. br/ bo ok s?i d= TFz
WA q-
p:/
htt /bo ok s.g oo gle
M1
S7I0C&pg=PA#PPA68,
A descrição e formalização dos sistemas sonoros
e prosódica:
Fonologia métrica rev
tinham posição de destaque até meados da década ista/Fonologia5.html
http://www.unincor.br/
de 1960 nos estudos linguísticos. Após a proposta
de Chomsky (1965), o foco da análise linguística
passa a ser a organização do componente sintáti-
co. A descrição dos sistemas sonoros passa a fazer
parte do componente fonológico que atua após
os mecanismos sintáticos terem sido concluídos.
A interface fonologia-sintaxe pode ser pesquisada
nos trabalhos de Selkirk (1980), Pullum e Wicky
(1984), Nespor e Vogel (1986) Scarpa (1999).

Fonologia de Uso

A fonologia de uso oferece uma proposta alternati-


va de análise do componente sonoro, expressando
a relação entre fonética-fonologia e fonologia-mor-
fologia. Esta proposta de análise pode ser relacio-
nada à proposta de Langacker (2000), que trata da
transcrição gramatical abordando o uso da lingua-
gem. A fonologia de uso oferece uma proposta de
relacionar aspectos sincrônicos e diacrônicos na
40 Fascículo 2

RESUMO
Há uma discussão histórica sobre a compreensão do objeto de estudo da fonética e da
fonologia que vai encontrar maior precisão nas contribuições de Saussure, Trubetzkoy e
Jakobson, quando o fonema passa a ser entendido como um som que, dentro de um
sistema fônico determinado, tem um valor diferenciador entre os vocábulos.

Alofone: cada realização de um fonema. A relação entre as variantes pode ser: variação
livre e por distribuição complementar.

Para descrição de uma língua, precisa-se fazer, inicialmente, um levantamento de todos


os sons dessa língua. Definem-se quais sons têm valor distintivo (são fonemas); quais sons
são foneticamente semelhantes (formam par suspeito); dos pares suspeitos, formam-se os
pares mínimos; passa-se ao agrupamento realizado a partir da estrutura e do funciona-
mento desses sons; criam-se regras que caracterizam os processos fonológicos. Os pro-
cessos fonológicos consistem, então, numa sequência de regras para esse agrupamento
e explicação dos sons.

O arquifonema corresponde ao resultado de uma neutralização.

Traços distintivos são propriedades mínimas, de caráter acústico ou articulatório, que, de


forma co-ocorrente, constituem os sons das línguas.Pode-se definir um conjunto de traços
distintivos como um conjunto específico de propriedades que constituem os fonemas.

Pode-se distinguir os sons uns dos outros por propriedades presentes em cada um deles.
Essas propriedades podem ser segmentais ou suprassegmentais.

Uma análise fonológica exige o domínio de conceitos e o desenvolvimento de alguns


passos que vão desde a coleta dos dados à transcrição fonológica.

Os principais modelos fonológicos que buscam a formalização do componente sonoro


das línguas naturais são: o estruturalismo, a fonologia gerativa padrão, o modelo natural,
fonologia gerativa natural, modelo natural, fonologia não-linear, fonologia de dependên-
cia, fonologia de governo, fonologia lexical, teoria da otimização, interface fonologia-
sintaxe e fonologia de uso.

GLOSSÁRIO REFERÊNCIAS
Acentuação – modo de proferir um som ou grupo de sons
BECHARA, Evanildo. Moderna gramática por-
com mais relevo que os outros. Esse relevo denomina-se
acento. tuguesa. 37. ed. Ver. e ampl. Rio de Janeiro:
Lucerna, 2001.
Diz-se que o acento é de intensidade (acento de força,
acento dinâmico, acento expiratório ou icto), quando o CALLOU, Dinah. Iniciação à Fonética e Fonolo-
relevo consiste no maior esforço expiratório. Diz-se que o
acento é musical (acento de altura ou tom), quando o rele-
gia. 10 ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.
vo consiste em elevação ou maior altura da voz.
CAGLIARI, Luiz Carlos. Análise fonológica:
Estruturalismo – corrente de pensamento nas ciências introdução à teoria e à prática com especial
humanas, que se inspirou no modelo da linguística e que
destaque para o modelo fonêmico. São Paulo:
apreende a realidade social como um conjunto formal
de relações. Mercado das letras, 2002.
Fascículo 2 41

FIORIN, José Luiz(org). Introdução à Linguística


II. Princípios de análise. 4. ed. 1ª reimpressão.
São Paulo: Contexto, 2007.

SILVA, Thaís Cristófaro. Fonética e Fonologia do


português: roteiro de estudos e guia de exercí-
cios. 9. ed. 1ª reimpressão. São Paulo: Con-
texto, 2008.
Fascículo 3 43

Processos
Morfofonológicos
e Estilísticos
Prof.ª Maria Perpétua Teles Monteiro
Carga Horária | 15 horas
Objetivos Específicos
Apontar os principais conceitos relacionados aos processos morfofonológi-
cos e estilísticos da Língua Portuguesa.

1. Morfofonologia
Introdução

Neste fascículo, apresentaremos, de forma introdutória, alguns conceitos neces-


sários ao estudo dos processos morfofonólogicos e estilísticos, uma vez que, du-
rante o curso, morfologia e estilística serão conteúdos de ensino em disciplinas
específicas. Vale ressaltar, inicialmente, que a morfofonologia ou morfofonêmi-
ca, em linguística estrutural, correspondem à fonética e à fonologia, quando os
itens léxicos inseridos no lugar dos símbolos recebem uma interpretação fonéti-
ca. Trata-se de um nível intermediário entre fonologia e morfologia, visando ao
estudo das diferentes formas fonéticas apresentadas por um mesmo morfema.
Que não pareça óbvio dizer que a morfologia, tratando de formas, ocupa-se
das condições de estruturas da parte significante dos signos e das regras que
determinam as possíveis variações dos significantes, uma vez que esse enfoque
enfatiza o caráter fônico da morfologia, quando da combinatória fônica, é que
resultam os padrões morfológicos.

1.1. Morfologia
Podemos conceituar morfologia como o estudo da forma, da configuração, da
aparência externa da matéria. O termo morfologia foi inicialmente empregado
nas ciências da natureza, botânica e geologia. Na linguística, começou a ser
utilizado no século XIX. Nessa época, sob a influência do modelo evolucionis-
ta de Darwin, acreditava-se que o estudo da “evolução” das ‘quatrocentas ou
quinhentas’ raízes básicas do indo-europeu poderia levar à solução do velho
enigma da origem da linguagem. Hoje, essa questão está praticamente fora do
âmbito da pesquisa linguística, e o estudo da forma das palavras assume outra
abrangência e complexidade. Considerar o morfema ou a palavra como a uni-
dade central do estudo morfológico resulta em modos diferentes de se abordar
a morfologia. Pode-se dizer que a noção de morfema está relacionada com o
estruturalismo, que tinha como problema central a identificação dos morfemas
nas diferentes línguas do mundo.
44 Fascículo 3

O estudo da morfologia se subdivide em dois campos: também a partir de formas presas, como na
1. um, dedicado ao estudo dos mecanismos mor- palavra geologia (geo-logia).
fológicos por meio do qual se formam palavras
novas – domínio da morfologia lexical; O processo de composição junta uma base à
2. outro, voltado à análise dos mecanismos mor- outra, com ou sem modificação de sua estru-
fológicos que apresentam informações grama- tura fônica, aglutinando-se, em aguardente,
ticais – domínio da morfologia flexional. ou justapondo-se, em pentacampeão. Os ele-
mentos do composto apresentam uma relação
1.2. Morfologia Lexical entre um núcleo e um modificador (ou especi-
ficador), entre um determinado e um determi-
Derivação e composição são os processos mais ge- nante. Em português, o primeiro elemento do
rais de formação de palavras. O processo de deri- composto funciona como núcleo nas estrutu-
vação é o mais utilizado para formar novos itens ras formadas por:
lexicais. A derivação é o mecanismo básico da mor-
fologia lexical. • Substantivo + Substantivo. Ex: sofá-cama,
peixe-espada, mestre-sala.
• Derivação: nesta, acrescenta-se um afixo (su- • Substantivo + adjetivo. Ex: caixa-alta,
fixo ou prefixo) a uma base. A base de uma obra-prima, amor-perfeito.
forma derivada é geralmente uma forma livre, • Verbo + Substantivo. Ex: guarda-roupa,
isto é, uma forma mínima que pode constituir beija-flor.
sozinha um enunciado, como um verbo, um
adjetivo ou um advérbio. Podemos, também, Nas estruturas com adjetivo, esse é sempre o espe-
ter derivados a partir de formas presas, isto cificador, independente de sua posição: belas-artes,
é, formas que não podem ocorrer sozinhas, livre-arbítrio.
como na palavra morfológico, em que se jun-
tou o sufixo – ico, formador de adjetivos à base A composição distingue-se da derivação por seu
morfolog, composta de morfo + log, que é, próprio mecanismo de estruturação: enquanto
ao mesmo tempo, composta (dois radicais gre- pela derivação se expressam noções comuns e ge-
gos) e presa. rais, o processo de composição permite categoriza-
ções mais particulares.
Em português, raízes e radicais servem de base
para a adjunção de afixos. A raiz é o elemento • Outros mecanismos de formação de palavras
irredutível e comum às palavras derivadas. O
radical inclui a raiz e os elementos afixais, que • Derivação regressiva: diferentemente dos
servem de suporte para outros afixos, crian- processos de derivação e de composição,
do novas palavras. em que há adição de morfemas, existe, em
português, um mecanismo de criação lexi-
Os processos derivacionais são bastante produ- cal em que se observa a redução de morfe-
tivos. Tal fato pode ser explicado não só pela mas, conhecido como derivação regressiva.
possibilidade elevada de combinação de raízes Podemos observá-lo em derivados do tipo:
e afixos, mas porque, em muitos casos, mu- busca, de buscar; implante, de implantar;
dam a classe da nova palavra formada, como manejo, de manejar. Os derivados são,
a nominalização de verbos, processo altamen- na maioria, substantivos deverbais, isto
te produtivo que forma substantivos a partir é, construídos a partir de verbos.
de verbos, como pesar > pesagem e envolvem • Derivação parassintética: consiste na adição
noções bastante comuns e de grande genera- simultânea de um prefixo e um sufixo a uma
lidade, como a ideia de negação (ilegal), grau base. É um processo mais produtivo na forma-
(gatinho), designação de indivíduos (pianista), ção de verbos (en+feitiço+ar=enfeitiçar) do que
nomes abstratos (bondade). na de adjetivos (des+alma+ado=desalmado).
• Composição: esta consiste na associação de A função semântica é atribuída ao prefixo,
duas bases para formar uma palavra nova. Te- enquanto a função sintática cabe ao sufixo,
remos palavras compostas a partir de formas li- que muda a classe da palavra a que pertence
vres, como guarda-livros (guarda-livros), como a base.
Fascículo 3 45

1.3. Morfologia Flexional ta de significante e significado indissoluvelmente


unidos, corresponde aos menores elementos indi-
A morfologia flexional trata, principalmente, dos vidualmente significativos nos enunciados de uma
morfemas que indicam relações gramaticais e pro- língua. Um morfema consta habitualmente de cur-
piciam os mecanismos de concordância, estando tas sequências de fonemas, sequências essas que se
mais diretamente relacionada à sintaxe. Nas dife- repetem. Porém nem todas as sequências de fone-
rentes línguas do mundo, as categorias gramaticais mas que se repetem são morfemas. Daí resulta a
frequentemente manifestadas pelos morfemas fle- definição de morfema: a menor unidade que é gra-
xionais são: para os nomes, as categorias de gêne- maticalmente pertinente. Uma unidade que não
ro, número e caso; para os verbos, as categorias de possa ser dividida sem que se destrua ou se altere
aspecto, tempo, modo e pessoa. A evidência desses drasticamente o seu significado. Em pata, temos
universais não significa que todas as línguas mani- duas formas mínimas portadoras de significação:
festarão todas essas categorias nem que todas elas se-
rão representadas pelos mesmos tipos de morfema. 1. ”pat-
2. -”a”

Em 1, temos uma cadeia de significantes dotada


Texto Complementar de um plano de conteúdo próprio (membros de
t= fire fox
co m. br/ sea rch ?cl ien animais); em 2, temos um plano de conteúdo (gê-
htt p:/ /w ww .go og le. a % 3 A p t - B R % 3 A o f f i c i a l &
z i l l
-a&rls=org.mo +na+estru
q=Tipos+de+morfema oogle nero feminino). Assim, 1 e 2 possuem significado,
channel=s&hl=pt-BR& &b tnG =Pesq uis a+G
ta=
tura+das+palavras&me significado esse que seria destruído, se eu tentasse
orfologia/
francisco.com.br/alfa/m subdividi-los ainda mais, construindo, digamos:
http://www.colegiosao hp
estrutura-das-palavras.p
pit/3167/
m/CapeCanaveral/Cock 3. pa-
http://www.geocities.co
morfologia.htm 4. -t-

A forma 4 não possui sentido algum, e a forma 3


só pode nos evocar sentidos (instrumento para ca-
SAIBA MAIS! var, por exemplo) que nada tem a ver com o sentido
o-
ológica ajuda no rec
Como a estrutura fon en tre as original de “pata”. Compreendemos, então, que a
ão morfológica
nhecimento da relaç palavra “pata” possui a propriedade de poder ser
palavras? cie lo. ph p?s cri pt= sci
.or g.b r/s
_ fragmentada em apenas dois segmentos: morfemas.
htt p:/ /pe psi c.b vs- psi 42007000200003&lng=pt&nrm
arttext&pid=S1676-731
=iso 2.1. Lexemas e Gramemas

Um critério para isolar morfemas consiste em ob-


Atividade | Selecione 10 palavras do por- servar, com base nas definições propostas no tó-
tuguês em que você possa explicar os estudos pico 1, quantos elementos do plano de expressão
apresentados sobre morfologia. de uma palavra se correspondem com diferentes
significados.Veja:

2. O Morfema I. Pata
II. Patas
Vimos que os fonemas constituem a primeira uni- III. Patada
dade mínima da Linguística. Observamos, tam- IV. Patadas
bém, que os fonemas estão destituídos de qualquer
significado, funcionando nas línguas apenas como Nas formas apresentadas, temos as que mantêm
discriminadores de significados em potencial. Ago- inalterável uma sequência de significantes {pat-}
ra, veremos que, através dos fonemas, podemos lo- assim como mantêm inalterável um plano de con-
calizar a segunda das unidades básicas da Linguís- teúdo “extremidade”, “relativa aos membros infe-
tica, aquela que compõe a primeira articulação das riores”, “dos animais”; “-a” de I significa “gênero
línguas naturais, o morfema. Sendo o morfema um feminino”, comparando I e II, vemos uma modi-
signo mínimo, quer dizer, uma entidade compos- ficação introduzida no plano da expressão de I (re-
46 Fascículo 3

presentada pelo acréscimo de “-s”) correspondente sas palavras continuariam a possuir gênero femini-
a uma modificação introduzida no plano do con- no, o número plural, a “designar golpe desferido
teúdo de I.(representada pelo acréscimo da noção com”. Se, contudo, quiséssemos efetuar mudanças
de plural). Por seu lado III. (“patada”) que pode ser nas partes relativas à significação gramatical, não
entendido como possuindo o mesmo plano de ex- poderíamos efetuar senão um número muito res-
pressão de I. (“pat-) mais o sufixo “ada” conserva o trito de alterações: na parte 3, por exemplo, a do
mesmo plano de conteúdo de I. (relativa aos mem- gênero, não possuímos em português mais do que
bros inferiores dos animais). Assim localizamos feminino/masculino; na parte 4, a do número,
os morfemas: não temos mais que singular/ plural; na parte 2,
a do gramema, que indica o aspecto verbal, temos
I. pat ___ ___ a ___ um número maior de possibilidades de variação,
II. pat ___ ___ a ___ s mas poucas. Podemos, daí, concluir que os lexe-
III. pat ___ ad ___ a ___ mas pertencem a inventários ilimitados e, como
IV. pat ___ ad ___ a ___ s membros de uma lista aberta, eles se sujeitam a
1 2 3 4 comutações teoricamente infinitas; os gramemas,
ao contrário, pertencem a inventários limitados e,
Percebe-se que, para cada segmento isolado, temos como membros de uma lista fechada, se sujeitam a
uma significação: um número restrito de comutações.

1. “extremidade dos membros inferiores dos ani- Os morfemas são convencionalmente transcritos
mais” entre pequenas chaves: {-a} lê-se morfema “a”.
2. “modificador”
3. “gênero feminino”
4. “número plural”
Texto Complementar
logia
s afins na termino
Num primeiro exame, pode-se dizer que tais signi- Do Lexema e termo
ficações podem ser assim classificadas: gramatical: .htm )06
.br/revista/artigo/10(28
http://www.filologia.org
a. 1. (pat-) possui uma significação lexical, que diz
respeito ao vocabulário da língua, ao dicionário; Léxico:
.htm
t/edtl/verbetes/L/lexico
b. 2, 3 e 4 (-ad, -a, -s) possuem uma significação http://www2.fcsh.unl.p
gramatical , que diz respeito não ao dicionário,
mas, à gramática da língua. Lexemas: anosso.nom.br/gramatic
a/lexema.
http://www.radames.m
htm
A parte 1 responsável pela significação lexical de-
nomina-se lexema; as partes 2, 3 e 4, responsáveis
pela significação gramatical, denominam-se grame-
mas. Ambos, lexemas e gramemas são morfemas. SAIBA MAIS!
te , ao
Quando não nos importar fazer menção explícita de, aproximadamen
O lexema correspon an tem a ; os gra-
do particular sentido de cada um deles, poderemos a de sem
que Vendryés chamav z e
canos chamam de rai
nos referir a um e outro, indiferentemente, sob o máticos norte-ameri o gra me ma
título genérico de morfemas. Hjelmslev chamou de
plerema; já
Ve nd ryé s e Hje l-
ma de
corresponde ao morfe ão no rte -am eri ca-
tra diç
mslev e à não-raiz da são,
O fragmento {pat-}, que engloba a significação le- . Pa ra Me rtin et, lexemas e gramemas
na as sig nifi-
xical, pode ser substituído, em outros contextos, indiferentemente, mo
nemas (fo rm
sig nif ica do . Ne ste
as de
por uma extraordinária quantidade de outros frag- cantes mínimas dotad ota ram -
Lopes (1995), ad
mentos retirados do dicionário: pedr-, punhal-, trabalho, a partir de r Po ttie r.
propostas po
pul-, cabeç-, joelh-, que produziriam, juntamente se as denominações
com os fragmentos 2, 3 e 4, pedradas, punhaladas,
pauladas, cabeçadas, joelhadas, etc. Todas essas co-
mutações e substituições alteram, evidentemente, Atividade | Identifique, nas palavras abaixo,
o plano do conteúdo lexical, mas não alteram o os morfemas (lexemas e gramemas); isole-os e
plano do conteúdo gramatical, ou seja, todas es- aponte seus significados:
Fascículo 3 47

a. casamento língua. Assim, em português, nenhuma sílaba


b. marinheiro pode terminar em /rs/, então /bars/ não é uma
c. gatinho sequência permitida; já em inglês ou francês, essa
sequência é possível.

3. Alomorfes Não sendo possível explicar a alomorfia pelo


contexto fonético, diz-se que houve um condi-
Apontamos, nos fascículos anteriores, que os fo- cionamento morfológico. O condicionamento
nemas admitem diferentes realizações chamadas fonológico é interpretado por muitos linguistas
alofones. Neste, vamos destacar que a realização como sendo assunto para a fonologia e não, para
concreta de um morfema (unidade mínima signifi- a morfologia. Como é flagrante a relação entre o
cativa) também pode engendrar o aparecimento de nível fonológico e o morfológico, alguns autores
variantes contextualmente condicionadas. É o que (principalmente do Círculo de Praga) propuseram
se chama alomorfe. O estudo dos alomorfes é feito a existência de um nível intermediário, objeto de
através da disciplina que os norte-americanos cha- estudo da morfo(fo)nologia, ou morfofonêmica,
mam de morfofonêmica. A morfofonêmica exa- que trataria da estrutura fonológica dos morfemas,
mina as diferentes formas fonéticas apresentadas de suas modificações combinatórias, das mudan-
por um mesmo morfema, tendo a tarefa de des- ças fônicas que adquirem função morfológica.
cobrir os morfemas e indicar os alomorfes que o
expressam em contextos determinados. Tomando Atividade | Baseado (a) nos exemplos “a” e “b”
as realidades fonológicas e morfológicas, a morfo- apresentados no corpo deste texto, apresente
fonologia ou morfofonêmica estuda os processos duas séries de palavras e explique suas variantes.
que influenciam mutuamente forma e som. Para
melhor compreensão, observe as séries:

a. Feliz, crível, grato, real, mortal, legal, adequa- Texto Complementar


lo-
do, hábil, natural. Introdução à morfo
ROSA, Maria Carlota. :
b. Infeliz, incrível, ingrato, irreal, imortal, ilegal, . Disponível em
gia. Contexto. p. 59om Ryi 0C
.br /bo oks ?id =e jRb uFL
inadequado, inábil, inatural. htt p:/ /bo oks .go og le.c
&pg]

Comparando-se as duas séries, nota-se que, em


“b”, o segmento inicial tem sempre um valor nega-
tivo, mesmo que sob forma fonética diversa [ ], [i],
[in]. A diferença fonética é, no entanto, previsível:
teremos [i] antes de vogal; [i] antes de [l, r, m, n] e 4. Processos Morfológicos
[ ] antes de qualquer outra consoante. Essas for-
mas são variantes de um mesmo morfema, o que Em Fiorin (2007), percebemos que a associação de
permite compreeender que o morfema é, na verda- dois elementos mórficos, produzindo um novo signo
de, resultado de uma abstração ou generalização: linguístico, obedece a certos princípios ou mecanis-
ele pode apresentar várias configurações fonéticas, mos que variam em sua possibilidade de combinação
cada uma delas é um morfe do mesmo morfema. nas diferentes línguas, donde destacamos que esses
O conjunto de morfes, que representam o mesmo modos de combinação são processos morfológicos,
morfema, são seus alomorfes. Nenhum alomorfe que se manifestam de diferentes formas, a saber:
pode ocorrer no mesmo contexto que o outro, o
que significa dizer que os alomorfes de um mor- 4.1. Adição
fema devem estar em distribuição complementar.
Quando um ou mais fonema é acrescentado à
Se a escolha entre dois ou mais alomorfes depen- base, que pode ser uma raiz ou radical primário,
der do contexto sonoro em que ele se encontra, isto é, o elemento mínimo de significado lexi-
diz-se que houve um condicionamento fonológi- cal. Em aprofundar, temos os sequintes morfe-
co (ou fonético). A alomorfia fonologicamente mas a- profund- ar, onde a- e –ar são morfemas
condicionada reflete, geralmente, as restrições de aditivos, que se acrescentaram à raiz profund.
combinação de fonemas que ocorrem em cada Aprofund-é a base de aprofundar. São chamados
48 Fascículo 3

afixos os morfemas que se adicionam à raiz; afi- Atividade | Identifique os elementos mórfi-
xação é o processo. Dependendo da posição dos cos presentes nas palavras sublinhadas no po-
afixos em relação à base, podemos ter cinco tipos: ema e crie novas palavras a partir das palavras
em itálico.
1. Sufixação: depois da base. Ex: livro > li-
vro-s; casa > cas-eiro; Mãos Dadas
2. Prefixação: antes da base. Ex: ler > re-ler; Carlos Drummond de Andrade
certo > in-certo;
3. Infixação: dentro da base. Ex: em Kmu Não serei o poeta de um mundo caduco.
(Laos): /rkeŋ/ “esticado” > /rmkeŋ/ “esti- Também não cantarei o mundo futuro.
car” (infixo /-m-/); Estou preso à vida e olho meus companheiros.
4. Circunfixos: afixos descontínuos que Estão taciturnos, mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
enquadram a base, como em Georgiano
O presente é tão grande, não nos afastemos.
(Cáucaso); Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
5. Transfixos: são descontínuos e atuam nu- Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
ma base descontínua, como no Hebraico. não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista
da janela, não distribuirei entorpecentes ou cartas
4.2. Reduplicação de suicida,
É um tipo especial de afixação, que repete fonemas não fugirei para as ilhas nem serei raptado por
da base, com ou sem modificações. Nas línguas serafins.
clássicas – latim, grego e sânscrito – está associado O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os
homens presentes,
à flexão verbal.
a vida presente.

4.3. Alternância
Quando alguns segmentos da base são substituídos
por outros, de forma não arbitrária, porque são al- 5. Noções Elementares de Estilística
guns traços que se alternam com os outros, como
em português: pus/pôs; fiz/fez; fui/. A Linguís- Introdução
tica histórica trata esses processos de alternância
de vogais no interior da raiz como apofonia ou Estilística é a parte dos estudos da linguagem que
metafonia. se preocupa com o estilo. Estuda a expressividade
da língua. Entende-se por estilo o conjunto de pro-
4.4. Subtração cessos que fazem da língua representativa um meio
Quando alguns segmentos da base são eliminados de exteriorização psíquica.
para expressar um valor gramatical como no por-
tuguês em que alguns femininos são formados por 5.1. Estilística e Gramática
subtração de morfemas do masculino. Ex: órfão/
órfã; anão/anã; campeão/campeã. O que caracteriza o estilo não é a oposição entre
o individual e o coletivo, mas o contraste entre o
Os processos morfológicos que afetam traços su- emocional e o intelectivo. É neste sentido que dife-
prassegmentais, como o acento e tom, podem ser re Estilística (que estuda a língua afetiva) e Gramá-
aditivos ou substitutivos. Algumas vezes, os proces- tica (que trabalha no campo da língua intelectiva).
sos podem aparecer combinados, como, em portu- Misturá-las de modo que a Estilística se “dissolva”
guês, no plural da palavra OVO, em que há uma na Gramática é pôr em perigo duas importantes
alternância de o /ɔ e uma sufixação {-s}, /ɔvos/. disciplinas por confundir os seus objetos de estudo.

Uma não é a negação da outra, nem uma tem por


missão destruir o que a outra, com orientação cien-
Texto Complementar tífica, tem podido construir. Ambas se completam
no estudo dos processos do material de que o gênero
Usos morfológicos:r/posverna/docentes/72520-1.pdf
http://www.letras.ufrj.b humano se utiliza na exteriorização das ideias e senti-
mentos ou do conteúdo do pensamento designado.
Fascículo 3 49

5.2. Estilística e a Retórica 6. Traços Estilísticos


tem-se apresentado a Estilística também como a ne- O conjunto de particularidades do sistema expres-
gação da Antiga Retórica, que predomina, ainda, sivo para eficácia estética recebe o nome de traços
na crítica tradicional do estilo com suas múltiplas estilísticos. São numerosos os traços estilísticos - e
indagações literárias, históricas, sociais, filosóficas há um avultado número deles cujo valor ainda está
e tantos outros domínios que na obra se espalham para ser analisado - em todos os compartimentos
através do temperamento e atitude do escritor. Por de um idioma. Cabe-nos agora indagar quando
exemplo, sempre se estudaram as fontes de um uma particularidade linguística se nos apresenta
autor ou de uma obra, ou - o que vale o mesmo como traço estilístico. Sabe-se que o traço estilísti-
- a origem das ideias dominantes em um período co não se trata de uma maneira de dizer necessaria-
literário. Porém isso se realizou por interesse his- mente pessoal, nem pelo fato de ser pessoal se tem
tórico, para fixar procedências. Este é o ponto de necessariamente um traço estilístico. Daí o erro
chegada da crítica tradicional. Para a estilística, é o dos que, pensando escrever bem, enxameiam suas
ponto de partida, ao se perguntar: páginas das chamadas figuras de linguagem (ple-
onasmos, hipérboles, anacolutos, metáforas, etc.)
Que fez meu autor ou minha época com estas fontes? Essas figuras não se impõem às circunstâncias, es-
tas é que favorecem o aparecimento daquelas para
Usando a comparação: estudando o mel, a crítica fins estéticos. Terá falhado na pesquisa estilística
tradicional estabelece em que flores e de que cam- quem se contentar em dizer que há anacoluto no
pos extraiu a abelha; a estilística se pergunta: derradeiro terceto desta conhecida jóia de Macha-
do de Assis, que é o soneto à Carolina: “que eu, se
como resultou este produto heterogêneo com tenho nos olhos mal-feridos pensamentos de vida
todas as suas procedências, qual é a alquimia, formulados, são pensamentos idos e vividos”.
que originais e triunfantes intenções
lhe insuflaram vida nova? O anacoluto ultrapassa os limites de uma simples
figura, para ser um eficaz recurso estético que põe
Ou à luz da comparação da estátua: a crítica tradi- diante de nossos olhos a profunda dor do esposo
cional estuda as canteiras donde procede o mármo- que, pensando na companheira que se foi não tem
re; a estilística, o que é que o artista fez com ele”. a paz interior necessária para estruturar racional-
mente, intelectivamente, todo o tumulto de ideias
que lhe vai à alma.
Texto Complementar
o de português: 12-02.html
A estilística e o ensin .br/ viiicnlf/anais/caderno Em suma, a Estilística é o passo mais decisivo, no es-
http://www.fi lolo gia .org
tudo de uma língua, para a educação do sentimento
Estilística: s.com.br/secoes/estil/ estético e manifestação da competência expressiva.
http://www.soportugue

Traço estilístico e erro gramatical: não se há de en-


tender que o estilo seja sempre uma deformação da
5.3. Análise literária e análise estilística norma linguística. Isso nos leva à distinção entre
traço estilístico e erro gramatical. O traço estilís-
não se há de confundir análise literária com aná- tico pode ser um desvio ocasional de uma norma
lise estilística, pois que, trabalhando num mesmo gramatical vigente, mas se impõe pela sua intenção
trecho, tem preocupações diferentes e utilizam fer- estético-expressiva. O erro gramatical é o desvio
ramentas também diversas. Para a estilística, inte- sem intenção estética.
ressa tanto a depreensão dos traços estilísticos da
língua oral como da escrita, do falante comum e
do literato (Bechara, 2001).
Texto Complementar
ema
Atividade | Releia o poema de Drummond Ferreira Gullar em Po
Traços estilísticos de
posto no tópico anterior e atribua significados sujo, 1976: diogo.html
às palavras em negrito. Apresente sua conclu- http://www.mafua.ufsc.br/

são sobre o poema.


50 Fascículo 3

Atividade | Na busca do seu estilo próprio, dar novos horizontes ao ensino do idioma”.
deve o autor violar a norma culta do idioma? c. o emprego expressivo dos sufixos (mormente
Argumente. os de gradação): paizinho, mãezinha, poetas-
tro, padreco, politicalha.
d. o emprego de tempos e modos verbais, como,
7. Campo da Estilística por exemplo:

O estudo da Estilística abarca, semelhante à Gramá- 1. o presente pelo futuro para indicar desejo
tica, todos os domínios do idioma. Todos os fenô- firme, fato categórico:
menos linguísticos, desde os sons até as combinações “Amanhã eu vou ao cinema”.
sintáticas mais complexas, podem revelar algum cará- 2. o imperfeito para traduzir pedido:
ter fundamental da língua estudada. Todos os fatos “Eu queria um quilo de queijo” (em vez do
linguísticos, sejam quais forem, podem manifestar al- categórico e, às vezes, ameaçador quero).
guma parcela da ida do espírito e algum movimento 3. o presente pelo pretérito para emprestar
da sensibilidade. A estilística não é o estudo de uma à narração o ar de novidade e poder co-
parte da linguagem, mas o é da linguagem inteira, ob- mover o ouvinte:
servada de um ângulo particular. Assim sendo, estuda “Aí César invade a Gália”.
a linguagem afetiva e a linguagem intelectual em suas
relações recíprocas e examina em que proporção se e. a mudança de tratamento de um período
aliam para compor este ou aquele tipo de expressão. para outro: para indicar mudança da situação
psicológica entre falante e ouvinte, ou entre
Teremos, assim, os seguintes campos da Estilística: escritor e leitor. No soneto Última Folha, Ca-
simiro de Abreu chama a Deus por Meu Pai e
1. fônica; ora o trata por tu, ora por vós.
2. morfológica;
3. sintática; 7.3. A Estilística Sintática
4. semântica.
Procura explicar o valor expressivo das construções:
7.1. A Estilística Fônica
1. na regência, como, por exemplo, o emprego
Procura indagar o emprego do valor expressivo dos do posvérbio;
sons: a harmonia imitativa, no amplo sentido do 2. na concordância, como, por exemplo, na atra-
termo. Também chamada fonética expressiva, a es- ção, na silepse, no infinitivo flexionado para
tilística fônica implica a utilização de traços que es- realce da pessoa sobre a ação mesma;
capam à sistematização das oposições e correlações 3. na colocação dos termos na oração, na coloca-
dos fonemas e grupos fônicos: acento vocabular, ção de pronomes, etc.
quantidade, altura, etc. 4. no emprego expressivo das chamadas figuras
de sintaxe.
7.2. A Estilística Morfológica
7.4. A Estilística Semântica
Sonda o uso expressivo das formas gramaticais. En-
tre os usos expressivos deste campo, lembraremos: Pesquisa:

a. o plural de convite: põe-se o verbo no plural 1. A significação ocasional e expressiva de certas


como que se quisesse incentivar uma pessoa a palavras: “Você é um abacaxi”. “Aquele aluno é
praticar uma ação trabalhosa ou desagradável. um monstro”. “Ele tem uns bons sessenta anos”.
É o caso da mãe que diz à filha que insiste em 2. No emprego expressivo das chamadas figuras
não tomar o remédio: de palavras ou tropos (metáfora, metonímia,
“Olha, filhinha, vamos tomar o remedinho”. etc.) e figuras de pensamento e sentimento
b. o plural de modéstia: o autor, falando de si (antítese, eufemismo, hipérbole, etc.).
mesmo, poderá dizer:
“Nós, ao escrevermos este livro, tivemos em mira Atividade | Leia o poema abaixo e faça uma
análise, considerando um ou mais campo de
Fascículo 3 51

estudo da estilística. noção espiritual, sentimental, do lugar onde se vive


a família. A primeira representação pode repartir-
Valsinha se em várias imagens subsidiárias: a construção da
Vinícius – Chico Buarque casa, a sua situação, a paisagem em redor, a luz ou
sombra de que é banhada, etc; a segunda represen-
Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de tação levar-nos-á a considerar: nosso nascimento,
sempre chegar os afetos, ou desafetos da infância, a nossa educa-
Olhou-a de um jeito muito mais quente do que ção, a harmonia ou desarmonia entre os membros
sempre costumava olhar da família, etc. E estas representações familiares
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito poderão ainda suscitar, por associação, sentimen-
de sempre falar
tos de caráter social: o desabrigo das pessoas que
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande es-
panto convidou-a pra rodar vivem em barracas, a miséria, etc. É nesse sentido
Então ela se fez bonita como há muito tempo não que se diz que numa palavra se podem conter to-
queria ousar dos os fenômenos da vida. O seu poder evocador
Com seu vestido decotado, cheirando a guardado não conhece limites.
de tanto esperar.
Depois os dois deram-se os braços como há muito 8.1. A Significação das Palavras
tempo não se ousava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e A significação das palavras parte do sentido origi-
começaram a se abraçar
nal de onde surgem as várias significações. Pode-se
E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda
despertou afirmar que há tantas palavras quantas as significa-
E foi tanta felicidade que toda cidade se iluminou ções. À variedade de significação das palavras dá-
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos se o nome de polissemia, que é estudada numa
como não se ouviam mais. disciplina filológica, a semântica.
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu 8.2. Valor Sentimental e
Em paz Valor Intelectual das Palavras

Em presença das coisas, o nosso espírito reage da


Texto Complementar seguinte maneira: ou as percebe ou as sente. Quase
dos textos:
sempre essas duas operações, a percepção e o sen-
A estilística através .br/ revista/artigo/7(19)01.
htm
timento, andam ligadas, mas, por via de regra, em
http://www.filologia.org
proposições diferentes. Tomemos como exemplo
os significados dos elementos destacados na série:

a. O lutador erqueu-se belo com uma estátua.


8. A Fantasia das Palavras b. Eram duas raparigas, qual delas a mais formosa.
c. Simples e linda, a noiva saía da igreja.
Lapa (1998) pontua que as palavras reais distin- d. Laura trazia um bonito vestido de seda azul.
guem-se pela força expressiva. Despertam a imagi-
nação das coisas mais energicamente, e essa viagem No primeiro exemplo, belo sugere-nos a ideia de
viva ilumina o pensamento, dispensando outros perfeição e de harmonia de formas e também uma
acessórios de que se serve a frase logicamente cons- certa confiança serena da própria força. No segun-
truída. E como elas podem revestir vários aspectos, do exemplo, formosa evoca apenas a perfeição da
cada um de nós apreende na palavra o seu aspecto forma física. No terceiro exemplo, linda já se car-
pessoal, aquele que particularmente nos interessa. rega de um certo forte matriz sentimental; não é
Já se tem afirmado que, numa simples palavra, se só beleza física, é também mimo, ternura, delica-
pode resumir todo o universo. Quer isso dizer que deza da alma. Enfim, bonito representa a ideia de
um vocábulo pode suscitar uma infinidade de ima- beleza, descida ao plano das coisas familiares. É,
gens e ideias que abrangem todos os domínios do também, um termo afetivo.
pensamento e da vida. Vejamos a palavra lar. Po-
derá apresentar-nos a imagem concreta da casa, do Quanto ao uso dos vocábulos, nota-se que belo é
seu conforto ou desconforto material, ou ainda, a vagamente literário; formosa é vocábulo que só se
52 Fascículo 3

emprega em literatura; lindo pertence à língua cor-


rente e bonito, à linguagem familiar.
Texto Complementar
Atividade | Produza significações a partir das Semântica e estilística
em.htm
palavras: m.br/noronha/grama_s
http://www.micropic.co

a. chave Estilística da palavra.br/vcnlf/anais%20v/civ2_04.htm;


b. chuva http://www.filologia.org
;
c. avião .br/soletras/5e6/01.htm
http://www.filologia.org
d. gás
f. veludo
g. serpente
h. limão

RESUMO
A Morfologia é o estudo da palavra dentro da nossa língua. Os estudos da morfologia se
subdividem em dois: morfologia lexical e morfologia flexional.

Lexema - são morfemas de significação lexical externa, ou seja, o significado está ligado
ao mundo objetivo, indicando o significado da palavra.

Gramema - são morfemas que não constituem, por si só, palavras. São comumente di-
vididos em prefixos, infixos e sufixos, conforme se coloquem, respectivamente, antes do
lexema, no lexema ou depois do lexema ao qual se prendem.

Alomorfes são variantes de um mesmo morfema.

São formas de manifestação dos processos morfológicos: adição, reduplicação, alternân-


cia e subtração.

A estilística consiste no inventário das possibilidades expressivas ou artísticas da lingua-


gem e no uso consciente de tais possibilidades por parte do escritor. Estuda inúmeros
recursos que a língua coloca à disposição dos falantes para expressarem seus estados
afetivos, sua sensibilidade e imaginação. Não se confunde com gramática, retórica ou
análise literária, contudo, com estas se completa.

A expressão traço estilístico refere-se ao conjunto de particularidades do sistema expres-


sivo para eficácia estética. Isso representa a marca de cada autor, o somatório de tudo o
que ele produz em termos de ideal estético, de belo, em seu trabalho, projetando-se em
todos os setores da língua.

Para estudar a expressividade duma língua, a estilística possui campos de investigação,


abrangendo todos os limites da gramática.
Fascículo 3 53

GLOSSáRIO
Morfe - é um segmento de enunciado; uma sequência
fônica a que se pode atribuir significado e que será classifi-
cado posteriormente como morfema. Um morfema é uma
classe de morfes, isto é, cada morfe ou alternante mor-
fêmica é um elemento de um conjunto formador de uma
unidade estrutural, que é o morfema. Qualquer enunciado
é completamente composto de morfes.

REFERÊNCIAs
BECHARA, Evanildo. Moderna gramática por-
tuguesa. 37. ed. Ver. e ampl. Rio de Janeiro:
Lucerna, 2001.

BUARQUE, Chico. Valsinha. Disponível em:


http://letras.terra.com.br/chico-buarque/45186/

FIORIN, José Luiz(org). Introdução à linguística


II: princípios de análise. 4 ed. 1ª reimpressão.
São Paulo: Contexto, 2007.

LAPA, Manuel Rodrigues. Estilística da língua


portuguesa. 4 ed. São Paulo: Martins Fontes,
1998.

LOPES, Edward. Fundamentos da linguística


contemporânea. São Paulo. Editora Cultrix,
1995.

(A obra apresenta uma fundamentação in-


trodutória acerca da ciência do signo verbal.
Dividido em seis partes, o livro começa com a
definição do campo disciplinar e com o exame
da contribuição capital de Ferdinand de Sau-
ssure, para, em seguida, aprofundar-se no
estudo da Fonética e da Fonologia, da Mor-
fologia, das modalidades de Gramática e da
Semântica).
Fascículo 4 55

Variação
Linguística:
Sincronia
e Diacronia
Prof.ª Maria Perpétua Teles Monteiro
Carga Horária | 15 horas
Objetivos Específicos
Destacar a importância dos enfoques sincrônicos e diacrônicos no estudo
dos fatos da língua.
Refletir as relações entre variações linguísticas, língua, sociedade, preconceito
linguístico e ensino de língua portuguesa.

1. Variação Linguística, Sociedade e Preconceito


Você deve ter percebido no fascículo 01, sobre Fonética e Fonologia, quando
apontamos a capacidade que todo usuário de uma língua possui de realizar dife-
rentes modos de falar. Isso acontece, porque as línguas se transformam ao longo
do tempo e, em função do uso próprio por comunidades específicas, adquirem
peculiaridades características de grupos sociais diferentes. Neste fascículo, falare-
mos sobre estas transformações e usos.

Ai! Se sêsse!...
Zé da Luz

Se um dia nós se gostasse;


Se um dia nós se queresse;
Se nós dos se impariásse,
Se juntinho nós dois vivesse!
Se juntinho nós dois morasse
Se juntinho nós dois drumisse;
Se juntinho nós dois morresse!
Se pro céu nós assubisse?
Mas porém, se acontecesse
qui São Pêdo não abrisse
as portas do céu e fosse,
te dizê quarqué toulíce?
E se eu me arriminasse
e tu cum insistisse,
prá qui eu me arrezorvesse
e a minha faca puxasse,
e o buxo do céu furasse?...
Tarvez qui nós dois ficasse
tarvez qui nós dois caísse
e o céu furado arriasse
e as virge tôdas fugisse!!!
56 Fascículo 4

Todos sabem que existe um grande número de nense e também as que têm “r” entre vogais: “cara,
variedades linguísticas, mas, ao mesmo tempo em cera, tora”. Também o “l” (ele), na região de Pato
que se reconhece a variação como um fato, se ob- Branco, PR, que é alveolar, mesmo antes de conso-
serva que a sociedade tem uma longa tradição em ante e no final da palavra. Na região de Pato Bran-
considerar a variação numa escala valorativa, às co, pronuncia-se o “l” de “alto” da mesma forma
vezes até moral, que leva a tachar os usos caracte- que o “l” de “alô,”. Falar o r caipira também não
rísticos de cada variedade como certos ou errados, mostra nada de bom ou de ruim do ponto de vista
aceitáveis ou inaceitáveis, pitoresco, cômicos, etc. da estrutura fonológica da língua, porém considere
este falar fora de sua região.
A esse respeito, como você se sentiu ao
ler o poema de Zé da Luz? O que pode, socialmente, ocorrer ao seu falante?

Considere como se Zé da Luz não fosse um poeta! Embora desde princípios deste século, linguistas,
como Antoine Meillet e Ferdinand Saussure, te-
O latim vulgar foi, numa certa época, considerado nham chegado a configurar a língua como um fato
dialeto das classes pobres, e por isso se despresti- social, rigorosamente enquadrado na definição
giava quem o falava. Ao longo da história, transfor- dada por Émile Durkhein, só nos últimos vinte
mou-se nas línguas românicas, e a sociedade trocou anos, com o desenvolvimento da Sociolinguística,
o latim clássico por essas línguas. Então as línguas as relações entre língua e sociedade passaram a ser
românicas (dentre elas, o português), vindas do la- caracterizadas com maior precisão.
tim vulgar, passaram a exercer a função de línguas
de prestígio na nova sociedade estabelecida. A Sociolinguística, ramo da linguística que estu-
da a língua como fenômeno social e cultural, veio
Essa breve consideração aponta que as línguas, mostrar que estas inter-relações são muito comple-
quando se transformam com o passar do tempo, xas e podem assumir diferentes formas. Na maioria
não se degeneram, não se tornam imperfeitas, es- das vezes, comprova-se uma covariação do fenôme-
tragadas, mas adquirem novos valores sociolinguís- no linguístico e social. Em alguns casos, no entan-
ticos, ligados às novas perspectivas da sociedade, to, faz mais sentido admitir a relação direcional:
que também muda. Nessas transformações, não a influência da sociedade na língua ou da língua
aparece o certo e o errado linguístico, mas o dife- na sociedade.
rente. Certo e errado são conceitos pouco hones-
tos que a sociedade usa para marcar os indivíduos É, pois, recente a concepção de língua como ins-
e classes sociais pelos modos de falar e para revelar trumento de comunicação social, maleável e di-
em que consideração os tem, se são pessoas que versificado em todos os seus aspectos, meio de
gozam de influência ou ocupam posição de prestí- expressão de indivíduos que vivem em sociedades
gio ou não, se exercem o poder instituído ou não. também diversificadas social, cultural e geografica-
Essa atitude da sociedade revela seus preconceitos, mente. Nesse sentido, uma língua histórica não é
pois marca as diferenças linguísticas com marcas um sistema linguístico unitário, mas um conjunto
de prestígio ou estigmas. Isto nos mostra que, se de sistemas linguísticos, isto é, um diassistema no
linguisticamente não existe o certo e o errado, mas qual se inter-relacionam diversos sistemas e subsis-
o diferente, socialmente as coisas não caminham temas. Daí o estudo de uma língua se revestir de
desse modo. Consideremos o “s” falado pelo ci- extrema complexidade, não podendo prescindir
dadão nascido no Rio de Janeiro, no “s” chiante de uma delimitação precisa dos fatos analisados
do carioca, o adjetivo não é depreciativo ao modo para controle das variáveis que atuam, em todos os
de falar e, sim, um termo usado na fonologia – ou níveis, nos diversos eixos de diferenciação. A varia-
fonética – que representa um som cujo ponto de ção sistemática está hoje incorporada à teoria e à
articulação é pré-palatal, como ocorre nas palavras descrição da língua (CUNHA, 1985. p.2-3).
“chá” e “já”. É assim que o carioca pronuncia o
“s”. Mas, essa maneira de falar (variação), como
já vimos, não é única. Destacamos aqui o “r” re- Texto Complementar
troflexo do londrinense quando pronuncia pala- :
Variação linguística
tar ino .blo gsp ot. com
/20 08/ 02/ var iao -
vras como “porta, carne, certo” e do piracicabano htt p:/ /ww w.d ilso nca
quando pronuncia as mesmas palavras do londri- lingstica.html

Preconceito linguísti co:


/
/preconceito-linguistico
http://www.lendo.org
Fascículo 4 57

2. Tipos de Variedades Linguísticas língua, isso porque há uma “tendência” para maior
semelhança entre os atos verbais dos membros de
Segundo Travaglia(2002.p.42), podemos ter basi- um mesmo setor sócio-cultural da comunidade,
camente dois tipos de variedades linguísticas: os geralmente com relações bastante estreitas e inte-
dialetos e os registros. Os dialetos são variedades resses comuns. É por isso que se consideram como
que ocorrem em função das pessoas que usam a variedades dialetais de natureza social os jargões
língua (emissores). Os registros correspondem às profissionais ou de determinadas classes sociais
variedades que ocorrem em função do uso que se bem definidas como grupos.
faz da língua, ou seja, dependem do recebedor, da
mensagem ou da situação. Na variação de natureza social, há inúmeras super-
posições e matizes, o que torna os dialetos sociais
2.1. Variação Dialetal mais difíceis de definir e classificar que os dialetos
regionais. Aqui atuam fatores, como idade, sexo,
Os estudos sobre variação linguística registram, raça, profissão, posição social, grau de escolarida-
pelo menos, seis dimensões da variação dialetal de, local em que reside na comunidade etc.
(variações internas): a territorial, a social, a de ida-
de, sexo, geração e função. 2.1.3. Dialetos na Dimensão Contextual
(Variações Diafásicas)
2.1.1. Dialetos na Dimensão Territorial,
Geográfica ou Regional Constam de tudo aquilo que pode determinar di-
(Variações Diatópicas) ferenças na linguagem do locutor, por influências
alheias a ele, como, por exemplo, o assunto, o tipo
Representam a variação que acontece entre pesso- de ouvinte, o lugar em que o diálogo ocorre e as
as de diferentes regiões em que se fala a mesma relações que unem os interlocutores. Os chamados
língua. Essa variação normalmente acontece fatores contextuais dizem respeito às circunstân-
cias criadas pela própria ocasião, lugar e tempo em
a. pelas influências que cada região sofreu duran- que os atos de fala se realizam e também às relações
te sua formação; que une falante e ouvinte no momento do diálogo.
b. porque os falantes de uma dada região consti-
tuem uma comunidade linguística geografica- 2.2. Variações de Registro
mente limitada em função de estarem polariza-
dos em termos políticos e/ou econômicos e/ou As variações de registro são classificadas em três
culturais e desenvolverem então um comporta- tipos diferentes: grau de formalismo, modo e sin-
mento linguístico comum que os identifica e dis- tonia. O grau de formalismo representa uma escala
tingue. É o caso da diferença entre o português de formalidade como um maior cuidado e apuro.
do Brasil e o português de Portugal e dos países Por variação de modo, entende-se a língua falada
africanos de Língua Portuguesa. Aqui se incluem em contraposição à língua escrita. A sintonia pode
também diferentes falares que encontramos no ser descrita como o ajustamento na estruturação
Brasi, como os falares gaúcho, nordestino, cario- de seus textos feita pelo falante com base nas infor-
ca, o chamado dialeto caipira, etc. mações que se tem sobre o ouvinte.

As diferenças entre a língua em uma região e outra Todas as variedades linguísticas são estruturadas e
normalmente são, em sua grande maioria, diferen- correspondem a sistemas e subsistemas adequados
ças no plano fonético e no plano léxico. As diferen- às necessidades dos usuários. Mas o fato de estar
ças sintáticas, quando existem, normalmente não a língua fortemente ligada à estrutura social e aos
são grandes. sistemas de valores da sociedade conduz a uma ava-
liação distinta das características das suas diversas
2.1.2. Dialetos na Dimensão Social modalidades diatópicas, diastráticas e diafásicas.
(Variações Diastráticas) A língua-padrão, por exemplo, embora seja uma
entre as várias modalidades de um idioma, é sem-
Representam as variações que ocorrem de acordo pre a mais prestigiosa, porque atua como modelo,
com a classe social a que pertence os usuários da como norma, como ideal linguístico de uma comu-
nidade. Do valor normativo decorre a sua função
58 Fascículo 4

coercitiva sobre as outras variedades, com o que se 3. Estudo dos Fatos Linguísticos:
torna uma ponderável força contrária à variação. Perspectivas de Enfoque
Numa língua existe, pois, ao lado da força centrífuga Borba (1986) destaca que os fatos linguísticos po-
da inovação, a força centrípeta da conservação, que dem ser encarados ou estruturados sob três pontos
contrarregrando a primeira, garante a superior uni- de vista: quanto ao seu modo de ser geral, quanto
dade de um idioma como o português, falado por ao seu funcionamento num determinado momen-
povos que se distribuem pelos cinco continentes. to e lugar e quanto às suas transformações e ou à
evolução. No primeiro caso, são considerados em
Nos campos de estudo da variação linguística, con- si mesmos, independentemente de seu funciona-
sidera-se, pois, a variação diacrônica (do grego dia + mento real, porque o interesse está no exame de
kronos = ao longo de, através de + tempo): as diversas suas possibilidades de funcionar; no segundo,
manifestações de uma língua através dos tempos e observam-se fatos ou dados concretos em funcio-
a variação sincrônica (do grego sy’n = simultaneida- namento, e, no terceiro, procura-se detectar as al-
de): as variações num mesmo período de tempo. terações dos fatos com o decorrer do tempo. São
três atitudes que colocam o eixo do tempo como
ponto de partida para a análise. O primeiro enfo-
Texto Complementar que é chamado acrônico, porque faz abstração do
: tempo: descrevem-se ou explicam-se fatos quanto à
Variação linguísticad/tema01/variacao.html sua natureza e função; o segundo enfoque chama-
http://acd.ufrj.br/~pea
se sincrônico, porque se preocupa em descrever o
funcionamento concreto da língua em dado mo-
mento e lugar, isto é, procura conhecer um estado
SAIBA MAIS! da língua; o terceiro enfoque é diacrônico, porque
brasileiro: observa as mudanças que a língua sofre com o de-
O modo de falar do m.b r/portugues/ult1693u60
.jhtm
/ed uca cao .uo l.co
p:/
htt correr do tempo. O estudo acrônico, atendo-se ao
modo de ser dos fatos e sendo atemporal, pode
referir-se ao passado, ao presente ou mesmo prever
(ou predizer) o que acontecerá. Diz-se, então, que
Atividade | Leia o Poema de Patativa do Assa- este ponto de vista examina o mecanismo linguísti-
ré. Como o poeta se sente em relação aos seus co como potencial, como conjunto de possibilida-
versos e à sua linguagem? des ou como uma máquina lógica.

O Poeta da Roça O Postulado básico do enfoque sincrônico é a


simultaneidade dos fatos observados. Por isso,
Sou fio das mata, canto da mão grossa, prende-se a um estado de língua, isto é, a um
Trabáio na roça, de inverno e de estio.
determinado momento, considerado em si mes-
A minha chupana é tapada de barro,
Só fumo cigarro de paia de mío.
mo, como se fosse um corte na evolução natural
Sou poeta das brenha, não faço o papé do sistema. Por estar a língua em movimento
De argun menestré, ou errante cantô constante, um estado absoluto, é praticamente
Que veve vagando, com sua viola, impossível conseguir. Daí que um estado da lín-
Cantando, pachola, à percura de amô. gua não é um ponto fixo, mas espaço de tempo
Não tenho sabença, pois nunca estudei, em que as alterações são mínimas ou irrelevan-
Apenas eu sei o meu nome assiná. tes. Os diferentes componentes do sistema se
Meu pai, coitadinho! Vivia sem cobre, desenvolvem de maneira desigual quer quanto
E o fio do pobre não pode estudá. ao ritmo quer quanto à qualidade. Dessa for-
ma, o espaço de tempo compreendido por um
Meu verso rastero, singelo e sem graça,
Não entra na praça, no rico salão,
estado de língua varia de acordo com o estrato
Meu verso só entra no campo e na roça considerado.
Nas pobre paioça, da serra ao sertão.
(...) A tarefa básica da linguística diacrônica ou
histórica é explicar estados anteriores não sim-
Fascículo 4 59

plesmente para apreender ou recolher infor- 4. A Contribuição de


mações de ordem cultura, mas principalmente Ferdinand de Saussure
para melhor compreender as relações, ou seja,
a estruturação do sistema atual. Não se trata Apresentaremos este tópico à luz de Lopes (1995.
propriamente de descobrir como a língua fun- p. 72-75), em seu trabalho Fundamentos da Lin-
ciona através dos tempos, mas descrever esta- guística contemporânea.
dos sucessivos, compará-los e verificar como a
língua chegou a ser o que é e qual a sua deriva Ferdinand de Saussure nasceu em Genebra, em
ou traços básicos de sua evolução. 26 de novembro de 1857. Em 1880, estabeleceu-se
em Paris, onde frequentou cursos sobre Sânscrito e
Os enfoques sincrônicos e diacrônicos, embora Filologia latina. Em 1881, aos vinte e quatro anos,
tenham traços específicos, não devem ser consi- tornou-se mestre na França. Em 1891, transferiu-se
derados como coisas separadas. Na verdade, esses para onde leciona até a sua morte ocorrida em 1916.
enfoques se completam.
Por muitos anos, Saussure estudou os Nibelungen
e a versificação indo-europeia arcaica, para a com-
Texto Complementar preensão da qual elaborou uma hipótese extrema-
geral:
mente original - a dos anagramas -, que deve ser
Curso de linguística
om/books?hl=pt-BR&
lr=&id=Nsd contada entre as contribuições pioneiras para o
http://books.google.c
0kiUfrlgC&oi=fnd&pg= moderno estudo estrutural da poesia. Mas, apesar
de se haver devotado uma extensa série de interes-
ses no campo da Literatura, Saussure deixou uma
persistente imagem de campeão da separação entre
SAIBA MAIS!
linguística interna (fora do contexto sócio-históri-
Linguística: a.com/portugues/lingui
stica.htm; co) e a linguística externa (a que considera os fato-
http://www.brasilescol res exteriores que condicionam os fenômenos lin-
guísticos). Essa imagem é, no entanto, verdadeira,
apenas parcialmente. Do mesmo modo, é impro-
cedente o sentimento que perdura, ainda hoje, de
Atividade | Considerando os estudos realiza- que a linguística estrutural em geral e a saussuriana
dos, que mensagem Luiz Gonzaga transmite em particular sejam linguísticas antifilológicas.
em sua canção?
É claro que, postas em cotejo as suas contribuições
ABC do Sertão para os diferentes campos das línguas e das letras, o
Luiz Gonzaga que marcará a sua imagem para posteridade serão
as ideias acerca do valor relacional dos elementos
Lá no meu sertão pros caboclo lê linguísticos, da autossuficiência do sistema, da ne-
Têm que aprender um outro ABC cessidade de se dissociar uma linguística dos esta-
O jota é ji, o éle é lê dos (sincrônica) do âmbito da linguística evolutiva
O ésse é si, mas o érre (diacrônica), da natureza do signo e da distinção
Tem nome de rê langue/parole (língua/fala). Essas ideias deram
Até o ypsilon lá é pissilone origem à linguística estrutural clássica e, ao mesmo
O eme é mê, O ene é nê tempo, à fase contemporânea dessa ciência.
O efe é fê, o gê chama-se guê
Na escola é engraçado ouvir-se tanto “ê”
A, bê, cê, dê,
Texto Complementar
Fê, guê, lê, mê,
ussure:
Nê, pê, quê, rê, A contribuição de Sa do.nom.br/texto.php?
tipo=misce
Tê, vê e zê. http://www.cezar.azeve
lania&id=443
_linguisti
.br/linguistica/curso_de
http://www.jackbran.pro
ca_geral.htm

portuguesa:
Saussure e a língua.br/viisenefil/09.htm
http://www.filologia.org
60 Fascículo 4

Atividade | Amplie suas leituras sobre a do que temos chamado de linguística externa.
contribuição de Saussure para os estudos da
fonética e da fonologia e apresente em um Além disso, a limitação no tempo não é a única
texto argumentativo. dificuldade que encontramos na definição de um
estado de língua; o mesmo problema se coloca a
propósito do espaço. Em suma, a noção de estado
5. Linguística Sincrônica: de língua não pode ser senão aproximativa. Em lin-
guística estática, como na maior parte das ciências,
Generalidades nenhuma demonstração é possível sem uma sim-
plificação convencional dos dados.
O objeto da linguística sincrônica geral é estabe-
lecer os princípios fundamentais de todo sistema De um modo geral, é muito mais difícil fazer lin-
idiossincrônico, os fatores constitutivos de todo guística estática que histórica. Os fatos de evolução
sistema da língua. À sincronia pertence tudo o que são mais concretos; falam mais à imaginação; as
se chama gramática geral, pois é somente pelos es- relações que neles se observam se estabelecem em
tados de língua que se estabelecem as diferentes termos sucessivos que são percebidos sem dificul-
relações que incumbem à gramática. dade. Mas a linguística, que se ocupa de valores e
relações coexistentes, apresenta dificuldades bem
Na prática, um estado de língua não é um ponto, maiores (Saussure apud Bally, 1995).
mas um espaço de tempo mais ou menos longo,
durante o qual a soma de modificações ocorridas
é mínima. Pode ser de 10 anos, uma geração, um
século e até mais. Uma língua mudará pouco, du- Texto Complementar
MO-
rante um longo intervalo, para sofrer, em seguida, /doc/2 063971/ESTRUTURALIS
http://www.scribd.com
transformações consideráveis em alguns anos. De LINGUISTICO
duas línguas coexistentes num mesmo período,
uma pode evoluir muito e outra quase nada; neste
último caso, o estudo será necessariamente sincrô- Atividade | Defina linguística sincrônica e
nico; no outro, diacrônico. Um estado absoluto se apresente seus objetivos.
define pela ausência de transformações e como,
apesar de tudo, a língua se transforma, por pouco
que seja estudar um estado de língua vem a ser,
praticamente, desdenhar as transformações pouco 6. O Valor Linguístico:
importantes, do mesmo modo que os matemáticos A Língua como Pensamento
desprezam as quantidades infinitesimais em certas Organizado na Matéria Fônica
operações, tal como no cálculo de logaritmos.
Para compreender por que a língua não pode ser
Na história política, distingue-se a época que é um senão um sistema de valores puros, basta conside-
ponto de tempo, e o período que abarca certa du- rar os dois elementos que entram em jogo no seu
ração. No entanto, o historiador fala da época dos funcionamento: as ideias e os sons. Psicologica-
antônimos, da época das cruzadas, quando con- mente, nosso pensamento não passa de uma massa
sidera um conjunto de caracteres que permane- amorfa e indistinta. Filósofos e linguistas sempre
ceram constantes durante esse tempo. Poder-se-ia concordaram em reconhecer que, sem o recurso
dizer também que a linguística estática se ocupa de dos signos, seríamos incapazes de distinguir duas
épocas; mas estado é preferível; o começo e o fim ideias de modo claro e constante. Tomado em si,
de uma época são geralmente marcados por uma o pensamento é como uma nebulosa em que nada
revolução mais ou menos brusca, que tende a mo- está necessariamente delimitado. Não existem
dificar o estado de coisas estabelecido. A palavra ideias preestabelecidas, e nada é distinto antes da
estado evita fazer crer que ocorra algo semelhan- língua. A substância fônica não é mais fixa nem
te na língua. Ademais, o termo época, justamente mais rígida; não é um molde a cujas formas o pen-
por ser tomado à História, faz pensar menos na samento deve necessariamente acomodar-se, mas,
língua em si que nas circunstâncias que a rodeiam uma matéria plástica que se divide, por sua vez, em
e condicionam; numa palavra, evoca antes a ideia partes distintas, para fornecer os significantes dos
Fascículo 4 61

quais o pensamento tem necessidade. Podemos, sincrônico, e os princípios obtidos a propósito das
então, representar o fato linguístico em seu con- palavras serão válidos para as entidades em geral
junto, isto é, a língua como uma série de subdi- (Saussure in Bally, 1995. p. 130-134).
visões contíguas marcadas simultaneamente sobre
o plano indefinido das ideias confusas e sobre o Atividade | Explique a arbitrariedade do sig-
plano não menos indeterminado dos sons. O pa- no linguístico.
pel característico da língua frente ao pensamento
não é o de criar um meio fônico material para a
expressão das ideias, mas o de servir de interme- Texto Complementar
diário entre o pensamento e o som, em condições
Linguagem – Atividbr/ ade Constitutiva: vistas/ilari.
tais que uma união conduza necessariamente a de- w.le tra s.u fpr. documentos/pdf_re
http://ww
limitações recíprocas de unidades. O pensamento, pdf
rariedade_
caótico por natureza, é forçado a precisar-se ao se t/edtl/verbetes/A/arbit
http://www2.fcsh.unl.p
decompor. Não há, pois, nem materialização de signo.htm
flexaoed
pensamento nem espiritualização de sons; trata- .br/ed39/teoriasignosre
http://www.partes.com
se de o “pensamento-som” implicar divisões e de 39.htm
a língua elaborar suas unidades, constituindo-se
entre duas massas amorfas. Imaginemos o ar em
contato com uma capa de água: se muda a pres-
são atmosférica, a superfície da água se decompõe 7. Linguística Diacrônica:
numa série de vagas divisões; são estas ondulações
que darão uma ideia da união e, por assim dizer,
Generalidades
do acoplamento do pensamento com a matéria fô-
A linguística diacrônica estuda não mais as rela-
nica. A língua é comparável a uma folha de papel:
ções entre os termos coexistentes de um estado de
o pensamento é o anverso, e o som o verso; não se
língua, mas entre termos sucessivos que se subs-
pode cortar um sem, ao mesmo tempo, cortar o
tituem uns aos outros. Toda a fonética constitui
outro; assim, tampouco na língua se poderia isolar
o primeiro objeto da linguística diacrônica; com
o som do pensamento, ou o pensamento do som;
efeito, a evolução dos sons é incompatível com a
só se chegaria a isso por uma abstração cujo resulta-
noção e o estado; comparar fonemas ou grupo de
do seria fazer Psicologia pura ou Fonologia pura. A
fonemas com o que foram anteriormente equivale
linguística trabalha, pois, no terreno limítrofe em
a estabelecer uma diacronia. A época anteceden-
que os elementos das duas ordens se combinam;
te pode ser mais ou menos próxima; mas, quando
esta combinação produz uma forma, não, uma
uma e outra se confundem, a fonética deixa de in-
substância. Não só os dois domínios ligados pelo
tervir; só resta a descrição dos sons de um estado
fato linguístico são confusos e amorfos como a es-
de língua, e compete à fonologia levá-la a cabo.
colha que se decide por tal porção acústica para tal
ideia é perfeitamente arbitrária. Se esse não fosse o
O caráter diacrônico da Fonética concorda muito
caso, a noção de valor perderia algo de seu caráter,
bem com o princípio de que nada do que seja fo-
pois conteria um elemento imposto de fora. Mas,
nético é significativo ou gramatical no sentido lato
de fato, os valores continuam a ser inteiramente
do termo. Para fazer a história dos sons de uma pa-
relativos, e eis porque o vínculo entre a ideia e o
lavra, pode-se ignorar-lhe o sentido, considerando-
som é radicalmente arbitrário.
lhe apenas o invólucro material, e cortar frações
fônicas sem perguntar se elas têm significação
A ideia de valor assim determinada nos mostra que
(SAUSSURE).
é uma grande ilusão considerar um termo simples-
mente como a união de certo som com um certo
No entanto, a língua altera-se no tempo, mas não
conceito. Não podendo captar diretamente as enti-
por causa dele. Na verdade, há fatores intrínsecos
dades concretas ou unidades da língua, trabalha-se
(fatores ligados às próprias condições de funciona-
sobre as palavras. Estas, sem recobrir exatamente
mento da língua: pressões internas, existências de
a definição da unidade linguística, dão dela uma
lacunas estruturais ou de unidades mal integradas
ideia, pelo menos, aproximada, que tem a vanta-
que possibilitam a passagem gradual de um esta-
gem de ser concreta sendo tomadas, pois, como es-
do a outro) e extrínsecos (fatores ligados ao uso: as
pécies equivalentes aos termos reais de um sistema
62 Fascículo 4

vinculações estruturais, o modo como os falantes português e sua relação com a ortografia. As téc-
falam, o ambiente, os contactos culturais com ou- nicas de análise fonológica, aliadas a uma boa des-
tras línguas, o isolamento). crição fonética permitem, também, ao educador
entender de fato o que acontece com os proble-
A tarefa básica da linguística diacrônica é explicar mas de fala e escrita, como permitem ainda a ela-
estados anteriores para melhor compreender a es- boração de atividades que facilitem o processo de
truturação do sistema atual. A descrição de estados aprendizagem por parte dos alunos, que passarão
anteriores é viável, embora mais difícil. Os estudos a receber uma melhor explicação de como a fala, a
diacrônicos começam pela descrição de estados an- escrita, a leitura e a língua funcionam.
teriores, ou seja, pela sincronia. Primeiro se faz a
descrição sincrônica e depois se determina a evolu-
ção pela comparação dos estágios. Texto Complementar
ncia fonológica em
Para se descobrir por que as línguas mudam atra- Avaliação da consciê
vés do tempo, é importante estabelecer uma suces- crianças: pdf
a/revista53/Artigo%201.
vist
são cronológica de fatos capaz de colocá-los numa http://www.cefac.br/re
-
verdadeira perspectiva histórica. Isto tudo leva a perceberem fatos lin
Da relevância de se
concluir que não interessa ao historiador da língua rários:
guísticos em textos lite
a consideração de fatos isolados ou as alterações .br/revista/34/04.htm
http://www.filologia.org
ocasionais causadas pela própria instabilidade da
fala. Portanto, a linguística histórica pode ser feita
em duas direções: partir dos estudos dos fatos atu-
ais e ir recuando no tempo até a reconstrução dos Atividade | Realizar entrevista com profes-
estados mais antigos ou começar pela observação sores da Educação Fundamental sobre a im-
de dados bem recuados no tempo até chegar aos portância da fonologia para o ensino de língua
estágios mais recentes (BORBA, 1986). portuguesa e para o aprendizado dos alunos.

Atividade | Defina linguística diacrônica e


apresente seus objetivos.
SAIBA MAIS!
ologia sincrônica
8. Fonologia na Escola A importância da fon
nia:
no estudo da diacro.br/ 01.
viiicnlf/anais/caderno10-
http://www.filologia.org
Cagliari(1997) propõe esta reflexão, consideran- html
a lín-
do que o que se ensina de fonologia na escola é ciência, que estuda
Sociolinguística é a de su a est rei ta li-
ectiva
desastroso, tanto nos livros didáticos e gramáti- gua a partir da persp a. Para
de onde se origin
cas quanto nas incompreensões sobre a realida- gação com a socieda en qu an to in-
língua existe
de da língua. Se o objetivo da escola é o de ensi- a sociolinguística, a tra ns for ma nd o- se
do-se e
teração social, crian -hi stó ric o.
nar como o português funciona, ampliando esse em função do contexto
só cio
ensino aos usos linguísticos, ela deve ensinar ao ero1/02.
rg.br/abf/volume2/num
aluno fonética e fonologia também. As noções bá- http://www.filologia.o
htm
sicas de fonética, fonologia e variação linguística, LRyi0C&p
om.br/books?id=ejRbuF
apresentadas durante a disciplina, são de elevada http://books.google.c =o+que+%C3%A9+morfofon%
dq
g=PA62&lpg=PA62& =bl&ots=ZwFvrRvRhk&sig=npc
rce
importância para o educador que, empregando-as, C3%AAmica%3F&sou I1AsStn0Fa
HsqFc&hl=pt-BR&ei=
zaLIs8GcprjQ6moNbvP boo k_resu lt&ct=result&resnu
poderá realizar atividades que motivem o aluno, TwMsGmvMkJ& sa= X& oi=
além de ensinar como certos fatos da língua fun- m=4#PPA62,M1
cionam, por exemplo, a noção de oposição, de va-
riação, de sistema, os testes de mutação, a noção
de valor linguístico, podem ser úteis na tarefa de
ensino da língua ao seu falante. Um professor ou
professora, de posse de conhecimentos fonológi-
cos, pode propor aos seus alunos atividades para
mostrar como funciona o sistema de escrita do
Fascículo 4 63

RESUMO
Toda língua possui um grande número de variedades. Essas variedades ocorrem devido
às transformações que as línguas sofrem, não significando para estas imperfeição ou
degeneração.

Pode-se apresentar basicamente dois tipos de variedades linguísticas: os dialetos(variações


diatópicas, diastráticas e diafásicas) e os registros (graus de formalismo, modo e sintonia).

Os fatos linguísticos podem ser estruturados sob três pontos de vista: acrônico , sincrônico
e diacrônico.

A linguística estrutural clássica tem sua origem nas ideias de Saussure, que se mantêm na
fase contemporânea desta.

A linguística diacrônica estuda as relações entre os termos sucessivos que se substituem


uns aos outros ao longo do tempo.

A linguística sincrônica estuda as relações entre os termos coexistentes de um estado de


língua.

As noções básicas de fonética e fonologia permitem ao educador e ao educando com-


preender como certos fatos da língua funcionam, instrumentalizando-os na conquista da
participação, no processo de transformação social.

REFERÊNCIAS
BALLY, Charles&SECHEHAYE, Albert(org). Ferdi- uma proposta para o ensino de gramática no 1º
nand de Saussure - Curso de Linguística geral. e 2º graus. 8 ed. São Paulo: Cortez, 2002.
Tradução de Antônio Chelini, Paulo Paes e Iz-
idoro Blikstein. São Paulo: Ed. Cultrix, 1995.

BORBA, Francisco da Silva. Introdução aos es-


tudos linguísticos. 9 ed. São Pulo: Editora Na-
cional, 1986.

CAGLIARI, Luiz Carlos. Alfabetização e Lin-


guística. São Paulo: Scipione, 1997.

CUNHA, Celso; CINTRA, Lindley. Nova


Gramática do Português Contemporâneo. Rio
de Janeiro. Editora Nova Fronteira, 1985.

DINO, Pretti. Sociolinguística. Os níveis da fala.


Ed. Nacional, 1987.

LOPES, Edward. Fundamentos da linguística


contemporânea. São Paulo: Ed. Cultrix, 1995.

TRAVAGLIA, Luiz Carlos. Gramática e Interação: