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Revista Filosofia Capital


ISSN 1982 6613 Vol. 8, Edição 15, Ano 2013.

NIETZSCHE E A INTUIÇÃO PSICOLÓGICA


COMO MÉTODO PARA A COMPREENSÃO DA
TIPOLOGIA EXISTENCIAL DA PERSONALIDADE
DE JESUS

NIETZSCHE AND PSYCHOLOGICAL INTUITION AS


A METHOD FOR UNDERSTANDING THE TYPE OF
PERSONALITY OF JESUS EXISTENCIAL

BITTENCOURT, Renato Nunes1

RESUMO
Neste artigo analisamos de que maneira Nietzsche estabelece sua insólita investigação sobre o
tipo psicológico de Jesus através de um viés intuitivo, alheio aos parâmetros historiográficos e
filológicos próprios da pesquisa teológica moderna, considerados falhos em decorrência das
camadas hermenêuticas que os textos evangélicos receberam ao longo das eras.
Palavras-Chave: Cristologia; Psicologia; Filologia; Idiotia.

ABSTRACT
In this article we analyze how Nietzsche establishes his unusual research about psychological
type of Jesus through an intuitive bias, oblivious to the Philological and historical parameters
of modern theological research, considered flawed due to the layers that Evangelical
hermeneutics received throughout the ages.
Keywords: Christology; Psychology; Philology; Idiocy.

1
Doutor em Filosofia pelo PPGF-UFRJ / Professor do Curso de Comunicação Social da Faculdade CCAA. E-mail:
renatonunesbittencourt@yahoo.com.br.

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Introdução se caracteriza pela supressão de todo apego


Um dos pontos cruciais da aos dados fatuais em prol da capacidade de
construção axiológica da filosofia de se detectar os traços atemporais presentes
Nietzsche se dá através da crítica radical ao no modo de ser de Jesus.
entrelaçamento entre moral e religião, em A cristologia oitocentista pela qual
especial na configuração cristã, modelo Nietzsche delineia seu eixo crístico
mais acabado de negação da existência e estabelece contra a obra de David Strauss
repressão aos instintos vitais do ser um radical contraponto axiológico; para
humano. Todavia, circunstância insólita David Strauss, os evangelhos são relatos
para aqueles que se apropriam das críticas míticos, não são relatos frutos do engano,
nietzschianas ao establishment cristão como mas frutos de imaginação mítica que cria
forma de sustentarem axiologicamente suas uma narração para transmitir uma ideia.
próprias disposições iconoclastas reside na Isso não afeta o núcleo da fé cristã: a
proposta filosófica de Nietzsche em humanidade de Deus, segundo ele. Os
seccionar rigorosamente a obra evangélica evangelhos são, portanto, dirigidos para a fé
de Jesus na sua configuração crística e não possuem fiabilidade histórica; é
originária das suas apropriações impossível reconstruir a vida de Jesus de
institucionais, teológicas e morais Nazaré. Para Renan, outro interlocutor ao
posteriores, que promoveram assim a qual Nietzsche apresentará críticas
corrupção da mensagem beatífica de Jesus. incisivas, apesar de Strauss ter feito
A figura de Jesus recebe a problematização importantes e inegáveis avanços na crítica
nietzschiana mais elaborada nas páginas de dos textos evangélicos, ele não pôde se
O Anticristo, obra que se caracteriza pela desvencilhar do seu ranço teológico,
distinção axiológica entre a doutrina ficando preso a uma análise
evangélica originária, regida pela afirmação caracteristicamente fundamentada no
imanente da beatitude, e a moral cristã, pietismo, da qual Renan buscará, a todo
nascida da degradação daquela experiência custo, se libertar. Portanto, Renan informa,
sagrada praticada por Jesus. desde a Introdução de sua Vida de Jesus [o
primeiro volume da série História das
A elaboração da “Psicologia do Origens do Cristianismo] é uma réplica aos
Redentor” pelo método intuitivo equívocos cometidos na Vida de Jesus de
A proposta de Nietzsche em O Strauss. Todavia, conforme o juízo
Anticristo não consiste de modo algum na nietzschiano, Renan incorreria em outras
apresentação histórica da vida de Jesus, falhas interpretativas, considerando de um
projeto que se revelaria inevitavelmente modo geral Jesus sob a perspectiva de um
fadado ao malogro, uma vez que as fontes herói romântico, carecendo de uma genuína
historiográficas e documentos bíblicos que compreensão do tipo psicológico de Jesus,
versam sobre a “vida” de Jesus são frutos circunstância que faria com que o
de manipulações paulatinas no decorrer das historiador francês recebesse as críticas de
eras, assim como sofreram influências Nietzsche:
tendenciosas dos seus seguidores,
impossibilitando uma análise crítica precisa Renan – Teologia, ou a corrupção da
sobre a personalidade de Jesus; entretanto, razão pelo “pecado original” (o
se o método historiográfico apresenta suas cristianismo). Testemunha disso é
falhas naturais, haveria a possibilidade de Renan, que, quando arrisca um Sim
ou um Não de natureza mais geral,
se contornar essa aporia através da ousada erra o alvo com penosa regularidade.
utilização do método psicológico no estudo Ele gostaria, por exemplo, de unir la
da tipologia evangélica de Jesus, opção que science e la noblesse: mas a science é

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coisa da democracia, isso é algo bem Que os evangelhos são uma parte
palpável. Ele deseja, com ambição lendários, isso é evidente, porque
nada pequena, representar um estão cheios de milagres e de
aristocratismo do espírito: mas, ao sobrenatural; mas há lendas de lendas.
mesmo tempo, põe-se de joelhos ante Ninguém duvida das passagens
a doutrina oposta, o évangile des principais da vida de São Francisco de
humbles, e não apenas de joelhos... De Assis, embora a sua vida apresente a
que serve todo o livre-pensamento, cada passo o sobrenatural (RENAN,
toda a modernidade, zombaria e Vida de Jesus, Introdução, p. XVII-
volúvel flexibilidade, se em suas XVIII).
entranhas o indivíduo permanece
cristão, católico e até sacerdote! Em linhas gerais, é importante
Renan tem sua inventividade na destacar que no decorrer de O Anticristo
sedução, exatamente como um jesuíta Nietzsche explicita as suas divergências
e um confessor; à sua espiritualidade hermenêuticas com a cristologia de Renan,
não falta o amplo sorriso de padre – mas quando faz uso positivo das ideias
como todo sacerdote, ele se torna
perigoso apenas quando ama
renanianas não se preocupa em demonstrar
(NIETZSCHE, Crepúsculo dos o quão foi influenciado pelo pesquisador
Ídolos, “Incursões de um francês. Cabe ressaltar que essa
extemporâneo”, § 2). circunstância seria repetida por Nietzsche
na sua conflituosa relação teórica com a
Depurada das suas agregações obra cristológica de Tolstói: apesar de
discrepantes, forma-se assim um método criticar as disposições compassivas do
interpretativo insólito sobre a o sentido da escritor e demonstrar aversão ao cunho
vida e da obra evangélica de Jesus. Eis escatológico dos seus textos apologéticos
então as condições pelas quais seria da “genuína mensagem cristã”, Nietzsche
elaborada a “Psicologia do Redentor” realiza os recortes considerados
proposta por Nietzsche, em sua busca da convenientes para o reforço teórico e
compreensão sobre a personalidade de argumentativo das suas reflexões, sem que,
Jesus: todavia, se preocupe em citar com precisão
as fontes utilizadas. 2
O que me importa é o tipo psicológico
do Redentor. Afinal, ele pode estar 2
No § 7 de O Anticristo, Nietzsche faz referência ao
contido nos evangelhos apesar dos problema da decadência vital motivada pela compaixão
evangelhos, ainda que mutilado ou cristã, incluindo Tolstói como um dos escritores modernos
carregado de traços alheios: como o que demonstram essa disposição ética em suas obras.
Todavia, apesar dessa divergência axiológica, há pontos
de Francisco de Assis está conservado em comum fundamentais entre ambos. Comparemos os
em suas lendas, apesar de suas lendas. escritos dos dois autores: “Cristo pedia realmente a seus
Não a verdade quanto ao que fez, o discípulos que aceitassem os preceitos do Sermão da
que disse, como realmente morreu; Montanha? Então pode ou não o cristão participar da
mas a questão de o seu tipo ser justiça, seja como juiz, seja como acusador, o que se
constitui numa apelação à força? Pode ele ou não,
concebível, de haver sido permanecer cristão, participar da administração, isto é,
“transmitido” (NIETZSCHE, O usar da força contra seus semelhantes? E enfim, pergunta
Anticristo, § 29). mais importante, a que, com o serviço militar obrigatório,
interessa hoje a todos: pode o cristão, contrariamente à
indicação tão precisa de Cristo, servir o exército e assim
Curiosamente, a leitura atenta do cometer homicídio ou preparar-se para tal?” (TOLSTÓI,
fragmento anterior evidencia o quão O Reino de Deus está em vós, p. 56). “Para onde foi o
Nietzsche foi influenciado pela Vida de último sentimento de decência, de respeito de si mesmo,
se até os nossos estadistas, homens bastante
Jesus de Renan: desembaraçados e perfeitamente anticristãos nos atos,
ainda se denominam cristãos e recebem a comunhão?...
Um jovem príncipe, à frente do seu regimento, magnífico
como expressão do egoísmo e da soberba de seu povo –

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Para Nietzsche, a historiografia usual Como podem lendas de santos ser
encontra-se impedida de analisar denominadas “tradição?” As histórias
objetivamente os “fatos”, visto que os de santos são a literatura mais
documentos que testemunham os eventos equivoca existente: aplicar-lhes o
do nascimento do Cristianismo são a prova método cientifico, na ausência de
quaisquer outros documentos, parece-
mais cabal das adulterações operadas em me de antemão condenado ao fracasso
torno da figura de Jesus. Dessa maneira, é – mero ócio erudito... (NIETZSCHE,
tecnicamente impossível analisá-los com os O Anticristo, § 28).
instrumentos científicos da atividade
historiográfica: Nessas condições, poderíamos
indagar: qual a confiabilidade científica que
existe nas narrativas evangélicas que nos
mas, sem nenhum pudor, confessando-se cristão!... A
quem o cristianismo nega, então? O que chama de foram legadas pela instituição cristã? A
“mundo‟? ser soldado, juiz, patriota; defender-se; zelar por rigor, poder-se-ia afirmar que nenhuma,
sua honra; querer sua vontade; ser orgulhoso... Toda pois a caracterização de Jesus foi distorcida
prática de todo momento, todo instinto, toda valoração que
se torna ato é anticristã atualmente: que aborto de por diversos interesses particulares (acima
falsidade deve ser o homem moderno, se apesar de tudo de tudo interesses morais, teológicos e
não se envergonhar de ainda chamar-se cristão!” políticos). A adesão ao cerne dos
(NIETZSCHE, O Anticristo, § 38). O Cristianismo
também é possível em cada momento... Não está preso a Evangelhos, portanto, deve ocorrer
nenhum dos dogmas desavergonhados que se adornaram especificamente por um primado de fé, e
com seu nome: não necessita nem da doutrina do Deus não por um convencimento erudito, por
pessoal, nem da doutrina do pecado, da imortalidade, da
salvação, nem da doutrina da fé. Ele simplesmente não persuasão teológica.
precisa de nenhuma metafísica, menos ainda do ascetismo, Tal circunstância, todavia, não
menos ainda de uma “ciência da natureza” cristã... [O impede o uso positivo da técnica filológica
Cristianismo é uma práxis, não uma doutrina religiosa. Ele
nos diz como agir, não em que devemos crer.] Quem na decifração dos sentidos múltiplos
dissesse nos dias de hoje “eu não quero ser um soldado”, subjacentes a um texto. Não se pode
“eu não me importo com os tribunais”, “os serviços da pretender realizar uma análise fidedigna dos
polícia não têm qualquer utilidade para mim”, “eu não
quero fazer nada que perturbe a minha paz interior: e se eu textos bíblicos, pois estes foram
tiver de sofrer por isso, nada conservará mais a paz para continuamente manipulados no decorrer da
mim do que o sofrimento” – este seria cristão... história da religiosidade judaico-cristã,
(NIETZSCHE, KSA XIII Fragmento Póstumo 11[365], p.
161-162). “O Cristianismo é possível como forma de assim como as perdas acidentais e
existência estritamente privada; ele pressupõe uma vicissitudes naturais sofridas por esses
sociedade estreita, desterrada, perfeitamente apolítica, - documentos ao longo das eras. Conforme
ele pertence ao conventículo. Um “Estado cristão”, uma
“política cristã” é, pelo contrário, um descaramento, uma argumentam Ernani Chaves e Allan Sena,
mentira, algo como um comando militar cristão, que por
fim tratasse o “Deus dos exércitos” como um comandante- No que se refere à análise dos
em-chefe do estado-maior. Mesmo o papado não esteve Evangelhos, Nietzsche afasta qualquer
jamais em condições de realiza uma política cristã...; e
quando os reformadores põem em prática a política, como
possibilidade de se aplicar os
Lutero, sabe-se perfeitamente que eles são seguidores de instrumentos científicos de que a
Maquiavel, exatamente como quaisquer imoralistas ou história dispõe com vistas a esse
tiranos” (NIETZSCHE, KSA XII Fragmento Póstumo objetivo, porquanto a linguagem dos
10[135], p. 532).“O cristão torna-se cidadão, soldado, textos evangélicos não pode ser
homem da lei, trabalhador, comerciante, erudito, teólogo,
sacerdote, filósofo, fazendeiro, artista, patriota, político, corretamente interpretada pelo
“príncipe”... assume de novo todas as atividades que havia raciocínio lógico, pois aqui se trata de
abjurado (- a autodefesa, o julgamento, a punção, o “lendas de santos”, que não se
juramento, a distinção entre povo e povo, o desprezo, o ajustam a um recorte científico
irritar-se...) Toda a vida do cristão é por fim, precisamente,
a vida que Cristo pregou que se devia renunciar... A Igreja,
qualquer. Ademais, os Evangelhos só
tanto quanto o Estado moderno e o nacionalismo, pertence podem ser utilizados como
ao triunfo do anticristão... A Igreja é o Cristianismo documentos comprobatórios naquilo
tornado bárbaro” (NIETZSCHE, KSA XIII, Fragmento que se refere à desmedida falsificação
Póstumo 11[364], p. 160-161).

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da verdadeira história do cristianismo É possível reconstruir o tipo
no interior da comunidade cristã psicológico do Jesus histórico apenas
inicial responsável pela sua redação porque os relatos sobre a sua “Boa
(CHAVES & SENA, “Nem gênio, Nova” não conseguiram encobrir
nem herói: Nietzsche, Renan e a totalmente as marcas da sua própria
figura de Jesus”, In: Revista de falsificação. Os Evangelhos devem
Filosofia PUC-PR, v. 21 n. 29, 2008, ser tratados como depoimentos de
p. 325). réus suspeitos, não como relatos
fidedignos de fatos e ditos (LOPES,
O que está em questão é tão somente Elementos de Retórica em Nietzsche,
a pretensão erudita de se descobrir a p. 147).
“verdade” de um acontecimento a partir de
sua análise racional-conceitual mediante o A motivação maior para Nietzsche
uso de mecanismos técnicos. Portanto, não descartar o cerne dos eruditos estudos
se trata de negar a importância da filologia teológicos de tais autores residiria na
para a compreensão da pletora de ausência de uma compreensão psicológica
valorações de um texto antigo, do qual não da tipologia crística, circunstância que, se
temos mais as particularidades do momento porventura não retira a qualidade literária e
“histórico” em que o texto foi criado, como, intelectual de tais obras, impedi-las-ia, por
por exemplo, compreender os pormenores sua vez, de fornecer uma base hermenêutica
semânticos de um texto, a fim de se evitar plenamente confiável acerca da experiência
possíveis manipulações; todavia, toda evangélica de Jesus em sua expressão mais
interpretação é uma “manipulação”, pois pura.
não existe o “texto em si”, assim como uma Nessas circunstâncias, não é o estudo
interpretação puramente objetiva. Porém, dos textos sagrados (a “erudição”) que
ao menos se pode visar o estabelecimento permite a compreensão de como foi
de uma interpretação forte, que promova a possível haver um tipo psicológico tal como
potência da vida, e que permita a ampliação o vivido por Jesus, mas sim a “intuição”,
do campo de interpretações do objeto de processo que transcende a racionalidade
estudo. formal; a intuição, por ser de natureza
Essa proposta hermenêutica de atemporal, permitiria a percepção imediata
Nietzsche está em absoluta consonância da psicologia crística, estabelecendo uma
com sua crítica ao historicismo oitocentista, conexão imediata com a mente beatífica de
ou seja, da concepção de história Jesus. Analisado pela ótica do rigorismo
compreendida como análise científica dos científico, o citado posicionamento
fatos do passado, empreendida desde a interpretativo optado por Nietzsche seria
Segunda consideração extemporânea. considerado um avilte contra a
Nietzsche, portanto, realiza uma análise da racionalidade discursiva e os seus métodos
tipologia psicológica de Jesus mediante um formalistas para a obtenção da “verdade”
surpreendente aparato intuitivo, dos fatos. No contexto das narrativas
descaracterizando a contribuição da evangélicas, como podemos seccionar
teologia e das contribuições historiográficas precisamente aquilo que é fatual e aquilo
para tal intento, por considerar que tais que é fantasioso? Por se tratar da vivência
recursos, ao invés de permitirem a do sagrado, as fronteiras entre o real e o
revelação límpida do sentido originário da simbólico se confundem em qualquer
obra evangélica de Jesus, acabam na narrativa religiosa sem que exista qualquer
verdade obscurecendo essa realidade precisão técnica.
primordial. Conforme a interpretação de Para compreendermos o sentido de
Rogério Antônio Lopes, um texto bíblico, é conveniente sabermos se
os documentos que dispomos são originais

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ou cópias; no caso de serem cópias, se Nietzsche: filologia e genealogia”, In:
trazem ou não erros de transcrição e se Nietzsche Hoje?, p. 113)
estes foram deliberados ou involuntários,
assim como é necessário também saber Toda interpretação é arbitrária, pois
quando e por quem foram escritos, um texto que revele por si só o seu
determinando-se assim a sua proveniência. significado não existe; entretanto, ao menos
Nietzsche continuamente defende a ideia de se pode visar o estabelecimento de uma
que se deve aprender a arte de “ler bem” interpretação forte, que promova o
qualquer texto, e por essa expressão desenvolvimento das condições de vida. A
destacada podemos entender a leitura casta sacerdotal exerce sob qualquer
cuidadosa, paciente, reflexiva, não como documento sob o qual ela detém alguma
um ofício em si mesmo, mas como uma autoridade normativa a ideia de
forma de se evitar a perda do conteúdo univocidade textual, para que ninguém mais
semântico e axiológico de qualquer lhe possa fornecer novos sentidos e
documento textual: “A Filologia, numa interpretações, retirando assim a autoridade
época em que se lê demais, é a arte de cristalizada estabelecida sobre esse
aprender e de ensinar a ler. Somente o documento sagrado.
filólogo lê certamente e medita horas sobre Dessa maneira, para a consecução do
seis linhas”. 3 projeto nietzschiano de compreender o
A moral normativa deve ser âmago da genuína experiência crística não
interpretada sob a ótica axiológica da vida e há qualquer dependência em relação às
da sua singularidade, mas a decifração do categorias cristológicas atribuídas tanto
seu código universalista e seu projeto de pela tradição teológica, em decorrência das
adestramento civilizatório do homem se dá suas indissociáveis valorações morais e
mediante a perspectiva filológica. Para Éric teleológicas, como dos estudos teológicos
Blondel, oitocentistas, eivados de concepções
românticas desprovidas de agudeza
A moral, portanto, é um texto para o psicológica. Podemos considerar que o fato
filólogo. Mas que forma lingüística a de se considerar o desenvolvimento de uma
falsificação, a maquilagem interpretação cristológica pautada na
(Zurechtmachen), os decretos e exegese filológica e metodológica como a
apropriações arbitrários, única forma possível de se compreender o
característicos da fé e da moral em cerne da tipologia crística, em detrimento
geral, tomam neste discurso de uma possível interpretação psicológica
“atrevidamente arbitrário”? A
baseada na “intuição”, por si só já é um
resposta de Nietzsche, através de toda
a obra [O Anticristo], revela uma preconceito intelectual caracterizado pelo
constância insólita: a forma da esforço de se sustentar a tão ansiada
nomeação e da denominação falsas. E pretensa interpretação unívoca de um dado
é neste nível que a genealogia (“quem acontecimento em detrimento de outras
fala?”) se faz filologia, como retórica, possibilidades hermenêuticas.
lingüística e etimologia (“como Para Nietzsche, aquela que seria a
fala?”)” (BLONDEL, “As aspas de autêntica figura histórica de Jesus estaria
fixada em seu tipo psicológico, suposto que
esse tivesse sido transmitido, uma vez
3
NIETZSCHE, O Anticristo, § 52. Vejamos ainda despojado dos traços estranhos e
outra citação nietzschiana: “Na verdade, não se é incongruentes com que o estabelecimento
médico e filólogo sem ser também anticristão. Como moral da instituição cristã o teria
filólogo, olha-se por trás dos “livros sagrados”; como
médico, por trás da degeneração fisiológica do cristão desfigurado; trata-se de restaurar os traços
típico. O médico diz “incurável”, o filólogo, fraude” mutilados de seu tipo psicológico; de outro
(NIETZSCHE, O Anticristo, §47).

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lado trata-se de despojá-lo de elementos espécie de avatar moderno de Jesus. 5 A esse
que a ele são estranhos e que foram tipo de homem dedica Dostoiévski a estima
acrescidos por camadas diversas de mais profunda, pois representa o homem
interpretação.4 Para compreender a práxis verdadeiramente belo do “paraíso perdido”,
evangélica originária, Nietzsche se cujo grande amor deve tornar-se neste
influenciaria em especial pela delineação mundo sua loucura e crucificação, porque
psicológico-literária criada por Dostoiévski ele não julga nem resiste ao maligno. Tal
em seu romance O Idiota: como exposto por Anton Uhl, neste mundo
de Dostoiévski reencontra Nietzsche o
Jesus-Dostoiévski - Eu conheço Cristianismo mais autêntico, que, segundo
apenas um psicólogo que viveu num sua consideração, Paulo perverteu tão
mundo onde o Cristianismo é completamente: incapaz de encontrar
possível, onde um Cristo pode surgir a
dentro de si o “Reino de Deus”, ele o
qualquer momento. É Dostoievski.
transferiu para o “Além”, ensinou o juízo e
Ele adivinhou Cristo: - e ele
permaneceu instintivamente protegido criou um Cristianismo que faz guerra,
da representar esse tipo com a condena, tortura, jura, odeia.6.
vulgaridade de Renan (NIETZSCHE, Certamente o recorte psicológico que
KSA XIII Fragmento Póstumo 15 [9], Nietzsche faz da personalidade de Jesus é
p. 409) baseado na imagem quixotesca do príncipe
Míchkin, decorrendo daí a apropriação do
No romance, a narrativa se inicia com termo “idiota”. Dado que deve ser
o retorno do príncipe Míchkin a São destacado é que, no contexto nietzschiano,
Petersburgo, após longa estada para esse termo adquire uma poderosa conotação
tratamento médico na Suíça, a fim de se filosófica, uma espécie de tipologia ética
encontrar com uma pretensa parenta sua, a que rompe sutilmente com os padrões
generala Iepántchina. Ao estabelecer gregários estabelecidos.
relações com a família desta, o príncipe se O uso de obras literárias ou
envolve em uma série de infortúnios por apologéticas como suporte para o
conta de seu caráter insólito, marcado pela desenvolvimento da “Psicologia do
absoluta falta de resistência aos seus Redentor” de Nietzsche é uma circunstância
mordazes opositores. Vejamos como polêmica, pois explicitamente se coloca em
Dostoiévski narra uma interpelação de questão as limitações técnicas e
Míchkin a um ofensor: hermenêuticas da teologia sistemática e da
análise filológica acadêmica em relação ao
Eu devo observar ao senhor, Gavrila estudo dos “textos sagrados”, demonstrando
Ardaliónovitch – disse subitamente o
príncipe –, que antes eu realmente era
5
uma pessoa tão sem saúde que de fato Para a compreensão filosófico-psicológico-literária de
era quase um idiota; mas hoje estou Míchkin e as suas relações com a tipologia crística
elaborada por Nietzsche é de grande pertinência a leitura
restabelecido há muito tempo e por do artigo “O homem doente do homem. A colocação de
isso acho um tanto desagradável um problema a partir de F. Nietzsche e F. Dostoievski” de
quando me chamam de idiota na cara Gilvan Fogel, sobretudo na página 53, onde o autor
(DOSTOIÉVSKI, O Idiota, p. 114). associa o protagonista de O Idiota com esse acento
psicológico de ser crístico. Ver ainda MÜLLER-
LAUTER, Über Freiheit und Chaos. Nietzsche –
Míchkin manifesta algo do espírito Interpretationen II, p. 407, n. 803. Além disso, há que se
crístico em seu modo de ser, talvez uma destacar que George Steiner em Tolstói ou Dostoiévski,
em especial p. 113-127, faz também uma valiosa análise
sobre a tipologia da “idiotia” do Príncipe Míchkin e as
influências de tal perspectiva com a interpretação
4
Para mais detalhes dessa questão, é importantíssima a cristológica de Nietzsche.
6
leitura de Oswaldo GIACÓIA JR, Labirintos da Alma, p. UHL “Dor por Deus e dor pelo Homem: Nietzsche e
70. Dostoievski”, In: Nietzsche e o Cristianismo, p. 53.

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assim o quanto essas disciplinas axiologia sagrada da “idiotia” na prática
“modernas” são metodologicamente evangélica, mediante a negativa de
insuficientes para o entendimento adequado qualquer pretensão política acerca do
da tipologia crística de Jesus. Conforme advento do “Reino de Deus”, em verdade
argumenta Uwe Kühneweg, um estado destituído de temporalidade e
concretude material, conforme exposto de
Não é com erudição filológica e com maneira sublime por Nietzsche:
Metódica que Nietzsche quer se
aproximar da figura de Jesus, porém [...]. O “reino do céu” é um estado de
por meio de uma reconstituição de seu coração – não algo que virá “acima da
tipo psicológico [...]. A despeito de Terra” ou “após a morte” [...] O
seu professado rigor de fisiólogo, é Reino de Deus não é nada que se
necessário constatar: a reconstrução espere; não possui ontem nem depois
ou reconstituição do tipo do Redentor de amanhã, não virá em “mil anos” –
funda-se em conhecimento intuitivo, é a experiência de um coração; está
em intuição. (KÜHNEWEG, em toda parte, está em nenhum
“Nietzsche und Jesus – Jesus bei lugar... (NIETZSCHE, O Anticristo, §
Nietzsche” In: Nietzsche Studien, v. 34).
15, p.182-197 - Trad. de Oswaldo
Giacóia Júnior). A simbologia do “Reino de Deus”
como dimensão de alegria atemporal
Nietzsche pretende então conceder somente pode ser formulada por uma
uma definição categórica para a compreensão amoral de mundo, própria da
personalidade de Jesus, definição que seria tipologia do “idiota”, que se constitui como
a chave para a compreensão do grande uma pessoa original, própria, autêntica, pois
enigma que foi a vida do Nazareno: este ele não combina, de forma instintiva, com
seria um “idiota”, não na sua depreciativa as características enfadonhas do “espírito de
conotação usual do senso comum, mas no rebanho”. A tipologia do “idiota”
sentido original do termo grego, ou seja, de representa então uma pessoa de disposição
uma pessoa “indiferente” aos valores “extra-social”, que instintivamente não se
estabelecidos usualmente pela sociedade, enquadra nos critérios normativos da
pela coletividade humana, pela civilização, coletividade social. 8 O “Jesus” de Nietzsche
por não compactuar axiologicamente com é destituído de todo traço transcendente e
as circunstâncias que envolvem a realidade moral que lhe fora concedido pela visão de
cotidiana. 7 Mais ainda, o “idiota” pode ser mundo cristã.9 Todavia, apesar de
compreendido como uma pessoa “original”, interpretar a vida do Nazareno como um
“singular”, “privada”, qualidades que
reforçam a carga semântica positiva contida
8
em tal tipologia psicológica. Ressalto que essa perspectiva também é defendida por
Fernando de Moraes Barros em A Maldição
Talvez uma das chaves que nos Transvalorada, p. 63.
permitam decifrar essa ideia de “idiota” na 9
Apesar de D. H Lawrence partir de um enfoque
vivência crística se encontre, no contexto da axiológico que se distingue relativamente do nietzschiano,
ao enaltecer a figura teológica de Paulo de Tarso,
narrativa evangélica, na cena em que Jesus apresento citações que, pelo seu espírito, estabelecem um
diz: “Meu reino não é deste mundo. Se meu valoroso diálogo com Nietzsche: “Quanto mais a pessoa
reino fosse desse mundo, meus súditos vive, mais se dá conta de que há dois tipos de Cristianismo
– um centrado em Jesus e no mandamento “Amai-vos uns
teriam combatido para que eu não fosse aos outros”, e o outro fundamentado não em Paulo, Pedro
entregue aos judeus. Mas meu reino não é ou João, o discípulo amado, e sim no Apocalipse”
daqui” (João, 18, 36). É então a partir (LAWRENCE, Apocalipse, p. 20). “Jesus era um
aristocrata, como também o eram o apóstolo João e Paulo.
dessas características que se estabelece uma Só mesmo um grande aristocrata é capaz de grande
ternura, doçura e altruísmo: a ternura de doçura da força”
7
NIETZSCHE, O Anticristo, § 29. (LAWRENCE, Apocalipse, p. 20).

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acontecimento beatífico apenas no seu surpreendente tal aporia, ao considerar que
aspecto imanente, psicológico-afetivo, o “além-do-homem”, aquele que realizará a
Nietzsche de modo algum lhe nega a sua “transvaloração dos valores”, é como uma
“nobreza de espírito”, o seu valor de pessoa espécie de César com alma de Cristo
singular, sua independência existencial (NIETZSCHE, KSA XI, Fragmento
perante as determinações históricas da Póstumo 27[60], p. 289). Ensinando a
ordem estabelecida. inocência de espírito ao ser humano, o
A tipologia simbólica do “Idiota” é a evangelho de Jesus é precursor daquele que
de uma pessoa com traços de inocência e fará da vida imanente a sua celebração e
ingenuidade na sua personalidade, incapaz glorificação, justamente o “além-do-
de participar da constituição do sistema homem”.
normativo da ordem civilizada; sendo Dostoiévski, em uma bela carta de
“inocente”, o “Idiota” é, portanto, “amoral”, fevereiro de 1854 a Natalia Dmitrievna
pois a sua axiologia não se fundamenta em Fonvisin, de fevereiro de 1854, diz: “se
valores normativos de “Bem” ou “Mal” e alguém pudesse me provar que o Cristo está
tampouco os reconhece como efetivamente fora da verdade, e se a verdade realmente
existentes. Na própria narrativa bíblica excluísse o Cristo, eu preferiria estar com o
encontramos a corroboração dessa ideia, Cristo e não com a verdade”.11
quando Jesus, ao ser denominado “bom” Parafraseando essa ideia surpreendente,
por um homem admirado por suas poderíamos dizer que na concepção
qualidades, rechaça tal titulação, afirmando nietzschiana pouco importa a postulada
que apenas “Deus” pode ser considerado “verdade” textual da análise filológica e
como tal: “Certo homem de posição lhe teológica dos documentos sagrados, pois
perguntou: „Bom Mestre, que devo fazer estes por si só foram modificados
para herdar a vida eterna?‟ Jesus respondeu: continuamente no decorrer dos séculos.
„Por que me chamas bom? Ninguém é bom, Pode-se muito bem estabelecer uma
senão só Deus!‟ (Lucas, 18, 18-19). tipologia da figura de Jesus sem que
Conforme os dizeres de Bernard necessariamente tenha que se recorrer aos
Lauret, “O Jesus de Nietzsche se mantém parâmetros eruditos do dogmatismo
num mundo a parte. É transfigurado, cheio teológico que, em última instância, é
do sentimento de eternidade. Mas não sabe sustentada pelo argumento de autoridade.
dizer não. Não realiza então o ideal do Dessa maneira, para a consecução do
super-homem e a vontade de poder”10. projeto nietzschiano de compreender o
Todavia, não é a impossibilidade de Jesus âmago da genuína experiência crística não
encarnar o projeto heroico-trágico da há qualquer dependência em relação às
transvaloração dos valores enunciada por categorias cristológicas atribuídas tanto
Nietzsche que faz da pessoa do Nazareno pela tradição teológica, em decorrência das
uma expressão contrária ao acréscimo da suas indissociáveis valorações morais e
vida. Tal interpretação seria talvez redutora teleológicas, como dos estudos teológicos
e demonstraria incompreensão do que foi a oitocentistas, eivados de concepções
proposta crística de Jesus: nele encontramos românticas desprovidas de agudeza
algumas das condições para psicológica.
desabrochamento de uma existência mais Podemos considerar que o fato de se
potente, mais alegre, através da supressão considerar o desenvolvimento de uma
de estados virulentos do âmago humano. interpretação cristológica pautada na
Aliás, Nietzsche resolve de forma exegese filológica e metodológica como a

10 11
LAURET, Bernard. “A inocência do devir”, In: DOSTOIÉVSKI, Carta a Natalia Dmitrievna Fonvisin
Nietzsche e o Cristianismo, p. 120. In: Correspondências 1838-1880, p. 77.

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única forma possível de se compreender o desses textos não coadunarem com os
cerne da tipologia crística, em detrimento propósitos teológicos da instituição cristã
de uma possível interpretação psicológica em ascensão na transição da Antiguidade
baseada na “intuição”, por si só já é um Tardia para a dita Idade Média. Não
preconceito intelectual caracterizado pelo podemos esquecer que ao longo de vários
esforço de se sustentar a tão ansiada séculos o acesso aos livros e documentos
pretensa interpretação unívoca de um dado era privilégio de poucos, enquanto a massa
acontecimento em detrimento de outras social, analfabeta e submetida aos ditames
possibilidades hermenêuticas. morais da casta sacerdotal, se encontrava
coagida a aceitar como verdade absoluta as
Considerações Finais informações fornecidas pelo clérigo no seu
A proposta nietzschiana de ofício espiritual de guiar a consciência do
fundamentar sua análise sobre a doutrina fiel no caminho da justiça e da retidão.
evangélica de Jesus e sua dita “Psicologia Ora, em vista dessas questões
do Redentor” em parâmetros intuitivos apresentadas, como podemos de fato obter
revela-se intelectualmente perspicaz pelo uma imagem precisa da obra evangélica de
fato de que o método historiográfico Jesus desprovida de qualquer interferência
moderno, limitado em suas fontes anódina de partes demasiadamente
documentais e eivado de valorações alheias interessadas? Para onde se esvai toda
ao espírito do mundo judaico-romano de objetividade teológica? Por conseguinte, a
Jesus, torna-se epistemologicamente proposta nietzschiana desenvolvida nas
impreciso nas suas investigações, não páginas de O Anticristo evidencia sua
obstante os esforços de pesquisadores como pertinência filosófica pelo motivo de que,
David Strauss e Ernest Renan, os principais uma vez sendo impossível se ater aos ditos
interlocutores de Nietzsche na composição fatos históricos e registros textuais, poder-
cristológica de O Anticristo. A opção pela se-ia estabelecer uma investigação
narrativa literária de Dostoiévski ocorre psicológica regida pela perspectiva
pela argúcia psicológica na qual o atemporal, intrinsecamente extemporânea,
romancista russo delineia suas críticas ao como se caracteriza, de uma forma geral, a
processo de corrupção da vivência cristã ao própria obra de Nietzsche.
longo das eras; com efeito, Dostoiévski
estabelece uma visão de mundo heterodoxa Referências
em relação aos parâmetros teológicos
cristãos tradicionais, aproximando-se, BARROS, Fernando de Moraes. A
todavia, da mensagem crística originária. Maldição Transvalorada: o problema da
Dessa maneira, Nietzsche, em sintonia civilização em O Anticristo de Nietzsche.
intelectual com Dostoiévski, encontra neste São Paulo: Discurso Editorial, 2002.
pensador o interlocutor ideal para o BÍBLIA DE JERUSALÉM. Direção
estabelecimento de sua análise sobre o tipo Editorial de Paulo Bazaglia. São Paulo:
psicológico de Jesus. Paulus, 2002.
As próprias narrativas evangélicas
legitimadas teologicamente pela instituição BLONDEL, Eric. “As Aspas de Nietzsche:
eclesiástica cristã apresentam lacunas na Filologia e Genealogia” In: Scarlett Marton
composição da hagiografia da vida de (org.) Nietzsche Hoje? Trad. de Milton
Jesus: somente quatro evangelhos são Nascimento. São Paulo: Brasiliense, 1985,
imputados como canônicos, enquanto p. 110-139.
centenas de documentos sagrados foram CHAVES, Ernani; SENA, Allan Davy
colocados em olvido, destruídos, Santos. “Nem gênio, nem herói: Nietzsche,
anatematizados, pelo fato dos conteúdos Renan e a figura de Jesus”, In: Revista de

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