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Estágio curricular supervisionado no curso de educação física do cac/ufg: problemas e

desafios

LIMA, Lana Ferreira de142


SANTOS, Cristiane da Silva143
SILVA, Roseane Patrícia de Souza e144.

Resumo: Este trabalho busca relatar a experiência desenvolvida na disciplina de Estágio Curricular Su-
pervisionado I, no Curso de Educação Física do Campus Catalão da Universidade Federal de Goiás (CAC/
UFG), durante o ano de 2007. Mais especificamente pretende-se, num primeiro momento, discutir de forma
sucinta a relação teoria-prática e a importância da atividade de estágio no processo de formação inicial do
professor; explicitar como a atividade de estágio vem sendo estruturada e desenvolvida no Curso de Educação
Física do CAC, a partir da implementação das atuais Diretrizes Curriculares da área; bem como apresentar
os problemas e desafios enfrentados na relação Universidade e instituições escolares para a concretização da
intervenção pedagógica dos alunos-estagiários do referido curso.

Palavras-chave: Educação Física; Estágio Curricular; Escola.

1. Introdução

Este texto tem como objetivo relatar a experiência desenvolvida na disciplina de Estágio Curricular
Supervisionado I, no Curso de Educação Física do Campus Catalão da Universidade Federal de Goiás (CAC/
UFG), durante o ano de 2007. O interesse em relatarmos a experiência que estamos desenvolvendo nesta
disciplina está relacionado com o fato de que a formação profissional dos professores tornou-se atualmente,
o principal eixo de discussões e vem dando origem a realização de seminários, congressos, conferências e
publicações sobre esta complexa e controvertida temática. Face a isso grande parte dos países ocidentais vem
buscando constituir comissões com vistas, não só, a discutir mas também elaborar propostas de reforma para os
anacrônicos e insatisfatórios cursos e instituições de ensino superior (IES) responsáveis pela formação destes
profissionais responsáveis pela qualidade do trabalho educativo desenvolvido no contexto da escola e da sala
de aula. (GÓMEZ, 1995)
Assim, nos últimos vinte anos a formação de educadores vem passando por um momento de revisão
substantiva e de crise, o que se deve a fatores como, por exemplo, o questionamento do papel exercido pela
educação na sociedade, a falta de clareza sobre a função do educador, a dicotomia entre teoria-prática, a satu-
ração do mercado de trabalho, entre outros. Tais fatores, sem dúvida, evidenciavam um quadro que exigia uma
tomada de posição urgente por parte dos educadores no que diz respeito à redefinição do sistema de formação
de professores, o que culminou, no caso específico do Brasil, na elaboração e implementação da atual Lei de
Diretrizes e Bases da Educação (Lei 9394/96) e das Diretrizes Curriculares dos diferentes cursos de licencia-
tura a partir do ano de 2002.
De acordo ainda com Gómez (1995) o modelo de racionalidade técnica-instrumental, adotado pela
grande maioria dos programas de professores seria o elemento principal a impossibilitar os futuros docentes de

142 lanafl2002@gmail.com
143 crisfrutal@hotmail.com
144 roseane@catalao.ufg.br
realizarem uma reflexão crítica da realidade, bem como inviabilizando o desenvolvimento e a criação de méto-
dos e soluções para lidar com as diferentes situações-problemas presentes no dia-a-dia do exercício profissio-
nal. A formação estaria, neste caso, se restringindo basicamente à reprodução e transmissão de conhecimentos,
sem a preocupação em fornecer aos alunos condições de autonomia e desenvolvimento de uma consciência crí-
tica. Há inevitavelmente, uma separação entre a investigação e a prática ou, em outros termos, entre a atividade
teórica e a prática, com isso desenvolve-se a imagem do profissional-professor como um técnico especializado
que, para uma intervenção eficaz, aplica as regras originadas a partir do conhecimento científico, sistemático,
instrumental.
Entretanto, conforme salienta Rodrigues (1998, p.51), no cotidiano da escola “surgem problemas que
não podem ser tratados de forma instrumental” visto que no “decorrer da ação pedagógica surgem conflitos de
natureza diversa que exigem muito mais do professor do que seu conhecimento sobre as técnicas...” Portanto,
na vivência do cotidiano da escola o professor se depara com situações que exigem deste a capacidade de re-
flexão e crítica, o uso de recursos intelectuais como conceitos, crenças, teorias e técnicas os quais se originam
das experiências da vida, dos interesses sociais, políticos e das relações afetivas, expressando assim a visão de
educação, Educação Física, homem, mundo, aluno e escola. Pode-se afirmar, diante disso, que no processo de
formação a relação pedagógica é marcada por um jogo de diálogos, violentos embates, resistências e frustra-
ções, e que a formação do educador resulta de um processo de descoberta que ocorre no contexto da própria
prática pedagógica. (NUNES, 2000, p.99 apud CAPARROZ; BRACHT, 2007, p.33)
Diante dos aspectos acima apresentados entendemos que a atividade de estágio curricular se configura,
no processo de formação inicial, como um dos primeiros momentos que contribuem para a construção da práti-
ca pedagógica do professor e se caracteriza como o eixo que pode articular a teoria à prática, devendo por isso
ser visto como um espaço de produção de conhecimento e não apenas limitado à transferência ou aplicação de
conteúdos específicos.
Assim, conforme Freitas (2006, p.127), consideramos que o conteúdo e a forma que cada plano de
ensino assume, em parte, resulta da maneira como os alunos-estagiários se relacionam com a escola desde o
início do curso de graduação, bem como das primeiras aproximações que realizam com a totalidade do tra-
balho pedagógico. Para, além disso, cada proposta de trabalho manifesta “...as condições teóricas e práticas
que lhes permitem relacionar os conhecimentos (teóricos) das diferentes disciplinas do curso com a realidade
educacional (prática) vivenciada na escola”.
No que se refere especificamente ao Curso de Educação Física do CAC/UFG, criado em 1990, até o
ano de 2004 este estava organizado dentro do modelo de sistema seriado anual no qual as atividades de estágio
eram desenvolvidas na disciplina de Didática e Prática de Ensino de Educação Física, oferecida no quarto ano
com carga horária de 256 h/a. Diante das mudanças impostas a partir da “Reforma do Sistema Acadêmico Ge-
ral” da Universidade, configurado pela Resolução nº 06/2002 CONSUNI criando o RGCG e a Resolução 004/
CEPEC estabelecendo a nova política de formação de professores para a UFG, adota-se no curso, a partir do
ano de 2005, a seriação semestral, na qual são previstas na grade curricular as disciplinas de Estágio Curricular
Supervisionado I e II, com 200 h/a cada, ministradas no 5º, 6º, 7º e 8º períodos respectivamente, substituindo
com isso a chamada disciplina Didática e Prática de Ensino da Educação Física.
Partindo desse entendimento no ano de 2007 iniciou-se, com a primeira turma do regime semestral, o
trabalho com a disciplina de Estágio Curricular Supervisionado I, a qual tem por objetivo conhecer e analisar
as teorias da Didática e os reflexos desta na formação e organização do trabalho pedagógico do professor de
Educação Física, bem como promover a relação entre a prática pedagógica e a perspectiva da pesquisa em
ambientes escolares, especificamente no que se refere à cultura corporal.
Frente a esse objetivo a disciplina foi organizada de forma a oferecer aos alunos, num primeiro mo-
mento (5º período), espaço para reflexão e debate sobre aspectos como didática, prática de ensino, conjuntura
sócio-econômica e cultural da escola pública e a relação com a construção do projeto político-pedagógico,
fundamentos teórico-metodológicos do ensino de Educação Física em ambientes escolares, visando com isso
suprir uma lacuna identificada no processo de formação em curso, qual seja a inexistência de uma disciplina
específica para tratar dos assuntos acima destacados bem como a ausência de tais discussões nas disciplinas
até então cursadas pelos discentes.
A partir do trabalho desenvolvido acerca das temáticas acima apresentadas os discentes foram encami-
nhados às instituições escolares da rede estadual de ensino da cidade de Catalão que ofereciam a disciplina de
Educação Física na segunda fase do Ensino Fundamental e Ensino Médio, com vistas a coleta de dados para a
elaboração de uma análise da conjuntura do campo de estágio, bem como realização de observações das aulas
de Educação Física visando a partir dessa ação elencar uma problemática e elaborar o programa de ensino para
intervenção pedagógica a ser realizada no segundo semestre de 2007, correspondente ao 6º período.
Em relação ao primeiro contato dos discentes com as instituições de ensino, este foi parcialmente
comprometido em função da greve na rede estadual de ensino, o que impossibilitou, por exemplo, realizar a
entrevista com o professor de Educação Física e alunos; as observações previstas ficaram reduzidas a duas;
para além disso os estagiários não tiveram acesso ao Projeto Pedagógico das escolas. Conseguimos garantir
apenas a entrevista com a direção e coordenação da escola.
Outro aspecto que entendemos ter contribuído para dificultar a efetivação desse primeiro contato dos
estagiários com a escola-campo relaciona-se ao fato do regime semestral gerar a redução do tempo pedagógico
das disciplinas. Com isso o professor responsável pelo estágio na Universidade muitas vezes tem que reduzir
o tempo destinado às discussões relativas à prática pedagógica e didática como também aquele previsto para
a intervenção prática.
Em face dos problemas elencados, o programa de ensino, que deveria ser elaborado a partir das ob-
servações das aulas de Educação Física pelos estagiários, para avaliação na disciplina de Estágio Curricular
Supervisionado I, foi apresentado sem uma problematização da prática docente ou seja, sem se pautar nas
situações que envolvem os rituais das aulas, a relação professor-aluno, aluno-aluna, bem como nos diferentes
ritmos de aprendizagem, nas questões sócio-econômicas da comunidade escolar, de gênero, religião e etnia que
se fazem presentes no espaço pedagógico.
Outra problemática vivenciada no decorrer deste processo foi a incompatibilidade dos horários de Edu-
cação Física na escola com o horário da disciplina de Estágio Curricular Supervisionado I na Universidade, o
que gerou a necessidade de mudança do campo de estágio reduzindo ainda mais o tempo de intervenção dos
discentes.
Esses elementos apontam para a necessidade de uma maior aproximação da Universidade com as ins-
tituições de ensino para que os estágios sejam sistematizados sem que a rotina da escola interfira na realização
dos mesmos, embora saibamos que essa rotina do ambiente escolar contribui para o processo de formação do
aluno-estagiário visto este passa a vivenciar a estrutura e funcionamento interno da escola.

2. Referências Bibliográficas

CAPARROZ, F. E.; BRACHT, V. O tempo e o lugar de uma didática da Educação Física. Revista Brasileira
de Ciências do Esporte, Campinas/SP, v.28, n.2, p.21-37. jan. 2007.

FREITAS, H.C.L.B. O trabalho como princípio articulador na prática de ensino e nos estágios. 4 ed., Campi-
nas/SP: Papirus. 2006.

GÓMEZ, A. P. O pensamento prático do professor – a formação do professor como profissional reflexivo.


In: NÓVOA, A. (Coord.). Os professores e a sua formação. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1995. p.93-
115.
LIMA, L. F. de. A relação teoria-prática no processo de formação do professor de Educação Física. 2000.
222f. Dissertação (Mestrado em Educação). Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Fede-
ral de Uberlândia/UFU. Uberlândia/MG. 2000.

RODRIGUES, A. T. A questão da formação de professor de Educação Física e a concepção enquanto intelec-


tual-reflexivo-transformador. Revista Pensar a Prática, Goiânia/GO, v.01, n.01, p.47-58. jan/jun/1998.