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Reflexões sociais sobre os desafios das Instituições de Ensino

Superior no contexto pandêmico1

Anne Gabriele Lima Sousa de Carvalho (UFOB)


Alessa Cristina Pereira de Souza (UFPB)

Introdução

A pandemia do novo coronavírus, causador da COVID-19, e os protocolos adotados


para conter a sua disseminação, fizeram com que o ano de 2020 se tornasse palco de inúmeros
desafios para as diferentes dimensões da vida em sociedade, trazendo profunda instabilidade
para os indivíduos e para as instituições. O protocolo de distanciamento social adotado no
Brasil, baseado no impedimento de atividades que envolvam aglomerações e na diminuição
significativa das interações presenciais, estabeleceu demandas por adaptações de diferentes
naturezas.
Para o setor educacional, mais especificamente para as Instituições de Ensino Superior,
isso representou uma transposição das atividades de gestão, de ensino, de pesquisa e de extensão
para plataformas digitais, sem que houvesse tempo suficiente de adaptação às mudanças
pelos/as seus/suas integrantes, levando-os/as, abruptamente, a adotarem novos recursos e
tecnologias, a adequarem-se a outros modelos de ensino-aprendizagem e a incorporarem
métodos e técnicas com os quais não tinham familiaridade, para o desenvolvimento das
atividades. O cenário, desta forma, sobressalta o protagonismo das tecnologias da informação
e da comunicação, por representarem, nesse momento, o principal meio de continuidade de
muitas atividades (CASTELLS, 2020; WEBER, 2020).
No entanto, há de se considerar que as múltiplas crises - sanitária, econômica, política,
social, cultural, educacional, moral, etc. - instauradas pelo contexto pandêmico, impulsionaram
um conjunto de remodelações nas vidas cotidianas dos indivíduos, gerando possibilidades
desiguais de adequação às atividades universitárias. Como discutem Oliveira (2020a) e
Matthewman e Huppatz, (2020), o novo coronavírus e seus impactos se refletem de forma
distinta entre os indivíduos e grupos, onde marcadores sociais como classe, raça, etnia, gênero,

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44º Encontro Anual da ANPOCS - GT06 - Ciências sociais e educação.

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localização geográfica, entre outros, apresentam-se como condições que levam à maior ou
menor exposição à COVID-192.
As novas configurações, deste modo, têm incitado, no interior das Instituições de Ensino
Superior, debates de diferentes ordens, considerando os arranjos necessários e as reais
condições de participação dos indivíduos, inseridos em contextos diversos, nas atividades
remotas. As instituições veem-se cercadas por inúmeros desafios com vistas a viabilizar a
inclusão de toda a sua comunidade e encontrar, criar e reinventar caminhos seguros para
minimizar os prejuízos à continuidade de suas atividades.
Convém mencionar que, nos últimos anos, as Instituições de Ensino Superior trilharam
um caminho desafiador no que se refere à inclusão de grupos sociais vulneráveis - como aponta
pesquisa da ANDIFES (2019) -, bem como ao enfrentamento à precarização de suas atividades.
Neste sentido, faz-se importante discutir as mudanças, os efeitos e as limitações imputadas pela
instabilidade desse momento, considerando que muitas dessas transformações, provavelmente,
serão incorporadas efetivamente nos processos educacionais no pós-pandemia (WEBER,
2020).
Este trabalho busca refletir sobre os principais desafios apresentados ao
desenvolvimento das atividades universitárias neste contexto de pandemia e em um cenário
pós-pandemia, a partir da análise dos impactos diferenciados deste cenário sobre a vida dos
indivíduos pertencentes às comunidades universitárias da região Nordeste do Brasil.
A região Nordeste foi escolhida por ser uma das regiões mais vulneráveis e, ao mesmo
tempo, mais afetadas pela pandemia. Essas características tendem a produzir desafios peculiares
para a educação à distância ou remota.
A análise apresentada ao longo deste texto tem por base o desenvolvimento de uma
pesquisa descritiva, realizada com integrantes das diferentes categorias que compõem as
comunidades universitárias dos nove estados da região Nordeste do Brasil. Os dados foram
gerados entre os meses de maio e junho de 2020, através da divulgação de um formulário digital,
disposto na plataforma “Google Forms”. Foram alcançadas 4.309 respostas, de estudantes,

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Classificada como pandemia em março de 2020 pela Organização Mundial de Saúde, em outubro do mesmo ano
a COVID-19 passou a ser considerada como sindemia pelos estudos científicos, uma combinação das palavras
sinergia e pandemia, referindo-se a um contexto onde duas ou mais doenças interagem de tal forma que causam
danos maiores do que a simples soma dessas doenças. O reconhecimento da COVID-19 como sindemia considera
que a doença, além de ser agravada a partir de outras doenças pré-existentes, sofre impactos também das condições
sociais e ambientais. Essas interações produzem uma maior ou menor suscetibilidade ao contágio e ao
desenvolvimento de complicações pós-contágio, considerando-se, nessa perspectiva, que o vírus não pode ser
compreendido apenas como comorbidade, mas a partir de um entendimento global dos indivíduos. Diante disso, a
busca por uma solução meramente biomédica tende a ser insuficiente para o seu enfrentamento. Fonte:
https://www.bbc.com/portuguese/internacional-54493785. Acesso em: 30 de outubro de 2020.

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docentes, técnicos/as e outros/as colaboradores/as vinculados/as às Instituições de Ensino
Superior, públicas e privadas, da região. Os dados foram analisados através de estatística
descritiva e interpretados a luz das reflexões das ciências sociais que tangenciam a discussão
sobre a educação em tempos de pandemia, educação a distância e ensino remoto, associados às
reflexões teóricas sobre as desigualdades produzidas ou intensificadas pelo contexto.
Entre os/as respondentes houve uma maior participação de integrantes de universidades
públicas, sendo 54% da esfera federal, 34% da esfera estadual, e apenas 12% de instituições
privadas de ensino.
A maior parte dos/as participantes são estudantes de graduação (65% dos/as
respondentes); seguidos/as de docentes (21%), servidores/as técnicos/as (6%) e estudantes de
pós-graduação (6%). Com relação ao gênero, houve predominância de mulheres cisgênero
(60%), seguidas de homens cisgênero (37%) e participação insuficiente de pessoas transgênero
e de gênero não binário. Em se tratando de raça/etnia, a maior parte dos/as respondentes se
autodeclarou parda (45%) ou preta (15%), ou seja, 60% da amostra é representada pela
população afrodescendente. A população branca integra 38% dos/as respondentes e a
participação de indígenas e orientais foi insuficiente.
À respeito das faixas de renda média familiar nas quais estão inseridos/as os/as
participantes da pesquisa, prevaleceu a participação de pessoas com renda familiar de até três
salários mínimos (56%), seguidas de pessoas com renda familiar maior do que três até cinco
salários mínimos (16%) e com renda maior do que cinco até dez salários mínimos (16%). Cerca
de 12% dos/as participantes possui renda superior a dez salários mínimos. Apenas 8% dos/as
respondentes moram sozinhos, 20% vivem em casas com duas pessoas, 26% vivem em casas
com três pessoas, 28% vivem em casas com quatro pessoas e 18% vivem em casas com cinco
ou mais pessoas.
A identificação dessas características revela-se importante para uma melhor
contextualização da análise apresentada nas páginas a seguir, a partir do reconhecimento das
posições ocupadas pelos/as participantes da pesquisa e das desigualdades que os/as acometem.
Este trabalho está organizado em duas seções. Inicialmente, discorrer-se-á sobre alguns
dos principais impactos da pandemia sobre o cotidiano dos/as integrantes das comunidades
universitárias do Nordeste brasileiro, refletindo sobre as dificuldades produzidas pela
conjuntura e as limitações imputadas à educação superior nesse cenário. Posteriormente, serão
discutidos alguns desafios apresentados às Instituições de Ensino Superior, bem como os
caminhos através dos quais as comunidades universitárias têm conduzido suas atividades, com
vistas a minimizar os prejuízos provocados pelo cenário.

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1 Efeitos da pandemia nas atividades universitárias

A análise dos impactos e dificuldades produzidos pela pandemia nas atividades


desenvolvidas pelas comunidades universitárias do Nordeste brasileiro requer o direcionamento
do olhar para diferentes aspectos, com vistas ao alcance de uma real dimensão dos desafios
apresentados às Instituições de Ensino Superior nesse contexto, pois essas dependem das
atividades dos indivíduos que as integram para o desenvolvimento de seus projetos.
Através dos estudos e das pesquisas realizadas por integrantes das suas comunidades,
essas instituições têm se revelado, no atual cenário, como protagonistas na busca pela produção
de conhecimentos sobre o novo coronavírus, representando a esperança por soluções confiáveis
diante de uma ameaça até bem pouco tempo desconhecida.
Grossi, Toniol e Lozano (2020), no entanto, classificam o momento atual como
ambíguo, visto que, ao mesmo tempo em que há uma cobrança sobre os/as pesquisadores/as
para o alcance de soluções sobre a doença, percebe-se o fortalecimento de uma onda anti-
intelectualista, de negacionismo científico, que produz notícias falsas sobre as universidades e
os centros de pesquisa, gerando perseguições e, consequentemente, prejudicando os
investimentos e a confiança da população nas medidas apresentadas.
No cenário onde a produtividade é cada vez mais cobrada pelo Estado e pela própria
sociedade às universidades, entre a população pesquisada quase dois terços (62%) aponta a
diminuição dessa produtividade, enquanto apenas 12% declaram ter aumentado a
produtividade. Ao indicarem as principais razões para essa diminuição da produtividade,
percebe-se desequilíbrios diversos entre as razões sobressaltadas.
Quando a variável renda média familiar é utilizada para a compreensão dessas razões,
observa-se que entre indivíduos inseridos em faixas de renda menores, destacam-se a
“dificuldade de acesso a computadores” (para quem possui renda até três salários mínimos) e a
“interferências de condições psicológicas para desenvolver o trabalho de forma remota” (para
quem possui renda entre três e cinco salários mínimos). Já entre indivíduos inseridos em faixas
de renda maiores, destaca-se a “dificuldade de conciliar a demanda doméstica com a demanda
de trabalho/estudo”, tanto entre aqueles com renda entre cinco e dez, como entre os com renda
maior do que dez salários mínimos.
Percebe-se, com isso, que as dificuldades materiais se apresentam como os principais
empecilhos para o desenvolvimento das atividades acadêmicas entre indivíduos inseridos em
faixas de renda mais baixas. No contexto pandêmico, onde o meio digital se transformou no

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principal caminho para o desenvolvimento dessas atividades, isso pode representar a exclusão
desses indivíduos dos processos educacionais, pois a exclusão digital constitui barreiras para a
participação de indivíduos com privações econômicas (CALEJON e BRITO, 2020).
Ressalta-se que esse contexto de privações materiais, embora sempre tenha feito parte
da vida dos indivíduos inseridos em realidades mais vulneráveis, no cenário pandêmico é
intensificado a partir de vários processos. Isso fica evidente quando avaliados os impactos da
pandemia sobre a vida socioeconômica dos/as participantes da pesquisa. Entre aqueles/as com
renda familiar inferior a três salários mínimos (mais da metade da amostra da pesquisa)
prevalecem as respostas “perdi o emprego” e “estou recebendo auxílio emergencial do
governo”, enquanto entre aqueles/as inseridos em faixas de renda maiores, acima de cinco
salários mínimos, são destacadas respostas como “tive redução de despesas” e “não tive perdas
diretas”.
Nota-se, com isso, que indivíduos inseridos em faixas de renda menores têm sido
também os maiores impactados economicamente pela pandemia.
Essa realidade é uma tendência geral. Mais de três milhões de pessoas perderam o
emprego durante a pandemia e mais de seis milhões de empregados/as foram temporariamente
afastados/as do trabalho, segundo dados da PNAD COVID-19 (IBGE, 2020). Costa (2020, p.
969) ressalta que embora a pandemia seja um problema de saúde pública, ela "imprimiu uma
nova dinâmica à economia mundial” a partir dos efeitos produzidos pelos protocolos de controle
e disseminação da doença - principalmente o distanciamento e o isolamento social -, no
mercado de trabalho, atingindo principalmente aqueles indivíduos que vivem na informalidade
ou que estão em trabalhos precários. Segundo a autora, "em plena era da informatização do
trabalho, do mundo maquinal e digital, estamos conhecendo a informalização do trabalho, dos
terceirizados, dos precarizados, dos subcontratados, dos flexibilizados, dos trabalhadores em
tempo parcial e do subproletariado" (p.972). A autora ressalta ainda que esse cenário vem sendo
ainda mais acentuado no período da pandemia.
Entre os/as participantes da pesquisa inseridos/as em faixas de renda superiores, apesar
do contexto pandêmico não ter representado grandes impactos econômicos, também foi
manifestada a diminuição da produtividade acadêmica, mas associada a outras questões.
Esses/as destacaram, principalmente, a dificuldade na conciliação das demandas, evidenciando
uma transformação nos suportes com os quais os indivíduos contavam para a condução da vida
cotidiana – escolas, creches, funcionários/as - e que foram radicalmente alterados a partir da
aderência aos protocolos de controle do contágio pela pandemia, trazendo a diminuição na
produtividade acadêmica.

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A “centralidade da casa” (CASTELLS, 2013) é intensificada nesse momento de crise,
onde a casa passa a representar a maioria dos palcos de atuação dos indivíduos e as atividades
de trabalho/estudo passam a se intercalar e atravessar outras demandas em um mesmo espaço
e, muitas vezes, ao mesmo tempo. A dificuldade na administração das atividades cotidianas é
ainda mais acentuada pela desconstrução da lógica habitual de organização do tempo, que tinha
como referência os dias e aos horários dedicados para o trabalho, para o descanso ou para o
lazer e que, com a pandemia, foi desorganizada pois os dias se tornaram muito semelhantes,
emaranhando as tarefas.
Quando a produtividade acadêmica é analisada a partir da variável gênero, as
disparidades também são sobressaltadas. Cerca de 64% das mulheres revelaram ter diminuído
a produtividade, enquanto apenas 33% dos homens destacaram essa diminuição.
De acordo com as mulheres que atestaram a diminuição da produtividade, as principais
razões destacadas foram a “dificuldade de conciliar as demandas domésticas com as demandas
de trabalho/estudo” e a “interferência de condições psicológicas/emocionais no
desenvolvimento das atividades de trabalho/estudo”. Enquanto para a parcela minoritária de
homens que declararam essa diminuição, as razões mais destacadas foram “dificuldade de
acesso a computadores” e “dificuldade de acesso à internet”.
Observa-se, com isso, que além da diminuição da produtividade ser muito maior entre
mulheres do que entre homens, os motivos que levaram a essa diminuição também se
distinguem entre eles. Enquanto entre a parcela minoritária de homens que revelaram uma
diminuição da produtividade esse impacto tenha se dado a partir de dificuldades materiais
(computador e internet), entre mulheres as razões se pautam nas estruturas psicossociais que
dão suporte às suas rotinas.
Para grande parte das mulheres, a participação na vida acadêmica se acumula com
inúmeros encargos domésticos e familiares que são socialmente atribuídos à mulher, a partir de
uma desigualdade estrutural de gênero (BORSOI e PEREIRA, 2011), produzindo, muitas
vezes, esgotantes jornadas de trabalho e inúmeros conflitos interpapéis. Em um cenário
pandêmico esse contexto se torna ainda mais difícil, gerando uma sobreposição de demandas e
um profundo estresse pela frustração do não atendimento às expectativas próprias, familiares e
institucionais (INSFRAN e MUNIZ, 2020). Entre essas mulheres, diante de toda a sobrecarga
que as envolvem, a exaustão e as incertezas sobre o cenário pandêmico tendem a produzir
condições psicológicas/emocionais adversas que também geram interferências na
produtividade.

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Fazackerley (2020) destaca a diminuição no volume de publicações femininas desde
que os protocolos de distanciamento social foram adotados, o que demonstra que essa
diminuição na produtividade feminina tem sido comum no contexto pandêmico.
Acerca da parcela de indivíduos que manifestaram aumento da produtividade na
pandemia, considerando a variável renda, foi ressaltado o “aumento do tempo disponível” entre
os inseridos em faixas de renda mais baixas, enquanto entre os inseridos em faixas de renda
superiores foi destacado o “aumento da demanda ou da inspiração impulsionadas pelo contexto
atual”. Já considerando a variável gênero, entre homens foram destacados o “aumento do tempo
disponível” e a “maior concentração para a realização das atividades”, enquanto entre mulheres
foi sobressaltado o “aumento da demanda ou da inspiração impulsionadas pelo contexto atual”.
O aumento do tempo disponível pode ser compreendido pela suspensão das aulas nos
primeiros meses da pandemia, principalmente nas instituições públicas, somado ao aumento do
desemprego e à não necessidade de deslocamentos físicos para o desenvolvimento das
atividades, que passaram a ser remotas. Entre quem já dispunha de recursos materiais para a
condução das atividades, esses fatores favoreceram uma maior dedicação às demais atividades
acadêmicas. Entre homens esses fatores se associam também à não responsabilização pelas
demandas domésticas, culturalmente direcionadas à mulher, conforme já destacado.
Entre aqueles inseridos em faixas de renda maiores, em sua maioria docentes, o
“aumento da demanda ou da inspiração impulsionadas pelo contexto atual” parece refletir as
expectativas sociais por respostas sobre o atual cenário, além do acesso a uma multiplicidade
de debates multi, trans e interdisciplinares sobre a pandemia e seus efeitos, realizados em
diferentes canais e ferramentas virtuais, contribuindo para fomentar reflexões, questionamentos
e inspirar produções diversas para colaborar com a construção de conhecimentos sobre o
momento (FIORI, 2020).
Observa-se, a partir desses dados, que o contexto pandêmico tem produzido impactos
desiguais sobre o desenvolvimento das atividades acadêmicas, evidenciando desníveis
estruturais diversos. Apesar disso, as demandas acadêmicas vêm sendo cada vez mais
intensificadas, exigindo um conjunto de adequações nos processos de ensino, pesquisa e
extensão.
Com relação ao ensino, após um período de suspensão nas instituições públicas - nas
instituições privadas a transição foi feita de imediato, sem tempo para preparação -, o ensino
remoto emergencial (HODGES et al, 2020), seguindo os mesmos princípios do ensino
presencial, mas transpostos para plataformas digitais (MOREIRA, HENRIQUES e BARROS,
2020) foi incorporado e legitimado a partir da portaria Nº 544, emitida no dia 16 de junho de

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2020 pelo Ministério da Educação, inicialmente até 31 de dezembro de 2020 (BRASIL, 2020).
No entanto, esse período tende a ser prorrogado enquanto durar a situação pandêmica,
conforme orienta o Parecer CNE/CP nº 15/2020 do Conselho Nacional de Educação,
aprovado em 06 de outubro de 2020, que estende a possibilidade de continuidade do ensino
remoto em Instituições de Ensino Básico e Superior, públicas e privadas, no ano de 2021, ainda
por força da pandemia.
A partir dessas medidas, os indivíduos inseridos nas comunidades universitárias
tiveram que empreender diferentes esforços para se adequarem a outras metodologias de
ensino-aprendizagem, até então distantes das suas realidades e de suas habilitações didático-
pedagógicas, gerando estranhamento e inseguranças diversas.
No que tange às atividades de pesquisa e extensão, muitas delas, principalmente
envolvendo trabalhos de campo e laboratoriais, construídos a partir de interações com outros
indivíduos, tiveram que ser interrompidas e replanejadas para a continuidade a partir de outros
recursos, métodos e técnicas, trazendo inúmeras dificuldades e exigindo diferentes esforços por
aprendizagem para a realização dos ajustes necessários e a incorporação de diferentes
ferramentas em função do momento. A mesmo tempo, inúmeros projetos emergiram como
modo de produzir respostas e formas de enfrentamento ao novo coronavírus, nas mais diversas
áreas.
Nesse processo, uma multiplicidade de lives, webinários, mesas e discussões online,
cursos livres, grupos de estudos, reuniões abertas, congressos virtuais, ações coletivas, entre
outros recursos, eclodiram no espaço digital, mediados por integrantes das comunidades
universitárias, como caminhos para o alcance dos diferentes grupos confinados nesse momento
de pandemia, construindo e socializando o conhecimento.
Todas essas mudanças, que envolvem a concentração de atividades em um mesmo
tempo-espaço e a rápida indissociabilidade da utilização de ferramentas digitais para a maioria
das atividades sociais, leva à reflexão sobre a aceleração de uma revolução tecnológica em
curso desde o final do século XX e que, segundo Castells (2013), caracteriza essa sociedade
atual como uma “sociedade da informação”. Embora, anteriormente ao contexto pandêmico, já
não fosse possível imaginar a maioria das atividades sem reconhecer a essencialidade das
tecnologias da informação e da comunicação, a pandemia acelerou essa transformação cultural,
impondo a obrigatoriedade da adoção de novos hábitos em um momento de completa
instabilidade sanitária, econômica, política, emocional, cultural e social.
Entre as premissas que caracterizam a sociedade da informação destaca-se o aumento
da produtividade no trabalho, em razão da flexibilidade do espaço e do tempo proporcionada

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pelas tecnologias da informação e da comunicação (CASTELLS, 2013). Porém, como pode-se
observar a partir dos dados apresentados sobre a diminuição da produtividade, essa eficiência
não foi alcançada pelas comunidades universitárias neste momento.
As adaptações necessárias para o desenvolvimento das atividades somam-se aos
aspectos emocionais incitados pela pandemia – onde o medo, a angústia e a exaustão foram
destacados como emoções/sensações prevalentes pelos/as participantes da pesquisa -, e à falta
de capacitação técnica e de condições estruturais para o desenvolvimento das atividades
remotas, diante da urgência como foram apresentadas, impossibilitando a preparação
satisfatória para o manejo das dificuldades.
Conforme destacam Calejon e Brito (2020), embora as tecnologias da informação e da
comunicação tenham se tornado indispensáveis para o desenvolvimento da maioria das
atividades neste momento, ainda não estamos preparados/as para que elas se tornem
protagonistas de nosso cotidiano.
Essa incorporação repentina produz inúmeros desafios para as instituições e suas
comunidades.

2 Desafios institucionais no contexto pandêmico e pós-pandêmico

As novas configurações implementadas durante o período de pandemia, a fim de


possibilitar a continuidade dos projetos e atividades de ensino, pesquisa e extensão nas
Instituições de Ensino Superior, perpassam o uso de tecnologias que, apesar de não serem
invenções recentes, representam desafios, pois esbarram em questões objetivas e subjetivas que
atravessam todo o conjunto de questões pontuadas no tópico anterior.
A transposição das atividades para as plataformas digitais exige investimentos e
competências de várias ordens e suscitam inúmeras preocupações: como transformar atividades
de gestão, modelos de ensino-aprendizagem, práticas pedagógicas, métodos e técnicas de
pesquisa e ações de extensão de um modelo presencial para um modelo digital, sem gerar
perdas, considerando as diferenças em termos de áreas, de capacitações, de experiências, de
gerações, mas também as desigualdades estruturais, como condições de acesso, aspectos
socioambientais e doméstico-familiares, entre outros?
Essas adaptações envolvem inúmeros obstáculos, fazendo com que o momento seja não
apenas de testagens, mas também de construção de novos paradigmas em um cenário em que
as tecnologias da informação e da comunicação se deslocam da condição de instrumentos de

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apoio às atividades para se tornarem os principais recursos para viabilização dessas atividades
(CASTELLS, 2020).
Para além das inseguranças geradas por esses modelos recém-apresentados para parte
da população, a principal inquietação gira em torno da acessibilidade dos grupos mais
vulneráveis às ferramentas digitais e a estrutura socioambiental que os permeiam, em meio à
proposição de aderência ao ensino remoto (COLETIVO DE ESTUDOS EM MARXISMO E
EDUCAÇÃO, 2020).
Apesar das ferramentas digitais fazerem, cada vez mais, parte da vida e das
atividades dos indivíduos nas últimas décadas, o acesso a essas ferramentas não é o mesmo
em todos os lugares. Muitos/as estudantes oriundos/as de municípios menores ou de áreas
rurais retornaram para as residências dos familiares durante a pandemia, onde a infraestrutura
digital é precária e, muitas vezes, não há sequer sinal de celular (meio de acesso à internet
para a maioria da população) e a internet banda larga não é uma realidade.
A maior parte dos/as interlocutores/as desta pesquisa, conforme destacado, possui renda
familiar inferior a três salários mínimos e sofreu diversos impactos econômicos no atual
cenário. A situação pandêmica, nesse sentido, veio explicitar nossa profunda desigualdade
social que, neste momento, traduz-se em exclusão digital para vários grupos sociais, pois a falta
de equipamentos e de uma conexão apropriada, que para muitos só é possível dentro do espaço
físico das instituições de ensino, constitui-se como impeditivo para a participação de muitos/as
estudantes nas atividades universitárias.
Embora nos últimos anos a universidade venha atuando em uma direção mais inclusiva,
implementando políticas de acolhimento às minorias historicamente privadas desse acesso e,
com isso, achatando as desigualdades historicamente constituídas (ANDIFES, 2019), a
demanda por adaptações diversas e repentinas, que coloca o acesso às ferramentas digitais como
o único caminho para a continuidade da educação, pode ser responsável pela regressão nesse
processo de inclusão e pela reprodução da lógica excludente histórica que beneficia grupos
privilegiados, enquanto afasta grupos vulneráveis por não encontrarem condições de
continuidade. Conforme destaca Santos (2020), a pandemia reproduz abismos historicamente
construídos que separam quem é relevante e significativo daqueles que não importam,
sobressaltando as injustiças sociais em diferentes dimensões.
Nesse sentido, entre as preocupações levantadas está a necessidade de se pensar em
estratégias de inclusão digital em uma sociedade desigual, cuja vulnerabilidade reflete uma
desigualdade estrutural, com vistas a não frearmos nem retrocedermos frente ao processo de
democratização de acesso ao ensino superior, que tem sido fundamental para a transformação

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da realidade de indivíduos e grupos inseridos em regiões mais precárias e situados
historicamente nas margens sociais.
Ao mesmo tempo, é importante considerar esse processo de inclusão para além do
acesso a conexão e aparelhos, mas também enquanto viabilidade de participação dos seus
indivíduos, a partir de inúmeros fatores: materiais, capacitantes, geracionais, familiares,
ambientais, políticos, emocionais, entre outros. Ou seja, além do acesso às mídias digitais não
ocorrer de forma igualitária para toda a população, boa parte de quem têm acesso a essas mídias
não está tecnicamente capacitada e emocionalmente preparada para viver em um mundo onde,
segundo Castells (2020a) “o digital é o novo normal”.
As condições de participação se relacionam também com o conjunto de mudanças nas
vidas desses indivíduos, destacado nas páginas anteriores, e que evidenciam as inúmeras
dificuldades vivenciadas no contexto da pandemia, prejudicando a atuação efetiva no modelo
de ensino remoto emergencial, tal como vem sendo praticado na maioria das Instituições de
Ensino Superior.
Considerando-se essas questões, para reduzir as possíveis injustiças e para viabilizar o
desenvolvimento dos projetos em um panorama de incertezas, é necessário que a continuidade
das atividades nas Instituições de Ensino Superior leve em consideração as dificuldades
impostas pela pandemia na vida cotidiana dos seus indivíduos, caso contrário muitos deles não
encontrarão condições de continuidade.
Os próprios docentes contam com formação insuficiente para possibilitar um
reconhecimento e manejo efetivo das diferentes dificuldades manifestadas nos espaços virtuais
onde a educação está sendo operacionalizada. Conforme destaca Weber (2020), é
imprescindível que a atenção seja voltada para a formação apropriada dos professores, para que
sejam capazes de lidar com as várias dimensões envoltas no trabalho mediado pelas tecnologias
e, com isso, possam administrar a complexidade das relações nas quais foram inseridos.
Percebe-se que não se trata apenas da instrumentalização de docentes e discentes para o
uso das plataformas digitais. O novo cenário produz novas urgências, como a necessidade de
criação de modelos de ensino/aprendizagem apropriados para este novo formato - que não se
enquadra no modelo de ensino presencial, nem no modelo de ensino a distância -, primando
pelo ensino de excelência, mas respeitando a excepcionalidade do momento que estamos
vivendo e as especificidades que permeiam as realidades dos grupos que integram as
comunidades universitárias. Nesse sentido, Weber (2020, p. 04) afirma que é "na articulação
entre o combate à desigualdade social e o acesso aos meios digitais, além da reorganização da

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dinâmica escolar para atender a regras de distanciamento social, que se encontra, nas atuais
circunstâncias, a solução para uma política mais inclusiva”.
É preciso salientar que não estamos falando de adequações rápidas e passageiras. Ainda
não é possível prever quando a pandemia irá acabar, mas é certo que quando isso acontecer o
restabelecimento das atividades sob os parâmetros anteriores à pandemia não será mais
possível. Como destaca Weber (2020, p. 05), "a situação de emergência que estamos
vivenciando sinaliza que a formação escolar em todos os níveis não mais será a mesma que
conhecemos antes da pandemia". Certamente, as Instituições de Ensino Superior pós-pandemia
não serão como eram antes da pandemia, nem como estão sendo durante a paandemia, "o mundo
digital entrou de vez no mundo escolar, e isso demandará a ampliação de seu espaço, a
introdução e modificações no tempo e nas práticas escolares. Todos esses processos deverão
mobilizar simultaneamente instituições, professores e alunos" (p.06).
Os arranjos provocados pela situação pandêmica, neste sentido, estão revolucionando
os modelos de ensino-aprendizagem, os métodos de pesquisa e as práticas de extensão, bem
como o alcance dessas atividades e, por mais difícil que pareça a adaptação, esses caminhos
tendem a constituir novos padrões no cotidiano acadêmico em um cenário pós-pandemia.
Segundo Castells (2020a), o mundo pós-pandêmico será cada vez mais híbrido, a normalidade
será (re)construída a partir das experiências vividas durante a crise e do entrelaçamento entre
espaços físicos e virtuais.
Moreira, Henriques e Barros (2020) chamam atenção para vários pontos importantes
que devem ser considerados quando substituímos os “territórios físicos de aprendizagem” pelo
ensino online, em termos de “organização, seleção de recursos, elaboração e avaliação de
atividades de aprendizagem online” (p. 361 e 362). Sobretudo nesse momento, questões
imprescindíveis perpassam as condições objetivas de acesso a hardwares, softwares e
conectividade, como a formação e capacitação de docentes e discentes, o livre acesso das
comunidades universitárias às bibliotecas virtuais, bem como a oferta de materiais acessíveis
para pessoas com deficiência.
A adoção das ferramentas digitais para a adaptação do ensino ao modelo remoto, apesar
de necessária neste momento, também configura ameaças que precisam ser debatidas. De
acordo com Dejours (2020), o ensino remoto representa uma ponte entre o ensino presencial e
o ensino à distância que, caso seja consolidado no ensino público, pode gerar a diminuição de

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servidores na educação, a ampliação de vínculos de trabalho precários e temporários e até
mesmo a redução do papel do Estado3.
Além disso, é necessário refletir sobre a insegurança tecnológica implícita no uso dos
diferentes recursos das plataformas digitais para o desenvolvimento das atividades acadêmicas
neste cenário. Considera-se oportuno o resgate da percepção de Giddens (2002), que no final
do século XX refletia sobre a confiança em sistemas abstratos, onde muitas vezes os usuários,
apesar de serem sujeitos reflexivos, não conhecem os mecanismos envolvidos e aceitam, sem
maiores questionamentos, incorporá-los em seu cotidiano, acreditando que vão desempenhar
bem suas funções. Espaços antes íntimos e de privacidade familiar agora são invadidos por
câmeras, onde não há garantias acerca de quem está do outro lado. As aulas e reuniões virtuais
estão sujeitas a invasões e a constrangimentos diversos. Os conteúdos disponibilizados
digitalmente podem ser alterados, plagiados, descontextualizados. Os/As integrantes das
comunidades universitárias se deparam, neste contexto, com diferentes riscos, sejam eles,
morais, físicos, autorais ou patrimoniais.
A crise instaurada pela pandemia vem exigindo que a ciência e a educação se esforcem
para (re)constituírem de forma criativa, e ao mesmo tempo segura, os processos de construção
do conhecimento a partir dos novos protocolos de saúde, levando a um conjunto de discussões,
de trocas e de (re)adequações, com vistas à renovação de suas práticas e a descoberta de novos
caminhos para o desenvolvimento de suas atividades. Com isso, preocupações novas são
apresentadas para as instituições, considerando a necessidade dessas ferramentas e a segurança
tanto das atividades oferecidas, como das suas comunidades.
Frente aos novos desafios, e somando-se à situação de precariedade pela qual passa
inúmeras instituições públicas, decorrente de corte de investimentos e de déficit de pessoal, as
Instituições de Ensino Superior vêm implementando diferentes iniciativas objetivando garantir
subsídios financeiros, equipamentos e capacitações, a fim de possibilitar a continuidade, em
novos moldes, de vivências, interações e aprendizagens.
Deste modo, viabilizar a continuidade do processo de inclusão e o compromisso social
através das atividades de ensino, pesquisa e extensão talvez seja o maior desafio enfrentado por
essas instituições. A flexibilização e a facultatividade de participação nas atividades realizadas
remotamente no período de pandemia tem sido algumas das soluções encontradas para garantir
o funcionamento das universidades como espaços de interação e produção de conhecimento

3
A Portaria nº 433, de 22 de outubro de 2020, do Ministério da Educação, institui o Comitê de Orientação
Estratégica para elaborar iniciativas de promoção à expansão da educação superior por meio digital nas
universidades públicas federais.

13
que ultrapassam as formações curriculares. Essas medidas, porém, têm levantado discussões
em torno da isonomia, da ampliação e reprodução das desigualdades e dos processos de
exclusão. Por outro lado, a não continuidade das atividades curriculares pode afetar a entrada e
a permanência de muitos/as estudantes, interrompendo seus planos, projetos e sonhos, bem
como pode comprometer o funcionamento dessas instituições a curto, médio e longo prazo.
Diante das incertezas que o momento enseja, paralelas à urgência em relação à
apresentação de soluções, os caminhos propostos e adotados pelas instituições como
alternativas para reduzir os prejuízos causados pelos efeitos da pandemia encontram limitações,
suscitam debates, levantam críticas e sinalizam possíveis retrocessos no que diz respeito à
intensificação das desigualdades sociais. Mas também revelam o empenho e a disposição das
comunidades universitárias em se reinventarem para enfrentarem os desafios interpostos,
através da combinação entre "conhecimento e prática" (WEBER, 2020), trabalhando
ativamente em várias frentes, primando pela continuidade do processo democrático de
construção e compartilhamento do conhecimento.
Concordando com Oliveira (2020), o principal desafio em um cenário de pandemia é
o fortalecimento do sistema de educação como agente de transformação social e superação das
desigualdades. Nesta direção, as medidas devem se dar por meio de políticas públicas de reforço
do papel da educação pública, gratuita, de qualidade e inclusiva, com garantia de acesso e
permanência aos mais diversos indivíduos. Assim, o Estado precisa assumir o comando na
proteção dos envolvidos: educadores e estudantes, sobretudo os mais vulneráveis.

Considerações Finais

Ainda não é possível mensurar todos os efeitos da pandemia do novo coronavírus, mas
os indivíduos, as organizações e todas as instituições já apresentam mudanças em suas práticas
e rotinas. As Instituições de Ensino Superior vivenciam e tentam solucionar questões imediatas,
apresentadas como consequências deste momento, construindo alternativas para o tempo
presente que, certamente, influenciarão e nortearão transformações nos tempos futuros
(CASTELLS, 2020).
Os impactos e as dificuldades decorrentes das crises instauradas pela pandemia da
COVID-19, explanados ao longo deste trabalho, evidenciam um ambiente onde inúmeros
desafios são apresentados às Instituições de Ensino Superior, exigindo contextualizações e
ressignificações variadas. Se, por um lado, o momento demanda por instituições produtivas e
eficientes; por outro, é preciso que essas ofereçam segurança e condições de continuidade a

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todos os/as seus/suas integrantes, visto que de outra forma estaria convergindo para a
intensificação de antigos problemas, gerando retrocessos.
Em um cenário onde as tecnologias da informação e da comunicação encontram as
condições necessárias para o alcance do seu reconhecimento enquanto indispensáveis para a
continuidade da vida, as atividades nos mais variados espaços são reinventadas e ressignificadas
para se realizarem por meio das ferramentas e plataformas digitais.
No entanto, nota-se, pela diminuição na produtividade declarada pelos/as participantes
da pesquisa, que a maioria dos/as integrantes das comunidades universitárias não estavam
estruturalmente preparados/as para lidar com o conjunto de novas demandas constituídas nesse
momento de instabilidade e incertezas. Isso evidencia a necessidade de um melhor
entendimento das condições de participação desses indivíduos nas atividades propostas pelos
novos modelos apresentados, a partir dos quais são cobrados.
Observa-se, em meio a dificuldades e inseguranças diversas - impostas por um cenário
de crise sanitária, política, econômica e educacional -, que docentes e discentes têm superado
obstáculos e se reinventado a partir de novos pressupostos teóricos, metodológicos,
pedagógicos, didáticos e éticos, com o intuito de dar continuidade e/ou propor novas atividades
que possibilitem a construção e o compartilhamento de conhecimentos, mesmo em
circunstâncias adversas.
Entretanto, o oferecimento de condições objetivas e subjetivas de continuidade a
todos/as os/as que integram as comunidades universitárias tem se revelado um desafio à parte,
diante de desigualdades em diferentes níveis, fazendo com que as possibilidades de
incorporação dessas novas práticas e ferramentas não encontrem a mesma viabilidade na vida
de todos/as.
Por tudo isso, faz-se necessário ter muita cautela acerca das propostas e possibilidades
lançadas, a fim de garantir a continuidade das atividades sem comprometer o acesso e a
qualidade da aprendizagem. Nesse momento, é imprescindível a adoção de uma postura
sensível com relação à proposição de atividades dialógicas, contextualizadas, abertas a
adequações, adaptações e mudanças.
Por fim, faz-se de extrema necessidade enfatizar a importância das interações físicas,
das relações sociais e presenciais nos espaços educacionais, ressaltando que os modelos que
estão sendo pensados, construídos e implementados como forma de garantir o desenvolvimento
da educação e da ciência em tempos de excepcionalidade, como o que estamos vivendo, não
devem ser transpostos e generalizados quando for reconstituído, minimamente, um cenário de

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normalidade, sob pena de produzirem perdas de naturezas múltiplas e imensuráveis para essas
instituições.

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