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A CRISE DE 79 E O AUMENTO DOS JUROS ESTADUNIDENSES

Em 1973 o mundo presenciou uma crise jamais vista antes na história entre o
Oriente e o Ocidente. A Guerra do Yom Kippur estabeleceu uma nova forma de
utilização sobre uma das matérias primas mais requisitadas naquele período, o petróleo.
De acordo com Silva (2005, p. 07), “Este embargo durou apenas algumas semanas mas
marca uma nova etapa na utilização do petróleo como arma política”.

Todavia, outro choque ocorre alguns anos após a Primeira Crise. A Segunda
Crise do petróleo aconteceu em 1979, ano em que o Oriente Médio mudaria a sua
dinâmica geopolítica até os dias atuais. A Revolução Iraniana foi um dos principais
fatores que levou o aumento do preço do barril do petróleo, resultando, e aqui sendo o
foco deste artigo, uma crise econômica generalizada e como o FMI agiu mediante a este
problema, principalmente no Brasil e na Argentina.

A política externa do Irã pré-revolução consistia em uma “secularização e


ocidentalização do país; à modernização da economia como forma de fazer frente ao
comunismo; e à eliminação das classes opositoras políticas” (SANTO; BALDASSO,
2017, p. 74). Tais medidas já eram esperadas, visto que o Xá Reza Pahlavi fora
colocado como líder deste país mediante uma ação dos EUA e Grã-Bretanha para
destituir o governo presente até então, este que adotava políticas nacionais, afetando
desta forma o interesse norte-americano1.

Entretanto, esse cenário é modificado completamente. Com a introdução dessas


políticas “ocidentais”, determinadas classes começaram a se sentir prejudicadas,
culminando na Revolução de 1979. O Aiatolá Khomeini chega na liderança do país com
uma política externa aversiva aos preceitos ocidentais colocados em prática até então
como é exemplificado pela sua nova Constituição, deixando claro “o não alinhamento
com as potências dominantes” (IRÃ, 1979 apud SANTO; BALDASSO, 2017, p. 75).

E é a partir deste momento que o Irã suspende a produção do petróleo, causando


um cenário econômico ainda mais caótico que implicara a crise de 1973. De acordo com
Gross (2019), a produção de petróleo cai cerca de quase 5 milhões por dia entre 1978 e
1979.

IMPACTO DA CRISE NOS PAÍSES LATINO-AMERICANOS

1
Ver página 73-74.
Por conta do impasse entre os países do Oriente Médio, destacando-se aqui o Irã,
os EUA tomaram medidas a fim de não sofrerem com os impactos que afetavam as suas
contas internas. Uma figura norte-americana que foi central nas articulações para o
controle econômico deste país ocidental, foi o então, indicado em 1979, presidente do
FED Paul Volcker. Em um texto publicado no site O Globo, Luís Julião retrata esta
crise (2016) como um efeito dominó, os países latino-americanos entraram em uma
crise que teve efeitos até os anos 2000, conhecida como “a crise da dívida externa”.

Este aumento de juros citados por este autor se refere a política de Volcker à
frente do FED. Os países latino-americanos passavam por um momento em que
necessitavam de empréstimos externos para investir em seus respectivos setores internos
providenciando o desenvolvimento – como a área de infraestrutura, fontes energéticas,
transporte e etc. –, entretanto, devido o Segundo Choque do petróleo, os EUA, os que
viabilizavam a maior parte dos empréstimos, principalmente para estes países,
aumentaram a taxa de juros de 12,88% para 20,18% a.a 2. A consequência é a
inviabilidade dos países pagar os empréstimos que fizeram, declarando desta forma
moratórias – como foi o caso do México em 1982.

O papel do FMI neste momento foi de buscar negociar com estes países,
entretanto, para tal, era necessário que estes cumprissem com algumas medidas, estas
que foram estabelecidas pelo Conselho de Washington. Tal quadro é expresso por
Petrônio Filho (1994), onde cita que o cenário de crise foi originada pelos erros de ações
econômica dos países latino-americano, assim “as dívidas externas poderiam ser pagas
desde que os governos dos países endividados corrigissem as respectivas políticas
macroeconômicas e realizassem reformas sob orientação do FMI e do BIRD”.

2
Disponível em: https://acervo.oglobo.globo.com/em-destaque/apos-choque-do-petroleo-juros-sobem-
nos-eua-america-latina-vive-crise-da-divida-20272880
DANTAS, Fernando. Paul Volcker é símbolo do aperto financeiro. Estadão,
Internacional. São Paulo: 2008. Disponível em:
https://internacional.estadao.com.br/noticias/eua,paul-volcker-e-simbolo-do-aperto-
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FILHO, Petrônio Portella. O ajustamento na América Latina: crítica ao modelo de
Washingnton. Lua Nova, n° 32, São Paulo: 1994. https://www.scielo.br/scielo.php?
script=sci_arttext&pid=S0102-64451994000100007. Acesso em: 14 jun. 20.
GROSS, Samantha. What Iran’s 1979 revolution meant for US and global oil markets.
Broookings: 2019. Disponível em: https://www.brookings.edu/blog/order-from-
chaos/2019/03/05/what-irans-1979-revolution-meant-for-us-and-global-oil-markets/.
Acesso em 14 jun. 20.
JULIÃO, Luís Guilherme. Após choque do petróleo, juros sobem nos EUA e América
Latina vive crise de dívida. O Globo, Economia. São Paulo: 2016. Disponível em:
https://acervo.oglobo.globo.com/em-destaque/apos-choque-do-petroleo-juros-sobem-
nos-eua-america-latina-vive-crise-da-divida-20272880. Acesso em: 14 jun. 20.
SANTO, Murillo Müller do Espirito. BALDASSO, Tiago Oliveira. A Revolução
Iraniana: Rupturas e Continuidades na Política Externa do Irã. Revista Perspectiva.
Espírito Santo: 2017, v. 10, n. 18. Disponível em:
https://seer.ufrgs.br/RevistaPerspectiva/article/view/80167. Acesso em: 27 mai. 20.
SILVA, António Costa. Petróleo e Poder: A Luta Pelo Poder. Instituto Português de
Relações Internacionais. Portugal: 2005, Revista R.I., nº 6. Disponível em:
http://www.ipri.pt/index.php/pt/publicacoes/revista-r-i/arquivo-de-revista-r-i/79-
relacoes-internacionais-n-6. Acesso em: 27 mai. 20.