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título: Dialética das nuvens.

  

aos possíveis leitores​: ​Álvares de Azevedo, em prefácio da ‘Lira dos vinte anos’
escreve: ‘’São os primeiros cantos de um pobre poeta. Desculpai-os. As primeiras vozes do
sabiá não têm a doçura dos seus cânticos de amor. ’’
da minha parte, confesso: não foi ainda nesse livro que arquivei o mistério e a fascinação que
escorre dos automóveis abertos; das nuvens de vertiginosa brancura; dos lugares onde o ar é
saudável; das mulheres e das crianças; da comunhão sincera e gratuita de duas ou mais
pessoas.
contudo,​ ​esse livro é testemunha de meus momentos de sensibilidade, por meio da qual em
meus olhos deslizaram o que foi antes de mim, chamado de ‘’a tinta do coração’’; testemunha
dos momentos em que senti um santo alívio: seja ao ler nos ônibus; ouvir músicas; não dormir
por estar eufórico ou fazer do sábado um monumento de alegria... também dos momentos
quando achei que me diluiria para sempre no centro da escura noite, dos combates com o
Dom Quixote taciturno e perdido que há em mim, das intermináveis crises que atravessei
sozinho num pântano maligno.

dedicatoria: ​para a minha família, e Matheus Alves, meu amigo. 

invocação à palavra amor. 

para a professora, Tamiris Vianna.

amor compõe edifícios no ar,

constrói castelos de vidros

e arquiteta mares de solidões.

amor é um bálsamo em forma de selo,

pregado ao espírito

e às afeições das criaturas humanas.

amor dilui as formas, pasmando flores, deuses,

ventos de sertões, chamas sem pecado.

e, nesse pasmar, casam, diariamente, no céu e na terra:

animal e luz, concreto e abstrato.

todo sólido, toda matéria, todo núcleo,

tem no corpo a substância neutra de amar.


todo gesto tem no fundo um resquício de amor.

todo fio de vida, facho de luz, crepitar de respiração

nasce puramente do dourado arco do amor.

amar traz na brancura do seu vestido a invenção do tempo.

só o amor apresenta a resoluta existência.

amar nunca se satura no ato de da amação.

é amando que almas se expandem e se envolvem, até serem uma só:

no chão, sacada, hotel, rua escura.

o resultado é o relaxamento do cosmos.

amor em madureza, amor em juventude...

amar nunca foi questão de rugas ou de transparência,

aquilo que se ama não tem idade.

amor... o giz da tua palavra contorna a silhueta da alma humana...

e só em amor a alma se basta, se resolve, se sacia

e volta a ser o que um dia foi.

retorna às origens, quando os seres se iniciaram em um breve primeiro estágio,

e logo se transformaram em uma ebulição,

pronta para desaguar na terra virgem.

amor mastiga o puro silêncio e nos devolve rosa aberta,

estalo de beijo, cama feita ao anoitecer, água na concha das mãos,

caminho sem obstáculo,

e, por fim, um outro mundo

um outro mundo sonhado,

como um dia sonharam os anjos,


quando compuseram a natureza humana.

mestiçagem. 

a minha pátria é não ter raça.

existo órfão de antepassados:

sou transparência sem água

e pegada sem chão.

alvejo-me na luz da manhã.

meu destino é ser poente.

remoço minha tardia infância.

caminho para me curar de sofrer.

vou me escrever de alegria.

pois qual maior infortúnio

se não ainda em vida

ter saudades de viver?

o mito de Sísifo. 

vertigem, suor e bagaço de homem.

o mesmo enjoo e fardo de ter olhos e não ter horizontes.

as mil e uma faces apagadas no cotidiano. eu vou de automóvel nas avenidas.

(alguns rostos passam e se perdem na cor da velocidade)

minha vida é tão sensível. poderia se quebrar com um

acidente qualquer. e faria falta alguma.

vivi de palavras. não obstante, nenhuma delas se daria ao trabalho,

de prestar homenagem ou de fazer que alguém se lembre do pouco que algum dia fui.
eu tenho um corpo, um peso e um nome.

não levanto voo e não mergulho em abismos.

rumino frases e mastigo ausências.

levo comigo a costumeira febre de viver.

e, na completa falta de ser autêntico,

eu inventei uma realidade mais amena.

contudo, a descobri falho e desprezível

e amanheci sem parede ou porta.

sem saída ou esconderijo.

sem terra, pão ou abraço.

essa tarefa de nascer de mulher

e cumprir penas diárias:

isso deveria ser apenas para santos.

ou para falsos deuses, já mortos.

não para homens medíocres como eu.

homens sem absolutamente nada de divino.

homens de tamanho romantismo

que quase optaram pelo celibato.

homens que foram censurados

por chorarem na infância.

homens que, de tanto seguirem os caminhos do coração, esqueceram os caminhos do mundo.

a pedra Sisífo continua firme:


o sol tem um arco de delírio na boca

e despeja os homens ao trabalho.

as farmácias são seguras de seus contadores.

os mercados são depósitos de lixo industrial.

os escritórios são mártires de inveja e de adultério.

e as casas, embotadas de ruídos e de náuseas.

eu sou melancólico como uma pausa dentro de um solo de flauta.

espera. 

ali no útero da tarde

eu te esperava como a solidão

espera um homem ficar sóbrio.

lavoura. 

semeie tua palavra

nos gomos áridos

desse espaço em branco.

enquanto ainda é estação.

ode a Jorge Ben, emissário da onibenevolência. 

de 1945, zé pretinho veio.

45 marca o fim da barbárie nazista.

marca a iniciação de um emissário.

a frase agra-
matical. o morro

se enchendo de graça,

a voz rouca de roda de samba

e cachaça.

alquimista cósmico

que trabalha o ritmo metálico.

desfila maquinarias dissolutas

e retifica uma cultura de névoa.

tudo é Cadê Tereza.

tudo é País Tropical.

eu não sou flamengo

mas sou fluente no estudo

das décadas de preto e branco

onde Fio Maravilha só não entrou

com bola e tudo porque teve humildade.

já quis ser tu, Jorge Ben.

nas me contento em ser Marcos.

contento-me com o magro invento.

e não almejo o espaço final

que é só teu.

oh! meus delírios boiando

nas águas da madrugada.


experimentalismos e mutações

também compõem meu caminho.

eu e o povo somos sementes

do seu ritmo alegre e miscigenado.

que não acabe sua música,

Jorge, que é uma gentileza

e motivo de sorriso

aos que sofrem a falta do pão.

confessionário. 

eu não amei as contradições do mundo.

não levei nos ombros os santuários

dos quais os homens veneram com toda fibra das vísceras.

e a vontade de chorar imobilizava minha vida.

eu não amei a espiritualidade da solidão.

contudo, me exilei do convívio humano,

não tencionava morrer, pois a morte é demasiado exílio.

ambicionava, sim, me ausentar do tempo;

apagar-me do presente; regressar ao ventre;

desinventar essa angústia de nascença;

diluir a sofrência grudada à boca...

não existir, para não me doer a vida.


neu corpo foi um chacal atordoado,

uma várzea irremediavelmente abandonada,

um giz de loucura e de profunda confusão.

passei os dias em um escuro encenamento

de como morrer silenciosamente.

eu não amei nem mesmo esse que sou.

vivia buscando reconstruir o mito do passado.

e essa brancura na minha voz

não deixava cumprimentar o futuro.

ardência. 

eu pronuncio teu nome como quem toca um verão feito de palavras.

anúncio. 

larvas de amor

comendo minha palavra.

sede azul e quente

azulando meu desejo.

tardes de agosto

enchendo minha nostalgia.

fumaças e signos

desenhando teu nome.

substâncias cíclicas

aflorando em fogo
meu corpo à procura do seu.

e na procura um delírio

encarnado em forma de espasmo.

sentimento paterno

trazendo vontade

de te ter como filha.

coragem e ternura

fazendo te ver como irmã.

ídolos de suor e febre

fazendo eu te querer como amante.

choque. 

o mar bate em pedras.

Poetas batem na porta da desgraça.

odisseia, 1998. 

um homem atravessa o litoral.

uma sereia de seios de algas

de longe o observa.

o homem ignora. surda marcha até o centro do mar.

a sereia canta uma melodia precisa.

o homem mergulha no oceano.

vai indo ao encontro das cidades submersas.

pretende nascer de novo


nos fundos do vestido de sal

que coroa sua noiva

de nome mar.

recurso linguístico.  

a pessoa amada dizendo sobre amor é metalinguagem.

aurora​.

ah! sensação de contentamento,

se reconstruíram as ruínas do meu peito, antes oprimido.

eu quero uma grinalda verde e uma mulher de marfim

objetos cheios de luz e frutas macias.

aos poucos, fico menos rígido

desaprendo lentamente como sorve o leite ínsone,

ao qual fui acostumado desde a tenra infância.

recuso aos poucos o fermento de angústia que antes dominava minhas veias.

o amanhã nasce sem os percalços do ontem.eu já arquiteto outra pátria

onde jacintos e flores de crepom enfeitam a noite luminosa!

morto na tarde. 

simultaneamente

as enxadas vão escavando

a terra. Sou enterrado vivo.

a nudez do céu vai sendo ofuscada.


 

surreal.  

girassóis fulminantes

assassinam estátuas

sedentárias e inócuas.

eu não aguento mais

esse estado de decomposição.

desintegro-me aos poucos

em pura tragédia.

preciso subverter.

não vejo a hora

de me libertar do meu corpo.

regressar à luminosidade

de ser apenas ideia.

companheiro. 

por de baixo do invólucro

fica o sincero não dito.

assim esquecemos o dito

que era melhor ser guardado

no quase dito.

arde essa solidão a dois.


onde somos testemunhas

desse silêncio lessa-vida.

minerais compõem

nosso rosto, onde escorrem

águas juvenis.

desde cedo: te acompanho.

nossa irmandade é feita

de delitos de infância.

iniciações incomuns.

companheiro significa:

aquele que divide o pão.

e mais que isso:

dividimos a fuligem

da incomunicação e a amargura

quase hereditária.

desperta de nós,

um córrego triste.

poesia, liberdade. 

reinvento-me de vozes

e ludibrio a linguagem.

sou a solidão da asa


no espaço inócuo.

eu, raiz exposta

sangrando vida e latência.

não amo o mundo.

nem nada do que dele

se compõe, na vastidão.

estou pronto

a morrer como divindades.

pronto a escurecer

mesmo no centro da luz.

insights.

nos meu olhos passam insigths tecnicolor duros intactos. trechos do que foi e não mais é.
relances do que será e ainda não é. o sábado é cruel. especialmente no início do meses.
desmistifica minha carne. reduz as coisas a um estado bruto. não levanta solução nenhuma.
deixa em aberto os porquês. traz uma redoma de fumê. exilando-me de tudo. não assistirei
Strip-tease nem os noticiários. será escasso entretenimento. desgastarei palavras com pressa,
fúria ou simplesmente indiferença. terei ansiedade e exercícios de respiração. buscarei ar, na
superfície, como na volta de um escafandrista. faltará até mesmo uma moedinha. minhas
economias são curtas. não posso beber cerveja, muito menos corote. e não tenho o costume
de beber. enfrentarei a severidade do momento totalmente sóbrio. ou não? talvez essa lucidez
que se passe no meu corpo seja enganadora. talvez tenha enlouquecido horas atrás. penso nos
estudantes de medicina que desmaiam ao ver cadáveres na iniciação científica. árduo trabalho
ver o cru da vida. e por dentro somos crus. falta alguma palavra para justificar a vida. essa
justificação não é filosófica, é de um campo menos racional. não tenho mulher. desperdiço
todas. sofro por amar. toda hora parece querer arrebentar de mim desenfreados instintos e
gestos. mal me seguro. com um gesto eu tento dispensar um conflito que se faz onipresente
na minha consciência. apago e acendo a luz. tenho medo que a lâmpada queime. o escuro
esconde os móveis e cria um olho no teto que me julga e diz o que tento negar. diz o que
esconde de mim, desde o início dessa temporada. nessa última semana, estou em crise. jogo o
jogo do contente e tento pensar nas crianças que sofrem de subnutrição e têm os pés
mordazmente sujos. eu tenho os pés sujos, e eles mancham o lençol azul. penso em nunca
mais sair de casa. impus quarentena.

tudo é não-amor. tudo é caos jorrando do ventilador.

ternura.  

aprenda a me querer.

meu carmim,

minha seda de brancura.

da ocupação ao feitiço

do meu coração.

sofra por mim.

se encolerize, morra,

troque tudo por mim.

conto os minutos

para no fruto da noite

te mutilar de ternura.

quero tocar na sua nudez

como quem toca em Deus.

um novo poema da necessidade. 

(a carlos drummond de andrade.)

é necessário remendar os panos da vida.

é necessário abrir a noite, com a chave de um sonho.

é necessário construir um novo edifício

para abrigar os mendigos sentimentos.


é necessário encontrar Deus, ainda nessa vida.

é necessário parar de fumar e pedir dinheiro emprestado.

é necessário ouvir uma música que fale da amplidão,

e esquecer o sentimento do nada.

é necessário, mesmo que doa, arrancar os olhos

e ver a vida por um outro ângulo.

é necessário nascer de novo, quantas vezes for preciso.

é necessário deixar as margens desse rio solitário

e entrar na cidade, com as mãos pálidas, anunciando que o sol ainda brilha, mesmo que nos
olhos escorram trevas.

eu estou procurando. 

eu estou procurando, varrendo os subsolos, à procura de alguma coisa palpável.

eu estou desencaixotando velharias e tentando ser irmão

do absoluto que mora na existência.

são tantos objetos já anoitecidos e ocultos.

meu amor, que horas você passará por aqui?

trará um pouco do que fui?

eu não aguento mais meu estado atual.

eu sou uma casa velha a mastigar a paisagem.

essa agitação é natural, meu bem, isso não é cocaína.

é apenas uma intensa vontade de fugir,

criar com os pés um país distante e patético

onde de manhã todos podem chorar nas praças

e deixar de fingir que aguentam o espetáculo da vida,

vontade de entrar em jardins verdes, roxos, de todas as cores.

se eu entrasse num jardim, tentaria reinventar meu mundo inteiro.


por enquanto, estou viajando na carne desse dia.

E, nesse ritmo distante, saio na rua, sem pátria, sem dinheiro,

apenas por andar de forma errante.

e, na minha cidade, principalmente a essas horas, não existe nem sinal de jardins...

linguística. 

os signos são arbitrários

o significante de amor não é seu nome.

o referente não é seu rosto.

​comtemplação. 

as nuvens são os icebergs do céu.

mar de java. 

teus dois olhos

mais parecem filhos

do mar de Java,

irmãos de palavras que sonham,

úteros de vida, selos, pés de romãs

teus dois braços

abraçam o núcleo da vida,

feito uma mãe lacrimosa

um cão fiel

um senhor benevolente
teus dois pés

são construídos de luz,

moldados em máquinas gasosas

seu silêncio é o timbre de uma flauta porosa

amor é linguagem transitória

quando passa

deixa vestígios na carcaça

trégua. 

os mais violentos combates são aqueles que não envolvem sangue.

felizmente

hoje de manhã sangrei um pouco.

tempo. 

o que põe em uma reta os sofrimentos...

depois. 

estou cheio de paredes após sorver o caldo do sofrimento.

esperança. 

um cavalo galopando
rumo a uma cidade de ouro.

entranhas. 
aquilo que levo na ponta dos dedos.

erótico. 

teus seios na foto

são poemonografias.

crucificação.  

eu, crucificado em setas negras.

mergulhado em águas turvas.

não ambiciono nada.

não prossigo através de nada.

reticente por conta

de um anteontem,

não tenho velocidade

ou massa para abrir

o flanco verde musgo

do tempo vestido de carrasco.

inconsciência. 

naquele momento, desmaiei.

minha boca ficou tingida de branco.

era um branco tão forte e solitário

que mais parecia a violeta branca da agonia.

cotidiano. 
fábrica de produzir desencantos. 

demiurgo. 

o descobrimento do demiurgo já não me atrai tanto. antes, era um sempre querer. aos poucos,
não me fascina mais. estou perdendo o desespero em descobrir o que há na antimatéria da
máquina do mundo. não é mais urgente saber quais minerais formaram o caldo humano ou
quem foi o primeiro homem.

antes, eu imaginava seres superiores por graus, que nos olhavam cotidianamente e, com
estranheza, viam nossas aventuras assalariadas ou a fome da falta do dinheiro. nos olhavam,
tendo todas as respostas e palavras que nos faltam. superiores em graus como somos diante
de formigas. faziam anotações sobre o drama terrestre. nessa visões eu me perdia. não sabia o
que falta a seres humanos. e o que faltaria a nós? temos, claro, uma esperança quase
auriverde. ajuda-nos nas pequenas coisas, como, por exemplo, suportar os fardos, sem o
auxílio do álcool. ou encontrar razões nas sem razões do fluxo habitual do tempo. por vezes
mistifica, um estado bruto, que poderia nos fazer abaixar a cabeça e nunca mais voltar à tona.

contudo, a quase auriverde esperança não impede um desmanche na superfície da realidade e


voltas compulsivas no calor absoluto do interior. não impede de não conseguir entrar em
assuntos corriqueiros por conta de um estado de sítio interno. não faz nada para impedir
desmaios e aves noturnas que bicam nossos corpos, trazendo a peste da insônia. ou o
encerramento em solidão, por medo ou precaução de não mais amar, pois o estado é líquido e
volúvel e amanhã poderemos ser outro.

sempre somos outros. sempre somos os mesmos outros

mas foge ao meu léxico o que nos falta. é uma falta que dói como um membro apodrecido.
certa vez, eu senti essa falta. deitado em uma cama estranha. era outra cidade. minha
companhia havia me deixado por alguns minutos. corria um blues pelo ar. ali, dei conta da
minha humanidade e um vazio devorava meus órgãos. eu sentia que faltava. lateava uma
ausência monstruosa. depois disso, nunca mais fui o mesmo. em uma festa naquela semana,
chorei no banheiro, salgando a pia, ao ponto de peixes negros brotarem nos ralos.

mas me conformo aos poucos, a lentidão dos ciclos. não protesto. não grito. calo. espero.
deixo a fluidez escorrer no meu corpo. vivo minha vida sul-americana, sem mistérios. sem
encantamentos. convencido de que minha procura foi alucinada. nessas mansardas onde vivo,
me acostumo aos ratos e à fartura da miséria.

o que restou. 

de ipês amarelos

meu caminho sonhei,


apenas raízes amargas achei.

mma tarde em fevereiro de 2019.  

desprovido de sentido último.

sou apenas um homem e não levo comigo um único botão de fazer auroras.

um único dispositivo de acionar milagres.

a vida passa entre canaviais de angústias

e um enferrujado rio de dúvidas.

o sol ilumina, mas também castiga.

eu improviso um blues, enquanto sinto na carne

o líquido verde, de mil maneiras de morrer.

eu não tenho casa e nem pátria.

Atordoado no prado escuro, confuso e relutante

em uma massa disforme de milhões de outros homens.

eu me confundo na multidão.

eu iludo, eu minto e me calo.

e com um beijo cômico e desesperançoso

aquilo que eu levava no selo da alma,

me traiu. e tudo, inclusive o amor, é uma apagada lembrança.

um rosto esquecido, um ídolo morto,

uma mentira esganada por um facho de verdade.

e faltou no momento mais necessário do campeonato uma mulher dessas que dizem

coisas mansas e paradas.

mma mulher que dissolvesse a ausência,

a falta, o vazio, a obscuridade da noite.

uma mulher. uma mulher.


durante as tardes, o clima é favorável.

à noite, é quando ocorrem súbitos desmaios.

é quando a disputa se acirra, e minha cabeça é posta a prêmio.

é quando alguma coisa sem nome se personifica em caminhos medrosos e verdes.

caminho esses que, ao palmilhar meus pés,

se tornam cada vez mais desgastados.

E me dói manter o equilíbrio.

e o tempo é uma surda máquina de construir

mortalhas e melodias fúnebres.

e o cortejo é cada vez mais inevitável.

e, mesmo beijando o presente, eu pressinto os passos de marfim da minha derradeira morte.

e eu, espectador e receoso, espero a qualquer momento um tiro na garganta.

a vida é um incêndio que molha.

composição. 

não fui feito da mesma

substância do ferro.

sinto os universais humanos:

fome, medo, sensibilidade.

em noites como essa,

alguma coisa se revela em mim.

divide o tempo, rouba a consciência,

me faz nascer novamente.

e morro na sucessão

de segundos, para voltar


mais racional, calmo, compenetrado.

tantas ciências, nesse vasto mundo,

e tudo é tão raso e pouco.

algumas palavras, no minuto errado,

custam uma vida, um abismo na emoção.

nos vazios da tarde,

entra uma luz diminuta.

convence-me de que o necessário é viver.

mas, no momento, escorre

nos vidros da pupila,

um sinalizador de vida.

salgando o chão.

abrindo um mar aos pés.

tantos requisitos,

tantos protestos contra a existência.

tanto amor deixado às traças.

tanto parcelamento e esquecimento.

o futuro há de ser melhor.

a esperança

ainda intoxica

os pulmões da vida.

controle. 

fazer caminhada é arar a ansiedade.


sobre um desejo. 

meu desejo é uma fome,

fome que não procura o saciamento.

procura sentir cada vez mais o prazer

de semi realizações e de vindouras fomes.

antevejo o início da curvatura do seus seios.

há pequenas manchas, simbolizando

pequenas estrelas de fogo e água.

procuro adivinhar seu corpo despido,

esse corpo de clarão e tempero marítimo.

sonho, sentado e sentindo espasmos,

o contato da língua com a língua,

numa confluência sagrada.

cai nos meu pensamentos,

o choque dos corpos, como ilhas

se fundindo até ser continente.

santidade.  

o silêncio é que verdadeiramente foi feito à imagem e semelhança de Deus.

alucinação. 

o mar é uma alucinação,

um espelho do céu,
um monstro azul soterrado.

e os vidros se quebram

ao som do rumor das águas

que são como seus olhos:

puros e transparentes.

demonstram na cerração das pálpebras

todos os crepúsculos possíveis e imagináveis.

desconfio que te amo porque em ti

vejo a figura do meu passado,

aquele outro eu,

que andava em secretos jardins,

amava a solidão, criava luzes,

num tempo em que as tardes cheiravam a orquídeas

e a primavera arrumava distrações,

aniversários e um contentamento espontâneo.

no teu rosto, vejo a tocha do futuro,

a promessa de um novo verão,

o fim da seca no meu íntimo,

vejo uma descoberta, um analgésico.

todos os meus sonhos de menino

são estampados na tua pequena boca,

boca manchada de batom, que diz palavras

que constroem altares e bandeiras no ar,

no tempo, na concha de mil e um instantes.

boca de saída de pássaros que não têm nomes,

de rotações marítimas e flores em fogo,


isso tudo, atrelado a suas pernas

que dão a volta nos moldes do meu coração.

e sua voz é um cisne dourado,

que dança num compasso de Galácia,

restaurando o que um dia todos os homens foram.

por isso te amo. amo vigorosamente, sem reticências, amo como um anjo ama

um suicida afogado e como um suicida

um dia amou sua vida.

sem recurso. 

nem Bach salva as catedrais da dor.

memória.

tinta de colorir o passado.

dialética africana. 

a minha melancolia

tem sua raiz no fundo

do meu primeiro grito preso ao navio negreiro.

entretanto, a minha alegria

é antiga como os oceanos

que se banham de luz nas minhas terras...

e a minha glória já era viva e acessa

antes do primeiro risco de fogo!

 
reacionarismo.

o melhor argumento contra o reacionarismo é deixar seus proponentes falarem.

pedra. 

uma pedra toca meu joelho.

doce milagres de cura

num cíclico mundo.

ruídos e conversas, vindas

de um ontem azul

descaducou minhas paredes.

contudo, me desintegro em substâncias

de todas as cores e não sei

se ainda serei homem amanhã.

ou se estarei de corpo inteiro

no trajeto que delimitei a mim.

sempre mais. 

teu corpo é água que duplica a sede.

uma hora. 

uma hora os botecos fecham,

e já não podes comprar fiado.

uma hora, a noite desce veloz e furiosa dentro da tua confusa alma.

uma hora, o vazio costura um pano

e tu trabalhas com uma mordaça na voz.

uma hora, faz frio e chove muito,


e fica impedido o acesso ao entretenimento.

uma hora, o medo veste capuz

e sai cantarolando no meio das avenidas.

uma hora, a casa se torna um retrato

de um pesadelo lento e cumprido.

uma hora, tentas o recurso de um tiro

contra o inimigo incolor e tu mesmo acabas ferido.

uma hora, o silêncio ensurdece os teus tímpanos

e não podes ouvir a música de fundo,

que serve de trilha sonora deste teatro.

uma hora, o reflexo mostra distorcidamente,

apenas o que procuras ocultar

e tu és tentado ao suicídio na praia.

uma hora, guardas um segredo

e ficas empobrecido...

porque perdestes o chão.

pedido. 

quero

atender

todos

os teus caprichos

e ser servo de incomensurável fidelidade

e ser o rei do circo do teu coração.

quero
admirar

tua teimosia

e refletir minha paixão

no teu rosto

e beber do teu copo

e abrir caminho ao teu céu

e borrar o sangue do teu batom

e dividir a mesma nota

e a mesma concha

e o mesmo sonho

sonhando na luz dos teus sinais

e bebendo das carícias da tua manha

e como ave, voar no teu corpo

e como maré banhar

teu porte de sereia

e ir naufragando no teu canto

e deslizar no solo dourado do teu sexo.

equilíbrio. 

nada mais do que a simples e efetiva estruturação do caos.

falemos baixo. 

uma melancolia cochila na tarde.

conversas rasas e baixas

para não acordar o pesadelo.


diagnóstico. 

meu coração oprimido

nadando em cinza escuro.

de raízes sujas e algas

lilases da cor do medo.

devastação de agosto,

de sempre, de ontem,

devastação que aconteceu

amanhã.

devastação no meu corpo,

na menina dos meus olhos,

resquícios por toda parte

mais uma parte imaginária.

além de mim, nasce um outro eu

homem-bicho resultado da batalha.

biografia. 

a minha vida está apodrecendo como o silêncio em um sítio abandonado.

saudade. 

os incêndios das semanas

varrem minha carne.

cada vez, mais distante do ponto alto, onde a neve


formou um busto de mulher.

antevejo-me cada vez mais

irremediavelmente perdido.

faiscando numa usina de escuridão.

após uma recusa. 

minha solidão tem corpo e ela sim, gosta de dançar comigo.

deserto. 

miragem foi ter visto essa oportunidade.

e ter tomado aço sulfúrico, ao invés de água.

verbete. 

o sonho é o único ato de rebeldia realmente significativo, livre e gratuito.

mar de areia. 

perdido nesse mar de areia, eu confesso ao vazio todas minhas angústias. na presença de
gentes, pouco me abro. mas, quando estou só, todo me dispo e choro. e sofro, companheiro,
sofro até mesmo pelo inútil.

às vezes, tenho medo. medo de desaprender a me comunicar na linguagem humana. regressar


a um estado completamente animalesco.

troca. 

o meu coração foi trocado por um rio de águas enferrujadas. quando percebi, era muito tarde.
e não tinha a quem reclamar sobre essa troca silenciosa. na margem, me sento. a paisagem é
uma coleção de antigas angústias. os arpões do passado se fazem presentes. eu tenciono uma
fuga da vida. um subterfúgio marítimo e definitivo.

os meus pés deslizam em uma superfície feita de ar e não tenho onde depositar o fardo de
existir.

você poderia. 

você poderia ser tudo que alguém pode ser.

poderia ser o plural de alguém. aparecia inaceitável você não ser nada. tudo caminhou para
você simplesmente ser. e o que você seria, se tivesse tornado o que poderia ser?

você seria o palco que sustenta o artista. seria o discurso que o faz emancipado e proprietário
de uma grave voz para se comunicar com as massas. você poderia. você poderia. você poderia.
você poderia. você poderia ser uma nuvem e, nos sábados, enfeitar o azul metileno. poderia
ser a novidade, que faz furacões dentro da alma do artista. poderia ser o tiro que o matou e o
reviveu para a eternidade. poderia ser a quebra do ritmo e a dissolução da monotonia. você
poderia tanta coisa. mas foi indiferente, mediante as sensibilidades. e fez do artista um galho
seco jogado na grama. onde algumas crianças urinam ao amanhecer.

a minha musa e eu. 

a minha musa é uma morte secreta

ou um carinho desastrado,

que levo comigo,

quando passo a linha do Equador.

a minha musa tem nos olhos

vozes que dizem de afetos e histórias.

é um escuro seiva vegetal, capaz de dar vida

a tudo que já passou e não mais é.

a minha musa é como o som de passos

em Copacabana, Leblon ou Tunísia.

ela é os desmaios da manhã ensolarada


e os acordes de uma viola sertaneja.

e eu sou o que retornou logo de manhã, depois de saquear os governos celestiais e trazer ouro
puro para fazer uma pétala dourada e enfeitar seus cabelos.

25 de dezembro, 2017. 

o óleo do dia escorre em forma natalina.

tenho 19 anos e uma brancura interior.

e estou convencido de que Santo Anselmo

e Descartes erraram tragicamente:

a existência não é uma qualidade.

existir não é mais perfeito do que não existir.

promessa. 

meus olhos irão voar novamente.

minha alma vestirá o seu melhor terno.

haverá uma varanda feita de girassóis,

nos quintais de cada esquina.

eu apagarei minha profunda saudade de Deus.

eu irei fazer um vestido de sol para vestir um anjo esculpido em mármore e em ternura.

tudo isso quando morrer, as engrenagens assassinas do mundo

e num solavanco nascer uma cidade dourada.

solidão vazia. 

assaltam-me substâncias oriundas dos núcleos e poros do meu desespero. tristezas deslizam
nos solos das emoções, revertendo meu riso em pranto. e não tenho para onde galgar, falta
som, falta a conexidade das coisas firmes.

levo comigo uma branca incerteza. aconchegada no regaço da minha existência, levo grandes
reticências e conflitos, que, mesmo tardios, insistem em alvejar meu espírito, sedento de
liberdade e de afago. cansei-me de estar cansado; não obstante, fico perdido nas linhas e nos
borrões do meu truculento coração.

as noites são ásperas e cheias de espáduas monstruosas. am vertigens e surtos, saio à rua,
fumando e desgastando a concha do tempo. nenhum abraço. nenhum beijo, na madrugada
interminável.

anjo da guarda. 

nunca mais irei apagar o batom de alguma menina.

estou condenado aos subterrâneos da solidão.

meu anjo da guarda, de tão cansado de fazer vigília,

ficou dormindo no último abismo que caí.

estação. 

primavera

te penso

a vera

reverso.  

dormir é a única forma possível de estar na realidade. A vida é apenas a metáfora do sonho.

sozinho. 

caminhas assaltado.

já não tens seu cão.

tua casa de vento e areia

se dilui nas horas gastas.

teus diversos caminhos


sumiram e ficastes suspenso.

forras, então, de sonho

o ar, essa viva substância.

dormes! não vale a pena chorar.

é cedo, dormes, a aurora vem.

dormes, pois o período escuro

é um piscar, antes do sol maior.

andaluz 

um cão andaluz

cruza a linha da imaginação.

tem suas plumas

já umedecidas de sono.

alcançará o sonho

onde levemente deitará

na cama do meu poema...

consolo. 

teus olhos são estátuas floridas que sonham.

o amor. 

só se ama a si mesmo.

pois o amor é o encontro

de fragmentos perdidos
da própria alma em outro.

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