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MURILO RUBIÃO E O DESCRÉDITO DA MEMÓRIA: CONSTITUIÇÃO E


FUNÇÕES DE UMA MEMÓRIA UTÓPICA EM OFÉLIA, MEU CACHIMBO E O
MAR

Marcus Vinícius Lessa de Lima


Universidade Federal de Uberlândia - UFU

RESUMO: Se a epígrafe de Ofélia, meu cachimbo e o mar já possibilitaria analisar a


atualização de uma memória histórico-literária nesse conto, há muito mais para se observar ali
acerca da produção e das funções de uma memória histórica de si no discurso do narrador.
Para tanto, nos valemos das observações de Pierre Achard acerca dos implícitos discursivos e
dos processos de regularização e repetição; daquelas de Michel Foucault acerca dos espaços
heterotópicos e utópicos; e daquelas de Michel Pechêux acerca da memória. Buscamos
evidenciar como essa última, sob um aparente processo de repetição, opera a reatualização e
contestação de elementos já-ditos. Enquanto o narrador rememora sua história e a de sua
família, encontramos o entrecruzamento de uma memória familiar e de uma memória mítico-
marítima, apontando ambas a uma função consoladora que tende a se registrar como
acontecimento recuperável no exterior imediato das personagens por meio de discursos
heterotópicos, ora inscritos em suas reminiscências ora em seus corpos, ora em objetos,
buscando sanar ausências e impossibilidades por meio do evidenciamento da memória.
Observamos a constituição exterior e heterogênea do sujeito-narrador e de sua memória, bem
como os procedimentos de atualização discursiva dela. Esses irromperão paulatinamente
como cesuras no discurso e culminando, pelo intermédio de um outro-interlocutor, no
descrédito das heterotopias rememoradas, o que tanto deslocará a memória do narrador para
um terreno completamente utópico, quanto lhe atribuirá uma outra função além daquela
consoladora, qual seja, a de evidenciar a opacidade do que é silenciado e não mais encontra
lugar na memória.
PALAVRAS-CHAVE: Murilo Rubião. Memória. Discurso.

ABSTRACT: If only the epigraph of Ofélia, meu cachimbo e o mar would enable us to
analyze the updating of a historical-literary memory, there is much more to observe in this

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shot story, such as what concerns the production and the functions of a self-historical memory
on the discourse of the narrator. We recall Pierre Achard’s notes on the implicits of discourse
and the processes of regularization and repetition; Michel Foucault’s notes on the utopia and
heterotopia; and Michel Pechêux’s notes on the memory seeking to evince how memory,
through a seeming process of repetition, operates the updating and denial of already-said
elements. As the narrator rememorates his history and that of his family, we notice historical-
familial and mythic-maritime memories interweave, pointing towards a comforting function
that tends to register itself as an event possible to be re-established on the immediate exterior
of the characters. This by means of heterotopia inscribed in their reminiscences, on their
bodies or in objects, but always aiming to evidence memory as a sort of aid from absences
and impossibilities. We also notice the exterior and heterogeneous constitution of the subject-
narrator and his memory, as well as its procedures of discoursive updating. Those erupt as
breaches on the discourse, gradually causing, through the mediation of an other-interlocutor,
the demerit of all memorial heterotopia, displacing the narrator’s memory to an all-utopia
territory, where its function will become that of highlighting the opacity of what is silenced,
no longer finding place in memory.
KEYWORDS: Murilo Rubião. Memory. Discourse.

“Yo creo que la memoria tiene fuerza de gravedad. Siempre nos


atrae. Los que tienen memoria son capaces de vivir en el frágil tiempo
presente. Los que no la tienen, no viven en ninguna parte.”
(NOSTALGIA DE LA LUZ, 2010)

1 PELO ESPAÇO DA MEMÓRIA


No horizonte da Análise do Discurso, mais particularmente na esteira de Michel
Pêcheux (1999, p. 53), caracterizaremos o signo linguístico por sua opacidade, à medida que
ele não apresenta inscrita em si uma trajetória de recuperação de sentido capaz de nos guiar às
imanências semânticas vinculadas a cada significante. Conforme a noção de implícitos
discursivos, atualizada por Pierre Achard (1999, p. 13), consideraremos esses como um corpo
de representações que “trabalha […] sobre a base de um imaginário que o representa como
memorizado, enquanto cada discurso, ao pressupô-lo, vai fazer apelo a sua (re)construção, sob
a restrição ‘no vazio’ de que eles respeitem as formas que permitem sua inserção por
paráfrase”. Contudo, não será possível estabelecer seguramente, em alguma fonte prévia ao
discurso materializado, a existência autônoma dessas paráfrases, de modo que o signo
linguístico se torna opaco, justamente devido à impossibilidade de fundarmos seus implícitos
discursivos, reconstruídos, em qualquer materialidade anterior (PECHÊUX, 1999, p. 53).
Implícitos que, a um só tempo, são pressupostos pelo signo e o pressupõe, sendo os próprios

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sentidos das unidades léxicas significados por um jogo de implícitos e explicitações na


materialidade do acontecimento discursivo.
Seguimos a proposta de Pierre Achard, segundo a qual a regularização de um sentido,
isto é, a sedimentação semântica deste ou daquele lexema se baseia num jogo de forças que
tem lugar na circulação histórico-social dos discursos e nos consensos linguísticos daí
estabelecidos, envolvidos com formações ideológicas e nelas inseridos, não derivando da
mera repetição de um enunciado (ACHARD, 1999, p. 15-16), ainda que ela remeta a uma
força fundadora: aquela do reconhecimento de um enunciado como um mesmo anteriormente
veiculado noutro lugar irrecuperável. Depreendemos daí que engendrar os significados
decorre da ordem da interpretação, não da ordem de um texto que fala por si: a significação
decorre da enunciação. Uma complementação necessária a esses apontamentos pode vir de
Pêcheux (1999, p. 53), quando, ao discorrer acerca da regularização dos enunciados, ele
propõe: todo enunciado repetido se inscreve num duplo jogo de forças; de um lado, a força de
manutenção de implícitos regularizados anteriormente, que tende a absorver novos
acontecimentos discursivos sob o mesmo enunciado e neutralizá-los; de outro, a força de uma
desregulação da rede de implícitos, que vem apontar para novos significados possíveis,
demovendo os limites e abrangendo o alcance de uma dada relação sígnica.
Ao debatermos o discurso literário, é imprescindível que nos atentemos para sua
polissemia constitutiva. Roland Barthes (2015, p. 28-29) ressalta que uma das forças desse
discurso consiste “em jogar com os signos em vez de destruí-los, em colocá-los numa
maquinaria de linguagem cujos breques e travas de segurança arrebentaram”. Ou seja, uma
das forças do discurso literário consiste em possibilitar, em sua emergência como
acontecimento discursivo, a desregulação de significados sedimentados noutros lugares,
precisamente naquelas fontes irrecuperáveis observadas por Pechêux. Esse discurso inscreve-
se, portanto, mais na ordem daquela segunda força atuante no jogo entre regulação e
desregulação do sentido: ele aponta para novos possíveis semânticos e expandindo as relações
sígnicas.
Nas páginas seguintes, nos interessará evidenciar quais mecanismos (con)formam
discursivamente essa força desreguladora, tomando por base a narrativa de Murilo Rubião
eleita como objeto de estudo. Observaremos como, ali, enunciados anteriores são mobilizados
e inscritos em um corpo linguístico outro, distinto e exterior às ordens discursivas
precedentes, ora repetindo os enunciados (mas só até certo ponto), ora engendrando

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opacidades semânticas que possibilitam, conforme Barthes (2015, p. 16), “com a língua,
trapacear a língua”, impulsionando-a para além das forças reguladoras do significado. Enfim,
objetivamos analisar formas de organização discursiva que permitem – e, novamente, Barthes
– “instituir no próprio seio da linguagem servil uma verdadeira heteronímia das coisas”
(BARTHES, 2015, p. 29).

2 DO ESPAÇO DA MEMÓRIA AO ESPAÇO DA UTOPIA


O conto escolhido é Ofélia, meu cachimbo e o mar, assinado por Murilo Rubião.
Observaremos como seu discurso se constitui, mais particularmente no que diz respeito à(s)
memória(s) que se entrecruzarão em sua materialidade, compondo um amplo corpo de
representações heterogêneas operado ao longo do enredo.
No conto, um narrador inominado, nosso sujeito discursivo1, em uma varanda de
frente para o oceano, tece a Ofélia, desinteressada ouvinte, relatos de momentos de sua
história familiar, da história do mar e da história da relação entre ambos, até notar esmorecer
o diálogo. Leiamos algumas das linhas iniciais: “Conto-lhe [a Ofélia] episódios da crônica de
minha família ou do mar, esquecendo-me frequentemente de que ela só se interessa por
histórias de caçadas” (RUBIÃO, 2015, p. 39, grifo nosso). Essa sentença descortina de uma
só vez o desinteresse de Ofélia nas palavras narradas e o cruzamento indefinido (adiante
esclarecido tanto no conto quanto em nossa análise) entre relatos acerca do mar e acerca da
família do narrador, indefinição, ou opacidade, se melhor nos cabe, que remonta à estrutura
frasal, nos permitindo gerar, ao menos, o seguinte conjunto de paráfrases: o narrador conta a
Ofélia episódios da crônica de sua família ou episódios da crônica do mar, ou conta
episódios da crônica de sua família que é / que também é / que também pode ser / que
também pode ser nomeada por crônica do mar. Diante do desinteresse de Ofélia, o narrador
questiona: “o que posso fazer, além de lastimar?” (RUBIÃO, 2010, p. 39), e, enfim, após
perceber que sua ouvinte se distancia do diálogo e lhe atribuir a atitude a um devanear, ele,
por seu turno, se cala, e remete sua atenção às impressões suscitadas pelo espaço: “Se noto
que a conversa vai morrendo por culpa de Ofélia, que cerrou os olhos para melhor sonhar com
selvas e tiros, calo-me por instantes e me ponho a ouvir vozes soturnas que vêm do mar.”

1 Para nos posicionarmos o mais possível no espaço imediato do discurso que analisamos, o narrador
constituirá nosso sujeito discursivo. Já o autor corresponderá a uma função (FOUCAULT, 2006a) que pode
ser considerada a posteriori dos discursos vinculados às personagens, função que não privilegiaremos tanto
no presente texto. Por expediente, após repousarem as palavras na página, as consideraremos autônomas em
relação ao sujeito que ali as colocou.
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(RUBIÃO, 2010, p. 39). Desse momento em diante, o narrador se entregará à continuidade


interna de um monólogo em que rememora as referidas histórias, enredando-as entre si: a de
sua família e a de sua família em relação ao mar, que, como vimos, também poderia ser
nomeada por história do mar.
Colocando-nos no plano do discurso desse narrador, poderíamos considerar que
devassamos uma memória individual, risco já apontado por Pêcheux (1999, p. 50) e por
Achard (1999, p. 11-12): é necessário que evitemos interpretar a memória “em termos de
‘realmente-já-ouvido’, memória fono-magnética ou registro mecânico”, aponta o último autor.
Evitaremos, pois, atribuir à memória uma integridade constitutiva ou uma coerência infalível
que permitiria, respondendo ao chamado do momento, acessar um passado individual tal qual
decorrido, com a mesma seguridade de quem acessa um imenso arquivo virtual à distância de
um clique. Escapamos, assim, da armadilha do indivíduo e poderemos observar como as
representações memoriais se constituem através e por meio do discurso.
Sumarizado o enredo, contornado o engano possível, um parêntese em relação à
epígrafe bíblica que precede o conto. Retirando-nos do plano que corresponde aos enunciados
do narrador para um plano paratextual em que nos referiremos a Murilo Rubião como uma
função-autor, funcionando aqui como uma maquinaria discursiva à parte da voz de seus
personagens, mas que encontra neles um de seus elementos constitutivos. Compreendemos a
função-autor conforme Michel Foucault (2006a), inicialmente considerando que a assinatura
de um autor empírico corresponderá a um nó de coerência exterior e interior aos enunciados
que acompanha, regulando a circulação desses, sua recepção e interpretação, bem como a co-
presença e co-referencialidade desse discurso em relação aos demais que formam a figura
comumente conhecida pelo nome de “obra”.
A inserção de uma epígrafe exterior e anterior ao conto constitui um acontecimento
em que o exterior / anterior é apontado a partir do interior / imediato do discurso e vice-versa.
Isso se dá tanto no que diz respeito à fonte dessa recitação, no caso, a Bíblia, reacessável pois
explicitamente referenciada, quanto no que diz respeito à posição desses versículos na
materialidade do conto, mantendo uma relação com o discurso que a segue semelhante àquela
que o próprio título mantêm com o restante do conto: a epígrafe se encontra imediatamente
antecedente e exterior ao enredo, porém irrompe na leitura, influindo na produção discursiva
dos sentidos. Detenhamo-nos nesse ponto.

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A epígrafe em questão, os versículos 25 e 26 do 103º salmo bíblico, “Este mar amplo,


largo de braços, nele sulcam as naus, o dragão que formaste para zombar no mar”
(RUBIÃO, 2010, p. 39. grifos do autor), manipula uma memória discursiva formada por
implícitos de natureza que aqui nomearemos histórico-literária, pressupondo a representação
do que seja historicamente Bíblia e do que sejam seus Salmos como parte de suas
materialidades literárias constituintes. Além dessa manipulação, a epígrafe, ao referenciar sua
fonte, explicitamente a retoma. Em contrapartida, negando a primeira impressão sugerida,
esse acontecimento não contradiz nossas menções a Pierre Achard, acerca da impossibilidade
de se recuperar parafrasticamente os implícitos discursivos em jogo: aqui estão os versículos,
podemos alcançá-los em sua materialidade primeira (relativamente, é claro, ao quanto se pode
atribuir essa primicidade à deriva conflituosa das traduções bíblicas); sua repetição, porém,
como enunciado operador de sentidos no conto assinado por Rubião, abre espaços semânticos
bastante distintos daqueles apontados pelo mesmo acontecimento no 104º salmo, Louvor ao
Deus criador, no qual a proposta laudatória do título é cumprida à risca e os versículos em
questão funcionam para inscrever o mar em uma extensa lista de obras divinas que
fundamentam a geografia terrestre. A leitura da epígrafe de Rubião não nos obriga a enxertar
automaticamente os versículos anteriores ou posteriores do salmo bíblico, e sequer
necessitaria fazê-lo.
Estamos diante de uma repetição ipsis literis, que responde à força primeira de seu
reconhecimento como uma repetição, mas que em nada contribui para a manutenção de um
sentido regulado no e pelo discurso bíblico: a epígrafe funda, junto ao enredo que a segue,
uma possibilidade de atualização semântica do recorte sálmico apresentado. A epígrafe, tal
qual o comentário, um dos procedimentos e mecanismos que agem para a delimitação
discursiva segundo Foucault (2014, p. 24), paradoxalmente aparece para “dizer pela primeira
vez aquilo que, entretanto, já havia sido dito e repetir incansavelmente aquilo que, no entanto,
não havia jamais sido dito”, transferindo do enunciado para o acontecimento discursivo a
potência polissêmica, a “multiplicidade aberta” (FOUCAULT, 2014, p. 25) dos signos. Um
retorno à epígrafe, após (e durante) a leitura do conto, permitirá, à medida que esta influi nos
sentidos daquele, o processo inverso: os efeitos de sentidos suscitados pela narrativa serão
agora passíveis de influência naquela materialidade linguística. A regularização pela mera
repetição é apenas aparente.

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Agora, retornemos ao percurso de nosso sujeito discursivo. Ao iniciar a rememoração


das histórias de sua família ou do mar, ele afirma: “Ouço as sirenes que cortam a noite como
gemidos de homens que se perderam em águas distantes” (RUBIÃO, 2010, p. 39). Aqui,
vinculada a uma formação discursiva associada a representações mitológicas do mar, é
colocada em jogo a memória social, conforme a caracteriza Pierre Achard (1999): a partir de
suas observações, entendemos essa memória social como um conjunto de representações e
práticas condicionadas sócio-cultural-historicamente, dispersas no imaginário social, não-
localizáveis e não-circunscritíveis senão quando de enunciações que as manipulem.
Sendo o mar e o marítimo uma unidade do discurso em análise, a caracterização do
oceano ora como um espaço hostil povoado por perigos conhecidos e misteriosos (como na
epígrafe e no início do conto), ora como um espaço a ser descoberto, seduzindo a seu
desbravamento aqueles suficientemente corajosos para tal (como em outras ocorrências no
conto), ambos discursos dispersos e sedimentados ao longo das mitologias, das literaturas e
das artes em geral, constituirá o domínio discursivo que nomearemos por memória mítico-
marítima, da qual o último segmento que apontamos no conto é um índice e, por sê-lo, um
enunciado constitutivo dessa formação no escopo mesmo do conto. Estamos, portanto, diante
de um exterior constitutivo da memória manipulada no / pelo discurso do sujeito: como
afirma Pêcheux (1999, p. 56), “o fato de que exista assim o outro interno em toda memória é
[…] a marca do real histórico como remissão necessária ao outro exterior”.
Na voz de nosso narrador, logo em seguida, será enquadrada pela primeira vez uma
voz exterior explicitada:
Os sons emitidos pelas naves, procurando ou se afastando do porto, podem
simbolizar, para outros, coisa bem diferente. A Pedro, um velho marinheiro
sardento, eles lembram apenas tabernas inglesas. Não sei de onde tirou tão
estranha ligação, pois nunca toma o trabalho de explicá-la. Contenta, quando
instado a esclarecer o motivo, em levar os olhos em direção ao oceano, como
se quisesse enxergar algo encoberto pelas enormes moles d’água. (RUBIÃO
2010, p. 39)

Após considerar que uma mesma sequência de significantes (“os sons emitidos pelas
naves”) pode compor, no discurso memorial de distintos sujeitos, distintos signos, a memória
mítico-marítima é recolocada em movimento, agora com um índice referente a representações
culturais associadas à figura do marinheiro, a taberna2, aqui, mais particularmente, as inglesas.

2 Remetemos, a cargo de exemplo, a The Long Voyage Home, filme de 1940, dirigido por John Ford, em que
as cenas dos marujos em seus recessos em terra transcorrem quase unicamente no espaço das tabernas nas
imediações portuárias.
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Contudo, o elo estabelecido é considerado estranho pelo narrador, e não nos é possível senão
sugerir que essa estranheza paire na relação de necessidade entre a reminiscência e a inscrição
nacional específica, e não em uma não-conectabilidade entre os “sons emitidos pelas naves” e
a representação menos específica de uma taberna qualquer, constituindo uma contestação de
um dos índices culturalmente dispersos da memória mítico-marítima (o que, no entanto, não
seria menos aceitável quando falamos do funcionamento dos discursos): aqui, sem imanências
sondáveis, se indagada com maior insistência, a materialidade histórico-linguística não se
oferece a nós mais do que em opacidade.
Logo adiante, uma segunda voz exterior é inserida e explicitada, em sucessão não
apenas espacial, como também temática em relação à passagem anterior: “O botequineiro, que
ostenta no corpo diversas tatuagens – todas alusivas a amores passados –, diz que são ‘artes de
rabo de saia’” (RUBIÃO, 2010, p. 39-40). A figura do botequineiro (que parafrasearemos,
doravante, como taberneiro) também é índice da rede de implícitos discursivos referente às
práticas e aos atores da navegação, assim como um corpo coberto de tatuagens é
representação também regular nesses discursos, bem como os amores efêmeros abandonados
a cada porto (os “amores passados”)3. Este último sentido tenderá a melhor sedimentar-se por
meio da próxima fala do narrador, permanecendo apenas possível até o presente momento da
leitura.
Convocado o taberneiro, o narrador então comenta acerca das “artes de rabo de saia”,
materializando uma nova representação vinculada aos marinheiros: “marinheiro velho se
lembra de mulher somente para ter saudades do mar” (RUBIÃO, 2010, p. 40). Com essa
materialização, colabora para a associação entre os “amores passados” e os amores portuários
e efêmeros, valendo-se, no entanto, de um novo índice cultural (a “saudade do mar”4) para
possibilitar a expansão de um implícito regularizado na voz discursiva de um sujeito outro,
agindo à semelhança da força de desregularização apontada por Pêcheux (1999, p. 53). E
valendo-se para tal de uma paráfrase interveniente sob a forma de um comentário posterior,
comportamento concordante também com Achard (1999, p. 15-16), quando esse menciona
que a regularização do sentido é uma atividade vinculada à enunciação e a forças que agem na
posterioridade dos significantes. Assim, nos defrontamos simultaneamente com o exterior

3 Podemos encontrar um conjunto semântico de elementos bastante afim aos que nos referimos, por exemplo,
nas estrofes iniciais da canção Minha história, de Chico Buarque.
4 Que localizaremos, por exemplo, em algumas passagens de O velho e o mar, de Ernest Hemingway, ou em
peças de fado, como numa leitura literal (não-metafórica) d’O navio, do grupo Madredeus, ou numa leitura a
contrario de É doce morrer no mar, de Dorival Caymmi.
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constituindo a memória discursiva do sujeito através de índices sócio-histórico-culturais, e


também com uma clara explicitação da constituição heterogênea dessa memória, conforme
apontado por Pêcheux (1999, p. 56):
uma memória não poderia ser concebida como uma esfera plena, cujas
bordas seriam transcendentais históricos e cujo conteúdo seria um sentido
homogêneo, acumulado ao modo de um reservatório: é necessariamente um
espaço móvel de divisões, de disjunções, de deslocamentos e de retomadas,
de conflitos de regularização… Um espaço de desdobramentos, réplicas,
polêmicas e contra-discursos.

Adiante, observaremos funções que o discurso do narrador (e das vozes que o


permeiam) opera sobre a memória dos sujeitos em cena. Para tal, de início, compreendemos o
espaço, partindo de reflexões de Foucault (2006b, p. 412), não como um locus físico no qual
se distribuem unidades também físicas, mas como um conjunto heterogêneo de relações de
posicionamentos, “relações de vizinhança entre pontos ou elementos”, isto é, relações de
afinidade e contraste, de fluxos e contrafluxos, de circulações e assentamentos, de dispersões
e localizações etc., engendradas segundo diversas configurações historicamente
condicionadas, porém igualmente diversas se observadas nos limites de sincronias específicas.
No ensaio citado, Outros espaços5, o interesse de Foucault é a análise das propriedades de
certos espaços físicos; entretanto, ao mencionar a possibilidade fundada pela obra de
Bachelard e pelas descrições fenomenológicas de que o espaço também seja “o espaço de
nossa percepção primeira, o de nossos devaneios, o de nossas paixões”, um espaço “povoado
de fantasma”, passível de ser descrito em termos de metáforas físicas (FOUCAULT, 2006b, p.
413), torna-se possível, sem prejuízos epistemológicos, descrever a memória como um
espaço. Partindo dessas considerações, relacionaremos as noções foucaultianas de utopia e
heterotopia ao espaço da memória.
A utopia diz respeito a “posicionamentos sem lugar real […][,] que mantêm com o
espaço real da sociedade uma relação geral de analogia direta ou inversa.” (FOUCAULT,
2006b, p. 414-415), conjuntos de posicionamentos idealizados, não localizáveis, nos quais a
sociedade encontra-se aperfeiçoada segundo uma vontade particular. Por ora, essa descrição é
suficiente e não nos delongaremos. Por seu turno, as heterotopias dizem respeito a
posicionamentos efetivamente localizáveis, porém que, a partir da representação de outros

5 Remetemos também a uma versão distinta desse ensaio, As heterotopias, no volume O corpo utópico; As
heterotopias (FOUCAULT, 2013).
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posicionamentos encontrados em uma cultura, contrapõe, neutralizam, invertem ou


suspendem as relações às quais apontam (FOUCAULT, 2006b, p. 415).
Um primeiro espaço heterotópico que localizaremos em Ofélia, meu cachimbo e o
mar, é o corpo marcado por tatuagens do taberneiro: por meio da materialidade efetivamente
localizável da tatuagem, constitui-se um espaço de memória temporalmente e fisicamente
inacessível, um entre-lugares fundado em um lugar, um lugar que suspende a própria noção
de localização, que, se conforme propõe nosso narrador, objetiva “rememorar o mar”, funda
do aqui e agora de “artes de rabo de saia”, artes ao alcance das mãos e do olhar, um conjunto
de posicionamentos que apenas resiste ao apagamento devido à inscrição na pele. De fato, se
seguirmos ainda Foucault (2013, p. 12, grifo nosso), “a máscara, a tatuagem, a pintura são
operações pelas quais o corpo é arrancado de seu espaço próprio e projetado em um espaço
outro”, traçando o movimento de via dupla desse espaço heterotópico da tatuagem: somos
lançados, a partir do corpo, a um espaço outro, lançando, ao mesmo tempo, a materialidade
localizável do corpo a um espaço outro. O corpo é, portanto, lugar de inscrição da memória.
De agora em diante, transitaremos entre apontar as múltiplas redes de implícitos e
vozes constituindo o discurso de nosso narrador, identificando ali a materialização de espaços
heterotópicos vinculados à memória. A partir do ponto em que nos detivemos, a narração
prossegue:
Seja qual for a razão, o meu amor pelas mulheres veio do mar. Não que eu
seja ou tenha sido marinheiro. Nem ao menos nasci numa cidade litorânea.
Sou de um vilarejo de Minas, agoniado nas fraldas da Mantiqueira. Nas
minhas veias, porém, corre o melhor sangue de uma geração de valentes
marujos.
Na minha infância, enquanto meus companheiros subiam nas árvores, ou
caçavam passarinhos eu me debruçava na banheira e me divertia fazendo
navegar pequenos barcos de papel.
Com os anos, as minúsculas embarcações passaram a não me entreter mais,
nem me contentava em imaginar, de longe, a beleza dos veleiros singrando
verdes águas. (RUBIÃO, 2010, p. 40)

Este trecho concatena-se aos anteriores transportando os índices culturais já apontados


(a relação entre o amor às mulheres e o mar, ou entre o amor às mulheres e a saudade do mar)
para a experiência subjetiva. Porém, e o que constituirá uma constante daqui ao fim do conto,
diversos operadores enunciativos influirão para instilar dúvida nessa transposição da memória
mítico-marítima para as reminiscências experienciais: é o caso de “seja qual for a razão”, “não
que eu seja ou tenha sido marinheiro”, “nem ao menos nasci em uma cidade litorânea”. Ao
afirmar-se, contudo, descendente de uma geração valorosa de marinheiros, o narrador escapa

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momentaneamente à dúvida e estabelece a ligação, que havíamos anteriormente notado opaca,


entre o mar e a história de sua família.
Já os dois parágrafos finais do trecho citado, em inscrições temporais tão imprecisas
como a “infância” e “o passar dos anos”, correspondem, para nós, a reminiscências da
experiência do sujeito reorganizadas segundo o contexto discursivo: notemos, no caso, as
sutis oposições entre exploração terrestre e exploração marítima, e entre a caça, antes
atribuída às preferências de Ofélia, e a navegação. Notemos também uma primeira presença
de um devaneio passado na constituição memorial de nosso sujeito discursivo.
Em seguida, após rememorar que, logo ao desembarcar no litoral, uma fratura em um
dos pés inutilizou-o para a carreira marinheira, o narrador irá se referir à rememoração de seus
devaneios juvenis. Ao convocar a representação de piratas da Malásia a infestar os oceanos,
convocará novamente aquela memória mítico-marítima, ressaltando as contribuições dela para
a conformação do próprio domínio imaginativo manipulado durante esses devaneios,
emergindo aqui, assim como no trecho que destacamos no parágrafo anterior, na forma de
uma rememoração do imaginado e do ato de imaginar:
Conversava com pescadores ou simplesmente observava os navios, a me
sugerirem longos cruzeiros por oceanos infestados de piratas malaios,
semelhantes àqueles que, na adolescência, povoavam minha imaginação. E
pouco faltou para convencer-me de ter sido em outros tempos experimentado
marinheiro. (RUBIÃO, 2010, p. 40)

Interessa-nos também ressaltar um novo procedimento discursivo que aponta para o


descrédito da veia marinheira anteriormente afirmada pelo narrador. Por meio do aporte
semântico sugerido pela concatenação do verbo “convencer” e da forma infinitiva pessoal
composta “ter sido”, vemos denotada a necessidade de que, por intermédio de uma auto
persuasão, se aquiesça ao caráter marinheiro afirmado, dada sua possível não-veracidade.
Essa última sequência contribui particularmente para a reincidência da dúvida que se vêm
assomando em torno (e a partir) do discurso em questão. Contudo, ao mesmo tempo que influi
nesse procedimento de descrédito, é de modo distinto que o trecho apontará para a projeção
de desejos do sujeito discursivo, para a constituição de um espaço de consolo perante o não-
realizado, operação que observaremos materializar-se no trecho logo seguinte: “O que poderia
fazer um aleijado com a vocação de navegante, depois que lhe roubaram o mar?” (RUBIÃO,
2010, p. 41). De “vocação” irrompe o desejo, e do roubo, a impossibilidade.
Adiante, encontraremos um triplo movimento discursivo:
Do meu bisavô também roubaram o mar.

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José Henrique Ruivães era capitão de navio negreiro. Estatura gigantesca,


ombros largos, desde menino navegava em veleiros que buscavam na África
escravos para as lavouras do Brasil.
Fisionomia dura, barba negra, a boca sem os dentes da frente compunham a
sua figura bastante temida pelos marujos e escravos. (RUBIÃO, 2010, p. 41)

Na primeira sentença, a referência ao bisavô inicia o descortinar de uma memória


histórico-familiar (ou histórico-geracional) na memória do narrador, que, por ora, vem
responder à ligação já mencionada entre sua família e o mar, responsável pela propensão
marinheira de nosso sujeito. Em seguida, a memória histórica-social referente à escravidão é
invocada pelos implícitos discursivos relacionados ao segmento “capitão de navio negreiro”,
logo complementados por “navegava em veleiros que buscavam na África escravos para as
lavouras do Brasil”. São paráfrases explicitadas que tanto oferecem uma descrição geral para
navios negreiros (“veleiros” dotados de um capitão), quanto atribuem a eles uma atividade
vinculada a um passado histórico inscrito no espaço marítimo entre Brasil e África. Por fim, a
descrição de José Henrique Ruivães nos remete àquela de certas figuras culturalmente
sedimentadas, os navegadores imponentes por sua compleição física e por suas ações. Nesse
ponto, seria inevitável a remissão a um Barba Ruiva ou a um Barba Negra.
Imediatamente, deparamos o seguinte trecho:
Para demonstrar a força e a coragem de meu bisavô contavam que, certa vez,
quando uma tempestade ameaçava afundar o seu barco e depois de terem
caído ao mar vários marinheiros, na tentativa de baixar as velas, ele subiu
sozinho, mastro acima, e as arriou. A façanha lhe custou boa parte da
dentadura, pois teve que se agarrar com as mãos e dentes a panos e cordas,
para evitar uma desastrosa queda. (RUBIÃO, 2010, p. 41)

É de interesse destacar que, aqui, a voz memorial do narrador movimenta aqui uma
multiplicidade inominada de vozes (notemos a indefinição dos sujeitos discursivos de
“contavam”), realizando a (re)produção discursiva da(s) memória(s) dessas vozes. Conta-se
um caso já transcorrido mas não localizado temporalmente, o que notamos pela mobilização
dos tempos pretéritos junto a índices discursivos como “certa vez”, “quando”, “depois de”,
respondendo o conjunto pela inscrição do relato em uma cronologia indefinida e não
veridificável.
Adiante, o narrador, reporta-se a implícitos de uma memória histórico-política-social
referente à inscrição do tráfico negreiro no Brasil Colônia derradeiro, reportando-se também,
sem referência explícita, aos agentes múltiplos da abolição: “Com a abolição da escravatura,
José Henrique retirou-se para uma fazenda” (RUBIÃO, 2010, p. 41). Isso se dá em conjunção

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com um trecho anterior (“Do meu bisavô também roubaram o mar”), no qual estão presentes e
ausentes aqueles que o “roubaram”. Então, tendo em vista esse “roubo”, nosso sujeito
discursivo invocará uma outra figuração heterotópica da memória:
Em alguns momentos, no embalo da nostalgia, decidia-se a retornar ao
comando de uma nave qualquer. Agitado, compulsava mapas, ou pegava
uma velha roda de leme e ia para o alto de um morro para simular ordens de
comando.
Depois, os altos cumes da Mantiqueira, escondendo-lhe o oceano, e a certeza
de que jamais comandaria navios negreiros, faziam com que ele retornasse à
rede.
Raramente de bom humor, apenas sentia-se feliz quando, de porta-voz em
punho, comandava subordinados imaginários. (RUBIÃO, 2010, p. 41)

Examinar mapas; manipular uma roda de leme simulando, do alto, como ao topo da
proa de uma nave, ordens de comando; coordenar subordinados imaginados, valendo-se de
um porta-voz6 para tal: por meio desses rituais específicos, vinculados a objetos presentes na
atividade naval, todos correspondentes às práticas de capitaneio, uma função da memória se
exerce em dois atos: de início, a percepção de que o real imediato não corresponde ao espaço
imaginado (de um passado irrecuperável), passando pelo contraste entre o ritual de memória e
o espaço que já não o aceita, ao menos, não como um ritual dotado de sua funcionalidade
anterior (tornada inacessível); em seguida, nesse espaço hostil aos desejos, é o devaneio
intermediado pelos objetos (e “apenas” ele) que permite o acesso à felicidade momentânea,
que consola, enfim, perante a realidade não-correspondente ao(s) desejo(s). Os objetos, aqui, à
semelhança das tatuagens às quais já nos atentamos, agem como espacialidades heterotópicas
ao alocar / invocar / possibilitar invocar um espaço memorial intangível ao alcance das mãos.
A recuperação memorial por intermédio de objetos e dos rituais de memória conforme
observados acima, será retomada quando o narrador se refere também a seu avô e a seu pai:
Já o meu avô que nascera em Minas contentava-se em fazer barcos de
madeira e colecionar estampas de navios. Desculpava-se frequentemente de
não ter seguido a vocação ancestral, repetindo o velho José Henrique:
— Mar? Só em navio negreiro.
Talvez desculpasse seu horror por qualquer espécie de água: em seus oitenta
anos de vida conheceu somente a que o padre lhe ministrou na cerimônia de
batismo.
Ante o exemplo paterno, meu pai jamais externou o desejo de ser navegador,
nem tampouco abusou dos banhos. (RUBIÃO, 2010, p. 42)

Aqui, as práticas memoriais intermediadas por objetos retornam na fabricação dos


barcos de madeira e na coleção das estampas de navios, que vêm responder e recuperar mais a

6 Instrumento de forma semelhante à da trombeta, utilizado para a ampliação da voz de quem o utiliza.
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memória familiar relacionada àquela “vocação ancestral” – até o momento, e também adiante,
permanecendo relacionada a um único antepassado – do que reminiscências experienciais
subjetivas. Esse efeito de sentido é suscitado pela última sentença do primeiro parágrafo, em
conjunção com o discurso direto que a segue. Então, um duplo movimento ocorre para
contribuir ao processo de descrédito anteriormente iniciado: do avô, nosso narrador relata
“seu horror por qualquer espécie de água”, e do pai, a ausência de manifestações do “desejo
de ser navegador”, além de uma sugerida aversão por água, relacionando ambos elementos ao
exemplo do avô.
Na sequência, observaremos a reinscrição do discurso no espaço imediato (“este
porto”), além de uma explicitação de que nosso narrador reconhece a intangibilidade do
“sonho marinheiro” para seus antepassados, intangibilidade que, como viemos destacando, é
apresentada de modo crescente ao longo do conto: “Todavia os insucessos navais de minha
família não evitaram que eu viesse para este porto e chegasse um dia a passar fome”
(RUBIÃO, 2010, p. 42). No que diz respeito aos “insucessos navais” da família, atentemos ao
fato de que o bisavô passa pela experiência naval e é dela apartado, enquanto o avô e o pai
sequer o fazem, sendo destacados seus “insucessos” mediante um discurso cujo horizonte visa
a navegação como realização quase obrigatória de uma potência ancestral, discurso que
também é exterior ao discurso de ambos acerca da matéria (de fato, a voz de ambos é, a rigor,
sempre mediada pela voz do narrador). Do avô, nos é dito que ainda reconhece a validade
desse discurso e dessa “vocação ancestral”, manipulando um já-dito (“Mar? Só em navio
negreiro”), e ressignificando-o como operador de esquiva perante a temida realização da
vocação. Já do pai, conforme sua disposição no discurso do narrador, não conheceremos nada
além de que “jamais externou o desejo de ser navegador”.
A partir daí, nos é narrado como o sujeito discursivo, naquele porto ao qual veio,
conhece Alzira, sua futura esposa:
Devo esclarecer que não a pedi em casamento por causa de sua fortuna e
ainda menos pela sua beleza um tanto equívoca: tinha a cara de tainha e o
odor de lagostas. Foi pelo odor e não pelo rosto que a escolhi para minha
mulher.
O nosso casamento durou pouco mais de um ano e terminou com a morte de
Alzira, intoxicada por umas sardinhas deterioradas que ela comera no jantar.
(RUBIÃO, 2010, p. 42)

Também a escolha da esposa se dá permeada por uma função heterotópica, passível de


ser ligada aos discursos anteriores que vinculam a presença feminina às saudades do mar: ele
desposa Alzira pelo odor marítimo, não pela beleza ou pelo dote, como sugere que seria o
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esperado, ao afirmar que “deve esclarecer” suas razões. O corpo da esposa, localizável e
tangível, permite, como nos casos anteriores, a recuperação memorial de um espaço (já-
)intangível: novamente, o espaço das águas marinhas.
Quanto ao relato da morte de sua esposa, ele estrutura-se de modo paralelo ao breve
relato da morte do pai do narrador: “Esperei que meu pai fizesse sua última viagem, que,
aliás, por pouco não foi marítima – morreu engasgado com uma espinha de peixe – para ir
morar no litoral” (RUBIÃO, 2010, p. 40). Se do segundo acontecimento, percebemos a
repetição e atualização de sentidos para o léxico “viagem”, do conjunto formado pelos dois
acontecimentos podemos apontar a gestação de certos índices discursivos de ironia
(manifestadamente, as duas mortes vinculadas ao consumo alimentício de peixes7), em que o
mar, figurando como unidade temática, responde indiretamente, por acontecimentos-limite na
vida do sujeito discursivo.
Afigura-nos que, nesse conto, tantas espacialidades heterotópicas engendradas pela
memória, sempre alcançando uma função consoladora (compreendida como a recuperação
virtual do que é irrecuperável fisicamente), apontam para uma constituição heterotópica da
própria memória como acontecimento discursivo. Adotaremos esse pressuposto para, a partir
dele, depreender do trecho seguinte o ápice do processo de descrédito da(s) memória(s) de
nosso narrador.
Na sequência final do conto, ao notar-se interpelado gestualmente por Ofélia, leremos
de nosso sujeito discursivo:
vou reiniciar a mesma história do mar, interrompida instantes atrás, porém
me detenho diante do seu olhar desaprovador. Sei que ela espera por uma
das minhas habituais fantasias e me revolto com a sua incompreensão.
— Não, Ofélia. Você podia ser mais tolerante com os meus inofensivos
devaneios. Neste lugarejo, espremido entre montanhas, sem divertimentos,
detestando caçadas e tendo herdado a vocação de meu bisavô marinheiro…
Sinto que não fui convincente e insisto com mais vigor:
— Ele existiu, juro.
Vendo que ela deixou de prestar atenção no que estou falando, desisto:
— Perdoe-me, Ofélia, não sei porque insisto em proceder desta maneira.
Mas gostaria tanto se aquele meu bisavô marinheiro tivesse existido.
(RUBIÃO, 2010, p. 42-43)

Transitando entre o discurso monológico não pronunciado e o discurso direto não-


respondido por Ofélia, nosso sujeito discursivo inicialmente não atribui um total descrédito
aos relatos memoriais transcorridos até então: ainda que a “mesma história do mar” constitua

7 Por que não nos lembrarmos do ditado popular que diz: “O peixe morre pela boca”?
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suas “habituais fantasias”, seus “inofensivos devaneios”, a herança de uma “vocação


marinheira” é reafirmada, agora assumida como advinda (unicamente) de seu bisavô. Esse
procedimento continua a satisfazer nossa interpretação da memória como espaço heterotópico,
coadunando-se com as passagens anteriores do conto e atribuindo aquela função consoladora
ao rememorar discursivo, função que, aqui, segue ainda vinculada a uma vocação marinheira
familiar. Entretanto, perante a má recepção de Ofélia a esse discurso, ocorre a afirmação / jura
de que o bisavô de fato existiu. E o implícito mais facilmente invocável e passível de ser
reconstruído para esse enunciado é o questionamento (ou mesmo a negação) dessa existência,
uma existência que necessita ser afirmada para ser reconhecida. À necessidade de
autoconvencimento (a qual nos referimos em trecho anterior), segue-se a necessidade de
convencimento externo: é de outro sujeito social, do outro-interlocutor, que o descrédito agora
parte. O relato é, por fim, afirmado completamente fantasioso desde sua pedra basilar: a
existência do bisavô, condição de possibilidade de toda a memória familiar manipulada no
discurso do narrador, é cercada por um caráter de possibilidade não cumprida e fantasiada.
Está descreditado de sua historicidade fundadora o discurso de nosso sujeito. Sua memória,
que mantém aquela função consoladora (“gostaria tanto se”), é destituída de qualquer lugar no
real histórico, sendo atribuída ao plano da utopia.
A utopia, aqui, interpretando Foucault (2006b; 2013), se encontra condicionada por
uma idealidade instituída no discurso do sujeito, dada a vinculação desse a territórios
discursivos específicos (em outra terminologia, a formações ideológicas) que tanto
condicionam a existência dessa idealidade almejada, quanto suas modalidades de
manifestação.
No caso, funcionando como o domínio condicionante da utopia, a memória mítico-
marítima à qual aludimos não é descreditada, permanecendo até certo ponto perceptível em
sua dispersão social e respondendo, em relação a nosso sujeito narrador, por sua vontade de
verdade. Vontade de verdade, isto é, “a oposição do verdadeiro e do falso” como um “sistema
de exclusão […] histórico, institucionalmente constrangedor”, sistema que exerce, sobre
outros discursos, “uma espécie de pressão e como que um poder de coerção” (FOUCAULT,
2014, p. 13-14; 17). Para o narrador, é a atestação de sua “vocação familiar” e a produção de
um caráter de verdade para a história de seu bisavô que modulará e condicionará todo o
discurso, inicialmente invocando a memória mítico-maritíma para atestá-lo, por fim
invalidando-o por completo ao frustrar sua condição de verdade.

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Neste ponto, podemos mencionar uma dupla função paradoxal da utopia. Conforme
Jacques Rancière (2015, p. 61), ela
é o não-lugar, o ponto extremo de uma reconfiguração polêmica do sensível,
que rompe com as categorias da evidência. Mas também é a configuração de
um bom lugar, de uma partilha não polêmica do universo sensível, onde o
que se faz, se vê e se diz se ajustam perfeitamente.

A memória mítico-marítima somente aplica-se sobre o contexto social de nosso sujeito


discursivo ao ser invocada por via onírica, sob o signo da quimera utópica (GAMA-KHALIL,
2009, p. 70), o que evidencia a instituição de uma silenciosa opacidade não mais alocada na
memória ou a partir dela. De fato, como “o não-lugar” por excelência, a utopia será sempre
“um lugar fora de todos os lugares” (FOUCAULT, 2013, p. 8); aqui, fora da memória
inclusive, já que, para manifestar-se, essa utopia deve produzir a memória histórico-familiar.
Porém, a utopia, dotada de seu caráter de “montagem de palavras e de imagens”, prontifica-se
“para reconfigurar o território do visível, do pensável e do possível” (RANCIÈRE, 2015, p.
62). Ao configurar uma idealidade que pressupõe outros modos de ver, ser e fazer, a utopia
agirá, com alcances variados, sobre o que é efetivamente localizável. Retornando a Ofélia,
meu cachimbo e o mar, afirmaremos que, nesse conto, a utopia precede e regula a memória.

3 POR OUTROS ESPAÇOS


Ao nos valermos da possibilidade de tratar dos espaços de (des)continuidade internos
do sujeito (sonho, devaneio, memória etc.) em analogia aos espaços físicos, também podemos
tratá-los como espaços constitutivamente heterotópicos, dada sua circunscrição localizável
(limitados a um corpo posicionado no espaço e mobilizados por meio do discurso agenciado a
partir desse corpo), circunscrição aliada a sua capacidade de suspensão da espacialidade e
temporalidade imediatas, responsável por sua função consoladora.
Movendo-nos, por fim, da tessitura múltipla do sujeito materializado em discurso
rumo às abstrações conceituais, acreditamos ser possível analisar a própria memória
discursiva e os implícitos socialmente dispersos como operações ou operadores de um amplo
espaço heterotópico. Seriam, portanto, os posicionamentos engendrados pelos implícitos uma
materialidade discursiva efetivamente localizável, enquanto às paráfrases e à opacidade dos
enunciados caberá, a uma só vez, apontar, desde sua virtualidade, tanto para o passado quanto
para o futuro, mas sempre para além.

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Considerando, a cargo de hipótese, que a leitura de um conto que tematiza a memória


pode nos oferecer um ponto de partida para tecer observações acerca da memória em geral,
consideraremos, para além do discurso estético, o caráter discursivo da memória fundado em
uma composição enunciativa. Ao tratarmos os enunciados como materialidades que “se
apropriam dos corpos e os desviam de sua destinação na medida em que não são corpos no
sentido de organismos, mas quase-corpos”, isto é, “blocos de palavras circulando sem pai
legítimo que os acompanhe até um destinatário autorizado” (RANCIÈRE, 2015, p. 60),
ressaltamos o caráter heterotópico desses espaços. Fundados sempre em outro-lugar (“sem pai
legítimo”), em seus implícitos discursivos irrecuperáveis, esses “blocos de palavras” agem
sobre os corpos desviando programas de ação, inaugurando novos possíveis e apontando a
outras partilhas dos modos de ser, ver e fazer: funcionamento no qual estaria baseada aquela
função consoladora da memória, conforme a destacamos.
Contudo, do caráter desses espaços, o salto completo da heterotopia para a utopia e a
demoção de qualquer “realidade” (por mais hostil que nos seja essa palavra) pairam em suas
vizinhanças, mantidos tenuemente à distância de um acontecimento discursivo que os
imponha como tal, conforme o fim de Ofélia, meu cachimbo e o mar.
Para evitar esse procedimento de irrealização, no nosso caso, da memória, uma última
consideração é que uma analogia mais precisa, reportando-nos a uma análise de Foucault,
talvez consistiria em tratar a memória como um espaço mediano entre a utopia e a heterotopia
tal qual o pensador se refere ao espaço físico do espelho (2006b, p. 415): um lugar sem lugar,
um espaço real-irreal, que, ao ser acessado pelo sujeito em seus discursos, até certo ponto
localizáveis desde sua materialidade, institui, retroativamente, a percepção do acontecimento
como presente, mas também a percepção de suas fundações virtuais. Percepções cujo jogo de
dupla delimitação, possibilitariam a introdução de “linhas de fratura, de desincorporação” nos
“corpos coletivos imaginários”, tal qual Rancière (2015, p. 60) observa no caso dos discursos
ficcionais. Do inalcançável, se estabelece a relação com o presente discursivo, tanto definindo
o acontecimento e o explícito como tais, quanto definindo o implícito como memorial e
intangível. Assim, a memória discursiva funcionaria, como o espelho,
no sentido em que […] torna esse lugar que ocupo [ocupamos], no momento
em que me olho no espelho[, ou em que mobilizamos implícitos em nosso
discurso], ao mesmo tempo absolutamente real, em relação com todo o
espaço que o envolve, e absolutamente irreal, já que ela é obrigada, para ser
percebida, a passar por aquele ponto virtual que está lá longe. (FOUCAULT,
2006b, p. 415, grifos nossos)

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A memória, desta maneira, como em nossa epígrafe, nos possibilitaria viver no frágil
tempo presente, justamente produzindo-o, mas, para tal, negando que ele se fundamente – ao
menos como discurso – em si próprio. Daí a potência utópica da memória agir sobre o real, de
modo análogo ao que Rancière (2015, p. 59) atribui aos enunciados literários: a memória
define “modelos de palavra ou de ação, mas também regimes de intensidade visível”; ela traça
“mapas do visível, trajetórias entre o visível e o dizível, relações entre modos do ser, modos
do fazer e modos do dizer”; ela define “variações das intensidades sensíveis, das percepções e
capacidades dos corpos”. É assim que, como os discursos literários, nossas memórias,
apropriando-se de nossos corpos
cavam distâncias, abrem derivações, modificam as maneiras, as velocidades
e os trajetos segundo os quais [nossos corpos] aderem a uma condição,
reagem a situações, reconhecem suas imagens. Reconfiguram o mapa do
sensível confundindo a funcionalidade dos gestos e dos ritmos adaptados aos
ciclos naturais da produção, reprodução e submissão. (RANCIÈRE, 2015, p.
59)

E essa similitude de funcionamento àquele do discurso literário, talvez, ainda que


fragilmente, justifique especularmos, a partir do espaço delimitado de um conto, acerca do
espaço jamais circunscritível da memória e de sua função utópica. Função nunca realizada
exatamente como idealizada, porém, sempre capaz de instituir no real, seja na tênue duração
de uma reminiscência, seja numa inscrição sobre a pele, seja nos rituais e nos objetos do
relembrar, aquela “verdadeira heteronímia das coisas” da qual Barthes nos falava.

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Campinas: Pontes, 1999. p. 11-21.
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de dezembro de 1970. 24.ed. São Paulo: Edições Loyola, 2014. (Leituras filosóficas)
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______. Outros espaços. In: ______. Estética: literatura e pintura, música e cinema. 2.ed. Rio de
Janeiro: Forense Universitária, 2006b. p. 411-22. (Ditos e escritos; III)
GAMA-KHALIL, Marisa Martins. As práticas de subjetivação nos espaços d’O Conto da Ilha
Desconhecida. In: MILANEZ, Nilton; SANTOS, Janaina de Jesus (orgs.). Análise do discurso:
sujeito, lugares e olhares. São Carlos: Claraluz, 2009. p. 63-74.
NOSTALGIA DE LA LUZ. Direção: Patricio Guzmán. Produção: Renata Sachse. França;
Alemanha; Chile: Atacama Productions; Blinker Filmproduktion y WDR; Cronomedia, 2010.
1 DVD. Cor. (90min)

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PÊCHEUX, Michel. Papel da Memória. In: ACHARD, Pierre et al. Papel da Memória. Campinas:
Pontes, 1999. p. 49-57.
RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. 2.ed. 3.reimp. São Paulo: EXO
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RUBIÃO, Murilo. Ofélia, meu cachimbo e o mar. In: ______. Obra completa. 8.reimp. São Paulo:
Companhia das Letras, 2010. p. 39-43.

RECEBIDO EM: 12/10/2017 | APROVADO EM: 30/10/2017

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