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Com Chartier, um roteiro para a história do livro

Marcelo Fereira de Andrades


Mestrando em Comunicação e Informação - UFRGS

RESUMO: A partir das leituras dos principais textos do historiador francês Roger
Chartier, propomos traçar um roteiro básico para a pesquisa em História do Livro.
O estudo das práticas de autoria, edição e leitura e suas inter-relações, somado a um
minucioso exame do livro enquanto objeto físico, propicia ao pesquisador as ferramentas
necessárias para uma investigação rigorosa.

“Objeto de inesgotável riqueza, o livro exerce há muito sua fascinação (...). Essa eterna
juventude que se enraíza nas origens, porque existem discursos sobre o livro desde seu
aparecimento, traduz, no fundo, a surpresa feliz de um mundo estupefato de poder ouvir,
em seu presente, para além dos espaços e dos séculos, tão velhas linguagens”

O historiador francês Roger Chartier tem feito significativas contribuições à história do


livro e das práticas de leitura, sendo possível traçar, a partir da leitura de seus textos, um
roteiro básico para a pesquisa em história do livro. Como Chartier será nosso principal
interlocutor, convém, antes de prosseguirmos, apresentá-lo.
Nascido em 1945, Chartier desde jovem tem se dedicado à pesquisas e projetos coletivos
na direção de novas abordagens e de novos objetos para a história, fazendo parte da
terceira geração do grupo de pesquisadores conhecido como Escola dos Analles. Sua
trajetória intelectual abrange, segundo o professor José Sérgio Leite Lopes, várias linhas
de pesquisa: uma primeira linha seria a história das instituições de ensino e das
sociabilidades intelectuais; uma segunda linha de pesquisa, que perpassa o conjunto de sua
obra, é constituída pela história do livro e das práticas de escrita e de leitura; uma terceira
linha de pesquisa seria a análise e o debate entre política, cultura e cultura popular; uma
outra linha ainda, pode ser derivada de suas reflexões sobre o ofício de historiador,
expressa em suas publicações e em suas atividades como divulgador de uma nova história
cultural e como promotor de debates entre historiadores e entre estes e outros cientistas
sociais. Um bom exemplo desta sua atuação é a organização de um colóquio internacional
sobre as práticas da leitura reunindo em Saint-Maximin, entre outros, Pierre Bourdieu e
Robert Darnton.
A pesquisa em história do livro e das práticas de leitura e escrita tem sido uma
“preocupação permanente na obra de Chartier”. Recortando, do conjunto de suas obras
nesta linha de pesquisa, apenas as traduzidas para a língua portuguesa temos, entre
outras: A nova história (1990), organizada com Jacques Le Goff e Jacques Revel; O
livro: uma mudança de perspectiva (1976); A ordem dos livros (1998); A aventura do
livro: do leitor ao navegador (1998); Textos, impressão e leituras (1995); A História
Cultural: entre práticas e representações (1990); a organização, com Philipe Ariès, do
volume Da Renascença ao século das luzes da coleção História da Vida Privada e o artigo
As práticas da escrita, neste mesmo volume (1997); a organização do livro Práticas da
leitura (1996) e seus artigos Do livro à leitura e A leitura, uma prática cultural, este
último com Pierre Bourdieu, nele contidos; a organização, com Guglielmo Cavallo, do
segundo volume da coleção História da leitura no mundo ocidental e seu artigo, no mesmo
volume, Leituras e leitores “populares”: da renascença ao período clássico (1999).
Ao escrever o verbete “livro”, para o do dicionário A nova história, Chartier define: “o
livro é, no seu conjunto, uma mercadoria produzida e vendida, é o suporte de conteúdos
culturais e é igualmente um objeto físico, específico nos seus materiais, na sua organização
e fabrico” . Em A ordem dos livros, Chartier afirma que os livros são suportes de um
texto: “manuscritos ou impressos, os livros são objetos cujas formas comandam, se não a
imposição de um sentido ao texto que carregam, ao menos os usos de que devem ser
investidos e as apropriações às quais são suscetíveis. As obras, os discursos, só existem
quando se tornam realidades físicas, inscritas sobre as páginas de um livro, transmitidas
por uma voz que lê ou narra, declamadas num palco de teatro”. A partir desta passagem,
podemos localizar a tripartição que indica os caminhos para a pesquisa em história do
livro segundo Chartier: textos (práticas da escrita), livros e leitura. No interior destes
caminhos entrecruzam-se as intenções e as atuações, por vezes antagônicas, dos
participantes do processo: os autores, que produzem textos e com estes um desejo de que
sejam lidos e compreendidos conforme o sentido que eles inicialmente prescreveram; os
editores e os impressores, que realizam uma organização gráfica do texto, transformando-
o em livro e os leitores, que são livres para ler como desejarem, reformulando,
transgredindo, buscando outros significados que não aqueles desejados pelos demais
participantes do processo. O estudo das práticas de escrita, edição e leitura, somado a um
minucioso exame do livro enquanto objeto físico, propicia ao pesquisador em história do
livro uma completa visão do universo editorial.
Os textos, práticas da escrita
Para Chartier “não há texto fora do suporte que o dá a ler” e não há compreensão de um
texto “que não dependa das formas através das quais ele atinge o seu leitor”. Com esta
advertência, ele introduz uma distinção fundamental entre texto e livro, entre os atos de
escrever um texto e de produzir um livro. Ilustrando esta distinção, Chartier cita o
bibliógrafo norte-americano Roger Stoddard. Segundo Stoddard, “os autores não
escrevem livros. Os livros não são absolutamente escritos. Eles são fabricados por
copistas e outros artífices, por operários e outros técnicos, por prensas e outras máquinas”
. Os autores escrevem apenas textos. E textos para Chartier, leitor de Michel de
Certeau, por si só não têm significado. Este só passa a existir através da leitura e a
interpretação daqueles pelos leitores. A atividade da leitura é indissociável do texto,
segundo Michel de Certeau: “Das análises que acompanham a atividade leitora em seus
rodeios, percursos através da página, metamorfoses e anamorfoses do texto pelo olho que
viaja, vôos imaginários ou meditativos a partir de algumas palavras, transposições de
espaços sobre as superfícies militarmente dispostas do escrito, danças efêmeras,
depreende-se, ao menos em um primeiro enfoque, que não se poderia conservar a rígida
separação da leitura e do texto (...). Quer se trate do jornal ou de Proust, o texto só tem
sentido graças a seus leitores; muda com eles; ordena-se conforme códigos de percepção
que lhe escapam” . Chartier conclui que não existem textos abstratos. Os textos chegam
ao leitor através de um suporte, uma forma, que pode ser o livro, nos seus mais diversos
formatos, mas também pode ser uma fita cassete, um disquete ou um CD-Rom. A
significação que os leitores vão dar ao texto dependerá da forma pela qual eles terão
acesso a este texto e das relações – negociadas - entre suas intenções e as intenções dos
autores e editores, implícitas no suporte do texto. As obras são, para Chartier, “investidas
de significações plurais e móveis, construídas na negociação entre uma proposição e uma
recepção, no encontro entre as formas e motivos que lhes dão estrutura e as competências
ou expectativas dos públicos que delas se apoderam”.
Ao estabelecer esta distinção entre fazedores de texto e fazedores de livro, Chartier está se
posicionando contra uma definição puramente semântica do texto - assumida durante
muito tempo pelas diversas vertentes da crítica estruturalista e pela história literária - para
a qual a forma do texto não tem importância. Está tomando uma posição contrária,
também, à estética da recepção que, quando postula “uma relação pura e imediata entre os
‘sinais’ emitidos pelo texto – jogando com as convenções literárias aceitas – e o ‘horizonte
de expectativa’ do público ao qual é dirigido” também comete este mesmo equívoco, a
saber, a neglicência da forma.
Quanto aos procedimentos de produção de textos, o mais importante são “as senhas,
explícitas ou implícitas, que um autor inscreve em sua obra a fim de produzir uma leitura
correta dela, ou seja, aquela que estará de acordo com sua intenção” . Desta maneira, os
autores inserem no texto convenções sociais e literárias que, somadas às técnicas
narrativas ou poéticas, irão produzir efeitos determinados, tentando impor aos leitores um
protocolo de leitura.
O que é um autor?
Presença divina, tradição, personagens míticos ou fictícios, figuras sagradas, anonimato,
“manuscrito encontrado ao acaso” são algumas das identidades às quais foram atribuídas
as autorias dos textos, por um longo período da história. Com o surgimento da impressão,
supõe Chartier, o termo autor passa a ter uma nova definição. Para o Dictionaire Français
e o Dictionaire Universel, publicados no final do século XVII, “o termo autor não pode
ser aplicado a qualquer um que escreveu uma obra: ele distingue entre todos os
‘escritores’ apenas aqueles que quiseram ter publicadas as suas obras. Para ‘erigir-se como
autor’, escrever não é suficiente; é preciso mais, fazer circular as suas obras entre o
público, por meio da impressão”. A língua inglesa também evidencia isto, segundo
Chartier, quando “distingue o writer, aquele que escreveu alguma coisa, e o author, aquele
cujo nome próprio dá identidade e autoridade ao texto”.
Durante muito tempo, os historiadores não se preocuparam com a função do autor. Na
tradição francesa da história do livro, por exemplo, os historiadores se preocuparam
apenas com os editores e os leitores. Na avaliação de Chartier, a história do livro tem sido
praticada como se suas técnicas e descobertas não tivessem qualquer importância para a
história dos autores e, por outro lado, como se esta nada tivesse a contribuir para o estudo
de suas obras. Os autores ficaram relegados aos cuidados dos biógrafos e outros
especialistas literários. No entanto, afirma Chartier, assistimos nos últimos anos à volta do
autor. A crítica literária está buscando reinscrever as obras em sua própria história. Esse
retorno ao autor aparece sob diversas formas, em tradições de pesquisa distintas ou
mesmo divergentes, como a estética da recepção, o new historicism, a sociologia da
produção cultural - apoiada nos conceitos de Pierre Bourdieu - e a bibliografia, enquanto
sociologia dos textos. Ao reaparecer na história e na teoria literária o autor é, para
Chartier, simultaneamente dependente e reprimido. “Dependente: ele não é o mestre do
sentido, e suas intenções expressas na produção do texto não se impõem necessariamente
nem para aqueles que fazem desse texto um livro (livreiros-editores ou operários da
impressão), nem para aqueles que dele se apropriam para a leitura. Reprimido: ele se
submete às múltiplas determinações que organizam o espaço social da produção literária,
ou que, mais comumente, delimitam as categorias e as experiências que são as próprias
matrizes da escrita”.
Este debate sobre o retorno do autor na história e na teoria literária leva-nos ao encontro
da famosa questão formulada por Michel Foucault: Qu’est-ce qu’un auteur? Para
Foucault, segundo Chartier, a função-autor não é uma função universal, válida para todos
os textos e todas as épocas. Ela é uma função discriminatória, pois tem validade apenas
para alguns tipos de textos e “pressupõe um estado de direito que reconheça a
responsabilidade penal do autor e o conceito de propriedade literária”. O aparecimento
da função autor está intrinsecamente ligado com o conceito foucaultiano de “apropriação
penal”: a partir do momento que as autoridades começaram a exercer o poder de julgar e
punir os textos e os livros, estes passaram a ter autores reais e não mais personagens
anônimos, míticos ou sacralizados.
Outra referência relevante levantada por Chartier sobre a função autor é o debate estético
travado durante todo o século XVIII, envolvendo autores como Kant e Fichte, dando
origem a uma nova definição de obra literária. A obra literária passou a ser vista como
uma criação original, caracterizada “por sua forma – quer dizer, pela maneira particular
como o autor produz, reúne, exprime os conceitos que ela apresenta” e não pelo
conteúdo por ela veiculado.
Fazendo estes apontamentos, Chartier não tem a pretensão de responder plenamente à
questão “o que é um autor?”. Ele apenas salienta que a história do livro pode contribuir na
construção de uma resposta, que não se relaciona a uma única determinação ou a um
único período histórico. “Inscrita nos próprios livros, ordenando as tentativas que visam
ordenar o inventário das obras, comandando o regime de publicação dos textos, a função-
autor está, apesar de tudo, no centro de todos os questionamentos que ligam o estudo da
produção de textos ao de suas formas e seus leitores”.
Os livros, práticas da edição
A forma do livro - enquanto objeto, suporte do texto – é que determina os usos e
apropriações que dele serão feitos, segundo Chartier. Isso posto, faz-se necessário,
portanto, que investiguemos rigorosamente, os processos de produção e de recepção dos
livros. Sobre os processos de recepção, trataremos mais tarde, com as práticas de leitura.
Interessa-nos, no momento, os elementos técnicos, humanos, visuais, físicos da produção
de um livro. Os procedimentos de produção de textos – desenvolvidos pelo autor - são,
nesta etapa do processo, cruzados com os procedimentos de produção de livros: a
disposição e a divisão do texto, a tipografia, a ilustração, decididos pelo editor. Neste
processo, os textos são transferidos para objetos escritos, manuscritos, gravados,
impressos e, hoje, digitalizados. Essencial importância adquire então, na construção de um
livro, o trabalho dos artesãos e dos operários, dos técnicos, dos editores e dos livreiros. O
estudo das impressões também deve ser levado muito a sério, porque “examina um
material em que a organização tipográfica traduz, claramente, uma intenção editorial e
porque pode revelar a marca, no próprio objeto, das maneiras populares de ler”.
Pesquisar o processo de comunicação através do qual um texto adquire significado - isto
é, quando ele é transferido para o suporte livro e apreendido pelo leitor - “exige
considerar as relações estabelecidas entre três polos: o texto, o objecto que lhe serve de
suporte e a prática que dele se apodera”. Estes três polos entrecruzam-se
simultaneamente e, destas relações dependem as apreensões de significado. Para ilustrar
estas relações, Chartier constrói algumas figuras, localizando-as na história do livro.
Apresentaremos, a seguir, as duas figuras mais diretamente relacionadas com a atividade
de produção de livros.
Primeira Figura: um mesmo texto, impresso em diferentes formas. Para esta figura,
Chartier oferece dois exemplos, a edição das peças de Willian Congreve, no final do
século XVII, e as edições da comédia George Dandin, de Molière.
Sobre as mudanças nas edições das peças de Willian Congreve, Chartier cita o estudo feito
por McKenzie, que “demonstrou como transformações formais aparentemente
insignificantes (a passagem do in-quarto para in-octavo, a numeração das cenas, a
presença de ornamentos entre elas, a indicação nas margens do nome de quem fala, a
menção de entradas e saídas) tiveram um efeito importante sobre a ordenação das obras.
Uma nova legibilidade nascia, graças a um formato de fácil manejo e pela organização das
páginas, que restituía ao livro algo do movimento da organização cênica, rompendo,
assim, com as antigas convenções que imprimiam peças sem nada lhes restituir de sua
teatralidade. Logo, surgia uma nova maneira de ler o texto, e também um novo horizonte
de recepção, pois os dispositivos utilizados nas edições do teatro francês, deram uma
legitimidade inédita às peças de Congreve, inscritas, doravante, em um cânone clássico –
aquele que levou o autor a depurar, aqui e ali, o seu estilo, adaptando-o a essa nova
‘dignidade’ tipográfica. As variações das modalidades mais formais de apresentação dos
textos puderam, então, modificá-los, assim como mudaram os seus registros de referência
e suas maneiras de interpretação”.
Sobre as diversas edições de George Dandin, Chartier chama a atenção para quatro
alterações editoriais. A primeira é a publicação da peça George Dandin em uma coleção,
juntamente com outras peças de Molière, ficando seu sentido possivelmente contaminado
pela proximidade com as outras peças. A segunda modificação é “a teatralização do
impresso, que, gradualmente, a partir de 1682, multiplica as indicações cénicas, em
especial no meio das réplicas, o que permite conservar a memória dos jogos de cena
pretendidos por Molière numa leitura desligada do sentido imediato da representação”.
A colocação de ilustrações na peça, o que obrigou os editores a fazer certas escolhas (qual
cena ilustrar, como representar os personagens,...) induzindo a uma convenção de leitura
para a peça é a terceira alteração. Finalmente, a quarta mudança é a publicação, em 1734,
de uma edição contendo a peça George Dandin, o texto da pastoral no qual a peça foi
inserida e o relato do Festival de Versalhes, onde a peça e a pastoral foram, pela primeira
vez, representadas.
As mudanças acima relatadas fornecem-nos exemplos de modificações que ocorreram no
livro, suporte do texto, enquanto este último permaneceu inalterado. “Así, los nuevos
editores sugieren una nueva lectura de las mismas obras o de los mismos géneros, una
lectura que fragmenta los textos en unidades separadas y que reencuentra, en la
articulación visual de la página, la articulación intelectual o discursiva del argumento”
Segunda Figura: edições “populares”, com modificações no texto. Para ilustrar esta figura,
Chartier descreve o trabalho dos editores da coleção Bibliothèque Blue, cujas obras, ao
passarem de uma forma editorial para outra, sofreram transformações em seus textos, com
o objetivo de atingir públicos populares. Para alcançar este objetivo, aqueles editores
franceses encontravam-se diante de dois desafios: imprimir com o menor custo possível e
oferecer uma edição de leitura facilitada, diferente das edições destinadas aos leitores
tradicionais. O catálogo da Bibliothèque Blue foi, durante muito tempo, objeto de estudo
dos historiadores do livro, que identificavam-no como uma amostra da cultura popular da
França no Antigo Regime.
Para Chartier, os textos dos livros da Bibliothèque Blue não foram escritos com a
finalidade de serem populares. A criação da coleção Bibliothèque Blue fez parte de uma
estratégia editorial, iniciada em Troyes e que depois se alastrou por toda a França e outros
países, como Espanha e Inglaterra. Os editores de Troyes escolheram, entre os livros já
publicados, aqueles textos que mais pareciam ter condições de agradar a um grande
público e responder a uma expectativa, seja da ordem da devoção, da utilidade ou do
imaginário. “Textos que alimentam as piedades mais comuns ou guiam as artes do fazer
cotidiano. Daí, em matéria de ficção, a preferência dada às história, romances ou contos
que obedecessem a certas estruturas narrativas, ao mesmo tempo descontínuas e
repetitivas, que justapõem os fragmentos, empregam os mesmos temas muitas vezes,
ignoram as complicadas intricas que necessitam de uma exata memorização dos
acontecimentos ou dos personagens”. Além disso, os editores da Bibliothèque Blue
efetuaram diversas intervenções sobre os textos, alterando-os para torná-los “legíveis” ao
grande público que pretendiam alcançar. Estas estratégias editoriais eram de três tipos.
Primeiro, elas proporcionavam uma nova apresentação gráfica ao texto, através da
multiplicação de capítulos e do aumento do número de parágrafos na página, mesmo que
estas modificações não obedecem à lógica alguma. Segundo, elas simplificavam e
reduziam o texto. A simplificação era feita pela eliminação de muitos adjetivos e advérbios
e pela atualização de frases, depurando-as de suas orações desnecessárias. As reduções
consistiam “em desbastar o texto, em abreviar alguns dos seus episódios, em efectuar
cortes por vezes drásticos”, como a eliminação de “relatos julgados supérfluos, e,
sobretudo, das descrições de características sociais ou dos estados psicológicos das
personagens, consideradas como inúteis para o desenrolar da acção”. As intervenções
do terceiro tipo obedeciam a uma intenção moralizante, pois elas excluíam do texto todas
as alusões às funções naturais e às atividades sexuais, bem como todas as descrições
sensuais ou blasfematórias.
A unidade do catálogo da Bibliothèque Blue deve-se ao cuidado dos editores em publicar
textos com uma mesma estrutura (repetição de motivos parecidos, títulos antecipatórios,
resumos, chavões,...) compondo uma rede de textos em série, “seja pela identidade de seu
gênero (vida de santos, contos de fadas, romances de cavalaria, etc.), seja pela unidade do
campo de práticas onde são utilizáveis (exercício de devoção, compilação de receitas,
livros de aprendizado, etc.), ou ainda por sua temática reencontrada sob diferentes formas
(literaturas de mendicância, discursos sobre as mulheres, paródias dos gêneros e das
linguagens, etc.)” . Foram estas estratégias para a apresentação dos livros, somadas às
modificações textuais sugeridas pelos editores que tornaram populares os livros da
Bibliothèque Blue.
Na Espanha, a estratégia adotada pelos editores para a conquista da clientela popular foi o
pliego suelto, pequeno romance de meia folha no formato in-quarto. A forma do pliego
suelto é a condição, segundo Chartier, de “uma ampla circulação do romance, qualquer
que seja ele. Ela ajusta o objeto impresso à própria forma poética coagindo as novas
criações; alimenta o comércio dos vendedores ambulantes e dos mascates cegos; põe ao
alcance de todos, até os menos afortunados, um repertório de textos suscetível de
múltiplos usos, próprio para acompanhar o trabalho ou a festa, para ensinar a ler ou para
passar o tempo”.
Na Inglaterra, a partir do século XVI, a estratégia editorial adotada foi a criação dos
chapbooks, que eram impressos em três formatos: os small books, com uma folha e meia
no formato in-quarto, os double books, com três folhas e as histories, que tinham entre
quatro e nove folhas no formato in-quarto. Criada pelos editores de ballads (impressos
populares de tom poético, geralmente cantados e vendidos pelos mascates) a estratégia
editorial dos chapbooks “reutiliza, adapta e às vezes abrevia textos antigos, religiosos ou
seculares (...), que pertenciam a diversos gêneros e tradições”.
Do editor e seu futuro
Descrevendo as peculiaridades do trabalho do editor, Roger Chartier escreve: “nos anos
1830, fixa-se a figura do editor que ainda conhecemos. Trata-se de uma profissão de
natureza intelectual e comercial que visa buscar textos, encontrar autores, controlar o
processo que vai da impressão da obra até a sua distribuição”. Pode ser que o editor
possua uma gráfica ou uma livraria, mas não é isso que lhe dá o estatuto de editor. Muitas
vezes, se é primeiro livreiro ou gráfico e, depois, se assume a função de editor.
Na atualidade, porém, assinala, com o avanço das tecnologias, em especial do texto
eletrônico, papéis bem demarcados como o do editor tendem a desaparecer. Em algumas
revistas científicas eletrônicas, por exemplo, as mesmas pessoas são autores, editores,
distribuidores e leitores. Existe uma espécie de afastamento por parte da comunidade
intelectual daquele mundo da empresa, do mercado, do lucro. O problema que se coloca
então é que a oferta de leitura, comunicação e informação pode ficar sujeita às ações e
decisões das grandes empresas multimídia, que “controlam um capital importante,
dispõem de uma implantação mundial e manejam os produtos derivados, do livro ao filme,
do filme ao CD-Rom, do CD-Rom aos programas televisionados etc.”.
O quadro acima descrito provoca angústia e preocupação entre os grandes editores,
porque a construção desta cadeia de produtos derivados e a participação neste mercado
multimídia exige obediência a alguns critérios como: que a empresa seja implantada no
maior número de regiões produtivas do mundo; que ela desenvolva mais de uma atividade
planejando cada produto, desde o início, para a diversificação (isto é, criado com um
conteúdo dirigido a um público amplo, utilizando a língua mais difundida, com vocação
para o universal) e que ela tenha uma enorme capacidade de investimento. A grande
maioria das casas editoras não está preparada para enfrentar esta realidade. Chartier afirma
que a tarefa do pesquisador, frente a este quadro, é “compreender os critérios que
vigoraram na construção das produções que dão origem a esses produtos derivados. E a
meu ver é a partir daí que se deve raciocinar, para além de um discurso nostálgico e
melancólico ou de uma cólera denunciadora, que tem suas razões, mas é impotente diante
de uma evolução demasiado poderosa”.
Do leitor e as práticas de leitura
Das práticas da leitura já falamos, como não podia deixar de ser, em diversos outros
pontos deste texto. Isso porque, para Chartier, autores, editores e leitores estão
intrinsecamente associados por relações que são, à primeira vista, antagônicas. De um
lado o autor e o editor, que desejam que os textos que eles escreveram ou publicaram
sejam lidos conforme o significado que eles inicialmente prescreveram. Por outro lado,
afirma Chartier, “la lectura es rebelde y vagabunda”. Os leitores têm liberdade para ler
como desejarem. Não obstante as convenções e regras, os leitores, livres, sabem como
reformular, transgredir, desviar, buscar outros significados que não aquele pré-
estabelecido. Esta tensão pode ser melhor compreendida se compreendemos três conceitos
fundamentais na obra de Chartier, a saber, os conceitos de cultura, apropriação e
representação.
Chartier atribui duas significações ao termo cultura, que se relacionam em regime de
reciprocidade. Pelo termo cultura Chartier entende tanto “as obras e os gestos que numa
dada sociedade justificam uma apreensão estética e intelectual” quanto as “práticas
comuns, ‘sem qualidades’, que exprimem a maneira através da qual uma comunidade –
não importa em que escala – vive e pensa a sua relação com o mundo, com os outros e
com ela mesma”. A partir desta segunda noção – prática, antropológica – do termo
cultura, podemos entender como se dão, para Chartier, as relações entre texto, livro e
leitura: “produzidas em uma ordem específica,que tem as suas regras, suas convenções, as
obras escapam e ganham densidade, peregrinando, às vezes na mais longa jornada, através
do mundo social. Decifradas a partir dos esquemas mentais e afetivos que constituem a
cultura (no sentido antropológico) das comunidades que as recebem, tais obras se tornam
um recurso precioso para pensar o essencial: a construção de um vínculo social, a
subjetividade individual, a relação com o sagrado”. Para o estudo da cultura entendida
enquanto prática, Chartier propõe os conceitos de representação e apropriação.
Representações são esquemas intelectuais: classificações, divisões e limitações produzidas
pelos grupos sociais, “graças às quais o presente pode adquirir sentido, o outro tornar-se
inteligível e o espaço ser decifrado”. Esta noção de representação, construída por
Chartier, permite “articular três modalidades da relação com o mundo social: em primeiro
lugar, o trabalho de classificação e de delimitação que produz as configurações intelectuais
múltiplas, através das quais a realidade é contraditoriamente construída pelos diferentes
grupos, seguidamente, as práticas que visam fazer reconhecer uma identidade social, exibir
uma maneira própria de estar no mundo, significar simbolicamente um estatuto e uma
posição, por fim, as formas institucionalizadas e objectivadas graças às quais os
‘representantes’ (instâncias colectivas ou pessoas singulares) marcam de forma visível e
perpetuada a existência do grupo, da classe ou da comunidade”.
A noção de apropriação, tal como a propõe Chartier é distinta da noção de apropriação
social dos discursos, proposta por Michel Foucault. Esta confisca os discursos,
colocando-os “fora do alcance de todos aqueles cuja competência ou posição impedia o
acesso aos mesmos” ao passo que aquela “tem por objectivo uma história social das
interpretações, remetidas para as suas determinações fundamentais (que são sociais,
institucionais, culturais) e inscritas nas práticas específicas que as produzem”.
A leitura é, de acordo com a definição de Chartier, uma dupla apropriação: “de um lado, a
apropriação designa a ‘efetuação’, a ‘atualização’ das possibilidades semânticas do texto;
de outro, ela situa a interpretação do texto como a mediação através da qual o leitor pode
operar a compreensão de si e a construção da ‘realidade’. Influenciado por Pierre
Bourdieu, Chartier define a leitura como uma prática, com seus gestos, espaços e
hábitos, donde se deriva sua preocupação, ao investigar as práticas de leitura, em
identificar as especificidades e os clivagens das comunidades de leitores e suas maneiras de
ler. Enquanto alguns são leitores experientes, outros são inexperientes; alguns só
conseguem ler em voz alta, outros só lêem em silêncio; uns são leitores seculares, outros
religiosos, todos estão, no entanto, inseridos em uma comunidade com diferentes regras,
instrumentos e maneiras de ler e interpretar um texto. Desta maneira, uma nova figura da
relação texto, livro e leitura é evocada: um texto, sem alterações em seu formato ou seu
conteúdo, que é apreendido de maneira diferente por diferentes leitores.
Para ilustrar esta figura, Chartier analisa o prólogo escrito por Fernando de Rojas, em
1507, para uma reedição de sua tragicomédia Celestina. Neste prólogo, Rojas chama a
atenção para a existência de pelo menos três leituras divergentes da Celestina: a primeira
leitura concentra-se apenas em alguns episódios isolados, reduzindo o texto “a uma
história contada para passar o tempo, muito semelhante àquela que Sancho conta a seu
amo na primeira parte, capítulo 20 de Don Quixote. A segunda leitura retém, da
tragicomédia, nada mais que fórmulas de fácil memorização, aqueles donaires y refranes
(chistes e provérbios) que constituem os clichês e as frases feitas”. Contra estas leituras,
que mutilam o texto e não apreendem seu verdadeiro significado, Rojas apresenta a
maneira adequada de ler, daqueles que “ ’coligen la suma para su provecho, ríen lo
donoso, las sentencias y dichos de filósofos guardan em su memoria para transponer em
lugares convenibles a sus actos y propósitos’. Desse modo, esses leitores põem em
operação uma leitura plural que distingue o cômico do sério e extrai os princípios morais
que melhor iluminam a vida de cada pessoa”.
Uma outra figura sobre a leitura é construída por Roger Chartier e Daniel Roche que, ao
dissertarem sobre o acesso ao livro, alertam-nos para o fato de que “todo livro possuído
não quer dizer forçosamente lido e que, inversamente, a leitura não implica a compra
porque o acesso ao livro pode-se fazer tanto através do comércio de livraria, como
também através da biblioteca pública”. Donde podemos concluir que livros destinados a
leitores populares nem sempre eram lidos apenas por leitores populares. As pesquisas nos
inventários de leitores franceses abastados mostraram que muitos destes possuíam vários
volumes da coleção Bibliothèque Blue, por exemplo. Por outro lado, leitores de classes
sociais menos favorecidas podiam ter acesso ao livro por outras vias que não a posse e,
ainda, grupos de analfabetos podiam ter acesso ao texto ouvindo uma leitura em voz alta
nos rituais ou nas reuniões públicas. Consciente destes e de outros limites impostos à
história das práticas de leitura, Chartier não pretende esgotar todas as possibilidades de
reconstrução histórica das práticas de leitura. “Reconstituir a leitura implícita visada ou
permitida pelo impresso não é, portanto, contar a leitura efetuada e ainda menos sugerir
que todos os leitores leram como desejou-se que lessem. O conhecimento dessas práticas
plurais será, sem dúvida, para sempre inacessível, pois nenhum arquivo guarda seus
vestígios. Com maior freqüência, o único indício do uso do livro é o próprio livro. Disso
decorre também sua imperiosa sedução”.

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Roger Chartier & Daniel Roche, “O livro: uma mudança de perspectiva”, em Jacques
Le Goff & Pierre Nora, História: novos objetos (Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1976),
p. 111.
Cf.: José Sérgio Leite Lopes, “Apresentação”, Estudos Históricos, 13, jun.1994 (Ri
de Janeiro, FGV, pp. 97-8); Francisco Falcon, “História das idéias”, em Ciro Flamarion
Cardoso & Ronaldo Vainfas (orgs.), Domínios da História. Ensaios de teoria e
metodologia (Rio de Janeiro, Campus, 1997), p.118.
José Sérgio Leite Lopes, op.cit., p. 98.
Jacques Le Goff, Roger Chartier & Jacques Revel, Nova História (Coimbra, Almedina,
1990), p. 362.
Roger Chartier, A ordem dos livros, (Brasília, UnB, 1998), p. 8.
Idem, p. 17.
Idem, p. 17.
Michel de Certeau, A invenção do cotidiano, (Petrópolis, Vozes, 1998), pp. 265-6.
Roger Chartier, “A História hoje: dúvidas, desafios, propostas”, Estudos Históricos,
op. cit., p. 107.
Roger Chartier, A ordem dos livros, op. cit., p. 18.
Roger Chartier, “Do livro à leitura” em Roger Chartier (org.), Práticas da Leitura, (São
Paulo, Estação Liberdade, 1996), p. 95.
Roger Chartier, A ordem dos livros, op. cit., p. 45.
Roger Chartier, A aventura do livro: do leitor ao navegador, (São Paulo, UNESP,
1998), p.32.
Para conhecer mais sobre as maneiras como o retorno ao autor aparece nas diferente
abordagens, conferir: Roger Chartier, A ordem dos livros, op. cit., pp. 34,35 e 59.
Roger Chartier, A ordem dos livros, op. cit., p.35-6.
Idem, p. 36
Idem, p. 41
Idem, p. 58
Roger Chartier, “Do livro à leitura”, op. cit., p. 97.
Roger Chartier, História Cultural, (Lisboa, DIFEL & Rio de Janeiro, Bertrand Brasil,
1990), p. 127.
Roger Chartier, A ordem dos livros, op. cit., p. 18.
Roger Chartier, História Cultural, op. cit., p. 128.
Roger Chartier, El orden de los libros, (Barcelona, Gedisa, 1996), p. 31.
Roger Chartier, “Do livro à leitura”, op. cit., p. 100.
Roger Chartier, História Cultural, op. cit., p. 175.
Roger Chartier, “Do livro à leitura”, op. cit., pp. 100-1.
Roger Chartier, “Leituras e leitores ‘populares’ da renascença ao período clássico” em
Guclielmo Cavallo & Roger Chartier, História da leitura no mundo ocidental, vol.2 (São
Paulo, Ática, 1999), p. 121.
Idem, p. 123
Roger Chartier, A aventura do livro, op. cit., p. 50.
Idem, p. 147
Idem, p. 148
Roger Chartier, El orden de los libros, op. cit., p. 20.
Roger Chartier, A ordem dos livros, op. cit., p.8-9.
Idem, p. 9
Roger Chartier, História Cultural, op. cit., p. 17.
Idem, p. 23
Idem, p. 26
Roger Chartier, “Leituras e leitores ‘populares’ da renascença ao período clássico”, op.
cit., p. 123.
Cf. Roger Chartier, História Cultural, op. cit., p. 17 e p. 137.
Roger Chartier, “Textos, impressão e leituras”, em Lynn Hunt, A nova história cultural
(São Paulo, Martins Fontes, 1995), p. 212-3.
Idem, p. 213
Roger Chartier & Daniel Roche, “O livro: uma mudança de perspectiva”, op. cit.,
p.105.
Cf. Roger Chartier, “Do livro à leitura”, op. cit., p. 79-95 e Roger Chartier, História
Cultural, op. cit. , p. 141-163.
Roger Chartier, “Do livro à leitura”, op. cit., p. 103.

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