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REFERÊNCIA: FANTE, Cleo; PEDRA, José Augusto. Bullying escolar: perguntas &
respostas. Porto Alegre: Artmed, 2008. ISBN 978-85-363-1366-5

Cleo Fante: Pedagoga e historiadora. É pioneira nos estudos e nas publicações sobre o tema bullying
escolar no Brasil. Autora do programa antibullying Educar para a paz. Vice-presidente do Centro
Multidisciplinar de Estudos e Orientação sobre o Bullying Escolar - Cemeobes, Brasília/DF.
Consultora educacional, docente e coordenadora de cursos de capacitação e pós-graduação em
bullying escolar.
José Augusto Pedra: Teólogo e psicólogo clínico. Especialista em inteligência multifocal aplicada à
reestruturação da educação. Autor de diversos cursos, dentre eles: A saúde emocional do educador e
o gerenciamento do estresse; Otimização de performance de atletas; Preparação de candidatos a
concursos; A pedagogia da roda dos sonhos. Presidente do Centro Multidisciplinar de Estudos e
Orientação sobre o Bullying Escolar - Cemeobes, Brasília/DF. Docente em cursos de pós-graduação
e de capacitação.
APRESENTAÇÃO

Sabemos que a maneira pela qual os estudantes se relacionam entre si e com


seus professores é decisiva para o desenvolvimento do processo socioeducacional.
Durante as aulas e fora delas é comum o surgimento de "zoações" e alguns tipos
inusitados de brincadeiras, que tornam o ambiente escolar mais descontraído e
atrativo. Segundo os alunos, são “o que há de melhor na escola". Porém, muitas
vezes, essas brincadeiras são travestidas de crueldade, prepotência e insensatez,
ultrapassando em muito os limites suportáveis, que variam de acordo com o grau de
tolerância de cada indivíduo, e se convertendo em atos de violência. Quando
repetitivos, intencionais e deliberados, com o intuito de intimidar e causar sofrimento
a outro(s), são atos de bullying.
O bullying é diferente de uma brincadeira inocente, sem intenção de ferir; não
se trata de um ato de violência pontual, de troca de ofensas no calor de uma
discussão, mas sim de atitudes hostis, que violam o direito a integridade física e
psicológica e à dignidade humana. Ameaça o direito à educação, ao
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desenvolvimento, a saúde e a sobrevivência de muitas vítimas. As vítimas se


sentem indefesas, vulneráveis, com medo e vergonha, o que favorece o
rebaixamento de sua auto-estima e a vitimização continuada e crônica.
Em todo o mundo milhões de estudantes deixam de comparecer às aulas por
medo de sofrer bullying. Somente nos Estados Unidos, 160 mil estudantes não
comparecem (página 9) às aulas diariamente por causa do bullying. No Brasil, não
temos dados quantitativos que nos possibilitem esse conhecimento, porém sabemos
que o índice de absentismo e alto. O bullying interfere no processo de aprendizagem
e no desenvolvimento cognitivo, sensorial e emocional. Favorece o surgimento de
um clima escolar de medo e insegurança, tanto para aqueles que são alvos como
para os que assistem calados às mais variadas formas de ataques. O baixo nível de
aproveitamento, a dificuldade de integração social, o desenvolvimento ou
agravamento das síndromes de aprendizagem, os altos índices de reprovação e
evasão escolar têm o bullyingcomo uma de suas causas.
Essa forma de violência, muitas vezes interpretada como "brincadeiras
próprias da idade", traz uma série de prejuízos, que se refletem não apenas no
processo de aprendizagem e socialização, mas, sobretudo, na saúde do indivíduo.
Diariamente, milhares de estudantes em nosso país procuram atendimento medico
apresentando sintomas psicossomáticos - dores de cabeça e de estomago, febre,
diarréia, vômitos, alergias, taquicardia -, transtornos do sono e do apetite, estresse,
depressão, além de inúmeras doenças, inclusive de ordem psiquiátrica.
Muitos daqueles que são vítimas de bullying por um período prolongado de
tempo manifestam tendências suicidas ou dão cabo à própria existência. Outros
tantos reproduzem a vitimização contra terceiros ou integram-se às gangues com o
intuito de revide. Alguns, após anos de sofrimentos, chegam ao limite de suas forças
e, não suportando mais as humilhações que lhes são imputadas, entram armados na
escola, protagonizando grandes tragédias.
Nos Estados Unidos, dos 37 tiroteios que ocorreram em escolas, dois terços
dos autores cometeram seus crimes como vingança por causa da vitimização
bullying. Columbine e Virgínia Tech são exemplos de instituições onde o bullying
levou a conseqüências lamentáveis. Em ambos os casos, os protagonistas eram
ridicularizados na escola e excluídos do convívio social. Ao todo, foram 45 mortos e
dezenas de feridos, além de inúmeros traumatizados necessitando de
acompanhamento psicológico (ver a resposta à pergunta 39, no Capitulo 3). No
Brasil, o bullying foi responsável pela tragédia de Taiúva, pacata cidade do interior
paulista, onde um jovem obeso foi motivo de chacota durante toda a sua vida
acadêmica. Não suportando mais as humilhações, ele abriu fogo contra 50 (página
10) estudantes que estavam no pátio de recreio, feriu seis deles, a vice-diretora da
escola e um funcionário, suicidando-se em seguida (ver a resposta à pergunta 40,
no Capitulo 3). Também em Remanso, no interior baiano, um jovem matou duas
pessoas e feriu três, em decorrência de anos de ridicularizarão. Sua intenção era
suicidar-se, porém foi possível desarmá-lo.
Muitos bullies (aqueles que praticam bullying), sejam meninos ou meninas,
demonstram desde a infância suas habilidades de intimidação. Com o passar do
tempo, e sem intervenção, esse comportamento se fortalece e solidifica,
comprometendo a aprendizagem de valores humanos, como a tolerância, a
solidariedade, o respeito às diferenças, a compaixão. Vários, quando adultos,
praticam a violência doméstica e o assédio moral no trabalho. Outros se envolvem
em delinqüência, usa de drogas e criminalidade.
Alguns fatores propiciam o bullying, sua banalização e legitimização: atitudes
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culturais, como o desrespeito, a intolerância, a desconsideração ao "diferente"; a


hierarquização nas relações de poder estabelecidas em detrimento da fraqueza de
outros; o desejo de popularidade e manutenção do status a qualquer preço; a
reprodução do comportamento abusivo como uma dinâmica psicossocial expansiva;
a falta de habilidades de defesa, a submissão, a passividade, o silêncio e sofrimento
das vítimas; a conivência daqueles que assistem e o incentivo às ações cada vez
mais cruéis e desumanizantes; a violência doméstica, a ausência de limites, a
permissividade familiar, a falta de exemplos positivos; a omissão, o despreparo, a
falta de interesse e comprometimento de muitos profissionais e instituições
escolares; a impunidade, o descaso e a falta de investimentos e políticas publicas
voltadas a educação e a saúde para o tratamento e a prevenção, dentre outros.
Como pesquisadores do fenômeno bullying, nosso objetivo é responder neste
livro as perguntas que mais comumente são formuladas por pais, alunos,
profissionais da educação, jornalistas e todos aqueles que entram em contato com o
tema. Sua apresentação, por meio de perguntas e respostas, objetiva facilitar a
compreensão, a conscientização, dar esclarecimentos e fornecer orientação para
minimizar os efeitos negativos do bullying e desenvolver uma cultura de paz nas
escolas.
Além de responder as questões ligadas ao fenômeno bullying, o livro procura
esclarecer sobre o trote e o (página 11) assédio moral ou mobbing, que são formas
de violência que ocorrem em outros ambientes, muitas vezes decorrentes do
envolvimento bullying em época escolar. Outro aspecto abordado e o que diz
respeito ao encaminhamento correto e seguro dos casos, a partir do qual a
comunidade escolar contribuirá preventivamente para o esvaziamento do efeito
epidêmico do fenômeno.
De forma inovadora, apresentamos na primeira parte do livro uma historia que
facilitara o entendimento da dinâmica bullying para crianças, professores e pais.
Para as crianças, proporcionará identificação com situações cotidianas facilitando,
assim, a compreensão das atitudes norteadoras da cidadania e da convivência
pacífica solidária. Aos pais e responsáveis, amantes da educação para a paz,
instrumentaliza com esclarecimentos e orientações seguras de ações preventivas
nas interações com os filhos. Aos professores, facilitará a introdução do tema em
sala de aula, bem como o trabalho de educar para a paz e de incentivar estratégias
de convivência pacifica solidária. Nos anexos, disponibilizamos atividades reflexivas
relativas ao texto, onde os alunos poderão expressar seus sentimentos e emoções,
além de subsidiar os professores na identificação de possíveis envolvimentos em
bullying.
Nossa parceria há quatro anos resultou na criação do Centro Multidisciplinar
de Estudos e Orientação sobre o Bullying Escolar (Cemeobes), com sede em
Brasília (DF), entidade pioneira no país, que se dedica exclusivamente ao estudo do
fenômeno. O Cemeobes realizou em 2006 o I Fórum Brasileiro sobre o Bullying
Escolar, resultando na Carta Aberta de Brasília (www.bullying.pro.br). Esse
documento é um marco na luta contra esse mal, que assola desde há muito tempo
nossas casas, nossas escolas, nossos locais de trabalho, enfim nossa sociedade.
Em abril de 2007 (D.O. 24/04/2007), foi qualificado pela Secretaria Nacional de
Justiça, do Ministério da Justiça, como Organização da Sociedade Civil de Interesse
Público (OSCIP).
A falta de consciência da natureza, extensão e seriedade do problema
acabam por legitimar o bullying. Portanto, se quisermos erradicá-lo de nosso
convívio, é necessário o estabelecimento de parcerias entre os diversos segmentos
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sociais, o envolvimento e o compromisso com uma cultura de paz. (página 12).

(Página 13)

Os elefantes, os camelos e os pássaros ficaram responsáveis pelo


fornecimento de água. (Página 14).
Os leões, os rinocerontes, os búfalos e as zebras foram encarregados de
fornecer toda a madeira necessária. Já os porcos, os hipopótamos e os jacarés
cuidaram da confecção de tijolos. Os castores, os veados e as hienas, com o apoio
dos joões-de-barro, se comprometeram em levantar as paredes. (Página 15)
Como o trabalho exigia altura e agilidade, as girafas e os macacos se
propuseram a construir o telhado. Os camaleões, os pavões e as borboletas
cuidaram da pintura e da decoração. (Página 16)
Depois da escola pronta, fizeram uma grande festa, para comemorar o
resultado dos seus esforços. Descobriram que, graças à solidariedade e à
cooperação de todos, poderiam, finalmente, estudar todos juntos. (Página 17)
Com o passar do tempo, a bicharada tornou-se esclarecida e consciente da
sua realidade e aprendeu, dentre outros conhecimentos, a importância de cada um
na sociedade. Os bichos reuniram-se toda semana para discutir vários assuntos e
encontrar soluções para a melhoria da qualidade de vida. As boas relações entre as
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diferentes espécies favoreciam tanto os que ensinavam quanto os que aprendiam.


(Página 18)
Porém, numa manhã fria de inverno, surgiu na escola um bicho muito
estranho. Seu olhar de valentão dava medo, causava até arrepios. Ninguém sabia
de onde ele tinha vindo e a que espécie pertencia. (Página 19)
Não se parecia com nenhum habitante do planeta. Por suas características e
pelo tipo de influencia que provocou em outros bichos, chamaram-no de Bullying. Os
animais que com ele tiveram contato mudaram o comportamento e a maneira de agir
com os colegas. Tornaram-se agressivos, prepotentes e perversos. Adotaram
formas de “brincar” muito diferentes das conhecidas até então. Suas “brincadeiras”
geravam sofrimento, chateação, vergonha e constrangimento aos colegas, inibindo o
aprendizado e a maneira de ser de cada espécie. (Página 20)
Suas atitudes tornaram-se hostis com os mais fracos e indefesos. As
diferenças existentes entre eles, que antes eram consideradas normais, passaram a
ser motivo de chacotas e ridicularizações. Os que apresentavam dificuldades de
aprendizagem eram “zoados” e apelidados. Muitos acabaram desistindo da escola,
outros sofriam calados, temendo represálias. (Página 21)
A maioria dos bichos presenciava o comportamento dos colegas, mas, por
alguma razão, nada faziam. Essas mudanças de comportamento provocaram sérios
problemas de convivência na escola e o interesse pelos estudos ficou prejudicado.
Assim, o Leão tornou-se o valentão da escola, agindo de maneira dominadora
e procurando impor sua autoridade. O urso, vendo que a popularidade do leão
crescia a cada dia, passou a usar sua força para intimidar e obter vantagens.
A cobra, que até então era amiga e conselheira, começou a espalhar boatos
difamando a galinha, dizendo que esta era namoradeira. Como tinha habilidade para
desenhar, retratava a galinha em situações constrangedoras e passava para todos
os colegas. (Página 22)
O cachorro, que antes protegia a todos, também mudou seu comportamento e
passou a agir com perversidade rosnando e fazendo ameaças. Coagia a girafa,
obrigando-a a destruir os ninhos de passarinhos ao término das aulas. Os
passarinhos indignados, reclamaram na escola, mas a perseguição aumentou ainda
mais, deixando-os apavorados.
A hiena, temendo tornar-se a próxima vítima, ria da maldade que os colegas
faziam. Como estratégia, passou a criticar a gralha, responsável pelo sinal da troca
de aulas, devido ao seu tom de voz estridente. A gralha, ouvindo constantemente as
risadinhas dos colegas e sentindo-se humilhada, foi aos poucos se retraindo, até
que desenvolveu uma gagueira e não pode mais tocar o sinal da escola. A anta,
cheia de dúvidas, evitava fazer perguntas a professora, pois se sentia envergonhada
pela zoação que recebia, prejudicando sua aprendizagem. (Página 23)
Com a preguiça algo semelhante aconteceu. Aos poucos foi excluída do
grupo. Tão chateada ficou que a motivação para os estudos e suas notas
despencaram. Nem o alegre e estudioso pingüim escapou aos maus-tratos. Sofria
perseguição porque estava sempre elegante e bem-vestido. Depois de algum tempo
tornou-se estressado e mal-humorado.
Revoltante mesmo foi o que fizeram com o camelo e o esquilo. Eles não
sabiam mais o que fazer, porque eram obrigados a entregar seus lanches todos os
dias, para não apanhar na saída da escola. Com o veado, os valentões da escola
pegaram pesado: excluíram-no do time de futebol, dizendo que era demasiadamente
sensível para os esportes.
Situação humilhante enfrentava o coelho. Seus colegas faziam gestos em sua
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direção e riam, apontando para o tamanho dos seus pés, dentes, orelhas. Com o
tucano também foi assim, só que este tornou-se agressivo, por causa das piadinhas
que faziam com o seu bico, e durante o recreio procurava os galhos mais altos e
afastados para sozinho comer o seu lanche.
Já o urubu andava chateado, porque era sempre constrangido devido à sua
alimentação. O gambá decidiu abandonar a escola porque implicavam com o seu
cheiro. A onça, cansada de receber apelidos por causa das suas pintas, resolveu
implicar com o tamanho da boca do jacaré. O jacaré, por sua vez, acabou
descontando no sapo, que adoeceu de tanto medo. (Página 24)
Estranho foi o que fez a pacífica ovelha: proibia a pata de lanchar com a
turma. A pata, não entendendo os motivos, chorava pelos cantos da escola,
acreditando que ninguém gostava dela. Aos poucos, sua auto-estima foi baixando,
até que perdeu a confiança em si mesma, tornando-se insegura, aflita e temerosa.
Até a pacata zebra mudou seu comportamento, depois de muito sofrer “zoações” por
causa das suas listras, e passou a dar coices nos colegas. O tatu provocava
inúmeras situações embaraçosas e, como não conseguia se defender, se escondia
no buraco, mas, quando saía, levava cada safanão... A coruja sofreu tanta “zoação”
por causa dos seus olhos grandes que já não queria mais sair de casa. Em conversa
com sua mãe, ela contou que sentia muita raiva dos colegas, que não queria voltar
para a escola e que pensava em se vingar. (Página 26)
O elefante, coitado, ia para escola de casaco, num calor danado, para
disfarças sua gordura. Um dia, cansado das chacotas dos colegas, decidiu
emagrecer, mas acabou desenvolvendo anorexia (perdeu a vontade de se alimentar)
e teve que interromper seus estudos para tratamento.
O canguru não agüentava mais: todo dia desaparecia alguma coisa da sua
mochila. O macaco, muito bisbilhoteiro, sempre levava a culpa, mesamo sendo
inocente. Irritado com as acusações injustas, começou a fazer brincadeiras
inconvenientes com o porco por causa dos seus problemas intestinais. (Página 27)
Fato curioso aconteceu com o rinoceronte: apanhava todos os dias. De tão
amedrontado, quis desistir da escola, mas seus pais não deixaram. Bem que tentava
se defender, mas, sozinho, sentia-se impotente para enfrentar o grupo. Para ele, pior
do que apanhar dos colegas, apesar do seu tamanho, era mentir para os pais,
inventando desculpas para faltar às aulas.
Triste mesmo foi o que aconteceu com a raposa. Antes ela era meiga,
esperta, excelente aluna, mas de tanto sofrer intimidações, foi perdendo a
espontaneidade e a alegria de viver. Dizem que agora é perigosa, entrou para uma
gangue e está envolvida com drogas. Com o cavalo também foi assim. Querendo
dar um basta nos maus-tratos que sofria, veio armado para escola e acabou sendo
expulso. Com a abelha e a formiga não foi diferente. Após sofrerem muitas ofensas
por causa do seu tamanho, elas formaram um grupo e planejaram estratégias de
ataques contra seus colegas nos banheiros e no pátio do recreio.
Interessante percepção foi a mãe coruja. Notando que sua filha chegava da
escola agressiva, com ar de superioridade, querendo intimidar seus irmãos mais
novos, resolveu ficar atenta. Procurou a direção da escola e contou o que estava
acontecendo, querendo saber se lá ela agia assim. Nessa época, vários pais
procuraram a escola para tentar entender os problemas apresentados por seus
filhos. Outros começavam tirar os filhos da escola. Até os professores não
agüentavam mais tanta violência. (Página 28)
Após reunir a equipe de professores e analisar os problemas enfrentados, a
direção da escola percebeu que toda essa mudança de comportamento foi
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promovida por aquele bicho estranho, que haviam chamado de Bullying. Assim, a
escola resolveu convocar todos seus profissionais, os pai e os alunos para uma
grande reflexão. O grupo concluiu que o medo, a insensibilidade, a dificuldade de
compreender e se colocar no lugar do outro e a intolerância às diferenças individuais
de cada um estavam prejudicando o ensino, a aprendizagem, as relações sociais
entre as espécies, e a violência crescia no ambiente escolar.
O papai búfalo lembrou a todos que, na construção da escola, cada um
contribuiu conforme as suas habilidades e o resultado foi extraordinário. Todos
cooperaram com alegria, e a amizade foi fortalecida entre eles.
O diretor considerou que a maior dificuldade dos alunos não estava na
aprendizagem das disciplinas curriculares, mas sim na convivência, e disse que,
doravante, todos na escola se empenhariam em educar os alunos para a paz, a fim
de que a escola se tornasse um lugar onde todos pudessem ser incluídos. Por isso,
resolveram ensinar sobre a importante participação das diferentes espécies na
história da evolução e da manutenção do planeta. (Página 31)
Desta forma, os alunos aprenderam que as diferenças sempre existirão, mas
são os diferentes que fazem a diferença. (Página 32)
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1 DEFINIÇÃO DO TERMO BULLYING

1. Muito se tem ouvido falar em bullying, mas, afinal, o que ele significa?
Bullying é uma palavra de origem inglesa adotada em muitos países para
definir “o desejo consciente e deliberado de maltratar uma outra pessoa e colocá-la
sob tensão" (Tatum e Herbert, 1999). É um termo utilizado na literatura psicológica
anglo-saxônica, nos estudos sobre o problema da violência escolar, para designar
comportamentos agressivos e anti-sociais. O bullying "compreende todas as atitudes
agressivas, intencionais e repetitivas que ocorrem sem motivação ao evidente,
adotadas por um ou mais estudantes contra outro (s), causando dor e angústia, e
executadas dentro de uma relação desigual de poder, tomando possível a
intimidação da vítima" (Lopes Neto e Saavedra, 2003).
Trata-se de uma dinâmica psicossocial expansiva que envolve um número
cada vez maior de crianças e adolescentes, meninos e meninas, a medida que
muitas vítimas reproduzem a vitimização contra outro (s). É um problema epidêmico,
específico e destrutivo, motivo pelo qual deve ser considerado questão de saúde
pública. Portanto, requer esforços, investimentos e ações estratégicas conjuntas, por
parte de toda a (página 33) comunidade escolar e das autoridades competentes
ligadas à educação, à saúde e à segurança pública, por meio de programas
preventivos e assistenciais.

2. Qual a origem da palavra “bullying”?


Bully pode ser traduzido como valentão, tirano, brigão. Como verbo, bully,
significa tiranizar, amedrontar, brutalizar, oprimir, e o substantivo bullying descreve o
conjunto de atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos,
praticados por um indivíduo (bully) ou grupo de indivíduos com o objetivo de
intimidar ou agredir outro indivíduo (ou grupo de indivíduos) incapaz de se defender.
Todos nós, certamente, já fomos vítimas de um bully em algum momento de
nossas vidas. O abuso de poder, a intimidação, a prepotência são algumas das
estratégias que o bully adota para impor sua autoridade e manter suas vítimas sob
domínio. Na família, os bullies podem ser identificados na figura de genitores, irmãos
ou cônjuges autoritários e cruéis, que atormentam a vida de suas vítimas, minando
seus esforços e sua auto-estima. Na escola eles aterrorizam, provocam, manipulam
e hostilizam os mais fracos e indefesos. No trabalho, suas atitudes são prepotentes,
dissimuladas e perversas. Os bullies estão em toda parte, suas atitudes podem ser
notadas no trânsito, nos condomínios, nas filas de banco, nos hospitais, nas
delegacias, nas forças armadas, nos presídios, nos asilos de idosos, na política, nas
igrejas, enfim nos mais diversos contextos sociais.

3. Não há no português uma palavra equivalente para referir-se ao


bullying, como por exemplo, intimidação?
Na maioria dos países onde o fenômeno é estudado, emprega-se o termo em
inglês. Entretanto, existem alguns países que utilizam outros termos de sua língua
sem que se perca o significado. São usados, por exemplo, mobbing, na Noruega e
na Dinamarca; mobbning, na Suécia e na Finlândia; hercèlement quotidien, na
França; prepotenza ou bullismo, na Itália; yjime, no Japão; Agressionen unter
(página 34) Shülern na Alemanha; acoso e amenaza entre escolares ou intimidación,
na Espanha. Em Portugal, o termo já é utilizado de forma politicamente correta. No
Brasil, tivemos dificuldade para encontrar um termo equivalente que expresse o
fenômeno com a mesma amplitude do termo inglês. O termo intimidação não
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expressa as diversas e complexas possibilidades de ações empregadas nesta


síndrome psicossocial. A intimidação é uma das muitas formas de ataque
empregadas por autores de bullying.

4. Qual é a diferença entre os termos mobbing e mobbning?


Ambos são empregados para definir uma situação onde um indivíduo age
sozinho ou em grupo para ridicularizar outro. A raiz inglesa mob refere-se a um grupo
grande e anônimo de pessoas que geralmente se dedica ao assédio. Mesmo não
sendo um termo adequado do ponto de vista lingüístico, mobbning, é usado para
definir uma situação na qual uma pessoa atormenta, hostiliza ou molesta uma outra
(Olweus, 1998).

5. Qual é a diferença entre os termos mobbing e bullying?


O termo mobbingé freqüentemente usado para definir o abuso de poder entre
adultos em ambientes profissionais, embora alguns países se utilizem do termo
bullying. Geralmente o termo Bullying é usado para definir o abuso de poder em
ambientes escolares. O termo Mob tem sido empregado para designar a Máfia.
Assim, mobbingnos remete à idéia da constituição de grupos com caráter mafioso no
ambiente laboral, ou seja, grupos que exercem pressões e ameaças sobre outros
trabalhadores. No Brasil, o mobbing édefinido como assédio moral.

6. Onde se iniciaram os estudos sobre bullying e o que provocou tais


iniciativas?
Os estudos tiveram início na década de 1970 na Suécia e na Dinamarca. Na
década de 1980, a Noruega desenvolveu grande pesquisa sobre o tema,
expandindo (página 35) os estudos para inúmeros paises europeus. Como reflexo
desses estudos, o tema chegou ao Brasil no fim dos anos de 1990 e início de 2000.
As iniciativas foram provocadas pelo aumento do número de suicídios entre
crianças e adolescentes, especialmente na Europa. Esse fato fez com que os
pesquisadores buscassem suas principais causas, encontrando entre elas os maus-
tratos praticados por parte dos companheiros de escola. Esse fato despertou a
atenção de profissionais, principalmente da área de psicologia, que passaram a
estudar as formas de relacionamento entre os alunos. Constataram em seus estudos
a existência de um fenômeno antigo, mas que requeria atenção e tratamento, por
comprometer o desenvolvimento psicológico, especialmente daqueles que são
vitimizados. (Fante, 2005)

7. Quais são as ações que podem ser compreendidas como atos de


bullying?
São inúmeras as ações, dentre elas apelidar, ofender, "zoar", "sacanear",
humilhar, intimidar, "encarnar", constranger, discriminar, aterrorizar, amedrontar,
tiranizar, excluir, isolar, ignorar, perseguir, chantagear, assediar, ameaçar, difamar,
insinuar, agredir, bater, chutar, empurrar, derrubar, ferir, esconder, quebrar, furtar e
roubar pertences.

8. Quais são os tipos de maus-tratos utilizados pelos autores de


bullying e como ocorrem na pratica as condutas bullying"?
Nos estudos sobre o bullying, os tipos de maus-tratos encontrados são: físico,
verbal, moral, sexual, psicológico, material e virtual. Ocorrem quando um ou mais
alunos elegem uma vítima para "bode expiatório" do grupo e contra ela exercem
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força coerciva, com atitudes agressivas, contra as quais a vítima não consegue se
defender. Os autores mobilizam a opinião dos colegas contra a vítima, através de
boatos difamatórios ou apelidos que acentuam alguma característica física,
psicológica ou trejeito considerado negativo, diferente ou esquisito. (página 36)
Outros perseguidos são os estranhos, os nerds, os que têm sotaque, jeito
efeminado ou sensível, no caso dos meninos, ou masculinizado e grosseiro, no caso
das meninas, ou aqueles que são diferentes da maioria dos alunos. Os agressores
normalmente maltratam suas vítimas, constrangendo-as com zombarias, "zoações",
"sacanagens" ou valendo-se de gestos, expressões faciais, risadinhas irônicas ou
olhares ameaçadores. Na maioria dos casos, a vítima sente-se isolada e excluída do
convívio dos colegas, seja por ter o moral rebaixado, seja pela rejeição a ela que os
grupos manifestam, uma vez que não querem entre eles alguém “tão fraco ou
indefeso" ou temem que, ao apoiá-la, tenham que enfrentar os seus agressores e
tomem-se as próximas vítimas.

9. O que diferencia o bullying de outros tipos de violência?


A principal diferença é a propriedade de causar traumas irreparáveis ao
psiquismo das vitimas, comprometendo sua saúde física e mental e seu
desenvolvimento socioeducacional. Ao contrário de outras ações violentas,
ocasionais e reativas, o bullying é caracterizado por ações deliberadas e repetitivas,
pelo desequilíbrio de poder e pela sutileza com que ocorre, sem que os adultos
percebam ou permitindo que estes finjam não perceber. O bullying é uma forma de
violência que resulta em sérios prejuízos, não apenas ao ambiente escolar, mas a
toda a sociedade, pelas atitudes de seus membros. As relações desestruturadas por
meio de condutas abusivas e intimidatórias incidem na formação dos valores e do
caráter, o que refletirá na vida do indivíduo, no campo pessoal, profissional, familiar
e social. O bullying está diretamente relacionado à formação de gangues, ao usa de
drogas e armas, à violência doméstica e sexual, aos crimes contra o patrimônio e,
conseqüentemente, à necessidade de altos investimentos governamentais para
atender a demanda da Justiça, dos presídios, dos programas sociais e da saúde.
(www.diganaoaobullying.com.br). (página 37)

10. Como distinguir uma brincadeira inofensiva dos atos de bullying?


As brincadeiras acontecem de maneira natural entre as pessoas. Elas
brincam, "zoam", colocam apelidos umas nas outras, dão risadas e se divertem.
Porém, quando essas brincadeiras ganham requinte de crueldade, de perversidade
e "segundas intenções" e extrapolam os limites suportáveis - que variam de acordo
com a história intrapsíquica de cada individuo -, transformam-se em atos de
violência. Outro aspecto é que quando se trata de brincadeiras normais e saudáveis
todos se divertem. Porém, quando apenas uns poucos se divertem à custa de
outros, que sofrem, não se trata mais de uma simples brincadeira, e sim de um ato
de violência. Lembremos que é possível notar claramente quando alguém fica
constrangido, não se sente à vontade ou não gosta de uma brincadeira.

11. Qual é a diferença entre as práticas de bullying do passado e as


atuais?
No passado, grupos de alunos se uniam para tomar o lanche, os pertences
ou o dinheiro do colega ou, ainda, ameaçá-lo, persegui-lo ou obrigá-lo a fazer
tarefas ou incluir seus nomes no grupo de trabalho. Hoje, o bullying ganhou mais
requinte, com a utilização das modernas ferramentas disponíveis na internet e nos
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telefones celulares para espalhar medo, boatos, difamações, humilhações,


causando graves transtornos para a vítima e seus familiares. Esta nova modalidade
de ataque é denominada ciberbullying ou assédio virtual. (página 38)

2 CRITÉRIOS PARA A IDENTIFICAÇÃO DO BULLYING

12. Quais são os critérios usados pra identificar o comportamento


bullying?
Existem alguns critérios básicos, que foram estabelecidos pelo pesquisador
Dan Olweus, da Universidade de Bergen, na Noruega (1978 a 1993), para identificar
as condutas bullying e diferenciá-las de outras formas de violência e das
brincadeiras próprias da idade. Os critérios estabelecidos são: ações repetitivas
contra a mesma vítima num período prolongado de tempo; desequilíbrio de poder, o
que dificulta a defesa da vítima; ausência de motivos que justifiquem os ataques.
Acrescentamos ainda que se devem levar em consideração os sentimentos
negativos mobilizados e as seqüelas emocionais, vivenciados pelas vítimas de
bullying.

13. Como podemos caracteriza os atos repetitivos?


De acordo com Olweus (1999), o bullying é compreendido como um
subconjunto de comportamentos agressivos, sendo caracterizado por sua natureza
repetitiva e por desequilíbrio de poder. Ainda segundo o autor, considera-se que as
ações são repetitivas quando os ataques (página 39) são desferidos contra a
mesma vítima num período de tempo, podendo variar de duas ou mais vezes no ano
letivo. Parece pouco, mas devemos levar em conta a desagradável e aversiva
experiência emocional vivenciada pela vítima. Um fator que devemos levar em
consideração é o medo, que se toma constante, principalmente de que o ataque
volte a acontecer, por isso, a vítima mobiliza, inconscientemente, sentimentos como
ansiedade, medo, insegurança, angústia, raiva, além de tensão, constrangimento,
receio de fazer uma pergunta ao professor e ser alvo de "zoação", etc. Para a vítima,
é preferível calar-se ou isolar-se dos demais na tentativa de minimizar seu
sofrimento. Mesmo fora do ambiente escolar a vítima continua lembrando-se dos
episódios e somatizando-os, como se de fato estivesse na presença dos seus
agressores. Imaginemos uma criança ou adolescente que passa por esse tipo de
constrangimento, mobilizando medo, angústia, raiva e desejo de vingança. Após
alguns anos, ela provavelmente se encontrará desestruturada, no limiar de suas
forças e até mesmo de sua sanidade.

14. Como podemos caracterizar o desequilíbrio de poder entre vítima e


agressor?
O desequilíbrio de poder é caracterizado pelo fato de que a vítima não
consegue defender-se com facilidade independente da sua idade ou estatura física,
nem motivar outros para que a defendam. Geralmente, os ataques são produzidos
por um grupo de agressores, o que reduz as possibilidades de defesa das vítimas.
As estratégias de ataque normalmente são ardilosas e sutis, expondo as vítimas à
vergonha e ao constrangimento público. Entre os praticantes de bullying evidencia-
se a insegurança pessoal, por isso a escolha das vítimas é feita, preferencialmente,
contra aqueles que não dispõem de habilidades de defesa. Outro fator que se
evidencia é a habilidade de liderança, de influência e de persuasão. Normalmente,
12

os bullies são muito habilidosos em sair-se bem de situações difíceis, especialmente


quando indagados sobre seus atos agressivos. (página 40)

15. Como entender a ausência de motivação que justifique os


ataques?
Os ataques bullying não acontecem em decorrência de uma causa reativa,
pois não surgem de uma discussão, conflito ou briga entre dois ou mais indivíduos.
Simplesmente, os que praticam bullying elegem um colega que tenha em seu
aspecto físico ou psicológico traços que denunciam ser ele uma presa fácil aos
ataques. O "bode expiatório" deixa claro em suas atitudes que não revidará, não
denunciará e nem conseguirá motivar outros em sua defesa. Portanto, o bullying
nasce da recusa a uma diferença, da intolerância, do desrespeito ao outro.

16. Quais são as emoções mais comuns despertados nas vítimas de


bullying?
Dependendo da estrutura psicológica de cada indivíduo, o bullying poderá
mobilizar ansiedade, tensão, medo, raiva reprimida, angústia, tristeza, desgosto,
sensação de impotência e rejeição, mágoa, desejo de vingança e pensamento
suicida, dentre outros. Porém, devemos pensar nos tipos de construções
inconscientes de cadeias de pensamentos que estarão sendo construídas na
memória da vítima e suas implicações para o desenvolvimento da auto-estima, da
socialização e do aprendizado. A experiência bullying é traumática ao psiquismo das
vítimas, pois promove o superdimensionamento do registro em sua memória, por
causa da forte carga emocional de constrangimento vivenciada. Daí por diante, seja
de fonte extrapsíquica ou intrapsíquica, a cada novo estímulo aversivo, gerado pela
presença ou lembrança do agressor, novas construções de cadeias de pensamentos
se constroem, aprisionando a mente da vítima a emoções desagradáveis e
geradoras de desequilíbrios biopsicossociais. (Cury, 1998)

17. Existe a tendência de se acreditar que todos os atos violentos que


acontecem na escola são bullying?
Sem dúvida. Muitos pais e profissionais que lidam com a clientela escolar
podem considerar bullying algo (página 41) que não o é, em decorrência de sua
complexidade. Por isso, é necessário conhecer e reconhecer o fenômeno, a fim de
diferenciá-lo das brincadeiras ou atitudes inconseqüentes próprias da idade, além
das demais formas de violência. Portanto, é imprescindível, ao analisar uma conduta
agressiva, verificar se esta preenche os critérios estabelecidos para a identificação
do fenômeno, para depois prosseguir em seu encaminhamento. Atuando dessa
forma, a margem de erro é mínima, e as estratégias de atuação se tomam mais
efetivas.

18. Sofrer bullying e sofrer discriminação são coisas diferentes?


A discriminação é um mal que assola a nossa sociedade e pode ser contra
um determinado povo, raça ou grupo, além de outros. A discriminação é uma das
ações praticadas contra as vítimas de bullying. Todavia, para que uma situação seja
considerada como um caso de bullying, a vítima tem de ser alvo dos ataques de
maneira repetitiva durante um prolongado período de tempo, não havendo motivos
evidentes que justifiquem os ataques. É necessário haver desequilíbrio de poder,
fato que impede sua defesa, além dos sentimentos desagradáveis que são
mobilizados. Portanto, sem observar os critérios estabelecidos para a identificação
13

do fenômeno, jamais se deve creditar ao bullying uma ação discriminatória pontual.

21. O que é bullying homofóbico? Porque essa prática ocorre?


É a prática das diversas formas de ataque bullying contra os homossexuais. É
o ato de submeter homossexuais a chacotas, humilhações, ameaças, perseguições
e exclusões sociais, dentro ou fora das escolas. Não sabemos precisar quais são os
Índices de bullying homofóbico no ambiente escolar, porém sabemos que muitos
alunos que assumem a sua opção sexual, ou aqueles que parecem assumi-la,
sofrem terrivelmente o rechaço e a resistência frente à diversidade afetivo-sexual.
Essa prática infelicita ainda mais o jovem, que está num momento de descoberta e
de auto-afirmação. Infelizmente, a maioria de nós (página 42) tem internalizado a
homofobia, disfarçada de moralismo, conservadorismo, preconceito ou machismo
exacerbado. Devido à nossa constituição social e religiosa conservadora, o tema
sexualidade ainda é um tabu, motivo pelo qual a homossexualidade é tratada de
forma preconceituosa e superficial. Dessa forma, os homossexuais são
desrespeitados, desvalorizados e ridicularizados nos diversos contextos, inclusive no
escolar, trazendo inúmeros prejuízos ao indivíduo em formação.

22. As escolas estão preparadas para discutir a questão da homofobia?


A maioria das escolas não está preparada para discutir a questão. Educar
para a diversidade é dever de todas as instituições de ensino, porém o despreparo
de muitos professores e funcionários acaba por prejudicar ainda mais a questão.
Alguns reproduzem o preconceito, fazendo piadinhas, imitações, insinuações e
brincadeiras dentro e fora das salas de aula. As conseqüências de um ensino
omisso ou homofóbico são inúmeras e graves, uma vez que a escola interfere
decisivamente na formação do indivíduo. Se os adultos, na família ou na escola,
demonstram preconceito e desferem contra os homossexuais as mais variadas
formas de maus-tratos, certamente os jovens adotarão os mesmos procedimentos.
Nos Estados Unidos, segundo a revista Time, o número de entidades que auxiliam
alunos gaysnas escolas americanas passou de 100 em 1997 para 3 mil em 2005. No
Brasil, o tema começa a ser discutido nas escolas, todavia, carece de reflexões
profundas e de busca de soluções conjuntas e permanentes. Como educadores,
devemos ensinar e aprender o respeito às diferenças individuais de cada ser, bem
como que a homofobia é crime previsto em lei.

23. Os professores podem ser alvos de bullying?


Muitos professores são assediados sexual e moralmente, humilhados,
ameaçados, perseguidos, ridicularizados por seus alunos e até mesmo por seus
colegas. É grande o número de profissionais que sofrem (página 43) em seu
ambiente de trabalho, sem saber o que fazer e às vezes a quem recorrer. Caso
procurem a direção escolar em busca de auxílio, podem ser mal-interpretados e
rotulados de incompetentes. Se chamarem os pais dos autores dos maus-tratos para
uma conversa, a maioria não comparece. Se reclamarem aos próprios alunos, estes
geralmente dizem que são brincadeiras inofensivas e que o professor é sensível
demais. Tudo isso causa grande mal-estar aos profissionais, prejudica sua auto-
estima e o desempenho de suas funções, gerando acentuado estresse, desânimo e
fadiga, que se refletirão nas relações familiares e com seus alunos e colegas de
trabalho, além de aumentarem a propensão à sÍndrome de Burnout. Uma pesquisa
realizada pelo sindicato de professores britânico União Nacional de Professores
(NUT) concluiu que é crescente o envolvimento de professores, sobretudo mulheres,
14

em bullying. Os professores são agredidos com palavras abusivas, piadinhas e


comentários sexistas em sala de aula. O estudo mostrou que um quinto dos
professores do ensino básico e dois terços dos professores do ensino médio, já
foram alvos de bullying. Ainda segundo o estudo, um em cada 20 docentes foi
agredido pelo menos uma vez por semana. No Brasil, fizemos um levantamento de
dados com cerca de 600 professores da rede pública e privada de ensino. Os
resultados mostraram que 50% deles se envolveram em bullying quando escolares.
A maioria ainda sofre as conseqüências do fenômeno ou são alvos de assédio
moraI. (professores-teatchers.blogspot.com/2006_12_03_archive.html)

24. Os professores também praticam bullying contra seus alunos?


Isso ocorre bem mais do que supomos. Não somente os professores, mas
outros profissionais que trabalham na escola. AIguns estudiosos vêm se dedicando
a pesquisar o bullying na relação professor-aluno, dentre eles o norueguês Dan
Olweus. Muitos alunos são perseguidos, intimidados, ridicularizados, coagidos e
acusados. Esses autores comparam, constrangem, criticam, chamam a atenção
publicamente, menosprezam, (página 44) mostram preferência a determinados
alunos em detrimento de outros, humilham. Rebaixam a auto-estima e a capacidade
cognitiva, agridem verbal e moralmente, fazem comentários depreciativos,
preconceituosos e indecorosos. Portanto, a vítima de um professor sofre
terrivelmente na escola, pois esse fato gera inúmeros sentimentos negativos, cujos
resultados geram sensação de impotência, prejudicando o rendimento escolar e
promovendo a desmotivação para os estudos.

25. Quais são as ações bullying que mais comumente se praticam?


Na maioria dos países onde o fenômeno é estudado, os maus-tratos verbais,
por meio de apelidos depreciativos, são os mais incidentes. Talvez seja por esse
motivo que a mídia sempre que aborda o tema enfatiza os apelidos, deixando de
evidenciar a gravidade das demais formas de ataques. Porém, os agressores não
param por aí: quando a vítima mostra-se ofendida ou pede para ser deixada em paz,
acabam utilizando outras formas de maus-tratos, como, por exemplo, intimidações,
perseguições, chantagens, ou até mesmo maus-tratos físicos, para que a vítima não
denuncie seus atos.

26. Existe um perfil entre as vítimas de bullying?


A maioria dos alvos de bullying são aqueles alunos considerados pela turma
como diferentes ou "esquisitos". São tímidos, retraídos, passivos, submissos,
ansiosos, temerosos, com dificuldades de defesa, de expressão e de
relacionamento. Além desses, as diferenças de raça, religião, opção sexual,
desenvolvimento acadêmico, sotaque, maneira de ser e de se vestir parecem perfilar
o retrato das vítimas.

27. A partir de que faixa etária se pode identificar a ocorrência de


bullying?
O comportamento bullying pode ser identificado em qualquer faixa etária e
nível de escolaridade. Entre (página 45) os 3 e os 4 anos de idade podemos
perceber o comportamento abusivo, manipulador, dominador e, por outro lado,
passivo, submisso e indefeso. Porém, a maior incidência está entre os alunos do 6°
ao 9° ano, período em que, progressivamente, os papéis dos protagonistas se
definem com maior clareza. Não raro, encontramos grupos de alunos de séries
15

avançadas submetendo colegas de séries inferiores aos seus ataques ou fazendo


com que entreguem dinheiro, lanche ou pertences. Esses alunos promovem ainda o
psicoterrorismo, disseminando o medo e o terror dentro e fora da escola por meio de
ameaças, intimidações, perseguições ou ainda, dos maus-tratos físicos e verbais.

28. Em que idade se observam os comportamentos agressivos e anti-


sociais?
De acordo com o pesquisador italiano Alessandro Costantini, uma pesquisa
americana concluiu que a agressividade apresenta um aumento linear dos 3 aos 14
anos e o emprego da agressão física aumenta a partir dos 10 anos. Concluiu
também que a violência e as atitudes anti-sociais se incrementam dos 12 anos em
diante e que as condenações penais decorrentes dos comportamentos violentos,
ocorrem em maior grau dos 18 aos 20 anos, podendo se prolongar por diversos
anos em graves comportamentos agressivos (Costantini, 2006).

29. Existem estudos que demonstram a média de idade em que mais


ocorre o bullying?
O bullying se propaga cada vez mais na educação infantil e no ensino
fundamental. A maioria dos casos ocorre nos primeiros anos escolares, porém a sua
intensidade e o agravamento dos episódios aumentam conforme aumenta o grau de
escolaridade. Estudiosos apontam que nos próximos anos haverá aumento do
bullying nas escolas e da violência entre os jovens e na sociedade em geral. Alertam
para o aspecto epidêmico do bullying, por se tratar de comportamento psicossocial
expansivo, uma vez (página 46) que 80% das vítimas tendem a reproduzir os maus-
tratos sofridos. Na adolescência, diminui a freqüência e o registro de bullying,mas
aumentam a gravidade, a intensidade e a qualidade dos ataques. Devido ao grau de
maturidade e ampliação das relações interpessoais e enamoramentos, no ensino
médio os ataques se transformam em atos de vandalismo e delinqüência. São
ataques mais coletivos e genéricos. Em alguns países, pesquisas demonstraram
que a média de idade de maior incidência entre os agressores situa-se na casa dos
13 aos 14 anos, enquanto as vítimas possuem em média 11 anos, fato que
comprova a teoria de que os papéis dos protagonistas se intensificam conforme
aumenta o grau de escolaridade. (Costantini, 2006)

30. O trote universitário pode ser considerado bullying?


Culturalmente, o trote universitário não é considerado bullying, e sim um rito
de passagem esperado pelo calouro e seus familiares. Hoje em dia é encarado
como uma prática inadequada e combatida, por ser geradora de constrangimento e
violência, em muitos casos. Trata-se de uma prática antiga, permitida e ainda
tolerada pela sociedade. Entretanto, o trote pode dar origem ao bullying na medida
em que as ações negativas se tomem persistentes. Temos conhecimento de
inúmeros calouros que são subjugados pelos veteranos ao longo do período
universitário. São constrangidos, apelidados pejorativamente, ridicularizados,
ameaçados, perseguidos, humilhados. Muitos são obrigados a prestar serviços,
pagar festas, fotocópias, fazer trabalhos escolares ou servir de diversão para os
autores, que, na maioria dos casos, reproduzem suas experiências com o trote.
Através de "brincadeiras" e justificativas hierárquicas, demonstram em suas atitudes
o desrespeito, o preconceito, a intolerância e a dificuldade de empatia e
solidariedade humana.
16

31. Existem semelhanças entre bullying, trote e mobbíng?


As semelhanças podem ser observadas nos processos competitivos
encontrados nas relações interpessoais (página 47) que acontecem em escolas,
universidades e no ambiente laboral e no isolamento social e depreciação das
vítimas, que se tornam diversão para os autores e seus cúmplices. Valendo-se da
desigualdade de poder, os agressores adotam comportamentos preconceituosos,
com justificativas hierárquicas. Nos três casos é comum encontrarmos, em meio à
"lei do silêncio" entre as vítimas, sofrimentos profundos, estresse acentuado,
rebaixamento da auto-estima, com possibilidade de transtornos emocionais,
resultando em prejuízos, muitas vezes, irreparáveis. Lembramos que, para o seu
enfrentamento, necessitamos de políticas públicas emergenciais. (Almeida e Queda,
2006) (página 48)

3 PANORAMA GERAL DO BULLYING

32. O que as pesquisas revelam sobre o fenômeno bullying no Brasil e


no mundo?
Dados indicam que os índices mundiais de alunos envolvidos no fenômeno
variam de 6 a 40%. Na Noruega, os estudos realizados por Dan Olweus (1991)
demonstraram que 1 em cada 7 estudantes estava envolvido em casos de bullying,
isto é, 15% do total de alunos matriculados na educação básica seriam vítimas ou
agressores. Pesquisa do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) em 21
países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)
sobre a qualidade de vida das crianças e dos adolescentes demonstra que os
Índices de bullying são alarmantes. A maior incidência está em Portugal, na Suíça e
na Áustria, que apresentam 40% das vítimas do fenômeno.
No Brasil, não existe pesquisa de âmbito nacional que nos forneça
indicadores da nossa realidade. Entre 2000 e 2003, realizamos uma pesquisa
pioneira, com um universo de 2 mil alunos de escolas públicas e privadas da região
de São José do Rio Preto. Os resultados foram surpreendentes: 49% dos
participantes (página 49) estavam envolvidos no fenômeno. Desses, 22% eram
vítimas, 15% agressores e 12% vítimas agressoras (Fante, 2005).
Resultados semelhantes foram encontrados pela Associação Brasileira
Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência (Abrapia), em 2002, no
município do Rio de Janeiro. Em um universo pesquisado de 5.875 alunos, 40,5%
estavam envolvidos em casos de bullying. Desses, 17% eram vítimas, 13%
agressores e 11% vítimas agressoras (Lopes Neto e Saavedra, 2003). Em novembro
de 2006, o Instituto SM para a Educação (ISME), apresentou dados de pesquisas
realizadas em cinco países: Argentina, México, Brasil, Espanha e Chile. O resultado
foi surpreendente, pois o Brasil foi apontado como campeão em bullying. A pesquisa
contou com a participação de 4.025 alunos de escolas públicas e particulares, de 6"
e 8" séries do ensino no fundamental e 2° ano do ensino médio. Os índices
apontaram que 33% foram insultados ou alvo de comentários maldosos, 20%
apanharam e 8% foram assediados sexual, física ou verbalmente na escola (Lemos,
2006). Nos Estados Unidos, as estatísticas mostram dados estarrecedores. Segundo
o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, uma a cada quatro crianças
americanas sofre bullying na escola no período de um mês. Todos os dias 160 mil
alunos americanos faltam às aulas por medo de sofrer bullying. Pesquisa do Center
for Disease Control estima que 81% dos estudantes pesquisados admitiram praticar
17

bullying. Estudos evidenciam que dois terços dos protagonistas das 37 tragédias
ocorridas em escolas americanas queriam se vingar por causa das constantes
perseguições que sofriam por parte dos colegas. Estudos mostram ainda que as
idéias suicidas têm como causas a provocação, o bullying e a rejeição (Middelton-
Moz e Zawadski, 2007).

33. A prática bullying vem crescendo ao longo dos anos? O que justifica
esse crescimento?
Infelizmente, o fenômeno vem crescendo em todo o mundo. Em 2000, os
índices apontavam que 7 a 24% (página 50) dos alunos estavam envolvidos. Hoje,
os índices evidenciam crescente envolvimento, de 5% a 35%. Dados obtidos pelo
Centro Multidisciplinar de Estudos e Orientação sobre o Bullying Escolar
(Cemeobes), em 2007, revelam que a média de envolvimento dos estudantes
brasileiros é de 45% acima dos índices mundiais. O mais preocupante é que
crianças na mais tenra idade escolar já apresentam envolvimento e evidências de
prejuízos sofridos.
Acreditamos que o aumento dos índices está relacionado à tendência da
vítima de reproduzir os maus-tratos sofridos. Por isso, o fenômeno se expande e
envolve um número cada vez maior de alunos. Além desse fator, motivos variados
impulsionam o aumento das práticas de bullying nas escolas ou a integração das
vítimas em grupos que se dedicam ao assédio. Dentre eles podemos citar o estímulo
à competitividade e ao individualismo, principalmente em decorrência da pressão
exercida pela família e a escola quanto à obtenção de resultados, especialmente nos
vestibulares; a banalização da violência e a certeza da impunidade; o desrespeito e
a desvalorização do ser humano, evidenciados em diversos contextos,
principalmente a mídia; a educação familiar permissiva e a ausência de limites e,
sobretudo, a deficiência ou ausência de modelos educativos baseados em valores
humanos, orientandos para a convivência pacífica, solidariedade, cooperação,
tolerância e respeito às diferenças, que despertam os sentimentos de empatia,
afetividade e compaixão.

34. Existe diferença entre o bullying praticado no Brasil e nos EUA?


Não existem diferenças entre o bullying praticado no Brasil e nos EUA, ou em
qualquer outro lugar do mundo. O que varia são os índices encontrados em cada
país. Porém, o que precisamos é saber identificá-lo e diferenciá-lo das brincadeiras
que são próprias do processo de amadurecimento das crianças, caso contrário tudo
o que acontecer na escola poderá ser atribuído ao bullying. (página 51)
No Brasil, por ser ainda pouco difundido entre os profissionais da área de
segurança pública, o tema ainda não é levado em consideração nas investigações
que envolvem violência e criminalidade entre jovens. Entretanto, inúmeros
assassinatos, suicídios e lesões corporais graves já ocorreram dentro e fora das
escolas, fazendo muitas vítimas. Devemos lembrar ainda que o bullying acontece
num duplo movimento: de dentro para fora da escola e vice-versa. Muitas tragédias
que ocorrem nas imediações das escolas, nas ruas ou praças públicas, nas
danceterias, em festas, ou até mesmo em cinemas, tiveram causa dentro da escola.
Segundo pesquisas, nos últimos dois anos, em mais de 37 episódios violentos
ocorridos em escolas americanas, o bullying foi apontado como causa principal em
40% deles. São noticiados casos em que vítimas de bullying, quando adultas, voltam
à escola, munidas de armas, matam alunos ou ex-diretores da escola e cometem
suicídios ou são mortas pela polícia.
18

35. O bullying sempre existiu ou é um fenômeno novo que surgiu nas


escolas?
O bullying sempre existiu desde que a escola existe. Porém, somente há
pouco mais de três décadas é que se tornou assunto estudado, com parâmetros
científicos. Nos diversos países, o despertar para essa realidade se deve ao trabalho
de pesquisadores e estudiosos do assunto. Os estudos resultantes muito têm
contribuído para a conscientização de pais e profissionais das áreas de educação,
saúde e segurança pública, que passaram a se interessar e a estudar o tema,
levando em conta principalmente suas conseqüências danosas para os envolvidos.
Infelizmente, muitas escolas não admitem a existência do fenômeno. Algumas
insistem em afirmar que tais práticas não ocorrem em suas dependências. Talvez
temendo tornar-se discriminadas ou perder alunos. Há casos de escolas que
afirmam a ausência de bullying como estratégia de marketing. (página 52)
Entretanto, a omissão em nada contribui para a redução desse tipo de
comportamento; ao contrário, dificulta as possibilidades de ações preventivas e
colabora na sua proliferação. Por outro lado, inúmeras são as escolas em nosso
país que são conscientes do fenômeno e estão desenvolvendo estratégias de
enfrentamento que se mostram eficazes.

36. O bullying acontece com maior freqüência nas escolas públicas ou


privadas?
O bullying acontece em todas as escolas, independentemente da sua
localização, turno ou poder aquisitivo da comunidade escolar. Está presente em
100% das escolas, em todo o mundo, sejam públicas ou privadas. O que varia são
os índices encontrados em cada realidade escolar, de acordo com a sua própria
peculiaridade. Nesse sentido, citaremos os dados de estudos que realizamos no
interior paulista. Nosso primeiro estudo sobre o bullying foi realizado em 2000, em
uma cidade de aproximadamente 100 mil habitantes. Com um grupo de 430 alunos
de uma escola da rede privada de ensino, o resultado mostrou que 41% estavam
envolvidos em bullying. Desses, 18% eram vítimas, 14%, agressores e 9% eram
vítimas agressoras. Também realizamos um outro estudo, em 2003, em uma escola
da rede pública, em uma cidadezinha de 10 mil habitantes. Os resultados
apontaram que, dos 450 alunos, 45% estavam envolvidos em bullying. Desses,
24% eram vítimas, 8% eram agressores, 13%, vítimas agressoras. Portanto, os
Índices encontrados demonstram que a incidência de bullying em ambas as
realidades era praticamente igual.

37. Quais são os locais onde comumente ocorrem os ataques bullying?


São vários os locais onde ocorrem os ataques: pátios de recreio,
playgrounds, banheiros, corredores, (página 53) salas de aula, bibliotecas, quadras
esportivas, salas de informática, laboratórios e imediações das escolas. Também
ocorrem em outros locais fora da escola, mas de convivência comum aos alunos,
como condomínios, cibers, shoppings e outros locais onde se reúnem. Na maioria
dos países, constatou-se que o pátio de recreio é o lugar de maior incidência dos
ataques bullying. Entretanto, no Brasil, as pesquisas apontam para a sala de aula.
Isso se justifica pelo fato de ser tema novo de discussão no meio educacional
brasileiro, motivo pelo qual a maioria dos professores desconhece a relevância do
fenômeno e não sabe como agir ao se deparar com a questão. Muitos agem de
acordo com as suas próprias experiências e acreditam ser o bullying necessário
para o amadurecimento do indivíduo. Outros não dão importância por acreditarem
19

que são "brincadeiras próprias da idade", sem maiores conseqüências. Há ainda


aqueles que pensam que os próprios alunos devem resolver seus problemas, sem
intromissão dos adultos. Porém, todo professor, treinado ou não para lidar com o
bullying, é capaz de observar as relações interpessoais e perceber os sinais que são
emitidos por aqueles que se sentem incomodados ou vitimizados.

38. Como o professor pode ter acesso aos estudos sobre o fenômeno
para saber identificá-lo?
Em nosso país, a bibliografia sobre o tema é escassa. São poucos os livros
disponíveis no mercado nacional, mas existem nos meios de comunicação,
principalmente na internet, uma série de artigos e reportagens sobre o tema.
Quando os professores são treinados para a identificação, o diagnóstico e o
encaminhamento do problema, tornando-se aptos a desenvolver estratégias
psicopedagógicas de prevenção, fundamentados nos princípios de educação para a
paz, são capazes de intervir de forma adequada em tais circunstâncias. Temos
constatado em cursos de capacitação e pós-graduação que um percentual
expressivo de professores percebeu o bullying ou esteve envolvido por ele quando
era estudante. Vários foram os que disseram que (página 54) ainda sentem os
efeitos do bullying exercido por parte dos próprios colegas professores. Por outro
aspecto, muitos são os relatos de professores e escolas que têm se empenhado
nessa causa e têm conseguido resultados expressivos. Nosso livro Fenômeno
bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz tem motivado
muitos experimentos e iniciativas pela paz, em nossas escolas.

39. A mídia tem divulgado o tema bullying?


A mídia tem divulgado o tema, principalmente após as tragédias ocorridas em
inúmeras escolas de diversos países. Essas tragédias são resultantes do sofrimento
das vítimas, que, no limite da exaustão emocional, planejam dar cabo à própria vida,
procurando antes matar o maior número possível de colegas da escola. Entretanto, a
grande maioria das matérias apresentadas está voltada aos apelidos pejorativos,
deixando de evidenciar as demais formas de maus-tratos, que tantos prejuízos
trazem aos envolvidos no fenômeno.
Nos EUA, em 1997, na cidade de West Paducah, Kentucky, um adolescente
de 14 anos atirou contra colegas, matando quatro deles e uma professora, além de
cinco feridos. Em 1998, em Jonesboro, Arkansas, dois estudantes, de 11 e 13 anos,
mataram quatro meninas e uma professora. Ainda em 1998, em Springfield, Oregon,
dois adolescentes de 17 e 18 anos mataram dois colegas e feriram outros 20. Em
1999, em Littleton, Colorado, dois estudantes protagonizaram a tragédia de
Columbine. Mataram 12 colegas, um professor e deixaram dezenas de feridos,
depois se suicidaram. Em abril de 2007, em Blacksburg, Virginia, o estudante Cho
Seung-Hui, da Universidade de Virgínia Tech, EUA, foi protagonista do maior
massacre em escola do mundo. O jovem atirou contra colegas e professores,
deixando 32 mortos e 29 feridos, e depois cometeu suicídio. Colegas de classe do
sul-coreano em anos anteriores disseram que ele era muito tímido e, por isso,
ridicularizado e intimidado. Na universidade, era alvo de muitas gozações, por causa
dos textos que escrevia. O jovem não resistiu às constantes humilhações e resolveu
(página 55) se vingar dos colegas, uma vez que se sentia perseguido. Sua intenção
era a de se transformar num mártir, servir de exemplo para os futuros garotos frágeis
e indefesos iguais a ele. Em novembro de 2007, na cidade de Tuusula, Finlândia,
um jovem isolado pelos colegas de escola, após veicular na internet um vídeo
20

intitulado "Massacre na Escola Jokela”, deixou oito mortos e vários feridos. A escola
Jokela Hight tinha 400 alunos entre 12 e 18 anos. Outras tragédias também
ocorreram no Canadá, no Japão, na Escócia, na Alemanha e na Argentina.

40. No Brasil já ocorreu alguma tragédia em escolas tendo o bullying


como causa principal?
Em janeiro de 2003, na cidade de Taiúva, no interior paulista, um tímido
jovem de 18 anos, depois de concluir o ensino médio, atirou contra 50 pessoas
durante o horário de recreio da escola onde estudara. Atingiu oito pessoas e depois
se matou com um tiro na cabeça. As vítimas sobreviveram, porém uma delas ficou
paraplégica. Esse adolescente era obeso desde a infância e foi motivo de piada para
os colegas de escola. Mesmo após emagrecer mais de 30 quilos continuaram
zoando ele. Era ofendido, apelidado pejorativamente, humilhado. Em fevereiro de
2004, na cidade de Remanso, interior baiano, outro adolescente de 17 anos,
também protagonizou uma tragédia. Após ser constantemente ridicularizado e
humilhado na escola, resolveu se vingar. Foi até a casa do seu agressor principal,
um garoto de 13 anos, e desferiu um tiro em sua cabeça. Após atirar contra o
colega, seguiu para uma escola de informática para tentar matar uma professora de
quem não gostava. Uma funcionária tentou impedir sua entrada, mas ele disparou
fatalmente contra a cabeça dela e fez mais alguns disparos, ferindo duas pessoas.
Sua intenção era a de cometer o suicídio, porém conseguiram desarmá-lo. Em seu
bolso foi encontrado um bilhete dizendo que queria matar mais de 100 pessoas e ser
conhecido na história de Remanso como o "terrorista suicida brasileiro”. (página 56)

41. A cobertura da imprensa contribui para o combate ao fenômeno?


A imprensa contribui em muito na luta contra qualquer forma de violência, seja
dentro ou fora da escola. No caso específico da violência bullying, é notório o
crescente interesse da imprensa, na medida em que aborda o tema e abre espaços
para que estudiosos possam conscientizar, discutir e alertar a sociedade para esse
fenômeno psicossocial expansivo, de caráter epidemiológico, que, somado a outras
formas de violência, precisa ser contido. A imprensa é uma grande aliada para o
despertar das autoridades, especialmente no sentido de se criar políticas públicas
emergenciais que visem conter a propagação do fenômeno e encontrar soluções
que reduzam sua incidência e minimizem seus efeitos. (página 57)

4 CARACTERIZAÇÃO DOS PROTAGONISTAS

42. Como identificar as vítimas de bullying?


As vítimas típicas são aqueles que apresentam pouca habilidade de
socialização, são retraídos ou tímidos e não dispõem de recursos, status ou
habilidades para reagir ou fazer cessar as condutas agressivas contra si.
Geralmente apresentam aspecto físico mais frágil ou algum traço ou característica
que as diferencia dos demais. Demonstram insegurança, coordenação motora pouco
desenvolvida, extrema sensibilidade, passividade, submissão, baixa auto-estima,
dificuldade de auto-afirmação e de auto-expressão, ansiedade, irritação e aspectos
depressivos. No entanto, é preciso salientar que o fato de algum aluno apresentar
essas características não significa que seja ou venha a ser vítima de bullying.

43. Qual o perfil das vítimas provocadoras?


São aqueles alunos que agem impulsivamente, provocando os colegas e
21

atraindo contra si reações agressivas, contra as quais não conseguem lidar com
eficiência. Por isso acabam vitimizados. Geralmente, são imaturos, apresentam
comportamento dispersivo e dificuldade de (página 59) concentração. Alguns
podem ser hiperativos, possuem "gênio ruim", agem de maneira provocadora aos
colegas e respondem de maneira ineficaz quando, em contrapartida, são atacados
ou insultados. Apresentam comportamento irritadiço, provocador, irrequieto,
buliçoso, dispersivo, ofensor, intolerante, de costumes irritantes e quase sempre são
responsáveis par causar tensões no ambiente em que se encontram (Olweus, 1998).

44. Quem são as vítimas agressoras?


São aqueles alunos que são ou foram vitimizados e que acabam reproduzindo
os maus-tratos sofridos. Integram-se a grupos para hostilizar seu agressor ou
elegem uma outra vítima como "bode expiatório". Adotam as atitudes de intimidação
das quais foram vítimas ou apóiam explicitamente os que assim procedem. Em
casos extremos, são aqueles que se munem de armas e explosivos e vão até à
escola em busca de justiça. Matam e ferem o maior número possível de pessoas e
dão fim à própria existência.

45. Como identificar os agressores?


São aqueles que se valem de sua força física ou habilidade psicoemocional
para aterrorizar os mais fracos e indefesos. São prepotentes, arrogantes e estão
sempre metidos em confusões e desentendimentos. Utilizam várias formas de maus-
tratos para tornar-se populares, dentre elas as "zoações", os apelidos pejorativos,
expressões de menosprezo e outras formas de ataques, inclusive os físicos. Podem
ser alunos com grande capacidade de liderança e persuasão, que usam de suas
habilidades para submeter outro(s) ao seu domínio. Middelton-Moz e Zawadski
(2002) dizem que muitos bullies vieram aperfeiçoando a intimidação desde que eram
crianças. A ausência de intervenção, os sentimentos e as crenças dos que praticam
bullying desde a infância se fortalecem e se enraízam. As práticas bullying durante
as brincadeiras com outros amigos são apenas o início de um padrão de atitude que
durante a vida culmina em violência doméstica e/ou assédio moral no trabalho. Para
continuar com seu comportamento, os bullies necessitam da (página 60) confusão,
do medo e da sensação de impotência dos que pretendem transformar em suas
vítimas, bem como do silêncio dos que estão ao seu redor.

46. Podemos entender que todos os alunos que possuem as


características dos protagonistas estarão envolvidos em bullying?
O fato de determinados alunos apresentarem tais características não significa
que estarão envolvidos no fenômeno. Aliás, muito nos alegra quando conhecemos
jovens dotados de grande habilidade de liderança e persuasão que se engajam em
ações solidárias aos colegas que se mostram em necessidade e que se tornam bons
exemplos para os demais. Conhecemos vários exemplos de alunos mais aplicados
aos estudos que ajudam os que apresentam dificuldades; alunos mais fortes e
respeitados que protegem outros mais fracos; outros que são líderes e exercem
influência positiva sobre o grupo e não permitem que se caçoe ou ridicularize de
alguém; outros tantos que, com talento, com arte e dedicação, têm feito grande
diferença para os seus colegas pelos exemplos dados.

47. Quem são os espectadores?


Os espectadores representam a maioria dos alunos de uma escola. Eles não
22

sofrem e nem praticam bullying, mas sofrem as suas conseqüências, por


presenciarem constantemente as situações de constrangimento vivenciadas pelas
vítimas. Muitos espectadores repudiam as ações dos agressores, mas nada fazem
para intervir. Outros as apóiam e incentivam dando risadas, consentindo com as
agressões. Outros fingem se divertir com o sofrimento das vítimas, como estratégia
de defesa. Esse comportamento é adotado como forma de proteção, pois temem
tornar-se as próximas vítimas. (página 61)

5 AS FORMAS DE ATAQUES UTILIZADAS NO FENÔMENO

48. Quais são formas de maus-tratos empregadas nos atos de bullying?


As formas de maus-tratos são: físico (bater, chutar, beliscar); verbal (apelidar,
xingar, zoar); moral (difamar, caluniar, discriminar); sexual (abusar, assediar,
insinuar); psicológico (intimidar, ameaçar, perseguir); material (furtar, roubar,
destroçar pertences); e virtual (zoar, discriminar, difamar, através da internet e do
celular). Constatamos em nossas pesquisas que raramente a vitima recebe apenas
um tipo de ataque. Normalmente os ataques são conjugados, utilizando-se para isso
várias formas de maus-tratos, inclusive a exclusão social.

49. Com o acesso à internet, assiste-se atualmente a uma ampliação dos


métodos de exclusão de jovens de um grupo. Apesar de a motivação parecer
continuar a mesma, esse novo ambiente de reverberação deu novo vulto a
uma prática tão antiga?
Sem dúvida, os ataques pela internet facilitam tanto a ampliação dos métodos
empregados pelos autores quanto a disseminação do fenômeno bullying. Os maus-
tratos virtuais são modalidades novas, bem mais requintadas do que as utilizadas no
passado. As ferramentas disponíveis (página 63) na internet, especialmente o
Orkut, as minicâmeras fotográficas, os celulares com câmeras fotográficas e
filmadoras, possibilitam aos praticantes o anonimato, uma vez que sua identidade e
imagem não são expostas.

50. Em todo o mundo, o bullying é mais praticado entre meninos ou


meninas?
Nos países em que o bullying é pesquisado, os índices encontrados entre
alvos e autores, revelam que a incidência entre os meninos é maior. No passado,
acreditava-se que esse tipo de comportamento era próprio de meninos, porém, com
os avanços das pesquisas, constatou-se ser comum também entre as meninas.
Enquanto a maioria dos meninos utiliza, comumente, os maus-tratos físicos e
verbais, as meninas se valem mais de maledicência, fofoca, difamação, exclusão e
manipulação para provocar sofrimento psicológico nas vítimas. Os ataques das
meninas, ao contrário dos ataques dos meninos, acontecem dentro de um círculo
restrito de amizades, o que torna a agressão mais difícil de identificar, reforçando o
dano causado às suas vítimas. Outro fato constatado é que as meninas parecem
agir com maior requinte de sutileza e crueldade. Utilizam olhares dissimulados e
maliciosos e bilhetes, manipulam silenciosamente, encurralam-se nos corredores,
dão as costas para as vítimas, usam o silêncio, conspiram, criticam, cochicham e
sorriem, combinam encontros com a vítima, em passeios ou em festas, e não
comparecem. Geralmente, a vítima é consumida pelo desespero de perder para
sempre a amizade e se submete aos desejos da líder do grupo. O medo do
isolamento ou do abandono faz com que algumas meninas permaneçam em maus
23

relacionamentos. Tais atos são epidêmicos em ambiente de classe média, em que


as regras de feminilidade são mais rígidas. No ensino infantil, as meninas impedem
que a vítima partilhe do momento do lanche, combinam de evitá-la, ficam de mal,
isolam, não convidam para as festinhas, caçoam daquelas de menor poder
aquisitivo, que se vestem com mais simplicidade ou que não dispõem dos mesmos
materiais escolares. (Simmons, 2004). (página 64)

6. O CIBERBULLYING

51. O que é ciberbullying? Em que se difere do bullying?


É a forma virtual de praticar bullying. É uma modalidade que vem preocupando
especialistas, pais e educadores em todo o mundo, por seu efeito multiplicador do
sofrimento das vítimas. Na sua prática utilizam-se as modernas ferramentas da
internet e de outras tecnologias de informação e comunicação, móveis ou fixas, com
o intuito de maltratar, humilhar e constranger. É uma forma de ataque perversa, que
extrapola em muito os muros da escola, ganhando dimensões incalculáveis. A
diferença está nos métodos e nas ferramentas utilizadas pelos praticantes. O
bullying ocorre no mundo real, enquanto o ciberbullying ocorre no mundo virtual.
Geralmente, nas demais formas de maus-tratos, a vítima conhece seu agressor,
sejam os ataques diretos ou indiretos. No ciberbullying, os agressores se motivam
pelo "anonimato", valendo-se de nomes falsos, apelidos ou fazendo-se passar por
outras pessoas. (página 65)

52. A que se atribui o surgimento do ciberbullying?


Ao desenvolvimento e aprimoramento dos recursos tecnológicos de
comunicação e informação, especialmente da internet e dos telefones móveis,
aliados ao despreparo ético dos usuários em relação ao uso responsável desses
recursos, ancorado no anonimato e na certeza da impunidade, o que converteu o
fenômeno num problema social. Precisamos lembrar que prática semelhante
acontece desde há muito tempo, em brincadeiras de "amigo oculto", ou de "correio
elegante". Nas trocas de mensagens algumas pessoas eram alvejadas com textos
pejorativos e os autores se escondiam no anonimato, obviamente sem os recursos
tecnológicos atuais. A intenção de ferir, de magoar e de ridicularizar é a mesma.

53. Como o ciberbullying acontece e como agem seus praticantes?


Acontece através de e-mails, torpedos, blogs, fotoblogs, Orkut, MSN. De
forma anônima, o autor insulta, espalha rumores e boatos cruéis sobre os colegas e
seus familiares e até mesmo sobre os profissionais da escola. Mensagens
instantâneas são disparadas, via internet ou celular, onde o autor se faz passar por
outro, adotando nicknames (apelidos) semelhantes, para dizer coisas desagradáveis
ou para disseminar intrigas e fofocas. Blogs são criados para azucrinar e o Orkut é
utilizado para excluir e expor os colegas de forma vexatória. Fotografias são tiradas,
com ou sem o consentimento das vítimas, sendo alteradas, através de montagens
constrangedoras, incluindo ofensas, piadinhas, comentários sexistas ou racistas.
Muitas vezes, essas imagens são divulgadas em sites, colocadas em newsgroups e
até nas redes de serviços, ou divulgadas através de materiais impressos espalhados
nos corredores e banheiros ou circulam entre os alunos sem o conhecimento das
vítimas. Quando estas descobrem, seu nome e sua imagem já estão em rede
mundial, sendo muito difícil sair ilesas da situação. Há casos em que a vítima tem o
seu e-mail invadido pelo agressor, que, fazendo-se passar por ela, envia mensagens
24

com conteúdo difamatório, com gravíssimas conseqüências (página 66) para a


vítima e seus familiares. A participação em fóruns e livros de visitas também é uma
estratégia utilizada pelos praticantes de ciberbullying, que deixam mensagens
negativas sobre o assunto em questão ou opinam de maneira inconveniente.
Votações são realizadas através de sites para escolher ou eleger colegas com
características estereotipadas.

54. Quando e onde foram registrados primeiros casos de ciberbullying?


Não dispomos de pesquisas e informações sobre o seu início, mas sabemos
que com o surgimento da internet essa prática vem crescendo em todo o mundo,
convertendo-se em um fenômeno psicossocial preocupante para usuários da
internet e de telefone celular. Em nosso país já existem muitos casos tramitéando na
Justiça, com pedidos de indenizações por danos morais e materiais. Deve-se
lembrar que é possível rastrear o autor do ciberbullying, com a ajuda de peritos
especialistas em informática.

55. Com que freqüência o ciberbullying ocorre? Existe pesquisa que


revele sua prevalência?
Não podemos precisar a freqüência de sua ocorrência, pois a todo instante,
no mundo inteiro, alguém é vítima desse tipo cruel de comportamento.
Constantemente tem chegado ao nosso conhecimento o drama de vários alunos que
têm sido vítimas dessa forma de ataque. Estudos revelam que, na Inglaterra, 25%
das meninas são vítimas de ciberbullying através de celulares. Nos Estados Unidos,
um dado surpreendente foi divulgado pela imprensa: 20% dos alunos do ensino
fundamental são alvos dessa forma de violência. Um estudo divulgado pela rede
social MSN sobre o fenômeno, em 2006, indica que 13% dos adolescentes
entrevistados consideram esta prática pior que o bullying físico. A mesma pesquisa
mostra que, no Reino Unido, um em cada dez adolescentes é ou já foi vítima de
ciberbullying (sol.sapo.pt/PaginaInicial/Tecnologia/Interior.aspx?content_id=34514).
No Brasil, não dispomos de pesquisa de âmbito (página 67) nacional que revele os
Índices de incidência de ciberbullying. Fizemos um levantamento de dados, no final
do ano letivo de 2006, em um grupo de 530 alunos de 1º ano do ensino médio de
uma escola da rede privada de ensino do Distrito Federal. Os dados revelaram que
20% foram vítimas de ataques on-line.Desses, 63% eram meninas. De acordo com o
relatório da Safernet Brasil, entidade não-governamental que se dedica a promover
e defender os direitos humanos na sociedade da informação, a média de denúncias
mensais saltou de 286 em 2005, para 3,1 mil entre 2006 e o começo de 2007
(www.safernet.org.br).

56. Quem é alvo de ciberbullying? Qual o perfil da vítima?


Qualquer pessoa pode receber conteúdos indesejados, ter seu e-mail invadido
ou se deparar com montagens de suas fotos no mundo virtual. Não existe um perfil
específico, simplesmente a vítima é escolhida dentre seus iguais, sem motivos que
justifiquem a perversidade dos ataques. Essa prática pode ser perigosa para as
vítimas. Além dos danos morais e emocionais sofridos, existe ainda o risco de que
suas imagens, uma vez divulgadas em rede mundial, atraiam pessoas
inescrupulosas e mal-intencionadas do mundo real, que queiram se utilizar delas
para fins escusos, como a pedofilia e a pornografia.
25

57. Quem são os maiores praticantes de ciberbullying? É possível traçar


um perfil dessas pessoas?
Os maiores praticantes, sem dúvida, são os adolescentes. Não é possível
traçar um perfil, por se tratar de ataques virtuais, nos quais a imagem e a identidade
do agressor não são expostas, e as vítimas, quando os descobrem, raramente os
denunciam. Porém, à medida que o conhecimento do tema tem se popularizado e a
comunidade escolar tem se conscientizado, medidas legais vêm sendo tomadas por
parte das vítimas e seus familiares, bem como das escolas. Temos conhecimento
(página 68) de casos em que o autor foi rastreado, identificado pela polícia e
encontra-se respondendo a processos por danos morais e materiais.

58. O que leva alguém a praticar ciberbullying? O praticante tem noção


da extensão de seu ato ao difundi-lo pela Internet?
São inúmeras as causas que colaboram para as práticas do bullying virtual.
Dentre elas, podemos citar a ausência de orientação ética e legal na utilização de
recursos tecnológicos, a ausência de limites, a insensibilidade, a insensatez, os
comportamentos inconseqüentes, a dificuldade de empatia, a certeza da impunidade
e do anonimato. Além desses fatores, a falta de denúncia dos casos estimula a ação
dos praticantes e impede a ação das autoridades e a aplicação das leis, bem como
da elaboração de políticas públicas emergenciais que priorizem a contenção desse
grave problema endêmico. Um outro fator importante de análise é o aspecto
expansivo desse fenômeno, uma vez que muitas vítimas de bullying, no mundo real
ou virtual, se convertem em praticantes, uma forma de revidar os maus-tratos
sofridos, "permanecendo no anonimato".
Devido à dificuldade de se colocar no lugar do outro, o que gera a
insensibilidade entre os jovens, muitos praticantes acreditam que seus atos não são
prejudiciais, são apenas "brincadeirinhas" sem maiores conseqüências. Por outro
lado, acreditam que, se descobertos, nada lhes ocorrerá, uma vez que são menores
de idade e o Estatuto da Criança e do Adolescente os protegerá. Neste caso,
ignoram os deveres, as responsabilidades e as penalidades previstas no Estatuto e
que poderão ser apenas na forma da lei. Outros não têm a devida noção de que ao
repassar a mensagem dolosa se tomam co-autores da agressão e também são
passíveis de punição. Há ainda os que são conscientes e têm a devida dimensão
dos seus atos e agem assim com intenção dolosa. Relevantes dados que vêm
corroborar nossa percepção sobre a insensibilidade gerada entre os jovens foram
obtidos pela pesquisa desenvolvida pelo Instituto SM para a Educação entre alunos
da 1ª série do ensino médio. Os dados indicaram que 20% acreditam que os
culpados pela (página 69) perseguição on-line são as próprias vítimas e 12%
afirmam que devem ser humilhados aqueles que dão importância às brincadeiras
pela internet (Lemos, 2006).

59. Como interromper os ataques virtuais, já que os meios eletrônicos


são difíceis de ser fiscalizados? Há alguma maneira de barrar esse tipo de
comportamento?
A denúncia é o principal instrumento para a interrupção desses atos.
Entretanto, a prevenção é o principal caminho, devendo ser iniciada nas escolas, em
parceria com as famílias. Os alunos devem ser conscientizados sobre o tema e
conduzidos à reflexão sobre os limites éticos na internet, além das punições judiciais
cabíveis na forma da lei. Algumas escolas estão incentivando a elaboração de
regras para o uso ético dos recursos tecnológicos. Em uma escola, em São Paulo,
26

foi criada uma disciplina para abordar o tema, denominada "netiqueta". Em outra
escola, o próprio Orkut é o antídoto anticiberbullying. Os alunos criaram uma
comunidade para discutir o assunto e dar depoimentos de casos vividos
(www1. folha.uol.com.br/folha/dimenstein/cbn/capital_300306.htm). Em algumas
escolas do Distrito Federal, promovemos discussões e orientamos os alunos, em
parceria com o Conselho Tutelar. Os sites de relacionamento Orkut, MySpace e
Facebook tornaram-se tão populares entre crianças e adolescentes que estão
transformando muitos pais em "espiões virtuais". De acordo com um estudo da
London School of Economics, 41% dos pais admitem verificar sigilosamente os sites
navegados pelos filhos e 25% deles conferem os e-mails que os filhos recebem.
(tecnologia.terra.com.br/interna/0,,OI1631496-EI4802,00.htm1).
O uso do computador tem gerado muita irritação e discussões em famílias. A
maioria dos pais não consegue delimitar o tempo de permanência no computador e
nem estabelecer regras para o seu uso, o que gera o isolamento e o distanciamento
entre os membros da família. O ideal é que os pais orientem seus filhos e
estabeleçam regras para o uso do computador. Devem estar atentos para (página
70) que o uso do computador não se tome obsessivo. A observação do
comportamento dos filhos é muito importante. Como a criança reage quando está no
computador e quando sai dele? Está usando a rede para substituir as amizades?

60. Que conseqüências o ciberbullying traz para suas vitimas?


Em entrevistas com as vítimas, pudemos perceber o quanto estas sentem-se
mal, traiçoeiramente agredidas, constrangidas, humilhadas. Normalmente sua auto-
estima é rebaixada e têm dúvidas quanto a si mesmas, comprometendo a formação
de sua identidade uma vez que o grupo exerce grande influência no processo de
identificação e de auto-afirmação. Por outro lado, a socialização fica comprometida,
pois os colegas passam a ser vistos como suspeitos. Muitas vítimas se isolam ou
faltam às aulas com freqüência na tentativa de cessar os ataques, o que
compromete sua vida acadêmica. Outras não resistem às gozações e mudam de
escola, carregando consigo a dor emocional e a frustração de ter sua reputação
maculada. Em suma, as conseqüências são as mesmas das demais formas de
vitimização bullying, porém o sentimento de impotência é ainda maior, por
desconhecerem seus algozes. A conseqüência mais grave do ciberbullying foi
registrada nos Estados Unidos, em 2003. O adolescente Ryan Patrick Halligan, de
13 anos, foi alvo durante meses de boatos on-line sobre a sua orientação sexual.
Após receber constantemente mensagens de colegas acusando-o de ser gay, o
jovem suicidou-se.

61. Qual o papel da escola frente- ao ciberbullying?


O papel da escola é o de orientar seus alunos para o uso responsável e ético
dos recursos tecnológicos e sobre os perigos que podem representar. Igualmente
importante é conscientizar os pais dos alunos por meio de textos, cartilhas,
palestras, para que possam orientar seus filhos, bem como observar suas ações e
reações (página 71) enquanto usuários das modernas ferramentas tecnológicas. É
importante que a escola alerte os alunos para não fornecer informações para
estranhos, como senhas e fotografias pessoais e familiares, número de conta
bancária, cartões de crédito e de telefones, endereço residencial, escolar e do local
onde os pais trabalham, mesmo achando que se trata de amigos virtuais. Por outro
lado, precisa conscientizá-los sobre os tipos de crimes que são praticados on-line e
para o fato de que o "anonimato" e a menoridade não lhes isentarão das punições
27

previstas em lei. Mesmo que a maioria dos casos de ciberbullying não ocorra dentro
da escola, os professores precisam estar atentos para as relações interpessoais,
pois tudo se inicia com uma piadinha na sala de aula, vai para a comunidade no
Orkut e vira assunto no MSN.

62. O que o praticante de ciberbullying precisa saber?


Precisa saber que os recursos tecnológicos devem ser usados de forma
responsável e que, infringindo os códigos de ética e desrespeitando um bem
privado, seu comportamento é passível de punição. Ninguém difama um (a) colega
de escola, cria uma comunidade no Orkut para ridicularizar os aspectos negativos do
outro ou pega a senha do colega para enviar mensagens intimidadoras sem que
tenha a intenção de causar-lhe algum tipo de dano. As ações praticadas no mundo
virtual em nada diferem das que são praticadas no mundo real. A escola deve
orientar seus alunos a utilizar essas novas ferramentas que contribuem no processo
de aprendizagem e na ampliação da rede de relacionamentos, dentre outros
benefícios.

63. O que a vítima deve saber? Existem leis contra o ciberbullying?


Segundo especialistas da Safernet Brasil, a lei confere somente e
exclusivamente à vítima a legitimidade para a propositura de ação penal privada.
Dentre os crimes dessa natureza, estão os crimes contra a honra: injúria (art. 140 do
Código Penal); calúnia (art. 138 Código Penal) e difamação (art. 139 do Código
Penal). Portanto, a vítima de ciberbullying deve reunir todas as provas possíveis.
Para isso, deve salvar e imprimir o conteúdo das páginas ou o conteúdo do diálogo
dos agressores numa sala de bate-papo. Para ter validade em juízo é necessário ter
fé pública. Portanto, é preciso registrar as provas que estejam on-line em cartório e
fazer uma declaração de fé pública, para provar que o crime existiu. Pode-se
também lavrar uma ata notarial do conteúdo. Esse procedimento deve ser prioritário,
uma vez que o autor poderá retirar do ar as informações ou removê-las para outro
endereço. Após isso, juntamente com o responsável, a vítima deve procurar a
Delegacia Especializada em Crimes Cibernéticos. Caso não disponha dessa
Delegacia em sua cidade, deve procurar qualquer delegacia de polícia para fazer
uma queixa crime ou procurar diretamente a Promotoria da Infância e Juventude.
Outro procedimento importante é notificar o prestador do serviço da internet para
remover o conteúdo ilegal ou ofensivo. Em casos onde o grau de sofrimento das
vítimas se acentua, sugerimos o acompanhamento psicológico, a fim de minimizar
todo e qualquer resíduo traumático devido à experiência vivida. Na Grã-Bretanha, já
houve manifestações por parte do governo no sentido de exigir que as empresas
fornecedoras de internet assumam a "responsabilidade e a obrigação moral de agir".
Em Vermont, nos EUA, onde ocorreu o caso de suicídio do garoto Ryan, as escolas
estão obrigadas a afixar políticas contra o fenômeno. Outros estados americanos,
como Oregon, Rhode Island e Washington também estão agindo da mesma forma.
(sol.sapo.pt/PaginaInicial/Tecnologia/Interior.aspx?content_id=34513). No Brasil, um
projeto de lei polêmico prevê que o provedor de internet tenha de "informar, de
maneira sigilosa, à autoridade policial competente denúncia da qual tenha tomado
conhecimento e que contenha indícios de conduta delituosa na rede de
computadores sob sua responsabilidade". No que diz respeito às escolas,
desconhecemos qualquer lei que as obrigue a estabelecer políticas contra o
fenômeno. (página 73)
28

7 MOBBING OU ASSÉDIO MORAL?

64. O mobbing ou assédio moral é um fenômeno novo?


O assédio no trabalho é um fenômeno antigo. Existem inúmeros relatos de
trabalhadores que sofreram humilhações e maus-tratos desde que surgiram as
primeiras relações de trabalho no mundo. A novidade reside na intensificação,
gravidade, amplitude e banalização do fenômeno. Muito mais do que isso, o novo
está na abordagem que tenta estabelecer o assédio como conseqüência da
organização do trabalho e a não tratá-lo como inerente ao trabalho. Em nosso país,
a própria história relata o sofrimento a que eram submetidos os trabalhadores, desde
a época da escravidão até o período da industrialização, pela ausência de direitos
dos trabalhadores. Infelizmente, nos dias atuais, as organizações continuam a
repetir os maus-tratos a seus empregados ou são complacentes e coniventes com a
prática de comportamentos humilhantes, realizados por seus dirigentes.
Na década de 1980, o pesquisador de origem alemã Heinz Leymann publicou
na Suécia seus estudos sobre a hostilidade no universo do trabalho, com uma
(página 75) visão organizacional e a introdução do termo mobbing. Atualmente, em
decorrência da relevância e dos avanços nas relações trabalhistas, o assédio moral
tornou-se tema de estudos em várias áreas do conhecimento humano e em
inúmeros países. Dessa forma, sindicatos, médicos do trabalho, organizações e
planos de saúde procuram entender o fenômeno e suas conseqüências prejudiciais,
que interferem na saúde, no ambiente de trabalho e na produtividade.
No Brasil, a discussão sobre o tema conquistou espaço a partir dos estudos
realizados pela médica do trabalho Margarida Barreto para sua dissertação de
mestrado, publicada em 2000 sob o título Uma jornada de humilhações. Embora a
discussão sobre a temática tenha conquistado relevância, a grande maioria dos
integrantes da relação laboral ainda desconhece seu significado e suas
conseqüências. "Na verdade, em que pesem as diversas leis e projetos de lei
tendentes a combater o assédio moral (em especial no âmbito da administração
pública), o fenômeno ainda carece da adequada visibilidade jurídica e social" (Silva,
2004).

65. Como é definido o assédio moral?


Segundo a psicanalista e vitimóloga francesa Marie-France Hirigoyen, o
assédio moral é visto como um conjunto de atitudes perniciosas e quase invisíveis,
exercidas no dia-a-dia do trabalho, com o fim de diminuir o outro de forma suave e
perversa, como um assassinato psíquico (Hirigoyen, 2001). Ela mostra, passo a
passo, como essa violência intencional e insidiosa se processa, em palavras, gestos,
ações ou omissões, cuja perversidade e permanência aniquilam e destroem. O
assédio moral é toda e qualquer conduta abusiva, manifestando-se, sobretudo, por
comportamentos, palavras, atos, gestos, escritos que possam trazer dano à
personalidade, à dignidade ou à integridade física ou psíquica de uma pessoa, pôr
em perigo seu emprego ou degradar o ambiente do trabalho (Hirigoyen, 2001).
Assediar moralmente é uma exposição prolongada e repetitiva a condições de
trabalho que, deliberadamente, vão sendo degradadas. Surge e se propaga em
relações hierárquicas assimétricas, desumanas e sem ética, marcada pelo abuso de
poder e (página 76) manipulações perversas. Constitui uma violação de direitos que
fere a dignidade, a honra e a identidade, podendo devastar vidas. (Barreto, 2000)
29

66. Como ocorre o assédio moral no trabalho?


Estudos realizados por Margarida Barreto concluem que o assédio moral se
revela de diversas formas, porém o terror psicológico exercido pelo chefe sobre o
subordinado é o mais incidente. O autor do assédio utiliza-se de inúmeras
estratégias, veladas ou dissimuladas em suas atitudes e gestos, nas expressões
fisionômicas, nos olhares e risadinhas, nos comentários racistas e sexistas, nas
ridicularizações, através de imitações de gestos, trejeitos, voz, modo de caminhar e
de atuar, na mudança para setor ou funções inferiores, nas tarefas e metas
impossíveis de ser cumpridas, no menosprezo, nas humilhações e críticas públicas,
no controle excessivo de horários de chegada, de saída, de ida ao sanitário, na
convocação de horas-extras apenas para assediar sem testemunhas, na
desestabilização e zombaria devido às convicções religiosas ou políticas, nas
críticas ou brincadeirinhas desagradáveis quanto aos gostos, situação amorosa ou
afetiva, no colocar em dúvida a capacidade de julgamento e decisão do trabalhador,
na delimitação de horários de trabalho incompatíveis com a vida familiar habitual, na
prática de desqualificação externa, por meio do fornecimento de informações
desabonadoras sobre a conduta do trabalhador, com desconsiderações e
insinuações prejudiciais à sua carreira e ao seu bom nome, nas agressões verbais,
na ameaça constante de demissão ou desvio de função para a qual não foi
contratado. Todas essas estratégias são fundamentalmente atitudes de desprezo,
de perseguição, de desqualificação e desrespeito aos conhecimentos e às
capacidades do trabalhador.

67. O assédio moral pode ser confundido com uma administração


rigorosa?
Pode ser que isso ocorra aos olhos dos espectadores, mas as vítimas sabem
diferenciar uma administração (página 77) rigorosa ou exigente de uma forma
perversa de administrar. Infelizmente, ao longo dos tempos essa forma tem sido
tolerada, sem levar em conta os prejuízos recorrentes, tanto para a saúde das
vítimas, quanto para a própria instituição. Em geral, a vítima é vista pela maioria
como uma pessoa frágil, insegura, sensível demais, com "mania de perseguição e
de reclamação", ou que é merecedora da situação. Raramente se encontra algum
colega que a defenda abertamente ou se disponha a testemunhar a seu favor. Esse
fato colabora para o silêncio da vítima e aumenta o seu sofrimento. Dentre as razões
do silêncio das vítimas estão o medo de represálias, da perpetuação dos ataques e,
sobretudo, da demissão. Muitas vezes, a vítima experimenta sentimentos
conturbados, como inferioridade, incapacidade e até mesmo culpa, acreditando ser
merecedora da situação. A maioria prefere calar-se a ter que enfrentar problemas
com os superiores, o que fortalece ainda mais as atitudes autoritárias e dominadoras
do assediador.

68. Qual é a classe ou categoria profissional que tem maior


inci dência de assédio moral?
Segundo Margarida Barreto, são os profissionais da saúde, da educação, de
telemarketing, de comunicação e os bancários que mais sofrem assédio moral.
Existem dois tipos de violência aos quais estão submetidos os trabalhadores:
a institucionalizada, que está ligada à gestão por medo e injúria, e a individualizada,
uma das faces da violência institucionalizada que está relacionada ao controle e à
forma de disciplina rígida. Ambas constituem meios refinados de controle e domínio
que visam quebrar a força e a dobrar a vontade do outro. São atos e ações, na
30

maior parte das vezes, sutis e poderosos, na medida em que podem alterar
comportamentos, ocasionar transtornos e levar até à morte. Ninguém está blindado
contra o assédio moral. Todos os trabalhadores estão expostos a esse risco
invisível. (APECF/SP, 2005). (página 78)

69. Como ocorre o assédio moral nas escolas?


O assédio moral nas escolas ocorre quando um indivíduo ou um grupo de
indivíduos se dedica às pressões, às ameaças e a outras formas de abusos e maus-
tratos contra colegas ou subordinados. Muitos professores adoecem ou apresentam
sintomas psicossomáticos, como dores de cabeça e de estômago, diarréia, vômitos,
sudorese e taquicardia, antes de reuniões, impossibilitando-os muitas vezes de
participar. Os agressores trocam olhares entre si, fazem "caras e bocas", emitem
opiniões contrárias, interrompem as exposições de idéias, criticam a didática,
ridicularizam as estratégias educativas ou fazem falsos elogios sobre o modo de ser,
de vestir, de agir, de falar do colega, especialmente se ele tiver sotaque diferente,
incitam a competição. Sua atuação é no sentido de desestabilizar o colega em seu
cotidiano, ou até mesmo perante os gestores da escola. Muitos são os que foram
perseguidos e tiveram que abandonar a profissão ou pediram remoção do cargo.
Outros adoeceram e foram deslocados para outras funções. Infelizmente, inúmeras
vítimas de assédio moral continuam suportando caladas, em nossas escolas, todo
sofrimento que lhes foi imputado por doentes emocionais, travestidos de
educadores.
O assédio moral pode ser notado nos comportamentos ofensivos,
humilhantes, desqualificantes ou desmoralizantes, praticados de forma repetida e
em excesso, nos ataques cruéis, maliciosos e vingativos, que têm por objetivo
rebaixar um indivíduo ou grupo de trabalhadores. Não somente o professor, mas
qualquer trabalhador vítima de assédio moral experimenta um grande sofrimento,
gerado pela situação de perversidade vivida. Dentre as conseqüências, ressaltamos
aquelas que incidem na saúde física e mental das vítimas. As mulheres são as que
mais sofrem o assédio moral e suas reações são diferentes das dos homens. Os
sintomas decorrentes desse mal são fadiga, transtornos no (página 79) sono
(insônia ou sonolência excessiva), excesso ou falta de apetite, ansiedade e outros.
Sabemos que nem todos esses sintomas aparecem simultaneamente ou em todos
os casos de assédio moral, porém costumam ter longa duração e podem afetar
órgãos ou sistemas, desencadeando doenças ou agravando as já existentes, como
úlcera gástrica, colites, distúrbios da tireóide, hipertensão arterial, doenças de pele,
enxaqueca, dores generalizadas e depressão. O constrangimento e a sensação de
impotência levam a vítima a degradar sua qualidade de vida e sua condição de
trabalho. Pesquisas revelam que, mesmo depois da interrupção do assédio, os
sintomas ainda persistem. Isso ocorre por causa das experiências traumáticas, que
são marcas difíceis de ser removidas da memória. O trauma é registrado na
memória com forte carga emocional, por isso a informação traumática fica
disponibilizada na mente da vítima, que passa a construir inconscientemente
cadeias de pensamentos geradoras de emoções aversivas e, mesmo não estando
na presença do seu agressor, continua ancorada a esses pensamentos e reações,
que alteram o seu metabolismo orgânico e comprometem o seu funcionamento. Não
é difícil encontrarmos vítimas que se tornam pessoas inseguras e muitas vezes são
conduzidas ao ostracismo no ambiente de trabalho, especialmente após a denúncia
do ato, por represália do seu assediador (Barreto, 2000).
31

71. O alto índice de estresse identificado entre os professores tem como


fonte o assédio moral?
O assédio moral é uma das fontes do estresse do profissional docente.
Porém, precisamos reconhecer que na escola, assim como nas demais
organizações, existe certa carência de canais adequados de comunicação entre os
chefes e seus subordinados e entre o corpo docente e o corpo discente.
Geralmente, o trabalho do professor é solitário e as interações com os superiores
ocorrem de modo formalmente hierárquico e unilateral. Os professores lidam
sozinhos com as demandas inerentes à sua profissão, como as pressões internas da
(página 80) classe e as pressões externas da própria instituição, sob controle de
trabalho muito rígido, dos pais e da sociedade, pois precisam responder às suas
expectativas preconcebidas e ainda lidar com os mais diferentes tipos de tratamento
recebidos. Tal demanda e ritmo ocupacional, aos poucos, vão submetendo o
indivíduo ao desencanto, à desmotivação, à ansiedade, ao estresse e à sÍndrome de
Burnout (Fante, 2007).
Pesquisas da Organização Internacional do Trabalho (OIT) indicam que 12
milhões de trabalhadores, 8,1% da população economicamente ativa da Europa, são
vítimas de assédio moral. Desses, 26% são funcionários públicos (14% trabalham
em setores administrativos e 12% na área de serviços) e 13% são trabalhadores de
restaurantes e hotéis. Estima-se que entre 10 e 15% dos suicídios na Suécia sejam
decorrentes do comportamento abusivo. Relatórios da OIT e da Organização
Mundial de Saúde (OMS) indicam que as duas próximas décadas serão
caracterizadas pelo "mal-estar na globalização", onde predominarão a depressão, a
angústia e outros danos psicológicos relacionados com as novas políticas de gestão.
Pesquisa realizada pela médica Margarida Barreto com um grupo de 42 mil
trabalhadores indicou que 36% dos trabalhadores brasileiros sofrem assédio moral.
Seus estudos concluíram que 90% dos casos são provocados pelo terror psicológico
do chefe sobre o trabalhador e 8,5%, do grupo ou de um colega profissional. A
pesquisadora afirma que 16% dos profissionais que sofreram assédio moral já
tentaram o suicídio (Barreto, 2000). Em relação aos trabalhadores da educação, não
dispomos de dados que nos forneçam uma visão sobre o assédio moral.

73. O que as vítimas de assédio moral devem fazer?


Margarida Barreto (2000) indica quatro providências que o trabalhador deve
adotar: (1) não aceitar nenhum (página 81) ato de humilhação, ameaça ou
intimidação, pois assim estará aceitando a violação de seus direitos - é preciso
romper o silêncio e dar visibilidade social ao problema; (2) questionar o gestor sobre
os procedimentos que está adotando, tendo testemunhas, fazendo o
questionamento por escrito ou gravando a conversa; (3) procurar um espaço de
confiança para falar, que pode ser o sindicato de sua categoria, a Delegacia
Regional do Trabalho, comissões de direitos humanos ou o Ministério Público. Caso
tenha confiança nos departamentos da empresa, deve fazer uma comunicação por
escrito e protocolá-la, ficando com uma cópia. Alguns profissionais recorrem à
delegacia de polícia para registrar boletins de ocorrência contra as injúrias e
difamações no ambiente de trabalho. Isso mostra o quanto o empregado está
sofrendo, pois fazer um boletim de ocorrência é uma das últimas escolhas do
trabalhador que cansou de solicitar explicações acerca da conduta do agressor; (4)
se o trabalhador adoecer em conseqüência do assédio moral, a Comunicação de
Acidente de Trabalho (CAT) deve ser emitida. Nesse caso, o médico do trabalho da
empresa, do centro de referência ou do sindicato do trabalhador deverá emiti-Ia e
32

encaminhar o empregado para o INSS, que estabelecerá o nexo causal.


A especialista afirma, ainda, que quem sofre assédio moral precisa de apoio e
compreensão para a sua dor. Porém, a erradicação desse fenômeno do mundo do
trabalho requer a ação coletiva de todos os trabalhadores juntamente com o seu
sindicato. ''A ação sindical junto aos trabalhadores é fundamental, visando à
transformação das condições de trabalho e à humanização das relações
laborativas". (APECF/SP, 2005) (página 82)

8 CONSEQÜÊNCIAS DO BULLYING PARA OS ENVOLVIDOS

74. Quais são as conseqüências dos atos de bullying para a saúde das
vítimas?
Dentre as diferentes e variadas conseqüências encontradas em estudos de
casos e atendimentos clínicos, podemos mencionar os altos índices de estresse.
Vale lembrar que o estresse é responsável por cerca de 80% das doenças da
atualidade, pelo rebaixamento da resistência imunológica e sintomas
psicossomáticos diversificados, principalmente próximos ao horário de ir à escola
(especialmente no caso das crianças menores), como dores de cabeça, tonturas,
náuseas, ânsia de vômito, dor no estômago, diarréia, enurese, sudorese, febre,
taquicardia, tensão, dores musculares, excesso de sono ou insônia, pesadelos,
perda ou aumento do apetite, dores generalizadas, dentre outras. Podem surgir
doenças de causas psicossomáticas, como gastrite, úlcera, colite, bulimia, anorexia,
herpes, rinite, alergias, problemas respiratórios, obesidade e comprometimento de
órgãos e sistemas. (página 83)

75. E quanto à saúde mental, quais são as conseqüências?


Inicialmente, vale mencionar as inúmeras possibilidades de traumas
psicológicos que podem ser vivenciados pela vítima, que, depois de prolongado
período de tempo sendo exposta aos ataques, poderá ter prejuízos irreparáveis ao
seu desenvolvimento cognitivo, emocional e socioeducacionaL Dependendo da
estrutura psicológica de cada indivíduo, o bullying pode mobilizar ansiedade, tensão,
medo, raiva, irritabilidade, dificuldade de concentração, déficit de atenção, angústia,
tristeza, desgosto, apatia, cansaço, insegurança, retraimento, sensação de
impotência e rejeição, sentimentos de abandono e de inferioridade, mágoa,
oscilações do humor, desejo de vingança e pensamentos suicidas, depressão,
fobias e hiperatividade, entre outros. Imaginemos uma criança em desenvolvimento,
que passa a vivenciar de forma repetitiva uma mesma experiência aversiva e
constrangedora. Ao longo do tempo, sua mente será dominada por pensamentos
geradores de emoções desagradáveis e ficará ancorada ao sofrimento e à
desesperança. O bullying também está ligado ao desenvolvimento de transtornos
psicológicos graves. Dentre eles o mais enfatizado pela mídia mundial, em face das
tragédias provocadas, é o caso do aluno vítima, que, depois de prolongado período
de tempo sendo alvo de ataques, chega ao limiar da sanidade e resolve dar fim à
própria vida, antes, porém, levando com ele quantos puder. Mune-se de armamento,
vai à escola, lá alveja quantos pode e depois comete suicídio.

76. Que prejuízos o bullying pode trazer para o desenvolvimento da


inteligência e da capacidade de aprendizagem?
Explicaremos à luz da teoria da inteligência multifocal, pela simplicidade com
que esta se propõe a explicar o funcionamento inconsciente da mente na construção
33

de pensamentos e no desenvolvimento da inteligência. Ao longo da vida, o indivíduo


registra automaticamente em sua memória, de forma inconsciente, todas as
informações e experiências vivenciadas desde (página 84) a vida intra-uterina. As
informações que tiveram maior carga emocional, positiva ou negativa, no momento
do registro, serão arquivadas privilegiadamente e, por isso, serão disponibilizadas
para ser reutilizadas em novas construções de cadeias de pensamentos geradoras
de emoção (Cury, 1998). Seguindo esse processo inconsciente, a pessoa constrói,
ao longo dos anos, toda a sua noção de auto-estima, auto-imagem e auto-conceito,
habilidades sócio-relacionais e de resolução de conflitos, além de todo repertório
comportamental necessário à sobrevivência e à auto-superação na vida.
Dependendo da predominância dos tipos de registros acumulados na memória, se
traumáticos ou prazerosos, o indivíduo disporá ou não das habilidades de auto-
afirmação e de auto-expressão necessárias à sua auto-realização. No caso dos
envolvidos em bullying, principalmente os que foram vitimizados, sendo expostos a
situações intimidatórias e constrangedoras, pode ocorrer a formação de uma
estrutura psicológica caracterizada por auto-estima rebaixada e inabilidades
relacionais. Eles poderão ter suas mentes dominadas por pensamentos e emoções
marcadas por excessiva insegurança, ansiedade, angústia, medo, vergonha, etc.,
prejudicando sua capacidade de raciocínio e aprendizado, favorecendo o surgimento
de um perfil emocional, que, aos olhos do agressor, caracteriza-o como alguém que
não oferecerá resistência aos seus ataques. Nesse caso, o indivíduo poderá ter
comprometimentos no desenvolvimento da inteligência, da capacidade de
criatividade e liderança, bem como sérios problemas no desenvolvimento afetivo,
familiar, social e laboral.

77. Quais são os resultados da vitimização para a aprendizagem e como


isso ocorre?
Entre os alunos por nós atendidos, identificamos como mais comuns o déficit
de concentração e de aprendizagem, a dispersão, o desinteresse pelos estudos e
pela escola, o absentismo, a queda do rendimento escolar e a evasão. Em
decorrência da vitimização, muitas crianças se tornam ainda mais introvertidas,
tristes, (página 85) ansiosas ou irritadas. Geralmente, vão se fechando e se
isolando das demais, perdendo o contato com seus colegas de classe e o interesse
pelos estudos. Suas mentes ficam aprisionadas às construções inconscientes de
cadeias de pensamentos, geradoras de emoções aversivas, que mobilizam aflição,
tensão e medo de ser atacadas a qualquer momento. Por isso, perdem a
concentração e se dispersam em viagens mentais, na expectativa aversiva de um
novo ataque ou montando estratégias de defesa, esquiva ou revide. Quando em
aula, caso tenham alguma dificuldade de entendimento ou ainda se lhes restarem
dúvidas, temem saná-las, pois sabem que se converterão em alvos de "zoações" ou
críticas. Como não conseguem acompanhar o rendimento da turma, inventam
desculpas para faltar às aulas, uma vez que a escola tornou-se local de infelicidade
e insegurança. Por isso, a aprendizagem fica comprometida e a queda do
rendimento escolar vai se acentuando, perdendo aos poucos o interesse acadêmico.
Por esses motivos, o rendimento escolar acaba sendo prejudicado, gerando ainda
mais constrangimento. Assim, muitos alunos não resistem e mudam de escola ou
optam pela evasão escolar. Outros ainda desenvolvem fobia escolar,
comprometendo suas relações sócio-educacionais e afetivas.
34

78. Porque o bullying compromete a socialização das vítimas?


Outra característica por nós identificada é a tendência das vítimas a se
recolher e se isolar dos demais. Elas querem ser deixadas em paz, ou mesmo não
ser notadas por seus agressores. A vitimização compromete sua auto-estima e,
dessa forma, elas vão se fechando para novos relacionamentos, dificultando a
integração social. Muitas vítimas não superam essa dificuldade no decorrer do seu
desenvolvimento acadêmico e se tornam adultos com probabilidades de
comportamentos depressivos ou compulsivos. Tendem, a apresentar dificuldades na
vida sentimental, por não confiarem nos parceiros. No local de trabalho, podem
apresentar dificuldade para se expressar, (página 86) falar em público e liderar,
déficit de concentração, insegurança, dificuldade de resolução de conflitos, de
tornada de decisões e iniciativas. Quanto à educação dos filhos, projetam sobre eles
seus medos, suas desconfianças e inseguranças, em muitos casos tornando-se pais
superprotetores.

79. Porque as vítimas de bullying não conseguem se defender com


facilidade?
Alguns fatores podem justificar a dificuldade de defesa das vítimas: estar em
minoria frente aos agressores; ser de menor estatura ou força física; apresentar
pouca habilidade de defesa e de auto-expressão; inabilidade em lidar com as
circunstâncias estressantes e desagradáveis; pouca flexibilidade psicológica e baixa
resistência à frustração. No entanto, isso ocorre principalmente por sentirem medo
de seus agressores.

80. Porque entre as vítimas impera a “lei do silêncio?”


Alguns motivos colaboram para que a maioria das vítimas se cale: falta de
apoio e compreensão quando se queixam para os adultos; medo de represálias dos
agressores; vergonha de se expor perante os colegas como incompetentes e
fracotes; temor pelas reações dos familiares; mobilização de raiva voltada contra si
mesma, pela incapacidade de defesa ou por concordar com os seus agressores,
acreditando ser merecedora dos maus-tratos sofridos.

81. Normalmente as vítimas tentam interromper a cadeia de maus-tratos


que sofrem?
Sim. Em alguns casos, a vítima desenvolve um mecanismo de defesa, que
lhe faculta superar o problema. São aquelas que se dedicam ao extremo aos
estudos ou a outras atividades, conseguindo destaque e (página 87) notoriedade.
Como exemplo, podemos citar as gozações e a exclusão que sofreu na escola o
renomado escritor Rubem Alves. Por ser oriundo do interior, em função das roupas
que usava e do sotaque mineiro, estudando numa escola de elite do Rio de Janeiro,
ele passou por vários sofrimentos emocionais. No entanto, um grande número de
vítimas não consegue resultado satisfatório de auto-superação. Ao contrário, muitas
pedem para ser deixadas em paz, mas parece que ninguém as ouve. Algumas
conseguem interromper os maus-tratos mediante a violência, como forma de revide.
Outras se encorajam e buscam auxílio junto aos adultos, conseguindo ou não
resultados positivos. Em casos extremados, algumas vítimas, no limiar do
sofrimento, resolvem dar fim à própria vida. Outras se armam, se vingam de colegas
e professores, para, em seguida, cometer suicídio. Existem outras que perdem a
autoconfiança e desenvolvem tiques nervosos, ansiedade, obsessões, compulsões,
fobia escolar e social, bloqueios, dificuldade de manter-se controlada em focos de
35

tensão, além de transtornos psicológicos.

82. As conseqüências da vitimização podem ser evidenciadas no


contexto profissional?
Sem dúvida. Em estudos de casos que recebemos e atendimentos clínicos,
constatamos drásticas conseqüências da vitimização bullying para a vida
profissional. Podemos citar o caso de um homem talentoso, competente, que temia
assumir cargo de chefia. Também era excelente compositor, com potencial artístico
e musical, mas não conseguia se apresentar em público, por ter desenvolvido
excessiva timidez, em função dos traumas vivenciados na escola. Segundo
Zimerman (1999, p. 113), "esses traumas psicológicos ficam representados no ego
da criança, de modo que posteriores acontecimentos, aparentemente banais, podem
incidir e evocar essas representações traumáticas, determinando um estado de
"desamparo", muitas vezes acompanhado de uma intensa angústia, de um estado
de pânico totalmente desproporcional ao manifesto fator desencadeante. Os
acontecimentos externos traumáticos costumam ser administrados pelo ego do
indivíduo traumatizado por meio de uma lenta elaboração". (página 88)
Outros poderiam ir além academicamente, porém sentem-se bloqueados e
acabam desistindo. Outros abrem mão de promoções por medo de exercer a
liderança. Outros apresentam dificuldades com figuras de autoridade. Outros se
mantêm passivos e submissos, preferindo cargos inferiores pelo medo de lidar com
situações de conflito ou de tomada de decisões, uma vez que sua auto-estima ficou
prejudicada. Outros se tomam muito competentes, mas se isolam no ambiente de
trabalho, por não saber se relacionar com os colegas ou temer a relação com o
público. Outros se tomam competitivos, individualistas e egoístas, com dificuldades
de empatia, de solidariedade e de compartilhamento de idéias. Outros se valem de
subterfúgios, como manipulação, fofoca e difamação, para obter vantagens de
ascensão. Outros desenvolvem um nível de exigência pessoal muito rígido, com
baixa resistência à frustração, elevado nível de estresse e mecanismos
compulsores. Outros apresentam dificuldades de trabalho em equipe. Outros se
tomam vítimas ou praticantes de assédio moral. Outros se tomam usuários e
dependentes de álcool ou de drogas. Outros reproduzem inconscientemente a
vitimização sofrida e adotam atitudes autoritárias, agressivas, intolerantes,
insinuantes, pouco afetivas, tanto no trabalho como nas relações familiares.

83. A vitimização do bullying pode prejudicar o desempenho de atletas


de alto nível?
Em nossa experiência de preparação de atletas competitivos, constatamos
que em alguns casos a vitimização bullying incidiu diretamente no desempenho
esportivo. Muitos são aqueles com talento e habilidades desportivas, mas que
apresentam dificuldade de concentração relaxada em foco de tensão. São capazes
de grande superação nos treinamentos, mas, à medida que se aproximam do
momento da competição, começam a sentir efeitos psicossomáticos indesejáveis e
acabam "amarelando" ou sentindo-se travados, prejudicando seu rendimento.
Dentre os sintomas apresentados nesses casos, encontramos: ansiedade
exacerbada, insegurança, níveis de ativação e agressividade inadequados ao
momento da competição, insônia, construções mentais obsessivas de fracasso,
inquietação, tensão muscular, tremores, dor no estômago, (página 89) diarréia,
vômito, taquicardia e nervosismo, além do medo da opinião pública em caso de
fracasso, prejuízos na capacidade de tomada de decisão e de antecipação de
36

movimentos, rigidez no nível de exigência pessoal e baixa resistência à frustração.


Com alguns amantes e praticantes do esporte, verificamos que proporcionalmente
ao seu crescimento em termos de ranking, houve minimização da sensação de
prazer e satisfação pessoal, transformando a prática desportiva em fonte de
angústia e sofrimento. Conhecemos casos de atletas que, nos treinamentos,
obtinham Índices acima da média, com potencial para se tomar estrelas, mas que de
tanto obterem baixos resultados nas competições, acabaram abandonando a prática
competitiva.

84. Quais são as conseqüências para os praticantes de bullying no


contexto escolar?
Os praticantes de bullying comumente apresentam distanciamento dos
objetivos escolares, baixo nível acadêmico e dificuldades de adaptação às regras
escolares e sociais, devido às suas atitudes indisciplinadas, desafiantes,
perturbadoras, resultando em déficit de aprendizagem e desinteresse pelos estudos.
Podem tomar-se arrogantes, manipuladores, cruéis, "durões", além de desenvolver
liderança negativa. Podem introjetar a noção de que conseguem destaque e
notoriedade social por meio de comportamentos autoritários, abusivos e violentos, o
que pode conduzi-los ao caminho da delinqüência e da criminalidade.

85. E no contexto social, que conseqüências podem ser observadas?


O autor de bullying tem grande probabilidade de adotar comportamentos anti-
sociais ou delinqüentes, devido à falta de limites ou de modelos educativos que
direcionem seu comportamento de auto-realização na vida para ações proativas e
solidárias. As regras de convívio escolar e social são encaradas com desmotivação,
uma vez que ele se sente superior aos demais e aprendeu a conviver sentindo-se
mais gratificado com as próprias regras internalizadas, que lhe dão maior
notoriedade (página 90) e destaque perante seus iguais. Pela insegurança que
sente, resultante da carência de amor e de limites, suas ações são desprovidas de
consideração, de empatia e de compaixão pelos colegas, adotando postura
desafiadora frente às figuras de autoridade, como pais, professores e policiais, como
expressão da necessidade de sentir-se valorizado e respeitado. Por isso, tais
atitudes podem ser encaradas como pedido de ajuda e sinalizador de que algo não
está bem. O praticante de bullying presenta maior suscetibilidade ao envolvimento
em gangues, brigas, tráfico, porte ilegal de armas, abuso de álcool e de drogas.
Tende a praticar a violência doméstica e o assédio moral em seu local de trabalho,
além de apresentar baixa resistência à frustração.

86. Existem evidências do envolvimento de praticantes de bullying em


criminalidade?
Estudos demonstram que os agressores têm maior probabilidade de praticar
atos delinqüentes e criminosos e violência doméstica. Nesse sentido, o pesquisador
Dan Olweus (Fante, 2005) desenvolveu estudos longitudinais com um grupo de
adolescentes identificados como autores de bullying com idades entre 12 e 16 anos.
Em seus estudos, ele concluiu que, antes de completar 24 anos de idade, 60% dos
adolescentes haviam sido apenados com pelo menos uma condenação legal. Nessa
mesma linha de pesquisa, estudiosos americanos disseram haver grande
probabilidade de esses agressores ainda terem, no mínimo, mais duas condenações
legais durante a vida.
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87. Podemos considerar que crianças e adolescentes agressivos se


tornarão adultos agressivos? O que é preciso para haver mudança?
É importante considerar inicialmente o potencial de agressividade que todos
temos e que é necessário e inerente à vida. É graças à agressividade que
conseguimos (página 91) acordar cedo, ir à escola ou trabalhar o dia todo e ainda
nos encontrarmos dispostos à noite. A agressividade é que nos permite a
determinação e a auto-superação na vida. Nesse aspecto, a agressividade é muito
positiva e faz parte do repertório psíquico de que todos dispomos. Porém, a
agressividade deve sempre ser educada e canalizada para projetos que nos
realizem e contribuam para a construção de uma sociedade melhor, mais humana e
solidária. Outro aspecto é o da agressividade manifestada como mecanismo de
defesa. Em crianças que repentinamente se mostram agressivas, isso pode ser um
sinalizador de que algo não está bem, de pedido de socorro ou, ainda, uma crise de
frustração ou de oposição, uma forma de expressar insatisfação com a vida ou ainda
a forma encontrada para conseguir o que quer. Portanto, a agressividade nas
crianças precisa ser observada e controlada. É necessário que os adultos
intervenham amorosamente e com firmeza, para conter e direcionar o impulso
agressivo para ações socialmente gratificantes.

88. O que leva uma criança a introjetar e a manifestar um


comportamento agressivo?
Segundo Zimerman (1999, p. 103), "o grupo familiar exerce profunda e
decisiva importância na estruturação do psiquismo da criança, logo, na formação da
personalidade do adulto". Os modelos educativos familiares, introjetados pela
criança na primeira infância, resultantes dos tipos de vivências e interações
socioemocionais na família, gratificantes ou não, tornar-se-ão matrizes de
construções inconscientes de cadeias de pensamentos e emoções. Esses registros
nortearão o desenvolvimento da criança, manifesto em atitudes, opiniões, crenças,
valores, conceitos, preconceitos, cuidados e hábitos pessoais, comportamento
social-afetivo na família, na escola e entre seus pares. A criança aprende
principalmente pela imitação do comportamento dos adultos. Ela não vive para si
mesma, pois ainda não desenvolveu plenamente a consciência de si mesma. Tudo o
que faz só tem sentido se aferido (página 92) pelos pais. Todos os seus sentidos
estarão voltados para os pais e para suas reações aos seus atos. Sua memória
registrará expressões faciais, corporais, movimentos, trejeitos, posturas e atitudes.
Sua audição se especializará em distinguir nuances no tom e no timbre vocal, na
modulação, no volume, no andamento da voz e nas palavras que escuta no
ambiente familiar, além dos temas tratados, que, aos poucos, farão sentido para ela.
Segundo Mussen (1974, p. 311-132), "se os pais permitem ou reforçam abertamente
a agressão, é possível que as crianças se comportem agressivamente em casa e,
por generalização, em outros lugares em que sintam ser a agressão permitida,
esperada ou encorajada. A presença de um adulto permissivo favorece a expressão
do comportamento agressivo. As respostas agressivas imitativas adquiridas de um
modelo podem generalizar-se para outras situações".
Em seu corpo, a criança dispõe de repertório sensitivo extremamente
complexo e abrangente, que lhe permitirá diferenciar afetivamente a forma como é
locada, mas, acima de tudo, dispõe da faculdade de se emocionar, de transformar
tudo o que percebe, capta e processa em emoções e sensações que a mobilizarão
constantemente em seu desenvolvimento. A consciência de si mesma é formada
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como resultante dessas interações ao longo do tempo. Todo o vivido será registrado
em sua memória, principalmente em função da carga emocional mobilizada na hora
do registro. Por isso, ela precisa ser educada de maneira afetiva, sentindo-se
amada, valorizada, com disciplina e limites. No entanto, se foi exposta a um
ambiente onde algum cuidador expressava-se de forma autoritária, agressiva ou
castradora, poderá manifestar comportamento agressivo no seu desenvolvimento
socioeducacional. Há casos em que a criança não manifesta agressividade, mas
apatia, bloqueios de aprendizagem e timidez.

89. Quais são as conseqüências para os espectadores do Bullying?


Mesmo não sofrendo diretamente as agressões, muitos deles podem se sentir
inseguros, incomodados (página 93) e mesmo traumatizados pelo sofrimento do
outro. Alguns espectadores reagem negativamente, uma vez que seu direito de
aprender em um ambiente seguro e solidário foi violado, o que pode influenciar seu
progresso acadêmico e social, além de prejudicar sua saúde física e emocional.

90. Como o espectador pode ter a sua aprendizagem comprometida?


O medo de ser alvo de bullying faz com que muitos espectadores se inibam,
prejudicando sua participação nas aulas. Não se atrevem a fazer perguntas ao
professor para sanar suas dúvidas por temerem "zoações" ou rótulos. Dessa forma,
ao longo do tempo, acumulam dúvidas e, na maioria dos casos, os familiares não
conseguem ajudá-los, por falta de tempo ou de conhecimento do tema. Preferem
faltar às aulas a participar de determinadas atividades em grupo. O excesso de
faltas, o acúmulo de dúvidas, a falta de cooperação, a insegurança e a tensão geram
déficit na aprendizagem e prejuízos no desempenho escolar.

91. Na questão da socialização, como podemos observar os prejuízos?


Muitos espectadores se retraem, se isolam e se tornam quase imperceptíveis,
para não ser notados em sala de aula. Como defesa, adotam posturas reativas,
como agressividade, passividade ou apatia, o que repercute no desenvolvimento de
suas habilidades relacionais de fazer amigos e se integrar aos grupos. Quando
adultos, podem apresentar extremo retraimento, timidez exacerbada, dificuldade de
falar em público e de ampliar sua rede de relacionamentos.

92. Por que o bullying pode despertar apatia entre os espectadores?


Percebemos que a maioria dos espectadores fica engessada ante a violência.
São acometidos de certa inércia social e indiferença ao sofrimento do outro, pela
banalização da própria violência e até mesmo sua validação. Isso ocorre por vários
fatores, dentre eles, o sistema (página 94) de normas socioculturais, que norteiam
as crenças e as opiniões das pessoas e sua atitude nas situações de emergência.
Outros se calam em razão do temor de se tomar a próxima vítima. Outros se
mobilizam internamente, mas não sabem o que fazer nesses casos. É necessário
que os alunos sejam orientados sobre como encaminhar uma denúncia, de forma
anônima, frente a esse tipo de violência. Para isso é necessário que conheçam as
formas seguras de encaminhamento, para não se expor a riscos desnecessários.
Sugerimos que os espectadores sejam orientados à inclusão de colegas que
apresentam dificuldades de socialização, nos trabalhos em grupo, nas equipes
esportivas, na recreação, nos relacionamentos.

93. O silêncio do espectador não é prejudicial a si mesmo?


39

Sem dúvida, mas precisamos antes de tudo entender as causas desse


silêncio. Para muitos alunos, o ato de presenciar as situações de bullying gera, a
princípio, tensão, medo, raiva, revolta, inconformismo. Com o tempo, as atitudes
adotadas pelos intimidadores passam a fazer parte do cotidiano da escola, gerando
certa acomodação ou psicoadaptação. Alguns espectadores vêem a agressão
sofrida pelo outro como fonte de diversão e prazer. Com isso, reforçam as atitudes
maldosas dos agressores ou nelas se inspiram para perseguir a mesma presa ou
eleger outra. Porém, encontramos espectadores que se incomodam, se angustiam e
se sentem impotentes. Nesse caso, gostariam de ajudar os colegas vitimizados ou
denunciar a perversidade dos intimidadores, porém o medo de se transformar em
"próxima vítima", associado ao fato de não saberem como fazer uma denúncia com
segurança, os impedem. Por outro lado, não fica bem para a sua popularidade, caso
alguém os veja em companhia de um "fracote", que não reaja aos ataques. Muito
delicada é a situação dos espectadores, pois estes também são tomados por
sensações de constrangimento e por emoções desagradáveis. Pior é quando
desenvolvem a insensibilidade frente ao sofrimento alheio, o que é muito comum.
(página 95)

94. Podemos considerar os espectadores tão culpados quanto os


agressores?
Quando os espectadores participam dos ataques ao "bode expiatório" ou
incentivam a participação de outros, são igualmente responsáveis, por conivência ou
omissão. Nesse caso, sua ação resulta indiretamente em sofrimento para as vítimas.
O que causa perplexidade em muitos é o fato de que a maioria dos alunos,
chamados espectadores, nada faz para ajudar seus colegas. Muitos, por medo de se
tornar as próximas vítimas, dão risadas, incentivam, valorizam e reforçam a ação
dos agressores, tornando-os cada vez mais populares por suas ações, promovendo,
com isso, alienação e banalização do sofrimento alheio. Não estariam assim,
inconscientemente, favorecendo o surgimento de uma geração de pessoas
insensíveis, omissas, descomprometidas, com dificuldades de empatia e de
estabelecer relacionamentos sólidos e duradouros? (página 96)

9 CAUSAS DO BULLYING?

95. É notório o crescente aumento da violência e da agressividade


infanto-juvenis em nossa sociedade, sendo este um fato preocupante quanto
ao futuro das famílias, das empresas e do Estado. A que se atribui esse
fenômeno?
São inúmeros os fatores que colaboram para o crescimento da violência e da
agressividade infanto-juvenis. Levemos em consideração as mudanças sociais que
ocorrem em nosso cotidiano, uma sucessão de causas e conseqüências que
influenciam o modo de ser e de viver do indivíduo e do grupo, tomando, muitas
vezes, obsoleta ou defasada sua anterior resposta adaptativa para lidar com essas
modificações. Podemos constatar tais mudanças na globalização, no apelo ao
consumismo, nos padrões de beleza ditados pela mídia, nos fenômenos ligados à
emigração, no mal-estar econômico, na crescente desigualdade social, na falta de
oportunidades de ascensão social por vias legais e éticas, na integração étnica,
religiosa e cultural, dentre outros. Há ainda que levarmos em consideração os
modelos educativos familiares, formadores de atitudes (página 97) nos filhos
estudantes. Em busca de respostas sobre o quanto essas transformações podem
40

influenciar o comportamento das pessoas, temos que considerar a agressividade do


ponto de vista natural. A agressividade é uma faculdade inerente ao ser humano,
que o mobiliza a ações de sobrevivência, de enfrentamento e de auto-superação na
vida, e, com o auxílio dos limites morais e sociais, pode ser canalizada e orientada
para ações auto-realizadoras de manutenção e desenvolvimento da vida. Entretanto,
a família passa por transformações nunca antes imaginadas. A dificuldade de
estabelecer disciplina e limites para os filhos tem sido decisiva para a expressão da
agressividade e da violência infanto-juvenis. Além disso, muitas crianças e jovens
aprendem o comportamento agressivo e violento justamente no ambiente familiar,
quando precisavam exatamente do oposto, ou seja, de modelos educativos positivos
na família para serem imitados. Essa ausência de limites e de modelos de
identificação, associada aos outros fatores anteriormente mencionados, pode
desencadear comportamentos destrutivos e violentos.
Portanto, as mudanças sociais têm grande influência no surgimento desse
fenômeno, na medida em que todo esse movimento não consegue transmitir
referenciais estáveis, modelos construtivos, valores e ideais que possam ser
compartilhados e sentidos como próprios.

96. Em que idade se pode observar a manifestação da agressividade na


criança? Quando ela aprende o autocontrole?
Podemos observar a agressividade incontrolável e sem limites dos 2 aos 4
anos de idade. É na primeira infância que a criança tenta subjugar os pais às suas
próprias necessidades, travando verdadeira luta para a diferenciação da relação
simbiótica com a figura materna. Daí a necessidade do estabelecimento de regras
que norteiem o comportamento e as formas adequadas de realização dos desejos;
de limites que a ajudem a delimitar seu espaço de auto-afirmação e a lidar com a
frustração; de diálogo como forma adequada de auto-expressão; (página 98) de
hábitos familiares saudáveis quanto à resolução de conflitos e de ocupação do
tempo livre; de exemplos de expressões afetivas e solidárias, para que possa
desenvolver o senso de empatia; e de participação ativa na vida comum do lar, a fim
que desenvolva habilidades de integração, de responsabilidade, de sobrevivência e
a noção de utilidade na construção de ideais. Aos poucos, a agressividade tende a
se atenuar e reaparece na adolescência, em menor grau e com características de
consolidação de autocontrole. Próximo à idade adulta, quando já deveria estar em
plenas condições de gerenciá-la com equilíbrio, há um declÍnio (Costantini, 2006).

97. Qual é a origem do comportamento agressivo e intimidatório?


Para entendermos a origem desse comportamento, precisamos entender as
fases de desenvolvimento das crianças. Na fase do "não", das crises de oposição e
das explosões de raiva inesperadas, entre os 2 e os 3 anos, as crianças precisam
ter alguém que intervenha a fim de conter adequadamente o impulso e a ânsia que o
provoca. Caso isso não aconteça, esse tipo de comportamento passa a fazer parte
do seu repertório comportamental. Uma vez adotado esse comportamento, muitas
crianças passam a desempenhá-lo em suas relações sociais, através de atitudes
intimidatórias, abusivas e agressivas, como forma de manipular e conseguir seus
intentos. Há, ainda nessa fase, outras crianças que são reprimidas, ridicularizadas,
criticadas, repreendidas ou punidas por adultos impulsivos e às vezes violentos.
Nesse caso, as crianças introjetam o comportamento do adulto e passam a imitá-lo,
reproduzindo-o em suas relações sociais. Outras, ainda, descobrem sozinhas, muito
cedo, o quanto é fácil abusar e intimidar os outros para conseguir o que querem.
41

Geralmente, quando esse tipo de comportamento é descoberto, os argumentos que


as crianças mais utilizam são do tipo "a vítima é chata, provocadora, foi ela quem
começou" ou "ela é diferente dos outros". Infelizmente, o desconhecimento, as idéias
preconcebidas e o (página 99) preconceito em relação ao diferente são transmitidos
nos diversos ambientes, os quais fazem parte da vida das crianças, como o familiar,
o escolar, o social e, sobretudo, a mídia. Esta oferece modelos de referência onde
muitas vezes nos reconhecemos ou nos identificamos.

98. Quais seriam as causas do comportamento bullying?


Inúmeros estudos estão sendo desenvolvidos na tentativa de compreender
esse fenômeno, sob os mais diversos aspectos, como familiar, social, cultural,
afetivo e emocional. As inúmeras correntes filosóficas, psicológicas, antropológicas e
pedagógicas tentam explicá-lo, e a maioria aponta para os seguintes aspectos:
carência afetiva, ausência de limites, afirmação dos pais sobre os filhos através de
maus-tratos e explosões emocionais violentas, excessiva permissividade, exposição
prolongada às inúmeras cenas de violência exibidas pela mídia e pelos games,
facilidade de acesso às ferramentas oferecidas pelos modernos meios de
comunicação e informação. Além desses, existe a alta competitividade, que acaba
gerando o individualismo e a dificuldade de empatia, a crise ou ausência de modelos
educativos baseados em valores humanos, capazes de alicerçar a vida do indivíduo.

99. Como surgem os principais protagonistas do fenômeno?


Durante nossa trajetória como estudiosos do fenômeno e neste último ano,
atuando, especialmente, junto ao ensino infantil, pudemos aprofundar nossa
compreensão sobre o processo desencadeador do bullying escolar. Percebemos
que aqueles que são vulneráveis à vitimização possuem as mesmas características,
independentemente da idade. Tanto as crianças quanto os adolescentes e adultos
sinalizam que são presas fáceis aos ataques dos agressores. Os indivíduos alvos de
bullying possuem sua auto-estima fragilizada. Insegurança, medo e dificuldade de
defesa são algumas das características que os tornam alvos dos ataques (página
100) dos agressores. Esses, por sua vez, também sentem insegurança e medo,
porém, nas atitudes hostis e intimidadoras que impõem aos mais fracos, escondem
sentimentos de mágoa, de revolta, de dor, de vitimização. Entretanto, aos olhos dos
adultos, parecem ter auto-estima elevada e, pelo fato de agirem "impiedosamente"
com os mais fracos e indefesos, são tidos como "maus". Em atendimento
pedagógico e psicológico, concluímos que o praticante de bullying, em algum
momento de sua vida, foi alvo de um tirano, de um bully - talvez, de algum adulto,
como pais, parentes, vizinhos, professor ou algum colega de escola, que se
aproveitou de sua fragilidade e dificuldade de defesa para imputar-lhe sofrimentos.
Portanto, o bullying acontece dentro de um ciclo repetitivo de abusos e maus-
tratos, duas faces da mesma moeda em que o indivíduo aparece como vítima e
agressor ao mesmo tempo. As crianças não nascem praticando bullying. Algum fator
no transcurso de seu desenvolvimento colaborou para o surgimento desse tipo de
comportamento. Crianças que são vítimas de alguma forma de abuso na primeira
infância, seja sexual, psicológico ou físico, tornam-se inseguras, temerosas,
ressentidas. Sua tendência poderá ser a de se colocar como alvo de bullies e/ou de
submeter outras crianças ao bullying. Reproduzir a vitimização é um esquema de
proteção que adotam para lidar com a dor do trauma, a dor emocional. Portanto, o
bully antes de tudo é um indivíduo que sofre, que tem medo e muita raiva represada
em seu coração. Submeter o mais fraco ao seu domínio, maltratar o outro, é uma
42

forma de esconder sua fraqueza, é ação prazerosa de fazer com que outros sofram
da mesma forma com que ele sofreu. Com o passar do tempo, suas ações negativas
se sedimentam, se interiorizam e passam a fazer parte do seu repertório
comportamental. Por isso, encontramos muitos adolescentes ou adultos que
apresentam comportamentos autodestrutivos ou violentos contra outro(s) e dizem
não se arrepender. Para essas pessoas, o sofrimento exacerbado, convertido em
atitudes perversas e cruéis, aumentando a intensidade e a gravidade no transcorrer
de suas existências, resulta de um esforço desprendido para lidar com suas
emoções e seus sentimentos. Não tendo (página 101) introjetado na primeira
infância um modelo positivo que lhe sirva de parâmetro para reger suas ações e
reações, a criança tem o direito de encontrar esse modelo no meio social imediato à
família, ou seja, a escola. Por isso, a figura do professor das séries iniciais é de
fundamental importância para que a criança tenha o quanto antes um referencial de
confiança, de respeito, de amor, de equilíbrio, de identificação. Se não encontrarem
na escola esse referencial positivo, tendem a buscá-lo fora dela. Porém, muitas
vezes, encontram-na na figura de anti-heróis ou no envolvimento delinqüente.

100. Em que medida os educadores contribuem para o bullying?


Muitos autores apontam que a ação educativa muito branda, permissiva, está
no âmago dos problemas dos jovens, o que resulta na falta de respeito às regras e
no aumento do nível de transgressão. A educação permissiva colabora para que os
jovens não apreendam a noção de limites em suas ações, que vivam de maneira
irresponsável, que sintam dificuldade em conter seus impulsos, negociar os conflitos,
responsabilizar-se pelas próprias ações, refletir sobre as conseqüências de seus
próprios atos, respeitar o outro e saber se colocar no lugar dele. A ausência de
modelos positivos também é outra questão a ser considerada. Muitos educadores ou
cuidadores apresentam dificuldade em manter relações construtivas, de comunicar-
se de maneira assertiva e apropriada, de resolver seus conflitos com paciência e
bom-humor, respeitando o ambiente e as pessoas envolvidas. Alguns oferecem
modelos educativos inadequados, principalmente aqueles em que imperam a
violência, o autoritarismo, os maus exemplos, a excessiva proteção, a
permissividade, além de omissão, negligência e abandono.

101. Por que alguns jovens sentem prazer em maltratar o outro?


O modelo educativo predominante introjetado pela criança na primeira
infância é determinante, tanto para a manifestação do comportamento agressivo
quanto para a (página 102) produção de "perfis psicológicos" que favorecem a sua
expressão. A história intrapsíquica de cada um, armazenada nos arquivos de
memória, oriunda das primeiras interações emocionais na psicodinâmica familiar, ao
longo do seu desenvolvimento, será decisiva na construção dos seus pensamentos,
suas emoções e seus comportamentos.
Caso tenha sido exposta constantemente a situações de maus-tratos e
humilhações, a criança desenvolve a tendência inconsciente de reproduzir o modelo
introjetado contra outras crianças, como forma de auto-afirmação e auto-expressão,
na tentativa natural de obtenção de auto-satisfação e auto-realização. Dessa forma,
sente inconscientemente certo prazer em maltratar e provocar sofrimento.

102. Como os meios de comunicação podem colaborar para o


surgimento do comportamento bullying? O que os pais podem fazer?
A violência é constantemente apresentada em filmes, noticiários, jogos de
43

videogame e de computador. Nos filmes, muitas vezes, os protagonistas utilizam a


violência como instrumento de justiça. As telenovelas, em seu enredo, mostram o
poder sendo exercido pela força, pela difamação, com chantagens, falcatruas e
violência. Nos games, assim como nos filmes, há um apelo à "adrenalina", sob a
alegação de que precisam ser emocionantes. Assim, eles estão cada vez mais
violentos. Levando em conta a forte carga emocional com que os personagens e as
tramas são construídos, estes podem acarretar forte impacto emocional, não apenas
no indivíduo, mas em toda coletividade, influenciando o comportamento e os
relacionamentos das pessoas. Como a criança ainda não dispõe de parâmetros
emocionais para distinguir o real do fictício, acaba validando esses modelos como
forma de identificação, a fim de conseguir a tão sonhada auto-realização. Os pais
podem selecionar o que as crianças podem ou não assistir, substituir a televisão
e/ou jogos de videogame ou internet por brinquedos e, principalmente, pela sua
participação, mesmo que por pouco tempo, em sua vida. Lembramos que não é a
quantidade, mas a qualidade do tempo investido na relação (página 103) com a
criança que certamente fará a diferença positiva em seu desenvolvimento.

103. A imposição de estereótipos pela mídia não incentiva a prática de


bullying? Quem foge desses padrões não passa a ser um alvo preferencial?
Sem dúvida, a mídia pode influenciar negativamente o comportamento de
muitos, o que colabora com o surgimento do bullying. Por exemplo, a estética
estabelecida pela mídia cria um padrão de beleza excludente, fazendo com que
muitas adolescentes que estão acima do peso ou que não se enquadram no padrão
de beleza e vestimenta estabelecido sintam-se envergonhadas e sejam encaradas
como "defeituosas" ou "esquisitas" pelos colegas. Muitas são as jovens que vivem
preocupadas com dietas, regimes e malhação, procurando manter-se dentro dos
"padrões" estabelecidos. Em muitos casos, essa busca para manter-se dentro dos
padrões toma-se causa de problemas que prejudicam a auto-estima e a saúde.
Dependendo da estrutura psíquica, podem desenvolver bulimia, anorexia,
depressão, ou transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Alguns casos de anorexia
têm sido veiculados na mídia, expondo a dificuldade do diagnóstico e os estudos
que vêm sendo empreendidos para identificar preventivamente as suas causas.
Talvez muitos desses casos tenham sua origem no bullying. (página 104)

10 MEDIDAS, PROCEDIMENTOS E ENCAMINHAMENTOS

104. Uma vez que a violência tenha adentrado a escola, o que fazer?
Em primeiro lugar, há que se reconhecer que a violência é um problema
social. Nesse sentido, a escola tem papel fundamental na sua redução, por meio de
ações e programas preventivos, em parceria com as famílias dos alunos e os
diversos atores sociais, para garantir a sua eficácia. É fundamental que em cada
escola se constitua uma comissão ou equipe que possa articular políticas
preventivas e capacitar seus profissionais para atuar de forma segura, sem correr
riscos desnecessários.

105. Em relação ao tema bullying, as escolas brasileiras estão


preparadas para enfrentá-lo?
O bullying sempre existiu nas escolas, porém, há pouco mais de 30 anos é
que começou a ser estudado com parâmetros científicos, como fenômeno
psicossocial, e recebeu nome específico. No Brasil, o tema começou a ganhar
44

espaço através do trabalho de pesquisa que realizamos e do programa antibullying


Educar para a Paz, que iniciamos no interior paulista em 2000. Desde então, vem
conquistando visibilidade e (página 105) gerando debate público, especialmente em
decorrência das tragédias ocorridas em Taiúva (SP) e Remanso (BA). Em meados
de 2006, realizamos o I Fórum Brasileiro sobre o Bullying Escolar, em Brasília-DF,
com a participação de diversos segmentos da sociedade. No entanto, a maioria das
escolas ainda não está preparada para o seu enfrentamento. Algumas por
desconhecimento, outras por omissão, muitas por comodismo e negação do
fenômeno.

106. O que as escolas devem fazer para enfrentar o fenômeno?


Acreditamos que a prevenção começa pelo conhecimento. É preciso que a
escola reconheça a existência do fenômeno e, sobretudo, esteja consciente de seus
prejuízos para a personalidade e o desenvolvimento socioeducacional dos
estudantes. A escola também precisa capacitar seus profissionais para observação,
identificação, diagnóstico, intervenção e encaminhamentos corretos, levar o tema à
discussão com toda a comunidade escolar e traçar estratégias preventivas que
sejam capazes de fazer frente ao fenômeno. Além do engajamento de todos, é
preciso contar com a ajuda de consultores externos, como especialistas no tema,
psicólogos e assistentes sociais. É imprescindível o estabelecimento de parcerias
com conselhos tutelares, delegacias da Criança e do Adolescente, promotorias
públicas, varas da Infância e Juventude, promotorias da Educação, dentre outros.

107. Como a escola deve proceder para detectar os índices de bullying?


É necessário que a escola faça uma pesquisa com os alunos, a fim de ouvi-
los para saber quais são as suas experiências com o bullying e os sentimentos
despertados por ele. Em diversos países, o referencial é o questionário desenvolvido
pelo norueguês Dan Olweus. Em nossas pesquisas, não é diferente: utilizamos o
Questionário sobre Bullying - Modelo TMR (Training and Mobility af Researchers),
adaptado por Ortega, Mora-Mérchan, (página 106) Lera, Singer, Pereira e Menesini
(1999) do questionário original desenvolvido por Dan Olweus (1989). Aplicamos
também uma atividade em forma de redação onde os alunos são estimulados a falar
anonimamente sobre a sua vida na escola, ou seja, seu relacionamento com os
colegas, uma espécie de autobiografia. Essa atividade ajuda a romper o silêncio e
possibilita a expressão de emoções e sentimentos. Desenvolvemos oficinas
temáticas com dinâmicas de grupo, que favorecem a compreensão do fenômeno. As
discussões têm por objetivo encontrar soluções para as dificuldades nas relações
interpessoais. O incentivo ao exercício da solidariedade, da tolerância, do respeito
às diferenças individuais é fator motivador de mudanças. Há casos em que alunos
praticantes de bullying se convertem em "alunos solidários", passando a auxiliar
seus colegas dentro e fora da sala de aula, em especial aqueles que outrora eram
suas vítimas. Podemos citar também modificações na postura de alguns
professores, após reconhecerem as práticas do bullying decidiram mudar suas
atitudes.

108. Além dos instrumentos de pesquisa, como o professor pode


identificar o bullying em sala de aula?
A observação nas relações interpessoais é o primeiro procedimento que o
professor deve adotar. Nas primeiras três semanas de aula o fenômeno já se torna
perceptível. Orientamos para que o professor observe e anote na ficha individual do
45

aluno as suas impressões: se o aluno está constantemente isolado dos demais,


especialmente no horário de recreio; se nos trabalhos em grupo ou jogos em equipe
é sempre o último a ser escolhido; se é alvo de "zoações", caçoadas, apelidos
pejorativos em decorrência do seu aspecto físico, psicológico ou cognitivo; se
apresenta aspecto triste, deprimido, aflito, ansioso, irritadiço ou agressivo; se no
decorrer dos meses há súbita queda no rendimento escolar e desinteresse pelos
estudos; se falta às aulas freqüentemente, sem justificativas convincentes; se
apresenta arranhões, ferimentos ou danificação de seus materiais escolares
constantemente; se é intimidado, perseguido ou maltratado (página 107)
fisicamente. Além dessas observações, o professor deve também ater-se às reações
da vítima quando atacada, especialmente por meio da resposta que manifesta pela
expressão fisionômica.

109. Como diagnosticar um caso de bullying?


Em nossas experiências concluímos que não é tão simples diagnosticar um
caso de bullying, a não ser em sua superficialidade. Existe grande probabilidade de
os pais ou profissionais das diversas áreas creditarem ao bullying todas as situações
de violência que ocorrem na escola. Por outro lado, alguns fatores dificultam sua
identificação: muitos adultos não reconhecem o problema em decorrência da
dificuldade das vítimas em expor a situação vivenciada; a ausência de adultos
quando ocorrem os ataques; a convicção de que os conflitos entre alunos devem ser
resolvidos por eles mesmos; dificuldades pessoais em lidar com determinação frente
aos conflitos entre alunos; crença de que o bullying é "brincadeira própria da idade"
e faz parte do processo de amadurecimento do indivíduo. Para o adolescente é mais
fácil formular e verbalizar o que se passa, embora seja mais difícil a sua denúncia,
pois sente vergonha de se expor perante seus colegas ou adultos. Quanto às
crianças, de acordo com a fase evolutiva, precisamos considerar que elas ainda não
possuem percepção do grupo e do rechaço, uma vez que na fase egocêntrica as
brincadeiras e a socialização acontecem com poucos amigos. Nesse caso, elas
ainda não têm maturidade para formular e verbalizar sua situação, embora
expressem sentimentos de insatisfação, raiva, medo e vergonha. Muitas crianças
pequenas adotam a estratégia de fuga, não querendo mais ir à escola, embora não
consigam expressar os motivos.
Portanto, para que não haja equívocos no momento do diagnóstico,
aconselhamos que se recorra sempre aos critérios de identificação do bullying:
ações deliberadas e repetitivas, desequilíbrio de poder, ausência de motivação
evidente e sentimentos despertados. É imprescindível que se analise também o grau
de (página 108) comprometimento da vitimização, que pode ser considerado leve,
moderado e crônico.

110. Como abordar o assunto com os supostos envolvidos?


Inicialmente, temos que estar conscientes de que nossos alunos estão
sofrendo em um ambiente que deveria ser de harmonia e segurança. Geralmente
nossa atenção se volta às vítimas e nossa indignação aos agressores, mas temos
que entender que ambos estão em sofrimento e necessitam ser compreendidos e
orientados a construir uma auto-imagem positiva, que lhes permita sair da posição
de vítima e de agressor. Não queremos com isso dizer que os praticantes de
bullying não devam ser responsabilizados por seus atos. Entretanto, precisamos
entender que nos bastidores do comportamento de intimidação e provocação
constante se encontra alguém amargo, que aprendeu a resolver seus problemas de
46

falta de valorização a si mesmo buscando rebaixar os outros. O bullying esconde


também outro problema: o agressor acredita que todos devem atender seus desejos
de imediato e não consegue, do ponto de vista psicológico, colocar-se no lugar do
outro. É alguém que, para se defender, ataca (Tognetta e Vinha, 2007).
Após o processo de observação, tem início o trabalho de entrevistas
individuais. O entrevistador deve ouvir inicialmente a vítima e depois o agressor,
demonstrando compreensão e disponibilidade para ajudar. Deve proporcionar
segurança à vítima para que possa falar dos seus sentimentos e de suas limitações
de defesa, evitando críticas, censura ou superproteção. No caso dos alunos
suspeitos de praticar intimidação, usar os mesmos procedimentos. Conhecer a
imagem que fazem de si mesmos, dos fatores motivacionais de suas atitudes
negativas é abrir espaço para o diálogo e mudanças. Entretanto, é necessário ser
firme e mostrar as conseqüências do seu comportamento inadequado. Orientamos
para que as entrevistas sejam iniciadas com o líder do grupo de agressores, para
que se possa desarticular suas ações. Em nossas experiências, o atendimento
individualizado e as devidas orientações sobre (página 109) as implicações das
atitudes bullying, de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente, são
intervenções, muitas vezes, suficientes para que cessem os ataques. É muito
importante que os jovens tenham conhecimento e entendimento da nossa
legislação. Somente assim poderão refletir sobre as conseqüências dos seus atos. O
monitoramento dos casos é fundamental para que não se abram lacunas à
revitimização.

111. Se essa intervenção não surtir efeito, como se deve proceder?


Existe uma legislação específica a que se pode recorrer?
Existem casos em que a ação dos agressores é mais persistente, arrastando-
se ao longo dos anos. Portanto, é necessário ir além do diálogo e buscar a ajuda de
outros profissionais ou instituições voltadas à proteção integral de crianças e
adolescentes. Em nossos trabalhos, buscamos sempre a ajuda de um conselheiro
tutelar, que orienta os praticantes e seus familiares. Em nosso país não existe
legislação específica sobre o bullying, no entanto, o Estatuto da Criança e do
Adolescente (ECA) prevê medidas protetivas ou socioeducativas às crianças e
adolescentes que cometerem atos infracionais. Ao mesmo tempo em que visa
garantir os direitos fundamentais básicos das crianças e dos adolescentes, o ECA
estabelece normas para responsabilizá-los quando agirem contra as regras de
convivência social harmônica.

112. A escola deve denunciar os casos de bullying?


Sugerimos que inicialmente os casos sejam resolvidos na escola, por meio de
ações pedagógicas. Deve-se orientar o aluno agressor e aplicar a ele a pena
prevista pelo regimento interno escolar, além de alertar seus pais ou responsáveis.
Dependendo da gravidade do caso, deve-se encaminhá-lo diretamente ao Conselho
Tutelar. Se houver lesão corporal, calúnia, injúria ou difamação, o pai ou
responsável deve procurar uma (página 110) delegacia de polícia para fazer boletim
de ocorrência. Em alguns casos, quando a escola não toma providências, poderá
ser responsabilizada por omissão. Existem muitos casos em que a escola ou o
governo tiveram que pagar indenizações às vítimas por danos morais e materiais.

113. Qual é a diferença entre ato infracional e ato de indisciplina?


É imprescindível que o profissional da educação saiba diferenciar tais atos. De
47

acordo com a cartilha do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios sobre


segurança na escola, ato infracional é o ato ilícito praticado por adolescente, descrito
na legislação penal como crime ou contravenção penal. Se o ato ilícito for praticado
por criança menor de 12 anos, o ECA determina a aplicação de medidas protetivas,
como encaminhamento aos pais ou responsáveis; orientação, apoio e
acompanhamento temporário; matrícula e freqüência obrigatória em
estabelecimentos de ensino; inclusão em programas comunitários ou oficiais de
auxílio à família, à criança e ao adolescente; requisição de tratamento médico,
psicológico ou psiquiátrico, em regime hospitalar ou ambulatorial; inclusão em
programa oficial ou comunitário de auxílio, orientação e tratamento a alcoólatras e
toxicômanos; abrigo em entidade ou colocação em família substituta. A criança
raramente pratica crime contra a pessoa; seus crimes freqüentemente são os furtos
e os danos. Os atos ilícitos praticados por adolescentes são mais graves e, portanto,
o ECA prevê a aplicação de medidas socioeducativas. Trata-se de atuações mais
rigorosas, diretamente dirigidas ao adolescente e a sua família. Tais medidas são:
advertência, obrigação de reparação do dano, prestação de serviços à comunidade,
liberdade assistida, semi-liberdade e internação por tempo indeterminado. Ambas
têm caráter pedagógico e educativo, visam à reintegração familiar e comunitária do
adolescente infrator. O ato de indisciplina se caracteriza pelo descumprimento das
normas fixadas pela escola. Portanto, a solução está restrita ao âmbito escolar e as
punições, (página 111) de caráter pedagógico e educativo, estão previstas no
regimento interno escolar.

114. A escola deve fazer ocorrência policial quando constatar atos


ilícitos em seu interior ou em seu entorno?
As investigações criminais e o julgamento de autores de atos ilícitos não são
funções da escola. No entanto, é fundamental que se faça ocorrência policial, para
que os atos infracionais sejam devidamente apurados pelas autoridades
competentes, visando a responsabilização dos culpados. A informação de tais
ocorrências ilícitas contribui para que não haja impunidade, pois, caso contrário, ter-
se-á o crescimento da violência e da criminalidade infanto-juvenis. Por outro lado, a
não informação dos casos dificulta a ação das diversas instituições, uma vez que a
ausência de registros de ocorrências e de encaminhamentos adotados impossibilita
a geração de dados, estatísticas e estudos que possam resultar em políticas
públicas eficazes.

115. Há casos em que o aluno vítima de bullying, na tentativa de se


proteger ou se impor perante seus agressores, comparece às aulas armado.
Ante essa situação, o que o professor deve fazer?
O professor não deve se expor e nem expor seus alunos a riscos indevidos.
Nesse caso, o aluno deverá ser retirado da sala e encaminhado à direção escolar,
sem fazer nenhum comentário sobre o fato. Cabe à direção da escola tomar
providências no sentido de pedir auxílio - dependendo do caso, de forma anônima -
ou revistar o aluno, na presença de testemunha e em lugar reservado, e convencê-lo
a entregar a arma. É necessário sempre ter o cuidado para não expor crianças e
adolescentes a situações constrangedoras no momento da revista pessoal (ECA,
art. 232). Se o aluno infrator for menor de 12 anos, é preciso convocar um
representante do Conselho Tutelar para dar os encaminhamentos legais. Se for
maior de 12 anos, a polícia deve ser acionada para encaminhar o caso à Justiça.
Além de fazer os encaminhamentos, a direção (página 112) escolar deve submeter
48

o aluno às medidas disciplinares da escola. Lembramos que, caso o professor não


dê o devido encaminhamento, seu ato poderá ser interpretado como omissão, o que
fere o cumprimento do seu dever como profissional (Shelb, 2003).

116. Quando um aluno ameaça a escola com explosivos, que


procedimentos deve ser adotado?
Não somente esta situação, mas todos os casos de ameaça devem ser
relatados à direção escolar, preferencialmente por escrito. Sabemos que escolas
podem ser alvos de ameaças de explosões promovidas por adolescentes. A
facilidade na aquisição de explosivos, as receitas disponíveis na internet, a crença
no anonimato e na impunidade facilitam a atuação dos jovens, que são motivados
por razões pessoais ou coletivas, como, por exemplo, a intenção de paralisar as
aulas, especialmente em dias de provas, a expulsão ou suspensão de um aluno,
gerando revolta ou indignação, ou situações de conflitos entre alunos e entre alunos
e professores. Às vezes, um aluno vítima de bullying humilhado ou perseguido se
revolta contra a escola e, movido por idéias de vingança, resolve explodi-la, como o
que ocorreu em Columbine (EUA). O primeiro procedimento adotado pela escola
deve ser treinar os profissionais de segurança, recepção e limpeza a identificar
objetos e correspondências suspeitas. Muitas vezes, o aluno pode enviar o material
explosivo para a escola sem identificação ou deixar o embrulho em algum local,
como pátio ou banheiro. Por isso, qualquer material suspeito encontrado não deve
ser tocado, o local deve ser isolado e a polícia, acionada. É importante também que
os docentes observem se os alunos têm marcas de queimadura ou lesões que
evidenciem experiências com explosivos. É imprescindível que as situações
suspeitas ou evidentes sejam registradas na instituição e encaminhadas à
autoridade policial, que tomará as medidas previstas em lei, assim como a escola
submeterá o(s) aluno(s) a medidas disciplinares
(www.violenciacriminalidade.com.br) (página 113)

117. E quando há suspeita de furtos, o professor pode revistar o


aluno?
É comum entre as vítimas de bullying o desaparecimento constante de seus
pertences. O professor deve ser muito cauteloso nessa questão para não submeter
o aluno a situações constrangedoras. O ideal é que peça aos alunos para verificar
em seus pertences se não pegaram "por engano" o objeto desaparecido. Se não
aparecer o objeto ou o autor, o professor deve encaminhar o caso à direção escolar,
que poderá fazer vistoria nos alunos ou encaminhar às autoridades competentes.

118. A quem o professor deve encaminhar os casos quando estes


fugirem de sua alçada?
É imprescindível que o profissional tenha absoluto conhecimento dos limites
de sua função e da função dos demais profissionais da escola. Dessa forma,
compreenderá por que e quando deve encaminhar o caso a outros profissionais e
instituições. Por exemplo, os diretores dos estabelecimentos de ensino públicos ou
privados são responsáveis pela vigilância de tudo que ocorre no interior de suas
dependências. Cabe ao diretor, como autoridade máxima, promover sindicância
interna e decidir os procedimentos a ser adotados. Em determinados casos é
legítimo que encaminhe o caso para outras instituições, como o Conselho Tutelar ou
órgãos de proteção à criança e ao adolescente. Em determinadas situações é
necessário o encaminhamento anônimo, o pedido de sigilo e de auxílio da diretoria
49

ou secretaria de educação, visando a sua segurança pessoal, de seus profissionais,


dos alunos e da instituição escolar, como um todo.

119. E quando o agressor do estudante é justamente o professor?


As escolas são responsáveis pelos atos de seus profissionais. Por isso,
devem selecionar profissionais competentes e desenvolver permanente vigilância
dos atos (página 114) praticados. Ao profissional cabe proceder de forma que seu
comportamento sirva de exemplo para a conduta dos alunos. Portanto, havendo
situações que ameacem, constranjam ou coloquem em risco a integridade de um
estudante, a direção deve apurar as responsabilidades, podendo aplicar as penas
previstas no regimento interno, além dos devidos encaminhamentos externos, se
necessário. Alertamos para a importância da apresentação de provas seguras contra
o agressor. Caso contrário, a vítima é que poderá ser punida de acordo com o
regimento interno escolar e o professor poderá recorrer à Justiça para pedir-lhe
reparação pelos danos causados. Como disse Comte-Sponville (1999, p. 7) "se uma
virtude pode ser ensinada, é mais pelo exemplo do que pelos livros". É verdade que
um professor cujas ações são justas, solidárias e humildes tem muito mais
condições de formar igualmente alunos com tais virtudes, não somente porque
esses últimos o imitam, mas porque o vêem como sujeito significativo e, portanto,
buscam convergir seus próprios valores com os dele.

120. No caso de a escola ser omissa, como a família do estudante


agredido deve proceder?
Se a escola não proporcionar meios para a reparação dos danos provocados
pelo professor, a vítima e seu responsável deverão recorrer ao Judiciário, pedindo
indenização por danos morais e ressarcimento de despesas, como as de médico,
psicólogo, medicamentos e outras.

121. Por outro lado, se a vítima for o professor, o que deve fazer?
O professor tem assegurado o direito à segurança na atividade profissional,
com penalização da prática de ofensa corporal ou outra violência sofrida no
exercício das suas funções ou por causa destas. Caso o professor seja vítima de
ameaças ou de alguma outra forma de maltrato que coloque em risco a sua vida ou
a (página 115) sua reputação, deve procurar imediatamente a direção escolar. O
diretor é quem tomará as providências adequadas. Caso a escola se omita, o
professor deve se dirigir à delegacia de polícia para lavrar boletim de ocorrências.
122. O que a escola deve fazer quando convocar os país dos alunos
praticantes de bullying e eles se negarem a comparecer?
Sugerimos que todas as vezes que a escola convocar os pais faça-o por
escrito e arquive a cópia, com as devidas assinaturas. Caso os pais não
compareçam ou enviem terceiros para representá-los, nova convocação deverá ser
encaminhada, com o mesmo texto da convocação anterior, porém, acrescentando o
seguinte: "O não comparecimento implicará no encaminhamento à Vara da Infância
e Juventude, conforme o disposto no art. 249 da Lei n° 8.069/90" (Shelb, 2005, p.
117).

123. Que procedimento deve ser adotado pelo professor ao presenciar a


vitimizaçâo?
Não somente o professor, mas qualquer agente de segurança pública
(médico, policial) deve comunicar à autoridade competente os casos de suspeita ou
50

confirmação de maus-tratos contra criança e adolescente, sob as penas da lei (ECA,


art. 245). Por exemplo, um aluno é chamado constantemente por apelidos e "zoado"
quando faz perguntas. Nesse caso, o professor deve intervir imediatamente, de
forma que cessem os ataques e a situação de risco seja impedida. No entanto, o
professor deve ter muito cuidado para não expor o autor a situações de
constrangimento (ECA, art. 232), nem superproteger a vítima, impedindo que
desenvolva a capacidade de autodefesa. O professor deve agir com discrição na
orientação do aluno, respeitando-lhe a personalidade, as limitações e as condições
próprias de sua idade e formação. Se os maus-tratos forem graves, o professor deve
encaminhar o caso à direção escolar para que esta tome as medidas cabíveis, de
acordo com o regimento interno, ou ao Conselho (página 116) Tutelar. É
imprescindível que os profissionais da escola estejam capacitados a prevenir a
violência e a criminalidade infanto-juvenil e que as medidas adotadas sempre
tenham cunho pedagógico.

124. Qual é a responsabilidade do professor numa situação de


vitimização?
É muito difícil atribuir responsabilidades ao professor quando a maioria
desconhece o fenômeno, seus critérios de identificação e suas implicações. É
necessária, acima de tudo, a criação de políticas públicas emergenciais que
proporcionem às escolas o conhecimento desse tipo de comportamento e as
devidas ferramentas de enfrentamento. Entretanto, mesmo não reconhecendo o
fenômeno é dever de todo professor zelar pela qualidade da convivência pacífica em
sua aula e na escola como um todo. Sabemos que quando os professores atuam
com competência profissional e responsabilidade os comportamentos inadequados
ficam restritos a poucos alunos, além de ser inibida a ação dos autores de bullying.

125. Em casos de omissão do professor, a que o estudante deve fazer?


O estudante vitimizado deve imediatamente procurar a direção escolar em
busca de soluções. O profissional deverá ser responsabilizado, pois tem o dever de
denunciar às autoridades competentes todos os casos de suspeita ou confirmação
de maus-tratos contra crianças e adolescentes.

126. No cotidiano, como abordar o tema bullying com os alunos?


Sugerimos que o tema seja introduzido na educação infantil e nos anos
iniciais do ensino fundamental, por meio de histórias ou fábulas que trabalhem o
preconceito ou qualquer outra forma de exclusão e discriminação. Neste último ano,
desenvolvemos uma experiência muito interessante e os resultados se mostram
animadores. Trabalhamos com as crianças a dinâmica do bullying por meio da
história que consta no início deste livro. Pudemos sensibilizá-las e incentivar (página
117) o desenvolvimento de ações de cooperação, solidariedade e amizade dentro e
fora do ambiente escolar. Nas demais séries, o trabalho deve ser realizado com
textos, artigos ou pesquisa, especialmente na internet. Sugerimos ainda que a
escola discuta seu regimento interno e o ECA com os alunos, evidenciando os
diretos que os protegem, mas também os seus deveres. É importante que os alunos
conheçam, sobretudo, as medidas disciplinares estabelecidas pelo ECA. Sugerimos
que a escola convide algum profissional de segurança pública ou conselho tutelar
para auxiliar nesse trabalho.

127. Corno as escolas podem prevenir os maus-tratos entre os alunos?


51

As escolas devem oferecer ao aluno, além da qualidade de ensino, ambiente


seguro para o seu desenvolvimento emocional e socioeducacional. É imprescindível
que adotem estratégias de intervenção e prevenção do comportamento agressivo.
Devem disponibilizar espaços para que alunos e professores discutam o tema e
encontrem soluções para as situações apresentadas pelo grupo-classe. Neste
sentido, o programa antibullying Educar para a Paz propõe soluções por meio de um
conjunto de estratégias psicopedagógicas que devem ser aplicadas junto aos
profissionais de educação, alunos, pais e comunidade onde a escola está inserida. A
proposta do programa está alicerçada em tolerância, solidariedade, respeito às
diferenças, cooperação, visando à construção de um ambiente de paz na escola
(Fante, 2005). As assembléias de classe, os jogos cooperativos, as dinâmicas de
clarificação de valores e socioafetivas são estratégias que estamos desenvolvendo e
já se mostram eficazes na redução do comportamento bullying.

128. Quando se deve encaminhar os envolvidos em bullying para


outros profissionais?
Quando as estratégias adotadas não obtiverem êxito ou quando fugirem da
alçada do profissional ou da (página 118) instituição escolar - por exemplo, se um
aluno demonstra requerer cuidados de outros profissionais, com queixas freqüentes
de dores de cabeça ou no estômago, vômitos e desmaios, ou apresenta
comportamento agressivo, depressivo ou anti-social, dentre outros. Nesse caso, o
professor ou outro profissional que tenha observado ou presenciado os fatos deve
levá-los ao conhecimento da direção da escola e esta fará os devidos
encaminhamentos. Dentre eles, poderá convocar os pais ou responsáveis para
trocas de informações e orientações, poderá notificá-los e encaminhar o caso para
as devidas áreas profissionais ou ao Conselho Tutelar, quando não houver o
cumprimento da solicitação. Alertamos que todo encaminhamento deve ser formal e
impessoal, de preferência realizado pelo dirigente máximo da instituição. Todo o
encaminhamento realizado, seja interno ou externo, deverá ser feito por escrito.
Arquivar uma cópia do documento, com as devidas assinaturas, é outro requisito
indispensável, para segurança de todos.

129. Como a escola pode lidar com uma criança ou adolescente que
esteja sendo vítimizado?
Em casos crônicos a escola se vê impossibilitada de ir além das estratégias
que estão ao seu alcance. Sua função principal é orientar e encaminhar
corretamente os casos. Geralmente, sugerimos ouvir as partes envolvidas, por meio
de entrevistas individuais, a fim de compreender suas queixas, motivações e
sentimentos. Após a análise do caso, a direção escolar deve convocar os pais dos
alunos envolvidos para uma reunião, onde estes deverão tomar ciência da real
situação. O encaminhamento para multiprofissionais deverá ser por escrito e
arquivado no prontuário do aluno. Essa estratégia dá segurança ao profissional no
cumprimento de suas funções e à instituição. Nos demais casos, orientamos a
prática da reflexão e da interiorização de valores como técnica psicopedagógica
para o despertar do amor e de sentimentos de empatia, de tolerância, de respeito às
diferenças e de solidariedade. A formação de grupos de "pais solidários", visando o
envolvimento e (página 119) o compromisso com a escola, muito contribui para a
redução do fenômeno. Grupos de "alunos solidários" são treinados para auxiliar os
colegas que apresentam dificuldades de relacionamentos e de aprendizagem. O
objetivo é promover a inclusão dos alunos novos na escola ou daqueles que
52

apresentam extrema timidez ou retraimento, dificuldades de expressão e de


relacionamentos.

130. O que a escola deve fazer quando o aluno falta às aulas ou desiste
da escola por causa da vitimização do bullying?
O ideal é que a vitimização seja identificada e interrompida antes de produzir
prejuízos dessa proporção. Porém, tais fatos são comuns de acontecer, e muitas
vezes a família não tem muito claro o motivo das ausências ou da desistência da
escola, urna vez que a vítima silencia. A escola primeiramente deve se informar
sobre o motivo das faltas do aluno enviando um mensageiro à casa do estudante
para saber o que está acontecendo e convocar uma reunião com os pais. É
importante conscientizar os pais ou responsáveis de que a educação é um direito de
todos e um dever do Estado e da família (art. 205 da Constituição) e que eles
poderão responder perante o juiz da Infância e da Juventude caso mantenham a
criança fora da escola, inclusive por abandono intelectual (artigo 246, do Código
Penal). Se a escola não tiver sucesso, o caso deve ser encaminhado ao Conselho
Tutelar ou ao Ministério Público.

131. O que a escola pode fazer para evitar que o aluno que cumpre
medida socioeducativa se envolva em bullying?
O ideal é que, ao receber um adolescente que cumpre medida
socioeducativa, a escola guarde sigilo, assim como os seus profissionais. Deve
orientá-lo quanto ao seu direito de não dizer aos colegas sobre a sua situação e
para que, caso se sinta constrangido ou receba qualquer forma de maus-tratos,
comunique imediatamente (página 120) ao professor da sala ou à direção escolar.
Geralmente, como forma de se impor ou amedrontar colegas e professores, o
próprio aluno divulga sua situação e, por isso, se torna discriminado, excluído ou
zombado na escola, e também pode praticar o bullying. É importante debater o tema
com os alunos, uma vez que as escolas também são responsáveis pelo processo de
ressocialização. Assim evita-se o preconceito e estimula-se a inclusão e o respeito.

132. Como o programa educar para a contribui para o enfrentamento do


fenômeno?
Com esclarecimento e a utilização de práticas psicopedagógicas
desenvolvidas no programa antibullying Educar para a Paz, orientamos os
envolvidos a se conhecer e ter consciência de seus atos e para as atividades
estimulantes, promotoras de ações solidárias, de interesse e ajuda ao próximo. As
práticas desportivas, culturais, artísticas, além dos projetos sociais em prol de
entidades filantrópicas da comunidade, visam à valorização do ser e à
responsabilidade social. Os problemas de agressor e vítima, nos momentos de crise,
devem ser tratados com eles, e não com a turma. Quando as crianças aprendem a
se conhecer, pela tomada de consciência de suas ações e de seus sentimentos,
passam a se gostar e, do ponto de vista moral, a se respeitar, da mesma forma
como quando são respeitadas as suas intimidades. É verdade, enfim, que o respeito
à dignidade do outro só é conseguido quando se vê dignidade em si mesmo (La
Taille, 2006).

133. Quais são os resultados que as estratégias antibullying


promovem na escola?
Quando os profissionais são capacitados para atuar de forma efetiva e
53

contínua nas estratégias antibullying, os índices reduzem-se significativamente. A


escola passa a desfrutar um clima mais harmônico, com relações interpessoais mais
saudáveis e pacíficas, facilitando o processo de ensino-aprendizagem. (página 121)

134. Como as exolas podem transformar os espectadores em aliados na


luta contra o bullying?
A escola pode criar uma rede antibullying transformando os espectadores em
"alunos solidários". Estes devem ser treinados a auxiliar seus colegas dentro e fora
da escola. No horário de recreio podem percorrer os espaços isolados ou que tenha
mais dificuldade de supervisão a fim de fazer companhia aos que são excluídos ou
se isolam dos demais por temerem os ataques. Podem desenvolver atividades,
como o recreio dirigido, através de brincadeiras, pequenas apresentações teatrais,
musicais e corporais, como relaxamento ou alongamento. Na sala de aula, podem
ajudar os colegas em suas dificuldades, inclusive de aprendizagem. Em nossas
experiências, percebemos que ao converter os espectadores em "alunos solidários"
a ação dos agressores passa a ser inaceitável. Portanto, se os agressores perdem
os aplausos e o incentivo da platéia, conseqüentemente sua popularidade se
reduzirá, bem como a motivação para os ataques.

135. O que a vítima de bullying deve fazer?


Deve entender que o silêncio é a pior solução. Por isso, deve buscar ajuda,
conversar com os pais, professores, coordenação escolar ou um colega sobre as
vivências desagradáveis que tem sofrido na escola ou em qualquer outro ambiente,
procurar não ceder às pressões do grupo e nem ficar em lugares isolados dos
demais, para não facilitar a intimidação. No trajeto ou no transporte escolar, ficar
sempre próximo dos adultos ou de um amigo confiável.

136. O que o intimidador precisa saber?


Precisa saber que a escola dispõe de inúmeros profissionais dispostos a ouvi-
lo e entendê-lo, bem como ajudá-lo a canalizar sua agressividade em ações
proativas. A escola deve ensiná-lo a superar seus problemas, respeitar e conviver
com as diferenças e usar o diálogo como arma de resolução de conflitos. Por outro
lado, precisa saber que o seu comportamento não é aceitável e, como tal, é passível
de punição, de acordo com o regimento interno escolar e o ECA. (página 122)

137. O que os pais precisam saber para ajudar seus filhos a romper o
silêncio?
Sabemos que o mundo moderno e suas transformações vêm afetando
diversos cenários, dentre eles o das relações interpessoais. As diversas demandas
do cotidiano têm comprometido o relacionamento familiar, proporcionando certo
distanciamento entre seus integrantes. Porém, é imprescindível encontrar tempo
para a convivência saudável, especialmente com os filhos, manter diálogo
constante, conversar sobre os diversos aspectos da vida, conhecer o mundo deles e
deixar que conheçam o seu. É importante que os filhos encontrem em casa um
ambiente de amor e aceitação, favorável a que se expressem, tanto sobre seus
triunfos e suas conquistas como sobre seus fracassos e suas dificuldades nos
relacionamentos, nos estudos ou em relação a si mesmos.
É importante os pais e educadores considerarem que, antes de repreender os
filhos ou alunos, é preciso ouvi-los sem animosidades, com disposição de ajuda ao
fortalecimento da auto-estima na resolução de seus conflitos. Para isso é necessário
54

que se reforcem (elogiem) os aspectos (página 123) positivos das crianças e seus
acertos, para que se sintam seguras e confiantes. Somente assim é possível o
rompimento da barreira que impede a vítima de denunciar.

138. Caso a vítima relute em contar, quais são os procedimento que os


pais devem adotar?
Os pais devem estar sempre atentos aos comportamentos, aos hábitos, às
rotinas e às atitudes dos seus filhos. Qualquer mudança pode sinalizar que algo
diferente está acontecendo. Dessa forma, a observação e o diálogo são ferramentas
indispensáveis no cotidiano. Sugerimos que os pais disponibilizem "espaços" e
abertura para que a criança partilhe aquilo que lhe ocorre na escola, denuncie,
expresse os sentimentos e as emoções vivenciadas por ela. Alertamos que os pais
devem evitar criticar ou duvidar daquilo que a criança está relatando ou
responsabilizá-la pelo acontecido. Nesse momento, o anseio da vítima é encontrar
segurança e compreensão para falar de seu sofrimento, sem constrangimento ou
julgamento. Caso a criança relute em falar, o ideal é que (página 123) os pais
procurem a escola e relatem suas observações, para que a escola tome as mesmas
providências e sejam encontradas soluções conjuntas de intervenção.

139. É comum encontrar pais que, ao saber da vitimizaçâo, rotulam a


criança de “fracote"? Qual seria o procedimento mais adequado?
Infelizmente isso acontece em muitas famílias. Não somente os pais, mas
outros integrantes da família colocam a vítima numa situação de inferioridade ainda
maior. Não são poucos os casos em que ela é exposta perante irmãos e colegas de
escola, parentes, amigos da família ou vizinhos. São feitos comentários irônicos e
ela é responsabilizada pela falta de competência para lidar com a situação difícil em
que se encontra. Sabemos não ser esta a atitude que deve ser adotada. No entanto,
a ignorância ou a reprodução de experiências vividas pelos adultos faz com que
muitos deles acreditem que, se mexerem com os "brios" da pessoa, ela reagirá
positivamente frente a determinadas circunstâncias. É fundamental que os pais
compreendam que seus filhos não nasceram prontos e ainda estão no processo
básico de formação da personalidade, por isso ainda não adquiriram habilidades
para lidar com todos os tipos de situações da vida. Devem evitar repreender,
castigar ou reagir com agressividade quando a criança expõe suas dificuldades e
"fraquezas". Neste caso ela precisa de acolhimento, carinho, apoio e compreensão,
além de ações junto à escola, na tentativa de que providências sejam tomadas para
evitar ou interromper a vitimização.

140. É possível encontrar pais que não dão importância à vitimização e


até acham engraçado? Essa atitude pode ajudar a vítima a esquecer o
problema e tratá-lo forma natural?
Muitos acham graça ao saber das piadinhas, "zoações", "sacanagens" ou
apelidos que os filhos (página 124) recebem na escola. Com isso desvalorizam seus
sentimentos, dizem que são bobagens, brincadeiras da idade ou os incentivam para
que façam o mesmo. Para a vítima é difícil acreditar que são brincadeiras, pois
inúmeros sentimentos desagradáveis foram vivenciados, como vergonha, raiva e
medo. Revidar é praticamente impossível, pois se tivessem habilidades de defesa já
as teriam usado. Os pais devem entender que não é fácil para um adolescente
confessar que é ridicularizado, perseguido ou que apanha dos colegas. É como se
fosse um sinal de fraqueza, de impotência. Talvez, seja preferível apanhar todos os
55

dias a contar em casa o que ocorre na escola. Portanto, se a vítima se encoraja e


pede ajuda, deve ser ouvida pronta e atentamente. Não tem a menor graça para
ninguém sofrer qualquer forma de violência, de desrespeito e de desconsideração.
Se a vítima passa a achar normal a vitimização bullying, isso é preocupante. Ou
houve erro de diagnóstico ou conformismo e aceitação. Neste último, as
conseqüências poderão ser desastrosas num futuro próximo.

141. Existem pais que ficam com raiva e vão tirar satisfação dos
agressores dos filhos? O que este procedimento pode acarretar?
É normal que os pais fiquem com raiva, chateados ou aborrecidos ao
descobrir que seu filho se converteu em "bode expiatório" e que não está em
segurança na escola. Porém, incentivar o revide, tirar satisfação do agressor ou de
seus pais em nada ajudará. Ao contrário, pode acarretar problemas maiores para o
filho e para si. Não são poucos os pais, principalmente as mães, que adotam
atitudes impensadas, na ânsia de interromper a vitimização: intimidam o agressor,
pedindo explicações; apertam seu braço e o ameaçam; seguram-no ou encurralam-
no para o filho revidar; discutem ou mandam irmãos maiores da vítima darem uma
"lição" no agressor; exigem da escola providências e não dão o tempo necessário
para que as estratégias surtam efeito; pedem transferência da escola, sem resolver
a questão, o que acaba resultando em prejuízos para a vítima, uma vez que esta
tenderá a enfrentar os mesmos problemas em outra escola. (página 125) O ideal é
que os pais, em parceria com a escola, encontrem soluções tanto para os filhos que
são alvos, quanto para os autores de maus-tratos. Ambos necessitam de ajuda e,
muitas vezes, de encaminhamento a outros profissionais, especialmente da área da
saúde.

142. E quando o pai ou mãe é o agressor do próprio filho, o que a escola


deve fazer?
Muitas crianças e adolescentes são vítimas da violência doméstica e do
excesso de correção disciplinar. A escola deve, primeiramente, proteger a criança ou
o adolescente e encaminhar o caso ao Conselho Tutelar ou ao Ministério Público.
Em hipótese alguma se deve falar aos pais sobre as suspeitas, pois a criança
poderá sofrer represálias ou ser retirada da escola.

143. É necessário que a escola tenha provas para denunciar a violência


doméstica?
A denúncia deve ser feita em caso de suspeita ou confirmação de maus-
tratos. Nesse sentido, o professor tem papel fundamental na observação de
mudanças comportamentais, na constatação de alguma "marca" ou lesão corporal e
nos sentimentos expressos pelo aluno. Se o diretor se sentir intimidado pelo
agressor ou por seu responsável, poderá recorrer à denúncia anônima. Deve fazer
registro do fato e pedir sigilo em relatório. Caso a escola se omita, estará cometendo
uma infração administrativa grave (ECA, art. 245).

144. Como as famílias com pouca instrução podem perceber o


envolvimento dos filhos no fenômeno?
Qualquer pai, com ou sem instrução, pode observar mudanças no
comportamento dos filhos. O ideal é que seja estabelecido um ambiente familiar com
ênfase no diálogo, no respeito e na franqueza, para que os filhos possam se sentir
seguros ante as adversidades. Por isso, é fundamental que a escola conscientize os
56

pais sobre o fenômeno e os oriente na observação e (página 126) nos


procedimentos que devem adotar, além do estabelecimento de parceria com a
escola. É importante que os pais não vejam seus filhos apenas como vítimas, uma
vez que muitas crianças adotam comportamentos ambíguos no contexto familiar e
escolar, e que atendam às solicitações da escola quando esta se pronunciar.

145. O que os pais devem fazer nos casos de vitimização?


Dentre outras atribuições é dever da escola zelar pela proteção das crianças
e dos adolescentes que estão sob sua guarda e vigilância. Em casos graves a
escola pode ser legalmente responsabilizada. Portanto, os pais devem comunicar
imediatamente a direção escolar ao saber da intimidação e exigir que sejam
tomadas as devidas providências. Caso a escola se omita, é importante que se
busque auxílio junto ao Conselho Tutelar ou outros órgãos de proteção à criança e
ao adolescente. Em alguns países, existem centros de apoio jurídico que orientam
os pais nas questões de intimidação e auxiliam nas ações judiciais impetradas
contra a escola. Há casos noticiados em que as escolas foram responsabilizadas e
tiveram que pagar indenizações milionárias às vítimas. O ideal é que todas as
escolas tenham em seu projeto político pedagógico programas preventivos contra o
bullying.

146. É possível reduzir a ocorrência deste fenômeno?


Inúmeras ações e programas antibullying estão sendo desenvolvidos nas
mais diversas partes do mundo, com resultados extraordinários. No Brasil,
desenvolvemos o programa antibullying Educar para a Paz, composto por um
conjunto de estratégias psicopedagógicas que visam a redução do comportamento
agressivo e a formação de uma nova geração de paz nas escolas. Devido à
facilidade de sua implantação, inúmeras escolas brasileiras o adotaram na íntegra
ou em partes. O programa pioneiramente foi implantado em uma escola da rede
pública municipal de São José do Rio Preto, durante os anos letivos de 2002
(página 127) a 2004. Na implantação da primeira fase do programa, identificamos
que um em cada quatro alunos era vítima de bullying. Após dois anos de trabalho,
constatamos uma mudança significativa na realidade escolar: um em cada 25 alunos
era vítima de bullying. Ao longo dos anos, o programa vem se inovando, com a
inclusão de novas abordagens voltadas à educação para a paz e à qualidade de
vida de educandos e educadores. O cuidado com a saúde emocional e o
gerenciamento do estresse tem sido trabalhado de maneira prática, objetivando
ações preventivas que facultem o autoconhecimento e o desenvolvimento de
habilidades de gerenciamento e mediação de conflitos intrapsíquicos e
interpessoais. Em agosto de 2007, o Programa Educar para a Paz foi implantado na
escola municipal Cardeal Lemos, na cidade de São José do Rio Preto - SP e ao final
do ano letivo pode-se constatar redução dos casos de violência.
Atualmente no Distrito Federal, com o apoio do Sinepe - DF, o Cemeobes
firmou parceria voluntária com a Rede de Santa Maria, na cidade satélite de Santa
Maria - DF, para a implantação do Programa Educar para a Paz em duas escolas-
piloto daquela Diretoria Regional de Ensino (DRE). A referida Rede é composta por
profissionais voluntários das áreas de Educação, Saúde, Segurança Pública,
Assistência Social e Conselho Tutelar.

147. Existe uma receita para que pessoas vítimas desse mal possam se
livrar dos seus agressores? É possível dar a volta por cima?
57

Não existe receita pronta, pois cada indivíduo é um ser especial, com suas
dificuldades e habilidades. Muitas vítimas recorrem aos profissionais de psicologia,
que as ajudam na elevação da auto-estima, nas habilidades de assertividade,
resolução de conflitos e auto-superação. Algumas são resilientes e encontram suas
próprias soluções e, com o tempo, superam seus traumas. Outras carregam consigo
os traumas da vitimização, podendo tomar-se adultos inseguros, tensos, depressivos
ou agressivos, capazes de reproduzir no futuro o que (página 128) sofreram na
escola, na constituição familiar ou no local de trabalho. Existem aquelas que, em
decorrência da vitimização, podem desenvolver transtornos psicológicos, tais como:
transtornos do humor/afetivos; transtornos neuróticos, relacionados com o estresse
e somatoformes; transtornos da personalidade e do comportamento adulto. Ainda há
aquelas crianças com transtornos do desenvolvimento psicológico, que podem ter
sua situação agravada pelo envolvimento bullying.

148. Qual a saída para a redução desta fenomenologia entre os


escolares?
A cultura de paz é a saída para este e para todos os tipos de violência. As
escolas possuem um grande instrumento para reduzir o bullying e seus efeitos
negativos. Os profissionais que atuam junto aos alunos, especialmente os
professores, devem disseminar nos corações dos educandos as sementes da paz: a
solidariedade, a tolerância, o respeito às diferenças, a justiça, a cooperação, a
amizade e o amor. Com isso, as crianças aprendem a respeitar e a valorizar as
diferenças individuais, resolver seus conflitos e conviver em harmonia.
Vislumbramos um futuro de paz, via educação, desde os primeiros anos de
escolarização. As crianças têm grande poder de propagação de idéias, são
mutiplicadoras em suas famílias. Elas aprendem na escola e ensinam em casa -
uma educação em sentido contrário. Para isso, é necessário haver compromisso,
envolvimento e engajamento de toda a comunidade escolar, além de políticas
públicas que invistam recursos na pessoa humana e na formação do educador.
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