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FICHA TÉCNICA Índice


“O REGRESSO DAS BANDEIRAS” Ousar intervir e agir! • Carlos Humberto de Carvalho ...............................................................5
Para que nos servem os arquivos? • Silvestre Lacerda ............................................................ 7
ORGANIZAÇÃO E COORDENAÇÃO
Impedir não só o branqueamento da memória mas também a sua usurpação,
Câmara Municipal do Barreiro
tem um grande significado para todos os povos • Jerónimo de Sousa .................................... 11
PARCERIA Bandeiras de resistência e esperança, de liberdade e futuro • Arménio Carlos ..................... 13
Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas
Arquivo Nacional/Torre do Tombo A memória da ditadura e da Revolução • Manuel Loff ............................................................ 15
A URAP saúda “O Regresso das Bandeiras” • URAP
União de Resistentes Antifascistas Portugueses ..................................................................... 19
Acarinhar a memória. Projetar o futuro • Regina Janeiro......................................................... 21
Erguem-se as Bandeiras • Valu ................................................................................................23
INVESTIGAÇÃO E CONTEÚDOS
Rosalina Carmona – Câmara Municipal do Barreiro “O Regresso das Bandeiras” • Políticas da Memória ................................................................27
28 de Fevereiro de 1935 ...........................................................................................................33
CONCEÇÃO E DESIGN DA EXPOSIÇÃO/CATÁLOGO
WeenOne Mapa das Bandeiras ..................................................................................................................36
Contexto Internacional ............................................................................................................. 38
IMPRESSÃO
GIO – Gabinete de Impressão Offset, Lda. Contexto Nacional ................................................................................................................... 40
Da Ditadura Militar ao “Estado Novo” 1926-1933 .......................................................... 41
DEPÓSITO LEGAL: ???? Contra a fascização dos Sindicatos: O 18 de janeiro ......................................................43
Contextos Locais .......................................................................................................................44
DIREITOS RESERVADOS
© Câmara Municipal do Barreiro – 2016 A Militarização do Barreiro .............................................................................................45
Condições de Vida e Sobrevivência ................................................................................47
CONTACTOS
Email: espacomemoria@cm-barreiro.pt Resistir. A organização comunista local ........................................................................ 50
http://memoriaefuturo.cm-barreiro.pt/ Biografias prisionais • Fichas Policiais, acusações e sentenças. Os intervenientes

AGRADECIMENTOS no Processo das Bandeiras Vermelhas ....................................................................................59


Arquivo Nacional/Torre do Tombo “Fugidos” à Polícia .....................................................................................................................70
Editorial Avante!
Partido Comunista Português Percursos penitenciários ..........................................................................................................73
Acácio Ferreira
Carlos Alves Depois das prisões • Histórias por contar, ou a memória em construção .............................. 80
Joaquim José da Costa
Mensagens ................................................................................................................................87
Maria dos Anjos Paiva Rodrigues
Nanete Salvador da Silva Riachos Documentos ............................................................................................................................. 88
Olga Vera Garcia
Susete Salvador Oliveira Nota final.................................................................................................................................. 113

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OUSAR INTERVIR E AGIR!
CARLOS HUMBERTO DE CARVALHO
Presidente da Câmara Municipal do Barreiro

O
Barreiro agradece, a todos os que ao longo de séculos o construíram, aos que o em várias regiões do mundo, de aumento global da emigração por razões económicas,
constroem, diariamente, e aos que o irão construir no futuro. sociais e políticas, da dimensão dos refugiados em fuga da guerra em particular na
O Barreiro não esquece o terror do período da ditadura fascista, a luta Europa, “obriga-nos” a manter vivos na memória os horrores deste período no Barreiro,
abnegada, heroica, de imensos barreirenses que lutaram por direitos, pela liberdade, em Portugal e na Europa com o objetivo de disseminar informação, de alertar para os
pela democracia, pelo futuro. Ao realizarmos a exposição – O Regresso das Bandeiras – perigos e para a necessidade de intervenção.
e editarmos este catálogo, sobre o relevante acontecimento histórico de 1935, queremos O Regresso das Bandeiras é a valorização da intervenção, da combatividade, do agir
homenagear todos os que o construíram, mas queremos, também dar destaque à em comum e organizadamente. É valorizar a ideia de que mesmo quando tudo parece
interpretação dos que nele participaram e acima de tudo cumprir com uma obrigação. perdido é possível acender a luz da esperança, transformar a esperança em ação, a ação
Temos o dever de preservar a memória, porque essa é, também, uma função dos em transformações e as transformações em avanços civilizacionais.
poderes públicos. Não pretendemos ter uma intervenção “isenta, inodora, insípida” sobre Entendemos que com este olhar para a memória do passado contribuímos para um
a vida e os seus acontecimentos mais relevantes. Queremos, assumidamente, tomar presente e um futuro mais justo em liberdade.
partido pela democracia e pelos que lutaram pela liberdade e pelo 25 de Abril. É preciso não desistir!
Este conjunto de iniciativas a propósito dos acontecimentos de 28 de Fevereiro de É preciso traçar perspetivas, objetivos, metas!
1935 são mais que o olhar para trás numa perspetiva nostálgica ou passadista. São É preciso definir estratégia!
uma intervenção sobre o presente e o futuro da humanidade.O período histórico que É preciso semear a esperança!
atualmente vivemos de profundas desigualdades sociais, de pobreza de muitos povos, É preciso passar a palavra! Ousar intervir e agir!
de valorização do individualismo, de instabilidade internacional, de tendências radicais Um abraço!
conservadoras e de direita, de crise financeira, de desrespeito pelos direitos civilizacionais

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PARA QUE NOS SERVEM OS ARQUIVOS?
SILVESTRE LACERDA
Diretor-Geral do Livro, dos Arquivos e Bibliotecas Arquivo Nacional/Torre do Tombo

A
revolta de 18 de janeiro de 1934 fez-se sentir como uma resposta do movimento Em 1935, rezam as lendas, que uma bandeira vermelha foi desfraldada no ponto
sindical organizado contra o decreto nº 23050, que impôs o Estatuto Nacional do mais alto do Barreiro3. Passada de boca em boca, de geração em geração, existia no
Trabalho e pretendia acabar com o sindicalismo independente. Após ter sufocado Barreiro esta história… de luta… de uma bandeira vermelha4. Mas os acontecimentos da
a revolta, o governo da ditadura desenvolve uma extensa campanha comunicacional na noite de 28 de Fevereiro não se limitaram ao Barreiro, inserem-se na «Jornada de 25-2
qual decreta que é chegado o momento da paz social e da colaboração de classes! de fevereiro março: Contra a Fome! Contra Guerra! Contra o Fascismo!5», promovida
«Há precisamente um ano, que o salazarismo, - expressão portuguesa de fascismo pela CIS, com o apoio do PCP. No entanto só a imprensa clandestina, sem o lápis da
– decretou o encerramento e o saque dos sindicatos operários, independentes e criou censura, noticiou:
esses «abortos» a que deu o nome de «Sindicatos Nacionais ». 1
«Em Lisboa esta semana teve a sua expressão de rua. Os dísticos e os pequenos
Parecia que o fascismo tinha dado uma dura machadada no movimento operário. placards pulularam pelas paredes. Na Rua do Ouro caiu um aluvião de manifestos e
E foi de facto brutal!!! No mínimo um «total de 699 presos ligados à greve geral de pequenas folhas de agitação. Bandeiras vermelhas flutuaram em vários pontos
revolucionária. Se 76 dirigentes e militantes são detidos ainda antes da eclosão do (elevador de Santa Justa, Rua Maria Pia, Alcântara, CUF, etc.). Em Alcântara e na
movimento, 599 são-no entre o próprio dia 18 de janeiro e 31 de dezembro de 1934 e Esperança tiveram lugar comícios relâmpagos assistidos por grossas centenas de
outros 21 só virão a sê-lo em anos posteriores» . 2

Mas não o feriu de morte. A luta por melhores condições de vida continuou!
3 > TEIXEIRA, Armando Sousa – Barreiro: uma história de trabalho, resistência e luta (1926 – 1945).
Lisboa, Edições Avante: Colecção Resistência, 1997, p. 77-87. ISBN: 972-550-260-4.
1 > Profissional do Volante - Órgão do Sindicato Unitário da Indústria de Transportes Automóvel, janeiro de
1935. 4 > Sabemos que o relato do Administrador do Concelho, inserido no Processo do Tribunal Militar Especial,
nº 77-1935, in PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234, refere a apreensão de «7 bandeiras vermelhas
2 > PATRIARCA, Maria de Fatima – Sindicatos contra Salazar: a revolta do 18 de janeiro de 1934. com legendas comunistas» no Barreiro e Lavradio.
Lisboa, Instituto de Ciências Sociais, 2000, p. 458. ISBN: 972-671-062-6. Especificamente sobre
os acontecimentos do 18 de janeiro no Barreiro, ver também os artigos de António Maria Marques, 5 > Contra a Fome, a Guerra, e o Fascismo. Aos operários anarquistas, socialistas, republicanos e sem
publicados sob a designação genérica de «Memórias Políticas no Barreiro» no Jornal do Barreiro, ao partido! Aos operários organizados e desorganizados! Às mulheres e jovens que sofrem a exploração
longo de 1997 e 1998. capitalista. Separata do nº 10 de O Proletário. Lisboa, janeiro de 1935. A C.E. da Comissão Inter-Sindical.

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povo. Na Parceria deu-se a interrupção temporária de trabalho, a bordo de um dos Centro e Sul (Cartaxo, Alenquer, etc.) e 196 jornalistas reclamaram a cessação imediata “O Regresso das Bandeiras”, efeméride que evoca um acontecimento que marcou a contribuiu para manter viva a memória coletiva das gentes do Barreiro. Uma memória
navios ali em fabrico. No entreposto de Alcântara, um troço de operários parou em da censura à imprensa6». história do Barreiro é exemplo de que não se deve contrapor escrita versus oralidade na forte e que por isso mesmo resiste aos branqueamentos que lhe querem fazer.
sinal de tuta pela libertação de Thalmann. Nas principais fábricas a agitação interior Talvez a informação de maior difusão internacional e por isso mais conhecida metodologia da investigação em historiografia. Um e outro são registos úteis, que não Daí que paralelamente a um «dever de memória» torna-se necessário juntar

tomou uma acrescida expressão. A Carris de Ferro de Lisboa, assinala um caso deveras da historiografia, tenha sido a citação de Bento Gonçalves no VII Congresso da devem ser entendidos como meros registos do passado, mas como fontes de reflexão na mesma equação uma outra variável a do «trabalho de memória14» associada à
Internacional Comunista: «Também no Barreiro, pouco depois desta campanha, 3.000 para se aceder aos acontecimentos ocorridos. investigação de conhecimento do passado e à preservação e salvaguarda dos arquivos.
interessante: muitos placards foram afixados, placards que, no fim, a polícia e os
trabalhadores manifestaram-se pela libertação dos presos políticos. O traço particular Neste caso concreto, os documentos e as bandeiras foram encontrados devido à Foi este o contributo e tributo que o Arquivo Nacional da Torre do Tombo quis prestar às
agentes da companhia, arrancaram, com pinças, a fim de descobrirem, pelo exame
desta manifestação é que foi organizada pelas mulheres trabalhadoras7». Refira-se oralidade. A história da bandeira desfraldada na chaminé mais alta da CUF – que afinal gentes do Barreiro.
das impressões digitais, quem os tinha ali afixado. Formaram-se vários Comités de
a este propósito que estão, até ao momento referenciados 35 presos directamente foi hasteada nas Oficinas Gerais dos Caminhos-de-ferro - foi, à semelhança das lendas,
luta pelas reivindicações concretas dos operários. A Juventude Comunista, que havia
passando de boca em boca e de geração em geração, como afirmação do Barreiro
envolvidos nos acontecimentos, cujas biografias prisionais contabilizam cerca de 13.183
deliberado comparticipar na jornada do Partido, agitou a juventude trabalhadora e como terra de resistência. Foi a oralidade que esteve na origem da pesquisa dos
dias de prisão8, sendo de destacar o nome de Acácio José da Costa, com 3.498 dias e
estudantil. No Arsenal da Marinha, um Comité de aprendizes lutou pela questão das documentos. Foi nos arquivos que eles se encontraram. E foi através dos arquivos que
passagem pelo Campo de Concentração do Tarrafal9.
promoções. Em todas as escolas industriais tiveram lugar comícios-relâmpagos. Na a lenda passou a facto histórico! É também para isso que eles nos servem!
As fontes orais, muitas vezes consideradas menores para o estudo da história e
Academia registaram-se várias acções. Na própria terça-feira de Carnaval, um garoto Hoje em dia «em vez de afirmarem que os arquivos de uma nação são a sua
de outras ciências sociais deram o mote para a procura e pesquisa documental. «A
distribuiu, em plena Avenida da Liberdade, um pequeno folheto camuflado da Comissão memória, ou que, sem o arquivo, não haveria memória, os arquivistas poderão
separação entre o oral e o escrito, em sociedades em que coexistem, pode gerar
Inter-Sindical. No Barreiro uma bandeira vermelha flutuou, durante vários dias, no beneficiar de melhor compreensão [social, se demonstrarem de que forma] os arquivos
uma disjunção extrema, nomeadamente quando o escrito público é submetido a
cume da mais alta das chaminés das fábricas da vila. Em determinado dia, quando podem ser mobilizados para a descoberta ou recuperação de provas que estavam
um monopólio por parte de um poder, que censura a dissidência, e a oralidade –
perdidas ou negadas a comunidades em busca de memória12»
os operários se dirigiam para o trabalho, as ruas estavam completamente pejadas juntamente com o escrito clandestino – se torna um espaço de refúgio e resistência. A memória coletiva13 uniu passado e presente e indivíduo com grupo social, de tal
de folhas e manifestos do Partido e da C.I. Sindical. Durante umas duas horas a luz Nessas situações, ao passado do escrito oficial contrapõe-se a expressão do “registo maneira que chegou a produzir o sentido de continuidade histórica e a identificação do
eléctrica foi interrompida. Foram promovidos alguns comícios. No Alentejo alguns escondido10”, manifestação de dissidência e registo de uma memória alternativa11». indivíduo com a comunidade. O passado foi reconstruído pela memória, basicamente
levantamentos de trabalhadores rurais tiveram lugar. Noutras localidades do Sul
de acordo com os interesses, crenças e problemas do presente. Logo, a memória,
promoveram-se várias manifestações. Em Almada foi feita uma boa agitação. Um apesar da sua razão de ser reforçar a ideia de continuidade com o passado, vive
garoto percorreu as ruas apregoando o «Avante!» do Partido Comunista. A semana constantemente refazendo o seu próprio passado e funciona segundo um processo
de 25/2 fevereiro/março patenteou o estado do nosso trabalho no próprio seio das combinatório de imagens passadas baseado na persistência e na mudança incessante. A
forças militares. Na fragata D. Fernando o convés apareceu, uma manhã, cheia de continuidade histórica reside precisamente na reorganização constante dessas imagens
6 > Avante! Órgão Central do Partido Comunista Português (S.P.I.C.), II Série, nº 5, março de 1935.
folhas do Partido Comunista e da Organização Revolucionária da Armada. O mesmo do passado.
7 > Bento Gonçalves – Relatório ao VII Congresso da Internacional Comunista, pág. 16, in: Bento Gonçalves,
quase sucedeu na Sagres, e em todos os barcos de maior valor militar, foi grande a A memória coletiva torna-se necessária como construção ideológica para dar um
Álvaro Cunhal e Sérgio Vilarigues - O PCP e o VII Congresso da Internacional Comunista, Lisboa, Editorial
Avante: Documentos Políticos para a História do PCP / 7, 1985. Depósito legal: 6989/85, pp. 11-26. sentido de identidade ao grupo, à comunidade, à nação. O “Regresso das Bandeiras”
nossa afixação e a agitação intensa. No «Infante Dom Henrique» flutuou uma bandeira
8 > Dados obtidos a partir das biografias prisionais do Registo Geral de Presos, no Arquivo da PIDE-DGS.
vermelha. Do Alfeite foi lançado ao Tejo uma jangada que levava inscritas as palavras
9 > ALMEIDA, Vanessa – Acácio José da Costa e o 28 de Fevereiro de 1935 no Barreiro, in Estudos Sobre o
de ordem: Viva o Partido Comunista! Viva a Organização Revolucionária da Armada! Comunismo, https://estudossobrecomunismo.wordpress.com/category/bio/costa-acacio-jose/ acedido
em 22 de setembro de 2016. 12 > HEDSTROM, Margaret – Arquivos e memória colectiva: mais que uma metáfora, menos que uma
Com idênticas palavras de ordem foram lançados ao Tejo, de quase todos os navios
analogia, in: Terry Eastwood e Heather MacNeil (org.) - Correntes atuais do pensamento arquivístico,
de guerra, caixotes que deslizaram ao sabor da corrente. Na maioria dos quarteis de 10 > SCOTT, James – A dominação e a arte da resistência: discursos ocultos. Lisboa, Letra Livre, 2013. Belo Horizonte, Editora UFMG, 2016, p. 255. ISBN: 978-85-423-0163-2.

Lisboa fez-se sentir a nossa agitação... No próprio caminho da luta pela realização dessa 11 > SOBRAL, José Manuel – Memória e identidade nacional: considerações de carácter geral e o caso 13 > HALBWACHS, Maurice – La mémoire collectiva. Paris, Éditions Albin Michel: Bibliothèque de «L’Évolution
português. Working paper, disponível na pág. 7: http://www.ics.ul.pt/publicacoes/workingpapers/ de l’Humanité», 28, 1997. Édition critique établie par Gérard Namer, préparée avec la collaboration de 14 > AAVV - ?Por qué recordar?, Barcelona, Ediciones Granica S.A., 2002. ISBN: 84-7577-909-3.
semana, tiveram lugar fortes levantamentos de camponeses, na região vinhateira do wp2006/wp2006_4.pdf acedido em 22-09-2016 Marie Jaisson. ISBN: 2-226-09320-6. Intervenção de Paul Ricoeur, pág. 64.

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IMPEDIR NÃO SÓ O BRANQUEAMENTO DA MEMÓRIA MAS TAMBÉM
A SUA USURPAÇÃO, TEM UM GRANDE SIGNIFICADO PARA TODOS OS POVOS
JERÓNIMO DE SOUSA
Secretário-Geral do Partido Comunista Português

N
ós temos a responsabilidade de dizer aos jovens a verdade. Não se trata de ne- E esse ato - que alguns consideram meramente simbólico - teve consequências
nhuma visão saudosista, trata-se de preservar a memória. Creio que é um ato de dramáticas para quem o realizou, com a prisão, a deportação, de dezenas de
grande importância democrática, não só para os democratas mas também para o barreirenses.
nosso povo. A verdade é que eu considero que foi quase como que um alento de retoma da
Eu relevo muito este ato que foi realizado aqui no Barreiro em fevereiro de 1935, esperança. Com a derrota da 1ª República, e com a repressão que se instalou no nosso
tendo em conta a conjuntura. Tendo em conta a realidade nacional e internacional. País, quando tudo parecia perdido, alguém no Barreiro levantou a bandeira comunista, a
Tínhamos o fascismo que, iniciado em 1926, ainda estava a construir o Estado fascista, colocou de forma visível, outras se espalharam aqui pela Vila, então, foi como que, esse
tínhamos por esta Europa, em claro processo de ascensão, as forças mais bárbaras da alento de esperança, de que era possível alcançar a Liberdade.
natureza, como o fascismo, o nazifascismo, desde a Alemanha à Itália, a outros países Demorou muitos anos, é verdade. O povo do Barreiro teve que lutar muito mais do
de leste, também na própria Espanha, e com a realidade aqui em Portugal, era um que isso. Durante décadas. Como costumamos dizer «quando se luta, nem sempre se
quadro muito difícil. ganha, mas quando não se luta, perde-se sempre».
E estes homens e mulheres, estes barreirenses, resolveram fazer esse ato simbólico E o povo do Barreiro tinha esta consciência. Nem sempre ganhou. Mas um dia, a
de colocar uma bandeira do Partido (Comunista Português) naquela noite. De distribuir Liberdade venceu, em 25 de Abril de 74. Portanto, é a valorização que fazemos. Essa
propaganda, cartazes, panfletos, manifestos, com conteúdos muito concretos. É ler, ver, memória que tem que ser trazida à atualidade. Esta esperança de que é possível,
a reivindicação da redução do horário de trabalho, da luta por melhores salários, da luta sempre é possível, uma vida melhor, para quem trabalha, para quem vive e luta no
contra o fascismo, da luta contra a Guerra. Creio que tem uma grande atualidade nos nosso País.
tempos que correm.

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BANDEIRAS DE RESISTÊNCIA E ESPERANÇA, DE LIBERDADE E FUTURO
ARMÉNIO CARLOS
Secretário-Geral da Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses – Intersindical Nacional (CGTP-IN)

O
dia 28 de Fevereiro de 1935 constituiu um momento alto da luta da classe e a continuação da luta pelo derrube do regime fascista, que viria a ocorrer com a
operária do Barreiro contra o fascismo, a fome e a repressão, pela liberdade e a Revolução de Abril.
melhoria das condições de vida e de trabalho. “O Regresso das Bandeiras”, exposição que a Câmara Municipal do Barreiro trouxe
Uma luta ousada e espetacular que surpreendeu e ridicularizou o regime. Uma ao público, é uma justíssima homenagem a todos quantos, no Barreiro e no país,
ação movida por causas e convições que irradiaram esperança e criatividade, coragem
enfrentaram a noite fascista e com a sua ação trilharam o caminho que haveria de
para assumir o risco e confiança e determinação para fazer a luta necessária e há
conduzir à liberdade. É, ainda, um indispensável contributo para a compreensão desse
muito desejada.
período negro da história de Portugal e para a divulgação da luta que lhe pôs fim.
Este acontecimento histórico que passou de boca em boca, de geração para
Há 81 anos, no Barreiro, o povo foi brindado com bandeiras de resistência e
geração, e chega aos dias hoje como um exemplo vivo de que não há inevitabilidades,
esperança, de liberdade e futuro. Um exemplo que perdurou no tempo e se tornou
não aconteceu por acaso. Foi fruto da capacidade de organização do Partido Comunista
numa referência para o caudal de lutas que se seguiram em todo o país e que
Português e da Comissão Inter Sindical (CIS) e da audácia e bravura daqueles que a
idealizaram e concretizaram, sabendo das consequências a que estavam sujeitos: a constituíram o embrião da criação da Intersindical, em outubro de 1970. Saibamos

prisão, a tortura e a deportação. hoje, na luta pela transformação da sociedade e a construção de um mundo mais justo,
Mas ao enfraquecimento da resistência, idealizado pela ditadura com a forte livre da exploração do homem pelo homem, colher o exemplo dos que, nas condições
repressão desencadeada, respondeu o povo do Barreiro com as armas que tinha mais difíceis e com privações brutais, não claudicaram e lutaram pelo direito ao
nas mãos: um amplo movimento de solidariedade com os presos e as suas famílias trabalho e ao trabalho com direitos, pela democracia e a soberania do país!

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A MEMÓRIA DA DITADURA E DA REVOLUÇÃO
MANUEL LOFF
Historiador e Professor Universitário

U
ma vez superada uma ditadura, para que nos recordamos dela? Para enraizar a de lugares e ícones da memória – como é o caso de uma exposição como a do “Regresso
própria democracia que lhe sucedeu? Mas temos bem a certeza de que a democra- das Bandeiras”, organizada pela Câmara Municipal do Barreiro. Esses usos podem
cia em que vivemos radica mesmo na memória da opressão que a precedeu? Os incluir, contudo, como bem se tem percebido nos últimos anos, discursos de revisão
estados democráticos descrevem habitualmente a sua (re)fundação como resultando da só aparentemente científica e, se preferirem, académica, da interpretação da história
superação e da rejeição da opressão (política, social, étnica, cultural, de género...) que recente, mas que de facto revelam motivações políticas e ideológicas.
caraterizou as ditaduras que os precederam. Isto significa que há um sentido político, A II Guerra Mundial, com a derrota e a condenação do nazifascismo e das ditaduras
cultural, moral, na recordação de uma ditadura. Não é difícil perceber, contudo, que nos fascizadas, criou um consenso democrático antifascista que a Guerra Fria não
últimos 40 anos a memória social das ditaduras do séc. XX se tornou, cultural e politica- conseguiria dissolver até ao final do século. Nos anos 1960 e 70, ele foi reforçado pelo

mente, num intenso campo de batalha. Não estritamente político, note-se, ao contrário desmantelamento dos sistemas coloniais e pela condenação universal do colonialismo e

do que muitos pretendem dizer. Muito deste debate é de natureza historiográfica, ou pelo do racismo.
Uns 30 anos passados sobre o fim da guerra, começou o ataque à memória em que
menos baseado em teses apresentadas como se de História se tratasse, o que significa
se sustentava sobre o consenso antifascista. Quando em 1986, na Alemanha Ocidental,
que este debate está também inevitavelmente dependente da qualidade, da seriedade e
um filósofo político (Ernst Nolte) escreveu, num artigo publicado no jornal Frankfurter
do rigor com que se faz investigação histórica.
Allgemeine Zeitung, que a violência nazi fora a reação lógica ao que descrevia como o
Em todas as sociedades, quer tenham ou não sido submetidas a regimes de tipo
«extermínio de classe» de que o bolchevismo russo teria sido responsável, e enquadrou
ditatorial, a memória coletiva do passado, sobretudo do passado mais recente, é sujeita
«o aniquilamento dos judeus» no «confronto entre marxismo e anti-marxismo»1, a
a usos políticos em todas as suas expressões sociais e institucionais, desde a educação
polémica dos historiadores (a Historikerstreit) estava servida. Já então, a estratégia
aos meios de comunicação, sem esquecer as estratégias de comemoração/recordação
de acontecimentos/personagens (re)fundadores da democracia, isto é, da gestão pública 1 > NOLTE, Ernst, «Vergangenheit, die nicht vergehen will», in Frankfurter Allgemeine Zeitung, 6/6/1986.

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passava por banalizar o nazismo, enquadrando a experiência histórica da hiperviolência tem sempre um papel muito particular neste campo: a frontalidade com que ela é É politicamente muito significativo o reflexo que o descontentamento social louvores pelo seu papel na guerra em África (1992) e o convite a Óscar Cardoso para
nazi numa «era hitleriana» de que também fariam parte, segundo ele, o stalinismo, o tornada pública, a maior ou menor abertura dos arquivos públicos que a documentam, tem na forma como coletivamente nos lembramos e reconstruímos a memória da defender o caráter “científico” da PIDE na SIC, no 20º aniversário do 25 de Abril, o que
maoísmo, o nasserismo egípcio, o sukarnismo indonésio ou o gaullismo francês. Quatro constituem elementos decisivos no reforço ou constrangimento do funcionamento ditadura e da Revolução. Esta foi a diferença entre o 40º aniversário do 25 de Abril suscitou uma verdadeira revolta da memória e, finalmente, o confronto aberto de
anos após a queda do Muro de Berlim, Nolte chega ao ponto de pedir que «se reconheça democrático. A (des)memória das ditaduras, daquilo que as carateriza como sistemas e muitos dos anteriores. Em períodos de recessão económica e de regressão dos memórias absolutamente contrapostas sobre ditadura e Revolução. Desde então, a
que o nacional-socialismo, quanto ao seu anti-comunismo, não era desprovido de de opressão, da resistência que se lhes opôs e da luta que contra elas se moveu, é um direitos sociais, como ocorreu no 10º (1984), 20º (1994) e 30º (2004) aniversários, esquerda tem assumido abertamente, e sem complexos, a memória da Revolução e da
razão histórica», cuja «justeza (...) os factos demonstram» ! Ao seu lado colocaram-
2
indicador tão decisivo da qualidade da democracia em que vivemos quanto a memória os estudos de opinião mostravam que os portugueses tendiam a contaminar a sua legitimidade emancipatória do 25 de Abril, e reagiu perante a primeira tentativa da direita
se historiadores como Hans-Helmut Knütter, assessor histórico de Helmut Kohl, que da forma como se superou a ditadura, o que, no nosso caso, significa falar da memória recordação do passado ditatorial com a crise de confiança na qualidade do sistema de de dele se apropriar, consagrada no slogan oficial do governo Durão Barroso, em 2004,
se queixava dos historiadores «nacional-masoquistas» que insistiam em estudar o da Revolução de 1974-76, tantas vezes definida pejorativamente pela sigla “PREC”. Isto representação democrática; isto é: a crise socioeconómica produzia desilusão social face de que “Abril é evolução”. E não: fora “Revolução”!
Nazismo, portadores do «ódio dos alemães por eles mesmos», que «apresentam à é especialmente verdadeiro num momento em que a degradação brutal dos direitos ao regime democrático e uma revalorização das certezas autoritárias do salazarismo. A memória que cada um de nós, enquanto indivíduo e enquanto comunidade, carrega
nossa juventude a história do nosso povo como um álbum de criminosos» . 3
sociais que marcam o essencial da relação entre a lei e a qualidade de vida dos cidadãos Aparentemente, não é o que sucede nos últimos anos. A memória da ditadura, como consigo é o que cria a nossa identidade. Assumi-la e expressá-la publicamente é o passo
O caso alemão não foi único. O historiador Renzo De Felice procurou nos anos 70 tem vindo a produzir, apesar da viragem política dos últimos meses, uma crise muito sucede com todas as leituras de um passado relevante, acompanhou sempre a evolução mais deliberado para nos expormos ao mundo, não só enquanto portadores de memória
convencer os italianos de que o que se conhecia do Fascismo não era mais do que uma evidente da legitimidade democrática, que se faz acompanhar, habitualmente, da crise da da sociedade. O impulso revolucionário de 1974-76 abriu caminho ao desmantelamento mas sobretudo enquanto projeto do que queremos ser. Quem escolhe dizer que “Abril
simples «versão antifascista do fascismo» . Berlusconi integrou (1994) no governo,
4
crítica do autoritarismo. do Estado autoritário e à libertação da memória da opressão, da brutalidade com é evolução”, julga que a ditadura, o esmagamento de direitos, a opressão, a violência
pela primeira vez desde 1945, os neofascistas, abrindo um ciclo de reivindicação dos Há dois anos, no 40º aniversário da Revolução portuguesa, uma sondagem do que a GNR e a PIDE tratou camponeses e operários em greve, do Tarrafal e da sanha e a tortura, se devem superar lenta e gradualmente, esperando que quem oprime
valores e das motivações dos fascistas (aliados aos nazis que ocupavam a Itália desde Instituto de Ciências Sociais (ICS) permitia concluir que “o 25 de Abril é [para os persecutória contra os clandestinos comunistas, os anarquistas, os republicanos, os reconheça voluntariamente ser necessário deixar de o fazer. Quem, pelo contrário, se
1943) na luta contra a Resistência. Em França, Robert Faurisson lançara a discussão portugueses] um símbolo político positivo que democratizou o país e o principal marco estudantes das novas esquerdas radicais, do assassinato de Delgado, dos massacres lembra de “Abril [como] Revolução”, defende que não cabe ao opressor definir quando
sobre se Auschwitz e o Holocausto teriam sido uma mentira construída pelos aliados da nossa história” (PÚBLICO, 15.4.2014). Nela, 79% dos inquiridos diziam que a “nossa das populações coloniais (Bafatá, Pidjiguiti, Mueda, Cassange, Norte de Angola, …). deixa de o ser, mas que há que impedi-lo de o continuar a ser. O que escolhemos
e pelos judeus. Em Espanha, não cessa desde há quinze anos a polémica em torno das transição para a democracia”, pela via revolucionária, “é motivo de orgulho”. Realizada A derrota do projeto revolucionário trouxe consigo o silenciamento e a recordar é, portanto, o que escolhemos ser. Esse é o significado das políticas da
responsabilidades da Guerra Civil, da repressão e da dignidade moral das vítimas, depois no momento mais depressivo da vida portuguesa desde o 25 de Abril de 1974, em que desvalorização política e social da memória do antifascismo. Até à crise final do memória, como aquela que enforma esta exposição.
de anos de lenta exumação de valas comuns onde ainda repousam a grande maioria dos outros estudos confirmavam a profunda deceção dos portugueses com a democracia cavaquismo, a direita, que nunca quis discutir o legado da ditadura, tentou impor uma
150 mil republicanos assassinados pelos franquistas, de cuja reparação moral e legal que tinham, e que têm, ela permite concluir que esta deceção é independente da memória caricaturada da Revolução, para tentar relativizar a opressão salazarista e as
as autoridades espanholas (poder executivo e poder judicial) continua a fugir. Do outro perceção da Revolução dos Cravos. Por outras palavras, do que nos queixávamos é consequências da Guerra Colonial5. Nascia o revisionismo histórico à portuguesa: como
lado da Europa, ao mesmo tempo que as novas elites políticas checa, polaca e húngara daquilo em que se transformou o regime que o 25 de Abril permitiu criar, e não do 25 Cavaco chegou a dizer em 1986, os comunistas teriam tentado impor em Portugal
impunham a criminalização do Comunismo como ideologia, Yeltsin reabilitava o passado de Abril ou da democracia em si mesma – o que parece dar razão àqueles que, como os um “sistema realmente totalitário”, bem pior que as “ditaduras de direita” como a
czarista e Putin nacionalizava muita da herança de Stalin. capitães de Abril, há muito denunciam a desnaturalização do projeto e das esperanças de Salazar, ”apenas” - sublinhe-se: “apenas” - “violadoras das liberdades públicas”.
Em Portugal, não está encerrado o debate sobre a natureza política do Salazarismo de Abril. Foi exatamente o que quiseram dizer centenas de milhar de portugueses que, Muito próximo do que dizia Durão Barroso em 2014, elogiando a escola da ditadura, na
ou o peso da violência e opressão exercida pelo Estado, e muito pouco se discutiu sobre nas ruas deste país, cantaram durante anos a Grândola contra a troika, Passos Coelho, qual, “apesar de algumas liberdades cortadas, havia uma cultura de mérito, exigência,
o peso do colonialismo e da Guerra Colonial na vida de milhões de portugueses e de a austeridade, sem por isso clamarem por um novo Salazar: queriam outro 25 de Abril, rigor, disciplina e trabalho” (DN, 12.4.2014). Foi, também, então que se procedeu à
africanos. A memória da violência e da opressão exercida diretamente pelo Estado de novo, queriam fazer com que uma verdadeira democracia seja de novo possível! sobreposição de memórias e representações daqueles que se definiram como “vítimas
Quando a jornalista Natália Faria perguntou a Deolinda Araújo, operária têxtil, 54 anos, da descolonização”, ofuscando completamente as vítimas do colonialismo e da guerra.
a trabalhar desde os 11, o que achava ela da possibilidade de aumento do salário mínimo O cúmulo foi atingido com as pensões aos pides que haviam recebido de Cavaco os
2 > Nolte, in KRALI, Alberto (coord.), Intervista sulla questione tedesca, Roma-Bari: Laterza, 1993.
que ganhava há décadas, e com o qual “não se vive: sobrevive-se”, esta respondeu-lhe:
3 > Cit. in WEHLER, Hans-Ulrich, Le mani sulla storia. Germania: riscrivere il passato?, trad. ital., Florença:
Ponte alle Grazie, 1989 [ed. ori.: Entsorgnung der deutschen Vergangenheit? Ein polemischer Essay zum “Sabe o que eu queria, menina? Outro 25 de Abril” (PÚBLICO, 13.4.2014). 5 > Para um desenvolvimento destas questões, ver «Estado, democracia e memória: políticas públicas
«Historikerstreit», Munique: Verlag C. H. Beck, 1988]. e batalhas pela memória da ditadura portuguesa (1974-2014)», in LOFF, Manuel, PIEDADE, Filipe,
SOUTELO, Luciana Castro (coords.), Ditaduras e Revolução. Democracia e políticas da memória,
4 > Ver Explicar o Fascismo, trad. port., Lisboa: Edições 70, [1978]. Coimbra: Editorial Almedina, pp. 23-143.

16 17
A URAP SAÚDA “O REGRESSO DAS BANDEIRAS”
URAP União de Resistentes Antifascistas Portugueses

N
um tempo em que assistimos a tentativas diversas de reescrita da história, bran- Apesar da repressão, a resistência e a luta não abrandaram e, em julho de 1943,
queamento do fascismo e apagamento e desvalorização dos que protagonizaram a 14 000 operários da CUF, corticeiros e outros entraram em greve, com manifestações,
resistência e luta pela liberdade, a URAP congratula-se e saúda a realização da ex- marchas contra a fome e confrontos com as forças repressivas.
posição “O Regresso das Bandeiras”, bem como o conjunto de iniciativas que a Câmara Estes e outros episódios do passado de resistência e tradição revolucionária do
do Barreiro promoveu para assinalar os 80 anos da jornada de protesto contra a guerra Barreiro são um valioso património histórico que a Câmara tem procurado preservar
e o fascismo em 28 de Fevereiro de 1935. e divulgar, tendo aliás criado um galardão “Barreiro Reconhecido” que é atribuído
Momento alto da história do Barreiro na resistência antifascista, a jornada de anualmente a personalidades que se destacaram na resistência antifascista e luta pela
agitação e protesto de 28 de Fevereiro de 1935 foi uma vigorosa demonstração da liberdade.
abnegada coragem e ousadia do povo barreirense, em particular dos operários da A exposição “O Regresso das Bandeiras”, muito bem documentada graças à cedência
CUF e ferroviários organizados na Comissão Inter-Sindical. A distribuição de tarjetas e pela Torre do Tombo de diversos materiais constantes do “Processo das Bandeiras”,
panfletos, inscrições nas paredes e o hastear de bandeiras vermelhas nas principais incluindo algumas das bandeiras, é uma mostra que ultrapassa a dimensão local e
ruas do Barreiro e Lavradio colheu de surpresa as forças repressivas (GNR e PVDE) que cronológica da jornada de 28 de Fevereiro de 1935, já que a integra no contexto nacional
só na manhã de 1 de março lograram retirar do alto da chaminé das oficinas da CP uma da ditadura militar e no contexto internacional de ascensão do nazi-fascismo, além de
bandeira com a foice e o martelo e as iniciais PCP. Seguiram-se dias de feroz repressão, proporcionar um quadro muito nítido da resistência, organização e luta no Barreiro dos
sendo efectuadas 35 prisões e os acusados logo sujeitos a interrogatórios na delegação anos 40, contribuindo para manter viva a memória do que foram os dias do fascismo e da
da PVDE no Barreiro. Os espancamentos dos acusados provocaram a indignação e revolta resistência, a vida clandestina, as prisões e a censura.
popular, com destaque para as mulheres dos presos que a 12 de abril de 1936, quando A URAP que, entre os seus objectivos, pretende contribuir para a divulgação do que
a PVDE quis transferir alguns presos para Lisboa, organizaram uma concentração que foi a resistência antifascista e da importância de defender e consolidar as liberdades
juntou mais de 3000 pessoas exigindo a libertação dos detidos. democráticas, valoriza a realização deste conjunto de iniciativas, sob o adequado lema “O
A onda de revolta levaria a que a delegação da PVDE fosse retirada do Barreiro, Regresso das Bandeiras”, pois hoje, como ontem, continua a ser necessário empunhar
enquanto os 35 presos foram sujeitos a processos que integram o chamado “Processo as bandeiras da luta e o exemplo de coragem e determinação daquele punhado de
das Bandeiras” (na Torre do Tombo) e levados para os cárceres fascistas (Aljube, Caxias, revolucionários. Dá mais força na defesa da liberdade e da democracia.
Peniche, Tarrafal). A Direção da URAP

18 19
ACARINHAR A MEMÓRIA. PROJETAR O FUTURO.
REGINA JANEIRO
Vereadora do Departamento de Desenvolvimento Sócio-Cultural da Câmara Municipal do Barreiro

Q
ueremos encontrar os caminhos que nos aproximam, as redes que nos unem, os Acreditamos que o concretizamos promovendo o debate, a reflexão e a
traços que nos identificam. problematização sobre temas concretos, envolvendo as comunidades locais, os atores
Queremos fazê-lo de forma aberta e sistemática. sociais e o meio científico.
Queremos desocultar discursos, ações e experiências. O Regresso das Bandeiras faz parte deste caminho e do nosso percurso enquanto
Queremos olhar a história. Olhar-nos. Ver. comunidade.
Reforçámos há alguns anos o nosso trabalho em torno dos temas da identidade e Sentimo-nos bem quando, ao lado de outros, olhamos as nossas memórias,
da memória. as nossas decisões, as nossas trajetórias e conseguimos densificar o seu sentido,
Temo-lo prosseguido e aprofundado. Cada vez com mais parceiros e com mais fixando-lhes possibilidades presentes e futuras.
informação. Beneficiando de novas pistas e ideias. Ficamos mais ricos. Mais seguros.
Acreditamos que incide sobre os poderes públicos – também sobre as autarquias – Mais perto uns dos outros.
um especial dever de preservação da história, identidade e memória coletivas. Mais próximos dos sonhos.

20 21
Entre quatro paredes

ERGUEM-SE Na sombra da memória


Guardas o papel no bolso
Ideias que fazem História

AS BANDEIRAS Dois gajos sentados


Logo estão a conspirar
A vida não dá descanso
A quem se quer levantar

Entre carris de ferro


Entre a força e a razão
Os chibos que desprezo
E aqueles que te dão a mão

Ao alto as bandeiras
O acordar da multidão
Sentado na cadeira
Ainda pensa que é patrão
Atuação de Valu na exposição
“O Regresso das Bandeiras”.
Erguem-se as Bandeiras!

VALU
Letra, música e voz

Março de 2016

Estação fluvial e oficinas da CP. Ao fundo, a grande chaminé onde foi hasteada
uma das bandeiras. Postal em esperanto, Cliché Álvaro Torres, CMB

22 23
Inauguração da Exposição “O Regresso das Bandeiras” no dia 28 de Fevereiro de 2016 no Espaço Memória

24 25
“O REGRESSO DAS BANDEIRAS”
POLÍTICAS DA MEMÓRIA
“O Regresso das Bandeiras” insere-se num «As jornadas de agitação efectuadas em setembro com milhares de portugueses feitos presos políticos,
quadro mais amplo de promoção de políticas públicas e novembro do ano findo, no Barreiro, não tiveram torturados e até assassinados.
de valorização e reconhecimento da memória da a proporção da que se realizou na noite de 28 de Outros foram condenados ao degredo colonial nos
resistência antifascista em Portugal, no período de Fevereiro último, pois esta sem exagero, foi grandiosa, campos de concentração, onde muitos acabaram por
1926-1974, só possível com a conquista das liberdades deixando apavorada a parte directiva da Companhia morrer.
após a Revolução de 25 de Abril. União Fabril e Caminhos de Ferro e até a própria Esta ação da polícia ao conservar “as provas”
No contexto do património comum das lutas do autoridade administrativa.» 2
nos seus arquivos, fez com que, ainda que
povo português contra a ditadura fascista, nas quais A surpresa da ação, não impediu contudo, a reação involuntariamente, se fossem constituindo repositórios
o povo do Barreiro desempenhou um papel ímpar, a eficaz das forças policiais, que durante toda a noite de memórias resistenciais3 e são eles que nos
“Semana de Agitação e Luta” que culminou no dia 28 de destruíram e retiraram a maior parte da propaganda permitem, no presente, conhecer parte da história
Fevereiro de 1935 com a colocação de várias bandeiras e bandeiras, exceto uma, a que se encontrava no topo da resistência política antifascista em Portugal.
vermelhas - e não apenas uma - nos pontos mais dos 36 metros da chaminé das Oficinas Gerais do Deste modo nos chegaram as bandeiras vermelhas,
importantes da Vila, haveria de ficar indelevelmente Caminho-de-Ferro que, durante várias horas, flutuou ao literalmente cozidas aos processos dos presos políticos
gravada na memória coletiva dos barreirenses. vento, podendo ser avistada por toda a população da do 28 de Fevereiro de 1935, existentes no Arquivo
Considerada, até pela polícia política, uma «jornada Vila. Nacional/Torre do Tombo.
grandiosa» causou grande impacto e estupefação, Uma parte importante do material de propaganda Contudo, o uso das fontes policiais levanta sempre
a julgar pela reação brutal que se lhe seguiu com apreendido como tarjetas, jornais e panfletos, e pelo reservas pois, nos depoimentos dos presos políticos,
centenas de perseguições, detenções, prisões e menos três bandeiras, foram propositadamente obtidos geralmente em interrogatórios sob coação,
acusações, das quais resultou a constituição de 47 guardados pela polícia, com o fim de constituírem tortura e outros meios violentos, o que muitas vezes
arguidos – todos julgados em Conselho de Guerra pelo
1
prova incriminatória contra os acusados, conhecido nos chega não é o testemunho direto do preso nem
Tribunal Militar Especial de Lisboa - numa altura em que era o objetivo das polícias políticas fascistas em
que o regime de Salazar julgava dominada e anulada aniquilar toda e qualquer forma de resistência contra
toda a resistência, sobretudo após o fracasso do 18 de o “Estado Novo”. Foi assim que, durante décadas, o
janeiro de 1934 no qual o movimento operário e sindical país se transformou num imenso cárcere da ditadura,
sofrera uma grave derrota.

3 > Termo adotado de Manuel LOFF, Ditaduras e Revolução


1 > Vd. Lista dos arguidos elaborada pela “Secção de Defeza Política 2 > Relatório da PVDE, 16 de maio, 1935, PT-ADLSB-JUD-TCLSB- Democracia e Políticas da Memória, in ‘A luta pela memória em
e Social da PVDE”, PT-PIDE-E-015-133735 C-C-001-14234-2 Portugal’, Almedina, 2014, p. 32

26 27
A ocultação do acontecimento daquela barreirenses que, inclusive, houve quem o quisesse todas as ruas. Muitos tiros disparados pela Guarda pano vermelho que, pegado a um pau lhe espetaram,
madrugada de 28 de Fevereiro de 1935 na imprensa registar – como se nele já pensasse ‘para memória Republicana na Rua Aguiar, caindo alguns fios da certa noite, bem escura, lá mesmo no topo.»11
oficial – que não lhe faz qualquer referência -, futura’. Foi o caso do ferroviário José António Marques, iluminação pública. Durante o conflito apareceu o Esta apreciação de Armando da Silva Pais sobre
evidencia como o regime, passados os primeiros que tudo anotou no seu diário pessoal, em que nos dá Sr. Gregório Mateus, escriturário da Exploração dos o acontecimento, não pode ser vista como inócua
momentos da surpresa, tentou lançar sobre conta do mesmo acontecimento, mas na sua particular do ponto de vista histórico, dadas as suas ligações
Caminhos de Ferro, levou uma tareia das mulheres,
ele o manto do silêncio, procurando omiti-lo ao forma de escrever e olhar. familiares e políticas ao regime de Salazar. Era irmão
fugiu para o estabelecimento do Sr. Daciano e ficou
conhecimento público. Porém já era tarde. «12 Abril de Silva Pais Diretor-geral da PIDE/DGS (1962-1974)
sem a bengala».9
A jornada das bandeiras irá sobreviver na Fui à Praça da República, pois estava mais de 600 e foi nomeado pelo regime para vice-presidente da
Passados 13 anos sobre estes acontecimentos, a
memória e no sofrimento dos presos políticos e das pessoas, a maioria mulheres, sendo esposas, filhos, Câmara Municipal do Barreiro, entre 1965 e 1967.
perseguição aos envolvidos no processo das bandeiras
suas famílias e será transmitida oralmente, ainda pertencentes às famílias dos presos, etc., A multidão Após a Revolução do 25 de Abril registaram-se as
que em perigoso segredo, de geração em geração. ainda se mantinha ativa, como se pode verificar pelo
mantida pela G. Republicana com grande dificuldade, primeiras homenagens aos resistentes antifascistas
Durante décadas persistiu e alimentou a memória caso de Vicente Sequeira. Tendo conseguido escapar implicados no processo das bandeiras vermelhas,
principalmente o mulherio aos gritos e à pedrada
coletiva, tornando-se quase uma lenda, como à perseguição da polícia política, este ferroviário saiu momentos afetivos de reconhecimento às vítimas do
ao posto policial e Estabelecimento do Sr. Daciano,
uma das histórias mais audaciosas da resistência do país e chegou a Espanha, onde irá combater ao lado terror, perseguição e violência do estado fascista. O
queriam a liberdade dos presos. Neste momento estava
antifascista no Barreiro: a bandeira vermelha dos republicanos. A vitória dos insurretos franquistas acontecimento será publicamente recordado, passando
Margarido, Francisco Sousa Júnior e outros no posto
hasteada na chaminé das Oficinas dos Caminhos de levá-lo-á às prisões fascistas espanholas, onde a ser comemorado livremente pela população.
Policial, donde saiu o Sr. Cabo Policia Cardoso e um
Ferro (CP). ficou encarcerado durante 8 anos. Sendo libertado «A libertação coletiva foi acompanhada, como
guarda, este fardado, sendo disparado pelo Cabo um
Bandeira colocada por Flávio Alves e César Rodrigues de Oliveira, junto A imprensa clandestina da época, como o jornal
à fábrica Corticite, na estrada do Lavradio, onde se situam hoje os TCB. Bandeira colocada por Martinho Coelho, no sinal luminoso da CP, junto tiro para o ar. Era 19.10h chegava no automóvel o Sr. da prisão central de Burgos em 11 de dezembro de sempre acontece, pelo reconhecimento às vítimas
Foto: Arquivo Nacional /Torre do Tombo “Avante!” órgão do Partido Comunista Português, ao Bairro das Palmeiras. Foto: Arquivo Nacional /Torre do Tombo
Quintela Paixão, vindo no mesmo o Sr. Bento da Silva 1947, regressou a Portugal. Ao entrar no país será do direito a serem ouvidas, e por um consenso
dá conta do acontecimento e da violência repressiva amplamente maioritário em torno da homenagem
a verdadeira «voz das vítimas»4, mas tão só o que a A G.N.R. recebeu ordem de carregar. Soaram as Fernandes, administrador do Concelho, o qual deu imediatamente capturado e encontrava-se preso na
que se seguiu, ao mesmo tempo que exalta a ao resistente e/ou ex-preso, ainda para mais num
polícia quis que ficasse registado5. primeiras descargas. Então registaram-se casos de um ordens à força da guarda para dar liberdade ao povo, PIDE, desde 10 de janeiro de 1948.10
coragem da população barreirense frente à ação contexto em que a liberdade surgia como resultado
Assim, e neste sentido, procurámos tratar verdadeiro heroísmo. Algumas mulheres destacavam- este em massa cercando o posto Policial pedindo a Anos mais tarde – em 1967 - ainda a visão da
policial, em especial das mulheres. dessa mesma resistência e em que esta aparecia como
com alguma cautela a informação proveniente dos se, justamente à cabeça dos manifestantes, e liberdade dos presos etc., querendo linchar o Cabo bandeira vermelha hasteada na chaminé das Oficinas,
«O Povo do Barreiro luta pela libertação dos a metodologia para a construção da democracia.»12
Arquivos da Repressão e Resistência6, não aceitando debaixo das rajadas de fogo ofereciam o seu peito Cardoso e o Sr. Tenente apareceu a uma das janelas do atormentava o regime fascista e, uma voz da ‘história
presos! A partir de 1983, a Câmara Municipal do Barreiro
acriticamente tudo quanto nos podem mostrar. às balas e gritavam: “Que ninguém arrede pé!” Uma posto, falando ao povo pedindo para recolher às suas oficial’ local referia-se ao acontecimento, nestes
O Barreiro foi sacudido, a 19 de Abril , por uma
7
institui o Galardão ‘Barreiro Reconhecido’, com o qual
outra inutilizava um GNR. Da multidão feminina, casas pois que ia providenciar sobre a situação dos
potente manifestação de massas. Esta manifestação termos: passa a distinguir cidadãos do concelho que mais se
4 > “Aljube – A Voz das Vítimas”, Fundação Mário Soares/Câmara principalmente, gritava-se, em uníssono: “Vamos para a presos, o povo fez-lhe uma manifestação de simpatia.
teve lugar como resposta à prisão e às torturas «Noutra ocasião, impávida e serena, suportou a destacaram em determinadas áreas ao longo da sua
Municipal de Lisboa/Instituto de História Contemporânea,
Universidade Nova de Lisboa, 2011 selvagens aplicadas pela Polícia de Informações a cerca greve, até que libertem os nossos presos!”8 O Sr. Tenente veio novamente à janela mais de três
mesma chaminé, não outro vento ciclónico, mas o vida, e define como uma das categorias do Galardão, o
de meia centena de operários presos, após a semana O impacto da jornada do dia 28 de Fevereiro vezes, estavam mais de 1000 pessoas.
5 > Sobre a crítica das fontes policiais vd. PATRIARCA, Fátima – símbolo do que seria outra espécie de «ciclone»: um reconhecimento à Resistência Antifascista. Alguns dos
“Sobre a leitura das fontes policiais”, http://analisesocial.ics.ul.pt/
de 25-2 fevereiro-março, promovida pelo PC. (…) de 1935, marcou de tal forma a vida de alguns Às 20.10 chegou de Setúbal numa camioneta, uma
documentos/1218794013U5wHP1yw1Zo18EE8.pdf. Consultado
em 6/10/2015; Irene Pimentel http://irenepimentel.blogspot. força da policia esta desembarcou junto à Padaria 9 > Diário dos principais acontecimentos de 01 de março a 4 de julho 11 > Artigo de Armando Silva Pais, ‘Jornal do Barreiro’, 14 de
pt/search?updated-min=2010-01-01T00:00:00Z&updated- 8 > “Avante!”, Série II, nº5, março 1935, in http://www.ges.pcp.pt/ de 1935, in «Registo dos Factos Mais Notáveis no Ano de 1934- setembro, 1967, a propósito da demolição da grande chaminé
bibliopac/imgs/AVT2005.pdf e «O povo do Barreiro luta pela
do Ventura, fizeram fogo de pistolas sobre o povo e
max=2011-01-01T00:00:00Z&max-results=50 1935», CMB/EJAM/Lº 14, 1934-35. das Oficinas da C.P.
Libertação dos Presos!» “Avante!”, Série II, nº 7, maio, 1935, p. 3 – outros distribuíram espadeiradas, havendo muitos
6 > Termo usado no Brasil para os arquivos do período da ditadura 7 > O confronto com outras fontes revela que a manifestação terá Gabinete de Estudos Sociais, Partido Comunista Português (GES/ 10 > Informação a partir do Processo das Bandeiras em: PT-ADLSB- 12 > Ditaduras e Revolução, Democracia e Políticas da Memória ‘A luta
militar ocorrido a 12, e não a 19 de abril de 1935. PCP) feridos mas sem gravidade, havendo correrias por JUD-TCLSB-C-C-001-14234-4 pela memória em Portugal’- LOFF, Manuel, Almedina, 2014, p. 33

28 29
participantes da jornada de 28 de Fevereiro de 1935 O outro trabalho aborda o tema de um ponto de Neste contexto, pela importância que assume
serão então condecorados, como foi o caso de Acácio vista académico, numa análise histórica e documental na formação da nossa identidade a valorização das
José da Costa e Flávio Alves em 1985 e José Simões que se centra, especialmente, no conhecimento do memórias das lutas de resistência contra a ditadura,
Salvador (José da Mina) em 1998. funcionamento da organização comunista do Barreiro à no período de 1926-1974, intrinsecamente associadas
Em 1985, na data em que passou meio século sobre época, num momento situado, precisamente, entre 18 ao Barreiro, “O Regresso das Bandeiras” revela-se
o acontecimento, a Câmara Municipal do Barreiro, então de janeiro de 1934 e 28 de Fevereiro de 1935. 15
uma possibilidade efetiva, ao transmitir às gerações
sob a presidência de Hélder Nobre Madeira decide, em Passados mais de 80 anos sobre este presentes e vindouras, como os exemplos de coragem
Ata de 23 de janeiro, homenagear a histórica jornada de acontecimento, que marcou dramaticamente gerações e ousadia, de luta e resistência podem conduzir a
resistência, através da atribuição do nome de “Rua da de barreirenses, pelo sofrimento intenso dos presos, vitórias, mesmo nas condições mais adversas.
Bandeira Vermelha” a uma das novas artérias junto ao pela dor da ausência dos familiares, pela violência A conquista da Liberdade em 25 de Abril, é disso o
Largo do Palácio Coimbra, perto do local onde existira física e psicológica exercida durante décadas sobre a melhor exemplo.
a chaminé, bem como a colocação de uma lápide generalidade da população do Barreiro, “O Regresso
comemorativa, onde se podia ler: das Bandeiras” revela que continua a ser necessário
«Homenagem aos Antifascistas travar batalhas contra o esquecimento e pela memória
Que Içaram a Bandeira Vermelha dos que a não têm, ou dos que pela ‘História oficial’
Na Chaminé dos Caminhos de Ferro foram silenciados. A “Jornada de Luta de 28 de
27 de fevereiro de 1935» 13
Fevereiro de 1935” constitui uma memória resistente,
Em 1997 e 2005 foram publicados dois trabalhos, que quase foi silenciada e apagada pelo tempo, mas que
onde o acontecimento das bandeiras vermelhas é um sobreviveu ao olvido.
dos temas tratados. No primeiro caso o assunto será Daí, que, “O Regresso das Bandeiras” ao seu local
abordado sob a forma de «uma narrativa ficcional, de origem – o Barreiro -, em estreita colaboração com
onde, provavelmente, estaremos mais próximos da o Arquivo Nacional/Torre do Tombo, se revele uma
realidade do que a «verdade» das versões desses oportunidade de construção de políticas públicas que
factos…» . 14
promovam o acesso livre e democrático dos cidadãos
aos processos políticos que tanto marcaram a história
do Barreiro e do país16 - como é o caso – permitindo
compreender o passado e encontrar sentidos para o
presente e o futuro.

Bandeira colocada na grande chaminé das Oficinas da CP por Acácio José da Costa,
António Fernandes, Joaquim Claro Garcia e José João Rodrigues.
15 > ALMEIDA Vanessa de – Um momento de Viragem do 18 de janeiro Foto: Arquivo Nacional /Torre do Tombo
de 1934 ao hastear da Bandeira Vermelha em 1935, ed. Câmara
Municipal do Barreiro, 2005
13 > Por lapso é indicado o dia 27 quando deveria ser 28 de Fevereiro
16 > De consulta livre PT/ADLSB/JUD/TCLSB/C-C/001/14234-1 http://
14 > TEIXEIRA, Armando de Sousa – Uma História de Trabalho, digitarq.arquivos.pt/details?id=5796032; PT/ADLSB/JUD/TCLSB/
Resistência e Luta (1926/45), edições Avante!, 1997, p.10 C-C/001/14234-2 http://digitarq.arquivos.pt/details?id=5808453

30 31
28 DE FEVEREIRO DE 1935
«1 de Março

A
noite passada, ignorando-se quem fosse, apareceu pintada nas fachadas dos edifí- fábricas e nos campos, nos transportes e comunicações, nos bairros e nas escolas, nas
cios e muros, foices e martelos em vermelho, manifestos clandestinos pelas ruas casernas e navios de guerra, de Comités de Luta contra o fascismo e contra a guerra!»3
e Bandeiras Vermelhas nas chaminés das fábricas e postes dos telégrafos, sendo Além destas palavras de ordem, o documento apela também à luta pela «elevação
uma delas colocada no topo da grande chaminé das oficinas gerais do Caminho-de-fer- do nível de vida das massas pobres, contra os orçamentos militares, contra os novos
ro situada num terreno anexo à cooperativa dos mesmos Caminhos-de-ferro. Apareceu decretos sobre a guerra e pela amnistia para todos os presos políticos e sociais!»4
dentro das oficinas gerais dos Caminhos-de-ferro e Companhia União Fabril por todas No Barreiro a jornada terá o seu ponto alto na noite de 28 de Fevereiro de 1935,
Secções e escritórios etc., manifestos, jornais clandestinos. Pois foi assunto de todas as tendo alcançado um impacto surpreendente. Nessa noite, por volta das 22 horas,
conversas.» 1
durante pouco mais de uma hora a Vila ficou às escuras. Foi o tempo suficiente para
Num quadro de profundo agravamento da crise económica e social, desde janeiro de que em todo o Barreiro, Lavradio e também em Alhos Vedros, fossem colados e
1935 que a Comissão Inter-Sindical (CIS) vinha apelando à preparação de uma jornada «afixados nas paredes, muros, portas, janelas, por toda a parte enfim, e também
de luta e ações de massas contra a intensificação da exploração patronal, a miséria e as espalhados pela via pública […] manifestos de propaganda subversiva e sete bandeiras
condições de vida da população, sob o lema “Contra a Fome, a Guerra e o Fascismo!” 2
vermelhas com legendas comunistas»5
Procurando retomar a participação ativa dos trabalhadores na vida sindical, Logo que a iluminação foi restabelecida, o Administrador do Concelho percorreu
profundamente afetada pela duríssima repressão política e histeria anti-comunista «toda a área da Vila do Barreiro e a do Lavradio, arrancando centenas de manifestos
desencadeadas após os acontecimentos do 18 de janeiro de 1934, o Secretariado de todo o tamanho e feitio e tirando fora dos fios aéreos as bandeiras vermelhas (…).
do Comité Central do Partido Comunista Português difunde um documento onde se Este serviço só poude ficar concluído às 5 horas, ficando apenas uma bandeira no alto
proclama uma Semana de Agitação e Luta e outras ações, contra o fascismo e a da enorme chaminé dos caminhos de ferro, a qual foi dali retirada às 9,30 por pessoal
ditadura salazarista. habituado a subir áquela altura…»6.
A ação deveria decorrer na semana de 25 de fevereiro a 2 de março, devendo Durante várias horas a bandeira vermelha flutuará ao vento no topo da chaminé das
«tomar-se como ponto de partida para uma campanha sistemática de luta pela frente Oficinas, a 36 metros de altura, sendo avistada em toda a Vila do Barreiro.
única anti-fascista, pela unidade de acção do movimento sindical, pelo reforço dos Há ainda quem recorde o caso da bandeira, porque o ouviu contar em segredo,
sindicatos independentes e do Socorro Vermelho Internacional e pela criação nas oralmente transmitido na família. Quando regressava a casa pela madrugada, depois de
um baile na coletividade um casal deparou-se com a visão, inesperada, de uma bandeira
flamejante arvorada no ponto mais alto da Vila, o topo do para-raios da chaminé das

3 > Separata nº10 de “O Proletário”, janeiro, 1935, PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-1


1 > CMB/EJAM, Lvº 14, Cx 2 - Espólio José António Marques “Registo dos Factos mais Notáveis no ano de
1935”. 4 > Idem

2 > Separata nº10 de “O Proletário”, janeiro de 1935. Este documento é um entre muitos - panfletos e 5 > Relatório do Administrador do Concelho enviado ao Director da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado,
imprensa clandestina - apreendidos pela Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE) e Polícia de AN/TT- PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-1
Informação, durante as buscas efetuadas às residências e aos locais de trabalho dos presos. Faz parte
do processo existente na Torre do Tombo com a seguinte cota: PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-1 6 > Idem

32 33
foram arrancados centenas de papéis que tinham sido afixados nas paredes dos Surpreendidas por esta ação relâmpago, a violência das autoridades não se
prédios, nos muros e janelas, portas, por toda a parte, enfim, e tiradas dos fios aéreos fez esperar. Nos dias que se seguem a 28 de Fevereiro de 1935, a GNR, a PVDE e o
8 bandeiras vermelhas , contendo legendas comunistas, que para ali haviam sido
9
Administrador do Concelho prendem indiscriminadamente, interrogam, espancam,
arremeçadas com pesos de ferro atados nas pontas.» 10
procedem a centenas de detenções, algumas apenas por horas.
A organização da ação e o caráter massivo da propaganda, colheu de surpresa as Em todo este processo 47 cidadãos serão constituídos arguidos, por participação
autoridades, mas o que terá causado mais impacto foi, certamente, a colocação de na jornada de luta, acusados de “Propaganda Revolucionária”. Julgados em tribunal
várias bandeiras vermelhas com os símbolos e as letras P.C.P., pintados a tinta preta. de guerra – Tribunal Militar Especial - é sob este crime que muitos vão passar largos
Conhecemos hoje com mais precisão os locais onde foram içadas as bandeiras meses nas prisões fascistas.
vermelhas e, nalguns casos, até quem as colocou. Um deles, Acácio José da Costa, será enviado para o Tarrafal, com a primeira leva
Na chaminé das Oficinas Gerais da CP a bandeira foi colocada por um grupo de de presos políticos, de onde só regressou passados 8 anos. Lá se encontrará com
que faziam parte Acácio José da Costa, que subiu ao topo do para-raios que lá existia, Bento Gonçalves e os presos da Revolta dos Marinheiros. São eles os primeiros a
Propaganda clandestina contida nos processos dos presos, apreendida pelas forças policiais
auxiliado por Joaquim da Aldeia e António Fernandes, os três ferroviários, e José João chegar ao “Campo da Morte Lenta”, de onde muitos não regressaram.
Oficinas da CP. Quedando-se surpresos, ali ficaram a contemplá-la, voluteando na Rodrigues, operário da CUF. Todavia, não foi isso que impediu a luta de resistência antifascista de prosseguir,
claridade da alvorada. Mais tarde a história será contada aos seus descendentes, que Na antiga estrada do Lavradio, perto da fábrica Corticite - hoje Transportes como se sabe.
ainda a recordam com emoção.7 Colectivos do Barreiro - Flávio Alves, operário da CUF, colocou uma bandeira num dos O conhecimento, hoje mais detalhado, da Jornada de 28 de Fevereiro de 1935
Pelas investigações que imediatamente desencadeou, o Administrador do Concelho, postes de telégrafo. no Barreiro permite afirmar que, pelo impacto e significado simbólico que teve,
Bento da Silva Fernandes, veio a saber que «no interior das oficinas dos caminhos de Na chamada Praça Luís de Camões ou jardim dos Franceses, a bandeira foi içada por este acontecimento vem acrescentar mais um episódio à longa história de lutas do
ferro, foram na mesma noite afixados muitos manifestos nas paredes e nas bancadas Joaquim Claro Garcia, eletricista da CUF. movimento operário português, que iniciava então um longo e difícil caminho, de
de trabalho, não restando, portanto a mais pequena dúvida de que foram operários, No sinal luminoso da via-férrea junto ao Bairro das Palmeiras, foi Martinho Coelho, vitórias e derrotas.
que ali trabalharam nessa noite que colaram os ditos papéis, estando ainda convencido também operário da CUF, quem lá colocou uma bandeira vermelha. 11
Só com a Revolução de 25 de Abril de 1974, foi possível pôr termo a meio século
de que é das mesmas Oficinas que, principalmente, irradiam todas estas tentativas de Pelo testemunho escrito de Acácio Costa , sabemos que mais bandeiras foram
12
de fascismo em Portugal.
indisciplina social.»8 içadas nas principais ruas do Barreiro, como a Rua Heliodoro Salgado, na Praça
Segundo a mesma fonte, foram ainda distribuídos manifestos e tarjetas e Vermelha como era conhecido o Largo Casal, na Avenida da Bélgica, atual Av. Alfredo da
apareceram pintadas nas paredes palavras de ordem “Contra a Guerra Imperialista e Silva e na Rua do Campo do Luso, a caminho do Alto do Seixalinho.
o fascismo”, “Frente única de luta contra a guerra e o fascismo”, “Contra a ditadura
de Salazar”, “Abaixo a Ditadura Salazarista Abaixo a Assembleia Nacional e Câmara
Corporativa”, “Filia-vos no S. V. I.”, pela “Jornada de 7 horas sem redução de Salários”, 9 > Há uma discrepância entre as duas informações, sendo referido inicialmente 7 bandeiras e depois 8.
Os relatórios foram ambos produzidos pela mesma pessoa, o Tenente da GNR e Administrador do
entre outras reivindicações. Concelho, Bento da Silva Fernandes. Sabemos hoje que foram, pelo menos, 8 bandeiras.
«Depois percorri, de automóvel, toda a vila do Barreiro e do Lavradio e, auxiliado
10 > Cópia do Relatório da Guarda Nacional Republicana remetido ao Comando Geral, em 4 de março de 1935,
pela ordenança, pelo Comandante do posto policial e pelo próprio chauffeur do carro, pelo Comandante da GNR e Administrador do Concelho Bento da Silva Fernandes. PT-ADLSB-JUD-TCLSB-
C-C-001-14234-1

11 > Informação a partir dos processos AN/TT, PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-1; PT-ADLSB-JUD-


7 > Informação recolhida junto da barreirense Manuela Fonseca, transmitida pelos pais que assim TCLSB-C-C-001-14234-2; PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-3; PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-
recordavam o acontecimento. 14234-4;AN/TT, PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-5

8 > Relatório do Administrador do Concelho enviado ao Director da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado. 12 > “História de um Antifascista – O meu pai”, depoimento inédito de Acácio José da Costa, registado por sua
AN/TT- PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-1 filha Margarida antes do falecimento de seu pai em 28/11/1986
Propaganda clandestina contida nos processos dos presos, apreendida pelas forças policiais

34 35
MAPA DAS BANDEIRAS LOCAIS ONDE FORAM HASTEADAS AS 8 BANDEIRAS VERMELHAS

LAVRADIO

Fábrica “Corticite” na Quinta da Palmeira 8


5 Praça Luís Camões/Jardim dos Franceses

Largo Casal/Praça Vermelha/R. Joaquim António Aguiar 4


FÓRUM
BARREIRO
7 Sinal luminoso da CP, Bairro das Palmeiras

PARQUE
CATARINA
EUFÉMIA 3 Avenida da Bélgica/Av. Alfredo da Silva

ALTO DO SEIXALINHO
Rua Heliodoro Salgado 2
CAMPO
DO LUSO
Chaminé das Oficinas da CP 1
6 Rua Miguel Bombarda

Alburrica

VERDERENA

Rio Tejo
36 37
O
período que medeia os dois conflitos económica e social, no desemprego, na

CONTEXTO INTERNACIONAL mundiais – 1918/1939 – é de agrava-


mento da crise económica internacional,
potenciada pela Grande Depressão de 1929
falta de géneros de primeira necessidade,
na intensificação e brutalidade da repressão
imposta pela Ditadura.
nos Estados Unidos, que faz alastrar a reces- Durante o conflito espanhol, milhares
são a nível mundial. Este contexto de pobreza de portugueses, entre os quais alguns
crescente favoreceu a formação e desenvol- barreirenses, deixam clandestinamente o
1929 1933 1935 1936 1937 1939 vimento de movimentos e governos nazifas- país, alistando-se nas Brigadas Internacionais
cistas, em vários países europeus, culminando
que combatiam o fascismo. Muitos acabaram
Grande Depressão, agravamento 30 de janeiro. 25 de julho a 20 de agosto – 16 de fevereiro – 26 de abril – A cidade espanhola Fim da Guerra Civil na ascensão de Hitler ao poder em janeiro de
da crise internacional, ascensão Ascensão de Hitler VII Congresso da Internacional Em Espanha a Frente Popular de Guernica é destruída pelos de Espanha
fuzilados ou em campos de concentração.
de movimentos e governos ao poder, dissolução do Comunista em Moscovo, vence as eleições. alemães. e implantação 1933.
Face ao cenário de catástrofe mundial que
fascistas na Europa. Parlamento Alemão, instauração a que assistem 76 partidos e da ditadura Em Espanha a intervenção dos exércitos
17 de junho – Início da Guerra
da ditadura fascista na organizações comunistas, entre
Civil de Espanha. Salazar apoia
fascista de Franco. se antevia, impunha-se aos povos e às forças
Alemanha. elas uma delegação portuguesa.
Franco, facilitando a circulação 1 de setembro -
de Hitler e Mussolini, ao lado dos insurretos
progressistas encontrar a resposta necessária
Agosto - Congresso Internacional pelas fronteiras portuguesas. A Alemanha nazi invade a fascistas de Franco que provocaram a Guerra
de Mulheres contra a Guerra e o Polónia, desencadeando a II para vencer as forças hitlerianas e conseguir
Fascismo, em Paris. Guerra Mundial. Civil – 1936/1939 -, constitui o prenúncio
deter a onda fascista que varria a Europa.
da conflagração que se vai generalizar no
A Paz só chegaria em 1945 com a vitória
Mundo, a partir de 1 de setembro 1939,
da Aliança Antifascista (União Soviética,
quando a Alemanha nazi invade a Polónia,
desencadeando a II Guerra Mundial. Estados Unidos e Inglaterra) sobre o

Em Portugal, Salazar sente-se ameaçado nazi-fascismo. A nova ordem internacional


Hastear da bandeira soviética no edífício do Reichtag.
pela «Espanha vermelha» e apoia activamente erguia-se sobre a maior catástrofe humana de 2 de maio de 1945

Franco, no objetivo de esmagar a Frente sempre: perto de 50 milhões de mortos,


1940 1941 1942 1943 1944 1945 a grande maioria vítimas do holocausto
Popular da Segunda República (1931-36).
A Guerra Civil de Espanha acabará por nazi-fascista, que pagaram o preço
Hitler invade vários países Outubro. As tropas alemãs Batalha de Estalinegrado, Muda a face da guerra, com as O Exército nazi O Exército Vermelho entra no
europeus (Dinamarca, invadem a URSS, chegando primeiras derrotas dos exércitos primeiras vitórias dos Aliados retira-se de Leninegrado, após Campo de Concentração de ter consequências diretas em Portugal, elevadíssimo da resistência e do combate
Noruega, Bélgica, Holanda, às portas de Moscovo. alemães. É criada a Comissão na Tunísia e Sicília. um cerco de 2 anos. Aberta a Auschwitz. Início da libertação
Luxemburgo, Fuzilamentos de populações civis Internacional de Crimes de O Exército Vermelho inicia a Segunda Frente contra os nazis dos países ocupados. Prisão refletindo-se no aprofundamento da crise pela liberdade.
Grécia, entre outros) e declara pelos nazis. Guerra. ofensiva cujo avanço só se no norte de França. e fuzilamento de Mussolini e
guerra à França e Inglaterra. Os países do Eixo (Alemanha, deterá em Berlim, em abril de suicídio de Hitler no Bunker da
Itália e Japão) declaram guerra 1945. Chancelaria. Hasteada a bandeira
aos EUA e ocupam o Norte de soviética em Berlim.
África.
8 de maio – Dia da Vitória sobre
a Alemanha nazi e fim da II
Guerra Mundial.

> Comício Nazi em Nuremberga


Winston Churchill, Franklin D. Roosevelt e José Stalin
> Adolf Hitler na Conferência de Yalta. 4 a 11 de fevereiro de 1945

38 39
CONTEXTO NACIONAL DA DITADURA MILITAR
AO “ESTADO NOVO” 1926-1933

E
ntre o golpe de Estado de 28 maio de 1926
1921 1926 1927 1929 1930 1931 - que derrubou a I República para instaurar
a Ditadura Militar - e 1933, data de promul-
6 de março – Fundação do 28 de maio – Golpe de Estado Encerramento das sedes do Salazar lança o lema “Tudo pela 30 de julho – Surge o partido Acentuam-se os efeitos
Partido Comunista Português. que instaurou a Ditadura Militar, PCP e da CGT, destruição da Nação, Nada contra a Nação”. único de Salazar, a União da Depressão e da Crise gação da Constituição salazarista, estamos em
extinguiu o Congresso da tipografia do jornal “A Batalha”, Nacional. Internacional.
República e impôs a censura perseguição dos dirigentes do Reorganização do PCP por Bento pleno apogeu do nazifascismo na Europa e nas
prévia. movimento operário. Gonçalves. Setembro – Criação da Comissão 4 de abril – Revoltas e
Inter-Sindical (CIS), da fundação pronunciamentos militares de vésperas da Guerra Civil de Espanha. Em Portugal,
3 a 9 de fevereiro – Revoltas no da Federação das Juventudes deportados na Madeira, Ilha
Porto e em Lisboa terminam Comunistas Portuguesas, da Terceira, S. Tomé, Guiné e Cabo
o “Estado Novo”, a partir da Constituição de 1933,
Portugueses deportados em Cabo Verde, entre eles António Mendes Soldado Júnior – preso por anarquista no
com centenas de mortos civis Organização Revolucionária Verde. inspirada nos modelos alemão e italiano, montou Lavradio. A sua companheira vendeu todos os bens que possuíam a fim de arranjar meios de subsistência e
e militares em combates e por da Armada, do Socorro partiu com a filha Belmira (a menina na foto) a fim de acompanhar o marido no desterro.
1º de Maio – Greves e
fuzilamento. Vermelho Internacional, da Liga
manifestações estudantis em
um vasto aparelho de propaganda e inculcação Foto de 1928, cedida por António Camarão
contra a Guerra e o Fascismo,
12 de março – Criada em Paris entre outras organizações Lisboa. ideológica, através do Secretariado da Propagan-
a ‘Liga de Defesa da República’, clandestinas, impulsionadas pelo
por António Sérgio, Afonso PCP. da Nacional, da criação dos Serviços de Censura,
Costa, Jaime Cortesão, entre
outros, contra a Ditadura. da Carta Orgânica do Império Colonial Português,
do Estatuto do Trabalho Nacional (proibição do
Salazar, o ditador que governou
continuamente Portugal entre direito à greve, liquidação dos sindicatos livres,
1928 e 1968.
associações e partidos), da criação da Legião
1933 1934 1935 1936 1942 1945
Portuguesa e da Mocidade Portuguesa, da reorganização da polícia política, da instaura-
ção dos tribunais políticos – Tribunais Militares Especiais –, do Campo de Concentração
Reorganização da polícia política
portuguesa (PVDE), e criação do
Tribunal Militar Especial.
18 de janeiro – Tentativa de greve
geral revolucionária na Marinha
Grande, Coimbra, Almada,
00 28 de Fevereiro –
Jornada Nacional de luta
promovida pelo PCP e CIS.
19 de maio – Institucionalização
da Mocidade Portuguesa
«organização nacional pré-
11 de setembro – Morre Bento
Gonçalves no Tarrafal, dois anos
após cumprida a pena a que fora
9 de maio – Manifestações de
regozijo em todo o país pelo fim
da II Guerra Mundial, seguidas de
do Tarrafal - entre muitos outros instrumentos e aspetos legais que vieram a definir o
Setúbal, Sines, Silves, Lisboa e militar» inspirada no modelo condenado pelo Tribunal Militar repressão e prisões no Barreiro. rumo ideológico do regime.
11 de abril. Entra em vigor a Barreiro. 8 de outubro – Salazar alemão da Juventude Hitleriana. Especial.
Constituição Política do “Estado assina a criação do Campo Progressivamente Salazar imprimiu ao país uma mudança que liquidava mais de um
Novo”, definindo os fundamentos 18 de fevereiro – A polícia mata de Concentração do Tarrafal, 8 de setembro – Revolta dos Outubro – Movimentos grevistas
do regime fascista português. um operário em Setúbal, durante oficialmente designado Colónia Marinheiros, pela Organização em Lisboa alastram a nível século, quase ininterrupto, de experiência liberal monárquica e republicana e traçou o
um protesto na delegação Penal de Cabo Verde. Revolucionária Armada. Mortos nacional. Participam 14 mil
Setembro – Publicação do do Consórcio Português de 10 marinheiros e dezenas são trabalhadores, segundo a polícia. rumo de um novo regime autoritário, corporativo, antiparlamentar e anticomunista, que
Estatuto do Trabalho Nacional e Conservas. 11 de novembro – Captura e presos e deportados.
criação do Secretariado Nacional prisão de Bento Gonçalves, perdurou em Portugal cerca de meio século.
da Propaganda. 21 de maio – Publicação da lei secretário geral do Partido 30 de setembro – Criação da
que obriga os funcionários do Comunista Português, após o Legião Portuguesa, milícia para- Contudo, a implantação do fascismo vai encontrar pela frente luta e resistência,
Outubro – Fundação de Estado a assinar a «Declaração seu regresso do 7º Congresso militar de cunho fascista.
uma frente unitária contra a anti-comunista». da Internacional Comunista, em
face ao desenvolvimento do movimento operário, à sua combatividade e crescente
fascização dos sindicatos. Moscovo. 29 de outubro – Chegam
15 de julho – Abertura dos ao Tarrafal os primeiros tomada de consciência política.
sindicatos corporativos 150 deportados políticos
Escassos meses após o golpe militar, surge a primeira tentativa para o derrubar,
no Barreiro – Corticeiros e portugueses. Portugueses deportados em Cabo Verde, por motivos políticos. Neste grupo encontra-se o barreirense
Descarregadores de Mar com as Revoltas de 3 a 9 de fevereiro de 1927, no Porto e em Lisboa. José Nobre Madeira, desterrado durante 15 anos (1929-1944). Foto de seu neto Hélder N. Madeira
e Terra.

40 41
do pensamento, do ensino, de reunião, de organização e de associação, a proibição do
direito à greve, abolição progressiva do horário de trabalho de 8 horas, instituição do salvo se autorizada pelo governo. Para a transição entre sindicatos livres e “sindicatos
trabalho forçado nas colónias, extinção dos partidos políticos e sindicatos, criação o nacionais”, a lei fixava um prazo: 31 de dezembro de 1933.
partido único de Salazar, a União Nacional (1930) e a reorganização da polícia política O 18 de janeiro de 1934 constituiu, pois, a resposta operária aos decretos fascistas.
PVDE (1933). Partindo do esforço de criação de uma frente comum de luta contra o fascismo,
a «Frente Única», composta pela Confederação Geral do Trabalho (CGT de matriz
anarquista), Comissão Inter-Sindical (CIS de orientação comunista), Federação das
Associações Operárias (de tendência socialista) e pelo Comité das Organizações
Sindicais Autónomas, é convocada uma Greve Geral para 18 de janeiro “Contra a
Fascização dos Sindicatos” que, acabaria por ter expressão mais significativa na Marinha
Grande e Silves.
No Barreiro, a Greve Geral é limitada pela intervenção policial, que, na noite de 17
de janeiro, descobre e impede uma reunião preparatória promovida por sindicalistas,
anarquistas e comunistas, realizada no pinhal junto à estação do Lavradio.
Segundo as fontes policiais, o plano revolucionário consistia na declaração de Greve
Desfile junto ao Barreiro-A por ocasião da inauguração dos sindicatos corporativos, Corticeiros e
Descarregadores de Mar e Terra. 17.11.1935, Centro Português de Fotografia Geral Insurrecional, tomada do Posto da Guarda Nacional Republicana, corte de energia
elétrica e destruição dos meios de comunicação. Nada disto se verificou e o desfecho da

“Os indivíduos presos no Barreiro, acusados de conspirar contra a atual situação”,


CONTRA A FASCIZAÇÃO DOS SINDICATOS: greve redunda num grande fracasso.
título do Jornal “O Século” em 28 de fevereiro 1928
O 18 DE JANEIRO Um único incidente marca o dia 18 de janeiro na Vila do Barreiro: à noite, explode
uma bomba junto aos “Penicheiros”, provocando vários feridos.
A partir da revolta de fevereiro de 1927, a Ditadura Militar começa a montar o Após entrada em vigor, a 11 de abril de 1933, da Constituição fascista do “Estado A resposta das autoridades - Administrador do Concelho, GNR e PVDE - será
aparelho repressivo que lhe permitirá desarticular o Movimento Operário, dissolver e Novo”, é publicado, a 23 de setembro do mesmo ano, o Estatuto do Trabalho Nacional particularmente violenta, desencadeando uma vaga repressiva de perseguições que,
ilegalizar as suas organizações e associações e perseguir e combater, implacavelmente, (Decreto Lei n.º 23048). numa autêntica caça ao homem, levou à captura e prisão da maior parte dos elementos
os seus militantes. As Revoltas de fevereiro terminam tragicamente, com centenas de Semelhante à Carta del Lavoro, de Mussolini, o Estatuto do Trabalho Nacional impõe do Comité Revolucionário do Barreiro, organizador da ação. Muitos serão condenados
mortos civis e militares, em combates e por fuzilamento. a conciliação de classes, proíbe o direito à greve e veda aos trabalhadores qualquer tipo em Tribunal Militar Especial e cumprirão longos anos de prisão e degredo na Fortaleza
Até que a ditadura consiga dominar totalmente os primeiros opositores, seguir-se- de organização sindical, à margem das organizações corporativas criadas pelo Estado. de Angra do Heroísmo e posteriormente transferidos para o Campo de Concentração
ão outros levantamentos como o de 1928, a que se vão somar as revoltas na Madeira, a A proibição de organização sindical dos funcionários públicos e municipais é ampliada, do Tarrafal.
dos deportados políticos nas ilhas Terceira, S. Tomé, Cabo Verde e Guiné, em 1931. ainda, a vastas camadas de trabalhadores, entre os quais pescadores e trabalhadores O insucesso do 18 de janeiro veio evidenciar e aprofundar as dificuldades de
A Constituição de 1933, referendada em janeiro num plebiscito onde as abstenções agrícolas. entendimento no seio do movimento operário e sindical, que o impediam de abandonar
contavam como votos a favor, constituirá o futuro núcleo de sustentáculo do regime e Na mesma data, a publicação do Decreto Lei n.º 23050 extingue os sindicatos antigos métodos e concepções e enveredar por lutas «que mobilizassem amplamente
a matriz ideológica que suportou a institucionalização do fascismo através do “Estado livres, substituindo-os por novos sindicatos, denominados “sindicatos nacionais”. as massas populares» e conduzissem a novos caminhos, como defendia o PCP.
Novo” social e corporativo. Ficariam conhecidos como sindicatos fascistas. Estes possuíam âmbito distrital Os primeiros sindicatos corporativos abririam no Barreiro a 15 julho de 1934,
«Tudo pela Nação. Nada contra a Nação». profissional, dependiam do Instituto Nacional do Trabalho e Previdência, até na inaugurados com toda a pompa pelas autoridades locais e Governo: o Sindicato dos
A fascização progressiva do Estado mascara-se de nacionalismo, enquanto vai homologação. Até na homologação dos seus órgãos dirigentes, não podiam
Milícia legionária do Barreiro em desfile no Estádio de Santa Bárbara, CUF-Barreiro, 7.8.1938. Descarregadores de Mar e Terra e o Sindicato dos Corticeiros. Seguiu-se o Sindicato
suprimindo as liberdades fundamentais como a liberdade de imprensa e expressão Centro Português de Fotografia filiar-se em organismos internacionais, sendo-lhes vedada a contratação coletiva, Nacional dos Ferroviários do Sul, a 17 de novembro de 1935.

42 43
CONTEXTOS LOCAIS
A MILITARIZAÇÃO DO BARREIRO

A
partir de 1927 o Barreiro é, por diversas vezes, tomado por
forças militares e militarizadas que reprimem com violência
qualquer manifestação de contestação à Ditadura Militar, por
pequena que seja. A criação da Mocidade Portuguesa e da Legião
Portuguesa, enquanto organizações de enquadramento político e
1931 1934 1935 1938 social com caraterísticas paramilitares, inspiradas nos modelos
italiano e alemão, acentuam o cunho fascista do Estado. Tropas junto ao pinhal do Lavradio, durante a Revolta de fevereiro de 1927.
O Século, 11 de março de 1927
Reflexos da Depressão e da Crise Internacional: 1 de maio – Relatório da Comissão Administrativa 15 de novembro – Circular do Governo Civil de 11 de abril – Criação da Ala da Mocidade Portuguesa Também no Barreiro, ambas as organizações repetem as
aumento do desemprego, da jornada de trabalho, da Câmara Municipal do Barreiro, refere que apenas Setúbal recomenda «a pouco e pouco, obrigar as no Instituto dos Ferroviários, onde serão ministrados manifestações oficiais de apoio ao regime, com desfiles, juramentos
baixas nos salários. uma insignificante percentagem da população do entidades patronais particulares a só admitirem «educação física, canto coral e formação
9 de maio – Críticas na imprensa local por causa da
Barreiro pode pagar as suas despesas de saúde. pessoal dentro daquele que lhes foi indicado pelos nacionalista.» de bandeira e outras práticas de grande impacto público simbólico.
Sindicatos Nacionais da profissão respectiva.»
poluição da CUF: «O crime de um potentado» Jornal O Quartel da Guarda Nacional Republicana instala-se (1927)
Eco do Barreiro
8 de julho – As sociedades de recreio são impedidas
na estrada do Lavradio, em dependências cedidas pela Companhia
de realizar mais de dois bailes por mês, a fim de União Fabril no interior das próprias fábricas, a fim de evitar
evitar a propagação da tuberculose.
alterações da ordem pública, especialmente entre o operariado.
Julho – A Junta de Freguesia do Barreiro paga
os transportes a desempregados que queiram Em 1943, em resposta aos levantamentos populares contra a
regressar às suas terras, devido à «extrema miséria
que grassa pelas ruas». fome e às greves na CUF, é instituído na Vila um Comando Militar
permanente, com forças dos Sapadores dos Caminhos-de-ferro e
diversos outros contingentes militares do Sul1. A partir de 1944 o
Barreiro ficará em permanente ocupação militar por um Esquadrão
Misto de Infantaria e Cavalaria, sob comando da Guarda Nacional
1940 1941 1945
Republicana.
A presença diária das patrulhas da GNR, o som dos cascos dos
23 de novembro – O Instituto dos Ferroviários recusa O Orfeão do Instituto dos Ferroviários só pode A Câmara Municipal do Barreiro regista a existência
a inscrição da menina «Feliciana Joaquina Barão, realizar ensaios desde que os mesmos ensaios sejam de 486 barracas. «Numa delas, habitam nove cavalos atroando nas calçadas do Barreiro, ou em desfiles mensais
de onze anos, filha do falecido agulheiro Barão «absolutamente integrados dentro dos princípios da pessoas.»
José da Mouca, para frequentar o Curso Industrial, moral cristã e nacionalista do “Estado Novo”». com carros de combate, ainda não se apagaram da memória de
autorizado apenas ao sexo masculino». A “Sopa dos Pobres” distribuiu até ao final do ano
80.975 refeições, com uma média diária de 224 muitas pessoas de várias gerações de barreirenses.
Trabalham na CUF cerca de 6000 operários. refeições.
Será necessário esperar até à Revolução de 25 de Abril de 1974,
A Comissão Municipal de Assistência regista
inúmeros pedidos de resgate de penhores, para que cesse a ocupação militar.
referentes a objetos pessoais usados, que as
famílias empenham para obter algum rendimento.

“As tropas que de Lisboa vieram ocupar o Barreiro”, durante as Revoltas de 1927, junto ao antigo edifício dos Bombeiros do Sul
1 >PAIS, Armando da Silva – O Barreiro Contemporâneo, ed. CMB, III vol, 1971, p.163 e Sueste. Jornal “O Século”, 3 de fevereiro de 1927

44 45
CONDIÇÕES DE VIDA E SOBREVIVÊNCIA
A permanente expansão da Companhia União Fabril (CUF) e a intensificação da
produção industrial, exigiam cada vez mais mão-de-obra. Em resultado deste processo
o Barreiro regista, no decorrer das décadas de 30/40, fluxos migratórios assinaláveis
que fazem crescer o número de habitantes de 21.030 (1930) para 26.104 indivíduos
(1940). Suportando condições assombrosamente degradantes, para os padrões atuais,
muitas famílias chegavam ao Barreiro com o sonho de uma vida melhor.
A procura de habitações, sobretudo as de preço mais baixo, originou um surto de
construção muito rápida por todo o concelho, mas especialmente à volta do gigantesco
complexo fabril, onde começam a desenvolver-se inúmeros bairros clandestinos,
entre eles o Bairro das Palmeiras (Bairro da Folha) que se prolonga pelo Lavradio até
à Baixa da Banheira (Xangai). Na periferia da Vila, desde o Alto dos Silveiros ao Alto do
Seixalinho proliferam os “pátios particulares” de pequenas casas abarracadas, com
condições de habitabilidade difíceis de descrever. Entre numerosos casos, citam-se
apenas dois exemplos, suficientemente ilustrativos da situação em que vivia grande
parte da população operária do Barreiro, ainda que trabalhando e auferindo um salário.
«Numa delas constituída apenas por um cubículo – habitam nove pessoas. É
frequente, no entanto, encontrar casos em que cinco pessoas dormem no mesmo
cubículo e na mesma cama. Encontrámos alguns, em visitas que fizemos ao Alto do
Seixalinho e Quinta dos Silveiros, assim como em certos “pátios particulares” no Bairro
das Palmeiras.»2
«…num prédio antigo existente no centro da vila [Barreiro], vive uma família de cinco
pessoas, que não dispõem de ar nem de luz directa, e que não tem, também, instalação
eléctrica. O chefe de família é operário na C.U.F. e paga de renda 60$00.»3
Para além dos já citados bairros e pátios ilegais a Câmara Municipal registou, num
estudo efetuado no início dos anos 40, a existência de 486 barracas no Barreiro, onde
faltavam as mais elementares condições higiénicas, sanitárias ou de conforto, como
água potável ou saneamento básico4.

2 > ‘O Problema Habitacional no Concelho do Barreiro’ (1945-1951), CMB, L/A 03, Cx 2

3 > Idem
Relação de objetos penhorados que a Comissão Municipal de Assistência resgatou para serem devolvidos,
Operários da CUF na Praça de Santa Cruz, anos 40. Espólio Olga Vera Garcia, CMB. 4 > Ibidem bem a propósito, no 20º aniversário do 28 de maio.

46 47
O problema do saneamento básico, com a inexistência de esgotos - constituía um
passo rápido para a propagação de doenças originadas pela insuficiente limpeza pública.
«…como é possível higiene nas pocilgas e mançardas que servem de moradia a
tanto milhar de desgraçados que mal ganham para não morrer? Como é possível o
isolamento naquelas casas em que mais de uma família habitam, e em que pais e filhos,
numa promiscuidade infame, vivem lado a lado, no mesmo aposento?»5
“Carroça dos despejos”, utilizada até aos anos 50 em certos A saúde pública era dramaticamente afetada pela pobreza e doenças causadas pela
pontos da Vila para recolha dos dejetos, antes da rede pública de má nutrição, o que determina que, em 1931, as autoridades proíbam as sociedades de
saneamento. Foto: CMB
recreio locais de realizar «mais de dois bailes por mês, a fim de evitar a propagação da
tuberculose.»6
No ano seguinte, em 1932, a Junta de Freguesia do Barreiro, numa tentativa de
repressão da mendicidade pública e ocultação do desemprego, concedia ajudas de
transporte a desempregados para que regressassem às suas terras, devido à «extrema
miséria que grassa pelas ruas»7.
O abastecimento domiciliário de água ao Barreiro, inaugurado em abril de 1937, que
servia inicialmente apenas 2 mil dos cerca de 26 mil habitantes do concelho constituiu,
ainda assim, uma melhoria assinalável no problema do fornecimento e qualidade da
«Barracas em pateo particular. Habitam aqui cerca de 12 famílias, num total de 60 pessoas.»
água. A água canalizada chegaria ao Lavradio em 1940 e a Palhais aproximadamente na Bairro das Palmeiras, 1938. Foto CMB
Meninos operários da fábrica de cortiça Herold, 1935.
Comissão Municipal de Assistência, anos 40. Foto CMB Foto: cedida por Fernando Motta mesma época.
A pavimentação das ruas, o saneamento básico e a colocação de coletores abrangia
em 1936, uma parte muito reduzida do então centro do Barreiro: a Rua 5 de Outubro, a
Rua Miguel Bombarda, a Rua Serpa Pinto, a Avª da Bélgica (Avª Alfredo da Silva), a Praça
da República (Praça de Santa Cruz) e a Rua Aguiar.
A electrificação e iluminação pública da Vila do Barreiro, cujo concurso público
arrancara em meados de 1920, seria inaugurada seis anos depois, chegando ao
Lavradio uma década mais tarde. Às restantes povoações do concelho este benefício só
chegaria em 1944-45.
Nos anos 30, as condições de vida da população eram ainda agravadas pela
poluição industrial, a chamada “questão dos gazes”. O jornal local “Eco do Barreiro”
classificava a situação como um «cataclismo e uma autêntica guerra de gazes

5 > GAGO, Alves - «A tuberculose e a higiene», Eco do Barreiro, 8 julho, 1931, p.6

6 > “Eco do Barreiro” «A tuberculose e a higiene» artigo de Alves Gago, p. 6, 8 de julho, 1931
“A Sopa dos Pobres”, adaptação salazarista da “Sopa do Sidónio”. Escola nº 4, Quinta Grande, 1935. Foto: CMB Benfício a favor da família do Sr. José Nobre Madeira, deportado em África
Barreiro, anos 40. Foto CMB por questões políitcas», 1939 EJAM.Cx.05 7 > Junta de Freguesia do Barreiro (JFB), Livro de Actas da Junta, 1923-1932 Pátio Particular, Alto do Seixalinho. Foto CMB

48 49
asfixiantes», perante a mais completa indiferença da administração da CUF, «a quem
RESISTIR. A ORGANIZAÇÃO COMUNISTA LOCAL não merece o mais pequeno respeito a preciosa vida deste povo».8

1927 1928 1930 1931 1933 1934 1935 Apesar do terror das perseguições, das prisões e das torturas, homens e mulheres
barreirenses encontram razões para prosseguir a luta e o combate à ditadura vai fazer-
4 de fevereiro - Tentativa
de levantamento no
Barreiro. Ocupação
15 de janeiro. A Direcção
dos “Penicheiros”
delibera que a Banda não
Está em actividade um
Comité Local do Barreiro
do PCP.
22 de março – Bento
de Jesus Caraça visita o
Instituto dos Ferroviários.
Maria Pinto Ferreira
(Pintainho) filia-se no PCP.
Em funcionamento o
Comité Regional do Sado
do PCP, com militantes do
00 28 de Fevereiro -
Jornada de agitação
e luta promovida pelo PCP
se, desde o primeiro momento, nas fábricas, nas empresas, nos sindicatos, nos bairros,
nas coletividades e em todos os lugares onde a coragem e a audácia o permitem.
militar da Vila. compareça numa visita dos Felicita a instituição «pela Junho – A Banda dos Barreiro. e CIS no Barreiro, “Contra
Prisões, deportações e Ministros da Instrução e bela obra de solidariedade “Penicheiros” recusa a Fome, a Guerra e o Existem indícios de uma organização local do Partido Comunista Português no
despedimentos em massa Comércio. que está realizando.» um convite da Comissão 18 de janeiro – Explosão Fascismo!”
de ferroviários. Proibido o Administrativa da Câmara, de uma bomba no Largo Barreiro, desde a fundação do Partido em 19219.
Sindicato Ferroviário. para tocar na receção ao Casal. Prisão dos militantes 8 de março – Prisão de
Ministro do Interior. anarquistas Abílio Ângelo do Couto, Vergílio Em 1927, segundo o testemunho de Acácio José da Costa10, a organização
16 de agosto - Acácio José Gonçalves “Garradas”, dos Santos Pereira, Acácio
da Costa adere ao Partido 5 de novembro - As João Montes, António Gato José da Costa e mais 50
clandestina local assentava num núcleo de ativistas do Partido Comunista nas Oficinas
Comunista Português Bandas dos “Penicheiros” e Pinto, José Francisco Neto, ferroviários das Oficinas.
“Franceses”, alegando os Ferroviárias do Barreiro quando, com 23 anos de idade, adere ao PCP. Refere no seu
e começa a organizar implicados na tentativa
uma célula nas oficinas Estatutos, escusam-se a revolucionária. 9 de março – A Polícia depoimento que, em 1930 estava formado o Comité Local do Partido no Barreiro,
ferroviárias do Barreiro. participar na visita oficial entra nas Oficinas e prende
do Presidente Carmona e 6 de maio - Bento mais 5 ferroviários. composto por vários elementos, que tinham as seguintes tarefas:
Presidente do Conselho Gonçalves, secretário-geral
Oliveira Salazar às novas do PCP, visita o Instituto 20 de março – Prisão O responsável político; Maria Pinto Ferreira e o seu companheiro Joaquim Ferreira, a nora e os netos. Foto: Acácio Ferreira (neto)
Oficinas Ferroviárias do dos Ferroviários onde de 20 ferroviários das
Barreiro. deixa uma nota assinada Oficinas. O responsável pelo Socorro Vermelho (apoio aos presos políticos);
com o pseudónimo “Mário 1 de abril – Prisão de 6
sua casa no Largo das Obras, num dia de janeiro de 1937 às 3 horas da madrugada, é
Coelho”.
O responsável pela propaganda e agitação;
operários da CUF, entre forçada a abandonar o companheiro e os três filhos de 6, 8 e 10 anos. Permanecerá nas
Setembro – Jornada eles Alexandre Ferreira, O responsável pela acção sindical clandestina nos ferroviários.
de agitação no Alto do José João Rodrigues e João cadeias políticas da ditadura fascista, durante 13 meses.
Claro Garcia, implicados na No final de 1930, ainda segundo o testemunho de Acácio Costa, a influência
Seixalinho, colocação O Socorro Vermelho Internacional, criado em 1930, terá um papel decisivo no
jornada de 28 de Fevereiro.
de dísticos e bandeiras da organização alargara-se à CUF e, apesar dos efetivos locais do Partido serem
vermelhas. apoio e assistência prestada aos presos políticos e perseguidos, bem como às famílias
menos de uma centena, o apoio junto das massas era largamente superado pelas
também elas vítimas do terror da ditadura, contando com vários núcleos de ativistas
1935 1937 1938 1942 1943 1945 debilidades orgânicas, multiplicando-se as lutas pela paz, contra a exploração, a fome,
entre a massa operária do Barreiro, que se desdobram em iniciativas e subscrições para
o desemprego e o fascismo.
recolha de apoio monetário e visitas aos antifascistas encarcerados.
11 de abril – Durante o Janeiro – Maria Pintainho é 24 de fevereiro - Abaixo- Movimentos grevistas em Greve de braços caídos 9 de maio – Manifestações No mesmo ano em que Hitler subia ao poder e Salazar fazia aprovar a Constituição
transporte dos presos detida pela PVDE. assinado de vários Lisboa alastram à Margem na CUF. Manifestações e efusivas no Barreiro pela Outros exemplos de solidariedade política chegam, muitas vezes anonimamente e
para Lisboa, o ‘Olho de Permanece presa durante comerciantes e população Sul. Greve nas Oficinas da marchas contra a fome no derrota da Alemanha nazi de 1933, Maria Pinto Ferreira – Maria Pintainho – aderia ao PCP, tornando-se a primeira
Boi’, na Praça de Santa 13 meses nas cadeias da do Barreiro, exigindo a CP. Paralisações na secção Barreiro, Lavradio e Alhos e fim da II Guerra Mundial, de forma disfarçada, através das coletividades que realizam os chamados ‘Benefícios’,
Cruz, é cercado pelo povo. ditadura. libertação de Maria Pinto de Caldeiraria da CUF. Vedros. Encerramento junto à Câmara Municipal mulher militante comunista do Barreiro11. A sua casa viria a ser uma das bases de apoio
As mulheres protestam e Ferreira (Pintainho). de fábricas, repressão, e na Quinta dos Ingleses espetáculos onde se recolhem preciosos quantitativos monetários para ajuda aos
21 de outubro – O Instituto para o desenvolvimento da atividade política do Partido no Barreiro, motivo pelo qual
são agredidas pela Polícia prisões e ocupação militar (Braamcamp). familiares dos presos.12
dos Ferroviários é invadido Os trabalhadores da
Cívica.
de madrugada por seis Caldeiraria (Velha) da CUF,
da Vila. será perseguida e enfrentará a sua primeira prisão e tortura. Detida pela PVDE em
12 de abril – Continuam as agentes policiais, que fazem greve durante dia
manifestações no ‘Olho efetuam rusgas causando e meio.
de Boi’. A multidão tenta pânico entre as crianças. 8 > «Gazes asfixiantes sobre a população do Barreiro – O crime de um potentado» ‘Eco do Barreiro’,
impedir a transferência 15/11/1930, 1ª página
dos presos para Lisboa, 8 de dezembro – A
gritando ‘liberdade para os Sociedade Esperantista
Barreirense é encerrada e 9 > Cf. FEIJÃO, João M. da Costa – “As lutas do Barreiro de 1943”, 60º Aniversário da Greve de 1943 no
presos’. Chegam reforços Barreiro, CMB, Barreiro, 2005, p.84
policiais de Setúbal. Há dissolvida.
disparos, provocando 10 > “História de um Antifascista – O meu pai”, depoimento inédito de Acácio José da Costa, recolhido por sua
feridos. A multidão 12 > Podemos encontrar um importante, e único, registo destas actividades entre o espólio de José António
filha Margarida antes do falecimento de seu pai em 28/11/1986
dispersa. Marques (EJAM). Depois de realizados os “Benefícios”, ele próprio anotava em cada um dos programas
23 de abril- Continuam as 11 > Segundo o testemunho de Acácio da Costa em “História de um Antifascista – O meu pai”, depoimento ou folhetos, a quem, ou a que família de presos políticos se destinava o produto da venda dos bilhetes
prisões no Barreiro. inédito de Acácio José da Costa, ob. cit. dos espectáculos. Cf. CMB/EJAM.

50 51
Por ser um dos maiores centros industriais do país, habitado por um operariado
combativo que se afirmava pela clareza das suas posições reivindicativas de classe,
recetivo à força das ideias do comunismo e da revolução social propagadas pelo Mundo
após a Revolução Russa de 1917, foi-se forjando em torno do Barreiro a imagem de “Vila
Vermelha”.
Baluarte das lutas do movimento operário português, não é em vão que na gíria
popular o Largo dos Penicheiros ou Largo Casal, é conhecido por “Praça Vermelha”15;
que a secção da caldeiraria velha da CUF tem por alcunha “Moscovo”16; ou que um dos
prédios existentes no centro da vila é chamado “Cúpula do Kremlin”, devido ao seu
invulgar torreão que a alguém lembrava a longínqua praça moscovita e as sua famosas
cúpulas douradas17. A própria Vila do Barreiro, tornar-se-ia conhecida como Moscovo.
Em sentido contrário, o Barreiro é depreciativamente apelidado de ‘Barcelona
Portuguesa’ numa alusão à heroica resistência dos republicanos espanhóis,
precisamente por aqueles que combatem e tentam por todos os meios, denegrir e
apagar a imagem do Barreiro revolucionário e vermelho.
Caldeiraria Velha da CUF, conhecida como ‘Moscovo’, pela sua organização
«Em 1928, quando a ditadura estava no princípio das suas experiências e era e combatividade. Fonte: “A Fábrica 100 Anos da CUF no Barreiro”. Foto CMB
ainda, portanto, uma interrogação, houve um homem que, à falta de outros, foi
Sociedade Esperantista Operária Barreirense Progresemaj Amikoj, ilegalizada em 1937. Col. Particular. O culto
desta língua internacionalista encontrou sempre largo apoio no meio barreirense mesmo após a sua proibição investido no cargo de administrador do concelho do Barreiro e, pouco tempo depois, Vista da zona centro do Barreiro, antes da construção do Parque Municipal. Banda Filarmónica dos Penicheiros, junto ao Sindicato Ferrroviário – 1923. Foto: SIRB – “Os Penicheiros”
oficial no de presidente do respectivo município. Esse homem, esteve nesses lugares quasi Ao fundo o edifício conhecido como cúpula do Kremlin, numa alusão à Revolução Russa de 1917. Foto CMB

7 anos. Trabalhou e disciplinou o concelho que, então, era conhecido pela “Barcelona
Outro exemplos notáveis de coragem política também foram dados pela Banda da
Portuguesa”.18
Sociedade Instrução e Recreio Barreirense ‘Os Penicheiros’, ao alegar que os Estatutos
não lhe permitiam participar em actividades de caráter político ou religioso, escusando-
se a tocar na visita de Salazar e Carmona ao Barreiro, em 1933.13. Esta situação já
não era inédita, pois havia sucedido caso idêntico em 1928, igualmente numa visita de
Estado com ministros da Ditadura Militar14.

15 > «…Praça Gago Coutinho – Sacadura Cabral, conhecida também pela Praça Vermelha, por ser o ponto de
reunião dos elementos comunistas do Barreiro…». AN/TT, PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-4

16 > PEREIRA, José Pacheco – Álvaro Cunhal Uma Biografia Política «Duarte», o Dirigente Clandestino (1941-
1949), Temas e Debates, vol.2, 2001. p. 254

17 > O seu proprietário viu-se na contingência de demolir o torreão, pelos incómodos de que era vítima por
parte dos apoiantes do salazarismo.

13 > PAIS, Armando – O Barreiro Contemporâneo, ed. CMB, II vol., 1968, p. 61 18 > Ofício dirigido ao Presidente do Conselho Oliveira Salazar, pelo Tenente Bento da Silva Fernandes, em
6/4/1936, que então havia sido demitido e afastado dos seus cargos, devido às lutas internas entre
14 > Actas da Sociedade Instrução e Recreio Barreirense, Lv. 05, 1927-1929 fações mais radicais da União Nacional concelhia. Cf. AN/TT, PT-TT-MI-GM-4-38-142

52 53
«6/V/934
Um grupo de novos [?] admirou esta instituição modelar, interessante, o que mostra
a vontade do proletariado quando organizado.
Pelo grupo Mário Coelho»20
Bento Gonçalves voltará ao Barreiro outras vezes, especialmente durante a
preparação da jornada de 28 de Fevereiro de 1935, encontrando-se e reunindo
clandestinamente com os responsáveis locais. Estes encontros, por razões de
segurança, tinham lugar nas ruas do Barreiro, apesar de permanentemente vigiadas
pela polícia política. Caminhando, como se andassem em passeio, entre o Largo dos
Penicheiros e o Jardim dos Franceses, ou acompanhando os seus camaradas operários
até perto da entrada das fábricas da CUF, no Largo das Obras, assim eram discutidas e
preparadas as ações a levar a cabo.21

O Instituto dos Ferroviários, instituição de referência inúmeras vezes visitado por intelectuais defensores das
causas operárias. Postal em Esperanto. Foto CMB

A importância da organização comunista local foi reconhecida, desde o início,


e acompanhada diretamente pelos dirigentes máximos do PCP, como foi o caso de
Bento Gonçalves, secretário-geral entre 1929 e 1942, que aqui se deslocou diversas
vezes. Será numa dessas incursões ao grande centro operário barreirense que,
Bento Gonçalves, acompanhado por um grupo de arsenalistas, deixará a seguinte
mensagem escrita no Livro de Visitas do Instituto dos Ferroviários do Sul e Sueste,
assinada com o pseudónimo ‘Mário Coelho’19:

19 > A PVDE irá propositadamente ao Instituto dos Ferroviários buscar o Livro de Visitas, para confrontar
Acácio Costa e forçar a sua confissão, acerca da presença dos arsenalistas e de Bento Gonçalves Mensagem de Bento Gonçalves no Livro de Visitas do Instituto dos Ferroviários, assinada sob o pseudónimo
naquela instituição barreirense. Cf. PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-2. Anos mais tarde, em 18 de “Mário Coelho”. CMB
maio de 1937, o Instituto dos Ferroviários envia um ofício ao Diretor da PVDE exigindo a devolução
do Livro de Visitas «pedido emprestado por algumas horas por um polícia de informações, a fim de
confrontar algumas assinaturas dos visitantes. Como não veio entregá-lo solicita-se a sua devolução, 20 > CMB, “Registo dos Visitantes”, Instituto dos Ferroviários do Sul e Sueste, Lv. 01, 1927-1951
pois ele encerra as impressões dos visitantes, desde a fundação desta casa.». CMB, Actas da Direcção
do Instituto dos Ferroviários do Sul e Sueste, Livro nº 2, 1932-1938 21 > Informação a partir do Processo das Bandeiras em: AN/TT, PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-1 Complexo fabril da CUF, 1938. Foto CMB

54 55
Embora há muito procurado pela polícia política, devido à sua atividade
enquanto secretário-geral do Partido Comunista Português, o nome de Bento
Gonçalves ficará indissociavelmente ligado a este momento da história da
resistência ao fascismo no Barreiro, sendo o seu nome citado inúmeras vezes,
ao longo dos interrogatórios aos presos do 28 de Fevereiro. Constará, aliás,
na denominação oficial do Processo em seis volumes, existente no Arquivo
Nacional/Torre do Tombo.22
No depoimento escrito que deixou, Acácio José da Costa refere que, no
princípio, a organização comunista do Barreiro era controlada, entre outros
«pelos camaradas Cansado Gonçalves; Vítor Hugo (Velez Grilo; José de Sousa e
Norberto de Oliveira assuntos sindicais), Pavél e Orlando da Juventude Comunista.
Pouco tempo depois, nos meados de 1933 apareceu o camarada Bento Gonçalves
que controlava toda a organização do Barreiro até à minha prisão.»23
Além dos nomes citados por Acácio Costa, acedendo à leitura das fontes
policiais – interrogatórios, acusações, sentenças e Acórdãos do Tribunal Militar
Especial proferidos contra os arguidos do processo – sabemos que o Comité
Local do Barreiro seria constituído, à data do acontecimento, pelo próprio Acácio,
por Francisco Ferreira, o “Chico da CUF”, por Joaquim Jorge e José Simões ou
“José da Mina.24
Considerados pela polícia política os principais responsáveis pela jornada do
dia 28 de Fevereiro, surgem ao longo do processo e serão acusados de militância
comunista e «afixação de manifestos e letreiros subversivos, jornais clandestinos
e subversivos, o “Avante”, “Proletário” e outros, selos do Socorro Vermelho
Internacional, levantamento de bandeiras» muitos outros nomes, que importa
aqui registar e, por uma questão de rigor histórico e respeito à sua memória,
resgatar ao silêncio e ao esquecimento.

22 > Processo de Querela a Bento Gonçalves e outros, PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-14234-1; 14234-


214234-2; 14234-3; 14234-4;
14234-5; 14234-6

23 > “História de um Antifascista – O meu pai”, depoimento inédito de Acácio José da Costa, recolhido
por sua filha Margarida antes do falecimento de seu pai em 28/11/1986

Foto da chaminé da CP, onde foi colocada uma das bandeiras vermelhas em 28 de Fevereiro de 1935. Postal CMB 24 > Cf. http://antt.dglab.gov.pt/, cota: PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-14234-3_m0287 Operários à saída das fábricas da CUF, Barreiro, 1933. Foto: Cinemateca Portuguesa

56 57
BIOGRAFIAS PRISIONAIS
ACÁCIO JOSÉ DA COSTA ALEXANDRE FERREIRA ANACLETO XAVIER ÂNGELO DO COUTO
Será um dos intervenientes mais penalizados 24 anos, solteiro, natural de Santa Maria, Beja, 23 anos, solteiro, natural da Freguesia de Santa 41 anos, casado, natural de Melides concelho
em todo o processo das bandeiras, tendo estado residente na Rua Miguel Pais, Barreiro, serralheiro Cruz, Barreiro, residente no Pátio Albers nº 14, de Grândola, residente no Beco do Petinga nº 5,
encarcerado nas prisões políticas do salazarismo da Companhia União Fabril. Acusado de filiação Barreiro, serralheiro nas Oficinas Gerais. Preso 1º, Lavradio, ferreiro nas Oficinas do caminho-
mais de uma década. comunista e de ser o «secretário do núcleo 24 da em 23.04.1935, acusado de fazer parte do núcleo de-ferro. Acusado de filiação comunista por
«Preso em 16.3.1935 Motivo: Comunista», Acácio CUF. Distribuía os jornais “Avante!” e “Proletário”. do Socorro Vermelho Internacional, secretariado fazer parte do Núcleo 14 das Oficinas da
FICHAS POLICIAIS, ACUSAÇÕES E SENTENÇAS. OS INTERVENIENTES NO PROCESSO DAS BANDEIRAS VERMELHAS Costa cumprirá um percurso penitenciário que o Participou na jornada de 28 de Fevereiro tendo por Virgílio dos Santos Pereira. «Pagava um CP; de ser Secretário do Núcleo do Socorro
leva da prisão do Barreiro, “Olho de Boi”, para o recebido e feito afixação de material e dísticos escudo recebendo em troca um selo e por duas Vermelho Internacional; de distribuir material de

O
s dias que se seguiram à jornada de 28 de Fevereiro de 1935 foram de vagas Aljube, será transferido depois para a Fortaleza comunistas no Largo das Obras». vezes também recebeu folhetos intitulados propaganda comunista e selos de cotização do
«Acácio José da Costa, 31 anos, casado, serralheiro dos caminhos de Ferro, natural
Militar de Peniche, volta ao Aljube, é novamente Julgado pelo Tribunal Militar Especial em ‘Ferroviário Vermelho’, folheto que encerrava Socorro Vermelho.
sucessivas de violência repressiva, por parte da GNR, PVDE e autoridades admi- da freguesia de Sacavém, Concelho de Loures; enviado para Caxias e, por fim, julgado em 01.04.1935, acabaria absolvido «atendendo matéria subversiva.» «É um elemento perigoso, pela propaganda
Tribunal Militar Especial em 15.2.1936, será às declarações prestadas que mostram o seu comunista que exercia e pela pressão que
nistrativas que, efetuam buscas, apreensões, perseguições e interrogatórios que Joaquim Jorge, 37 anos, casado, agulheiro dos caminhos de Ferro; Fonte: PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-2.
condenado a 18 meses de prisão correcional e arrependimento e o desejo de no futuro se desenvolvia em novos aliciamentos, procurando
levam a detenções e prisões em massa. José Simões, ou “José da Mina”, solteiro, 25 anos, serralheiro da União Fabril; perda dos direitos políticos por 5 anos. ocupar apenas do seu trabalho e do bem estar sempre captar novos filiados, apregoando
Foi solto em 17.05.1935.
Já depois de cumprida a pena, foram-lhe da família do qual é amparo pelo que o absolve e por isso as doutrinas comunistas, fazendo os
«Já se efectuaram mais de 100 prisões na C.U.F., Caminho de Ferro, etc. Mais de 45 Francisco Ferreira, conhecido como “Chico da CUF” fugido à ação da Polícia; aplicadas ‘medidas de segurança’ e mantido em manda em paz». possíveis ao mesmo tempo, por distribuir os
estão mantidas e tudo nos indica que mais prisões serão feitas se a tal o proletariado prisão preventiva, sendo deportado e enviado folhetos comunistas intitulados “Ferroviário
Todos acusados de constituir o chamado Comité Regional do Barreiro e como tal Fonte: PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-2.
para o Tarrafal em 18.10.1936, integrando Vermelho” por aqueles que tentava aliciar.»
barreirense não se opuser.» 1
os principais responsáveis pela propaganda, agitação e organização comunista naquela as primeiras levas de presos políticos que ali
chegaram. Regressou ao continente passados 8 Fonte: PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-2
Como refere José António Marques no seu Diário, no dia 8 de março de 1935, Vila.»4 anos e meio, com a indicação de se apresentar no Julgado em Tribunal Militar Especial em 15.02.1936,
«Foram presos nas Oficinas Gerais do Caminho de Ferro em Barreiro, 50 operários (...) Ainda segundo a mesma fonte, eram eles quem convocava os secretários das Forte de Caxias onde ainda passou mais 14 dias, foi condenado na pena de 10 meses de prisão
sendo por fim libertado em meados de outubro correcional, que lhe foi dada por expiada com a
por questões políticas sem fundamentos».2 células da organização comunista para «lhes dar as instruções e ordens recebidas, de 1944. prisão sofrida e suspensão dos direitos políticos por
5 anos.
No decurso da investigação foram-se constituindo os arquivos e processos orientando-os nos trabalhos que deviam pôr em execução. Fonte: IAN/TT, Arq. PIDE/DGS, Proc. RGP637
políticos baseados nos relatórios da polícia, que hoje se conservam na Torre do Tombo, Todos assistiam às reuniões como membros do Comité Regional do Barreiro, de
os quais preservaram as bandeiras vermelhas, bem como os dísticos apreendidos, que recebiam ordens e instruções para a composição e acção das células comunistas,
elementos fundamentais que incriminavam os acusados, obrigados a assiná-los como bem como selos, jornais e manifestos clandestinos e subversivos, que por seu turno
reconhecimento da sua culpabilidade. distribuíam pelos filiados das suas respectivas células. Receberam os letreiros
Dos 47 incriminados na jornada e constituídos arguidos, foram acusados de subversivos e bandeiras para afixar e hastear nas ruas do Barreiro e Lavradio, na citada
pertencer ao Comité Regional do Barreiro e desenvolver actividades subversivas, noite de 28 de Fevereiro de 1935, distribuindo-os pelos filiados nas células.»5
segundo o Acórdão do Tribunal Militar Especial de Lisboa de 13 de fevereiro de 1936, os São as suas actividades, consideradas subversivas, as biografias construídas pela
elementos que se seguem, informação que reproduzimos a partir das fontes policiais . 3
polícia como elemento de prova, tal como as acusações, sentenças e penas a que foram
sujeitos todos os implicados no processo das bandeiras vermelhas, em 28 de Fevereiro
1935, que se procura reconstituir e apresentar nas páginas seguintes.

1 > Comunicado da Célula da C.U.F. do Barreiro, após a realização da Jornada. AN/TT, PT-ADLSB-JUD-TCLSB-
C-C-001-14234-2

2 > Registo dos factos mais notáveis no ano de 1935, CMB/EJAM, Lv. 14, Cx. 2 – Diário dos principais
acontecimentos de 01-03- a 17-09 de 1935

3 > Informações contidas nos processos da PVDE, em 6 volumes, cujas cotas são as seguintes:
AN/TT, PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-1; PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-2; 4 > AN/TT, PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234
PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-3; PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-4;AN/TT,
Fonte: Processo da PVDE, PT-TT-PIDE-E-015-133735 Fonte: Processo da PVDE, PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-1 PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-5; PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-6 5 > Idem

58 59 60
ANTÓNIO DUARTE ELISEU ANTÓNIO FERNANDES ANTÓNIO FRANCISCO PIRES ANTÓNIO SIMÕES SALVADOR ARMINDO DOS SANTOS BENTO GONÇALVES CÉSAR RODRIGUES DA COSTA CUSTÓDIO DA SILVA EMÍLIO MARTINS FLÁVIO ALVES FRANCISCO ANTÓNIO BUCHO FRANCISCO RODRIGUES PEREIRA FRANCISCO SOUSA JÚNIOR JESUS ELIAS JOÃO CORDEIRO JOÃO DA SILVA
27 anos, casado, natural de Estremoz, residente Participou na colocação da bandeira vermelha 19 anos, solteiro, natural do Barreiro, soldado da Conhecido como ‘António da Mina’, 23 anos, 26 anos, solteiro, natural de Talhadas, Sever do Nasceu em Montalegre em 1902. Foi secretário- 38 anos, casado, natural de Sever do Vouga, 26 anos, casado, natural da Freguesia de Santa 34 anos, casado, natural de Chança, Alter do 23 anos, solteiro, natural do Barreiro, residente 36 anos, casado, natural de Arronches, Conhecido como ‘Chico da Ponte’, 30 anos, 25 anos, solteiro, natural de Vilar do Mato, Tábua, 26 anos, solteiro, natural do Barreiro, residente 39 anos, casado, natural do Barreiro, residente 32 anos, casado, natural do Barreiro, residente
na Rua 31 de Janeiro no Barreiro, caldeireiro na Chaminé das Oficinas da CP. Tendo fugido à 3ª Companhia de Saúde, Hospital Militar (Belém). solteiro, natural de Corte de Pinto, Mértola, Vouga, residente na Rua 1º de Maio nº13, Barreiro, geral do Partido Comunista Português entre residente na Rua 16, Alto do Silveiro, serralheiro Cruz, Barreiro, residente no Largo da República Chão, residente na Rua dos Ácidos nº21, Barreiro, na R. Dr. Manuel de Arriaga 34, Barreiro, descarregador na CUF, residente na Rua 1º solteiro, natural de Serpa, residente no Largo residente em Rua Almirante Reis,14, engatador no Largo Alexandre Herculano 81, Barreiro, na Praça da República 36, Barreiro, forjador das na Quinta dos Arcos, Barreiro, ajudante de
naval na CUF, acusado de comunista, aliciado por polícia, acabaria por ser capturado em 13.01.1936 «Preso em 21.03.1936, com residência nos Paços residente na Rua Lawes, nº 9, Barreiro, trabalhador na Companhia União Fabril. Acusado 1929 e 1942. Detido em 11 de novembro de 1935, dos caminhos-de-ferro. Acusado de filiação nº8, Lavradio, afinador de fieiras na Companhia serrador mecânico na Companhia União Fabril. serralheiro da Companhia União Fabril. Acusado de Dezembro, Barreiro. Acusado de filiação Alexandre Herculano nº 71, maquinista da dos caminhos-de-ferro. ajudante de forjador nas oficinas dos caminhos- oficinas ferroviárias. «Fazia parte do Socorro caldeireiro. Fazia parte do Socorro Vermelho
Flávio Alves. Com «os elementos do seu núcleo e condenado a dezasseis meses de prisão do Concelho (Cadeia) no Barreiro, enviado pelo canalizador na Companhia União Fabril. de exercer atividade no Partido Comunista aquando da prisão de todo o Secretariado da comunista e de assistir a reuniões na «cabine dos União Fabril. Acusado de estar filiado no Partido Acusado de estar filiado no Partido Comunista de filiação comunista. Elemento do núcleo 21, que comunista e participação no Núcleo 24 da Companhia União Fabril, acusado de filiação «Verifica-se muito bem que o epigrafado de-ferro. Fazia parte do núcleo do Socorro Vermelho Internacional, para o qual foi aliciado Internacional, para o qual foi aliciado por
distribuiu material de afixação comunista em correcional. Comandante da 3ª Companhia» à PVDE. Nas «Fazia parte da secção do Socorro Vermelho Português e distribuir literatura comunista como direção do PCP, foi transferido para o Forte de caminhos-de-ferro, conjuntamente com Joaquim Comunista Português, aliciado por Flávio Alves, Português fazendo parte do núcleo 22, secretariava, «recebendo literatura comunista empresa. «Assistiu às reuniões do seu núcleo comunista. Como secretário do núcleo 23 procurou eximir-se às responsabilidades que Vermelho Internacional, secretariado por por Ângelo do Couto. Recebeu folhetos intitulados Ângelo do Couto. Recebeu «folhetos intitulados
conjunto com César Rodrigues Oliveira, para que Encontrava-se preso na Fortaleza de Peniche em suas declarações assume ter entrado para as Internacional, organizada na CUF, conjuntamente sejam os jornais “Avante!” e “Proletário”. Angra do Heroísmo. Condenado em Conselho de Jorge e Manuel Domingues Margarido e César fazendo parte do núcleo 23. «Embora não se secretariado por Armindo dos Santos. como os jornais “Avante!” e ”Proletário” que lia.» onde foi ventilada propaganda comunista a da Companhia, «dava instruções aos outros lhe competem na acção que teve na Jornada Ângelo do Couto. Recebia «folhetos intitulados “Ferroviário Vermelho” e selos de cotização “Ferroviário Vermelho” e selos de cotização
eles o afixassem na área compreendida entre a 17.02.1938, data em que foi libertado. Juventudes Comunistas do Barreiro onde «ficou com os arguidos Flávio Alves, Francisco O Tribunal não lhe deu como provado o crime de Guerra pelo Tribunal Militar Especial de Angra Rodrigues de Oliveira. Em virtude da negativa tenha provado que tomasse parte activa na «Recebeu por vezes materiais de propaganda «Elemento perigoso pela propaganda comunista exercer e agitação revolucionária. Tomou parte componentes do núcleo e distribuía material de Agitação que se realizou na noite de 28 “Ferroviário Vermelho” e selos de cotização pagando por cada folheto trinta cêntimos e por pagando por cada folheto trinta cêntimos e por
Corticite e o Lavradio.» pertencendo a uma célula na Companhia União Rodrigues Pereira e João da Silva.» que ia acusado, pelo que foi absolvido. «na pena de seis anos de desterro em local à constante do epigrafado sobre a acusação que Jornada de 28 de fevereiro, há suspeitas do comunista, como seja o manifesto comunista que exercia e agitador revolucionário pela activa na Jornada de Agitação que se realizou na de propaganda. Estava em ligação constante de Fevereiro, ficando mais que provado que pagando por cada folheto trinta cêntimos e por cada selo um escudo.» Foi condenado a 10 meses cada selo um escudo.»
Fabril. Que essa célula tinha reuniões todos os escolha do Governo, doze mil escudos de multa lhe é feita nos presentes autos, não ficou provada contrário em virtude do núcleo do epigrafado ter intitulado “Cuf Vermelha”. Apesar de não ter influência que incutia no espírito do operariado noite de 28 de Fevereiro último, tendo colado com o Secretário Responsável de Agitação e teve na barraca onde fazia serviço, uma cada selo um escudo.» de prisão correcional.
Fonte: PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-2. sábados, pagando ele respondente uma cota Fonte: PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-2. e perda dos direitos políticos por dez anos». a acção que teve na Jornada de Agitação, mas tomado parte activa na Jornada já referida.» tomado parte activa na Jornada de Agitação, teve da Companhia União Fabril, arrastando-os para dísticos comunistas nos postes telegráficos na Propaganda do Comité Regional José Simões. quantidade de dísticos comunistas iguais aos Fonte: PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-2.
semanal de cinquenta centavos e mensalmente Será deportado para o Campo de Concentração tendo partido da cabine onde o epigrafado reunia, conhecimento dela, pois que foi avisado para a organização comunista.» «Tomou parte na Rua Miguel Bombarda, no Barreiro.» Assistiu a diversas reuniões do Secretariado que foram afixados na noite referida, tendo Fonte: PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-2. Fonte: PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-2.
Pelo Acórdão de 13 de fevereiro de 1936, foi Condenado a 11 meses de prisão, saiu em liberdade Fonte: PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-2 Pelo Acórdão do Tribunal Militar Especial de
condenado a 14 meses de prisão correcional e um selo de um escudo ao Socorro Vermelho do Tarrafal integrando o primeiro grupo de os atos preparatórios e o material de afixação comparecer nessa noite ao pé da linha férrea, à jornada de Agitação que se realizou na noite de e a última foi na noite de 28 de Fevereiro, sido surpreendido dias antes a ler um papel que
pelo Acórdão de 13 de fevereiro de 1936. Fonte: PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-2. Foi libertado em 17.05.1936. 13.02.1936 foi solto, após o cumprimento de 386
suspensão dos direitos políticos por 5 anos. Internacional. prisioneiros políticos portugueses que ali para a Jornada já referida, é muito possível que entrada do Bairro das Palmeiras.» 28 de fevereiro, tendo hasteado uma bandeira tendo-lhe sido entregue pelo Flávio Alves escondeu imediatamente, quando foi visto.» dias de prisão e suspensão dos direitos políticos por
Foi libertado em 13 de fevereiro de 1936.
«Que entretanto deu-se no Barreiro a tentativa chegaram em outubro de 1936. Foi um dos 32 o epigrafado tivesse tomado parte activa na encarnada nos fios elétricos da fábrica Corticite, material de afixação, espalhado nessa noite 5 anos.
Fonte: PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-2. Julgado em Tribunal Militar Especial em 15.02.1936, Fonte: PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-2
de colaboração na greve geral revolucionária já antifascistas que morreram às mãos do regime mesma.» coadjuvado pelo elemento do seu núcleo Cezar no Alto do Seixalinho.
foi condenado na pena de 10 meses de prisão
citada, para preparação da qual a célula distribuiu de Salazar no «Campo da Morte Lenta», tendo Rodrigues de Oliveira.» correcional, que lhe foi dada por expiada com a Tomou parte nas Jornadas de Agitação que
Fonte PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-2. Foi solto pelo Acórdão de 13 de fevereiro de 1936. Julgado em Tribunal Militar Especial em 15.02.1936,
manifestos e proclamações, os quais eram falecido a 11 de setembro de 1942, um ano após prisão sofrida e suspensão dos direitos políticos por se efectuaram no Barreiro em setembro e
Fonte: PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-2. foi condenado na pena de 10 meses de prisão
colocados por debaixo das portas das residências ter terminado a pena. 5 anos. novembro do ano findo.» correcional, que lhe foi dada por expiada com a
Foi restituído à liberdade em 13 de fevereiro de 1936.
e entregues aos operários, trabalhos esses que Pelo Acórdão do Tribunal Militar Especial de prisão sofrida e suspensão dos direitos políticos por
ele como elemento de célula das Juventudes Fonte: PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-6. Fonte: PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-2.
15.02.1936 foi condenado na pena de 10 meses de 5 anos.
Comunistas colaborou. Que na noite antecedente prisão correcional, que lhe foi dada por expiada com
a prisão sofrida e perda dos direitos políticos por 5 Pelo Acórdão do Tribunal Militar Especial de
da tentativa da greve geral revolucionária ele
anos. 15.02.1936 foi condenado a 10 meses de prisão
respondente esteve na Praça Gago Coutinho correcional, que lhe foi dada por expiada com a
– Sacadura Cabral, conhecida também pela prisão sofrida e suspensão dos direitos políticos
Praça Vermelha por ser o ponto de reunião dos por 5 anos.
elementos comunistas do Barreiro...» 1

1 > PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-4

61 62 63 64
JOAQUIM CLARO GARCIA JOAQUIM JORGE JOAQUIM PEREIRA DA FAUSTINA JOSÉ DOMINGUES JOSÉ DUARTE SILVEIRA JOSÉ ELIAS GUERREIRO JOSÉ JOÃO RODRIGUES JOSÉ SIMÕES DA SILVA JOSÉ SIMÕES SALVADOR MANUEL DE OLIVEIRA MANUEL DO ROSÁRIO SOUSA MANUEL DOMINGOS MARGARIDO MANUEL DOMINGOS MIRANDA MANUEL GUERREIRO DOS SANTOS MANUEL PEIXOTO MARTINHO COELHO
34 anos, solteiro, natural de Lisboa, residente 37 anos, casado, natural de Sabugal, residente Também conhecido pelo “Riacho”, 33 anos, 38 anos, casado, natural de Fundão, residente 38 anos, casado, natural da freguesia de Santa 25 anos, solteiro, natural de Messines, residente 24 anos, solteiro, natural da Freguesia de Santa O ‘José do Casal’, 36 anos, casado, natural de Ou ‘José da Mina’, 25 anos, solteiro, serralheiro 31 anos, solteiro, natural do Barreiro, residente 25 anos, casado, natural de Torres Novas, 38 anos, casado, natural de Pinhal Novo, 40 anos, casado, natural da Moita, trabalhador 28 anos, solteiro, natural de Alte, concelho de 26 anos, solteiro, natural da Freguesia da Sé 25 anos, solteiro, natural da freguesia de Riachos,
na Rua Combatentes da Grande Guerra nº 4, na Rua Heliodoro Salgado nº 9, 2º, agulheiro casado, natural de Torres Novas, residente na Rua no Alto do Seixalinho, pintor na CUF. Preso duas Cruz, Barreiro, residente na Rua Serpa Pinto nº na Travessa da Figueira nº3, Barreiro, serralheiro Cruz, Barreiro, residente na Rua Aguiar nº 121, Riachos, Torres Novas, residente na Quinta da União Fabril, acusado de pertencer ao Comité na Travessa do Asilo D. Pedro V, nº 2, Barreiro, residente na Rua 1º de Maio, Páteo José Valente, Palmela, residente no Pinhal Novo, agulheiro dos da Companhia União Fabril, residente na Quinta da Loulé, residente na Rua Dr. Manuel de Arriaga, Nova, Coimbra, residente na Rua Aguiar 327, Torres Novas, residente na Rua 1º de Maio, Pátio
Barreiro, eletricista da CUF. «Exercendo actividade dos caminhos-de-ferro. «Filiou-se no Partido 1º de Maio, trabalhador da União Fabril. Acusado vezes anteriormente por delito comum, uma das 37, serralheiro das Oficinas do caminho-de- ajudante nas Oficinas da CP. Acusado de exercer serralheiro da União Fabril. Acusado de exercer dos Casquilhos, trabalhador. Ocupava o cargo Regional do Barreiro e ser dos «principais ajudante de forjador. Restituído à liberdade em Barreiro, serrador mecânico na Companhia caminhos-de-ferro, acusado de filiação comunista Fonte, Lavradio. Acusado ser comunista «tendo nº 31, Barreiro, serralheiro dos caminhos-de- Barreiro, trabalhador. Acusado de estar filiado Alberto nº3, Barreiro, caldeireiro da Companhia
no Partido Comunista Português, fez parte do Comunista em finais de 1934, tendo sido de ter feito «propaganda comunista e de colar quais foi absolvido por falta de provas. Acusado ferro. «Em virtude do arguido Vicente Sequeira «actividade comunista há muito tempo, tendo há mais de um ano de atividade no Partido de Secretário Responsável de Agitação e responsáveis pela propaganda, agitação e 16 de maio de 1935, por se ter provado «uma União Fabril, conhecido pela alcunha de “Manuel e de participar em reuniões comunistas «na ingressado no núcleo 23 secretariado pelo ferro. Acusado de exercer atividade no Partido no Partido Comunista Português há mais de 6 União Fabril. Já fora preso por indisciplina,
núcleo 23 da Companhia e passou a secretário aliciado por Acácio José da Costa». Fez parte letreiros subversivos na noite de 28 de Fevereiro de fazer parte do núcleo 23 da CUF, secretariado ter fugido à acção desta Polícia, foi impossível aliciado vários membros do núcleo 10 das Comunista, tendo sido aliciado pelo ‘Chico da CUF’ Propaganda, sendo um dos «acusados de organização comunista naquela Vila. responsabilidade diminuta, parecendo-nos que a Caveira”. Acusado de filiação comunista, «tendo cabine dos caminhos-de-ferro, no Barreiro, onde arguido Francisco Rodrigues Pereira elemento Comunista Português, aliciado pelo ‘Chico da meses, tendo sido aliciado pelo arguido Francisco quando serviu no Exército. «Acusado de exercer
do núcleo 20. O epigrafado assistiu às reuniões do Sindicato dos Ferroviários até 1933 e era o tendo aliciado o arguido Bucho, indicando-lhe o pelo ‘Chico da Ponte’. “Recebia material de provar que o epigrafado fizesse parte do núcleo Oficinas secretariado por Acácio José da Costa. e de fazer parte do núcleo 21 da Companhia, que constituir o chamado Comité Regional do Barreiro Além do já dito é acusado de, em setembro de prisão sofrida seja castigo suficiente para o delito sido aliciado por Armindo dos Santos. Fazia parte fazia serviço.» que o aliciou. Assistiu às reuniões do seu núcleo, CUF’. «Fazia parte do núcleo 10 das Oficinas, Rodrigues Pereira, fazendo parte do núcleo actividade no Partido Comunista Português há
preparatórias da Jornada de Agitação, tendo Secretário Responsável da Organização. Será local de afixação.» propaganda comunista. O epigrafado ao ser comunista secretariado pelo Sequeira. Passou a secretariar o núcleo 14 onde distribuía secretariava. os principais responsáveis pela propaganda, 1934, ter distribuído a outras pessoas manifestos cometido.» do núcleo 22, secretariado pelo Armindo. negando que tivesse tomado parte activa nas ficando a secretariá-lo desde que os arguidos 23 da CUF. «Na Jornada de Agitação que se muito tempo e de fazer parte do núcleo 22 da
recebido material de afixação e uma bandeira um dos acusados de constituir o chamado feita a sua condução para Lisboa, aproveitando Provou-se contudo pertencer à secção do propaganda comunista, como os jornais “Avante!” «Tomou parte ativa nas Jornadas de Agitação, agitação e organização comunista naquela Vila. subversivos afixando-os e colando-os pelas ruas Apesar de não ter tomado parte activa na Fonte: PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-2. Jornadas de Agitação efetuadas em setembro e Acácio José da Costa e José Elias Guerreiro realizou no Barreiro na noite de 28 de Fevereiro, CUF. Recebia os jornais “Avante!” e “Proletário”.
encarnada…» Comité Regional do Barreiro os principais Fonte: PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-2. a aglomeração do povo que se encontrava em Socorro Vermelho Internacional organizado nas e “Proletário”, como também marcava os que se efectuaram no Barreiro, em setembro do Convocar os secretários das células comunistas do Barreiro. Não se prova que os afixasse na Fonte: PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-2. Jornada de Agitação, na noite de 28 de Fevereiro novembro do ano findo. A negativa do epigrafado transitaram para o Comité Regional. foi convidado a comparecer no Largo das Tomou parte activa na jornada de agitação
O Tribunal não lhe deu como provado o crime de que
«Tendo-lhe sido marcada a área da afixação na responsáveis pela propaganda, agitação e frente ao posto policial do Barreiro, antes de Oficinas, aliciado por José Elias Guerreiro.» dias, horas e locais onde se deviam efectuar ano findo [1934] e fevereiro último, tendo colado para lhes dar as instruções e ordens recebidas, noite de 28 de Fevereiro de 1935.» Foi condenado último, teve conhecimento dela, pois que foi só tem um fim, o de se eximir à responsabilidade Em virtude da negativa do epigrafado, difícil Obras, a fim de proceder à colagem de dísticos em novembro do ano findo e fevereiro último,
Foi condenado a 10 meses de prisão correcional e ia acusado, pelo que foi absolvido.
Praça Luiz de Camões, ali apareceram afixados e organização comunista naquela vila, convocar entrar no automóvel que o devia conduzir, incitou as reuniões. Ocupava o cargo de Secretário da dísticos comunistas nas paredes de prédios do orientando-os nos trabalhos que deviam pôr em a 14 meses de prisão correcional. avisado para comparecer nessa noite ao pé da que lhe compete.» foi provar a acção que desenvolveu na Jornada comunistas, alegando que não compareceu por tendo colado dísticos comunistas no Bairro das
suspensão dos direitos políticos por 5 anos. Fonte: PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-2.
espalhados dísticos comunistas e hasteada nos os secretários das células comunistas para lhes o referido povo à revolta, proferindo as seguintes Organização, em ligação com o Responsável do Barreiro e na última acompanhou os arguidos execução.» linha férrea, à entrada do Bairro das Palmeiras.» de Agitação. Aliciou para o Partido Comunista ter ido trabalhar, o que não convence.» Palmeiras e hasteado uma bandeira encarnada no
fios telefónicos uma bandeira encarnada, o que dar as instruções e ordens recebidas, orientando- frases: “O nosso ideal há-de vingar. Até um dia, Comité Regional, Joaquim Jorge. Tomou parte nas Acácio José da Costa e Flávio Alves.» «Além do já dito é acusado de, em setembro de Fonte: PT-TT-PIDE-E-015-133735. Fonte: PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-2 Português o arguido José Elias Guerreiro.» disco luminoso na linha férrea, que fica situado
Foi solto em 17.05.1935 por nada se ter provado. Fonte: PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-2. Fonte: PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-2
é prova mais que suficiente da culpabilidade do os nos trabalhos que deviam pôr em execução. Povo do Barreiro. Somos idealistas, não somos Jornadas de Agitação Comunista que se realizaram Acusado de ter sido um dos quatro que 1934, ter distribuído a outras pessoas manifestos em frente do Bairro referido. Fazia parte da
Foi libertado pelo Acórdão de 13 de fevereiro de Fonte: PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-2.
arguido.» Foi ainda acusado de sabotar o posto «Além do já dito é acusado de ter, na noite de nenhuns bandidos!” Os factos ocorridos deram em setembro e fevereiro último, tendo colado colocaram a bandeira vermelha na chaminé da subversivos, afixando-os na noute de 28 de secção do Socorro Vermelho Internacional.»
1936. Foi libertado pelo Acórdão de 13 de fevereiro de
de transformação elétrica que provocou o corte 28 de Fevereiro de mil novecentos e trinta e origem a que os agentes que o conduziam fossem dísticos comunistas nas paredes de diversos Oficinas Ferroviárias, ao ter colaborado com Fevereiro de 1935.»
O Tribunal não lhe deu como provado o crime de 1936. Fonte: PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-2
de energia na noite de 28 de Fevereiro. cinco, colado letreiros subversivos no material insultados e vaiados pelo povo, estando eminente prédios do Barreiro e nos da Rua Miguel Pais.» Acácio José da Costa, Joaquim da Aldeia e António
que ia acusado. Foi absolvido pelo Acórdão de
circulante da Companhia Portugueza.» um grave conflito.» Fernandes. 08.02.1936, depois de ter cumprido 11 meses de
Fonte: PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-2. Fonte: PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-2. Fonte: PT-TT-PIDE-E-015-133735 Julgado em Tribunal Militar Especial em 15.02.1936,
prisão preventiva. foi condenado na pena de 10 meses de prisão
Fonte: PT-TT-PIDE-E-015-133735. Fonte: PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-2. Fonte: PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-2.
Julgado em Tribunal Militar Especial em 15.02.1936, correcional, que lhe foi dada por expiada com a
Pelo Acórdão do TME de 13.02.1936 foi condenado a Após 11 meses de prisão preventiva, foi condenado
foi condenado a 10 meses de prisão correcional, que prisão preventiva sofrida de 11 meses e suspensão
10 meses de prisão, que lhe foi dada por expiada com Foi condenado em Tribunal Militar Especial a 14 Depois de ter cumprido 11 meses de prisão Pelo Acórdão do Tribunal Militar Especial de em Tribunal Militar Especial em 8/2/1936, a 14
lhe foi dada por expiada com a prisão de 11 meses e dos direitos políticos por 5 anos.
a prisão sofrida de 11 meses e suspensão dos direitos meses de prisão correcional e suspensão dos preventiva foi condenado, pelo Tribunal Militar 08.02.1936 foi condenado em 14 meses de prisão meses de prisão correcional e suspensão dos
suspensão dos direitos políticos por 5 anos.
políticos por 5 anos. direitos políticos por 5 anos. Especial, em 10 meses de prisão correcional e correcional e suspensão dos direitos políticos por 5 direitos políticos por 5 anos.
suspensão dos direitos políticos por 5 anos. anos.

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MAURÍCIO DOS SANTOS GONÇALVES VICENTE SEQUEIRA VIRGÍLIO SANTOS PEREIRA CÉSAR RODRIGUES DE OLIVEIRA FRANCISCO FERREIRA JOAQUIM DA ALDEIA JOSÉ LUIZ MARIA AUGUSTO GERALDO DINIZ
34 anos, solteiro, natural de Alcantarilha, Silves, Ferroviário, acusado de ser secretário de um 25 anos, casado, carpinteiro das Oficinas do Acusado de tomar «parte na jornada de Agitação que se realizou na Conhecido como “Chico da CUF”, acusado de «por deliberação do FRANCISCO LUIZ MARIA MANUEL MARTINS RAUL GONÇALVES
residente no Alto do Seixalinho, trabalhador dos núcleos da célula das Oficinas do Barreiro. caminho-de-ferro, natural da Freguesia de Santa noite de 28 de Fevereiro, tendo hasteado uma bandeira encarnada nos Comité Executivo do Partido Comunista […] levar a efeito, pelo menos
na União Fabril. «O epigrafado já esteve preso Escapou à perseguição policial, retirando-se para Cruz, Barreiro, residente em Alhos Vedros. fios eléctricos da fábrica Corticite, coadjuvado neste trabalho por Flávio no Barreiro, uma semana de agitação de 25 de fevereiro de 1935 a 2 de Ambos acusados de «serem os secretários das células comunistas Ambos acusados de fazer parte MADEIRA
quando da situação política Sidonista, tendo Espanha. Após o final da Guerra Civil será detido Acusado de filiação comunista e de pertencer Alves.» Evadiu-se da Cadeia do Barreiro na noite de 1 de abril de 1935. março […]. constituindo os secretariados da União Fabril e Companhia do Socorro Vermelho Internacional;
Portuguesa, como eles as chamam.» Foi-lhes emitido um Mandado de Soltura aos três, por ordem do
estado degredado cerca de seis anos. Está filiado pelos franquistas, sendo libertado da Prisão ao Socorro Vermelho Internacional, de que fazia
Fonte: PT-TT-PIDE-E-015-133735. Tribunal Militar Especial de Lisboa, em 11 de janeiro de 1936 – o
no Partido Comunista Português, fazendo parte Central de Burgos em dezembro de 1947. Entrou parte no Comité de Empresa como secretário.
Fonte: PT-TT-PIDE-E-015-133735. que pressupõe que terão estado detidos quase um ano – «por os
do núcleo 23. Assistiu às reuniões do seu núcleo em Portugal em janeiro de 1948, tendo sido então «É reincidente na distribuição de material
autos não fornecerem elementos de prova do crime que lhe era
recebendo material de propaganda comunista e detido pela PIDE. comunista, pois em devido tempo foi preso
imputado.»
os jornais “Avante!” e “Proletário”. Tomou parte pela Polícia de Segurança de Setúbal por ter
activa na Jornada de Agitação comunista que se Fonte: PT-TT-PIDE-E-015-133735 distribuído o jornal clandestino e de propaganda Fonte: PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-14234-3;
realizou no Barreiro, na noite de 28 de Fevereiro, comunista, intitulado “Solidariedade”.»
tendo colado dísticos comunistas no Alto do
Seixalinho.» Fonte: PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-4.

Fonte: PT-ADLSB-JUD-TCLSB-C-C-001-14234-2. Julgado em Tribunal Militar Especial em 15.02.1936,


foi condenado na pena de 10 meses de prisão
Julgado em Tribunal Militar Especial em 15.02.1936, correcional, que lhe foi dada por expiada com a
foi condenado na pena de 10 meses de prisão prisão preventiva sofrida de 11 meses e suspensão
correcional, que lhe foi dada por expiada com a dos direitos políticos por 5 anos.
prisão preventiva sofrida e suspensão dos direitos
políticos por 5 anos.

“FUGIDOS” À POLÍCIA
Dos 47 arguidos do “Processo das Bandeiras Vermelhas” classificados pela
polícia como “Fugidos”, 11 haviam inicialmente conseguido escapar à perseguição
policial. Destes, três acabariam por ser detidos, tendo vindo a passar longo tempo
encarcerados.
São os casos de: António Fernandes, que cumpriu pena na Fortaleza de Peniche;
Bento Gonçalves, que acabaria por falecer no Campo de Concentração do Tarrafal e
Vicente Sequeira, preso pelos franquistas após o final da Guerra Civil de Espanha e
novamente detido pela PIDE à sua chegada a Portugal.

Ambos foram condenados à revelia na pena de 22 meses de prisão correcional


e perda dos direitos políticos por 5 anos.

Os quatro últimos foram condenados à revelia na pena de 16 meses de prisão


correcional e perda dos direitos políticos por 5 anos.

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Campo de Concentração do Tarrafal. Fonte: Museu do Neorealismo/Fundação Mário Soares

PERCURSOS PENITENCIÁRIOS
‘OLHO DE BOI’ ALJUBE
A cadeia do Barreiro era conhecida por “Olho de Boi”, devido a um pequeno janelo Na sequência dos acontecimentos de 28 de Fevereiro de 1835, o “Olho de Boi” foi «Com a Ditadura Militar, a cadeia do Aljube é destinada, a partir de 1928, a presos Existem igualmente numerosos testemunhos dos maus tratos infligidos naquela
circular que com o tempo desapareceu, tomando depois a alcunha de “50” que era local, por mais do que uma vez, de levantamentos populares contra as forças policiais, políticos e sociais (os delinquentes políticos, no dizer do Decreto–Lei nº 26643 de 28 de prisão, além das condições deploráveis de alimentação e falta de assistência médica.»
«De Caxias ao Aljube, de Peniche ao Tarrafal, as prisões sobre administração exclusiva da polícia política completavam-se ainda o número da porta. Ali tinham início os tormentos dos barreirenses perseguidos pela libertação dos presos e contra os maus tratos de que eram vítimas na cadeia. Por maio de 1936), passando a cadeia privativa da polícia política. É usada com frequência, Museu do Aljube - Resistência e Liberdade, Câmara Municipal de Lisboa, 2015.
por uma rede de sucursais, instaladas nas principais cidades do país: Porto, Coimbra, Faro, Leiria, Beja, Setúbal, Funchal e Angra do politicamente, arrancados de suas casas ante o espanto e o terror das famílias que os tudo isso mas, sobretudo, depois da fuga de César Rodrigues de Oliveira, na noite de 1 como “placa giratória” dos presos políticos condenados nos Tribunais Militares Em 25 de Abril de 2015 a Cadeia do Aljube abriu ao público como Museu do Aljube,
Heroísmo, tecendo uma teia de onde era difícil escapar. A par dos tribunais militares especiais e das medidas punitivas excepcionais viam partir na mais escura das incertezas, em noites que nunca mais se apagariam da de abril de 1935, o “Olho de Boi” deixaria de receber os detidos por questões políticas, Especiais e que o regime destinava à deportação. Resistência e Liberdade.
decididas pelo governo, as «prisões políticas» constituíam um pilar fundamental da arquitetura repressiva da Ditadura Militar e do memória. Depois dos primeiros interrogatórios, quantas vezes acompanhados de todo o que passaram a ser imediatamente transportados pela “Viúva” ou “Ramona”, a carrinha
Estado Novo.» tipo de violências pelos agentes da Polícia de Informações, PVDE e GNR, ao ‘Olho de Boi’ preta da polícia que os levava para o Governo Civil de Lisboa, ou para dar entrada na
Tribunais Políticos, Tribunais Militares Especiais e Tribunais Plenários durante a Ditadura e o Estado Novo, coord. Fernando Rosas, ed. Ministério da Justiça/Circulo de podiam seguir-se o Aljube, Caxias ou Peniche, entre outras cadeias privativas da polícia cadeia do Aljube.
Leitores/Temas e Debates, 2009
política. Podia haver ainda pior, como a Fortaleza de Angra do Heroísmo ou o “Campo da
Morte Lenta”, no Tarrafal.

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CAXIAS PENICHE
«No Forte de Caxias, Reduto Norte os “segredos” [celas de isolamento] davam para para as mulheres reclusas que ai passavam todo o período de detenção, anos a fio, em A Fortaleza de Peniche funcionou como prisão política durante 40 anos, entre “Segredo”, no Baluarte Redondo, numa fria noite de dezembro de 1954, conseguindo
um corredor subterrâneo e escuro, e não tinham quaisquer janelas. As casamatas eram salas de 4,5x4,5m (incluindo casa de banho). Viviam em convivência forçada e restrita, 1934 e abril de 1974. Segundo o Registo Geral de Presos da PIDE, existente na Torre do atingir a liberdade. Uma outra fuga, muito espetacular porque coletiva, foi a de Álvaro
inabitáveis, estavam debaixo da terra, escorriam água, não tinham luz.» 60 Anos de Luta, Tombo, ali cumpriram pena cerca de 2500 presos políticos, oriundos dos mais diversos Cunhal e outros nove dirigentes comunistas, que em 3 de janeiro de 1960 alcançam a
saindo apenas da cela para o recreio diário de duas horas, sempre com a mesma e única
pontos do país. liberdade.
Edições «Avante!», 1982. companheira.» http://maismemoria.org./mm/2006/07/20/locais-de-memoria/
Como local de repressão e simultaneamente de resistência contra o fascismo e luta «Entre tantos outros, aqui estiveram encarcerados por delito de opinião e às ordens
Caxias foi desde 1935, uma das principais prisões privativas das polícias políticas Caxias foi palco de uma das mais arrojadas fugas coletivas, a 4 de dezembro de 1961,
pelas liberdades, a cadeia de Peniche, apesar de constituir uma das prisões da mais da Polícia Política – a PIDE – cidadãos como Álvaro Cunhal, Vasco da Gama Fernandes,
da ditadura, tal como o Aljube, e, provavelmente a que mais presos políticos recebeu. oito militantes comunistas, fugiram no carro blindado que Hitler oferecera a Salazar,
alta segurança do continente, onde vigorava um dos regimes prisionais mais severos, Agostinho Neto, Severiano Falcão, António Borges Coelho, Carlos Brito ou Henrique
Ali, entre o ‘Reduto Norte’ e o ‘Reduto Sul’, os detidos aguardavam a instrução do conduzidos por António Terezo, motorista da Carris, também ele preso. Tratou-se de uma
foi local de muitas tentativas de fuga, seis das quais concretizadas. Uma das mais Galvão.»
processo, entre interrogatórios, maus tratos, espancamentos e tortura, seguidos de ação de grande impacto nacional que surpreendeu pela audácia e coragem dos fugitivos, arriscadas foi protagonizada por António Dias Lourenço, que consegue evadir-se do www.cm-peniche.pt
longos períodos de incomunicabilidade e isolamento. «Caxias era particularmente penosa perante a impotência dos carcereiros.

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Ilustração de Rogério Amaral.
Fonte: GES/PCP

FORTALEZA DE ANGRA DO HEROÍSMO TARRAFAL


«Os castigos sucedem-se com frequência pelas coisas mais comezinhas, ora com A partir de 1933, a Fortaleza foi transformada em prisão política do “Estado Novo”, «Era o ponto magnífico! Não podia haver melhor!, pensaram os arquitectos eliminar fisicamente aqueles que para lá foram desterrados pelo regime salazarista.
espancamentos ou encerramento na “Poterna” ou “Calejão”. que para ali enviava os resistentes antifascistas, tanto para cumprir pena, como em da Aldeia dos Mortos – vento, sol canicular, água imprópria, vegetação raquítica, Pelo “Campo da Morte Lenta” passaram 340 antifascistas portugueses, muitos sem
A “Poterna” é uma galeria subterrânea, muito húmida pela água que verte transição para o Campo de Concentração do Tarrafal. No ano de 1936 albergava, só mosquitos em abundância durante todo o ano, e sobretudo, durante quatro meses, terem sido sequer julgados, dos quais 32 perderam a vida vítimas de maus tratos,
constantemente pelas paredes, a 5 metros de fundo, descendo-se por 22 degraus. Ao no designado “Calejão” perto de 500 presos, republicanos, bolchevistas, anarquistas e quando os ventos de nordeste param… ausência de assistência médica e sanitária, prolongamento indeterminado das penas. O
cimo, a porta de acesso tem um postigo com grade de ferro, única forma de ventilação. sindicalistas. Que ponto tão bom para exterminar presos políticos, sem que se pudesse dizer tempo de prisão sofrido pelos resistentes tarrafalistas atinge a soma de «dois mil anos,
As necessidades fisiológicas eram satisfeitas a um canto, empestando o ambiente e, Na Fortaleza de S. João, as paredes da “Poterna” testemunham hoje a presença dos que tinham sido liquidados.» Tarrafal, aldeia da morte - Manuel Francisco Rodrigues, onze meses e cinco dias» de prisão. Dossier Tarrafal - Colecção Resistência, Editorial
de vez em quando, era preciso subir-se até à porta para respirarmos mais à vontade.» inúmeros presos políticos, que ali deixaram os seus nomes gravados na pedra «para Brasília Editora, Porto, 1974 «Avante!», 2006, p.269.
AQUINO; Acácio Tomás – O segredo das Prisões Atlânticas, A Regra do Jogo, 1978, p. que não caia no esquecimento a coragem e o sofrimento que as paredes e as muralhas O Campo de Concentração do Tarrafal, designado oficialmente “Colónia Penal Foi a luta do povo português e as pressões internacionais, que forçaram a
41-51 do Forte encerram.» de Cabo Verde”, foi construído segundo os modelos europeus dos campos nazis e ditadura ao seu encerramento. Contudo, seria reaberto em 1963, como prisão para os
www.urap.pt funcionou continuamente durante 19 anos (1936-1954), com o fim deliberado de combatentes anticolonialistas africanos.

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DEPOIS DAS PRISÕES
HISTÓRIAS POR CONTAR, Arquivo Nacional/Torre do Tombo, em dezembro de memórias dos familiares vivos. Em suma, à memória
2015 , deu-se um passo decisivo para o conhecimento
3
que ainda reside no quadro social onde o acontecimento
OU A MEMÓRIA EM CONSTRUÇÃO aprofundado da questão. Desde então, “O Regresso das teve origem.
Saber o que aconteceu aos presos do “Processo Bandeiras” ao Barreiro, tem vindo a transformar-se de Nos depoimentos que chegaram até nós,
das Bandeiras” após a sua libertação, foi uma das “memória fraca” e quase desconhecida, em “memória identificámos uma situação comum a algumas destas
questões que se levantou desde o primeiro momento. forte” publicamente reconhecida pela comunidade, pessoas. É o facto de terem sido forçadas a abandonar
Interrogação que permanece sem resposta, pelo menos alcançando o estatuto de património da memória a “sua terra”, o Barreiro, e, por vezes, o próprio país a
para a maioria dos 47 casos citados no processo. coletiva. fim de conseguirem sobreviver, devido à perseguição
A história destas 47 pessoas, perseguidas pela Decorridos mais de 80 anos após o acontecimento, movida pela polícia política, que as impedia de encontrar
polícia política do “Estado Novo”, é parte da memória nenhum dos intervenientes é vivo, para que no-lo trabalho para onde quer que fossem.
do país que ficou refém nos arquivos policiais e esteve possa contar de viva voz. Iniciou-se então a demanda O que lhes aconteceu; como reconstruiram as suas
confinada ao domínio das “memórias fracas” ou 1 para tentar localizar familiares dos presos, ou alguém vidas; se o conseguiram; que tragédias suportaram
“memórias de vencidos” , e, portanto, foi ocultada e
2 que tivesse conhecido as situações de perto. O que se as famílias, silenciadas pelo poder fascista sofrendo
António Simões Salvador ‘António da Mina’, na prisão de José Simões Salvador conhecido como ‘o José da Mina’ Três amigos na prisão fortaleza de Peniche: os irmãos
arredada da História “oficial”. O reconhecimento público revelou uma busca quase infrutífera, tão poucos os violências várias, físicas e psicológicas, provocadas pela Peniche, 1935. na prisão fortaleza de Peniche, 1935. José e António da Mina e Acácio Costa, 1935.
pela sua ação em 28 de Fevereiro de 1935, enquanto ato contactos que conseguimos estabelecer mas, ainda desproporção das penas de prisão aplicadas aos seus Foto: Susete Salvador de Oliveira Foto: Susete Salvador de Oliveira Foto: Susete Salvador de Oliveira

de resistência antifascista - com todas as consequências assim, tão gratificantes quanto comoventes, pelo entes.
que isso acarretou para a vida pessoal dos implicados e que ainda foi possível reconstituir das histórias de São interrogações que ainda persistem e para as
verificou em 7 de setembro de 1943, na casa onde vivia, interior, para dentro da prisão para entregar aos irmãos.
das famílias -, pressupunha um conhecimento detalhado algumas destas pessoas. Se hoje é possível conhecer quais encontramos apenas parte da resposta, nos TESTEMUNHO no Bairro das Palmeiras. Tinha então o António 31 anos e Recorda, agora, a enorme satisfação que eles sentiam
do acontecimento resgatando-o ao silêncio dos em pormenor todo o processo movido pela polícia testemunhos que conseguimos obter.
arquivos, trabalho que tem vindo a fazer-se nos anos política - composto por um acervo de 1806 documentos DE SUSETE SALVADOR OLIVEIRA, a causa da morte foi tuberculose pulmonar. quando recebiam o jornal e como isso a deixava feliz, por
microfilmados - já o mesmo não é possível dizer quanto Um indivíduo, de nome José Fulgêncio, denunciou a poder contribuir para esse estado.
mais recentes e é um processo ainda em construção. sobrinha de António Simões Salvador e José Simões
ao que o destino lhes reservou, enquanto indivíduos, presença do José no Barreiro e a polícia levou-o preso,
Sobretudo, a partir do momento em que o acesso ao Salvador, conhecidos como os irmãos “Mina” prova- Nada mais sei acrescentar.»
depois de tão dura experiência como a da prisão. velmente devido à sua origem alentejana. bem com a outros dois irmãos, o David e o Emídio. (Era
“Processo das Bandeiras” foi tornado público pelo Registamos, ainda acerca de José Simões Salvador,
Esta é, a parte da história que nos falta ainda Os informes foram-lhe facultados por sua tia Isabel uma família numerosa com 8 filhos!).
Salvador Fernandes, de 92 anos, a viver no Porto, o testemunho de Carlos Alexandre de Jesus Riachos,
conhecer – imaginando que conseguiríamos ter acesso Depois de regressar do Congo, o José Simões
1 > «Existem memórias oficiais, alimentadas pelas instituições, irmã de António e José Simões Salvador. casado com Nanete Salvador da Silva Riachos,
ou seja, os Estados, e memórias subterrâneas, escondidas ou a essa memória «subterrânea». É aquela que não nos é foi trabalhar para os estaleiros de Viana do Castelo,
igualmente sobrinha de José Simões.
interditas. A visibilidade e o reconhecimento de uma memória
contada pelos documentos oficiais, nem pelos arquivos. onde permaneceu largos anos. Veio a falecer em 7 de
dependem também da força de quem as possui. Dito de outra
«José Simões, foi viver para Lisboa depois de ter fevereiro de 2005, no Hospital do Barreiro, com 95 «O José Simões Salvador, quando a família o foi visitar
forma, existem “memórias fortes” e “memórias fracas”.» É aqui que se torna necessário recorrer a outras fontes,
Enzo Traverso, O Passado Modos de Usar – História, Memória sido libertado e, antes de partir para o Congo Belga, ao Aljube, passaram por ele sem o identificar, tal era o
e Política, http://www.docfoc.com/o-passado-modos-de-usar- designadamente à história oral, aos testemunhos e anos.»
enzo-traverso onde esteve 5 anos, veio ao Barreiro para se despedir da «A minha tia Isabel era quem, ainda menina, estado irreconhecível, em que estava devido aos maus
2 > Idem 3 > Vd. A ligação http://digitarq.arquivos.pt/details?id=5796032 família e do irmão António que estava a morrer, o que se transportava o jornal “Avante!” escondido na roupa tratos da polícia. Ele é que teve de os chamar».

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portanto deu-lhes todas as indicações de como «olha lá, a tua mãe chama-se Natália?». «É, a
é que haviam de entrar, de como é que haviam minha mãe chama-se Natália», «Ah está aqui
de sair, de maneira a que os gases da própria um telegrama para a tua mãe», «Ah está? Então
caldeira não causassem grande problema de deixe ver que eu vou lá acima levá-lo, vou lá
saúde.» acima levá-lo».
«E então foi preso…Depois foi para o Aljube, A minha mãe não sabia ler, a minha tia
do Aljube para Caxias, de Caxias para Peniche. também não, e a minha avó também não.
Quando estava em Peniche, veio do Barreiro E eu disse para a minha mãe «está aqui um
ao julgamento a população do Barreiro e os telegrama do pai, vem da Madeira», «Então abre
operários – o meu pai já estava peso há 15 lá», e só dizia «Chego amanhã, Serpa Pinto».
meses – formaram um cordão para que o meu A minha mãe desmaiou para um lado, a
Joaquim Claro Garcia (ao centro) com os empregados da sua firma A menina Crisálida Garcia, filha (adoptiva) de Joaquim Claro Garcia pai fugisse, e o meu pai disse «vocês estão minha tia desmaiou para o outro, a minha avó
“A Barreirense”. Foto: Espólio Olga Vera Garcia. CMB junto a uma evocação do Barreirense, em S. Paulo, Brasil. Foto: Espólio
Olga Vera Garcia. CMB
malucos, então eu já estou preso há 15 meses, chamou as vizinhas, eu vim a correr às Oficinas
faltam-me três meses para sair, para ir para o do Caminho-de-ferro chamar o meu tio João,
O meu tio Joaquim esteve preso em Peniche. A lua pé dos meus filhos, e regressar ao caminho-de- cheguei ao guarda que já me conhecia «o meu
DEPOIMENTO DE OLGA VERA GARCIA de mel do irmão (o meu pai), foi irem visitá-lo à prisão, a Acácio José da Costa na prisão de Peniche, 1935. ferro». pai chega amanhã do Tarrafal, está para lá tudo
Peniche. Foto: Joaquim José Costa (filho) Depois regressou a Peniche e no dia em que desmaiado».
sobre Joaquim Claro Garcia, seu tio.
Depois da prisão o Joaquim não conseguia arranjar cumpriu a pena, veio para Lisboa, para Caxias e, […]
«O meu tio Joaquim Claro foi preso com o meu trabalho em lado nenhum. Era perseguido por todo EXCERTO DO TESTEMUNHO uns dias depois, embarcou para o Tarrafal.» «E depois ainda esteve mais uns dias, mais
o lado. Até a Évora ele foi procurar trabalho. Durante «A minha mãe, que está aqui (na fotografia) uns dias em Caxias, que foi onde eu fui conhecer
pai, João Félix Claro Garcia4.Trabalhavam na CUF e
ambos eram eletricistas. Foram presos por causa das muitos anos correu tudo, até que teve de emigrar. Em
DE JOAQUIM JOSÉ DA COSTA ficou com quatro filhos, todos menores. o meu pai, com 11 anos de idade, e aí foi uma das
bandeiras. O meu pai também trabalhava na Câmara 1948 emigrou para o Brasil, para a zona de S. Paulo, para filho de Acácio José da Costa, para o projecto ‘Fun- E depois a nossa vida? A nossa vida foi uma cenas que mais me marcou para toda a vida…»
tentar sobreviver. do de História Oral do Barreiro’6. vida como a de tantas famílias aqui da zona do «Quando fomos morar para Lisboa foi muito
Municipal e por isso conseguiu ser ilibado rapidamente.
No Brasil, primeiro montou uma padaria e depois um «Fomos uma família tocada pelo regime fascista, na Barreiro… Vivíamos da ajuda dos meus avós, da difícil a adaptação, … não conhecia ninguém, aos
Foram os dois presos por causa das ferramentas.
posto de gasolina. Mas os negócios eram fracos, nunca altura. O meu pai juntamente com outros companheiros ajuda das vizinhas e, do Socorro Vermelho. fins-de-semana apanhava o barco e vinha para
Emprestaram as ferramentas aos que iam colocar as
foi rico… de trabalho, ou camaradas, conforme quiserem, tanto E a minha mãe chorava todos os dias a o Barreiro ter com os meus amigos, e pronto,
bandeiras, só que as ferramentas tinham as suas iniciais
Sempre deu o nome de “Barreirense” aos seus do caminho-de-ferro, como da CUF, fizeram esta ação de olhar o retrato do meu pai … e eu, como estava depois quando comecei a trabalhar vinha cá de
e foram apanhados.
negócios, talvez por causa das saudades que sempre lhe massas que foi içar a bandeira na chaminé do caminho- em casa, agarrava-me à minha mãe e às vezes vez em quando, ver a família …
ficaram da sua terra, eu sei lá… de-ferro, a bandeira vermelha. Que depois estenderam chorava também, e dizia «não mãe, o pai vem, o E é assim, uma vida, uma vida muito difícil
O meu tio Joaquim faleceu no Brasil e nunca mais várias bandeiras ao longo do Barreiro. Para que isso se pai vem, a mãe não chore, o pai vem, o pai vem, mas que no fim soubemos dar a volta.»
conseguiu voltar a Portugal.»5 concretizasse tiveram a ajuda do meu avô, que está aqui a mãe não chore, o pai há-de vir, o pai há-de «Felizmente o meu pai veio, a minha mãe
4 > Não foi possível identificar no “Processo das Bandeiras” o cartão do caminho-de-ferro, que ele era fogueiro, e vir». Pois um belo dia, estava a brincar, a jogar sobreviveu a tudo isto e espero que não haja
elementos referentes à prisão de João Félix Garcia. É provável
que se trate de uma das inúmeras detenções indiscriminadas à bola, com outros miúdos e o carteiro que era mais histórias destas no Barreiro, nem em
efetuadas pela PVDE e GNR nos dias seguintes à jornada,
algumas durante apenas algumas horas no Posto do Barreiro, 5 > Pouco tempo depois desta conversa soubemos do falecimento 6 > Entrevista integralmente disponível no Espaço Memória, Câmara
o Balseiro Guerra, morava mais à frente, disse: Portugal.» Natália Fontes Costa, esposa de Acácio Costa com os filhos, na altura em que o marido
sem que tenham deixado registo. súbito de Olga Garcia, último familiar de Joaquim Claro Garcia. Municipal do Barreiro. estava preso no Tarrafal. Foto: Joaquim José Costa (filho)

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(O meu pai tinha feito um esconderijo dentro da os distribuía. Tinham uma máquina que reproduzia
chaminé, com uns degraus e escondia-se lá quando a panfletos e depois distribuíam-nos.
PIDE o procurava. Também fez outro, dentro de um poço O meu pai, como era muito bom serralheiro, quando
que tínhamos no quintal da oficina, no Lavradio. Era um estava preso puseram-no a trabalhar nas oficinas. Então
buraco grande, antes da água, e com uma corda subia e ele fez um molde, em sabão, de umas chaves da cadeia.
descia lá para dentro, enquanto a PIDE fazia rusga dentro Essas chaves foram utilizadas numa fuga, mas o preso
de casa. Depois subia pela corda. Era uma maneira de se foi apanhado no Bairro Alto e o meu pai foi descoberto…
esconder, a ver se não o apanhavam.) Quando saiu da prisão, obrigaram-no a assinar
Daquela vez os pides foram direitos à chaminé, já um papel em como não se metia mais em política, ele
sabiam onde o meu pai se escondia. Ele ficou a pensar assinou, mas aquilo estava lá sempre, estava lá na
que alguém o denunciou. Depois agarram-no e levaram- alma…»
no. Nós fomos à porta, ver, e eu vi aquela coisa preta,
era a “viúva negra” (chamavam a viúva e a ramona
ao carro que levava os presos). Metia medo… eu era
criança…
O meu pai já tinha estado preso outra vez [1935],
mas eu ainda não era nascido. Daquela vez esteve seis
ou sete meses sem ninguém saber onde ele estava,
a minha mãe ia ao Posto e ninguém lhe dizia nada. Foi
uma rapariga, neta do Dr. Bernardino Machado, que era
professora no Lavradio e ficava num quarto em casa da
minha avó, que se interessou. O Dr. Bernardino Machado
é que foi dar com ele, no Limoeiro… ou na Penitenciária
Maria Rosa Pereira, esposa de Flávio Alves. Foto: Carlos Alves
José João Rodrigues em 1941. José João Roderigues num passeio ao Parque Eduardo VII em Lisboa, Flávio Alves, pouco tempo depois da primeira prisão. de Lisboa.
Foto: Maria dos Anjos Rodrigues (filha). com a filha mais nova, Maria dos Anjos Paiva Rodrigues. Foto: Carlos Alves (filho).
O meu pai passou por muitas prisões: Peniche,
foi-lhe pagando com trabalho, ia lá reparar as máquinas
DEPOIMENTO DE MARIA DOS ANJOS da Liberdade” incentivando-me a que eu a lesse, o que fiz
DEPOIMENTO DE CARLOS ALVES
Aljube, Torel, Limoeiro…
da fábrica…
O meu pai trabalhava para o Barreiras, na fábrica
PAIVA RODRIGUES avidamente, todos os volumes! o que agradou muito ao
filho de Flávio Alves. de cortiça, mas depois da última prisão [1941] não lhe
Quando o meu pai estava preso, lembro-me de ir
meu pai.
com a minha mãe, muitas vezes a minha mãe a chorar…
filha de José João Rodrigues. Recordo-me de uma declaração do meu pai: «As davam trabalho e o Barreiras teve pena dele e agarrou
íamos à padaria da CUF e então, a minha mãe, o que é
greves, filha, são sempre para ser feitas». «O meu pai não falava muito sobre isso, só depois do em cinco contos de réis e disse-lhe «toma lá, monta uma
«O pai não falava muito das prisões, mas em casa vi oficina para ti». E foi isso que aconteceu, o Barreiras era que ela levava no cabaz? avantes! avantes e a «Folha do
O meu pai foi militante comunista até ao fim da 25 de Abril…mas recordo-me perfeitamente, como se
muitas vezes o “Avante!” clandestino. vida. O partido era tudo para ele, era a sua vida. Nunca fosse hoje: era de madrugada e ouvi um grande barulho, da «situação», do «sistema», mas teve pena dele porque Sado», acho que era assim que se chamava. Chegava lá,
O meu pai adquiriu clandestinamente, mandou vir esperou qualquer homenagem, dava tudo pelo partido arrombaram a porta e entraram pelo corredor e foram o meu pai trabalhava muito, era um trabalhador muito à ‘Despensa da CUF’, à padaria, e entregava os avantes
não sei como, a obra de Jorge Amado “Os Subterrâneos sem esperar nada em troca.» direitos à chaminé, onde o meu pai estava escondido. profissional… muito bom serralheiro. O meu pai depois e os outros panfletos ao Sr. Ilídio. Era ele quem depois

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MENSAGENS

Silvestre Lacerda Fernando Rosas Jerónimo de Sousa André Pinotes Batista Paula Ferreira
Diretor-geral do Livro, Investigador e Professor Universitário Secretário Geral do Partido Comunista Deputado na Assembleia da República Visitante da exposição
dos Arquivos e Bibliotecas Português

Carlos Humberto de Carvalho Visitante da exposição Catarina Arménio Carlos João Soares
Presidente da Câmara Municipal do Barreiro Visitante da exposição Secretário Geral da CGTP - IN Ministro da Cultura
Mensagens de visitantes na inauguração da exposição “O Regresso das Bandeiras”

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DOCUMENTOS

O
estudo do processo da jornada de 28 designadamente a imprensa clandestina
de Fevereiro de 1935 é um trabalho como os jornais “Proletário” e “Avante!”,
ainda em progresso, continuando a ser que nos facultam a outra visão sobre os
necessário o seu aprofundamento dada a acontecimentos do dia 28 de Fevereiro
extensão do acervo, que é constituído por de 1935, isto é, a dos que direta ou
milhares de documentos. A documentação indiretamente neles participaram ou se
que serviu de base à investigação que supor- empenharam.
ta a exposição “O Regresso das Bandeiras” Podemos dispor ainda de um outro olhar
é constituída, na sua maior parte, pelos sobre o mesmo acontecimento, este muito
processos dos réus, existentes no Arquivo particular, que está contido nos “Diários
Nacional/Torre do Tombo. de José António Marques” um operário
Destes, foram selecionados para ferroviário que se tornou uma fonte da
publicação os relatórios oficiais elaborados história local, até agora relativamente
pela GNR, PVDE e Administrador do inédita mas incontornável para o
Concelho, ou seja, a versão das fontes conhecimento do quotidiano barreirense do
policiais a qual vai dar origem à constituição século XX. Assim, é ele quem nos transporta
do chamado “Processo das Bandeiras”, para os locais dos acontecimentos e
Separata de ‘ O Proletário’ jun, 1935. Série Avante II Série, nº 7 maio, 1935, p. 3,
oficialmente designado ‘Querela de Bento descreve, através das suas impressões Ilegal, ano II, n.14 Fonte: ANTT,PT-ADLSB-JUD- Fonte: GES-PCP
TCLSB-C-C-001-14234-4
Gonçalves e Outros’, disponível online no pessoais, tudo quanto sucedeu nesse
Arquivo Nacional/Torre do Tombo. histórico dia 28 de Fevereiro de 1935 e
Contudo, foram ainda consultadas e quanto se vai passar, dia a dia, nos meses
utilizadas outras fontes complementares, seguintes.

RELATÓRIO DA GNR RELATÓRIO DO ADMINISTRADOR DO CONCELHO


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DIÁRIO DE JOSÉ ANTÓNIO MARQUES

Ao longo da sua vida (1900-1993)


01 MARÇO 12 MARÇO 20 MARÇO CUF. Posto em liberdade o Sr. João Claro
Garcia, eletricista da mesma fábrica.»
foi um verdadeiro delírio, protestos da
parte do povo em número superior a
falando ao povo pedindo para recolher
às suas casas pois que ia providenciar
Policia de Informação e saiu às 16h.
o operário Sr. Anacleto Xavier, nem o
José António Marques, foi registando «A noite passada, ignorando-se quem «Na esquadra policial do Barreiro, na «Foram hoje ao Posto da Policia do
em diários pessoais todo o tipo de 400 pessoas, a maioria senhoras, entre sobre a situação dos presos, o povo deixaram mudar de roupa etc. Foi até
fosse, apareceu pintada nas fachadas Praça da República, continuam presos Barreiro a perguntas, mais 8 ferroviários,
acontecimentos ocorridos na Vila do dos edifícios e muros de foices e os ferroviários Srs. Vergílio dos Santos entre eles Srs. Manuel Delicias, Alberto 04 ABRIL elas a esposa do preso José da Silva que
seguiu na camioneta, ela agarrou-se ao
fez-lhe uma manifestação de simpatia. O
Sr. Tenente veio novamente à janela mais
ao posto Policial, sendo metido entre
uma patrulha da cavalaria da G.N.R.,
Barreiro. O seu espólio, doado pela martelos em vermelho, manifestos Pereira, carpinteiro, o Damas de Alhos Gualdino (torneiros) das Oficinas.» «Os agentes da Policia de Informação
automóvel, foi agredida pelo Cabo da de três vezes, estavam mais de 1000 percorrendo as principais ruas da vila
família à Câmara Municipal, encontra-se clandestinos pelas Ruas e Bandeiras Vedros, Ângelo Couto do Lavradio, Acácio de Lisboa, às 10.20 foram às Oficinas
Policia Cívica à bofetada. Os presos e pessoas. a caminho da estação dos C. Ferro. Na
em grande parte digitalizado ao abrigo
Vermelhas nas chaminés das fábricas e
postes dos telégrafos, sendo uma delas
José da Costa, este serralheiro e outros
por questões políticas.»
23 MARÇO Gerais e prenderam o Sr. José Francisco,
agentes tomaram o vapor da Seixalense Ás 20.10 chegou de Setúbal numa Rua Marquês de Pombal as pessoas
de uma parceria com o Arquivo Nacional/ «Pelas 13,45 seguiram para Lisboa, serralheiro no material circulante.
colocada no topo da Grande chaminé no Mexilhoeiro.» camioneta, uma força da policia esta fizeram uma escaramuça, prestes a dar-
acompanhados por três agentes da Recolheu ao posto em Barreiro e às
Torre do Tombo, e pode ser consultado desembarcou junto à Padaria do Ventura, se um conflito as praças ainda fizeram
das oficinas gerais do Caminho de Ferro
15 MARÇO Policia de Informação, por motivos de 17.25, acompanhados pelos ditos
presencialmente no Espaço Memória. situada num terreno anexo à cooperativa
«Pelo motivo de questões políticas, questões políticas, os ferroviários Srs. agentes, seguiram para Lisboa, os 12 ABRIL fizeram fogo de pistolas sobre o povo
e outros distribuíram espadeiradas,
apontaria com armas e embarcou para
Lisboa às 17.25. Pelo motivo das prisões,
dos mesmos Caminhos de Ferro, Srs. José João Rodrigues e Custódio «Fui à Praça da República, pois estava
foram mais ferroviários à Esquadra Jesus Elias, João Gordo e Manuel Oliveira. havendo muitos feridos mas sem desapareceram das oficinas gerais do
apareceu dentro das oficinas gerais dos Salgueiro.» mais de 600 pessoas, a maioria
Policial do Barreiro, ficando presos os Às 2 h. da madrugada chegou ao Barreiro gravidade, havendo correrias por todas Barreiro os seguintes operários Srs. Ant.
Caminhos de Ferro e Companhia União
ajudantes de ferreiros João Gordo e o o Sr. Dr. Velez Grilo, por questões mulheres, sendo esposas, filhos,
Fabril por todas Secções e escritórios as ruas. Muitos tiros disparados pela Marçal, José Luis Maria (vulgo Lixa) e
etc, manifestos jornais clandestinos, pois
Jesus, mano do Sr. António Maria Elias, já politicas foi preso há dias, encontrava-se 06 ABRIL pertencentes às famílias dos presos,
etc., A multidão mantida pela G.
Guarda Republicana na Rua Aguiar, outros.»
falecido. Foram ao fim da tarde postos ultimamente no Aljube.» «4 Agentes da Policia de Informação caindo alguns fios da iluminação
foi assunto de todas as conversas.»
em liberdade, assim como o Damas de Republicana com grande dificuldade,
prenderam hoje o Sr. Francisco Sousa
principalmente, o mulherio aos
pública. Durante o conflito apareceu
04 JULHO
Alhos Vedros preso há dias.»
01 ABRIL Júnior carregador dos C.F. Sul e Sueste
gritos e à pedrada ao posto Policial e
o Sr. Gregório Mateus, escriturário da
«Chegámos a Peniche, sendo a primeira
08 MARÇO «A Policia de Investigação há tempos e uns 6 fulanos da fábrica CUF, entre
Estabelecimento do Sr. Daciano, queriam
Exploração dos Caminhos de Ferro, levou
vez, seguimos para a Fortaleza aonde
eles Sr. José Farinha, Celestino Nogueira uma tareia das mulheres, fugiu para o
«Foram presos nas Oficinas Gerais
do Caminho de Ferro em Barreiro, 50
16 MARÇO em serviço no Barreiro, prenderam hoje
mais 6 operários na CUF, entre eles e o Sr. Manuel Domingos Margarido,
a liberdade dos presos. Neste momento
estabelecimento do Sr. Daciano e ficou
estão presos, por questões políticas,
«Continuam presos os ferroviários Srs. estava Margarido, Francisco Sousa Júnior em número de 200 sendo uns 20 do
operários entre eles Alfredo Camarão o Sr. Alexandre Ferreira e José João agulheiro nos C.F. Sul e Sueste. Ao fim sem a bengala.»
Joaquim Jorge, agulheiro, Acácio José da e outros no posto Policial, donde saiu o Barreiro.»
(...) por questões políticas sem Rodrigues.» da tarde foram metidos num automóvel
Costa, serralheiro, Virgílio dos Santos, Sr. Cabo Policia Cardoso e um guarda,
fundamentos».
carpinteiro, e Jesus ajudante ferreiro, os
três presos, sendo um deles o Sr.
Joaquim Claro Garcia, eletricista na CUF.»
este fardado, sendo disparado pelo Cabo 23 ABRIL
um tiro para o ar. Era 19.10h chegava «Continua a prender-se em Barreiro
três prisioneiros seguiram para Lisboa,
03 ABRIL no automóvel o Sr. Quintela Paixão, por motivo da política, pois em Barreiro
09 MARÇO sob prisão acompanhados por agentes
da Policia Investigação, foram pelo
«Continuam no Barreiro os agentes
11 ABRIL vindo no mesmo o Sr. Bento da Silva estavam 15 agentes da Policia de
«Pelas 10h. e tal saíram das Oficinas do da Policia de Informação de Lisboa.
vapor da Seixalense, embarque feito no «Os 4 agentes da Policia Informação Fernandes, administrador do Concelho, Informação, foram às oficinas (C.P.)
Barreiro, acompanhados por agentes Deu entrada no Posto do Barreiro o Sr.
Diário dos principais acontecimentos Mexilhoeiro.» fizeram vários interrogatórios aos o qual deu ordens à força da guarda e trouxeram presos os seguintes
da Policia de Investigação, 5 operários, Acácio José da Costa, ferroviário, vindo
de 01 de março a 4 de julho, 1935 presos no Posto Policial em Barreiro, para dar liberdade ao povo, este em operários: José Silveira, torneiro, Manuel
sendo eles o Sr. Manuel Delicias, José de Lisboa num automóvel e seguiu para
entre eles Sr. Manuel Margarido, Acácio massa cercando o posto Policial pedindo Guerreiro dos Santos, serralheiro e José
Silveira, Acácio.» Lisboa um filho da Sra. Verdiana e às
Fonte: Registo dos Factos mais notáveis no ano de
Costa e Francisco Sousa e pelas 17.30 a liberdade dos presos etc., querendo Maria (Baiancas) carpinteiro.
17.25 no vapor dos Caminhos de Ferro
1935, CMB/Espólio José António Marques (EJAM), quando os presos tomaram o automóvel, linchar o Cabo Cardoso e o Sr. Tenente Encontrava-me nas oficinas do
Lvº 14, Cx 2
foi o Sr. Alexandre Ferreira, operário da
acompanhados pelos referidos agentes, apareceu a uma das janelas do posto, Barreiro, quando entrou um agente da

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RELATÓRIO DA PVDE DO PROCESSO DAS BANDEIRAS

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NOTA FINAL
A exposição “O Regresso das Bandeiras” foi
inaugurada em 28 de fevereiro de 2016 e, desde
então, tem tido o melhor acolhimento por parte da
comunidade.
Visitada por centenas de pessoas,
individualmente e em grupos e por dezenas de
instituições, apraz-nos registar a presença de
estudantes, professores, investigadores, crianças,
representantes de instituições de solidariedade
social, sindicalistas, membros do Governo,
deputados da Assembleia da República, deputados
municipais, dirigentes de partidos políticos,
representantes de municípios vizinhos, familiares
dos presos do 28 de Fevereiro de 1935 e antigos
presos políticos, ultrapassando nos primeiros 5
meses um milhar e meio de visitantes.
A exposição continuará patente até ao final do
presente ano, aguardando ainda a visita de todos
quantos não puderam fazê-lo até agora.

Contactos:
Município do Barreiro
Espaço Memória Rua 17, nº8 – Baía do Tejo
Barreiro
Tel. 21 2016 81 85
espacomemoria@cm-barreiro.pt

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“VALE A PENA LUTAR. SEMPRE.”

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