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MATERIAL GRATUITO

CONTEÚDO
PROGRAMÁTICO

PRINCÍPIOS INSTITUCIONAIS
DA DEFENSORIA PÚBLICA
PROFESSOR
Rafael Magagnin
Defensor Público (DPE-RS)

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SUMÁRIO

1. APRESENTAÇÃO...............................................................................................................................................4

2. ASPECTOS RELEVANTES SOBRE OS PRINCÍPIOS INSTITUCIONAIS DA DEFENSORIA PÚBLICA...............5

2.1 A posição constitucional da Defensoria Pública........................................................................................5

2.2 A autonomia funcional, administrativa e financeira da Defensoria Pública........................................14

2.3 Competência legislativa da Defensoria Pública e para a assistência judiciária...................................23

2.4 Princípios Institucionais da Defensoria Pública.......................................................................................32

3. OBRIGADO PELA CONFIANÇA!.....................................................................................................................37

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1. APRESENTAÇÃO
Olá, amigas(os) e alunas(os) do MEGE!

Elaboramos este material para que vocês tenham uma proximidade maior com os
estudos para a Defensoria Pública, instituição reconhecida como uma das mais impor-
tantes dentro do nosso cenário jurídico nacional e que vem sendo apontada como uma
das mais confiáveis pelo povo Brasileiro. Estamos nos aproximando do Dia Nacional da
Defensoria Pública, que foi instituído através da Lei Federal nº 10.448 de 09 de maio de
2002, como sendo o dia 19 de maio, o que vem casa muito bem com o avanço no estudo
sobre seus princípios institucionais.

Dessa forma, foi pensando em todo o carinho que temos pela instituição defensorial,
que passamos a elaborar este material para disponibilização gratuita, a fim de que possamos
trazer um pouco mais de conteúdo a você, que também é apaixonado(a) por esta institui-
ção, e que, certamente, com o devido foco, logo também poderá se tornar um membro e
auxiliar na prestação de um serviço público de qualidade em favor de todos os brasileiros.

Com essa mentalidade, podemos contribuir na formação de um país mais justo e que
possibilite amplo, total e irrestrito acesso da população mais vulnerável (social, econômica,
culturalmente, entre outros conceitos) ao Poder Judiciário e à seu sentimento de justiça.
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O conteúdo aqui apresentado foi extraído de nossa produção própria para a Turma
Extensiva de preparação para Defensoria Pública, turma com sangue verde e viés total-
mente defensorial, que visa contribuir com a formação de novos defensores por todo
país (para que sigamos na construção de uma geração que já conta com mais de 500
aprovações exclusivamente para a carreira aqui no Mege).

Se quiser saber mais, basta ficar atento às nossas redes sociais nos próximos dias
(ou clicar no botão abaixo para ser inserido em nosso grupo de Whatsapp específico para
o envio de conteúdos gratuitos prévios desta atuação).

A turma já está com lançamento agendado para o dia 04 de maio de 2020. Uma
ótima oportunidade para melhorar sua produtividade neste período e brigar por
vagas já nos próximos editais.

Sem maiores delongas, pois o tempo é curto e a preparação clama por proatividade,
apresentamos a vocês este material gratuito, para que seja um aliado no seu avanço em
conteúdo e na caminhada rumo ao seu objetivo de se tornar Defensor(a) Público(a).

Um grande abraço para todos e bons estudos!

Rafael Magagnin

Coordenador do Mege Defensorias

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2. ASPECTOS RELEVANTES SOBRE OS
PRINCÍPIOS INSTITUCIONAIS DA
DEFENSORIA PÚBLICA

2.1 A POSIÇÃO CONSTITUCIONAL DA DEFENSORIA PÚBLICA

A Defensoria Pública passou a ter previsão constitucional, apenas, a partir da edi-


ção da Constituição Federal de 1988, sendo que, antes dela, o que havia era apenas a
previsão constitucional da prestação do serviço público de assistência judiciária, sem a
menção ao órgão incumbido de promovê-la. A assistência judiciária, por sua vez, era en-
tendida, até então, como um serviço público que se encontrava no rol das competências
administrativas dos entes públicos, ao lado da saúde, da previdência, da educação, da
segurança pública, etc.

A assistência judiciária, portanto, até a edição da Constituição da República, de 1988,


poderia ser prestada tanto por órgãos administrativos já existentes, como através da criação
de um novo órgão, para o desempenho dessa missão. Sendo assim, até o ano de 1988,
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diversas medidas foram adotadas em vários Estados da Federação, a exemplo de São Paulo,
que optou pela prestação desta atividade através das Procuradorias, e do Rio de Janeiro, que
desde a década de 1950 já tinha, em sua divisão administrativa, um órgão especificamente
destinado para a prestação da assistência judiciária gratuita aos necessitados.

Assim, quando da entrada em vigor da Constituição Federal de 1988, percebeu-se


que o constituinte originário optou pelo modelo parecido ao carioca, com a criação de
um órgão específico e destinado ao exercício dessa nobre atividade. Criou-se, portanto,
em âmbito constitucional, a instituição defensorial, com a missão de promover o acesso à
justiça a todos os necessitados e de oportunizar a promoção plena dos valores humanos1.

Dessa forma, representando todo o sentimento de democratização, com promul-


gação da Constituição Federal de 1988 (Constituição Cidadã), contrariou-se o nosso his-
tórico constitucional anterior (que não tratava da Defensoria Pública) e se optou pela
substituição do termo assistência judiciária por assistência jurídica, demonstrando uma
opção clara e deliberada pelo modelo de “assistência jurídica” (salaried staff model), com-
preendendo-se as esferas judicial e extrajudicial, além da integralidade da assistência
jurídico-estatal defensorial, conforme texto do artigo 134 da CRFB/1988, mormente após
a redação da EC n. 80/2014.

1 MASSON, Nathália. Manual de Direito Constitucional, 6ª ed., Salvador: Juspodivm, 2018, p. 1214.

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Referimos, acima, que a Constituição Federal de 1988 optou por substituir o termo
“assistência judiciária” por “assistência jurídica”, passando a ser, a instituição defensorial,
incumbida da prestação da assistência jurídica integral e gratuita aos que comprovarem
insuficiência de recursos.

Mas você sabe qual a real diferença entre a assistência jurídica e a justiça gratuita?

Essa é uma informação valiosa e que precisar estar na ponta da língua para o seu
percurso!

É muito comum, em concursos públicos para carreira (da primeira fase até a prova
oral), a cobrança de tais diferenças.

Vamos ao exemplo de questão extraída da prova de 2014 da Defensoria Pública da


Paraíba (banca FCC):

Caiu em Defensoria!

Em relação às terminologias “assistência judiciária gratuita” e “assistência jurídica


integral e gratuita”, é correto afirmar que

a) são terminologias sinônimas. 06


b) são terminologias antônimas.

c) “assistência judiciária” contém a “assistência jurídica”.

d) a declaração de pobreza para concessão de benefícios de “assistência judiciária


gratuita” presume-se absoluta.

e) “assistência judiciária gratuita” refere-se à assistência processual gratuita.

A assertiva considerada correta foi a da letra “E”, ou seja, que as terminologias “assis-
tência judiciária gratuita” e “assistência jurídica integral e gratuita” não são sinônimas, antô-
nimas, e tampouco que uma contém ou engloba a outra. Devemos, diante disso, reforçar
as expressões que, comumente, são cobradas nos concursos públicos da instituição:

A justiça gratuita ou gratuidade judiciária consiste na isenção do pagamento


das despesas processuais, sendo um instituto de natureza eminentemente proces-
sual e aplicável, tão-somente, nas relações jurídico-processuais.

A assistência judiciária gratuita exprime, por outro lado, a noção de atividade


desempenhada por profissional do direito e que se limita ao campo processual,

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sendo marcada pela sua gratuidade, ou seja, pela desnecessidade de pagamento ou
contraprestação pecuniária por parte daquele que se beneficia do serviço.

Por sua vez, a assistência jurídica integral e gratuita também consiste em


uma atividade, mas que agora se destina a todo o universo jurídico, a qual prevê, de
maneira mais ampla, o acesso à justiça (e não apenas o acesso ao Poder Judiciário)
e que tem como viés ou mote a vulnerabilidade organizacional (e não apenas e
meramente a econômica ou financeira) do assistido.

Est última, sim, melhor compreende o espectro de atividades que são desempe-
nhadas pela instituição defensorial, abrangendo, também, serviços jurídicos extrajudi-
ciais, como, por exemplo, a distribuição de cartilhas com informações a respeito dos
direitos básicos do cidadão .

Caiu em Defensoria!

Exemplo dessa previsão está na assertiva considerada correta pela banca CEBRAS-
PE no último concurso da DP-DF (2019) e que ora transcrevemos:

“a atuação dos defensores públicos do DF compreende a prevenção extrajudicial de


litígios, bem como a prestação de consultoria ou orientação jurídica”.
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A justificativa apresentada, oficialmente, pela banca examinadora, foi a seguinte:
“JUSTIFICATIVA - CERTO. A assistência jurídica gratuita e integral compreende a
consultoria ou orientação jurídica e a solução ou prevenção extrajudicial de litígios
conforme incisos I e II do art. 6.º da Lei Complementar Distrital n.º 828/2010”.

Vamos à leitura do quadro comparativo, para melhor memorização:

SISTEMA BASE LEGAL VIÉS DE PROTEÇÃO GARANTIA

Gratuidade Judiciária CPC/2015 e Lei n. Econômica Despesas processuais


1.060/50

Assistência Judiciária Leis esparsas Econômica Acesso Judiciário (Juízo)

Assistência Jurídica Leis esparsas Econômica Acesso Judiciário e


Extrajudicial

Assistência Jurídica CRFB (arts. 5.°, inc. Vulnerabilidade Orga- Acesso à Justiça
Integral LXXIV, e 134) e LC n. nizacional
80/94

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Por outro lado, não podemos deixar de mencionar que a assistência judiciária pode
vir a ser prestada, pelo Estado, de diversas maneiras, através de, pelo menos, três mode-
los2, chamados de:

(i) pro bono; (ii) judicare; e (iii) salaried staff model.

Vamos à leitura de novo quadro para fixação deste importante tema:

MODELOS DE ASSISTÊNCIA JURÍDICA

“PRO BONO” “JUDICARE” “SALARIED STAFF”

Não há participação estatal. Há atuação/participação Há atuação/participação estatal.


estatal.

Assistência prestada por Assistência prestada por Assistência Jurídica prestada por agen-
profissionais liberais (ad- advogados previamente tes públicos remunerados pelo Estado
vogados privados). inscritos em lista ou no- com a missão de defender os interes-
meados ad hoc (Advocacia ses das pessoas pobres, necessitadas
Dativa) pelo Judiciário. e em situação de vulnerabilidade.

Pressupõe-se altruísmo, A assistência jurídica A assistência jurídica é reconhecida


solidariedade, caridade passa a ser reconhecida como um direito fundamental (arts. 08
dos profissionais liberais, como um direito em si des- 5.°, inc. LXXIV, e 134, caput, da CRFB),
os quais atuam por critério tinada às pessoas carentes podendo ser exigida do Estado (pres-
de voluntariedade, não e hipossuficientes. tacional), efetivados de direito e ga-
configurando a assistência rantias dos cidadãos.
jurídica um direito em si.

Crítica: a assistência ju- Crítica: ausência de contro- Crítica: paternalismo estatal. Atenção
rídica não é reconhecida le sobre os profissionais e aos conceitos de “assistência jurídica”
como direito, não poden- da qualidade do serviço, e “assistencialismo”. Jamais confundir
do ser exigida do Estado. além da falta de especia- os conceitos.
lização dos profissionais,
os quais não têm atuação
exclusiva e predetermina-
da (defensor natural).

2 Devemos mencionar que há quem defenda um quarto modelo, chamado de “misto” ou “híbrido”, que
seria adotado na Suécia, e que contaria com a instituição conjunta e concomitante dos modelos judicare e salaried
staff, conferindo-se ao destinatário a opção sobre qual modelo de assistência jurídica/judiciária recairia sua escolha.

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Embora não seja a regra Também não é a regra, Modelo adotado no Brasil por meio
no ordenamento jurídico, sendo aplicada nos casos da Defensoria Pública (ver arts. 134,
é aceita no Brasil (Reso- de ausência ou desestru- caput, da Constituição, e 1.°, da LON-
lução n. 02/2015 do Con- turação da Defensoria Pú- DP – LC n. 80/94). Expressão adotada
selho Federal da Ordem blica (STF, HC n. 337.754/ no edital de abertura II do concurso
dos Advogados do Brasil SC, T5, DJe 26/11/2015; STJ, da DPE/SC: “opção político-constitu-
– OAB), sendo permitido RHC n. 61.848/PA, T5, DJe cional de 1988 pelo modelo público”.
aos advogados privados 17/08/2016), a qual tem a Tem por premissa uma atuação proa-
prestarem assistência ju- característica da “inconsti- tiva, extrajudicial, coletiva, preventiva
rídica gratuita de maneira tucionalidade progressiva” de litígios, difusora de educação em
voluntária, sem contra- ou “norma ainda constitu- direitos e defensora dos direitos hu-
prestação, estatal ou não. cional” (situações constitu- manos. Existem 2 (duas) modalidades:
cionais imperfeitas, que se a) Financiamento estatal de organis-
situam entre a constitucio- mos não estatais; b) Criação de órgão
nalidade plena e a incons- estatal exclusivo para assistência
titucionalidade absoluta, p. jurídica pública, integral e gratuita
ex., art. 5.°, § 5.°, da Lei n. (Defensoria Pública).
1.060/1950, não revogado
pelo CPC/2015, e art. 68
do CPP), tendente a ser
eliminada no Brasil em um
futuro (Advocacia Dativa).

O Brasil adotou, como vimos, o modelo de assistência jurídica denominada 09


salaried staff, em que agentes estatais (Defensores Públicos Estaduais, Distritais ou Fede-
rais) prestam assistência jurídica integral e gratuita, de maneira judicial ou extrajudicial,
promovendo direitos humanos, cidadania, conhecimento jurídico, prevenindo-se litígios
como prioridade, utilizando-se de métodos adequados de solução do conflito (concilia-
ção, mediação, arbitragem e demais meios).

Dessa forma, podemos dizer que a Defensoria Pública nada mais é que o reflexo de
que o Brasil adotou o modelo do salaried staff para a prestação de assistência judiciá-
ria gratuita, pois consubstancia na instituição designada pelo texto constitucional para
a promoção do acesso à justiça pelos vulneráveis organizacionais e composta por uma
estrutura administrativa organizada, além de agentes investidos no cargo público a partir
de concurso de provas e títulos3.

Convém salientar que este modelo foi, recentemente, reforçado pela Lei Comple-
mentar nº 132 de 2009, que acrescentou o §5º ao art. 4º da LC 80/94, com o seguinte texto:

Art. 4º São funções institucionais da Defensoria Pública, dentre outras:

(...);

3 A única exceção, hoje não mais existente, corresponde àquela prevista no art. 22 do ADCT, que assegurou aos
defensores públicos investidos na função, até a instalação da Assembleia Nacional Constituinte, o direito de opção pela
carreira, com a observância das garantias e vedações previstas no art. 134, parágrafo único, da Constituição Federal.

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§ 5º A assistência jurídica integral e gratuita custeada ou for-
necida pelo Estado será exercida pela Defensoria Pública. (In-
cluído pela Lei Complementar nº 132, de 2009).

Como reflexo da adoção do modelo salaried staff no Brasil, o Supremo Tribunal


Federal, quando do julgamento das ADIs 3892 e 4270, julgou parcialmente procedentes
os pedidos formulados pela ANADEP e ANDPU, para declarar, com eficácia diferida a partir
de 12 (doze) meses, a contar da data da decisão, a inconstitucionalidade do art. 104 da
Constituição do Estado de Santa Catarina e da Lei Complementar nº 155/97, que autoriza-
vam e regulavam, respectivamente, a prestação de serviços de assistência judiciária pela
seccional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), em substituição à Defensoria Pública,
que até então era inexistente naquele Estado da federação.

Este tema, como não poderia deixar de ser, vem sendo cobrado à exaustão em con-
cursos de Defensoria Pública. Como exemplos, analisaremos assertivas, respectivamen-
te, do último concurso da DPU (2017, CEBRASPE) e da DPE-AL (2017, CEBRASPE):

Caiu em Defensoria!

Entre os modelos de assistência jurídica dos Estados contemporâneos, o Brasil ado- 10


tou, na CF, o sistema salaried staff model, o que significa que incumbe à DP a prestação
de assistência jurídica integral e gratuita aos necessitados.

A assertiva foi considerada correta, no sentido de que o Brasil adotou o sistema da


salaried staff model, de forma que incumbe à instituição defensorial a prestação de assis-
tência jurídica integral e gratuita aos necessitados. Do mesmo modo, percebe-se que o
modelo adotado para a prestação da assistência jurídica integral e gratuita (salaried staff
model) não se limita à atuação judicial, passando pelo exercício da atividade extrajudicial.
Exemplo de cobrança em provas da instituição, neste sentido, pode ser extraído da ques-
tão abaixo, extraída do último concurso da DPE-AL (CESPE, 2017):

Caiu em Defensoria!

No que diz respeito às funções típicas e atípicas da Defensoria Pública, assinale a


opção correta.

a) A função de ombudsman exercida pela Defensoria Pública brasileira em defesa


dos direitos humanos consiste em atribuição típica.

b) O rol das funções típicas da Defensoria Pública encontra-se taxativamente descri-


to nas funções institucionais previstas na lei orgânica de regência.

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c) A função exercida pelo ouvidor-geral da Defensoria Pública encontra-se entre as
funções típicas da instituição.

d) As funções típicas da Defensoria Pública são exercidas unicamente na esfera judi-


cial em favor das pessoas naturais hipossuficientes, beneficiárias da assistência judi-
ciária gratuita.

e) As funções atípicas da Defensoria Pública prescindem da insuficiência de recur-


sos financeiros e abarcam os organizacionalmente vulneráveis.

A assertiva apontada pelo gabarito oficial da banca examinadora foi a da letra “E”,
de forma que concluímos que as funções típicas da Defensoria Pública não são exercidas,
unicamente, na esfera judicial e em favor das pessoas naturais hipossuficientes, benefi-
ciárias da assistência judiciária gratuita.

Isso porque, como vimos, a assistência jurídica integral e gratuita comporta, tam-
bém, a atuação extrajudicial pela instituição (lembre-se das cartilhas, por exemplo)4.

Voltando à análise do art. 134 da Constituição Federal, este dispositivo constitucional


sofreu mudanças até a sua redação atual, que conhecemos nos dias de hoje, especialmente 11
a partir da EC 80 de 2014. Essas alterações repercutiram diretamente na instituição defen-
sorial, a exemplo das EC 45/2004, 62/2009, 74/20135 e 80/2014.

4 Devemos destacar outro equívoco na assertiva, ao afirmar que a assistência integral e gratuita abran-
geria, apenas, as pessoas naturais. Isso porque, especialmente a partir da entrada em vigor da Lei Federal nº
13.106/2015, que instituiu o novo Código de Processo Civil, é possível perceber que o “caput” do art. 98, agora, é
expresso no sentido da possibilidade de obtenção da gratuidade da justiça às pessoas jurídicas. Além disso, está
em tramitação no STF a ADI 4636, através da qual o Conselho Federal da OAB questiona dispositivos da lei que
criou a Defensoria Pública que inclui a assistência às pessoas jurídicas no rol de atribuições da entidade. A ação
ainda está pendente de julgamento, embora já tenha admitido o ingresso da instituição defensorial para atuar na
condição de “amicus curiae”. O STJ, por sua vez, em diversos julgados, já vem entendendo pela possibilidade de
atuação defensorial em prol de pessoas jurídicas (REsp 135.181/RJ, Rel. Min Waldemar Sveiter, DJ: 29.03.1999).

5 Com relação à EC 74/2013, é importante destacar que o STF declarou a sua constitucionalidade, afastan-
do qualquer vício de natureza especialmente formal (quanto à iniciativa), na oportunidade do julgamento da Me-
dida Cautelar na ADI 5296/DF, tendo sido afirmado, na decisão, que é possível que Emenda à Constituição Federal
que tenha sido proposta por iniciativa parlamentar (e não do Presidente da República, exclusivamente) trate das
matérias previstas no art. 61, §1º, CF/88. Na oportunidade, diferenciou-se a iniciativa de lei da iniciativa de EC,
tendo a Corte reforçado o entendimento de que a regra de iniciativa trazida pelo dispositivo constitucional em
comento se aplicava, apenas, à iniciativa de lei e não à de Emenda à Constituição. Assim, quando a EC 74/2013
conferiu autonomia às Defensorias Públicas da União e do Distrito Federal, não houve violação ao art. 61, §1º,
II, alínea “c”, CF/88, tampouco ao princípio da separação dos poderes, mesmo que a iniciativa tenha originado
de Parlamentar. Salienta-se, caro(a) aluno(a): este entendimento se aplica em âmbito federal e não estadual,
como podemos perceber pela leitura do Informativo 826 do STF.

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A cada alteração do texto constitucional, reforçava-se a instituição e se reconhecia,
em seu favor, cada vez mais autonomia, seja sob o aspecto financeiro, administrativo ou
orçamentário. Um bom exemplo disso pode ser extraído da atenta comparação entre a
redação original e a atual do art. 134:

ART. 134 DA CF 1988 REDAÇÃO ORIGINAL ART. 134 DA CF 1988 REDAÇÃO ATUAL

Art. 134. A Defensoria Pública é instituição Art. 134. A Defensoria Pública é instituição
essencial à função jurisdicional do Estado, in- permanente, essencial à função jurisdicional
cumbindo-lhe a orientação jurídica e a defesa, do Estado, incumbindo-lhe, como expressão e
em todos os graus, dos necessitados, na for- instrumento do regime democrático, fundamen-
ma do art. 5º, LXXIV.) talmente, a orientação jurídica, a promoção dos
direitos humanos e a defesa, em todos os graus,
Parágrafo único. Lei complementar organiza- judicial e extrajudicial, dos direitos individuais e
rá a Defensoria Pública da União e do Distrito coletivos, de forma integral e gratuita, aos neces-
Federal e dos Territórios e prescreverá nor- sitados, na forma do inciso LXXIV do art. 5º desta
mas gerais para sua organização nos Estados, Constituição Federal.
em cargos de carreira, providos, na classe ini- (Redação dada pela Emenda Constitucional nº
cial, mediante concurso público de provas e tí- 80, de 2014).
tulos, assegurada a seus integrantes a garan-
tia da inamovibilidade e vedado o exercício da § 1º Lei complementar organizará a Defenso-
advocacia fora das atribuições institucionais. ria Pública da União e do Distrito Federal e dos
Territórios e prescreverá normas gerais para
sua organização nos Estados, em cargos de 12
carreira, providos, na classe inicial, mediante
concurso público de provas e títulos, assegu-
rada a seus integrantes a garantia da inamo-
vibilidade e vedado o exercício da advocacia
fora das atribuições institucionais.
(Emenda Constitucional nº 45, de 2004)

§ 2º Às Defensorias Públicas Estaduais são


asseguradas autonomia funcional e admi-
nistrativa e a iniciativa de sua proposta or-
çamentária dentro dos limites estabelecidos
na lei de diretrizes orçamentárias e subordi-
nação ao disposto no art. 99, § 2º .
(Incluído pela Emenda Constitucional nº 45,
de 2004)

§ 3º Aplica-se o disposto no § 2º às Defenso-


rias Públicas da União e do Distrito Federal.
(Incluído pela Emenda Constitucional nº 74,
de 2013)

§ 4º São princípios institucionais da Defen-


soria Pública a unidade, a indivisibilidade
e a independência funcional, aplicando-se
também, no que couber, o disposto no art.
93 e no inciso II do art. 96 desta Constituição
Federal. (Incluído pela Emenda Constitucional
nº 80, de 2014)

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Podemos destacar, dentre as alterações promovidas pela Emenda Constitucional
nº 80 der 2014, aquelas que trouxeram maior impacto na Defensoria Pública, sendo elas:

(i) tornou explícito que a instituição tem natureza permanente e essencial ao Esta-
do de Direito, trazendo semelhante tratamento àquele conferido ao Ministério Público,
quando do art. 1276 da Constituição Federal;

(ii) determinou, como veremos abaixo, a aplicação, no que couber à instituição


defensorial, das regras constantes nos arts. 93 e 96, II, Constituição Federal de 1988, os
quais se referem, respectivamente, à organização da Magistratura nacional (promoção,
distribuição imediata dos processos, etc.) e à iniciativa para apresentação de projetos de
lei relativos à estruturação da Defensoria Pública;

(iii) trouxe a previsão de novos parágrafos ao referido dispositivo legal, entre eles,
em especial, o parágrafo 4º, que garantiu viés constitucional aos princípios institucionais
da Defensoria Pública, como os da unidade, da indivisibilidade e da independência fun-
cional, princípios estes que já estavam previstos expressamente em lei federal, especifi-
camente no art. 3º da Lei Complementar nº 80/94.

(iv) acrescentou o art. 987 ao ADCT, que previu que o número de Defensores Públicos
em cada unidade jurisdicional deverá ser proporcional à efetiva demanda pelos serviços
da instituição com o número de habitantes (número da população) e fixou o prazo de 08
13
(oito) anos para que a União, os Estados e o Distrito Federal passem a contar com Defen-
sores Públicos em todas as unidades jurisdicionais.

Caiu em Defensoria!

Este tema foi objeto de cobrança na prova objetiva do VIII concurso para ingresso
na carreira da DPE-MG (FUNDEP, 2019), tendo a banca examinadora considerado
correta a seguinte assertiva:

“o número de defensores públicos na unidade jurisdicional será proporcional à efe-


tiva demanda pelo serviço da Defensoria Pública e à respectiva população”.

6 Art. 127. O Ministério Público é instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado, incum-
bindo-lhe a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis.

7 Art. 98. O número de defensores públicos na unidade jurisdicional será proporcional à efetiva demanda
pelo serviço da Defensoria Pública e à respectiva população. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 80, de 2014).
§ 1º No prazo de 8 (oito) anos, a União, os Estados e o Distrito Federal deverão contar com defensores públicos em
todas as unidades jurisdicionais, observado o disposto no caput deste artigo. (Incluído pela Emenda Constitucional
nº 80, de 2014).
§ 2º Durante o decurso do prazo previsto no § 1º deste artigo, a lotação dos defensores públicos ocorrerá,
prioritariamente, atendendo as regiões com maiores índices de exclusão social e adensamento populacional.
(Incluído pela Emenda Constitucional nº 80, de 2014).

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2.2 A AUTONOMIA FUNCIONAL, ADMINISTRATIVA
E FINANCEIRA DA DEFENSORIA PÚBLICA

A Defensoria Pública, como vimos, caracteriza-se como função essencial à Justiça,


na ampla acepção de ordem jurídica justa. A instituição defensorial é, desse modo, função
essencial à justiça e à função jurisdicional do Estado.

Atenção Defensor:

Diferente de “indispensável à administração da justiça” – art. 133, CRFB – neste caso


aplicável à Advocacia - Privada.

Logo, não é função acessória ao Poder Judiciário (Órgão Extrapoder), tendo tanta
autonomia e relevância constitucional quanto o Órgão Judiciário, tendo poder de liderar
e protagonizar atuação, a exemplo da atuação extrajudicial com referendo do membro
da Instituição, consoante arts. 134, caput, da CRFB, c/c 4.°, inc. II e § 4.°, da LC n. 80/1994
(LONDP), e 784, inc. IV, do CPC/2015.

Embora a Constituição demonstrasse, à época do texto originário, intenção de con-


ferir autonomia institucional à Defensoria Pública (caráter extrapoder), essa autonomia 14
só surgiu, de forma expressa, no texto constitucional, após promulgação das emendas
constitucionais 45/2004 e 74/2013, cuja EC nº 80/2014 só veio a fortalecer a referida au-
tonomia, sobrelevando-se o papel constitucional da Instituição defensorial e seu caráter
permanente no Estado Social e Democrático de Direito.

Atenção Defensor:

Enquanto as Defensorias Públicas dos Estados (DPE`s) adquiriram autonomia insti-


tucional desde 2004 (EC n. 45), as Defensorias Públicas da União (DPU) e do Distrito
Federal (DPDF) só receberam, de maneira expressa no texto constitucional, a referi-
da autonomia após a EC n. 74/2013.

Calha ressaltar que a EC nº 69/2012 não colocou a autonomia da DP-DF no texto


constitucional, malgrado tenha assegurado no seu art. 2.° que “aplicam-se à Defensoria
Pública do Distrito Federal os mesmos princípios e regras que, nos termos da Consti-
tuição Federal, regem as Defensorias Públicas dos Estados”. Ou seja, a EC n. 69/2012
conferiu autonomia à DP-DF, mas não o fez de modo expresso no texto constitucional,
fazendo-o através da retirada desta competência da esfera da União, a qual manteve

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consigo, apenas, a organização, manutenção e legislação da Defensoria Pública dos even-
tuais Territórios.

Caiu em Defensoria!

Este tema foi objeto de cobrança no último concurso da DP-DF, organizado pelo
CEBRASPE no ano de 2019, que considerou errada a seguinte assertiva: “Compete
à União organizar e manter a Defensoria Pública do Distrito Federal e a de eventual
território”. A justificativa oficial, apresentada pela banca examinadora, foi a seguinte:

ITEM - ERRADO.

O art. 1.º da Emenda Constitucional n.º 69, de 2012, alterou o inciso XIII do art. 21
da Constituição Federal, excluindo a competência da União para organizar e manter
a Defensoria Pública do Distrito Federal. Com a Emenda Constitucional nº 69/2012,
tal atribuição passou para a competência do próprio DF (saindo da esfera da União).
Portanto, a União ficou apenas com a organização, manutenção e legislação da De-
fensoria Pública dos eventuais Territórios (não mais com a do DF). Em outros ter-
mos, a Emenda Constitucional n.º. 69/2012 retirou a competência da União para
organizar e manter a Defensoria Pública do DF.
15

Ademais, conforme estudamos acima, a ADI 5.296/DF, cuja cautelar fora indeferida
pelo Plenário do STF, intenta afastar a constitucionalidade da EC n. 74/2013, retirando-se
a autonomia da DPU e da DPDF, o que poderia prejudicar a autonomia consagrada pelas
Defensorias Públicas já desde o ano de 2004.

A Autonomia Institucional da Defensoria Pública abrange as autonomias:

a) Administrativa; b) Funcional; c) Financeira.

A primeira tentativa de conferir AUTONOMIA FUNCIONAL E ADMINISTRATIVA à


Defensoria Pública ocorreu com o projeto que deu origem à Lei Complementar (LC) n.
80/1994. O parágrafo único do art. 3° trazia referência expressa neste sentido, senão
vejamos, “à Defensoria Pública é assegurada autonomia administrativa e funcional”.

No entanto, o texto foi vetado pela Presidência da República, sob o argumento de


que o texto constitucional, à época, só conferia as referidas autonomias ao Poder Judiciá-
rio e ao Ministério Público (arts. 99 e 127, § 2°, da CRFB), sendo omisso com relação à ins-
tituição defensorial, de forma que deveria a Defensoria Pública se submeter ao comando
ao Poder Executivo.

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No entanto, felizmente, essa submissão ficou no passado e passou a ser terminan-
temente afastada após previsões textuais na Constituição Federal e na legislação infra-
constitucional, além de julgados reiterados da Suprema Corte. Vejamos a previsão dos §§
2° a 4.° do art. 134 da Constituição do Brasil:

§ 2º Às Defensorias Públicas Estaduais são asseguradas autono-


mia funcional e administrativa e a iniciativa de sua proposta
orçamentária dentro dos limites estabelecidos na lei de diretrizes
orçamentárias e subordinação ao disposto no art. 99, § 2º. (Incluí-
do pela Emenda Constitucional nº 45, de 2004)

§ 3º Aplica-se o disposto no § 2º às Defensorias Públicas da União


e do Distrito Federal.   (Incluído pela Emenda Constitucional nº
74, de 2013)

§ 4º São princípios institucionais da Defensoria Pública a unidade,


a indivisibilidade e a independência funcional, aplicando-se tam-
bém, no que couber, o disposto no art. 93 e no inciso II do art. 96
desta Constituição Federal.

16
Em relação aos membros das Defensorias Públicas, vejamos o que preceitua o inc. I
do art. 127 da LONDP quanto às garantias:

Art. 127. São garantias dos membros da Defensoria Pública do


Estado, sem prejuízo de outras que a lei estadual estabelecer:

I - a independência funcional no desempenho de suas atribuições;

A autonomia administrativa significa o poder de autogestão e de autogoverno, de


guiar-se de acordo com a Constituição e as Leis. Trata-se da não subserviência a qualquer
pessoa, órgão, poder, entidade ou instituição.

Caiu em Defensoria!

Neste sentido, conferindo a autonomia administrativa da Defensoria Pública, a banca


FUNDEP considerou incorreta a assertiva a seguir, no VIII concurso para provimento
do cargo de Defensor Público Mineiro (2019): “se houver previsão na Constituição e
Lei Orgânica Estaduais e se observada lista tríplice, pode o chefe do Poder Executivo

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nomear os ocupantes dos cargos de defensor público-geral, subdefensor público-
geral e corregedor-geral”.

Ainda neste mesmo sentido, o último concurso da DP-DF (CEBRASPE, 2019) conside-
rou incorreta a seguinte assertiva:

“a garantia de autonomia administrativa das Defensorias Públicas está estabelecida


desde a promulgação da Constituição Federal de 1988”, sob a seguinte justificativa:

“ITEM - ERRADO. A autonomia administrativa das Defensorias Públicas somente foi


conferida com a Emenda Constitucional n.º 45, de 2004.”

É importante destacar que o próprio CEBRASPE, no mesmo concurso da DP-DF de


2019, considerou como correta a assertiva de que “é permitida a edição de lei estadual
definindo critérios para o atendimento de pessoas jurídicas pela Defensoria Pública”, sob
o argumento de que não há qualquer vedação de atendimento de pessoas jurídicas pela
Defensoria Pública. Portanto, é possível lei estadual definir critérios para o atendimento.
17
Caiu em Defensoria!

Importante destacar que, no último concurso da DPE-SP (FCC, 2019), a banca exa-
minadora considerou correto o seguinte enunciado: “Decorrem da autonomia
funcional, administrativa e financeira conferida à Defensoria Pública do Estado de
São Paulo as seguintes atribuições: (c) Emitir carteira funcional, conforme modelo
nacional, que valerá como documento de identidade e terá fé pública em todo o
território nacional”.

Ainda no que que diz respeito a esta autonomia (e também à financeira), destaca-
mos que, em diversas oportunidades, o Supremo Tribunal Federal já se manifestou pela
inconstitucionalidade de leis e normas locais editadas posteriormente à EC 45/2004 e que
estabeleçam qualquer vinculação da Defensoria Pública a órgão do Poder Executivo.

Neste particular, destacamos, entre outras, a ADI 3569/PE, noticiada no Informativo


nº 462 do STF, que declarou inconstitucional a vinculação da Defensoria Pública à Secre-
taria de Estado, bem como a ADI 4056/MA, que sacramentou o entendimento de que a
EC 45/04 reforçou a autonomia financeira e administrativa às defensorias públicas esta-
duais, ao assegurar-lhes a iniciativa para a propositura de seus orçamentos (art. 134, § 2º),

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bem como que qualquer medida normativa que suprima essa autonomia da Defensoria
Pública, vinculando-a a outros Poderes, em especial ao Executivo, implica em violação à
Constituição Federal.

Caiu em Defensoria!

O último concurso da Defensoria Pública do Distrito Federal (CEBRASPE, 2019) con-


siderou incorreta a seguinte assertiva: “lei estadual que vincule a Defensoria Pública
do estado a secretaria desse mesmo estado não contraria dispositivo constitucional,
pois a vinculação não impede a independência funcional”. A fundamentação foi a se-
guinte: “ITEM - ERRADO. A Defensoria Pública não pode estar vinculada a nenhum dos
órgãos dos três poderes”.

Não é só.

No julgamento da ADI 5287/AP, o STF, ao declarar inconstitucional a Lei Comple-


mentar Estadual nº 86/2014, a Corte entendeu que a atribuição de competência ao
Governador do Estado para nomear ocupantes de cargos essenciais à estrutura da Defen-
soria Pública viola a sua autonomia administrativa e, em especial, o art. 134 de parágrafos
18
da Constituição Federal e as normas gerais estabelecidas pela Lei Orgânica Nacional da
Defensoria Pública (LC 80/94). Decidiu-se, ainda, naquela oportunidade, que a autono-
mia financeira e orçamentária da instituição, prevista no §2º do art. 134 da CF/88, traz
fundamento constitucional, ao Defensor Público-Geral do Estado, para a iniciativa na
propositura da lei que fixa os subsídios dos membros da carreira.

Caiu em Defensoria!

Neste sentido, foi considerada correta a seguinte assertiva, no VIII concurso para pro-
vimento do cargo de Defensor Público no Estado de Minas Gerais (2019, FUNDEP): “A
Defensoria Pública pode propor diretamente ao Poder Legislativo a alteração do número
de membros da carreira e a remuneração destes, ainda que divirja o Poder Executivo”.

No mesmo sentido, a mesma banca examinadora considerou correta a afirmativa


de que “o Supremo Tribunal Federal reputa inconstitucional norma que impo-
nha a celebração de convênio com a OAB para prestação de assistência jurídica,
por limitação à autonomia das Defensorias Públicas”. A assertiva, efetivamente
correta, foi extraída do julgamento da Reclamação nº 18.237, em que o ministro
Luiz Fux declarou inconstitucional a celebração de convênio com a Ordem dos
Advogados do Brasil (OAB).

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Não podemos esquecer que mesmo a jurisprudência mais antiga do Supremo Tri-
bunal Federal, ainda de antes da Emenda Constitucional nº 45/2004, entendia que a vin-
culação da instituição defensorial às Secretarias do Estado seria inconstitucional (ADIs
494/MT – que não chegou a ter o mérito julgado, mas que já contava com dois votos neste
sentido – e ADI 575/PI). Neste mesmo sentido, agora após a introdução do §2º no art. 134
da Constituição Federal de 1988, o STF reforçou este entendimento nas ADIs 3569/PE e
4056/MA, como já visto.

No que toca à autonomia financeira ou, para alguns, de iniciativa orçamentária,


esta se mostra relacionada à capacidade de elaboração da proposta orçamentária e de
gestão e aplicação dos recursos destinados a prover as atividades e serviços do órgão
titular da dotação. Está prevista na legislação infraconstitucional nos artigos 97-A e 97-B
da LONDP (LC n. 80/1994), após redação dada pela LC n. 132/2009:

Art. 97-A. À Defensoria Pública do Estado é assegurada autono-


mia funcional, administrativa e iniciativa para elaboração de sua
proposta orçamentária, dentro dos limites estabelecidos na lei de
diretrizes orçamentárias, cabendo-lhe, especialmente: (Incluído
pela Lei Complementar nº 132, de 2009). 19
I – abrir concurso público e prover os cargos de suas Carreiras e dos
serviços auxiliares; (Incluído pela Lei Complementar nº 132, de 2009).

II – organizar os serviços auxiliares; (Incluído pela Lei Complemen-


tar nº 132, de 2009).

III – praticar atos próprios de gestão; (Incluído pela Lei Complemen-


tar nº 132, de 2009).

IV – compor os seus órgãos de administração superior e de atua-


ção; (Incluído pela Lei Complementar nº 132, de 2009).

V – elaborar suas folhas de pagamento e expedir os competentes


demonstrativos; (Incluído pela Lei Complementar nº 132, de 2009).

VI – praticar atos e decidir sobre situação funcional e administrativa


do pessoal, ativo e inativo da Carreira, e dos serviços auxiliares, or-
ganizados em quadros próprios; (Incluído pela Lei Complementar
nº 132, de 2009).

VII – exercer outras competências decorrentes de sua autonomia.


(Incluído pela Lei Complementar nº 132, de 2009).

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Art. 97-B. A Defensoria Pública do Estado elaborará sua propos-
ta orçamentária atendendo aos seus princípios, às diretrizes e aos
limites definidos na lei de diretrizes orçamentárias, encaminhan-
do-a ao Chefe do Poder Executivo para consolidação e encaminha-
mento ao Poder Legislativo. (Incluído pela Lei Complementar nº
132, de 2009).

§ 1º Se a Defensoria Pública do Estado não encaminhar a respectiva


proposta orçamentária dentro do prazo estabelecido na lei de
diretrizes orçamentárias, o Poder Executivo considerará, para
fins de consolidação da proposta orçamentária anual, os valores
aprovados na lei orçamentária vigente, ajustados de acordo
com os limites estipulados na forma do caput. (Incluído pela Lei
Complementar nº 132, de 2009).

§ 2º Se a proposta orçamentária de que trata este artigo for


encaminhada em desacordo com os limites estipulados no caput,
o Poder Executivo procederá aos ajustes necessários para fim de
consolidação da proposta orçamentária anual. (Incluído pela Lei
Complementar nº 132, de 2009).
20
§ 3º Durante a execução orçamentária do exercício, não
poderá haver a realização de despesas que extrapolem os
limites estabelecidos na lei de diretrizes orçamentárias, exceto
se previamente autorizadas, mediante a abertura de créditos
suplementares ou especiais. (Incluído pela Lei Complementar nº
132, de 2009).

§ 4º Os recursos correspondentes às suas dotações orçamentárias


próprias e globais, compreendidos os créditos suplementares e
especiais, ser-lhe-ão entregues, até o dia 20 (vinte) de cada mês,
na forma do art. 168 da Constituição Federal. (Incluído pela Lei
Complementar nº 132, de 2009).

§ 5º As decisões da Defensoria Pública do Estado, fundadas em sua


autonomia funcional e administrativa, obedecidas as formalidades
legais, têm eficácia plena e executoriedade imediata, ressalvada a
competência constitucional do Poder Judiciário e do Tribunal de
Contas. (Incluído pela Lei Complementar nº 132, de 2009).

§ 6º A fiscalização contábil, financeira, orçamentária, operacional e


patrimonial da Defensoria Pública do Estado, quanto à legalidade,
legitimidade, aplicação de dotações e recursos próprios e renúncia
de receitas, será exercida pelo Poder Legislativo, mediante controle

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externo e pelo sistema de controle interno estabelecido em lei.
(Incluído pela Lei Complementar nº 132, de 2009).

A redação dada pela LC n. 132/2009 é fruto da EC n. 45/2004, por isso mesmo a


previsão legal ainda não consta na LONDP para a DPU e a DPDF, mesmo após a EC n.
74/2013, não tendo havido a reforma legal até então, embora haja propostas institucio-
nais neste sentido. Atenção ao art. 168 da Constituição da República:

Art. 168. Os recursos correspondentes às dotações orçamentárias,


compreendidos os créditos suplementares e especiais, destinados
aos órgãos dos Poderes Legislativo e Judiciário, do Ministério Públi-
co e da Defensoria Pública, ser-lhes-ão entregues até o dia 20 de
cada mês, em duodécimos, na forma da lei complementar a que se
refere o art. 165, § 9º. (Redação dada pela Emenda Constitucional
nº 45, de 2004).

21
Em matéria orçamentária, a Defensoria Pública pode manifestar decisões fundadas
em sua autonomia funcional e administrativa, obedecidas as formalidades legais, que
gozarão de eficácia plena e executoriedade imediata. Neste ponto, é importante destacar
que o próprio Supremo Tribunal Federal, quando do julgamento da ADI 4056/MA, refor-
çou o entendimento de que a norma instituidora dessa autonomia (o art. 134, §2º, CF/88)
possui eficácia plena e aplicabilidade imediata, pelo fato de ser a Defensoria Pública um
instrumento de efetivação de Direitos Humanos.

Ainda, no julgamento da ADI 5287/PB, na qual se discutia a constitucionalidade da Lei


Estadual nº 10.437/2014 do Estado da Paraíba, o Supremo Tribunal Federal entendeu que
qualquer iniciativa de lei que reduzisse a proposta orçamentária da instituição feria a sua
autonomia, prevista no art. 134, §2º, CF/88. Para a referida Corte, a redução unilateral (feita
pelo Governador da Paraíba) do valor da proposta orçamentária elaborada pela instituição
defensorial e apresentada em consonância com a Lei de Diretrizes Orçamentárias e com
os demais requisitos constitucionais, revela verdadeira extrapolação de sua competência,
afrontando a autonomia da Defensoria Pública e o princípio da separação dos poderes.

Caiu em Defensoria!

Neste sentido foi a cobrança promovida no último concurso para a DPE-SP (FCC,
2019), que considerou incorreta a seguinte assertiva: “Decorrem da autonomia fun-
cional, administrativa e financeira conferida à Defensoria Pública do Estado de São
Paulo as seguintes atribuições: (...) Elaborar sua proposta orçamentária, dentro dos

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limites estabelecidos na lei de diretrizes orçamentárias, encaminhando-a diretamente
à Assembleia Legislativa”. Destaca-se, neste ponto, que o equívoco do enunciado
está na questão do envio da proposta orçamentária diretamente à Assembleia
Legislativa, quando, na verdade, seu envio deve ser feito ao Governador do Estado
e este a encaminha para a Assembleia.

Não bastando, ao julgar a ADPF nº 339, ajuizada contra omissão do Governador do


Estado do Piauí em razão da ausência de repasse do duodécimo orçamentário à Defen-
soria Pública, na forma da proposta originária, o Supremo Tribunal Federal entendeu por
presente a omissão do Poder Executivo e violação ao disposto no art. 168 da Constituição
Federal. Em seu voto, o Ministro Luiz Fux destacou que “a Constituição Federal assegura
à Defensoria Pública a prerrogativa de formulação de sua proposta orçamentária e que
a retenção em repasses de duodécimos pelo governo estadual constitui prática indevida
de flagrante violação aos preceitos fundamentais da Constituição”.

A autonomia funcional significa a atuação livre e desimpedida da instituição diante


de outros órgãos e poderes do Estado. Não se confunde, tecnicamente, com a indepen-
dência funcional (projeção interna), esta entendida como a proibição de interferência dos
órgãos hierarquicamente superiores da Defensoria Pública na atividade funcional dos
seus membros. 22
Para Eurico de Andrade Azevedo8, a autonomia funcional “significa que seus mem-
bros, no desempenho de seus deveres profissionais, não estão subordinados a ne-
nhum órgão ou poder – nem ao Poder Executivo, nem ao Poder Judiciário, nem ao Poder
Legislativo – submetendo-se apenas à sua consciência e aos limites imperativos da lei”.

Logo a autonomia funcional é da instituição, podendo ser analisada como pro-


jeção externa da independência funcional. Assim, a autonomia é institucional, refere-se à
instituição, à Defensoria, enquanto que a independência funcional é do titular da função,
é pertinente ao titular do cargo ou função do Defensor Público, permitindo que os mem-
bros da Instituição Defensorial, no desempenho de seus deveres profissionais (ati-
vidade-fim), não estejam subordinados a nenhum órgão ou poder, submetendo-se
apenas à sua consciência e aos limites imperativos da lei.

É importante destacar que o Supremo Tribunal Federal, quando do julgamento


da ADI 3.022, entendeu que a legislação estadual (LC 10.194 de 1994, do Estado do
Rio Grande do Sul), que estipulava como atribuição da Defensoria Pública estadual a
assistência a servidores públicos processados por atos praticados em razão do exercício
de suas atribuições funcionais, era inconstitucional, por violar o disposto no art. 134 da
Constituição Federal.

8 Apud Hugo Nigro Mazzilli. Introdução do Ministério Público. Saraiva: São Paulo, 1997, p. 27.

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Caiu em Defensoria!

Este tema foi objeto de cobrança na prova objetiva do último concurso da DPE-MG
(FUNDEP, 2019), que considerou errada a seguinte assertiva: “é atribuição da De-
fensoria Pública de Minas Gerais promover a ação civil ex delicto e, se previsto na Lei
Orgânica Estadual, a defesa judicial de servidores públicos estaduais processados
em razão do regular exercício do cargo, sem comprovar caráter de necessitado do
público-alvo”.

Nessa altura, você pode estar se questionando: a autonomia funcional da Defen-


soria Pública, portanto, não se confunde com a independência funcional do membro da
instituição?

Correto!

Ambos dizem respeito à ausência de submissões externas, seja por parte da institui-
ção defensorial (autonomia funcional), seja ao seu membro, quando estiver no exercício
das suas atribuições (independência).

A independência funcional do membro da Defensoria Pública, por outro lado, não


é absoluta, de forma que há doutrinadores que diferenciam a análise da independência
23
entre a vinculação de atuação ou de não atuação e a vinculação meritória. Isso porque,
nos termos dos entendimentos doutrinários prevalentes, a independência funcional do
membro da carreira estaria atrelada à questão meritória, à análise da estratégia, das te-
ses, da orientação jurídica que este membro passará a externar.

Diferente, no entendimento majoritário da doutrina, é a vinculação às determina-


ções institucionais e de atuação ou não atuação por parte do órgão de execução. Isso
porque, quando bem observado, o membro da Defensoria Pública exerce o seu cargo
dentro de uma estrutura organizacional e administrativa da sua instituição, de forma que
ele deve respeitar as orientações e determinações internas, que pautam a atuação da
instituição, em âmbito interno e externo. Sendo assim, não confunda: a autonomia fun-
cional (da instituição) não equivale à independência funcional (do membro) e sendo que
esta última (independência funcional) não é absoluta, mas sim relativa, a exemplo das
orientações e enunciados internos que pautam a atuação ou não do membro da carreira.

2.3 COMPETÊNCIA LEGISLATIVA DA DEFENSORIA PÚBLICA


E PARA A ASSISTÊNCIA JUDICIÁRIA

Sem dúvida alguma, o tema relacionado à competência legislativa para tratar das
matérias da Defensoria Pública e também da assistência judiciária é extremamente

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importante para as provas objetivas da instituição, uma vez que, através dela, o examinador
consegue, até mesmo, avaliar o seu conhecimento a respeito da evolução no tratamento
constitucional conferido à instituição.

Atenção Defensor:

O 3º concurso da Defensoria Pública do Paraná trouxe exatamente a cobrança deste


tema, relacionado ao tratamento constitucional acerca da competência legislativa,
sendo que este concurso não foi o único recente e organizado pela Fundação Carlos
Chagas que veio a cobrar esta matéria, como veremos adiante.

Como sabemos, após a edição da EC n. 80/2014, à Defensoria Pública são


aplicáveis, no que couber, os artigos 93 e 96, inc. II, da CF/88 (nos termos do que dispõe,
expressamente, o art. 134, §4º9, CF/88).

Como decorrência do inc. II do art. 96 da Constituição da República, a Defensoria


Pública passou a contar com iniciativa legislativa para temas precisos, não se tratando
de iniciativa legislativa ampla e irrestrita, mas apenas para situações com pertinência
temático-institucional. O que assevera o indigitado dispositivo? Vejamos:
24

Art. 96. Compete privativamente:

(...)

II - ao Supremo Tribunal Federal, aos Tribunais Superiores e aos


Tribunais de Justiça propor ao Poder Legislativo respectivo, obser-
vado o disposto no art. 169:

a) a alteração do número de membros dos tribunais inferiores;

9 Art. 134. A Defensoria Pública é instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado,
incumbindo-lhe, como expressão e instrumento do regime democrático, fundamentalmente, a orientação ju-
rídica, a promoção dos direitos humanos e a defesa, em todos os graus, judicial e extrajudicial, dos direitos
individuais e coletivos, de forma integral e gratuita, aos necessitados, na forma do inciso LXXIV do art. 5º desta
Constituição Federal. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 80, de 2014)
(...);
§ 4º São princípios institucionais da Defensoria Pública a unidade, a indivisibilidade e a independência funcional,
aplicando-se também, no que couber, o disposto no art. 93 e no inciso II do art. 96 desta Constituição Federal.
(Incluído pela Emenda Constitucional nº 80, de 2014).

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b) a criação e a extinção de cargos e a remuneração dos seus serviços
auxiliares e dos juízos que lhes forem vinculados, bem como a
fixação do subsídio de seus membros e dos juízes, inclusive dos
tribunais inferiores, onde houver; (Redação dada pela Emenda
Constitucional nº 41, 19.12.2003)

c) a criação ou extinção dos tribunais inferiores;

d) a alteração da organização e da divisão judiciárias;

Aplicando-se, ao caso, as adaptações necessárias (já que o próprio §4º do art. 134
fala aplicação dos referidos dispositivos legais “no que couber”), chegamos à conclusão
de que cabe à Defensoria Pública propor projeto de lei para a alteração do número de
membros da Instituição, a criação e extinção de cargos e a remuneração dos seus ser-
viços auxiliares, bem como para a fixação de subsídio dos seus membros, criação ou
extinção de Defensorias Públicas, Núcleos e demais órgãos defensoriais internos, além
de alteração da organização e da divisão defensorial, atendidas as normas gerais estabe-
lecidas na LONDP (LC n. 80/2014).

No que diz respeito à competência para legislar sobre a Defensoria Pública, ela
25
apresentou uma série de mudanças nos últimos anos, especialmente a partir da edição
da Emenda Constitucional nº 69/2012, que optou por excluir a expressão “Defensoria
Pública do Distrito Federal” do art. 22, XVII, deixando entrever que a competência para
legislar sobre este ramo da Defensoria Pública se deslocaria para o art. 24, XIII, da mesma
Constituição Federal.

Dessa forma, a partir do advento da LC 69/2012, o quadro da distribuição da


competência legislativa passou a ser assim organizado, nos termos da doutrina:

a) a União passou a ter competência exclusiva para legislar sobre a Defensoria


Pública da União, nos termos do art. 48, IX, CF/88:

Art. 48. Cabe ao Congresso Nacional, com a sanção do Presidente


da República, não exigida esta para o especificado nos arts. 49, 51
e 52, dispor sobre todas as matérias de competência da União,
especialmente sobre:

IX - organização administrativa, judiciária, do Ministério Público


e da Defensoria Pública da União e dos Territórios e organização
judiciária e do Ministério Público do Distrito Federal; (Redação dada
pela Emenda Constitucional nº 69, de 2012) (Produção de efeito).

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b) os Estados e o Distrito Federal passaram a ter competência suplementar para
legislar, respectivamente, sobre a Defensoria Pública Estadual e a Defensoria Pública
Distrital, sendo esta competência concorrente entre eles e a União, nos termos do que
dispõe o art. 24, XIII, CF/88:

Art. 24. Compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar


concorrentemente sobre:

XIII - assistência jurídica e Defensoria pública;

Um bom quadro sempre ajuda na memorização:

ENTE FEDERATIVO NATUREZA DA COMPETÊNCIA OBJETO

União Exclusiva Defensoria da União

Estados e o DF Suplementar e concorrente DPE`s e DP Distrital 26

Neste sentido, é muito importante frisar que, nos termos da doutrina de Nathália
Masson, in Manual de Direito Constitucional, 6ª Edição, ano 2019, p. 651, “pode-se afirmar
que a competência da União se resume à edição da normatização geral (art. 24, §1º,
CF/88).

Por seu turno, os Estados-membros e o Distrito Federal serão competentes para


fixar as normas específicas, complementando a norma geral elaborada pela União
(competência suplementar-complementar), prevista no art. 24, §2º, CF/88)”.

No que diz respeito à competência para iniciativa legislativa (iniciativa do processo


legislativo), ela também recebeu uma importante alteração com a edição da Emenda
Constitucional nº 80/2014, que reconheceu a iniciativa legislativa à Defensoria Pública,
através do disposto no art. 134, §4º, CF/88, combinado com o art. 93 e o art. 96, II, também
da Constituição da República, como vimos no início deste nosso e-book.

A partir de então, a organização da Defensoria Pública como um todo e também


as normas gerais a serem editadas para a organização da Defensoria Pública dos
Estados e do Distrito Federal continuaram a ser de iniciativa privativa do Presidente
da República e isso se deve em decorrência da inexistência de hierarquia entre as

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Defensorias Públicas, de forma que o Defensor Público-Geral Federal, por exemplo, não
poderia ter iniciativa legislativa para editar normas gerais que viessem a afetar toda a
instituição, inclusive as Defensorias Públicas dos Estados, ainda que o fizesse de maneira
concorrente com o Presidente da República, pois, dessa forma, estaria ele interferindo, ainda
que de maneira oblíqua, no funcionamento das demais Defensorias Públicas estaduais.

Dessa forma, a previsão do §1º do art. 134 da Constituição Federal é bastante clara
ao atribuir à Lei Complementar dois papéis (ou propósitos):

a) Organizar a Defensoria Pública da União:

A organização da Defensoria Pública da União é exaustiva pela Lei Complementar nº


80/94, como podemos observar pela sua simples leitura, já que traz, de forma detalhada
e pormenorizada, maiores detalhes sobre os seus órgãos, as suas atribuições e as suas
responsabilidades, por exemplo;

b) Prescrever normas gerais para a organização das Defensorias Públicas dos


Estados e da Defensoria Pública do Distrito Federal:
27
Neste ponto, a lei complementar deve ser concisa, breve, nada exaustiva, trazendo
apenas normas gerais e atribuindo à legislação estadual de cada ente da federação
a definição, pormenorizada, a respeito da organização dos órgãos, atribuições,
responsabilidades, etc., com relação a cada realidade regional.

Caiu em Defensoria!

Como visto, a Lei Complementar é o instrumento capaz de regulamentar a


organização da Defensoria Pública.

Neste sentido, foi considerada correta a assertiva a seguir, no VIII concurso para
ingresso na DPE-MG (FUNDEP, 2019): “não é possível edição de medida provisória
para regulamentar a organização da Defensoria Pública”.

Exemplo claro a respeito da diferença de tratamento entre a Lei Complementar


nº 80/94 e as leis complementares que tratam da Defensoria Pública de cada Estado da
Federação (e também do Distrito Federal) pode ser observado pelo comparativo abaixo,
extraído da Lei Complementar 136 de 2011, que trata da Defensoria Pública Paranaense:

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LEI COMPLEMENTAR Nº 80/94 LCE Nº 136/2011 DA DPE DO PARANÁ

SEÇÃO VII Seção VIII


Dos Órgãos Auxiliares Dos Órgãos Auxiliares

Art. 109. Cabe à lei estadual Art. 43 São órgãos auxiliares da Defensoria
disciplinar os órgãos e serviços Pública do Estado do Paraná:
auxiliares de apoio administrativo, I - a Escola da Defensoria Pública do Estado;
organizando­-os em quadro próprio, II - a Coordenadoria-Geral de Administração;
com cargos que atendam às
peculiaridades e às necessidades III - a Coordenadoria de Planejamento;
da administração e das atividades IV - a Coordenadoria de Comunicação;
funcionais da Instituição V - a Coordenadoria Jurídica; (Redação dada
pela Lei Complementar 209 de 05/04/2018)
VI - os Centros de Atendimento Multidiscipli-
nar;
VII - os Assessores Jurídicos;
VIII - os Estagiários.

Art. 44 A estrutura e atribuições das unida- 28


des internas dos órgãos auxiliares serão fi-
xadas por ato do Defensor Público-Geral do
Estado.

Perceberam como a Lei Complementar nº 136 de 2011 desce às minúcias e estabelece


quais são os órgãos auxiliares da instituição no Estado Paranaense, bem como que a
Lei Complementar nº 80 de 1994 determina que cabe, justamente, àquela lei estadual
disciplinar os órgãos e serviços auxiliares de apoio administrativo?

Avançando em nosso estudo, no que diz respeito à iniciativa legislativa específica


para tratar da Defensoria Pública da União, aí sim há uma iniciativa privativa do Defensor
Público-Geral Federal, em razão do disposto no art. 134, §4º, CF, combinado com o art. 93
e o art. 96, II, ambos também da Constituição da República, estendendo-se esta iniciativa
para a criação e extinção de cargos, remuneração dos serviços auxiliares e fixação do
subsídio dos Defensores Públicos Federais.

Você pode estar se perguntando, depois deste estudo: mas a autonomia conferida à
instituição defensorial, seja ela administrativa, financeira, orçamentária, trazida, por exemplo,
com a Emenda Constitucional nº 45 de 2004, conferiu a ela, por si só, a iniciativa de lei?

A resposta é negativa.

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Isso porque a autonomia conferida à querida instituição defensorial, por si só, não
garantiu a ela a iniciativa de lei. O órgão ou ente que sejam considerados autônomos, por
si só, não possuem competência para deflagrar o processo legislativo. Desta forma, até
a Emenda Constitucional nº 80 de 2014, a Defensoria Pública, apesar de autônoma, não
tinha consigo a iniciativa de lei, o que, inclusive, era reconhecido pela jurisprudência do
STF, a exemplo do julgamento da ADI nº 3569/PE10.

Sendo assim, a partir da edição da Emenda Constitucional nº 80 de 2014, aí sim, com


a inclusão do §4º no art. 134 do texto constitucional (o qual determinou, expressamente,
a aplicação dos arts. 93 e 96, II, no que couber, à Defensoria Pública), a instituição passou
a ostentar legitimidade para iniciar o processo legislativo, no que diz respeito às matérias
nele expostas, quais sejam a organização, criação e extinção de cargos, remuneração, dos
serviços auxiliares, fixação de subsídios, entre outros.

Como visto, o tema da competência legislativa para tratar dos assuntos relacionados
à Defensoria Pública e à assistência jurídica, ligado às matérias de Direito Constitucional
e Princípios Institucionais da Defensoria Pública, sempre é objeto de cobrança em provas
da instituição defensorial, uma vez que é um tema de atuação diária dos seus membros,
além de se tratar de assunto que recebeu importante evolução legislativa e novos
delineamentos, em especial a partir das EC nº 69/2012 e 80/2014, como podemos observar
pelo estudo deste E-book. Sobre a cobrança em provas da carreira defensorial, vejamos, 29
abaixo, uma questão extraída do último concurso da Defensoria Pública Paranaense
(Fundação Carlos Chagas):

Caiu em Defensoria!

De acordo com a posição constitucional da Defensoria Pública, suas limitações


impostas ao poder constituinte, e sua autonomia funcional, administrativa e
financeira, é correto afirmar que

a) é permitida a edição de medida provisória que disponha sobre a organização da


Defensoria Pública em matéria de urgência relativa ao preenchimento de cargo da
Administração Superior.

b) a posição constitucional das Defensorias Públicas confere-lhes caráter


permanente, essencial à função jurisdicional do Estado, ao passo que impõe a
submissão ao estatuto da OAB.

10 Neste julgamento, apesar de não ter sido (até aquele momento) reconhecida a iniciativa legislativa da
Defensoria Pública, foi bastante importante para a instituição, pois reafirmou a jurisprudência em diversos pon-
tos, entre eles que:
(i) A EC 45/04 outorgou expressamente autonomia funcional e administrativa às defensorias públicas estaduais,
além da iniciativa para a propositura de seus orçamentos;
(ii) É inconstitucional a norma local que estabelece a vinculação da Defensoria Pública à Secretaria de Estado;
(iiI) A norma de autonomia inscrita no art. 134, § 2º, da Constituição Federal pela EC 45/04 é de eficácia plena e
aplicabilidade imediata, dado ser a Defensoria Pública um instrumento de efetivação dos direitos humanos.

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c) a atuação da Defensoria Pública no âmbito municipal é cumprida com o auxílio
dos escritórios modelos das faculdades de direito.

d) a autonomia administrativa e funcional com relação à Defensoria Pública da


União não é similar às Defensorias Públicas dos Estados.

e) compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente


sobre: assistência judiciária e Defensoria Pública.

A assertiva apontada como CORRETA pelo gabarito oficial do certame foi a da letra
“E”, ou seja, compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente
sobre: assistência judiciária e Defensoria Pública, exatamente nos termos do que dispõe
o art. 24, XIII, CF:

Art. 24. Compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar


concorrentemente sobre:

XIII - assistência jurídica e Defensoria pública.


30

Ademais, devemos lembrar que este tema já havia sido cobrado anteriormente,
praticamente da mesma forma, na prova da DPE-BA, anos 2016/2017, também organi-
zada pela FCC, como vemos abaixo:

Caiu em Defensoria!

DPE/BA (FCC / 2016-7). A respeito da competência para legislar sobre assistência


jurídica e Defensoria Pública, é INCORRETO:

a) Cabe ao Congresso Nacional, com a sanção do Presidente da República, dispor


sobre todas as matérias de competência da União, entre elas a organização admi-
nistrativa da Defensoria Pública da União e dos Territórios.

b) É de iniciativa privativa do Presidente da República lei que disponha sobre a orga-


nização da Defensoria Pública da União, bem como normas gerais para a organiza-
ção da Defensoria Pública dos Estados, do Distrito Federal e dos Territórios.

c) Compete privativamente à União legislar sobre organização da Defensoria Públi-


ca do Distrito Federal e dos Territórios.

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d) Compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente
sobre assistência jurídica e Defensoria Pública.

e) A Constituição Federal de 1988 não consagrou a competência do Município para


legislar sobre assistência jurídica e Defensoria Pública, rejeitando a possibilidade de
criação de Defensoria Pública no plano federativo municipal.

Neste caso, a assertiva apontada como correta foi a letra “C”, ou seja, de que com-
pete privativamente à União legislar sobre organização da Defensoria Pública do Distrito
Federal e dos Territórios, tendo como fundamento o disposto no art. 22, XVII, CF:

Art. 22. Compete privativamente à União legislar sobre:

XVII - organização judiciária, do Ministério Público e da Defensoria


Pública do Distrito Federal e dos Territórios, bem como organiza-
ção administrativa destes.
31

A Defensoria Pública de Roraima, no certame de 2012/2013, organizado pelo


CESPE à época, também trouxe importante cobrança neste sentido, como vemos abaixo:

Caiu em Defensoria!

À luz da CF, assinale a opção correta no que diz respeito à DP:

A) À União compete privativamente legislar sobre a organização da Defensoria Pú-


blica do Distrito Federal e dos Territórios.

B) A competência para legislar sobre assistência jurídica e DP é concorrente entre a


União, os estados e o DF.

C) A incumbência da DP, como instituição essencial à função jurisdicional do Estado,


é limitada à instrução jurídica dos processos movidos contra os incapazes.

D) O Estado só prestará a gratuidade de justiça aos cidadãos brasileiros que com-


provarem insuficiência de recursos.

E) Os mesmos princípios e regras que, nos termos da CF, regem as DPs dos estados
são aplicados à DPU.

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Mais uma vez, assim como foi cobrado na última prova da Defensoria Pública do Pa-
raná, também a última prova, agora da Defensoria Roraimense, tratou acerca da compe-
tência para legislar sobre assistência jurídica da Defensoria Pública, tendo sido apontada
como correta a assertiva “B”, ou seja, de que a competência para legislar sobre assistência
jurídica e Defensoria Pública é concorrente entre a União, os estados e o DF, novamente
nos termos do que dispõe o art. 24, XIII, CF:

Art. 24. Compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar


concorrentemente sobre:

XIII - assistência jurídica e Defensoria pública.

Caiu em Defensoria!

Não nos surpreende a quantidade de questões e assertivas que versam sobre o


assunto. Outro recente exemplo dessa cobrança pode ser extraído da prova objetiva
da DP-DF (CEBRASPE, 2019), que considerou errada a seguinte assertiva: “A compe-
tência para legislar sobre Defensoria Pública é privativa da União”.
32

A justificativa oficial, trazida pela banca examinadora, tinha o seguinte teor: JUS-
TIFICATIVA - ERRADO. Segundo o art. 24, XIII, da Constituição Federal compete à União,
aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente sobre assistência jurídica e
Defensoria Pública. Portanto, via de regra, a União irá editar normas gerais, e os Estados
e o DF irão complementá-las. Cada ente atua em uma esfera específica. Dito de outra
forma, a competência da União em relação à Defensoria Pública do Distrito Federal e às
Defensorias Públicas Estaduais é a mesma — estabelecer normas gerais.

2.4 PRINCÍPIOS INSTITUCIONAIS DA DEFENSORIA PÚBLICA:


UNIDADE, INDIVISIBILIDADE E INDEPENDÊNCIA FUNCIONAL

Os princípios institucionais da Defensoria Pública estão expressamente previstos


no art. 3° da LONDP desde sua redação originária (1994), bem como no § 4° do art. 134
da CRFB, após promulgação da EC n. 80/2014. Vamos à leitura do texto constitucional:

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Art. 134. A Defensoria Pública é instituição permanente, essencial à
função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe, como expressão e
instrumento do regime democrático, fundamentalmente, a orien-
tação jurídica, a promoção dos direitos humanos e a defesa, em
todos os graus, judicial e extrajudicial, dos direitos individuais e co-
letivos, de forma integral e gratuita, aos necessitados, na forma do
inciso LXXIV do art. 5º desta Constituição Federal. (Redação dada
pela Emenda Constitucional nº 80, de 2014)

(...).

§ 4º São princípios institucionais da Defensoria Pública a unidade, a


indivisibilidade e a independência funcional, aplicando-se também,
no que couber, o disposto no art. 93 e no inciso II do art. 96 desta
Constituição Federal. (Incluído pela Emenda Constitucional nº
80, de 2014).

A unidade da Defensoria Pública diz respeito à estrutura hierárquica, admi-


nistrativa e institucional, garantindo o mesmo núcleo gestor, tendo maior aplicabilidade
político-administrativa. Ela representa que os Defensores Públicos integram um mesmo
33
órgão, regidos pela mesma disciplina, por diretrizes e finalidades próprias e estando sub-
metidos a uma mesma chefia, ao Defensor-Público Geral de unidade da federação (ou ao
Defensor Público-Geral Federal).

No entanto, a unidade diz respeito a cada uma das Defensorias Públicas, a cada
ramo delas (União, Estados, Distrito Federal), de forma que não há vinculação alguma
entre a Defensoria Pública de Estados da federação diversos, embora todas elas estejam
vinculadas à mesma Norma Geral, qual seja a Lei Orgânica Nacional da Defensoria Públi-
ca (LC 80/94).

Atenção Defensor:

O princípio da unidade assume um caráter tríplice na estruturação da Defensoria:


unidade hierárquico-administrativa; unidade funcional e unidade normativa.

a) Unidade hierárquico-administrativa: a Defensoria Pública é instituição una, ha-


vendo fracionamento apenas de atribuições (forma federativa). Deve-se compreender
que as Defensorias Públicas da União, do DF e de cada Estado coexistem de forma har-
mônica, sem qualquer vinculação hierárquico-administrativa, tratando-se de ramifica-
ções de um todo orgânico maior, com chefias independentes e autônomas.

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b) Unidade funcional ou teleológica: existem objetivos institucionais comuns, uma
pauta defensorial (mesmo fim ideológico), mediante atuação nacional conjunta e progra-
mada (recomendável). Ver artigo 3.ª-A da LONDP (LC n. 80/94).

c) Unidade normativa (singularidade normativa): trata-se da necessidade de que


a LONDP (Lei Orgânica Nacional da Defensoria Pública) estabeleça as mesmas normas
gerais para todas as Defensorias Públicas, evitando-se, às vezes, diferenciações no trato
da estruturação jurídico-administrativa da Defensoria.

O princípio da indivisibilidade da Defensoria Pública tem previsão legal no art.


3° da LC n. 80/9194 (LONDP – Lei Orgânica Nacional da Defensoria Pública), desde sua
redação original em 1994, não sendo objeto de reforma legislativa em 2009 com a edição
da LC n. 132.

Após a promulgação da EC n. 80/2014, o aludido princípio institucional passou a


ter status constitucional, sendo colocado no § 4° do art. 134 da Constituição da República
Federativa do Brasil (CRFB), segundo o qual “são princípios institucionais da Defensoria
Pública a unidade, a indivisibilidade e a independência funcional...”.

A Doutrina Institucional tanto da Defensoria Pública, como também do Ministério


Público, compreende o princípio da indivisibilidade uma consequência, um verdadeiro
corolário lógico, um complemento da unidade institucional, na medida em que é a não
34
divisibilidade que mantém a unidade.

Esta reafirma que a Defensoria Pública é uma instituição una, com estrutura, funcio-
namento e objetivos próprios, tratando-se de princípio com projeção externa; o princípio
da indivisibilidade confirma o caráter uno e institucional da Defensoria Pública, mas tem
uma projeção interna, ressaltando que a atuação dos órgãos de execução (membros) não
se dá a título pessoal, de modo que podem ser substituídos durante a prestação da
assistência jurídica, desde que respeitados os comandos legais, impedindo-se a descon-
tinuidade do serviço público (art. 37, CRFB).

A indivisibilidade, do mesmo modo, indica que os membros da instituição defensorial


podem ser substituídos uns pelos outros, sem que haja qualquer prejuízo às funções que
são exercidas pela instituição, podendo até mesmo alternarem, entre si, para evitar a
suspensão ou a paralisação das atividades. A principal finalidade, portanto, do princípio
da indivisibilidade, reside em se evitar a solução de continuidade na prestação da assistência
jurídica integral e gratuita, que é a missão constitucionalmente atribuída à Defensoria Pública,

Deve-se tomar o devido cuidado, outrossim, para se evitar que, ao se afirmar que a
possibilidade de substituição de um Defensor Público nas suas férias, licenças, etc., confun-
da-se com trocas ou substituições aleatórias, ao sabor das vontades e/ou conveniências
dos chefes da instituição. Isso porque, assim como a indivisibilidade, a inamovibilidade
do membro da Defensoria Pública também possui status constitucional, com previsão no

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art. 134, §1º, princípio este que, evidentemente, proíbe a adoção de expedientes desta
natureza.

A indivisibilidade liga-se à atuação institucional, indicando que cada membro é a


própria instituição, tendo uma perspectiva técnico-funcional.

A independência funcional assume caráter dúplice no regramento (estatuto) jurí-


dico da Defensoria Pública, sendo prevista como princípio institucional (arts. 3° da LC n.
80/1994 – LONDP, c/c 134, § 4°, da Constituição da República Federativa do Brasil – CRFB,
com redação dada pela EC n. 80/2014), ao lado da indivisibilidade e da unidade, e como
garantia dos membros da Instituição (Defensores Públicos), paralelamente à inamovibi-
lidade, irredutibilidade de vencimentos/subsídios e estabilidade, podendo a lei estadual
estabelecer outras para a Defensoria Pública dos Estados (arts. 43, inc. I, DPU; 88, inc. I,
DPDF; 127, inc. I, DPEs, todos da LC n. 80/94).

Na condição de princípio, como vimos, a independência funcional não se confunde


com a autonomia funcional. Esta é institucional, refere-se à Instituição, à Defensoria, ao
passo que aquela corresponde ao titular da função, é pertinente ao titular do cargo ou
função do Defensor Público. Os conceitos caminham juntos, no entanto.

A autonomia funcional revela a projeção externa da independência funcional, per-


mitindo atuação livre e desimpedida da Instituição diante de outros órgãos e poderes do
35
Estado. Por outro lado, a projeção interna da independência funcional significa a proibição
de interferência dos órgãos hierarquicamente superiores da Defensoria Pública na ativi-
dade dos seus membros.

A independência funcional, na visão da doutrina de Felipe Caldas Menezes11, é vista,


ainda, sob um outro aspecto, aos nos ensinar que “tal princípio institucional ‘elimina qual-
quer possibilidade de hierarquia diante dos demais agentes políticos do Estado, incluindo
os magistrados, promotores de justiça, parlamentares, secretários de estado e delegacia
de polícia’”.

Caiu em Defensoria!

No seu último concurso, a Defensoria Pública do Distrito Federal (CEBRASPE, 2019)


considerou incorreta a seguinte assertiva: “dados os princípios da indivisibilidade e da
unidade, a manifestação do defensor público substituto se vincula à opinião inicial-
mente emitida pelo defensor substituído”. A justificativa apresentada foi a seguinte:

ITEM - ERRADO.

11 MENEZES, Felipe Caldas. Princípios institucionais da Defensoria Pública – Lei Complementar 80, de
12.1.1994 anotada. Revista dos Tribunais: São Paulo, 1995, p. 22.

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Embora o princípio da indivisibilidade impeça o fracionamento da defensoria e de
seus atos, de modo que a atuação institucional deva se realizar de forma unísso-
na, o princípio da independência funcional, na sua dimensão subjetiva, assegura
ao defensor a liberdade necessária ao adequado desempenho de suas atribuições,
resguardando a atuação profissional de interferências indevidas.

Como projeção ou desdobramento da independência funcional, destacamos que a


Lei Complementar nº 132 de 2009 passou a trazer, expressamente, no corpo da LC 80 de
1994, que a capacidade postulatória do membro da Defensoria Pública advém com a sua
nomeação e posse no cargo público (art. 4º, §6º, LC 80/94), bem como que é garantido aos
seus membros se sentar no mesmo plano do Ministério Público (art. 4º, §7º, LC 80/94).

Ainda com relação ao princípio da independência funcional, cabe destacar que, caso
o membro da instituição entender que inexiste hipótese de atuação da Defensoria Pública
(por não se encaixar nos critérios de atendimento da instituição, ou então pelo pedido da
parte não estar amparado no Direito), deverá ele dar imediata ciência ao Defensor Público-
-Geral, que decidirá a controvérsia, indicando, se for o caso, outro Defensor Público para
atuar (art. 4º, §8º, LC 80/94).

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3. OBRIGADO PELA CONFIANÇA!
Veja, querido(a) aluno(a), que um bom resumo é suficiente para que você consiga
revisar o conteúdo e os pontos mais importantes do edital do seu concurso!

Bons estudos e, em breve, disponibilizaremos mais materiais com temas importan-


tíssimos sobre a Defensoria Pública, especialmente sobre temas que digam respeito ao
Direito Institucional, de forma gratuita!

Fique ligado(a) e conte com o apoio do MEGE!

Não podemos deixar de renovar um convite mais que especial:

A Turma Extensiva para a preparação exclusiva à carreira da Defensoria Pública


terá suas inscrições abertas no dia 04 de maio de 2020!

Um curso para revisão de um edital completo para defensoria, em um viés de obser-


vação institucional totalmente aplicada para os concursos desta carreira que tanto amamos.

Aguardamos vocês para aprofundarmos ainda mais sua caminhada rumo à aprovação!
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Rafael Magagnin

@rafaelmagagnin
@cursomege

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