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LITERATURA E SOCIEDADE – ANTONIO CANDIDO

Primeira parte

Crítica e sociologia

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 Estudo da relação entre a obra e o seu condicionamento social: no século passado (Séc XIX)
= chave para compreensão da obra; início séc. XX = rebaixada em favor do valor estético.
Agora = é colocada nos termos corretos.
 Hoje = nenhuma dessas visões dissociadas (a obra não tem valor apenas pelo seu contexto
social, nem apenas pela sua estrutura) = texto e contexto fundidos numa interpretação
dialeticamente íntegra. Fatores externos e internos de análise da obra tem uma relação
dialética na interpretação.
 Sociologia x crítica:
Sociologia: pode se ater apenas nos fatores externos da obra, ou seja, apenas no seu
condicionamento social, na relação entre ambiente e obra.
Crítica: precisa levar em consideração os fatores internos da obra e analisar em que medida o
fato social apenas é um veículo para a realização estética ou é determinante para a estrutura
interna da obra.
 Estudiosos contemporâneos: vêem os fatores sociais das obras como determinantes da sua
estrutura. Fundem num todo indissolúvel os dois elementos, tornando, assim, o fator externo
como pertencente, também, ao interno.
Exemplo: Senhora, José de Alencar. “Se, pensando nisto, atentarmos para a composição de
Senhora, veremos que repousa numa espécie de longa e complicada transação, — com cenas
de avanço e recuo, diálogos construídos como pressões e concessões, um enredo latente de
manobras secretas, — no correr da qual a posição dos cônjuges se vai alterando.”
“o livro é ordenado em torno desse longo duelo, é porque o duelo representa a transposição, no
plano da estrutura do livro, do mecanismo da compra e venda.”
Análise considerando os fatores externos não apenas como enquadramento nem expressão de
uma época, mas como fator próprio da construção artística.
 “Neste caso, saímos dos aspectos periféricos da sociologia, ou da história sociologicamente
orientada, para chegar a uma interpretação estética que assimilou a dimensão social como
fator de arte. Quando isto se dá, ocorre o paradoxo assinalado inicialmente: o externo se
torna interno e a crítica deixa de ser sociológica, para ser apenas crítica. O elemento social se
torna um dos muitos que interferem na economia do livro, ao lado dos psicológicos, religiosos,
linguísticos e outros. Neste nível de análise, em que a estrutura constitui o ponto de
referência, as divisões pouco importam, pois tudo se transforma, para o crítico, em fermento
orgânico de que resultou a diversidade coesa do todo.”
 Crítica: usar livremente os elementos disponíveis para a análise, não apenas um aspecto.
 “E nós verificamos que o que a crítica moderna superou não foi a orientação sociológica,
sempre possível e legítima, mas o sociologismo crítico, a tendência devoradora de tudo
explicar por meio dos fatores sociais.”

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Enumeração dos estudos de tipo sociológico em literatura:
1. Trabalhos que relacionam o conjunto de uma literatura, um período, um gênero, com as
condições sociais.
Método tradicional (Taine e Silvio Romero). Caráter determinista. O estudioso analisa o contexto
social e procura nas obras ou nos períodos um motivo para relacioná-los. Ou ainda, a obra serve
de pretexto para explorar condições sociais.
“o estudioso enumera os fatores, analisa as condições políticas, econômicas, e em seguida fala
das obras segundo as suas intuições ou os seus preconceitos herdados, incapaz de vincular as
duas ordens de realidade.”
2. Estudos que procuram verificar a medida em que as obras espelham ou representam a
sociedade, descrevendo os seus vários aspectos.
Correlações entre os aspectos reais com os aspectos do livro.
3. Estudo da relação entre obra e público.
É uma pesquisa mais voltada à sociologia, busca a análise do destino, da aceitação da obra pelo
público, a relação entre obra e leitor.
4. Estudo da posição e a função social do escritor.
O papel dos intelectuais na construção da sociedade, a função do escritor literário, a relação
entre o escritor e as condições sociais e históricas, etc.
5. Estudo da função política das obras e dos autores, em geral com intuito ideológico marcado.
Tem o gosto dos marxistas no período atual. Considerações de Gramsci e Lukacs.
6. Estudo da investigação hipotética das origens, seja da literatura em geral, seja de
determinados gêneros.
Origens da poesia, do romance, da tragédia, etc.
 Esses estudos não devem ser tomados como pertencentes à crítica, mas sim à sociologia
literária.Observa-se um deslocamento do interesse da obra para os elementos sociais, a
influência do meio ou a função social. Ao crítico só interessa esses aspectos no ponto em que
interferem na economia interna da obra.
 Crítica: apenas relacionar a obra com a realidade externa para compreendê-la é muito
simplista e superficial. É necessário enxergar de que forma essa realidade externa contribui
para a estrutura interna da obra. Mas o crítico também deve ter em mente que, por mais que a
obra tente representar a realidade, ela sempre é fruto de criação, de mimese, de poiese, e
não a realidade em si.
 Relacionar a obra com as condições sociais exclui sua estrutura, bem como considerar a obra
como produto fechado em si mesmo exclui as condições sociais e históricas. É necessário
haver uma fusão dialética entre os dois aspectos.

A literatura e a vida social

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 Objetivo do texto: focalizar aspectos sociais que envolvem a vida artística e literária nos seus
diferentes momentos.
 Não há uma teoria, um método ou conceitos que permitam a análise científica dos aspectos
sociais da arte e da literatura, por isso, muitas vezes, esses estudos acabam caindo no mero
ponto de vista. Usar a sociologia para explicar o fato literário pode levar ao erro e ao
simplismo. A sociologia deve ser encarada como disciplina auxiliar na análise do fenômeno
literário. Em algumas análises, é ineficaz. Em outras, é útil e até indispensável. O texto irá
abordar esse segundo caso.
 Interpretação dialética da obra de arte: qual a influência exercida pelo meio social sobre a
obra de arte? Qual a influência exercida pela obra de arte sobre o meio? Pensar diferente
disso é recorrer em uma interpretação mecanicista da obra. O texto abordará a primeira
questão.
 Quais são as possíveis influências efetivas do meio sobre a obra?
“Há neste sentido duas respostas tradicionais, ainda fecundas conforme o caso, que devem
todavia ser afastadas numa investigação como esta. A primeira consiste em estudar em que
medida a arte é expressão da sociedade; a segunda, em que medida é social, isto é, interessada
nos problemas sociais.”
Primeira: como a realidade é representada na obra, comparar a obra com o mundo real,
enxergar a representação de certas classes, tipos, comportamentos, etc.
Segunda: analisar o conteúdo social das obras, suas ideologias, críticas, apelos morais, etc.
Parte do pressuposto que a obra de arte precisa ter conteúdo social.
 Essas duas formas de analisar a obra de arte a partir de seus fatores externos deixaram claro
que a obra de arte depende da ação de fatores do meio, que se exprimem na obra em diversos
graus e que a obra produz sobre os indivíduos certos efeitos, modificando suas condutas e
concepção de mundo ou reforçando neles os valores sociais. Esses aspectos decorrem da
própria natureza da obra. Porém esses não devem ser o interesse da sociologia moderna.
 “Para a sociologia moderna, porém, interessa principalmente analisar os tipos de relações e
os fatos estruturais ligados à vida artística, como causa ou consequência.” Interessa analisar
de que forma o meio exerce influência sobre o todo da obra, sobre todo seu processo de
produção e não apenas relacionar obra e meio, buscando numa representação do outro.
Quando se analisa dessa forma, até a obra mais hermética tem um caráter social.
 “A primeira tarefa é investigar as influências concretas exercidas pelos fatores socioculturais
(a estrutura social, os valores e ideologias, as técnicas de comunicação).”
 “O grau e a maneira por que influem estes três grupos de fatores variam conforme o aspecto
considerado no processo artístico. Assim, os primeiros se manifestam mais visivelmente na
definição da posição social do artista, ou na configuração de grupos receptores; os segundos,
na forma e conteúdo da obra; os terceiros, na sua fatura e transmissão. Eles marcam, em
todo o caso, os quatro momentos da produção, pois: a) o artista, sob o impulso de uma
necessidade interior, orienta-o segundo os padrões da sua época, b) escolhe certos temas, c)
usa certas formas e d) a síntese resultante age sobre o meio.” Esse é o todo da obra que
deve ser analisado, todo seu processo de produção, não apenas a representação do meio na
obra de arte. A repercussão da obra e sua feitura são ambas influenciadas pelo meio.
 Esses fatores socioculturais estão presentes em todo o processo de produção da obra:
envolvem o artista que, no seu impulso interior, escolhe temas e formas e ao final transmite
sua síntese que age sobre o meio.
 Quatro elementos no processo de produção da obra: artista, obra, público, efeito da obra.
 A arte é mais do que apenas as experiências, vivências e intuições do artista. Este se vale de
todo arsenal comum da civilização para os temas e formas da obra e se molda ao público
receptor. Por isso, todos os elementos do processo comunicativo devem conjugar-se na
sua explicação.
 Como a obra de arte é mais do que as experiências do artista (ele se vale do conhecimento
comum e leva em consideração o público receptor) todos os elementos do processo
comunicativo da obra devem ser analisados e mensuradas as formas pelas quais o meio o
influencia.
 Elementos do processo comunicativo na comunicação artística: autor, obra, público.
Estes são momentos indissoluvelmente ligados da produção e são condicionados
socialmente. A questão é: de que maneira esses elementos são condicionados socialmente?
“Este ponto de vista leva a investigar a maneira por que são condicionados socialmente os
referidos elementos, que são também os três momentos indissoluvelmente ligados da produção,
e se traduzem, no caso da comunicação artística, como autor, obra, público.”
 A atuação dos fatores sociais varia conforme a arte considerada e a orientação geral a que
obedecem as obras. Assim, as obras de arte podem dividir-se em dois grupos: arte de
agregação e arte de segregação.
“A primeira se inspira principalmente na experiência coletiva e visa a meios comunicativos
acessíveis. Procura, neste sentido, incorporar-se a um sistema simbólico vigente, utilizando o
que já está estabelecido como forma de expressão de determinada sociedade. A segunda se
preocupa em renovar o sistema simbólico, criar novos recursos expressivos e, para isto, dirige-
se a um número ao menos inicialmente reduzido de receptores, que se destacam, enquanto tais,
da sociedade.”
Encontram-se os dois tipos em todas as obras de arte, no entanto ocorrem em proporção
variável segundo o jogo dialético entre a expressão grupal e as características individuais do
artista. Essa distinção se relaciona com dois fenômenos sociais complementares: a integração e
a diferenciação. A integração busca acentuar aquilo que é comum a todos no indivíduo,
enquanto a diferenciação acentua as peculiaridades, as diferenças existentes entre uns e outros.
Ambos são processos complementares, constituintes do ser humano e concorrem para sua
socialização e formação de identidades. Da mesma forma, as obras de arte também precisam
equilibrar dialeticamente esses dois elementos. Assim, as obras de arte também se alternam
entre igualdade e diferença na sua constituição, da mesma forma que os seres humanos em seu
meio social.
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 É necessário analisar individualmente cada elemento do processo comunicativo da obra de
arte.
 Arte e sociedade constituem um movimento dialético e influenciam-se reciprocamente.

1. A posição do artista
 Como a sociedade atribui um papel específico ao criador de arte e como define sua posição
na escala social, tanto individualmente quanto a formação de grupo de artistas.
 No passado houve um momento em que se considerou a autoria coletiva da obra de arte, ou
seja, a obra de arte que não tem um autor específico, mas que foi criada pela coletividade de um
povo. Associou-se a isso A Ilíada e a Odisseia, aos contos dos Irmãos Grim, entre outros. Hoje
em dia essa visão foi superada e reconhece-se a presença do artista em qualquer obra de arte.
 O autor considera que a discussão sobre a origem da obra, como vinha se dando, é
infrutífera: se ela é fruto de iniciativas individuais ou de condições sociais. O autor considera que
a obra de arte é fruto de uma confluência de ambos os aspectos.
 Mesmo as obras de arte coletivas pressupõem a presença de um artista dotado de
sensibilidade e habilidade, como a arte paleolítica, por exemplo. Apesar de seu uso ser coletivo
e ligado a rituais da comunidade, foi necessário um indivíduo que assumisse a iniciativa da obra.
Mas esse indivíduo precisa ser um artista reconhecido assim pela sociedade, com papeis e
funções definidos? Há quem entenda que a coletividade é criadora, há teóricos que enxergam
um indivíduo especializado e sensível criador das artes pré-históricas. Ou seja, a função social
do artista seria reconhecida desde as sociedades paleolíticas. Isso sugere um vínculo estreito
entre arte e sociedade, por meio de uma diferenciação precoce da função social do artista.
 O autor cita como exemplo dois grupos primitivos, mostrando que, nesses grupos, o artista
surge de uma necessidade social (o canto de louvação e a composição da música de cada um).
Devido a essa necessidade, os artistas adquirem certa função social nessas comunidades, que
os diferencia das demais atividades.
 Nas sociedades modernas, a autonomia da arte permite atribuir a qualidade de artista mesmo
a quem a concilie com outras atividades.
 Há casos em que a arte e outras atividades não se dissociam. Exemplo: trobriandeses,
Malinowski – as fases da construção da canoa são confiadas a um especialista, que a constrói
ora ajudado pelos parentes, iniciados no ofício, ora ajudado pelo proprietário e pela comunidade.
Durante a construção, são entoados esconjuros e invocações de alto teor poético. “Temos neste
caso uma união realmente indissolúvel entre a técnica material, a magia, a poesia, repartindo-se,
além disso, as responsabilidades entre três papéis sociais diferentes. Não é possível, no caso,
falar de um artista, embora a sua função integre de modo latente a construção da canoa.”
 Os artistas podem atuar isolados ou formar grupos, seja por uma consciência comum ou por
técnicas em comum. Nas sociedades sem escrita esses grupos são decisivos, pois a
preservação, iniciação e transmissão ocorrem de forma iniciatória, com uma forte sociabilidade
em torno da arte.
 Nas civilizações mais recentes também se formaram grupos de artistas: na Grécia, na Idade
Média. Por vezes, a estratificação social define a produção da arte: o clérigo – assimilado ao
estamento religioso, o trocador – assimilado ao estamento cavaleiresco, os arquitetos e pintores
– identificados aos ofícios burgueses, jograis – criando e difundindo poesia pela camada
popular. Semelhantes correlações influíam diretamente nos temas e nas formas da obra.

2. A configuração da obra
 Valores sociais, ideologias = influem no conteúdo.
 Sistemas de comunicação = influem na forma.
 Esses esquemas são discerníveis apenas logicamente, pois decorrem do impulso criador
como unidade inseparável.
 Poesia primitiva: temas do cotidiano e atividades e objetos que tinham valor na comunidade
eram evocados como conteúdos de poemas.
 Influência do cristianismo nas artes – rosáceas, vitrais, esculturas das igrejas, A divina
comédia, etc.
 Bolchevismo deu lugar a um romance com protagonista coletivo (O cimento, Fiodor Gladkov)
e uma poesia agressiva, sintética e marcante, tendendo ao cartaz poético (Maiakiwski).
 Técnicas de comunicação: materiais (livro, tela, instrumento musical) e imateriais (estribilho
de uma canção que fica gravado na memória).
 Quarteto de cordas: tiveram que reorganizar-se porque não conseguiam transportar o cravo.
 Em poesia, o refrão, a recapitulação, a medida e ritmo do verso ocorrem devido ao fato de o
poema surgir em sociedades sem escrita, por isso de transmissão oral. Essas repetições e
ritmos ajudavam na memorização dos versos. Após a escrita, a poesia mudou e ganhou novas
formas, permitindo agradar até o olhar, pela disposição dos versos.
 Influência do jornal sobre a literatura: criando gêneros (crônica), remodelando outros
(romance-romance de folhetim). O romance de folhetim tinha uma técnica e um estilo
particulares.
 Introdução do piano permitiu a Beethoven fazer suas composições.

3. O público
 Nas sociedades primitivas, não se percebe tão nitidamente a separação entre artista e
público. Seja por todos ou a maioria dos membros participarem da manifestação artística, seja
pela sua intrincada relação com as atividades diárias da comunidade, seja por uma
conformidade do artista aos padrões e expectativas que não chega a distinguir-se destes.
 Nas sociedades modernas, ocorre a separação entre artista e público. Nas sociedades
primitivas, os dois interagem nas atividades diárias. Nas sociedades modernas, isso não ocorre,
o público é uma massa anônima e virtual. Por vezes podem juntar-se em grupos por afinidade
(leitores de Érico Veríssimo) ou em congressos e seminários. Mas em geral é uma massa
abstrata.
 Em toda sociedade há uma parcela da população que é receptora e pela qual o artista se
interessa ao criar a obra.
 A ação do público sobre o artista é enorme.
 Influência da técnica sobre o público: nas sociedades sem escrita, o contato entre artista e
público era direto e a transmissão era imediata. A invenção da escrita permitiu remodelar esse
público, e o contato entre eles já não era mais direto, mas indireto. Com a invenção da
topografia, isso se acentuou vertiginosamente. A invenção do fonógrafo, do rádio (na música),
da reprodução de pinturas, deram lugar a um novo tipo de público.

3 Estímulos da criação literária


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O autor começa o texto fazendo uma crítica ao antropocentrismo, afirmando que o ponto de vista
que sempre prevaleceu foi o do branco, adulto, civilizado. Os demais eram analisados sob este
ponto de vista. Toma como exemplo principalmente os povos primitivos, afirmando que esses
povos eram vistos sob essa ótica e não pelo seu próprio ponto de vista. Afirma que sob uma
ótica antropocêntrica, os povos nativos são vistos como criaturas pré-lógicas, sem capacidade
de abstração, de pensamento lógico e de contradição, pois são analisados a partir da ótica do
branco ocidental. Cita Malinowski para afirmar que há sim diferenciação entre o lógico e o
mágico para esses povos (exemplo da canoa). O oposto disso é que muitos, tentando não cair
nesse antropocentrismo, os enxergavam como iguais, com as mesmas características. Nem um
nem outro alcança sucesso com essas considerações. Assim, para o autor, não se trata de
tornar o nativo um ser exótico, a parte, vivendo em outra realidade, com outra mentalidade
incapaz de ser captada, nem de torná-lo igual ao ocidental, afirmando que há um espírito
humano igual em toda parte. Para o autor, é necessário analisar de que forma as manifestações
se relacionam com as condições sociais e culturais. “Assim, a atitude correta seria investigar a
atuação variável dos estímulos condicionantes, pois se a mentalidade do homem é basicamente
a mesma, e as diferenças ocorrem sobretudo nas suas manifestações, estas devem ser
relacionadas às condições do meio social e cultural. Isso explicaria por que os comportamentos,
as soluções, as criações variam tanto no primitivo e no civilizado, sem que se possa falar em
mentalidade pré-lógica.” Ou seja, o outro deve ser analisados utilizando-se critérios sociais e
culturais próprios a esse outro e não os critérios de quem avalia e julga. Assim, as
manifestações devem ser avaliadas inseridas na cultura e na sociedade que é estudada e não
inserida na cultura do ocidente.

2
 Analisar as divergências nas manifestações literárias entre os povos primitivos, os rústicos
iletrados das sociedades civilizadas e a literatura escrita das sociedades modernas. Naqueles
(povos primitivos e rústicos), as manifestações dessa ordem estão relacionadas à vida social e a
seus fatores biológicos. É necessária a união de três disciplinas para estudá-las: folclore,
sociologia e análise literária. Essa é a integridade da obra. Sem essa união, a análise da
literatura oral fica fragmentada. Nas literaturas orais o autor perde a autonomia e a obra exerce
um poder maior sobre a sociedade.
 Para entender a função da literatura, tanto a oral quanto a escrita, é necessário distinguir:
função total, função social e função ideológica.
 “A função total deriva da elaboração de um sistema simbólico, que transmite certa visão do
mundo por meio de instrumentos expressivos adequados. Ela exprime representações
individuais e sociais que transcendem a situação imediata, inscrevendo-se no patrimônio do
grupo.” A função total refere-se à atemporalidade e universalidade da obra, ou seja, aquela obra
que se desprende do seu tempo e do seu lugar de produção e se inscreve na cultura através do
tempo. Essa função parece não se aplicar tanto à literatura oral, por ficar mais restrita ao seu
grupo, mas se compararmos as obras veremos que os temas se repetem, mesmo em grupos
diferentes, tornado a obra atemporal e universal.
 “A função social (ou "razão de ser sociológica", para falar como Malinowski) comporta o papel
que a obra desempenha no estabelecimento de relações sociais, na satisfação de necessidades
espirituais e materiais, na manutenção ou mudança de uma certa ordem na sociedade.” Uma
obra pode reforçar ou criticar os valores sociais, condicionar comportamentos, unir ou separar
grupos sociais, preservar ou destruir fatos e crenças, etc. “Na literatura dos grupos iletrados,
talvez esta função prepondere, pesando mais do que na literatura erudita dos nossos dias”.
 Função ideológica é um conjunto de ideias que o artista tenta passar com a obra e aquilo que
o receptor considera que são as ideias passadas pela obra. Essa função fica mais evidente nos
casos de objetivos políticos, religiosos, filosóficos.
 Só a consideração simultânea das três funções permite compreender de maneira equilibrada
a obra literária, seja a dos povos civilizados, seja, sobretudo, a dos grupos iletrados. Se naquela
os aspectos propriamente estéticos sobressaem de maneira a realçar a função total, nesta a
função social avança para o primeiro plano, tornando-a ininteligível se não for levada na devida
conta.

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 “Um trabalho ideal sobre a literatura dos grupos iletrados, primitivos mas também rústicos,
deveria partir da observação concreta dos fatos, passar às análises estruturais e comparativas,
para chegar à sua função na sociedade, sem sacrificar o aspecto estético nem o sociológico.”
 O que interessa, na literatura oral, é a combinação da análise estrutural com a análise da
função social, pois a literatura dos grupos iletrados liga-se diretamente à vida coletiva, é comum
a todos antes de ser pessoal do artista. Este nunca deixa de exprimir aspectos que interessam a
todos.
 Interessa à sociologia os aspectos sociais da criação, apreciação e circulação das obras. Nas
sociedades primitivas e rústicas isso depende dos fatos sociais e da coletividade, por isso nessa
análise a sociologia tem parte principal. Quanto mais o artista se individualiza, menor a
participação da sociologia no conjunto da análise.
 O estudioso da literatura, por sua vez, não daria conta da análise da literatura oral dos grupos
iletrados, pois lhe falta o viés sociológico. Como essas obras estão muito vinculadas aos ritos
sociais e às manifestações culturais, não é possível tirá-las de contexto e analisá-las
individualmente, fora daquela sociedade. Elas não são textos autônomos, mesmo se estiverem
escritos. “Não podem ser desligadas do contexto, — isto é, da pessoa que as interpreta, do ato
de interpretar e, sobretudo, da situação de vida e de convivência, em função das quais foram
elaboradas e são executadas. Feitas para serem incorporadas imediatamente à experiência do
grupo, à sua visão do mundo e da sociedade, pouco significam separadas da circunstância, pois,
sendo palavra atuante, são menos e mais do que um registro a ser animado pelo deciframento
de um leitor solitário.”
 A obra só adquire autonomia quando não depende de nenhum ato coletivo para ser criada e
comunicada.
 O estudioso de literatura erra ao tratar as formas orais como trata o texto escrito, ajustando-as
a seu sistema simbólico e transpondo-as a seu mundo de valores.
 Da mesma forma o folclorista cai em erro, pois tende ao registro puro e simples, e às
comparações arbitrárias, não levando em consideração o contexto no qual aquela obra foi
produzida e quais manifestações coletivas ela representa.
 Já o sociólogo e o etnólogo são fundamentais para a análise das obras artísticas dos povos
iletrados, mas correm o risco de ficarem apenas no plano do social, sem conseguir uma análise
estética nem uma descrição simbólica.
 “O ideal, como vimos, seria a união dos três pontos de vista, levando em conta o quadro
sociocultural em que as manifestações literárias se situam, mas procurando captá-las na
integridade do seu significado. (...) Esquematizando, diríamos que, no limite, as formas eruditas
de literatura dispensam o ponto de vista sociológico, mas de modo algum a análise estética;
enquanto as suas formas orais dispensariam a análise estética, mas de modo algum o ponto de
vista sociológico.”

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 A literatura oral tem características próprias, está muito ligada aos costumes, ritos e funções
sociais e por isso não deve ser tratada como a literatura erudita, ou seja, precisa de um
tratamento especial.
 O mito também deve ser considerado dentro do universo da literatura oral. Malinowski: o mito,
assim como a lenda, só podem ser compreendidos dentro do contexto em que é produzido e
recebido. Vai contra a antropologia tradicional ao afirmar isso, pois esta tratava a obra de arte
fora de seu contexto. “E por contexto [Malinowski] entende não apenas a referência sociológica,
a função na cultura e na organização social, mas o próprio ato de narrar, com os seus recursos
de gesto e voz”.
 Nas sociedades primitivas, os fatos da infraestrutura podem desencadear sentidos estéticos e
converter-se em obra de arte, ou seja, o estímulo para a produção artística é a vida cotidiana da
sociedade e as relações mantidas entre seus membros. Diferentemente do que ocorre nas
sociedades civilizadas, que o estímulo não depende dos fatos sociais, mas “devem passar por
sucessivas mediações, antes de adquirir um teor artístico satisfatório para o homem culto.”
 Não é possível usar os mesmos critérios para analisar esteticamente a literatura oral e a
literatura escrita. O critério do gosto, por exemplo, não cabe na primeira, mas cabe na segunda.
Na primeira, antes, percebe-se que a literatura é analisada como uma satisfação emocional de
necessidades dos grupos e como reforço, explicação e substitutivo de ações reais, cujo
significado é desse modo esclarecido.

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 Exemplo: o valor dado ao alimento nas sociedades primitivas (ou outro elemento que esteja
ligado às funções elementares do ser humano) – eles mantêm com o alimento uma relação que
as sociedades civilizadas não compreendem, pois não faz parte das suas bases psicossociais. O
alimento é sacralizado, todo o processo de construção desse alimento é mágico, desde o
plantio, caça, colheita, preparo, ato de comer e saciedade são mágicos. Esse ato tem uma
função social e molda as representações mentais dos habitantes dessas sociedades, sendo
fontes de emoções intensas, fornecendo a base para suas ideias, para sua arte, para suas
metáforas da vida religiosa, etc.
 “a possibilidade da formação de símbolos poéticos, representações gráficas, danças
propiciatórias, que tendem a obter não apenas eficiência na caçada, na pesca, na coleta e na
colheita, mas a regulamentar a distribuição e o consumo do seu produto; e a dar forma à
angústia ou à euforia resultante, numa manifestação de caráter estético.”
 “As formas primitivas da atividade estética aparecem, então, vinculadas imediatamente à
 experiência do grupo, e a função total da obra só pode ser entendida sobre esta base, porque
o elemento da gratuidade, indispensável à configuração da arte, depende da comunhão do
indivíduo com a experiência do grupo.”
 Exemplo dos nuer, que têm uma relação estreita com o boi/vaca, base de sua economia e,
por isso, de sua sobrevivência. Em seus poemas, há a expressão de uma afetividade bovina e
várias menções e esse sistema econômico. A base de subsistência e trabalho da sociedade
define várias crenças, rituais e tradições nesse povo, como o nome bovino, a organização
espacial e social, os meios de explorar a região, a representação do mundo.
 Exemplo de poemas: no poema dos nuer, o vento não adquire caráter simbólico, já no poema
de Victor Hugo é carregado de simbologia. A capacidade de gerar emoção do primeiro está
relacionada a uma realidade econômica e fisiológica, ao ato de alimentar-se, de sobrevivência,
de segurança. Já no segundo está na estilização da realidade e dos versos, que são mais
abstratos. A poesia escrita costuma afastar-se dessas funções elementares básicas do ser
humano.
 “Mas o principal não é que este cante aspectos da atividade econômica; e o estudioso não
deve limitar a sua tarefa a essa verificação meramente descritiva. O importante é ver que a
referência a aspectos da vida econômica aparece como uma espécie de ingrediente poético
geral, de veículo necessário à marcha de um poema cujo tema básico é outro. A interpretação
do mundo se liga à presença do gado; e este é de tal modo importante para a sobrevivência do
grupo, que passa a constituir um aspecto decisivo da sensibilidade individual. A este título, é
usado no plano estético como ambientação de outras emoções, mais particulares e
contingentes; é usado, pois, como recurso de estilo. A essa altura, não estamos mais
considerando o traço social como assunto; estamos interpretando-o como componente da
estrutura das obras. No poema citado, a evocação das vacas se torna um elemento de alta
capacidade sugestiva graças à sua generalidade para os Nuer; o recurso a elas desencadeia a
sua emotividade e predispõe o espírito para compreender a inquietação causada pela presença
do estrangeiro. Nós podemos ver, nessa hipóstase da pecuária leiteira, que para os Nuer o
sentimento poético (ou seja, a sensibilidade especial que predispõe para elaborar um verso, ou
para aceitá-lo de modo compreensivo) nasce de uma emoção coletiva e não se separa do
sentimento mais geral de identificação afetiva ao gado, — isto é, ao recurso básico da vida
econômica. Neste caso, a poesia é sobretudo uma forma de organizar no plano da ilusão, por
meio de recursos formais, uma realidade transfundida pela solidariedade entre homem e boi, a
fim de que a realidade do mundo possa tornar-se inteligível ao espírito. A beleza ou a
expressividade dependem do tipo de plenitude que a poesia proporciona, estilizando e de certo
modo recapitulando a experiência coletiva. E o ato criador aparece como uma espécie de
operação, de ação adequada sobre a realidade, possibilitada pela ilusão.
 Podemos então concluir que as formas primitivas de literatura repousam mais direta e
perceptivelmente sobre os estímulos imediatos da vida social, sobretudo os fatos de infra-
estrutura, que nas literaturas eruditas só aparecem como elemento condicionante depois de
filtrados até a desfiguração por uma longa série de outros fatos.”

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 Nesse capítulo o autor traz alguns exemplos do uso do alimento na literatura escrita. Ele
afirma que na literatura oral, o que se sobressai é o valor nutritivo do alimento, sua função é
nutrir é manter a vida, enquanto na escrita essa função é relegada e o que se sobressai é o
elemento estético e simbólico do alimento. O uso de alimentos na literatura escrita serve como
descrição de cenários ou de eventos, motivo de encontros para os personagens, dar destaque
aos seus sabores e sensações e ainda em seu valor simbólico e metafórico. Mas em nenhum
desses usos na literatura escrita o alimento é usado para realçar seu valor nutritivo de
manutenção da vida humana e da economia da comunidade. O alimento é usado pelo seu valor
estético dentro da obra.
 O alimento é representado com seu valor próprio de comida em algumas obras realistas ou
grotescas, nas quais exprimem tanto a fome quanto a precariedade de alimentos da classe baixa
em contraste com a fartura da classe alta. No entanto, ainda nesses usos, o alimento também
adquire função simbólica, pois é uma alegoria das diferenças de classes sociais e das
desigualdades.
 “Por isso, apenas nas obras de cunho realista ou grotesco o alimento aparece na sua
realidade básica de comida. Nas obras de expressão lírica e timbre emocional elevado, só se
manifesta despido da sua natureza específica e reformulado em função dos valores estéticos da
civilização.”
 “Sobre a unidade fundamental do espírito humano, as diferenças de organização social e de
nível cultural determinam formas diferentes de arte e literatura no primitivo e no civilizado.”
 “Ora, tanto quanto sabemos, as manifestações artísticas são inerentes à própria vida social,
não havendo sociedade que não as manifeste como elemento necessário à sua sobrevivência,
pois, como vimos, elas são uma das formas de atuação sobre o mundo e de equilíbrio coletivo e
individual. São, portanto, socialmente necessárias, traduzindo impulsos e necessidades de
expressão, de comunicação e de integração que não é possível reduzir a impulsos marginais de
natureza biológica. Encaradas sob o aspecto funcional, ou multifuncional, como foi sugerido
acima, adquirem um sentido expressivo atuante, necessário à existência do grupo, ao mesmo
título que os fenômenos econômicos, políticos, familiais ou mágicoreligiosos, integrando-se no
complexo de relações e instituições a que chamamos abstratamente sociedade. O seu caráter
mais peculiar, do ponto de vista sociológico, com importantes consequências no terreno estético,
consiste na possibilidade que apresentam, mais que outros setores da cultura, de realização
individual. Isto permite, ao mesmo tempo, uma ampla margem criadora e a possibilidade de
incorporá-la ao patrimônio comum, fazendo do artista um intérprete de todos, através justamente
do que tem de mais seu. Nas sociedades primitivas, e nas rústicas, é mais claro este nexo,
muitas vezes difícil de apreender nas sociedades urbanas. Na verdade, há problemas difíceis
nos dois campos, pois se nas primeiras o elemento coletivo parece fazer da arte uma função
social pura, que dispensa a própria interferência do criador autônomo, nas segundas,
inversamente, este parece causa e condição, esbatendo para segundo plano aquele elemento.
Em ambos os casos, verifica-se que a produção da arte e da literatura se processa por meio de
representações estilizadas, de uma certa visão das coisas, coletiva na origem, que traz em si um
elemento de gratuidade como parte essencial da sua natureza.”

Segunda parte

O escritor e o público

1
 A obra literária é composta por dois fatores: internos e externos – o capítulo irá abordar o
segundo, que são secundários na análise da obra e dependem de um ponto de vista mais
sociológico que estético. Mesmo os fatores internos dependem de um viés sociológico, pois
“pois nas sociedades civilizadas a criação é eminentemente relação entre grupos criadores e
grupos receptores de vários tipos”. Assim, o autor não é apenas um indivíduo com sua
singularidade, mas desempenha também um papel social, ocupa uma posição relativa ao seu
grupo profissional e corresponde a certas expectativas do público.
 Assim como o meio influencia a obra, a obra também influencia o meio. A literatura é um
sistema vivo de obras, agindo uma sobre as outras e sobre o leitor. Este também atua sobre a
obra. A obra não é fixa, unívoca, nem o leitor é passivo, homogêneo. Ambos atuam um sobre o
outro e a eles junta-se o autor, pólo inicial do circuito literário.
 Posição social do escritor depende de três fatores:
1. Consciência grupal: consciência de que pertencem a um grupo ou segmento especial da
sociedade que os diferencia dos demais.
2. As condições de existência que os membros têm na sociedade: profissionalização,
marginalização, etc.
3. Conceito que o público faz dele
 A formação do público:
 A obra é a mediação entre autor e público, o autor é a mediação entre obra e público e este é
a mediação entre autor e obra. Os elementos do circuito literário se interconectam e influenciam
uns aos outros. O autor só adquire plena consciência da obra quando ela lhe é mostrada através
da reação de terceiros. Sem o público, o autor não tem essa resposta necessária para revelar-
lhe a obra.
 O público pode definir o destino de uma obra ou artista.
 “um público se configura pela existência e natureza dos meios de comunicação, pela
formação de uma opinião literária e a diferenciação de setores mais restritos que tendem à
liderança do gosto — as elites.”
 O reconhecimento da posição do escritor depende da aceitação da sua obra, por parte do
público. A existência de uma obra levará a uma reação do público e o autor irá senti-la no seu
trabalho, mesmo que seja por ausência.

2
Escritor e público no Brasil:
 O escritor não tinha papel social definido nos dois primeiros séculos e o público era o que
havia disponível em cada fase. No começo, a escrita era um ofício secundário a outro mais
relevante ao momento, ou seja, sacerdotes, jesuítas, administradores, juristas. O público era
formado nas cerimônias religiosas, comemorações públicas, etc. As Academias que surgiram no
período colonial não formavam um circuito literário, pois autor, obra e público giravam em torno
do mesmo grupo, ou seja, as obras eram produzidas e recebidas por seus pares. Assim, durante
o período colonial, não houve uma troca entre autor, público e obra.
 No final do século XVIII até a Independência, há elementos que esboçam a construção do
papel social do escritor e a formação de um público, começando por Silva Alvarenga, que criou a
Sociedade Literária. Assim, difundiu certa concepção do profissional de letras e criou um
movimento que teve continuidade, formando um pequeno público que se ampliou.
 “o escritor começou a adquirir consciência de si mesmo, no Brasil, como cidadão, homem da
polis, a quem incumbe difundir as luzes e trabalhar pela pátria.” O escritor adquire consciência
de grupo, ou seja, reconhece que tem uma função social: o nativismo e nacionalismo. Literatura
se une à política e uma série de ideias são lançadas em artigos, jornais, panfleto, sermão, etc.
Diferente das academias, o escritor reconhece que deve atuar na sociedade. Pela primeira vez o
escritor tinha contato direto com seu público.
 Sacerdotes, frades e padres também participaram desse movimento como escritores.
 “De tudo se conclui que no primeiro quartel do século XIX esboçaram-se no Brasil condições
para definir tanto o público quanto o papel social do escritor em conexão estreita com o
nacionalismo.”
 “Decorre que os escritores, conscientes pela primeira vez da sua realidade como grupo
graças ao papel desempenhado no processo da Independência e ao reconhecimento da sua
liderança no setor espiritual, vão procurar, como tarefa patriótica, definir conscientemente uma
literatura mais ajustada às aspirações da jovem pátria, favorecendo entre criador e público
relações vivas e adequadas à nova fase.”
 A posição do escritor e a receptividade do público foram influenciadas pelo fato de a literatura
brasileira ser algo a criar-se. Desejavam complementar a Independência política através da
Independência da arte.
 (Resumo: até o final do século XVIII não havia, no Brasil, a formação de um público e o
escritor não tinha um papel social definido. Somente a partir desse momento que esses
fenômenos começaram a ocorrer e eles têm relação com as lutas e com a Independência do
Brasil. Após a Independência, a literatura foi vista como algo a criar-se, desejava-se a
independência da literatura e a formação de uma literatura nacional).
 Nativismo e civismo foram pretextos para a atividade criadora, para a dignidade do escritor,
para atrair o público e para transmitir valores.
 “Verifica-se, pois, que escritor e público definiram-se aqui em torno de duas características
decisivas para a configuração geral da literatura: Retórica e nativismo, fundidos no movimento
romântico depois de um desenvolvimento anterior.”
 Formou-se aqui também um público auditor, sob a ação de pregadores, conferencistas,
oradores, recitadores, etc. Essa formação não exigia o texto escrito e podia ser desempenhada
por iletrados, analfabetos ou pouco afeitos à leitura. Esse fato levou o texto escrito a ser redigido
como se fosse uma oratória, não deixando desenvolver no país um estilo realmente escrito para
ser lido.
 O escritor brasileiro formou-se nesse cenário patrótico-sentimental e afeito a grandes triunfos
de retórica e com isso justificou sua posição na sociedade. O público passou a exigir essa
postura como critério de aceitação e reconhecimento do escritor. Assim, o escritor foi aceito
como cidadão disposto a falar aos grupos, celebrar a terra, a quem não se interessa por lê-los,
mas sim ouvi-los. Isso propiciou a formação de uma literatura sem leitores.
 Exemplo: Indianismo – constituiu elaboração ideológica do grupo de escritores, respondendo
a solicitações do momento histórico, que exigia o patriotismo e nativismo, e não só satisfazendo
as necessidades gerais do público, mas também atuando sobre ele, criando o seu próprio
público. “Os românticos fundiram a tradição humanista na expressão patriótica e forneceram
deste modo à sociedade do novo Brasil um temário nacionalista e sentimental, adequado às
suas necessidades de auto-valorização.”
 Outra conseqüência de a literatura unir-se ao civismo da Independência: a sua aceitação
pelas instituições governamentais – o amparo de D. Pedro II, o Instituto Histórico e as
faculdades de Direito. Com essa aceitação, a literatura passava a ser digna de um espaço na
nova pátria e o escritor passava a ser reconhecido no papel social que havia atribuído a si
mesmo.
 “prosseguiu por todo o século XIX, e até o início do século XX, a tradição de auditório (ou que
melhor nome tenha), graças não apenas à grande voga do discurso em todos os setores da
nossa vida, mas, ainda, ao recitativo e à musicalização dos poemas.” Um público de auditores.
 Outra vertente da literatura no Brasil nesse período são os textos destinados à leitura em casa
(serões, leitura em voz alta), principalmente às mulheres. Tom de crônica, de pieguice, humor.
Esse tom caseiro influenciou a literatura no país, que se ajustava a esse público, familiar e
feminino.
 Há uma grande ausência de comunicação entre público e a massa no Brasil, apesar de a
literatura ser acessível aos leitores. O escritor nunca teve, no Brasil, um grande público que lhe
dê respaldo, por isso sempre dependeu do apoio e dos estímulos dos dirigentes e da pequena
elite cultural (que se misturava à elite administrativa), que são escassos. Elite significou, até bem
pouco tempo,capacidade de interessar-se pelas letras. A pobreza cultural dessa elite no Brasil
impediu o desenvolvimento de um estilo complexo, de qualidade rara, salvo exceções.
 “Correspondendo aos públicos disponíveis de leitores, — pequenos e singelos — a nossa
literatura foi geralmente acessível como poucas, pois até o Modernismo não houve aqui escritor
realmente difícil, a não ser a dificuldade fácil do rebuscamento verbal que, justamente porque se
deixa vencer logo, tanto agrada aos falsos requintados. De onde se vê que o afastamento entre
o escritor e a massa veio da falta de públicos quantitativamente apreciáveis, não da qualidade
pouco acessível das obras.”
 Brasil demorou a formar um público leitor em massa.
 Escritor no Brasil: patriotismo como pretexto para a criação, atribuiu a si mesmo o papel social
didático de quem contribui para a coletividade. Tornou-se legível pelo conformismo aos padrões
correntes. Texto escrito muito próximo do texto falado, do discurso, do sermão, etc. formou um
público de auditores. Esses fatores mostram porque não há no Brasil o desenvolvimento de
uma literatura requintada, difícil, hermética aos leitores medianos. A falta de um público que
fosse receptivo a essa literatura, o ofício de escritor não sendo remunerado, fazendo com que
este tivesse que ocupar-se em outro ofício para manter-se. A literatura aqui produzida se
aproximava da que era produzida por um grupo de leigos inteligentes.
3
 No século XX essa realidade começa a se alterar, principalmente após 1922. Com o aumento
do público especializado, o desenvolvimento da indústria editorial, a possibilidade de
remuneração, as elites intelectuais se dissociando das elites administrativas.
 “A diferenciação dos públicos, alguns dos quais melhor aparelhados para a vida literária,
permitiu maiores aventuras intelectuais e a produção de obras marcadas por visível
inconformismo, como se viu nas de alguns modernistas e pós-modernistas. Convém mencionar
que as elites mais refinadas do segundo quartel do século XX não coincidiram sempre,
felizmente, a partir de então, com as elites administrativas e mundanas, permitindo assim às
letras ressonância mais viva.”
 Panorama atual (1955): duas vertentes referentes à posição do escritor. 1- profissionalização:
remete ao que já havia antes, participação na vida social e acessibilidade na forma
(conformismo). 2- Desenvolvimento de elites intelectuais exigentes acentua as qualidades dos
textos literários (reação).
 Ainda há, no entanto, a “tradição de auditório”, literatura para ser ouvida, caminhos da
facilidade e da comunicabilidade imediata. “Em nossos dias, quando as mudanças assinaladas
indicavam um possível enriquecimento da leitura e da escrita feita para ser lida, — como é a de
Machado de Assis, — outras mudanças no campo tecnológico e político vieram trazer elementos
contrários a isto. O rádio, por exemplo, reinstalou a literatura oral, e a melhoria eventual dos
programas pode alargar perspectivas neste sentido. A ascensão das massas trabalhadoras
propiciou, de outro lado, não apenas maior envergadura coletiva à oratória, mas um sentimento
de missão social nos romancistas, poetas e ensaístas, que não raro escrevem como quem fala
para convencer ou comover.”

Letras e ideias no período colonial

1
 Os primeiros estudiosos da nossa literatura, nos tempos do Romantismo, tentaram esboçar
um panorama da origem da literatura no Brasil, acreditando que ela levara dois séculos para
amadurecer até chegar ao momento presente e passar a ser a expressão de uma realidade local
própria, descobrindo seus caminhos e seus elementos diferenciais: a natureza e o índio.
 A crítica naturalista, em seguida, enxergou a formação da nossa literatura como um processo
retilíneo de abrasileiramento até a chegada no nacionalismo dos indianistas românticos.
 O que realmente interessa investigar é como se formou aqui uma literatura que não seja
apenas a representação da cor local e dos tipos humanos, mas como manifestação dos grandes
problemas do ser humano do Ocidente nas novas condições de existência.
 “Do ponto de vista histórico, interessa averiguar como se manifestou uma literatura enquanto
sistema orgânico, articulado, de escritores, obras e leitores ou auditores, reciprocamente
atuantes, dando lugar ao fenômeno capital de formação de uma tradição literária.”
 “Sob este aspecto, notamos, no processo formativo, dois blocos diferentes: um, constituído
por manifestações literárias ainda não inteiramente articuladas; outro, em que se esboça e
depois se afirma esta articulação. O primeiro compreende sobretudo os escritores de diretriz
cultista, ou conceptista, presentes na Bahia, de meados do século XVII a meados do século
XVIII; o segundo, os escritores neo-clássicos ou arcádicos, os publicistas liberais, os próprios
românticos, porventura até o terceiro quartel do século XIX. Só então se pode considerar
formada a nossa literatura, como sistema orgânico que funciona e é capaz de dar lugar a uma
vida literária regular, servindo de base a obras ao mesmo tempo universais e locais.”
 (Resumo: como ocorreu a formação da tradição literária no Brasil? Dois blocos do processo
formativo: 1. Manifestações literárias não articuladas – escritores de meados do século XVII até
meados do século XVIII. 2. Princípio e afirmação de manifestações literárias articuladas –
neoclássicos, publicistas liberais e os românticos, até o ¾ do século XIX. Só então se pode
considerar formada a nossa literatura como sistema orgânico capaz de criar uma tradição
literária e sustentar o circuito literário autor-obra-público, com obras tanto universais quanto
locais).
 A formação da literatura brasileira está intimamente ligada ao ajustamento da literatura
portuguesa (uma literatura com tradição própria) à nova realidade nos trópicos. Os escritores
que aqui escreveram no período colonial eram formados em Portugal ou formados sob as
tradições portuguesas. As obras também eram escritas a um público português. Apenas no
século XIX é possível encontrar escritores formados no Brasil e destinando sua obra ao público
daqui.
 Imediatismo das intenções e exigüidade do público: intenção das obras – sermão, catequese,
relatório, polêmica, etc; público escasso, apenas letrados pertencentes às classes dominantes.
Isso teve conseqüências na formação da nossa literatura.
 Ajuste entre a tradição européia e os estímulos locais atuando com os padrões estéticos do
momento – o Barroco.

2
 “as manifestações literárias, ou de tipo literário, se realizaram no Brasil até a segunda metade
do século XVIII, sob o signo da religião e da transfiguração.”
 Religião: literatura histórica e retórica dos jesuítas e dos religiosos que aqui vieram para
catequizar, entre eles José de Anchieta e Antonio Vieira. Autores: José de Anchieta, Simão de
Vasconcelos, Vicente do Salvador, Francisco de Brito Freire, Manuel Calado, Antonio Vieira.
Também Gregorio de Matos que escrevia sobre a religião com tom satírico e humorístico.
Característica dessa vertente é a oralidade, tão bem ajustada à realidade local de iletrados.
 O primeiro brasileiro nato a publicar um livro: Manuel Botelho de Oliveira (1636-1711).
 Transfiguração: transfiguração da realidade – ampliando, suprimindo, torcendo, requintando.
O barroco é afeito às hipérboles e o espanto com o novo mundo levou a transfigurar a realidade
local para além da mera descrição, tornando-a mágica, religiosa, salvadora. Uso do símbolo e da
metáfora. Rocha Pita, Itaparica, Durão, São Carlos, Porto-Alegre, etc.
 “o verbo literário foi aqui — ajudado e enformado pela mão do Barroco — sobretudo
instrumento de doutrina e composição transfiguradora.”
 “Rocha Pita, Gregório de Matos, Antônio Vieira encarnam as vigas mestras do ajustamento do
verbo ocidental à paisagem moral e natural do Brasil.”

3
 Em seguida, formou-se uma pequena Época das Luzes no Brasil, com os autores
neoclássicos e árcades. A religiosidade e a transfiguração ganharam novos caracteres. A
confiança na razão alargou a visão religiosa, a fé no progresso e acentuou-se a fidelidade ao
real (em lugar da transfiguração do real). Foi também a época do pombalismo e o combate aos
jesuítas.
 Basílio da Gama, Silva Alvarenga, Francisco de Melo Franco, Claudio Manoel da Costa,
Alvarenga Peixoto, Santa Rita Durão, Tomas Antonio Gonzaga.
 Outro momento econômico e histórico: decadência do ouro, revolução francesa e norte
americanas, instituições inglesas, liberalismo, iluminismo formaram “um ambiente receptivo para
as idéias e medidas de modernização político-econômica e cultural, logo esboçadas aqui com a
presença da Corte, a partir de 1808.”
 “Estas considerações visam sugerir que, no período em questão, houve entrosamento
acentuado entre a vida intelectual e as preocupações político-sociais.”
 Tem início na colônia uma nova mentalidade, tendo a razão como meio de analisar o real, o
desejo de investigar o mundo, conhecer sua lei, sua ordem, a aspiração à verdade, a análise
racional da natureza
 Formação de duas academias nesse período: Academia dos Renascidos (1759) e Academia
Científica (1771) – pg. 101.
 “Nos escritores deste período encontramos os que representam uma passagem, ou mistura,
de Barroco e Arcadismo; os que manifestam diferentes aspectos de um nativismo que vai
deixando de ser apenas extático para ser também racional; os que procuram superar a
contorção do estilo culto por uma expressão adequada à natureza e à verdade; os que passam
da transfiguração da terra para as perspectivas do seu progresso.”
4
 Após a reforma pombalina, os jovens brasileiros podiam ter novas áreas na ciência e nos
cursos superiores (matemática, ciências naturais, química, medicina) e podiam estudar em
outros locais da Europa que não Portugal. Isso ampliou as mentes e o intelecto do país.
 Muitos desses jovens tornaram-se cientistas e estudiosos que contribuíram com seus estudos
e pesquisas sobre o país, nas áreas de geodésia, etnográfica, zoológica, botânica, outros
tornaram-se líderes políticos (José Boifácio) e administrativos (consequência natural da filosofia
das Luzes, e solicitação de um meio pobre em homens capazes). O meio pobre intelectualmente
em que se produziram esses homens de talento os forçava a tomarem outros rumos ou verem
seus trabalhos caírem no esquecimento por falta de interesse.
 Outro grupo formado após as reformas de Pombal são os publicistas, estudiosos da realidade
social, jornalistas.
 “características da nossa Ilustração — ao mesmo tempo religiosa e racional, passadista e
progressista, realista e utópica, misturando as influências dos filósofos ao policiamento clerical.”
 Terceiro grupo de intelectuais que desempenhou papel decisivo nas nossas Luzes: os
sacerdotes liberais.
 Oradores sacros contribuíram para a formação do gosto literário, usavam o púlpito como
tribuna e como propaganda liberal, sobretudo na preparação final da Independência e no
Primeiro Reinado.
 Quarto grupo: escritores propriamente ditos, literatos, eram sobretudo poetas. Duas gerações
de escritores, que nasceram entre 1750 e 1800, nitidamente inferiores às gerações precedentes,
eram ainda árcades, mas já com outras influências. Foram os precursores e influenciadores dos
românticos.
 “Em 1813, o matemático Araújo Guimarães (1777-1838) fundou no Rio O Patriota, que durou
até o ano seguinte e foi a primeira revista de cultura a funcionar regularmente entre nós,
estabelecendo inclusive o padrão que regeria as outras pelo século afora: trabalhos de ciência
pura e aplicada ao lado de memórias literárias e históricas, traduções, poemas, notícias. Como
diretriz, o empenho em difundir a cultura a bem do progresso nacional.”
 “As letras e idéias no Brasil colonial se ordenam, pois, com certa coerência, quando
encaradas segundo as grandes diretrizes que as regeram. Em ambas coexistiram a pura
pesquisa intelectual e artística, e uma preocupação crescente pela superação do estatuto
colonial. Esse pendor, favorecido pela concepção ilustrada da inteligência a partir da segunda
metade do século XVIII, permitiu a precipitação rápida da consciência nacional durante a fase
joanina, fornecendo bases para o desenvolvimento mental da nação independente.”

Literatura e cultura de 1900 a 1945

1
 Evolução de nossa literatura é regida pela dialética entre localismo e cosmopolitismo: o
primeiro é a afirmação de um nacionalismo exacerbado e o segundo a imitação consciente dos
padrões europeus. O que temos produzido de melhor (Gonçalves Dias, Machado de Assis,
Joaquim Nabuco, Mario de Andrade) representa os momentos de equilíbrio ideal entre as duas
tendências.
 Dialética: dado local (substância da expressão ) e moldes herdados da tradição européia
(forma da expressão).
 O intelectual brasileiro tenta identificar-se com uma civilização de história, geografia, cultura e
etnias diferentes da sua.
 Lenta maturação da nossa personalidade nacional (não nos destacávamos de nossos pais
portugueses) – aos poucos vamos tomando consciência de nossa diversidade e a eles nos
opusemos, num esforço de auto-afirmação.
 Fase culminante da nossa afirmação: independência e nacionalismo literário – romantismo:
negação dos valores portugueses, “rebeldia”.
 Relação entre Brasil e Portugal: rebeldia/auto-afirmação de um e desprezo/despeito de outro.
2
 “Na literatura brasileira há dois momentos decisivos que mudam os rumos e vitalizam toda a
inteligência: o Romantismo, no século XIX (1836-1870), e o ainda chamado Modernismo, no
presente século (1922-1945). Ambos representam fases culminantes de particularismo literário
na dialética do local e do cosmopolita; ambos se inspiram, não obstante, no exemplo europeu.”
Enquanto o primeiro tentava se desvencilhar e superar a influência portuguesa e afirmar sua
peculiaridade literária, o segundo desconhece Portugal e se afirma contra todo o academismo,
inclusive o de casa.
 O diálogo entre as duas nações vai amainando-se e a rebeldia atenunando-se, chegando ao
seu máximo no primeiro quarto do século XX, o que permite a consolidação do academismo.
 “Convém assinalar que a literatura brasileira no século XX se divide quase naturalmente em
três etapas: a primeira vai de 1900 a 1922, a segunda de 1922 a 1945 e a terceira começa em
1945.” Primeira etapa: pós romântica (1880-1922); as outras duas ainda estão sendo vividas.
Século literário começa com o Modernismo.
 Primeira etapa: literatura de permanência. “Conserva e elabora os traços desenvolvidos
depois do Romantismo, sem dar origem a desenvolvimentos novos; e, o que é mais
interessante, parece acomodar-se com prazer nesta conservação. Uma literatura satisfeita, sem
angústia formal, sem rebelião nem abismos. Sua única mágoa é não parecer de todo européia;
seu esforço mais tenaz é conseguir pela cópia o equilíbrio e a harmonia, ou seja, o
academismo.”
 Naturalismo: convicção determinista de Aluisio Azevedo e Adolfo Caminha; determinismo
perde as forças em Emanuel Guimarães, Xavier Marques, Canto e Melo; relevo psicológico de
Raul Pompeia; retórica e amaneiramento de Coelho Neto. Produto típico do momento: romance
ameno, picante, feito com alma de cronista social para distrair e embalar o leitor. “Forma-se pela
confluência do que há de mais superficial em Machado de Assis, da ironia amena de Anatole
France e dos romances franceses do Pós-naturalismo, sentenciosos, repassados de sexualismo
frívolo”. Afrânio Peixoto: representante padrão desta tríplice tendência; Leo Vaz: aspectos
machadianos; Veiga Miranda, Hilário Tácito, Théo Filho, Benjamin Costallat: leviandade do tema
sexual-humorístico.
 Romance naturalista: impulso de análise social
 Regionalismo: desde o começo do nosso romance foi uma das principais vias de
autodefinição da consciência local, se transformou no “conto sertanejo”, um meio de encarar
com olhos europeus as nossas realidades mais típicas. Abordou o homem rural do ângulo
pitoresco, sentimental e jocoso – Catulo da Paixão Cearense, Gornélio Pires, Valdomiro Silveira,
Coelho Neto (Sertão).
 1902: Os sertões – Euclides da Cunha: não comporta o pitoresco exótico da literatura
sertaneja.
 Poesia: poesia do parnasianismo: regularidade da forma, tendência para a retórica, expressão
prosaica e ornamental. Olavo Bilac, Alberto de Oliveira, Raimundo Corrêa, Vicente de Carvalho.
 Simbolismo: projeção final do espírito romântico. Cruz e Souza e Alphonsus de Guimaraens.
 Augusto dos Anjos, Lima Barreto.
 Crítica literária (1880-1900): Sílvio Romero, Araripe Júnior, José Veríssimo – desenvolveu e
apurou a crítica nacionalista, de origem romântica (Romantismo no Brasil – esforço de afirmação
nacional e consciência literária). Critério de nacionalidade: interpretar, definir e avaliar a obra por
meio do maior ou menor grau com que exprimia a terra e a sociedade brasileira.
 A crítica também não renovou pontos de vista, continuou conformista. Não soube orientar-se
para rumos mais estéticos e menos científicos ou históricos. “A crítica se acomodara em
fórmulas estabelecidas pelos predecessores”.

3
 Já durante a Primeira Guerra Mundial se esboçava aqui um princípio de renovação literária,
ligada ao Espiritualismo e ao Simbolismo. No entanto, essa renovação não vingou, pois não se
separava marcadamente da tradição, constituindo outro aspecto da literatura de permanência.
Também porque irrompeu o movimento muito mais forte e radical do Modernismo.
 “A Semana da Arte Moderna (São Paulo, 1922) foi realmente o catalisador da nova literatura,
coordenando, graças ao seu dinamismo e à ousadia de alguns protagonistas, as tendências
mais vivas e capazes de renovação, na poesia, no ensaio, na música, nas artes plásticas.”
 Manuel Bandeira e Guilherme Almeida (intimistas); Ronald de Carvalho, Menotti del Picchia,
Cassiano Ricardo (mais conservadores); livre e por vezes desbragada fantasia: Mário de
Andrade, Oswald de Andrade, na poesia e na ficção; Sérgio Milliet, Sérgio Buarque de Holanda,
Prudente de Moraes Neto no ensaio; Graça Aranha (escritor da geração passada).
 “No terreno literário, os novos encontraram as duas referidas tendências estéticas, em grande
parte combinadas entre si de vária forma, e como se disse, praticamente esgotadas pela
ausência de agitação intelectual: o idealismo simbolista e o Naturalismo convencional. Aquele
dissolvendo-se no penumbrismo vers-libriste; este no diletantismo acadêmico.”
 O modernismo rompe com as duas tendências e inaugura um novo momento na dialética do
universal e do particular, inscrevendo-se neste. Deixa de lado a corrente literária estabelecida,
mas retoma certos temas, dentre estes: “a pesquisa lírica tanto no plano dos temas quanto dos
meios formais; a indagação sobre o destino do homem e, sobretudo, do homem brasileiro; a
busca de uma forte convicção. Dentre os primeiros, o culto do pitoresco nacional, o
estabelecimento de uma expressão inserida na herança européia e de uma literatura que
exprimisse a sociedade.” É uma retomada que aparece como ruptura.
 Na pesquisa lírica: aquilo tudo que era visto como inferior, como motivo de constrangimento
na formação do país (e por isso era idealizado conforme os valores europeus) passa a ser
valorizado no modernismo, passa a ser revisto como heróico, como motivo de celebração.
Assim, a miscigenação, o primitivo, o negro, a rudeza da natureza (antes eram idealizados –
primitivismo/natureza e índio com valores europeus – ou nem faziam parte da literatura –
miscigenação, negros, rudeza, aspereza e obstáculos da natureza tropical) passam a ser temas
da literatura, da música, da pintura. É a libertação de uma série de recalques históricos, sociais,
étnicos. Essa é a originalidade do modernismo na dialética do universal e do particular. Portugal
já nem é mais levada em consideração, pois é a definição do país por ele próprio e não tendo
Portugal como referência. “O Modernismo rompe com este estado de coisas. As nossas
deficiências, supostas ou reais, são reinterpretadas como superioridades .”
 “Mário de Andrade, em Macunaíma (a obra central e mais característica do movimento),
compendiou alegremente lendas de índios, ditados populares, obscenidades, estereótipos
desenvolvidos na sátira popular, atitudes em face do europeu, mostrando como a cada valor
aceito na tradição acadêmica e oficial correspondia, na tradição popular, um valor recalcado que
precisava adquirir estado de literatura.”
 Além do problema da aceitação destes recalques de nacionalidade, havia também o problema
da expressão literária. Os modernistas foram buscar influência nas vanguardas européias
(França e Itália), mas é um empréstimo de caráter diferente dos anteriores. País estava em uma
efervescência industrial, o ritmo dos centros urbanos havia se alterado, tornando-se veloz e
mecanizado, as agitações sociais e políticas, com grandes greves, movimento de operários,
surgimento do Partido Comunista, etc. A arte primitiva, o folclore, a etnografia tiveram um papel
acentuado nas estéticas modernas, muito atentas aos elementos arcaicos e populares
comprimidos pelo academismo. As vertentes populares e primitivas são reivindicadas pela
literatura. “Os nossos modernistas se informaram pois rapidamente da arte Européia de
vanguarda, aprenderam a psicanálise e plasmaram um tipo ao mesmo tempo local e universal
de expressão, reencontrando a influência européia por um mergulho no detalhe brasileiro.”
 Modernistas deixam de lado o patriotismo ornamental de Olavo Bilac, Coelho Neto e Rui
Barbosa em nome de um nacionalismo que ama o exótico descoberto no próprio país. Como
somos diferentes da Europa, temos que ver e exprimir as coisas de modo diferente.
Reivindicação do verso livre, pois seria mais adequado à realidade de contrastes do Brasil, onde
tudo se mistura e formas regulares não correspondem à realidade.
 Segunda linha: “a adesão franca aos elementos recalcados da nossa civilização, como o
negro, o mestiço, o filho de imigrantes, o gosto vistoso do povo, a ingenuidade, a malandrice. E
toda a vocação dionisíaca de Oswald de Andrade, Raul Bopp, Mário de Andrade;”
 “Esta corrente é a que assimila melhor as influências das vanguardas francesas e do
Futurismo italiano, no que respeita às técnicas de pesquisa e expressão artística. Da sua
atividade, combinada com a influência de Manuel Bandeira, reponta propriamente o estilo
moderno na literatura, que encontra as suas mais típicas expressões nas lindes da poesia e da
prosa. Prosa telegráfica e sintética de Oswald de Andrade, nas Memórias sentimentais de João
Miramar, que avança a cada instante rumo à poesia; poesia vibrante e seca de Manuel Bandeira
em Libertinagem, anexando virtudes da prosa.”
 Característico dessa geração o fato de toda ela tender para o ensaio: tendência para análise.
 Década de 1930: prosa liberta e amadurecida, abordando temas de inspiração popular,
dramas característicos do país: “decadência da aristocracia rural e formação do proletariado
(José Lins do Rego); poesia e luta do trabalhador (Jorge Amado, Amando Fontes); êxodo rural,
cangaço (José Américo de Almeida, Raquel de Queirós, Graciliano Ramos); vida difícil das
cidades em rápida transformação (Érico Veríssimo).”
 Ensaio histórico-social: Gilberto Freyre (“o papel do negro, do índio e do colonizador na
formação de uma sociedade ajustada às condições do meio tropical e da economia
latifundiária”), Sergio Buarque De Holanda (Raízes do Brasil), Caio Prado Jr. (Evolução política
do Brasil).
 “Parece que o Modernismo (tomado o conceito no sentido amplo de movimento das idéias, e
não apenas das letras) corresponde à tendência mais autêntica da arte e do pensamento
brasileiro. Nele, e sobretudo na culminância em que todos os seus frutos amadureceram (1930-
1940), fundiram-se a libertação do academismo, dos recalques históricos, do oficialismo literário;
as tendências de educação política e reforma social; o ardor de conhecer o país.”
 Durante a década de 30 o Espiritualismo simbolista disputou com o Modernismo as correntes
literárias e ideológicas: década contraditória, por vezes assinalando a projeção estética e
ideológica do modernismo, por outras a reação do espiritualismo literário e ideológico.

4
 Décadas de 1920 e 1930: esforço por uma literatura universalmente válida, mas fiel ao local.
Depois de 1940, o local é deixado de lado e surge um novo anseio generalizador, procurando
fazer da expressão literária um problema de inteligência formal e pesquisa interior. “O
modernismo regionalista, folclórico, libertino, populista, se amaina” – maior preocupação com a
forma e esforço anti-sectário no conteúdo (Fogo Morto, Terras do sem fim, Sentimento do
mundo e Rosa do povo).
 Década de 40: separação abrupta entre a preocupação estética e a preocupação político-
social. Os novos se afastaram da literatura de cunho social. Momento político do fascismo e do
integralismo concorrendo com as ideologias comunistas e socialistas. “os escritores políticos se
tornaram cada vez mais sectários, no sentido técnico da expressão. Tornaram-se especializados
na direção propagandística e panfletária, enquanto por outro lado os escritos de cunho mais
propriamente estético (sobretudo a poesia e a crítica, os dois gêneros em expansão nos nossos
dias) se insulavam no desconhecimento, propositado ou não, da realidade social.”
 Afastamento em relação ao período anterior, de certo equilíbrio entre local e universal.
 Autores citados: Henriqueta Lisboa, Vinicius de Moraes, Drummond, Murilo Mendes, Manuel
Bandeira, José Geraldo Vieira (obra cosmopolita, dramas humanos, ambiente europeu), Clarice
Lispector (romances fora do espaço, tempo psicológico).
 Revistas, agrupamentos poéticos e crítica: preocupações formais e estéticas.

5
 Considerações sociológicas sobre a função da literatura na cultura brasileira e a sua posição
atual.
 As melhores expressões do pensamento e da sensibilidade têm assumido formas literárias no
Brasil.
 No Brasil, primeiro livro propriamente sociológico, no sentido estrito da palavra: Assimilação e
populações marginais no Brasil, de Emílio Willems, em 1939. “Antes, de Euclides da Cunha a
Gilberto Freyre, a sociologia aparecia mais como ‘ponto de vista’ do que como pesquisa objetiva
da realidade presente.” Influenciados pela força da literatura, os trabalhos de análise da
realidade brasileira até então eram um misto de ensaio, história, economia, filosofia ou arte, pois
não tinham o cunho científico sociológico. Essa é uma forma bem brasileira de investigação e
descoberta do país. Entram nesse perfil obras como História da literatura brasileira, de Sílvio
Romero, Os sertões, de Euclides da Cunha, Populações meridionais do Brasil, de Oliveira Viana,
a obra de Gilberto Freyre e as Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda.
 “Não será exagerado afirmar que esta linha de ensaio, — em que se combinam com
felicidade maior ou menor a imaginação e a observação, a ciência e a arte — constitui o traço
mais característico e original do nosso pensamento.” Funciona como elemento de ligação entre
a pesquisa puramente científica e a criação literária
 A literatura sempre foi o veículo de prestígio no Brasil, mas hoje está perdendo seu pedestal e
igualando-se às outras formas de pensamento e arte. Um dos motivos para esse prestígio durar
tanto foi o atraso da irradiação de um espírito científico. Outros motivos mais locais são a
ausência de iniciativa política, o atraso na instrução e a fraca divisão do trabalho intelectual.
 A literatura forçou a proeminência de uma interpretação subjetiva, poética, metafórica, no
lugar de uma interpretação racional, objetiva, científica. Como aqui não podiam formar-se
cientistas, pesquisadores, técnicos, filósofos, ela preencheu essa lacuna criando mitos e
padrões que serviam para orientar a forma de pensamento. O Indianismo romântico, por
exemplo, satisfazia tanto às exigências do conhecimento através de uma etnografia intuitiva e
fantasiosa quanto à consciência nacional.
 Supremacia dos estudos de direito: necessidade de assegurar o Estado e ordenar a nova vida
em sociedade, que era organizada pelos limites paternalistas da família – a tradição do sermão e
do discurso aliam-se à retórica do direito.
 Literatura contribuiu para formar a consciência nacional e para pesquisar a vida e os
problemas do brasileiro. Foi menos um empecilho à formação do espírito científico que um
paliativo a sua falta – romance oitocentista: exploração e revelação do Brasil aos brasileiros. A
literatura ocupou o lugar vago que a falta do conhecimento científico deixou.
 “Deste modo, o espírito da burguesia brasileira se desenvolveu sob influxos dominantemente
literários, e a sua maneira de interpretar o mundo circundante foi estilizada em termos, não de
ciência, filosofia ou técnica, mas de literatura.”
 Os Sertões: exemplo da fusão brasileira de ciência mal digerida, ênfase oratória e inuições
fulgurantes. “Livro posto entre a literatura e a sociologia naturalista, Os sertões assinalam um fim
e um começo: o fim do imperialismo literário, o começo da análise científica aplicada aos
aspectos mais importantes da sociedade brasileira”.
 Modernismo: esforço de reajustamento da cultura às condições sociais e ideológicas que
vinham em lenta mudança desde o fim da monarquia. Facilita o desenvolvimento embrionário da
sociologia, da história social, da etnografia, do folclore, da teoria educacional, da teoria política.
 Apesar desse desenvolvimento das ciências e da maior divisão do trabalho intelectual, nas
décadas de 20 e 30 a literatura ainda permaneceu em posição chave. Obras como Casa-grande
& senzala, Sobrados e mucambos, Raízes do Brasil lhe são tributárias. O romance social e
narrativo da década de 30 segue a tradição naturalista de concorrência ao conhecimento
científico. “Em todo o caso, os decênios de 1920 e de 1930 ficarão em nossa história intelectual
como de harmoniosa convivência e troca de serviços entre literatura e estudos sociais.”
 É necessário ver o Modernismo como movimento cultural brasileiro entre as duas guerras,
momento em que a literatura coopera com outros setores da vida intelectual, mesmo mantendo-
se em posição superior aos outros.
 Modernismo: quebra dos valores tradicionais na arte e na vida intelectual.
 Hoje em dia: fim da literatura onipresente. Isso gera a formação de padrões literários mais
puros, mais exigentes, mais voltados às questões estéticas e não às questões históricas e
sociais – reação à crescente divisão do trabalho intelectual.
 Diferenciação dos papeis sociais do romancista e do sociólogo: delimitação de campo.
 Transformação do público: número de analfabetos diminui cada vez mais no Brasil, formando
novos leitores e uma nova relação entre autor e leitor, não mais voltada apenas à pequena casta
de letrados. No entanto, esse novo público é logo captado pelos novos meios de comunicação:
relativa crise das formas escritas de expressão. Esses novos meios de comunicação permitiam a
participação na cultura daqueles que não haviam se inserido na tradição do livro.
 Transformação do grupo de escritores: aumentado e diferenciado. Assumem duas posturas:
se aproximam desse novo público com retalhos de vida, algo próximo da reportagem jornalística,
ou se afastam, evocando seu prestígio e aproximando-se, assim, dos conhecedores e dos
iniciados na tradição do livro. Ambas as posturas são perigosas. “E a alternativa só se resolverá
por uma redefinição das relações do escritor com o público, bem como por uma redefinição do
papel específico do grupo de escritores em face dos novos valores de vida e de arte, que devem
ser extraídos da substância do tempo presente.”

A literatura na evolução de uma comunidade

1
 Literatura se manifesta de diferentes formas em diferentes regiões do país.
 Analisar produções e autores pela sua participação na vida social e espiritual na cidade de
São Paulo.
 Para haver literatura, é necessário haver um sistema literário, um compartilhamento coletivo
de valores entre autores e público e uma continuidade, uma transmissão, uma herança desse
sistema. Segundo esse critério, só passa a haver literatura em São Paulo após a independência,
mais especificamente após a Faculdade de Direito. Na metade do século XVIII já se esboçavam
aquelas condições. Manifestações literárias – que é diferente de literatura – havia desde José de
Anchieta.
 Não havia meio apropriado para a formação de um circuito literário. No século XVIII, não
havia intelectuais, apenas alguns clérigos ou civis que praticavam a escrita.
 As letras apareciam com sentido comemorativo nas solenidades públicas. Outra via de
manifestação literária eram as verrinas contra o governo (Cartas chilenas). Fora daí, as letras
existiriam como atividade privada de um ou outro homem culto, — frade bento, vigário, mestre
régio, magistrado, — não dando lugar a relações intelectuais capazes de caracterizar uma
literatura, de acordo com o critério acima proposto.
 Este estudo pretende analisar a formação da sociabilidade intelectual e sua relação com a
sociedade em São Paulo. Ângulo de visão: sociológico (não analisa pelo ângulo da estética).
Enxerga-se cinco momentos da evolução literária na cidade. Analisar o tipo de associação entre
os escritores, os valores específicos que os norteiam e a sua posição em face dos valores gerais
e da organização da sociedade.

1- Um grupo virtual
 Primeiro agrupamento de escritores: Pedro Taques de Almeida Paes Leme, Frei Gaspar da
Madre de Deus e Claudio Manoel da Costa – Dois primeiros eram amigos, aproximaram-se do
terceiro através da Academia Brasílica dos Renascidos. Os três participavam de valores comuns
e construíam obras em torno desses valores.
 “Esta relação é da maior importância, pois estes três homens foram os primeiros a dar
expressão intelectual coerente ao sentimento localista dos naturais de São Paulo, e não apenas
tiveram consciência disso, mas colaboraram neste sentido em alguns casos.”
 Os três resgatam a história e a tradição, a consciência heróica do passado da cidade. “Este
processo se manifesta pela criação de uma consciência de estirpe, na Nobiliarquia, de Pedro
Taques; pela definição de uma sequência histórica, nas Memórias, de frei Gaspar; pela
transfiguração épica, no Vila Rica, de Cláudio Manuel.” Desse trabalho sairá a primeira visão
intelectual coerente da grande empresa bandeirante. “Acentuam a lealdade, a magnanimidade, a
nobreza dos aventureiros de Piratininga, traçando-lhes o perfil convencional que passou à
posteridade.”
 Tornaram heróis os bandeirantes, mitificaram os paulistas como desbravadores, leais,
magnânimos, honrados. Claudio Manuel dava o tom lírico, poético, Pedro Taques dourava as
linhagens com o estudo das genealogias, frei Gaspar recuperava e dourava a história.
 Também tecem elogios e honras ao indígenas e aos descendentes da mistura entre europeus
e nativos.
 “Vê-se, pois, que o "paulistanismo" aparece ideologicamente configurado, norteando as obras
desses três escritores e nutrindo as suas relações, além de adquirir nelas as tonalidades
características, que serviriam para definir a consciência do paulista moderno, e que operariam
como poderosa arma de sentimento de classe, de um lado, e assimilação dos forasteiros, de
outro.”

2 – Um grupo real
 “Depois desse momento inicial, uma ou outra manifestação literária em São Paulo, ou de
paulista — inclusive José Bonifácio, o poeta Américo Elísio — nada trazem de novo para o
nosso ponto de vista. Por volta de 1830 é que vamos encontrar uma segunda congregação de
homens, valores e idéias, em torno da Revista da Sociedade Filomática, de importância
apreciável em nosso Pré-romantismo”.
 Não são personalidades tão eminentes quanto os anteriores, nem sua obra tem tanto relevo,
mas é um grupo real, não mais virtual e que exerceu influência direta sobre os grupos
sucessores, o que não ocorreu com os outros três. O seu fator foi a criação da Faculdade de
Direito (1827), que desempenhou papel decisivo na literatura de São Paulo. A Faculdade era
antes um meio no qual grupo de pessoas se reuniam para pensar as coisas do espírito e da vida
pública, um encontro de intelectuais capazes de elaborar uma visão do país, das pessoas, da
sociedade, do pensamento, etc – espírito de grupo na literatura. “a convivência acadêmica
propiciou em São Paulo a formação de agrupamentos, caracterizados por idéias estéticas,
manifestações literárias e atitudes, dando lugar a expressões originais.”
 Sociedade Filomática (1833): reunia alunos e jovens professores: Francisco Bernardino
Ribeiro, Justiniano José da Rocha, Francisco Pinheiro Guimarães, Antônio Augusto Queiroga,
José Salomé Queiroga, nenhum dos quais nascido em São Paulo (eram cariocas os três
primeiros, mineiros os dois últimos). Publicaram seis números de uma revista; atitude de reforma
anti-clássica; agitaram, numa palavra, a pequena cidade de então, estabelecendo nela a
literatura como atividade permanente, por meio do seu corpo estudantil.
 Poema Nênia: escrito por Firmino Rodrigues da Silva em homenagem pela morte de
Francisco Bernardino, aos 23 anos. Nesse poema esboçam-se traços pré-românticos e pré-
indianistas. É considerado o início da “escola brasileira” e do indianismo mais tarde dominado
por Gonçalves Dias. “Em 1844, três anos antes dos Primeiros cantos, temos aqui CÂNTICO DO
TUPÍ, IMPRECAÇÃO DO ÍNDIO, PRISIONEIRO ÍNDIO, do futuro barão de Paranapiacaba
(natural de Santos), prefigurando o tom gonçalvino. Poetas menores da Faculdade de Direito
ligaram-se à mesma tradição, como Antônio Lopes de Oliveira Araújo, autor do belo GEMIDO
DO ÍNDIO (1850).”
 “Quando a obra do maranhense dominou o meio literário, dando a impressão de que, afinal,
havia poesia brasileira, o terreno já estava preparado em São Paulo, graças a Firmino. Também
o ambiente criado pela Filomática não se dissolveria mais, e, extremamente receptivo, iria
ficando daí por diante cada vez mais denso, — associações sucedendo a associações, revistas
a revistas, até criar aquela saturação rompida pelo advento das correntes parnasianas e
naturalistas.”

3 – O grupo se justapõe à comunidade


 Até 1840: articulação do grupo e consciência do seu estado, formação de uma sociabilidade
específica.
 Após 1840: grupo diferenciado na pequena cidade, processo de elaboração de uma
expressão própria – grupo diferenciado de acadêmicos.
 Esse grupo fugia dos padrões convencionais de São Paulo. Enquanto estavam na academia,
jovens, longe da família, ainda não faziam parte da vida prática adulta, mas também não eram
mais meninos, ou seja, podiam ser outra coisa a parte à cidade. “Desse caráter de exceção
nutriu-se a sua sociabilidade peculiar, definida por determinados tipos de comportamento,
determinada consciência corporativa, e, finalmente, uma expressão intelectual própria.”
 Fundação da Sociedade Epicuréia (1845 – Alvares de Azevedo, Bernardo Guimarães, Lessa
– sociedade inspirada em Lord Byron).
 Após 1870: os dois grupos – estudantes e sociedade – já não são tão diversos e aqueles
encontram vias de conexão com esta, deixando de ser exceção.
 Antes disso, o corpo acadêmico se definia como um segmento diferenciado da estrutura da
cidade, justapondo-se a esta, sem incorporá-la, caracterizando-se pela formação de uma
consciência grupal própria. “A boêmia e a literatura constituem a manifestação mais tangível
desta, configurando o tipo clássico do estudante paulistano, exprimindo o seu ethos peculiar.”
Esta situação criava tensões entre estudantes e a comunidade.
 Sociabilidade acadêmica: repúblicas, agremiações literárias, revistas e jornais...
 República: “Três ou quatro rapazes reúnem-se, pactuam e vão viver na mesma casa, fazendo
em comum as despesas do alimento, do aluguel etc. Eis a República proclamada.” – Local de
moradia, recreio, diversão e atividade intelectual, muitas obras e textos foram produzidos nesses
ambientes.
 “Das repúblicas a sociabilidade literária se expandia pelos grêmios, inaugurados pela
Filomática: o Ensaio Filosófico, 1850; o Ateneu Paulistano, 1852; a Associação Culto à Ciência,
1857 (de preparatorianos); o Instituto Acadêmico, 1858; o Clube Literário, o Instituto Científico.
Merece lugar à parte a Epicuréia (1845), espécie de ponto de encontro entre a literatura e a vida
onde os jovens procuraram dar realidade às suas imaginações românticas. Foi uma experiência
do maior significado para definir o que houve de mais característico no Romantismo paulistano,
na qual o exemplo conscientemente seguido dos personagens de Byron e Musset foi entroncar-
se
 inconscientemente na tradição do marquês de Sade. Algumas dessas associações tiveram o
seu periódico, destacando-se os famosos Revista Mensal do Ensaio Filosófico Paulistano e
Ensaios Literários do Ateneu Paulistano. E houve jornais, como o Acaiaba (1851), O Guaianá
(1856) (cujos nomes indicam a tendência), A Academia (1856), íris (1857).”
 Grupo estudantil (envolvido em uma atmosfera de exceção) – meio estimulante para a
produção literária(obras) – permite o intercâmbio e a circulação literária – as repúblicas
constituíam o público, elemento básico no funcionamento e na continuidade da literatura – o
corpo estudantil era também a crítica
 Tudo isso fornecido pelo Romantismo e por suas ideologias que aqui manifestaram:
nacionalismo indianista, sentimentalismo ultra-romântico, satanismo.
 Alguns estudantes se envolveram com o indianismo e consideravam Gonçalves Dias
(reconhecido por todos como o fundador da poesia brasileira) como um modelo a ser seguido.
Os critérios de uma boa obra era o quanto havia de nacional. Alvares de Azevedo era
considerado pouco brasileiro.
 Também tiveram muitas produções voltadas ao sentimentalismo ultra-romântico – a
idealização amorosa, a pieguice, a melancolia, ritmos melodiosos e fáceis. Essas produções
realçavam a imagem do poeta solitário, incompreendido, infeliz, que não se encaixa no resto da
sociedade, confirmando sua singularidade, sua diferença.
 Satanismo: produção mais típica do poeta-estudante – ideologia de revolta espiritual, negação
dos valores, egotismo – melancolia, humor negro, sarcasmo, gosto da morte acentuam o seu
isolamento e seu caráter de exceção na sociedade. O trio Álvares de Azevedo, Bernardo
Guimarães e Aureliano Lessa encarnou esse momento de nossa literatura.
 Mais tarde, o grupo estudantil encontra formas de se conectar com a cidade. Castro Alves
exerce influencia nisso, deslocando os rapazes da sua autarquia para a vasta comunhão dos
problemas sociais. Posteriormente o grupo acaba se integrando na vida da cidade.

4 – A comunidade absorve o grupo


Terceiro momento: passagem do século XIX para o XX: 1890-1910.
A cidade já é outra, tem uma população três vezes maior, está tornando-se o centro industrial e
urbano do país, recebe imigrantes de várias nacionalidades, além de pessoas de outras cidades
e estados do Brasil, surgem hierarquias sociais, a Faculdade de Direito é apenas mais uma
entre tantas instituições construídas, a literatura não depende mais de um grupo de estudantes,
nem estes dependem da literatura para existir, os estudantes não têm mais a aura de exceção,
diferente, forma-se um público para além da academia, assim como os escritores passam a vir
de outros setores também – a literatura (antes impermeável a ela) é absorvida pela comunidade.
A literatura deixa de ser uma manifestação grupal para ser a manifestação de uma classe: a
nova burguesia, recém formada. Manifesta-se nas atividades dos profissionais liberais, nas
revistas, nos jornais, nos salões – é o momento do Parnasianismo e do Naturalismo.
Enquanto o romantismo se isolava e não se encaixava na sociedade, o Parnasianismo e o
Naturalismo se ajustaram a essa, com a expressão clara, porém elaborada, a comunicabilidade,
porém definida segundo os padrões da gente culta, incorporada à classe dominante, a
consciência formal, a conformidade ao bom senso, etc. “Daí um certo aristocratismo intelectual,
certo refinamento de superfície, tão do agrado da burguesia, que nele encontra atmosfera
confortável e lisonjeira.”
Literatura passou a se organizar de acordo com padrões definidos pela elite social.
“talvez nunca tenha havido em São Paulo uma coincidência tão grande entre a inspiração dos
criadores, o gosto do público, a aprovação das elites.”
Poetas do período: Francisca Júlia e Silvio de Almeida – professores, conhecedores do idioma.
Romancista: Julio Ribeiro – gramático eminente.
“a incorporação efetiva da literatura à vida da comunidade paulistana, por meio dos padrões de
suas classes dominantes.”
Não mais mocinhos bêbados e macabros, mas respeitáveis senhores, com posição na
sociedade. Não mais repúblicas, mas Salons. Não mais sessões de grêmio, mas a acolhida de
um público já constituído.

5 – O grupo se desprende da comunidade

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