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Mamífero-morcego

Em lugares verdes e saudáveis, vive o mamífero-morcego. Numa das cascatas de água mais
lindas que já vi, habitavam muitos mamíferos-morcegos. O mamífero-morcego vive a sua vida
de polinizador e transmissor de organismos contribuindo diretamente para esse belo Ipê que
você observa ao caminhar na rua.

O mamífero-morcego não pediu nada, sempre viveu assim, o movimento é o sentido da sua
existência. O mover-se entre plantas e plantas, cavernas, cascatas, quilômetros de verde. Esta
é a sua dinâmica de reprodução dele mesmo, porque ele não pode viver sem estar
diretamente vinculado ao ambiente que o cerca, porque ele mesmo o ajudou a construir e é
produto disso.

Nunca se queixou, seguiu em movimento.

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Pouco distante do mamífero-morcego, vive o mamífero-humano, este apesar de alguma vez na


escola ter ouvido falar, por cima assim, do mamífero-morcego, hoje só estabelece algum
contato com ele porque segundo o mamífero-humano “eles entram em nossas casas”.

Eis que o mamífero-humano e mamífero-morcego se entrelaçam nesta história que até parece
meio sem pé nem cabeça, mas não é que tá acontecendo de verdade? O mamífero-humano
contribuiu no desenvolvimento de uma pandemia e de início, responsabilizou o mamífero-
morcego por isso.

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O mamífero-morcego não tem a força que tem o mamífero-humano. O mamífero-humano


quando se julgou melhor que o mamífero-morcego, iniciou seu processo de autodestruição.

O mamífero-morcego também era comida do mamífero-humano em alguns lugares do globo.


O mamífero-humano não era comida de outro mamífero-humano, era, porém,
constantemente explorado e morto por outro mamífero-humano, que pode ser qualquer
mamífero-humano, desde que seja mamífero-humano.

A exploração do mamífero-humano pelo mamífero-humano impactou diretamente sobre o


mamífero-morcego. O mamífero-morcego nunca havia dito, mas também sentia o stress,
talvez não o mesmo que o mamífero-humano, porém, sim, havia stress no organismo vivo e
extremamente complexo do mamífero-morcego.

Quando o mamífero-morcego não mais conseguiu dar conta da sua produção de organismos,
expeliu milhares e milhares de organismos que consideraremos letal no mamífero-humano.

O mamífero-humano, desde que conseguiu um dinheiro, começou a diminuir cada vez mais o
tamanho do mundo através de uma máquina que voa e o leva de um pólo a outro. No frenesi
do consumo, o mamífero-humano, que agora já tem sua mão existindo colada no telefone
celular, alienou-se do que está à sua volta e já não se importa com nada, com exceção
daqueles consumos que aparentemente dão algum prazer (aqui você imagina qualquer
consumo, é esse mesmo).

Quando a mãe do mamífero-humano ficou doente, não imaginava que seria por conta de um
mundo o qual ele mesmo consome e é consumido.

Esse mamífero-humano não está em condições de perceber que há mundos alternativos a esse
de autodestruição a que ele foi escolhido e escolheu. E, depois de ser escolhido por este
mundo, o escolheu para seguir reproduzindo-o.

Nunca imaginou, por exemplo, que pudessem haver mamíferos-humanos com outras
referências de mundo que, muito mais que este mamífero-humano consumista, conheciam e
respeitavam o mamífero-morcego. Mais ainda: não passava por sua cabeça que estes outros
mamíferos-humanos sofriam tanto quanto o mamífero-morcego ao terem seus espaços de
vida drasticamente alterados por uma ideia um tanto trágica de desenvolvimento, abstração-
financeira-global.

Mas o mamífero-morcego só estava ali no seu eterno devir, não tinha intenção alguma de
acabar com seu espaço de vida, não. Essa destruição dos lugares veio, definitivamente, com o
mamífero-humano.

Eu, na realidade, nem gostaria de chamar humano, isso não é coisa humana, não é uma
humanidade. O mamífero- humano, ele também já nem sabe mais em que ponto se tornou tão
artificial, perdeu sua memória, que será chamada aqui de mamífera-avó, ou vegetal-árvore.
Elemento-fogo

Na memória-avó, ou algo que se pode chamar de passagem de aprendizados e experiências de


uma geração à outra, foi que o elemento-fogo surgiu como matéria importante e relevante
para a manutenção daquelas vidas.

Em outros contextos com relações mais adversas à proliferação do mamífero-humano, o


elemento-fogo era fundamental para o este, tanto que seu desenvolvimento dependeu quase
que exclusivamente disso.

Foi assim que um mamífero-humano conheceu e entendeu a importância de manter aquele


elemento-fogo aceso, assim se podia defender dos inimigos selvagens, assim poderia consumir
o seu alimento de outra forma, o corpo adormecido do frio e da umidade, se tornou esse outro
espaço habitado que agora podia fazer novas coisas, unicamente por conta desse elemento
magnífico.

Muito tempo se passou, até que o elemento-fogo, sinônimo de vida possível, se tornasse
também elemento utilizado para reivindicação justamente e entre outras coisas, pela falta de
alimento.

Mas não era só a falta de comida que estava em jogo para estes mamífero-humanos. A falta de
comida levava à revolta. Mas não era só a revolta que estava ocorrendo, muitos fenômenos
ocorriam ao mesmo tempo, fome, morte, assassinatos, humilhações, torturas. Isso tudo, em
um mundo no qual se dizia que o mamífero-humano era esse ser assim, mais evoluído e
desenvolvido que o mamífero-morcego, por exemplo.
As mãos que acendiam a matéria-pneu-elemento-fogo reivindicatória, agora estavam vivas de
novo. O elemento-fogo faz isso, ele dá vida de novo, se você duvida, experimente viver sem. O
elemento-fogo esquentou de forma tão tenra estas mãos, que agora elas possuíam força
novamente e assumiam o formato de um punho fechado.

Nesse ínterim, surgiu na mente do mamífero-humano uma nova ideia.

Foi levado pelo pensamento a fazer o caminho do elemento-fogo em sua trajetória, descobriu
que esse material oxidado, já estava nesse mundo há muito tempo antes dele e vai seguir
existindo, depois que o mamífero-humano não mais habitar este planeta.

O elemento-fogo também era significado de coisas, e assumia outras formas de expressão


pelas mãos daqueles que carregaram a memória da mamífera-avó.

Quando o mamífero-humano compreendeu isso, percebeu outras coisas também: Já não havia
como não pensar sobre o trajeto do elemento-fogo. Na passagem de aprendizados
transmitidos pela memória-avó, lembrou que o elemento-fogo também é perigoso, queima e
mata.

A memória-avó havia lhe dito que esse perigo é uma face necessária do elemento-fogo. Faz-
nos lembrar que aquilo que dá vida também tira. E por conta disso, pensou que a matéria-
pneu-elemento-fogo que queimava, seria a justificativa que aquelas outras-razões-de-estar-no-
mundo, usariam para atentar contra a vida destes mamífero-humanos que, em último
término, lutavam pela vida.

Estas outras-razões-de-estar-no-mundo fariam o que pudessem, usariam seus próprios meios


autoritários para apagar o elemento-fogo na matéria-pneu. O elemento-fogo não é bem vindo.
Ele trouxe consigo desordem tamanha. Segundo estas outras-razões.

No entanto, pro mamífero-humano, era mais que óbvio que a existência do elemento-fogo
também era caminho para a sua libertação.

A memória-avó também disse ao mamífero-humano que recordasse bem de onde viera, pois
para este lugar voltaria. A única coisa que continua igual (e talvez nem seja tão igual assim), é o
elemento-fogo.

A memória-avó lhe contou que o elemento-fogo foi o responsável pela manutenção da vida do
mamífero-humano muito antes das outras-razões-de-estar-no-mundo imporem a ele sua
forma de vida. Dessa forma, havia de respeitar o elemento-fogo com tudo aquilo que ele
implica.

Do território-ancestral ao território-atual, sim. Está aí o elemento-fogo. Permeando as mais


diversas manifestações, festejos, peleias, reivindicações. E vai seguir existindo. O elemento-
fogo se tornou um símbolo de luta e de força para estes mamífero-humanos que se cansaram
de assistir as outras-razões-de-estar-no-mundo lhes violentar de forma tão grotesca.

Em 2020, neste mundo que habitam os mamífero-humanos e outros tantos seres, o elemento-
fogo virou de novo, porém de outra forma, relevante na manutenção daquelas vidas.
Vegetal-árvore

A imagem é um tronco de árvore e uma digital humana.

Vegetal-árvore e mamífero-humano se encontram nessa transa.

Somos iguais, pensou alto o mamífero-humano. Isso eu já sabia, completou o vegetal-árvore.

Você sabia? Perguntou o mamífero-humano. Sem dúvida, respondeu o vegetal-árvore.

Os dois seres precisam de elemento-água, de vida-sol e de elemento-oxigênio. Escreveu a


narradora deste breve conto.

A diferença é que um é devastado pelo outro. Outras-razões-de-estar-no-mundo aí se


manifestam novamente.
Sem título

Enquanto o mundo era assolado por esse apocalipse que, segundo as outras-razões-de-estar-
no-mundo, era responsabilidade de um mamífero-morcego. Veja que curioso o poder do
mamífero-morcego. Foi ele, claro, o responsável pelo caos que vive o mamífero-humano e as
outras-razões.

Demais fenômenos seguiam acontecendo, outras-razões no Território-Chile queriam suprimir


a vida do elemento-fogo, fascistas-razões no Território-Brasil e território-Yankee cada vez mais
cresciam em meio ao caos instalado pelo despreparo de fascistas-razões durante a dita
pandemia.

Nesses dias tão estranhos, todos os sentimentos têm mudado. Cada coisa ressignificada.

Paramos de olhar pra fora e ao tentar enxergar um pouco dentro de si, ficamos com medo.

Nesses dias um mamífero-humano foi morto por outra-razão-de-ser, que podemos chamar de
mamífero-humano com mescla de fascistas-razões.
O mamífero-humano com mescla de fascistas-razões não se deu conta do seu papel dentro do
contexto em que vivia, de modo que, mesmo sendo mamífero-humano, matava seu
semelhante, pois não era apenas mamífero-humano.

Era algo mais e algo pior. Já não possuía saúde mental para tentar sobreviver ao apocalipse,
porque sequer teve coragem de enxergar seu motivo de existência nesse contexto caótico
como estava.

A chuva que cai nesse canto da terra, não é bem-vinda. Entretanto, se mostra deliciosa em
outro. Por quê? Não sei dizer. Talvez alguns cantos da terra simplesmente não sejam
agradáveis ao som da água que cai na superfície com a qual faz fronteira.

Um Mamífero-humano lê as notícias, fica absorto em pensamentos e então começa a refletir


sobre a sua própria existência. Só que não tem base saudável nenhuma para pensar isso.

Enquanto cai a chuva, lê sobre os microorganismos que podem destruir o alimento do


mamífero-humano, essa destruição não sei se pode ocorrer rápido ou lentamente, depende de
como queiramos ser extintos da terra.

Acontece que outra notícia sobre empresa privada que vai até mundo-monóxido-de-carbono-
Marte, chamou a atenção desse mamífero-humano. Quer dizer que mamífero-humanos-
porém-não-muito com mesclas-de-fascistas-razões do mundo-planeta-água-terra, já podem
chegar até outro lugar e colonizá-lo. Não tão igual como fizeram com este, até porque, igual a
este, não existe. Mas podem colonizá-lo, depois que o alimento-fruto-da-terra não mais
crescer nela. Tá achando pouco?

Pergunta-se como passa o tempo. Pergunta-se outra coisa: Quanto tempo vai levar?
Razões?

Crescem os casos de contágio deste vírus que assola o mundo (aqui o mamífero-humano já
demonstrou toda a sua incapacidade de amor aos outros e a si mesmo) o ano de 2020 estava
mergulhado em um looping de (auto)descaso como jamais havia se notado.

A cada dia que passava, as outras-razões-de-estar-no-mundo criavam leis para abertura de


atividades-estúpidas que estavam acima da vida dos mamífero-humanos, em detrimento
daquela abstração-financeira-global das quais as outras-razões se valiam.

O mamífero-humano já tinha aceitado há algum tempo que haviam vidas que não mereciam
ser vividas, por esse motivo, deu as outras-razões, razão para existir. Quando deu-se conta de
sua estupidez, já se encontrava semi moribundo lutando por um pouco de elemento-ar, em
um corredor lotado de um hospital qualquer.

Arrependeu-se tardiamente da sua falta de senso crítico e ação sobre si e seu mundo. Fechou
os olhos para sempre.

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Na outra ponta do hemisfério planeta-água, revoltas em favor da dignidade humana iam


crescendo a ponto de fazer outras-Razões apagarem as luzes de sua “casa”.

Nesse tempo também, revoltas estouraram em outros pontos do planeta-água através do


oceano-atlântico (ou massa gigante de água que cobre o planeta e que não divide continentes,
apenas deixa algumas marcas de solidez acima de sua superfície).

Estas revoltas diziam respeito a atividades feitas por outras-razões contra mamífero-humanos,
os quais não eram vistos como humanos, e sim como mercadorias e mão-de-obra para
projetos ditos civilizatórios e desenvolvimentistas (sabe-se lá o que isso queria dizer) de
outras-razões.

O produto extremamente violento destes atos, foi também a violência, a quantidade de morte
de mamífero-humanos de lá pra cá é absurdamente incontável. O mamífero-humano
contemporâneo carregado de séculos de sofrimento se levantava mais uma vez. Desta vez
bastará?
Sem título II

Quanta coisa aconteceu nesse planeta-água desde que se saiu da última era glacial até esta Era
onde a informação mundial está a um deslizar de dedo de distância?

Qual a relevância, desta vez, de ter que compartilhar absolutamente tudo o que se faz nesse
pedaço de acrílico e vidro que já está colado na mão do Mamífero-Humano há, ao menos, 20
anos? Ou mais? Ou menos?

Você já se perguntou de onde vem o seu alimento?

Já se perguntou a origem da sua inquietação?

Você quer olhar pra essas coisas? Ou quer pedir uma “comida” através do dedo deslizante na
tela de vidro e acrílico que elegeu como sua prótese voluntária?

Um mamífero-humano gostaria de poder voltar a trabalhar na terra, pura e simplesmente pelo


fato de que se arrepende por não tê-la visto como o algo extremamente relevante que é.
Sentiu medo e pensou que sua mente e corpo irão agradecer se voltar a respeitar o elemento-
terra.

Seu signo é elemento-terra.

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O silêncio que precede o esporro ou, pré-apocalipse

Voltaremos para um pouco antes do apocalipse.

Em alguns cantos do mundo haviam sentimentos de tristeza na maioria dos mamífero-


humanos que habitavam este planeta-água. Alguns acordavam todos os dias com pouca ou
nenhuma perspectiva de futuro de si próprio. Precisavam na realidade colocar um pouco de
alimento dentro de casa, quando muito, algo mais que isso. No entanto, curioso é, quase todos
possuíam a prótese voluntária de acrílico, para utilizar sabe-se lá de que forma.

Um parêntese para a prótese voluntária de acrílico. Esta prótese, desde que foi criada, tinha
como objetivo conectar mamífero-humanos nos quatro cantos do planeta-água. Entretanto,
com o passar do tempo, tornou-se não apenas instrumento de conectividade, mas também de
um certo tipo de tortura, a tortura psicológica, que fazia com que este mamífero-humano não
conseguisse mais existir sem ela, sentindo-se altamente solitário sem a sua companhia. Aqui
chegamos.

Novamente aos momentos pré-apocalipse.

Este mamífero-humano que acordava e ia deslocar-se para ter alimento, fazia um trajeto
distante dentro de um contexto ambiental (que incluía quilômetros e quilômetros de concreto
e elemento-ar poluído) para chegar a um ambiente relativamente mais saudável, mas do qual
não podia arcar e nem sonhava em viver, pois não possuía a quantidade de papel-colorido
suficiente para aquele tipo de vida. Contudo lá estava fazendo mais papel-colorido-abstrato
para o mamífero-humano ao qual era empregado.

Este mamífero-humano sem papel-colorido com prótese voluntária de acrílico colocou seu
polegar que possuía digital igual ao vegetal-árvore, para visualizar a vida de outros mamífero-
humanos que faziam parte do mesmo planeta-água. Sentiu-se, mais uma vez, sozinho.

Enquanto voltava do ambiente relativamente melhor ao qual vivia, passou no mercadinho da


esquina para comprar algum alimento que se alimentar. Entretanto, não possuía o papel-
colorido suficiente para aquele pedaço de mamífero-carne do qual “necessitava”. De modo
que, teve que contentar-se com a farinha de trigo assada que, em última instância, causava
mal-estar-digestivo-e-mental a este mamífero-humano. Era o que tinha.

Volta a sua casa, ou espaço quadrado de confinamento em contexto de concreto, e põe-se a


comer a farinha de trigo assada. Vai deitar-se com mal-estar-digestivo e zero consciência do
porquê.

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Aqui chegamos

Estive a pensar sobre outro mamífero-humano, este nem vive tão longe do contexto-concreto,
porém, bastante influenciado por ele.

Este mamífero-humano cultiva alimentos não tão saudáveis porém, é o que dá pra fazer, e que
alimentam os mamífero-humanos que vivem em contextos de concreto.

Existe alguma informação sobre a vida desse mamífero-humano, incluindo suas práticas
cotidianas, e uma grande invisibilização da sua existência. De modo que o mamífero-humano
que vive no contexto de concreto sequer dá importância a este outro que vive em contexto de
flora abundante.

Mal sabe o mamífero-humano do ambiente concreto que apenas não passa fome porque
existe um mamífero-humano de ambiente de flora relativamente abundante que acorda cedo
e trabalha na terra para alimentá-lo.

No entanto, outras-razões-de-ser, com seus papéis-coloridos aos montes, pagavam por


propagandas que diziam que a produção de um grão-soja era o que desenvolvia o território-
nacional no qual vivia este mamífero-humano, e que era este tipo de produção, que de alguma
forma, criava trabalho e mais papel-colorido ao mamífero-humano no contexto-concreto.

Haviam outras-razões também fazendo forças para mostrar sempre que as suas atividades é
que eram mais relevantes que as atividades do mamífero-humano de contexto de flora
relativamente abundante, este último, quem realmente plantava e colhia o alimento do
mamífero-humano.

Escravizando não apenas a vida de muitos mamífero-humanos no contexto concreto, as


outras-razões também escravizavam mamífero-vacas, sim, aquelas que possuem uma carne
vermelha a qual você gosta de mastigar e se sentir saciado.

Não sabia o mamífero-humano que esta carne, junto com a carne do suíno-bacon que gostava
de consumir, já havia sido espaço de reprodução de outros tantos vírus que quase assolaram a
população de mamífero-humanos ao redor do planeta-água.

Só que desta vez, não deu muito certo. O vírus escapou e escapou em uma velocidade que
ninguém imaginou, e voou de avião pelos sete continentes, e foi para lugares onde não há
espaço para colocar um mamífero-vaca por exemplo, mas é onde vivem muitos mamífero-
humanos. Isso tudo, em um intervalo de tempo de poucos meses de acordo com o calendário
judaico-cristão, inventado por mamífero-humanos de um determinado lugar do planeta-água.

Paisagens
Há esse esparso pedaço de vegetal-mata nativa que está “protegida” por legislações (que mais
nos parecem imaginárias que reais) nesse oeste paranaense, ou nordeste argentino, ou leste
chileno e sul-sudeste paraguaio. Fato é que se encontra no território BR e, pelo que este
observador pode perceber, criou-se uma faixa de largura de uma estrada para plantio de mais
soja, ou milho. O local de observação é dentro de um ônibus, em direção a cidade mais a oeste
do oeste paranaense, ou a mais a nordeste do nordeste argentino, fazendo fronteira visível e
direta através do elemento-água com a cidade de Puerto Iguazu.

Do lado esquerdo, vegetal-mata nativo com esse rastro de morte para cultivo de um
monocultivo qualquer já citado, do lado direito, a paisagem mais monótona possível, aquela
que é um grande tapete verde de uma coisa só, impregnada de veneno e esperando para ser
explorada de novo.

Olhos desatentos não percebem, olhos atentos vêm com tristeza essa paisagem, porque
sabem que apesar da (muito aparente) inércia desse vegetal-mata nativa, existe manutenção
rica de vida, que aos poucos é talhada pela ignorância de outras-razões-de-ser-e-estar-no-
mundo. Aqui, nesse pedaço de terra no sul do território-BR, estas razões tem a pele branca, os
olhos claros, a barriga cheia, papado no queixo de comida-lixo e gosto musical bastante
questionável. Neste espaço de terra vivem várias outras-razões-com-mesclas-fascistas.

Estas outras-razões também apoiam uma coisa que atualmente senta na cadeira da
presidência deste território nacional que ironicamente, voltou ao ano de 1700, ou antes talvez,
ou depois...

Ideias abstratas sobre a abjeção


Primeira parte

O ano é 1492 e desce na costa leste do mundo Abya Yala, uma leva de homens doentes
advindos de outro continente. Fisicamente, psicologicamente e emocionalmente doentes. É
sabido que o mamífero-humano europeu não possuía o hábito do banho, além disso, viajar em
barcos em condições que podem ser precárias, pode levar ao surgimento de outras
enfermidades, soma-se a isso stress pela empreitada que foi essa viagem em alto-mar.
Chegar de outro contexto com pessoas em circunstâncias completamente distintas, já é, um
evento e tanto. Chegar doente física e psiquicamente então, é prato cheio para o início de um
ciclo de fenômenos perturbadores.

É sabido também que a história nos conta, que muitas populações nativas morreram em
função das doenças trazidas por estes mamífero-humanos doentes. Outra parte morreu
assassinada, explorada e escravizada física e psicologicamente.

Há algo sendo dito ou questionado nas entrelinhas a respeito destes homens doentes que
chegaram: como eles desenvolveram estes vírus no trajeto?
Foram as precárias condições? Foi o stress impregnado na carne de cada um deles por estarem
a ponto de fazer algo completamente novo com pouca ou nenhuma ideia do que iriam
encontrar? Foi a ansiedade exacerbada de auto defesa? Foi um ressentimento mal-resolvido
por ter que seguir ordens de mamífero-humanos hierarquicamente muito acima de seus
postos que por algum motivo, não estavam dentro destes barcos imundos e fedorentos,
esperando para serem mortos?

Existem coisas que podem ter relação com o desenvolvimento de um “desequilíbrio” biológico
interno que fez com que o corpo deste mamífero-humano respondesse de forma tão agressiva
a estes estímulos externos. Desencadeando o corpo doente em si.

Este corpo doente chega em terra firme moribundo, compartilhando com o outro corpo que
tinha o hábito do banho diário e vivia em um ambiente saudável, este vírus tão europeu
chamado por nós atualmente, de gripe.

Pronto, está feito o contato. Eu diria até, pronto, está feita a merda. O leite já foi derramado, e
ninguém vai limpar não porque o solo já absorveu este líquido. Já está nele nesse momento.

A partir daí o leitor pode pensar e refletir em coisas realmente ruins que sucederam nesta
terra a partir da chegada destes homens doentes, desde 1492 até nosso momento atual, o ano
de 2020. Quinhentos e vinte e oito anos se passaram desde este episódio.

Segunda parte

Como nos fala o dito popular “a história se repete” e hoje temos então, este vírus gripal que
assola o mundo e tem matado populações indígenas na terra Abya Yala de hoje de forma tão
brutal como aconteceu há 528 anos atrás, e na realidade, nunca parou de acontecer.

Ouvimos dizer de pesquisadores da Zoological Society of London, que os morcegos (que são
mamíferos, você lembra?) estressados pelo desmatamento de seu habitat e por serem
encarcerados em jaulas, podem ter desenvolvido uma sobrecarga tão grande que pelo contato
direto com o outro mamífero, o humano, levou à este, um pequeno presente, invisível a olho
nu. Sim, este mesmo, o vírus gripal. Não o mesmo que veio com os europeus naquele fatídico
ano de 1492, mas um outro vírus, adaptado ao contexto do mundo globalizado que o
mamífero-humano tanto gosta.
Este novo mundo, mais conectado, que junta pessoas de pontos distintos em uma mesma tela
de celular.

Estes somos nós, esta é a nossa nova realidade.

Terceira parte

Dentro de seu quarto em uma cidade abaixo da linha do Equador, neste mesmo continente
Abya Yala, um ser humano se pergunta qual a relação entre estes acontecimentos.
Volta, na sua cabeça, no tempo, num tempo em que sequer existia.
Vê vídeos de um intelectual indígena que lhe ensina fatos e aspectos práticos de um processo
que se instalou aqui, chamado colonialismo.
Pensa na relação deste processo exploratório de humanos e floras em detrimento de uma
parcela muito pequena de pessoas que nem aqui viviam.
Pensa nas consequências disso.
Pausa para digerir.

O mundo seguiu seu rumo, não existe espaço para condescendência.