Você está na página 1de 24

24

AULA
Microfilamentos

Ao final desta aula, você deverá se capaz de:


objetivos

• caracterizar os microfilamentos e sua proteína


formadora, a actina;
• descrever a dinâmica de polimerização dos
microfilamentos;
• listar e definir os principais tipos de movimentos
celulares;
• caracterizar as principais estruturas celulares
formadas por microfilamentos;
• relacionar as principais proteínas acessórias da actina
a suas funções específicas;
• relacionar as principais drogas que interagem com a
actina e seus efeitos.
Biologia Celular I | Microfilamentos

INTRODUÇÃO Como vimos na aula 21, todos os microfilamentos são formados pela proteína
actina. Os microfilamentos estão associados a vários fenômenos celulares. O
mais conhecido talvez seja a contração muscular, mas também dependem
destes filamentos a adesão das células à matriz extracelular ou a substratos,
a separação das células-filhas ao final da divisão celular, a preservação da
estrutura das microvilosidades intestinais, os movimentos amebóides e muitos
outros processos celulares (Figura 24.1).

microvilosidades
anel contrátil
c Figura 24.1: Filamentos
a de actina participam na
separação de (a) células em
divisão, (b) no preenchi-
mento de microvilosidades
fibras de intestinais e (c) na adesão
tensão de células.
b

LEVEDURA
CARACTERÍSTICAS DA ACTINA
Forma do ciclo
de vida de alguns A actina está presente em todas as células eucariontes, sendo
fungos. O fermento
de pão e a Candida uma proteína muito conservada, isto é, sua seqüência de aminoácidos
albicans, causadora
do “sapinho”, são é muito semelhante em organismos filogeneticamente bem distantes,
leveduras. como fungos e animais. De acordo com o tipo celular, a actina pode

ISOFORMA corresponder a até 20% do peso seco da célula, como é o caso das
Pequenas variações células musculares. Eucariontes mais simples, como as LEVEDURAS,
de uma molécula
que podem resultar possuem apenas um gene para actina. Já os mamíferos possuem
de modificações
sutis na cadeia
vários genes para actina e ainda produzem várias ISOFORMAS dessa
primária, como a molécula. Pelo menos seis formas de actina já foram descritas. As mais
substituição de um
aminoácido, ou o importantes são a actina α, presente em células musculares, e a actina
acréscimo de um
grupamento, como β, encontrada em células não musculares. Além dessas ainda existe a
um acetil ou um
metil. actina γ, também em células não musculares.

46 CEDERJ
24 MÓDULO 4
ESTRUTURA DOS MICROFILAMENTOS Figura 24.2: (a) Embora a
actina G seja uma proteína
globular, ela aprisiona a
Seguindo a “estratégia” fundamental molécula de ATP n uma

AULA
região específica. (b) Con-
para formação de filamentos, os microfilamentos forme os monômeros de
actina G se ligam, forma-
são formados pela ligação de várias moléculas se um filamento. Cada
monômero é adicion ado
de actina, formando longos filamentos de sempre na mesma posição,
8nm de espessura (Figura 24.2), ou seja os conferindo uma polaridade
específica ao filamen to.
microfilamentos também são polímeros. A A extremidade oposta à
molécula de ATP é a extremi-
actina no seu estado monomérico é chamada de dade positiva ou plus.
actina G (de globular) e, quando incorporada
ao microfilamento, de actina F (de filamentosa).
Dois monômeros de actina só se encaixam em
uma determinada posição. O resultado disso é
a b
que o filamento de actina se torna polarizado,
isto é, as extremidades são diferentes.

Filamento polarizado ⇒⇒⇒⇒⇒⇒⇒⇒⇒⇒


Filamento não polarizado ⇔⇔⇔⇔⇔⇔⇔⇔⇔⇔
Quando um filamento é polarizado, ele possui uma “direção”.

Novos monômeros podem ser


adicionados (ou removidos) de qualquer
uma das extremidades do filamento, desde
lado minus
que na posição correta, mas existe maior
probabilidade de incorporação de novos
monômeros a uma das extremidades,
que é chamada de positiva, ou plus. Esta
extremidade de crescimento está, em geral,
voltada para a membrana plasmática.
Como você também pode observar na
Figura 24.3, cada molécula de actina G possui
em seu interior uma molécula de ATP. Ela é
lado plus importante para a manutenção da estrutura da
Figura 24.3: Estrutura da molécula de actina molécula. Sem o ATP em seu interior, a actina
baseada em análise de difração por raios X
se desnatura (perde a forma característica da
(A). No centro da molécula (seta) está o sítio
de ligação do ATP. molécula) rapidamente. Quando a actina G
se incorpora ao filamento, hidrolisa o ATP,
formando ADP, que fica “aprisionado” no
filamento (Figura 24.2).

CEDERJ 47
Biologia Celular I | Microfilamentos

A POLIMERIZAÇÃO DINÂMICA

Comparada, em termos quantitativos, à maioria das proteínas


citoplasmáticas, a actina é uma das principais proteínas celulares. Parte
dessa actina se encontra na forma não polimerizada (actina G) e a outra
parte, na forma de microfilamentos (actina F).
É necessária uma concentração citoplasmática mínima de
moléculas de actina G, chamada concentração crítica, para que os
microfilamentos se formem. Um novo microfilamento tem início pela
formação de um núcleo. Para que esse núcleo se forme são necessárias
pelo menos duas outras proteínas relacionadas à actina, as ARPs (actin
related proteins) do tipo 2 e do tipo 3. Essas moléculas são relativamente
parecidas com a actina e se associam formando um complexo ARP 2-3
ao qual moléculas de actina G passam a se associar, formando um novo
filamento (Figura 24.4).

Complexo Arp 2 - 3

Monômeros incorporados
ao núcleo formado por
Arp2 e Arp3 Complexo
Arp 2-3
Figura 24.4: O microfilamento se forma a
partir do complexo formado pela Arp 2 e
pela Arp 3. O filamento cresce na direção
da extremidade plus, pela incorporação de
novos monômeros de actina.

PARADINHA ESPER TA
Nesta altura, você deve estar achando que microfilamentos e
microtúbulos compartilham muitas características. De fato, ambos
resultam da polimerização de proteínas e formam filamentos
polarizados e dinâmicos. Embora a estratégia de formação de
ambos seja semelhante, tubulina e actina são proteínas comple-
tamente distintas e os filamentos por elas formados possuem
características de flexibilidade e resistência muito diferentes.

48 CEDERJ
24 MÓDULO 4
Normalmente a concentração citoplas-
mática de actina G é muitas vezes superior

AULA
à concentração crítica (necessária para dar
início a um novo microfilamento). Isto, em
tese, poderia acarretar a total polimerização
da actina da célula. Entretanto, isto não ocorre, Sítio de ligação ao Timosina ligada ao
filamento de actina monômero de actina
poque a actina citoplasmática fica protegida
por uma pequena proteína, a timosina que se Figura 24.5: A timosina impede
mantém ligada aos monômeros, impedindo que o monômero a ela ligado se
incorpore a um microfilamento.
sua incorporação à extremidade positiva do
filamento (Figura 24.5).

Já a profilina é outra proteína que se liga ao monômero de actina,


competindo com a timosina, mas tem características diferentes dela: a
profilina se liga à região da molécula oposta ao ATP (Figura 24.6) e é
capaz de responder a estímulos de sinalização, como a picos de AMPc,
por exemplo. A actina ligada à profilina fica estimulada a se associar
à extremidade plus de um microfilamento. Assim, indiretamente, o
crescimento da extremidade plus (e, conseqüentemente, do filamento)
Figura 24.6: A profilina
liga-se à actina do lado é estimulado. Assim que o complexo actina-profilina se incorpora ao
oposto ao ATP.
filamento, a actina muda de conformação e libera a profilina.

Geralmente, a profilina se localiza junto à membrana plasmática


e, em resposta a estímulos do meio ambiente, promove o crescimento
de filamentos de actina em direção à membrana, empurrando-a. Note
que um monômero de actina ou se liga à timosina, ou à profilina, nunca
às duas moléculas ao mesmo tempo. O balanço entre as moléculas de
actina G ligadas a uma ou outra proteína resulta na instabilidade
dinâmica dos microfilamentos. Da mesma forma que os microtúbulos,
os microfilamentos estão constantemente se alongando e encolhendo.
Mais que isso, mesmo que o comprimento de um microfilamento pareça
inalterado, constantemente algumas subunidades de actina se soltam
na extremidade menos enquanto novas subunidades se incorporam à
extremidade positiva.

CEDERJ 49
Biologia Celular I | Microfilamentos

A dinâmica de polimerização dos microfilamentos pode ser comparada à fila que


enfrentamos para assistir a um bom filme ou partida de futebol: os primeiros a
chegar (núcleo) vão fazendo com que a fila cresça. Quando a bilheteria é aberta,
os primeiros começam a comprar e a sair da fila, mas essa permanecerá longa se
mais gente for chegando; entretanto, aqueles que estavam atrás cada vez mais
se aproximarão da bilheteria. Se todas as pessoas da fila conseguirem comprar
seu ingresso, após algum tempo a fila terminará. Acompanhe o raciocínio no
esquema abaixo.

Fim da fila primeiro da fila

Se a fila anda, mas continua entrando gente na mesma:

Todos chegarão a ser o primeiro da fila, mas ela ficará do mesmo tamanho.
Se a fila anda e pára de entrar gente :

Você também chega a ser o primeiro da fila, mas a fila acaba!

MUITOS MOVIMENTOS CELULARES DEPENDEM DE ACTINA

Vimos na aula sobre microtúbulos que algumas células se


deslocam pela ação de cílios e flagelos. Os microtúbulos também são
responsáveis por guiar os cromossomas para as células filhas durante a
divisão celular e pela distribuição de organelas celulares, como retículo,
complexo de Golgi e mitocôndrias. Por outro lado, a contração
muscular (que estudaremos em Biologia Celular II), o movimento
amebóide e o estrangulamento final que separa as duas células filhas
após a divisão, dependem da participação de microfilamentos.
Ao se deslocar numa determinada direção, as células
emitem prolongamentos de seu citoplasma que podem ser lobulares
(lobopódios), lamelares (lamelipódios) ou filamentosos (filopódios)
(Figura 24.7). Todos resultam da incorporação de novos monômeros
de actina na extremidade voltada para a membrana plasmática de
microfilamentos já existentes (Figura 24.8).

50 CEDERJ
24 MÓDULO 4
Estarão disponíveis, na plataforma ou no pólo,

AULA
vídeos mostrando a relação entre a incorporação de
monômeros de actina ao filamento e os movimentos
celulares; em caso de dúvida, consulte o tutor.

Figura 24.7: Lamelipódios (L) e filopódios (F) são forma-


dos sob a membrana plasmática pela polimerização de
filamentos de actina. Foto de Márcia Attias.

Figura 24.8: Novos monômeros de actina (pontilhado) se


incorporam à extremidade plus dos microfilamentos preexis-
tentes, empurrando a membrana plasmática e sustentando
o deslocamento da célula naquela direção (seta).

CEDERJ 51
Biologia Celular I | Microfilamentos

LOBOPÓDIOS, LAMELIPÓDIOS OU FILOPÓDIOS? AS


PROTEÍNAS ASSOCIADAS À ACTINA

Embora a morfologia de lamelipódios, fiopódios e lobopódios


seja bem distinta, todos são constituídos por microfilamentos. O que
faz com que um mesmo tipo de proteína possa formar estruturas tão

Figura 24.9: Os micro-


distintas, ainda que associadas a funções semelhantes? Assim, como
filamentos podem formar os microtúbulos, os microfilamentos se associam a proteínas que
arranjos em feixes paralelos
(a e b) ou em redes cruzadas lhes conferem diferentes propriedades. Estas proteínas permitem que
(c). Nos feixes os filamentos
podem ter todos a mesma os microfilamentos formem redes ou feixes paralelos (Figura 24.9),
orientação (a) ou não (b),
como indicam as cabeças capazes de suportar grandes tensões e de rapidamente se desmontarem,
de seta. dando origem a novos feixes, em outro ponto da célula.

a
A bB Cc

Cada um desses arranjos resulta da associação da actina com


diferentes proteínas, das quais as mais comuns são: α-actinina (Figura
24.9B), fimbrina (Figura 24.9A) e filamina (Figura 24.9C).
A α-actinina e a fimbrina formam pontes entre dois filamentos de
actina, dando origem a feixes paralelos (Figura 24.10). Essas proteínas
funcionam como espaçadores, mantendo eqüidistantes os filamentos do
feixe. Observando a Figura 24.10, vemos que a α-actinina mantém os
microfilamentos mais distanciados que a fimbrina.

Actina e α-actina Actina e fimbrina

Figura:24.10: A α-actinina d
mantém uma distância (D)
entre os microfilamentos
d
maior que a fimbrina(d).
Isso permite que outras
proteínas se insiram entre
os filamentos.

52 CEDERJ
24 MÓDULO 4
Não é difícil concluir que os feixes formados pela fimbrina são finos
e compactos, como os encontrados nas microvilosidades (Figura 24.11).

AULA
Figura: 24.11 as microvilosidades
(A) são sustentadas por um feixe
interno de microfilamentos asso-
ciados a fimbrina.

Fimbrina

proteínas que ligam membrana extremidade plus dos


os microfilamentos plasmática microfilamentos
à membrana

Já a α-actinina permite um espaçamento maior entre os


microfilamentos. Por isso mesmo, outras proteínas podem se inserir,
dando origem a outras estruturas. A α-actinina é encontrada em muitas
células, formando feixes capazes de suportar tensões, promovendo assim
a adesão dessas células ao substrato (Figura 24.12). Por isso mesmo
esses feixes são chamandos fibras de tensão ou stress fibers, no original
em inglês. Também é essa proteína que mantém o espaçamento regular
entre os filamentos de actina nas células musculares esqueléticas, sobre
as quais você saberá mais em Biologia Celular II. Na Figura 24.12, os
locais marcados na célula correspondem aos arranjos de filamentos
da Figura 24.9: os filopódios ao arranjo apertado da Figura 24.9B, o
córtex celular ao arranjo entrecruzado da Figura 24.9C e as fibras de
tensão ao arranjo paralelo da Figura 24.9A.

CEDERJ 53
Biologia Celular I | Microfilamentos

a
A

fibras de tensão
filopódio
córtex celular

B
b

CITOPLASMA

MATRIZ EXTRACELULAR

Cc

filamento de Figura 24.12: As fibras de tensão promovem a


CITOPLASMA

actina adesão das células a uma superfície (a). Em (b)


α-actinina vemos que elas são formadas por feixes de actina
associados a outras proteínas e espaçados por
α-actinina. Em (c), detalhamento de um dos fila-
mentos da fibra e as proteínas a ele associadas,
fazendo ligação com o meio extracelular.
vinculina
paxilina
talina
integrina
fibronectina
MATRIZ

50 nm

54 CEDERJ
24 MÓDULO 4
A filamina também é uma proteína que interliga filamentos de actina,
mas, ao invés de formar pontes entre filamentos dispostos em paralelo, os

AULA
filamentos ligados por essa proteína formam uma rede (Figura 24.13).

Dímero de filamina

Figura 24.13: A filamina forma dímeros


cuja distância entre as extremidades que
se ligam ao filamento de actina permite
a formação de redes de filamentos que
se entrecruzam.

Na verdade, o que determina se a ligação à actina de cada uma dessas


proteínas dará origem a feixes paralelos, redes ou mesmo se conectará
o microfilamento à membrana plasmática é conseqüência de sua forma
e tamanho (Figura 24.14).

fimbrina
α-actinina

filamina
50 nm

Figura 24.14: Enquanto a fimbrina possui apenas


um sítio de ligação para actina, a α-actinina, por
formar um dímero, pode ligar simultaneamente
dois filamentos, assim como a filamina, onde o
espaçamento e flexibilidade do dímero permitem
a ligação de filamentos entrecruzados.

CEDERJ 55
Biologia Celular I | Microfilamentos

Uma célula aderida precisa soltar do substrato para poder se


deslocar, mas se ela soltar todos os pontos de contato ao mesmo tempo
vai ficar boiando! Assim, ela precisa soltar apenas alguns contatos
com o substrato na região próxima à direção de migração. A célula
faz isso despolimerizando nesses locais filamentos de actina associados
à α-actinina (como os da Figura 24.12B) e polimerizando novos
microfilamentos mas agora associados à fimbrina para formar filopódios
que vão explorar o caminho. Caso a célula se decida a realmente ir
nessa direção, vai precisar estabelecer novos contatos com o substrato
e eles têm de ser sustentados por fibras de tensão para agüentar a tração
de puxar o resto da célula para a frente (Figura 24.15).

córtex filopódio substrato

actina nova polimerizando


para estender o filopódio

movimento de actina não polimerizada

novos contatos focais se


estabelecendo

Figura 24.15: Movimento de uma célula


aderida ao substrato.

56 CEDERJ
24 MÓDULO 4
AULA
Do caldeirão da bruxa

Algumas moléculas se ligam de forma específica à actina e impedem a dinâmica


normal de polimerização-despolimerização dos microfilamentos, sendo, portanto,
tóxicas para as células.
A faloidina é uma dessas substâncias. Extraída do cogumelo Amanita phaloides, a
faloidina forma ligações laterais com os filamentos de actina, estabilizando-os. Enve-
nenamentos com esse cogumelo (que pode ser confundido com espécies comestíveis)
são tratados dando-se carne crua ao paciente. A actina contida na carne se liga a esta
toxina e impede sua absorção. A faloidina é muito útil no estudo dos microfilamen-
tos em laboratório, tanto pelo seu poder de estabilizar os microfilamentos – e com
isso ser capaz de estabelecer se os mesmos participam de certos processos celulares
– quanto pela possibilidade de visualizar os microfilamentos, tornando-os fluorescen-
tes pela ligação à falacidina, um derivado fluorescente da faloidina.
A citocalasina também é uma toxina derivada de um fungo, capaz de ligar-se especifi-
camente à actina. Difere da faloidina por ligar-se especificamente aos monômeros da
actina, impedindo assim sua adição aos microfilamentos. Devido à dinâmica de poli-
merização-despolimerização, os microfilamentos acabam sendo todos despolimeriza-
dos, levando a célula a arredondar-se e desprender-se do substrato.
Embora atuem de maneiras diferentes, tanto a citocalasina quanto a faloidina impe-
dem a participação dos microfilamentos em fenômenos celulares como o movimento
amebóide e a fagocitose de partículas. Seriam os Amanitas os cogumelos venenosos
das bruxas más?

OUTRAS ESTRUTURAS LIGADAS À ACTINA

As hemácias humanas (Figura 24.16) são células que durante


o processo de diferenciação perdem o núcleo e todas as organelas e
membranas internas. Seu formato característico de disco bicôncavo
é dado pelo citoesqueleto associado à face interna de sua membrana
plasmática. Nessas células, os filamentos de actina são curtos e a
membrana se sustenta numa rede formada pela proteína espectrina
(Figura 24.16). Esta arquitetura permite a distribuição homogênea das
proteínas da membrana da hemácia e garante sua flexibilidade, fazendo
com que ela possa se deformar para atingir os capilares mais finos.

CEDERJ 57
Biologia Celular I | Microfilamentos

Figura 24.16: As hemácias (A) mantêm seu for-


mato bicôncavo graças a uma rede interna de
espectrina (B), que se liga a filamentos curtos
de actina. Estes filamentos, por sua vez, asso-
ciam-se a proteínas transmembrana da hemá-
cia, garantindo sua distribuição homogênea em
toda a membrana. O esquema B representa a
face citoplasmática da membrana da hemácia.

5µm

Espectrina
(dímero)

Actina (filamento
muito curto

Anquirina
Banda 3
Glicoforim Banda 4.1

50 nm

Curiosidade fantasmagórica

A hemácia foi o modelo de estudo da membrana plasmática que ajudou a produzir a


maioria dos conhecimentos básicos sobre essa estrutura. Geralmente, antes de iniciar
os experimentos, as hemácias eram delicadamente rompidas apenas para vazar o
conteúdo de hemoglobina que atrapalhava bastante as análises. Depois do esvazia-
mento, a membrana da hemácia tornava a fechar e a hemácia esvaziada passava a
ser chamada ghost (fantasma). Quando o citoesqueleto sob a membrana foi desco-
berto, suas proteínas foram analisadas por eletroforese e numeradas; algumas são
conhecidas pelo número até hoje, apesar de importantes, como a banda 3, principal
transportadora de cloreto, ou a banda 4.1, que ancora o citoesqueleto à membrana;
mas a mais abundante foi batizada de “a proteína do fantasma”: espectrina.

58 CEDERJ
24 MÓDULO 4
Traída pela própria actina: a estratégia da Listeria monocytogenes

AULA
A bactéria patogênica Listeria monocytogenes, responsável por um tipo grave de intoxi-
cação alimentar, desenvolveu uma estratégia particular para movimentar-se dentro
das células que invade. Inicialmente, a bactéria é englobada pela célula hospedeira
em um vacúolo, do qual rapidamente escapa para o citoplasma. Embora não possua
estruturas locomotoras, a bactéria é capaz de formar em uma de suas extremidades
uma cauda de filamentos de actina que, ao crescer, funciona como a cauda de um
foguete, empurrando-a pelo citoplasma. Eventualmente, a cauda de actina acaba
empurrando a Listeria na direção da membrana plasmática, levando-a a invadir as
células vizinhas, onde se multiplicará e repetirá a estratégia de escape. Acompanhe
as principais etapas desse processo na Figura 24.17. Um vídeo documentando este
curioso fenômeno também estará à sua disposição na plataforma.

bactéria
livre

fagocitose

a bactéria
escapa

formação da
cauda da actina

b
a bactéria
induz uma
projeção
Figura 24.17: Esquema (a) e fluorescência (b) de uma
célula parasitada pela bactéria Listeria monocitogenes.
(Foto: Tim Mitchinson e Julie Theriot)

Célula vizinha fagocita a


projeção contendo a bactéria

CEDERJ 59
Biologia Celular I | Microfilamentos

OS MICROFILAMENTOS PODEM SE FRAGMENTAR


RAPIDAMENTE

Assim como algumas substâncias são capazes de estimular o


rápido crescimento dos microfilamentos, determinadas circunstâncias
provocam sua súbita fragmentação. É o que acontece quando a
proteína citoplasmática gelsolina se liga a Ca++. Nessas condições
há uma imediata fragmentação dos microfilamentos, provocando o
desaparecimento de estruturas mantidas por eles. Em algumas células,
observa-se que, quando a maior parte da actina se encontra na forma
filamentosa, o citoplasma adquire uma consistência gelatinosa, sendo
esse estado chamado gel. Quando a actina se encontra fragmentada,
diz-se que o citoplasma está no estado sol. A constante transição
entre os estados sol e gel de certas regiões periféricas do citoplasma é
fundamental para o deslocamento da célula num substrato. Quando a
célula é tratada com citocalasina (vide box), o citossol tenderá a ficar
no estado sol. Já a faloidina levará ao estado gel.

OS MICROFILAMENTOS E OS MOVIMENTOS CELULARES:


PROTEÍNAS MOTORAS

A simples polimerização-despolimerização de microfilamentos


não é suficiente para justificar a participação dos mesmos em fenômenos
como a contração muscular ou o estrangulamento das células-filhas
após a mitose. Estes eventos requerem, além de proteínas estruturais
que mantenham as conexões entre microfilamentos e destes com a
membrana plasmática, as chamadas proteínas motoras. As proteínas
motoras associadas aos microfilamentos pertencem a uma mesma
família: as miosinas.
Todas as miosinas são capazes de hidrolisar ATP a ADP e
fosfato inorgânico (Pi) quando se associam a microfilamentos. Durante
o processo, a molécula de miosina promove o deslocamento do
microfilamento. Este movimento pode ser registrado quando se reveste
uma lâmina com moléculas de miosina e microfilamentos marcados com
uma substância fluorescente e ATP são adicionados. Ao microscópio de
fluorescência os microfilamentos se deslocam de um lado ao outro da
lâmina. Um clipe deste experimento se encontra disponível no pólo.

60 CEDERJ
24 MÓDULO 4
A superfamília das miosinas engloba várias subfamílias. Dessas,
as mais importantes são as miosinas I, II e V. Evolutivamente, a miosina

AULA
I é mais primitiva e acredita-se que tenha dado origem à miosina II e
todas as outras. A miosina I também é chamada miosina não muscular
e é o tipo mais abundante na maioria das células. Já a miosina II é
característica das células musculares. A miosina V foi descoberta mais
recentemente e é responsável pelo transporte de vesículas ao longo
de microfilamentos. Tanto a actina quanto a miosina foram primeiro
descritas em células musculares.
Todas as miosinas possuem uma região da molécula conservada,
é o chamado domínio motor. Trata-se de uma região globular onde a
hidrólise do ATP a ADP e Pi é catalisada. A hidrólise do ATP provoca
uma modificação na posição relativa entre a miosina e o microfilamento
que lhe esteja próximo que leva à liberação do Pi. Deste ponto em
diante, a ligação entre actina e miosina se fortalece, ao mesmo tempo
que uma região flexível logo abaixo da cabeça globular da miosina se
deforma, fazendo com que a miosina acabe por puxar o filamento de
actina ao qual inicialmente havia se ligado. A dinâmica do processo
está esquematizada na Figura 24.18.

CEDERJ 61
Biologia Celular I | Microfilamentos

Figura 24.18

Filamento de actina
minus

Uma molécula de ATP se liga ao


domínio globular da molécula de
Cabeça da miosina miosina.

A hidrólise do ATP produz ADP e Pi


e muda o ângulo entre a cabeça e a
cauda da miosina, fazendo com que o
domínio globular da miosina se aproxi-
me do filamento de actina.
Filamento espesso de
miosina II

A liberação do Pi favorece a ligação


entre actina e miosina.

A liberação do ADP provoca uma


flexão da molécula de miosina que
puxa o filamento de actina ligado a
ela.

A associação entre actina e miosina só


se desfará com a ligação a uma nova
molécula de ATP, permitindo o reinício
do ciclo.

62 CEDERJ
24 MÓDULO 4
Além do domínio motor, todas as miosinas possuem uma
cauda que pode manter a molécula ligada à membrana ou a outro

AULA
filamento (Figuras 24.19 e 24.20). No caso da miosina I, a cauda é
bastante curta; já a miosina II é um dímero em que as duas caudas se
entrelaçam de modo que os domínios globulares se posicionem em uma
das extremidades da molécula (Figura 24.19). Na miosina V, a porção
flexível da molécula é mais longa, permitindo que seu passo seja maior
do que o da miosina II.

Miosina I

Miosina II

Miosina V

(A)
a

(B)
b cauda cadeias
leves
Cabeças
2 nm globulares

150 nm

Figura 24.19 (a): Esquema comparativo das moléculas de miosina I, II e V. As setas apontam a região flexível da
molécula, que se dobra para produzir o deslocamento do filamento de actina. Na miosina V, a distância entre
as cabeças globulares é maior, permitindo um deslocamento maior que o da miosina II. (b) Detalhamento da
organização da molécula de miosina II. Na região globular da molécula, estão localizados tanto os sítios catalíticos
para a hidrólise do ATP quanto a região que se liga ao filamento de actina.

CEDERJ 63
Biologia Celular I | Microfilamentos

aa Miosina V

vesícula

b
Miosina II

cc
Miosina I

Membrana plasmática

Figura 24.20: A miosina pode provocar (a) movimento de uma vesícula por
sobre um filamento, (b) o deslizamento antiparalelo de dois filamentos
de actina, ou (c) prender-se à membrana e puxar um microfilamento. O
sinal de + indica a extremidade plus do filamento de actina.

Da interação actina-miosina dependem algumas atividades


essenciais do ciclo celular. Assim, o estrangulamento que separa as
células-filhas após uma divisão é resultante de um anel de contração
formado por feixes de actina que deslizam uns em relação aos outros
diminuindo o diâmetro do anel e trazendo consigo a membrana. Desse
processo participam, além da actina, miosina II e proteínas que ligam o
feixe de actina à membrana plasmática (Figura 24.21).

Figura 24.21: O estrangu-


anel contrátil lamento que resultará na
separação das células ao
final da divisão depende
de um anel contrátil de
actina e miosina. Foto de
Marcia Attias.

64 CEDERJ
24 MÓDULO 4
PERMANENTES OU TRANSITÓRIAS: AS ESTRUTURAS
FORMADAS POR MICROFILAMENTOS

AULA
Enquanto nas células musculares os microfilamentos e a miosina
a eles associada formam um arranjo estável, o anel de contração é uma
estrutura transitória, que se forma apenas ao final da divisão celular. Em
células que aderem ou se deslocam num substrato, feixes de filamentos
de actina estão sempre se formando e se associando a complexos de
adesão localizados na membrana plasmática. São os contatos focais
(Figura 24.22). Os contatos focais, por estarem associados às fibras de
tensão, conferem à célula uma resistência que a membrana plasmática
(composta essencialmente por uma bicapa fluida de lipídeos) por si só
não seria capaz de proporcionar. Estas regiões de adesão se reorganizam
de forma dinâmica, conforme mostrado na Figura 24.15, permitindo a
adesão, sem impedir o deslocamento da célula.

Figura 24.22: Iluminadas pelo sistema de


contraste de fase, é possível ver como
se distribuem as fibras de tensão numa
célula aderida a um substrato. As áreas
escuras correspondem aos contatos
focais, regiões onde os feixes de fibras
se ancoram.(foto: Grenham Ireland)

CONCLUSÕES

Os microfilamentos são certamente um dos mais versáteis


componentes celulares. De acordo com as proteínas a que se associem
podem formar estruturas completamente diferentes e desempenhar uma
enorme diversidade de funções. Esses componentes do citoesqueleto
estão presentes tanto nos eucariontes animais quanto em vegetais
e fungos. Processos fundamentais como a contração muscular, o
movimento e a adesão celular, o englobamento de partículas e a
separação de células ao fim da mitose são todos dependentes desses
filamentos. Igualmente notáveis são as miosinas, proteínas motoras
que interagem com a actina. A seguir, inserimos uma tabela onde as
principais características da actina e das proteínas a ela associadas
estão relacionadas.

CEDERJ 65
Biologia Celular I | Microfilamentos

Tabela 24.1
Forma, tamanho e Associação com a
Função da proteína Exemplo peso molecular actina

50 nm 370 x 43 kD/µm
Forma filamentos Actina

Fortalece o Tropomiosina
2 x 35 kD
filamento
14nm
Forma feixes a partir 68 kD
Fimbrina
dos filamentos
Forma feixes a partir 40nm
dos filamentos
α-actinina 2 x 100 kD

Forma ligações cruza- Filamina 2 x 270 kD


das entre filamentos
Ca2+
Fragmenta filamentos Gelsolina 90 kD

Desliza filamentos Miosina II 2 x 260 kD


ATP
Move filamentos ou ATP
Miosina I 150 kD
vesículas 2 x 265 kD plus 2 x 260 kD
β
Associa a ponta dos fila- Espectrina
α

mentos à membrana β α

Seqüestra monômeros Timosina


5 kD
de actina

66 CEDERJ
24 MÓDULO 4
RESUMO

AULA
Os microfilamentos são filamentos formados por monômeros da proteína
actina. São estruturas polarizadas, sendo a extremidade plus a que cresce
mais rapidamente e a minus a de crescimento mais lento.Os microfilamentos
são nucleados a partir de três monômeros de actina que se combinam a
outras proteínas relacionadas à actina. Geralmente, as extremidades plus
do filamento ficam voltadas para a periferia celular.

A incorporação de um monômero de actina a um microfilamento em


crescimento leva à hidrólise de uma molécula de ATP aprisionada no
monômero de actina.

Os microfilamentos são dotados de instabilidade dinâmica, crescendo


e encolhendo a todo momento, redirecionando, assim, a forma e o
deslocamento da célula.

Os microfilamentos podem estar associados a proteínas acessórias que


aumentam sua estabilidade através da formação de pontes entre as
subunidades de actina. A tropomiosina (veja tabela 24.1) é uma dessas
proteínas. A faloidina, embora seja uma toxina, também estabiliza os
microfilamentos.

As miosinas são proteínas que se associam aos microfilamentos e são capazes


de promover o deslizamento entre eles ou o transporte de organelas e
vesículas através do citoplasma, utilizando-os como trilhos.
Filopódios e lamelipódios são estruturas motoras de protozoários e tipos
celulares como fibroblastos, microfilamentos e proteínas acessórias estruturais
e motoras.

Várias drogas interferem com a dinâmica de polimerização e despolimerização


dos microfilamentos e muitas delas são usadas na pesquisa.

CEDERJ 67
Biologia Celular I | Microfilamentos

AVALIAÇÃO

1. O que é um microfilamento?

2. Qual a relação do ATP com o crescimento de um microfilamento?

3. O que você entende por instabilidade dinâmica? Como caminha uma molécula de
actina em um microfilamento?

4. Existe um centro organizador de microfilamentos?

5. De que depende a nucleação de um novo microfilamento?

6. Como atuam as drogas faloidina e citocalasina?

7. A que funções ou estruturas celulares estão relacionados os microfilamentos?

8. O que são fibras de tensão?

9. Como se organiza o anel de contração das células que se dividem?

10. Como atuam as miosinas?

68 CEDERJ

Você também pode gostar