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A EVOLUÇÃO
DUAS OPÇÕES FORÇADA
DE LEITURA DA REVISTA Uma investigadora
portuguesa está a estudar a
Pode escolher resposta dos animais para se
adaptarem às mudanças
como prefere ler provocadas pelo
aquecimento global
a edição semanal: LUÍS RIBEIRO

em formato pdf, Diana Madeira quer saber se as


alterações climáticas podem acabar com
com primazia uma espécie de minhocas marinhas do
género científico Ophryotrocha.
Olhando para elas, uns vermes
para o grafismo, ou minúsculos que mais parecem
centopeias viscosas, é fácil pensar que a

em formato de texto, sua extinção, seja por que razão for, não
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do mais de 2 700 metros
vezes, perfazendo
confortável dos artigos ados
do na
de altura escalados
em
também no Yosemite,
n vertical. Em 2012,
fez subidas
“E Cap”, da Half Dome
consecutivas do “El
ou caixas completos, kin as três mais altas
e do Monte Watkins,
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elevações do parque, p 2 133
basta carregar. me
metros verticais em menos de 19 horas.
oi com David Allfrey,
E dois anos depois,
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subiu sete rotas diferentes
Pode escolher o corpo s. N
“El Cap”, em sete dias.
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No México, em
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2015, escalou o Sendero Lu –

de letra mais adaptável 500 metros de rochaha no


n Parque
P de
pen três horas,
Potrero Chico, em apenas
ni
quando muitas duplas de alpinistas
ao seu gosto p
demoram dois dias, com proteção. ção.

MPRE DIMEN
EMPREENDIMENTO ARRISCADO

NAVEGAÇÃO INTUITIVA Na origem de Free Solo está uma


amizade e a determinação em superar o
► Deslize para navegar que parece impossível. Alex Honnold e o
realizador Jimmy Chin também
entre páginas < ANTERIOR 33 / 102 SEGUINTE >

► Aproxime e afaste
para ver detalhes

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VISÃO
31 OUTUBRO 2019 / Nº 1391

10 Entrevista: Matthew Goodwin

RADAR
14 Imagens da semana
20 Raio X
22 A semana em 7 pontos
24 Holofote
25 Inbox
LUÍS BARRA

26 Almanaque
28 Transições
29 Próximos capítulos

FOCAR
56 Dulce Maria Cardoso: “A minha escrita é violenta
64 O caso do ajuste direto
da ministra da Agricultura
porque a vida é muito violenta”
Escreveu alguns dos romances mais importantes dos últimos anos
68 Menstruação na publicidade da literatura portuguesa e, desde abril, assina crónicas quinzenais
na VISÃO. Dulce Maria Cardoso teve uma vida cheia de peripécias
70 O refugiado afegão de Lisboa e de improbabilidades, sobre as quais não guarda segredo, nesta longa
para as Olimpíadas entrevista de vida

VAGAR
94 Os escritores adoram o Brexit
34 Quando a Natureza nos cura
Silêncio, paz, tranquilidade: desligue a ficha da rotina e volte a ligá-la
a ambientes selvagens, pois são estas as premissas para uma saúde
mental equilibrada. Saiba o que dizem os especialistas sobre a “cura”
VISÃO SETE pela Natureza e descubra os locais idílicos, onde pode passear e nem
sequer o telefone toca

46 Os juízes que saltaram para o Governo


Na Administração Interna, na Justiça e na Defesa: saiba quem são os juízes
que arrumaram a toga e se vestiram de políticos, e veja o que é de esperar
das suas atuações nas respetivas secretarias de Estado

101 Por terras beirãs: aldeias


históricas, passeios,
74 Imobiliário: Casa nova, vida nova
O atual momento de euforia no mercado imobiliário permite a realização
gastronomia e muito mais de grandes negócios. Casos de famílias que venderam bem o seu
pelo distrito de Castelo Branco apartamento na cidade e escolheram outras paragens para viver

OPINIÃO
6 Mia Couto Online W W W.V I S A O . P T
8 Rui Tavares Guedes Últimos artigos na BOLSA DE ESPECIALISTAS VISÃO
32 José Eduardo Martins
67 José Carlos de Vasconcelos
92 Luís Lima
100 Capicua
130 Ricardo Araújo Pereira Filipa Namora Sandra Duarte Tavares Eduardo Bastos
ARQUITETURA E INTERIORES LINGUÍSTICA PORTUGUESA MEDICINA DENTÁRIA
Faça acontecer! Cinco qualidades de O melhor dentista:
Interdita a reprodução, mesmo parcial, um líder de sucesso muito mais do que
de textos, fotografias ou ilustrações sob tratar dentes
quaisquer meios, e para quaisquer fins,
inclusive comerciais.
Todos os dias, um novo texto assinado por um dos 28 especialistas convidados

31 OUTUBRO 2019 VISÃO 3


LINHA DIRETA Correio do leitor

VISÃO História A China antes e depois de Mao


Quando se assinalam os 70 anos da fundação da
República Popular da China, 30 anos passados
sobre a tragédia de Tiananmen e 20 anos sobre a
entrega de Macau à China, chega às bancas um novo
número da VISÃO História cujo foco é precisamente
o antes e o depois do país onde nasceu o maoismo,
corrente ideológica que teve seguidores em todo Parabéns à VISÃO
o Ocidente, incluindo em Portugal. Uma extensa
cronologia sobre a história milenar do Império do por este trabalho de
Meio antecede os textos sobre as Guerras do Ópio,
o falhanço da primeira república, a construção
esclarecimento e alerta.
do comunismo, o corte com a URSS, a Revolução É de lamentar que
Cultural ou a Nova China de Xi Jinping. O politólogo
António Costa Pinto assina um perfil de Mao Tsé-
o Estado português continue
Tung, o ex-correspondente em Pequim António a não zelar pelos cidadãos
Caeiro analisa a China atual e o jornalista francês Eric Meyer descreve o banho
de sangue que presenciou em Tiananmen. Já o general Rocha Vieira, último
na saúde
Natália Silva, Corroios
governador de Macau, dá-nos uma perspetiva sobre o futuro do território.
Se não encontrar este número nas bancas, pode encomendá-lo através DULCE MARIA CARDOSO
da loja online da TIN (loja.trustinnews.pt) ou do telefone 21 870 5050. Que bom a Dulce Maria Cardoso ter-me
feito esta confissão (De Mulher para
Mulher, V1390). Obrigada.
Suzana Henriques, Viseu

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Povo curdo, perseguido, chacinado,

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cultura e diversão.
CLAQUES
Esta campanha é válida também para A decisão do presidente do Sporting
as outras marcas da família VISÃO – Saúde, de acabar com os apoios às claques
História, Júnior e Biografia – e outras publicações do clube é um ato de coragem, farto
da Trust in News: Exame, Courrier, de tanto parasitismo e intimidação.
Exame Informática, Jornal de Letras, Algumas claques de futebol deixaram
de ser um grupo de adeptos que apoia e
A Nossa Prima, Activa, Caras, Caras acompanha a equipa para se tornarem
Decoração e TV Mais. uma seita de malfeitores pronta a obter
Saiba mais em loja.trustinnews.pt/lereviver proveitos financeiros do clube, cujo estilo
de vida dos seus líderes não corresponde
aos rendimentos declarados.
Emanuel Caetano, Ermesinde

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4 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


MAPEADOR DE ILHAS

Guaparivás
POR MIA COUTO
ILUSTRAÇÃO: SUSA MONTEIRO

6 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


– Guaparivás. Apetece-lhe dizer que os guaparivás deixaram de co-
Sem mover o rosto, Juliana ergue os olhos para o pai. mer carne quando acabaram as visitas dos estrangeiros.
Há uma hora que está sentada na berma da cama. Tem o De novo, coíbe-se. Está cansado, morto de sono. Inspira
corpo dobrado, os olhos e os ombros descidos, parece um fundo: pai é pai. Além disso, começa a sentir um gosto
desembrulho. Espera, em vão, que o sono lhe chegue. quase antropológico pela tribo que acabara de descobrir.
Há uma semana que saiu de casa e do casamento. – Agora me lembro do princípio ativo, o ácido guapari-
Deprimida, sofrendo de insónias, vive como uma vânico. Foi o nome que deram os fabricantes, em home-
refugiada em casa dos pais. Não sei como vocês nagem aos índios.
conseguem dormir, diz ela como se lhe trouxesse alívio – Indígenas – corrige timidamente a mãe.
culpar os outros. E agora ali estão à sua frente o pai e a – Os guaparivás, aquilo é gente finíssima. Tudo
mãe, numa paciente mas impotente entrega. A tentativa ecológico. Comem bem, nada de radicais livres, nada
de ajuda produz o efeito oposto: a filha está à beira de um de açúcar. E, sobretudo, dormem bem. Havias de ver
ataque de nervos. fotografias. Elegantes, não há lá barrigudos como o teu pai.
– Não percebo, pai. Que palavra é essa? – Já não se usa o termo “barrigudo”.
– Guaparivás. Este remédio foi criado pelos guaparivás. – Ai não?
Uma tribo da selva amazónica. – O termo correto é “pessoas de perímetro abdominal
– Tribo, não, pai. São nações. excessivo”.
– De uma nação de índios. A mãe senta-se no leito, bem próximo da filha. Juliana
– Não são índios. Agora diz-se “indígenas”. espreita o copo e pergunta: essa água é engarrafada?
– Seja o que for, este remédio ajuda-te a dormir. A mãe pousa o copo e observa a revista em cima da
Dormem que nem justos, os indígenas. mesinha de cabeceira. Na capa,
– É um químico, não tomo. uma jovem muito branca, de rosto
– Tudo é químico, Juliana. A mãe senta-se no redondo, cabelos avermelhados
O pior é quando, além de químico, é e olhar determinado.
físico. É o que pensa o pai, mas engole leito, bem próximo – Entra em que filme? – pergunta
a tempo a ironia. São duas manhã, as da filha. Juliana a mãe.
pernas fraquejam, a boca há muito que
anoiteceu. Espanta-se com o próprio
espreita o copo e – Em filme nenhum. Só se for nes-
te filme de terror que todos vivemos.
rasgo de criatividade. Guaparivás? pergunta: essa água – Credo, filha!
E sorri, complacente. Descobria, aos é engarrafada? – É Greta Thunberg, uma ativista
60 anos, dotes de que nunca antes ambiental. Se a mãe estivesse mais
suspeitara. A mãe pousa o copo atenta ao mundo...
– Qual é o laboratório? – pergunta e observa a revista – Que mundo? Eu quero continuar
a filha, os olhos cheios de sombras.
– Mas que laboratório? Dos
em cima da mesinha a dormir bem, minha filha.
A mãe abraça Juliana: anda cá,
indígenas? de cabeceira minha querida. Com uma suavíssima
– Mostre-me a bula, pai. toada, embala a filha. Ficam assim,
– Minha filha, sei como te duas sombras dançarinas, até que
preocupas com as injustiças. Neste caso, foi tudo limpo. o corpo da filha vai desabando sem peso sobre o leito.
A patente ficou com os índios. Foi um negócio transparente. Os pais ajeitam o lençol, beijam levemente a filha,
– A bula, pai. A bula ou a embalagem. apagam a luz.
– A embalagem já deitei fora. Já não imprimem Enquanto se afastam, pé ante pé, a mãe murmura:
as bulas, para poupar papel, salvar árvores. é tudo uma questão de jeito, marido. Foram anos que a
Juliana faz rodar o anónimo comprimido entre os adormeci ao colo. O marido reage, defensivo: esse embalo
dedos. De pijama, o pai contempla aquela infindável é uma violência, está provado cientificamente. Fala baixo,
hesitação com a expectativa dos apostadores nas corridas pede a esposa, ainda acordas a menina. E o marido insiste:
de cavalos. Mais atrás, a mãe aguarda paciente, um copo está provado, para as crianças esse embalo é uma insupor-
de água balançando na mão. tável turbulência. Os bebés só adormecem vencidos pelo
– Qual é o nome comercial do medicamento? enjoo. Sorrindo, a esposa rodeia com os braços a cintura
Vou ver no Google. do marido: anda cá, meu tonto, agora és tu a ser embalado.
– Estamos sem internet. E ensaia uma lenta valsa. Contrariado, o homem
– Não me leve a mal, meu pai, mas nunca ouvir falar deixa-se balançar. O marido resiste, os pés como raízes
desse nome. mais fundas do que a própria casa. Há anos que não se
– Dos guaparivás? Acabei de ler um artigo sobre eles, encostam assim tão cheios de corpo, há séculos que se
pergunta-me o que quiseres. esqueceram da doçura do primeiro encontro.
– Em que floresta habitam. – Sabes quem dança como nós, no meio da noite?
– Habitar? Eles são a floresta. – pergunta ela.
– E comem carne? O marido, de olhos fechados, sacode a cabeça.
– Completamente vegetarianos. Só mandioca. Depois, as palavras tateiam a penumbra, num ensonado
E da orgânica. sorriso: os guaparivás? visao@visao.pt

31 OUTUBRO 2019 VISÃO 7


OPINIÃO
HISTÓRIAS
DA CAPA
É Centeno quem
manda outra vez
P O R R U I T A V A R E S G U E D E S / Diretor-executivo 1

A
realidade tem sempre muita força claro: “A estabilização interna da economia
e, por isso, não vale a pena perder portuguesa exige a manutenção da política
tempo a teorizar sobre a hierarquia orçamental iniciada na anterior legislatura.”
formal e burocrática com que os Mas não só: vai continuar a exigir também
ministros são apresentados na lista “uma supervisão financeira ativa na redução
oficial do novo Governo. Seria um dos riscos”, em especial, conforme surge es-
exercício semelhante ao de ana- crito, num “cenário macroeconómico” para
lisar uma equipa de futebol pelos os próximos quatro anos “marcado por um Esta é uma ima-
números das camisolas dos jogadores e não quadro de maior incerteza”. gem já icónica para
pela estratégia, a disposição tática, o modelo Ou seja, Mário Centeno e a sua equipa vão o tema da “cura
de jogo e o perfil de cada atleta. No caso da continuar a desempenhar um papel central pela Natureza”.
equipa escolhida e apresentada pelo “mister” na condução do Governo. O que significa Mas tem um
António Costa, o nome de Mário Centeno que, em todas as propostas de cada minis- problema: é dema-
até pode surgir em quarto lugar, mas todos tério ou nas negociações com cada partido, siado vista.
sabemos que a sua influência na governa- vai ser preciso, antes de decidir, perguntar às
ção vai continuar a ser transversal a todos os Finanças se há ou não dinheiro para se poder
ministérios, projetos e dossiers. Neste Go- avançar. Não é por acaso que, nas muitas 2
verno, tal como no anterior, o ministro das páginas do documento, existem tão poucas
Finanças vai continuar a ser aquele a quem medidas devidamente orçamentadas. As ex-
cabe a última palavra nas decisões mais im- ceções são, claro, as metas económicas, em
portantes. Voltando à metáfora futebolística, que surgem quantificados os valores previs-
Mário Centeno vai voltar a tos para a receita e a despesa
ser, nesta nova temporada, do Estado, bem como para o
o mesmo médio “box to A grande questão saldo orçamental e a dívida
box” a quem cabe definir é a de saber se, nos pública, como autênticas li-
os tempos de jogo e que é próximos quatro nhas vermelhas que não po-
a extensão do treinador em dem ser ultrapassadas. Fica
campo (por coincidência, anos, continuar assim a certeza, também, de Uma foto como
o 4 também era o número a manter as contas que as principais medidas esta também
de Pep Guardiola nos seus certas ainda será anunciadas por António podia funcionar.
tempos de jogador...). Costa, no seu discurso no Mas, neste caso,
Se alguém tivesse dúvidas suficiente para Palácio da Ajuda, são aque- transmite mais
a esse respeito, alimentadas corresponder las para as quais já existe contemplação
do que ação.
até pela coreografia da ce- às expectativas aval das Finanças: a subida
rimónia de tomada de posse, do salário mínimo para 750
no Palácio da Ajuda, em que
dos eleitores euros, o fecho das centrais
Centeno assinou o livro ofi- a carvão, a manutenção dos 3
cial depois de Pedro Siza Vieira, de Augusto preços dos passes dos transportes públicos
Santos Silva e de Mariana Vieira da Silva, durante quatro anos. Tudo o resto está em
elas foram desfeitas poucas horas depois, aberto para negociação futura... consoante
quando se conheceu o texto do novo Pro- exista ou não dinheiro.
grama de Governo. Ali, naquele documento A grande questão é a de saber se, nos
de quase 200 páginas, a hierarquia é clara e, próximos quatro anos, continuar a manter
digamos, definitiva. Antes das medidas para as contas certas ainda será suficiente para
fazer frente aos quatro grandes objetivos do corresponder às expectativas dos eleito-
Governo (combate às alterações climáticas, res – completamente diferentes, no grau
resposta ao desafio demográfico, construção de exigência, face ao governo anterior. Até
da sociedade digital e redução das desigual- porque, nos últimos tempos, o mundo tem Aqui temos o
dades), tudo tem por base uma regra simples dado sinais de que as pessoas já não se con- momento perfeito,
e básica: a necessidade de manter as contas tentam apenas com o bom desempenho dos com alguém
certas. indicadores macroeconómicos. Em especial absorto num
É assim mesmo que surge escrito, logo na se eles não se refletirem na qualidade de vida cenário natural,
segunda página do documento: “Contas cer- da classe média, aquela que tem estado em completa
tas para a convergência.” Uma declaração de na origem dos protestos e das revoltas em tranquilidade. Só
princípio que é acompanhada por um aviso tantos países. rguedes@visao.pt ao olhar para ela,
já nos sentimos
melhor.

8 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


Matthew Goodwin Professor de Política na Universidade de Kent

Há sempre a tentação de
banir e marginalizar partidos
populistas e excluí-los do
debate. A experiência europeia
mostra que é uma má
estratégia. Nas democracias
em que eles foram excluídos,
acabaram por se fortalecer
com o tempo
NUNO AGUIAR DIANA TINOCO

10 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


M
Matthew Goodwin esteve, esta
semana, em Lisboa para apresentar
a edição portuguesa do livro que
escreveu com Roger Eatwell:
Populismo: A Revolta contra a
Democracia Liberal. Nessa obra, os
autores pedem mais compreensão
em relação às preocupações dos
eleitores, com uma tese desconfortável
no crescimento económico ou nos
salários.
A comunicação social e os
comentadores esforçam-se pouco
para compreender o voto nestes
partidos?
Sim. Há dois problemas com o debate.
Muitas pessoas estão obcecadas
com fatores de curto prazo, como a
Cambridge Analytica, o impacto da
crise financeira de 2008 ou o que
acontece em determinada campanha
eleitoral. Considero essa análise
enganadora. O nacional-populismo
nasce de queixas legítimas quanto à
forma como a sociedade está a mudar.
Esses fatores de longo prazo é que
são importantes para se perceber o
crescimento destes movimentos. Isso
significa que temos de aceitar que nem
toda a gente que vota nestes partidos
é nazi, fascista ou intolerante. Nem
todos são irracionais. Nalguns casos,
e de representantes das minorias
votou pela saída da União Europeia.
Nos EUA, um terço dos latinos e dos
hispânicos apoiou Donald Trump.
Algumas destas pessoas partilham
visões conservadoras. Nunca comprei
a ideia de o nacional-populismo ser
uma questão de supremacia branca
– é algo muito mais complexo. Um
dos motivos para escrever o livro
foi o facto de existir tanta gente de
esquerda a tentar desvalorizar estes
movimentos como um regresso
ao fascismo dos anos 30, o que é
totalmente impreciso. Há movimentos
extremistas, mas, em geral, a maioria
está adaptada ao regime democrático.
Defende é uma conceção mais direta
de democracia, que dá prioridade
à vontade da maioria. Como a sua
pergunta sugere, isso pode ser
problemático, por exemplo, na defesa
dos direitos das minorias. Mas é
tanto para a esquerda como para a existem motivos muito óbvios para se uma conceção de democracia; não é
direita: o nacional-populismo não votar neles, principalmente tendo em fascismo. Os liberais defendem uma
nasceu da crise nem de fenómenos de conta que alguns dos grupos se viram democracia liberal, que dê prioridade
desinformação e não vai desaparecer excluídos do debate público, em temas aos direitos individuais, mas às vezes
tão cedo. Reconhece que o movimento como a imigração, e marginalizados perdem de vista os laços que unem as
tem um lado negro e que figuras no nosso sistema político. O nacional- pessoas. É essa batalha que existe um
como Donald Trump ou Marine Le -populismo tem um lado negro, não pouco pela Europa.
Pen são perigosas, mas defende que a o negamos, mas também dá voz a Esclarecer o que é ou não é
ansiedade de alguns grupos é legítima muitas pessoas que sentem que foram fascismo é simples, bem mais
perante o falhanço das elites políticas. deixadas para trás, no diálogo sobre o do que a questão do racismo. As
Sobre André Ventura e o Chega, deixa futuro. pessoas podem não se identificar
um aviso: não o excluam do debate. Há quem argumente que o como racistas, mas em Portugal
Qual é o traço comum que une os problema é estarmos a avançar uma em cada cinco pessoas não
movimentos nacional-populistas? demasiado rápido. quer que um imigrante seja seu
Aquilo que motiva a sua ascensão é Os progressistas gostam de colocar as chefe ou se case com os seus filhos.
único de um local para outro, mas coisas entre aberto vs. fechado. Nós Como se pode debater com alguém
existem alguns pontos em comum. achamos que é mais útil pensar em com comportamentos racistas, sem
O nacional-populismo partilha um rápido vs. lento. Há muita gente que reconhecer que aquilo é racista?
desejo de defender os interesses e aceita a imigração, o multiculturalismo Percebo o que está a dizer. Há, com
a cultura do grupo nacional contra e muitos dos aspetos de uma certeza, pessoas racistas que votam em
aquilo que eles acham ser as elites sociedade liberal, mas que não quer partidos nacional-populistas. Mas o
corruptas, que se servem apenas a si andar a 300 km/h no comboio-bala meu ponto é que há muitas pessoas no
próprias e têm pouco interesse em da globalização. Querem um ritmo eleitorado destes partidos que não têm
preservar essa comunidade. e uma escala mais moderada. Esta é atitudes racistas. Alguns dos dados
O lado económico é menos uma queixa e uma visão legítimas. que usamos no livro mostram que
relevante? Em geral, os liberais têm tido a maioria dos votantes nos partidos
Existe um debate pouco útil que dificuldades em perceber isso. Veem populistas acha que a imigração é
procura saber se o populismo tem que a política como economia, com custos uma coisa boa e reconhece a força da
ver com economia ou com cultura. e benefícios. Para a maior parte das diversidade. Há uma preocupação com
Claramente ambas têm um papel, mas pessoas, a política não é isso. É uma o ritmo da mudança social, que não
argumentamos que há preocupações cruzada espiritual para defender a tem apenas que ver com hostilidade
mais importantes do que as comunidade. em relação ao outro grupo. Não
económicas: a perceção de ameaças Deu o exemplo da imigração, mas quer dizer que não exista racismo,
à cultura, à identidade nacional e ao quando se fala de direitos das porque ele existe, mas temos de
modo de vida e a ideia de que o grupo minorias essa lógica complica-se. reconhecer que as tendências gerais
nacional está a perder face a outros. Como se explica a grupos que são positivas. Nos EUA e na Europa, o
Se olhar para os votos em Trump e no esperaram séculos que as coisas apoio ao casamento inter-racial tem
Brexit, os estudos mostram que estão têm de andar ainda mais devagar? aumentando constantemente. Claro
enraizados em preocupações relativas Não estou totalmente convencido que existem lombas no caminho.
a mudanças culturais, não apenas disso. No Brexit, um terço dos negros Donald Trump é uma, Nigel Farage

31 OUTUBRO 2019 VISÃO 11


e Marine Le Pen são outras. São mais imigração, pelo que pode não
políticos que recorrem à xenofobia e,
Há muita gente se aplicar a Portugal. Outra forma é
por vezes, ao racismo. Mas duvidamos que aceita a pensar em devolver o poder de decisão
de que as pessoas que votam nesses aos cidadãos, através de assembleias
partidos partilhem essas ideias.
imigração, o populares e de mecanismos de
Em Portugal, temos agora um multiculturalismo participação que permitam que estes
partido de extrema-direita no grupos não se sintam excluídos.
Parlamento. Como devem os média
e muitos dos Este movimento vai continuar a
e os outros partidos lidar com essa aspetos de uma crescer na Europa?
nova realidade? O nacional-populismo não vai
Há sempre a tentação de banir e
sociedade liberal, desaparecer. Será uma força política
marginalizar partidos populistas e mas que não quer permanente. Quando eu estava
excluí-los do debate. A experiência a fazer o meu doutoramento, no
europeia mostra que é uma má
andar a 300 km/h início de 2000, achava-se que certas
estratégia. Nas democracias em que no comboio-bala democracias estavam imunes ao
eles foram excluídos, acabaram por se nacional-populismo, como Portugal,
fortalecer com o tempo, como se viu
da globalização Espanha, Suécia, Alemanha e Reino
na Suécia. Uma das respostas possíveis Unido. A rapidez com que as coisas
é pensar de forma mais séria sobre mudaram mostra que estamos perante
os temas que estão por detrás do seu um momento significativo. O que
apoio. está a fazer aumentar o seu apoio –
No livro, não dá muita atenção em serem esses os líderes do imigração e falhanço das elites – não
a fenómenos de desinformação. movimento? vai desaparecer. É irrealista dizer
Donald Trump nasce com o Claro que sim. É um enorme perigo. que são partidos de protesto ou uma
certificado de nascimento de Preferia que os partidos mainstream consequência da crise. Temos de
Barack Obama, que muitos tivessem sido capazes de lidar com nos habituar a viver com o nacional-
norte-americanos achavam ser as preocupações que estão a puxar -populismo e trabalhar mais para
secretamente muçulmano. Na pelo nacional-populismo, que os resolver os problemas das pessoas.
Hungria, há o caso [do milionário] liberais, e eu vejo-me como um liberal, A agenda destes partidos é boa para
George Soros… tivessem feito um melhor trabalho para a sociedade?
... [Interrompe.] O que quer dizer com solucionarem as questões que levam as Não é o meu tipo de política.
Soros? pessoas a votar nesses partidos, em vez Estou inclinado para a esquerda na
A forma como o nome Soros é de as ignorarem. O nacional-populismo economia – temos de trabalhar mais
usado para dizer que ele está a é um sintoma, não uma causa. na redistribuição – e para a direita,
tentar manipular a opinião pública. Fala de concessões que podem ser um conservador moderado, em
Muito bem, percebo isso, mas a feitas pelos partidos mainstream. temas culturais. Os populistas estão
realidade é que Soros está envolvido Não há o risco de, com o tempo, elas demasiado dispostos a envolver-se
ativamente na sociedade civil. Não abrirem a porta a cedências mais com xenofobia e intolerância, por
acho que isso seja uma afirmação graves? isso são uma força perigosa. Têm
enganadora. Enganador é falar de Claro que há. Porém, eu não utilizaria constantemente de ser controlados.
conspirações antissemitas. Não a expressão concessão, mas, sim, Mas tenho alguma simpatia para
podemos dizer que os apoiantes de compromisso. Temos de encontrar com as ansiedades de quem vota
partidos nacional-populistas não compromissos. Como? Podemos nestes movimentos. Ao longo
percebem a verdade ou estão a ser falar do preconceito dos média, de dos anos, entrevistei centenas. As
enganados, porque a investigação como ninguém reformou seriamente comunidades trabalhadoras sentem
mostra que estão preocupados a imigração, de como a classe que a globalização não foi tão benéfica
com coisas que estão a acontecer: trabalhadora europeia tem visto a sua para eles como para outros e que têm
imigração, serem deixados para trás na fatia de rendimento encolher face a sido constantemente excluídas do
economia, haver um sistema político outros grupos... Há coisas em que não debate, não lhes sendo dado respeito,
que os representa menos. Nada disso pode haver compromisso: direitos dignidade e reconhecimento. São
é mito. das minorias, democracia, Estado de palavras que não se ouvem muito
A forma como as pessoas recebem a Direito e aspetos fundamentais de hoje em dia, mas que interessam às
informação, nomeadamente através uma sociedade liberal. Mas temos pessoas. Os eleitores são cidadãos,
das redes sociais, não tem impacto de aceitar que não está a funcionar não são lemmings obcecados com o
nesses movimentos? bem para todos. Por exemplo: um PIB. Interessam-se por outras coisas
Claro que tem, mas não é a causa dos problemas que temos é a falta de além da economia, como identidade
principal. A atual onda de nacional- integração de certas comunidades. A nacional, tradições e forma de vida. Isso
-populismo existe na Europa desde Dinamarca está a aplicar uma política é poderoso e visceral. Temos de pensar
os anos 80, antes do Facebook e do de integração mais robusta, com como podemos trazer estes eleitores
Twitter. escolas mistas, e prepara-se para de volta aos mainstream, antes de os
O livro centra-se mais nos eleitores diminuir, por um período, o ritmo da perdermos para sempre. É esse o risco:
do que nos líderes. Falou há pouco imigração. É um modelo que a Europa perdermos uma geração de eleitores
de Donald Trump. Há perigo pode usar, principalmente onde há para o populismo. naguiar@exame.pt

12 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


RADAR

> Califórnia em chamas


Cerca de 180 mil pessoas
receberam ordem
das autoridades para
abandonarem as suas
habitações, na sequência
de um incêndio florestal
que ameaça várias regiões
da zona norte do estado da
Califórnia, onde mais de
dois milhões de pessoas
estão sem energia. A região
vinhateira do Condado de
Sonoma é uma das mais
afetadas pelo incêndio que
as autoridades batizaram
de Kincaid e que, desde a
passada quarta-feira, 23, vem
varrendo a região, tocado a
rajadas de vento que chegam
a atingir os 150 quilómetros
por hora.
Foto: Josh Edelson /
AFP via Getty Images

14 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


> Passa-a-palavra A cerimónia da tomada de posse do XXII Governo, no sábado, 26, no Palácio da Ajuda, em Lisboa,
registou uma curiosa troca de mensagens entre o chefe do executivo e os seus quatro braços-direitos.
O primeiro-ministro, António Costa, segreda algo ao seu número dois, o ministro de Estado, da Economia
e da Transição Digital, Pedro Siza Vieira, que passa a mensagem ao ministro de Estado e dos Negócios
Estrangeiros, Augusto Santos Silva, já com a ministra de Estado e da Presidência, Mariana Vieira da Silva,
na expectativa de receber o recado que teria como destinatário final Mário Centeno, ministro de Estado
e das Finanças. Pelo ar satisfeito de Costa, a mensagem terá chegado ao destinatário sem distorções.
Foto: José Carlos Carvalho
> Sem medo do haka
Como é costume, a seleção
da Nova Zelândia levou a
cabo a sua tradicional dança
guerreira, minutos antes
de defrontar a Inglaterra,
na primeira meia-final da
Taça do Mundo de Rugby,
que decorre, até ao próximo
sábado, 2, no Japão. Mas,
desta vez, nem o haka salvou
os All Blacks. E tudo terá
começado na forma como
os ingleses reagiram à dança
tribal maori com que os
neozelandeses costumam
intimidar os adversários.
Dispondo-se no campo em
forma de V, a Inglaterra
começou ali a encurralar o
adversário. Nos 80 minutos
de jogo, a superioridade foi
total, com os britânicos a
derrotarem os bicampeões do
mundo por 19-7 e a garantirem
a presença na final do próximo
sábado, na qual defrontarão
a África do Sul, que afastou,
no domingo, o País de Gales.

Foto: Dan Mullan / Getty Images


RAIOS X

Onde estão os ricos? São cada vez mais os milionários em todo o mundo.
O que não quer, infelizmente, dizer que a riqueza
esteja a ser distribuída mais equitativamente

M A N U E L B A R R O S M O U R A mbmoura@visao.pt

De acordo com o Relatório Global de Riqueza deste ano, produzido pelo Credit Suisse Research Institute, existem atualmente
46,8 milhões de milionários no mundo, um aumento de 1,1 milhão em relação a meados de 2018. Entre eles, estão mais de
quatro milhões de chineses, três milhões de japoneses e dois milhões de alemães. Mas nenhum país é como os Estados
Unidos da América, que albergam quase 19 milhões de milionários e respondem por mais de metade do aumento deste ano.

PAÍSES COM MAIS MILIONÁRIOS


ADULTOS DETENTORES DE PATRIMÓNIO COM UM VALOR DE, PELO MENOS, UM MILHÃO DE DÓLARES (CERCA DE 900 MIL EUROS)
VALORES EM MILHARES
2000 Entre 2000 e 2019

1 322
832 4 447
2 460 3 025
274 185 2 187
Canadá Holanda

750 618
38 1 990
EUA Reino Unido Alemanha
Japão
2 071 810
18 614 China
177
Suíça
428
França Itália
1 496

979 424
1 180
172
Espanha 108
Austrália
7 440 PORTUGAL
Em 2019
1% tem 45% 117 E tudo o Brexit levou
O Credit Suisse calcula que No último ano, o Reino Unido
a parcela de riqueza pertencente Estimativa para 2024 perdeu 27 mil milionários. Tudo

174 mil
àquele 1% de adultos mais ricos por causa do enfraquecimento
até diminuiu levemente nos da libra como resultado da
anos anteriores à crise, mas não (crescimento de 49%) incerteza sobre o Brexit

62 milhões
parou de crescer desde então.
Atualmente, eles detêm
45% da riqueza do mundo,
diz o banco; os 10% SEGUNDO AS ESTIMATIVAS
mais ricos têm 82%. DESTE ESTUDO, O NÚMERO
Sobra pouco para os DE MILIONÁRIOS DEVERÁ
restantes 90%... ULTRAPASSAR OS 62 MILHÕES.
JÁ EM 2024, UM AUMENTO
DE QUASE 16 MILHÕES
RELATIVAMENTE AO PRESENTE
E 49 MILHÕES, SE SE CONTAR
A PARTIR DO INÍCIO
DO SÉCULO

20 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


7
PONTOS DA SEMANA

POR
MAFALDA ANJOS*
JOSÉ CARLOS CARVALHO

UMA COLHEITA DIFÍCIL


Foi com uma parábola evangélica – a
das bodas de Caná, em que Jesus Cristo
transformou água em vinho, um néctar
melhor ainda do que o primeiro bebido
na cerimónia em que era convidado –
E na oposição do maior partido ao
centro, um líder acossado promete vir
a ser mais aguerrido. “Não há recursos
para tantas expectativas e exigências
e o segredo deste Governo residirá
que o Presidente da República deixou nas escolhas”, afirmou Marcelo Rebelo
um repto a António Costa, durante a de Sousa, explicando que será preciso
tomada de posse do Governo. Pediu “humildade, isenção e proximidade”.
para que este segundo governo fosse É um facto.
melhor do que o primeiro, e a parábola Pela frente o Governo terá, em 2021,
não podia ter sido mais bem escolhida: eleições presidenciais em janeiro,
perante as atuais condições, isso é a presidência portuguesa da União
algo que está praticamente ao nível do Europeia e eleições autárquicas em
milagre. setembro/outubro. E tudo isto num
São muitos os desafios que se colocam mundo menos óbvio em termos
a António Costa e ao novo executivo económicos, com as nuvens negras a
que o acompanha nesta missão de aproximarem-se a passos largos. Ainda
assumir um governo minoritário, recentemente, Mervyn King, que esteve
sem acordos de governação ou à frente do Banco de Inglaterra entre
pactos escritos. É, mais uma vez, uma 2003 e 2013 e apanhou em cheio a crise
opção relativamente nova que, em do subprime, afirmou que a economia
circunstâncias mais benignas, seria mundial está a “caminhar como um
porventura mais fácil de levar adiante. sonâmbulo” rumo a nova crise que terá
Recorrendo à metáfora do vinho, “consequências devastadoras”.
produzir um vinho com intempéries O primeiro embate com a realidade
pela frente, pragas e falta de mão de será já em dezembro, na semana antes
obra é tarefa complexa. Se a legislatura do Natal, aquando da apresentação
anterior beneficiou de ventos favoráveis do primeiro Orçamento do Estado
– quando se está no fundo, tudo o deste Governo minoritário. Como
que vier é ganho –, esta pode vir a ter conciliar interesses variados de forma
pela frente contratempos difíceis de a conseguir apoios ou abstenções
gerir. É que, depois de brilharetes e necessárias à aprovação, eis a questão.
superavits orçamentais, economia a E o tom dos últimos dias não parece
crescer e números a superar previsões, fazer crer numa aproximação com o
as expectativas são elevadas. Depois Bloco de Esquerda – pelo contrário.
de ultrapassada a crise imediata, Aprovar medidas ou reformas
todos querem uma quota-parte estruturais complexas será, claro, ainda
dos progressos do País, e querem mais difícil. Que vinho vai sair desta
já. Aos antigos parceiros de solução colheita, será esperar para ver. A não
governativa – penalizados nas urnas acreditar em milagres, será preciso toda
por causa disso – resta dar gás a essas a arte do enólogo e alguma sorte. Isto
reivindicações, a pensar no espaço se ele não estiver a pensar em mandar a
político que não querem perder. baixo a vinha e plantar de novo.
*Diretora
manjos@visao.pt

22 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


39
NÚMERO FRASE

A redução do papel do Estado foi longe


demais nas últimas décadas. Isso abriu
caminho ao populismo radical”
Mário Centeno ao Folha de São Paulo
“O Estado deve fazer uso dos mecanismos de mercado, não se pode deixar usar
por estes”, explicou o ministro das Finanças, apresentado como “um dos pais
Migrantes mortos da Geringonça”, numa entrevista ao jornal brasileiro.
encontrados num
camião
O caso é já da semana
passada, mas não TECNOLOGIA
pode passar sem
registo. As autoridades Tesla quer
britânicas descobriram
39 migrantes mortos
revolucionar
dentro de um camião
frigorífico junto ao porto
os painéis
de Essex, nos arredores domésticos
de Londres. No sábado, À terceira é que é.
o motorista do camião, A Tesla apresentou
um norte-irlandês de a versão 3.0 dos seus
25 anos, foi acusado painéis solares de
do mesmo número de telhado para as casas,
crimes de homicídio CONFRONTO
e Elon Musk diz que,
involuntário, conspiração
para o tráfico de pessoas Em Rio quedo, não metas o dedo desta vez, é que estão
“no ponto”. O Solar Glass
e conspiração para o “A minha não recandidatura pode levar o partido a uma Roof, ou telhado de vidro
branqueamento de grave fragmentação de consequências imprevisíveis”, solar, promete ser mais
capitais obtidos através já tinha dito Rui Rio no discurso em que anunciou que barato, fácil e rápido
da imigração ilegal. vai concorrer novamente às eleições internas. Está de instalar do que as
lançada a estratégia de Rio, que vai liderar a bancada versões anteriores: em
laranja no Parlamento, para os próximos tempos: vez de se instalar painéis
resistência a todo o custo, dramatização em relação aos solares em telhados pre-
adversários (usando e abusando da técnica de “depois existentes, este produto
POLÉMICA
de mim virá, quem bom de mim fará”), e promessa de é o próprio telhado.
Por um mundo luta mais aguerrida contra o PS. Como se adivinhava,
pela frente terá dois candidatos que não lhe farão a vida
Em poucos meses,
Musk espera alcançar
sem “dress codes” fácil: Miguel Pinto Luz e Luís Montenegro desdobram-se
já em iniciativas de campanha interna para o afastar no
“milhares de casas
por semana”. Venham
Quem andasse pelas próximo congresso, em fevereiro. Será como dizia daí mais energias
redes no primeiro o povo, “em rio quedo, não metas o dedo”? alternativas e limpas!
dia da nova legislatura
na Assembleia da
República, o que AVA N Ç O
mais se comentava
eram… as modas. Mais
precisamente, a saia de
Não é o fim do Daesh
Rafael Martins, o assessor Donald Trump lançou a É um trunfo para a
principal de Joacine Katar deixa no Twitter: “Algo administração Trump e
Moreira, que mereceu muito grande acabou de um marco importante na
críticas corrosivas, acontecer!” Abu Bakr luta contra o terrorismo
ofensivas e bacocas por al-Baghdadi, o líder do islâmico, hoje enfraquecido
ter escolhido usar uma Daesh, foi morto (ou fez- e pulverizado em pequenas
peça de roupa “feminina”. se explodir num túnel) células espalhadas pelo
Chegará o dia em que no Nordeste da Síria no mundo, mas longe de
homens e mulheres passado fim de semana, exterminado. A campanha
poderão vestir-se como num raide cirúrgico levado não terminou, e teme-se
bem entenderem. a cabo por forças especiais que células adormecidas
Já faltou mais. norte-americanas. despertem agora.

31 OUTUBRO 2019 VISÃO 23


HOLOFOTE

Alberto Fernández O grande camaleão


APÓS SERVIR CINCO
Velha raposa Poder da fome
No século XXI, Alberto Fernández
os “não peronistas”
só conseguiram PRESIDENTES, AOS herda um país
à beira da
governar a
Argentina
60 ANOS, O EXPERIENTE explosão social.
O seu antecessor
durante seis anos. PROFESSOR DE DIREITO prometeu “pobreza

– E SOBRINHO DO
A 10 de dezembro, zero”, em 2015,
Novo herdeiro Alberto Fernández quando entrou Na sombra
de Perón
Juan Domingo
toma posse e
os herdeiros do FOTÓGRAFO OFICIAL na Casa Rosada.
Agora, há mais
de Cristina
Claro que os
Perón pode general Perón
garantem a DE DOMINGOS PERÓN cinco milhões
de pobres do que
maiores desafios

– CONQUISTA A CASA
ter morrido há de Alberto
45 anos, mas presidência até nessa altura Fernández se
2023. No entanto, (no total, 35% da
o peronismo
continua de não se pense ROSADA E VAI LIDERAR população), com
prendem com
a situação
boa saúde na
Argentina.
que o professor
da Faculdade A ARGENTINA ATÉ 2023 a agravante de o
país se encontrar
económica e com
as medidas de
O general que de Direito da em recessão há austeridade que o
Universidade FILIPE FIALHO 13 meses e de, na
foi Presidente seu Governo terá
do país em três Nacional de última primavera, obrigatoriamente
ocasiões deixou Buenos Aires é ter recebido mais de aplicar.
p No
um legado que um novato na um empréstimo entanto, a tudo
permanece vivo política. As suas do FMI, no valor isto há que
em Buenos Aires. andanças pelos de 57 mil milhões somar a mulher
E essa é uma das corredores do de dólares, para que ele aceitou
razões para Martin poder iniciaram-se não entrar em nomear como
Wolf, o influente em 1985, quando o bancarrota. vice-presidente:
editor do Financial ex-Presidente Raul Estima-se que Cristina Fernández
Times, afirmar Alfonsín o nomeou mais de quatro de Kirchner.
que a “América subdiretor-geral de milhões de A antiga primeira-
Latina vive entre Assuntos Jurídicos argentinos -dama (2003-2007)
elites e populistas do Ministério da (7,7% dos também liderou o
depredadores”. Economia. Desde habitantes) vivam país (2007-2015)
No último domingo, então, serviu cinco com fome de forma polémica
27, o peronista chefes de Estado. e na indigência. e sobre si pendem
Alberto Fernández 13 processos-
ganhou, de forma -crime – a maioria
esmagadora, por corrupção.
as eleições Nos últimos
presidenciais e cinco anos, por
impediu que o ser senadora,
liberal Mauricio Cristina conseguiu
Macri continuasse evitar em sete
na chefia do ocasiões ir para a
Estado. A vitória do prisão. Agora, fica
ex-advogado evitou com imunidade
a realização de garantida para
uma segunda volta outro tanto.
e fez com que os
herdeiros de Perón
recuperassem a
Casa Rosada, a
velha mansão do
poder executivo.

24 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


INBOX

M O D É S T I A À PA R T E

Sou, sem
margem para Eu disse-lhes
dúvidas, o maior
artista de todos
que ia matar
os tempos
KANYE WEST
alguém; eles
O rapper norte-americano,
apoiante de Trump, continua
convencido de que ainda vai ser
disseram que
Presidente dos EUA
ganhariam
mais
dinheiro se
eu o fizesse...
KEIRA KNIGHTLEY
A atriz inglesa conta como, na fase inicial
da carreira, quando foi nomeada
para o Oscar pelo papel em Orgulho
É muito fácil ser e Preconceito e brilhava no primeiro
provocador num episódio da saga Piratas das Caraíbas,
a imprensa tóxica e os paparazzi lhe
país de choninhas provocaram um “colapso mental”
amestrados
RUI ZINK
O autor acaba de publicar
o Manual do Bom Fascista
e apresenta-se como “um
provocador num país fofinho” FRASE DA SEMANA

Se uma pessoa Se bobear, vai ter


mudar só uma
refeição diária, poderá
C H O Q U E F R O N TA L
estátua de Jorge
poupar 737 mil litros Jesus ao lado do
de água num ano
SUZY AMIS CAMERON
Cristo Redentor
CARLOS MOZER
A antiga atriz e modelo O antigo futebolista do Benfica fez parte da
norte-americana é defensora equipa do Flamengo que, em 1981, venceu
de uma dieta vegan e não tem a única Taça Libertadores do seu historial.
dúvidas de que aquilo que Algo que o clube pode, agora, repetir, sob a
comemos afeta o planeta orientação do treinador português

Sem família não Este Governo Um Governo


haverá nação, não é para quatro anos, minoritário
comigo não tem de estar
haverá Polónia há pântanos permanentemente
ANDRZEJ DUDA em negociações.
O Presidente da Polónia, ligado ANTÓNIO COSTA
ao partido no poder no país, Promessa deixada pelo Tenho dúvidas
o nacionalista conservador primeiro-ministro aos
deputados do PS, em se consegue durar
Lei e Justiça, respondeu assim
ao Rainbow Friday, movimento vésperas da tomada de os quatro anos
organizado por grupos LGBT posse do novo Governo RUI RIO
nas escolas polacas para Líder do PSD vai chefiar
promover a diversidade sexual a bancada parlamentar

Fontes: The Telegraph, Blitz, Diário de Notícias, Jornal de Negócios, Público, SIC Notícias
31 OUTUBRO 2019 VISÃO 25
ALMANAQUE

NÚMEROS DA SEMANA

300 milhões
Mais de 300 milhões
de pessoas em todo o
mundo sofrem de doenças
consideradas raras, segundo
um estudo publicado na
sexta-feira, 25, no boletim
europeu de genética humana.
Das mais de seis mil doenças
descritas na base de dados,
149 são predominantes
e responsáveis por 80% dos
casos de doenças raras no
mundo. Regista-se ainda que
72% são de origem genética
e 70% começam a
manifestar-se na infância.

Bunker vira hotel de luxo


Em tempos, serviu para abrigar a população de Hamburgo €545
dos ataques aéreos. Agora, só alguns lá conseguirão abrigo A Deco Proteste analisou o
custo da carta de condução
O que fazer com a herança deixada pessoas durante a Segunda Guerra em 200 escolas de Portugal
pelos regimes ditatoriais? A questão Mundial. Depois do conflito, esteve e concluiu que a diferença
voltou a colocar-se, desta vez em para ser demolido, mas, de acordo entre o valor mínimo e o
Hamburgo, Alemanha, onde um antigo com o site de turismo da cidade, a máximo foi €545, para
bunker nazi vai ser transformado num quantidade de explosivos necessários quem passar à primeira
nos exames e sem incluir
hotel de luxo. A imponente estrutura para a operação ameaçava destruir
atestado médico e material
semelhante a um castelo, com 75 também as habitações em redor.
didático. Segundo o estudo,
metros de largura e 35 de altura, O espaço foi posteriormente utilizado
o preço da carta varia
também conhecida como Hochbunker por uma estação televisiva alemã entre €375 e €920, e é em
(bunker alto), é um dos milhares de e para eventos culturais. O hotel de Évora e Braga onde foram
abrigos antiaéreos construídos em 136 quartos, projetado pelo NH Hotel encontrados os valores mais
todo o país pelo Terceiro Reich. Foi Group, será inaugurado em meados elevados, enquanto a zona
projetado para abrigar cerca de 18 mil de 2021. da Grande Lisboa e o Funchal
apresentam os preços mais
baixos.

PA R A J Á , S Ó N O S E UA

Facebook já dá notícias
O Facebook anunciou na sexta-feira, 25,
100
O governo em Botswana
o lançamento de um serviço de notícias, anunciou que investigações
um feed alimentado por jornalistas, com preliminares mostram que
a ajuda de algoritmos e, numa fase inicial, uma das principais causas
destinado apenas ao público norte- de morte de mais de 100
americano. O grupo de Mark Zuckerberg iniciativa está alinhada com o desejo do de elefantes, nos últimos
garante que o Facebook News “dará ao fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, dois meses, pode ser um
público mais controlo sobre os artigos em promover o “jornalismo de qualidade”, surto de antraz. As chuvas
que vê e a oportunidade de explorar uma como declarou na quarta-feira, 23, diante abaixo da média levaram a
gama maior de interesses”. A nova secção do Congresso norte-americano. O Facebook uma seca severa na região,
será separada dos feeds usuais e incluirá esclareceu ainda que montou uma o que obriga os animais a
artigos das cerca de 200 organizações equipa de jornalistas com “independência rebuscarem o solo e, assim,
de notícias parceiras da iniciativa, entre editorial” que vai selecionar artigos com a serem contaminados
as quais estão The Washington Post, base em diretrizes fáceis de usar e numa com o esporo de bactérias
The Wall Street Journal, Elle nos EUA, “personalização” algorítmica relativa a essa antraz, também conhecido
People, ABC, CBS News ou Fox News. Esta seleção de notícias. por carbúnculo.

26 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


N E L L O P T O D E S G R E AT E

Greta dá nome a besouro


Um pequeno besouro cor de mel
foi batizado de Greta Thunberg
pelo entomologista que o
descobriu, em homenagem à
jovem ativista sueca, anunciou
na sexta-feira, 25, o Museu de
História Natural de Londres.
“Escolhi este nome porque estou

LUÍS BARRA
impressionado com o trabalho
da jovem ativista e gostaria
de prestar homenagem à sua
ESTUDO contribuição excecional para
as questões ambientais”, disse
Ar quente de África mais frequente Michael Darby, que descobriu
o pequeno inseto entre os 22
As massas de ar quente de África que “invadem” a Península Ibérica, gerando ondas de milhões de espécies da coleção
calor como as que atingiram Portugal, em 2018, e a Europa Central, no passado verão, do museu. O Nelloptodes greate
aumentaram de frequência nos últimos 40 anos. A conclusão consta de um estudo tem menos de um milímetro de
divulgado pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (UL), onde trabalham comprimento e não
alguns dos cientistas que participaram na investigação, a ser publicada na edição tem olhos ou asas.
impressa de dezembro da revista da especialidade Weather and Climate Extremes. Segundo a BBC, o
O estudo analisa dados desde 1948 sobre as “intrusões de massas de ar” quente do inseto foi recolhido
deserto do Sara na Península Ibérica, nos meses de verão, concluindo que estas foram em Nairobi, no Quénia,
cada vez mais frequentes e severas, sobretudo a partir de meados de 1970, com estes nos anos 1960, por
fenómenos a atingirem “latitudes cada vez mais a norte”, na Europa. A justificação pode William Block que doou
estar numa correlação de fatores, como o crescente aumento da temperatura do ar as suas amostras ao
e “alterações nos padrões atmosféricos”, provocadas pelo aquecimento da atmosfera. museu, em 1978.

THE HOUSE WHERE YOUR FUN BEGINS

BILHETES À VENDA EM BLUETICKET.PT, FNAC, WORTEN, EL CORTE INGLÉS E NOS LOCAIS HABITUAIS HOUSEOFFUN.PT
TRANSIÇÕES

PRÉMIO
O Parlamento Europeu
decidiu distinguir com o
Prémio Sakharov para a
Liberdade de Pensamento
2019 o intelectual Ilham
Tohti, condenado em
2014 pela Justiça chinesa
a prisão perpétua por
“separatismo”, num
processo que suscitou uma
onda de protestos por parte
de governos estrangeiros e
organizações de defesa dos
Direitos Humanos. Apesar
da condenação, continua a
ser uma voz da moderação
e da reconciliação. O
economista chinês Ilham
Tohti é conhecido por lutar
pelos direitos da minoria
uigur e pela defesa de leis
regionais de autonomia.
Durante mais de duas
décadas, trabalhou para
promover o diálogo e a A B U B A K R A L- B AG H DA D I 19 7 1-2 0 19
compreensão entre uigures
e chineses. Já recebeu o
Prémio PEN/
/Barbara Goldsmith
Freedom to Write (2014), o
Prémio Martin Ennals (2016)
O homem mais perigoso do planeta
e o Prémio para a Liberdade Com a morte do líder do Daesh, capturado pelas forças
da Internacional Liberal norte-americanas, ficará o mundo um lugar mais seguro?
(2017) e foi nomeado para o
Nobel da Paz de 2019.
As circunstâncias da morte do descendente do Profeta Maomé.
MORTE terrorista mais procurado do mundo Desde a adolescência que fazia notar
Vencedor da primeira edição poderão estar mal explicadas, mas a sua obsessão com a religiosidade,
do Prémio Luso-Espanhol Donald Trump apressou-se a anunciar passando horas a aprender a recitar
de Arte e Cultura, atribuído no domingo, 27, em direto da Casa o Corão e criticando quem não
por Portugal e Espanha,
Branca, a captura de Abu Bakr al- cumprisse a Sharia, a lei islâmica.
em 2006, José Bento foi,
-Baghdadi na fronteira Síria- Em Tobchi, um bairro pobre de
desde a década de 1950, um
dos principais divulgadores
Turquia. Em Barisha, al-Baghdadi Bagdade, enquanto al-Baghdadi
de autores como Jorge morreu enquanto fugia da Delta estudava na Universidade Islâmica
Luis Borges, García Lorca, Force, uma das unidades secretas (bacharelato em Estudos Islâmicos),
Miguel de Unamuno, Santa de operações especiais das Forças também fazia parte da equipa de
Teresa de Ávila, San Juan Armadas dos EUA. A sua captura era futebol, com qualidades de craque.
de la Cruz ou Miguel de uma das principais prioridades da Pessoa educada e sossegada, como
Cervantes, com a tradução administração Trump, e o Presidente classificavam os colegas
das suas obras, e também dos EUA foi prolixo na declaração: da juventude, estratega silencioso
um poeta premiado, autor “O homem morreu num túnel depois que não dava entrevistas, nem
de livros como Sítios e Um de chorar e gritar. Chegou ao fim do gravava mensagens em vídeo, tinha
Sossegado Silêncio. Nascido túnel e detonou o colete, morrendo a cabeça a prémio, em troca de
em Pardilhó, Aveiro, em e matando ao mesmo tempo três dos uma recompensa de 25 milhões de
17 de novembro de 1932, seus filhos. Morreu como um cão, dólares. Com o gradual desvanecer
fundou a revista literária como um cobarde. O mundo é agora do Daesh e a morte do seu líder,
Cassiopeia, nos anos 1950. um lugar muito mais seguro.” terminarão os ataques suicidas,
Morreu no sábado, 26, no Ibrahim Awwad Ibrahim Ali al-Badri as decapitações, os raptos e todas as
hospital Amadora-Sintra, al-Samarrai (nome real) terá nascido ações bárbaras ordenadas pelo “líder
onde estava internado. na cidade iraquiana de Samarra, há de todo e qualquer muçulmano” que
Tinha 86 anos.
48 anos, no seio de uma família de queria lutar até à conquista
sunitas ultrarreligiosos que se dizia de Roma? Sónia Calheiros

28 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


Sundar
Pichai, CEO
PRÓXIMOS CAPÍTULOS
da Google,
junto do
‘‘Sycamore’’

PERISCÓPIO

PRAGA assim para se chegar


A multiplicação ao número redondo
dos secretários de 50 secretários de
de Estado Estado…
O antigo governante
próximo do CDS, OBRA
Bagão Félix, explicou, André Ventura
no Facebook, cava túnel?
uma espécie de Uma das grandes
“enrolamento para questões que
dentro” do Governo. marcaram a abertura
Ao seu olhar atento da legislatura foi
não escapou que a obra que deverá
“o secretário de fazer-se, ou não,
Estado-adjunto e da no hemiciclo
Justiça coabita com o parlamentar, para
D.R. secretário de Estado construir um acesso
(SE) da Justiça, que ao lugar de deputado
INVESTIGAÇÃO não é adjunto”. E “o ocupado por André
poderoso SE-adjunto Ventura, do Chega,

Revolução quântica à porta


e da Saúde anda sem incomodar o
lado a lado com o CDS nem obrigar
remediado SE (só) outros deputados
da Saúde”. E que “o a levantarem-se.
Está confirmado o primeiro passo num campo que, mesmo se verifica na Conhecido pelo seu
Educação (SE-adjunto benfiquismo, o ex-
acreditam os investigadores, pode “mudar o mundo” candidato do PSD à
e da Educação e SE
da Educação) e na Câmara Municipal
Em teoria, um computador quântico consegue chegar aonde não de Loures bem podia
Administração Interna
chegam os computadores atuais e de forma muito mais rápida. (SE-adjunto e da cavar um túnel até
No final de setembro, a NASA publicou (e retirou rapidamente da Administração Interna ao seu lugar. Afinal, é
rede) um relatório que dava conta de que a Google tinha alcançado e SE da Administração assim que fazem as
a “supremacia quântica” ao criar e ao resolver “a primeira Interna). Talvez seja toupeiras.
computação que apenas pode ser efetuada num computador
quântico”, que a própria marca construiu. Agora, é oficial: a Google
publicou a investigação na prestigiada Nature e anuncia que o
seu processador quântico, o Sycamore, foi capaz de executar em
3 minutos e 20 segundos uma tarefa específica que os melhores
supercomputadores do mundo levariam... dez mil anos a resolver.
No trabalho agora publicado, a gigante tecnológica confirma
o feito. “Este aumento dramático de velocidade, em comparação
com todos os algoritmos clássicos conhecidos, é uma
conquista experimental da supremacia quântica para esta
tarefa computacional específica, anunciando um paradigma
computacional há muito esperado”, lê-se. “Estamos apenas a
um algoritmo de distância de [alcançar]
MARCOS BORGA

valiosas aplicações a curto prazo”,


concluem os investigadores. A Google
ESTAMOS vê aplicações para estas conclusões a
vários níveis, desde a conceção de novos
APENAS A UM materiais (baterias mais leves para carros FASHION
ALGORITMO DE e aviões) a catalisadores para produzir Não podem ver um rabo de saias
fertilizantes de forma mais eficiente (um Outra das duas grandes questões da abertura da
DISTÂNCIA DE processo que hoje representa mais Assembleia da República, com a tomada de posse
[ALCANÇAR] de 2% das emissões mundiais de carbono) dos deputados para a nova legislatura, foi a saia
apresentada pelo assessor parlamentar do Livre.
e medicamentos mais eficazes.
VALIOSAS Para quando estes efeitos práticos? Não para Ignorando que se trata de uma tendência da moda
APLICAÇÕES já, explica a gigante tecnológica: “Alcançar adotada por algumas franjas jovens masculinas,
visível em várias cidades europeias, os ‘‘botas de
as capacidades computacionais necessárias
A CURTO PRAZO ainda vai implicar anos de trabalho científico elástico’’ de serviço contribuíram para o objetivo
GOOGLE e de engenharia muito duros. Mas agora do Livre: publicidade. O que se conclui é que não
INVESTIGAÇÃO podem ver um rabo de saias...
publicada vemos um caminho claro e estamos
na revista Nature ansiosos por seguir em frente.” C.C.

31 OUTUBRO 2019 VISÃO 29


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OPINIÃO

Tudo é composto
de mudança
P O R J O S É E D U A R D O M A R T I N S / Advogado e ex-deputado do PSD

O
ra então, houve eleições. Desta vez, terão Conclusão: dê lá por onde der, com mais ou
reparado, o PS ficou à frente e desfez em menos diversidade ao lado, é ao PSD que cabe
dois dias a artimanha que durou quatro comandar o centro-direita e oferecer uma alternativa
anos. A ladainha do novo paradigma de a este pântano.
esquerda foi uma balela imposta por uma E é no centro moderado, na abstenção, que o PSD
derrota. Ultrapassada a contingência, não precisa de recuperar o seu eleitorado tradicional.
é preciso Geringonça para nada, e lá se O milhão de votos perdido está na imensidão de
retoma o costume constitucional: governa pessoas que precisam de sentir que alguém tem
quem ganha. Se não conseguir, repetem-se uma resposta para o que mudou no mundo, que
as eleições. Acabam aqui, para já, as boas resiste à voragem do tempo e não perde coerência
notícias. O PS, que agora só precisa de engambelar em posições sucessivamente contraditórias para dar
um parceiro de cada vez, tem algum tempo e desíg- resposta às notícias e não aos problemas.
nio, ou paixão se preferirem, de sempre: colonizar o E para isso não basta saber se é o dr. Rio o
Estado. A comprar golas e barretes vários com os de mais teimoso ou se é o dr. Montenegro que tem
baixo e à espera da providência do império do meio, mais cabelo. Não é uma guerra de personalidades,
por cima, com quatro ministros de por melhores que fossem, que
Estado a fazer o laçarote da vidinha. entusiasma a inteligência dos
Talvez seja só muito Estado para o É ao PSD que moderados que já não votam.
que se adivinha. Pior do que isso, de resto, só
Mas quando a instalação da As-
cabe comandar escavar trincheiras onde no PSD
sembleia da República se consome o centro-direita havia pequenas lombas, com uma
entre temas de moda para asses-
sores e carpintaria para portinho-
e oferecer uma guerra de supostos liberais, contra
alegados sociais-democratas.
las na bancada direita, até pode alternativa Para vencer o problema
resultar. Para já, estão instalados os a este pântano estrutural do seu afundamento
tais 70 governantes. Depois, logo se e liderar um bloco político que
verá o que está a “precisar de res- possa governar, o PSD tem de
posta” nas redes sociais. E por aí se fica a coisa. ser um partido moderno que valoriza o mercado, a
Não é pós-ideologia, como reclamam os novos empresa e a democracia representativa, mas que o faz
partidos identitários. É incapacidade, à esquerda, de porque valoriza antes de mais a liberdade individual e
apresentar propostas ordenadas, sequenciais e subs- o gosto de viver sem, contudo, desejar uma sociedade
tantivas. Incapacidade de desenvolver uma matriz de “cada um por si” e um Estado alheio ao seu papel
política coerente para os problemas contemporâ- no “elevador social” e na proteção dos excluídos.
neos sobrando, para lá desta navegação à vista do PS, Agora é tempo de construir uma alternativa que
apenas a asneira avulsa ou o confisco sortido como junte os melhores em torno de quem percebe esta
solução. necessidade de mudança, e julgo sinceramente que
É esta desgraça anunciada que torna mais pertur- Miguel Pinto Luz é o único na corrida que quer con-
bante a debacle do centro-direita. Fora do folclore, gregar a vontade humilde e determinada de muitos
não há alternativa ao deixa andar. E os que votam que não desistiram de atrair para o PSD todos os que
cada vez menos são os que deixaram este lado, que dele se afastaram, mais do que nas sedes, no orgu-
emagrece a cada eleição, mas que não foram para lho e na vontade de ser representado. Não precisa de
lado nenhum. Estão só sem estímulo que os orgulhe. mais para começar.
Rapidamente, para recordar os factos, o PSD teve São tempos de mudança. O reformismo de que
uma derrota histórica em que nem os votos do CDS as democracias liberais precisam está em procurar
foi buscar, como acontece por estas alturas. Aparece- resistir à velocidade das soluções imediatas e, ainda
ram três partidos novos e dois até elegeram deputa- assim, oferecer alternativa aos que não vociferam
dos: um que rejeita a democracia liberal e outro mais mas estão sem representação. Por cá, ninguém o faz;
libertário do que liberal, mas nenhum acrescentou o PSD tem aqui a sua oportunidade para assumir a
votos à direita que já havia. liderança. visao@visao.pt

32 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


Terapia da
SILÊNCIO, PAZ, TRANQUILIDADE
– SOA-LHE BEM ESTE TRIO?
DESLIGUE ENTÃO A FICHA DA ROTINA
E VOLTE A LIGÁ-LA A AMBIENTES
SELVAGENS, POIS SÃO ESTAS
AS PREMISSAS PARA UMA SAÚDE
MENTAL QUE SE RECOMENDE.
SAIBA O QUE DIZEM OS
ESPECIALISTAS SOBRE A “CURA”
PELA NATUREZA, CALCE OS TÉNIS
E VENHA DAÍ CONNOSCO PASSEAR
EM SÍTIOS IDÍLICOS, ONDE O DIABO
PERDEU AS BOTAS E ONDE
NEM SEQUER O TELEFONE TOCA

JOANA LOUREIRO E LUÍSA OLIVEIRA

34 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


Natureza

31 OUTUBRO 2019 VISÃO 35


s
OS BENEFÍCIOS
DO CAMPO
Está comprovada
a ligação entre
a Natureza
e a felicidade,
mas há mais
razões para nos
evadirmos para
longe das cidades

1 Silêncio, que este texto começa a 1 200 metros


CONECTAR de altitude, na serra da Estrela, e tresanda a
Obriga a verde e a ar puro. É aqui, na Natureza em es-
conectarmo-nos tado selvagem, que nos deveríamos refugiar,
com as nossas sobretudo os que vivem na cidade, se querem
emoções manter a cabeça limpa e saudável. Pelo menos
é isso que se defende nos meandros da psico-
2
logia e da psiquiatria – e fomos comprová-lo
NÃO MEDICAR
in loco, na serra mais alta de Portugal Con-
Funciona como
tinental, mas também junto ao mar agitado,
alternativa à
medicação no
a rios transparentes e no meio de vegetação
tratamento da cerrada. “O estilo de vida atual não nos permi-
depressão te silêncio, nem tempo nem espaço. Por isso,
temos de arranjar formas artificiais que nos
3 obriguem a conectar-nos com as emoções”,
LIBERTAR vaticina Samuel Antunes, psicólogo clínico e
Dá-nos uma investigador na área do stresse e do bem-estar,
sensação maior do ISPA – Instituto Universitário.
de liberdade “Às vezes, andamos à procura de grandes
descobertas, e as maiores curas estão ao nosso
4 lado e são fáceis de implementar”, acredita
FOCAR Jorge Mota Pereira, médico psiquiatra. Em
Há menos 2011, conduziu um estudo pioneiro em Portu-
estímulos e gal que avaliou a eficácia do exercício físico no
distrações, o que tratamento de depressões graves, resistentes
permite um maior aos fármacos. “Das pessoas que estavam a to-
foco e mais atenção mar medicação há, pelo menos, nove meses,
sem melhorias, e passaram a caminhar 30 a
5
40 minutos por dia, cinco vezes por semana,
SEM STRESSAR
25% conseguiram atingir a remissão total”,
A quebra da
recorda Mota Pereira.
rotina afasta-nos
das situações de
Um passeio pelo parque ou por lugares
stresse, diminuindo com muito verde foi a opção de muitos pa-
a ansiedade cientes. “A caminhada é das coisas que dá mais
sensação de prazer imediato, pela libertação
instantânea de endorfinas. Ao fim de duas a
quatro semanas de prática regular de exercício
físico, conseguimos medir uma modificação dos são ainda melhores. O silêncio, o ouvir a
dos neurotransmissores cerebrais, nomea- chuva a cair, o sentir o aroma de algo que nos
damente da serotonina, da adrenalina e da faz lembrar a infância, quando brincávamos
dopamina, os mesmos neurotransmissores e corríamos no parque, vai-nos trazer boas
que são modificados com os antidepressivos”, memórias”, acredita.
revela o psiquiatra.
Atualmente, cerca de 90% da prática clí- NUM PEDAÇO DA ESTRELA
nica de Mota Pereira é dedicada a casos de Voltamos aos 1 200 metros (o equivalente a
depressão e ansiedade. “O contacto com a 98 pisos) e à vista que nos arrebata, por es-
Natureza é muito importante. Em vez do tar isenta de intervenção humana. Estamos
ginásio, proponho aos meus pacientes que, mais ou menos a meio do trilho do vale de
de vez em quando, vão à serra. E os resulta- Beijames, que se for percorrido a preceito,

36 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


canhão
do nabão
Tomar

Canhão
do Nabão

Agroal
Póvoa
N113

N13
Tomar

Parar e sentir
O guia Quirino

JOSÉ CARLOS CARVALHO


Tomás defende que
não nos devemos
limitar a caminhar.
Os momentos de
contemplação também
são importantes

Pulo do Lobo Já houve tempos em que o Pulo do Lobo


foi usado como sinónimo de isolamento,
Mértola em linguagem “cavaquista”. Hoje, apesar
de continuar bem longe da civilização,
N265 este geossítio do Parque Natural do Vale
Rio Guadiana
do Guadiana já consta de vários roteiros
turísticos. No entanto, a surpreendente
Natureza conserva altas doses de estado
IC27
Pulo do
Lobo puro. A cascata de 16 metros, a maior do Sul
do País, é o ex-líbris do Pulo do Lobo, pois
N265
Mértola
corre feroz e estreita. O curso do rio retorna à
ESPANHA

calma no Pego do Sáveis, o grande caldeirão,


N267 onde os peixes migradores chegam para
desovar, vindos do mar. Vale a pena a visita,
Parque IC27
Natural especialmente se se avistar as cegonhas-
do Vale -pretas, os bufos-reais ou as águias-reais
do Guadiana que costumam esvoaçar por aqui.
JOSÉ CARLOS CARVALHO

leva todo um dia a calcorrear os seus 30 qui-


lómetros. Para receber a bênção da Natureza,
não será preciso tanto. A partir desta casca-
lheira onde parámos, tem-se a perceção de
todo o vale, totalmente selvagem – não existe
nenhuma estrada a circundá-lo. E o caminho
por onde agora andamos só foi aberto há dois
anos pela Associação dos Amigos da Serra da
Estrela, conservando-lhe o estatuto de vale
LUÍS QUINTA

encantado.
João Pedro, 50 anos, é quem nos leva por
esta montanha acima, numa subida que se

31 OUTUBRO 2019 VISÃO 37


vence em socalcos para não custar tanto. a seguir, à porta de casa, Olívia Correia, am-
Este técnico de turismo, que veio de Lisboa parada na enxada, desdenha do cenário em
há 10 anos, anda sempre de mochila às cos- que acorda todos os dias desde que nasceu
tas, pronto para explorar mais um pedaço há 64 anos. “A gente está farta disto”, diz a
da serra que o encanta. olhar para o marido, Hermínio, que empi-
Neste dia, juntam-se a nós os ingleses lha o estrume dos animais num monte que
Daren e Rachel Hare, de 54 e 48 anos, que há de ser usado para a agricultura. “Nessas
largaram tudo em Inglaterra para viajarem casas por onde passaram, vivia gente e o vale
EM VEZ DO pelo mundo numa carrinha. Adoram a paz
e o sossego do campo e espantam-se com o
estava todo cultivado. Os antigos morreram,
os herdeiros emigraram”, resume.
GINÁSIO, facto de este pedaço de terra ainda não estar
estragado e se manter a salvo de enchentes.
Esses tais emigrantes de que fala, que
quadruplicam a população de Verdelhos
PROPONHO “Isto é ótimo para o nosso bem-estar, físico – a aldeia mais próxima, a 13 quilómetros

AOS MEUS
e mental”, assegura Daren. da Covilhã –, fartam-se de tomar banho na
À medida que voltamos à base, e o rio se pequena barragem que prende o rio e que

PACIENTES QUE
adensa, registamos que não tropeçamos em dantes, em levada, transportava a água aos
eucaliptos – aqui só há árvores autóctones. moinhos que ainda se avistam, em ruínas.

VÃO À SERRA. E Além do som do rio, ouvimos aves a chilrear


e tentamos descobri-las nas copas das árvo- A IMPORTÂNCIA DE DESLIGAR

OS RESULTADOS res ou a rasgar o céu. De repente, um alerta


de João Pedro: “Cuidado para não pisarem as
A escritora inglesa Edwina Pitcher, 33 anos,
autora do livro Portugal Turismo de Natu-
SÃO AINDA fezes das raposas que passaram aqui à noite.”
Diz que, por aqui, também há javalis e répteis.
reza, teve o trabalho difícil de percorrer o
País selvagem para nos dar 700 sugestões
MELHORES” Quando chegamos à parte mais “urbana”
do percurso, cruzamo-nos com o pastor An-
de locais onde ainda se consegue estar longe
da confusão. “No Reino Unido, não existe
JORGE MOTA PEREIRA, PSIQUIATRA tónio Afonso, 63 anos, e as suas cabras. Logo forma de viver perto da Natureza, como aí”,
lamenta-se ao telefone, desde sua casa. “Na
altura, quando iniciei esse livro, precisava de
costa É impossível inventar desculpas para se
escapar à beleza da Costa Vicentina –
tempo para refletir. Decidi então andar, viver
vicentina existem 450 quilómetros de percursos
ao ar livre e desenvolver ideias diferentes em
relação à vida selvagem.”
sinalizados, entre Santiago do Cacém e o
Resultou na perfeição, como se pode
Sines N120 Cabo de São Vicente, permitindo mergulhar
nas profundezas deste litoral que, em alguns
atestar pelo seu discurso renovado. “Se
pontos, ainda está a salvo da multidão. E se dormirmos fora, com a lua cheia, só se ou-
vale a pena seguir pelo clássico junto ao mar vem os animais. Pode ficar fresco, sim, mas
(Trilho dos Pescadores), mais surpreendente ao mesmo tempo sentimo-nos mais vivos.
será o Caminho Histórico que se desenrola E pensamos logo com mais clareza, mesmo
Parque para o interior, atravessando algumas que a noite não tenha sido a mais tranquila.”
Natural localidades (há 13 troços ao longo de mais de Desde então, Edwina precisa de sair da rotina
do Sudoeste 200 quilómetros). Neste caso, a dificuldade para se sentir feliz, porque as situações mais
Alentejano
e Costa será cruzar-se com vivalma, especialmente desafiantes a acalmam. No entanto, ressalva,
N120
Vicentina nacional. Um pedaço do País, com paisagens não é preciso ser um aventureiro nato para
Sagres
sossegadas, paradas no tempo, ideais para entrar nesta terapia ocasional. Basta focar-se
desligar do ramerrame da selva urbana. no básico, como ouvir o canto das aves ou
prestar atenção à vida selvagem. Nem que
seja por um dia.
Se conhecesse a autora inglesa, o psicólogo
Samuel Antunes aplaudiria o seu discurso.
“Os lugares selvagens são uma quase garantia
de que vamos ter uma aproximação à inte-
rioridade, coisa de que todos precisamos.” O
facto de estarmos sempre conectados com os
outros, e desligados de nós próprios, é uma
ameaça à saúde mental, estimulada pelos
aparelhos a que estamos constantemente
agarrados. Não haver wi-fi nem rede de tele-
móvel na maioria dos locais selvagens é uma
mais-valia para o desligamento. As crianças
também deviam acompanhar os adultos nes-
tes escapes. “A Natureza pode parecer aborre-
cida ou transformar-se numa fonte de tédio,
JOSÉ CARIA

mas é importante ajudá-los a descobrir prazer


em sítios que obrigam a esse ajustamento.”

38 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


serra
da estrela
Verdelhos, Covilhã

Parque Natural
da Serra da Estrela

N232

Manteigas

Verdelhos
Rio Zêzere

N18
Covilhã

Mágico O vale
do Beijames está
praticamente a
salvo da intervenção
humana, apesar
de ainda existirem
algumas casas
por aqui, quase
todas desabitadas.
Pessoas, só mesmo
quando passa algum
pastor e os seus
rebanhos de cabras
ou algum caminhante
contemplativo
FOTOS: JOSÉ CARLOS CARVALHO

31 OUTUBRO 2019 VISÃO 39


Nem é preciso grande investimento. Às
vezes, um dia ou dois têm o efeito de uma
semana, pois entra-se noutra dimensão, em
que há liberdade quase plena. E isso não é
um luxo?

EXPLORAR EM GRUPO
No Parque Nacional da Peneda-Gerês parti-
mos à descoberta de Fafião, uma das aldeias
mais dinâmicas do concelho de Montalegre,
onde o comunitarismo ainda é uma realida-
de. Muito graças à intervenção da Associação
Vezeira, nome da atividade em que diferentes
famílias alternam entre si o pastoreio do gado
(bovino e caprino), levado para o alto da serra,
entre maio e outubro, onde existem prados
verdejantes e água abundante. Em 2018, o
grupo delineou o Trilho do Pão e do Azeite,
uma pequena rota circular de 12 quilómetros
pela serra do Gerês, devidamente homologa-
da, em que elementos patrimoniais como um
fojo do lobo (uma antiga armadilha dos pre-
dadores), um lagar de azeite ou um moinho
disputam as atenções com bosques, poços
(lagoas) e fechas (cascatas).
“As caminhadas estão na moda, anti-
gamente não havia GPS nem informações
sobre os trilhos, hoje está tudo na internet”,
diz Júlio Marques, um dos dinamizadores da
associação. “As pessoas vêm para limpar a ca-
beça e gostam de se embrenhar pelos trilhos
mais inóspitos, onde encontram silêncio e
paz”, acrescenta. Curiosamente, Júlio é um
forasteiro nestas paragens, nascido e criado
no bulício da cidade da Maia. Vive em Fafião
há dois anos. “Sou asmático e diminuí imen-
so a medicação, tinha vertigens e perdi-as…
A minha vida mudou muito”, conta.
Voltando ao trajeto, há que andar mais
uns quilómetros por estradão largo até se
enveredar por um caminho mais estreito, ao
encontro de uma microfloresta com todo o
tipo de árvores autóctones, por onde se er-
gue uma formação rochosa surpreendente, a
rasgar os céus. Dali se desprende a fecha do
Quelhão, uma queda-d’água com cerca de
40 metros, a alimentar o leito do rio Conho
que, mais à frente, se juntará ao rio Fafião. É
neste vale, mais próximo da “civilização”, que
se encontra outro postal ilustrado, o Poço
da Cancela, lago fundo e cristalino onde os
O ESTILO DE turistas mergulham no verão. participantes em cada etapa, de várias loca-

VIDA ATUAL NÃO


Habituais no Gerês são os Calcantes, asso- lidades. “Só no Gerês fizemos 600 quilóme-
ciação com sede em Vila Nova de Famalicão, tros a pé e nunca repetimos um percurso”,

NOS PERMITE
criada há 12 anos. “As caminhadas são vician- recorda. “Os cenários mais inóspitos e sel-
tes. Quem gosta de Natureza, nunca mais de- vagens estão lá, conseguimos andar 20 a 30

SILÊNCIO, NEM siste e são inúmeros os benefícios para a saú-


de”, acredita Pedro Moreira, um dos membros.
quilómetros sem ver a ação humana, apenas
nos cruzamos com os pastores.”
TEMPO NEM “Queríamos incentivar uma modalidade que
abrangesse pessoas de vários escalões etários,
Rogério Silva, 56 anos, bancário, é um dos
que não costumam faltar às iniciativas dos Cal-
ESPAÇO” sem grande preparação física”, conta.
No Norte do País aventuraram-se por
cantes. “Quando vou para a montanha, até do
meu nome me esqueço, esvazio completamente
SAMUEL ANTUNES, PSICÓLOGO inúmeros trilhos pedestres, com dezenas de a cabeça e só penso em olhar para a paisagem

40 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


gerÊs
Fafião, Montalegre

Parque Nacional
Peneda-Gerês

Fafião
Barragem

N103
Rio Cávado
Venda Nova

Cores
Esta serra é sempre
bonita, mas no outono
ganha tonalidades
especialmente
encantadoras,

DIOGO BAPTISTA/NFACTOS
sobretudo quando nos
embrenhamos pelos
trilhos mais inóspitos

Praia da Quem vive em Lisboa não precisa de ir longe


para sentir os efeitos benéficos da Natureza.
Adraga Em menos de uma hora, larga-se o carro no
Almoçageme estacionamento da Praia da Adraga, perto
de Almoçageme, e dá-se às pernas para se
fugir ao bulício. Noventa minutos de uma
Praia da
Adraga caminhada revigorante, sempre com o mar
por companhia, até ao cabo da Roca, e sai-se
renovado. Mesmo nos dias de maior ventania,
aventurar-se pelo caminho que ladeia a costa
Praia da Ursa
é entrar em comunhão com a Natureza e o
Parque Natural quase silêncio que lhe é inerente. Este quase
de Sintra-Cascais está aqui porque o oceano, por estas bandas,
Cabo da Roca
agita-se de tal forma que se dá a ouvir, assim
N247 como uma ou outra ave que passam com
o canto afinado.
DIOGO BAPTISTA/NFACTOS

e brincar com as pessoas”, conta. A trabalhar


na área da recuperação de créditos, com mui-
tos prazos e objetivos para cumprir, o stresse
trouxe-lhe em tempos problemas de saúde que
o deixaram de baixa durante três meses. Os mé-
dicos incentivaram as caminhadas. “Fico mais
levezinho e consigo abstrair-me dos problemas,
JOSÉ CARLOS CARVALHO

das obrigações e das tarefas diárias”, sublinha


o bancário. As aventuras são inevitáveis, como
um ribeiro que se agiganta e é preciso atraves-
sar ou uma escalada imprevista. “A sensação de
superação é muito boa”, reconhece.

31 OUTUBRO 2019 VISÃO 41


Serra de Arga
Arga de Baixo

Arga de Baixo

Arga de Cima

Serra de Arga

N302

N27

Rio Lima
Vila Franca

Pitoresco
Passear nesta serra
DIOGO BAPTISTA/NFACTOS

é sentir que o tempo


parou, por entre
pequenas aldeias,
casas tradicionais de
lavoura e o gado, que
aqui anda à solta

Na capital, os amigos Rui Henriques, Marta


Arouca Nos 328 quilómetros do Arouca Geopark
(classificado como Geoparque Mundial
Castro, José Josué e Diogo Tavares fogem da
Geopark da UNESCO), encaixados entre as serras
cidade e refugiam-se na Natureza sempre que
podem, desde há três anos, quando fundaram
da Freita e do Montemuro, não faltam
os Bons Selvagens, grupo de aventureiros
Trancoso alternativas mais agrestes a quem queira
com consciência ambiental. “Queremos li-
fugir aos Passadiços do Paiva, já com muitos
N 32
6 visitantes. Será o caso da pequena rota Nas
bertar-nos do nosso dia a dia, sentirmo-nos
Escarpas da Mizarela, um percurso circular pequeninos. Onde houver espaço, é onde
de oito quilómetros, que tem como grande planeamos ir”, diz Rui, 43 anos, designer.
Arouca atração a Frecha da Mizarela, onde as águas Mesmo quando não conseguem organi-
do rio Caima se projetam da falha de paredes zar-se para escapar da urbe, encontram-se
graníticas numa queda com mais de 60 em Monsanto para correr, andar de bicicleta
metros de altura. O ponto de partida e de (o meio de transporte que os uniu) ou para
Rio Paiva piquenicar. “A energia da cidade é densa, há
chegada é o parque de campismo do Merujal,
no planalto da serra da Freita, a 890 metros sempre barulho. Torna-se importante en-
Rio Frades de altitude. Dado o desnível, o percurso está contrar sítios onde não haja mais distrações
classificado como sendo de dificuldade alta. ou outros estímulos”, nota José Josué, 42
anos, professor de Educação Visual. Ou que
essas distrações se resumam a um céu imen-
samente estrelado, no cimo de uma colina,
especialmente no Interior do País. Marta Car-
doso, 43 anos, animadora turística, salienta
a simplicidade destes programas: “Andar,
comer e dormir, partilhar experiências. Não
há mais nada além disto.” Diogo Tavares, 42
anos, como é guia de trekking tem os seus
próprios balões de oxigénio, fora de Portugal.
Mesmo assim precisa de umas escapadelas
expresso – de uma hora para outra, arranja
a mochila e vai dormir no meio da Natureza.
“No dia seguinte, chega-se ao trabalho mais
rameloso ou salgado, mas renovado”, garante.
LUCÍLIA MONTEIRO

COM PRESCRIÇÃO MÉDICA


No Porto, a unidade de saúde familiar da
Prelada foi uma das que aderiram ao Walk

42 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


DIOGO BAPTISTA/NFACTOS
with a Doc, programa internacional de ca- Autores do departamento de Psicolo-
minhadas (iniciado nos Estados Unidos da gia da Universidade Carleton, no Canadá,
América, em 2005) com o acompanhamento sugerem que o contacto com a Natureza
de um médico ou enfermeiro. Começaram “promove melhorias na disposição, no ra-
a calçar as sapatilhas em fevereiro de 2019 ciocínio e na saúde”. Esta análise, publicada
e, desde então, caminham todas as primei- no Frontiers in Psychology, conclui que
ras sextas-feiras de cada mês. “Começamos estar nesta comunhão tem como resultado
sempre no mesmo local: Casa da Prelada e sentirmo-nos mais felizes. Além disso, um
depois vamos pela ciclovia do viaduto da artigo de uma equipa britânica de investi-
Prelada. Tentamos sempre explorar locais gadores chegou à conclusão de que ainda
que nos afastem do trânsito e das áreas se melhora o comportamento em relação
residenciais e urbanas e nos levem para ao planeta.
ambientes mais tranquilos”, conta Mar- Outro relatório, publicado no Pshychologi-
garida Vaz Pinto, médica responsável pela cal Science, por uma equipa da Universidade
implementação do programa. A mensagem do Michigan, EUA, defende que os ambientes
sublinhada aos utentes é que “passar tempo urbanos estão cheios de estímulos que captam
ao ar livre contribui para o bem-estar físico dramaticamente a nossa atenção, o que os
e psicológico”. torna pouco restaurativos. Em contraponto,
Em países como o Japão ou o Reino Uni- pede-nos para imaginarmos “uma terapia
do, os “banhos de Natureza” são já prescritos sem efeitos secundários, pronta a usar e
pelos médicos. Os benefícios dos mergulhos que pode melhorar a nossa função cognitiva
no verde, descritos em várias publicações, a custo zero”. É a Natureza, pois claro.
incluem a redução dos sintomas relacionados
com a depressão, a ansiedade e o stresse, a O REGRESSO DA FAUNA SELVAGEM
restauração psicológica, maior capacidade Voltamos à serra, desta feita a de Arga, e en- QUANDO VOU
PARA
cognitiva e de atenção, maior felicidade, contramos Ventura Gonçalves, que viveu na
satisfação e qualidade de vida, aumento do capital durante nove anos. “Era um stresse

A MONTANHA,
bem-estar geral. Um estudo da Universidade tremendo, havia filas para tudo”, recorda.
de Exeter, no Reino Unido, publicado, este No regresso a Arga de Baixo, a aldeia onde
ano, na revista Scientific Reports, tendo por
base inquéritos feitos a quase 20 mil pessoas,
nasceu, com pouco mais de 200 habitantes,
encontrou “outra qualidade de vida”. Há uma ATÉ DO MEU
refere que bastam duas horas por semana
em contacto com a Natureza, seja em zonas
imagem que imediatamente o remete para um
refúgio de tranquilidade: o nascer do sol no NOME ME
selvagens ou no parque, para se reduzirem
os níveis de stresse e a tensão arterial, assim
alto da montanha, às sete horas da manhã,
após ter saído de casa com os cães para caçar. ESQUEÇO”
como o risco de doenças cardiovasculares. “Vejo aquela vista e liberto-me de tudo”, conta ROGÉRIO SILVA, CAMINHANTE

31 OUTUBRO 2019 VISÃO 43


Repetentes
O grupo de
caminhadas
Calcantes, de Vila
Nova de Famalicão,
já fez 600 quilómetros
no Gerês e nunca
passou pelo mesmo
trilho
D.R.

o funcionário do Centro de Interpretação da


Montesinho Chegam as primeiras chuvas e as folhas dos
carvalhos, dos castanheiros e das cerejeiras-
Serra de Arga (CISA), que nos guia pelo Trilho
da Chã Grande.
Bragança -bravas cobrem-se de cores outonais. Em Chegamos ao Alto da Fonte da Urze, a
poucos quilómetros, numa área com 75 mil
ESPANHA 800 metros de altitude, o ponto mais alto do
hectares, avistam-se carvalhais, soutos,
trajeto. Do lado esquerdo, adivinha-se o vale
Rio de Onor sardoais, bosques ripícolas, giestais,
urzais, estevais, lameiros, com uma enorme
do rio Minho e o seu estuário, pontuado pelo
diversidade de fauna. Um dos trilhos monte de Santa Tecla, já do lado espanhol; do
Parque Natural
de Montesinho assinalados é o de rio de Onor, com apenas lado direito, o vale do rio Lima, com os picos
Rio sete quilómetros, muito procurado pelo do Gerês recortados no horizonte.
Sabor
Rio de facto de combinar a passagem pela aldeia Quem queira mais informações sobre
Onor tipicamente transmontana, onde subsistem este e os outros cinco percursos pedestres
tradições comunitárias, com o vislumbre de da serra de Arga, divididos entre os conce-
algumas das paisagens típicas do parque. lhos de Caminha e de Ponte de Lima, deve
Bragança recorrer ao CISA, instalado numa recuperada
A4 casa de guarda florestal. “Veem-se cada vez
mais portugueses e estrangeiros a fazerem
caminhadas”, reconhece Ventura Gonçalves.
Ali bem perto, no largo da igreja de Arga de
Baixo, começa este trilho da Chã Grande, com
12 quilómetros (de dificuldade moderada,
feito em cerca de cinco horas).
A vegetação rasteira faz sobressair os aflo-
ramentos graníticos de formas peculiares, a
reforçar a Natureza inóspita. O abandono
pelos homens também implicou um regresso
da fauna selvagem, como os lobos-ibéricos,
os garranos, as raposas e os texugos, de que
só vemos vestígios. Pelos céus, voam cotovias,
cartaxos, cias e, esporadicamente, grifos. Na
Chã Grande, passamos pela singela nascente
do rio Âncora, de águas quase tímidas que
ganharam força à medida que descem a serra.
Já no percurso descendente, alinham-se os
moinhos de Covão, com um pequeno aque-
D.R.

duto a dar mais corrente às águas. A partir

44 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


daqui, a paisagem serrana é substituída pelos presente. Quando recomeçamos, já é outra
campos agrícolas divididos por velhos muros coisa. Trata-se de um ansiolítico, mas dos
de pedra, com azevinhos e castanheiros nas bons, de doses extra de serotonina de ad-
orlas. O caminho termina onde começou, a ministração natural.”
atravessar as pitorescas aldeias de Arga de Nesta zona há lapas, provocadas pela
Cima e de Baixo, com algumas tradicionais dissolução do calcário, onde nos podemos
casas serranas de lavoura. abrigar. Pelo menos, os Bons Selvagens,
quando aqui vêm, e já repetiram a dose, dor-
QUEBRAR A MALDIÇÃO DO TEMPO
Descemos ao Centro do País para visitar o
mem nestas cavidades naturais. Não dá para
só caminhar. Há que deixar tempo e espaço
QUEREMOS
Canhão do Nabão, perto de Tomar, e entrar para a contemplação, escolhendo uma pedra LIBERTAR-NOS
DO NOSSO
numa dimensão em que somos só nós e a para descansar, sentir a envolvência, ficar
Natureza. E até pode ser apenas um toque- simplesmente em silêncio. “A caminhada

DIA A DIA,
-e-foge que surtirá bom efeito. Na margem é importante para a componente cardior-
direita do rio, de quem chega da Póvoa, a ve- respiratória, mas o mais importante são os
getação é mais densa e as formações calcárias
imponentes. Por isso, trepamos por elas para
resultados mentais. Sinto que, quando trago
aqui alguém, lhes estou a dar algo de bom. SENTIRMO-NOS
ter uma vista panorâmica e respirar de tal
forma que enchemos os pulmões, renovan-
Anda tudo muito cansado”, refere Quirino.
Está na hora de regressarmos à estrada, PEQUENINOS.
do-os para aguentarem a pressão da cidade.
Quirino Tomás, 33 anos, acompanha-nos
de sair deste torpor bom, mas antes ainda
passamos por túneis de árvores sombrios, ONDE HOUVER
nesta inspiração, de braços abertos, como
quem quer agarrar o cenário que conhece
que nem deixam o sol outonal penetrar, e pi-
samos medronhos vermelhos que mostram o
ESPAÇO, É ONDE
bem. É dono da Hikeland, uma jovem em-
presa que organiza caminhadas, algumas
seu interior amarelo ao serem esborrachados.
Nesta altura do ano, o musgo cobre a maioria
PLANEAMOS IR”
vezes a este destino. Aqui no alto, diz-nos: das pedras rasteiras e há bolotas caídas por RUI HENRIQUES, CAMINHANTE
“Tento quebrar a maldição do tempo que entre as folhas caducas, que já desistiram dos
corre demasiado depressa durante a semana, troncos das árvores. Uma última inspiração
especialmente nas grandes cidades, pon- e estamos prontos para publicar este texto.
do um travão para voltarmos ao momento visao@visao.pt

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é bom ler
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PAPEL FORNECIDO POR:


OS INCÓMO
O novo Governo de António Costa tem três juízes em
áreas de relevo. As regras não impedem a transição,
nem o regresso aos tribunais, mas a classe admite
“incómodo e reprovação” com esta dança de cadeiras
PEDRO RAÍNHO

46 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


DOS N
Não é a primeira vez que um juiz troca
os tribunais por um lugar executivo no
governo, mas nem por isso a questão
é mais pacífica entre os membros da
classe judicial. “Os juízes reprovam
essa situação, não por constituir uma
ilegalidade – não é isso que está em
causa –, mas porque pode levantar
problemas de ética” e ferir a imagem
de independência da Justiça, defende
o presidente da Associação Sindical de
Juízes Portugueses (ASJP), em declara-
ções à VISÃO. “Incómodo e reprova-
ção” são dois termos que, para Manuel
Ramos Soares, resumem bem o estado
de espírito com que a magistratura
olha para quem dá esse salto.
No último sábado, 26, o Gover-
no tomou posse. Da longa lista de
secretários de Estado (num total de
50) constavam três nomes familiares
no universo da magistratura judicial:
Antero Luís, Mário Belo Morgado e
Catarina Sarmento e Castro.
Se Catarina Sarmento e Castro,
secretária de Estado de Recursos Hu-
manos e Antigos Combatentes, tem um
perfil mais discreto – foi, durante nove
anos e quase até chegar ao Governo,
juíza do Tribunal Constitucional –, as
duas primeiras personalidades desta
lista tiveram carreiras mais expostas
à atenção mediática.
Antero Luís passa do Tribunal da
Relação de Lisboa para as funções
de secretário de Estado-adjunto e da
Administração Interna. Na Relação,
lidou com o processo dos motards do
grupo Hells Angels, mantendo a pri-
são preventiva a alguns dos arguidos.
Antes disso, apresentou uma queixa
ao Conselho Superior da Magistratura
(CSM) contra o juiz Carlos Alexandre
– entretanto arquivada pelo Supremo
Tribunal de Justiça – pelas referências
que lhe eram feitas na investigação aos

31 OUTUBRO 2019 VISÃO 47


vistos gold, em que foi visado o antigo
responsável do Instituto dos Regis-
tos e Notariado António Figueiredo,
com quem mantinha uma relação de
proximidade. O juiz-desembargador
foi vogal do CSM, diretor-geral do
Serviço de Informações e Segurança
(entre 2005 e 2011) e, logo de seguida,
secretário-geral do Sistema de Segu-
rança Interna (até 2014).
Mário Belo Morgado, ex-diretor dos
serviços judiciários e o primeiro civil
a ter comandado a PSP, é o terceiro
magistrado do Governo. Acusado de
seguir uma linha que abre a porta à
ingerência na atividade judicial, ainda
em abril deste ano, o novo secretário
de Estado-adjunto e da Justiça falhou
a reeleição para vice-presidente do
órgão que supervisiona a magistratura
judicial. Entre as opiniões mais polé-
micas do juiz-conselheiro está a defe-
sa de uma fusão do Tribunal Central
de Investigação Criminal – por onde
passam os casos mais mediáticos da
Justiça portuguesa – com o Tribunal de a magistrados que tenham passado
Instrução Criminal; ou a defesa de que CATARINA SARMENTO E CASTRO pelo governo ou que venham a fazê-lo,

A outra juíza
casos como os do juiz Neto de Moura clarifica o presidente da ASJP.
devem ser punidos com penas mais António Martins era presidente da
graves do que a simples advertência. ASJP quando, em 2008, foi aprovado
por unanimidade, no 8º congresso dos
Aos 49 anos, e pouco depois
BARREIRA ÉTICA juízes portugueses, o documento Com-
de o mandato de nove anos
Com a tomada de posse do novo Go- no Tribunal Constitucional ter promisso ético dos juízes portugueses.
verno, Justiça, Administração Interna chegado ao fim (em abril deste Trata-se, recorda à VISÃO, do produto
e Defesa Nacional passaram a ter juí- ano), a docente universitária (aqui de um “grupo de trabalho vastíssimo
zes em lugares de relevo quando, por a tomar posse) aceitou o convite de juízes” que, há mais de uma década,
comparação, no primeiro governo de e integra agora o Ministério da “pensaram a ética” da classe. “Ser como
António Costa, apenas a juíza Helena Defesa Nacional, como secretária se deve ser e parecer como se é” seria,
Mesquita Ribeiro integrava a equipa, de Estado de Recursos Humanos nas palavras do magistrado, uma das
nas funções agora desempenhadas por e Antigos Combatentes. ideias fundamentais a retirar daquelas
Belo Morgado. E quando, antes disso, Ex-membro do Conselho 30 páginas.
Pedro Passos Coelho (em 2011 e em Consultivo da Procuradoria- Num dos pontos desse documento,
2015) e José Sócrates (2005-2009) não -Geral da República e do precisamente onde se concentram os
contaram com qualquer magistrado Conselho Superior dos Tribunais princípios sobre a “independência” dos
nas equipas que lideraram. Administrativos e Fiscais, fez magistrados, lê-se que “o juiz respeita
“Uma coisa é um cargo técnico, em todo o percurso académico escrupulosamente o princípio da sepa-
que se pode discutir a utilidade do juiz na Faculdade ração de poderes”. E, no mesmo pará-
– no caso de serem chamados para de Direito da grafo, acrescenta-se que “a salvaguarda
assessores da ministra da Justiça, para Universidade de da independência externa, que confere
Coimbra, onde é
assumirem funções como diretor-geral as condições de imparcialidade dos
professora desde
da Administração da Justiça ou funções tribunais e garante a confiança pública
1994. Foi ali que
idênticas na área da Administração regressou depois
na Justiça, leva a que o juiz se oponha
Interna”, ressalva o presidente da as- da passagem pelo a qualquer tentativa de politização dos
sociação sindical que representa 95% Palácio Ratton. seus órgãos próprios de governo ou da
dos juízes portugueses. “Esses cargos, sua função”.
podemos discuti-los, mas não levan- Os princípios orientadores da clas-
tam problemas”, diz Manuel Ramos se foram então reafirmados e estavam
Soares. Outra coisa são os “cargos de amplamente consensualizados, mas
confiança política, como os de ministro em 2015 e, novamente, em 2019, hou-
e secretário de Estado, que levantam ve quem voltasse a dar o salto. “O que
problemas éticos”, concretiza o ma- leva o poder político a considerar que
gistrado. A dúvida aplica-se tanto aos os juízes têm um valor acrescentado
três novos secretários de Estado como na decisão política? Porque é que os

48 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


Ramos Soares recorda a intervenção
da atual direção da ASJP, no limite do
tempo útil, para evitar a inclusão da-
quilo que classifica como um “absur-
do” no novo estatuto dos magistrados:
considerar que o exercício de funções
governativas se pode equiparar a uma
comissão de serviços judiciais. “Opu-
semo-nos, a Assembleia da República
deu-nos razão e isso não passou, mas
vinha aprofundar o erro, ao permitir
equiparar uma coisa e outra quando
são coisas distintas”, conta. António
Martins é defensor da ideia de que
“deve haver uma separação muito níti-
da e clara” entre Justiça e política e que
“não deve haver portas de comunica-
ção” entre os dois universos. “A partir
do momento em que se entra por uma
via, não se volta atrás.” Manuel Ramos
Soares entende que “a pessoa não fica
poluída” pelo facto de ter exercido
funções num qualquer governo, mas
ressalva que “a confiança é um valor
fundamental” e, para preservá-la, olha
foram chamar? Querem levar o pres- Juízes-políticos Magistrados para a forma como, noutros países, esta
tígio que um juiz, no seu conjunto, tomaram posse como questão é tratada.
enquanto classe, representa?” António secretários de Estado nas áreas O processo Lava Jato deu tal noto-
Martins coloca as perguntas, mas dei- da Justiça e Administração riedade ao juiz Sérgio Moro que, mal
xa as respostas para os responsáveis Interna assumiu funções como Presidente
políticos. do Brasil, Jair Bolsonaro formalizou
“O Governo compreende o incómo- o convite para que aceitasse ser seu
do” que a situação causa “e percebe que ministro da Justiça. Moro aceitou e,
há dificuldades” que decorrem destas com isso, fechou atrás de si a porta
nomeações, explica Manuel Ramos da magistratura – não há regresso
Soares. “Se não resolve, é porque não possível ao lugar que o notabilizou.
quer, até porque, da nossa parte, não “Esse é o sistema que mais protege a
teria nenhuma dificuldade” em criar independência do sistema judiciário”,
impedimentos à entrada de juízes na defende Manuel Ramos Soares.
política, diz o presidente da associação Em Portugal, nada impede o regres-
sindical. “Quando uma pessoa, sendo so ao tribunal e essa permissividade
juiz, transita imediatamente para a
função governativa, pode ser útil para PRESIDENTE
S leva o presidente da ASJP a defender
uma revisão das regras. Se não for para
o exercício dessas funções, mas não é
útil para a perceção de independência”,
DA ASSOCIAÇÃO seguir o modelo absolutamente restri-
tivo do Brasil, Ramos Soares defende
defende Ramos Soares. “Sobretudo”, SINDICAL
S
SINDICC que, pelo menos, a passagem pela
acrescenta o magistrado, “quando re-
gressa” aos tribunais. DE JUÍZES cadeira do poder executivo implique
cedências. “Devíamos ter um dos dois

PORTAS FECHADAS
DEFENDE modelos: ou não regressar de todo [à
magistratura] ou um sistema em que,
O debate sobre os limites à ação dos REGRAS MAIS quando se está no exercício [de funções

APERTADAS
juízes na esfera do poder político não governativas], se fica com a condição de
é, claramente, matéria de direito. Fon- juiz suspensa”, ficando também con-
te oficial do Conselho Superior da
Magistratura salienta, em resposta PARA QUEM dicionado o reingresso nas anteriores
funções a uma avaliação do Conselho
escrita à VISÃO, que “o Estatuto dos ENTRA NO Superior da Magistratura e perdendo

GOVERNO.
Magistrados Judiciais autoriza que os a antiguidade que tinha antes.
juízes exerçam funções governativas, Não seria o fim do problema, mas
em regime de comissão não judicial”.
Aliás, a nova versão do estatuto, que MAGISTRADOS essa solução “resolvia, pelo menos em
parte”, o dilema ético que agita toda
entra em vigor em janeiro do próximo DEVEM PERDER a classe, sempre que um magistrado

PRIVILÉGIOS
ano, “reafirma o aludido entendimen- tira a beca e avança para a porta que
to”, destaca a mesma fonte. dá acesso ao governo. prainho@visao.pt

31 OUTUBRO 2019 VISÃO 49


D. Leonor Teles,
“a Aleivosa”
(1350-1387)

O
s portugueses nunca simpati-
zaram com a rainha consorte Confesso o erro de ter assumido, demasiado cedo, a minha relação
D. Leonor Teles (c. 1350- amorosa como o conde de Andeiro. Já o meu marido, D. Fernando,
-1386). Referimo-nos, é claro, aos mi- que soubera de tudo, havia conspirado para matar o Andeiro. Há quem
nimamente instruídos, àqueles que, diga que, dessa missão, tinha encarregado o seu meio-irmão, João, o
na velha Escola Primária, aprenderam dissimulado Mestre de Avis e (nunca o adivinharíamos...) futuro rei de
que a sedutora mulher do rei D. Fer- Portugal. Ou talvez este rumor, citado por Fernão Lopes, apenas sirva
nando, que viveu subjugado por ela para legitimar, a posteriori, o que o Mestre, de facto, viria a fazer... (...)
desde que a conheceu, foi-lhe infiel Agora, faltava-lhes gizar um plano para liquidar o conde de Andeiro,
na vida privada e traidora na vida eliminando o principal apoio interno da regente – eu própria – e tomar
pública. Uma imagem desgraçada. o poder. Mas a eliminação de Andeiro, mais do que por razões de honra,
O cronista Fernão Lopes foi o impunha-se por razões políticas...
principal responsável por esta “má E eis que surge Álvaro Pais, ex-chanceler-mor (primeiro-ministro) de
imprensa” da primeira rainha de D. Pedro e, depois, do próprio D. Fernando. Alto-funcionário da Coroa,
Portugal nascida em território por- homem rico, burguês, influente e popular na cidade de Lisboa, ele
tuguês. Porque o fez? Porque, escre- nunca perdoara o ascendente da minha própria influência nos destinos
vendo décadas mais tarde, defendeu do Reino. Álvaro Pais organiza uma rábula a que, no vosso século,
e justificou a justeza do partido ven- chamariam “fake news”. Sem redes sociais à sua disposição, usaria
arautos a cavalo para espalharem o alarme na cidade, proclamando a
cedor, contrário ao dela. “A Aleivosa”,
falsa informação de que “matavam o Mestre”.
como lhe chamou Lopes, assumiu a
(Neste ponto, em minha defesa, devo sublinhar que a manipulação das
regência do reino depois da morte massas pela mentira não é má quando nos prejudica nem boa quando
do marido, em 1383. Nessa altura, nos convém. Mas esse julgamento deixo-o à História, consciente de que
o seu amante, o conde galego João ela é uma entidade que nem sempre faz justiça.)*
Fernandes Andeiro, adquiriu im-
portância política, o que desagradou
à burguesia, ao povo e a alguns se-
tores da nobreza, que receavam que
Portugal viesse a ser governado por
estrangeiros – tanto mais que a filha
única de D. Fernando e de D. Leonor
Teles se casara com o rei de Castela, o
que conferia a este soberano o direito
de herdar a Coroa portuguesa. Foi
nesse contexto que D. João, mestre
da Ordem de Avis, surgiu como líder
do partido dos descontentes e assas-
sinou Andeiro com as próprias mãos,
levando Leonor Teles a fugir.
O resto é história bem conhecida.
Uma tropa improvisada, comanda-
da pelo jovem Nuno Álvares Pereira,
conseguiu desbaratar, em Aljubarrota,
o poderoso Exército castelhano que
vinha fazer valer a causa do rei de
Castela. Se a sorte da batalha tivesse
sido outra, Portugal não existiria hoje
como Estado independente e... talvez
ninguém se lembrasse já de Leonor
Teles. Escutemos a sua defesa.

31 OUTUBRO 2019 VISÃO 51


Miguel de Vasconcelos,
o protótipo do traidor
(1590-1640)

O
s tais mesmos portugueses
– e ainda são muitos – que
antipatizam profundamente
com D. Leonor Teles veem em Mi-
guel de Vasconcelos (c. 1590-1640) o
mais refinado de todos os traidores.
Então não é verdade que foi ele que
governou Portugal em nome do rei de
Espanha durante o domínio filipino?
Bom, é verdade, mas apenas par-
cialmente. Só nos cinco anos finais
do reinado português de Filipe IV de
Espanha (Filipe III de Portugal) é que
este homem de confiança do chefe
do governo espanhol, conde-duque
de Olivares, foi secretário de Estado
(primeiro-ministro) da duquesa de
Mântua, vice-rainha do nosso país.
Esse período relativamente escasso
foi, no entanto, suficiente para que
o povo passasse a odiá-lo, uma vez
que aplicou impostos pesadíssimos
que descontentaram todas as classes
sociais, incluindo a nobreza, chamada
a combater sob a bandeira espanhola
em teatros de guerras que não lhe
diziam respeito, com todas as más
consequências físicas e financeiras
daí decorrentes. Até para reprimir O meu espírito eleva-se acima do meu cadáver que já começa a ser
a revolta da Catalunha foram arre- mordido por cães vadios, no Terreiro do Paço, em Lisboa. Pouco
gimentados fidalgos lusos, dando passa das nove da manhã de 1 de dezembro do ano da graça de
consistência à política de progres- 1640. Ainda há minutos, tudo estava em paz na fiel e mui nobre
siva integração de Portugal na Es- cidade ibérica da foz do Tejo, vassala da Madrid imperial. De súbito,
panha defendida por Olivares (e que porém, ouviram-se gritos, vozes alteradas, portas a bater, um ou
ia contra o modelo de autonomia dois tiros de bacamarte. Um tropel de passos em corrida a subir
administrativa que ficara disposto em as escadas do edifício do Paço, portas arrombadas pelo caminho,
1580, quando o primeiro dos Filipes desconhecidos que procuram a duquesa de Mântua, da sua
assumiu a Coroa portuguesa). graça Margarida de Saboia, e o seu humilde secretário de Estado
Miguel de Vasconcelos acabou mal. (e escrivão da Fazenda da vice-rainha): eu próprio. Um armário
sólido e meio escondido, que servia de arquivo à papelada menos
No 1º de Dezembro de 1640, os cons-
consultada, parecia ser, agora, o único ponto possível de fuga. Abro
piradores que iniciaram à restauração
as suas grandes portas e enfio-me lá dentro, quieto, silencioso,
da independência de Portugal deram mas com o coração a explodir-me dentro do peito. Oiço vozes de
com ele escondido num armário do intimidação a Sua Alteza, que terá de obedecer à voz de prisão.
Paço, crivaram-no de balas e arre- Rebeldes! Nacionalistas portugueses? Nobres despeitados pela
messaram o corpo pela janela, para perda de importância nos destinos políticos do Reino? Burgueses
gáudio da multidão que se comprimia descontentes pela alta de impostos? Soldadesca desertora que
no Terreiro do Paço. Se ele pudesse se recusa a engrossar as fileiras de Sua Majestade, el-Rei de
ter escrito as suas memórias teria Espanha, de Portugal e dos Algarves e imperador dos Habsburgos
dito, provavelmente, o que se segue. espanhóis, senhor de territórios onde o sol nunca se põe, de seu
nome Filipe IV (III de Portugal)? Simples arraia-miúda desordeira,
bêbedos da noite anterior?*

52 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


D. Carlota Joaquina,
“a Ratazana”
(1775-1830)

T
anto a Corte como o povo O ano de 1816 é o da morte, no Brasil, da rainha D. Maria I. Afastada dos
odiavam esta feiíssima, ninfo- negócios do Estado, vários anos antes, por loucura, fora, entretanto,
maníaca e intriguista princesa substituída, no governo do Reino, pelo seu filho, o regente D. João, agora
espanhola, mulher do pobre e fraco el-Rei D. João VI. Foi nessa data que me tornei, em terras brasileiras,
rei D. João VI. Razões não faltavam: rainha consorte de Portugal. Para celebrar, encarreguei a baronesa
Carlota Joaquina (1775-1830) traía o Ardisson de me fazer, em Paris, umas compritas. (...). Joias, roupas,
marido colecionando amantes, defen- lingerie, sapatos, luvas, meias, cosméticos e acessórios (mais de
dia os interesses do seu país natal em 500 lenços de mão, por exemplo), calçado em seda bordada, meias da
detrimento dos daquele de que era melhor seda transparente e leques de várias qualidades de marfim estão
rainha, defendeu a causa do absolu- entre os artigos adquiridos junto dos melhores estilistas, joalheiros
tismo contra o constitucionalismo, e retalhistas da moda parisiense. Posso ter ficado para a História como
apoiando as revoltas “caceteiras” uma das grandes vilãs de Portugal, mas tinha bom gosto. (...)
do seu filho D. Miguel, suspeita-se Nunca pude adivinhar que a tenacidade de D. Pedro o levasse ao ponto
mesmo de que tenha envenenado de abandonar a sua terra adotiva, agora transformada em império, para
o marido, que acusava de ser inca- regatear a sórdida porção europeia que teimava em reivindicar para a
paz de governar. Não há dúvida de filha. Nunca pude adivinhar que Maria da Glória, numa digressão pela
que Carlota Joaquina sonhava vir a Europa, se tivesse tornado amiga de brincadeiras de bonecas da pré-
tornar-se regente do nosso país, ao -adolescente da sua idade, e sua prima, Vitória, futura rainha Vitória,
da Inglaterra. E nunca pude adivinhar – nem a isso assisti viva – que Pedro
mesmo tempo que ambicionava a
haveria de abdicar de duas Coroas, a de Portugal, a favor da filha, e a do
Coroa de Espanha.
Brasil, a favor do seu filho homónimo, para embarcar rumo à Europa,
No tempo em que a Corte por- tornando-se um mero e errante duque de Bragança, sem terra nem trono,
tuguesa esteve sediada no Rio de só para dirigir as tropas que haveriam, contra Miguel, de conduzir Maria
Janeiro para evitar a abdicação face da Glória ao trono. Maldito seja nos infernos! (...)
a Napoleão, a “Megera de Queluz” Os vencedores da História esquecem-se de contar que a grande maioria
manobrou para vir a constituir para do povo, ferida no seu orgulho pela perda da grande colónia das Américas,
si própria um reino nas províncias estava com D. Miguel. Hoje, os seus detratores chamar-lhe-iam,
espanholas da parte mais meridional sem dúvida nenhuma, um populista de extrema-direita...*
da América do Sul. Aliás, no Brasil,
“a Ratazana” é ainda mais odiada do
que em Portugal: é voz corrente que
detestava aquele país, e a cultura po-
pular de além-Atlântico faz eco dessa
convicção. Ouçamo-la.

31 OUTUBRO 2019 VISÃO 53


Alves dos Reis, o maior
burlão da História
(1898-1955)

V
olta e meia, a RTP encarrega-
-se de nos refrescar a memó-
ria acerca deste figurão inte-
ligente e bem-falante, repondo um
seriado inspirado na sua vida e nas Meus senhores! Eu sou um honestíssimo empreendedor, cujos meios
de fortuna nada ficam a dever aos grandes financeiros do vosso século.
suas façanhas à margem da lei. Mas
Parafraseando um posterior colega meu, que vós deveis conhecer bem,
a fama de Artur Virgílio Alves Reis
tudo o que fiz foi “para ajudar a banca nacional”. (…) Fiquei conhecido,
(1898-1955) extravasa das fronteiras sobretudo, pelo golpe das notas de 500 escudos, com a efígie de Vasco
portuguesas, pois mais ninguém, que da Gama. De forma difamatória, fui acusado de falsificação. Mais do
conste, conseguiu falsificar dinheiro que um equívoco, tal acusação é uma fraude – e em fraudes, farão a
verdadeiro... justiça de reconhecer, serei eu uma autoridade. (…) Se eu alguma vez
Filho de um cangalheiro, embar- falsifiquei alguma coisa, essa coisa não foram notas de banco. Talvez
cou em novo para Angola, onde se umas assinaturas. Se calhar um ou outro documento oficial. E claro,
fez passar por engenheiro, falsifi- com a tenra idade de 18 anos, um magnífico diploma de engenheiro, da
cando um diploma de Oxford. Ali, própria Universidade de Oxford, uma das mecas do Ensino Universitário
enriqueceu comprando, com um mundial, certificado pela prestigiadíssima Polytechnic School of
cheque sem cobertura, a maioria das Engineering – instituição, aliás, inexistente. Ora, mas quem nunca?...
ações de uma companhia ferroviária. (...) Se adquirisse as ações da empresa, mediante o pagamento com
De regresso a Lisboa, adquiriu uma um cheque careca (...), poderia vendê-las a tempo de dotar a conta
empresa de revenda de automóveis de provisão, ainda antes de ele ser descontado. (…) Se fosse no vosso
norte-americanos passando um che- século, teria pedido emprestado ao banco para comprar as ações,
que sem provisão que, depois, cobriu dando por garantia os próprios títulos. (...) É um esquema genial,
com os fundos da própria firma. Com reconheço, e tiro o meu chapéu aos que, depois de mim, inventaram
o dinheiro restante, tentou adquirir este tipo de estratagemas...*
uma empresa mineira de Angola, mas
descobriu-se a fraude e ele foi deti-
do. Defendendo-se bem, conseguiu
ser libertado, após o que concebeu
o plano de encomendar uma grande
quantidade de notas de 500 escudos
à própria casa impressora britânica
que costumava imprimir o dinheiro
português por encomenda do Ban-
co de Portugal. Desta avalanche de
dinheiro falso que era “verdadeiro”,
meteu ao bolso 25%, quantia com a
qual fundou o Banco Angola e Me-
trópole, jogou fortemente na Bolsa,
comprou um palácio e três quintas,
tornou-se proprietário de uma em-
presa de táxis, encheu a mulher de
joias e tentou apoderar-se do Diário
de Notícias. O seu objetivo último
era comprar o número de ações do
Banco de Portugal (que, na altura,
era semiprivado) necessário para
poder abafar o escândalo das notas,
na eventualidade de a maquinação
ser descoberta.
Foi mesmo descoberta, e Alves dos
Reis condenado a uma pesada pena
de prisão. Seria libertado em 1945,
com 47 anos, e morreria de ataque
cardíaco, uma década mais tarde.
Vamos dar-lhe a palavra.

54 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


Casimiro Monteiro, o assassino
de Humberto Delgado
(1920-1993)

U
ma das figuras mais sinistras
da nossa crónica coletiva,
o forte, rude e “abrutalha-
do” Casimiro Monteiro (1920-1993),
nasceu em Goa, de pai português
e mãe indiana. Veio em jovem para
Portugal e daqui saltou a fronteira
para lutar nas fileiras franquistas
durante a Guerra Civil de Espanha.
Terminado este conflito, mudou-se
para Inglaterra onde trabalhou como
talhante e se casou com a filha do
patrão. Nos anos 50, voltou a Goa,
integrou a polícia local e “celebri-
zou-se” pela forma particularmente
cruel como interrogava e torturava
os ativistas pró-libertação do terri-
tório que tinham a má sorte de cair
nas suas garras. Depois da invasão
do Estado Português da Índia e da
sua anexação pela União Indiana,
Casimiro Monteiro foi recrutado
para os quadros da Pide, nos quais
se evidenciou novamente pela dureza
dos seus métodos de interrogatório.
Em 1965, fez parte da brigada
encarregada de assassinar o general Nunca fui um vilão importante, ou glorioso, influencer da História, como
Humberto Delgado, o mais incó- muitas das personagens que me precedem neste livro. Fui apenas
modo dos oposicionistas com que um vulgar assaltante e violador, que se tornou esbirro policial de uma
Salazar teve de se haver. E foi ele que polícia secreta e que as circunstâncias e os imponderáveis do destino
cometeu o homicídio propriamente fizeram, por um minuto fatal, importante. Devo isso, apenas e só, à
dito, praticado a sangue-frio, des- relevância pessoal e histórica da minha vítima mais famosa. Humberto
ferindo pancadas, com um grande Delgado é a causa da minha duvidosa glória. Sem ele, eu teria sido uma
ferro, na cabeça do “General sem peça menor de la petite histoire. (…) No dia em que o matei, conhecia
Medo”. No final da década, sempre dele apenas alguns factos: tinha sido general e tinha sido demitido.
como agente da Pide, mudou-se Conspirava contra Salazar e contra o regime. Era amigo de comunistas.
para Moçambique, pulou a fronteira Odiava e publicamente desprezou os membros da minha corporação,
para a Tanzânia e assassinou Eduar- a Pide. Por mim, devia ser abatido como um cão. (…)
do Mondlane, líder da Frelimo, por Nessa altura, já a secretária tinha saído da viatura, aos gritos, tentando
meio de uma bomba enviada numa agredir-me. Rosa Casaco mandou o Tienza agarrá-la e tapar-lhe a boca.
encomenda. Por altura do 25 de Abril, Livre do pequeno estorvo, era a minha vez. Já com Delgado dominado,
estava em Portugal, mas conseguiu dei-lhe uma cabeçada na fonte e esmaguei-lhe o maxilar. O general
fugir para África do Sul, onde morreu caiu no chão. Depois, com uma moca, apliquei-lhe uma pancada que
lhe desfez a base do crânio. Morreu instantaneamente. (…) Em fevereiro
passadas duas décadas.
de 1968, Eduardo Mondlane, fundador e líder da Frelimo (Frente de
Que justificações daria ele da sua
Libertação de Moçambique), dirigiu-se ao escritório do movimento
conduta? em Dar es Salaam, na Tanzânia, para recolher correspondência.
Ao abrir uma encomenda, acionou um engenho explosivo que o cortou,
literalmente, em duas metades. (…) Numa única vida, eu tinha acabado
com a existência de dois heróis nacionais de dois países. O que me dá
um lugar de destaque na galeria dos vilões modernos.*

*Trechos retirados do livro “A História de Portugal Contada Pelos Vilões” e editado pela VISÃO

31 OUTUBRO 2019 VISÃO 55


Dulce Maria Cardoso
“Fico feliz
quando me
apercebo
de que nasceu
a folha
da minha
orquídea”
Vive apaziguada entre o dia a dia, as memórias de África
e a convicção de querer escrever livros, sem princípio nem fim,
entre a verdade e a mentira. “Quero os romances parecidos
com a vida”, diz a autora, agora cronista da VISÃO
SARA BELO LUÍS LUÍS BARRA

56 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


31 OUTUBRO 2019 VISÃO 57
D
Diz que teve uma vida bastante
improvável. Desde logo, porque, até
hoje, a sua mãe acha que a roubou
a Deus, conta a escritora Dulce
Maria Cardoso, 55 anos, à VISÃO.
Tirou Direito e foi advogada, mas
largou a barra para se dedicar à
literatura, tendo publicado um dos
romances mais importantes da
nossa memória coletiva: O Retorno.
Também diz que teve uma vida
cheia de peripécias. O que ela não
diz é que o seu olhar lhes confere –
às improbabilidades e às peripécias
da vida – uma verdade imensa.
Comprove o leitor, nesta entrevista
cheia de graça.
Chamou “biografia não
autorizada” às crónicas que,
desde abril, assina na VISÃO.
Porquê?
Porque me interessa esse jogo entre
a verdade e a mentira. Acho sempre
que a melhor maneira de contar a
verdade é inventar a melhor mentira
que a sirva. Além disso, também
gosto muito de brincar com os
meus dados biográficos. Todos
escrevemos a partir de nós próprios,
das nossas vivências, mesmo
que depois não as reproduzamos reencontrou a viúva do tropa que
de forma literal. Fazemos umas a salvou de morrer afogada numa
ediçõezinhas, inventamos praia de Luanda.
uns pozinhos... Tenho sempre Essa crónica permitiu-me
consciência de que vão ser lidas por apaziguar-me. Não me lembrava
outros, de que não estou apenas na do nome dele e isso fazia-me muita
minha família a lembrar-me de algo impressão. Como é que eu me
que me aconteceu. esqueci? Ainda por cima eu, que
Diverte-se a escrevê-las?
Nunca tinha escrito crónicas, mas
tenho tão boa memória. Como é que
me esqueci? Eu e a minha família
Há coisas na
posso dizer que estou a gostar
muito, que me tenho divertido.
toda… Não é que o tivéssemos
esquecido, nós nunca o esquecemos,
vida em que
Demora muito tempo a escrevê-
las?
continuámos sempre a falar nele.
E porque, ao escrever a crónica,
tive muita
Muito, a pensar e a escrever, porque
eu sou lenta a escrever. Aliás, sou
se sentiu, como diz, apaziguada?
Só o facto de escrever e de dizer
sorte, e essa
lenta em tudo.
Também lhe têm proporcionado
“fui salva” apaziguou-me. A partir
de certa altura, quando me tornei
é uma delas:
algumas redescobertas, como
aquela chamada Aquele
adulta, comecei a ter consciência de
que devo uma boa parte da minha
é-me tão fácil
Domingo, a partir da qual vida ao Manuel, “o tropa que me estar bem
58 VISÃO 31 OUTUBRO 2019
se divirtam a lê-las. As crónicas são
crónicas; os romances são romances.
São géneros muito diferentes. E
uma pessoa pode ter paciência e dez
minutos para ler uma crónica, e não
ter dias e dias para ler um romance.
Valendo-me do subtítulo de Eliete,
como é a sua “vida normal”?
Muito monótona. Começa tudo pelo
facto de eu ser muito rotineira. Sou
daquelas pessoas que, se vou a casa
de alguém e me sento numa cadeira,
na vez seguinte, sento-me nessa
mesma cadeira. Se vou comprar pão
a um sítio, no dia seguinte, também
lá vou. Não gosto de mudança,
porque, para mim, a mudança é
violenta.
Quem diria...
É, mas sou assim. No estrangeiro,
faço a mesma coisa. Estou num
hotel e se, no primeiro dia, vou
tomar café àquela pastelaria, nos
Álbum de família Com os pais dias seguintes já não saio dali. Sou
e a irmã Carolina, em Luanda. muito repetitiva, muito doméstica.
A saltar à corda, ainda em Angola,
Sou muito da intimidade, do cheiro
mas já depois do 25 de Abril;
do bolo no forno, da mantinha, das
poucos meses depois, haveria de
regressar à metrópole, na ponte
plantas que é preciso regar... Aquela
aérea de 1975. Como aluna da vida monótona, que as pessoas
3.ª Classe, no Colégio João olham de fora e dizem “que horror!”,
de Deus. Aos 37 anos, quando a mim dá-me imenso prazer. Fico
publicou o primeiro romance, verdadeiramente feliz quando me
Campo de Sangue, com a Ru, apercebo de que nasceu a folha da
uma caturra muito maldisposta. minha orquídea, dá-me imenso
A menina mais nova do casal prazer dar conta de como a luz
Luísa e José fotografada, aos bate na marquise às tantas horas.
2 anos, de vestido e sapatinho Fico mesmo feliz quando está uma
(de cima para baixo, no sentido manhã bonita, está uma luz a bater
dos ponteiros do relógio) na marquise e eu estou lá a tomar
o pequeno-almoço. É como se
estivesse perante a paisagem mais
grandiosa do mundo. Há coisas
salvou”. Se naquele dia ele não se as pessoas julgam que eu vivi tudo na vida em que tive muita sorte, e
tivesse atirado à água, eu tinha aquilo, pensam que me escudo essa é uma delas: ser-me tão fácil
morrido. Aos 8 anos. E, portanto, na ficção para contar as minhas estar bem. Porque a maior parte das
tudo isto que me está a acontecer vivências. Acham que sou a Violeta pessoas precisa de tanta, tanta coisa…
agora, em grande parte, a ele o devo. [Os Meus Sentimentos], acham que Eu não preciso.
As crónicas têm-na induzido a sou a Eliete [Eliete], acham que sou Mas é assim, digamos,
uma exposição para lá da que o Rui [O Retorno]. Acham que sou franciscana?
os livros a induzem? Estou a toda aquela gente. E têm razão: Não, sou consumista, como toda a
pensar sobretudo n’ O Amigo sou toda aquela gente e, ao mesmo gente. Para mim, as casas são muito
Genial, sobre o seu ex-marido. tempo, não sou nenhum. Nas importantes e, uma vez encontrado
Não conheço o Luís, mas fiquei a crónicas, é ao contrário: como falo o sítio onde vivo, onde estou
adorá-lo. sempre na primeira pessoa, acham confortável, isso basta-me. Agora já
Várias pessoas me disseram isso, que estou a mentir [risos]. Portanto, não posso mas, quando quase não
que ficaram a adorar o Luís. E os leitores desconfiam sempre do publicava, passava 15 dias sem sair
isso é bom, porque ele é de facto que lhes é dado. de casa, sem necessidade de ir à rua.
adorável. Respondendo à pergunta: Tem a expectativa de que os Ficava em casa, tenho sempre coisas
a exposição faz parte, é um pacto leitores comecem nas crónicas e, para fazer, gosto de cozinhar.
que os escritores fazem. depois, descubram os livros? Isso faz de si uma pessoa
E a exposição não é maior nas Se isso acontecer, tanto melhor. Mas antissocial, pouco conversadora?
crónicas do que nos livros? não tenho essa expectativa. Tenho a Não, nada disso. Quando as pessoas
É um jogo diferente. Nos livros, expectativa de que gostem e de que iam lá a casa, eu conversava imenso

31 OUTUBRO 2019 VISÃO 59


[risos]. Apenas faz de mim uma
pessoa caseira.
Passo muito Escrever é um exercício de
vaidade e isso que diz é de uma
E apaziguada consigo própria.
Sim. Acho, aliás, que isso se nota
tempo sem grande humildade: sabe que o
leitor só tem uma hora por dia
em O Retorno. Passei por aquilo
tudo e não guardei mágoas; não sou
escrever. A para ler.
Às vezes, só tem um minuto. As
rancorosa. Não me esqueço do que
me fazem, mas depois não tenho
única questão pessoas têm vidas muito difíceis.
Não facilito no conteúdo. Quem
energia para o rancor. Talvez seja...
preguiçosa. Sou muito preguiçosa
em que estou me leu sabe-o, não faço autoajuda,
não sou queriducha, nada disso. A
[risos].
Apesar disso, teve muitos azares
de acordo com minha escrita é violenta, porque a
vida é muito violenta.
na vida. Já escreveu que escapou à
morte por quatro vezes.
Peter Handke, E está disponível para, perante a
força das suas personagens, quase
Tive, tenho, uma vida muito
improvável e, por isso, tenho muita
agora prémio deixar de existir?
Isso acontece porque sou uma
matéria para escrever. A vida da
minha família está envolvida em
Nobel, é que o autora de personagens, não sou
uma autora do “eu”. Gosto de
muitas peripécias. E eu, depois,
também sou pródiga em arranjar
tempo da não inventar outras pessoas, gosto de
ser outras pessoas. E, na verdade,
peripécias. Os meus pais tinham
um problema de incompatibilidade
escrita é tão não as invento… Não devia usar a
palavra “inventar”, porque, de facto,
sanguínea. A minha mãe tinha feito
um tratamento grande antes de a
importante as personagens aparecem-me.
Esse é o único mistério que tenho;
minha irmã nascer e, cinco anos quanto consigo perceber tudo o resto
depois, eu apareci sem que ela que faço, controlo tudo, todas as
tivesse feito nada. Havia o problema o tempo revisões, tudo, tudo, tudo... Só não
de que, sem o dito tratamento, eu consigo perceber o mistério com
podia nascer com uma deficiência da escrita que as personagens aparecem, com
muito grave. Parece-me que, que umas se deixam ficar, com que
ainda hoje, ela anda à procura da outras se vão embora e nunca dão
minha falha [risos]. A minha mãe, passo muito tempo sem escrever. nada. Tudo o resto consigo explicar.
que é religiosa, acha sempre que A única questão em que concordo A Dulce Maria vai-se apagando
me roubou a Deus. E por isso é com Peter Handke, que ganhou e o que passa a existir é o Rui e a
que Deus estava sempre a querer agora o prémio Nobel da Literatura, Eliete?
levar-me de volta. Até hoje, a minha é que o tempo da não escrita é tão Costuma dizer-se que ser
mãe julga que, como eu nasci em importante quanto o tempo da romancista é brincar a Deus,
circunstâncias improváveis, me escrita. Quando o vi dizer isso numa porque um romancista faz alguém
roubou à inexistência. entrevista, decorei essa frase por apaixonar-se, um morrer e outro
Que tipo de escritora é? ser exatamente o que penso. Posso nascer. A omnipotência é uma
Obsessiva? passar muito tempo sem escrever. O característica divina. Porém, acho
Uma vez, a minha mãe (que vai que não quer dizer que não esteja a mais interessante a invisibilidade,
ficar muito contente quando escrever na cabeça, a pensar, que é o que é também uma característica
ler esta entrevista porque a cito mais importante, e só depois é que divina. Todos nós, os que acreditam,
imenso!) disse-me uma coisa muito sou muito obsessiva: a simplicidade sabemos que Deus está em todo o
engraçada: “Nem um vício tu levas a da minha linguagem é muito difícil lado, mas que não é visto. Julgo que
sério.” de conseguir. o romancista também é assim: tem
É verdade que não é um escritor Não sai à primeira. de estar em todo o lado, mas não
de rituais? É que nem sai à décima. Nem à deve ser visto. Não gostava nada
É verdade, não sou. O meu pai, que vigésima... Muitas vezes, estou que me encontrassem nos meus
era fumador, tinha de ter sempre horas com uma frase, dias com um romances ou que encontrassem as
cigarros. Nunca fiquei doida por parágrafo. Com a linguagem, sou minhas opiniões e os meus estados
ter só um cigarro. A minha mãe, mesmo muito, muito obsessiva. de alma. Os meus romances não são
naquela sabedoria dela, tem toda Quero fazê-la o mais direta e o mais acerca de mim.
a razão: não me levo a sério. E sou harmoniosa possível, sem maçar Só há mais um livro da série de
muito inconstante. Tenho períodos o leitor. Tenho muita consciência Eliete?
em que acordo mais cedo e até do tempo dos outros e, portanto, Com aquelas peripécias da Eliete,
vejo o sol nascer. E depois tenho facilito ao máximo. Quando digo com aquela família, haverá mais
outros períodos em que me deito facilitar, não é de facilitismo que um ou dois. O próximo sai no
tardíssimo. estou a falar. É na forma, tenho de final de 2020 e tem um título que
Também não escreve só quando pensar imenso, depurar imenso, ainda é provisório: Se na Morte
chove, como Hélia Correia? para que aquilo que quero dizer seja me Abraçasses. E depois ainda
Não, de maneira nenhuma. E, aliás, facilmente apreendido. haverá outro sobre esta família, mas

60 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


contado por outra voz. Julgo que vida. Nós cruzamo-nos aqui e,
comecei um romance eterno... depois, aquela senhora vai ali para
Como assim? aquele sítio e arrasta outra vida.
Acho que nunca mais vou acabar Já disse e repetiu que tudo o que
um romance. Incomoda-me estar não viveu, leu. Quando começou
sempre, de alguma maneira, a a ler?
construir um princípio e um fim, Aprendi a ler sozinha, numa semana
um princípio e um fim. Gostava em que tive sarampo. Devia ter uns
que os livros tivessem uma espécie 5 anos e, naquele momento, foi
de continuidade. Como eu, que como se tivesse nascido ali. Depois,
existo todos os dias. Não gosto tornei-me uma leitora voraz.
daqueles livros fechados corpinhos
estanques. Quero os romances
Deus está em Havia livros em sua casa?
Não. A minha irmã, mais velha,
parecidos com a vida, como se
fossem um molde, uma plasticina.
todo o lado, tinha algumas histórias. Em Luanda,
também se trocavam muitos livros
Por isso, O Retorno começa com um
“mas” e Os Meus Sentimentos com
mas não com os vizinhos. E ainda havia uma
livraria/papelaria/tabacaria que
um “inesperadamente”, como se a
história já viesse de trás.
é visto. alugava livros.
Foi aí que leu Corín Tellado?
E Eliete, está tudo escrito?
Sim, mas não está revisto nem
O romancista Não, li Corín Tellado depois de ter
decidido que queria ser escritora, já
apagado, nem voltado a escrever,
que é outro assunto. Não planeei
também estava em Portugal. Aos 14 anos, em
Carcavelos, cheguei mesmo a andar
isto assim, mas aconteceu e eu fui
seguindo... Depois de saber o que
é assim: tem na escola de datilografia O Meu
Futuro. Num filme, vi um escritor
sabe, a Eliete sofre um estilhaço
na sua identidade, o que exigiu
de estar em a datilografar e pensei: “Ups, é isto
que me falta para ser escritor: saber
uma rutura. Não é que eu agora vá
trabalhar sempre sobre a Eliete, mas
todo o lado, datilografar.” Imagine o disparate.
Todos nós temos histórias muito
certamente que arranjarei maneira
de, lá dentro, haver uma coisa que
mas não deve disparatadas, mas eu, se calhar, não
tenho pudor em contá-las... Claro
vai levar a outro sítio – como na ser visto que preferia ter crescido numa casa

31 OUTUBRO 2019 VISÃO 61


com livros, sem ter de andar a ver
como eram os escritores nos filmes.
Tudo isto também implica muito
sofrimento. Tudo me foi mais difícil,
parti do zero. E foi da ordem do
milagre que, a partir de certa altura,
eu tenha começado a ficar mais
inquieta com Dostoiévski do que
com Corín Tellado.
Sei que a ida dos seus pais para
Angola merece ser contada. Por
que razão eles foram para lá?
O meu pai era 11 anos mais velho
do que a minha mãe, já tinha
estado para se casar várias vezes,
inclusivamente já tinha abandonado
uma noiva no altar. Além disso, era
pobre – e esse digamos que era o
seu maior defeito. A minha mãe
era filha de agricultores abastados
(sendo que abastado, em Trás-os-
Montes, não significa propriamente
um latifúndio) e, quando o meu
pai foi pedir a minha mãe em
namoro, o meu avô materno pegou
na caçadeira e ameaçou matá-lo,
se o tornasse a ver ali na aldeia
[Fonte Longa, concelho de Meda].
As famílias ficaram sempre meio
zangadas, os meus pais andaram a
trocar cartas durante muito tempo e
a minha mãe acabou por fugir com
o meu pai. Nos anos 50, em Trás-
-os-Montes, foi um escândalo.
Sempre ouviu contar essas de autismo social. Sempre foram
histórias? um pouco indiferentes ao que os
Cresci a ouvir estas histórias. Quer rodeava. E isso é invejável.
dizer, cresci, não, porque foi um Herdou alguma coisa desse
choque quando soube que a minha autismo?
mãe tinha fugido com o meu pai. Acho que sim. Por exemplo, em
Mas toda a vida ouvi contar estas
histórias, as tais improbabilidades
Foi da ordem 1975, quando viemos de Angola,
toda a família achou que devíamos
que nos aconteceram. Os meus
pais foram um casal bastante
do milagre ir para Trás-os-Montes, onde
tínhamos terrenos e, pelo menos,
peculiar. Quando olho para a vida
da minha mãe, penso numa mulher
que, a partir uma casa. Mas os meus pais não
quiseram voltar para o sítio de onde
muito revolucionária, que nunca
ligou às convenções. Conheço
de certa tinham saído. Às vezes, olho para a
minha mãe, agora com 80 anos, e
poucas mulheres, naquela situação
económico-social, que se tivessem
altura, penso que eu não teria tido metade
da coragem dela para afrontar o que
amancebado, que tivessem passado
por aquela vergonha.
eu tenha ela afrontou.
Porque escolheu ir para Direito?
Que fossem verdadeiramente
livres.
começado Por causa do meu pai. Ele tinha tido
o grande sonho de ser advogado,
Exato, que fossem livres. E ela
assim, muito pequenina, sem
a ficar mais mas os meus avós não tinham
dinheiro. E os filhos, de vez em
grandes teorias, foi fazendo sempre
o que lhe apetecia. E também acho
inquieta com quando, também servem para
cumprir os sonhos dos pais. Não me
muito estranho que o meu pai
tenha sido representante da lista de
Dostoiévski arrependo.
Ajuda-a a ser mais clara na
Humberto Delgado [nas eleições
presidenciais de 1958]. Os meus
do que com escrita?
Sim, a perceber a importância de
pais sempre tiveram uma espécie Corín Tellado uma vírgula. E ajuda-me também

62 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


Uma vez posto
em causa o
nosso planeta,
a nossa vida
está a ser
posta em
causa. É bom
de ver que
falhámos
Faz sentido construir um museu
sobre o Estado Novo?
Evidentemente que sim, se se tratar
de um museu interessante do ponto
de vista científico, que demonstre
quão nefasto foi o Estado Novo.
Se quiserem fazer um museu a
enaltecer Salazar, desde que não seja
com dinheiros públicos, também não
vejo que isso seja terrível, porque
o problema não é a existência do
museu, são as pessoas que aderem
a essas ideias, e essas estão no dia a
dia. Temos é de criar condições para
a ter um olhar sobre a sociedade. vida em perigo, é bom de ver que que essas pessoas não adiram a essas
O Direito é a prevenção do mal, falhámos. Conquistámos muita ideias. Posso estar a ser ingénua, mas
são milénios a prevenir o mal. coisa (direitos humanos, direitos julgo que o fazem por ignorância,
No Direito, nada corre bem; se dos trabalhadores, a situação da por medo, por terem vidas difíceis.
corre bem, não está no Direito. mulher, a da criança...), mas esse Ciclicamente, falamos sobre
Acima de tudo, interessa-me não caminho para o bem foi também racismo, ora a propósito das
ter ficado fascinada com o crime. um falhanço, na medida em que opiniões da historiadora Maria de
Como fui advogada e tive muitos deixámos muitas margens, muitas Fátima Bonifácio, ora a propósito
casos oficiosos, interessam-me franjas. Fizemo-lo de uma maneira da eleição de três deputadas.
mais as zonas cinzentas, que não estouvada, porque esgotámos Existe racismo em Portugal?
podem ser legisladas e que são as praticamente todos os recursos. Só se Portugal fosse uma espécie
zonas da ética. Se pisamos caca Qual a sua opinião sobre os de oásis é que não tinha racismo.
de cão, devemos limpar no tapete movimentos contra as alterações Penso que, para nós, é mais
da vizinha? [Risos.] Vamos na rua climáticas? complicado, porque houve um
e vemos o marido de uma amiga O grande problema sempre foi império e, portanto, nada ficou
com outra. Contamos à amiga? Isto o da distribuição da riqueza. digerido. Podemos não ter um
inquieta-me mais do que o grande Enquanto não resolvermos isso, racismo agressivo, aquele racismo da
crime. não conseguiremos caminhar. segregação, mas temos um racismo
No seu entender, os valores das Estragámos isto tudo no nosso que é o da oportunidade. Se não
democracias liberais do Ocidente consumismo e não vamos poder houvesse, como explicar que, nos
estão a ser postos em causa? dizer à Ásia e a África: vocês agora, bairros desfavorecidos, haja um
Tudo está a ser posto em causa, a que ainda nem sequer chegaram a enorme número de negros e, nos
democracia, a sustentabilidade. E esse patamar, não podem consumir. bairros melhores, não haja um único
se até o próprio planeta está a ser É um problema político e, antes negro? Continua a haver racismo
posto em causa... Não é preciso de ser um problema político, é um em Portugal, apesar das melhorias.
ser cientista para perceber que, problema económico. Infelizmente, Fiquei muito feliz com a eleição
uma vez posto em causa o nosso o senhor Karl Marx tinha muito dessas três deputadas. Como alguém
planeta, a nossa vida está a ser mais razão do que aquilo que se dizia: “Entrámos no Parlamento sem
posta em causa. E, estando a nossa julgava. ser com a esfregona.” sbluis@visao.pt

31 OUTUBRO 2019 VISÃO 63


GOVERNO

FOCAR
Ajuste direto polémico
“A arte é a
mentira que nos
permite conhecer
a verdade”
Pablo Picasso
Pintor espanhol
(1881-1973)

Maria do Céu
Albuquerque
As dores de cabeça
da nova ministra
da Agricultura

64 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


Em 2016, quando era presidente da Câmara
de Abrantes, Maria do Céu Albuquerque adjudicou

P
o projeto da estátua do centenário da cidade ao escultor
Charters de Almeida, por 65 mil euros. Problema: uma
doação do artista ao município impediria a contratação, rimeiro, surgiu a notícia de
a menos que fosse invocado o estatuto seis adjudicações, por ajuste
de mecenato cultural – só que nunca foi. Até agora... direto, a uma empresa de fil-
mes do filho do deputado do
O C TÁV I O L O U S A D A O L I V E I R A PS Pedro Bacelar de Vascon-
celos, por um valor total de
515 mil euros. Depois, voltou
a emergir o caso da compra
de 30 oliveiras por 60 mil
euros a uma sociedade gerida
por familiares do secretá-
rio de Estado das Florestas,
João Paulo Catarino. Agora, o passado
autárquico volta a ensombrar a carreira
da nova ministra da Agricultura. Quan-
do era presidente da Câmara Municipal
de Abrantes, Maria do Céu Albuquerque
contratou o escultor João Charters de
Almeida e Silva para elaborar o projeto
de escultura alusiva ao centenário da ci-
dade que viria a ser colocada na Avenida
das Forças Armadas, na rotunda junto ao
quartel. O município pagou 65 mil euros
(a que acresceria o IVA) pelo projeto, mas,
segundo apurou a VISÃO, a adjudicação
tem contornos polémicos.
Vamos por partes. De acordo com a
documentação que integra o portal Base,
o contrato foi firmado por Maria do Céu
Albuquerque e por Charters de Almeida,
a 5 de maio de 2016, e teve como suporte
um despacho do vice-presidente (à data
e agora) da autarquia, João Caseiro Go-
mes, emitido a 13 de abril do mesmo ano.
O problema é que poucos dias antes, a
29 de março, as partes tinham alterado
um protocolo de cooperação (cuja versão
original remontava a 2006), que previa a
doação de parte do espólio de Charters
de Almeida à autarquia – com direito a
cerimónia pública de oficialização.
Face a essa oferta, a adjudicação pode
automaticamente ter-se tornado irregular.
Ou, pelo menos, questionável. O Código
dos Contratos Públicos determina que, em
situações de ajuste direto, não podem “ser
convidadas a apresentar propostas entida-
des que tenham executado obras, forne-
cido bens móveis ou prestado serviços à
entidade adjudicante, a título gratuito, no
ano económico em curso ou nos dois anos
económicos anteriores, exceto se o tiverem
feito ao abrigo do Estatuto do Mecenato”.
Sucede que o estatuto que poderia jus-
tificar a exceção à proibição legal nunca
foi invocado em nenhum documento do
processo de adjudicação. Só esta semana,
quando a VISÃO questionou a ministra so-
bre o assunto, é que uma fonte autorizada
se socorreu dele, frisando que “(…) o acervo
doado pelo protocolo de 2006 e aditamen-

31 OUTUBRO 2019 VISÃO 65


Promoção Maria do Céu
Albuquerque sucede a Capoulas
GOVERNO Santos na Agricultura, depois
de ter sido secretária de Estado
do Desenvolvimento Regional

D.R.

tos de 2011 e 2016 destina-se a integrar que (2009-2019). Esse interlocutor nota
o museu, sendo passível de enquadramen-
to nos fins prosseguidos pelo mecenato
Um historial complicado que foi “uma comissão independente de
cidadãos abrantinos” a escolher Charters
cultural, previstos no artigo 62º B nº 1 d) do Ainda Maria do Céu Albuquerque de Almeida para assinalar a efeméride e
Estatuto dos Benefícios Fiscais, na medida não tinha tomado posse como nova aponta ainda que o “início do procedimen-
em que o município é entidade detentora ministra da Agricultura e os casos to de aquisição dos serviços ocorreu por
e responsável pelo museu em construção, de ajustes diretos controversos despacho de 01.12.2015, ou seja, em mo-
que tem abrangência supra local, alicerçada relativos aos tempos em que mento anterior à assinatura do aditamento
no património cultural, determinante para fora presidente da Câmara de ao protocolo (29/3/2016)”, versão acompa-
a afirmação territorial de Abrantes e para Abrantes começaram a vir à tona. nhada pelo município. Esse calendário não
a qualificação e alargamento da carteira Primeiro, a revista Sábado revelou coincide, porém, com a data do despacho
de recursos com potencial turístico”. que, entre 2014 e 2018, a antiga a que o contrato assinado pela ex-autarca
autarca assinara seis contratos, faz alusão. Ainda assim, esse responsável
no valor de 515 mil euros
AS SUSPEITAS DA OPOSIÇÃO garante que, face aos argumentos apre-
(IVA incluído), com a empresa
Logo numa reunião da assembleia muni- sentados, “fica claro que nunca houve
OSTV Lda., detida pelo filho do
cipal a 29 de abril, o agora presidente da deputado do PS Pedro Bacelar de
intenção de quaisquer contrapartidas”. Da
concelhia de Abrantes do PSD levantou Vasconcelos, que coabitou com a parte da autarquia, é sublinhado que “não
a questão da alegada violação da lei e la- também ex-secretária de Estado há acréscimo de obras doadas na listagem”
mentou que Maria do Céu Albuquerque do Desenvolvimento Regional no de março de 2016.
não tenha mencionado que Charters de Secretariado Nacional do PS entre No entanto, no email remetido à VISÃO,
Almeida, “em apenas três prestações de 2014 e 2016. Depois disso, voltou é confirmado que nunca existiu qualquer
serviços nos últimos dez anos”, arrecadara a estar sob fogo da comunicação referência ao Estatuto dos Benefícios
“cerca de 200 mil euros” provenientes dos social por um assunto que fora Fiscais ou ao alegado mecenato cultural e
cofres da autarquia. “(…) a bancada do PSD notícia há seis anos: a aquisição, também se pode atestar que o despacho do
entende bem a sua estratégia de aliciamen- também por ajuste direto, vice-presidente “não teve subjacente um
to para atingir as suas ambições, os seus de 30 oliveiras pelo montante parecer jurídico”. “No entanto, a decisão
desejos, os seus sonhos. Contudo, é preciso de 60 mil euros. Pormenor: a suportou-se em informações técnicas,
relembrar que é, mais uma vez, à conta dos adjudicatária, a Aeroflora, é uma nos termos dos procedimentos habituais
contribuintes abrantinos que o arquiteto empresa de Proença-a-Nova, seguidos no Município de Abrantes (...)”,
Charters de Almeida vai doar parte do seu gerida pela irmã e pelo pai de João termina.
espólio para instalar no Edifício Carneiro. Paulo Catarino, que chefiava a
É caso para se dizer que uma mão lava câmara local e tomou posse este AS DÚVIDAS DOS ESPECIALISTAS
a outra”, reforçou o deputado municipal. sábado, 26, como secretário Já os especialistas em Contratação Pública
Em nome da ministra, a mesma fonte de Estado das Florestas. mostram-se céticos. Paulo Veiga e Moura
sublinha a relação que “existe há longos refere que este tipo de contratos deve “obe-
anos” entre o escultor e Abrantes, anterior decer a um princípio de transparência”, o
aos mandatos de Maria do Céu Albuquer- que obrigaria, desde logo, “a haver uma

66 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


OPINIÃO

A nova legislatura
P O R J O S É C A R L O S D E VA S C O N C E L O S

1 3
A legislatura agora iniciada O Parlamento é dos sítios que co-
distingue-se de todas as outras nheci de (ou o de...) maior injustiça
pelo maior número de partidos salarial. Porque há salário igual para
representados na Assembleia trabalho desigual a todos os níveis:
da República (AR). Tal é positivo se de volume, especialização, dedica-
corresponder a uma efetiva plura- ção, esforço. E até acontece, graças às
lidade de perspetivas, de vozes com “ajudas de custo” e não só, muitos dos
identidade própria, no respeito pela piores deputados receberem mais do
democracia e, digamos, “decentes”. que os melhores. Assim, uns ganham
É negativo quando se verifica o con- muito acima do que merecem e outros
trário, enxameando partidos que só muito abaixo do que deviam. Valerá a
impedem ou dificultam a governa- pena refletir nessas e noutras questões.
JOSÉ CARLOS CARVALHO

bilidade. Do que o Brasil é exemplo Mormente as que permitam tornar a


flagrante, com os seus 27 partidos, e AR mais operacional, mais prestigiada
que partidos!, representados na Câ- e com melhor imagem. Quanto a esta,
mara. Como a população brasileira é essencial a forma como decorrem os
ultrapassa 20 vezes a portuguesa, trabalhos, em especial no plenário. Por
poderá parecer que dez partidos exemplo, minoraria a ideia da “clubite
justificação para se recorrer ao ajuste di- agora com assento na partidária” os depu-
reto, ou seja, para se escolher aquele artista AR significam uma tados por sistema não
e não outro”, explica o advogado. “É óbvio situação “pior”. Mas O Parlamento aplaudirem só as inter-
que se isso não existe, o contrato é ilegal. não. Embora julgue é um lugar venções dos seus co-
Deviam ter adotado um procedimento de ter-se atingido, se não legas de bancada, mas
negociação, havia ofertas de três artistas e excedido, um “limite” de grande todas cuja qualidade o
escolhiam a melhor”, acrescenta. Já quanto razoável. E haver já so- injustiça justifique.

4
à exceção que o mecenato permitiria, é breposições desneces- salarial. Há
categórico: “As regras deviam ser claras sárias e talvez nocivas. Também em
deputados que

2
desde o início. Não é a posteriori que se relação ao novo
diz que é ou deixa de ser mecenato. Pa- Só a prática ganham muito Governo apenas
rece-me que ela [a ministra] está agora parlamentar da acima do que a forma como
a arranjar uma solução à pressa. Como é nova legislatura merecem irá funcionar, e os
óbvio, tinha de haver uma referência a isso e de seus novos resultados que obtiver,
e uma justificação clara do ajuste.” A con- protagonistas dirá se à e outros muito mostrará se é positivo
jugação destes dados, resume o também mudança quantitativa abaixo do que ou negativo ser o maior
professor universitário, pode resultar na corresponderá uma deviam desde 1976. Na sua
“nulidade do contrato”: “A meu ver, pelo alteração qualitativa, posse, António Costa
que me explica, é ilegal.” um enriquecimento do fez um bom discur-
Por sua vez, Paulo Otero coloca a ques- debate e do trabalho ou um agrava- so, muito articulado quanto a grandes
tão no plano da ética e da transparência, mento do confronto e da confusão. orientações e objetivos. Há coisas, po-
que, na sua ótica, podiam ter sido mais Uma coisa é certa: a conveniência rém, bem concretas, da maior impor-
bem tratadas. “A circunstância de não ser do debate ser vivo mas não agres- tância, que de imediato tocam mais os
invocada a exceção [prevista pelo mece- sivo, sem insultos nem ataques in- portugueses e das quais é fundamental
nato] não significa que a cláusula não seja justificáveis. O CDS, com Assunção o primeiro-ministro falar – e o Governo
operada ou validada [a adjudicação]. Há Cristas, foi quem mais pisou esse agir. Sem entrar em campos como o da
uma mera irregularidade que não invalida risco, supondo assim afirmar-se Saúde, cito uma, escandalosa, antiga mas
o ato”, observa. Além disso, o antigo presi- como principal força da oposição. sobre a qual surgiu agora nova informa-
dente da Faculdade de Direito da Univer- Viram-se os resultados. E espera-se ção: cerca de 50 mil milhões de euros
sidade de Lisboa diz que “a contratação que aprendam a lição os que dela desviados de Portugal para offshores en-
de um artista é feita no sentido em que só necessitarem. A maior dúvida, se tre 2001 e 2016 (a terceira maior soma da
aquela pessoa e a sua habilidade, o seu ta- dúvida há, vem do Chega. Cujo “pe- UE), com todos os imensos prejuízos daí
lento específico podem garantir o serviço”. rigo”, porém, convém não exagerar: decorrentes para o País. O Governo tem
É a chamada “infungibilidade do prestador presta-lhe um serviço quem lhe dê obrigação de dizer o que está ou vai ser
do serviço”. Simplificando, defende que o uma expressão, uma importância, feito mais neste vergonhoso domínio.
artista não é substituível, e que isso pode que (ainda?) não tem. jcvasconcelos@jornaldeletras.pt
fundamentar o ajuste direto. ooliveira@visao.pt

31 OUTUBRO 2019 VISÃO 67


SAÚDE

Menstruação,
o último tabu
A criação de um emoji alusivo ao período e um
anúncio “arrojado” a pensos higiénicos causaram
polémica. Pormenores? Não, o preconceito
tem impacto ao nível dos Direitos Humanos

N
VÂ N I A M A I A

o mês passado, um anúncio A eurodeputada do Bloco de Esquerda


televisivo despertou a ira dos foi a relatora de um documento, aprova-
telespectadores australianos, do no início deste ano pelo Parlamento
que resolveram endereçar Europeu, que defende a eliminação da
reclamações à entidade re- discriminação de género ao nível da tri-
guladora da publicidade do butação. Um dos aspetos mais mediáticos
seu país por uma marca de do relatório foi a proposta de redução
produtos de higiene femini- do IVA sobre os produtos de higiene fe-
na ter decidido representar minina. Em Portugal, pensos higiénicos,
a menstruação com a cor... tampões e copos menstruais pagam a taxa
vermelha. Habitualmente, a publicida- mais reduzida (6%), mas no resto da UE
de ilustra o sangue menstrual com um há uma enorme disparidade na taxação,
eufemístico líquido azul. As queixas que varia entre os 5% e os 27% de IVA. “É
incluíam acusações de “mau gosto”, chocante haver países onde os produtos
mas também por “humilhar as mu- de higiene feminina são taxados na mes-
lheres ao expor um assunto privado” ma medida do tabaco ou do café, apesar
ou por “obrigar as crianças a verem de serem bens de primeira necessidade. A
uma mulher a sangrar”. Mas a entidade menstruação não é uma opção, e o acesso Preconceito digital A entidade que
reguladora decidiu que “representar a estes produtos é uma questão de saúde aprova os emojis rejeitou umas cuecas
sangue numa campanha sobre produtos pública e, claro, de dignidade”, sublinha. com duas gotas vermelhas, a imagem
de higiene feminina não vai contra ne- mais votada, e só seria aceite
nhum princípio ético”. Afinal, “trata-se EMOJI ENVERGONHADO uma simples gota de sangue
de uma reconstituição rigorosa de uma Uma das cenas mais tocantes do filme Eu,
ocorrência física natural”. Daniel Blake (2016), do realizador inglês
“Continua a haver imenso prurido Ken Loach, mostra uma mãe solteira a
em falar sobre a menstruação”, defende ser apanhada a roubar pensos higiénicos
a eurodeputada Marisa Matias. A vergo- no supermercado. Nos meses seguintes à contenda em defesa da criação de um
nha, alerta a ex-candidata à Presidência estreia, aumentaram as doações de pro- emoji (símbolo gráfico que simboliza
da República, complica o combate à dutos menstruais a instituições sociais no palavras ou conceitos) que representasse
desigualdade. A dificuldade de acesso a Reino Unido. Uma em cada dez jovens o período, com o intuito de passar uma
produtos de higiene feminina é um valioso britânicas, entre os 14 e os 21 anos, não mensagem simples: “A menstruação não
indicador de pobreza, mas esse drama é tem acesso a estes bens, de acordo com é vergonhosa.”
muitas vezes vivido em segredo. “Há Es- um estudo divulgado, no ano passado, Curiosamente, a entidade responsável
tados-membros onde algumas meninas pela ONG Plan International UK. pela aprovação dos emojis, a Unicode
não podem sair de casa durante o período, De acordo com esta organização de Consortium, rejeitou a imagem escolhi-
porque as famílias são tão pobres que não defesa dos direitos das raparigas, o es- da através de uma votação pública: umas
se podem dar ao luxo de comprar pensos tigma em torno da menstruação leva a cuecas com duas gotas vermelhas. Seria
higiénicos ou tampões. Ninguém imagina que as meninas não peçam ajuda e tam- aceite, já este ano, uma muito mais anó-
que isto acontece na União Europeia (UE), bém prejudica a doação de produtos de dina gota de sangue. “Se há emojis para
pensam que é só nos países em vias de higiene feminina. Por isso, há dois anos, tudo o que faz parte da nossa vida quo-
desenvolvimento”, nota. a Plan International UK lançou-se numa tidiana, então também deve haver para o

68 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


automáticos de pensos higiénicos ou tam-
pões nas escolas. Inês Barge lamenta que
na Faculdade de Letras da Universidade
do Porto, onde tirou a sua licenciatura, os
produtos de higiene feminina deixados
nas casas de banho pelo Coletivo Femi-
nista de Letras tenham sido recentemente
vandalizados. A denúncia foi feita, nas
redes sociais, pelo grupo de estudantes
que descreve “a brutalidade com que des-
truíram caixas [de pensos higiénicos e de
tampões], rasgaram cartazes e roubaram
material angariado” no âmbito da campa-
nha pela equidade menstrual. “Uma prova
de que existe tabu”, remata Inês Barge.
O silêncio tem implicações na saúde.
“Ainda é preciso esclarecer as mulheres
que toleram queixas que não tolerariam
se estivessem mais bem informadas. Algu-
mas têm fluxos muito abundantes e muito
frequentes, o que pode causar anemias,
e se não souberem que não é normal,
põem a sua saúde em risco. Muitas vezes
resignam-se porque a avó e a mãe tam-
bém sofreram”, constata a ginecologista
Marcela Forjaz.
A sexóloga Marta Crawford sublinha
que o preconceito em relação à mens-
truação tem consequências muito mais
período”, reitera a presidente da União de Pela saúde Na Índia, a dificuldade graves sobretudo nos países em desen-
Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), de acesso a produtos de higiene volvimento: “Em muitos locais, ainda é
Maria José Magalhães. “Um emoji pode obriga à utilização de trapos, jornais, considerada uma doença e tem um forte
ser importante porque é sinal de maior cinzas, folhas e, até, aparas impacto no abandono escolar.” De acor-
diálogo entre os mais novos sobre este de madeira – tornando frequentes do com as Nações Unidas, uma em cada
tema e acaba por ajudar a combater o as infeções graves dez meninas na África Subsariana falta às
tabu”, acrescenta a também docente da aulas, quando está com o período. O pre-
Faculdade de Psicologia e de Ciências conceito contra a menstruação também
da Educação da Universidade do Porto. faz vítimas. Recentemente, uma estudante
Afinal, estima-se que mais de 90% dos queniana de 14 anos suicidou-se depois
internautas utilizem estes símbolos nas de ser ridicularizada na sala de aulas por
suas conversas digitais. estar com o período. O Nepal, só no ano
Habituada a ver as amigas a pedirem passado, proibiu a prática do chaupadi,
um penso higiénico ou um tampão em que obriga as mulheres a dormirem na
surdina às colegas – “como se fosse um rua ou em abrigos durante a menstruação
crime”– quando se esqueciam deles em para preservar a pureza do lar, deixando-
casa, Inês Barge decidiu fazer uma tese -as suscetíveis a doenças, violações e mes-
de mestrado sobre a gestão da higiene mo à morte. Em 2016, uma adolescente
menstrual e a perceção das mulheres de 15 anos morreu neste contexto.
relativamente aos seus direitos sexuais e Na Índia, a discriminação também
reprodutivos. Acredita que os resultados
do estudo representam apenas uma visão
RECENTEMENTE, UMA é avassaladora, mas uma máquina que
produz pensos higiénicos biodegradáveis
parcial da realidade, já que das 160 entre- ESTUDANTE QUENIANA está a mudar a vida de muitas indianas na

DE 14 ANOS SUICIDOU-
vistadas, 86 eram licenciadas. “A maioria vila de Hapur – não só combate o aban-
diz falar sobre o tema e, à partida, já nin- dono escolar como torna as mulheres que
guém acredita nos mitos de antigamente,
como não cozinhar ou não lavar o cabelo -SE DEPOIS DE SER vendem os pensos higiénicos financeira-
mente independentes. A história valeu o
quando se está com o período, mas isso
não significa que o preconceito tenha
RIDICULARIZADA NA Oscar de Melhor Curta-Metragem Docu-
mental ao filme Period. End of Sentence,
desaparecido”, afirma a jovem de 25 anos.
Uma das recomendações saídas da in-
SALA DE AULAS POR realizado por Rayka Zehtabchi. Cinema
sangrento que não deve meter medo
vestigação é a existência de dispensadores ESTAR COM O PERÍODO a ninguém. vfmaia@visao.pt

31 OUTUBRO 2019 VISÃO 69


FIGURA

Uma vida a pé e no punho


Aos 8 anos, sem família, caminhou do Afeganistão à Turquia.
Lutou a vida toda para sobreviver, e o destino trouxe-o até
Portugal. Agora, o boxe pode levá-lo aos Jogos Olímpicos

V
MANUEL BARROS MOURA DIANA TINOCO

i pessoas serem mortas e à Turquia, de onde, após anos de espe- como é próprio do seu carácter: “Quero
gente a desistir de viver, ra, partiu para o refúgio em Portugal. receber uma medalha. É por isso que
atirando-se de penhascos, País que o recebeu bem, que aprendeu luto todos os dias.”
nas montanhas. Eu não. Eu, a amar e onde, faz questão de o dizer, O que aqui se conta é a fantástica
miúdo, ia sempre à frente, quer “construir um futuro”. E esse futu- história de um miúdo que foi obrigado a
sempre a andar para che- ro pode passar, já no ano que vem, pelos fazer-se homem bem cedo na vida e que,
gar a um destino. O meu Jogos Olímpicos de Tóquio, integrado com ou sem medalhas, é um vencedor.
destino.” Quem o diz é Fa- na equipa internacional de refugiados Uma história relatada pelo próprio, as-
rid Walizadeh, afegão de 22 organizada pelo Comité Olímpico In- sente nas memórias que vai conseguindo
anos, que assim descreve o ternacional. Para isso acontecer, com domar. Sim, porque aquelas que – como
que mais o marcou num trajeto de vida o apoio do Comité português, Farid o próprio admite – o atormentam, lhe
desumano, que o obrigou, separado da treina boxe diariamente, com a mes- provocam pesadelos e o mantêm “preso
família e com apenas 8 anos, a atraves- ma determinação que o fez atravessar dentro da própria cabeça”, essas, não as
sar a pé as montanhas do seu país, do todas as montanhas gélidas da vida na conta a ninguém. “Não tenho com quem
Paquistão, e desde o Irão, para chegar perseguição de um sonho ambicioso, partilhar ou desabafar muitas das coisas

70 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


Rotina diária Depois da faculdade,
Farid treina na academia de Paulo
Seco e vive no Centro de Alto
Rendimento, no Jamor

que vivi. Ninguém em quem possa con- espantosos: “Éramos um grupo grande passou a ter acesso a cama, mesa, educa-
fiar totalmente e que, sobretudo, não quando saímos do Afeganistão. Andámos ção e roupa lavada, mas os anos passados
me julgue.” juntos até metade do trajeto no Paquis- naquele orfanato não foram menos duros
tão, até que caí de um autocarro e fiquei do que aqueles em que andou na travessia
“FARTO DE LEVAR PORRADA” sozinho até ao final do Irão. Mas também das montanhas.
Farid nasceu em 1997, em Puli Khumri, não queria companhia. Não confiava em “Os rapazes eram maiores do que eu.
cidade do Nordeste do Afeganistão. Per- ninguém e estava farto de levar porrada Eram turcos e eu, o único afegão. Que-
deu a família com apenas 1 ano de idade. de toda a gente.” riam dar-me ordens, mas nunca deixei
O pai morreu e a mãe, perseguida por Dos meses que passou sozinho, con- que mandassem em mim. Então, ba-
ser ismaelita, foi obrigada a fugir para ta pouco. A alguns membros da equipa tiam-me. Deram-me uma sova que me
as montanhas. Estando grávida, teve de do Comité Olímpico de Portugal que o partiram todo, mas levantei-me e fui-me
deixar Farid para trás, com uma famí- acompanham atualmente, diz apenas: a eles. Voltaram a massacrar-me e voltei
lia amiga. Ali viveu até à morte da mãe “no dia em que puder regressar, gostaria a responder. E assim sucessivamente, até
adotiva. O padrasto pô-lo, então, fora de de ir pedir desculpa e de agradecer às que desistiram. Perceberam que eu me
casa, pagando para que o levassem para pessoas a quem fui roubando fruta para levanto sempre.” Essa capacidade de luta e
longe do país, integrado num grupo que sobreviver.” Na conversa com a VISÃO, foi a necessidade de se defender abriram-lhe
escapava da guerra e da pobreza. Quase mais curto e grosso: “Comi tudo o que era as portas do desporto. No taekowondo,
sempre a pé, porque o preço pago pela ser vivo e mexia.” O resto das memórias descobriu a modalidade certa para cana-
“viagem” não dava direito a lugar na garu- lá continuarão presas na sua cabeça, a lizar a sua raiva e aperfeiçoar as técnicas
pa do burro. Não passava de uma criança atormentarem-lhe o sono. de autodefesa.
de 8 anos, forçada a lutar, sozinha, pela O calvário terminou, quase um ano Com a mesma determinação com que
sobrevivência. depois, em Istambul. Apesar de ter che- chegou a solo turco, Farid tornou-se um
“Passei por coisas que nem a maioria gado à Europa, os primeiros tempos na campeão, somando vitórias. Até que der-
dos adultos alguma vez passou, quanto Turquia também não foram fáceis. “Es- rotou a pessoa errada: “Ganhei ao filho de
mais uma criança”, reconhece, sem, no tive preso até aos 10 anos. Depois, colo- um mandachuva qualquer lá do ginásio.
entanto, mostrar qualquer sinal de pie- caram-me num centro educativo, que Atropelaram-me e bateram-me. Estive
dade por si próprio. Antes, sim, de uma era outra prisão. Fugi várias vezes, mas uma semana em coma e fiquei com lesões
confiança e, até, de um desassombro apanhavam-me sempre.” É verdade que no braço e numa perna. Os médicos di-

31 OUTUBRO 2019 VISÃO 71


FIGURA

ziam que eu nunca mais poderia treinar.”


Estavam enganados. Uma vez mais, o
duro rapaz afegão levantou-se e foi à luta.
Mais um na corrida para Tóquio
Farid Walizadeh não está sozinho no sonho de chegar a Tóquio 2020. Como
O PAÍS DE CRISTIANO RONALDO ele está também Dorian Keletela, nascido há 20 anos no Congo – Brazzaville.
Ao fim de cinco anos, em 2012, o Alto Chegou a Portugal em maio de 2016, com 17 anos, depois de perder a família,
Comissariado das Nações Unidas para os os amigos, a casa e a terra. Gostava de correr, o que levou o Comité Olímpico
Refugiados apresentou-lhe, finalmente, de Portugal (COP) a integrá-lo no seu programa Viver o Desporto – Abraçar o
Futuro. Começou, então, a treinar no Sporting. Os excelentes resultados que foi
duas propostas alternativas de países que
alcançando nas provas de velocidade (corre os 100 metros e os 60 metros em
estavam dispostos a recebê-lo, conce-
pista coberta) convenceram o COP a solicitar para ele, como fizera com Farid,
dendo-lhe o título de residência com o uma bolsa à Solidariedade Olímpica, com o objetivo de que Dorian possa vir
estatuto de refugiado. Entre os Estados também a integrar a Equipa Olímpica de Refugiados. Os dois atletas têm, agora,
Unidos da América e Portugal, o rapaz, de manter as boas prestações desportivas para que, até junho do próximo ano,
então com 15 anos, não teve dúvidas: o Comité Olímpico Internacional os escolha para Tóquio 2020.
“Não tinha boa impressão da América
por causa da guerra. De Portugal não
sabia nada, a não ser que era a terra de por tentar proporcionar a cada jovem a residência para atletas no Centro de Alto
Cristiano Ronaldo.” E, apesar de “nunca oportunidade de praticar um desporto. Rendimento, no Jamor. Integrado no
ter visto um jogo de futebol inteiro”, esse Com Farid, as lesões trazidas da Turquia Paulo Seco Team Lisboa, treina árdua e
foi o argumento suficiente para que es- desaconselhavam a prática de artes mar- afincadamente todos os dias e voltou a
colhesse o nosso país. ciais, mas Orlando Jesus, treinador de competir. Com excelentes resultados,
Chegou no final desse ano e foi viver boxe do Clube Desportivo de Arroios, diga-se, em Portugal e lá fora.
para o Centro de Acolhimento de Crianças abriu-lhe uma porta. Paulo Seco, 48 anos, antigo praticante
Refugiadas, no Parque da Bela Vista, em “Ao fim de quatro ou cinco meses a e treinador há 20, é o homem que prome-
Lisboa. A adaptação não foi, uma vez mais, treinar, fui campeão. Batia toda a gente.” te tudo fazer para ajudar Farid a cumprir
fácil. Ao perfil reservado de um jovem Efetivamente, ao título nacional de cade- o sonho de chegar aos Jogos Olímpicos.
com evidentes problemas de afetividade tes na categoria de -57 quilos, em 2013, Residente toda a vida no Casal Ventoso
juntava-se a barreira da língua. Mas Farid seguiram-se três anos de muitas outras e com academia aberta no bairro social
aprendeu rapidamente a falar português vitórias e títulos, a maioria por KO. que serviu para albergar os desalojados
com o trabalho na escola “e a ler todos os daquele que foi durante anos o hiper-
dias livros de crianças e notícias”. IR AO TAPETE E VOLTAR A VENCER mercado da droga de Lisboa, o treinador
Como acontece com todos os jo- Em 2017, porém, o sonho do boxe sofreu que ensinou o ator Nuno Lopes a ser o
vens nestas condições, os responsáveis um revés. Um ano antes, ao completar 19 pugilista do filme São Jorge, de Marco
do centro de acolhimento procuraram anos, teve de deixar a casa de acolhimento Martins, está habituado a lidar com gente
também perceber o que poderia ajudar e passou a viver num quarto, com um pe- com vidas difíceis. Mas reconhece que
na sua integração. O desporto é, neste queno apoio da Santa Casa da Misericór- “o passado de Farid o torna mais forte e
capítulo, uma das formas de melhor dia. “Estudava durante o dia e trabalhava mais competitivo”. Conta que o jovem “é
conseguir resultados. E sempre que é à noite, num hotel, o que não me deixava uma esponja, não desiste e está sempre
identificada uma apetência especial por treinar e competir.” Mas, se aqui o jovem disposto a aprender”, mas reconhece que
alguma modalidade, o Conselho Portu- foi ao tapete, o combate mais saboroso a tarefa de o levar a Tóquio 2020 é tudo
guês para os Refugiados, com o apoio do da sua vida acabaria, no entanto, por menos fácil: “Estamos a tentar fazer em
Comité Olímpico de Portugal, esforça-se terminar como uma vitória. Ao fim de menos de dois anos o que normalmente
quatro anos de batalha, o jovem Walizadeh leva quatro anos a conseguir.” Acredita,
conseguiu reunir-se com a mãe e dois dos porém, que é possível, até maio do ano
seus meios-irmãos. “Mudou tudo e é uma que vem, “convencer o Comité Olímpico
grande surpresa”, explica: “Ainda estamos Internacional do valor do atleta”.
“DERAM-ME UMA SOVA a conhecer-nos. Eles a saberem a minha Até lá, Farid Walizadeh vai continuar

QUE ME PARTIRAM TODO,


história e eu a descobrir a deles.” a levantar-se a cada queda que a vida
A família viveu uns meses toda junta na o fizer dar. A lutar pelo seu sonho e a
MAS LEVANTEI-ME E Margem Sul, mas o início deste ano trouxe
uma nova e espetacular reviravolta na vida
construir o futuro. E promete construir
muito mais, a partir da sua mais recente
FUI-ME A ELES. E ASSIM do refugiado afegão. Com o empenho do
Comité Olímpico de Portugal, o promis-
vitória: “Consegui entrar em Arquitetura,
que era outro sonho meu. Porquê? Por
SUCESSIVAMENTE, ATÉ QUE sor pugilista foi integrado no programa
de atribuição de bolsas no âmbito de um
ter visto tanta destruição, agora quero
criar coisas novas.” E quer fazê-lo no
DESISTIRAM. PERCEBERAM projeto do Comité Olímpico Internacio- país onde se sente “em casa, mais do que
QUE EU ME LEVANTO nal, que, em última análise, pode levá-lo
a integrar uma equipa internacional de
em qualquer outro lugar”. Em Portugal,
que já conheceu de lés a lés (sempre a pé,
SEMPRE” refugiados que vai competir nos pró-
ximos jogos, em 2020, em Tóquio, no
claro) e que diz ser tão bonito, que “é um
prazer conhecer”. O prazer, Farid, é todo
FARID WALIZADEH Japão. O pugilista vive, atualmente, na nosso. mbmoura@visao.pt

72 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


GUIA MENSAL

C A S A S , C O N S T R U Ç Ã O E A R R E N D A M E N T O

NO PAÍS DOS BONS NEGÓCIOS


O mercado português está cheio de oportunidades e a VISÃO Imobiliário
foi conhecer as histórias de quem mudou para melhor

TENDÊNCIAS
No mundo do
superluxo, é preciso
convite para ser
comprador

NÚMEROS
ENTREVISTA As melhores
Ricardo Sousa e as piores cidades
diz quais são as para se viver
zonas que vão sozinho
valorizar
IMOBILIÁRIO / DOSSIER

TERRA DE OPO
Vender a casa na cidade e partir para um local mais tranquilo,
ou simplesmente mudar de bairro... Em tempos de bons negócios,
fomos conhecer quem se aventurou e ainda lucrou com isso
MARISA ANTUNES

74 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


RTUNIDADES

31 OUTUBRO 2019 VISÃO 75


D
IMOBILIÁRIO / DOSSIER

Dois dias foi quanto bastou para a


família Simplício vender a bom pre-
ço a sua casa, um T4 nas Colinas do
Cruzeiro, empreendimento para um
segmento mais alto, em Odivelas, e
pôr mãos à obra para em breve ini-
ciarem uma nova vida, totalmente
diferente daquela que viveram nos
últimos 20 anos.
Hoje, desdobram-se entre o tra- FA M Í L I A S I M P L Í C I O
balho de sempre como empresários
na área da tecnologia e gestão e uma VIDA NOVA
nova rotina – o acompanhamento das
obras de uma casa de sonho que estão PERTO DA PRAIA
a construir na Margem Sul, à qual não
irá faltar a piscina, uma zona de bar- “É cíclico: em cada dez anos,
becue e uma generosa área ajardinada, mudamos de casa. Mas desta
onde já se imaginam com os dois filhos não sairemos assim tão cedo”,
e os amigos dentro de um ano, quando gracejam António e Ana
a moradia ficar concluída. Simplício, que encontraram
O mercado imobiliário de Lisboa o terreno perfeito, na Verdizela,
e de alguns concelhos limítrofes têm a cinco minutos da sua praia
vindo a passar, nos últimos anos, por de eleição – a Fonte da Telha –
para construir a sua vivenda de
uma valorização sem igual que está a
sonho. Adquirido por 150 mil
levar muitas pessoas a venderem as
euros no ano passado, o timing
suas casas a valores impensáveis até parece ter sido perfeito, dado
há bem pouco tempo, iniciando vida os preços que agora já se estão
A FAMÍLIA
nova noutras freguesias. Como é o a praticar neste mercado, fruto
caso de António e de Ana Simplício e da procura nos últimos meses.
dos seus dois filhos.
Estamos na Verdizela, concelho do
“Ainda na semana passada, SIMPLÍCIO
VENDEU UM
o banco avaliou este terreno
Seixal, uma zona de moradias durante por 278 mil euros!”, contam.

T4 EM
muito tempo destinada a casas de fé-
rias, mas que, nos últimos dois anos,
sofreu uma revolução na procura de
lotes de terreno para construção, uma ODIVELAS EM
boa parte para primeira habitação. Por APENAS DOIS
DIAS
todo o lado se vê movimentação de
obras privadas, com casas em constru-

76 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


Vantagen s
®

do há dez anos por cerca de 300 mil


euros e foi vendido por 465 mil euros
para uma pessoa que, em Odivelas, só
queria mesmo comprar naquele prédio. ESTÁ PRESTES
Em Telheiras, a operação não foi tão
rápida, mas em dois meses fechou-se A APAIXONAR-SE
a transação por 400 mil euros.
Concretizadas as vendas das duas OU T R A VEZ
casas, seguiu-se a procura por ter-
renos a bom preço numa localização
PELA SUA CASA
privilegiada para construir de raiz,
“uma opção cada vez mais procurada,
porque comprar já pronto, com qua-
lidade e a bom preço, é cada vez mais
difícil”, diz Ana Simplício, realçando
que todo o processo está a ser muito
tranquilo, pois enquanto a obra da
nova casa, vai decorrer vão manter-se
na antiga casa agora como inquilinos,
uma vez que o atual proprietário vive
em Moçambique.

€600 MIL
O terreno de 1 250 metros quadra-
dos (onde só lhes é permitido erigir
uma habitação com um máximo de
250 metros quadrados), adquirido
A venda de duas na Verdizela por 150 mil euros, vai

50€
casas em Lisboa permitir construir a casa ideal por
rendeu €865 mil. 400 mil euros, reforça a empresária:
A nova vivenda vai
“O arquiteto do atelier A3A Arquitec-
custar €600 mil.
tos desenhou exatamente o que nós
queríamos: uma casa toda feita de
acordo com a exposição solar, com
ção e placas de “Vende-se” em vários uma cozinha e uma sala amplas e uma
lotes. Mas é uma movimentação, por zona mais resguardada para os quatro
enquanto, tranquila, onde os carros quartos. A piscina, durante os meses
passam espaçadamente e se consegue de verão, vai apanhar sol o dia todo.”
sentir o ar mais puro, apesar da A2 e da A flexibilidade de horários como voucher *
Ponte 25 de Abril. empresários por conta própria eli-
Uma das casas atualmente em cons- minou o grande inconveniente da
trução é a da família Simplício. A opor- Margem Sul, aponta ainda Ana: “Os
tunidade de se lançarem nesta nova engarrafamentos não são uma questão REGISTE-SE
etapa surgiu há pouco mais de um ano
pela simples observação do frenesim
para nós. Imagino o nosso futuro pró-
ximo com muito sossego, onde os sons
NA APP C21 PARA
imobiliário que os rodeava. Além do que ouvimos não são os das buzinas e BENEFICIAR JÁ
T4 em Odivelas, onde residiam há dez
anos, a família possuía também um
das travagens dos carros, mas os dos
pássaros, e onde ao final do dia, nos DESTAS VANTAGENS
T2 em Telheiras, no Parque dos Prín- meses de verão, podemos ainda dar um EXCLUSIVAS
cipes, comprado há 20 anos quando se mergulho na praia da Fonte da Telha,
casaram e que mantiveram arrendado a quatro quilómetros daqui.”
quando se mudaram para Odivelas, na century21app.pt
altura em que a família cresceu. “Um MUDAR DE BAIRRO
dia, durante o jantar, comentámos João Pedro Conim, consultor da Re-
sobre a quantidade de casas vendidas max Prestige e mediador numa das
à nossa volta, das placas das mediado- casas transacionadas pelo casal Sim-
ras que tão rapidamente saíam pouco plício (a de Telheiras), trabalha na área
depois de serem colocadas. Questio- imobiliária há cerca de cinco anos e
námo-nos se nos dariam exatamente tem acompanhado este “fenómeno” ®
aquilo que queríamos pela nossa casa
e resolvemos avançar com uma espécie
crescente de nacionais atentos a boas
oportunidades. “Durante muitos anos,
Por Sua Casa
de valor-teste. Em dois dias vendemos em Lisboa e em zonas mais periféri-
Desconto de 50€ aplicado em encomendas iguais ou
o apartamento de Odivelas”, recorda o cas, praticamente ninguém ganhava superiores a 150€. Válido nos artigos para CASA, marcas La
empresário. dinheiro com as casas e acabavam por Redoute Intérieurs e AM.PM., exceto artigos com indicação
"Excluído da promoção", não acumulável com os descontos em
O apartamento tinha sido compra- vendê-las ao preço a que as tinham vigor no site ou com qualquer outra oferta comercial. O
desconto de 50€ é aplicado ao valor base do artigo. Oferta
válida uma vez por cliente até 30 de junho de 2020. Código
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IMOBILIÁRIO / DOSSIER

€450 MIL
Trinta anos depois,
este foi o valor da
venda de um T4
na Costa da Caparica,
que custara
€100 mil.

comprado ou pouco mais. Mas, entre- Entretanto, e já com quase um ano


tanto, começaram a ficar mais curio- FLORBELA TIBÚRCIO de vivência no novo apartamento, o
sas e a perceber que podiam obter balanço é positivo, realça Cristina: “Os
uma mais-valia interessante quando VENDER A CASA POR CINCO nossos filhos vão a pé para a escola
a casa tem uma boa localização, o que
lhes permite não só comprar outra VEZES MAIS DO QUE CUSTOU e têm amigos que moram no bairro.
Com esta casa, ganhámos uma ga-
casa como até investir numa segunda ragem para dois carros e um terraço
habitação”, conta o consultor, dando A proprietária de uma ótica em enorme, do qual já desfrutámos neste
como exemplo uma venda fechada Lisboa nem queria acreditar último verão.”
há pouco tempo num prédio recente quando João Conim, da Remax
de Telheiras, que permitiu à família Prestige, lhe garantiu que a PREÇOS DAS CASAS EM ALTA
comprar um outro apartamento de antiga casa de férias na Costa Novos, reabilitados ou usados, a pro-
dimensão idêntica mas mais antigo, a da Caparica, que tinha custado cura de imóveis continua alta (apesar
cinco minutos de distância, no Lumiar, 100 mil euros aos seus pais, de ter desacelerado 6,6 por cento). Só
e ainda sobrou dinheiro para obras de valia hoje quase cinco vezes entre abril e junho deste ano, foram
mais. Colocada no mercado em
remodelação e uma piscina na casa de transacionadas 42 590 habitações a
fevereiro, já estava vendida em
férias que possuem na Ericeira. nível nacional. Em valor, atingiu-se
junho, a um casal português,
Também significativa foi a valori- para primeira habitação. Com
os 6,1 mil milhões de euros em ape-
zação da casa da família Miranda no o dinheiro, Florbela Tibúrcio nas três meses, segundo números do
centro de Lisboa. O apartamento loca- amortizou a sua casa e Instituto Nacional de Estatística.
lizado num prédio de 1962, do Bairro comprou o carro. A Área Metropolitana de Lisboa
Azul, a dois passos do El Corte Inglés (AML) concentrou 46,3% do valor
e da Fundação Gulbenkian, sofreu uma total das habitações transacionadas
valorização de 250 mil euros em ape- nesse período, tendo-se seguido a
nas 16 anos. Quando foi adquirido, em de uma década depois o apartamento Região Norte, com 23,2 por cento.
2003, o imóvel datado e muito compar- continua atual”, realça Cristina. Números divulgados, este mês, pelo
timentado passou por obras profundas A decisão de colocarem a casa à ven- Eurostat mostravam que Portugal teve
de cerca de 100 mil euros, que fizeram da surgiu não tanto pelo aproveitamento o quarto maior aumento dos preços
agora a diferença na hora de vender. da dinâmica imobiliária que existia em das casas (10,1%) no segundo trimestre
A dona da habitação, Cristina Mi- Lisboa, mas pela vontade de ficarem do ano, em termos homólogos, mais
randa, é designer de interiores e rede- mais perto do colégio onde andam os do dobro do acréscimo registado
senhou o apartamento ao pormenor, dois filhos e, por isso, quando apareceu na Zona Euro e na União Europeia
convencida, na altura, de que aquela o apartamento precisamente na zona (4,2 por cento). Os maiores aumentos
seria uma casa para a vida. “As casas não que desejavam, em Telheiras, não hesi- dos preços das casas foram registados
são apenas investimentos, são também taram. O imóvel de construção recente, na Hungria (14%), no Luxemburgo
aquilo que somos. E valeu a pena – mais com 13 anos, custou 620 mil euros. (11,4%) e na Croácia (10,4%).

78 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


IMOBILIÁRIO / DOSSIER

FA M Í L I A M I R A N D A

MUDAR DE BAIRRO
Miguel e Cristina Miranda
tinham um apartamento no
Bairro Azul, paredes-meias
com a Fundação Calouste
Gulbenkian, que venderam
com uma mais-valia de
250 mil euros. “Quisemos
mudar para estar perto
da escola dos miúdos, em
Telheiras, mas se a opção
fosse comprar uma casa na
mesma zona, num edifício
reabilitado e com garagem,
não pagaríamos menos de
850 ou 900 mil euros”, dizem. €620 MIL
O valor de um T4
em Telheiras com
No entanto, o mercado tem sofrido mil euros pelos meus pais para casa de
garagem para dois
alterações nos tempos mais recentes: carros e um terraço
férias”, recorda Florbela, proprietária
“Há dois anos e meio, vendíamos imó- de áreas generosas. de uma ótica no centro de Lisboa.
veis todas as semanas. Às vezes nem A cobertura – do último piso de
tanto. Por diversas vezes, eu cheguei a um condomínio com piscina e uma
vender a casa logo na primeira visita, vista aberta para toda a zona ribeiri-
quando a localização era muito central. nha de Lisboa até Cascais – acabaria
A estrangeiros e a nacionais que, nessa por ser vendida em quatro meses por
altura, pesavam de igual forma na mi- 450 mil euros a um casal português,
nha carteira de clientes”, continua João para primeira habitação. “Fomos muito
Pedro Conim. felizes naquela casa, e o meu pai che-
Hoje, o peso dos estrangeiros na gou a viver lá em permanência quando
sua carteira é mais reduzido e o rit- se reformou”, recorda Florbela. Nos
mo médio de vendas é mais alar- anos mais recentes, já depois do fale-
gado, rondando atualmente os três cimento do pai, a empresária chegou a
meses. Na Remax Prestige, uma das colocar a casa no Airbnb, “com muito
mais dinâmicas da rede, os cerca de sucesso nos meses de verão, apesar de
110 consultores que ali trabalham querem comprar em Lisboa, mas não precisar de obras de renovação”.
angariam uma média de 200 imóveis abdicam de ter garagem; os que estão O bom momento do mercado aju-
por mês. E a maior parte dessas casas em processo de divórcio; investidores, dou-a a avançar para a venda, até
está a ser adquirida por nacionais. etc.”, conta João Pedro Conim. porque a família deixou de usufruir
“Neste momento, os portugueses Foi ele que deixou Florbela Tibúrcio do imóvel a partir do momento em
representam 70% da minha carteira, surpresa quando lhe garantiu que a que este entrou para o circuito do
e tenho de tudo: clientes com casas sua casa de férias, um T4 na primei- arrendamento de curta duração: “Já
muito grandes e que querem algo mais ra linha da Costa da Caparica, tinha não fomos capazes de desfrutar da
pequeno, porque os filhos cresceram atualmente um valor de mercado na casa da mesma maneira, não era a
e já lá não estão; a situação inversa: ordem do meio milhão de euros. “Nem mesma, estava descaracterizada. E a
famílias a crescer e que não dispen- queria acreditar! O apartamento, com necessidade de obras e de manutenção
sam escritório e terraço; aqueles que 30 anos, tinha sido comprado por 100 era algo que me sufocava.”
Com o dinheiro da venda acertou
hipotecas, amortizou o empréstimo
da sua habitação em Oeiras, comprou
SEGUNDO O EUROSTAT, um carro e pagou “uma batelada” em

PORTUGAL TEVE O QUARTO


mais-valias: “Cerca de 55 mil euros,
um horror, mas já não queria mais
MAIOR AUMENTO DOS PREÇOS investimentos, queria livrar-me desse
peso.” Para a história fica um bom ne-
DAS CASAS (10,1%), NO gócio, como tantos que se fazem, ago-

SEGUNDO TRIMESTRE DO ANO


ra que Portugal se tornou uma terra
de oportunidades. visaoimobiliario@visao.pt

80 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


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Ricardo Sousa
“Os preços vão subir
nas periferias de Lisboa”
O líder da Century 21 Portugal fala das zonas à volta
da capital e do Porto, que vão valorizar, e diz que o mercado
de arrendamento tem uma grande oportunidade
MARISA ANTUNES MARCOS BORGA

A
os 40 anos, Ricardo Sousa médio e médio baixo, começa a des- tro é fácil ver como os preços sobem
é um dos homens-fortes locar-se para mercados onde o valor precisamente ao longo dessa linha.
do imobiliário nacional, médio é inferior e são essas transações Uma pessoa que não vive no cen-
liderando a rede Cen- que têm mais peso hoje. tro de Madrid, vive fora da capital,
tury 21 Portugal. A sua Que periferias são essas? e, nesse caso, é mesmo fora! Aqui é
visão estratégica e arejada Dando como exemplo a Área Me- tudo muito perto, quando falamos em
tornou-o também o res- tropolitana de Lisboa (AML), temos Odivelas, Amadora ou Oeiras… Uma boa
ponsável pelo mercado o centro e os mercados periféricos a
espanhol, funções acu- norte do Tejo – que recuperou muito
muladas que desempenha mais rápido e onde a taxa de esforço é
há uma década. Numa análise ao mer- muito mais alta – e a sul do Tejo, onde
cado imobiliário, estima que o valor essa recuperação foi mais lenta e está
das casas nas periferias de Lisboa vai agora a começar a mover-se, sobre-
continuar a crescer, especialmente as tudo nas zonas do Montijo, Barreiro,
que seguem a linha do metro, como Seixal – um eixo servido pelos barcos
Amadora e Odivelas. e agora também animado com vários
Qual é a situação do mercado projetos. O Seixal tem um masterplan
em termos de valor médio muito interessante que começa a di-
da transação a nível nacional? namizar o mercado e a atrair muitas
Notamos que o valor médio da tran- pessoas… O Barreiro também está com
sação baixou 8 por cento. Posso dizer uma dinâmica muito interessante.
que, no ano passado, por esta altura, A Margem Sul, aliás, é hoje uma gran-
estávamos nos 162 mil euros e, este de alternativa. Há o comboio, as liga-
ano, vamos nos €150 mil. Esta descida ções fluviais…
não deixa de ser contraditória: num Mas a norte do Tejo, a pressão
mercado em que os preços estão a é maior.
subir, o valor médio da transação está Temos de passar a olhar para Lisboa
a baixar. A explicação tem que ver como área metropolitana. Esta
com o movimento das pessoas para subida de preços que estamos a
mercados mais periféricos… ver em Odivelas, Amadora,
Mercados onde os preços ainda etc., está diretamen-
não subiram? te ligada à mobi-
Sim, mas começam a subir. Por um lidade urbana –
lado, o segmento alto começa cla- e aqui o ponto
ramente a esfriar, porque a procura fundamental é
é mais limitada; por outro, a grande o metro… Se
maioria da população, que está a as- seguirmos a
segurar as transações nos segmentos linha do me-

82 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


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estratégia de mobilidade vem, clara- a ajuda dos pais e apostam na compra


mente, resolver esta questão do acesso porque é mais económico.
à habitação. É fundamental mudarmos Surpreenderam-se nesse
de escala, deixarmos esta visão micro estudo com o facto de os jovens
e olharmos para o potencial de toda perpetuarem a mentalidade
esta região, que cada vez mais atrai e dos pais e almejarem ser
concentra população, seja a portugue- proprietários?
sa, seja a internacional. Foi uma surpresa, sobretudo naquele
E diria que os preços já atingiram
o pico? ACREDITO QUE escalão etário mais baixo no qual pen-
sávamos que já iria haver uma maior
Nos mercados periféricos há margem
e os preços vão crescer, claramente.
VAMOS VER mudança. Até porque a afirmação “eu
quero ter casa” vem ligada a “eu quero
Devido a este movimento de pessoas MUDANÇAS constituir família”.
com maior poder aquisitivo, mas que
não conseguem casa na sua zona e se NO MERCADO Vislumbra-se alguma dinâmica
para o mercado de arrendamento
deslocam para outras. O concelho de
Loures, por exemplo, tem um gran-
DE ARRENDA- a médio e longo prazo?
Os investidores perceberam que há
de desafio porque tem o rendimento MENTO EM 2020 uma oportunidade. Porque há uma
mais baixo da AML e, apesar disso,
já está com uma taxa de esforço de E 2021 grande parte da população que pre-
cisa da solução do arrendamento.
compra de 33 por cento. Portanto, será O que é necessário? Estabilidade le-
“invadido” por pessoas de outros con- gislativa, uma visão mais estratégica
celhos com maior poder aquisitivo, o do mercado de arrendamento de mé-
que vai fazer subir os preços. Diria dio e longo prazo e menos medidas de
que na cidade de Lisboa, no Algarve curto prazo para tentar resolver algo
(pelo menos aquele mais turístico) e que não se resolve no curto prazo.
na cidade do Porto não há espaço para Porto. Se há edifícios de escritórios e E hoje temos operadores sérios in-
os preços crescerem e já começam se o metro quadrado é mais barato, se ternacionais que estão a olhar para
mesmo a ajustar, sobretudo nos imó- as casas são mais baratas e o estilo de este mercado e a estudar projetos.
veis usados. A obra nova é o produto vida também, é lógico que as empre- Acredito, sinceramente, que vamos ver
mais desejado e com menos oferta, e sas se coloquem lá. E hoje as grandes mudanças importantes no mercado
irá manter os preços nos próximos empresas internacionais já olham para de arrendamento em 2020 e 2021.
trimestres. Já os mercados perifé- o Porto com outra visão. Estamos a falar dos chamados
ricos, vão subir. A linha de Cascais Não se corre o risco de se voltar fundos PRS (Private Rental
também não tem muito espaço para aos níveis exagerados de sobre- Sector), habituais em mercados
os preços crescerem, mas, se virmos -endividamento das famílias? como o britânico, por exemplo,
os arredores, já se sentem os valores a Impossível não é, mas é muito difícil e que gerem edifícios inteiros
aumentar pelo simples facto de a pro- isso voltar a acontecer. Primeiro, es- de arrendamento?
cura estar a crescer. São pessoas que tamos muito longe do volume tran- Sim e acredito que a solução está aí,
não conseguem comprar no mercado sacionado desses tempos; e, depois, porque o pequeno investidor vai ter
da sua primeira escolha e começam a estamos noutro mundo no que toca muita dificuldade em conseguir co-
ir para segundas escolhas e à procura aos critérios: as regras que o Banco locar no mercado projetos com ren-
de qualidade de vida… Toda a coroa de Portugal hoje define e impõe, a das ajustadas à nossa classe média e
à volta do Porto (Vila Nova de Gaia, questão dos intermediários de crédi- ao rendimento dos portugueses, em
Matosinhos, Maia), começa a ter pro- to, que não existia no passado e que particular dos jovens. É preciso escala
jetos-âncora, com a parte residencial vem responsabilizar seja o banco seja para conseguir lá chegar. E é neces-
também a acontecer. quem está a intermediar o crédito, a sário debater, em Portugal, a questão
E muitos desses projetos-âncora profissionalização da atribuição do da industrialização da construção.
passam por edifícios de crédito, não só por parte dos bancos, Está a falar de construção
escritórios... mas também por parte de todos os modular ajustada também
Na Região Norte ocorreram dois fa- operadores do mercado. No caso da à construção em altura?
tores: o primeiro assentou na atração Century 21, por exemplo, as famílias Sim, estas técnicas e tecnologias
e na instalação de empresas com es- já nos chegam com mais de 30% do de construção permitem encurtar
critórios e a inerente criação de em- valor do imóvel. Naturalmente, há os prazos e construir a preços que
prego; e o segundo na parte logística, mercados, nos quais a taxa de esfor- asseguram logo a comercialização,
pois a Área Metropolitana do Porto ço é maior, em que o crédito vai aos seja de arrendamento seja de venda,
(AMP) conseguiu criar plataformas 80% do valor ou até um pouco mais… com valores ajustados. A tecnologia
muito interessantes que têm atraí- E ainda temos uma grande parte de que existe hoje permite industriali-
do várias empresas – e aí não é só quem compra – metade – que não re- zar e produzir parte do que vai ser
a parte de serviços mas também da corre sequer a crédito. Fizemos agora necessário para o edifício já fora do
indústria de distribuição. Para já não um estudo sobre os jovens e o acesso estaleiro. Isso reduz o tempo de obra
falar do grande potencial turístico e à habitação no qual se concluiu que, e o custo médio do metro quadrado.
da reabilitação do centro histórico do no primeiro passo, eles contam com visaoimobiliario@visao.pt

84 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


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IMOBILIÁRIO / TENDÊNCIAS

Luxo: só compra quem tem convite


Na antiga sede da Açoreana, nas Avenidas Novas, vai nascer o D’Avila,
um condomínio de elite para o qual os possíveis compradores
interessados têm de ser convidados
MARISA ANTUNES

O
que têm em comum Chris- by invitation – nós definimos o públi- já recebeu a password para aceder ao
tian Louboutin, Madonna co-alvo para o projeto e convidamos site que lhes vai dando acesso a uma
ou Monica Bellucci? Des- as pessoas que se encaixam nesse variedade de informações sobre o
cobriram e adoram Portu- perfil”, diz Paul Henri Shelfout, CEO projeto, como a primeira imagem e,
gal, ao ponto de se muda- da Finangeste, sociedade gestora mais recentemente, o vídeo teaser.”
rem para cá. Outros como com uma carteira de ativos na ordem No dia 6 de novembro, será feita a
Shakira, Cindy Crawford dos 1,3 mil milhões de euros. apresentação oficial a este grupo de
ou Michael Bolton incluí- Na consultora imobiliária Quintela clientes da Quintela e Penalva, que
ram o nosso país no seu e Penalva, parceira da Finangeste para ronda as 200 pessoas e, apesar do in-
roteiro de férias. A capital a comercialização em exclusivo do teresse dos estrangeiros, a maioria são
portuguesa está assim – cosmopolita D’Avila, o processo de aguçar o ape- portugueses. “Temos alguns clientes
e tão bem-sucedida na sua capacida- tite aos potenciais compradores deste estrangeiros, entre eles atores brasilei-
de de atração, que rivaliza facilmente clube restrito já começou, conta Jorge ros, por exemplo, mas a maioria, cerca
com outras cidades top, como Nova Costa, diretor de desenvolvimento da de 60 a 70%, são nacionais, muitos
Iorque, Londres ou Paris. Parte fun- empresa: “Não há necessidade de ir ao deles já residentes nas Avenidas Novas
damental da fórmula de sucesso (além mercado procurar clientes, porque já e que desejam um upgrade da casa
dos fatores sempre referenciados os temos e estivemos a trabalhar com atual”, refere ainda Jorge Costa, re-
como o clima, hospitalidade e segu- o arquiteto Capinha Lopes, que assi- velando que, apesar da exclusividade,
rança) é a sensação de respeito pela na o projeto, para ir precisamente ao estas serão casas de “luxo acessível”,
privacidade que estas figuras mediá- encontro destas pessoas. Este grupo com os preços dos T1 a começar nos
ticas sentem sempre que cá estão a 374 mil euros.
desfrutar das suas casas portuguesas.
Foi para ir ao encontro deste tipo VIZINHOS ASSINAM DECLARAÇÃO
de clientes, mas não só, que a Finan- DE CONFIDENCIALIDADE
geste e a Quintela e Penalva se pre- Composto por 22 apartamentos en-
param para apresentar, na próxima tre o T1 (apenas 4 unidades) e o T3,
semana, a um grupo muito restrito o D’Avila distribui-se por dez pisos,
de potenciais clientes, o novo edifí- numa reconversão de um edifício de
cio residencial de luxo que vai surgir
nas Avenidas Novas – o D’Avila, com “LISBOA ESTÁ escritórios para uma residencial de
luxo. Nos últimos dois pisos, ficam
22 apartamentos, onde em tempos fun-
cionou a sede da seguradora Açoreana.
A ATRAIR um T2 duplex e um T3 duplex, cujos
valores estão, por enquanto, no se-
“Lisboa é finalmente considerada PESSOAS gredo dos deuses. As áreas interiores
uma das melhores cidades do mundo
para se viver e, por essa razão, o ADN DE TODO O variam entre os 43 e os 215 m² e as
exteriores, disponíveis para 18 das
da cidade está a ser reinventado, o que
está a atrair pessoas de todo o mundo.
MUNDO QUE 22 unidades, entre os 8 e os 54 m².
Todos os apartamentos têm esta-
Muitas delas são artistas, pessoas da PAGAM PARA cionamento, estando atribuídos um
política, CEO de grandes multinacio-
nais, pessoas que pagam para ter a sua TER A SUA lugar aos T1, dois aos T2 e três aos T3.
Com porteiro e garagens de acesso
privacidade assegurada. E quantos
edifícios existem em Lisboa que asse-
PRIVACIDADE direto às casas, o condomínio incluirá
também um spa com piscina interior
guram essa total privacidade? Não há
muitos, apesar da procura crescente.
ASSEGURADA” aquecida e ginásio (com sauna e ba-
nho turco), salas de reuniões e duas
Mas acredito que vão começar a sur- PAUL HENRI SHELFOUT entradas no prédio, uma delas mais
gir mais edifícios com este conceito CEO da Finangeste “discreta”. O condomínio prevê ainda

86 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


regras de confidencialidade quanto Para a Finangeste, este poderá ser a favor de Portugal, que está na mira
à identidade dos residentes, pelo que o primeiro de outros projetos que vi- de muitos decisores das multinacio-
cada um dos coproprietários terá de rão integrados no conceito de venda nais. Mas é preciso garantir condições
assinar uma declaração assumindo por convite, uma vez que a empresa de habitabilidade, dentro dos padrões
esse compromisso. está atenta a boas oportunidades a que os quadros superiores das em-
Para tornar o processo de aquisição de imóveis para reabilitar e colocar presas estão habituados, defende Paul
“leve”, numa ótica de “chave na mão” neste mercado. “São tendências que Henri Shelfout. “Trabalhamos com
para quem o desejar, foram criados fazem parte do futuro de Lisboa e da fundos de investimento de Londres
vários projetos de decoração assi- sua expansão. A procura de pessoas e muitos deles, devido ao Brexit, já
nados pelo ateliê Dzine, da designer com alto perfil de exposição e que estão a olhar para Lisboa como po-
de interiores Andreia Matias. procuram privacidade existe e é um tencial sede. Os negócios trazem não
“Haverá dois projetos de decoração segmento ainda mal explorado, apesar só receita fiscal mas também pessoas
diferentes para cada tipologia, com do seu potencial”, sublinha o CEO da que precisam de condições para viver
estilos diferentes”, especifica o dire- Finangeste, acrescentando que este cá. E nós queremos dar-lhes essas
tor de desenvolvimento da Quintela e novo tipo de comprador dá um “si- condições”, reforçou ainda o CEO
Penalva. Aliás, a própria organização nal ótimo da consolidação de Lisboa da Finangeste.
espacial dos apartamentos é também como capital europeia e não apenas Para já, o primeiro projeto by
diferente, consoante se opte por uma como cidade secundária”. invitation está em movimento – a
habitação mais prática, para o dia a E fenómenos de instabilidade, obra do D’Ávila vai arrancar dentro
dia, ou mais adequada a quem goste como o Brexit ou mais recentemente de dias e deverá estar pronta em
de conviver socialmente. os que sucedem na Catalunha, jogam 18 meses. visaoimobiliario@visao.pt

31 OUTUBRO 2019 VISÃO 87


IMOBILIÁRIO / NEGÓCIOS

NÚMERO RESIDÊNCIAS

€2 mil
Um negócio milionário
Os portugueses da U.Hub venderam por
130 milhões de euros o seu portefólio de residências

milhões
universitárias ao fundo belga Xior. O negócio engloba
um total de 1 900 camas, incluindo quatro ativos
em Lisboa e dois no Porto, em diferentes fases
de desenvolvimento. Esta foi a maior operação
deste tipo realizada até hoje, em Portugal. “Neste
portefólio, incluem-se cerca de 800 camas em
É a estimativa construção e outras mil em projeto, com previsão de
do volume total estarem concluídas até 2022, o que irá dar um forte
de investimento impulso à oferta de alojamento para estudantes nas
imobiliário para duas maiores cidades universitárias portuguesas”,
este ano referiu Fernando Ferreira, da JLL, consultora
que representou o vendedor.
O Prime Watch, estudo
semestral da consultora
B.Prime, antecipa que o
mercado de investimento
português, em 2019, não
deverá registar o volume
transacionado em 2018,
em que se ultrapassou a
fasquia dos 3 mil milhões
de euros. O Prime Watch
refere ainda que os
investidores estrangeiros
continuam a dominar,
representando 87% do
volume transacionado,
com destaque para
os norte-americanos,
devido à aquisição de
três hotéis Tivoli por
313 milhões de euros.

MEDIADORES

Remax Portugal
em expansão E N D I V I D A M E N T O D A S FA M Í L I A S

Dois meses depois de


ter comprado a Remax
França, a Remax Portugal
O crédito não está assim tão fácil
volta a surpreender e a Muitos portugueses que, há 10 anos, tiveram acesso ao crédito bancário não estariam
anunciar a compra da hoje qualificados para lhe aceder, revela o estudo Análise e Evolução do Mercado de
Remax Alemanha, um Crédito à Habitação, de Hélder Pereira, da Universidade Portucalense. Isto porque,
mercado que, até ao final embora já se encontrem taxas bem mais reduzidas do que nos anos da crise, deu-se um
deste ano, deverá faturar agravamento dos indicadores de decisão do crédito. Assim, o peso percentual do crédito
cerca de mil milhões de à habitação no valor das transações de imóveis em Portugal foi de 40,8% em 2018,
euros. Os resultados da metade do peso que tinha em 2004 (86%). Apesar disso, esta percentagem duplicou
marca nacional foram tão quando se recua seis anos e se compara com os valores de 2013, em plena crise, quando
significativos que a Remax esse peso não ia além dos 21,58 por cento. O valor máximo de crédito concedido atingiu
Europa quer replicar o seu pico em 2007, quando quase se atingiram os 20 mil milhões de euros de
o sucesso em outros países endividamento das famílias contra o mínimo concedido em 2012, quando os bancos
e apoia a expansão do grupo “apenas” emprestaram 1,93 mil milhões de euros. Os elevados níveis de endividamento
português. A nível nacional, das famílias no passado levaram os bancos, sob a imposição do Banco de Portugal,
a marca encerrou 2018 com a restringir a concessão de crédito. A evolução das taxas tem sido positiva para os
um volume de transações detentores de crédito à habitação, com a Euribor 12 meses (o principal indexante)
na ordem dos 3,3 mil a descer de um máximo de 4,75%, em 2007, para valores negativos de 0,298%, em 18 de
milhões de euros. outubro de 2019. Mesmo assim, o estudo mostra que só quem tem capitais próprios de
aproximadamente 15% do valor do investimento pode sonhar com a compra de habitação.

90 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


H A B I TA Ç Ã O

Franceses
à frente
Os franceses continuam
Quintela e Penalva - Real Estate
CONTEÚDO PATROCINADO
a liderar a venda de casas
a estrangeiros que, no
primeiro semestre deste
ano, representaram 16%
de todas as transações
imobiliárias efetuadas
no País, refere a
APEMIP. Assim, e entre
os estrangeiros, os
franceses absorveram
21% das transações,
seguindo-se os ingleses
e os brasileiros (ambos
com 18%), os alemães
(9%) e os chineses (7%).
“Não há dúvida de que
esta rota veio para ficar, e
acentua-se a diversificação
deste investimento que
Afinal, há ou não uma “bolha”
não se centra apenas
nas principais cidades”,
no mercado imobiliário português?
declarou Luís Lima.
A Quintela e Penalva é peremptória espaços como co-work, residências
na resposta à pergunta que, com universitárias, turismos em diversas
a desaceleração do mercado, variantes – que, por sua vez, criou
muitos começam a fazer: “não há pressão sobre os preços”.
bolha”. E explica que, apesar de o A procura é notória, tanto por
R E TA L H O FMI referir a existência de “nuvens edifícios para reabilitação, como
no horizonte a médio prazo” e de por terrenos para construção
o banco alemão Commerzbank nova, e tanto nacional como
afirmar que “é uma questão de internacional, mas a oferta tem
Sonae Sierra vende tempo” até a bolha imobiliária demorado mais tempo a reagir e a
centros comerciais existente na Europa “rebentar”, o
mercado de investimento imobiliário
surgir. “Uma maior oferta ajudaria
a estabilizar os preços. A dinâmica
A Sonae Sierra vai fechar a venda português continua muito atrativo, tem também o impulso resultante
de mais três centros comerciais, tendo, inclusivamente, a PWC dos benefícios disponíveis aos
desta vez o LoureShopping, identificado Lisboa como o destino investidores estrangeiros: Golden
mais competitivo para o investimento Visa e RNH. Mas o principal
em Loures, o RioSul Shopping,
imobiliário em 2019. “O facto de constrangimento para isso está
no Seixal, e o 8ª Avenida, em existirem alguns apartamentos na celeridade – ou falta dela – da
São João da Madeira. A notícia vendidos a preços de Londres e de emissão das licenças de construção”,
avançada pelo Eco (que cita Paris, acima de 12.000 euros/m2, explica ainda o responsável,
o site PropertyEU) revela que isso não torna o mercado acrescentando que “hoje há mais
o comprador será o fundo norte- especulativo. A média dos preços em áreas a beneficiar do fenómeno
-americano Harbert Management Lisboa anda pelos 3.500 euros/m2, da reabilitação e construção, e em
Corporation. O negócio deverá um valor reduzido no contexto paralelo da melhoria das condições
ficar concluído até ao final do ano. das capitais europeias”, defende infraestruturais que naturalmente
Este será o primeiro investimento Francisco Quintela, managing acompanham este crescimento. Mas,
partner da QP. a nosso ver, deve haver uma eficaz
deste fundo oportunista em
É um facto que o preço das casas intervenção pública, maximizando
Portugal, que tem no mercado disparou nos últimos anos, mas os bens e espaços públicos
nacional, há cerca de um ano, Francisco Quintela esclarece disponíveis para oferta, que pode
uma equipa à procura de ativos que, “dado o congelamento do ser de qualidade, mas a preços mais
para comprar, mas a preços mais mercado de arrendamento e devido acessíveis (permitindo menor taxa de
baixos, diz a mesma publicação. a uma procura (nomeadamente esforço dos orçamentos familiares).
Recorde-se que há cinco meses, internacional) pouco dinâmica, O Estado não se deve demitir da sua
o fundo Sierra Portugal o ponto de partida de preços era obrigação constitucional, fazendo-o
(participado e gerido pela Sonae bastante baixo. A subida de preços não contra, mas com a ajuda dos
Sierra) vendeu, por 128 milhões de deve-se, sobretudo, a uma maior privados, aproveitando
procura, em quantidade e em a dinâmica do mercado
euros, o LeiriaShopping ao grupo
qualidade – por novas ocupações de imobiliário nacional”.
DWS, um fundo de gestão de
ativos com sede na Alemanha.

31 OUTUBRO 2019 VISÃO 91


IMOBILIÁRIO / OPINIÃO

O desafio
de Ana Pinho
POR LUÍS LIMA / PRESIDENTE DA APEMIP

É
já conhecida a composição do novo exclusivamente dirigida aos segmentos altos,
elenco governativo, que mantém à frente enquanto os segmentos médio e médio baixo
do Ministério das Infraestruturas e continuaram a ser praticamente excluídos.
Habitação o ministro Pedro Nuno Santos, Infelizmente, a crise habitacional que se vive
e Ana Pinho a liderar a Secretaria de hoje não é uma surpresa, mas sim fruto de uma
Estado da Habitação, o que creio ser falta de planeamento estratégico de sucessivos
um bom sinal, dentro de uma lógica governos que, durante décadas, deixaram
de estabilidade e de continuidade do votada ao esquecimento a pasta da habitação,
trabalho que tem sido desenvolvido, que, quando foi retomada (e bem) pelo anterior
sobretudo no que diz respeito à promoção governo, era já uma bomba-relógio prestes a
da habitação acessível. rebentar.
Acredito verdadeiramente que o tema da Se, anteriormente, quem não conseguia
habitação será um dos mais quentes desta nova reunir condições para comprar uma casa
legislatura, que agora se ainda conseguia encontrar
rege pela Lei de Bases da soluções à medida das suas
Habitação, aprovada em julho Apesar do ligeiro possibilidades no mercado
deste ano. de arrendamento, hoje
Pela frente, o Governo
arrefecimento, não há opção possível,
tem agora o dever de pôr em a falta de oferta levando muitas pessoas
prática as medidas propostas,
garantindo o cumprimento
não permitirá um a assumirem taxas de
esforço absolutamente
do direito constitucional à equilíbrio dos preços, desproporcionais ao seu
habitação, desígnio que é daí ser necessária rendimento.
particularmente relevante Apesar de o mercado
tendo em conta as fortes
uma intervenção começar já a notar um ligeiro
dificuldades que os jovens do Estado, no sentido arrefecimento, a falta de
e as classes média e média
baixa têm enfrentado em
de promover casas a oferta não permitirá um
equilíbrio dos preços, daí
encontrar uma casa para preços acessíveis para ser necessária uma real
viver. os jovens e classes intervenção do Estado,
Recordo-me de que, no sentido de promover a
quando em 2017, no meu
média e média baixa existência de casas a preços
discurso de tomada de posse acessíveis para os jovens e
enquanto presidente da classes média e média baixa.
APEMIP, alertei para a necessidade urgente de E reitero aquilo que já tenho dito noutros
regressar à construção nova, se gerou alguma fóruns: a ação governativa, seja do poder central
discórdia perante o argumento de que, de acordo seja do poder local, só deverá ser feita no sentido
com os dados do INE, havia muitas casas vazias. de aumentar a oferta, e nunca para travar a
Mas de que adianta haver casas se estas não procura imobiliária, sobretudo por estrangeiros,
têm condições de habitabilidade, não estão onde que aos poucos se tem vindo a descentralizar
há procura ou, pura e simplesmente, não são e a promover novas dinâmicas económicas em
colocadas no mercado? regiões que precisam.
Do que falava à data era de uma construção O desafio que Ana Pinho tem em mãos é
planeada para dar resposta às necessidades complexo, mas sei que tem vontade política para
dos jovens e das famílias portuguesas, repondo encontrar e executar as soluções que estiverem ao
o stock e aliviando os preços que se estavam a seu alcance, sem prejudicar o mercado que tanto
praticar. De lá para cá, começou a assistir-se ao contributo dá para a economia nacional.
regresso da construção, mas infelizmente é quase visaoimobiliario@visao.pt

92 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


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VAGA R

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rexit
“Os impérios
do futuro
são os impérios
da mente”
Winston Churchill
Político e escritor
(1874-1965)

94 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


SEM PROMESSAS DE FINAIS FELIZES, A SAÍDA
DO REINO UNIDO DA UNIÃO EUROPEIA TEM
SIDO MATÉRIA PARA MUITOS ROMANCES
INGLESES, INCLUINDO DE GRANDES AUTORES,
COMO JONATHAN COE, IAN MCEWAN, JOHN LE
CARRÉ E ALI SMITH. NO DIA EM QUE TUDO IA
SER DECIDIDO, MAS EM QUE TUDO TERÁ AFINAL
FICADO NA MESMA, MERGULHÁMOS
NAS PÁGINAS DESTES LIVROS
LUÍS RICARDO DUARTE

31 OUTUBRO 2019 VISÃO 95


95
U
LIVROS

Uma livraria, no Reino Unido, colocou processos físicos”, adianta. De um lado,


um aviso à entrada. “A ficção pós-apo- tinha a vontade de regressar às perso-
calíptica foi transferida para a secção nagens de dois grandes sucessos seus:
de política nacional.” Num pub foi en- O Rotters Club e O Círculo Fechado.
contrado um cartaz: “É proibido falar Naquelas decisões bem provisórias em
do Brexit em voz alta.” E as anedotas que a literatura é pródiga, dissera que
nascem a toda a hora. “Um inglês, um nunca ressuscitaria tais figuras. Mas uma
irlandês e um escocês entram num bar. adaptação teatral dos dois livros fez com
Passado pouco tempo, vão todos para que mudasse rapidamente de opinião.
casa porque o inglês queria sair.” Do outro lado, vivia a obsessão com o
As discussões estão por todo o lado, Brexit. “É um trabalho a tempo inteiro
os debates entopem as grelhas de pro- perceber o que se está a passar”, garan-
gramação da televisão e da rádio, famí- te. De tudo, só lhe resta uma certeza:
lias e amigos dividem-se em campos “A ninguém foi dito quão complicado é
opostos. A qualquer cidadão do Reino o assunto e as suas implicações.”
Unido, mesmo o mais alheado, é impos- Duvidou, de início, do projeto.
sível fugir ao Brexit. Mas por que razão A pergunta que atravessará este texto
quererá um escritor transportá-lo para também ecoou na sua cabeça. Teria leito-
os seus romances? “É inevitável”, ga- res? “Imaginei que, por cada pessoa que
rante Jonathan Coe à VISÃO. “Odeio-o,
mas não consigo deixar de pensar nele”,
tem confessado Ian McEwan. Ambos
são viciados em notícias sobre a maior
crise política que viveram ao longo das
suas vidas, recorrendo a todas as fontes
de informação, do Twitter aos estudos
académicos. Veem, por isso, com natu-
ralidade a profusão de romances sobre
o tema. Ficções realistas e familiares,
metáforas e fábulas, thrillers e distopias,
a oferta é gigantesca. Em Portugal, aca-
bam de chegar quatro da mesma forna-
da, todos muito diferentes entre si. Dos
dois autores já referidos, O Coração de
Inglaterra, de Jonathan Coe, e A Bara-
ta, de Ian McEwan, a par de Primavera,
de Ali Smith, e Agente em Campo, de JONATHAN COE
John le Carré. Quatro exemplos do que não quisesse ler sobre o assunto, haveria
já se designa por “literatura Brexit” ou, O Coração outra que, de certeza, quereria”, brinca.
em inglês, “Brexit lit”. Muita oferta, de de Inglaterra E não se enganou. “Muito leitores dis-
facto. Mas por que raio haveria o leitor Porto Editora seram-me que este romance os ajudou
britânico ou português, cansado que 448 págs, €17,70 a processar o Brexit.” Viver através das
deve estar de tanto impasse, avanço e personagens o que também se vivia no
recuo, pequenas mudanças que levam a Gosta do trabalho anterior dia a dia. E tentar compreender.
que tudo fique na mesma, num processo à escrita dos romances, confessa, Foi precisamente esse o seu objeti-
que se arrasta há três anos e deveria estar de perder tempo a estruturá- vo: “Também eu não estava a perceber
concluído justamente esta quinta-feira, -los. E só assim poderia ter bem o que se passava. Também eu quis
31 de outubro... Por que haveria, então, escrito um romance com tantas conhecer o outro lado, quem votou a
personagens. Ao abarcar várias
o leitor de querer ler estes romances? favor do Brexit, perceber as suas mo-
gerações, os mais velhos e os
Eis uma pergunta que exige uma res- tivações, os seus impulsos, a sua raiva,
mais novos, os do interior e os da
posta longa. capital, os que têm e os que não
às vezes.” Com uma extensa galeria de
têm formação superior – onde personagens, O Coração de Inglaterra
SEM TOMAR PARTIDO estão, afinal, as grandes divisões é, de facto, um retrato muito realista da
Em Cascais, onde se refugiou do tumulto do Brexit –, Jonathan Coe retrata divisão que define um reino aparente-
informativo, aproveitando a residên- as várias tensões que se vivem mente unido só no nome. “Gosto quando
cia literária que lhe foi oferecida pela atualmente no Reino Unido. me dizem que tratei todos por igual”,
Fundação Dom Luís, Jonathan Coe, Um romance que se demora na comenta Coe. “Porque não escrevi este
58 anos, recorda à VISÃO o processo de descrição dos sentimentos mais romance para tomar partido, embora
criação de O Coração de Inglaterra. “Os do que na evolução de uma trama. tenha as minhas ideias bem definidas.
meus romances, normalmente, nascem É sobre os efeitos da política Foi uma forma de chegar ao ‘outro’, de
quando duas ideias colidem, como nos em pessoas como nós. dialogar com ele.”

96 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


IAN MCEWAN
A Barata
Gradiva
112 págs. €11
Ao abordar a temática do Brexit,
McEwan não espera que o leitor
mude a sua opinião depois de ler
o seu romance. Sabe que os
campos estão entrincheirados e
minados por lógicas religiosas e
tribais. Mas talvez a sátira possa
ajudar a pôr a nu o absurdo de
algumas propostas. A vontade
do Reino Unido de sair da União
Europeia e, depois, se lançar numa
improvável aliança com os EUA
é criativamente dada por Ian
McEwan numa engenhosa glosa
à Metamorfose de Kafka. Sobressai
a paródia a um primeiro-ministro
No livro, Benjamin Trotter (que final- facilmente reconhecível – e o medo
mente consegue terminar um romance), de a ficção ficar aquém da realidade.
os seus descendentes e amigos vivem
os acontecimentos que marcaram a
História recente: a primeira coligação
da história parlamentar britânica, en- Ian McEwan sentou-se à mesa e escre-
tre Conservadores e Liberais, as ma- veu aquela frase. Gregor Samsa, que se
nifestações violentas de 2011, os Jogos vira em forma de inseto monstruoso,
Olímpicos do ano seguinte, o referendo desaparece para dar lugar a uma nova
de 2016, e a ressaca que se lhe seguiu. personagem, esse tal Jim Sams. Antes,
O romance chega até setembro de 2018, era um mero animal rastejante agora,
o que mostra como foi escrito em cima ao acordar no número 10 da Downing
do momento. “Nunca tive tanta facilida- Street, em Londres, apercebe-se de que
de em avançar num romance”, garante. é líder do governo britânico. Será Boris
“Não havia distrações, tudo o que me Johnson? “Este romance é uma obra de
chegava do exterior era matéria para a ficção”, avisa-se na nota introdutória.
literatura.” “Nomes e personagens são produto da
imaginação do autor e qualquer seme-
“É UM TRABALHO A TEMPO KAFKA AO CONTRÁRIO
“Naquela manhã, Jim Sams, esperto mas
lhança com verdadeiras baratas, vivas ou
mortas, é pura coincidência.”
INTEIRO PERCEBER de forma alguma profundo, acordou
de sonhos intranquilos e encontrou-se
“Uma sátira política”, diz Ian McEwan,
quando chamado a falar sobre A Barata.
O QUE SE ESTÁ A PASSAR; transformado numa criatura gigantesca.” Ao contrário de Jonathan Coe, sente-se

A NINGUÉM FOI DITO QUÃO


Passaram-se mais de 100 anos desde que incapaz de um registo realista. Mas à se-
Franz Kafka escreveu A Metamorfose, melhança de Kafka, também só precisou
COMPLICADO É O ASSUNTO uma das novelas mais célebres da his-
tória da literatura. Mas a sua estranheza
de três semanas, em agosto último, para
concluir o romance, a que só poderia dar
E AS SUAS IMPLICAÇÕES” continua bem atual. Numa pausa na
tournée mundial de promoção do seu
o nome de A Barata. O leitor que decida
se Boris Johnson é a grande inspiração.
DIZ JONATHAN COE último romance, Máquinas como Eu, “Quando a primeira frase nos coloca

31 OUTUBRO 2019 VISÃO 97


LIVROS

perante uma situação absurda, no que


se segue tudo é possível”, tem defendido
o escritor inglês na promoção do livro.
“E o espírito de A Barata é, para mim,
o espírito do Brexit. Quer dizer, o meu
romance não é tão absurdo...”
Na literatura inglesa, há uma for-
te tradição de sátiras políticas a que
McEwan foi buscar inspiração. Sobre-
tudo a um texto que leu na juventude:
Singela Proposta, de Jonathan Swift.
Nela, o famoso autor de As Viagens de
Gulliver sugere aos irlandeses a venda
dos filhos a gente rica, para resolve-
rem os seus problemas financeiros. Em
A Barata, McEwan não é menos irónico.
O primeiro-ministro, antigo inseto de
poderes limitados, hoje senhor de uma
economia de grande escala, decide apli-
car a história da sua vida ao Reino Uni-
do. Se a reversão funcionou consigo, o
“reversionalismo” será a política do Go- ALI SMITH
verno, que inverterá o fluxo do dinheiro.
Para poderem manter o emprego, os Primavera
trabalhadores pagarão para trabalhar. Elsinore
Encontrarão financiamento nas lojas, 312 págs, €18,79
que pagarão para que comprem os seus Diante das Terras Altas da
produtos. E a mesma lógica é aplicada Escócia, a fugir do mundo e da
em toda a cadeia económica, ao ponto de vida, Richard é a imagem de um
o Reino Unido pagar a outros países para Reino Unido perdido, sem rumo. que já se entende, como lembra Rogério
importarem os seus produtos. “Quando Nos três livros já escritos do Miguel Puga à VISÃO, “ficção de resposta
se vive uma época de desespero, sobre- quarteto das estações, Ali Smith rápida”. O professor da Universidade
tudo o que vem da política, sente-se que refere-se muitas vezes ao Brexit Nova de Lisboa tem estudado essa liga-
há uma outra força em sentido contrário: e à política atual. Mas interessa- ção que também se revela decisiva para a
é o riso”, defende McEwan. “Quando -lhe, sobretudo, replicar nas compreensão do Brexit. De resto, muitos
os dois se encontram, há literatura.” personagens o estado e o ocaso romances, ainda das décadas de 50, 60 e
do presente. Fazia-o, em Outono, 70, mostram como o euroceticismo não
HISTÓRIA E NOSTALGIA mostrando os muros, visíveis nasceu com o referendo de 2016 que
Ele tem 13 anos e três quartos, mui- e invisíveis, que separam novos decidiu a saída do Reino Unido da União
tas borbulhas no rosto e uma precoce e velhos; em Inverno, fixando as Europeia. “A ficção eurofóbica surge an-
consciência ideológica. Criado por Sue fragmentações dentro de uma tes da adesão ao mercado comum, em
família. Em Primavera, dá-nos
Townsend, Adrian Mole é uma das mais 1973, quando a proximidade aos EUA e
essa dimensão através
divertidas personagens da literatura o fim do império foram prioridades do
do confronto de Richard com
inglesa. E, se é sobretudo conhecido o resultado das suas ambições
debate público inglês”, adianta. E lembra
pela sua crise de adolescência e pelos e cedências no passado. como até um escritor norte-americano
seus anos complicados, não lhe falta como Ray Bradbury entendia esse fe-
empenhamento na coisa pública e nos nómeno, ao ponto de pôr na boca de
assuntos políticos. Nesses diários, que uma personagem sua a frase: “Não sou
marcaram quem cresceu nos anos 80, europeu, sou inglês.”
há críticas e sátiras a Margaret Thatcher Se neste artigo falamos de romances
e à sua “mão de ferro”. E, nos volumes escritos por defensores da permanência
seguintes, chega-se aos anos de Tony do Reino Unido na União Europeia, por-
Blair e às armas de destruição maciça do que são os que se publicam em Portugal,
Iraque. É uma outra forma de contar a não faltam obras do campo contrário,
História. Os temas atuais podem passar “ODEIO-O, MAS NÃO em muito maior número, aliás. “A maio-

CONSIGO DEIXAR
despercebidos à primeira (e adolescente) ria dos textos literários sobre o Brexit
leitura, mas sobressaem ao olhar mais ficciona um passado cruel e fictício, com
atento (e adulto).
Adrian Mole é um dos muitos exem- DE PENSAR NELE” sentimentos, valores e esperanças que
os britânicos herdaram da propaganda
plos da proximidade entre política e lite- TEM DITO O ESCRITOR imperialista e que afetam o presente”,
ratura no mundo anglo-saxónico ou do IAN MCEWAN SOBRE O BREXIT acrescenta Rogério Puga.

98 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


zanga para o livro. É dos que “pessoaliza
tudo” através da ficção, claro.
“HÁ UMA ELITE NO REINO
UNIDO QUE ALIMENTA UMA
RIR POR ÚLTIMO
“Estes romances questionam e comen-
NOSTALGIA OCA E SEM tam uma nação fragmentada, em crise,
dividida social, cultural e geografica-
SENTIDO DOS TEMPOS mente”, como nota ainda Rogério Puga.
A fratura maior é a da família, como
DA GUERRA E DO IMPÉRIO” o romance O Coração de Inglaterra
expõe. Aí, Sophie e Ian decidem ir a
DIZ O MESTRE DO THRILLER POLÍTICO
JOHN LE CARRÉ
uma terapia de casal, porque ela votou
para ficar na Europa e ele para sair. Ela
diz-lhe que pensou que ele fosse “mais
aberto” e menos prisioneiro do “anta-
gonismo e da competição”. Ele, por seu
turno, contrapõe dizendo-lhe que nunca
a imaginara “tão ingénua” e a viver numa
“bolha” que não permite “opiniões di-
ferentes”. Não são caso único, garante
Jonathan Coe. “A terapia motivada pelo
Brexit cresceu imenso nos últimos anos.”
É também essa divisão que Ali Smith
tem explorado nos seus três romances
mais recentes. Quando, em 2014, se atra-
sou a entregar o manuscrito de Como
Ser Uma e Outra, a escritora percebeu
que hoje as editoras conseguiam impri-
mir um livro em muito menos tempo
– “apenas seis semanas”, destacou na
altura. Regressou, então, a uma ideia
antiga de dedicar um romance a cada
JOHN LE CARRÉ estação do ano, escrevendo verdadeira
e intencionalmente em “tempo real”.
Agente em Campo O que começou por ser uma reflexão so-
Dom Quixote bre a passagem dos dias e as alterações da
328 págs., €17,90 Natureza, ganhou uma dimensão política.
Porque, quando deu início ao projeto,
John le Carré, mestre do policial e do Quem escreve sobre a Guerra deparou com uma nova palavra: Brexit.
thriller, que em Agente em Campo não Fria, escreve sobre o Brexit ou Outono, a primeira ficção a abordar
foge ao tema do Brexit, tem identificado outro conflito. Um bom thriller o referendo de 2016 e as suas divisões
consegue intrometer-se em
o mesmo sentimento. Em tournée pela sociais, Inverno e Primavera, os três
qualquer intriga internacional.
América do Norte, afirmou: “Há uma volumes que já escreveu, são uma evo-
E John le Carré sabe-o
elite no Reino Unido que alimenta uma melhor do que ninguém.
cação de um país partido, rasgado por
nostalgia oca e sem sentido dos tempos O mais estimulante, em muros, prisões para refugiados, agres-
da guerra e do império. Muita da propa- Agente em Campo, é que o sões e futuros desfeitos. “Em tempos
ganda e manipulação que ouvimos nos andamento político do Reino obscuros, a missão do escritor talvez seja
debates atuais vem daí.” Unido (e dos EUA) começa justamente escrever e descrever esses
No seu thriller, um espião à beira da por ser apenas um assunto tempo obscuros”, diz, até porque, como
reforma é destacado para uma última lateral, como a personagem salienta Jonathan Coe, as pessoas toma-
missão. Só que o perigo, desta vez, não que o puxa para a narrativa. ram esta decisão baseadas em emoções.
está no lado de lá da Europa, na Rússia, É uma sombra que, aos “Quem melhor do que os romancistas e
mas dentro da capital londrina. Mais do poucos, vai tomando conta os poetas para as interpretar?”, questio-
que descrever o Brexit, Le Carré usa-o do livro, explicando o curso na-se. “Os britânicos orgulham-se do
na caracterização das personagens, so- das operações abortadas e seu humor e gostam muito de se rir dos
bretudo Ed., que tenta encontrar alguém dos desafios que Nat, agente outros países. Porém, desta vez, têm de
a quem possa desabafar a suas zangas especial à beira da reforma, perceber que são os outros países que
com o desgoverno do mundo, Donald tem de resolver. estão a rir-se de nós. Ao evidenciá-lo, a
Trump incluído. Será o Presidente tam- literatura permite-nos atravessar estes
bém uma barata? Sem usar essa metá- tempos difíceis, não como leitores do
fora, Ed quase que nos convence de que futuro mas como habitantes deste es-
sim. E o escritor não teme passar a sua tranho presente.” rduarte@trustinnews.pt

31 OUTUBRO 2019 VISÃO 99


CRÓNICA

Q
uem nunca fez o clássico exercício de imaginar o
que faria com o prémio do Euromilhões mesmo sem
ter jogado? Eu, que quase nunca jogo, já me fartei
de fazer planos para a minha fortuna imaginária.
As casas incríveis em sítios idílicos, como o Porto
ou Lisboa, onde nunca conseguirei comprar uma
casa com quintal a um preço viável. A ambição da
P O R C A P I C U A / Rapper autossuficiência ecológica numa casa de campo, com
todos os gadgets de produção de energia, tratamento de esgotos,
produção agrícola sustentável, etc. As viagens às Caraíbas e os longos
meses de praia (não sei se já vos disse, mas acalento o desejo de

Sonhar descobrir quanto tempo de praia seria preciso para me fartar de estar
de férias e, isso, sendo no mínimo uns meses, só podendo). E a música
que faria, mesmo sem precisar de trabalhar. Discos e discos...

acordado Ora bem, desde que tive um bebé, o exercício mudou. Agora gosto
de imaginar o que faria se tivesse tempo livre, sendo que a ideia de ter
tempo livre é tão distante e improvável como ganhar o Euromilhões.
Ter tempo para o básico é, por si só, bastante difícil e, entre todo o
tempo dedicado à criança, às tarefas domésticas e às tentativas de voltar
a ter uma vida própria (como trabalhar e fazer exercício), sobram menos
de oito horas para dormir (e ainda por cima é aos retalhos).
No meio disto tudo, decidi fechar um disco. Um disco que já comecei
antes da gravidez, mas que se arrasta como uma gestação de elefante.
Num parto que se dificulta pelas circunstâncias. E se há muito quem
me diga para ter paciência e adiar mais um pouco, há também a minha
enorme vontade de fechar a etapa, porque, sendo uma sobrecarga, é
também uma forma de me reencontrar comigo, como ser independente e
com livre-arbítrio, determinado em fazer da sua visão artística um meio
de sustento tão válido como outro qualquer. Antes cansada que frustrada,
escolho eu, que não nasci para ser dona de casa a tempo inteiro (sem
nenhum demérito, muito pelo contrário, não tenho é estofo para isso).
Neste contexto, dou por mim a sonhar alto com os serões que serão
(quando tiver tempo, um dia), com as escapadas de fim de semana, que
me escapam por entre as mãos ocupadas a trocar fraldas, com a semana
de férias que terei quando puder tirar férias da maternidade. E mesmo
sabendo que, quando isso finalmente acontecer, passarei o tempo todo
tensa de saudades e a pedir que me enviem fotos do bebé, nos meus
sonhos impossíveis é tudo perfeito.
Uma sexta-feira à noite com sushi e cinema (já que desde que estou
em prisão domiciliária parece que só se estreiam filmes bons). Sem
dispensar um passeio pelos corredores do shopping para ver as montras
(com a calma de quem vai à sessão da meia-noite, porque pode dormir
até tarde no dia seguinte) e, obviamente, um balde de pipocas tamanho-
-javardo.
Um fim de semana inteiro no spa das termas, com entrada na sexta-
-feira ao fim da tarde e saída na segunda de manhã, novinha em folha.
Aquela cama de hotel bem grande, com um sobrecolchão modelo-
nuvem, para dormir o sono dos justos. Doze horas, no mínimo. A comida
do restaurante das termas, da mais santinha à mais regional, porque afinal
Agora gosto de tanto sou moça para peixe cozido como para uma de rojões à moda do
Minho. A maratona de Netflix no intervalo dos banhos. Mas, sobretudo,
imaginar o que faria ficar de molho durante horas, naquela água quente com cheiro a enxofre,
se tivesse tempo livre, até ficar com os dedos encarquilhados e todos os átomos do meu corpo
sendo que a ideia amolecidos. Sem esquecer as massagens a que tenho direito, pelas horas
que passo a embalar mais de oito quilos em braços.
de ter tempo livre é tão Uma semana em São Miguel. Uma road trip na Escócia. Voltar a
distante e improvável Fernando de Noronha. Ir a Cuba, antes que vire Miami. Ir a Miami, antes
que vire fundo do mar. Enfim, os planos são infinitos. E, sendo certo
como ganhar que não tenho tempo nem para uma pedicure, para sonhar acordada,
o Euromilhões só é preciso não dormir (o que facilita muito por aqui). visao@visao.pt

100 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


POR TERRAS BEIRÃS
Património, Natureza e gastronomia.
Castelo Branco é ponto de partida
para um passeio na região
ADRIA GOULA SARDA
Centro de Cultura Contemporânea de Castelo Branco

Cabrito estonado, Adega dos Apalaches


Legenda Portas de Ródão
PAULO VINHAS MOREIRA

MARCOS BORGA
Na linha da Beira Baixa
Castelos, paisagens, museus e centros de arte,
não esquecendo os sabores da região, eis os
encantos de Castelo Branco, Vila Velha de Ródão
e Oleiros. Passeio ideal para um fim de semana
S A N D R A P I N T O spinto@visao.pt

É
naturalmente, permitindo a criação do bicho-da-seda em
grande escala. Ao longo de várias salas, o percurso revela
os diferentes processos, desde a sementeira do linho e
tecelagem à evolução do bordado e da sua técnica (pontos),
não esquecendo o enquadramento histórico. Já perto da
saída do edifício, que também funcionou como cadeia
e, mais recentemente, como biblioteca municipal, fica a
Oficina do Bordado de Castelo Branco. É nesta sala/atelier
que Rosa Gonçalves, 60 anos, uma das seis bordadeiras,
trabalha diariamente com afinco. Dedica-se ao ofício há
cerca de cinco décadas, depois de ter terminado a antiga
quarta classe, conta Rosa, entre pequenas pausas, frente
ao painel (com 85 cm de altura por 1,30 de largura) que
está a fazer. “Aqui o cliente escolhe o desenho, as cores e o
tamanho da peça que quer bordada”, explica, reconhecendo
ser um trabalho difícil de aprender. “Faço isto há 50 anos,
aprendi que há diversos pontos com que podemos jogar
para embelezar o bordado de Castelo Branco.” Já em jeito
de despedida, desafia: “Estamos à espera de que venha
É através da janela da torre de menagem do castelo, alguém jovem que queira prosseguir com esta arte.”
sobranceiro à cidade de Castelo Branco, que se fica mais A cerca de um minuto de distância, o Museu Cargaleiro,
tempo a admirar a paisagem. Em dia de céu limpo, deste aberto em 2005, guarda a coleção de Manuel Cargaleiro,
ponto alto, a vista alcança as serras de Monforte, a sudeste, artista nascido, em 1927, numa pequena aldeia de Vila Velha
da Gardunha e da Estrela, a norte. O passeio continua pela de Ródão. “É um grande colecionador, estão aqui expostas
escadaria em pedra, rodeada por árvores frondosas, em mais de mil peças, mas ainda há obras por inventariar”,
direção ao centro histórico, que ainda guarda memórias diz Cláudia Baltazar, técnica deste museu que se estende
dos tempos medievais. Por entre ruelas estreitas, vale a atualmente por dois edifícios, dividindo-se em vários
pena abrandar o passo para apreciar as casas quinhentistas núcleos. Entre estes, destacam-se a Cerâmica Ratinha, com
e outras com vestígios da presença judaica nesta região. forte ligação a esta terra, e a Cerâmica Triana, com peças
Em poucos minutos, chega-se à Praça de Camões, também do século XIX, oriundas de Triana, em Sevilha. Do outro
conhecida como Praça Velha, para se visitar o Centro de lado da rua, na Praça Manuel Cargaleiro, precisamente,
Interpretação do Bordado de Castelo Branco, um dos num edifício contemporâneo, é a pintura do Mestre, desde
ícones mais representativos da cidade, onde antigamente a década de 50 até à atualidade, que dá as boas-vindas
era comum a cultura do linho e as amoreiras cresciam aos visitantes. Das últimas doações do artista, evidencia-

31 OUTUBRO 2019 VISÃO 103


ENTRE ESTÁTUAS E FONTES
DOIS JARDINS, LIGADOS POR UM
PA S S A D I Ç O , Q U E M E R E C E M U M A
V I S I TA

Separados pela Rua Bartolomeu da Costa (antiga


Rua da Corredoura), o Parque da Cidade, outrora
horta ajardinada da Quinta do Paço, e o Jardim
do Paço Episcopal estão ligados por um passadiço.
De um lado, encontra-se agora um parque infantil
e uma área de merendas na zona do bosque,
no qual se destaca ainda uma fonte revestida a
azulejos de Manuel Cargaleiro, com um poema
do poeta do século XV, João Roiz de Castelo-Branco.
Do outro, abre-se o Jardim do Paço Episcopal,
encomendado pelo bispo da Guarda D. João de
Mendonça, no início do século XVIII, considerado
um dos exemplares mais originais do barroco
em Portugal. Num passeio pelos seus labirintos,
descobrem-se varandas com guardas de ferro e
balaústres de cantaria, cinco lagos com jogos de
água e estátuas de granito, em que se destacam
os Novíssimos do Homem, as Quatro Virtudes
Cardeais, as Três Virtudes Teologais, os Signos do
Zodíaco, as Partes do Mundo, as Quatro Estações
do Ano, o Fogo e a Caça. Os reis da I, II e III dinastias
e a representação dos apóstolos fazem parte das
figuras estrategicamente colocadas ao longo do
escadório principal.
Legenda
Centro de Interpretação do Bordado de Castelo Branco

-se o quadro em que Cargaleiro usou a linguagem poética


na composição artística de um excerto do poema de José
Tolentino Mendonça: “Animo-me a ver as papoilas que
nunca vieram brotar à minha porta.” Já no segundo piso,
descobrem-se as suas obras de cerâmica e, no terceiro
andar, na mostra Cargaleiro e Amigos, obras de artistas
MARCOS BORGA

nacionais e estrangeiros, entre eles Pablo Picasso e Cecília


de Sousa. Não muito longe daqui, mas ainda sem data
de abertura ao público, há de nascer um terceiro núcleo
museológico, fica a nota.
Deixando a zona histórica e já em direção à cidade
nova, desça-se pela rua que revela de perto a Torre do
Relógio, visível de vários pontos da cidade, até ao Centro
de Cultura Contemporânea de Castelo Branco. O edifício
não passa despercebido, quer pela arquitetura, da autoria
de Josep Lluis Mateo, em colaboração com Carlos Reis
de Figueiredo, quer pela programação cultural, mais
direcionada para as exposições e para a música.
FERNANDO ROMÃO

LUGAR À CRIATIVIDADE
Entretido a limar e a afiar ferro, Vasco Veríssimo,
22 anos, ocupa a sala de serralharia da novíssima Fábrica
da Criatividade, inaugurada em julho deste ano, junto à
entrada norte de Castelo Branco. Desde pequeno que Vasco,
X nascido em Vila Velha de Ródão, gostava de afiar as facas
R. Bartolomeu da Costa, 5, Castelo Branco > T. 272 348 320
> abr-set: 9h-19h, out-mar: 9h-17h > €2, mais de 65 anos €1, de pesca do pai. Mais tarde, começou a seguir especialistas
menores de 12 anos grátis no YouTube e a ver programas de televisão sobre cutelaria.

104 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


MARCOS BORGA
MARCOS BORGA

Depois de terminar o curso de Design Gráfico, nas Caldas

MARCOS BORGA
da Rainha, onde conheceu Paulo Tuna, “provavelmente o
homem mais conhecido em Portugal a fazer facas”, decidiu
dedicar-se a esta arte. “Ainda não estou 100% orgulhoso
do meu trabalho, mas já são boas facas”, admite. Quando
atingir a perfeição, Vasco espera poder mostrar e vender Por entre ruelas estreitas, vale a pena
a chefes de cozinha os seus exemplares, feitos em metal abrandar o passo para apreciar as casas
e protegidos por uma capa de madeira. quinhentistas e outras com vestígios
As facas de Vasco Veríssimo são um dos 40 projetos
desenvolvidos por mais de 80 pessoas na Fábrica da da presença judaica nesta região
Criatividade, equipamento que visa apoiar projetos em
diferentes áreas artísticas, do teatro, dança, música, cinema,
vídeo ao design, design de moda e artes gráficas. Aberto
24 horas por dia, tem oficinas e ateliers (metais, cerâmica,
gesso, plástico, serigrafia, gravura, têxtil, fotografia,
vídeo e arte digital) e ainda um auditório (de construção dos abutres, são uma das maiores aves existentes em
de espetáculos), duas black boxes, estúdio de fotografia Portugal e nidificam nas escarpas, ali bem perto das Portas
analógica e sala de conferências. de Ródão, classificado como Monumento Natural Nacional.
Alguns passos separam a torre do pequeno miradouro que
UM IMENSO RIO desvenda a beleza do rio Tejo, lá em baixo, podendo ser
Em Vila Velha de Ródão, a cerca de 30 quilómetros apreciado mais de perto, num passeio de barco.
de Castelo Branco, impõe-se a subida, entre curvas e A presença abundante de ródão (a palavra significa rio
contracurvas, ao topo da montanha onde fica o Castelo caudaloso) terá propiciado a fixação do Homem por estas
do Rei Wamba. Rodeada por oliveiras, a pequena torre, bandas, há mais de 150 mil anos, considerado um local
construída na época dos mouros, guarda uma lenda de um sagrado no período Neolítico, e que está bem patente na
amor adúltero entre um rei e uma rainha. O olhar distrai-se diversidade e na escala de arte rupestre que o Centro
com alguns grifos que sobrevoam a paisagem. Da família de Interpretação da Arte Rupestre do Tejo, em Vila Velha

31 OUTUBRO 2019 VISÃO 105


RETRATO DA BEIRA BAIXA
Mais do que mostrar a biodiversidade da região, o documentário
Das Pedras Fez-se Terra – Histórias da Beira Baixa, com argumento
e realização de Madalena Boto e produzido pela Lx Filmes, dá
cara e voz a pessoas que vivem na região da Beira Baixa. Um
ultramaratonista corre uma prova de 281 quilómetros, mostrando
superação e resiliência; uma ilustradora, dedicada ao ensino,
encontra inspiração nestas paisagens e uma equipa de geólogos
analisa o risco de deslizamento dos grandes blocos de rochas que
ali estão há centenas de milhares de anos, entre outras pessoas
e narrativas. “Além de focar as especificidades da geologia e do
clima, quisemos retratar os desafios de viver neste território e a
capacidade de adaptação dos seus habitantes”, resume Madalena
Boto. O documentário, de 45 minutos, é o resultado de um trabalho
de cerca de dois anos, entre filmagens, escrita, pesquisa, montagem
e acertos. “O nosso objetivo é que tenha exibição televisiva noutros
países, nesse sentido, estamos a trabalhar com um distribuidor
internacional”, salienta a realizadora. Após ter sido apresentado em
Vila Velha de Ródão no passado dia 18, será exibido neste sábado,
2 de novembro, em Proença-a-Nova.

A caminho de Oleiros, a serra do Muradal de Ródão, guarda no seu interior. Nos dois pisos desta
antiga prisão, junto ao pelourinho, observam-se fósseis,
é companheira de viagem. A sua beleza como trilobites encontrados na serra da Achada, um pedaço
natural, polvilhada por pinheiros e de uma telha datada de 1573, pontas de seta e um peso de
castanheiros, abre o apetite para uma tear, entre muitos outros artefactos, alguns com cerca de
paragem na Adega dos Apalaches 300 milhões de anos.

RESPIRAR AR PURO
A caminho de Oleiros, a serra do Muradal é uma boa
(e inesperada) companheira de viagem. A sua beleza natural,
polvilhada por pinheiros e castanheiros, abre o apetite para
a paragem (obrigatória!) que se segue, a oito quilómetros:
a Adega dos Apalaches, na aldeia de Roqueiro. Há que ir
com reserva feita antecipadamente, para garantir lugar à
mesa, e com apetite para o verdadeiro repasto que o espera.
PAULO VINHAS MOREIRA

Ali, às oito da manhã começam os preparativos do cabrito


estonado, um prato com receita exclusiva de Oleiros,
servido à hora de almoço. “Somos nós que temos de esperar
Museu Cargaleiro
Legenda pelo cabrito e não o cabrito por nós”, salienta Fernando
Carvalho, proprietário da Adega dos Apalaches, juntamente
com a irmã. Antes de ir ao forno a lenha, durante três
horas, o cabrito (não pode ter mais de dois meses e cinco
a seis quilos) é mergulhado em água a ferver, pelando-se à
medida que se vai escaldando. Depois desta tarefa, segue-se
a marinada em banha, manteiga, alho, pimenta, sal, entre
outros ingredientes. À mesa, chega acompanhado por batata
de forno, couve, arroz de feijão e o molho, à parte
(€25, inclui entrada e bebida).
Com o estômago devidamente aconchegado, e para
PAULO VINHAS MOREIRA

ajudar na digestão, aproveite-se a proximidade de Oleiros,


para conhecer o projeto Arte à Porta que veio dar nova vida
à zona histórica desta vila. São 39 portas (de um total de
85), pintadas pela mão de vários artistas locais e nacionais.
Fazendo uso da sinalética, ao longo das várias ruas, a visita

106 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


CENTRO
Projeto Arte à Porta, Oleiros
Legenda INTERPRETAÇÃO
PALITÃO ARTE RUPESTRE
Neste restaurante
VALE DO TEJO
de cozinha R. Dr. José Pinto
tradicional, Oliveira, Vila Velha
destacam-se os de Ródão > T. 272
540 319 > ter-sex
filetes de polvo 9h-12h30, 14h-17h30,
com arroz de feijão sáb 10h-13h, 14h-18h
e legumes. > grátis

X ASSOCIAÇÃO CLUBE
Av. de Espanha, Lt. 17, RAIA AVENTURA
Castelo Branco > T. 96
663 2540 > seg-sáb
Organiza diferentes
12h-15h, 19h-23h atividades na
região, entre elas,
ADEGA DOS APALACHES paintball, tiro com
o arco, escalada,
X rappel, slide e
R. Sra. das Neves, descidas no rio.
Roqueiro, Oleiros
> T. 93 402 8365 >
qui-sáb 12h-15h, X
sex-sáb 20h-23h R. da Piscinas,
Castelo Branco >
CABRA PRETA T. 96 276 5105

Pratos da cozinha
beirã, como a MUSEU CARGALEIRO
prova de chouriço,
preparada com a X
R. dos Cavaleiros, 23,
carne da matança
Castelo Branco > T.
do porco, e o 272 337 394 > ter-dom
ensopado de 10h-13h, 14h-18h > €2
veado.
VILA PORTUGUESA
X Passeios de barco
R. de Santa Maria, 13, no rio Tejo.
Castelo Branco
> T. 272 030 303 >
seg, qui-dom 12h-15h, X
10h-22h, qua 19h-22h Cais Fluvial de Vila
Velha de Ródão > T.
272 541 138 >a partir
de €12,50 (1 hora)
FÁBRICA DA
CRIATIVIDADE APP VISIT BEIRA BAIXA
X Aplicação,
Alameda do Cansado, desenvolvida
Castelo Branco pela Comunidade
> T. 272 330 370 Intermunicipal
da Beira Baixa,
PAULO VINHAS MOREIRA

CENTRO DE com hotéis,


restaurantes
INTERPRETAÇÃO e pontos de
DO BORDADO interesse.
DE CASTELO BRANCO
X
Pç. Camões, Castelo
Branco > T. 272 QUINTA DOS CARVALHOS
sugere também a Rota do Religioso que se estende por 323 402 > ter-dom Casa senhorial,
dez igrejas e capelas, entre elas, a Igreja Matriz erguida 10h-13h, 14h-18h
> €1,50
com cinco quartos
no século XVI, destacando-se o retábulo em talha e o duplos, terraço
camarim do altar-mor. Ligadas pelo património religioso, CENTRO DE CULTURA e duas piscinas,
também a aldeia de Álvaro, que pertenceu à Ordem de CONTEMPORÂNEA DE apenas pode ser
Malta e que atualmente integra a Rede das Aldeias do Xisto, CASTELO BRANCO alugada na sua
totalidade.
merece o desvio para se visitar as suas seis capelas com um
importante espólio de arte sacra. Sobranceira ao rio Zêzere, X
Campo Mártires da
aqui respira-se ar puro e estamos em comunhão com a Pátria, Castelo Branco X
Natureza. Para memória futura, e já a deixar saudades, fica > T. 272 348 170 > ter- N18, KM 102,6, Castelo
-dom 10h-13h, 14h-18h Branco > T. 91 275
a paisagem de montes e serras que se estende até à serra da 3256 > a partir €500
> €3
Estrela.

31 OUTUBRO 2019 VISÃO 107


Manifesto
O QUE ANDAMOS A GOSTAR (OU NEM POR ISSO) DE DESCOBRIR POR AÍ

S U S A N A L O P E S F A U S T I N O slopes@visao.pt

> muitíssimo bom > bom


PAVILHÃO ROSA MOTA CASTANHAS DE BRAGANÇA
É com dois concertos dos Outono rima com castanhas e,
em Bragança, o fruto vai estar em
Ornatos Violeta, destaque na 18ª Feira Internacional
do Norte, assim como a caça
em formato 360 graus, e o peixe. Até domingo, 3, há
demonstrações gastronómicas,
nesta quinta, 31, concursos da castanha, um passeio
e na sexta, 1, que se micológico, entre outras atividades

inaugura o renovado
Pavilhão > bonzinho
Rosa Mota, no Porto.
A arquitetura exterior ÉPOCA DA TRUFA
O restaurante Eleven, em Lisboa,
do edifício, nos Jardins organiza, até ao próximo dia 9, a Quin-
do Palácio de Cristal, zena da Trufa Branca, com um menu
especial de almoço, no qual constam
foi mantida, assim como pratos como a presa de porco-ibérico
com risoto de trufa de Alba (€35,
os 768 óculos da cúpula. entrada, prato e sobremesa)

De resto, cheira tudo


a novo. Os espetáculos > assim-assim
da banda portuense
encerram a digressão dos DINO PARQUE À NOITE
20 anos do álbum À boleia do Halloween, o Dino
Parque, na Lourinhã, vai estar
O Monstro Precisa aberto à noite para visitas, entre
esta quinta, 31, e sábado, 2. A
de Amigos Grande Expedição Assombrada
passa-se em 1819, data da primeira
viagem à procura dos grandes
carnívoros, da qual ninguém voltou...

> para esquecer


CARTAZES DE CAMPANHA
Passou quase um mês das
eleições legislativas e as caras dos
candidatos continuam por aí. Não há
um prazo legal para a sua retirada,
mas as autarquias podem (e devem)
determinar uma data

108 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


C OME R E BEBER

D.R.
Marisqueira Azul Lisboa
O resultado do trabalho de Manuel é frescura
Depois de cinco anos a servir no Mercado da Ribeira, esta marisqueira cresceu para o Terreiro
do Paço. A receita mantém-se: peixes e mariscos frescos, preferencialmente da nossa costa

Nesta nova Esta nova Marisqueira Azul o marisco são do melhor que há no mercado.
cervejaria do (a primeira abriu em 2014, no Mal se entra na nova cervejaria, que fica
Terreiro do Mercado da Ribeira) tem 180 lugares debaixo das arcadas da ala nascente da Praça
Paço, há todo o e interiores acolhedores, mas nós por do Comércio, vê-se o fruto desse trabalho: uma
tipo de marisco, aqui preferimos sempre o ar livre e, enorme montra ostenta robalos, douradas,
que se serve mesmo com algum frio, a esplanada garoupas, pregados, chernes e lulas que hão de
mais simples, com vista para o Terreiro do Paço aparece como sair em prato; e gambas, amêijoas, conquilhas,
apenas cozido, a melhor opção. Notámos antes que havia berbigões, mexilhões, lingueirões, que se servem
ou trabalhado, mantas e aquecedores para resolver qualquer como entradas. E, noutro campeonato, ainda se
utilizando os
constrangimento. E foi a estes subterfúgios que veem lagostas, carabineiros e camarão-tigre.
tradicionais
recorremos para saborear, tranquilamente, Como em qualquer templo de marisco, existem
azeite, alho
e coentros
o marisco que chegou na travessa: uma sapateira algumas opções de carne, que se destinam a
recheada, gambas cozidas, ostras de Setúbal e rematar uma série de petiscos ou a satisfazer
percebes, apesar do defeso (Mariscada da Praça, os mais carnívoros – dois tipos de pica-pau
€52,50 para duas pessoas). E as torradinhas com do lombo (€14,90) e dois bifes (€21). Para quem
manteiga aromatizada vêm mesmo a calhar. ainda tiver estômago, ou desejos de açúcar depois
Antes, já prováramos a salada de polvo que chega de sair deste banho de mar, há uma boa baba de
à mesa numa lata (€5,50), juntamente com o camelo (€4,20) e um merengue original, com
pão. De lista na mão, fazemos juras de cá voltar creme de limão e morangos (€4,50). O resto,
para a canja de amêijoas (€5,50) ou para a sopa confessamos, não tivemos capacidade para provar,
de peixe à Manel (€6,50). O Manel, nome que mas dizemos já que o bolo de rolo brasileiro deve
também vem pegado às puntillitas (lulas bebé ser uma escolha acertada (não havia neste dia) e
fritas, à moda de Espanha), é Manuel Aguiar, a mousse de chocolate, o tiro mais conservador
a cara do restaurante e aquele que se mexe muito da lista. Antes de largarmos a nossa vista lisboeta,
bem por entre os fornecedores de Sesimbra, bebemos o último gole de um Papa Figos branco,
Nazaré e Peniche, para garantir que o peixe e fresquinho. Luísa Oliveira

X
Terreiro do Paço, 70, Lisboa > T. 21 886 3065 > seg-dom 10h-24h

31 OUTUBRO 2019 VISÃO 109


CO MER E B E B E R

POR
MANUEL
G O N ÇA LV E S
D A S I LVA

comer&beber@visao.pt

JOSÉ CARLOS CARVALHO


Churrasqueira D. Pedro Odivelas
O gosto em brasa
Sem esquecer o seu passado de churrasqueira, que mantém no nome,
um restaurante de pura cozinha simples com produtos de real qualidade

Domingo O nome composto Ferreira. Tem três salas, legumes que variam conforme
e quarta-feira, resulta da relação a última das quais aberta para a época e a praça (feijão-
no inverno, entre o restaurante a cozinha, com paredes de verde, couve, brócolos, batatas
é dia de cozido atual e a mosaico a imitar tijolo burro a murro, com os peixes;
à portuguesa, churrasqueira que e madeira (em parte, caixas legumes, batatas fritas em
digno do nome o precedeu, e de vinho verdadeiras, que rodelas grandes e estaladiças,
que tem corresponde a duas fases do constituem uma garrafeira arrozes vários, com as carnes),
projeto do casal Maria de Jesus extensa e atraente). Entre as cozinhados e apresentados de
e Dionísio Ferreira: primeiro a duas primeiras salas há um forma simples mas rigorosa.
churrasqueira, que abriu há pequeno balcão de serviço com Há sempre dourada (que não
25 anos, feitos no dia 10 deste montras de peixes e de carnes se diz e não é, nem podia
mês, com frango, batatas fritas, que, a par das prateleiras ser, do mar àquele preço,
pão e outras coisas do género de vinhos, são as bem- mas que irradia frescura), tal
que eram vendidas para fora; -aventuranças da casa. como a garoupa e os chocos,
depois o restaurante, já sem A comida é de conforto com adquiridos diariamente na
take-away, como agora se diz, culinária simples, mas muito praça, podendo juntar-se-lhes
e com instalações mais amplas cuidada, e produtos de alta cantaril, pregado, peixe-espada
e gastronomia renovada com qualidade. Dionísio, o pai, que preto e outras espécies, sendo
produtos variados e de trabalha em restaurantes desde o critério de escolha sempre
qualidade muito superior. os seus 12 ou 13 anos, trata da baseado na frescura. Nas
Ao casal fundador juntaram-se cozinha (pena o afastamento carnes prevalecem: vazia (de
o filho, Pedro, e a nora, cuja da mãe, por doença) e Pedro, peças inteiras) e costeleta de
presença foi decisiva para a o filho, que é formado em vitela, secretos de porco preto
evolução rápida e sólida do Hotelaria, domina a sala. e coelho, que é desossado e
restaurante, mas nunca Mais de 90% dos peixes fica muito apelativo. O “prato
esquecendo o seu passado. e das carnes vão ao calor das do pai” é uma sugestão do dia
“Há de chamar-se sempre brasas antes de chegarem assim distribuída: domingo
Churrasqueira”, diz Pedro à mesa, acompanhadas de e quarta-feira, no inverno,

X
R. Álvaro de Campos, 1, Loja 1, Ramada, Odivelas > T. 21 934 2833 > ter-sáb 12h-15h, 19h-22h, dom 12h-15h > €25 (preço médio)

110 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


Aeternus Douro
Tinto 2017
Feito com uvas
de castas indígenas
de uma vinha
centenária,
produção limitada a
3 566 garrafas, que
só se repetirá em
anos excecionais,
tem cor profunda,
aroma concentrado
e complexo,
estrutura

Os vinhos de Luísa Amorim elegante e firme,


evidenciando
personalidade
D.R.

Qualidade, diz ela invulgar e muito


longa vida. Uma
obra de arte. €140

A mais nova das três herdeiras do Grupo Amorim


lidera a área dos vinhos, que vai crescendo Alyantiju Branco 2017
e ganhando protagonismo Cem por cento
da casta Antão
Vaz, que tem na
Vidigueira um dos
Anuncia-se a chegada ao mercado de
seus territórios
novas colheitas dos topos de gama da de eleição, seduz
Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo, com a cor amarela
gerando natural expectativa, porque já citrina luminosa, o
cozido à portuguesa, digno são suficientemente conhecidos e aroma fino a flores
do nome que tem; quinta- prestigiados: os tintos Quinta Nova e a frutos cítricos
-feira, cabrito assado no forno, Vintage 2017, Grande Reserva 2017, Referência 2017 com mineralidade
também soberbo; sexta-feira e Mirabilis 2017; e o branco Mirabilis 2018. Ficamos refrescante, o
e sábado, arroz de lingueirão, atentos, obviamente. Entretanto, acaba de ser paladar elegante,
leve e guloso; sobra terça-feira, lançado o tinto Aeternus 2017, também da Quinta cheio e sedutor,
em que há surpresa, como Nova, feito em homenagem “a uma obra eterna, que permanece.
por exemplo carapauzinhos a um Homem que deixou uma profunda marca, com Memorável. €32
fritos com arroz de grelos o nome Américo Amorim”, conforme disse a filha,
malandrinho. Há sempre três Luísa, na apresentação, exatamente 20 anos depois
pratos de bacalhau (cozido de o empresário ter apostado no negócio do vinho Aldeia de Cima
com grão, à Brás e à D. Pedro, e na compra da Quinta Nova de Nossa Senhora Reserva Tinto
que é o popular lagareiro), do Carmo, no Douro, que ele amava, e dois anos
Elaborado com
bifinhos com cogumelos, bife passados sobre a sua morte. Um vinho nascido de
uvas das castas
à Dionísio (frito com o gosto uma grande colheita e com tudo para se tornar
Trincadeira,
tradicional do molho feito emblemático. Alfrocheiro e
com o seu suco, alho, louro Além da Quinta Nova, com as vertentes do vinho Aragonez, estagiou
e vinho) e carne de porco e enoturismo, Luísa Amorim tem um projeto de por nove meses
à alentejana. Boa doçaria vinho seu, que resulta de um investimento pessoal: em barricas de
tradicional com destaque para a Herdade Aldeia de Cima, na serra do Mendro, carvalho-francês,
as farófias (claras bem cozidas, junto de Vidigueira. Pode orgulhar-se, até, de ser novas e usadas, e
que se mastigam, e molho autora da primeira vinha plantada em patamares uma parte dele por
espesso, guloso, com base tradicionais no Alentejo. A colheita de 2017 deu mais seis meses
em leite-creme). Excelente as primeiras alegrias com os vinhos Alyantiju em cimento e barro,
garrafeira com muitos vinhos Tinto 2017 e Alyantiju Branco 2017, e os Reserva resultando daí a
de pequenos produtores sem Tinto 2017 e Reserva Branco 2017, também muito profundidade da
expressão comercial. Serviço bons. “Sempre acreditei muito no Alentejo, uma cor, a complexidade
eficiente e simpático. região vinícola de enorme tipicidade e a única que aromática,
reúne quase todos os tipos de solos existentes em a frescura, o
Portugal”, afirma Luísa Amorim. As provas que equilíbrio e a
apresenta são mais do que convincentes. riqueza do paladar.
€15

31 OUTUBRO 2019 VISÃO 111


CO MER E B E B E R

D.R.
Nave Nove Porto
O melhor da Galiza
Originalidade é coisa que não falta à mesa deste restaurante temporário, com um único menu
preparado por um coletivo de 22 chefes de cozinha galegos

Por este dias, o Hotel Carrís Porto nenhum, mas de todos”, sublinha Daniel Guzmán. A dupla de
Ribeira é palco do Grupo Nove, que está É no restaurante do Hotel Carrís, com porta bivalves, com
no Porto para mostrar o melhor da para a rua e arcadas em granito, da época romana, navalheira
cozinha galega. “Entender a nossa que está instalado, até 17 de novembro, o Nave e vieiras
gastronomia é respeitar o produto”, Nove, qual embaixada da Galiza, com uma cozinha marinadas em
salienta o chefe de cozinha Daniel de produto e da época. À mesa, serve-se o primeiro água do mar,
Guzmán, membro do Nove e defensor “de uma momento da noite: uma dupla de bivalves, com abre o menu de
cozinha tradicional, com técnica e método”, a navalheira e vieiras marinadas em água do mar, nove pratos,
mesma que pratica no Nova, o seu restaurante e de que parece trazer a brisa do Atlântico, tal é a sua assinado em
conjunto pelos
Julio Sotomayor, em Ourense. frescura. O jantar prossegue com pescada em cinza
22 chefes de
Recuamos a 2003 para explicar que foi de alho-porro, alhada picante (um molho típico
cozinha que
neste ano que nove chefes da Galiza decidiram galego, feito à base de pimentão) e salsa verde, que compõem o
juntar-se para promover a chamada “cozinha dá depois lugar à tainha com caldeirada de couve Grupo Nove
atlântica” e seu trabalho (criativo, simples, feito e cebola. Já nos segundos pratos, entra a carne
com produtos locais de pequenos produtores). maturada com pickles e o repolho com cogumelos
No grupo, estavam, entre outros, Pepe Solla, e castanhas, um prato da estação. A fechar, uma
Javier Olleros, Yayo Daporta ou Pepe Viera. Hoje, degustação de três queijos e um doce de castanha
são 22 cozinheiros e cozinheiras (8 Estrelas e maçã. Falta apenas dizer que o menu se serve
Michelin incluídas) que formam esta associação apenas ao jantar e os pratos rodam diariamente, de
e assinam, pela primeira vez, um menu “sem forma a dar a conhecer a diversidade de produtos
egos”, composto por nove pratos que “não são de da despensa galega. Susana Silva Oliveira

X
Hotel Carrís Porto Ribeira > R. do Infante D. Henrique, 1, Porto > T. 22 096 5786 > até 17 nov, ter-dom 19h30, 21h30 > €90, €120
(com harmonização vínica)

112 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


VIAJAR CO M O CH E F K I K O

Sabor concentrado
Portugal e Brasil à mesa, em formato miniatura

CROQUETES DE FEIJOADA À BRASILEIRA


INGREDIENTES PREPARAÇÃO:
Para 4 pessoas Coloque um tacho ao
lume com a manteiga,
• 2 colheres de sopa o alho e a malagueta
de manteiga
picados e a folha de
• 3 dentes de alho louro. Deixe refogar
seco picado lentamente, sem
• 1 malagueta ganhar cor.
vermelha picada
Adicione as carnes
• 1 folha de louro picadas e o sal. Vá
• 275 g de bacon mexendo até estarem
picado cozinhadas e secas.
• 400 g de Junte três colheres
entremeada sem
corato picada de sopa de farinha
(à máquina) e envolva bem o
preparado.
• 1 colher de café
de sal fino Triture o feijão cozido,
• 4 colheres de sopa adicione-o às carnes
de farinha branca e deixe cozinhar
sem fermento lentamente até
• 400 g de feijão- engrossar. Retire
-preto cozido a folha de louro.
• 10 g de salsa picada Junte a salsa picada
• 4 ovos frescos e deixe arrefecer no
• 100 g de pão ralado frigorífico durante uma
ou panko (pão hora.
ralado japonês) Depois de frio, molde o
• 0,75 l de óleo preparado em forma de
alimentar para fritar croquete e polvilhe-o
DANIEL GUERRA

com a restante farinha.


Pane os croquetes:
passe-os primeiro
pelos ovos
previamente batidos
e, de seguida, pelo pão
ralado ou panko.
Frite os croquetes em
óleo bem quente até AQUI É CASO PARA SE DIZER: “QUERIDA, ENCOLHI
ficarem dourados. OS MIÚDOS!” Uma recriação de um prato tradicional
das minhasas origens brasileiras, em
Reserve-os numa
formato miniatura e numa
travessa com papel.
forma tão
o familiar e
absorvente.
portuguesa.
sa. Todo
o sabor dee
uma feijoada
ada
dentro dee um
croquete.

CHEF KIKO

31 OUTUBRO 2019 VISÃO 113


SA IR

LUCÍLIA MONTEIRO
Menina e Moça do Porto Porto
Ler, comer e beber
Aberta há dois anos no Cais do Sodré, em Lisboa, a livraria-bar rumou ao Jardim da Cordoaria.
Ali, pode folhear e comprar livros, tomar um copo e petiscar

Na decoração, A abertura de uma livraria é sempre homenageia Sophia e Agustina, a dos homens
destacam-se uma boa notícia. E mais ainda quando, lembra as gaivotas que se escutam na cidade.
as cores tanto aos livros, se acrescenta um punhado Mas espreitemos os livros. À entrada, moram os
no balcão como de boas ideias. A Menina e Moça do premiados Pão de Açúcar, de Afonso Reis Cabral
nas mesas Porto, que acaba de abrir junto ao (Prémio José Saramago 2019) e A Angústia do
em triângulo. Jardim da Cordoaria, em frente ao Guarda-Redes Antes do Penalty, de Peter Handke
As pinturas coreto, dá continuidade ao projeto que Cristina (Nobel da Literatura 2019). As estantes vão de
do teto são Ovídio tem, desde 2017, no Cais de Sodré, em Fernando Pessoa a José Saramago (em português
da ilustradora Lisboa. “O Porto surgiu por acaso. A cidade e em inglês), de Valter Hugo Mãe a Richard
Mariana Rio
inspira-me mais literariamente do que Lisboa”, Zimler, de Jorge Luis Borges a Italo Calvino… Há
confessa a responsável, que trabalhou como lugar privilegiado para a poesia (Sophia de Mello
editora na Clube de Autor. Filha do físico e Breyner, Eugénio de Andrade, Manuel António
cientista António Manuel Baptista, admite ter Pina), além de um outro destinado à ilustração
tido o privilégio de ter vivido rodeada de livros. infantil. “Apostamos em livros com os quais nos
Tal como em Lisboa, também a livraria-bar identificamos”, ressalva Cristina Ovídio.
do Porto tem muito que ver com o seu mundo: Nesta Menina e Moça (o nome vem do
“É uma espécie de prolongamento da minha romance homónimo de Bernardim Ribeiro)
casa, com o piano e muitas fotografias.” No podem folhear-se livros ao mesmo tempo que
teto, saltam à vista as ilustrações coloridas de se conforta o estômago. Na carta, pensada para
Mariana Rio (em Lisboa, o ilustrador foi João todas as horas, há cocktails (o Menina e Moça
Fazenda). Está lá o gato de Manuel António Pina, leva vinho do Porto, bagaço e lima, €6), tostas,
Ana Plácido a chorar a um canto, a antiga Cadeia tábuas de queijos, entre outras sugestões.
da Relação onde Camilo Castelo Branco esteve O programa cultural ainda está a ser definido,
preso. A arte, nesta livraria com arquitetura de mas há de vir a ter jam sessions, aos domingos,
Henrique Vaz Pato, marido de Cristina, continua um clube de leitura, horas do conto, leituras
nas casas de banho, com intervenções de António encenadas e um quiz cultural. É ou não é uma
Vaz Pato e Carlos Santos – a das mulheres boa notícia? F.A.

X
Campo Mártires da Pátria, 44, Porto > T. 22 243 6855 > seg-dom 12h-2h

114 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


PUB
SAIR 7 FAC T O S S O B R E . . .

Território e Natureza F LO R B E L A A LV E S
falves@visao.pt

“Travessias” é o tema do festival do pensamento Fórum do Futuro que, de 3 a 9 de novembro, dá voz a 52 pessoas
de todo o mundo, entre escritores, ativistas e atores, com o Rivoli como palco principal

1. 3. 5. 6. 7.
Fernão Sustentabilidade Performances Concerto Museu
de Magalhães A ativista e líder Em Rant (3 nov, 19h30, na Casa de Serralves
À sexta edição, o indígena Sônia Palácio dos Correios), da Música Pela primeira vez, o
festival do pensamento Guajajara e o artista o artista Kevin Beasley A britânica Lafawndah Fórum do Futuro ocupa
parte dos 500 anos brasileiro Ernesto e o coréografo Ralph atua pela primeira vez o Museu de Serralves
da primeira viagem de Neto conversam sobre Lemon partem no Porto, na Casa da durante um dia (8
circum-navegação de A luta pelo território dos sons de uma Música (6 nov, 22h), nov) com a exposição-
Fernão de Magalhães, e a destruição da descaroçadora onde apresenta o -performance da
para “pensar Amazónia (4 nov, mecânica de algodão, seu primeiro álbum, húngara Eszter
processos de ocupação 21h). Destacam-se para refletirem sobre Ancestor Boy, cuja Salamon (12h-18h,
territorial e cultural, os debates de Fiesta raça e escravidão temática tem que ver repete dia 9) e duas
numa perspetiva Warinwa (5 nov, 19h), nas plantações. O com a questão cultural conversas. A artista e
historiográfica e atual”, da African Wildife performer Calixto Neto das travessias. escritora Cuco Fusco
salienta Guilherme Foundation, acerca da fala da “libertação do (19h) fala sobre os
Blanc, programador conservação da vida corpo” em Oh!Rage confrontos entre a
do Fórum do Futuro, natural em África, da (4 nov, 19h, Galeria comunidade artística
juntamente com Filipa escritora Christina Municipal). Já no e o Governo de Cuba,
Ramos (editora da Sharpe (6 nov, 19h), da Rivoli, Crystallmess que a impediu de
agenda de arte e-flux), o antropóloga Elizabeth cruza alienação pós- entrar no país antes
produtor Gareth Evans A. Povinelli (7 nov, 19h) -colonial, tecnologia e da abertura da Bienal
e o escritor britânico ou da ativista ambiental cultura em In Memory de Havana, e o artista
de ascendência ganesa indiana Vandana Shiva of Logobi (9 nov, 22h). Arthur Jafa (Leão
John Akomfrah. O (7 nov, 21h). de Ouro na Bienal
tema Travessias junta de Veneza) conversa
52 convidados de
14 países, da Índia
4. com Philippe Vergne,
diretor do Museu de
ao Sudão do Sul, da Ciclo Artist Talks Serralves, sobre a
Lituânia a Singapura. O ciclo (sempre às 17h, produção cultural
no Rivoli) abre com o negra (21h).
2. brasileiro Ernesto Neto
(4 nov), defensor da
Chimamanda arte como mediadora
e Danny Glover entre o político e o
A escritora nigeriana espiritual. Seguem-
Chimamanda Adichie -se o artista britânico
(3 nov, 17h), eleita pela Naeem Mohaiemen
Time como uma das 100 (5 nov), a brasileira
pessoas mais influentes Vivian Caccuri (6 nov)
do mundo, abre o fórum – lembra o regresso
abordando o racismo da febre amarela à
nos dias de hoje. O América do Sul através
ator e ativista norte- da peça musical
americano Danny Glover A Mão da Febre –,
( A Cor Púrpura ou a artista Wu Tsang
Arma Mortífera) reflete (7 nov) e a historiadora
sobre justiça social, Clémentine Deliss
ativismo e cidadania (9 nov), que lerá o
global (5 nov, 21h). Já o manifesto pelo direito
arquiteto David Adjaye de acesso às coleções
encerra o festival com coloniais sequestradas
uma conversa sobre na Europa Ocidental.
Identidades e Formas
(9 nov, 19h).

116 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


C OMPRA R

PlayStation Now
Uma Netflix de jogos
Portugal é um dos 19 países com acesso a este sistema de subscrição de jogos na “nuvem”.
Uma revolução no mundo dos videojogos?
Há um bocadinho de tudo. Bestsellers Mediterrâneo, Adriático e Balcãs, para quem
modernos, como God of War, o PlayStation Now está para os jogos como a
Uncharted 4 e Grand Theft Auto 5 (que Netflix para as séries e os filmes. “Queremos
vendeu mais de 100 milhões de cópias); trazer a este serviço jogos de sucesso, não só
títulos para serem apreciados em ao nível comercial, mas também ao nível da
família, como Little Big Planet 3, Sonic crítica, e jogos produzidos não só pelos grandes
e Toy Story Mania; e uma seleção de clássicos estúdios, como por estúdios independentes.
retro, como Golden Axe, Lemmings e Crazy Taxi. A nossa prioridade é proporcionar aos nossos
Estes são alguns dos mais de 700 jogos do subscritores uma experiência de jogo de alta
PlayStation Now, o serviço de streaming de qualidade, o melhor dentro daquilo que é novo
videojogos da PlayStation 4, com um preço de e mais antigo.” Todos os meses, são adicionados
€9,99 por mês (ou €59,99 por ano). Lançado novos jogos, diz a representante da PlayStation.
em 2014 nos EUA, chegou este ano a Portugal, O streaming é considerado por analistas
que se tornou assim um dos 19 países a da indústria o futuro dos videojogos. A aposta
disponibilizarem uma biblioteca de jogos da de gigantes da tecnologia parece confirmá-lo:
consola para serem jogados na “nuvem” (a marca Apple, Google, Microsoft e Nvidia já têm, ou vão
recomenda uma velocidade de internet de pelo ter em breve, os seus próprios serviços de jogos
menos 5 Mbps; de qualquer modo, cerca de 300 na “nuvem”. Talvez por isso – para aumentar
títulos podem ser descarregados, para evitar a sua base de potenciais clientes e tornar o
eventuais problemas de latência). produto mais competitivo –, a Sony permite que
“O entretenimento em streaming é uma mesmo quem não tenha uma PlayStation jogue:
tendência”, justifica Liliana Laporte, diretora- basta um PC com Windows e um comando.
-geral da PlayStation para a Península Ibérica, Luís Ribeiro

Grand Theft
Auto V é o
jogo preferido
dos clientes
portugueses
do PlayStation
Now. Mas só
está disponível
até 2 de janeiro
(tal como God of
War, Uncharted
4: O Fim de
um Ladrão
e InFAMOUS
Second Son)
D.R.

X
www.playstation.com

31 OUTUBRO 2019 VISÃO 117


VER

Ney Matogrosso
Porto e Lisboa
Aos 78 anos, Ney
Matogrosso atira-se a
mais uma digressão.
O palco é a sua casa,
a sua vida. Depois
da longa digressão
Atento aos Sinais,

D.R.
chega agora ao lado
de cá do Atlântico

Carlos do Carmo Porto e Lisboa este Bloco na Rua


(que se estreou no

Até já, até sempre


início do ano, no Rio
de Janeiro). O nome
da nova digressão
remete para a canção
de Sérgio Sampaio
No ano em que completa oito décadas de vida, o fadista despede-se Eu Quero É Botar
o Bloco na Rua,
dos palcos com dois concertos muitos especiais agora recuperada
por Ney, que, além
de revisitar o seu
O seu nome confunde-se não só com a história do fado mas reportório, canta
Em 2020, também com a da própria música portuguesa do último meio temas de outros
Carlos do século. Depois de Amália Rodrigues, Carlos do Carmo é, para músicos, de Raul
Carmo prevê
muitos, a maior voz do fado, como se comprova pelas Seixas a Caetano
editar um
inúmeras distinções, entre as quais um Grammy Latino de Veloso ou DJ Dolores.
novo álbum, o
primeiro em
carreira, atribuído em 2014, mas especialmente por uma obra Neste momento
sete anos, no ímpar, tão bem resumida na recentemente editada coletânea Oitenta, de tensões e de
caixa de quatro discos, com oito dezenas de temas – do fado a outros conservadorismo na
qual cantará
universos. Ao longo de mais de meio século de carreira, Carlos do vida social e política
poemas de
Carmo foi um dos mais profícuos cantores nacionais, deixando para a brasileira, a energia
Jorge Palma,
memória coletiva nacional temas como Lisboa, Menina e Moça, Estrela de Ney Matogrosso,
Manuel
da Tarde, Os Putos e tantos, tantos, outros. Tal como Amália, foi um ícone gay, é, por si,
Alegre, José
artista transversal, sempre com um pé na tradição, mas sem medo – ou um ato político. “Eu
Luís Tinoco,
antes, com muita vontade – de arriscar pelos mais diversos territórios não defendo gays
Herberto
apenas, defendo
Helder, José musicais, como aconteceu nos discos em parceria com Bernardo
índios, defendo os
Saramago Sassetti ou Maria João Pires, quando interpretou Frank Sinatra
negros... Enquadrar-
ou Sophia de acompanhado pela lendária Count Basie Orchestra ou, mais me como ‘o gay’ seria
Mello Breyner. recentemente, quando aceitou participar no disco de Stereossauro, no muito confortável
qual cantou uma versão de Cacilheiro, outro dos seus grandes clássicos, para o sistema. Sou
acompanhado pela guitarra de The Legendary Tiger Man. Um artista tão um ser humano, uma
“local como universal”, como aqui escrevemos por ocasião da edição de pessoa”, disse ao
Oitenta, que teve sempre o público do seu lado, como só acontece aos Folha de São Paulo
maiores, àqueles cuja obra é maior do que a própria vida, por pertencer em 2017. P.D.A.
à vida de tantos. É tudo isto que se celebra nestes dois concertos
históricos, anunciados como a despedida dos palcos. Não será, no X
entanto, um adeus, mas um até sempre, porque a voz de Carlos do Coliseu do Porto > R. de
Carmo já é eterna. Miguel Judas Passos Manuel 137, Porto
> T. 22 339 4940 > 3 nov,
dom 21h > €22 a €75 >
X Coliseu dos Recreios > R.
Coliseu do Porto > R. de Passos Manuel, 137, Porto > T. 22 339 4940 > 2 nov, sáb 21h30 Portas de Santo Antão 96,
> €15 a €40 > Coliseu dos Recreios > R. das Portas de Santo Antão, 96, Lisboa > T. 21 Lisboa > T. 21 324 0580 >
324 0580 > 9 nov, sáb 21h30 > €15 a €50 5-6 nov, ter-qua 21h > €18
a €80

118 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


Belle & Sebastian Lisboa
Vidas Íntimas Vila Real A banda escocesa está

Leve e forte, como uma taça de champanhe


de regresso a Portugal para
um já há muito aguardado
concerto em nome próprio,
que servirá para apresentar
O veneno dos diálogos não azeda esta comédia sofisticada, o último trabalho do
septeto liderado por Stuart
que nos faz rir das fraquezas humanas Murdoch, Days of the
Bagnold Summer, que serve
de banda sonora ao filme
Nos anos 20 do séc. XX, do que é o casamento, tudo num
com o mesmo nome, dirigido
um hotel elegante da Côte mundo de fantasia, de gente rica pelo inglês Simon Bird e
d’Azur acolhe Elyot e Sybil, como nos contos de fadas”, sublinha. estreado no verão passado.
e na suíte contígua, É uma comédia clássica e Surgidos em Glasgow,
Amanda e Victor a viverem sofisticada, que “não faz rir a em meados da década
a lua de mel, após um breve bandeiras despregadas”, adianta de 90, os Belle & Sebastian
noivado. Uma improvável ironia do o encenador, “sempre rodeada ganharam de imediato um
destino, já que estas são as segundas de malícia, com os atores [Rúben lugar ao sol com o disco
núpcias de Elyot e Amanda, que Gomes, Rita Durão, Tiago Matias de estreia, Tigermilk,
viveram um casamento intenso, e Vânia Rodrigues] em permanente que logo os tornou uma
com muitos altos e baixos, e se estado de quem está a beber a referência da nova indie
divorciaram há cinco anos. primeira taça de champanhe”. Apesar pop britânica – estatuto
O reencontro faz reacender a faísca do tom aparentemente leve, fala de mantido até hoje, à custa
entre o casal desavindo, imagem temas que nos tocam fundo. A peça de álbuns quase perfeitos e
da elegância e da modernidade, que mais conhecida de Nöel Coward de bandas sonoras icónicas,
acaba por fugir para Paris. A peça, não parece ter passado de moda e, como Juno e The Power
escrita em 1930 pelo dramaturgo, ao longo do tempo, foi interpretada of Nightmares.
ator e compositor britânico Nöel por grandes atores, como os casais
Coward, “é uma das mais cruéis Maggie Smith-Robert Stephens e X
Aula Magna > Al. da Universidade,
análises das relações matrimoniais”, Elizabeth Taylor-Richard Burton. Lisboa > T. 21 011 3406 > 6 nov,
descreve Jorge Silva Melo, que Depois da estreia marcada para esta qua 21h > €24 a €35
recupera nesta produção dos Artistas quinta, 31, no Teatro de Vila Real, o
Unidos, encenada por si, uma espetáculo terá uma longa digressão
tradução feita há mais de 30 anos por
Miguel Esteves Cardoso. “É uma
nacional, com passagens por Guarda,
Porto, Aveiro e Lisboa, entre outras Rodrigo Amado Lisboa
pequena obra-prima, faz uma análise cidades. Joana Loureiro
Considerado pela crítica um
dos melhores saxofonistas
tenor da atualidade,
o músico português
apresenta-se em Lisboa
em formação de quarteto,
na companhia de três
pesos-pesados do jazz
internacional, os norte-
-americanos Joe McPhee
(trompete, saxofone), Kent
Kessler (contrabaixo) e
Chris Corsano (bateria),
com quem Rodrigo já gravou
dois álbuns: This Is Our
Language (2015) e A History
of Nothing (2018). Durante
o concerto serão projetadas
algumas fotografias inéditas
JORGE GONÇALVES

e recentes de Rodrigo
Amado, que além de músico
também é fotógrafo.

X
X Culturgest > R. Arco do Cego, 77,
Teatro de Vila Real > Alameda de Grasse, Vila Real > T. 259 320 000 > 31 out, qui 21h30 > €5 Lisboa > T. 21 790 5155 > 31 out,
qui 21h > €14

31 OUTUBRO 2019 VISÃO 119


VER

Mistério da Cultura Lisboa


O que fica do desejo Autópsia Lisboa
Depois da antestreia, em setembro, integrada no festival Materiais Diversos, em Minde,
a nova criação de David Marques explora as vicissitudes do trabalho em (e com) cultura “Neste momento no
mundo há / pássaros
terroristas a espalhar
Pode dizer-se que é um totem, Com uma videoprojeção em fundo veneno / no céu. se
a estrutura de cinco metros de (de filmagens feitas durante o processo não fizermos nada já /
altura cuja luz projetada vai de criação da peça), os bailarinos começam um dia o céu vai estar
variando de tonalidade ao longo por entrar em cena de olhos fechados e, irrespirável /e depois
do espetáculo. O novo trabalho em fileira, vão-se tocando para se não temos sítio
nenhum / para irmos
de David Marques coloca seis orientarem e se movimentarem no espaço.
quando morrermos.
bailarinos em palco e as tarefas, maquinais, Atravessam o palco e começam a levantar
/é preciso pois
que vão desempenhando assemelham-se tijolos do chão, passando-os de mão em que cada homem /
a sucessivas linhas de montagem – dos mão. Os olhos abrem-se mas eles mantêm- vigie o pássaro que
modos de fazer e produzir cultura. Daí se cegos, como se tivessem uma cortina a lhe passa perto/e
o trocadilho do título. Mistério da Cultura impedi-los de ver mais do que o vazio. impeça que esse
estreia-se nesta sexta-feira, 1, no novíssimo Os sons que, por vezes, proferem são pássaro, / cagando
Teatro do Bairro Alto. guturais, surripiados. “Há metáforas muito perigosamente
“Comecei por fazer entrevistas aos diretas, bastante legíveis. Tem que ver para cima / como
intérpretes, para perceber o que pensam com a minha vontade de que os códigos certamente quer, /
sobre o seu próprio trabalho – como do trabalho não sejam, no fundo, códigos contamine um pouco
intérpretes e como criadores. O ponto fechados. Há exercícios que se fazem há mais /do céu que
de partida não foi tanto uma ideia de milhões de anos, como se fossem clichés, e só a nós pertence.”
movimento, mas conhecê-los melhor. nós continuamos a fazê-los; há problemas Evocado no novo
E a partir daí pensar um espetáculo que que se mantêm há imenso tempo... espetáculo de Olga
pudesse tratar algo que costuma estar Quisemos tratar essas questões com Roriz, este excerto
escondido: os artistas terem apoios transparência, humor e ironia.” O som é de um poema de
financeiros, os processos de trabalho que o de frequências de rádio, de transmissão, Rui Costa traduz
nunca chegam ao público...”, explica David de percussão – uma ideia que surgiu a a ideia de morte
Marques. “A ideia era fazer uma pesquisa partir de Out 1, filme de Jacques Rivette, que interessou
quase antropológica sobre nós próprios, com 13 horas de duração, que acompanha à coreógrafa
explorar. A morte
para revelar qualquer coisa sobre esta coisa um grupo em ensaios d’A Comédia
existe enquanto
da cultura do espetáculo.” Humana, de Balzac. Cláudia Marques Santos
iminência nos seus
mais variados
desdobramentos e
Autópsia apresenta-
-se como um olhar
vindo do futuro
que alerta para o
momento prévio ao
precipício que parece
assombrar-nos nos
dias de hoje. Todas
as explosões e
angústias do corpo,
acompanhadas por
sons combativos
como o dos Acid
Arab. C.M.S.
ÁGATA XAVIER

X
São Luiz Teatro
Municipal > R. António
Maria Cardoso 38, Lisboa
X > T. 21 325 7640 > 1-3 nov,
Teatro do Bairro Alto > R. Tenente Raul Cascais, 1A, Lisboa > T. 21 875 8000 > 1-3 nov, sex e sáb 21h30, dom 17h30 sex e sáb 21h, dom 17h30
> €5-€12 > €12-€15

120 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


Anozero’19 - Bienal de Coimbra Coimbra
Marginalizados do mundo, estamos a olhar para vós
À terceira edição, a bienal inspira-se num título de João Guimarães Rosa – “a terceira margem” –,
para trabalhar as prementes questões dos muros e fronteiras. Metafóricas e reais

D.R.

E porquê João Guimarães Rosa? da nossa sensibilidade e da nossa expressão.” A Anozero’19


O conto do brasileiro ecoa as preocupa- Cinco frases de Guimarães Rosa inspiraram privilegia
ções contemporâneas: a decisão de um conceitos-chave da bienal: silêncio (“nosso pai nada as ligações
pai de família que, um dia, constrói uma não dizia”), passagem (“longe, no não encontrá- entre artes
canoa “pequena como para caber justo vel?”), marginalidade (“passadores, moradores das plásticas e
o remador” e exila-se no rio mutável, beiras”), invenção (“executava a invenção”) e mili- património
“rio abaixo rio acima”, ficando “à margem da tância (“chega que um propósito”). Matéria-prima arquitetónico
margem”. Outros barcos frágeis inundam, hoje, os trabalhada por 37 artistas, regidos pelo trio cura- e histórico de
média, e estas histórias, esta literatura com mais de torial liderado pelo brasileiro Agnaldo Farias, com Coimbra.
cinco décadas, são ancoradouros para a Anozero’19 Lígia Afonso e Nuno de Brito Rocha. Junta-se-lhes No dia da
Bienal de Coimbra. “A terceira margem de Guima- ainda Tomás Cunha Ferreira, artista participante e inauguração
rães Rosa pode bem referir-se à situação curador de ShipShape, exposição dedicada à poesia (este sábado,
de suspensão generalizada em que vivemos, visual, concreta e experimental. Curador da 2) há perfor-
a instabilidade expressa nas vagas de gente 29ª Bienal de São Paulo (2010), Agnaldo Farias mances mar-
acumuladas nas bordas dos países e dentro das defende que “toda a arte é política”. E a Anozero’19 cadas para o
Convento de
cidades que os compõem, no tenso debate entre assume que há que “fazer perguntas” neste “tempo
Santa Clara-
aqueles que pressentem catástrofes e aqueles que perturbador”. A “equidade” é, aqui, objetivo – de
-a-Nova e o
dão de ombros; na oportunidade aberta nas género e de gerações. Veteranos como Anna Boghi- Colégio das
redefinições identitárias de toda a ordem, faceando guian, David Claerbout, Lynn Hershman Leeson Artes.
os que reagem, agarrando-se com firmeza às boias e Steve McQueen questionam os rumos do mundo
da tradição”, sublinham os responsáveis desta ao lado de Belén Uriel, Eugénia Mussa, Daniel
terceira edição. E recordam: “A arte contemporâ- Melim, Maria Condado, João Maria Gusmão e
nea é a margem mais avançada, a terceira margem Pedro Paiva, Marilá Dardot ou Meriç Algün. S.S.C.

X
Vários locais de Coimbra > T. 91 078 7255 > 2 nov-20 dez > grátis

31 OUTUBRO 2019 VISÃO 121


VER

Festival Mental Lisboa


Vitalina Varela Lutar contra os estigmas em

Uma obra de arte


volta da saúde mental exibindo
filmes de qualidade que aju-
dem à reflexão sobre o assun-
to é o objetivo do Mental, que
chega à terceira edição com
Depois do Leopardo de Ouro, em Locarno, o novo filme de Pedro Costa um crescimento assinalável.
chega às salas portuguesas. Um momento alto do cinema português Do festival fazem parte não só
filmes mas também uma série
de debates, teatro, concertos,
Os frames de Vitalina Varela de Cabo Verde para se instalar na
lançamentos de livros e uma
poderiam ser retirados da periferia de Lisboa. E encontra naquele programação especial a
sala de cinema e expostos submundo onde insiste em ficar um pensar nos mais novos. Entre
numa galeria de arte. velho conhecido padre (Ventura). Ela outros, destacam-se as proje-
Sobreviveriam, também tenta encontrar-se a si própria, ele tenta ções de Whiplash, de Damien
assim, para a posteridade. encontrar a sua fé. Chazelle (painel Burnout, dia
Quando olhamos para cada um dos seus Interessa mais aqui o método. A 8); Ingrid Goes West, de Matt
enquadramentos, temos a sensação de forma de trabalhar de Pedro Costa, Spicer (painel Fomo, dia 9); e
ter pela frente um quadro de um grande assim como o contexto social, Of Mind and Music, de Richie
pintor, poderia ser Caravaggio, aproxima-o do neorrealismo. Trabalha Adams (painel Demências, dia
Rembrandt ou Georges de La Tour; ou sobre os guetos da periferia da cidade, 10). De 21 a 23 de novembro,
uma fotografia de Paulo Nozolino. São com elementos dos próprios bairros, o festival estende-se à cidade
molduras vivas em que há um cuidado atores não profissionais, de que extrai do Porto.
extremo com a posição da câmara, os uma essência genuína. Contudo, o
movimentos das personagens, o lugar tratamento cinematográfico está longe X
de onde vem a luz, o tratamento do da prática realista. Há uma construção Cinema City Alvalade, Biblioteca
Orlando Ribeiro e Fábrica do
cenário numa sublime arquitetura da plástica, fotográfica, iluminada, que não Braço de Prata > Lisboa > 1-16 nov
pobreza. Vitalina Varela é uma obra de pretende dar-nos a vida como ela é, > €8 e €40 (passe)
arte, um trabalho que destaca o lado mas sim uma interpretação poética da
pictórico do cinema, e que se faz valer realidade, com elementos de rara beleza,
da capacidade das artes de transmitirem mais próxima de realizadores como Béla Olhares do Mediterrâneo
emoções profundas, sem precisarem, de
forma contundente, de uma história.
Tárr, Alexandr Sokurov ou mesmo Carl
Dryer. Em Vitalina Varela, Pedro Costa Lisboa
O enredo, simples, também está rompe a camada superficial da realidade
lá: Vitalina chega atrasada ao funeral para chegar a algo mais profundo. Quarenta filmes inéditos das
do marido, que há 40 anos fugira Manuel Halpern
mais variadas nacionalidades
fazem o festival Olhares
do Mediterrâneo, dedicado
apenas às mulheres que
fazem cinema. Nesta sexta
edição, entre documentários e
ficções, salta à vista a elevada
presença de filmes em árabe.
Entre outros, destaca-se
O Termómetro de Galileu, de
Teresa Villaverde, sobre a
família do realizador italiano
Tonino De Bernardi; Freedom
Fields, de Naziha Arebi, que
acompanha três mulheres
numa equipa de futebol líbia;
Paradise Without People,
de Francesca Trianni, olhar
acutilante sobre a crise de
refugiados da Síria; e Pause,
de Tonia Mishiali, sobre as
fantasias de uma mulher
num casamento infeliz.
D.R.

X
X Cinema São Jorge > Av. da Liberdade
De Pedro Costa, com Vitalina Varela, Ventura > 124 minutos 175, Lisboa > T. 21 310 3400 > 30 out-
-3 nov > €4 e €45 (passe)

122 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


LIVROS E DI S CO S

Spazutempo Zarco
São um quinteto
português que

D.R.
acaba de lançar o
seu primeiro longa

Porto, Profissões (quase) Desaparecidas duração. No disco


de estreia, os Zarco,
membros da Cuca
Monga (editora dos

Germano Silva Capitão Fausto),


fazem uma música
que não soa nada

O resgate dos trabalhadores aos dias de hoje,


felizmente. Imagine-
-se um caldeirão onde
se coloque, em doses
Uma homenagem a gerações de mulheres e de homens que, iguais, Sérgio Godinho
e Frank Zappa, com
através dos seus ofícios, moldaram o caráter do Porto uns pozinhos subtis
de Fausto Bordalo
Dias e de José Mário
Só um operário, como Germano Silva em tempos foi, Branco, e estaremos
escreveria um livro tão costurado às gentes, labutas perto do som destes
e agruras que deram identidade ao Porto através das suas rapazes. A cama
profissões. A tarimba fez o jornalista de referência e o musical é o exercício
homem enciclopédico. Mas, antes disso, ele viveu na pele deliciosamente
as chagas, a dureza e a exploração salarial, em parte aqui esquizoide de Zappa,
retratadas através de narrativas, quotidianos e ofícios desaparecidos movido a teclados,
– ou que o progresso já atirou para o precipício da extinção. baixo, bateria e muita
Nascido em 1931, marçano aos 11 anos, trabalhador na Fábrica de guitarra saudável.
O novo livro Lanifícios de Lordelo depois, Germano viveu no lombo o carrossel As letras fazem
do jornalista biscateiro, das jornadas laborais infindas às batalhas pela sobrevivência. o resto, dando a
Germano Neste Porto, Profissões (quase) Desaparecidas, o jornalista resgata portugalidade ao
Silva – Porto, os habituais esquecidos na construção da memória coletiva que, cozinhado. Uma
Profissões devotos dos seus padroeiros, legaram à cidade páginas honradas de estreia auspiciosa
(quase) resistência e de luta contra prepotências e indignidades feudais, clericais de uns garotos que
Desaparecidas e monárquicas. Esta é, pois, a homenagem ilustrada às vivências de têm muitas ideias e,
(Porto Editora, sublinhe-se, sabem
alfaiates, caldeireiros, ferreiros, moleiros, aguadeiros, canastreiros,
168 págs. tocar e muito.
azeiteiros (não confundir com proxenetas, aqui também chamados
€16,92) – revela Num tempo em
assim), lavadeiras, carvoeiros, datilógrafos, carquejeiras, apanhadoras
outra história da que o conceito vale
de malhas e alguns mais... Germano revela-nos outro Porto, cuja tanto ou mais do
cidade através
dos ofícios
personalidade muito deve a estes artesãos da história subterrânea que a substância, os
atirados para da cidade, elevando-os ao mesmo pedestal dos heróis e de mártires Zarco têm as duas
a extinção. Um de grandes feitos e guiando o leitor pela geografia que, aqui e ali, ainda coisas para dar e
trabalho contra resiste à transfiguração acelerada do burgo. O Porto, na sua memória vender. Uma das
o esquecimento farrusca, obreira, de esgadanhar pela vida e de encorpar os brios da grandes surpresas
cidade, não morreu. Sobrevive, isso sim, na pena de Germano Silva, nacionais deste ano.
operário de palavras. Miguel Carvalho T.F.

31 OUTUBRO 2019 VISÃO 123


TV

Laundromat: O Escândalo dos Papéis


do Panamá Netflix Expedição: Amelia
Culpados, alegadamente National Geographic
O misterioso
Meryl Streep, Gary Oldman e Antonio Banderas protagonizam desaparecimento
filme de Steven Soderbergh, envolto em polémica de Amelia
Earhart, enquanto
sobrevoava o
oceano Pacífico,
dá o mote para este
documentário.
Em duas horas,
retrata-se a
expedição científica
da equipa liderada
por Bob Ballard,
apelidado como
o maior “detetive do
fundo dos mares”,
para descobrir
o paradeiro da
primeira mulher que
D.R. tentou dar a volta
ao mundo de avião.
No ano passado, 60 das maiores empresas dos Estados
O argumento, Unidos da América não pagaram impostos, sobre o valor X
de Scott Estreia 3 nov, dom 22h30
de 79 mil milhões de dólares. Quem nunca desejou deixar
Z. Burns, é a
de pagar impostos que atire a primeira pedra. Neste filme
adaptação do
(1h35), o espectador fica a conhecer a vida secreta do
livro Secrecy
World de Jake dinheiro de pessoas que estão a pedir um crédito ao futuro
(bela definição de paraíso fiscal e offshore). Os atores Gary Oldman
Mundos Paralelos
Bernstein,
jornalista de e Antonio Banderas são os cicerones de uma espécie de lição sobre
a maior trafulhice financeira da história da democracia. Oldman
HBO
investigação,
vencedor e Banderas interpretam os papéis dos advogados Jürgen Mossack A trilogia Mundos
de um prémio e Ramón Fonseca, respetivamente, donos da falida Mossack Fonseca, Paralelos, do
Pulitzer. que não gostaram de se ver retratados nesta realização de Steven britânico Philip
Soderbergh. Entretanto, já deram entrada com um processo por Pullman, serve de
difamação contra a Netflix e tentaram que o filme não fosse exibido base para esta nova
na plataforma de streaming. “Somos pintados como advogados sem série do universo
qualquer preocupação moral, envolvidos em esquemas de evasão do fantástico da
fiscal, lavagem de dinheiro, suborno e outras condutas criminais”, HBO. Considerada
lê-se na queixa que ambos apresentaram a um tribunal dos EUA. pela crítica uma
Presos preventivamente em março deste ano, e dois anos depois obra-prima
moderna da ficção,
da divulgação dos Panama Papers, as autoridades acusam os sócios
a série segue Lyra
de lavagem de dinheiro. Como o seu julgamento vai começar
Belacqua (Dafne
em breve, interessa-lhes muito pouco má publicidade. Keen), uma menina
Já a presença de Meryl Streep no elenco não poderia ser melhor aparentemente
chamariz para um filme classificado como comédia, mas que só daria comum, mas
vontade de rir se não soubéssemos que os factos são reais. A atriz corajosa, vinda
de 70 anos encarna o papel de uma viúva que descobre as ligações de outro mundo.
fraudulentas entre seguradoras, empresas-fantasma e a gigante Com Ruth Wilson,
Mossack Fonseca. Alegadamente. Sónia Calheiros James McAvoy e
Lin-Manuel Miranda.
X
Disponível na Netflix X
Estreia 4 nov, seg

124 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


E SC A PA R

Vila Galé Collection Elvas – Historic Hotel, AQUI À VOLTA


Conference & Spa Elvas
Dois novos
museus
para visitar
Nova vida no convento FÁBRICA-MUSEU
AMEIXA DE ELVAS
Neste novo hotel da raia alentejana, com Badajoz à vista, a história A Sereno &
militar portuguesa cruza-se com a arte contemporânea Fonseca, antiga
fábrica Frutas
Doces, abriu
São vários os hóspedes que chegam ao novo Vila Galé Collection em setembro
Elvas, curiosos pela nova vida do antigo Convento de São Paulo. uma fábrica-
“Temos vários clientes a dizerem-nos que já dormiram aqui, -museu dedicada
quando o edifício serviu de quartel. Também foi um tribunal à tradicional
militar e uma prisão”, conta Belmiro Pinto, diretor do hotel de ameixa de Elvas.
quatro estrelas, situado entre muralhas, no centro histórico de Ali, assiste-se
Elvas. A funcionar desde junho, é o primeiro projeto do Revive (programa ao processo de
lançado pelo Estado com vista à recuperação de imóveis de reconhecido confeção do fruto,
interesse) a ser inaugurado. Embora a reabilitação do edifício setecentista na variedade
tenha levado o seu tempo, devido ao grave estado de degradação, o resultado rainha-cláudia, e
está agora à vista, seja no claustro com jardim, seja no salão com um conta-se a história
pé-direito de 16 metros e meio e coro alto (vestígios da antiga igreja que aqui da empresa,
existiu) ou na escadaria de pedra que leva aos pisos superiores. Tal como fundada em 1919.
noutros hotéis do grupo Vila Galé, também este é dedicado a um tema. Tem também loja.
“Em Elvas, relembramos as 24 fortalezas militares portuguesas existentes
no mundo, através dos desenhos que decoram os quartos”, refere o diretor. X 
Com 79, no total, dos quais 14 são suítes (metade destas com mezzanine). R. Martim Mendes,
Numa visita ao hotel – e não é preciso ser hóspede para usufruir do spa 17A, Elvas > T. 268
628 364 > seg-sex
Satsanga, do bar Conde de Lippe e do restaurante Inevitável –, um outro 10h-13h, 14h-18h,
pormenor salta à vista. Pelos corredores e zonas comuns, há trabalhos de sáb-dom 11h-13h,
Vhils, Sofia Areal e Pedro Calapez, fardas militares e crucifixos. “Assinámos 14h-16h > grátis
parcerias com museus locais, como o Museu de Arte Contemporânea de
Elvas e o Museu Militar, no sentido de aqui estarem expostas várias obras MUSEU DOS
do seu espólio”, explica Belmiro Pinto. Porque é também pela arte que se CRISTOS
promove a região. Susana Lopes Faustino DE SOUSEL
Inaugurado
Entre muralhas,
em abril, tem
no centro
em exposição
histórico de
o espólio adquirido,
Elvas, o hotel
em 1990, à família
resulta da
Lobo, oriunda de
reabilitação do
Borba. A coleção,
antigo Convento
com cerca de
de São Paulo
1 500 peças,
mostra
essencialmente
crucifixos com
imagens de Cristo,
de várias épocas
TIAGO DE PAULA CARVALHO

e proveniências,
num projeto
museológico único.

X 
Lg. do Convento,
Sousel > T. 265 550
X 103 > ter-sex 9h30-
Av. 14 de Janeiro, 13, Elvas > T. 268 244 000 > a partir de €110 -17h30, sáb-dom 9h30-
-13h, 14h-17h30 > €3

31 OUTUBRO 2019 VISÃO 125


O gosto dos outros
“Ela”, de Jean Genet
Trata-
-se de uma peça de teatro,

Cíntia “maravilhosa”, que o Teatro da


“maravilhosa
Cornucópia levou
C
à cena em 2011. O
livro, com tradução
liv
de Luís Miguel Cintra,

Gil está esgotado. “Não


es
o encontro em lado
nenhum. Fica aqui
ne
o apelo para que
o reeditem”
Figueira da Foz Na direção do
Passou parte da sua infância na DocLisboa nos
Figueira da Foz, onde existiu, há muitos últimos oito anos, vaii
anos, um festival de cinema. “Lembro-
-me de ver, em criança, esse festival
dirigir o Festival de
a acontecer no casino. A Figueira Cinema Documental
tem um mar maravilhoso, um centro de Sheffield, em
histórico muito bonito, é uma cidade
especial. Vale a pena visitar.” Inglaterra, a partir
deste mês de
novembro
I N Ê S B E L O ibelo@visao.pt
Nápoles Itália
Escolhe Nápoles por ser das poucas
cidades da Europa mediterrânica que
ainda resistem à “turistificação”.
“E resiste à custa de um certo grau
de sujidade, mistura e caos,
exatamente aquilo que Lisboa perdeu
e de que tenho muita pena”, sublinha.

Livraria da Travessa Lisboa Às pessoas que têm saudades dessa


Lisboa, Cíntia sugere: “Mudem-se para
Quando, em Lisboa, fecham livrarias, Nápoles. É uma cidade mais humana
a vinda da Livraria da Travessa para e tem uma luz maravilhosa.”
o Príncipe Real deixou Cíntia Gil muito
feliz. “Já a conhecia do Rio de Janeiro.
É muito bom que tenha aberto em
Lisboa, trazendo consigo autores,
outras vozes que não tínhamos cá.
Espero que as pessoas vão, que
comprem livros e que os usem.”

Whisky & Co. Em Entrecampos,


Lisboa, esta loja e museu
tem whiskies de toda a parte
do mundo. “Não sou uma
Cinemateca Portuguesa Lisboa
especialista, gosto de algumas Sobre a Cinemateca Portuguesa, diz:
coisas, mas, segundo dizem, “Tem um arquivo fundamental, é um
é dos melhores clubes de lugar onde se pode aprender sobre
whisky. E é cinema. Isto, além da programação
também um bom extraordinária. É uma cinemateca
refúgio para viva.” Destaca também a Cinemateca
esta ‘loucura’ Júnior, que tem “a sala mais bonita
lisboeta” do País.”

126 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


J OGO S

Palavras cruzadas O S T E R M O S - C H AV E D A AT U A L I D A D E

>> H O R IZONTAIS >> 1. VISÃO volta a ganhar o (…) de melhor


newsmagazine – pelo segundo ano consecutivo, a VISÃO foi eleita a melhor
revista de informação nacional nos prémios Meios & Publicidade. Diz-se de
uma variedade de café. // 2. Variante enclítica do pron. pess. compl. a. Haver
de distância, de diferença. Liga de chumbo e estanho que se prepara na China.
// 3. Confusão na palavra, por demora no pensamento. // 4. Extraterrestre
(abrev.). Érbio (s.q.). Filho de burro e égua ou de cavalo e burra. Milímetro
(abrev.). // 5. Ecoai. Sincero, honesto. // 6. Tolentino de Mendonça – o que
pensa o novo (…) que constitui o Sacro Colégio Pontifício. // 7. Relativo à
úvula, uvulário. Terceira vogal (pl.). // 8. Autismo – as histórias de quem
vê o (…) com Asperger. Animal vertebrado, pulmonado, de sangue quente,
com o corpo revestido de penas. // 9. Estriado. Entrar na posse (de herança).
// 10. Cargo, função ou dignidade de deão. Provincianismo (abrev.). // 11. Fluido
gasoso, transparente e invisível que constitui a atmosfera. Servir de árbitro.
>> V E RTICAIS >> 1. Plural (abrev.). Eleições – os planos da (…) para o “dia
seguinte”. // 2. Ato de roubar uma pessoa por violência ou sedução. Ontem
(ant.). // 3. Primeira cava feita na vinha. // 4. Fixei a vista em, espreitei. Pretensa
influência da Lua, segundo a crendice popular. // 5. Enfurecer. Candura.
// 6. Toucinho, especialmente quando cortado em talhadinhas para entremear
peças de carne. // 7. Vamos deixar de (…) carne? – quais as consequências
para a saúde – o que dizem os números e os cientistas – como a carne de
vaca se compara com os outros alimentos. Letra grega correspondente a p.
// 8. Grande ave de rapina da África Ocidental. Artigo (abrev.). // 9. Naquele
lugar. Que ou aquele que lesa. // 10. Conheciam ou percebiam pelo sentido da
vista, observavam. Exclamação de aplauso, de felicitação. // 11. Antes
do meio-dia (abrev.). Maria Elisa – “fui a primeira (…) a fazer uma série de
coisas e isso teve um preço”.

> > Q U I Z > > 1. A. // 2. A // 3. B // 4. B // 5. C // 6. C // 7. A // 8. C // 9. A // 10. B


SOLUÇÕES

// 4. Mirei, Luada. // 5. Irar, Candor. // 6. Lardo. // 7. Comer, Pi. // 8. Jaguadi, Art. // 9. Ali, Lesador. // 10. Viam, Viva. // 11. Am, Mulher.
// 8. Mundo, Ave. // 9. Raiado, Adir. // 10. Deado, Prov. // 11. Ar, Arbitrar. >> V E RT I CA I S > > 1. Pl, Esquerda. // 2. Rapto, Era. // 3. Alumia.
> > H O R I ZO N TA I S > > 1. Prémio, Java. // 2. La, Ir, Calim. // 3. Paralogia. // 4. Et, Er, Mu, Mm. // 5. Soai, Leal. // 6. Cardeal. // 7. Uvular, Is.

Sudoku MÉDIO Quiz


POR PEDRO DIAS DE ALMEIDA

1. Como se chama a irmã do ator 6. Em que cidade se pode visitar


Joaquin Phoenix, também atriz? o Museu Nacional do Futebol?
A. Rain Joan of Arc Phoenix A. Milão
B. Summer Catherine the Great Phoenix B. Madrid
C. Forest Pocahontas Phoenix C. Manchester
2. Onde nasceu a artista plástica 7. Quem é a vocalista da banda
Joana Vasconcelos? Três Tristes Tigres?
A. Paris A. Ana Deus
B. Londres B. Mitó Mendes
C. Roma C. Filipa Pais
3. Como se chama o disco que junta 8. Qual era o primeiro nome
o fadista Camané e o pianista Mário do geógrafo e aviador
Laginha (a lançar em novembro)? Gago Coutinho?
A. Noites de Desassossego A. João
B. Aqui Está-se Sossegado B. António
C. Conseguir Sossegar C. Carlos
4. Qual destes romances não é de 9. Onde nasceu o treinador
Valter Hugo Mãe? português Leonardo Jardim?
A. O Filho de Mil Homens A. Venezuela
B. Cemitério de Pianos B. África do Sul
C. A Desumanização C. França
5. Em que ano venceu Egas Moniz 10. Que cidade francesa é famosa
o Prémio Nobel da Medicina? pela sua mostarda?
A. 1928 A. Noyon
B. 1935 B. Dijon
DÊ-NOS NOTÍCIAS > T. 21 469 8101 > T. 22 043 7025 C. 1949 C. Grenoble
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128 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


Proprietária/Editora: TRUST IN NEWS, UNIPESSOAL LDA.
Sede: Rua da Fonte da Caspolima – Quinta da Fonte
Edifício Fernão de Magalhães, n.º 8, 2770-190 Paço de Arcos
NIPC: 514674520.
Gerência da TRUST IN NEWS: Luís Delgado,
Filipe Passadouro e Cláudia Serra Campos.
Composição do Capital da Entidade Proprietária: 10.000,00 euros,
Principal acionista: Luís Delgado (100%)
Publisher: Mafalda Anjos

Diretora: Mafalda Anjos


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Diretor-Executivo: Rui Tavares Guedes SLIMMING ELEGANT
Subdiretora: Sara Belo Luís
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Editores-Executivos: Catarina Guerreiro e Filipe Luís
Conselheiro Editorial: José Carlos de Vasconcelos da coleção FW19 da Salsa e combinam
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Editores: Alexandra Correia (Sociedade), Clara Cardoso (visao.pt) Cintura super alta, silhueta definida e efeito
Filipe Fialho (Mundo), Inês Belo (VISÃO Se7e), João Carlos Mendes (Grafismo), adelgaçante. Prometem ser a grande novidade
Manuel Barros Moura (Radar) e Pedro Dias de Almeida (Cultura) da estação. Este novo fit promete o conforto
Redatores Principais e Grandes Repórteres: Cláudia Lobo, José Plácido e a qualidade que já são imagem de marca
Júnior, Miguel Carvalho, Patrícia Fonseca e Rosa Ruela
Redação: André Moreira, Carmo Lico (online), Cesaltina Pinto, Clara Soares, da Salsa, aliados à tecnicidade.
Clara Teixeira, Florbela Alves (Coordenadora VISÃO Se7e/Porto), Os Elegant juntam-se assim à restante
Joana Loureiro, Luísa Oliveira, Luís Ribeiro (Coordenador Sociedade), Margarida família de fits técnicos da marca – Push
Vaqueiro Lopes, Nuno Aguiar, Octávio Lousada Oliveira, Paulo C. Santos, Paulo Zacarias In (Secret e Secret Glamour), Push Up
Gomes, Pedro Raínho, Rui Antunes, Sandra Pinto, Sara Rodrigues, Sara Santos (redes
sociais), Sara Sá, Sílvia Caneco, Sílvia Souto Cunha, Sónia Calheiros, Susana Lopes
(Wonder, Shape Up e Mystery), Slimming
Faustino, Susana Silva Oliveira, Teresa Campos e Vânia Maia (Diva e Elegant) e No Gap Bliss.
Grafismo: Paulo Reis (Editor adjunto), Teresa Sengo (Coordenadora),
Ana Rita Rosa, Edgar Antunes, Filipa Caetano, Hugo Filipe e Patrícia Pereira
Infografia: Álvaro Rosendo e Manuela Tomé
Fotografia: Fernando Negreira (Coordenador), Diana Tinoco,
José Carlos Carvalho, Lucília Monteiro, Luís Barra e Marcos Borga
Copydesk: Rui Carvalho e Teresa Machado
Secretariado: Sofia Vicente (Direção), Teresa Rodrigues (Coordenadora),
Ana Paula Figueiredo e Luís Pinto
Colunistas: Adolfo Mesquita Nunes, Capicua, Gonçalo Cadilhe, Isabel Moreira, José
Eduardo Martins, José Manuel Pureza, Miguel Araújo, Pedro Norton, Ricardo Araújo
Pereira e Rita Rato
Colaboradores Texto: Manuel Gonçalves da Silva, Manuel Halpern, Miguel Judas
Ilustração: João Fazenda (Boca do Inferno) e Susa Monteiro
CALVIN KLEIN
Centro de Documentação: Gesco
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Redação, Administração e Serviços Comerciais: Rua da Fonte da Caspolima –
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a Operação Marquês
POR RICARDO ARAÚJO PEREIRA

C
inco anos após ter sido detido para ser os procuradores o acusaram de levar uma vida faus-
interrogado por um juiz, José Sócrates é tosa, respondeu, celebremente: “A vida faustosa é ir
interrogado esta semana por outro juiz. tirar um mestrado para Paris? Querer que os filhos
Findo este interrogatório, decidir-se-á se acabem o liceu numa escola internacional?” De facto,
Sócrates irá a julgamento, durante o qual quando pensamos em todas aquelas pessoas reme-
é provável que venha a ser submetido a diadas que mantêm filhos em escolas internacionais
vários interrogatórios. ao mesmo tempo que vão estudar uns anos para
Como se vê pela relação que mantém Paris, não podemos deixar de concordar que talvez
com a maior parte dos jornalistas, Sócra- a acusação se tenha precipitado. visao@visao.pt
tes não gosta muito que lhe façam per-
guntas. Mesmo que seja inocente, só em interrogató-
rios já cumpriu uma pena bem pesada.
Tendo em conta a minha idade e estilo de vida, é
improvável que eu consiga assistir ao desfecho deste
caso. Mas tenho pena. Primeiro, José Sócrates disse
aos amigos que era rico, por via da mãe, herdeira de
uma fortuna. Depois, disse aos juízes que era pobre,
e precisava da ajuda de um amigo, que lhe empres-
tava dinheiro – embora ele não saiba quanto é nem
quando vai pagar. Tenho muita curiosidade de saber
se Sócrates dará outras versões da sua vida econó-
mico-financeira. Não sobram muitas mais hipóte-
ses. Um dos maiores desafios deste caso é saber a
que classe social pertence José Sócrates. É rico às
segundas, quartas e sextas; pobre às terças, quin-
tas e sábados? Quem pede quantias avultadas a um
amigo é um milionário ou um pedinte? São questões
importantes porque, segundo se costuma dizer, em
Portugal há uma justiça para ricos e outra para po-
bres. Como é que o tribunal sabe que justiça admi-
nistrar a uma pessoa de classe indefinida, como José
Sócrates? A resposta não é simples. Como tem ficado
claro em entrevistas e escutas telefónicas, Sócrates
ILUSTRAÇÃO: JOÃO FAZENDA

é pobre teoricamente, mas rico na prática. Foi para


Paris com dinheiro que não era dele, apresentar uma
tese que não foi escrita por si, e publicá-la num livro
que obteve um lugar nos tops que não lhe perten-
cia. É um pelintra com a prosápia e o estilo de vida
de uma pessoa abastada. Esta é a combinação ideal
porque a prosápia não paga impostos e ele não tem
dinheiro em seu nome que se possa taxar.
Uma das perguntas clássicas que se costuma fazer Um dos maiores desafios deste
a candidatos políticos é: “Quanto custa um bilhete
de metro?” O objectivo é avaliar o grau de contacto
caso é saber a que classe social
do candidato com a vida real. Quem não tem muito pertence José Sócrates.
dinheiro precisa de fazer contas e sabe bem o preço
das coisas.
Quem pede quantias avultadas
Sócrates não tem dinheiro, mas não parece fazer a um amigo é um milionário
ideia nenhuma de quanto as coisas custam. Quando ou um pedinte?

130 VISÃO 31 OUTUBRO 2019


CONHECER O PASSADO
PARA COMPREENDER O PRESENTE
NESTA EDIÇÃO:
• OS 70 ANOS DA REPÚBLICA POPULAR DA CHINA, OS 30 ANOS DE TIANANMEN
E OS 20 ANOS DA ENTREGA DE MACAU
• O ANTES E O DEPOIS DO PAÍS ONDE NASCEU O MAOISMO
• O PERFIL DE MAO POR ANTÓNIO COSTA PINTO E O FUTURO DE MACAU POR ROCHA VIEIRA
• A CRONOLOGIA SOBRE A HISTÓRIA MILENAR DO IMPÉRIO DO MEIO
• E MUITO MAIS…

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