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PRÉ-UNIVERSITÁRIO OFICINA DO SABER Aluno(a):

DISCIPLINA: Literatura PROFESSORES: Suéllen da Mata

O MODERNISMO NO BRASIL – SEGUNDA FASE (PROSA) TEXTO 15

A segunda fase do Modernismo brasileiro é chamada de período de “construção”. Uma nova


geração de escritores se volta para os problemas sociais e políticos do país, revisa criticamente nossa
história e aprofunda a sondagem psicológica.

A prosa na segunda fase do Modernismo (1930-1945)

Passada a primeira fase combativa do Modernismo, novas tendências se delineiam. Na prosa


surgem basicamente três vertentes:

• Romance nordestino, em que se manifesta com mais intensidade a postura de fazer da literatura
uma forma vigorosa de análise e denúncia dos problemas sociais – no caso, daqueles que afligem
a população do Nordeste, assolada pela seca e abandonada pelo governo. É também chamado de
romance neorrealista, por retomar o interesse social que marcou o Realismo do século XIX. A
publicação de A bagaceira, de José Américo de Almeida, em 1928, é o marco inicial dessa
vertente, cujos autores principais são Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz,
Amando Fontes e Jorge Amado.
• Romance intimista e psicológico, em que predomina o interesse pela análise do mundo interior
dos personagens e de seus conflitos íntimos. Nessa linha, os autores principais são Lúcio
Cardoso, Cornélio Pires e Ciro dos Anjos.
• Romance de temática social urbana, com ênfase na análise dos conflitos que surgem entre os
personagens e as estruturas sociais urbanas. Os principais autores dessa tendência são Erico
Verissimo, Dyonélio Machado, Marques Rebelo e Otávio de Faria.

Uma época conturbada

As décadas de 1930 e 1940 foram particularmente tumultuadas no Brasil e no mundo, do ponto de


vista sociopolítico. Essa época de agudos conflitos ideológicos viu explodir a enorme tragédia que foi
a Segunda Guerra Mundial, com profundos efeitos no destino de milhões de pessoas.
Vejamos um resumo dos principais fatos que marcaram o período.

1930 – Em outubro, deflagra-se no Rio Grande do Sul a revolução liderada por Getúlio Vargas. O
presidente Washington Luís é deposto e Getúlio toma posse como chefe do governo provisório. Um
decreto dissolve o Congresso Nacional. Tem início a chamada Segunda República.

1931 – Em janeiro, os trabalhadores tentam realizar a “marcha da fome”, mas são impedidos pela
polícia. Ao longo desse ano, muitas manifestações operárias serão duramente reprimidas. No dia 12
de outubro, é inaugurado um dos símbolos do Brasil: a estátua do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro.
1932 – No dia 9 de julho, em São Paulo, explode a Revolução
Constitucionalista, cujo objetivo é estabelecer uma Assembleia
Constituinte, pois os paulistas acham que o governo de Getúlio
caminha para a ditadura. Sozinho contra o resto do país, o estado
é invadido em diversos pontos e não consegue suportar o avanço
das tropas getulistas. Morrem centenas de pessoas, e a rendição
ocorre no começo de outubro. Um interventor federal é enviado à
capital paulista.

1934 – Em julho, é promulgada nova Constituição, que legitima


Getúlio Vargas no poder.

1935 – É lançada oficialmente em março, no Rio de Janeiro, a


Aliança Nacional Libertadora (ANL), que congrega diferentes
tendências da esquerda, principalmente comunistas e socialistas.
Luís Carlos Prestes é um de seus líderes. Seu objetivo é opor-se ao
avanço da direita fascista. Em julho, um decreto torna ilegal a
ANL, cujas sedes são fechadas.
Cartaz da Revolução
1936 – Em janeiro, Luís Carlos Prestes é preso. A polícia de Constitucionalista de 1932, que
Getúlio começa a “caçar” pessoas acusadas de comunismo, mostra um típico bandeirante,
mesmo que não tenham participado de manifestações contra o símbolo do estado de São Paulo,
retirando o ditador Getúlio Vargas
governo. Um dos presos é o escritor Graciliano Ramos, detido em
do poder.
março. Seu testemunho desse período está no livro Memórias do
cárcere. Arquivo Público do Estado de São
Paulo

1937 – Em novembro, Getúlio Vargas ordena o fechamento do


Congresso Nacional e dá um golpe político, instaurando o Estado
Novo e suspendendo os direitos constitucionais. No dia 10 desse mesmo mês, impõe nova
Constituição, autoritária e centralista, que extingue os partidos políticos.

1939 – Hitler invade a Polônia em setembro, desencadeando a Segunda Guerra Mundial. Em


dezembro, Getúlio cria o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) para se autopromover e, ao
mesmo tempo, censurar os meios de comunicação, que começam a exercer grande influência sobre a
opinião pública.

1940 – Entra em vigor, em maio, o salário mínimo. A legislação trabalhista que garante os direitos
básicos do trabalhador faz de Getúlio Vargas uma figura muito querida pelo povo.

1942 – Em agosto, o Brasil declara guerra aos países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão).

1945 – No mês de abril, cedendo a pressões da sociedade civil, Getúlio concede anistia aos presos
políticos. Em maio, a Alemanha se rende: é o fim da guerra na Europa. Em agosto, depois de sofrer
bombardeio atômico, o Japão pede a paz. Termina a Segunda Guerra Mundial. No Brasil, em
outubro, Vargas é deposto. Em dezembro, o general Eurico Gaspar Dutra é eleito presidente do país.

Rachel de Queiroz

Nascida em Fortaleza (CE) em 1910, Rachel de Queiroz


destacou-se na literatura brasileira ainda bastante jovem, com a
publicação do romance O Quinze (1930), que aborda o drama
dos retirantes nordestinos fugindo da seca. Prosseguiu sua
carreira com os romances João Miguel (1932), Caminho de
pedras (1937), As três Marias (1939), Dôra, Doralina (1975)
e Memorial de Maria Moura (1992), além de Brandão entre o
mar e o amor (1942), em parceria com Graciliano Ramos, José
Lins do Rego, Jorge Amado e Aníbal Machado. Escreveu
também peças de teatro, crônicas e literatura infantil. Faleceu
em 2003.

O Quinze: a triste realidade da seca

O romance O Quinze projetou nacionalmente na literatura o A escritora cearense Rachel de


nome de Rachel de Queiroz, na época uma estreante de apenas Queiroz em 4 de novembro de 1977,
20 anos de idade. Retomando o tema dos problemas sociais e dia de sua posse como a primeira
humanos causados pela seca, que já fora tratado por mulher a entrar para a Academia
outros autores surpreende a crítica com seu estilo despojado, Brasileira de Letras.
numa narrativa enxuta, distante do tradicional estilo rebuscado. N. M. Passos/Abril Imagens
A marcha penosa e trágica de Chico Bento e sua família pelo
sertão nordestino constitui o núcleo dramático da obra. Abandonados pelas autoridades, os retirantes
vão caminhando em busca de comida ou proteção. Às vezes, são agrupados em acampamentos, mas
com pouquíssimos recursos, os quais não impedem a morte de muitos deles por doenças ou inanição.
As crianças são as principais vítimas dessa calamidade. Paralelamente ao drama da seca, desenvolve-
se o da impossibilidade de comunicação afetiva entre Vicente e Conceição – ele, um proprietário
rural obstinado pela vida na fazenda; ela, uma moça da cidade que se sente atraída pela figura livre e
franca de Vicente, mas não consegue penetrar em seu mundo rude, quase selvagem.

Jorge Amado

Um dos mais conhecidos escritores brasileiros, Jorge Amado


(1912-2001) é o romancista da Bahia por excelência. Seus
primeiros romances – Cacau (1933), Jubiabá (1935), Mar
morto (1936), Capitães da areia (1937) e Terras do sem-fim (1943)
– constituem francas denúncias sociais e correspondem ao
período de intensa participação política do autor.
A partir de 1958, com Gabriela, cravo e canela, o escritor
baiano inicia uma nova fase, em que predominam a sátira e a
Jorge Amado em 1992.
crítica de costumes, características presentes nos romances
Fernando Vivas/ Abril Images
subsequentes, que têm grande aceitação popular, como Os pastores da noite (1964), Dona Flor e seus
dois maridos (1967), Tenda dos milagres (1970), Teresa Batista cansada de guerra (1972) e Tieta do
Agreste (1976). Escreveu também as novelas A morte e a morte de Quincas Berro d'água (1961) e Os
velhos marinheiros (1961).

Terras do sem-fim: paixão e violência no sertão da Bahia

Considerado um dos melhores romances de Jorge Amado, Terras do sem-fim trata da fixação e
expansão das fazendas de cacau em São Jorge dos Ilhéus (atual Ilhéus), na Bahia. A cobiça e o desejo
de enriquecimento levam dois fazendeiros ao confronto: o coronel Horácio da Silveira e Juca Badaró;
este último, membro da família mais rica da região. Ambos disputam as terras incultas de modo
violento, principalmente Horácio, para quem as armas são a única lei.
Paralelamente, desenvolve-se o drama de Ester, esposa de Horácio. Educada em outro meio, ela
não se acostuma com a vida solitária e cercada de perigos que leva na fazenda. Quando conhece
Virgílio, um advogado que passa a frequentar sua casa, vê nele a figura de seus sonhos de
adolescente, perdidos com o casamento, e acaba por tornar-se sua amante. O romance mantém um
clima de suspense entre a sequência dos fatos que envolvem as lutas dos dois fazendeiros e seus
capangas e o drama íntimo de Ester.
Capitães da areia: uma denúncia social

Nesse romance, Jorge Amado focaliza a vida de um grupo de menores abandonados que vivem
nas imediações do cais em Salvador, na Bahia. Moram num depósito abandonado (trapiche) e
sobrevivem à custa de pequenos furtos nas redondezas, sempre perseguidos pela polícia e em briga
com outros grupos de meninos. O personagem principal e chefe do grupo é Pedro Bala, garoto de
quinze anos que, ao longo do livro, conscientiza-se da realidade opressora em que vive e, ao crescer,
transforma-se num líder de movimentos de protesto. A obra denuncia as desigualdades sociais e a
violência de que são vítimas essas crianças, que, em nome da sobrevivência, adentram o mundo da
marginalidade e do crime.

Graciliano Ramos

Nascido em Quebrangulo (AL), em 1892, e morto no Rio


de Janeiro, em 1953, Graciliano Ramos é considerado o mais
importante prosador da segunda fase do Modernismo. Deixou
os romances Caetés (1933), São Bernardo (1934),
Angústia (1936) e Vidas secas (1938). Escreveu ainda contos
(Insônia, 1947), memórias (Infância, 1945, Memórias do
cárcere, 1953) e um livro de literatura infantil (Histórias de
Alexandre, 1944), entre outras obras.

Vidas secas: o drama dos retirantes

Essa narrativa é estruturada numa sucessão de cenas que Graciliano Ramos em 1948.
focalizam diferentes momentos na vida de uma família de Arquivo/
retirantes – Fabiano, sinhá Vitória, seus dois filhos e a Agência Estado
cachorra Baleia. Em suas andanças pelo sertão, fugindo da seca, a família se instala numa fazenda
abandonada. Com a chegada das chuvas, o dono da propriedade volta e Fabiano submete-se às suas
ordens, permanecendo nela como vaqueiro.
A incapacidade de usar adequadamente a linguagem isola Fabiano das outras pessoas. Ele é
explorado em seu trabalho, sente-se enganado, mas nada pode fazer: “[...] sempre que os homens
sabidos lhe diziam palavras difíceis, ele saía logrado”. Por essas experiências negativas, vai
associando a linguagem ao mundo dos “homens sabidos” e passa a temer a ambos. As palavras
parecem dotadas de um poder mágico, e ele admira e teme os que conseguem falar com facilidade.
Quando volta o período das secas, a família abandona a fazenda e recomeça sua trajetória pelo
sertão. Fabiano e sinhá Vitória, de olhos no futuro, mantêm ainda uma remota esperança de que as
coisas melhorem e seus filhos não precisem passar pelo que eles estão passando:
Iriam para diante, alcançariam uma terra desconhecida. Fabiano estava contente e acreditava
nessa terra, porque não sabia como ela era nem onde era. Repetia docilmente as palavras de sinhá
Vitória, as palavras que sinhá Vitória murmurava porque tinha confiança nele. E andavam para o sul,
metidos naquele sonho.

RAMOS, Graciliano. In: GARBUGLIO, José C.; BOSI, Alfredo; FACIOLI, Valentim (Org.). Graciliano Ramos: antologia & estudos. São
Paulo: Ática, 1987. p. 387. (Fragmento).

Em cartas e depoimentos, Graciliano Ramos explicou que o livro Vidas secas nasceu da junção de
textos independentes. O ponto inicial foi o episódio da morte da cachorra Baleia:

Escrevi um conto sobre a morte duma cachorra, um troço difícil, como você vê: procurei adivinhar
o que se passa na alma duma cachorra. Será que há mesmo alma em cachorro? Não me importo. O
meu bicho morre desejando acordar num mundo cheio de preás. Exatamente o que todos nós
desejamos. A diferença é que eu quero que eles apareçam antes do sono, e padre Zé Leite pretende
que eles nos venham em sonhos, mas no fundo todos somos como a minha cachorra Baleia e
esperamos preás.
Depois de escrever “Baleia”, que saiu como conto em jornal, o autor explica:

[...] Dediquei em seguida várias páginas aos donos do animal. Essas coisas foram vendidas em
retalho, a jornais e revistas. E como [o editor] José Olympio me pedisse um livro para o começo do
ano passado, arranjei outras narrações, que tanto podem ser contos como capítulos de romance.
Assim nasceram Fabiano, a mulher, os dois filhos e a cachorra Baleia.
Sobre o enfoque dado aos personagens, Graciliano comentou:

[...] O que me interessa é o homem, e homem daquela região aspérrima. Julgo que é a primeira
vez que esse sertanejo aparece em literatura. [...] Procurei auscultar a alma do ser rude e quase
primitivo que mora na zona mais recuada do sertão, observar a reação desse espírito bronco ante o
mundo exterior, isto é, a hostilidade do meio físico e da injustiça humana. Por pouco que o selvagem
pense – e os meus personagens são quase selvagens – o que ele pensa merece anotação.

RAMOS, Graciliano. In: GARBUGLIO, José C.; BOSI, Alfredo; FACIOLI, Valentim (Org.).
Graciliano Ramos: antologia & estudos. São Paulo: Ática, 1987. p. 63-64. (Fragmentos).

Leitura
O trecho a seguir mostra um acerto de contas entre Fabiano e o dono da fazenda onde ele morava.
[O mundo dos homens sabidos]

Pouco a pouco, o ferro do proprietário queimava os bichos de Fabiano. E quando não tinha mais nada para
vender, o sertanejo endividava-se. Ao chegar a partilha, estava encalacrado, e na hora das contas davam-lhe
uma ninharia.
Ora, daquela vez, como das outras, Fabiano ajustou o gado, arrependeu-se, enfim deixou a transação
meio apalavrada e foi consultar a mulher. Sinhá Vitória mandou os meninos para o barreiro, sentou-se na
cozinha, concentrou-se, distribuiu no chão sementes de várias espécies, realizou somas e diminuições. No dia
seguinte Fabiano voltou à cidade, mas ao fechar o negócio notou que as operações de sinhá Vitória, como de
costume, diferiam das do patrão. Reclamou e obteve a explicação habitual: a diferença era proveniente de
juros.
Não se conformou: devia haver engano. Ele era bruto, sim senhor, via-se perfeitamente que era bruto, mas
a mulher tinha miolo. Com certeza havia um erro no papel do branco. Não se descobriu o erro, e Fabiano
perdeu os estribos. Passar a vida inteira assim no toco, entregando o que era dele de mão beijada! Estava
direito aquilo? Trabalhar como negro e nunca arranjar carta de alforria!
O patrão zangou-se, repeliu a insolência, achou bom que o vaqueiro fosse procurar serviço noutra fazenda.
Aí Fabiano baixou a pancada e amunhecou. Bem, bem. Não era preciso barulho não. Se havia dito palavra à
toa, pedia desculpa. Era bruto, não fora ensinado. Atrevimento não tinha, conhecia o seu lugar. Um cabra. Ia lá
puxar questão com gente rica? Bruto, sim senhor, mas sabia respeitar os homens. Devia ser ignorância da
mulher, provavelmente devia ser ignorância da mulher. Até estranhara as contas dela. Enfim, como não sabia
ler (um bruto, sim senhor), acreditara na sua velha. Mas pedia desculpa e jurava não cair noutra.
O amo abrandou, e Fabiano saiu de costas, o chapéu varrendo o tijolo. Na porta, virando-se, enganchou as
rosetas das esporas, afastou-se tropeçando, os sapatões de couro cru batendo no chão como cascos.
Foi até a esquina, parou, tomou fôlego. Não deviam tratá-lo assim. [...] Sentou-se numa calçada, tirou do
bolso o dinheiro, examinou-o, procurando adivinhar quanto lhe tinham furtado. Não podia dizer em voz alta
que aquilo era um furto, mas era. Tomavam-lhe o gado quase de graça e ainda inventavam juro. Que juro! O
que havia era safadeza.
– Ladroeira.
Nem lhe permitiam queixas. Porque reclamara, achara a coisa uma exorbitância, o branco se levantara
furioso, com quatro pedras na mão. Para que tanto espalhafato?
– Hum! hum!
Recordou-se do que lhe sucedera anos atrás, antes da seca, longe. Num dia de apuro recorrera ao porco
magro que não queria engordar no chiqueiro e estava reservado às despesas do Natal: matara-o antes de
tempo e fora vendê-lo na cidade. Mas o cobrador da prefeitura chegara com o recibo e atrapalhara-o. Fabiano
fingira-se desentendido: não compreendia nada, era bruto. Como o outro lhe explicasse que, para vender o
porco, devia pagar imposto, tentara convencê-lo de que ali não havia porco, havia quartos de porco, pedaços
de carne. O agente se aborrecera, insultara-o, e Fabiano se encolhera. Bem, bem. Deus o livrasse de história
com o governo. Julgava que podia dispor dos seus troços. Não entendia de imposto.
– Um bruto, está percebendo?
Supunha que o cevado era dele. Agora se a prefeitura tinha uma parte, estava acabado. Pois ia voltar para
casa e comer a carne. Podia comer a carne? Podia ou não podia? O funcionário batera o pé agastado e Fabiano
se desculpara, o chapéu de couro na mão, o espinhaço curvo.
– Quem foi que disse que eu queria brigar? O melhor é a gente acabar com isso.
Despedira-se, metera a carne no saco e fora vendê-la noutra rua, escondido. Mas, atracado pelo cobrador,
gemera no imposto e na multa. Daquele dia em diante não criaria mais porcos. Era perigoso criá-los.
RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 74. ed. Rio de Janeiro: Record, 1998. p. 92-95. (Fragmento).

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São Bernardo: a tragédia de um homem agreste

No romance São Bernardo, o social e o psicológico se fundem para criar uma obra-prima de
análise das relações humanas.
A história é contada em primeira pessoa pelo personagem principal, Paulo Honório, dono da
fazenda São Bernardo. Astucioso, desonesto, não hesita em amedrontar ou corromper as pessoas
para conseguir o que deseja. Frio e calculista, enriquece em pouco tempo.
A fim de garantir um herdeiro para sua propriedade, o protagonista casa-se com Madalena,
professora desempregada que vive com uma tia velha. Madalena e Paulo Honório, porém, são
pessoas muito diferentes, encaram a vida de ângulos opostos. Ela é a única pessoa que ele não
consegue transformar em objeto, em coisa. A mulher resiste e discute frequentemente a situação dos
empregados da fazenda, tentando melhorar, um pouco que seja, a condição de vida deles.
Essa atitude da esposa irrita Paulo Honório, despertando nele uma raiva funda e ao mesmo tempo
uma confusão mental que o atormenta. O casal tem um filho, mas a situação não se modifica. As
discussões frequentes e o ciúme exagerado do marido tornam a vida de Madalena um inferno,
levando-a ao suicídio.
Pouco a pouco, os empregados abandonam a fazenda São Bernardo, arruinada por uma queda nos
negócios. Sozinho, Paulo Honório vê sua vida destruída.
O romance, na verdade, é a narração de Paulo Honório, em retrospectiva, da vida que levou. Ele
sente uma estranha necessidade de escrever, numa tentativa de compreender, pela escrita, não só os
fatos de sua trajetória, como também sua própria mulher, suas atitudes, seu modo de ver as coisas e
as pessoas. À medida que a narração avança, aumenta sua consciência em relação ao significado de
sua vida, e o balanço que ele faz é trágico:
Cinquenta anos! Quantas horas inúteis! Consumir-se uma pessoa a vida inteira sem saber para
quê! Comer e dormir como um porco! Como um porco! Levantar-se cedo todas as manhãs e sair
correndo, procurando comida! E depois guardar comida para os filhos, para os netos, para muitas
gerações. Que estupidez! Que porcaria! Não é bom vir o diabo e levar tudo? [...]

É a sinistra conclusão de um homem que, perdido nos laços confusos do sistema social, acabou
por desumanizar-se para poder viver: “A culpa foi minha, ou antes a culpa foi desta vida agreste, que
me deu uma alma agreste”.

Leitura
O trecho apresentado a seguir é o desfecho do romance.

[Solidão]

As janelas estão fechadas. Meia-noite. Nenhum rumor na casa deserta.


Levanto-me, procuro uma vela, que a luz vai apagar-se. Não tenho sono. Deitar-me, rolar no colchão até a
madrugada, é uma tortura. Prefiro ficar sentado, concluindo isto. Amanhã não terei com que me entreter.
Ponho a vela no castiçal, risco um fósforo e acendo-a. Sinto um arrepio. A lembrança de Madalena
persegue-me. Diligencio afastá-la e caminho em redor da mesa. Aperto as mãos de tal forma que me firo com
as unhas, e quando caio em mim estou mordendo os beiços a ponto de tirar sangue.
De longe em longe sento-me fatigado e escrevo uma linha. Digo em voz baixa:
– Estraguei a minha vida, estraguei-a estupidamente.
A agitação diminui.
– Estraguei a minha vida estupidamente.
Penso em Madalena com insistência. Se fosse possível recomeçarmos... Para que enganar-me? Se fosse
possível recomeçarmos, aconteceria exatamente o que aconteceu. Não consigo modificar-me, é o que mais me
aflige.
A molecoreba de Mestre Caetano arrasta-se por aí, lambuzada, faminta. A Rosa, com a barriga quebrada de
tanto parir, trabalha em casa, trabalha no campo e trabalha na cama. O marido é cada vez mais molambo. E os
moradores que me restam são uns cambembes como ele.
Para ser franco, declaro que esses infelizes não me inspiram simpatia. Lastimo a situação em que se acham,
reconheço ter contribuído para isso mas não vou além. Estamos tão separados! A princípio estávamos juntos,
mas esta desgraçada profissão nos distanciou.
Madalena entrou aqui cheia de bons sentimentos e bons propósitos. Os sentimentos e os propósitos
esbarraram com a minha brutalidade e o meu egoísmo.
Creio que nem sempre fui egoísta e brutal. A profissão é que me deu qualidades tão ruins.
E a desconfiança terrível que me aponta inimigos em toda a parte!
A desconfiança é também consequência da profissão.
Foi este modo de vida que me inutilizou. Sou um aleijado. Devo ter um coração miúdo, lacunas no cérebro,
nervos diferentes dos nervos dos outros homens. E um nariz enorme, uma boca enorme, dedos enormes.
Se Madalena me via assim, com certeza me achava extraordinariamente feio.
Fecho os olhos, agito a cabeça para repelir a visão que me exibe essas deformidades monstruosas.
A vela está quase a extinguir-se.
Julgo que delirei e sonhei com atoleiros, rios cheios e uma figura de lobisomem.
Lá fora há uma treva dos diabos, um grande silêncio. Entretanto o luar entra por uma janela fechada e
o nordeste furioso espalha folhas secas no chão.
É horrível! Se aparecesse alguém... Estão todos dormindo.
Se ao menos a criança chorasse... Nem sequer tenho amizade a meu filho. Que miséria!
Casimiro Lopes está dormindo. Marciano está dormindo. Patifes!
E eu vou ficar aqui, às escuras, até não sei que hora, até que, morto de fadiga, encoste a cabeça à mesa e
descanse uns minutos.
RAMOS, Graciliano. São Bernardo. 66. ed. São Paulo: Record, 1996. p. 188-191. (Fragmento).

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José Lins do Rego

José Lins do Rego nasceu em Pilar (PB), em 1901, e morreu na cidade do Rio de Janeiro, em 1957.
Em 1947, fez o seguinte autorretrato:

Tenho 46 anos, moreno, cabelos pretos, com meia dúzia de fios brancos, 1 metro e 74 centímetros,
casado, com três filhas e um genro. 86 quilos bem pesados, muita saúde e muito medo de morrer.
Não gosto de trabalhar, não fumo, durmo com muitos sonos, e já escrevi onze romances. Se chove,
tenho saudades do sol; se faz calor, tenho saudades da chuva. Vou ao futebol, e sofro como um
pobre-diabo. Jogo tênis, pessimamente, e daria tudo para ver o meu clube [Flamengo] campeão de
tudo.
REGO, José Lins do. In: ABDALA Jr., Benjamin. José Lins do Rego. São Paulo: Abril Educação, 1982. p. 3.
(Literatura Comentada). (Fragmento). © Herdeiros de José Lins do Rego, 1957.

Os romances em que José Lins do Rego tratou da vida nos engenhos, da decadência das velhas
estruturas econômicas do Nordeste e dos desmandos dos patrões autoritários costumam ser reunidos
no que ele próprio chamou de “ciclo da cana-de-açúcar”: Menino de
engenho (1932), Doidinho (1933), Banguê (1934), Usina(1936) e Fogo morto (1943). Escreveu
ainda Pedra bonita (1938) e Cangaceiros (1953), que compõem o “ciclo do cangaço, misticismo e
seca”; O moleque Ricardo (1935), Pureza (1937), Riacho doce (1939), Água-mãe (1941)
e Eurídice (1947), além de crônicas, conferências, livros infantis e memórias de viagens.
Fogo morto: um Nordeste em transformação
O romance Fogo morto é considerado a obra-prima de José Lins do Rego. Ambientado na
cidadezinha paraibana de Pilar, faz parte do “ciclo da cana-de-açúcar” e é dividido em três partes.
“O mestre José Amaro” é o título da primeira parte, que enfoca principalmente a figura de um
velho seleiro frustrado, que mora com a mulher e a filha nas terras do Engenho Santa Fé, cujo dono,
Lula de Holanda, quer que ele vá embora. Às brigas com o senhor de engenho somam-se as
desilusões com a própria profissão e com a vida familiar.
“O engenho de seu Lula” é o título da segunda parte e trata, sobretudo, da história do Engenho
Santa Fé, que prosperou com seu primeiro dono, o capitão Tomás Cabral de Melo, mas que foi se
acabando nas mãos do genro, Luís César de Holanda Chacon, o seu Lula, casado com Amélia.
“O capitão Vitorino” é o título da terceira parte. Compadre do mestre Amaro, Vitorino é uma
espécie de herói quixotesco, que vive lutando por justiça e enfrentando os poderosos da terra. No
início do romance ninguém o respeita, nem a própria esposa, Adriana, nem o mestre Amaro: ambos o
consideram um moleirão imprestável, cujas críticas ninguém leva a sério. Na rua as crianças o
ridicularizam, chamando-o de “Papa-Rabo”. Contudo, depois que ele enfrenta o tenente Maurício,
chefe das tropas policiais, e mais tarde o cangaceiro
Antônio Silvino, o povo passa a respeitá-lo e tê-lo como homem muito valente. No fim da história,
Vitorino é o único que permanece firme, pois o mestre Amaro, não suportando as frustrações e a
solidão (a filha enlouquece e é internada; a mulher o abandona), acaba por suicidar-se, e o coronel
Lula, atacado por doenças, está praticamente morto.
Destaca-se, nesse romance, a habilidade do autor em estruturar as sequências narrativas,
entrelaçando as ações dos personagens em todas as partes e fixando a decadência econômica do
Engenho Santa Fé, juntamente com a derrocada da própria vida das famílias que lá moravam.

Leitura

Este trecho pertence à primeira parte e mostra as reflexões de mestre José Amaro depois de ter
recebido ordem para sair das terras do Engenho Santa Fé. Sua filha, Marta, piorava e a loucura
progredia; ficou, então, resolvido que ela seria internada. O aspecto doentio do mestre e seus
passeios à noite fizeram correr o boato de que ele era um lobisomem.

[Angústia]
E não falou mais. Foi para a sua rede, enjeitou a janta, e na escuridão do quarto as coisas começaram a
rodar na cabeça. Não haveria um direito para ele? A terra era do senhor de engenho, e ele que se danasse, que
fosse com os seus cacos para o inferno. Um ódio de morte tomou-o de repente. Não sentira aquilo no momento
em que o coronel lhe falara. Era um maluco, não tinha raiva dele. Mas na escuridão, na rede que rangia nos
armadores de corda, tinha raiva, tinha uma vontade de destruição, de matar, de acabar com o outro. As
gargalhadas de Marta enchiam a casa. Teria uma filha na Tamarineira. O infeliz daquele
negro Floripes pagaria. E sem querer, levantou-se da rede. Abriu a janela do quarto e o céu estrelado pinicava
na escuridão da noite. Andou para a porta e pensou em sair um pouco. Lobisomem. Os meninos correram de
sua figura, ouviu gente batendo porta por sua causa. Foi até a pitombeira e sentou-se em cima da raiz. O que
havia nele para espantar os meninos, para meter medo aos velhos? Todo o ódio ao negro Floripes sumiu-se.
Uma onda de frio passou-lhe pelo corpo. O que tinha nele para fazer medo, para fazer correr gente? Lembrou-
se da noite da morte da velha Lucinda. Ligou tudo. Correram dele. Lobisomem. Em menino falavam dos que
saíam de noite para beber sangue, matar inocentes, correr como bicho danado. E sem saber explicar, o mestre
José Amaro examinou-se com pavor. O que havia no seu corpo, nos seus gestos, na sua vida? A filha
endoidecera. Mas isto nada tinha que ver com a invenção do povo. Ele não saía de casa, nunca fizera mal a
ninguém. E por que seria o monstro que alarmava o povo? A noite escura chiava nos insetos; ladrava um
cachorro do seu Lucindo. Sinhá e a comadre conversavam. E a filha no falatório, na gargalhada, no sofrimento
pior deste mundo. O mestre não encontrava apoio para fugir da preocupação. Entrou outra vez para o quarto,
e não tinha paz, não estava seguro de nada. As ameaças do coronel Lula, a raiva a Floripes, tudo se diluíra
com aquele pavor que lhe enchia o coração. Tinha medo e não sabia de que era. Ele fazia correr menino na
estrada. Era o lobisomem do povo, um filho do diabo, encantando-se nas moitas escuras. Nunca um
pensamento lhe doera tanto. Latia aquele cachorro como se estivesse acuando um bicho. Àquela hora as
mulheres rezariam, estariam com a ideia no lobisomem que imaginavam com as unhas grandes, a cabeça
comprida de lobo, a forma de monstro em desadoro. Corria um vento que lhe esfriava os pés. Por que seria ele
para a crença do povo aquele pavor, aquele bicho? O que fizera para merecer isto? O coração batia-lhe muito
forte. Não. No outro dia teria que fazer qualquer coisa para acabar com aquela história. Laurentino e Floripes
pagariam. Eram eles os criadores daquela miséria. A filha no outro dia sairia para o Recife. A sua casa ficaria
mais só, mais cheia de tristeza. Mesmo assim amava a sua casa. E se fosse embora e procurasse outra terra
para acabar os seus dias? O coronel lhe pedira a casa. Era um bom pretexto para fugir do povo que lhe queria
mal, que o via como uma desgraça, uma criatura do diabo. Estaria tudo resolvido. O mestre José Amaro
encontraria um engenho no Itambé, uma terra que o acolhesse, um povo que o amasse. Encontraria, não havia
dúvida. Mas o diabo era aquele recado do cego Torquato. Um pedido do capitão Antônio Silvino para ele.
Alípio lhe dissera com toda a sua alma: “Mestre, não saia desta terra”. Sem dúvida todos do bando precisavam
dele. Sabia que a sua casa ficava num ponto de passagem de primeira ordem. Ali era a passagem para todos os
cantos. O capitão precisava de um homem de confiança para lhe dar as notícias. Ali Alípio e o cego Torquato
iriam saber do movimento da tropa. E não havia quem desconfiasse de nada. Só Sinhá sabia. Tinha receio de
sua mulher. Era sua inimiga. Por quê? O que fizera para aquele ódio terrível de Sinhá? Desde aquela noite da
surra em Marta que ela ficara daquele jeito, sem falar em casa, de cara fechada, cuidando das coisas como uma
criada. Sinhá sabia da sua ligação com o capitão. Contaria alguma coisa à amiga Adriana? Seria perigoso. A
sua comadre andava de casa em casa, e podia largar uma palavra e tudo estaria perdido. Sinhá teria força para
calar-se? Conversavam muito no quarto dos fundos. Só, muito só, em sua vida. Levantou-se da rede e chegou
até fora de casa. A noite era de muita escuridão. Só as estrelas se viam no céu, e tudo mais, de um pretume só.
[...]
REGO, José Lins do. Fogo morto. 50. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1998. p. 104-106. (Fragmento).
© Herdeiros de José Lins do Rego, 1957.

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Erico Verissimo
Os romances do gaúcho Erico Verissimo (1905-1975), um dos
autores mais populares do Modernismo, podem ser divididos
em duas fases principais.
A primeira fase reúne as obras que transcorrem num
ambiente urbano e contemporâneo, onde personagens vivem
problemas existenciais numa sociedade em crise. Nela se
destacam: Um lugar ao sol (1936), Olhai os lírios do
campo (1938), Saga (1940) e O resto é silêncio(1943).
Erico Verissimo. s.d.
Leonid Streliaev/
Na segunda fase, o autor deixa de lado o presente e
Abril Imagens
mergulha numa ampla obra cíclica, de vários volumes,
denominada O tempo e o vento, cujo objetivo é reconstituir as origens e os episódios da formação
social do Rio Grande do Sul. É composta dos romances O continente (1949), O retrato (1951) e O
arquipélago (1961).
Nos últimos livros, o autor iniciou uma nova temática em sua ficção, voltando-se para assuntos
políticos, como em O prisioneiro (1967), O senhor embaixador (1965) e Incidente em Antares (1971).
Em 1973, publica sua última obra, Solo de clarineta, um livro de memórias.
Como exemplo da ficção de temática social urbana da segunda fase do Modernismo, vejamos seu
romance Olhai os lírios do campo.

Olhai os lírios do campo: os desencontros do amor

Publicado em 1938, esse romance projetou Erico Verissimo por todo o país. Estruturado em dois
planos narrativos (presente e passado) que se desenvolvem paralelamente, o livro focaliza a vida
tumultuada de Eugênio, rapaz de origem humilde que, à custa de muito sacrifício, consegue formar-
se médico. Apaixona-se por uma colega de faculdade, Olívia, que o compreende e ajuda a superar as
crises existenciais. No entanto, querendo ascender socialmente, acaba se casando com Eunice, jovem
da alta sociedade que vive num mundo bem diferente do seu.
Por fim, abandona a medicina para trabalhar na fábrica do sogro. Mas, pouco a pouco, percebe
que o casamento foi um equívoco, pois sente-se deslocado naquele meio social em que o dinheiro é o
valor supremo. Envolve-se com Isabel e se torna seu amante; dentro dele, porém, nada se modifica.
Angustiado, Eugênio volta a procurar a companhia de Olívia, que o conforta. Algum tempo depois
ela morre, deixando-lhe uma filha e um grande vazio.