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FUNDAÇÃO DE ENSINO SUPERIOR DE CAJAZEIRAS – FESC

FACULDADE DE FILOSOFIA, CIÊNCIAS E LETRAS DE CAJAZEIRAS – FAFIC


CURSO DE BACHARELADO EM SERVIÇO SOCIAL

JERISNALDA ALVES MARINHO MANIÇOBA

FAMÍLIA E SAÚDE MENTAL: REFLEXÕES SOBRE A PARTICIPAÇÃO DOS


FAMILIARES NO TRATAMENTO DE USUÁRIOS DO CENTRO DE ATENÇÃO
PSICOSSOCIAL (CAPS)

CAJAZEIRAS – PB
2020
JERISNALDA ALVES MARINHO MANIÇOBA

FAMÍLIA E SAÚDE MENTAL: REFLEXÕES SOBRE A PARTICIPAÇÃO DOS


FAMILIARES NO TRATAMENTO DE USUÁRIOS DO CENTRO DE ATENÇÃO
PSICOSSOCIAL (CAPS)

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado a


Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de
Cajazeiras – FAFIC como requisito parcial
para obtenção do grau de Bacharel em Serviço
Social.

Orientadora: Prof.ª Ma. Glaucia Maria de


Oliveira Carvalho

CAJAZEIRAS – PB
2020
JERISNALDA ALVES MARINHO MANIÇOBA

FAMÍLIA E SAÚDE MENTAL: REFLEXÕES SOBRE A PARTICIPAÇÃO DOS


FAMILIARES NO TRATAMENTO DE USUÁRIOS DO CENTRO DE ATENÇÃO
PSICOSSOCIAL (CAPS)

Trabalho de conclusão de curso apresentado à


Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de
Cajazeiras – FAFIC, como requisito parcial
para a obtenção do grau de Bacharel em
Serviço Social.

Aprovado em: ___/___/___

BANCA EXAMINADORA

____________________________________________
Prof.ª Ma. Gláucia Maria de Oliveira Carvalho (FAFIC)
ORIENTADORA

___________________________________________
Prof.ª Ma. Fernanda Fernandes Barbosa (FAFIC)
EXAMINADORA

___________________________________________
Prof.ª Ma. Palloma Maria Gomes Jácome (FAFIC)
EXAMINADORA
Dedico este trabalho aos meus pais Maria e
Geraldo Marinho, aos meus irmãos e irmãs e a
todos aqueles que me serviram de inspiração a
não desistir da vida acadêmica e que com
palavras ou gestos demonstraram acreditar no
meu potencial.
AGRADECIMENTOS

Este trabalho foi fruto de muito esforço, persistência e determinação, ele foi realizado
em meio a um profundo processo de transformação e crescimento vivido por mim no primeiro
semestre deste ano e último semestre da minha vida acadêmica, evoluí imensamente como ser
humano.
Agradeço primeiramente a Deus, que me deu força, saúde e sabedoria necessárias para
atravessar esse percurso e conseguir conciliar estudo e trabalho sem enlouquecer.
Durante essa jornada, tive apoio de pessoas muito importantes e que contribuíram de
forma efetiva para a concretização deste trabalho, pessoas que acreditaram no meu potencial
quando muitas vezes eu mesma questionei. Meu pai (Geraldo Marinho), minha mãe (Maria
Marinho), minhas irmãs Reinalda e Francisca (Cizô) e a Assistente Social Maria do Socorro
Cartaxo (Corrinha de Creuza), vocês nem imaginam o quanto eu quis desistir, mas lembrar do
apoio e das palavras de incentivo que incansavelmente ouvi de vocês não me permitiram fazer
isso. Sou profundamente grata. Amo-os profundamente.
Agradeço de forma especial aos meus amigos Emanuel e Fernando, que sempre
caminharam comigo e estiveram presentes em quase todas as fases de minha vida, superei as
piores porque pude contar com o apoio e a amizade de vocês. Palloma e Ana Beatriz Lins
foram minhas companheiras de passeios e diversão, partilhamos as mais profundas
confissões.
A FAFIC, além de me ofertar a oportunidade de crescer como ser humano e futura
profissional ampliou meu círculo de amizades, me apresentou duas amigas incríveis que
gostarei para sempre e morrerei de saudades: Ana Beatriz Monteiro, como eu ri com você e de
você nas idas e vindas da Faculdade, seu jeito debochado e irônico me rendem risadas até
hoje. Fabiana, odiei você por uns dois ou três semestres desta graduação, mas durante esse
percurso quase sobrou só nós duas e isso nos fez muito próximas, quase que uma enlouqueceu
a outra.
De forma muito especial, agradeço a minha orientadora Prof.ª Gláucia Maria de
Oliveira, pelos ensinamentos compartilhados e pela disponibilidade em me orientar todas as
vezes que precisei. Sua atenção e apoio constante me fez ter forças para concluir esse
importante trabalho.
A vida acadêmica é uma viagem incomparável. É um mergulho no desconhecido. É
uma experiência única, a qual ninguém deveria deixar de viver, ninguém será o mesmo depois
de ter passado por esta vivência e por isso hoje percebo que apesar de todas as dificuldades,
de todos os desafios e de todas as abdicações é completamente válida e recompensadora. Pois
a vitória e o sucesso não vêm para quem quer, mas somente para quem ousa buscá-la.
“A Psicologia nunca poderá dizer a verdade sobre
a loucura, pois é a loucura que detém a verdade
da Psicologia”.

Michel Foucault.
RESUMO

A integração da família no amparo ao portador de transtornos mentais é compreendida como


um conjunto articulado e contínuo de ações e serviços que abrangem desde a prevenção,
tratamento, até mesmo a cura, quando esta é possível, exigindo atendimento em todos os
níveis de complexidade. Na atenção em saúde mental, esse vínculo familiar vem se
destacando a partir do Movimento de Reforma Psiquiátrica que propõe uma rede de
assistência integral à saúde mental, rompendo com o modelo hospitalocêntrico. Assim, a
realização deste estudo tem por objetivo principal analisar a necessidade de inserção,
colaboração e apoio da família no processo de tratamento dos usuários do Centro de Atenção
Psicossocial, na cidade de Cajazeiras, com a finalidade de compreender melhor essa
problemática. Para tanto, buscamos como objetivos específicos: realizar um estudo sobre os
modelos de serviços ofertados na saúde mental e seu processo sócio histórico; compreender a
implementação dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS); e, identificar como se realiza a
integração da família no atendimento às pessoas com transtorno mental. Desenvolvemos uma
pesquisa de cunho exploratório e qualitativo, a partir de revisão bibliográfica de autores com
uma perspectiva teórico-crítica, realizamos análises de legislações que regulamentam a
política de saúde mental, na expectativa de compreender os desafios institucionais impostos
para a efetivação do amparo ao portador de saúde mental, bem como pesquisa de campo com
a família dos usuários. Dessa forma, entendemos que o envolvimento familiar no processo de
tratamento das pessoas com transtorno mental é necessário e imprescindível para um
atendimento mais eficaz e humanizado.

Palavras-chave: Saúde mental. Centro de Atenção Psicossocial. Família.


ABSTRACT

The integration of the family in the protection of patients with mental disorders is understood
as an articulated and continuous set of actions and services that range from prevention,
treatment, even cure, when this is possible, requiring care at all levels of complexity. In
mental health care, this family bond has been standing out from the Psychiatric Reform
Movement that proposes a comprehensive mental health care network, breaking with the
hospital-centered model. Thus, the main objective of this study is to analyze the need for
insertion, collaboration and support from the family in the process of treating users of the
Psychosocial Care Center, in the city of Cajazeiras, with the purpose of had better understand
this problem. Therefore, we seek as specific objectives: to carry out a study on the models of
services offered in mental health and their socio-historical process; understand the
implementation of Psychosocial Care Centers (CAPS); and, to identify how the family is
integrated in the care of people with mental disorders. We developed an exploratory and
qualitative research, based on a bibliographic review of authors with a theoretical-critical
perspective, we carried out analyzes of laws that regulate mental health policy, in the
expectation of understanding the institutional challenges imposed for the effective support of
the bearer mental health, as well as field research with users' families. Thus, we understand
that family involvement in the treatment of people with mental disorders is necessary and
indispensable for more effective and humanized care.

Keywords: Mental health. Psychosocial Care Center. Family.


LISTA DE SIGLAS

CAPS Centro de Atenção Psicossocial


CAPs Caixas de Aposentadorias e Pensões
IAPs Instituto de Aposentadorias e Pensões
INPS Instituto Nacional da Previdência Social
LOAS Lei Orgânica de Assistência Social
MTSM Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental
NAPS Núcleo de Atenção Psicossocial
NOBs Normas Operacionais Básicas de Saúde
PRH Programa Anual de Reestruturação da Assistência Hospitalar
SUS Sistema Único de Saúde
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO.................................................................................................................. 10

2 ASPECTOS HISTÓRICOS DA POLÍTICA DE SAÚDE MENTAL NO BRASIL ... 13


2.1 Histórico da loucura e o antigo modelo de assistência hospitalocêntrica ........................ 13
2.2 A Reforma Psiquiátrica e a construção de um novo conceito de saúde
mental...................................................................................................................................... 22

3 TRANSTORNO MENTAL E O AMPARO FAMILIAR.............................................. 30


3.1 O surgimento do Centro de Atenção Psicossocial............................................................ 30
3.2 A participação da família no amparo à pessoa com transtorno mental............................ 36

4 AS FAMÍLIAS NO PROCESSO DE TRATAMENTO DOS USUÁRIOS DO


CENTRO DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL: Resultados do Estudo ............................. 38
4.1 Aspectos metodológicos do estudo .................................................................................. 38
4.2 O envolvimento familiar no tratamento de usuários com transtorno mental ................... 41

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................................... 51

REFERÊNCIAS.................................................................................................................... 53

APÊNDICES
ANEXOS
10

1 INTRODUÇÃO

A promoção da saúde está disposta no Art. 196 da Constituição Federal de 1988 e na


Lei 8.080/90, como uma estratégia norteadora de ação e serviços, a qual preconiza a busca de
garantia do direito à saúde e por uma melhor qualidade de vida, visando sempre à
integralidade e o fortalecimento de políticas intersetoriais.
Costa (2014) aborda a promoção da saúde como uma estratégia de articulação
transversal, visando sempre à criação de mecanismos que reduzam as situações de
vulnerabilidade e potencializando os fatores de proteção propiciando uma melhor qualidade
de vida defendendo sempre a equidade e a construção de políticas públicas.
Ao se reportar às políticas públicas de apoio à família em situações que envolvem
saúde mental, é fato que o apoio da família no tratamento da pessoa com transtorno mental
ainda é um grande desafio a ser enfrentado cotidianamente. É de grande relevância o papel da
família com relação à promoção da saúde no âmbito da saúde mental, uma vez que sua
intervenção está voltada na garantia dos direitos e serviços que visem à promoção, proteção e
recuperação em saúde, numa perspectiva do processo saúde-doença que são os fatores
determinantes e condicionantes da produção da saúde.
As doenças mentais não escolhem idade, status socioeconômico, nível de instrução,
cor, raça ou credo. Trata-se de um problema antigo, em que o indivíduo pode manifestar
desajustes de pensamento, emocionais ou até mesmo de ordem comportamental. Alterações
em níveis moderados são considerados comuns, mas quando interferem na vida cotidiana, são
consideradas uma doença mental ou um transtorno de saúde mental.
Nessa perspectiva, a partir de nossa experiência de estágio supervisionado em Serviço
Social, realizada no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) II, foi possível identificar a
carência de políticas públicas voltadas ao amparo destas famílias, pois, a reforma psiquiátrica
ao ser consolidada propôs a família como corresponsável no tratamento de reabilitação
psíquica destes sujeitos.
Para tanto, este estudo tem o intuito de identificar a importância da inserção e
participação do núcleo familiar no processo terapêutico desenvolvido pelo CAPS II,
pontuando a necessidade e a relevância de que os serviços oferecidos pelo CAPS II devem
também ser estendidos a família, pois, em geral não estão preparadas para lidar com um
membro com sofrimento mental.
11

Diante dessa realidade, consideramos importante aprofundar o conhecimento sobre a


política de saúde mental no Brasil, seja por meio da leitura de obras variadas, seja por meio de
pesquisas já realizadas.
A partir dessas premissas, o objetivo geral consiste em analisar a necessidade de
inserção, colaboração e apoio da família no processo de tratamento dos usuários do Centro de
Atenção Psicossocial (CAPS II), na cidade de Cajazeiras-PB. Também se propõe,
especificamente, a realizar um estudo sobre os modelos de serviços ofertados na saúde mental
e seu processo sócio histórico; compreender a implementação dos Centros de Atenção
Psicossocial (CAPS); e, identificar como se realiza a integração da família no atendimento às
pessoas com transtorno mental.
Assim, no que se refere ao percurso metodológico, o estudo é do tipo qualitativo,
ancorado no método crítico dialético, em que, realizamos revisão bibliográfica, análise de
documentos oficiais sobre saúde mental no Brasil e, desenvolvemos pesquisa de campo com
os familiares das pessoas com transtorno mental atendidas no CAPS II.
O presente estudo subdivide-se, além dessa parte introdutória, em mais três seções e as
considerações finais.
Na segunda seção, foi feita uma discussão acerca dos aspectos históricos da política de
saúde mental brasileira, desde suas primeiras intervenções no século XVIII, em que se deu
início à cultura hospitalocêntrica, um modelo psiquiátrico resultante de estratégias da classe
dominante em camuflar as diversas expressões da questão social, que se intensificavam no
final do citado século.
Na terceira seção, apresenta-se a política de saúde mental a partir da criação dos
Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), criado face ao cenário excludente, que só é mudado
após a Reforma Psiquiátrica, nos anos de 1970, quando profissionais da área de saúde,
familiares dos usuários e a sociedade civil, passaram a exigir do Estado um novo modelo de
intervenção para os usuários da política de saúde mental.
Na quarta seção, expomos os aspectos metodológicos do estudo, bem como
detalhadamente os resultados do estudo, a partir da discussão sobre promoção da saúde na
atenção em saúde mental, com a participação das famílias no processo de tratamento dos
usuários do Centro de Atenção Psicossocial.
Por fim, tecemos as considerações finais, sinalizando os resultados alcançados, os
quais acreditamos ser de grande relevância para os usuários e suas famílias, bem como para os
profissionais que atuam diretamente com os sujeitos com transtornos mentais.
12

Portanto, percebemos a importância de se trabalhar a promoção da saúde na atenção


em saúde mental, na perspectiva de contribuir com o aprofundamento das discussões sobre
essa problemática ainda pouco explorada. A exposição das tendências favorece o
entendimento do processo de assistência ao doente em tratamento psíquico, na expectativa de
contribuir com os todos os envolvidos com a promoção da saúde mental, colaborando com a
reflexão sobre essa problemática e o desenvolvimento de estratégias para a efetivação das
ações desenvolvidas na saúde mental, especificamente no âmbito do CAPS.
13

2 ASPECTOS HISTÓRICOS DA POLÍTICA DE SAÚDE MENTAL NO BRASIL

Nesta seção apresenta-se a política de saúde mental no Brasil, desde suas primeiras
intervenções no século XVIII, em que se deu início à cultura hospitalocêntrica, compreendida
como um modelo psiquiátrico resultantes de estratégias da classe dominante em camuflar as
diversas expressões da questão social, que se intensificavam no final do citado século.
Portanto, destaca-se aqui o processo histórico que a saúde perpassou até a implantação
da saúde pública com a Promulgação da Constituição Federal. As ações e programas de saúde
objetivavam o controle de doenças epidêmicas. Nesse mesmo cenário, observa-se a
proliferação da medicina liberal que era utilizada apenas pela classe dominante, restando para
maioria da população que não estava inserida no meio do mercado formal de trabalho, apenas
práticas filantrópicas, bastante escassas na época e não abarcava a todos que necessitavam da
assistência à saúde.

2.1 Histórico da loucura e o antigo modelo de assistência hospitalocêntrica

Até o final do século XVII, a loucura e a razão eram vistas de maneira separadas. Só a
partir do advento da Idade Moderna é que se começa a cercear a loucura.

Dessa forma a loucura [...] precisa ser neutralizada por um saber competente
que a segregue do contato maior com o resto da sociedade. Aquilo que é
divergente precisa ser considerado pelos interesses instituídos com desvio
doentio e antissocial, irracional, algo a ser curado ou então excluído [...]
(BISNETO, 2007, p. 176).

Na concepção de Bisneto (2007, p. 174), “a loucura passa a ter como referência a base
social e cultural e não apenas a base biológica”. Portanto, conforme o autor, os determinantes
sociais e culturais têm fortes impactos sobre o processo de loucura. O reconhecimento do
anormal e patológico são ne1cessidades concretas das elites econômicas para poder buscar
explicações para o mau funcionamento da sociedade, retirando assim qualquer parcela de
responsabilidade, colocando estigmas sobre os grupos mais fracos da sociedade.
14

Na sociedade moderna existe uma variedade muito grande de comportamentos,


podendo-se dizer que, o que é aceitável em um grupo social nem sempre é aceitável em outro,
e que nem tudo que é considerado anormal deve passar a ser considerado patológico.
Podemos afirmar que os sujeitos que mais sofreram preconceitos a longo da história
foram aquele considerados loucos, pois, tudo que era considerado diferente não era tolerado
na sociedade. Neste sentido, havia um local reservado para essas pessoas, sendo necessário o
afastamento familiar e comunitário.
A história da psiquiatria brasileira é uma história de asilamento e medicalização da
loucura tornando-a, assim, uma patologia social. No Brasil, só a partir de 1830, com a
chegada da família real, é que o processo de loucura passa a ser objeto de intervenção do
Estado. Então, é só a partir desse momento histórico que essa problemática passa a ser
considerada doença mental, se fazendo necessário, ter um espaço próprio, que é o de
asilamento e exclusão social Bisneto (2007).
Os loucos têm características próprias, pois são:

[...] os miseráveis, os marginais, os pobres e toda a sorte de párias, são ainda


trabalhadores, camponeses, desempregados, índios, negros, “degenerados”,
perigosos, para a ordem pública, retirantes que, de alguma forma ou por
algum motivo, padecem de algo que se convenciona englobar sobre o título
de doença mental (AMARANTE, 1994, p.74).

Assim, a partir da década de 1830, os loucos passam a ser diagnosticados como


doentes mentais. A instituição responsável por fazer esses diagnósticos era a Sociedade de
Medicina do Rio de Janeiro, assim, o tratamento que se dava neste contexto era a reclusão,
isolando o indivíduo do seio social e comunitário.
Sucessiva à Proclamação da República (1889) ocorre a modernização da psiquiatria,
surgem então as primeiras “colônias de alienados”, essas primeiras medidas da Reforma
Psiquiátrica no Brasil baseiam-se no modelo europeu. Dentro dessas colônias os loucos
conviviam fraternalmente, tendo por objetivo central o trabalho, sendo um valor muito
preponderante na sociedade burguesa (AMARANTE, 1994).
É importante destacar que, para compreender a execução de ações no âmbito da saúde
mental nos leva a entender que, historicamente, a política de saúde no Brasil, esteve associada
ao conceito de “cidadania regulada”1, marcada por traços contributivos, as primeiras

1
Cidadania regulada foi o nome proposto pelo sociólogo brasileiro Wanderley Guilherme dos Santos para
designar uma cidadania restrita e sempre vigiada pelo Estado. Cidadania regulada remete à ideia de que o Estado
15

iniciativas no âmbito da saúde, ocorreram apenas no início do século XX, sendo


desenvolvidas ações pontuais, baseadas em um modelo de assistência voltada para campanhas
sanitárias de forte cunho repressor. Só a partir da Lei Eloy Chaves, em 1923, é que surgiram
as primeiras práticas de assistência à saúde de forma sistemática, apenas os que estavam
inseridos no mercado de trabalho formal tinham acesso à saúde neste contexto histórico
(AMARANTE, 1994).
Assim, nos séculos XVIII e XIX não existia intervenção estatal no que diz respeito à
Política de Saúde no Brasil, o Estado ainda não havia reconhecido a saúde como “questão
social”2. Portanto, a saúde não era vista como direito, ficando à mercê da filantropia para
aqueles que não podiam pagar e para os que podiam acessar o mercado, utilizavam os
serviços da medicina liberal, que crescia muito nesse contexto (BRAVO, 2009).
Com o processo de industrialização no Brasil, ocorre uma redefinição do papel do
Estado, que vê a necessidade de intervir na emergente questão de saúde, segundo Bravo
(2009), ocorre o surgimento das políticas sociais, além de outras respostas às reivindicações
dos trabalhadores. Nesse cenário, surge os mecanismos criados pelo Estado para atender os
trabalhadores assalariados que se:

[...] caracterizavam como sujeitos importantes no cenário político, em


decorrência da nova dinâmica de acumulação. Este processo, sob o domínio
do capital industrial, teve como características principais a aceleração da
industrialização e ampliação da massa trabalhadora, em precárias condições
de higiene, saúde e habitação (BRAVO, 2007, p. 91).

Conforme Filho (2006), o Brasil vivenciava inúmeras doenças infecciosas e


parasitárias e situava-se dentre um dos países mais enfermos da América Latina, como
também eram muito elevadas às taxas de mortalidade e morbidade.
A conjuntura que o país vivenciava, para Bravo (2009), era de uma economia voltada
para a agroexportação do café, ocorria a divisão sociotécnica do trabalho, ou seja, com base
no trabalho assalariado. As condições de vida dos trabalhadores eram precarizadas, faltavam

foi capaz, via estruturação de um mecanismo de incorporação dos trabalhadores a uma ordem hierarquizada, e
exercendo o papel de centralizador de todas as demandas, de dar estabilidade ao regime político e um lugar para
a população na estrutura de governo. Através dos direitos sancionados em leis durante o regime, os indivíduos
definiriam o seu status de membros nesta forma de ordenamento social (OLIVEIRA, 2009, p. 8).
2
Segundo Iamamoto e Carvalho (2005, p. 77): Questão social não é senão as expressões do processo de
formação e desenvolvimento da classe operária e de seu ingresso no cenário político da sociedade, exigindo eu
reconhecimento por parte do empresariado e do Estado. É a manifestação, no cotidiano da vida social, da
contradição entre o proletário e a burguesia a qual passa a exigir outros tipos de intervenção, mais além da
caridade e repressão.
16

moradias adequadas e condições sanitárias mínimas. Com o êxodo rural as pessoas passaram
a ocupar as regiões do Brasil sem nenhuma infraestrutura, sendo que o processo de
urbanização do país se deu de forma excludente e acarretou inúmeros problemas sociais,
dentre eles a saúde, iniciando assim a construção das favelas no Brasil.
No ano de 1923, com a aprovação da lei Eloy Chaves é que se gesta o sistema
previdenciário brasileiro, na qual se cria as Caixas de Aposentadorias e Pensões (CAPs) que
atendiam apenas as categorias que estavam atreladas ao setor de exportação, é o caso dos
ferroviários, marítimo e estivadores. A CAPs era financiada por empregadores, empregados e
União. Os benefícios que eram assegurados aos trabalhadores eram proporcionais às
contribuições. Segundo Bravo (2009) era previsto: assistência médica curativa e fornecimento
de medicamentos; aposentadoria por tempo de serviço, velhice e invalidez, pensão para os
dependentes e auxílio funeral.
A previdência e a saúde não eram dissociadas, neste contexto, só tinha acesso a
serviços médicos quem estava inserido no mercado de trabalho formal e os benefícios seriam
de acordo com as contribuições.
Bravo (2009) ressalta ainda que a luta pela cidadania no Brasil começa a ganhar maior
visibilidade no contexto do governo Vargas (1930-1945). Nessa época foram “assegurados”
alguns direitos para os trabalhadores, o Estado autoritário preocupava-se em atender algumas
reivindicações da classe trabalhadora, entretanto, tinha-se como pano de fundo a tutela que
controlava, fragmentava e enfraquecia a classe trabalhadora.
Segundo Aguiar (2011), a crescente massa urbana constituía a força de trabalho para o
emergente setor industrial:

[...]. Esse, por sua vez, passa a exigir cada vez mais investimentos em
infraestrutura de grande porte. O Estado como regulador entre capital e
trabalho, estabelece o salário mínimo, o que junto a outras medidas,
possibilita o acúmulo de capital necessário ao investimento na infraestrutura
demandada pela industrialização (AGUIAR, 2011, p. 23).

Durante o governo de Getúlio Vargas, foram promulgadas as leis trabalhistas que


estabelecem um consenso entre capital e trabalho, ao mesmo tempo em que garante alguns
direitos sociais aos trabalhadores. No âmbito Varguista, “a cidadania era tida como ‘cidadania
regulada’, por discriminar, estratificar e controlar quem trabalha e com quem trabalha”
(MEDEIROS; GUIMARÃES, 2002, p. 574).
17

Para tanto, só a partir da década de 1930 é que surgem as primeiras intervenções


estatais, e o Estado passa a interferir minimamente na saúde enquanto questão social. A
política de saúde nesse contexto era organizada em dois subsetores: o de saúde pública e de
medicina previdenciária. (BRAVO, 2009)
Aguiar (2011) discorre que o subsetor de saúde pública objetivava a criação de
condições sanitárias mínimas para a população urbana, enquanto que o subsetor de medicina
previdenciária surge na década de 1930, com a criação dos Institutos de Aposentadorias e
Pensões (IAPs) buscou-se alcançar um maior número de categorias de trabalhadores
assalariados urbanos, como uma forma de antecipar as reinvindicações dessas categorias e não
para oferecer uma cobertura mais extensiva.

A gestão dos IAPs passou gradativamente para o controle do Estado, sendo o


seu presidente nomeado pelo Presidente da República e os representantes
dos trabalhadores e patrões indicado pelos sindicatos atrelados ao poder
executivo, mudança na prática da escolha por eleição direta. O
financiamento era de forma tripartite, com participação dos empregados,
empregadores e Estado, sendo este último centralizador dos recursos
financeiros [...] (AGUIAR, 2011, p. 24).

A saúde voltada para lógica do mercado já estava estruturada na década de 1950, as


empresas médicas baseadas no corporativismo defendiam o financiamento por parte de Estado
e mercantilização da saúde no país. Nesta década também se fortalece a psiquiatria no que diz
respeito ao aparecimento de novos medicamentos para tratar os transtornos mentais, como por
exemplo, os psicotrópicos.
Como afirma Aguiar (2011), durante o governo de Eurico Gaspar Dutra (1946-1951),
a saúde pública tinha o caráter centralizador, e autoritário, sendo dada ênfase a estruturação de
dois modelos de intervenção na questão da saúde: o sanitarismo campanhista e o curativo-
privatista. O modelo do sanitarismo campanhista é aquele que se dá centrado em uma
abordagem coletiva e ambiental da doença e era marcado pela prática autoritária.
Em relação ao modelo clínico curativo-privativo era aquele realizado através das
CAPs e da medicina liberal que privilegiavam o atendimento individual e dava ênfase à
medicalização do sujeito, negava a relação da doença com as condições de vida dos
indivíduos e a coletividade. Outro elemento importante foi o Plano Salte que tinha como
objetivo oferecer saúde, transporte e alimentação (AGUIAR, 2011).
Em 1953, foi fundado por Getúlio Vargas o Ministério da Saúde dissociado do
Ministério de Educação, sendo que, a proposta da desvinculação do Ministério da Saúde do
18

antigo Ministério da Educação já era algo debatido a algum tempo. Porém, os investimentos
ainda eram mínimos e focalizados.
A política de saúde adotada nesse momento reforçava a antiga dicotomia entre as
ações de caráter coletivo e o modelo curativo-privatista, reforçando dessa forma a dualidade
no modelo assistencial a saúde (FILHO, 2006). Dentro desse contexto, Filho acrescenta que:

A falta de dinheiro impedia que o Estado atuasse com eficácia na péssima


situação de saúde coletiva: faltavam funcionários especializados,
equipamentos apropriados, postos de atendimentos e, sobretudo, faltava
ânimo aos servidores (FILHO, 2006, p. 40).

Aguiar (2011) assevera que, no governo de Juscelino Kubitschek (1956-1960), houve


a promoção de grandes e importantes mudanças econômicas com o apoio do capital
estrangeiro, e põe em ação o Plano de Metas, que tem como objetivo maior a construção de
Brasília para ser a sede da nova capital. No fim de seu governo, o país já tinha uma estrutura
industrial bem desenvolvida, como também o fortalecimento da burguesia industrial. Esse
governo baseava suas ações em uma ideologia desenvolvimentista, mediante a visão das
políticas sociais como paliativas, ampliando o modelo médico-assistencial, que se tornou
hegemônico entre os anos de 1960 a 1980.
Conforme elucida Braga (1986), em meados de 1950, a ideologia
“desenvolvimentista” coloca de outra forma esta questão, invertendo os termos da relação
doença-pobreza, afirmando agora que o desenvolvimento econômico traria consigo,
necessariamente, um melhor nível de saúde a população.
Na conjuntura dos anos de 1960, ocorre a privatização na psiquiatria, na qual a loucura
se torna objeto de lucro, ou seja, torna-se uma mercadoria. Nesse contexto, evidencia-se o
aumento de vagas para internações em hospitais psiquiátricos com caráter privado.
De acordo com os esclarecimentos do autor mencionado, esse modelo privatizante era
de tal forma tão violento, concentrador, fraudulento e ganancioso, que contribuiu com parcela
significativa de responsabilidade para a crise institucional e financeira da Previdência Social
que se deflagrou no início dos anos de 1980.
Somente durante o Regime Militar brasileiro se deu a desintegração do padrão de
proteção que foi constituído nos anos 1930. Segundo explana Brito et al. (2010, p. 01): “a
modernização autoritária da medicina previdenciária redefiniu fronteiras entre os setores
públicos e privados, mediante ação do Estado, que passa a comprar serviços do mercado e
transferir sua função para iniciativa privada”.
19

Neste contexto, afirma-se que a política de saúde assumiu as características


capitalistas, no que se refere à introdução das modificações tecnológicas que ocorreram no
exterior. Portanto, a política da saúde foi progressivamente mercantilizada e privatizada.
Bravo (2009) aponta que no período da Ditadura Militar os problemas sociais não foram
atenuados, mas agudizados. No âmbito da saúde o Estado beneficiou o setor privado em
detrimento do público, em face da “questão social” no período 64/74 o Estado utilizou para
sua intervenção o binômio repressão-assistência, sendo a política assistencial ampliada,
burocratizada e modernizada pela máquina estatal.
Por conseguinte, “no campo da saúde, implantou-se, de modo gradual e intenso, um
sistema de saúde caracterizado pelo predomínio financeiro das instituições previdenciárias e
por uma burocracia técnica que priorizava a mercantilização da saúde” (AGUIAR, 2011, p.
29).
Em 1966, ocorreu a unificação da Previdência social, dando origem à criação do
Instituto Nacional da Previdência Social (INPS), constituindo assim a modernização da
máquina estatal, aumentando o seu poder regulatório sobre a sociedade.
A política de saúde precisava passar pelos moldes do capital, ocorrendo a
mercantilização da saúde no Brasil, a assistência médica era individual, não se centrava em
práticas coletivas e estava dissociada a prevenção da cura. Na verdade, esperava-se o
aparecimento de patologias para poder tratá-las.

Assim, o INPS passou a ser o grande comprador de serviços privados de


saúde, estimulando um padrão de organização da prática médica pela lógica
do lucro, modalidade em que as empresas contratavam uma empresa médica
para assistência de seus empregados, deixando de contribuir com o INPS. A
medicina de grupo, também orientada para a comercialização da saúde e
pelo lucro, teve grande expansão nesse período e destinava-se aos
trabalhadores com maior poder aquisitivo (AGUIAR, 2011, p. 30).

Face a intensificação dos problemas sociais e de saúde, cresce na sociedade a


insatisfação, contexto que se torna propício para o surgimento de movimentos sociais,
movimentos esses que denunciavam a ineficiência do modelo de saúde, centrada na medicina
privada e na mercantilização da saúde, como forma de obtenção de lucro, lutando dessa
maneira por melhores condições de vida da população subalterna.
As reivindicações da sociedade brasileira acerca de um novo modelo de saúde que
pudesse atender a toda população de maneira universal, em detrimento das ações pontuais e
20

de cunho curativo, desenvolvidas pelo Estado, propiciou o surgimento de vários movimentos


contra hegemônicos, dentre eles a Reforma Psiquiátrica.
Nos anos de 1970, profissionais da área de saúde, familiares dos usuários e a
sociedade civil, passaram a exigir do Estado um novo modelo de intervenção para os usuários
da política de saúde mental. Tal movimento tinha como defesa a universalização da saúde,
compreendida como qualidade de vida da população e um modelo de atenção à saúde
centrada na integralidade das ações e serviços, com clara defesa na participação popular e pela
construção da cidadania (AGUIAR, 2011).
Foi somente no final da década destacada, que o Brasil vivenciou uma reformulação
no modelo de assistência às pessoas com transtornos mentais, almejando um tratamento
menos alienante e a reinserção do indivíduo com sofrimento mental ao meio social.
Em 1987, o Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM) se apresentava
enquanto movimento social e defendia uma sociedade sem manicômios, começando assim o
processo de desinstitucionalização da psiquiatria tradicional. Esse movimento não era
formado apenas por profissionais, mas por vários segmentos da sociedade que se colocavam
contra o modelo de psiquiatria tradicional, centrado nos hospitais, lutava por um processo de
desconstrução e desinstitucionalização dos conceitos e práticas existentes. Vale salientar, que
o modelo italiano foi tomado como exemplo a ser seguido mundialmente, pois, foi através das
orientações de Franco Basaglia, médico psiquiátrico italiano, que foi repensado o modelo
manicomial.
O Processo de Reforma Psiquiátrica no Brasil tem início na década 1970,
impulsionado pelo Movimento Sanitário, que lutava por uma saúde coletiva e pela equidade
nos serviços ofertados, os dois movimentos ocorreram na mesma época, porém, cada um tem
sua própria história. O processo de Reforma Psiquiátrica lutou pelo fim do modelo
hospitalocêntrico e da violência aos pacientes psiquiátricos, o que chegava a ferir aos direitos
humanos.
Nesse sentido, acentua-se que:

A Reforma Psiquiátrica é um processo político e social complexo, composto


de atores, instituições e forças de diferentes origens, e que incide em
territórios diversos, nos governos federal, estadual e municipal, nas
universidades, no mercado dos serviços de saúde, nos conselhos
profissionais, nas associações de pessoas com transtornos mentais e de seus
familiares, nos movimentos sociais e nos territórios do imaginário social e da
opinião pública. Compreendida como um conjunto de transformações de
práticas, saberes, valores culturais e sociais, é no cotidiano da vida das
21

instituições, dos serviços e das relações interpessoais que o processo da


Reforma Psiquiátrica avança, marcado por impasses, tensões, conflitos e
desafios (DELGADO et al., 2007, p. 39-40).

Nessa esfera, portanto, compreende-se que loucura pode ser considerada como
resultante das expressões da questão social da relação entre capital e trabalho, vista como uma
doença mental, ou seja, tudo que era considerado como anormal e virou patológico.
Para Amarante (1994), a primeira Reforma Psiquiátrica no Brasil ocorreu com a
implantação do modelo “colônia” na assistência às pessoas com sofrimento psíquico, este
modelo asilar de colônias possuía inspiração europeia em uma prática baseada numa pequena
aldeia belga, para o local onde os doentes mentais eram levados, a ideia desse modelo
consistia em fazer que uma comunidade e os loucos vivessem em harmonia.
Silva (2011) aponta que houve a necessidade de desinstitucionalização como forma de
desmitificar o chamado “louco”, ou seja, as formas de hospitalização e de institucionalização
precisam ser analisadas e que só a partir deste processo que o chamado “louco” terá a
oportunidade de um tratamento humano, em comunidade e no meio familiar, enfim, saindo do
processo de aprisionamento para um tratamento humanizado.
O processo de desinstitucionalização é a extinção dos manicômios a partir da redução
dos leitos em hospitais psiquiátricos como forma de reduzir o longo período de internação que
eram submetidas às pessoas com transtornos mentais que, no Brasil, só a partir de 1990
tornou-se uma política pública.
Muitos pacientes eram maltratados e alguns chegavam até a morte dentro dos asilos e
manicômios. Evidencia-se também que estes pacientes perdiam completamente seus vínculos
com familiares e comunitários.

Embora contemporâneo da Reforma Sanitária, o processo de reforma


psiquiátrica brasileira, tem uma história própria, inscrita em um contexto
internacional de mudanças pela superação da violência asilar. Fundado ao
final dos anos 1970, na crise de existência fundado no Hospital psiquiátrico,
por um lado, e na eclosão, por outro, dos esforços dos movimentos sociais
pelos direitos dos pacientes psiquiátricos, o processo de Reforma
Psiquiátrica Brasileira é maior do que a sanção de novas leis e normas e
maior do que o conjunto de mudanças nas políticas governamentais e nos
serviços de saúde (DELGADO et al., 2007, p. 39).

É um processo complexo que vai se desenvolver no exato período de ressurgimento


dos movimentos sociais que até então estavam na retaguarda, por ocasião do período ditatorial
22

que impedia qualquer tipo de expressão política da sociedade brasileira. O processo de


Reforma Psiquiátrica e os demais marcos históricos que o sucederam serão temáticas
abordadas no item seguinte.

2.2 A Reforma Psiquiátrica e a construção de um novo conceito de saúde mental

A política de saúde mental no Brasil, como já explanada anteriormente, desde suas


primeiras intervenções no século XVIII, deu início à cultura hospitalocêntrica, um modelo
psiquiátrico que resultou de estratégias da classe dominante em camuflar as diversas
expressões da questão social, que se intensificavam no final do citado século.
O cenário excludente, só é mudado após a Reforma Psiquiátrica, nos anos de 1970,
quando profissionais da área de saúde, familiares dos usuários e a sociedade civil, passaram a
exigir do Estado um novo modelo de intervenção para os usuários da política de saúde mental
(LANCETTI; AMARANTE, 2012).
O processo histórico que gestou as primeiras práticas de institucionalização de
pessoas, consideradas como “loucas”, ocorreu no século XVII na França, quando Michel
Foucault, escreveu um de seus trabalhos intitulado História da Loucura na Idade Clássica,
ganhando centralidade na época de “A Grande Internação”. Seus escritos inspiraram a origem
da psiquiatria e psicologia que iniciou as primeiras práticas asilares.
Como acentuam Lancetti e Amarante (2012) essa reflexão se desenvolveu a partir da
Revolução Francesa, trazendo consigo o lema de “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, com
objetivo de solucionar o cenário de insalubridade na perspectiva de exclusão social.
Philippe Pinel, médico considerado um revolucionário no campo da saúde mental, de
sua época, construiu uma forma de intervenção classificadora das doenças. Seu método de
intervir se configurou na separação das doenças, ou seja, só ficariam nos asilos aqueles
sujeitos necessitados de cuidados especiais. Dessa forma, Pinel redefiniu os hospitais naquele
contexto histórico com a teoria de alienação mental, observamos que o significado de
alienação consiste em separação, ruptura, delírio, o sujeito estar fora da realidade
(LANCETTI; AMARANTE, 2012).
A definição norteadora da loucura com sua técnica de classificação das doenças em
um compromisso libertário e democrático compreende que:
23

[...] o hospital psiquiátrico criado por ele não foi verdadeiramente um lugar
de tratamento e de cuidado das pessoas com sofrimento mental. Pelo
contrário, em pouco tempo passaram a existir denúncias de maus-tratos, de
violências, de violação dos direitos humanos das pessoas internadas. E assim
surgiram muitas propostas de mudanças do modelo psiquiátrico centrado no
hospital, que demarcaram a segunda acepção da saúde mental, que diz
respeito às reformas psiquiátricas (LANCETTI; AMARANTE, 2012, p.
620).

Mesmo com as fragilidades da saúde mental, Philippe Pinel contribuiu para uma
reformulação na classificação das doenças e no tratamento de pessoas com doenças mentais,
através da soltura de suas algemas e a possibilidade da voz dos sujeitos serem ouvidas pela
primeira vez. Sua proposta de intervenção psiquiátrica não teve êxito no território Francês,
devido algumas inovações de caráter hospitalocêntrico, que preconizava o afastamento do
sujeito do convívio social.
Foi nesse cenário que obtivemos a terceira forma de enfrentamento dos problemas
oriundos dos transtornos mentais. A partir da segunda metade do século XX, Franco Basaglia,
instigado com os aspectos revolucionários de Pinel, propôs um novo modelo de intervenção
para o sujeito social ser visto na sua totalidade social, rompendo com as antigas práticas
hospitalocêntricas de caráter asilar, de violência, alienação mental e moral (DELGADO et al.,
2007).
A história da psiquiatria no Brasil se configurou no processo de asilamento, isto é, o
processo de medicalização social, iniciado no século XVIII com a chegada da família real, o
Estado passou a intervir na loucura, devido às mudanças societárias e do modelo econômico,
para isso em 1830 o Estado requisitou à comissão dos médicos do Rio de Janeiro favorecendo
um diagnóstico da situação dos loucos na cidade. Diante dessa conjuntura as pessoas com
transtorno mental, os sujeitos vistos como “loucos”.
A década de 1920 marcou um desenvolvimento na psiquiatria, ampliando o espaço
asilar, sob o qual no Rio de Janeiro foi criada a Colônia de Alienadas do Engenho de Dentro
em 1911, para as mulheres indigentes. Em 1930, a psiquiatria desenvolveu um mecanismo de
uma suposta cura para as doenças mentais, aplicando nos doentes mentais choques elétricos
que poderiam levá-los a morte, com os experimentos psiquiátricos, na procura de corrigir a
razão das pessoas, aumentava a violência física e psicológica contra os mesmos (DELGADO
et al., 2007).
Na década de 1930, a psiquiatria encontra-se mais poderosa e baseava nas descobertas
de diversos tratamentos, como por exemplo, os tratamentos à base de choque. Já nos idos de
24

1940 aumenta-se o processo de asilamento, com ampliação das vagas de internamentos.


Amarante (1994) aponta que com o fim da Segunda Guerra Mundial, surgem também
variadas experiências de reformas no âmbito da psiquiatria, dentre as quais se destacam as
comunidades terapêuticas, de psicoterapia institucional, de psiquiatria de setor, de psiquiatria
preventiva e comunitária, de antipsiquiatria e da psiquiatria democrática.
Fortalecendo o modelo asilar, o Hospício Nacional de Alienados, é transferido da
Praia vermelha para o Engenho de Dentro, abrangendo o seu número de vagas. Conforme
Amarante (1994, p. 78-79) “[…] na década de 1950, fortalece-se este processo de
psiquiatrização, com o aparecimento dos primeiros neurolépticos”. A psiquiatria se fortalece
no que diz respeito ao aparecimento de novos medicamentos para tratar os transtornos
mentais, como por exemplo, os psicotrópicos.
A década de 1960 trouxe um aspecto relevante ao rumo da saúde mental, com
unificação dos Institutos de Aposentadorias e Pensões (IAPs), em Instituto Nacional da
Previdência Social (INPS) que possibilitou o setor privado vender os serviços psiquiátricos
para o Estado. Nesse sentido, a doença mental passa ser alvo da mercantilização, abrindo
oportunidades para um maior número de pessoas internadas nos hospitais psiquiátricos
privados, provocando assim um fortalecimento do modelo hospitalocêntrico já identificados
desde o século XVIII (AMARANTE, 1994).
Amarante (1994) coloca que após a unificação dos Institutos de Aposentadorias e
Pensões (IAPs) foi criado o Instituto Nacional de Previdência Social (INPS), dessa maneira, o
Estado começa a comprar serviços psiquiátricos das empresas privadas, ocorrendo um grande
aumento no número de internações, sendo que 97% das verbas da previdência social se
destinavam a internações no âmbito da saúde mental.
Conforme esclarece Amarante (1994), esse modelo privatizante é por vezes hostil
condensado, fraudulento e egoísta, contribuindo com uma expressiva parcela de
responsabilidade para a ocorrência da crise institucional e econômica, evidenciada no início
da década de 1980 pela Previdência Social.
A partir do final da década de 1970, o Brasil vai vivenciando uma reformulação no
modelo de assistência às pessoas com transtornos mentais, almejando um tratamento menos
alienante e a reinserção do indivíduo com sofrimento mental ao meio social.
Como iniciativa da experiência revolucionária na Itália por Basaglia, o Brasil se
inspira nesse paradigma visando uma transformação no modelo assistencial psiquiátrico, bem
como a promulgação da Constituição Federal de 1988 e a construção do Sistema Único de
25

Saúde (SUS), que possibilitaram uma criticidade no tratamento de pessoas com transtornos
mentais e a minimização dos modelos hospitalocêntricos.
A Reforma Psiquiátrica no Brasil aconteceu na década de 1970, juntamente com o
Movimento da Reforma Sanitária, ambos se preocuparam na mudança do modelo de saúde
que até então o país vivenciava, lutando por uma saúde coletiva e pela equidade nos serviços
ofertados. Os dois movimentos ocorreram na mesma época, porém, cada um tem sua própria
história. O processo de Reforma psiquiátrica lutou pelo fim do modelo hospitalocêntrico e da
violência aos pacientes psiquiátricos, o que chegava a ferir aos direitos humanos.
Essa reforma tinha como pressuposto a construção de uma nova prática de assistência
médica, cuja inovação iniciou-se tanto no cenário internacional como também no Brasil, na
intenção de superar as diversas formas de violência ocasionadas em manicômios ou asilos aos
usuários com transtornos mentais.

Embora contemporâneo da reforma sanitária, o processo de reforma


psiquiátrica brasileira, tem uma história própria, inscrita em um contexto
internacional de mudanças pela superação da violência asilar. Fundado ao
final dos anos 1970, na crise de existência fundado no Hospital psiquiátrico,
por um lado, e na eclosão, por outro, dos esforços dos movimentos sociais
pelos direitos dos pacientes psiquiátricos, o processo de Reforma
Psiquiátrica Brasileira é maior do que a sanção de novas leis e normas e
maior do que o conjunto de mudanças nas políticas governamentais e nos
serviços de saúde (DELGADO et al., 2007, p. 39).

Esse processo social teve como aliados os movimentos sociais representados por
familiares dos usuários, trabalhadores da saúde, insatisfeitos com a política governamental
existente naquele contexto, além de outros saberes profissionais que compreendiam a
necessidade de inserir os pacientes tidos como “loucos” na sociedade. O objetivo da Reforma
Psiquiátrica era romper com o modelo estabelecido nas práticas anteriores e socializá-los na
perspectiva do direito.
Mediante o fortalecimento da sociedade civil e profissionais do Movimento dos
Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM) e suas estratégias de enfrentamento de uma suposta
mudança dos manicômios que aconteceu com o II Congresso Nacional do MTSM que tinham
como tema “Por uma sociedade sem manicômios”, conforme afirma Amarante:

[...] Nossa atitude marca uma ruptura. Ao recusarmos o papel de agentes de


exclusão e da violência institucionalizadas, que desrespeita os mínimos
direitos da pessoa humana inauguramos um novo compromisso. Temos claro
26

que não basta racionalizar e modernizar os serviços nos quais trabalhamos.


O Estado que gerencia tais serviços é o mesmo que sustenta os mecanismos
de exploração e da produção social da loucura e da violência. O
compromisso estabelecido pela luta antimanicomial impõe uma aliança com
o movimento popular da classe trabalhadora organizada (AMARANTE,
1985, p. 81).

Face a essa compreensão, partindo dos próprios profissionais da saúde e obtendo


adesão da sociedade através dos movimentos sociais, se possibilitou a articulação para a
elaboração e proposições para uma nova configuração de assistência a esse público,
propiciando a realização da I Conferência Nacional de Saúde Mental no Estado do Rio de
Janeiro, marco histórico para o surgimento dos primeiros Centros de Atenção Psicossocial
(CAPS) que tem como pressuposto a desospitalização dos usuários com transtornos mentais,
possibilitando-os a um tratamento de caráter humanizado e de reabilitação social.
O ano de 1978 é considerado o ponto de partida do movimento social que vai lutar por
melhores condições para os pacientes psiquiátricos. Este movimento foi responsável por
denunciar à violência nos manicômios, assim como a mercantilização da loucura, e o
crescimento da rede privada de assistência às pessoas com transtornos mentais.

É, sobretudo, este movimento, por meio de variados campos de lutas, que


passa a protagonizar e a construir a partir desse período a denúncia da
violência dos manicômios, da mercantilização da loucura, da hegemonia de
uma rede privada de assistência e a construir coletivamente uma crítica ao
chamado saber psiquiátrico e ao modelo hospitalocêntrico na assistência a
pessoas com transtorno mentais (DELGADO et al, 2007, p. 40).

O Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM) se apresenta enquanto


movimento social e defende uma sociedade sem manicômios, começando assim o processo de
desinstitucionalização da psiquiatria tradicional. Esse movimento vai se colocar contra o
modelo de psiquiatria tradicional, centrada nos hospitais, lutando dessa forma por um
processo de desconstrução e desinstitucionalização dos conceitos e práticas existentes.
É um processo complexo que vai se desenvolver no exato período de ressurgimento
dos movimentos sociais que até então estavam na retaguarda, por ocasião do período ditatorial
que impedia qualquer tipo de expressão política da sociedade brasileira.
Neste âmbito, são fundados no município de Santos, o Núcleo de Atenção Psicossocial
(NAPS), sendo que estas instituições funcionam 24 horas, foram criadas cooperativas,
residências para usuários que saiam de hospitais psiquiátricos. Conforme Delgado et al.
27

(2007), essa experiência passa a ser considerado um marco no Processo de Reforma


Psiquiátrica Brasileira.
Uma iniciativa que vai dar mais força neste processo é justamente o projeto de Lei
Paulo Delgado que regulamenta os direitos das pessoas com transtornos mentais e estabelece
a progressiva extinção e substituição dos manicômios no país.
Na década de 1990, os movimentos sociais ganham novo impulso com o compromisso
assinado pelo Brasil na Declaração de Caracas, documento que aponta as diretrizes e
princípios do novo atendimento a pessoas com transtornos mentais (DELGADO et al., 2007).
A Declaração de Caracas objetiva um modelo de atendimento que tem por base os
vínculos familiares e comunitários, sendo esse atendimento descentralizado, participativo
integral e preventivo. Ocorreu também a realização da II Conferência Nacional de Saúde que
passa a regulamentar a implantação de novos serviços de atenção psiquiátrica baseados nas
primeiras experiências dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), NAPS e hospitais-dia.
(DELGADO et al., 2007).
Em 1992, as normatizações do Ministério da Saúde regulamentavam os novos
serviços, mas não estabeleciam como seria feito o financiamento. Com o surgimento dos
CAPS tem-se início o processo de redução dos leitos, porém os recursos destinados a Saúde
Mental em sua maioria continuam sendo destinados aos hospitais psiquiátricos (DELGADO
et al., 2007).
Neste período, ganha destaque o pouco avanço da luta antimanicomial no plano
legislativo, pois não se obteve sucesso na aprovação do projeto de Lei Paulo Delgado, que só
vai ser sancionada 12 anos depois, em 2001.

A aprovação, no entanto, é um substutivo do Projeto de Lei original, que traz


modificações importantes no texto normativo. Assim, a Lei 10.216
redireciona a assistência em saúde mental, privilegiando o oferecimento de
tratamento em serviços de base comunitária, dispõe sobre a proteção e os
direitos das pessoas com transtorno mentais, mas não institui mecanismos
claros para progressiva extinção dos manicômios (DELGADO et al., 2007,
p. 42).

Com a promulgação da Lei 10.216 de 2001 e com a realização da III Conferência


Nacional de Saúde Mental, a Política de Saúde Mental ganha maior visibilidade e sustentação.
São criadas linhas especificas de financiamento e novas formas de fiscalização, gestão e
redução dos leitos psiquiátricos. Com isso a rede de atenção diária à saúde mental passa por
um processo de expansão.
28

Realizada em 2001, merece grande destaque a III Conferência Nacional de Saúde


Mental, importante instrumento de consolidação da Reforma Psiquiátrica no Brasil.
Dispositivo fundamental de controle social e participação popular, que incumbe aos CAPS o
modelo de mudança da assistência psiquiátrica. Segundo Delgado et al. (2007), é na III
Conferência Nacional de Saúde Mental que se fornece substratos políticos e teóricos para a
efetivação da política de saúde mental no Brasil.
A reinserção das pessoas com transtornos mentais graves exigia-se do SUS novas
estratégias, e sendo assim foram implementados e financiados os Serviços Residenciais
Terapêuticos (SRT), que objetivam a substituição do modelo hospitalocêntrico para aquelas
pessoas portadoras de transtornos mentais graves advindas de psiquiátricos ou não. Assim,
exige-se maior compromisso e responsabilidade da família (DELGADO et al., 2007).
Tal processo de reintegração das pessoas com transtornos mentais graves e
persistentes, no qual o SUS vem desempenhando um papel importante com a implementação
e o financiamento aos Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT), surge como componente
decisivo da política de saúde mental para a superação de um modelo de atenção centrado no
hospital psiquiátrico. Os Serviços Residenciais Terapêuticos são casas localizadas em espaço
urbano, justamente para responder às necessidades de moradia de pessoas com transtornos
mentais graves. Assim, cada Residência deve ser referenciada a um Centro de Atenção
O Ministério da Saúde aprovou em 2004, o Programa Anual de Reestruturação da
Assistência Hospitalar no SUS (PRH) e tendo como objetivo a redução dos leitos a partir dos
macro-hospitais, um programa aliado ao PNASH/Psiquiatria, para uma melhor qualidade da
assistência prestada às pessoas com transtornos mentais.
Uma das iniciativas que vai reforçar este processo é justamente o projeto de Lei Paulo
Delgado que regulamenta os direitos das pessoas com transtornos mentais e estabelece a
progressiva extinção e substituição dos manicômios no país. Na década de 1990, os
movimentos sociais ganham novo impulso com o compromisso assinado pelo Brasil na
Declaração de Caracas, documento que aponta as diretrizes e princípios do novo atendimento
a pessoas com transtornos mentais.
A Declaração de Caracas objetiva um modelo de atendimento, tem por base os
vínculos familiares e comunitários, sendo esse atendimento descentralizado, participativo
integral e preventivo. Ocorreu também a realização da II Conferência Nacional de Saúde que
passa a regulamentar a implantação de novos serviços de atenção psiquiátrica baseados nas
primeiras experiências dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), NAPS e hospitais-dia.
29

A abordagem sobre a implantação dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) será


feita na próxima seção, apresentando as características, benefícios e as dificuldades desse
importante modelo de saúde pública.
30

3 TRANSTORNO MENTAL E O AMPARO FAMILIAR

Essa seção busca discutir sobre a política de saúde mental a partir da criação dos
Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Face ao cenário excludente, que só é mudado após
a Reforma Psiquiátrica, nos anos de 1970, quando profissionais da área de saúde, familiares
dos usuários e a sociedade civil, passaram a exigir do Estado um novo modelo de intervenção
para os usuários da política de saúde mental.
Sob essa perspectiva, buscamos discutir também acerca dos aspectos que envolvem a
participação da família enquanto estratégia de construção de um saber que auxilia na
elaboração de ações norteadas na prática profissional desenvolvida no âmbito da saúde
mental, visando um melhor atendimento aos usuários dos Centros de Atenção Psicossocial
(CAPS II).

3.1 O surgimento do Centro de Atenção Psicossocial

De acordo com Lancetti e Amarante (2009), o ano de 1978 foi o marco do Movimento
de Trabalhadores de Saúde Mental (MTSM) participantes do Movimento de Reforma
Sanitária, em consonância com demais representatividades da sociedade civil que abraçavam
a causa. Este movimento objetivava uma melhoria no atendimento às pessoas com transtorno
mental, uma vez que, até se concretizar o processo de Reforma Psiquiátrica, as pessoas eram
submetidas ao aprisionamento asilar.
A Reforma Psiquiátrica brasileira seguiu os direcionamentos de outros países, que
valem ser destacados. Assim, a Reforma Psiquiátrica Italiana, segundo explanam Lancetti e
Amarante (2009), fortaleceu a substituição de antigos modelos hospitalocêntricos, por um
modelo voltado para compreender e tratar a saúde mental não apenas sua patologia, mas
enfrenta-la de forma que o sujeito social pudesse ser contemplado na sua totalidade social
através do lazer, trabalho, convivência familiar, comunitária e manter sua relação afetiva.
Para Delgado et al. (2007), sob o direcionamento da I Conferência Nacional surge na
cidade de São Paulo em 1987 o primeiro Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) passando a
intervir sob os princípios da Reforma Psiquiátrica e tendo como possibilidade de superação
das formas de tratamentos ofertadas na Casa de Saúde Anchieta, por exemplo. Hospital este
31

que tinha registros de violência, maus tratos e óbitos dos internos. Para dar suporte ao CAPS é
criado o Núcleo de Atenção Psicossocial (NAPS) com atendimento 24 horas, que através de
cooperativas possibilitava a inserção dos usuários ao convívio societário.
No ano de 1989, o Deputado Paulo Delgado, através do Congresso Nacional, propõe o
Projeto de Lei que regulamenta os direitos da pessoa com transtornos mentais e a extinção
progressiva dos manicômios no país. Sob a ótica do projeto citado, a sociedade, através dos
movimentos sociais conseguiu proliferar a propositura de leis que dessem sustentabilidade a
exclusão das antigas formas de tratamento aos pacientes com transtornos mentais
(DELGADO et al, 2007).
Mas, somente em 1990, o Brasil ao se comprometer com o acordo firmado em
Caracas, na II Conferência Nacional de Saúde Mental, afirma a responsabilidade por parte do
Governo Federal de regulamentar e implantar em todo território nacional os CAPS e NAPS
para fiscalizar a possibilidade de haver uma continuidade das antigas práticas
hospitalocêntricas. Contudo, o processo não foi imediato e de caráter contínuo, devido à
ausência de financiamento.
Em vagarosos passos, a proposta da Reforma Psiquiátrica, conjuntamente com o
projeto de Lei do Deputado Paulo Delgado, foi normatizada de forma mais consistente com a
realização da III Conferência Nacional de Saúde Mental e a Promulgação da Lei 10.216 de o6
de abril de 2001, que foram regulamentados pela portaria n° 366/ GM de 2002. Essa portaria
permitiu a ampliação do funcionamento e a complexidade do CAPS.
Nesse âmbito, outro aspecto a ser destacado foi o financiamento, criado pelo
Ministério da Saúde para a concretude do traçado da Reforma Psiquiátrica que consiste na
exclusão dos manicômios e democraticamente a participação do controle social.
O Ministério da Saúde (2004) conceituou os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS)
como serviços públicos ligados ao Sistema Único de Saúde (SUS), com objetivo de
referenciar pessoas com transtornos mentais, psicoses e neuroses persistentes, que necessitem
de cuidados específicos através de intervenção de nível intensivo.

O objetivo do CAPS é oferecer atendimento à população da sua área de


abrangência, realizando o acompanhamento clínico e a reinserção social dos
usuários pelo acesso ao trabalho, lazer, exercício dos direitos civis e
fortalecimento dos laços familiares e comunitários. É serviço de atendimento
da saúde mental criado para ser substitutivo as internações em hospitais
psiquiátricos (BRASIL, 2004, p. 13).
32

Com os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) regulamentados, o objetivo proposto


para a instituição se colocava na direção de oferecer assistência às pessoas com transtornos
mentais, inclusive aqueles decorrentes do uso de entorpecentes, álcool e outras drogas.
O processo de desinstitucionalização partiu da perspectiva da redução dos leitos nos
quais as pessoas com transtornos mentais, anteriormente, eram sujeitas a ficarem internados
nos hospitais psiquiátricos, por longos períodos. Segundo Bisneto (2007, p. 181) o “[…]
tratamento mental nas instituições de manicômio e da psiquiatria também são instituição de
violência. É necessário desospitalizar a loucura e desinstitucionalizar a hegemonia médico-
psiquiátrica”.
Por conseguinte, apenas após o período de 1990, é viabilizado como política pública e,
em 2002, através de normativas do Ministério da Saúde são criados mecanismos mais
eficientes e claros para melhor desempenho na redução dos leitos na perspectiva de macro
hospitais (BISNETO, 2007).
Face a implantação desses mecanismos, através do Programa Nacional de Avaliação
do Sistema Hospitalar/Psiquiatria (PNASH/ Psiquiatria), o Programa Anual de Reestruturação
da Assistência Hospitalar Psiquiátrica no SUS (PRH), o Programa de Volta a minha Casa,
como também os Centros de Atenção Psicossocial e as Residências Terapêuticas,
contribuíram para minimização do modelo hospitalocêntrico (BISNETO, 2007).
A função estratégica dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) buscou traçar vias
de atenção à saúde mental, sob a orientação da Reforma Psiquiátrica, esses espaços são de
inteira responsabilidade de inserir as pessoas com transtornos mentais severos e persistentes
ao convívio familiar e comunitário através de ações intersetoriais que viabilizem sua
autonomia enquanto ser social, através dos seus direitos civis (DELGADO et al., 2007).
Ainda conforme Delgado et al. (2007), o CAPS se diferencia pelo porte, bem como
pela capacidade de atendimento. Assim, são constituídos os CAPS nos municípios dos estados
brasileiros, sendo que seus serviços se diferenciam da seguinte forma: CAPS I, CAPS II,
CAPS III, CAPS ad e CAPS i.
Os CAPS I são os Centros de Atenção Psicossocial de menor porte, capacidade de
atender a população entre 20 mil e 50 mil habitantes, composto por uma equipe mínima de
nove profissionais de nível superior e médio, atende adultos com transtornos mentais severos
e persistentes e transtornos decorrentes de álcool e outras drogas, seu funcionamento consiste
nos cinco dias da semana. (BRASIL, 2004)
Os CAPS II são serviços de médio porte, capacidade de atendimento para 50 mil
habitantes, seu público alvo são pessoas adultas com transtornos mentais severos e
33

persistentes, dispõe de uma equipe de doze profissionais de nível superior e médio e


funcionam os cinco dias da semana. (BRASIL, 2004)
Os CAPS III são classificados com o de maior porte devido ter a capacidade de
comportar 200 mil habitantes, sua localidade é em grandes metrópoles e seus serviços são
ofertados para casos de alta complexidade. Seu funcionamento se dá em plantão de 24 horas
durante a semana e feriados, quando necessário faz acolhimento noturno com internações
curtas de algumas horas, no máximo sete dias, contém apenas cinco leitos e conta com
dezesseis profissionais, entre nível superior, médio e equipe noturna de final de semana.
(BRASIL, 2004)
Os CAPS ad especializado no atendimento de pessoas que são usuários de forma
inadequada de álcool e outras drogas têm equipamentos para municípios de 200 mil habitantes
em extremidades com municípios de maior contingente de rota de tráfico de drogas, seu
funcionamento consiste nos cinco dias úteis da semana e tem uma equipe de treze
profissionais entre eles de nível superior e médio. (BRASIL, 2004)
Os CAPS i são responsáveis em atender crianças e adolescentes com transtornos
mentais de forma especializada. Funciona de segunda a sexta-feira e pode ter um terceiro
período, funcionando até 21 horas, compondo uma equipe de onze profissionais de nível
superior e médio. Conforme apontado pelo Manual dos CAPS (2004), os CAPS i devem ter
capacidade de atender 180 crianças e adolescentes por mês. E os municípios que são
contemplados com esse tipo de CAPS, são aqueles com uma população acima de 200.000
habitantes.
Assim, faz parte das estratégias do CAPS não só apenas acolher esses usuários para o
tratamento clínico medicamentoso, e sim possibilitar a reinserção dos usuários na sociedade
como pessoas que gozam de direitos sociais, tendo em vista que já foram alvo de muitas
privações, de sofrimento psíquico e preconceitos pelo próprio tratamento que foram
submetidos desde as primeiras práticas psiquiátricas.
Logo, com tais equipamentos sociais, vislumbrou-se um avanço na política de saúde,
em especial à saúde mental, que permeou no discurso do movimento da Reforma Sanitária e
Psiquiátrica que contribuíram para a promulgação da Constituição Federal de 1988 e a
proposta do Sistema Único de Saúde.
Portanto, os CAPS têm uma função estratégica no processo de reforma psiquiátrica,
sendo responsáveis pela reinserção do indivíduo com sofrimento mental no meio comunitário
e social, como também deve proporcionar aos usuários da política de saúde mental a redução
34

no número de internações, rompendo, desta forma, com o modelo tradicional


hospitalocêntrico.
É extremamente necessário que a equipe multidisciplinar deste espaço sócio
ocupacional ao analisar a problemática de cada usuário intervenha sob uma prática
interdisciplinar para melhor compreensão e desenvolvimento das ações e entendimento da
operacionalização da política de saúde mental para obtenção de superação dos usuários frente
ao sofrimento psíquico.
Para tanto, além de uma equipe comprometida, recursos utilizados de forma eficiente e
uma instituição acolhedora, é importante que a rede de atendimento possibilite um tratamento
adequado direcionado às pessoas com transtorno mental, favorecendo o envolvimento e
participação da família durante todo o tratamento. A família é peça chave em todo o
momento, considerando-se que deve haver uma extensão do tratamento fora da instituição.
Assim, o suporte familiar é essencial. Todavia, sabemos que há ainda há um grande
estigma social em torno da questão da saúde mental e, para além disso, quando falamos em
transtorno mental de pessoas dos estratos sociais mais vulnerabilizados, os laços familiares
são ainda mais fragilizados. Essa temática será foco do item posterior.

3.2 A participação da família no amparo à pessoa com transtorno mental

No contexto de ampliação dos serviços de saúde mental que vai ao encontro de um


processo que se distancia da institucionalização dos sujeitos, busca-se integrar a família na
atenção em saúde mental como uma forma de garantia da viabilização do direito à saúde.
Compreendemos que o usuário que necessita de atendimento no âmbito da saúde
mental deve ser atendido de forma integral. E, no caso específico das crianças e adolescentes,
bem como idosos, que precisam ser assistidos por essa política, devem ser vistos como
indivíduos que estão em fase de desenvolvimento, pois, devem ser assistidas tanto pela
família, pelo Estado e pela sociedade.
Com o processo de redemocratização do país o Poder Público, reconheceu que todos
os cidadãos brasileiros, inclusos o público infanto-juvenil e senil deve ter direito à vida,
acesso à saúde, educação, lazer, cultura, esporte, dignidade, respeito, liberdade,
profissionalização, convivência familiar e comunitária, como também estar isento de qualquer
35

tipo de violência física e psicológica, entre outros dispositivos legais de proteção básica e
especial.
Transcritos pela Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS), os idosos e as pessoas
com deficiências, através de ações promovidas pelo Estado, são sujeitos que devem ser vistos
como cidadãos detentores de direitos e na busca de garantir e inseri-los no contexto de
inclusão social, assegurada juridicamente sob a Lei 10. 216 de 2001, referente ao atendimento
específico na política de saúde mental.
Esse novo paradigma de atenção em saúde, que engloba também o atendimento em
saúde mental, pauta-se no cuidado coletivo e na prestação dos serviços alternativos ao
internato, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), cuja incumbência é a promoção
da qualidade de vida dos indivíduos com transtornos mentais e, consequentemente, aos seus
familiares. A desinstitucionalização psiquiátrica acarreta inúmeros desafios que devem ter seu
enfrentamento com base no atendimento ofertado, bem como, as demandas que ainda não
tiveram seus problemas solucionados.
A Reforma Psiquiátrica concebeu a família uma certa “pluralidade de sentidos e
dimensões, preponderantemente como: 1) um grupo que precisa de assistência e cuidados; 2)
como um recurso ou lugar, como outro qualquer, mas não o único; 3) como provedora de
cuidados; 4) como avaliadora dos serviços e 5) como sujeito político” (ROSA, 2009, p. 162).
Nesse âmbito, a família é concebida como uma entidade que necessita de cuidados e
assistência, mas, por estar inserida num viés de cuidado familiar, em que alguns familiares
possuem necessidades de atenção, acaba sendo, na maioria das vezes, esquecida pelas
políticas públicas do Estado.
Nesse cenário, faz-se inteiramente necessárias redes de apoio que ampliem o amparo à
família pelo Estado. A ação estatal, de forma abrangente, proporciona qualidade de vida ao
indivíduo com transtorno mental, bem como aos seus familiares. A intervenção estatal
contribui para que a sociedade se torne mais justa no tocante ao acolhimento e, atenue a
sobrecarga familiar que tanto oprime os familiares na assistência à pessoa de transtorno
mental.
Segundo Machado e Rodrigues (2017), a estratégia de associar a família no cuidado do
usuário com sofrimento psíquico concebe uma relevante parceria, de modo a propiciar a
interação mútua entre o serviço, o paciente e sua rede social. Nesse âmbito, a família deve ser
convocada a assumir tal cuidado em conjunto com a equipe de saúde, para assim tornar esse
cuidado uma prática coletiva e de promoção cidadã.
36

Mielke et al. (2010) explanam que, na atenção psicossocial, o cuidado das equipes de
saúde mental deve voltar-se à unidade familiar, como objeto principal nesse ambiente, com
evidência à sua complexidade global, de forma a compreendê-la como parte essencialmente
integrante no tratamento do portador de transtornos mentais, acompanhando sua recuperação
e o processo de reabilitação psicossocial. Portanto, se faz inteiramente necessário o
acompanhamento da família pelos serviços de saúde mental, uma vez que sejam acolhidas as
suas inerentes necessidades.
Nesse contexto, as políticas, cujo foco é a família, tem o intuito de fazer com que os
indivíduos do mesmo núcleo familiar desenvolvam suas potencialidades, e criem condições
que promovam e garantam sua proteção e bem-estar. Desta forma, parece que as políticas
buscam um “ajuste estrutural”, e coloca a família como pilar principal e fonte de recursos,
para a solução dos seus problemas. Como bem afirmam Mioto, Silva e Silva (2007, p. 199),
“[...] a família vem sendo um agente privado de proteção social, e o mais interessante é que
quase todas as políticas vêm fomentando isso”.
Faz-se necessário que a ênfase dada a família, nesse elo construído com a atenção
psicossocial reconheça e inclua todas as mudanças sociais, políticas e econômicas, e que
busquem de fato mudanças na operacionalização das ações. É importante rever os pilares
existentes nessa esfera, pois, a família é responsável pelos seus membros, tanto quanto
deveria ser a sociedade.
Assim, a participação familiar junto aos usuários dos CAPS, configura uma ação
importante na promoção da saúde na atenção em saúde mental, na busca de promover
qualidade de vida a estes indivíduos e introduzir uma concepção de saúde que não separe os
aspectos físico e mental, priorizando a humanização no tratamento psiquiátrico na medida em
que possa assegurar os seus direitos, viabilizando sua cidadania e reinserção social.
A assistência à saúde mental deve estar pautada em práticas nas quais os profissionais
de saúde vejam os usuários como sujeitos de direitos, dessa maneira, entender a integralidade
em saúde mental é perceber que o indivíduo é único, mas ao mesmo tempo é um ser de várias
e diferentes necessidades que não podem ser abordadas de forma separadas, ou seja, deve se
evitar a fragmentação do sujeito, como afirma Mângia et al. (2006):

As dimensões que caracterizam a atenção integral em saúde mental só


podem ser construídas e realizadas quando todos os componentes das ações
terapêuticas estejam orientados de acordo com uma lógica comum, que
busca evitar a fragmentação do sujeito, das necessidades e das ações, ou seja,
que vise evitar a lógica da institucionalização e do abandono. Assim à
37

construção da integralidade configura não só o campo prático diferenciado,


mas também uma nova ética no cuidar (MÂNGIA et al., 2006, p. 121).

Para que aconteça a integralidade na atenção em saúde Mental é necessária à


existência de interação entre as diversas instituições que prestam serviços no âmbito da saúde,
formando um sistema integrado de referência e contra referência, atuando de forma
articuladas entre si.
Portanto, o usuário deve ser visto em sua totalidade e, devem ser considerados que
existem determinantes sociais e econômicos para seu adoecimento mental e que não devem
ser vistas de forma isolada.
Por conseguinte, a defesa do direito à saúde, do exercício da cidadania e do
reconhecimento deve ser assistido integralmente constituindo um direito dos sujeitos,
assegurado pelo Estado, pela sociedade e pela família, e não na perspectiva do
assistencialismo que, muitas vezes, é transmitida para os usuários da política de saúde mental.
Percebe-se também que, existe uma correlação de forças entre os interesses daqueles
que dominam e os interesses da classe subalterna. O Estado burguês não tem interesse em
assegurar políticas sociais universalizantes que atendam o indivíduo numa perspectiva
integral, porque o objetivo primeiro é proporcionar meios de reprodução ampliada do capital.
É necessário que a sociedade também reivindique por seus direitos, pois, só temos alguma
resposta à população mediante sua mobilização.
A luta, portanto, deve continuar e precisa ser travada cotidianamente no interior dos
serviços de saúde e pelos próprios gestores da saúde, pelos profissionais, como também pelas
instâncias deliberativas que contam com a participação popular.
A participação da família no tratamento psíquico do seu ente é descrita como uma
forma de aprendizado sobre o que é a doença mental e formas de como lidar com situações
advindas da mesma. Segundo Martins e Guanaes-Lorenzi (2016), essa conjuntura propicia o
aprendizado sobre a doença e seus benéficos efeitos para as famílias, que estão
cotidianamente em tratamento, a partir do diagnóstico e aceitação da doença, e da obtenção
precisa de informações sobre a enfermidade.
Assim, para que a realidade seja mudada é necessário que a família se torne
protagonista desse processo e participe de maneira efetiva, reivindicando e pressionando do
Estado para que os direitos cidadãos sejam assegurados.
38

4 AS FAMÍLIAS NO PROCESSO DE TRATAMENTO DOS USUÁRIOS DO


CENTRO DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL: Resultados do Estudo

Nesta seção discutiremos a respeito dos procedimentos metodológicos do estudo, com


destaque ao processo de investigação e exposição das informações apresentadas no trabalho
monográfico ora evidente, bem como as análises das falas dos sujeitos que participaram da
pesquisa de campo.

4.1 Aspectos metodológicos do estudo

Com o intuito de dar conta dos objetivos deste estudo, desenvolvemos uma pesquisa
de cunho exploratório e descritivo, com uma abordagem qualitativa, pois, teve como
finalidade apresentar de forma detalhada informações relevantes que serviram de auxílio para
a compreensão do processo de envolvimento dos familiares no tratamento de usuários com
transtornos mentais do (CAPS II) que se apresenta como a problemática desta pesquisa.
Também foi desenvolvido um estudo de campo com o objetivo de pesquisar os
aspectos que permeiam este cenário.

Pesquisas exploratórias são desenvolvidas com o objetivo de proporcionar


visão geral, de tipo aproximativo, acerca de determinado fato. Esse tipo de
pesquisa é realizado especialmente quando o tema escolhido é pouco
explorado e torna-se difícil sobre ele formular hipóteses precisas e
operacionalizáveis (GIL, 2008, p. 46).

Para Triviños (1987, p. 110), “o estudo descritivo pretende descrever “com exatidão”
os fatos e fenômenos de determinada realidade. Com base nisto, este estudo pretende
apreender a realidade das famílias a partir da reflexão crítica das transformações advindas da
nova política de saúde mental promovidas pelos CAPS e a adesão da família ao contexto de
saúde mental.
O estudo se fundamenta no método crítico-dialético de Max, como evidenciado nas
palavras de Zago (2013, p. 112), o qual afirma que a:
39

[...] dialética marxiana pressupõe uma visão totalizante do real, ou seja, por
meio dela tenta-se perceber os diferentes elementos sociais como
interligados a uma mesma totalidade. O agir e o pensar, mesmo que não nos
demos conta disso, sempre implicam a percepção do todo, uma certa visão
do conjunto das relações.

O método dialético busca as relações concretas e efetivas por meio da vivência dos
fenômenos. Acerca da reflexão marxiana, Zago (2013) citando Marx e Engels (2007, p. 93):
discorre: “As representações que estes indivíduos produzem são representações, seja sobre
sua relação com a natureza, seja sobre suas relações entre si ou sobre sua própria condição
natural [...]”. É evidente que, em todos os casos, tais representações configuram uma
expressão consciente, real ou ilusória, de suas atividades, bem como da sua produção e
intercâmbio, além da organização social e política proposta em suas relações.
A pesquisa aqui apresentada, foi desenvolvida no Centro de Atenção Psicossocial
(CAPS II), espaço em que desenvolvemos o estágio supervisionado em Serviço Social,
localizado no município de Cajazeiras – PB. Esta opção é justificada pela necessidade de se
apontar a considerável relevância que tem o acompanhamento e contribuição familiar no
processo terapêutico dos usuários deste serviço, como também ressaltar a omissão do Estado
para com a saúde mental, transferindo para as famílias a completa responsabilidade sobre os
cuidados de seus membros portadores de sofrimento mental e a completa ausência do mesmo
no desenvolvimento de políticas públicas que ampare estas famílias.
Para Gil (2008), população é um conjunto definido de elementos que possuem
determinadas características, enquanto que, amostra é o subconjunto do universo ou da
população, por meio do qual se estabelecem ou se estimam as características desse universo
ou população
A população deste estudo foi composta por familiares de primeiro grau dos usuários
de atendimento intensivo e semi-intensivo que estão sendo acompanhados pelo Centro de
Atenção Psicossocial – CAPS II, sendo delimitado um parente para cada usuário, num
universo de 20 indivíduos que estão sendo acompanhados neste serviço de saúde mental
durante o período de estágio que ocorreu entre agosto e dezembro de 2019. No que diz
respeito a amostra, esta foi representada pelo percentual de 30%, equivalente a 06 (seis)
famílias do total populacional compreendido por 20 famílias.
Para o desenvolvimento deste trabalho fez-se necessário a adoção de critérios que
apontaram o perfil de seleção e inclusão dos entrevistados participantes. Desta forma, no
vasto universo de usuários do CAPS, selecionamos apenas os familiares dos usuários de
40

caráter intensivo e semi-intensivo assistidos na instituição. Sendo descartados os familiares de


pacientes que são atendidos apenas de forma ambulatorial, chamados de não intensivos, pois,
compreende-se que estes, em sua maioria, são portadores de transtornos leves, uma vez que o
indivíduo ainda possui certa autonomia para reger sua própria vida. Este modelo de seleção,
visava atender à necessidade de se obter elementos e informações mais profundas e objetivas
sobre os familiares que acompanham seus membros que possuem transtornos severos e
persistentes e o seu olhar diante desta rede de atendimento.
Tendo em vista a natureza do fenômeno, o instrumento que serviu de coleta de dados
para esta pesquisa foi uma entrevista semiestruturada, construída a partir da relação
previamente estabelecida entre os questionamentos e o objeto de estudo, informações estas,
que foram gravadas ou anotadas pelo entrevistador reproduzindo com fidedignidade as
respostas do entrevistado.
A pesquisa de campo tornou-se possível, pelo fato de que, em virtude da mudança do
Psiquiatra que atende naquela instituição, este profissional sentiu a necessidade de reavaliar
cada um desses usuários através de uma consulta previamente agendada, em que cada usuário
veio acompanhado por uma pessoa da família. Este momento foi oportuno e possibilitou a
aproximação com os sujeitos alvo da pesquisa. O que também facilitou a realização de uma
análise aproximativa para obter-se, assim, uma compreensão mais ampla acerca desta
temática.
Sobre a análise de dados, Gil (2008, p. 168) diz que ela tem por finalidade organizar as
informações de forma que se permita o fornecimento da resposta ao problema proposto para
investigação. Já a interpretação, propriamente dita, procura o sentido mais amplo das
respostas.
Neste sentido, posteriormente à coleta de dados obtida através dos questionamentos
feitos ao público alvo deste estudo, que contribuiu de forma direta no desenvolvimento desta
avaliação, foi realizada uma análise das respostas dos participantes embasados na
fundamentação teórica e nos estudos anteriores, para uma correta interpretação dos dados
coletados. Desta forma, buscou-se organizar os elementos necessários e constitutivos para que
se realize uma reflexão crítica sobre os dados obtidos.
Em atenção ao que se estabelece nas Resoluções 466/12, e 510/16, aos preceitos éticos
que devem nortear qualquer profissão e, em respeito à própria dignidade da pessoa humana, a
fundamentação foi regulada da seguinte forma: dentro do espaço ético, os procedimentos para
que a participação do entrevistado ocorra da maneira mais confortável possível, prezando
41

sempre pelo bem estar dos sujeitos participantes do processo da coleta de dados, de forma tal,
a não interferir, nem constranger sob nenhuma circunstância.

4.2 O envolvimento familiar no tratamento de usuários com transtorno mental

Nesse estudo, buscamos identificar as principais formas de envolvimento da família no


tratamento do usuário com transtorno mental, como também suas dificuldades para a
efetivação junto com os profissionais do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS).
A promoção em saúde está inscrita no Art. 196 da Constituição Federal de 1988 e na
Lei 8.080/90, como uma ação norteadora de ações e serviços, a qual preconiza a busca pela
garantia do direito à saúde, bem como uma melhor qualidade de vida, visando sempre à
integralidade da atenção e trabalhando o indivíduo na sua totalidade. Assim, a promoção da
saúde no espaço da saúde mental, especificamente no CAPS, está vinculada à busca de
garantia de direitos como uma forma de propiciar uma melhor qualidade na saúde dos seus
usuários.
Portanto, ressaltamos a compreensão dos entrevistados acerca da saúde e verificou-se
que o entendimento está voltado para a capacitação e orientação dos familiares de como viver
em sociedade, oferecendo apoio de como lidar com a saúde mental do seu ente, propiciando
assim uma melhor qualidade de vida, conforme expresso nos depoimentos a seguir:

Os programas e projetos ofertados aos usuários e suas famílias possibilitam


diminuir os sofrimentos psíquicos, aumentando a estima, sendo tratados com
dignidade exercitando a cidadania (Entrevistado 5).

Com a orientação e participação no CAPS a melhora foi muita! Antes ele


fugia e passava dias fora de casa sem sabermos por onde andava, depois que
começou a tomar a medicação e frequentar o CAPS ele não fugiu mais
(Entrevistado 6).

Conforme elucidado na fala dos participantes, a promoção da saúde pode ser definida
como uma estratégia na medida em que proporcione uma melhor qualidade no seu estilo de
vida, trabalhando o indivíduo como um todo e orientando a sociedade e a família para atuar na
melhoria de sua qualidade de vida, propiciando no campo da saúde mental a diminuição do
sofrimento psíquico.
42

Identifica-se na era contemporânea, inúmeros avanços no que se refere à promoção da


saúde, especialmente a sua concepção enquanto substrato que preza pelo conjunto de fatores
para se alcançar a saúde, isto é, trabalhar tanto o indivíduo como também a comunidade com
ações que possibilitam responder as necessidades, visando sempre à abordagem completa do
indivíduo, em seus aspectos físicos e psicológicos.
Contudo, mesmo diante das conquistas no âmbito da saúde mental, percebemos que
ainda há muito no que se avançar com relação às ações e atividades desenvolvidas no CAPS,
bem como nas instituições em geral, para promover a promoção da saúde.
Para tanto, a ofensiva do capital sobre o trabalho traz reflexos no campo da saúde
mental a partir da decorrente insuficiência de investimento por parte do Estado, no que se
refere às políticas públicas. Neste âmbito, são inúmeros os desafios para efetivar a promoção
da saúde na atenção em saúde mental.
Ao serem indagados sobre os principais desafios para a efetivação da promoção da
saúde na atenção em saúde mental dos seus familiares, os sujeitos entrevistados destacaram:
ausência de recursos materiais e humanos, entraves institucionais como também de recursos
financeiros que impossibilitam uma melhor eficácia na execução da política de saúde mental,
a não aceitação por parte de algumas pessoas da família do usuário em tratamento, e
ambientes inadequados para a efetivação dos serviços. Como evidenciado nos depoimentos a
seguir:

A falta de ambientes mais estruturados para a efetivação do serviço e amparo


ao doente (Entrevistado 1).

Aqui falta, as vezes a medicação, e falta também espaço para alguns


profissionais prestarem seu atendimento ao paciente e a sua família, eu digo,
com relação a informação, que a gente precisa para lidar com o doente
(Entrevistado 2).

Compreende-se que esses desafios são reflexos de uma conjuntura macrossocietária


que promove o desmonte nas políticas sociais, que necessariamente reflete nas condições
estruturais da instituição.
Nesse âmbito, os direitos sociais tendem a ser minimizados, como a saúde que se
converte em serviços privados, regulados pelo mercado como uma mercadoria, o Estado se
recua da sua responsabilidade e atua na regulamentação da economia, dando ênfase ao
privado e individual. Nesta lógica, as políticas públicas passam a ter caráter de fragmentação
e focalização.
43

Para Martiniano, Sampaio e Silveira (2014), a promoção da saúde embora inscrita no


artigo 196 da Constituição Federal de 1988 e na Lei 8.080/90, como uma estratégia
norteadora de ações e serviços que visem garantir o direito á saúde e a qualidade de vida,
também sofre dificuldades para a sua efetivação.
Conforme expõe Feuerwerker (2005), um dos impasses que também se encontra
presente no CAPS é o entendimento limitado de alguns profissionais que centralizam os
serviços ofertados em torno da figura do médico psiquiatra, ou seja, a supervalorização da
figura do médico, em detrimento do trabalho dos demais profissionais na área de saúde
mental. A maioria, enquanto profissional, acredita que a amenização do problema do usuário
se desenvolve a partir da medicalização, e não de uma cultura que ainda se configura na
concepção dos familiares dos sujeitos com transtornos mentais.
No cenário em estudo, é importante perceber que o tratamento do usuário com
transtorno mental se limita apenas a medicação, no entanto, a assistência deve voltar-se para a
construção de estratégias que contribuam no melhor desenvolvimento do seu tratamento,
propiciando, assim, o processo de melhoria da sua qualidade de vida. É necessário, portanto, a
interdisciplinaridade dos profissionais, em estabelecer um vínculo com os demais sujeitos da
sua equipe, com pacientes e familiares, visando a integração recíproca e intercâmbio entre as
diversas áreas.
Relativo à condição do trabalho prestado no CAPS ofertados na instituição, na
percepção da família do usuário, identificou-se a precarização do vínculo empregatício, como
reflexo da lógica global que rebate no comprometimento do trabalho executado nesse âmbito.
As principais dificuldades elencadas pelos entrevistados, para a efetivação da
promoção da saúde na atenção em saúde mental de seus pacientes familiares em tratamento,
são o preconceito, a ausência de apoio por grande parte da família e a não aceitação pela
sociedade. Conforme exposto nos depoimentos:

Preconceito e a não aceitação pela sociedade dos portadores de algum


distúrbio mental (Entrevistado 3).

O medo do doente faz com que algumas pessoas não entendam que ele faz,
certas coisas, né? Porque não é bom da cabeça, tem parente que tem
preconceito e por isso despreza ele, faz pouco caso. (Entrevistado 4).

Na visão dos participantes, o preconceito é um dos fatores que inibe a pessoa com
sofrimento psíquico avançar no tratamento, como também a ausência da família nesse
44

processo, pois, há a importância de serem reestabelecidos vínculos afetivos. Entende-se que, a


ausência de apoio familiar, a falta de conhecimento, exclusão social e preconceito, fazem com
que muitos seres humanos percam sua capacidade laborativa, e até mesmo sua identidade
(SANTANA; BRASILEIRO; ARAÚJO, 2014).
Face as dificuldades de as relações sociais da família serem também afetadas, uma vez
que comprometida pelo processo de sofrimento psíquico, muitas vezes sentem vergonha e se
distanciam das atividades sociais.
Um fator preponderante no tratamento das pessoas com sofrimento psíquico é o apoio
da família, sendo peça fundamental nesse processo, sob uma forma de propiciar uma melhor
qualidade na assistência prestada ao paciente com transtorno mental. Face ao exposto:

A coisa mais difícil é a família admitir que é doença mental. É tudo, menos
doença mental [...]. Diz, não, minha filha não é doente mental. Isso é
encosto, sangue que subiu na cabeça, foi uma comida que ela comeu [...] foi
o marido que maltratou [...], mas isso não é loucura não. Aceitar o problema
é muito difícil. Aceitar sem muitos porquês [...]. Tentar conviver da melhor
maneira. Reformular expectativas, não ter expectativas (ROSA, 2008, p.
245).

Percebemos que a família entende que possuir uma pessoa com transtorno mental se
torna algo humilhante, devido à ausência do conhecimento com relação à doença. Portanto, as
famílias não se encontram preparadas para lidar com uma pessoa com transtorno mental,
principalmente com crianças e adolescentes.
Assim, a família é considerada como um fator importante no tratamento contribuindo
de forma contundente para uma melhor qualidade de vida, com uma participação mais ativa
no acompanhamento, desta forma resultará numa melhor resolutividade nas ações de
promoção da saúde na atenção em saúde mental propiciando assim eficácia no tratamento.
É necessário ressaltar a ausência das políticas públicas locais que assistem as famílias,
no tocante a promoção de ações que contemplem a promoção da saúde na atenção em saúde
mental, embora sendo uma de suas responsabilidades em formular ações intersetoriais com
tais fins. Evidencia-se também a ausência da instância governamental em garantir condições
estruturais para a operacionalização da política de saúde mental, bem como a falta de
engajamento de algumas das profissionais sobre a problemática da saúde mental.
Conforme assevera Martiniano, Sampaio e Silveira (2014), a perspectiva da Promoção
da Saúde requer dos agentes da saúde, bem como da instituição familiar, uma capacidade
técnica de desenvolver ações intersetoriais e interdisciplinares. Para que as ações e serviços
45

sejam efetivados no campo da saúde mental, é necessário que os profissionais da saúde mental
apreendam os fatores determinantes e condicionantes da saúde, na busca eficaz não apenas do
tratamento de doenças, mas primar pela saúde. Este processo exige uma formação e
capacitação continuada para cada profissional da saúde mental, para assim poder auxiliar a
família na continuidade do tratamento.
No atual contexto, é necessário que as ações e serviços sejam operacionalizados dentro
da política de saúde mental propiciando assim uma melhor resolutividade nas ações e uma
melhor eficácia no tratamento, sendo um dos desafios à efetivação da promoção da Saúde na
consolidação do SUS.
Além disso, é essencial uma articulação por parte das profissionais, desenvolvendo
assim um trabalho em equipe com um melhor engajamento profissional. Desta forma, o
município deve investir mais para que a política de saúde mental seja operacionalizada. É
necessário para que aconteça a promoção da saúde na atenção em saúde mental que as ações e
serviços ofertados pelo CAPS visem a eficácia, para que possam proporcionar uma melhor
qualidade de vida, contribuindo para o seu processo da reinserção social, trabalhando o
indivíduo na sua totalidade assim,

Para a Promoção da Saúde, é fundamental organizar o trabalho vinculado à


garantia de direitos de cidadania e à produção de autonomia de sujeitos e
coletividades. Trata-se de desenvolver ações cotidianas que preservem e
aumentem o potencial individual e social de eleger formas de vida mais
saudáveis (BRASIL, 2009, p. 19 apud MARTINIANO; SAMPAIO;
SILVEIRA, 2014, p. 377).

Analisamos que a Promoção da Saúde na atenção em saúde mental é justamente não


trabalhar somente a doença, mas buscar priorizar uma mudança de concepção, estimulando
estratégias como potencializar a prevenção da saúde, desta forma propiciará uma diminuição
dos fatores de risco e o fortalecimento de fatores de proteção, contribuindo para uma melhor
qualidade de vida.
Nessa direção, a Promoção da Saúde está diretamente ligada à qualidade de vida, e
caracterizada pelo princípio da intersetorialidade, ou seja, a atuação em vários setores na
medida em que busca superar a mudança de atitudes de ações voltadas para a saúde e uma
concepção ampliada a partir de uma visão de totalidade na leitura da realidade. Conforme
explicita Costa (2014, p. 185) “a intersetorialidade na saúde se constitui em estratégia que
busca superar a ótica fragmentada que orientou a formação do setor”.
46

Cabe salientar que, no campo da saúde a Promoção da Saúde e o SUS são pontos de
comunicação e ambos têm em comum a incorporação do conceito de saúde como direito
universal e dever do Estado à garantia pela saúde, sobretudo o que implica, conforme Costa
(2014), o Estado assumir a política de saúde articulada com as demais. O Estado como sendo
o responsável pela garantia deste direito deve assumir o seu papel de responsabilidade por
uma política de saúde universal e pela garantia da sua efetivação que possibilitem condições
dignas de vida.
Por fim, o Estado tem como desafio assumir um papel preponderante de garantidor de
direitos “universais” na sociabilidade capitalista. Todavia, isso se torna cada vez mais distante
de ser efetivado, tendo em vista que a lógica preconiza a mutação dos serviços públicos em
produtos.
Conforme Costa (2014), uma das principais tarefas no campo da saúde, é atribuída as
ações e serviços de promoção com esforços coordenados e, articulado em diversos setores na
medida em que proporcione condições de vida digna e medidas preventivas, visando assim
uma melhor qualidade de vida.
Por conseguinte, Sá (2008) acentua que a promover a saúde do indivíduo se alicerça
nos parâmetros da Promoção da Saúde, a qual consiste em uma política comprometida com
ações e serviços de saúde, enfatizando a partir de políticas públicas saudáveis, numa forma de
responder as necessidades sociais baseadas nos direitos universais fundamentais. Percebendo,
assim, neste contexto, a necessidade de a promoção da saúde caminhar lado a lado com o
compromisso da equidade sendo o mesmo um dos focos da promoção da saúde.
No CAPS, o atendimento ao público com transtornos mentais se concretiza através da
Promoção da saúde, mediante o trabalho realizado por uma equipe multiprofissional com
ações voltadas ao indivíduo em sua totalidade, envolvendo a família como principal apoio, ou
seja, trabalhando tanto o aspecto físico como o mental em conjunto, potencializando
estratégias de prevenção. Assim, expõe:

Sempre que sou convidada eu procuro vir e participar, pois, a equipe


multiprofissional me informa como ele anda, posso conversar com os
profissionais e tirar minhas dúvidas (Entrevistado 1).

Com envolvimento mais efetivo, a equipe multiprofissional realiza mais


trabalhos coletivos, analisa profundamente os casos graves e dar
encaminhamentos, programas e projetos permanentes tanto na instituição
como fora dela (Entrevistado 5).
47

De acordo com as respostas, o processo assistencial, no âmbito da saúde mental se dá


a partir de um compromisso por parte da equipe multiprofissional junto a família, ou seja,
configura um dos fatores de extrema importância para realizar a promoção da saúde, visto que
são os mesmos que executam tal política.
Quando indagadas sobre as ações e serviços ofertados no CAPS e de que forma essas
ações contemplam a promoção da saúde na atenção em saúde mental, os entrevistados
destacaram que são realizadas palestras interdisciplinares, terapias pedagógicas, pelos
funcionários da instituição com o apoio de estagiários de diversos cursos.
Assim, compreendemos que as ações nas entrevistas identificam como acontece
promoção da saúde no CAPS, são ações que não comtemplam a promoção da saúde, pois, são
ações pontuais e não contínuas. No depoimento seguinte visualizamos a preocupação em
torno dessa problemática:

Percebo que poderiam ter melhores condições disponibilizando mais


profissionais, ambiente físico adequado, recursos materiais, como
computadores, cadeiras, data show para palestras, refeitório apropriado que
os usuários reacomodem [sic] bem na hora de refeição, local mais espaçoso
para o lazer e exercer atividade física, sala ampla para os encontros com as
famílias (Entrevistada 2).

Quanto às ações e serviços ofertados no CAPS, analisamos que para muitos


profissionais na área da saúde, as ações de promoção da saúde estão diretamente ligadas a
atividades educativas, em detrimento de ações resolutivas, na qual foi possível perceber que
as ações desenvolvidas no CAPS estão voltadas somente para atividades educativas e a
palestras, sendo bem restritas, ou seja, ocorridas apenas em dias marcados para a consulta dos
nossos doentes (Entrevistado 2).
Sobre isso, Ramos (2014) aborda que a atividade educativa ou educação em saúde
embora esteja incluída nas ações de promoção da saúde, estas não podem ser a única ação a
ser desenvolvida no campo da saúde, posto que são apenas um dos componentes de várias
atividades que englobam a promoção da saúde.
Pelo exposto, salienta-se que as ações de promoção da saúde não podem se restringir
somente a atividades educativas, ou seja, ações pontuais, mas trabalhar ações contínuas que
contemplem a promoção da saúde do usuário, numa perspectiva de efetivação de direitos. É
necessário também, na saúde mental, trabalhar o processo da reabilitação social do usuário
visando sempre um bem-estar físico e mental, visto que essas ações têm que proporcionar
uma melhor qualidade de vida ao usuário e a sua família.
48

Nessa concepção, de acordo com Ramos (2014), as atividades educativas apresentam


objetivos como o de orientar as pessoas no cuidado à sua saúde como também no processo de
adoecimento o qual contribuirá para o seu exercício de cidadania, como sujeitos de direitos
exercendo assim o controle social.
É necessário que os profissionais não se focarem somente em atividades educativas,
mas ir além com ações intersetoriais para a promoção da saúde como parceria fundamental
para a resolutividade dos problemas de saúde no âmbito da saúde mental. Para Ramos (2014),
a promoção da saúde se dá a partir de ações intersetoriais na medida em que visem à redução
dos fatores condicionantes e determinantes do processo saúde/doença.
As principais atividades desenvolvidas no Centro de Atenção psicossocial são as
atividades educativas, planejamento e avaliação frequente das ações. Neste sentido, para a
Política de promoção da saúde é de extrema importância o planejamento e a execução dessas
ações tendo em vista também o processo de avaliação das propostas elencadas para o
desenvolvimento desse setor.
A avaliação pode ser compreendida no campo da saúde mental como uma ferramenta
fundamental, pois, a análise contribui para uma melhor resolutividade, sendo assim, trabalhar
o indivíduo na sua totalidade, não separando o físico do mental, e não apenas no seu processo
de adoecimento, mas também no fortalecimento de sua identidade, como sujeito de direitos.
A promoção da saúde é considerada como um componente da integralidade, da
concepção ampliada de saúde a partir de ações e atividades a que vem contribuir para a
construção de políticas intersetoriais proporcionando assim uma melhor qualidade de vida aos
usuários. Neste contexto, é de extrema relevância apontar os desafios na efetivação da
promoção da saúde no Centro de Atenção Psicossocial.
Embora, a priori tenhamos procurado compreender o processo de envolvimento da
família no tratamento das pessoas com transtornos mentais atendidas no CAPS, pelas
restrições de acesso e disponibilidade dos sujeitos da pesquisa – tanto no que se refere à
participação na pesquisa quanto em responder a alguns dos questionamentos propostos
incialmente – acabamos necessitando redirecionar algumas perguntas que nos levaram a
apreender determinantes novos em relação ao nosso objeto de estudo.
No que pudemos acompanhar das experiências no cotidiano do CAPS, entendemos
que a participação familiar, se limitava aos momentos de consultas, ocorridas nas sextas-
feiras, uma vez que a instituição está passando por escassez de recursos humanos,
configurando uma realidade recorrente na instituição, devido a não efetivação do sistema de
saúde que garante acesso e permanência, nesse âmbito.
49

Evidenciou-se ainda, na visão de alguns dos familiares, que o serviço prestado auxilia
consideravelmente no tratamento e que, a inserção da família, nesse contexto, é de
fundamental importância para minimizar as dificuldades com o tratamento dos indivíduos
com transtorno mental. Pois, além do cuidado cotidiano com seu ente em casa, o trabalho
realizado no CAPS torna-se imprescindível, ao possibilitar atendimento integral ao usuário, o
que proporciona, mesmo que com condições mínimas, a interação e recuperação do sujeito
atendido.
Essa colaboração da família junto ao CAPS, no tratamento da pessoa com transtorno
mental, deve ser entendida e aperfeiçoada tanto no ambiente social quanto no ambiente
familiar, resultando em uma maior abrangência do problema e sua possível eliminação.
Os familiares ainda reportaram que, mesmo em meio a tantas dificuldades, o que mais
temem são as recaídas das crises da doença. A sobrecarga é tamanha, e por isso, procuram
fazer o tratamento adequado, de forma contínua para atenuar o sofrimento causado as pessoas
da família e, principalmente, para o próprio doente.
As visitas/idas dos familiares dos usuários atendidos no CAPS, mesmo que sejam
apenas em dias de consulta, auxiliam na melhoria do quadro de adoecimento do usuário, uma
vez que estes familiares acompanham as palestras e orientações, realizam trocas de
experiência entre os demais participantes, entre outras iniciativas.
Neste contexto, associamos a ação vinculada a família dos usuários do CAPS para
efetivar a promoção à saúde, com vistas à melhoria do tratamento e possível reabilitação do
indivíduo, conforme aborda Ramos:

[...] à integralidade da atenção, à abordagem completa do indivíduo, não o


dissociando do seu contexto de vida familiar e social, enxergando-o como
uma pessoa que, num dado momento, apresenta um problema em seu estado
de saúde, e não como uma doença que se instalou em um certo indivíduo
(RAMOS, 2014, p. 347-348).

O principal objetivo, nesse âmbito, é justamente não trabalhar somente a doença, mas
buscar uma mudança de modelo de intervenção, no caso, a inserção e participação da família,
estimulando a prevenção da saúde, contribuindo para a incorporação de ações de promoção de
saúde, além de contribuir para o tratamento, concebendo ao usuário viver com uma melhor
qualidade de vida.
Portanto, pelo exposto, entende-se que esses fatores, associados com o novo estilo de
vida, condicionado por uma sociedade capitalista que inverte os valores, primeiro o ter e por
50

último o ser, faz com que a demanda pelo atendimento em saúde mental cresça, aumentando
também a necessidade de profissionais especializados para atuar juntos às pessoas que
procuram para si ou para algum familiar, meios para solucionar ou pelo menos minimizar os
efeitos da doença.
Apesar disso, acreditamos na necessidade de envolvimento familiar no cuidado às
pessoas em processo de adoecimento mental, par auxiliar a evolução do tratamento, na
reintegração do indivíduo ao convívio social, entre outras questões associadas à promoção da
saúde mental. Isso não implica na aceitação de um discurso de total responsabilização da
família, muitas vezes sujeita a condições de vida miseráveis, mas no reconhecimento da
sociedade e do Estado de que é necessário um amplo investimento público que garanta
eficácia do tratamento e mudança de cultura na relação dos demais indivíduos com este tipo
de doença.
51

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir das reflexões tecidas ao longo deste trabalho, podemos perceber que a atenção
em saúde mental é realmente uma problemática que deve ser constantemente discutida e
reivindicada por aqueles que almejam viabilizar os direitos dos usuários da política de saúde.
A Reforma Psiquiátrica, também iniciada em 1970, foi um marco significativo para o
declínio do modelo hospitalocêntrico, que tinha uma cultura de institucionalização da loucura.
Submetendo os usuários, tratados e vistos como “loucos”, ao aprisionamento asilar,
tratamentos desumanos e violentos, que possibilitavam seu isolamento do convívio social.
Através de uma organização política de caráter progressista, esse contexto de violência
psíquica foi reformulado por meio de conquistas de Legislações específicas, como a Lei de n°
10.216 de 2001 constituindo um novo modelo de atendimento às pessoas com transtornos
mentais.
A abertura do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), proporcionou um novo olhar
para as pessoas com transtornos mentais, que passaram a ser atendidas numa perspectiva, não
apenas medicamentosa e isolada, mas reconhecido como cidadão de direito, priorizando o
fortalecimento do vínculo familiar e comunitário.
Entretanto, percebemos que, apesar de todos os desafios, houveram avanços na forma
de enfrentar os transtornos psíquicos vivenciados por indivíduos, com a política de saúde
mental, norteada sob uma nova forma de intervenção.
Assim, a promoção da saúde predomina pelo conjunto de fatores para se alcançar a
saúde, ou seja, trabalhar tanto o indivíduo como também a família com ações que possibilitem
obter respostas as necessidades, contudo visando sempre à abordagem completa do indivíduo.
Desse modo, constatou-se que a atenção em saúde mental é tida como uma forma de
propiciar ao usuário um reconhecimento como um sujeito de direito, contribuindo para o seu
processo de reabilitação social. Assim, percebe-se que, no seio da saúde mental, a promoção
da saúde tem sido compreendida de forma equivocada, uma vez que é restringida a atividades
educativas, em detrimento de ações resolutivas, pois esse seria um pressuposto para a
efetivação dos direitos dos usuários.
Portanto, há a necessidade de mais investimento por parte do setor público no que se
refere à política de saúde mental do CAPS, de modo a sinalizar ações e serviços mais efetivos,
com a participação da família, contribuindo para uma assistência maior no campo da saúde
mental de pessoas com transtornos mentais.
52

Os desafios são diversos, nessa conjuntura, nesta perspectiva, é preciso que a gestão da
política realizada pela instância governamental ofereça condições para que os profissionais
possam desenvolver suas atribuições e competências, possuindo uma estrutura viável para
garantir condições materiais e humanas adequadas, que está além das questões endógenas à
própria política.
É de grande relevância a participação da família junto ao atendimento dos usuários
com relação à Promoção da Saúde no âmbito da saúde mental, uma vez que as intervenções,
nesse âmbito, estão voltadas para a garantia dos direitos e serviços que visem à promoção,
proteção e recuperação em saúde, numa perspectiva do processo saúde-doença que são os
fatores determinantes e condicionantes da produção da saúde.
Conclui-se que, no campo da saúde mental há muito a se avançar, apesar dos esforços
para a prestação dos serviços e ações propostas, serem implementados de fato. Neste sentido,
há a necessidade de qualificar e promover a formação dos profissionais que atuam na política
de saúde mental, para assistência e inserção efetiva da família à equipe, tendo em vista à
ausência em estabelecer parcerias, para a realização de um trabalho multidisciplinar na
medida em possa proporcionar estratégias de ações baseada na intersetorialidade e
integralidade.
Portanto, é necessário que a instituição família se torne protagonista desse processo e
participe de maneira efetiva, reivindicando e pressionando o Estado para que seus direitos
sejam assegurados.
53

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56

APÊNDICES
57

FACULDADE DE FILOSOFIA CIÊNCIAS E LETRAS DE CAJAZEIRAS – FAFIC


COORDENAÇÃO DO CURSO DE SERVIÇO SOCIAL
APÊNDICE A – INSTRUMENTO DA PESQUISA

Pesquisadores(a)s: Jerisnalda Alves Marinho Maniçoba.


Pesquisa: A CONTRIBUIÇÃO DAS FAMÍLIAS NO PROCESSO DE TRATAMENTO
DOS USUÁRIOS DO CAPS II DE CAJAZEIRAS

Data: ________/________/________
N°: ________

QUESTIONÁRIO

I DADOS DE IDENTIFICAÇÃO DA AMOSTRA PARTICIPANTE

1. Grau de parentesco: __________________________________________________


2. Cidade onde mora: ___________________________________________________
3. Composição Familiar: ________________________________________________
4. Renda Familiar: _____________________________________________________
5. O usuário possui BPC: ________________________________________________
6. Tipo de Moradia: ____________________________________________________
7. Religião predominante na Família: _____________________________________

II DADOS REFERENTES À PROPOSTA DE ANÁLISE

1. Quais os principais desafios para a efetivação da promoção da saúde na atenção em saúde


mental dos seus familiares?

2. A que você atribui o desenvolvimento desta doença?

3. Como o atendimento do CAPS acontece para os seus familiares? Há participação efetiva da


família no tratamento do usuário nessa instituição?

4. Por possuir um familiar com transtorno mental, sua família sofre algum tipo de preconceito
por parte dos vizinhos ou até mesmo por parte de outros parentes?

5. Que dificuldades você encontra em conviver e lidar com um portador de transtorno mental?
Mais alguém da família divide com você os cuidados com esse familiar?

6. Você consegue perceber alguma diferença na recuperação antes e depois que ele passou a
realizar o tratamento do CAPS?

7. Você participa ativamente das ações do CAPS ou acompanha de perto o tratamento e


recuperação deste familiar? Como?

8. Qual a sua perspectiva para o futuro do familiar com transtorno mental?


58

FUNDAÇÃO DE ENSINO SUPERIOR DE CAJAZEIRAS – FESC


FACULDADE DE FILOSOFIA, CIÊNCIAS E LETRAS DE CAJAZEIRAS – FAFIC
CURSO DE BACHARELADO EM SERVIÇO SOCIAL
APÊNDICE B -TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO

Bom dia, meu nome é Jerisnalda Alves Marinho Maniçoba, eu sou graduanda do curso de
Serviço Social da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Cajazeiras (FAFIC) e o Sr. (a)
está sendo convidado (a), como voluntário (a), à participar da pesquisa intitulada: “A
CONTRIBUIÇÃO DOS FAMILIARES NO PROCESSO DE TRAMENTO DOS
USUÁRIOS DO CAPS II DE CAJAZEIRAS”.

JUSTIFICATIVA, OBJETIVOS E PROCEDIMENTOS: O motivo que nos leva a estudar


esta problemática foi elaborado a partir da experiência de estágio e da reflexão acerca da
importância da coloboração das famílias para a evolução dos quadros clínicos de pessoas com
sofrimento mental. O objetivo dessa pesquisa é analisar os aspectos que perpassam a realidade
dessas famílias, juntamente com as dificudades e sobrecargas existentes nesse contexto. O
procedimento de coleta de dados será realizado da seguinte forma: A população deste estudo
deverá ser composta por familiares de primeiro grau dos usuários que são atendidos pelo
Centro de Atenção Psicossocial-CAPS, sendo delimitado 20 usuários, que estão sendo
acompanhados no espaço de tempo entre agosto a dezembro de dois mil e dezenove, ou seja,
no período de 05 meses. Com relação a amostra, esta será representada pelo percentual de
30%, o que equivalerá a 06 parentes dos usuários do total populacional.

DESCONFORTOS, RISCOS E BENEFÍCIOS: Esta pesquisa poderá enfrentar alguns


riscos em seu processo de desenvolvimento. Cabe aqui destacar, por exemplo, que respeitando
aos preceitos éticos, os entrevistados participantes poderão descontinuar a sua participação a
qualquer momento, durante a entrevista. Como também, poderão se negarem a fornecer
quaisquer respostas que serão indicadas no instrumento da pesquisa. Os resultados desta
pesquisa poderão contribuir de forma significativa para a compreensão da relevância que o
profissional do Serviço Social desempenha na efetivação dos direitos na área sociojurídica.

FORMA DE ACOMPANHAMENTO E ASSISTÊNCIA: A participação do Sr.(a) nessa


pesquisa não implica necessidade de acompanhamento e/ou assistência posterior, tendo em
vista que a intensão da pesquisa é somente a coleta de dados para a análise da problemática o
que não acarretará necessidade de acompanhamento.

GARANTIA DE ESCLARECIMENTO, LIBERDADE DE RECUSA E GARANTIA DE


SIGILO: O Sr. (a) será esclarecido (a) sobre a pesquisa em qualquer aspecto que desejar. O
Sr. (a) é livre para recusar-se a participar, retirar seu consentimento ou interromper a
participação a qualquer momento. A sua participação é voluntária e a recusa em participar não
irá acarretar qualquer penalidade ou perda de prestação de serviços aqui no estabelecimento.
Os pesquisadores irão tratar a sua identidade com padrões profissionais de sigilo. Os
resultados da pesquisa permanecerão confidenciais podendo ser utilizados apenas para a
execução dessa pesquisa. Você não será citado (a) nominalmente ou por qualquer outro meio,
59

que o identifique individualmente, em nenhuma publicação que possa resultar deste estudo.
Uma cópia deste consentimento informado, assinada pelo Sr. (a) na última folha e rubricado
nas demais, ficará sob a responsabilidade do pesquisador responsável e outra será fornecida
ao (a) Sr. (a).

CUSTOS DA PARTICIPAÇÃO, RESSARCIMENTO E INDENIZAÇÃO POR


EVENTUAIS DANOS: A participação no estudo não acarretará custos para Sr. (a) e não será
disponível nenhuma compensação financeira adicional. Não é previsível dano decorrente
dessa pesquisa ao (a) Sr. (a).

DECLARAÇÃO DO PARTICIPANTE OU DO RESPONSÁVEL PELO


PARTICIPANTE: Eu______________________________________________________,
fui informado (a) dos objetivos da pesquisa acima de maneira clara e detalhada e esclareci
todas minhas dúvidas. Sei que em qualquer momento poderei solicitar novas informações e
desistir de participar da pesquisa se assim o desejar. O (a) pesquisador (a) Jerisnalda Alves
Marinho Mançoba certificou-me de que todos os dados desta pesquisa serão confidenciais, no
que se refere a minha identificação individualizada, e deverão ser tornados públicos através de
algum meio. Ele compromete-se, também, seguir os padrões éticos definidos na Resolução
CNS 466/12. Também sei que em caso de dúvidas poderei contatar o (a) estudante Jerisnalda
Alves marinho Maniçoba pelo telefone (83) 9 8112-1671 e pelo e-mail
ninhaalves84@hotmail.com ou professor (a) orientador (a) Mayéwe Eliênya Alves dos Santos
pelo telefone (83) 9 9987-9604 e pelo e-mail mayewe_pb@hotmail.com.

________________________________ __________________________ ___/__/__


Nome Assinatura do Participante da Pesquisa Data

Jerisnalda Alves Marinho Maniçoba


________________________________ __________________________ ___/__/__
Nome Assinatura do Pesquisador Data
60

ANEXOS
61

FUNDAÇÃO DE ENSINO SUPERIOR DE CAJAZEIRAS – FESC


FACULDADE DE FILOSOFIA, CIÊNCIAS E LETRAS DE CAJAZEIRAS – FAFIC
CURSO DE BACHARELADO EM SERVIÇO SOCIAL

ANEXO A - TERMO DE RESPONSABILIDADE

Por este termo, eu, abaixo assinado, assumo a responsabilidade de autoria do conteúdo deste
Projeto de Pesquisa, estando ciente das sansões legais previstas, em caso de plágio, na Lei
9610/98. Ficam, portanto, a Instituição e o Professor Orientador isentos de qualquer ação
negligente da minha parte, pela veracidade e originalidade desta obra.

Cajazeiras/PB, 20 de Outubro de 2019.

Jerisnalda Alves Marinho Maniçoba


Nome do Aluno
62

Estamos cientes da intenção da realização do projeto intitulado “A CONTRIBUIÇÃO DAS


FAMÍLIAS NO PROCESSO DE TRATAMENTO DOS USUÁRIOS DO CAPS II DE
CAJAZEIRAS-PB” desenvolvida pela aluna Jerisnalda Alves Marinho Maniçoba do Curso de
Serviço social Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Cajazeiras/FAFIC, sob a
orientação da professora Mayéwe Eliênya Alves dos Santos.

Cajazeiras/PB, 20 de Outubro de 2019.

___________________________________
Darlania Pinheiro Leandro
Coordenador(a) de Estágio
63

SECRETARIA MUNICIPAL DE SAÚDE DE CAJAZEIRAS


CENTRO DE ATENÇÃO PSOCOSSOCIAL-CAPS II
CNPJ MANTENEDORA: 08.923.971/0001-15
ANEXO C - TERMO DE AUTORIZAÇÃO INSTITUCIONAL

Estamos cientes da intenção da realização do projeto “ A CONTRIBUIÇÃO DAS FAMÍLIAS


NO PROCESSO DE TRATAMENTO DOS USUÁRIOS DO CENTRO DE ATENÇÃO
PSICOSSOCIAL-CAPS II” desenvolvida pela aluna JERISNALDA ALVES MARINHO
MANIÇOBA do Curso de Serviço Social Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de
Cajazeiras/FAFIC, sob a orientação da professora Mayéwe Eliênya Alves dos Santos.

Cajazeiras/PB, 20 de Outubro de 2019.

______________________________________________
Coordenador do Centro de Atenção Psicossocial-CAPS II
Cajazeiras – PB
64

TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO – TCC

TERMO DE COMPROMISSO ÉTICO

Eu, Jerisnalda Alves Marinho Maniçoba, acadêmica do Curso de Bacharelado em Serviço


Social da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Cajazeiras – FAFIC, comprometo-me a
respeitar a autoria das referências utilizadas na elaboração do TCC – FAMÍLIA E SAÚDE
MENTAL: REFLEXÕES SOBRE A PARTICIPAÇÃO DOS FAMILIARES NO
TRATAMENTO DE USUÁRIOS DO CENTRO DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (CAPS),
seguindo as normas que regulamentam o trabalho científico, assim como a legislação
pertinente.

Declaro estar ciente da responsabilidade legal em caso de descumprimento do presente


Termo.

Cajazeiras. _________de _____________________de 20_____.

_______________________________

Assinatura e CPF do(a) acadêmico(a)


65

TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO – TCC

TERMO DE RESPONSABILIDADE E AUTENTICIDADE

Eu,________________________________________________________________________,
acadêmico (a) regularmente matriculado(a) nesta IES, sob o n.º ________________, declaro,
para todos os fins, que o conteúdo deste Trabalho de Conclusão de Curso foi elaborado,
respeitando-se os princípios da moral e da ética, assim como qualquer direito de propriedade
intelectual, sob pena de responder civil, criminal, ética e profissionalmente por meus atos.
Ficam, portanto, a Instituição, o professor orientador e os demais membros da Banca
Examinadora isentos da responsabilidade sobre qualquer ação negligente da minha parte, no
que diz respeito à veracidade e originalidade desta obra.

Cajazeiras, _____ de _________________ de 20_____.

________________________________________

Assinatura e CPF do(a) Acadêmico(a)