Você está na página 1de 15

PRÉ-UNIVERSITÁRIO OFICINA DO SABER Aluno(a):

DISCIPLINA: Literatura PROFESSORES: Suéllen da Mata

O MODERNISMO – GERAÇÃO DE 45 TEXTO 17

Modernismo transreal e psicológico

A terceira geração do Modernismo brasileiro foi de 1945 a meados dos anos 1960. O ano de 1945 marcou
o fim da Segunda Guerra Mundial, com um número enorme de mortos e com muitos países arrasados.

A Alemanha havia se rendido em maio de 1945, pondo fim ao conflito mundial na Europa. Como o Japão
não se rendia, os Estados Unidos lançaram bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, em agosto,
causando não apenas a rendição do país, mas também grande número de mortos e efeitos devastadores
da radiação nuclear nos sobreviventes. Os Estados Unidos, assim, mostravam o poder bélico que
possuíam, iniciando um período de grande transformação mundial, com a era nuclear e a
chamada Guerra Fria, que dividiu o mundo em dois lados: um capitalista, comandado pelos
estadunidenses, e outro socialista, liderado pela então União Soviética.

No Brasil, no mesmo ano, houve o fim da ditadura Vargas e o início de um período de normalidade
democrática, com a eleição direta de Eurico Gaspar Dutra (1883-1974) e, depois, com a volta de Getúlio,
como presidente eleito em 1950. No entanto, em agosto de 1954, Vargas cometeu suicídio após sofrer
acusações de envolvimento na tentativa de assassinato do jornalista Carlos Lacerda (1914-1977), seu
principal opositor, ocasionando nova crise no país.

Com a eleição de Juscelino Kubitschek (1902-1976), em 1955, seu projeto desenvolvimentista de


governo tentou estimular a industrialização do país. Em 1960, ele inaugurou Brasília, a nova capital
federal, com uma arquitetura arrojada, simbolizando a modernidade.

Em agosto de 1961, o novo presidente eleito, Jânio Quadros, renunciou alguns meses depois da posse, e o
vice-presidente, João Goulart (Jango), assumiu a presidência, colocando o país em crise mais uma vez,
pois as Forças Armadas e vários setores da sociedade eram contrários a ele. Essa oposição foi se
acentuando na medida em que o governo promovia reformas sociais de base (administrativa, agrária,
educacional, etc.) que, no conjunto, significavam maior intervenção do Estado na economia, proposta que
se distanciava do modelo capitalista e aproximava Jango do comunismo internacional. Então, com o apoio
dos Estados Unidos, o Exército brasileiro, apoiado por civis, destituiu Jango do poder, tendo início um
novo período autoritário no Brasil, em abril de 1964.

No período da redemocratização (1945-1964) que ocorreu no país, a arte brasileira conviveu


entre tendências realistas, herdeiras da tradição do Neorrealismo da geração anterior, e novas
experiências expressivas na prosa e na poesia.

O marco inicial da terceira geração modernista é o ano de 1945, associado ao fim da Segunda Guerra
Mundial e da ditadura de Vargas. Na literatura surgiram as primeiras obras de autores
fundamentais: Pedra do sono (João Cabral de Melo Neto, de 1942), Perto do coração selvagem (Clarice
Lispector, de 1943) e Sagarana (Guimarães Rosa, de 1946). Esses escritores ainda estavam vivos em
1964, data na qual a literatura passou a participar da luta contra a ditadura, tomando novos rumos.

Prosa da terceira geração modernista


A prosa de ficção da terceira geração modernista teve como principal marca a retomada da pesquisa
formal que havia caracterizado os primeiros anos do Modernismo brasileiro, ampliando-se as
preocupações sociais presentes no romance neorrealista e inserindo-as em uma perspectiva universal. A
realidade concreta passou a conviver com algo que se poderia chamar de transreal, isto é, a percepção
da realidade ia além da aparência, atingindo dimensões metafísicas e espiritualistas.

Além disso, acentuou-se o teor psicológico das narrativas, com o desnudamento das angústias do
indivíduo, que vivia um tempo de expectativa de destruição mundial com a ameaça atômica. Em paralelo,
ganharam força os questionamentos dos limites da própria arte e de sua capacidade de transformar o
mundo.

O conto se popularizou nesse momento, tanto em sua forma mais condensada, como se vê em Laços de
família (1960) ou Felicidade clandestina (1971), de Clarice Lispector, quanto na manifestação mais
extensa, como nas narrativas de Sagarana (1946) e Corpo de baile (1956), de Guimarães Rosa.

Guimarães Rosa

João Guimarães Rosa nasceu em 1908, na cidade mineira de Cordisburgo, onde passou a infância. Fez o
curso secundário em Belo Horizonte. Em 1930, formou-se em Medicina, passando a exercer a profissão
em pequenas cidades de Minas Gerais, o que lhe permitiu conhecer bem de perto a região que
transformaria em cenário de suas narrativas, e para a qual retornaria em várias ocasiões ao longo de toda
a vida. Em 1934, iniciou sua carreira diplomática, levado por seu interesse por línguas e culturas
estrangeiras.

Depois de participar de concursos literários e de publicar um livro de poemas, lançou, em 1946, o volume
de contos Sagarana, com o qual definitivamente marcou seu nome na história da literatura —
confirmado dez anos depois, com o romance Grande sertão: veredas. Ele morreu em 1967, três dias
depois de ter assumido a cadeira que ganhara três anos antes, na Academia Brasileira de Letras.

A força da palavra e da linguagem

A linguagem utilizada por Guimarães Rosa em suas obras, construída de maneira pessoal, em um estilo
único, com a invenção de novas palavras e a atribuição de novos sentidos para muitas das palavras
existentes, pode provocar estranhamento no leitor e tornar a leitura até mesmo complexa.

O escritor utilizou como ferramenta o neologismo — o processo de atribuição de novos sentidos a


palavras já existentes, ou de criação de novas palavras, formadas a partir de outras, que podem, até
mesmo, vir de outro idioma. Observe, a seguir, algumas de suas criações na linguagem.

• sozinhozinho (sozinho + partícula indicadora de diminutivo): solidão acentuada;


• ossoso (osso + partícula intensificadora): indivíduo muito magro;
• sussurruídos (sussurro + ruídos): som produzido pelas falas de pessoas em voz baixa;
• adormorrer (adormecer + morrer): referência a uma personagem que morreu dormindo.

Guimarães Rosa fazia um trabalho especial com a linguagem. Um dos recursos utilizados para isso é o
trabalho com o ritmo. O trecho a seguir, extraído da obra Sagarana, é um dos exemplos mais
representativos desse recurso.

As ancas balançam, e as vagas de dorsos, das vacas e touros, batendo com as caudas, mugindo no meio, na
massa embolada, com atritos de couros, estralos de guampas, estrondos e baques, e o berro queixoso do
gado junqueira, de chifres imensos, com muita tristeza, saudade dos campos, querência dos pastos de lá do
sertão.

[...]

Boi bem bravo, bate baixo, bota baba, boi berrando... Dança doido, dá de duro, dá de dentro, dá direito... Vai,
vem, volta, vem na vara, vai não volta, vai varando...
ROSA, Guimarães. Sagarana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015. p. 44.
(Fragmento).

Regional e universal

Quando Guimarães Rosa começou a escrever, já havia uma longa tradição do regionalismo na literatura
brasileira, mas ele o fez de maneira a acentuar um aspecto dessa temática: a capacidade de perceber no
elemento regional o que há de generalizante e universal. Por isso, seu regionalismo tem uma ligação
menos estreita com a realidade do que ocorre nas obras dos neorrealistas da década de 1930.

As personagens sertanejas da ficção de Guimarães Rosa, por exemplo, não se expressam de maneira
realista. Elas usam uma linguagem estilizada, criada pelo escritor, a partir do linguajar dos habitantes
do interior de Minas Gerais. Da mesma forma, o espaço em que se passam as ações de suas narrativas só
existe na ficção.

O sertão de Guimarães Rosa é imaginário, porque vai além dos marcos geográficos e pode abarcar o
mundo inteiro. Isso ocorre porque a literatura de Rosa não fala simplesmente do sertanejo de Minas, mas
do ser humano. Conheça esse aspecto do escritor no trecho a seguir, do romance Grande sertão: veredas.

— Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no
quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí,
vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser — se viu —; e com
máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de
beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão: determinaram — era o demo.
Povo prascóvio. Mataram. Dono dele nem sei quem for. Vieram emprestar minhas armas, cedi. Não tenho
abusões. O senhor ri certas risadas... Olhe: quando é tiro de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir,
instantaneamente — depois, então, se vai ver se deu mortos. O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem
que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras
altas, demais do Urucuia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então, o aqui não é dito sertão? Ah, que
tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze
léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de
autoridade. O Urucuia vem dos montões oestes. Mas, hoje, que na beira dele, tudo dá — fazendões de
fazendas, almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em mata, madeiras
de grossura, até ainda virgens dessas lá há. O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim,
cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães... O sertão está em toda a
parte.

Do demo? Não gloso. Senhor pergunte aos moradores. Em falso receio, desfalam no nome dele — dizem
só: o Que-Diga. Vote! não... Quem muito se evita, se convive. Sentença num Aristides — o que existe no
buritizal primeiro desta minha mão direita, chamado a Vereda-da-Vaca-Mansa-de-Santa-Rita – todo o mundo
crê: ele não pode passar em três lugares, designados: porque então a gente escuta um chorinho, atrás, e
uma vozinha que avisando: — “Eu já vou! Eu já vou!...” — que é o capiroto, o que-diga...
ROSA, Guimarães. Grande sertão: veredas.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006. p. 5. (Fragmento).

Sagarana

Com a publicação de Sagarana, em 1946, Guimarães Rosa fez, por um lado, um resgate importante da
cultura popular, com a utilização de uma linguagem brasileira que o tornou um legítimo herdeiro da
proposta modernista; por outro, os sentidos inusitados que ele deu às falas coloquiais de seus textos
ultrapassam o cotidiano e alcançam uma dimensão permanente. Além disso, ele mergulhou na essência
da cultura popular para ver ali um ponto em comum com outras culturas, já que muitos desses contos
remetem o leitor a narrativas ancestrais, que pertencem a culturas de vários povos do mundo.

O título do livro é formado por duas expressões de origens bastante distintas: saga é uma expressão de
origem latina que quer dizer “lenda”; rana é uma terminação da língua tupi que tem o sentido de
“semelhante, parecido com”. Assim, a palavra Sagarana sugere que as histórias contidas no livro são
contadas como se fossem lendárias. Mais do que uma brincadeira com a palavra, esse duplo sentido
corresponde à essência da arte de contar histórias: elas podem ser lendárias e, como tal, fictícias, mas
tratam de sentimentos e comportamentos humanos que são reais e constantes.

Síntese

• O burrinho pedrês — Em uma condução de boiada, o velho burrinho Sete-de-Ouros é convocado


às pressas. Os vaqueiros desconfiam de sua capacidade de resistir, mas no final é ele que,
experiente, salva dois deles da morte certa, durante a cheia de um rio. Outros cavalos, jovens e
fortes, não resistem à força das águas e acabam afundando com seus montadores.
• A volta do marido pródigo (Traços biográficos de Lalino Salãthiel) — Vivendo no interior de
Minas Gerais com Maria Rita, Lalino deseja ir para o Rio de Janeiro viver aventuras amorosas.
Junta dinheiro, empresta do espanhol Ramiro, faz as malas e parte. Depois de muito chorar, a
esposa passa a viver com Ramiro. Sem dinheiro e com saudades, Lalino retorna e afasta Ramiro de
Maria Rita, que perdoa o marido aventureiro.
• Sarapalha — No vilarejo de Sarapalha, assolado pela malária, Ribeiro vive em uma fazenda em
companhia de seu primo Argemiro. Os dois, com a doença, sentem dor, tremedeiras e têm febre. A
dor de Ribeiro é acentuada pelo abandono da esposa Luísa, que fugira com outro homem. Um dia,
Argemiro confessa que também a amou, e Ribeiro o expulsa.
• Duelo — Turíbio Todo flagra a mulher, Silivana, com outro homem, o ex-militar Cassiano Gomes.
Na tentativa de vingar-se, Turíbio mata, por engano, o irmão do amante. Cassiano o persegue por
longo tempo, mas para quando começa a sofrer com problemas cardíacos. Instala-se em um
povoado, onde conhece Timpim, um rapaz com necessidades financeiras. Cassiano auxilia-o nos
cuidados com o filho doente e, em troca, encomenda-lhe a vingança, morrendo em seguida.
Timpim cumpre a promessa e mata Turíbio Todo.
• Minha gente — De férias, o narrador visita a fazenda de seu tio, onde reencontra Maria Irma, com
a qual tenta resgatar um antigo romance. Em vez disso, a prima o aproxima de uma amiga que
estava noiva de um rapaz por quem aquela estava interessada. O narrador se casa com a amiga, e
Maria Irma, com o rapaz.
• São Marcos — O narrador, Izé, que desprezava crendices populares e fazia pouco-caso da
feitiçaria de João Mangolô, perde subitamente a visão durante um passeio. É obrigado a utilizar
seus outros sentidos para se movimentar no interior da mata e faz até uma reza a São Marcos.
Desconfiado de ter sido vítima de Mangolô, chega à casa deste obrigando-o a desfazer o feitiço
para voltar a enxergar.
• Corpo fechado — O médico de um lugarejo em Minas Gerais narra a história de Manuel Fulô,
noivo de Das Dores e apaixonado por sua mulinha Beija-Fulô. O valentão do lugarejo, Targino,
requisita os favores amorosos de Das Dores antes do casamento e, para evitar isso, Manuel deve
duelar com ele. Em troca da mula, Antonico das Pedras faz um feitiço para fechar o corpo de
Manuel, que sai vitorioso e passa a ser o novo valentão.
• Conversa de bois — O menino Tiãozinho acaba de perder o pai e se vê sob o domínio violento e
autoritário do carreiro Agenor Soronho, amante de sua mãe. Seu ódio pelo homem é transmitido
aos bois, que se comunicam magicamente e tramam a morte do carreiro. Durante a condução do
corpo do pai ao cemitério, os bois, em combinação, sacodem o carro e derrubam o condutor, que é
esmagado pelas rodas.
• A hora e vez de Augusto Matraga — O violento Augusto Esteves vê a esposa fugir com outro
homem e os capangas o abandonarem por falta de pagamento. Na busca de vingança, é surrado e
considerado morto. Então, um casal de negros o recolhe e cuida dele em segredo. Quando
melhora, muda-se com o casal para o Tombador, onde passa o tempo entre a reza e o trabalho.
Certa vez, aparece o bando do cangaceiro Joãozinho Bem-Bem, que Augusto recebe bem,
ganhando sua confiança e amizade. Um dia, sentindo um chamado místico, Augusto parte e
reencontra Joãozinho, que se prepara para se vingar de uma família por causa da morte de um de
seus homens. Augusto defende um velho da família e luta contra o bando. No embate final, ele e
Joãozinho Bem-Bem morrem.
O regionalismo aparece de forma explícita em Sagarana: o cenário dos contos é sempre o interior de
Minas Gerais e, além disso, a cultura local é o tempo todo referida na estilização da fala mineira e no
resgate de provérbios populares que atravessam a obra. No entanto, as narrativas remetem a elementos
que transcendem o ambiente imediato. Assim, em “O burrinho pedrês”, sob o relato de uma condução de
bois, tem-se a temática da valorização da experiência; em “A volta do marido pródigo”, o elogio da
esperteza; em “Sarapalha”, o tema do ciúme; em “Duelo”, o verdadeiro assunto é o destino, que foge ao
controle humano; em “A hora e vez de Augusto Matraga”, além do regionalismo, vê-se a presença do
misticismo na busca do homem pela redenção de seus pecados através de um caminho de sofrimento e
dor. Leia, a seguir, um trecho desse último conto.

Então eles trouxeram, uma noite, muito à escondida, o padre, que o confessou e conversou com ele,
muito tempo, dando-lhe conselhos que o faziam chorar.

— Mas, será que Deus vai ter pena de mim, com tanta ruindade que fiz, e tendo nas costas tanto pecado
mortal?!

— Tem, meu filho. Deus mede a espora pela rédea, e não tira o estribo do pé de arrependido nenhum...

E por aí a fora foi, com um sermão comprido, que acabou depondo o doente num desvencido torpor.

— Eu acho boa essa ideia de se mudar para longe, meu filho. Você não deve pensar mais na mulher, nem
em vinganças. Entregue para Deus, e faça penitência. Sua vida foi entortada no verde, mas não fique triste,
de modo nenhum, porque a tristeza é aboio de chamar o demônio, e o Reino do Céu, que é o que vale,
ninguém tira de sua algibeira, desde que você esteja com a graça de Deus, que ele não regateia a nenhum
coração contrito!

— Fé eu tenho, fé eu peço, Padre...

[...]

— Reze e trabalhe, fazendo de conta que esta vida é um dia de capina com sol quente, que às vezes custa
muito a passar, mas sempre passa. E você ainda pode ter muito pedaço bom de alegria... Cada um tem a sua
hora e a sua vez: você há de ter a sua.

[...]

Largaram à noite, porque o começo da viagem teria de ser uma verdadeira escapada. E, ao sair, Nhô
Augusto se ajoelhou, no meio da estrada, abriu os braços em cruz, e jurou:

— Eu vou p’ra o céu, e vou mesmo, por bem ou por mal!... E a minha vez há de chegar... P’ra o céu eu vou,
nem que seja a porrete!... [...]
ROSA, Guimarães. A hora e vez de Augusto Matraga.
In: Sagarana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015. p. 299-300.
(Fragmento).

Grande sertão: veredas

O romance Grande sertão: veredas, publicado em 1956, traz no título as duas dimensões do romance: de
um lado, os feitos heroicos que acontecem na região do grande sertão; de outro, as reflexões que cortam a
narrativa como veredas (isto é, caminhos estreitos). No entanto, essas veredas também constituem o
sertão, o que explica os dois pontos que aparecem no título.

Assim, as duas dimensões se confundem na narrativa, mesclando as aventuras do narrador, Riobaldo, e


suas reflexões a respeito do mundo (como a existência ou não do demônio) e da vida (como os confusos
sentimentos que nutre pelo companheiro Diadorim).
Síntese

O romance é narrado em primeira pessoa por Riobaldo, fazendeiro de Minas Gerais, que conversa com
um interlocutor cujas intervenções não aparecem na narrativa. Inicialmente, Riobaldo expõe alguns
dilemas nos quais se sente envolvido, como a luta entre o Bem e o Mal e a existência do demônio. Aos
poucos, relata sua vida: o encontro na infância com o menino Reinaldo (modelo, para ele, de coragem e
valentia); o contato com o padrinho Selorico Mendes, que depois da morte da mãe passou a viver com ele
e fez com que estudasse.

Quando jovem, Riobaldo dá lições ao fazendeiro Zé Bebelo, para que este pudesse se expressar melhor e
entrar para a política. Terminadas as lições, ele torna-se um combatente do bando de Zé Bebelo, que
queria acabar com o poder dos jagunços e impor a justiça no sertão. Após um tempo, por discordância,
afasta-se desse bando e, a convite do amigo Reinaldo, que reencontra casualmente, passa a fazer parte de
outro grupo, comandado por Joca Ramiro, que se opunha a Zé Bebelo.

Riobaldo e Reinaldo tornam-se grandes amigos e Riobaldo passa a chamá-lo de Diadorim. Em uma das
batalhas, Zé é capturado pelo bando de Joca, que o expulsa em vez de matá-lo. Dois membros do grupo de
Joca Ramiro, Hermógenes e Ricardão, traem o chefe e o matam, fazendo o grupo se dividir: alguns se
tornam seguidores dos traidores; Riobaldo, Diadorim e outros permanecem fiéis à memória do antigo
líder, sob o comando de Medeiro Vaz. Diadorim revela a Riobaldo que Joca Ramiro era seu pai.

Riobaldo envolve-se com Otacília, deixando Diadorim com raiva. Riobaldo não compreende a natureza
dos sentimentos confusos que tem pelo amigo.

Medeiro morre em batalha e Zé assume o comando do grupo para vingar a morte de Joca. Na perseguição
a Hermógenes e seu bando, o grupo para em Veredas-Mortas, onde Riobaldo imagina ter feito um pacto
com o diabo para tornar-se o mais valente guerreiro do bando, tornando-se tão terrível quanto
Hermógenes (de quem se dizia também ter feito o pacto). Sem saber dizer se o pacto foi real ou
imaginário, Riobaldo, agora chamado de Urutu Branco, assume a liderança do bando, com a partida de Zé
Bebelo.

Na batalha final, os dois bandos se enfrentam e Riobaldo mata Ricardão. Em uma luta violenta, Diadorim
mata Hermógenes, mas também morre. A batalha termina com a vitória do bando de Riobaldo.

Ao saber da morte de Diadorim, corre para velar-lhe o corpo, que encontra despido. E só então descobre
que Diadorim era, na verdade, Maria Deodorina, mulher disfarçada de homem para participar da luta
sertaneja. Nesse momento, Riobaldo compreende seus sentimentos, e só consegue dizer: “Meu amor!...”.

Em Grande sertão: veredas, Guimarães Rosa conseguiu reunir influências diversas. A trama foi inspirada
em batalhas medievais travadas entre grupos que disputavam o poder, sob a liderança de um chefe
carismático — tema de muitos dos romances de aventura desde a Idade Média. É também um romance
de formação, na medida em que conta a trajetória de Riobaldo e as transformações que se operam em
sua personalidade, além de uma história de amor, pela relação que se estabelece entre Riobaldo e
Diadorim.

Todo o relato é entremeado pelas reflexões de Riobaldo, que têm o efeito de desestabilizar as certezas
absolutas sobre o poder, a fé, o amor, etc. Uma das cenas mais simbólicas dessa incerteza é a do suposto
pacto estabelecido entre Riobaldo e o Diabo. É uma cena de grande importância na narrativa: pode-se
mesmo entender que o narrador conta sua vida para tentar saber a opinião de seu interlocutor a respeito
da ocorrência efetiva desse fato. Se tudo foi fruto de sua imaginação, sua vida pode seguir
tranquilamente; se o pacto foi efetivamente firmado, o Diabo pode aparecer a qualquer momento e
cobrar sua parte, isto é, a alma do pactário. O enigma não é esclarecido na narrativa. Leia a seguir um
fragmento da cena.
Ao que não vinha — a lufa de um vendaval grande, com Ele em trono, contravisto, sentado de estadela bem
no centro. O que eu agora queria! Ah, acho que o que era meu, mas que o desconhecido era, duvidável. Eu
queria ser mais do que eu. Ah, eu queria, eu podia. Carecia. “Deus ou o demo?” — sofri um velho pensar. [...]
A já que eu estava ali, eu queria, eu podia, eu ali ficava. Feito Ele. Nós dois, e tornopío do pé de vento — o
ró-ró girado mundo a fora, no dobar, funil de final, desses redemoinhos: ... o Diabo, na rua, no meio do
redemunho... Ah, ri; ele não. [...]

Sapateei, então me assustando de que nem gota de nada sucedia, e a hora em vão passava. Então, ele não
queria existir?

Existisse. Viesse! Chegasse, para o desenlace desse passo. Digo direi, de verdade: eu estava bêbado de
meu. Ah, esta vida, às não-vezes, é terrível bonita, horrorosamente, esta vida é grande. Remordi o ar:

— “Lúcifer! Lúcifer!...” — aí eu bramei, desengulindo.

Não. Nada. O que a noite tem é o vozeio dum ser-só — que principia feito grilos e estalinhos, e o sapo-
cachorro, tão arranhão. E que termina num queixume borbulhado tremido, de passarinho ninhante mal
acordado dum totalzinho sono.

— “Lúcifer! Satanás!...”

Só outro silêncio. O senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo, demais.

— “Ei, Lúcifer! Satanás, dos meus Infernos!”

Voz minha se estragasse, em mim tudo era cordas e cobras. E foi aí. Foi. Ele não existe, e não apareceu nem
respondeu — que é um falso imaginado. Mas eu supri que ele tinha me ouvido. Me ouviu, a conforme a
ciência da noite e o envir de espaços, que medeia. Como que adquirisse minhas palavras todas; fechou o
arrocho do assunto. Ao que eu recebi de volta um adejo, um gozo de agarro, daí umas tranquilidades — de
pancada. Lembrei dum rio que viesse adentro a casa de meu pai. Vi as asas. Arquei o puxo do poder meu,
naquele átimo. Aí podia ser mais? A peta, eu querer saldar: que isso não é falável. As coisas assim a gente
mesmo não pega nem abarca. Cabem é no brilho da noite. Aragem do sagrado. Absolutas estrelas!
ROSA, Guimarães. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 2006. p. 385-386. (Fragmento).

Clarice Lispector

Clarice Lispector nasceu em 1920, na Ucrânia, em uma família judia que se mudou para Maceió (AL)
logo depois de seu nascimento, instalando-se, em seguida, no Recife (PE), onde ela passou a infância.

Em 1934, Clarice mudou-se com sua família para o Rio de Janeiro, onde trabalhou na imprensa e formou-
se, em 1943, no curso de Direito. Nesse mesmo ano, casou-se com um diplomata brasileiro, vivendo em
alguns países da Europa até 1959, quando se separaram.

Em 1944, publicou seu primeiro romance, Perto do coração selvagem, seguido por muitas outras
publicações que a tornaram conhecida do grande público. Voltou definitivamente para o Rio de Janeiro
em 1959, onde morou até sua morte, em 1977.

Universo interior
Quando Clarice Lispector lançou seu primeiro livro, Perto do coração selvagem, o cenário da literatura
brasileira ainda era dominado pelo Neorrealismo e pela paisagem nordestina dos romances sobre a seca.
A jovem escritora distanciou-se desse universo, produzindo uma literatura que se preocupava no enredo
menos com o registro documental da realidade e com o encadeamento lógico dos fatos e mais com o
mergulho no interior das personagens, que viviam experiências feitas mais de reflexão que de ação.
O registro temporal predominante na obra de Clarice desliga-se da cronologia, isto é, da marcação
temporal convencional, para se configurar em tempo psicológico, quer dizer, voltado mais para os
desdobramentos dos eventos na consciência das personagens.

Mas é engano pensar que as narrativas da escritora são desprovidas de enredo e sem ligação com a
realidade. Clarice Lispector foi uma grande contadora de histórias, tratando do humano em seu sentido
mais profundo, o que está intimamente ligado à vida real. Suas personagens estão o tempo todo
entregues à reflexão sobre seu próprio estar no mundo.

O recurso que melhor realiza essa introspecção das personagens é o monólogo interior, equivalente a
um diálogo que a personagem mantém consigo mesma, como está exemplificado no trecho a seguir,
centrado na figura da protagonista Joana.

A máquina do papai batia tac-tac... tac-tac-tac... O relógio acordou em tin-dlen sem poeira. O silêncio
arrastou-se zzzzzz. O guarda-roupa dizia o quê? roupa-roupa-roupa. Não, não. Entre o relógio, a máquina e o
silêncio havia uma orelha à escuta, grande, cor-de-rosa e morta. Os três sons estavam ligados pela luz do dia
e pelo ranger das folhinhas da árvore que se esfregavam umas nas outras radiantes.

[...]

Houve um momento grande, parado, sem nada dentro. Dilatou os olhos, esperou. Nada veio. Branco. Mas de
repente num estremecimento deram corda no dia e tudo recomeçou a funcionar, a máquina trotando, o
cigarro do pai fumegando, o silêncio, as folhinhas, os frangos pelados, a claridade, as coisas revivendo cheias
de pressa como uma chaleira a ferver. Só faltava o tin-dlen do relógio que enfeitava tanto. Fechou os olhos,
fingiu escutá-lo e ao som da música inexistente e ritmada ergueu-se na ponta dos pés. Deu três passos de
dança bem leves, alados.

Então subitamente olhou com desgosto para tudo como se tivesse comido demais daquela mistura. “Oi, oi,
oi...”, gemeu baixinho cansada e depois pensou: o que vai acontecer agora agora agora? E sempre no pingo
de tempo que vinha nada acontecia se ela continuava a esperar o que ia acontecer, compreende? Afastou o
pensamento difícil distraindo-se com um movimento do pé descalço no assoalho de madeira poeirento.
Esfregou o pé espiando de través para o pai, aguardando seu olhar impaciente e nervoso. Nada veio porém.
Nada. Difícil aspirar as pessoas como o aspirador de pó.
LISPECTOR, Clarice. Perto do coração selvagem.
Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1990. p. 19-20. (Fragmento).

Epifania

Em seus contos, Clarice Lispector não seguiu as convenções estéticas de seu tempo, com as histórias
podendo resumir-se a um registro instantâneo de uma sensação e, mesmo assim, manter a densidade e o
tom reflexivo.

As tramas expõem as personagens a eventos corriqueiros e banais, que, no entanto, adquirem um sentido
especial porque funcionam como instantes de epifania, ou seja um momento de iluminação
correspondente a uma revelação espiritual. Na obra da escritora, a epifania aparece como uma revelação,
acionando um processo de autoconhecimento do qual pode resultar — ou não — uma transformação da
personagem, como mostra o trecho a seguir, da obra A paixão segundo G. H.

Não compreendo o que vi. E nem mesmo sei se vi, já que meus olhos terminaram não se diferenciando da
coisa vista. [...]

Talvez o que me tenha acontecido seja uma compreensão — e que, para eu ser verdadeira, tenho que
continuar a não estar à altura dela, tenho que continuar a não entendê-la. Toda compreensão súbita se
parece muito com uma aguda incompreensão.

Não. Toda compreensão súbita é finalmente a revelação de uma aguda incompreensão. Todo momento de
achar é um perder-se a si próprio. Talvez me tenha acontecido uma compreensão tão total quanto uma
ignorância, e dela eu venha a sair intocada e inocente como antes. Qualquer entender meu nunca estará à
altura dessa compreensão, pois viver é somente a altura a que posso chegar — meu único nível é viver. Só
que agora, agora sei de um segredo. Que já estou esquecendo, ah sinto que já estou esquecendo...
LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G. H. 16. ed. Rio de Janeiro:
Francisco Alves, 1991. p. 19-20. (Fragmento).

Laços de família
O livro de contos Laços de família, lançado em 1960, traz um conjunto de narrativas que comprova o
talento da escritora como uma contista capaz de flagrar o que há de permanente em gestos efêmeros,
mas que revelam uma outra forma de ver a realidade. A seguir, você verá alguns contos desse livro.
Muitas vezes, as personagens clariceanas são submetidas a uma sensação de estranhamento diante do
mundo.

Síntese

• Devaneio e embriaguez de uma rapariga — Uma portuguesa, morando no Brasil, vive a rotina
do matrimônio e o vago desejo de se libertar dela. Certa ocasião, embriaga-se e se sente atraída
pelo patrão do marido. Ao retornar para casa, reflete sobre seu próprio poder de sedução.
• Amor — Um dia, no bonde, voltando para casa, Ana avista um cego mascando chiclete,
provocando-lhe um mal-estar e uma piedade imensa. Erra o ponto de descida e acaba por entrar
no Jardim Botânico, onde se põe a pensar profunda e dolorosamente na vida e em suas sutilezas.
Retorna à casa transtornada.
• Uma galinha — No dia em que foi escolhida para ser almoço, uma galinha botou um ovo. Desde
então, passou à categoria de membro da família, até o dia em que resolveram matá-la e comê-la.
• A imitação da rosa — Laura, recém-saída de um tratamento médico mental, tenta transmitir a si
própria e ao marido, Armando, a impressão de normalidade. Ela tenta dominar sua tendência
doentia à organização da casa e, certo dia, depois de passar as camisas do marido, senta-se para
descansar. De repente, nota a beleza do buquê de flores que comprou naquela manhã e resolve
dar de presente para uma amiga. Pensando nos argumentos contrários e favoráveis ao ato de
presentear, passa o tempo sem se decidir. Quando o marido retorna do trabalho, ela pressente o
retorno do surto e comunica a ele: “Voltou. Armando. Voltou”.
• Feliz aniversário — O aniversário de 89 anos de Anita é celebrado de maneira formal por seus
filhos, noras e netos, muitos dos quais não se veem há muito tempo e têm muito pouco em comum.
A aniversariante é praticamente ignorada por todos, tratada como um bibelô, tendo apenas os
falsos cuidados da filha Zilda, com quem mora. Repentinamente, Anita lança ao chão uma forte
cusparada e chama os familiares de “maricas, cornos e vagabundas”. Depois dessa atitude, a festa
prossegue de forma fria e, no final, ela se pergunta se naquele dia não haveria jantar.
• A menor mulher do mundo — Em uma floresta da África, um explorador francês encontra a
menor mulher do mundo, com 45 cm, grávida, a quem chama de Pequena Flor. A divulgação da
descoberta provoca diferentes reações pelo mundo: asco, pena, desinteresse, etc. Pequena Flor
sorri para o seu descobridor por estar viva e amar. O explorador percebe a quentura por trás do
sorriso da mulher, mas continua a tomar notas, prosseguindo com seu ofício.
• O jantar — O narrador (em primeira pessoa, pela única vez no livro) observa um senhor de uns
60 anos jantando com majestade e personalidade, e até com certa brusquidão no trato com os
garçons. Então, nota que o homem sofre por alguma razão, mas sem perder o apetite. Terminado o
jantar, o senhor se levanta e se retira, e é o narrador que não tem nenhuma vontade de comer.
• Preciosidade — Uma adolescente de 15 anos, que não era bonita, mas tinha dentro de si algo
precioso, vivia a aventura diária de ir para a escola, bem cedo, submetendo-se a ameaças que não
conhecia por completo e querendo não ser notada por ninguém, apesar dos sapatos ruidosos com
os quais andava. Certa vez, no caminho, é tocada levemente por dois rapazes, que fogem
amedrontados. Ela, paralisada durante certo tempo, retorna a seu cotidiano, mas sentindo-se
diferente e querendo sapatos novos.
• Os laços de família — No sábado em que Severina volta para sua casa, Catarina toma um táxi
para levá-la até a estação de trem. No caminho, um solavanco do carro faz com que mãe e filha se
toquem involuntariamente, e ambas percebem que deixaram de dizer algo uma à outra.
Despedem-se na estação e Severina parte, com Catarina retornando à casa e tomando o filho pela
mão para levá-lo a um passeio.
• Começos de uma fortuna — O menino Artur divide-se entre aproveitar os prazeres da vida e a
preocupação com dinheiro da qual não consegue se livrar. Seu amigo Carlinhos o convida a ir ao
cinema com duas meninas, comprometendo-se a emprestar dinheiro para as entradas, ao que
Artur hesita, porque já está em dívida com outro colega, mas acaba aceitando. No cinema,
enquanto o amigo fica aos beijos com a acompanhante, Artur e Glorinha prestam atenção no filme.
E o menino se pergunta se não está sendo explorado pela garota.
• O búfalo — Uma mulher, cansada de amar e de sempre perdoar, decide ir ao Jardim Zoológico
para aprender a odiar com os animais. Mas, para onde olha, vê amor, até deparar com um búfalo
que com ela troca um olhar carregado de ódio. Ela tem uma vertigem e, antes de cair, vê o céu e
um búfalo.

Não é por acaso que os contos do livro foram reunidos sob o título de Laços de família, aludindo à
atmosfera que domina todas as narrativas. Há sempre uma família, presente ou distante, que pode ser
formada apenas por um casal (“A imitação da rosa”) ou por todo um clã (“Feliz aniversário”).

Quando a família está ausente, isso pode significar a solidão do indivíduo, como está insinuado em “O
jantar”. A imagem da ligação familiar remete ao cotidiano, com sua monotonia, sua ausência de
aventuras, as preocupações financeiras (“Começos de uma fortuna”) e o risco sempre presente da perda
do afeto (“Os laços de família”).

Nas narrativas do livro, esses laços familiares rompem-se quando o cotidiano é afetado por algum gesto
que quebra a monotonia. Esse gesto é, quase sempre, algo banal: a galinha que bota um ovo (“Uma
galinha”) ou uma festa na qual uma mulher se excede na diversão (“Devaneio e embriaguez de uma
rapariga”). O que acontece com as personagens depois dessa quebra? Nem sempre isso é resolvido na
trama, como ocorre em “Preciosidade” e, ainda mais fortemente, em “O búfalo”, cuja protagonista tem sua
atitude suspensa no final, sem que o leitor saiba se ela conseguirá o intento que pretende: deixar de
amar. É como se a narrativa transferisse ao leitor a resolução dos dilemas das personagens — o que tem
o efeito de sugerir que eles também são dramas do leitor.

O livro traz um dos contos mais representativos da obra da autora, “Amor”. Nele, o cotidiano familiar de
Ana é rompido por uma visão banal: um cego mascando chiclete. Esse acontecimento tem suas
consequências, inesperadas até mesmo para Ana. Leia um trecho desse conto.

O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranquila estava sucedendo.
Então ela viu: o cego mascava chicles... Um homem cego mascava chicles.

[...]

A rede de tricô era áspera entre os dedos, não íntima como quando a tricotara. A rede perdera o sentido e
estar num bonde era um fio partido; não sabia o que fazer com as compras no colo. E como uma estranha
música, o mundo recomeçava ao redor. O mal estava feito. Por quê? Teria esquecido de que havia cegos? A
piedade a sufocava, Ana respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento
estavam agora de sobreaviso, tinham um ar mais hostil, perecível... O mundo se tornara de novo um mal-
estar. Vários anos ruíam, as gemas amarelas escorriam. [...]

O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas,
sofrendo espantada. O calor se tornara mais abafado, tudo tinha ganho uma força e vozes mais altas. [...]
LISPECTOR, Clarice. Amor. In: Laços de família.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983. p. 23.
(Fragmento).
A hora da estrela

Em A hora da estrela, o último romance que publicou, em 1977, Clarice Lispector, acusada por alguns de
viver desligada das questões sociais, pareceu querer provar o contrário, mas à maneira dela, ou seja, sem
abrir mão do tom reflexivo que marcou sua produção literária ao abordar um tema tradicional da
literatura brasileira: a vivência urbana do imigrante nordestino.

Há uma interpenetração profunda entre as duas dimensões do romance, a narrativa e a reflexiva. Em


meio às reflexões que desenvolve, Rodrigo S. M. conta um pouco da sua própria trajetória de escritor; a
história de Macabéa, por sua vez, traz as impressões que a protagonista tem do mundo em que vive. Além
disso, a busca de Rodrigo S. M. pela simplicidade de escrita é bem adequada ao tipo de protagonista: uma
mulher simples que escolheu para seu romance.

Síntese

O romance A hora da estrela possui duas dimensões fundamentais: uma narrativa e outra reflexiva. Na
dimensão reflexiva, o narrador, Rodrigo S. M., expõe suas dúvidas a respeito de seu ofício de escritor,
bem como pensa a respeito dos recursos que tem para contar a história. Introduz aos poucos a
protagonista da dimensão narrativa, Macabéa, associando-a a uma moça nordestina anônima com quem
trocou olhares casuais em uma rua do Rio de Janeiro, onde vive.

Macabéa, órfã de pais, foi criada por uma tia em Alagoas. Frequentou apenas os primeiros anos de escola,
mas conseguiu concluir um curso de datilografia. Passa a morar com a tia no Rio de Janeiro, onde
trabalha como datilógrafa, sem muita competência.

Quando a tia morre, ela vai morar em um quarto de pensão com quatro moças, com quem convive pouco.
Macabéa passa a maior parte do tempo sozinha, ouvindo a Rádio Relógio — emissora que transmite
pequenas informações sobre conhecimentos gerais que mais a confundem do que esclarecem. Em um
mundo só dela, ela tem o desejo de ser uma estrela de cinema.

Certa vez, conhece em um passeio Olímpico de Jesus, metalúrgico nordestino com sonhos de grandeza.
Começam um namoro que consiste em pequenos passeios em lugares públicos, com Olímpico não tendo
paciência para as perguntas de Macabéa. Assim, logo que conhece Glória (a colega de trabalho de
Macabéa), Olímpico vê a possibilidade de uma vida melhor e começa a se relacionar com ela, terminando
o antigo namoro e deixando Macabéa sem entender os próprios sentimentos.

Glória indica a ela uma cartomante, para compensar ter ficado com Olímpico, e empresta-lhe o dinheiro
para a consulta. Madama Carlota, a cartomante, visualiza um futuro promissor para Macabéa e a chegada
de um grande amor. Ao sair da consulta, Macabéa morre atropelada por um carro de luxo.

Macabéa aproxima-se de outras personagens de Clarice Lispector pela tendência à introspecção, mas se
distancia da maioria delas pela condição humilde. Seu nome tem origem bíblica e se associa a um povo,
os macabeus, que demonstram força e capacidade de resistência.

Não deixa de ter certo tom irônico, já que Macabéa está calada quase o tempo todo, dominada pela voz de
todos os que a rodeiam: Olímpico com seu palavrório de pretenso vitorioso da vida; Glória, com a certeza
do poder de sedução que exerce sobre os homens; e até o próprio narrador, com suas intermináveis
reflexões. Conheça, a seguir, um trecho desse romance.

Como é que eu sei tudo o que vai se seguir e que ainda o desconheço, já que nunca o vivi? É que numa rua
do Rio de Janeiro peguei no ar de relance o sentimento de perdição no rosto de uma moça nordestina. Sem
falar que eu em menino me criei no Nordeste. Também sei das coisas por estar vivendo. Quem vive sabe,
mesmo sem saber que sabe. Assim é que os senhores sabem mais do que imaginam e estão fingindo de
sonsos.
Proponho-me a que não seja complexo o que escreverei, embora obrigado a usar as palavras que vos
sustentam — A história — determino com falso livre arbítrio — vai ter uns sete personagens e eu sou um dos
mais importantes deles, é claro. Eu, Rodrigo S. M. Relato antigo, este, pois não quero ser modernoso e
inventar modismos à guisa de originalidade. Assim é que experimentarei contra os meus hábitos uma história
com começo, meio e “gran finale” seguido de silêncio e de chuva caindo.

LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. 6. ed. Rio de Janeiro:


José Olympio, 1981. p. 16-17. (Fragmento).

Poesia da terceira geração modernista


As propostas modernistas de 1922 não foram aceitas por todos e receberam críticas ao longo do tempo.
A chamada Geração de 45 rejeitou o que seus membros consideravam excesso de experimentalismo na
postura dos vanguardistas da primeira geração modernista. A Geração de 45 propunha um retorno a
formas clássicas de composição, como o soneto — forma praticada, na época, mesmo por poetas
comprometidos com os avanços modernistas, como Vinicius de Moraes e Carlos Drummond de Andrade.

Além disso, os poetas dessa geração pregavam um resgate da temática mitológica, opondo-se ao
primitivismo indianista dos modernistas. Por fim, buscavam um reforço na visão lírica e sentimental
do mundo, com a retomada de uma linguagem de influência simbolista e romântica.

O mais importante poeta dessa geração foi João Cabral de Melo Neto. No entanto, ele só se confunde com
os princípios da Geração de 45 pela coincidência cronológica. O rigor formal que verificamos em sua obra
não está a serviço de uma poesia de derramamento sentimental ou de influência simbolista e parnasiana,
como veremos a seguir.

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto nasceu em 1920, no Recife, em Pernambuco. Passou a infância em engenhos
da família e voltou ao Recife em 1930, onde estudou, trabalhou e passou a conviver com escritores locais.

Em 1942, publicou seu primeiro livro de poesia, Pedra do sono. Em 1945, publicou O engenheiro e iniciou
sua carreira diplomática. As temporadas passadas na Espanha foram particularmente importantes para a
sua carreira.

Assumiu uma cadeira na Academia Brasileira de Letras em 1969 e morreu em 1999, no Rio de Janeiro.

Poesia seca

Assim como Guimarães Rosa e Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto traz na sua produção a
pesquisa formal, isto é, a busca de neologismos e de outras novas formas de expressão. A poesia de João
Cabral é rigorosa sob dois aspectos fundamentais: do ponto de vista métrico, já que ele adotava o verso
regular; e também do ponto de vista do sentido atribuído às palavras, sempre preciso. Cada palavra
possui uma carga de significado concentrada de tal maneira que não há espaço para enfeites
desnecessários, compondo uma poesia seca.

Nessa visão de mundo, não há concessão para o sentimentalismo, isto é, para a expressão lacrimejante e
com excessos de subjetividade. O que predomina é uma concepção racionalista na qual a emoção se
submete a uma linguagem contida e refletida, o que pode ser visto no poema a seguir.

O engenheiro

A luz, o sol, o ar livre O engenheiro sonha coisas claras:


envolvem o sonho do engenheiro. Superfícies, tênis, um copo de água.
O lápis, o esquadro, o papel; como um jornal que todos liam,
o desenho, o projeto, o número: ganhava um pulmão de cimento e vidro).
o engenheiro pensa o mundo justo,
mundo que nenhum véu encobre. A água, o vento, a claridade,
de um lado o rio, no alto as nuvens,
(Em certas tardes nós subíamos situavam na natureza o edifício
ao edifício. A cidade diária, crescendo de suas forças simples.
MELO NETO, João Cabral de.
In: Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar,
1994. p. 69-70.

Divisão da obra

Em 1956, João Cabral publicou o livro Duas águas, no qual reuniu toda a sua poesia publicada até então. O
título estabelece uma divisão em sua obra.

Veja, inicialmente, uma das vertentes dessa divisão, composta de textos mais complexos, destinados à
leitura silenciosa e pensada, voltando-se para a reflexão sobre a própria arte.

A educação pela pedra

Uma educação pela pedra: por lições; lições da pedra (de fora para dentro,
para aprender da pedra, frequentá-la; cartilha muda), para quem soletrá-la.
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas). Outra educação pela pedra: no Sertão
A lição de moral, sua resistência fria (de dentro para fora, e pré-didática).
ao que flui e a fluir, a ser maleada; No Sertão a pedra não sabe lecionar,
a de poética, sua carnadura concreta; e se lecionasse, não ensinaria nada;
a de economia, seu adensar-se compacta: lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.
MELO NETO, João Cabral de. In: Obra completa.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p. 338.

Quanto à segunda divisão proposta em Duas águas, trata-se de textos de comunicação mais ampla
(embora também densos), destinados à leitura em voz alta, cantada, e de temática social mais marcada. O
maior exemplo dessa tendência na obra do poeta é também seu texto de maior repercussão: Morte e vida
severina, apresentado a seguir.

Morte e vida severina

Morte e vida severina, um auto de Natal pernambucano, foi escrito entre 1954 e 1955. Comuns na Idade
Média portuguesa, os autos de natal eram peças curtas que celebravam o nascimento de Cristo. João
Cabral adaptou a ideia para o ambiente da seca nordestina.

Em 1965, um grupo de jovens do Teatro da Universidade Católica de São Paulo (o TUCA), sob a direção
de Roberto Freire, apresentou o auto de João Cabral com música de Chico Buarque.

Síntese

Severino apresenta-se à plateia, disposto a expor sua jornada de retirante. Do sertão em direção ao
litoral, segue um filete de rio. Encontra dois piedosos lavradores carregando, em uma rede, um amigo que
morreu a mando de latifundiários, em uma disputa pela posse de terras. Severino ajuda a levar o corpo a
um cemitério distante.
Em um lugarejo, ouve uma cantoria. Em um velório, mulheres choram e outras entoam os cantos
executados em ocasiões fúnebres. O rio seguido por Severino definitivamente morre, e este pensa em
interromper viagem e instalar-se no lugar. Ao conversar com uma moradora, descobre que plantar e
cuidar de gado (atividades que desempenha) foram substituídas por funções ligadas à morte, como
coveiro e rezadeira.

Severino chega à Zona da Mata (região próspera no interior do sertão) e, diante do verdor das plantações,
pensa em ficar até reparar que os moradores estão no funeral de um lavrador, morto em disputa de
terras. Então, Severino continua até o Recife. Descansa em um muro de cemitério e ouve dois coveiros
reclamando do excesso de trabalho, em função dos retirantes vindos do sertão que morrem na cidade.

Decepcionado com a notícia, ele resolve se jogar em um dos rios que cortam a cidade. À margem, José,
mestre carpina (carpinteiro), percebe as intenções suicidas de Severino e tenta demovê-lo da decisão. O
retirante pergunta se ele pode lhe dar uma razão para viver.
O diálogo é interrompido pelo nascimento do filho de José, celebrado por ele e os vizinhos.

José responde à pergunta de Severino, dizendo que não sabe se vale a pena viver, mas a vida sabe a
resposta e acaba de dá-la: o nascimento do filho é uma demonstração da necessidade de continuar
resistindo e vivendo.

O título da peça de João Cabral, Morte e vida severina, chama a atenção por duas razões principais. A
primeira razão refere-se ao uso do nome próprio Severina como adjetivo qualificador de vida. Na
verdade, o nome próprio originou-se do adjetivo severo, que significa “difícil, rigoroso”. Assim, o que o
título faz é devolver a palavra à sua origem: a vida severina corresponde à vida dura do sertanejo
retirante.

A segunda razão pela qual o título causa estranheza diz respeito à inversão que se opera
entre vida e morte. De acordo com a ordem natural, a vida vem antes da morte; no entanto, o título coloca
a morte antes da vida.

Ao longo de sua trajetória, o retirante Severino mantém seguidos encontros com a morte: homens que
levam outro para ser enterrado, o velório com cantos fúnebres, o funeral do lavrador na Zona da Mata,
mulheres que rezam e choram, o rio que seca e morre e, por fim, os dois coveiros e seu diálogo
prenunciador da morte do próprio retirante.

Depois de cada um desses encontros dialogados, temos monólogos, nos quais Severino entrega-se a
reflexões sobre a própria condição de vida.

Após inúmeros encontros com a morte, Severino encontra a vida, já que testemunha a celebração de um
nascimento.

Assim, na peça, a vida vem depois da morte, o que justifica a inversão presente no título.

A fala final, do mestre carpina que tenta convencer Severino a não se matar, fica sem resposta. Talvez a
intenção do texto seja transferir ao leitor a resolução do drama íntimo do retirante, dividido entre o
desespero da decisão do suicídio e a esperança representada pelo nascimento da criança. Ou talvez a
inversão do título justifique que se pense, por fim, na vida vencendo a morte e na vitória da esperança.

O carpina fala com o retirante que esteve


de fora, sem tomar parte em nada

— Severino retirante, da pergunta que fazia, nem conheço essa resposta,


deixe agora que lhe diga: se não vale mais saltar se quer mesmo que lhe diga;
eu não sei bem a resposta fora da ponte e da vida; é difícil defender,
só com palavras, a vida, que o espetáculo da vida: pequena
ainda mais quando ela é vê-la desfiar seu fio, a explosão, como a ocorrida;
esta que vê, severina; que também se chama vida, mesmo quando é uma
mas se responder não pude ver a fábrica que ela mesma explosão
à pergunta que fazia, teimosamente, se fabrica; como a de há pouco, franzina;
ela, a vida, a respondeu vê-la brotar como há pouco mesmo quando é a explosão
com sua presença viva. em nova vida explodida; de uma vida severina.
E não há melhor resposta mesmo quando é assim

MELO NETO, João Cabral de. In: Obra completa.


Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.
p. 201-202. (Fragmento).