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História da

Psicologia Moderna
Tradução da oitava edição norte-americana

Duane P. Schultz
University of South Florida

Sydney Ellen Schultz

Tradutora:
Suely Sonoe Murai Cuccio

Revisara técnica:
Roberta Gurgel Azzi
Professora do Departamento de Psicologia
Educacional da Faculdade de Educação da Unicamp
Estruturalismo

Apesar de jurar fidelidade eterna ao sistema de psicologia


de Wilhelm Wundt, E. B. Titchener alterou-o drastica-
mente ao levá-Io da Alemanha para os Estados Unidos. B
Ele apresentou uma abordagem própria, à qual denomi-------------
nou estruturalismo, embora alegasse tratar-se do mesmo Edward Bradford Titchener
sistema estabelecido por Wundt. Na realidade, os dois (1867-1927)
A Biografia de Titchener
eram completamente distintos e a denominação "estru- Os Experimentalistas de
turalismo" é adequada para definir apenas a psicologia de Titchener: Proibido para
Titchener. O estruturalismo permaneceu em evidência as Mulheres
O Conteúdo da Experiência
por cerca de 20 anos nos Estados Unidos até ser supera- Consciente
do por outros movimentos. Texto Original: Trecho sobre
Wundt havia identificado os elementos - ou o con- o Estruturalismo,
Extraído de A Textbook or
teúdo - da consciência, no entanto a questão que mais Psychology (1909), de E.
chamava a sua atenção era a organização desses elemen- B. Titchener
tos, ou seja, a sua síntese em processos cognitivos supe- Introspecção
Os Elementos da
riares por meio da apercepção. Na opinião de Wundt, a Consciência
mente era dotada do poder de organização voluntária dos Críticas ao Estruturalismo
elementos mentais, posição divergente da explicação Críticas à Introspecção
mecanicista da passividade mental sustentada pelos Mais Críticas ao Sistema de
Titchener
empiristas e associacionistas britânicos.
Titchener também se concentrava nos elementos ou Contribuições do
Estruturalismo
conteúdos mentais, assim como na conexão mecânica
mediante o processo da associação, entretanto descartava
a doutrina da apercepção defendida por Wundt. O seu
enfoque estava nos elementos propriamente ditos e, na
sua opinião, a principal tarefa da psicologia consistia na
descoberta da natureza das experiências conscientes ele-
mentares - a determinação da estrutura da consciência
mediante a análise das suas partes componentes.
Edward Bradford Titchener (7867-7927)
Os anos mais produtivos de Titchener foram os que passou na Comell University, em
Nova York. Vestia com classe a toga de catedrático na Oxford University e fazia de cada
aula uma grandiosa produção. O cenário era cuidadosamente preparado por seus assis-
tentes sob sua rigorosa supervisão. Os docentes mais novos, obrigados a assistirem às
suas aulas, faziam filas na porta para tomarem os primeiros assentos, enquanto Titchener
entrava diretamente por outra porta dirigindo-se ao tablado. Embora houvesse estudado
apenas dois anos com Wundt, seus modos eram muito parecidos com os do mentor, uma
verdadeira imitação do estilo autocrático, da formalidade das aulas e até mesmo do uso
da barba.

A Biografia de Titchener
Nasceu em Chichester, na Inglaterra, em uma família tradicional mas de poucos recur-
sos. Graças à sua considerável capacidade intelectual, Titchener obteve bolsas de estudos
para cursar a faculdade. Freqüentou a Malvem College e mais tarde a Oxford University,
onde estudou filosofia e os clássicos, além de trabalhar como assistente de pesquisa em
fisiologia. Interessou-se pela psicologia wundtiana, entusiasmo não compartilhado e
tampouco incentivado pela universidade. Por isso, naturalmente, teve de partir para
Leipzig, a meca dos cientistas pioneiros, para estudar com o próprio Wundt, lá obtendo
o doutorado em 1892. Durante a vida estudantil, criou uma relação muito estreita com
Wundt e sua família, a cuja casa muitas vezes era convidado, e passou pelo menos um
Natal na residência dos Wundt, nas montanhas (Leys e Evans, 1990).
Ao receber o doutorado, Titchener esperava tornar-se o inglês pioneiro da nova psi-
cologia experimental de Wundt, mas, quando retomou a Oxford, seus colegas ainda
estavam céticos em relação à chamada abordagem científica dos seus temas filosóficos
favoritos. Ali permaneceu alguns meses até perceber que as melhores oportunidades esta-
vam em outro lugar. Deixou a Inglaterra e partiu para a Comell University, nos Estados
Unidos, para lecionar psicologia e dirigir um laboratório. Estava então com 25 anos, e ali
passou o resto da vida até falecer de tumor cerebral, aos 60.1
De 1893 a 1900, Titchener implementou seu laboratório, conduziu pesquisas e escre-
veu artigos acadêmicos, publicando, por fim, mais de 60 trabalhos. Devido ao grande
número de alunos atraídos a Comell por causa da sua psicologia, teve de abrir mão da
tarefa de participar pessoalmente dos estudos de pesquisa, deixando a cargo dos estudan-
tes a condução das experiências. Desse modo, a sua posição sistemática atingiu o auge
do desenvolvimento por meio da sua orientação das pesquisas realizadas pelos alunos.
Em 35 anos na Comell, Titchener orientou mais de 50 doutorandos em psicologia, cujas
dissertações, na maioria, contêm a marca das suas idéias. Exerceu nítida autoridade na
seleção dos temas de pesquisa dos orientandos, atribuindo-lhes as questões de seu maior
interesse. Dessa forma, criou o sistema do estruturalismo, que mais tarde alegou ser a
"única psicologia científica digna do nome" (apud Roback, 1952, p. 184).
Titchener traduziu os livros de Wundt do alemão para o inglês. Quando concluiu a
tradução da terceira edição de PrincipIes of physiological psychology, Wundt já havia termi-
nado a quarta edição. E, ao traduzir a quarta, constatou que o incansável Wundt havia
acabado de publicar a quinta edição.
Entre as obras de sua autoria estão An outline of psychology (1896), Primer of psychology
(1898) e, em quatro volumes, Experimental psychology: a manual of laboratory practice
(1901-1905). Esses últimos, mais conhecidos como ManuaIs (Manuais), incentivaram o
trabalho de laboratório da psicologia nos Estados Unidos e influenciaram a geração dos
psicólogos experimentalistas. Seus livros foram traduzidos para diversos idiomas, como
russo, italiano, alemão, espanhol e francês.
Titchener dividia sua energia entre o trabalho com a psicologia e diversos passatem-
pos. Regia um pequeno grupo musical que se reunia todos os domingos à tarde na sua
casa e, mesmo antes da criação do departamento de música em CorneU, por vários anos
foi o "professor responsável por essa disciplina". Colecionava moedas e, graças a esse
hobby, aprendeu chinês e árabe para decifrar os caracteres gravados nos metais.
Correspondia-se freqüentemente com vários colegas, na maioria das vezes por meio de
cartas datilografadas, porém com muitas observações manuscritas.
Com o passar dos anos, Titchener afastou-se do convívio social e acadêmico, adqui-
rindo o status de lenda viva de ComeU, embora muitos docentes sequer o houvessem
conhecido ou visto. Preferia trabalhar em casa e, a partir de 1909, lecionava apenas nas
tardes de segunda-feira, durante o período da primavera. Sua esposa selecionava as pes-
soas que o procuravam, protegendo-o de estranhos e os alunos eram orientados a procu-
rá-Io apenas em caso de urgência.
Embora sustentasse o modo autocrático como um estereótipo do professor alemão,
era gentil e solícito com colegas e estudantes, desde que fosse tratado com a deferência
e o respeito de que acreditava ser merecedor. Histórias dão conta de docentes mais jovens
e estudantes de pós-graduação que lavavam o seu carro e instalavam telas de proteção na
janela da sua residência no verão, não por obrigação, mas por admiração.
O ex-aluno Karl DaUenbach cita uma afirmação de Titchener segundo a qual "um
homem não pode ter esperança de tornar-se um psicólogo enquanto não aprender a
fumar" (DaUenbach, 1967, p. 85). E, realmente, vários alunos começaram a fumar cha-
rutos, pelo menos na presença do mestre. (O próprio DaUenbach conta ter ficado enjoa-
do quando fumou seu primeiro charuto.)
A doutoranda Cora Friedline lembrou-se de um dia em que ela

estava na sala de Titchener discutindo com ele a sua pesquisa quando o inseparável cha-
ruto encostou na barba, que começou a queimar. Ele falava de forma tão imponente
naquele momento que a ela faltou coragem para interrompê-Io. Finalmente, dirigiu-lhe
a palavra, dizendo: "Queira me perdoar, Dr. Titchener, mas suas suíças estão em chamas."
Quando Titchener conseguiu finalmente extinguir o fogo, as chamas já estavam atingin-
do a camisa e a camiseta que vestia por baixo.2

Nem a preocupação pelos alunos e muito menos a influência sobre suas vidas termi-
navam quando eles se formavam e deixavam a ComeU. Depois de receber o título de

2 Informação obtida de L. 1. Benjamin Jr. e baseada nos documentos de Cora Friedline, mantidos nos Arquivos de
História da Psicologia Americana, da University of Akron, Ohio.
Ph.D., Dallenbach planejava cursar a escola de medicina, mas Titchener arranjou-lhe
uma posição acadêmica na University of Oregon. Dallenbach pensou que Titchener
aprovaria a sua intenção de seguir medicina, mas estava enganado. "Tive de ir parã
Oregon, já que [Titchener] não estava disposto a ver todo o seu trabalho e toda a SUã
orientação perdidos" (Dallenbach, 1967, p. 91).
Outro ex-aluno, E. G. Boring, lembrou-se de que nem todos aceitavam a ingerênciê
de Titchener sobre suas vidas. "Diversos de seus alunos mais brilhantes ressentiram-se cE
interferência e do controle e acabaram rebelando-se, vendo-se, então, excluídos, exco-
mungados, magoados, em uma relação sem retorno" (Boring, 1952, p. 32-33).
Às vezes as relações de Titchener com os psicólogos fora do seu grupo também eran:.
tensas. Eleito pelos fundadores como membro da APA em 1892, renunciou logo en:.
seguida porque a associação negou-se a expulsar um membro que ele acusava de pla-
giário. Conta-se que um amigo pagou as taxas de Titchener durante vários anos para que
o nome dele continuasse sempre aparecendo na lista de membros.

Os Experimentalistas de Titchener: Proibido para as Mulheres


Em 1904, um grupo de psicólogos autodenominados "os experimentalistas dê
Titchener" começou a se reunir regularmente para comparar as observações obtidas nas
pesquisas. Além de selecionar os temas e os participantes, Titchener geralmente condu-
zia as reuniões. Uma das regras era a proibição de participação das mulheres. E. G. Boring
conta que Titchener desejava "ouvir relatos com liberdade para interromper, debater e
criticar, em um ambiente encoberto pela fumaça dos charutos e sem a presença das
mulheres (...) elas são delicadas demais para fumar" (Boring, 1967, p. 315).
Algumas alunas da Bryn Mawr College, na Pensilvânia, tentaram freqüentar essas
reuniões, no entanto foram prontamente convidadas a se retirar. Em uma das reuniões
elas se esconderam sob a mesa, enquanto a noiva de Boring e outra amiga aguardavam
na sala ao lado "com a porta entreaberta para descobrirem como era a psicologia mascu-
lina sem censuras". Boring lembrou-se de que elas saíram "ilesas" (Boring, 1967, p. 322).3
Em 1912, com o intuito de participar da reunião dos experimentalistas, Christine
Ladd-Franklin (1847-1930) escreveu para Titchener, solicitando-lhe uma oportunida-
de para ler o relatório da sua pesquisa relativa à psicologia experimental. Havia traba-
lhado no problema da visão das cores no laboratório de G. E. Müller na University of
Gottingen, na Alemanha, e no laboratório de Helmholtz, em Berlim. Antes disso,
havia completado as exigências para o obtenção do Ph.D. em matemática na ]ohns
Hopkins University, mas teve o título negado por ser mulher. A direção da universi-
dade acabou redimindo-se e concedeu-lhe o título de doutorado somente 44 anos
mais tarde.

3 Lucy May Boring, que morreu com 11O anos (1886-1996), obteve o Ph.D. na Cornell em 1912 e chegou a lecio-
nar na Vassar College e na Wells College antes de abrir mão da carreira na psicologia e optar pelo casamento e
pela maternidade. Assim como diversas mulheres casadas daquela época, com ótima formação acadêmica, ela tra-
balhava no anonimato ajudando o marido, que se tornou um respeitado historiador da psicologia. Lucy lia todas
as publicações do marido e emitia opiniões, embora suas contribuições permanecessem desconhecidas do públi-
co. Esse era o destino típico da mulher de classe média com altas credenciais e alto nível de formação acadêmica
(Furumoto, 1988).
Quando Titchener recusou seu pedido, ela escreveu para ele, dizendo-se "chocada
em saber que ainda hoje, em 1912, vocês não permitem a participação das mulheres nas
reuniões dos psicólogos experimentalistas. Como podem ser tão retrógrados?" (apud
Furumoto, 1988, p. 107). Sem desistir da sua posição, continuou a protestar durante
vários anos, chamando a política de Titchener de imoral e anticientífica.
Titchener escreveu a um amigo, dizendo: "A Sra. Ladd-Franklin acusou-me de injú-
ria por não permitir a participação das mulheres nas reuniões e ameaça fazer um escân-
dalo pessoalmente e por escrito. Possivelmente ela conseguirá dissolver o grupo e nos
obrigará a realizar reuniões escondidas em tocas escuras, como os coelhos" (apud
Scarborough e Furumoto, 1987, p. 126).
Embora Titchener continuasse a excluir as mulheres das reuniões dos experimentalis-
tas, encorajava e apoiava seu progresso na psicologia. Ele aceitava mulheres nos progra-
mas de pós-graduação em ComeU, mas as universidades de Harvard e Columbia não as
admitiam. Mais de um terço dos 56 doutorados concedidos por Titchener foi para mulhe-
res (Furumoto, 1988). Nenhum psicólogo daquela época concedeu tantos títulos de dou-
torados a mulheres como Titchener (Evans, 1991). Ele também apoiava a contratação de
professoras, idéia que muitos colegas consideravam avançada demais. Em uma ocasião,
ele insistiu na contratação de uma professora, mesmo diante da recusa do diretor.
A primeira mulher a obter o doutorado em psicologia foi Margaret Floy Washbum,
que também fora a primeira orientanda de doutorado de Titchener. Ela lembrou que:
"Ele não sabia muito bem o que fazer comigo" (Washbum, 1932, p. 340). Depois do dou-
torado, ela escreveu um importante livro sobre a psicologia comparativa (The animal
mind, 1908) e foi a primeira psicóloga eleita para a Academia Nacional de Ciências. Além
disso, chegou a ser presidente da APA.
Essa breve menção ao sucesso de Washbum tem o intuito de salientar o constante
apoio de Titchener à mulher na psicologia. Embora ele não abrisse mão da proibição de
mulheres nas reuniões dos experimentalistas, envidou esforços para abrir as portas total-
mente fechadas, pela maioria dos psicólogos, às mulheres.4

o Conteúdo da Experiência Consciente


De acordo com Titchener, o objeto de estudo da psicologia é a experiência consciente
como dependente do indivíduo que a vivencia. Esse tipo de experiência difere da estu-
dada por cientistas de outras áreas. Por exemplo: tanto a física como a psicologia podem
estudar a luz e o som. Enquanto os físicos examinam os fenômenos do ponto de vista
dos processos físicos envolvidos, os psicólogos analisam a luz e o som com base na expe-
riência e na observação humanas desses fenômenos.
As outras ciências não dependem da experiência pessoal. Titchener citou, como
exemplo da física, a temperatura de uma sala que pode ser, digamos, de 30°C, haja ou
não uma pessoa presente para senti-Ia. Todavia, quando há observadores que relatem
sentir um calor desconfortável, essa sensação - a experiência da temperatura elevada-
depende das experiências individuais dos presentes. Para Titchener, esse tipo de expe-

4 Os experimentalistas mantiveram a política de serem um grupo exclusivamente masculino até 1929, dois anos após
a morte de Titchener (Furumoto, 1988).
riência consciente é o único enfoque adequado para a pesquisa psicológica. Ele descre-
veu a diferença entre a experiência dependente e a independente no livro A textbook o·'
psychology, publicado em 1909.

À Texto Original
Trecho sobre o Estruturalismo, Extraído de A Textbook of Psycho/ogy
(1909), de E. B. Titchener

Todo conhecimento humano é derivado da experiência humana, não há outra fonte O~


conhecimento,5 Todavia a experiência humana, como vimos, pode ser analisada a partir O~
pontos de vista distintos. Imaginemos esta situação: tomamos dois pontos de vista, os ma:
distintos possíveis, e vivenciamos nós mesmos as experiências nos dois casos. Em primeir:
lugar, consideraremos a experiência como um todo independente de qualquer pessoa e
particular; e que ela ocorra, haja ou não alguém para vivenciá-Ia. Em segundo lugar, cons·
deraremos a experiência como um todo dependente de uma pessoa em particular; e que e =
ocorra apenas quando há alguém presente para vivenciá-Ia. Dificilmente encontraremos do ~
pontos de vistas tão antagônicos quanto esses. Quais as diferenças na experiência analisa·
da a partir dessas duas visões?
Para começar, tomemos os três primeiros conceitos ensinados na física: o espaço, o tem ~
e a massa. O espaço físico, que é o espaço da geometria, astronomia e geologia, é constantE
permanecendo sempre o mesmo em qualquer parte. A unidade de medição é o centímetr
que tem exatamente o mesmo valor onde e quando quer que seja aplicado. O tempo físico ~
igualmente constante, assim como sua unidade de medição, o segundo. A massa física é cors-
tante e sua unidade, o grama, é sempre a mesma em qualquer parte. Essessão casos de expE-
riências de espaço, tempo e massa, consideradas independentes da pessoa que as vivencia.
Passemos, então, para a visão que considera a experiência dependente da pessoa qL=
a vivencia. As duas linhas verticais na [Figura 5.1) são idênticas fisicamente; possuem =
mesma medida em unidades de centímetro. Para você, que as visualiza, não são iguais. -
hora que você passa no saguão de espera de uma estação em um vila rejo e a hora que voc~
passa assistindo a uma peça interessante são fisicamente idênticas; possuem a mesma meo .
da em unidades de segundo. Para você, a hora na primeira situação passa devagar e n=
outra, rapidamente; não são iguais. Pegue duas caixas circulares de papelão com diâmetrc:
diferentes (2 e 8 centímetros) e jogue areia dentro delas até as duas pesarem, digamos, 5=
gramas. As duas massas são fisicamente idênticas; colocadas nos pratos de uma balança, ~
medidor apontará o centro, ou seja, a mesma medida para as duas. Para você, ao levante'
as duas caixas, uma em cada mão, ou ao levantá-Ias uma de cada vez com a mesma má
a caixa de menor diâmetro será consideravelmente mais pesada. Temos aqui a experiênc<':
de espaço, tempo e massa considerada dependente da pessoa que a vivencia. É exatamer-
te a mesma experiência discutida anteriormente. Todavia a primeira perspectiva apresenta'
nos fatos e leis da física; e a segunda, fatos e leis da psicologia.

5 Reimpresso mediante a autorização da Macmillan Publishing Co., Inc., extraído de A textbook of psychology, de ::
B. Titchener (p. 6-9). Copyright 1909 por Macmillan Publishing Co., Inc. Revisado em 1937 por Sophia K. Titchene'
Passemos agora a três temas básicos discutidos nos livros de física: o calor, o som e a
luz. O calor propriamente dito, assim como afirmam os físicos, é a energia gerada pelo movi-
mento molecular; calor é a forma de energia derivada do movimento entre si das partículas
de um corpo. A radiação pertence, juntamente com a luz, à chamada energia radiante - a
energia propagada por movimentos de ondas do espaço celeste luminífero que preenche o
espaço. O som é a forma de energia resultante dos movimentos vibratórios dos corpos, e
que se propaga por movimentos de ondas de algum meio elástico, sólido, líquido ou gaso-
so. Em resumo, o calor consiste na dança das moléculas; a luz, no movimento de ondas do
espaço celeste e o som, no movimento de ondas do ar.
No universo da física, no qual essas experiências são consideradas independentes das
pessoas que as vivenciam, não há calor nem frio, não há escuridão nem luz, não há silêncio
nem ruído. Somente quando as experiências são consideradas dependentes de algum indi-
víduo é que existem o calor e o frio, o preto e o branco, o colorido e o cinzento, tons, asso-
bios e estampidos. E esses são os objetos de estudo da psicologia.

No estudo da experiência consciente, Titchener fez um alerta a respeito de se come-


ter o que chamou de erro de estímulo, que gera uma confusão entre o processo men-
tal e o objeto da observação. Por exemplo: o observador que vê uma maçã e a descreve
apenas como a fruta maçã em vez de descrever elementos como a cor, o brilho e a forma
que está percebendo, comete o erro de estímulo. O objeto da observação não deve ser
descrito na linguagem cotidiana, mas em termos do conteúdo consciente elementar da
experiência.

Erro de estímulo: confusão entre o processo mental que está sendo estudado e o estímulo ou obje-
to que está sendo observado.

Quando o observador concentra-se no objeto de estímulo e não no conteúdo cons-


ciente, não faz distinção entre o conhecimento adquirido no passado em relação ao
objeto (por exemplo, que o nome do objeto é maçã) e a própria experiência imediata e
direta. Todo observador sabe que a maçã é vermelha, redonda e tem certo brilho. Ao
descrever outras características que não sejam a cor, o brilho e o formato, em vez de
observar o objeto, o observador o está interpretando. Trata-se, assim, da experiência
media ta, e não da imediata.
Titchener definia a consciência como a soma das experiências existentes em deter-
minado momento. A mente é a soma das experiências acumuladas ao longo do tempo.
A consciência e a mente são semelhantes, apenas com a diferença de que a consciência
envolve os processos mentais que ocorrem em determinado momento, e a mente, o total
desses processos.
A psicologia experimental, na visão de Titchener, era uma ciência pura. Ele não se
preocupava com a aplicação do conhecimento psicológico. A psicologia, afirmava, não
se propõe a curar mentes doentias nem a reformar a sociedade. O único propósito legí-
timo da psicologia é descobrir os fatos estruturais da mente. Ele acreditava que os psicó-
logos deviam manter-se distantes das especulações sobre o valor prático do seu trabalho.
Por isso posicionou-se contra o desenvolvimento da psicologia infantil, animal e outras
áreas incompatíveis com a psicologia introspectiva experimental do conteúdo da expe-
riência consciente.

Introspecção
Titchener empregava a introspecção, ou auto-observação, com base em observadores
rigorosamente treinados para descrever os elementos no seu estado consciente, em vez
de relatar o estímulo observado ou percebido, utilizando apenas nomes conhecidos. Per-
cebeu que todos aprendemos a descrever a experiência em termos do estímulo, por
exemplo, chamar o objeto vermelho, redondo e brilhante de maçã, o que é suficiente e
útil para o cotidiano. Todavia, no seu laboratório de psicologia, essa prática teve de ser
desaprendida.
Titchener adotou a mesma definição de Külpe para descrever o seu método, intros-
pecção experimental sistemática. Como Külpe, ele utilizava relatos detalhados, subjeti-
vos e qualitativos das atividades mentais dos indivíduos durante o ato de introspecção.
Ele se opunha à abordagem de Wundt, cujo foco eram as mensurações quantitativas e
objetivas, porque acreditava não serem úteis na análise das sensações e imagens elemen-
tares da consciência, ponto central da sua psicologia.
Em outras palavras, Titchener divergia de Wundt porque estava interessado em ana-
lisar a experiência consciente complexa a partir das partes componentes, e não a síntese
dos elementos mediante a apercepção. Titchener dava ênfase às partes, enquanto
Wundt, ao todo. Alinhado com a maioria dos empiristas e associacionistas britânicos, o
objetivo de Titchener era descobrir os chamados átomos da mente.
Seu conceito de introspecção aparentemente já se havia formado antes de ele estu-
dar com Wundt, em Leipzig. Um historiador disse que, quando ele ainda freqüentava a
Oxford, fora influenciado pelos trabalhos de James Mill (Danziger, 1980).
O espírito da filosofia mecanicista também o influenciou, como se pode observar na
imagem que ele tinha dos observadores que lhe forneciam dados. Nos seus relatos de
pesquisa publicados, eram chamados de reagentes, termo usado por químicos para se refe-
rirem às substâncias que, devido à sua capacidade para certas reações, são utilizadas para
detectar, examinar ou medir outras substâncias. O reagente normalmente é passivo, ou
seja, é usado para provocar reações nas outras substâncias.
Percebe-se que, ao aplicar esse conceito aos observadores humanos, Titchener os
enxergava como instrumentos mecânicos de registro, que reagiam e respondiam de
forma objetiva às observações das características do estímulo observado. Os indivíduos
seriam meramente máquinas neutras e imparciais. Seguindo a idéia de Wundt, as obser-
vaçõ~s treinadas se tomariam tão mecanizadas e habituais que os observadores não per-
ceberiam mais se estavam realizando um processo consciente. Titchener dizia:

Ao prestar atenção no fenômeno, o observador da psicologia, assim como o observador


da física, esquece completamente de atribuir atenção subjetiva ao estado de observação
(...) os observadores, como é do nosso conhecimento, são treinados; seu "estado de
observação" já está mecanizado. (Titchener, 1912a, p. 443.)

Se esses observadores eram considerados máquinas, então não faltava muito para
generalizar esse conceito a todo ser humano. Esse pensamento mostra a contínua
influência da visão mecânica do universo de Galileu e Newton, conceito que não desa-
pareceu mesmo com a extinção do estruturalismo. Com os desdobramentos da história
da psicologia, observa-se que a imagem do homem como máquina caracterizou a psico-
logia experimental até a primeira metade do século XX.

A abordagem experimental de Titchener. A proposta de Titchener consistia na


abordagem experimental para a observação introspectiva na psicologia. Ele obedecia
rigorosamente às normas da experimentação científica, afirmando que

um experimento é uma observação que pode ser repetida, isolada e variada. Quanto maior
a quantidade de repetições das observações, maior a probabilidade de clareza na percep-
ção e de precisão na descrição do objeto observado. Quanto mais isolada a observação,
mais fácil será a execução da tarefa e menor o risco de confusão proveniente de circuns-
tâncias irrelevantes ou de ênfase no ponto errado. Quanto mais amplamente se puder
variar a observação, mais clara será a percepção da uniformidade da experiência e maior
a chance de descoberta de leis. (Titchener, 1909, p. 20.)

A introspecção realizada pelos reagentes ou observadores do laboratório de


Titchener era baseada em vários estímulos, proporcionando observações extensas e deta-
lhadas dos elementos de suas experiências. Era uma tarefa séria e os estudantes que ser-
viam como observadores dedicavam-se ao máximo à sua realização. Cora Friedline,
aluna de Titchener, lembrou-se da pesquisa a respeito da sensibilidade orgânica. Pela
manhã, os observadores tinham de engolir um tubo que seguia até o estômago e mantê-
10 durante todo o dia, seguindo a rotina normal. No início, vários alunos vomitaram,
mas aos poucos acabaram se acostumando. Durante o dia, eles se apresentavam no labo-
ratório nos horários fixados, onde se derramava água quente no tubo e eles faziam a
introspecção das sensações experimentadas. Depois repetia-se o processo, usando água
gelada. Em outra pesquisa, os estudantes andavam munidos de blocos de anotação para
registrar suas sensações e sentimentos quando urinavam e defecavam.
O estudo relacionado ao sexo é um exemplo de dado histórico perdido. Os estudan-
tes casados deviam anotar as sensações e os sentimentos básicos que vivenciavam duran-
te as relações sexuais, além de utilizar dispositivos de medição no corpo para registrar as
reações fisiológicas. Essa pesquisa foi pouco divulgada na época. (Foi revelada em 1960
por Cora Friedline.) No entanto, o fato tomou-se de conhecimento geral no campus da
Comell University e o laboratório de psicologia ficou com a reputação de local imoral.
A encarregada do dormitório feminino não permitia que as alunas fossem ao laborató-
rio depois do anoitecer. E, quando se espalhou o boato de que estavam colocando pre-
servativos nos tubos que os estudantes engoliam, diziam no dormitório que o laborató-
rio "não era lugar seguro para ninguém ir".6

1. reduzir os processos conscientes aos seus componentes mais simples;


2. determinar as leis de associação desses elementos da consciência;
3. conectar os elementos às suas condições fisiológicas.

Assim, as metas da psicologia estrutural de Titchener coincidem com as das ciências


naturais. Depois de decidir a parte do universo natural que desejam estudar, os cientis-
tas tentam descobrir seus elementos para demonstrar como eles compõem um fenôme-
no complexo e para formular as leis que os governam. A parte principal da pesquisa de
Titchener dedicava-se ao primeiro problema: descobrir os elementos da consciência.
Titchener definiu três estados elementares da consciência: o estado da sensação, o
da imagem e os estados afetivos. As sensações são elementos básicos da percepção e estão
presentes nos sons, nas visões, nos cheiros e nas outras experiências provocadas pelos
objetos físicos do ambiente. As imagens são elementos das idéias e encontram-se no pro-
cesso que reflete as experiências não realmente presentes no momento, como a lembran-
ça de uma experiência do passado. Os estados afetivos, ou as afeições, são elementos da
emoção e encontram-se nas experiências como o amor, o ódio e a tristeza.
Em An outline of psychology (1896), Titchener apresentou a lista dos elementos da
sensação descobertos nas suas pesquisas. São cerca de 44.500 qualidades sensoriais indi-
viduais, sendo 32.820 visuais e 11.600 auditivas. Cada elemento é considerado conscien-
te e distinto dos demais, podendo haver a combinação entre eles para a formação das
percepções e das idéias.

As características dos elementos mentais. Embora básicos e irredutíveis, os elemen-


tos mentais podem ser categorizados, do mesmo modo que os elementos químicos são
agrupados em classes. Apesar da simplicidade, os elementos mentais são dotados de atri-
butos distintivos. Aos atributos de qualidade e intensidade definidos por Wundt,
Titchener adicionou a duração e a nitidez. Essas quatro características eram consideradas
fundamentais, já que estão presentes, em certo grau, em toda experiência.

• Qualidade é a característica, como "frio" ou "vermelho", que distingue claramen-


te um elemento de todos os demais.
• Intensidade refere-se a força, fraqueza, sonoridade ou brilho de uma sensação.
• Duração é o curso da sensação ao longo do tempo.
• Nitidez refere-se à função da atenção na experiência consciente; uma experiên-
cia no foco da nossa atenção é mais nítida do que a que não seja alvo da nossa
atenção.

6 Friedline relatou essas experiências na Randolph-Macon College em Lynchburg, na Virgínia. em abril de 1960.
Somos gratos a F. B. Rowe por nos fornecer as anotações de Friedline.
As sensações e as imagens possuem todos esses quatro atributos, todavia os esta-
dos afetivos são dotados apenas de três: a qualidade, a intensidade e a duração, não
possuindo a nitidez. Por quê? Titchener acreditava ser impossível concentrar a atenção
diretamente em um elemento de emoção ou sentimento. Quando tentamos fazê-Io, a
qualidade afetiva, como a tristeza ou a satisfação, desaparece. Alguns processos senso-
riais, especialmente a visão e o tato, são dotados de outro atributo, a extensão, já que
envolvem a noção espacial.
Todo processo consciente pode ser reduzido a um desses atributos. As descobertas
feitas no laboratório de Külpe, em Würzburg, sobre o problema do pensamento sem ima-
gens, não fizeram Titchener mudar de opinião. Ele reconhecia que algumas qualidades
mal definidas podem ocorrer durante o pensamento, no entanto afirmava que, ainda
assim, consistiam em sensações ou imagens. Para Titchener estava claro que os observa-
dores de Külpe sucumbiram ao erro de estímulo por concentrarem mais atenção nos estí-
mulos do objeto do que nos próprios processos conscientes.
Os alunos da pós-graduação de Comell realizaram muita pesquisa relacionada com
os estados afetivos e suas constatações levaram Titchener a rejeitar a teoria tridimensio-
nal dos sentimentos de Wundt. Titchener alegava estar o afeto presente em apenas uma
dimensão - no prazer/desprazer - e rejeitava as dimensões de tensão/relaxamento e
excitação/depressão definidas por Wundt.
No final da vida, Titchener alterou de forma significativa a sua psicologia estrutural.
Começou a trabalhar no que imaginava ser a exposição completa do seu sistema. Por
volta de 1918, não abordava mais o conceito de elementos mentais nas aulas e afirmava
que a psicologia devia dedicar-se ao estudo das dimensões ou dos processos mentais mais
amplos - qualidade, intensidade, duração, nitidez e extensão - e não dos elementos
básicos. Alguns anos mais tarde, escreveu a um aluno de pós-graduação: "Desista de pen-
sar em termos de sensações ou afetos. Esses conceitos eram válidos há 10 anos, mas hoje
(...) estão completamente desatualizados. (...) Pense em termos de dimensões e não de
constructos sistemáticos como a sensação" (Evans, 1972, p. 174).
Na década de 1920, Titchener colocou em dúvida o uso do termo "psicologia estru-
tural" e passou a chamar sua abordagem de psicologia existencial. Reavaliou seu méto-
do de introspecção e adotou o tratamento fenomenológico, examinando a experiência
como um todo e não dividida em elementos.
Essa mudança de perspectiva foi drástica e, se Titchener tivesse vivido tempo sufi-
ciente para implementá-Ia, ela teria alterado radicalmente o destino e a visão da psi-
cologia estrutural. Essas idéias supõem flexibilidade e abertura para mudanças que os
cientistas acreditam possuir, mas que nem sempre são capazes de demonstrar. As pro-
vas dessas mudanças foram reunidas pelos historiadores mediante a análise cuidadosa
de cartas e aulas de Titchener (Evans, 1972; Henle, 1974). Embora não tenham sido
incorporadas formalmente ao seu sistema, essas idéias indicam a direção para a qual
ele seguia, mas a morte o impediu de atingir esse objetivo.

Críticas ao Estruturalismo
Muitas vezes, as pessoas ganham notoriedade na história porque se opõem a um ponto
de vista mais antigo, mas no caso de Titchener não foi bem assim, pois ele se manteve
firme, mesmo quando todos haviam mudado de opinião. Na segunda década do século
XX, o pensamento intelectual americano e europeu havia mudado, mas o sistema for-
mal de Titchener permanecia o mesmo. Conseqüentemente, vários psicólogos chegaram
a considerar a psicologia estrutural uma tentativa fútil de ater-se a princípios e métodos
antiquados. O psicólogo ]ames Gibson, que conheceu Titchener já quase no final da
vida, observou que, embora ele "inspirasse verdadeira admiração (...) a minha geração
prescindia da sua teoria ou do seu método. Sua influência estava em declínio" (Gibson,
1967, p. 130).
Titchener acreditava estar estabelecendo uma base para a psicologia, no entanto seus
esforços fizeram parte apenas de uma fase da história da disciplina. O estruturalismo
morreu juntamente com Titchener. O fato de se ter mantido por tanto tempo deve-se
exclusivamente à admiração por sua personalidade dominadora.

Críticas à Introspecção
As críticas mais relevantes em relação ao método de introspecção estavam voltadas ao
tipo de observação praticada nos laboratórios de Titchener e Külpe, que lidava com rela-
tos subjetivos de elementos da consciência, diferentemente do método de percepção de
Wundt, o qual lidava com as reações mais objetivas e quantitativas ao estímulo externo.
A introspecção, no sentido mais amplo, foi empregada por décadas, e as críticas ao
método não eram novidade. Um século antes do trabalho de Titchener, o filósofo alemão
Immanuel Kant declarou que qualquer tentativa de introspecção alterava necessariamen-
te a experiência consciente observada, porque introduzia uma variável de observação no
conteúdo da experiência consciente.
O filósofo positivista Auguste Comte criticou o método introspectivo, alegando que,
se a mente fosse capaz de observar as próprias atividades, teria de se dividir em duas par-
tes: uma observadora e outra observada e, para ele, obviamente, isso era impossível
(Wilson, 1991).

A mente é capaz de observar todos os fenômenos, exceto os próprios. (...) O órgão obser-
vador e observado neste caso é o mesmo e a sua ação não pode ser pura e natural. Para
realizar uma observação, o intelecto deve fazer uma pausa em sua atividade; no entanto
essa é exatamente a atividade que se deseja observar. Se essa pausa não for possível, será
impossível realizar a observação; e, se for possível, não haverá objeto a ser observado. Os
resultados desse método são igualmente proporcionais ao seu absurdo. (Comte,
1830/1896, v. 1, p. 9.)

O médico inglês Henry Maudsley também fez críticas à introspecção e falou sobre a
psicopatologia:

Não existe consenso entre os observadores da introspeção. Se houver concordância,


deve-se ao fato de eles estarem rigorosamente treinados e, assim, produzirem observações
parciais. (...) Devido à extensão patológica da mente, o auto-relato é dotado de pouca cre-
dibilidade. (Maudsley, 1867, apud Turner, 1967, p. 11.)

Desse modo, muito antes de Titchener modificar e aprimorar o método, tornando-


o mais preciso para adequá-Io aos métodos científicos, havia dúvidas substanciais a res-
peito da introspecção e as críticas continuaram.
Um dos alvos das críticas era a definição, já que Titchener aparentemente tinha difi-
culdades em definir exatamente o significado do método introspectivo. Ele tentava
explicá-Io, relacionando-o com condições experimentais específicas.
A direção seguida pelo observador varia nos detalhes em relação à natureza da consciên-
cia observada, ao objetivo do experimento, [e] à instrução dada pelo pesquisador. Assim,
introspecção é um termo genérico e abrange um grupo indefinido enorme de procedi-
mentos metodológicos específicos. (Titchener, 1912b, p. 485.)

o segundo alvo das críticas à metodologia de Titchener estava relacionado com a


tarefa exata que os observadores estruturalistas eram treinados para executar. Os alunos
de pós-graduação de Titchener, que serviam de observadores, eram instruídos a ignorar
algumas classes de palavras (as denominadas palavras com significado) que faziam parte
do seu vocabulário. Por exemplo: a frase "Vejo uma mesa" não era dotada de significa-
do científico para o estruturalista; a palavra "mesa" possui significado, com base no
conhecimento estabelecido e geralmente aceito, relacionado com a combinação especí-
fica de sensações que aprendemos para identificar e chamar o objeto de mesa. Portanto
a observação "Vejo uma mesa" não expressava, para o psicólogo estruturalista, nada a
respeito dos elementos da experiência consciente do observador. O interesse do estrutu-
ralista não se concentrava no conjunto das sensações resumido na palavra com significa-
do, mas nas formas básicas específicas da experiência. Os observadores que respondiam
"mesa" estavam cometendo o erro de estímulo.
Mas, se as palavras comuns eram ignoradas do vocabulário, como os observadores
treinados descreveriam as experiências? Seria necessário desenvolver uma linguagem
introspectiva. Titchener (e Wundt) enfatizava que as condições experimentais externas
deviam ser cuidadosamente controladas, de forma a permitir a determinação precisa da
experiência consciente. Assim, dois observadores teriam de vivenciar experiências idên-
ticas e produzir resultados que se corroborassem mutuamente. E com a realização dessas
experiências praticamente idênticas sob condições controladas, teoricamente seria pos-
sível desenvolver para os observadores um vocabulário de trabalho com palavras sem sig-
nificado. Afinal, é devido às experiências compartilhadas no dia-a-dia que as palavras
familiares adquirem significados comuns a todos.
A idéia da criação da linguagem introspectiva nunca se concretizou. Havia muita
discordância entre os observadores, mesmo quando as condições eram extremamente
controladas. Os observadores de laboratórios diferentes apresentavam resultados distin-
tos. Mesmo os indivíduos do mesmo laboratório, observando o mesmo material de estí-
mulo, muitas vezes, não conseguiam obter a mesma observação. Ainda assim, Titchener
insistia que a concordância acabaria ocorrendo. Se houvesse uniformidade suficiente nas
descobertas introspectivas, talvez a escola do estruturalismo tivesse durado mais tempo.
Os críticos também alegavam ser a introspecção, na verdade, uma forma de retros-
pecção, porque havia um intervalo de tempo entre a experiência e o seu relato. Ebbin-
ghaus já demonstrara que a taxa de esquecimento é mais elevada imediatamente após a
experiência, portanto provavelmente parte dela se perdia antes da introspecção e do rela-
to. Os estruturalistas respondiam a essa crítica de duas formas: primeiro, alegando que
os observadores trabalhavam com o mínimo intervalo de tempo e, segundo, propondo
a existência de uma imagem mental primária que supostamente mantinha a experiência
na mente dos observadores até que pudessem relatá-Ia.
Observamos anteriormente que o próprio ato de examinar a experiência de forma
introspectiva pode, de algum modo, alterá-Ia. Analisemos, por exemplo, a dificuldade de
introspecção de um estado consciente de ira. No processo racional de prestar atenção e
tentar dividir a experiência em suas partes componentes, a ira provavelmente diminui-
ria ou desapareceria. No entanto, Titchener continuava firme na sua crença de que seus
observadores treinados continuariam a realizar automaticamente a observação, sem alte-
rar conscientemente a experiência.
A noção da mente inconsciente, proposta por Sigmund Freud no início do século
XX (veja no Capítulo 13), fomentou outra crítica ao método introspectivo. Se, como afir-
mava Freud, parte da nossa função mental era inconsciente, obviamente a introspecção
não servia para explorá-Ia. Um historiador afirmou:

A base da análise introspectiva estava na crença de que todo o funcionamento da mente


era passível de observação consciente e, se fosse possível observar cada aspecto do pen-
samento humano e da emoção, a introspecção proporcionaria, na melhor das hipóteses,
apenas um retrato fragmentado e incompleto do funcionamento mental. Se a consciên-
cia representava apenas a ponta visível do iceberg, com a maior parte da área da mente
permanentemente encoberta pelas poderosas barreiras defensivas, a introspecção estava
realmente condenada. (Lieberman, 1979, p. 320.)

A introspecção não era o único alvo das críticas. O movimento estruturalista foi acusad
de artificial e estéril na tentativa de analisar os processos conscientes a partir dos elemen-
tos básicos. Os críticos afirmavam não ser possível resgatar a totalidade da experiência
partindo posteriormente de qualquer associação ou combinação das partes elementares.
Argumentavam que a experiência não ocorria na forma de sensações, imagens ou estados
afetivos individuais, mas em uma totalidade unificada. Parte da experiência conscientE
perde-se inevitavelmente em qualquer esforço artificial de análise. A escola de psicologia
da Gestalt (Capítulo 12) partiu desse princípio para lançar sua revolta efetiva contra o
estruturalismo.
A definição estruturalista da psicologia tornara-se alvo dos ataques. Nos anos finais
da vida de Titchener, os estruturalistas haviam excluído várias especialidades do escopo
da psicologia, porque elas não estavam de acordo com a sua visão de psicologia.
Titchener não considerava a psicologia infantil e a animal como psicologia. O seu con-
ceito era tão restrito que não permitia incluir os novos trabalhos feitos e as novas dire-
ções que estavam sendo exploradas. A psicologia ultrapassava a fronteira de Titchener e
com muita rapidez.

Contribuições do Estruturalismo
Apesar de todas essas críticas, os historiadores dão o devido crédito às contribuições de
Titchener e dos estruturalistas. Seu objeto de estudo - a experiência consciente - era
claramente definido. Seus métodos de pesquisa, baseados na observação, experimenta-
ção e medição, eram cientificamente os mais tradicionais. O método mais adequado para
o estudo da experiência consciente consistia na auto-observação, já que a consciência É
mais bem percebida pela pessoa que a vivencia.
Embora o objeto de estudo e os propósitos dos estruturalistas não sejam mais fun-
damentais, o método de introspecção, mais amplamente definido como relato ora
baseado na experiência, ainda é empregado em diversas áreas da psicologia. Há pesqui-
sadores da psicofísica que pedem aos observadores para relatarem se o segundo tom é
mais alto ou mais baixo que o anterior. Há relatos de pessoas expostas a ambientes inco-
muns, como a falta de gravidade nos vôos espaciais. Os relatórios clínicos de pacientes,
bem como as respostas dos testes de personalidade e a análise do comportamento, são
de natureza introspectiva.
Os relatórios introspectivos que envolvem processos cognitivos como o racioCÍnio
são freqüentemente usados na psicologia atual. Por exemplo: os psicólogos indus-
triais/organizacionais obtêm relatos introspectivos dos funcionários a respeito da intera-
ção com os terminais de computador. Essas informações podem ser utilizadas para o
desenvolvimento de componentes de computador de mais fácil manuseio e móveis
ergonômicos. Os relatos verbais baseados na experiência pessoal são formas legítimas de
coleta de dados. Além disso, a psicologia cognitiva, com seu renovado interesse nos pro-
cessos conscientes, vem conferindo maior legitimidade à introspecção (Capítulo 15).
Dessa forma, o método introspectivo, embora diferente daquele visto por Titchener, per-
manece vivo e ativo.
Outra contribuição importante do estruturalismo foi ter servido de alvo de críticas.
O estruturalismo proporcionou o estabelecimento de forte ortodoxia contra a qual os
mais recentes movimentos da psicologia puderam concentrar as suas forças. Essas novas
escolas de pensamento devem sua existência à reformulação progressiva da posição
estruturalista. Os avanços científicos demandam a existência de uma oposição. Com o
estruturalismo de Titchener sendo o alvo da oposição, a psicologia superou seus limites
iniciais.

Temas para Discussão


1. Compare e aponte as diferenças entre as abordagens da psicologia de
Titchener e Wundt. Descreva a visão de Titchener sobre o papel da mulher
na psicologia.
2. Na perspectiva de Titchener, qual o objeto de estudo adequado para a psico-
logia? Em que ela difere dos objetos das outras ciências?
3. O que é erro de estímulo? Qual a distinção apontada por Titchener entre a
consciência e a mente?
4. Descreva o método de introspecção de Titchener. Qual a diferença entre o
seu método e o de Wundt?
5. O que o termo reagente, empregado por Titchener, indicava a respeito da sua
visão sobre os observadores humanos e as pessoas em geral?
6. Descreva os três estados elementares da consciência e os quatro atributos dos
elementos mentais definidos por Titchener. De que forma Titchener come-
çou a alterar o seu sistema no final da carreira?
7. Dê exemplos de tipos de experiências consideradas por Titchener dependen-
tes das pessoas que as vivenciam e outras consideradas independentes.
8. Como Titchener diferenciava a inspeção da introspecção? De acordo com
Titchener, qual a função da retrospecção na pesquisa psicológica?
9. Discuta as críticas à introspecção. Que outras críticas foram feitas a respeito
do estruturalismo de Titchener? Quais as contribuições do estruturalismo de
Titchener para a psicologia?
Sugestões de Leitura
Angeli, F. Titchener at Leipzig. Journal ofGeneral Psychology, n. 1, p. 195-198, 1928. Um
colega da época de Leipzig descreve as qualidades pessoais e os interesses de pesqui-
sa de Titchener.
Boring, E. G. A history of introspection. Psychological Bulletin, n. 50, 169-189, 1928.
Apresenta detalhes práticos da forma de introspecção adotada por Titchener e des-
creve o uso dos relatórios de introspecção pelas posteriores escolas de pensamento
psicológico.
Danziger, K. The history of introspection reconsidered. Journal of the History of the
BehavioralScíences, n. 16, p. 241-262, 1980. Analisa diversas visões sobre a teoria e a
prática de introspecção dos sistemas psicológicos britânico, alemão e americano.
Evans, R. B. E. B. Titchener and his lost system. Journal of the History of the Behavioral
Scíences, n. 8, p. 168-180, 1972. Descreve a escola de pensamento estruturalista e
apresenta suposições para as mudanças na visão de psicologia de Titchener no final
da sua carreira.
Hindeland, M. J. Edward Bradford Titchener: a pioneer in perception. Journal of the
History ofthe Behavioral Scíences, n. 7, p. 23-28, 1971. Discute a abordagem experi-
mental de Titchener a respeito da sensação e da percepção.
Lieberman, D. A. (1979). Behaviorism and the mind: a (limited) cali for a return to
introspection. American Psychologíst, n. 34, p. 319-333, 1979. Analisa os argumentos
históricos contrários à introspecção, conclui que a maioria deles era inválida ou tor-
nara-se inadequada e defende a aplicação mais ampla dos métodos introspectivos às
questões da psicologia moderna.