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#sériecontágiosinfernais

religião&pandemia
articulações contemporâneas
por danilomendes
TEXTO #02 DA SÉRIE
#contágiosinfernais

ORGANIZADORES:
fellipedosanjos e joãoluizmoura

ESCRITO POR
danilomendes •

• Doutorando em Ciência da
Religião pela Universidade Federal
de Juiz de Fora com bolsa CAPES.
Contato: danilo.smendes@hotmail.com
Leo Vilas
Introdução
Certamente a relação entre a pandemia do
novo coronavírus e a religião não é desconhecida:
diariamente jornalistas noticiam líderes de diversas
religiões manifestando suas indignações com o
isolamento social, suas preces e palpites sobre a
pandemia. Em meio à chuva de informações, é
necessário que diferenciemos a diferença. Essas
notícias são quantitativamente diferentes entre si,
mas qualitativamente iguais, uma vez que repetem
o mesmo pressuposto: a relação entre pandemia e
religião se estabelece através da opinião (ativa ou
passiva) de líderes institucionais sobre a situação
pandêmica. Embora não possamos negar que tal
relação se estabelece nesses termos, podemos afirmar
a insuficiência e a superficialidade de seu pressuposto
mediante a articulação de uma relação teoricamente
mais elaborada.

Em outras palavras, afirmamos que há mais

sobre pandemia e religião do que está nos jornais.

Claro que, primeiramente, isso está dado porque


não cabem aos jornais elaborações mais profundas.
Precisamente por isso, pelas delimitações de escopo
da mídia onde a maior parte das discussões está, nosso
texto urge. É necessária outra articulação da relação
entre pandemia e religião na contemporaneidade.
Nessa brecha, buscamos pensar dois eixos:
religião como pandemia e pandemia como religião.
Em primeiro lugar, analisamos como a religião na
modernidade é estigmatizada como doença e seu fim
decretado. Em medida semelhante ao “velho” e ao novo
coronavírus, a religião não acaba na modernidade,
mas se estende, com certa periculosidade ainda mais
grave, na contemporaneidade. Nesse sentido, ela
pode ser considerada como uma pandemia, uma
vez que sua influência se espalhou. Posteriormente,
experimentamos o paradigma da religião como
pandemia, invertendo os polos e examinando como o
conceito de pandemia possui traços religiosos. Aqui,
pensamos em como noções originalmente da religião
afetam esferas que, na modernidade, eram-lhe alheias.
Indicamos, aqui, que o segundo passo pressupõe,
testa e, em certo sentido, comprova o primeiro.
Todavia, entre eles abrimos espaço para um interlúdio
metodológico que, verificando algumas consequências
do paradigma “religião como pandemia” afasta teologia
e ciência da religião, indicando algumas diferenças
irredutíveis entre espectrologia e virologia. Com isso,
articulamos pandemia e religião de modo a contribuir
com o infinito campo das teorias da religião – não
somente com novas definições, mas com conceitos que
permitam novas interpretações desse fenômeno na
contemporaneidade.
Rok Mar.

RELIGIÃO
COMO
PANDEMIA
CONTEMPORTÂNEA
Não é nada inédito comparar a religião a uma
questão de saúde. S. Freud, em texto de 1927, disse:
“A religião seria a neurose obsessiva universal da
humanidade, originando-se, tal como a da criança, do
complexo de Édipo, da relação com o pai.” (FREUD,
2014, p. 284). Evocar o complexo de Édipo, aqui, não
é ato gratuito:
ele indica que do mesmo modo que a
criança precisa superar a figura do pai para
amadurecer, a humanidade deveria superar a
religião para sair de um estado infantilizado
de racionalidade; além de relacionar o pai
com a noção de Deus.
Por isso, para ele, a nível psicológico, antes de
qualquer contato com a verdade ou mentira de suas
doutrinas, a religião é uma ilusão que tenta superar
os mesmos sentimentos que criaram a necessidade
da cultura e da civilização: o medo da natureza e do
indomável1.
Mais do que o caso específico da elaboração
freudiana, interessa-nos aqui a relação entre religião
e doença. Para Freud, neurose; para nós, pandemia.
Importante percebermos que, para ele, a religião não é
qualquer neurose, mas algo obsessivo universal. Como
a página seguinte de sua obra revela, essa neurose geral

1 Dentre os principais escritos de Freud sobre a religião, além


de O futuro de uma ilusão (2014), constam Totem e tabu (2013) e
O mal estar na civilização (2011). A esse ponto, recomendamos a
leitura porque os textos são sintomáticos de como o racionalismo
europeu entendia a questão da religião.
livra o crente de outros tipos de neurose, como a pessoal,
por exemplo. Nesse ponto, Freud parece apreciar um
importante aspecto da religião: sua universalidade.
Com isso não queremos implicar a existência de uma
estrutura supra-histórica, atemporal e inata, como R.
Otto reivindicou em O sagrado, por exemplo. Antes,
afirmamos que, como um vírus em nível pandêmico, o
que chamamos religião é apreciável nas mais diversas
culturas humanas.
Entretanto, ao contrário de Freud, não
afirmamos a religião enquanto neurose, mas como
virtualidade2 constitutiva, na contemporaneidade,
de ideias e noções nas mais diversas esferas sociais.
Nesse sentido, ela é viral e virtual, não somente
porque invisível e historicamente dispersa, como uma
pandemia, mas porque contagiosa. Pensemos, por
exemplo, na questão da linguagem como elaborada
na filosofia hermenêutica. Herdeiro de H. Gadamer
e M. Heidegger, G. Vattimo relaciona cristianismo e
linguagem no Ocidente numa perspectiva acerca da
história do ser: “o cristianismo é um estímulo, uma
mensagem que coloca em movimento uma tradição
de pensamento que se liberta, enfim, da metafísica”
2 Sobre a questão da virtualidade em geral, indicamos a potente
leitura de Pierre Levy em O que é o virtual? (1996) e Cibercultura
(1999). Sobre a questão da virtualidade na religião, indicamos
os capítulos “The virtual Kingdon” de Mark C. Taylor em About
Religion (1999, p. 168-201) e, de Slavoj Žižek, “Raiva: a realidade
do político-teológico” (2012, p. 67-142) no qual ele trata o Espírito
Santo como entidade virtual. Sobre essa relação específica,
recomendamos nosso ensaio “O Espírito e o ateu: por uma
miraculogia materialista” (MENDES, 2017, p. 125-160).
(VATTIMO, 2007, p. 35). Para ele, a encarnação de
Deus em Jesus cria uma mensagem que perpassa a
história ocidental como uma espécie de princípio do
enfraquecimento e, consequentemente, a queda da
noção de ser como fundamento da realidade.
O que Vattimo denomina mensagem, nós
denominamos vírus. Isso porque, do mesmo modo,
a religião perpassa a história como uma
mensagem que se articula contagiando
diversos outros conceitos que, em princípio,
eram alheios a ela; para além disso, a religião

também se manifesta aonde, enquanto mensagem


ela parecia não ter chegado.
Esse fato demonstra que a figura da mensagem
possui limites que a metáfora viral não encontra,
porque podemos, aqui, recorrer a casos assintomáticos
que, mesmo assim, são portadores do vírus – que se
manifesta em outras ocasiões. Por isso, quando parte
da modernidade decretou o fim da religião, não houve
resposta suficiente que confirmasse tal afirmação. Diz-
nos Rubem Alves: “parece, entretanto, que algo andou
errado com os profetas e suas profecias. Porque bem
em meio aos funerais de Deus e do réquiem à religião,
uma chuva de novos deuses começou a cair e um novo
aroma religioso encheu nossos espaços e o nosso
tempo” (ALVES, 1984, p. 167).
Fato é que a religião não encontrou seu fim como
esperava Freud. O reprimido não se esvai nem acaba,
mas retorna. No caso do vírus religião, esse retorno
se dá em nível pandêmico. A própria constituição da
palavra, quando comparada com correlatos, revela
o que queremos dizer. Enquando a epi-demia é um
fenômeno sobre (epi) um povo (demos) específico,
a pan-demia é sobre todo (pan) povo. Isso indica o
caráter amplo do alcance da doença, nesse caso, vírus-
religião. Por isso, autores como Mark C. Taylor, que
reconhecem a larga escala da presença da religião na
contemporaneidade, afirmam: “sempre surpreendente,
a religião é, eu acredito, mais interessante onde ela é
menos óbvia. [...] A relação entre religião e cultura é,
inevitavelmente, uma rua de mão dupla. Não apenas
a arte, a literatura, a economia, a ciência e a tecnologia
modernas e contemporâneas postulam questões sobre
a religião, mas o estudo da religião postula dimensões
religiosas da cultura aparentemente ‘secular’, que
geralmente permanecem indetectadas” (TAYLOR,
1999, p. 1). A viralidade da religião se demonstra,
dessa forma, como uma espécie de pandemia que
se instaura na contemporaneidade e manifesta seus
sintomas através da arte, da ciência, da economia
e, inclusive, em noções biológicas – como veremos
após nosso interlúdio. À religião, portanto, urge a
interpretação como pandemia, que não apenas fornece
nova definição a um antigo fenômeno, mas uma nova
articulação que implica profundas mudanças no modo
como se entende e faz pesquisa em religião.
INTERLÚDIO
METODOLÓGICO:
ESPECTROLOGIA E
VIROLOGIA

Ru
Aqui, consideraremos, brevemente, uma
diferenciação entre as consequências para os métodos
em teologia e ciência da religião para pensar a
religião como pandemia na contemporaneidade. Não
buscamos cindir univocamente essas irmãs que, como
no conto bíblico de Esaú e Jacó, enfrentam-se desde
a concepção, mas apontar uma diferença que, apesar
de sutil, implica toda a diferença. Precisamos ter em
mente, antes de tudo, que dois métodos são principais
para pensar a religião enquanto vírus pandêmico:
a espectrologia3 e a virologia. Embora se dirijam no
mesmo sentido, a diferença fundamental que as separa
é a animação de seu objeto.
Um espectro é “uma incorporação paradoxal, o
devir-corpo, uma certa forma fenomenal e carnal do
espírito. Ele torna-se, de preferência, alguma ‘coisa’
difícil de ser nomeada: nem alma nem corpo, e uma e
outra” (DERRIDA, 1994, p. 21). A ideia de Derrida é se
aproximar do espectro que ronda a Europa, como no
início do Manifesto de K. Marx e F. Engels. Tomemos,
por afinidade, a figura de um fantasma. Para que ele o

3 Para uma descrição mais acurada do que seja espectrologia


(Hantologie), recomendamos Espectros de Marx (1994)¸de J.
Derrida. Em uma breve explicação, Pinto Neto diz que Derrida
contrapõe espectrologia e ontologia: “A ontologia, ao afirmar
o primado do ser e o dualismo ôntico/ontológico, seria mais
um capítulo da metafísica enquanto clausura. Seria preciso
ir além da ontologia, pensando uma dyferença que nunca se
faz inteiramente presente, pois se dá em forma de rastro ou
grafema, para então pensar essa escritura como uma abertura
sem compromisso com qualquer transcendência que possa lhe
comandar ‘de cima’ ou ‘de fora’” (PINTO NETO, 2015, p. 118).
seja é preciso que, antes de tudo, tenha estado vivo. Ora,
na medida em que trata de algo que morreu, enfim, a
espectrologia pressupõe um defunto, um cadáver. No
estudo da religião esse é Deus – assumindo que em
sua morte, como anunciada por F. Nietzsche, reside a
mais plausível possibilidade de um discurso teológico
na contemporaneidade4. Dessa forma, ao reconhecer
a religião como vírus, à teologia cabe a espectrologia
como método de discurso sobre Deus. Não porque
o considere um fantasma, mas porque percebe sua
“assombração” enquanto influência de sua morte na
cultura, de forma geral. Esse seria, a nosso ver, o modo
mais adequado de uma espécie de teologia da cultura,
nos moldes de P. Tillich5 sem, como ele parece fazer,
apelar a um essencialismo teo-antropológico.
Por sua vez, à ciência da religião não interessa
o óbito divino porque nunca deveria ter interessado,
também, a factualidade de sua existência. Nesse
sentido, ela não pode apelar a uma espectrologia: não
é uma questão se o assombro alguma vez existiu. Por
isso, ela se limita a uma virologia: o estudo do vírus
em escala própria como elemento da vida do ser
humano. Aqui, reside um interessante paralelo que
4 Para uma discussão mais refinada dessa questão, indicamos
Erring (1984) de Mark C. Taylor, no qual o autor estadunidense
recepciona a desconstrução e pensa uma a/teologia a partir das
consequências da morte de Deus.
5 Em sua Teologia da cultura, Tillich estabelece que “Religião é a
substância da cultura e a cultura é a forma da religião” (TILLICH,
2009, p. 83). No limite, ele indica que toda cultura nasce de uma
espécie de sentimento religioso que é ontológico no ser humano,
de modo que o ser humano seria essencialmente religioso.
contribui para a possibilidade de pensarmos religião
como pandemia. O vírus está no limiar entre o vivo e
morto porque, apesar de não possuir células, ele nelas
se instaura como um parasita que lhe suga o necessário
para se replicar. Embora, portanto, o vírus atue como
ser vivo, ele somente sobrevive enquanto dependente
de algo realmente vivo. Nesse sentido, o vírus carrega
uma virtualidade muito próxima à religião que, longe
de ser uma essência estrutural da realidade, existe
enquanto categoria de estudo na medida em que os
seres humanos a fazem. Como o vírus depende da
célula, a religião depende da ação humana para que ela
seja. A ciência da religião como virologia, entretanto,
não implica o desenvolvimento de vacinas.

Não se deve propor a combater à religião


em nome de quaisquer ideologias –
como o deve fazer a teologia, por exemplo.
Antes, cabe-lhe a análise do vírus enquanto vírus,
bem como de sua relação com as células.

Portanto, cabe à teologia o discurso sobre


o espectro de um Deus morto e as significações
dessa morte na contemporaneidade. À ciência
da religião cabe, em outro sentido, uma virologia
em escala pandêmica, porque trata do fenômeno
religioso enquanto manifestação histórica e infecção
contemporânea. Isso não sobrepõe uma à outra, como
se poderia argumentar, mas permite distingui-las em
suas utilidades e métodos, embora se aproximem
a partir de outras perspectivas. Sendo divergentes
suas tarefas, tanto teologia quanto ciência da religião
podem acolher o paradigma proposto, de religião
como pandemia, na medida em que ele contribui para
o entendimento da relação entre religião e cultura na
contemporaneidade.

Kyle Mueller
PANDEMIA COMO
RELIGIÃO

Redgirl Lee.
Antes de começar, um esclarecimento. Quando
tratamos de pandemia como religião, de modo algum
queremos afirmar que da pandemia do COVID-19
nasça uma nova instituição com seus próprios mitos,
ritos e símbolos. Trata-se, primeiramente, de uma
inversão estilística, é preciso reconhecer: trocamos a
ordem das palavras não apenas pelo sentido, mas pelo
jogo. Aqui, portanto, devemos pensar em como o vírus
religião em estado pandêmico infecta a própria noção
de pandemia e a lógica de combate ao COVID-19. Um
título mais apropriado, portanto, seria “Pandemia
como categoria religiosa”. Embora essa seção possa ser
considerada como um aparte do texto, debruçamo-nos
nessa questão por dois motivos: a) porque ela testa a
teoria de que a religião enquanto pandemia infecta
diversas esferas da sociedade que, a princípio, estariam
fora de contato com ela; b) porque testa, também, um
método virológico na ciência da religião, conforme
nosso interlúdio. Desse modo, nosso objetivo aqui
é apresentar evidências da validade do paradigma
virológico da religião.
Comecemos, pois, com o conceito de pandemia.
Como evocamos acima, pan-demia, palavra de origem
grega, junta todo (pan) e povo (demos). Para captarmos
o sentido religioso do termo, precisamos voltar ao seu
correlato epidemia. Sendo aquele um desenvolvimento
desse, poder-se-ia pensar que epi significa “algum”,
“específico”, de modo que pandemia seria uma
universalização de epidemia. Na verdade, o prefixo epi
indica sobre, acima de. Portanto, toda pandemia é uma
panepidemia: algo que está sobre todos os povos. A não
oposição entre epidemia e pandemia indica o primeiro
caráter religioso da noção de pandemia. Na medida
em que se instala sobre um povo, a ideia que subjaz a
pandemia pressupõe uma estrutura cósmica vertical,
de modo que a doença não surge sobre um povo, mas
é colocada sobre um povo. Epidemia vem de cima, é
castigo divino. Embora não se declare essa relação nos
jornais, por exemplo, o próprio termo está construído
sobre esta lógica. Estão pressupostas, portanto, as
noções de que: a) Deus existe; b) ele age no mundo; c)
colocando doenças que assolam c1) partes dele ou c2)
todo ele. Prova disso se encontra ainda no primeiro
canto da Ilíada (HOMERO, 2013, p. 109-130), na qual o
deus Apolo lança contra o exército grego uma doença
que matou vários de seus guerreiros. Nesse mesmo
sentido, a noção de pandemia implica pensar um mal
que sobrevêm aos povos como castigo divino.
Em segundo lugar, pretendemos indicar
outro sentido na constituição religiosa de pandemia,
sobretudo na relação entre vírus e pecado. Diz-nos
Mark C. Taylor que “se alguma vez houvesse um
universal mítico-poético-espistêmico, o modelo saúde-
doença-recuperação (ou seu equivalente funcional)
seria um bom candidato” (TAYLOR, 1993, p. 249). Em
outras palavras, sua indicação significa que o modelo
saúde-doença-recuperação funciona a partir de um
fundo mítico-religioso que, estruturalmente, é quase
universal. No cristianismo, de modo mais restrito,
esse modelo se traduziu na história da salvação e do
conceito de pecado/queda. O ser humano, à imagem
e semelhança de Deus, está em condição de saúde. A
queda e o pecado colocam-no em situação de doença.
A recuperação se dá na redenção por meio do sacrifício.

A ideia de vírus enquanto inimigo interno a ser combatido

nesse sentido, é algo que se instaura por dentro

da própria lógica cristã-ocidental.

Aqui, mais do que simples paralelo, o que estrutura a relação

saudável-doente é o mesmo modelo da relação humano-pecador.

Ainda outra leitura confirma a dependência de


tal imunologia em relação à tradição cristã, é a noção
de alteridade. Seguimos, nesse ponto, as críticas de
E. Levinás à ética ocidental. Na medida em que se
instaura uma moralidade do dever (como em I. Kant),
o outro, para com quem tenho esse dever e uma
responsabilidade ética, é totalmente esquecido. Nos
termos levinasianos, o Outro é reduzido ao Mesmo.
Pensemos no segundo mandamento cristão: “amar o
próximo como a si mesmo” (Mateus 22,39). Embora
tenha caráter revolucionário, em seu contexto original,
esse mandamento é exemplar para essa crítica ética:

o Outro não é reconhecido como Outro em seu rosto

infinitamente distante e radicalmente inapreensível.


Assim, para cumprir minha responsabilidade
diante Outro, nessa tradição interpretativa, não posso
reduzi-lo ao mesmo: “O Outro metafísico é outro de
uma alteridade que não é formal, de uma alteridade
que não é o simples inverso da identidade, nem de uma
alteridade feita de resistência ao Mesmo, mas de uma
alteridade anterior a toda iniciativa, a todo imperialismo
do Mesmo” (LEVINAS, 1988, p. 25). O paradigma
imunológico de contraposição ao vírus se instala,
justamente, nesse imperialismo do mesmo. A vacina,
por exemplo, é justamente a prevenção que reduz o
vírus, até então estranho, a um organismo já conhecido
e imunizado pelo corpo. Mais uma vez o paralelo entre
religião, agora na ética cristã, e vírus está dado nos
mesmos termos: redução do Outro ao Mesmo.
Dessa forma, a noção de pandemia se mostra
como devedora da religião em três questões:
primeiramente, ao associar epidemia a um castigo
divino, fato que se comprova pela própria estrutura
e história do termo; depois na relação entre vírus
e pecado, através da interpretação estrutural da
doença como queda; e, por fim, na relação ético-
imunológica e na redução do outro ao mesmo. Com
isso, não queremos afirmar uma total dependência
entre o conceito de pandemia e noções religiosas, nem
somente indicar paralelos comparativos, mas afirmar
que há, de fato, uma influência de noções religiosas no
conceito de pandemia, bem como em seus correlatos
constitutivos – epidemia e vírus.
A condição de possibilidade para indicar essa
influência é o próprio paradigma virológico da
religião, uma vez que pressupõe sua infecção
pandêmica na contemporaneidade em lugares pouco
óbvios – como o próprio conceito de pandemia.

Russsell Ta
te
Considerações finais
Buscamos, em nosso texto, percorrer um curso
de considerações das possíveis articulações entre
religião e pandemia. Primeiramente, admitimos como
o conceito de religião se aproxima de uma pandemia
na contemporaneidade, inclusive em seu caráter viral.
Com isso, buscamos dialogar com o campo das teorias
da religião, não apenas apresentando mais uma relação
e definição, mas questionando teses sacramentadas
nos cânones – como a da secularização. Dizer que a
religião é uma pandemia, obviamente, se instaura no
campo da metáfora, mas nem por isso deve-se atribuir
a tal paradigma uma literariedade fictícia. A pandemia
é um recurso comparativo, mas o paradigma vai para
além dele, indicando importantes questões sobre o
papel e a influência da religião. Essa última testada
como centro de nossa inversão: pandemia como
religião. Aqui, buscamos, em uma espécie de virologia,
indicar como diversas noções religiosas subjazem o
conceito de pandemia – que, por causa da situação
atual do mundo, está em franco debate público. Nele,
não afirmamos que a pandemia seja um fenômeno
religioso, mas que a interpretação do que ela seja, de
suas causas e de seu combate, estão postos em termos
historicamente ligados à religião.
Concluímos, por fim, que a religião não
é mera nota de rodapé às grandes questões da
contemporaneidade. Longe disso, o vírus-religião
manifesta seus sintomas de modo cada vez mais
claro no autoritarismo político-fundamentalista6, na
literatura, no cinema, no desenvolvimento tecnológico
e, como demonstrado, na biologia. Cuidamos,
contudo, para que as implicações metodológicas de
nosso paradigma não sejam tomadas de modo dúbio,
mas sigam coerentemente com os fundamentos
dos estudos em religião em suas diferentes formas
e propósitos. O interesse da teologia na religião não
é o mesmo da ciência da religião em seu objeto, mas
isso não implica a impossibilidade de diálogo. Antes,
implica a riqueza de infindáveis debates e diálogos
possíveis sobre temas correlatos que ora se manifestam
como espectros e ora como vírus. De todo modo,
a religião circula pelas esferas sociais com mais ou
menos liberdade, mais ou menos influência, mais ou
menos crédito e intervenção. Todavia, é fato que sua
panepidemia não se acaba na contemporaneidade e, em
todo caso, pode ser que nunca acabe.

6 Sobre a presença da religião nesse paradigma, publicamos “De


uma ética herética: a análise de um conceito político-religioso”
(MENDES, 2019).
Referências
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1984.
DERRIDA, Jacques. Espectros de Marx. Rio de Janeiro:
Relume-dumará, 1994.
FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão. In: Obras
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2014, p. 231-301.
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Classics – Companhia das Letras, 2011.
______. Totem e tabu. São Paulo: Penguin Classics –
Companhia das Letras, 2013.
HOMERO. Ilíada. São Paulo: Penguin Classics – Companhia
das Letras, 2013.
LEVINAS, Emmanuel. Totalidade e Infinito. Lisboa: Edições
70, 1980.
LEVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Ed. 34, 1999.
______. O que é o virtual? São Paulo: Ed. 34, 1996.
MENDES, Danilo. Os deuses de Žižek – Indícios de uma
teologia materialista. São Paulo: Fonte editorial, 2017.
______. De uma ética herética: a análise de um conceito
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OTTO, Rudolf. O sagrado: os aspectos irracionais na noção
do divino e sua relação com o racional. São Leopoldo:
Sinodal/EST; Petrópolis: Vozes, 2007.
PINTO NETO, Moysés. A estranha instituição da literatura
no multiverso dos espectros. Alea, vol.17, n.1, 2015,
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TAYLOR, Mark C. About Religion. Chicago: Chicago
University Press, 1999.
______. Erring: a postmodern a/theology. Chicago: Chicago
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______. Nots. Chicago: Chicago University Press, 1993.
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VATTIMO, Gianni. Toward a nonreligious Christianity. In:
VATTIMO, G.; CAPUTO, J. After the death of God. New
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ŽIŽEK, Slavoj. Vivendo no fim dos tempos. São Paulo:
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Hazem Asif
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Religião e pandemia: articulações contemporâneas / Danilo


Mendes. Série: contágios infernais. São Paulo: Recriar, 2020. 26 p.

Supervisão Editorial: Iago Freitas Gonçalves


Organizadores e editores da coleção: Fellipe dos Anjos e João Luiz
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