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FUTURISMO NO DUECENTO?

Haroldo de Campos

Quando, em 1931, Ezra Pound publicou a sua edição


das "Rime" de Guido Calvalcanti , na qual figurava o
texto italiano e a versão inglêsa da Canção "Donna mi
priegha", esta última foi acolhida em círculos acadêmi-
cos como manifestação de uma filologia "futurista": "O
quê? Palavras em liberdade?" (1). Realmente, Ezra
Pound deu à "Canzone" de Cavalcanti uma disposição
espacial, usando a página como partitura, para assim
tornar visível sua estrutura melódica, acionada por
rimas internas. Embora a edição de Cavalcanti tenha
sido recebida com acres censuras pela "seríous scholar-
ship", que nela soube ver apenas as insuficiências boê-
mias do Pound filólogo, não há dúvida de que, através
dela, o Pound poeta inseminou a literatura de língua
inglêsa, não só pela influência que êsse módulo sonoro-
visual teve sôbre os "Cantares", como pela que exerceu
sôbre a poesia de William Carlos Williams e ainda sôbre
os desenvolvimentos posteriores, do chamado "projecti-
ve verse", de Charles Olson. (2) Êste mérito que não se
tece das remansosas láureas curriculares, mas que se
projeta no vivo da criação artística de nosso tempo, lhe
foi reconhecido por um erudito que não deixou embotar
a sensibilidade na poeira das bibliotecas, Mario Prazo
Em seu estudo sôbre T. S. Eliot, Praz subscreve o juízo
daquele sôbre Pound ("Qualquer scholar pode ver
Arnaut Daniel ou Guido Cavalcanti como figuras lite-
rárias; somente Pound pode vê-los como sêres vivos"),

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t J'( tendo:" ... êle tinha o poder de vivificar os pai e o sogro de Guido foram incluídos no Canto X do
J}I"OV inç os primeiros poetas italianos". (3) "Inferno" de Dante por heresia (como seguidores de
A "Canção" de Cavalcanti, não obstante a sua cele- Epicuro e pois negadores da imortalidade da alma).
ndad ,é dada como "abstrusa", por sua dificuldade. (4) Lembrando êste ponto, Pound opina que Guido, em re-
und se insurgiu contra a pecha de obscuridade lan- lação a Dante, era muito menos "bem pensante", muito
ada ao poema, defendendo-lhe a precisão e a concisão. mais liberto das "idées reçues" do tempo. Inclinado à
"O poema é extremamente claro em numerosas passa- prova pela experiência (fala em "natural dímostra-
gens, os têrmos filosóficos são usados com uma cabal mento", em "che (si) sente díco"), estava antes
precisão técnica. ( ... ) No mais, há certos enigmas, mas preocupado na demonstração filosófica, do que na teo-
os celebrados comentadores nada fizeram para resol- lógica, da existência e efeitos do Amor, visto como uma
vê-Ios". O método de E. P. na versão dêsse difícil texto espécie de energia, na acepção que modernamente da-
foi, assim, primeiro, uma investigação terminológica, ríamos a essa palavra. Nesse sentido, escreve Pound
procurando alcançar o melhor entendimento do voca- que "Donna mi priegha", considerado como um todo,
bulário técnico de Guido através da consulta à filosofia parece ser uma espécie de "metáfora sôbre a geração
do tempo. Em seguida, transmitir a musicalidade de da luz". E comenta: "Parece que perdemos o mundo
um poema feito não para a "declamação retórica, mas radiante onde um pensamento cortava o outro com
para o canto" (ainda prêso, portanto, à grande tradição aresta clara, um mundo de energias em movimento
provençal de "motz el son" / palavra e som). Pound "mezzo oscuro rade", "risplende in se perpetuale effe-
considera a "Canzone" como um auge de artesanato, cto", magnetismos que tomam forma, que se tornam
que estaria para os poetas do tempo como a fuga para visíveis, a matéria do "paradiso" de Dante, o vidro sob
Bach. Para a boa realização de seu esquema, êste deve a água, a forma que parece uma forma vista no espelho,
- salienta - iluminar, não obscurecer o movimento, realidades perceptíveis aos sentidos, interagindo ... ".
seja do sentido, seja do som. Das duas traduções que Para concluir: "Um filósofo natural medieval acharia o
E. P. fêz dêste poema, a primeira, impressa na edição mundo moderno cheio de encantos, não apenas a luz no
citada e depois republicada em vários lugares, (5) em- bulbo da lâmpada, mas o pensamento da corrente escon-
bora já liberta dos resquícios vitorianos hauridos na dida no ar e no fio tornariam sua mente cheia de formas,
dicção das traduções de D. G. Rossetti, se ressente de "Fuor di color" ou tendo suas hiper-côres. O filósofo
uma recarga de têrmos rebarbativos transplantados pelo medieval não seria capaz de pensar o mundo elétrico
poeta no encalço da precisão terminológica ("the atro- sem consíderá-lo um mundo de formas".
cities of my translation", como êle próprio o reconhece Poema especulativo, onde a gênese, os atributos e
com humor); mas a segunda, incorporada no Canto as manifestações do Amor são pesados e repesados com
XXXVI, é uma "réussite", mostrando como, no pro- os instrumentos de precisão da palavra poética, a "Can-
longado trato com o texto, seu tradutor soube decan- zone" de Guido, para o observador moderno, poderia se
tar-lhe as virtualidades numa linguagem também "pre- incluir entre aquêles "sujets d'imagination pure et com-
e-con-cisa", altamente eficaz. plexe ou intellect", para os quais Mallarmé desenhou
Guido é poeta-filósofo. Embebido na "filosofia na- a página constelar de seu "Un Coup de Dés". Mais uma
tural" do tempo, encontram-se no texto de sua Canção razão para justificar a apresentação espacial que lhe
traços de avicenismo, de averroísmo, da "filosofia da deu Pound (que não é arbitrária, aliás, pois, no manus-
luz" de Scotus Erigena e Grosseteste ("lux prima forma crito Laurenziano de onde E. P. extraiu o seu texto, o
in materia creata, seipsam seipsam ... multiplicans"). O poema está disposto em linhas corridas, sem qualquer

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sinalização gramatical, com pontos e travessões indi-
cando apenas as pausas e respirações rímicas e rítmicas (4) "Questa celebre, ma astrusa canzone", escreve G, R. Ceriello
ao apre~entar êsteo poet;Jq em "I Rimatori del Do1ce Stil Novo", Biblio-
internas). (6) Fica assim notada e transcrita visualmente teca Universale Rizzoli, Milano, 19500
essa música de idéias. (5) "Guido Cavalcanti - Rime", Edizioni Marsano S. Ao Genova
Em minha tradução, procurei seguir os estímulos 1931; Cavalcanti - M,ediaevalism, "in" "Make it New" cit o idem'
criativos da experiência poundiana, embora me tenha "Literary Essays of Eo P:', Faber .& Faber, London 19540 C~;alcanti
P oems, "O"
louvado preferencialmente no texto tal como o reproduz m "Th e T rans Iations of E. P.", Faber & Faber, London, 19530
o ' ,

o (6) Uma reprodução paleográ:fica dêsse manuscrito, com o texto


Gustavo Rodolfo Ceriello, com base na lição de Luigi Integral da "Canzone", encontra-se incluída na edição poundiana das
di Benedetto. Vali-me também, para algumas opções, do u Rime", mencionada na nota anterior

texto e variantes oferecidos por Ercole Rivalta. (7) Se o (7) Ver edi00 cito na nota 4, ~ima; Luigi di Benedetto, "Rima-
a leitura de Pound freqüentemente parece idiossincrática tori deI Dolce Stil Novo", G, Laterza & Figli Bari 1939 o Ercole Ri-
valta, "Le Rime di Guido Cavalcanti" Zanioh~lIi B~logna' 1902
e fantasiosa, podendo ser retificada pela consulta a lições (8) Ver a " Introdução" a "The '"Translations of E. P.", cit.
o

filológicas mais rigorosas, é sempre iluminadora sua


prodigiosa "empatia" com os valôres poéticos do origi-
nal. Em casos como êste, observa Hugh Kenner, E. P.
não traduz palavras mas sim uma "estrutura de sensi-
bilidade". (8) No esquema que adotei, mantive o verso
decassilábico, porém não segui exatamente o esquema
rígido da Canzone (Pound também não o fêz). Mas pro-
curei reproduzir a música do original, através das rimas
terminais e internas, de aliterações e mesmo de paro-
nomásias. Deixei o poema sem pontuação, como no
manuscrito italiano, para que êle ganhasse uma respi-
ração própria, como um móbile, pelo jôgo de palavra e
silêncio. E busquei preservar o "tonus" semântico todo
especial do poeta-filósofo Cavalcanti, inclusive sua sin-
taxe tão elíptica e sutil que parece às vêzes inexistir por
trás das palavras suspensas de seu arabesco. Se assim
tiver conseguido evocar algo da beleza dêste poema e
da amorosa mediação com que Pound o recriou para a
sensibilidade moderna, já me darei por satisfeito.

(1) Ezra Pound, "Make it New" , Yale University Press, New


Haven, 1935, p, 396; "The Letters of Eo Po", Faber & Faber, London,
1951, ppo 363, 3650
(2) Ver+a respeito Donald Davie, "Eo P. - Poet as Sculptor",
Routledge .& Kegan Paul, London, 1965, pp. .112-1190
(3) Mario Praz, To So Eliot and Dante "in" "The Flarning Heart",
Doubleday Anchor Books, New York, 19580

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GUIDO CAVALCANTI(c. 1259-1300) GUIDO CAVALCANTI(c. 1:/59-1300)

OONNA MI PREGA PEDIU-ME UMA SENHORA

DONNA mi prega PEDIU-ME uma Senhora


perch'io voglio dire fale agora
D'un accidente
Dum acidente
che sovente geralmente
e fero forte
Ed e si altero
E de tal porte
ch'e chiamato amore \ que é chamado Amor
Si chi 10 nega
possa '1 ver sentire I QUEM ora o nega
Ed a presente prove-o novamente
Mas um presente
conoscente I" entendedor
chero 1, requeiro
Perch'io no spero
j .... Nem espero
ch'om di basso core de um baixo coração
A TAL ragione porti conoscenza CONHECIMENTO aberto a esta razão
Ché senza
Se não se apega
natural dimostramento a natural sustento
Non ho talento
Meu intento não
di voler provare vai poder provar
Là dove nasce e chi 10 fa creare Onde êle nasce e quem o faz criar
E QUAL e sua vertute e sua potenza QUAL é sua virtude e sua potência
L'essenza A essência
poi ciascun suo movimento e depois o movimento
E '1 piacimento O encantamento
che '1 fa dire amare que há em dizer amar
E s'omo per veder 10 pó mostrare E se alguém pode vê-lo à luz do olhar
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I
IN quella parte NAQUELAparte
dove sta memora onde esta memória
Prende suo stato Assume estado
si formato toma forma
come qual
Diafan da lome Na escuridade
d'una scuritate diáfano de lume
LA qual da Marte QUE vem de Marte
vene e fa demora e entre nós demora
Elli e creato Êle é criado
ed ha sensato com sensata norma
nome Da alma costume
D'alma costome cordial
e di cor volontate vontade
VEN da veduta forma che s'íntende VEM da forma visível que se entende
Che prende E apreende
nel possibile intelletto no possível intelecto
Come in subietto Sujeito
loco e dimoranza seu lugar e residência
In quella parte mai non ha pesanza Lá o pesar não acha permanência
PERCHÉ da qualitate non descende POIS que de qualidade não descende
Resplende
Resplende
in sé perpetuale effetto feito seu perpétuo efeito
Non ha diletto Deleite não alcança
ma consideranza , mas ciência
Si che non pote largír simiglianza A nada mais delega semelhança
NON e vertute NÃO é virtude
ma da quella vene mas daquela vem
ch'e perfezione Perfeição
che si pone que se põe de tal
tale "feição
Non razionale Não racional
ma che sente dico porém sensível digo
FUOR di salute FOGE à saúde
giudicar mantene o juízo que mantém
Ché Ia 'ntenzione Dando a intenção
per ragione como à razão
vale igual

S2 S3
Disceme male Disceme mal
in eui e VlZIO amico é dêste vício amigo
DI sua potenza segue spesso morte DE seu poder resulta às vêzes morte
Se forte Se há forte
Ia vertü fosse impedita contradita a êsse poder
La quale aita Que deve ser
Ia contraria via à vida predisposto
Non perché oppost'a naturale sia Não que da natureza seja oposto
MA quanto che da buon perfetto tort'e MAS qual da perfeição quem porventura
Per sorte Se descura
non pó dire om ch'aggia vita viver não se diria
Ché stabilita Senhoria
non ha segnoría lhe falta por sustento
A simil pó valer quand' om l'oblia Ou quem relega Amor a esquecimento
L'ESSER e quando PRODUZ-SE quando
10 voler e tanto a volição é tal
Ch'oItra misura Que ultrapassando
di natura o natural
toma limite
Poi non s'adoma Já não permite
di riposo mai o enfeite do descanso
MàVE cangiando MOVE mudando
color riso in pianto a côr o riso em pranto
E Ia figura Enquanto o rosto
con paura descomposto
stoma faz
Poco soggiorna Paz não o tenta
ancor di lui vedrai e se verá que enfrenta
CHE 'n gente di valor 10 píü si trova COM mais freqüência gente de vontade
La nova Suspiros colhe
qualítà mõve sospiri a nova qualidade
E võl ch'om miri E os olhos move
in non formato loco a um sítio que é sem forma
Destandos' ira Ia qual manda foco Livra-se a ira e o fogo então assoma
IMAGINAR non póte om che nol prova NÃO pode imaginar quem não o prova
E non si mova Que não se mova
perch'a lui si tiri (I
mas que fique absorto
E non si giri Nem gire em mira
per trovarvi gioco de alegria ou jôgo

S4 S5
Né cert'ha mente gran saver né poco Requer Amor ao mais e ao menos douto
DA simil tragge TIRA por similar
complessione sguardo símíle olhar
Che fa parere Faz o prazer
10 piacere mais certo
píü certo parecer
Non pó coverto Assim tão perto
star quand'e si giunto está a descoberto
NON già selvaggio AGORAsem crueza
le belta son dardo os dardos lança
Ché tal volere Beleza
per temere que o temor se fêz destreza
esperto Merece a palma
Consegue merto a alma que ela alcança
spirito ch'e punto NÃO pode ser no rosto percebido
E NON si pó conoscer per 10 viso Ferido
Ch'om priso o homem cai branco no alvo
bianco in tale obietto cade Quem ouve bem
E chi ben aude forma não vê
forma non si vede nem algo
Dunqu'ellí meno che da lei procede Se vê de Amor
FUOR di colore d'essere diviso que dessa forma vem
Asciso FORA da côr
mezzo scuro luce rade partida essência pura
Fuor d'ogne fraude Por noite escura
dice degno in fede sua luz radia
Che solo di costui nasce mercede Digno de fé
fora de vilania
TU puoi sicuramente gir canzone Que dêle dêle só nasce mercê
Là 've ti piace ch'io t'ho si adornata
Ch'assai laudata VOA seguramente vai canção
sara tua ragione Aonde queiras tão bem trabalhada
Da le persone Que tua razão
ch'anno intendimento será sempre louvada
Di star con l'altre tu non hai talento De pessoa que tenha entendimento
Estar com outras não é teu intento

(Trad, de. Haroldo de Campos)

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