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Copyright© 2020 Jéss Alves

Está é uma obra de ficção. Nomes, personagens, cenários, lugares e


acontecimentos descritos são produtos da imaginação do autor.
Qualquer semelhança com nomes, datas e acontecimentos reais é mera
coincidência.
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previsto na lei.
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O ADVOGADO DO DIABO
A morte não separa os que se amam.
– Chico Xavier.
O ADVOGADO DO DIABO
01

“Menina encontrada morta há duas semanas, próxima da chácara do


Empresário Sérgio Diniz tem laudo revelado. Cristiane Almeida de Carvalho
de apenas dezoito anos foi estuprada e morta asfixiada, apresentando lesões
brutais no corpo. Foi encontrado sêmen na parte íntima da vítima, onde uma
garrafa estava introduzida…”

Desliguei a televisão.
Respirei fundo, meneando a cabeça.
Mantenho a calma e penso no meu cliente que está aflito, olhando-me
com medo e receio.
Preparo um drink, acho que um uísque forte vai me ajudar engolir
essa história. O caso está nas mãos do Departamento de Homicídio que já
encontrou o grande suspeito por exames de DNA... Sérgio Diniz!
O proprietário de uma das grandes varejistas do País, é culpado pela
morte de uma jovem de dezoito anos. Ela foi estuprada e assassinada a
sangue-frio.
— Diga-me qual é o seu preço? — O homem indagou aflito. Ele
viajou até São Paulo só para contratar o meu serviço.
Bebi meu uísque de uma única vez, sinto o líquido queimar a minha
garganta.
Não será fácil ganhar, eu sabia que esse caso me causaria muita dor
de cabeça. Os exames de DNA já compravam o culpado, terei muito trabalho
para inocentar esse homem. Nos últimos anos já trabalhei para clientes
acusados de estupro, casos que foram ganhos porque não houve exames de
DNA, por exemplo. Era apenas uma única prova sustentando a condenação,
os relatos das vítimas que geralmente queriam se vingar dos empresários e
políticos que as dispensavam como um simples objeto que não valia nada.
Algumas “vítimas” calavam a boca com um belo e generoso suborno, eu só
precisava usar meu charme, inteligência e conhecimento para persuadi-las a
desistir do processo. Muitos políticos lutam para manter a imagem, usando os
advogados para limpar seus rastros. Os podres dificilmente são expostos pela
mídia, graças a nós.
Notícias de discussões entre partidos ou sobre os erros do novo
governo são adiáforos perto do político que mandou matar a sua amante, ou
do mafioso que está sendo acusado de tráfico humano. A cada dia recebo
propostas que surpreendem até mesmo o próprio Diabo, se ele realmente
existir. São crimes, atos e ações tão cruéis que desafiam qualquer lógica ou
ficção. Todos os dias recebo um psicopata no meu escritório, que me faz
desacreditar em qualquer bondade ou fé.
Sérgio Diniz é a prova que compaixão e remorso não existem, quando
olho para o homem sentado em minha poltrona de visita, não vejo
arrependimento de ter matado e estuprado uma jovem, apenas o medo da
condenação. É por esse motivo que ele está aqui, não é porque está
arrependido por um ato desumano e cruel, ele só não quer perder a sua
liberdade.
Eles nunca se arrependem. Nunca!
— Você está disposto a pagar meu preço?
O homem riu, mostrando vários dentes de ouro.
— Bruno Alcântara, sou milionário…
— Ótimo, quero dez milhões.
Sérgio arregalou os olhos.
— Você ficou louco!
Ergui os ombros, eu não vou discordar. Dizem que sou amigo do
próprio Diabo, só posso ser louco.
— Esse é o total do meu honorário. — Digo, caminhando até minha
cadeira e sento-me.
— É um absurdo.
O homem ficou vermelho, passando a mão sem parar no cabelo
repleto de gel fixador.
Mantenho a minha calma. É a minha serenidade e paciência que me
torna implacável, reconheço o grau elevadíssimo de cada processo,
desempenhando o meu papel com total responsabilidade e eficiência.
Esperei, prevendo a sua resposta.
O homem amaldiçoou o destino, xingando até um Deus que não
existe. Posso ser considerado o Advogado do Diabo, mas não acredito que
exista um inferno que é governado por um ser com chifres e um tridente
afiado, principalmente um céu governado por um Deus que conduz nosso
caminho, para mim são como historinhas para dormir. Uma grande
bobagem…
— Certo, quais são as minhas chances de ser inocentado?
Eu sorri, sabendo exatamente como inocentar Sérgio Diniz. É um
caminho complicado, mas não é impossível de alcançar.
— Você será absorvido, apenas confie no meu trabalho. — Falei com
convicção.
O homem assentiu. Eu vou defender os direitos do meu cliente, não
pretendo pensar no crime ou nos delitos que cometeu. Nunca penso nas
vítimas, elas não me importam, apenas a pessoa que contratou o meu serviço.
Sérgio Diniz deixou meu escritório com um sorriso presunçoso no
rosto, depois de ouvir minha estratégia de defesa.
Liguei a televisão novamente, captando cada informação dos
noticiários. Cristiane Almeida era uma típica garota rebelde que já fugiu de
casa, que tinha passagens em instituições para menores infratores. Amanhã
vou ter uma reunião com Sérgio Diniz, e com alguns representantes que
pretendem testemunhar ao seu favor.
Por e-mail passo todas as informações para os meus assistentes, eles
começam as suas investigações hoje. Quero tudo relacionado a Cristiane
Almeida em minha mesa quanto antes, eu quero nome de cada familiar,
amigos, tudo sobre a escolaridade da garota e principalmente os erros e
podres da “adolescente”.
— Senhor Alcântara; — Minha Secretária pessoal entrou no meu
escritório. — Você tem uma visita.
— Minha visita tem horário…
— Meu amigo, eu sempre vou ter um horário na sua agenda corrida;
— Thomas entrou, carregando um pequeno fichário. Meu velho amigo, que
esteve presente nos piores momentos da minha vida e mesmo com minha
indiferença, amargura e grosseria não se afastou. — Seu filho de uma puta, é
bom revê-lo.
Estendo a mão para um cumprimento formal, minha secretária pessoal
rapidamente deixou meu escritório quando notou nossa interação “amigável”.
— Thomas, há quanto tempo?
— Acho que são apenas seis meses; — ele riu. — A última vez que o
vi, você estava bebaço, vomitando até às tripas na despedida de solteiro do
Ruan.
— E o Ruan? — Perguntei.
Ruan, Thomas e Carlos, eram meus melhores amigos quando eu era
um moleque cheio de sonhos na faculdade.
Thomas sentou-se na poltrona à minha direita, apoiando as mãos em
cima do fichário.
— Viajando com a Esposa, estão na Grécia. Aproveitando a vida de
casados.
Ótimo, pelo menos um de nós se deu bem.
Thomas é divorciado, com apenas 36 anos já tem três divórcios nas
bagagens.
Ruan é recém-casado com a Olívia, ela era uma conhecida próxima
do nosso grupo que acabou conquistando o garanhão e também herdeiro de
um império agropecuário, Ruan Handley.
Carlos é um cara sem responsabilidades, que gosta de curtir as
acompanhantes de luxo. E quando tenho um tempo livre aproveitamos
algumas baladas e bares da cidade.
— E você, Bruno? Como tem passado? Ainda pensa na Sofía?
Meu corpo enrijeceu com as perguntas desnecessárias. Eu ainda
pensava na Sofía, porque simplesmente a odiava.
Sofía não era uma amante, não era uma mulher qualquer. Na verdade,
ela era minha irmã mais nova que morreu há dois anos graças a um câncer
agressivo. Minha família acabou se distanciando mais com a partida da
minha irmã, meus pais que já se odiavam o suficiente para começar uma
guerra, agora são inimigos mortais, dividindo o império Alcântara.
E você deve estar se perguntando: Por que odeio a minha irmã?
É simples; Sofía era luz que iluminava nossas vidas. Ela era nosso
alicerce, ela era o meu alicerce. A força que me fazia acreditar na
compaixão, na bondade e no amor. Quando Sofía morreu, simplesmente
levou o meu coração com ela. Eu a odeio por ter me deixado, por ter me
abandonado neste mundo de merda.
— Ela morreu, Thomas. As pessoas morrem a todo tempo, tenho
certeza que a sua vinda até meu escritório não foi para falar sobre minha
falecida irmã.
O homem pigarreou, abrindo o fichário com várias documentações.
— Estou sendo processado, Bruno.
Levei as mãos até as têmporas, tentando aliviar a dor incômoda que
surgiu na minha cabeça. Que porra, mais problemas.
— O que aconteceu?
— Uma funcionária medíocre está me acusando injustamente; —
Thomas levantou-se, ficando completamente exaltado. — Ela é louca, Bruno.
Doente Mental, doidinha da pedra. Tenho certeza que usa drogas
alucinógenas, a mulher não é fácil.
Thomas coloca o fichário em cima da minha mesa, concentro-me no
caso e começo a ler o processo. Foi impossível não rir, Thomas ficou louco?
— Intolerância religiosa e danos morais?
O homem voltou a sentar-se na poltrona, abrindo um sorriso.
— Essa será fácil, meu amigo. Tenho certeza que você vai ganhar,
prefiro pagar milhões para você e não pagar uma indenização mixuruca pra
essa vadia.
— Thomas…
Ele ergueu as mãos na defensiva, calando-me.
— Tudo bem, vou contar a história.
Relaxei na cadeira, esperando uma história convincente. Direito
trabalhista não é uma área que gosto de atuar, sou completamente apaixonado
pela minha profissão, mas sempre me senti atraído pelo “crime”, pelas
mentes perturbadas e doentes de alguns clientes. Não posso negar que fico
extasiado com um caso de homicídio quando chega em minhas mãos e por
ironia do destino sou chamado de “O Advogado do Diabo”, acredito que a
minha frieza deu um salto na minha carreira. Defender os maiores criminosos
do País sem manter nenhum escrúpulo coloca meu nome no ranking dos
melhores advogados do Brasil. E para ser honesto, prefiro me agarrar nas
almas doentias dos meus clientes, criar uma verdade que consegue reverter
qualquer situação nos tribunais superiores.
— Tudo começou com alguns boatos no hospital. — Disse Thomas,
franzindo o cenho. — Técnicos, enfermeiras e médicos estavam com medo
da nova recepcionista.
Thomas Fagundes é proprietário de um Hospital Privado na cidade,
um dos mais procurados pela elite do País. Além de ser referência em
tratamentos cardiológicos de média e alta complexidade, o hospital Santa
Luzia (que recebeu o nome da bisavó de Thomas) têm o selo da Joint
Commission International, que certifica um hospital de grande excelência.
Thomas é obcecado por seu trabalho, exigindo profissionais totalmente
capacitados para atuar no hospital que pertence a sua família há quatro
gerações.
— Os rumores sobre ela chegaram até meu escritório na zona central
da cidade. E piorou quando ela passou para recepção plantonista do hospital.
Bom, é melhor você ver com seus próprios olhos… — Thomas entrega-me o
seu celular. — São as filmagens das câmeras de segurança do hospital.
Eu balanço a cabeça em concordância, iniciando as filmagens. O
vídeo mostra uma jovem, que está sentada atrás do balcão da recepção, reparo
nitidamente que a jovem tem uma ótima postura e cabelos volumosos, com
cachos espessos e bonitos. Ela fica por longos minutos trabalhando em frente
ao computador. É uma funcionária qualquer, não tem nada de extraordinário.
— Thomas, é uma simples garota. Qual é o problema com ela?
— Assista às filmagens, Bruno.
Certo, vamos lá…
Continuei prestando atenção na funcionária que representa ser muito
competente, ela atendia as ligações com rapidez e também mantinha seus
olhos sempre presos na tela do computador, muito concentrada. Após 10
minutos de vídeo, algo estranho aconteceu nas gravações. A funcionária
imediatamente ficou de pé, ela pegou alguns papéis e começou a organizá-
los, enquanto falava e gesticulava. A jovem conversava alegremente, fazendo
gestos com as mãos e rindo sem parar. Tudo poderia ser normal, se ela não
estivesse completamente sozinha na recepção. Não havia ninguém dentro
daquela sala, apenas a garota. E com quem estava conversando?
Engulo em seco, encarando meu amigo que também mantinha uma
expressão estupefata.
— Ela é louca; — iniciou, meneando a cabeça. — Não quero uma
funcionária doente mental no meu hospital.
— É um caso de esquizofrenia, Thomas. É notório que a mulher não
tem uma saúde mental adequada para trabalhar em um hospital de alto nível.
— Pode me ajudar? — Thomas demonstrou certa esperança na voz.
Não vou recusar, ele é um amigo de longa data. Posso e pretendo ajudá-lo.
— É claro!
ANJO CELESTIAL
02

O relógio é meu pior inimigo, acho chique essas pessoas que


conseguem acordar na hora certa, se arrumar e ficar plena às 7 horas da
manhã. Estou atrasada para uma entrevista de emprego que está marcada
para às 8 horas.
Tudo bem, você precisa se acalmar, Angélica.
Respirei fundo, procurando minha bolsa.
Bolsa encontrada em cima da cômoda, ótimo!
Depois comecei uma luta com meus cachos rebeldes, justo hoje eles
decidiram iniciar uma guerra com meus cremes.
A parte boa são as minhas roupas, que deixei separadas ontem à
noite. Agora é só as vestir e Voilà… Estou pronta!
Sai do meu quarto às pressas, quase caindo nas escadas. Moro com
minha tia materna e minha priminha de apenas oito anos, é comum encontrar
minha Tia Fani acordada preparando o café.
— Angel, você não tem uma entrevista de emprego às 8 horas? —
Ela olhou para o relógio próximo da geladeira.
— Eu acordei atrasada.
Ela revirou os olhos, entregando uma xícara para me servir o café.
— Você tem vinte minutos, é melhor se alimentar antes de sair. Um
estômago vazio não ajuda um cérebro agitado.
Agitado, eu ri.
Ela não está errada, eu sou hiperativa. Isso significa que não consigo
parar de pensar, não consigo parar de falar e principalmente não consigo
ficar parada em um único lugar. Entretanto, sou formada em administração e
tenho muitas experiências como “Assistente Executiva”, gosto de atuar no
ramo empresarial. Fazer parte de grandes empresas, amo a correria de uma
Empresa de grande porte.
— Estou nervosa, depois dos acontecimentos no Hospital Santa
Luzia.
Minha tia olha-me com preocupação, não está sendo fácil superar
tudo que acabei ouvindo do empresário Thomas Fagundes. O cara é um
tirano, que ataca cruelmente com palavras e sem pensar nas consequências.
Afinal, ele é milionário e infelizmente quem tem uma conta bancária
altíssima, recheada e gorda, não acaba sendo prejudicado neste País. Nossas
leis são falhas quando trata-se dos ricos esnobes com nariz empinado.
— Meu amor, vai dar tudo certo. Joana é uma boa advogada. Ela está
empenhada no processo, não vai decepcioná-la.
Eu acredito, Thomas precisa de uma boa lição. Não quero dinheiro,
não quero uma indenização alta como minha advogada sugeriu. Eu só quero
que o empresário Thomas Fagundes aprenda a respeitar cada religião e
principalmente seus funcionários.
Concentro-me no meu café da manhã.
Minha Tia ligou a pequena televisão integrada na parede da cozinha.
Ela passa maior parte do tempo trabalhando nesta cozinha, minha tia é
doceira e faz bolos personalizados que são deliciosos.
O jornal da manhã estava transmitindo uma matéria sobre o caso da
adolescente que foi encontrada morta próxima de uma Chácara de um
milionário chamado Sérgio Diniz. O desencarne da garota foi conturbado,
ela seguiu para as colônias das flores depois de uma longa aceitação. A
morte não é fácil de aceitar, não é fácil encará-la e deixar tudo que amamos
nesta vida.
— Não gosto de pensar no quanto a família dessa jovem está
sofrendo.
Eu concordei com a cabeça, sentindo aquele nó na garganta. Quando
a bondade faz morada dentro do nosso coração, sentimos cada aflição, cada
dor e sofrimento dos nossos irmãos.
— Essa família vai precisar de muita luz, tia Fani.
Levanto-me da cadeira, colocando minha bolsa no ombro,
terminando meu café e prestando atenção na matéria.

“A família da jovem Cristiane Almeida de Carvalho está revoltada


com a decisão do Tribunal. Sérgio Diniz foi inocentado das acusações, seu
advogado conhecido por defender Fernando Peixoto – político envolvido no
maior esquema de corrupção do País – impressionou o júri com uma defesa
implacável. Alegando que Cristiane Almeida era amante de Sérgio Diniz…”

Meu queixo caiu.


— Eu não acredito… Meu Deus! Foi encontrado o sêmen do homem
na vagina da garota. Ele estuprou uma garota... Como um advogado
consegue alegar que uma jovem de dezoito anos era amante de um velho
milionário?
— Bruno Alcântara, ele é conhecido como o advogado do Diabo. Ele
conseguiu inocentar Fernando Peixoto, mesmo com todas as provas da
polícia federal.
— É insano! — Murmurei, ainda impressionada com a frieza desse
advogado.
— Tenho certeza que ele tinha provas e testemunhas que afirmaram
a relação da garota com o velho milionário.
É claro, ele pode estar certo. Ninguém usaria uma mentira tão cruel a
favor de um psicopata estuprador. Faço de tudo para esquecer essa notícia,
despeço-me da minha tia e corri até meu carro, agora preciso focar no meu
novo emprego. Eu preciso trabalhar, não posso ficar parada sem meu
dinheiro.

Cheguei na Lummertz Advocacia em cima do pedido. No exato


momento em que entrei na recepção, ouço uma moça me chamando:
— Angélica Amaral.
Tudo bem, Angel. Você consegue!
— Olá! — Cumprimentei a moça com um sorriso no rosto e um
aperto de mão amigável, ela me acompanhou até uma sala muito bonita e
arejada. O local era espaçoso, mantendo uma decoração neutra, com cores
claras que tornava o cômodo mais iluminado e aconchegante para uma
leitura, por exemplo. Bonitas estantes estão próximas de uma janela grande
com cortinas de persianas. Havia muitos livros, todos enormes e com capas
duras. Uma mesa de madeira com um ótimo acabamento e cadeiras de couro
que projetam uma imagem profissional, tornando o cenário adequado para
receber clientes da elite, que vivem no luxo da Grande São Paulo. A
Lummertz Advocacia vai além do que eu imaginava.
— Por favor, sente-se. — Disse a moça num tom carismático. — A
Senhora Paula vai conversar com você. Ela só está em uma ligação muito
importante, pode aguardar alguns minutos?
— Tudo bem, não se preocupe. Posso aguardar, sem problemas. —
Sorri, ainda reparando no local.
A mesa era muito organizada. A maneira que você organiza sua
mesa ou até mesmo seu escritório pode revelar muito sobre seu perfil
profissional. Uma mesa desorganizada, cheia de papéis, comidas e
principalmente post-it presos em todos os lugares, demonstra o quanto está
sobrecarregada. Aprendi muito nos últimos anos, trabalhando para empresas
e agências conceituadas.
O meu celular tocou, despertando-me dos pensamentos. Olhei o
nome na identificação da chamada, sentindo meu sangue gelar no mesmo
instante.
— Eu preciso atender. — Informei.
A moça assentiu com uma expressão serena.
— Vou deixá-la à vontade, com licença.
Ela girou pelos calcanhares e saiu do escritório, mas manteve a porta
aberta.
Imediatamente atendo a ligação.
— Alô, Joana?
— Olá, Angel. Eu tenho boas notícias.
— Meu Deus! — meu coração disparou dentro do peito. — Quais
são as novas?
— Nossa audiência será na próxima semana, na quarta-feira. Angel,
está preparada?
— Preparada e confiante.
Joana riu do outro lado da linha.
— Que bom, estamos confiantes. Vai dar tudo certo, Angélica. Você
poderia passar no meu escritório hoje?
— É lógico! No momento estou participando de uma entrevista,
poderia me mandar um horário adequado para encontrá-la no escritório por
Whatsapp?
— Certo, vou mandar. Nos falamos mais tarde. Boa sorte, Angélica.
— Muito obrigada!
Desliguei a chamada com meu coração quase saindo pela boca. Eu
estava esperançosa, acredito que vou ganhar esse processo. Thomas
Fagundes foi grotesco quando me chamou de doente mental e atacou
severamente a minha fé. As palavras dele ainda me assombram: Você é uma
retardada, que tem sérios problemas mentais. Não quero uma inválida com
transtornos trabalhando no meu hospital.
Quando tentei explicar que não tinha problemas de saúde ou
transtornos psiquiátricos, que meu dom era diferente e único, ele voltou a
esbravejar: Enfie esse seu dom no rabo e suma do meu hospital.
Ele me demitiu por justa causa, saí do meu antigo emprego sem
nenhum direito trabalhista e bastante abalada emocionalmente, nunca fui tão
humilhada.
— Angélica Amaral?
Sobressalto na cadeira, uma mulher loira e muito bonita entrou na
sala.
Fico de pé para cumprimentá-la.
— Sou eu! — Digo sorridente.
— Meu nome é Paula Crisóstomo, vou conversar com você essa
manhã.
— É um prazer conhecê-la.
A mulher sorriu, sentando-se na cadeira a minha frente. Esqueço a
notícia que acabei de receber da minha advogada e concentro-me na minha
entrevista. Agora, é só pensar positivo e tudo vai terminar bem.
O ADVOGADO DO DIABO
03

Fiquei observando o jardim. O meu corpo inteiro começou a tremer


de raiva.
Como é possível?
Eu tinha destruído as flores.
Eu tinha destruído o maldito jardim.
Maldição… Justo hoje que precisava manter a minha serenidade para
uma audiência.
Com a raiva cegando minha razão e qualquer pensamento lúcido,
peguei uma tesoura de jardinagem na garagem.
Não quero ver essas flores aqui, quando terminar de arrancar cada
broto e cortar cada flor nojenta, pretendo ter uma conversa com as minhas
empregadas. Quero saber qual das malditas sem responsabilidades está
plantando flores no meu jardim. Eu proibi qualquer planta na minha Mansão,
qualquer flor que possa me lembrar…
— Bruno? — Minha amante surgiu no jardim, usando um robe
transparente, que mostrava seu belíssimo corpo seminu. — Vai desistir da
advocacia e seguir a profissão de jardinagem?
— Vai para o inferno. Você nem deveria estar aqui. — E realmente
não deveria, eu terminei inúmeras vezes meu envolvimento com a Andressa,
mas ela insiste em se deitar na minha cama, e como sou um homem solteiro e
sem compromisso, não recuso sexo. Amo foder uma buceta apertada,
principalmente quando uma mulher chega sem calcinha na minha
propriedade, implorando para comê-la de quatro e com força.
— Qual é o seu problema? — Andressa armou as garras, pronta para
começar as mesmas discussões de sempre. Discussões que não suporto mais!
— Você quer saber qual é o meu problema? Eu tenho uma amante
que insiste em me procurar, funcionárias intrometidas que passam por cima
das minhas ordens e estou atrasado…
— Se você está atrasado não deveria estar brincando de jardinagem.
— Interrompa-me com ar debochado.
Meu sangue ferveu nas veias.
— Eu quero que você desapareça da minha frente. — Rosnei feito um
animal que contraiu raiva. — E a sua entrada livre na minha propriedade está
extremamente proibida a partir de hoje.
— O quê? Bruno, você não pode estar falando sério. Eu sempre estou
do seu lado…
Gargalhei, enquanto continuava cortando as roseiras.
— Cala a porra da boca. Você é apenas a minha amante, uma delas.
Lembre-se que a minha lista é extensa, não é a única que tem entrada liberada
na minha Mansão; — viro-me para encará-la. — Na verdade, você tinha.
Porque a partir de hoje… — abro a tesoura e fecho com força. — Você está
cortada da minha vida, cai fora.
— Bruno, por favor…
Caralho!
Estou prestes a explodir com essa mulher. E neste momento não
posso perder meu equilíbrio.
— Você vai sair sozinha ou vou ter de arrastá-la a força? — Indaguei,
terminando de cortar a última roseira, e jogando a tesoura no chão.
— Um dia você vai se arrepender, Bruno. Você machuca e ataca as
pessoas gratuitamente, pessoas que só querem o seu bem e a sua felicidade.
— Na verdade, você está querendo o novo lançamento da Apple. O
iPhone 11, estou certo?
As bochechas da Andressa ficam avermelhadas. Ela corta contato
visual, totalmente constrangida. Será que essa garota pensa que sou idiota?
— É sério, Andressa. Acabou, encontre outro milionário para
extorquir. O sexo foi bom por um tempo, mas agora… — Olhei para as rosas
no chão, as belas pétalas amarelas. — Eu estou quebrado e não me importo
de quebrar e machucar as pessoas ao meu redor.
— Foda-se. Eu já estava cansada mesmo, pensa que é fácil aturar o
seu mau-humor? Tenho pena da mulher que se apaixonar por você. — Ela
saiu batendo os pés, igual uma onça que acabou de fugir de uma jaula.
Ótimo… um problema resolvido.
Agora só me falta descobrir quem está plantando as rosas no jardim.
Entrei na Mansão gritando por Aurora, algumas funcionárias - que
organizavam minha sala - ficam inertes com meus gritos. Minha governanta
desceu as escadas correndo com a mão no peito.
— Bruno, quem morreu?
Quê?
— Ninguém morreu, mas estou prestes a cometer um assassinato.
A mulher passou olhar lentamente pelos funcionários até fixar os
olhos azuis-escuros no meu perfil.
— O que aconteceu? — Ela deu um passo à frente, mudando sua
fisionomia assustada e ganhando uma expressão mais preocupada.
— O jardim, quem plantou as rosas?
Aurora empalideceu, até seus lábios ficam pálidos e sem vida.
— Bruno, eu estava no jardim na parte da manhã e não havia rosas,
não havia um único sinal de plantas ou flores.
Droga, passei as mãos trêmulas no rosto, tentando compreender o que
está acontecendo na Mansão.
Andressa desceu as escadas, com seus pertences e uma bolsa.
— Menina, o café da tarde será servido…
— Não se preocupe, Aurora; — ela lança-me um olhar afiado. —
Bruno me expulsou da Mansão e minha entrada na sua propriedade está
extremamente proibida.
— Bruno, você perdeu o juízo?
Ignorei Andressa, segurando na mão da minha governanta.
— Venha comigo e vocês três também. — Minhas funcionárias
trocam olhares amedrontados. — Andressa, quando entrar novamente, não
quero encontrá-la no meio da minha sala. Vá embora! — Esbravejei as
últimas palavras.
Guiei Aurora até às roseiras que despedacei com a tesoura. A mulher
ficou inerte quando provei que estava certo. Alguém está plantando rosas no
meu jardim.
— Pode me explicar o que significa essas rosas?
Aurora faz o sinal da cruz, olhando para as suas auxiliares que
também perderam a cor corada das suas bochechas.
— Misericórdia. Eu juro, Bruno. Juro por meu neto que essas flores
não estavam aqui às dez horas da manhã quando soltei Edgar para correr no
jardim.
Minha outra funcionária faz o sinal da cruz, começando orar um Pai-
Nosso.
— Você precisa chamar um exorcista, patrão. Isso é trabalho do
demônio.
Respirei fundo, contando até cem para não gritar com essas quatro
desmioladas.
— É claro, é um trabalho articulado do demônio, porque ele não tem
nada importante para fazer e decidiu plantar rosas no meu jardim. Um
demônio ativista ambiental; — Bufei, irritado. — Eu não tenho paciência
para tamanha burrice. Aurora, preciso trabalhar. Descubra quanto antes quem
está plantando essas flores ou todas serão demitidas.
— Mas Bruno…
— Você ouviu, mulher. Estou atrasado, tenho uma audiência às três
horas. Encontre o culpado. Eu te pago muito bem para exercer o seu trabalho.

Thomas estava soltando fogos pelas ventas quando cheguei na entrada


do fórum. O homem estava vermelho, andando de um lado para o outro,
demonstrando total nervosismo.
— Meu Deus, homem. Está atrasado, que tipo de advogado é você?
— Do tipo que vai calar a sua boca quando acabar com a
esquizofrênica.
Thomas riu, mudando seu semblante preocupado.
— As testemunhas chegaram, todas estão aqui; — Thomas disfarçou,
aproximando-se para cochichar: — Será que ninguém vai desconfiar da nossa
estratégia?
— Desconfiar? — soltei um riso despreocupado. — As filmagens das
câmeras de segurança, revelam o quanto a garota é perturbada.
— Você tem razão, não tenho porque me preocupar; — Thomas
mudou sua postura ficando mais tenso no instante que olhou em direção da
entrada do fórum. — Ela chegou!
Viro-me.
Ficando de frente com uma garota.
Puta merda…
A infeliz era exuberante.
Perfeita.
Uma mulher de parar o trânsito, literalmente. O meu olhar sem
vergonha, percorreu o corpo da garota que se encolheu quando notou os meus
olhares desejosos.
Ela usava uma saia tubinho, com uma fenda na coxa direita. A camisa
branca, quase transparente deixava um pouco amostra os detalhes rendados
do sutiã.
Engulo em seco.
O cabelo repleto de cachos, que são lindos.
Sempre achei cachos mais chamativos e interessantes que os cabelos
lisos e escovados. A rebeldia e a liberdade dos cachos sempre chamou a
minha atenção. Pego-me imaginando, a minha mão segurando com força nos
fios volumosos e enrolados, enquanto metia com vontade na sua buceta
molhada.
Ela aproximou-se um pouco retraída e consegui flagrar a cor dos seus
olhos. Eram verdes-claros, bonitos e bondosos.
— Boa tarde, Senhor Fagundes. — Disse, molhando os lábios com a
língua.
Ela quer me matar? Que boca maravilhosa!
Quem tem lábios tão perfeitos e delineados?
— Boa Tarde! — Thomas respondeu seco, observando a garota se
afastar em direção da sua advogada.
Ah não… Joana Saredo? Minha vontade era gargalhar e festejar nossa
vitória antecipadamente. No entanto, quero encará-la nos olhos quando
vencer esse processo.
ANJO CELESTIAL
04

É sério, Angélica? Você tinha que se atrasar no dia da sua


audiência?
Droga!
Sou mesmo uma desajeitada, não consigo ficar parada e ainda me
atraso para compromissos importantes. Joana estava mais calada que o
normal quando nos encontramos, a minha advogada não tinha uma expressão
amigável, parecia estressada.
— Joana, está tudo bem?
A mulher sobressaltou. Olhando-me alarmada.
— Sim, eu estou… — Ela voltou a encarar o advogado do Thomas
Fagundes. O homem era muito bonito e jovem, acredito que não passa dos
trinta anos. Ele também olhou na nossa direção, mas fiquei novamente
impressionada com a frieza daqueles olhos castanhos. O seu olhar desceu em
direção dos meus seios. Depois para minhas pernas nuas e continuou
descendo até meu scarpin.
Céus...
Será que tem alguma coisa errada com a minha roupa? É um vestuário
formal, nada exagerado.
— Bruno Alcântara; — Joana sussurrou — O advogado do Diabo.
Sabe quando um calafrio percorre a nossa espinha e faz todos os pelos
do nosso corpo eriçar? Então, estou sentindo exatamente isso, mas com
calafrios múltiplos que não passam. O homem que inocentou um estuprador,
que inocentou vários criminosos… Meu queixo caiu!
Eu não sabia o que dizer, apenas senti um medo circular até minha
alma.
Ele estava aqui…
Alguns passos de distância, bem na minha frente e para piorar
completamente a minha situação… O homem tinha a beleza do próprio
pecado!
Ele era exuberante e elegante.
O cabelo castanho-dourado estava penteado para trás. Ele tinha um
corte moderno e um pouco despojado. As laterais são raspadas, deixando um
pouco de volume no topo da cabeça. A barba grossa e por fazer também
tornava seu rosto mais marcante e com uma expressão aristocrática. Ele usava
um terno preto, com um colete por baixo do blazer.
Tinha uma postura superior e um ar astucioso. A maneira de olhar
também chamou a minha atenção, ele encara as pessoas com total segurança
e sem medo, como se soubesse que ninguém poderia superá-lo ou como se
fosse o centro do mundo.
Joana me tranquilizou, dizendo que tudo ficaria bem. Eu queria
confiar nela, mas tudo no advogado do Diabo me transmitia medo. Minha
intuição gritava: não fique perto, ele é perigoso.
Sinceramente? Nunca ignorei minhas sensações e intuições, agora só
me resta enfrentar tudo que estou sentindo. Quando somos chamados para
sala de audiência, pensei que fosse desmaiar.
— Todas as testemunhas estão aqui, fique tranquila.
Todas?
Meu estômago embrulhou. Eu só tinha uma testemunha, uma colega
de trabalho que se sensibilizou com minha história. As outras não aceitaram
testemunhar ao meu favor.
Segui minha advogada.
Ela me auxiliou, explicando que eu deveria me sentar em uma cadeira
específica, bem ao lado dela.
— Audiência das 15 horas; — Disse um Senhor. — Processo 45, do
ano 2019. As partes envolvidas podem se sentar.
O Juiz entrou, sentando-se na sua cadeira. Minhas mãos estão
tremendo e suando frias, por que estou tão nervosa? Acalme-se.
Respirei fundo, tentando controlar meu nervosismo.
— Boa tarde senhores e senhoras; — Cumprimentou. — Meu nome é
Felipe Vitale, Juiz Trabalhista. Vamos dar início ao processo, com uma
resolução pacífica. Conforme consta na petição inicial, trata-se de uma
reclamação trabalhista, buscando reparar demissão por justa causa, danos
morais e intolerância religiosa. Peço por gentileza que a reclamante Angélica
Amaral se pronuncie.
O quê?
Quase tombei para trás.
Ele quer que eu fale?
Olhei para os lados, completamente confusa, deparando-me com o
Bruno Alcântara, ele mantinha um sorriso debochado nos lábios, um olhar
divertido, como se estivesse zombando do meu nervosismo.
— Bom; — pigarreei com a garganta, buscando a minha voz. — Meu
nome é Angélica…
Thomas riu, mas foi advertido pelo próprio advogado.
— Senhorita Angélica, pode nos explicar como ocorreu o processo?
Oh, entendi.
Meu Deus!
O meu cérebro está me castigando hoje. Talvez, o meu nervosismo
esteja muito descontrolado, é necessário me acalmar.
Inspiro o ar, sentindo um cheiro estranho de rosas. Ué... Será que
Joana usa algum perfume com essa composição?
— O Senhor Fagundes; — início a história, cortando qualquer
pensamento sobre perfumes ou rosas. — Me chamou no seu escritório no
Hospital Santa Luzia. Eu imediatamente pensei que fosse subir de cargo,
afinal, sou formada em administração e tenho muita experiência como
assistente executiva. Quando entrei no escritório, o Senhor Fagundes me
mostrou as filmagens das câmeras de segurança…
Eu congelei. Não… não… Por favor, agora não é um momento certo.
Evite olhar, não olhe Angel.
— Excelência, temos em mãos as filmagens. — Disse Bruno.
O Juiz autorizou as filmagens, o advogado do Diabo exibiu os vídeos
somente para o Juiz, que assistiu concentrado. Ele franziu a testa, arrumou os
óculos que estava escorregando no nariz, ordenando:
— Prossiga, Senhorita Angélica.
Eu não conseguia me mexer.
Não olhe, Angel. Ignore. Mantenha-se forte.
— Diga a ele; — sussurrou. — Que sinto muito pelo jardim, mas
gosto das flores.
Engulo em seco.
Não era um bom momento!
Levanto-me nervosa, fazendo a cadeira tombar. Todos que estão
presentes na sala de audiência ficam me olhando como se eu fosse um dragão
com sete cabeças.
— Angel; — Joana forçou um sorriso amarelo. — Sente-se, está tudo
bem!
Eu fazia de tudo para não olhá-la, olhava para as várias folhas em
cima da mesa do Juiz - que com certeza é meu processo detalhado - olhava
para os MacBooks dos advogados presentes, para as minhas mãos, até mesmo
em direção do teto. Eu não conseguia encarar o espírito de uma garota que se
mantinha parada ao lado do Bruno Alcântara.
Não sei quando vou me acostumar com essas aparições inesperadas.
Eu ainda sinto medo, eu ainda sinto os calafrios pelo corpo quando eles
surgem do nada.
— Você poderia dizer a ele, que amo as flores. Ele está com raiva e
me odeia. Eu consigo entendê-lo, mas as flores… não quero que ele destrua
as únicas lembranças que ainda existem de nós.
Quem era ela?
Esposa?
Uma namorada que acabou morrendo de uma maneira trágica?
Não, não pode ser uma amante ou esposa, era muito nova. O espírito
não tinha mais que quinze anos. Era uma garota jovem e muito bonita.
— As flores sempre irão renascer, enquanto eu estiver por perto.
Enquanto ele continuar sofrendo e se culpando; — ela apontou para o Bruno
Alcântara. A boca do homem se movia, mas não ouço um único som da sua
voz. Eu só posso ouvi-la neste momento, apenas ela. — Não foi culpa dele, o
Bruno é um homem de coração bondoso.
Só pode ser brincadeira!
— Você sabe o que ele faz? — Esbravejei. — Ele inocentou um
estuprador, ele inocentou vários criminosos.
— Por favor, ajude o meu irmão.
Irmão?
Ajudar? E Como?
Ela desapareceu como fumaça no ar. Quando acordo da minha visão,
vejo todos na sala com os olhos arregalados na minha direção.
— Eu falei, ela é louca. É uma esquizofrênica. — Trovejou Thomas,
num tom bastante humilhante.
Bruno Alcântara mantinha uma expressão diferente. O ar debochado
foi substituído por um pesar ultrajante.
Engulo em seco.
E não era só ele que estava me olhando com um semblante
humilhante, Joana também ficou chocada com minha reação. A minha
própria advogada está duvidando da minha sanidade.
— Desculpe, eu… eu… não posso!
Saí correndo da sala de audiências com minha advogada chamando
meu nome.
Droga!
As lágrimas chegam antes do previsto, eu sabia que poderia chorar
nesta audiência. Thomas Fagundes é um escroto nojento, presenciar o seu
sorrisinho cínico não foi fácil.
Corra!
Não pare!
Continuei correndo pelos corredores do Tribunal, até encontrar os
banheiros.
Abro a porta, puxando o ar freneticamente. Tudo bem, não é
momento para ter uma crise de pânico. Você é forte, Angel.
Molhei meu rosto, abri a porta de um dos banheiros livres, fecho a
tampa do sanitário e sento-me.
Esperei até os tremores do meu corpo cessar, tentando diminuir o
ritmo da minha respiração. Minha audiência foi muito estressante, meu
cérebro precisa de oxigênio.
Fechei meus olhos, fazendo o possível para relaxar. Eu não sei
quantos minutos fiquei com os olhos fechados, só sentindo meus batimentos
cardíacos voltando ao normal.
Muito bem, Angélica. Você conseguiu!
Saí do banheiro, suspirando aliviada com minha própria melhora. No
entanto, sinto meu corpo petrificar novamente.
Só pode ser brincadeira…
Parado próximo dos laváveis, estava Bruno Alcântara. Ele molhou a
nuca com a mão úmida, virando-se para me encarar. O homem não
apresentava uma boa fisionomia, ele estava muito pálido que é um pouco
estranho. Afinal, na audiência ele esbanjava uma ótima aparência e um
sorriso debochado no rosto, será que presenciou um espírito voltando do além
para ficar com uma expressão tão acabada?
— Estranho; — Diz num sussurro. — Você estava se escondendo no
banheiro masculino?
— Esse banheiro é masculino? Oh, meu Deus. Sinto muito… Eu sinto
muito mesmo!
O homem assentiu, ganhando um brilho estranho nas íris castanhas.
Elas ficam com uma cor mais viva, quase atingindo um dourado ardente.
— O Juiz cancelou nossa audiência; — comentou, pegando os papéis
toalhas para secar as mãos. — Ele achou adequado remarcar outra ação.
— Entendo. Desculpa, por qualquer incômodo. Eu não queria sair
correndo da audiência, eu só…
— Você começou a conversar com alguém invisível. Já pensou em
procurar um psiquiatra?
E lá vamos nós de novo… Estou cansada de explicar para as pessoas
que sou um pouquinho diferente.
— Não, sou uma pessoa lúcida e normal. Apenas meus dons são
diferentes.
Bruno riu, aproximando-se.
— Dons?
— Sim, dons mediúnicos.
— Menina, negar que você precisa de ajuda só pode piorar a situação
que se encontra a sua sanidade.
Urgh, ele voltou a debochar e novamente mediu meu corpo com os
olhos. Será que ele poderia ser um pouco discreto?
— Tenho uma saúde perfeita.
— Angélica, é esse seu nome? — Confirmei com a cabeça. — Não
será fácil vencer esse processo com a demonstração gratuita de esquizofrenia
na audiência. Felipe Vitale é um homem justo, você começou a falar
sozinha…
— Eu estava falando com uma garota, ela tem cheiro de rosas. É
morena e tem os olhos castanhos-dourados. O cabelo tem cachos nas pontas.
Ela tem no máximo quinze anos e disse que é sua irmã.
O homem atingiu vários tons de vermelho, por um momento pensei
que ele fosse me esmurrar. Bruno Alcântara deu um passo à frente, acabando
com os centímetros que separam os nossos corpos. Ele segurou com força no
meu braço, chacoalhando-me.
— O QUE VOCÊ DISSE? — Esbravejou. Pensei que os espelhos
fossem quebrar com seus gritos, mas não me intimidei. Esse homem é
nojento, opressor e agressivo.
— Ela falou que sente muito pelas flores, mas elas são as únicas
lembranças que você tem. Ela disse que as flores vão continuar renascendo,
enquanto ela estiver por perto…
— SAIA; — Bruno me arrastou para fora do banheiro. — VOCÊ É
LOUCA, DOENTE!
Ele me empurrou com força. Acabo torcendo meu pé e caí estendida
no chão.
— Eu vou entrar com um processo contra a Senhorita, Angélica
Amaral. Você não sabe com quem está mexendo.
Levanto-me, sentindo meu tornozelo arder.
— Eu sei, você é “O Advogado do Diabo”. Você não suporta a
bondade e a verdade. Pode me processar, porque pretendo processá-lo por
agressão física. Vou agora mesmo fazer um boletim de ocorrência contra o
Senhor.
O bom senso clareou a mente do homem, porque imediatamente ele
me socorreu.
— Inferno, você se machucou?
— Não importa, só não coloque um dedo no meu corpo.
Bruno rosnou.
No momento que me viro para me afastar dele, sinto uma dor terrível
no tornozelo.
— Aí… Aí... merda. — Levanto o pé, não sei como me equilibrei.
Curiosos começam a observar nossa “interação”, que está mais para uma
verdadeira guerra.
— Saco, você não deveria entrar no meu caminho, mulher.
Em um segundo eu estava sentindo uma dor terrível no tornozelo e no
outro… Bruno Alcântara me pegou no colo.
— O que você pensa que está fazendo? — Gritei, debatendo-me.
— Vou te levar em um médico, não deveria tê-la empurrado. Não é da
minha índole tal atitude, sinto muito.
— Não precisa, por favor. Pode me colocar no chão. — Ele ignorou
meus protestos, segurando-me com mais força. Os braços musculosos do
homem lembrava um gigante guindaste. Era impossível me soltar, mesmo
lutando para escapar dos seus braços. — Senhor Alcântara, por favor. Todos
estão nos olhando.
De fato, um grupo de pessoas ficam assistindo à cena, intrigados.
Joana surgiu no meio da multidão completamente boquiaberta.
Eu não sabia onde enfiar a minha cara. À terra pode me engolir agora
e nunca mais me devolver, posso ficar vivendo no núcleo da Terra com os
dinossauros.
— Você machucou a perna, sou o culpado e quero ajudar.
— Foi meu tornozelo. — Corrijo, emburrada. O homem me levou até
sua picape.
Eu não consegui falar com a Joana, não vencemos o processo e agora
estou sendo socorrida pelo melhor amigo do Lúcifer. Tem como piorar?
ANJO CELESTIAL
05

O médico disse que foi apenas uma simples torção, nada exagerado.
Aconselhou a fazer uma compressa gelada e também a manter o pé erguido
para não forçar o músculo. Em poucos dias, estou cem por cento novamente,
meu único problema é o amigo do Diabo que fica me seguindo. Ele me levou
em um hospital particular, tudo pago por seus cartões de créditos com limites
altíssimos. Bruno Alcântara não conversou muito, as suas perguntas eram
formais: "Ainda está doendo?”, “Você está bem?”, “Precisa de ajuda?”.
Ficar ao lado dele era tedioso.
Quando um homem (extremamente sexy, bonito e gostoso) lhe
oferece ajuda depois de gritar e esbravejar, não é um bom sinal. Qual é a
dele?
Olhei de esguelha para Bruno Alcântara, ele dirigia com uma feição
tranquila.
— Sou uma Médium do Centro Espírita Caminho da Rosa Azul. —
As palavras voam da minha boca, como se tivessem vida própria. As suas
mãos seguram com mais força no volante, consigo ver os dedos
empalidecendo com a força que ele está depositando no pobre volante. Acho
que ele está imaginando o meu pescoço neste instante. — Eu descobri que era
diferente quando meus pais morreram, tinha apenas 13 anos…
— Você pode ficar calada?
— Eu não consigo, sou hiperativa. As palavras escapam da minha
boca como se tivessem asas. — Ele bufou, prestando atenção na estrada. —
Quantos anos você tem?
— Não interessa.
— Posso adivinhar?
— Não!
— Você tem 31 ou 33 anos. Estou certa? — Minha voz saiu mais
animada que o esperado.
— Minha idade não te interessa, nada da minha vida interessa a você.
Vou deixá-la em segurança na sua residência e nunca mais quero vê-la na
minha frente. — Diz sem disfarçar a grosseria.
— Que maravilhoso, esse sentimento é recíproco. — Bato palmas,
felicíssima só de imaginar que nunca mais vou encontrá-lo. — Também não
quero vê-lo na minha frente, mas como pretendo processá-lo por agressão
física, acho que vamos nos reencontrar novamente nos tribunais.
Ele riu, meneando a cabeça.
— Você é estranha.
Ele não é único que me falou isso. Estou até acostumada.
— Você está tentando me ofender? Porque não deu certo.
O homem me olhou por alguns segundos, devorando minhas pernas
nuas. Um pouco encabulada, puxo a barra da minha saia tubinho mais para
baixo, tentando esconder a minha coxa.
— Bom, gostaria de fazer um boletim de ocorrência? Posso deixa-lá
na delegacia se desejar.
Ele está falando sério ou está debochando? Viro-me para encará-lo e
pela expressão no seu rosto deduzi que ele está mesmo falando sério. Abro a
boca para dizer: Sim.
— Não! — Eu não estou dizendo? As minhas palavras tem vida
própria, não é possível. Eu penso uma coisa e de repente falo outra. — Só
quero um pouco de paz, descansar e esquecer meu dia humilhante.
— Compreendo.
Ele é um homem de pouca conversa, qualquer pessoa conversaria para
passar o tempo. Até mesmo pessoas que se odeiam mantém uma boa
educação quando estão no mesmo ambiente, conversam e interagem.
— Você é casado?
— Vamos falar de você, tudo bem? Já que você quer conversar e
insiste com essas perguntas irritantes.
Revirei os olhos, concordando com a cabeça.
— Quantos anos você tem?
— Eu tenho 26 anos, sou do signo de Áries. Faço aniversário dia 07
de Abril, é um pouco…
— Chega, já é o suficiente. — Respondeu altivo.
Após outro corte grosseiro, decidi ficar calada, foi uma luta aguentar
quase quarenta minutos dentro de um carro (graças ao trânsito), sem nenhum
assunto legal.
Bruno me deixou em frente a minha casa, como sempre a rua estava
tranquila. Moro em um bairro que geralmente é calmo, quando meus vizinhos
não estão brigando e quebrando o pau para que todos possam assistir. Eles até
foram parar no programa "Casos de Família", com um tema bastante
engraçado.
— Você quer ajuda para descer?
A pergunta acorda-me dos meus devaneios loucos.
— Oh não, estou bem; — abro a porta da picape. Bruno desceu de
imediato, correndo para me ajudar. — Não se preocupe…
— Só vou levá-la até o portão da casa; — ele observou a minha casa
modesta e simples, sem nada de extraordinário. Na verdade, era um sobrado
comum que eu amava com todo meu coração. Eu ajudei a minha tia a pagar
as parcelas da nossa casa, quando terminamos de pagar, dei entrada no meu
carro e…
— Aí não!
— Está sentindo dor?
Neguei com a cabeça, com meu rosto queimando de vergonha.
— Eu esqueci meu carro no estacionamento do Fórum.
Bruno olha-me com total descrença.
— O QUÊ? QUE TIPO DE PESSOA ESQUECE O PRÓPRIO
CARRO?
Será que a missão desse homem é me deixar surda? Por que grita
tanto?
— Eu, euzinha, eeeeeeu aqui. E se você estivesse no meu lugar tenho
certeza que esqueceria até a cabeça do pinto dentro do sanitário. — Altero a
minha voz, perdendo a compostura. Urgh! Eu tenho vontade de agredir esse
infeliz. E sou uma pessoa da paz, que é contra agressões físicas. Você
consegue compreender o quanto estou perdendo a minha paciência?
Bruno ficou visivelmente constrangido com a minha resposta. Acho
que ele não esperava uma mulher de 26 anos, formada em administração e
com um ótimo currículo profissional, esbravejando a palavra "pinto" com
total naturalidade.
— O que está acontecendo? — Minha tia surge na janela, com os
olhos arregalados e curiosos. — Angel?
— Não está acontecendo nada, tia. — Digo, abrindo o portão. —
Você pode ir embora, está tudo bem!
— Certo, eu vou.
No entanto, ficou parado, avaliando meu perfil com um semblante
sério.
— Acho que é melhor você ir embora antes que a minha tia…
A porta é escancarada com força, minha tia desceu correndo os
poucos degraus até o portão.
— Olá, seja bem-vindo. — Falou com um sorriso radiante. — Você é
amigo da minha sobrinha?
Bruno franziu o cenho.
— Não senhora…
— Que maravilha, você pode entrar. Eu acabei de assar um bolo de
cenoura, divino. É uma delícia, tenho certeza que você vai gostar.
— Tia, por favor. Não é o que você está pensando…
— Que besteira; — arruma o avental. — Eu não estou pensando nada.
A minha sobrinha querida, chegou acompanhada de um homem belíssimo,
que tem uma picape da Mercedes-Benz. — ela sorriu. — Não estou pensando
nada, eu juro.
Oh Deus, pode me levar agora.
— É muita gentileza da sua parte, mas eu só estava ajudando a sua
sobrinha que torceu o tornozelo.
Graças a você!
Minha tia abaixou o olhar, flagrando meu pé todo enfaixado.
— Oh Jesus, como isso aconteceu?
— É uma longa história… — Murmurei, ficando chateada quando me
recordo de tudo.
— Bom, vou deixar o meu cartão particular, Angélica; — ele tirou do
bolso um pequeno cartão de visita, clássico. Contendo somente um e-mail e
um número de celular. — Pode me ligar se precisar do meu trabalho.
É sério? Fiquei olhando para o cartão de visitas na minha mão. Tudo
que estou vivendo hoje não pode ser real. É um sonho, com certeza!
— Senhora; — Bruno estendeu a mão para um cumprimento formal.
— Eu agradeço pelo convite, fica para a próxima.
— É um prazer conhecê-lo, agora que sabe o caminho da nossa casa
pode voltar quando desejar. — Minha tia balança a mão freneticamente,
fazendo o braço do homem chacoalhar, igual um terremoto.
O Advogado do Diabo sorriu sem jeito, virando na minha direção
novamente.
— Angélica, tenha uma ótima recuperação!
— Tchau... — Digo, entrando para dentro da minha casa.
— Angel, você não vai agradecer o homem pela gentileza de trazê-la
até nossa casa?
Semicerrei os olhos.
— Ele não fez mais do que sua obrigação. — Continuei mancando
feito uma gansa desajeitada, ignorando os protestos da minha tia.

Bruno seguiu sua vida, espero nunca mais revê-lo, vou até esquecer a
ideia de processá-lo por agressão física, só para não me deparar com o infeliz
novamente. A Minha tia me serviu um pedaço de bolo e um café forte
enquanto ouvia atentamente a minha história. Eu contei tudo, principalmente
sobre "O Advogado do Diabo", ela ficou pasmada e também encantada com a
beleza e juventude do Bruno Alcântara. O nome do homem ficou conhecido
quando ele inocentou um político corrupto, seu nome foi transmitido por
todas as emissoras brasileiras. No entanto, não gosto de assistir televisão, eu
evito assistir jornais e noticiários. Sou muito sensitiva e qualquer notícia
trágica acaba me afetando. Eu sinto tudo, cada aflição e desespero dos amigos
próximos e familiares que perderam um ente querido. Então, por esse motivo
não tinha ciência da aparência do Bruno Alcântara. Minha tia é muito
esquecida, guardar os traços de outras pessoas é uma missão impossível para
ela.
— E depois… Ele não quis saber mais sobre a aparição da irmã?
Neguei com a cabeça.
O espírito da garota é outro detalhe que quero esquecer. Não pretendo
me envolver em nada relacionado com o sobrenome "Alcântara". Ela pode
estar sofrendo, alguns espíritos ficam presos à Terra, após a morte. Não
conseguindo desligar-se dos seus corpos físicos e da vida que levavam.
Ficam presos sentimentalmente a um familiar, também é muito comum que
uma alma recém desencarnada fique presa a um ente querido por conta do
amor e saudade que ele sente.
Meu coração ficou tão pequeno, quando percebo que o famoso Bruno
Alcântara ainda sofre a perda da irmã ao ponto de não deixá-la descansar, ao
ponto de prendê-la entre nós de uma maneira intensa.
— Bruno não acreditou. Me chamou de louca, resultando na minha
torção; — apontei para meu pé enfaixado. — Ele me empurrou, ficou
totalmente transtornado.
— Meu Deus, ele precisa se desapegar da irmã. Como a coitadinha
vai seguir para o plano espiritual?
Dou de ombros, exausta psicologicamente.
— No fim, acredito que ele se arrependeu. Enquanto ao espírito da
garota? Amanhã vou no Centro Espírita falar com meu mentor.
— Que bom, será uma ótima atitude.
— Vou descansar.
Minha tia me acompanhou até o quarto. Ela me deixou sozinha depois
de certificar se eu estava bem acomodada na minha cama. Aproveito o
momento particular para mexer no meu celular, ficando assustada com as
várias ligações da Joana. Imediatamente retornei, minha advogada não
demorou para atender a ligação.
— Alô, Angel.
— Oi, Joana. Eu sinto muito. — Digo chateada. — Não deveria sair
correndo da audiência feito uma problemática.
— Está tudo bem, eu consegui reverter a situação.
— Que bom!
— Angélica, você conhecia o Bruno Alcântara?
A pergunta me pegou desprevenida.
— Ah não, aconteceu um acidente no banheiro. Eu acabei entrando no
banheiro masculino por engano, escorreguei no piso molhado e torci meu pé.
— Não sei o porquê estou mentindo, mas não me sinto a vontade de contar
toda a verdade. — Bruno entrou no banheiro quando estava precisando de
ajuda, ele foi muito cortês.
— Agora está explicado, não entendi quando você saiu do fórum nos
braços do advogado do Diabo. Fiquei tão preocupada...
— Eu já cheguei em casa, está tudo certo.
— Ótimo, vou mandar minha Secretária te ligar para agendar uma
conversa no meu escritório. Precisamos debater algumas questões do
processo e mudar certas táticas de defesa, Bruno Alcântara não joga limpo.
— Vou ficar no aguardo.
— Tenha uma ótima tarde, Angélica.
— Obrigada, Joana!
Desliguei a chamada pensando no meu carro, vou esperar a dor
diminuir um pouco e pretendo buscar meu carrinho depois.
Fechei meus olhos por alguns segundos, mas meu dia estressante me
levou até um sono profundo, onde sonhei com uma garota de olhos
castanhos-dourados, ela cuidava de um bonito jardim, repleto de rosas-
amarelas. A cor amarela me transmitiu uma sensação alegre e quente.
O ADVOGADO DO DIABO
06

(Há treze anos)

A minha irmã estava com uma febre que não cessava, mesmo a
medicando corretamente. Olhei no relógio, daqui a pouco começa uma nova
guerra para dar o antibiótico. Eu fazia de tudo para me manter calmo, cuidar
de uma garotinha de 2 aninhos não é fácil. A pediatra tentou me tranquilizar,
dizendo que a febre pode persistir alguns dias até o antibiótico começar a
eliminar a infecção.
Talvez um banho morno possa ajudar, vou preparar a banheira e
depois…
— VOCÊ QUER UM EXAME DE DNA? VOCÊ QUER?
Com cuidado cubro as orelhas da minha irmãzinha. Ela não merece
ouvir os escândalos da nossa mãe.
— Aquela menina não é minha filha. Eu me recuso tê-la dentro do
meu apartamento. Eu me recuso assumir uma traição. Você é uma vadia,
Valéria!
Por que eles precisam discutir no corredor, bem em frente ao quarto
da criança?
Eu já estou acostumado com as discussões. Os meus pais começaram
uma verdadeira guerra pela empresa da família quando eu tinha 12 anos. A
minha mãe é orgulhosa demais para assinar o divórcio. E meu pai, ele é
ambicioso demais para abdicar um terço do Estaleiro Âncoras. A nossa
família está há gerações na indústria marítima, somos responsáveis pelas
construções de barcos esportivos e iates. Não posso negar que a família
Alcântara é dona de um Império Bilionário, mas nunca me importei. Eu não
me importo com as contas bancárias recheadas da minha família, não me
importo com as viagens luxuosas ou com as grandes festas milionárias que
minha mãe sempre está organizando. Eu só me importo com a garotinha
dormindo dentro do berço, minha irmã é tão doce e amorosa, não merecia
nascer em uma família quebrada, desestruturada e principalmente maluca.
— Você está certo, Júlio. Ela não é sua filha, eu dormi com outro
homem mesmo e quer saber? Foi gostoso pra caralho…
— EU QUERO O DIVÓRCIO!
Puta que pariu!
Preciso interferir antes que acordem a minha irmã com esses berros
desnecessários.
Abro a porta do quarto.
— Vocês podem parar de discutir no corredor? Sofía está doente,
tenham um pouco de bom senso. — Digo, irritado.
— Que se foda. — Meu pai saiu batendo os pés. Respirei fundo, não
fico surpreso com o comportamento hostil do Senhor Alcântara, meu pai é
tão cruel que poderia fazer o próprio Lúcifer se apaixonar por ele.
— Ela está doente? E a babá?
— Mãe, é final de semana. A babá não trabalha no sábado e no
domingo.
Ela revirou os olhos, entrando no quarto. Minha mãe se aproximou do
berço, olhando para a bebê que dormia profundamente.
— Hmm, precisamos encontrar outra babá que tenha disponibilidade
de horário nos sábados e domingos.
— Você não pode estar falando sério. É brincadeira, né?
— Bruno, você é um rapaz jovem. Tem apenas 22 anos, não deveria
estar cuidando de uma bebê de 2 anos.
— Eu nunca vou conseguir entender, porque mulheres como você,
geram crianças para sofrer no mundo.
Minha mãe riu até os olhos lacrimejar.
— Meu filho, você é um comediante. Quem vai sofrer? Sofía nasceu
em berço de ouro, com apenas 2 anos já é dona de uma fortuna milionária.
Balanço a cabeça totalmente descrente. Com o passar do tempo eu
acabei aprendendo a me manter sozinho. Cresci rodeado de babás e de
educadoras, mas não conheci o amor de mãe ou de pai, e sinceramente? Só
gostaria que a minha irmãzinha conhecesse esse tipo de amor.
— Não quero outra babá, posso cuidar dela nos finais de semana.
— Certo, pretendo viajar na segunda-feira. Vou aproveitar as praias
do nordeste. Tenha uma ótima noite.
Ela saiu sem dar um único beijo de boa noite na criança. Eu queria
que tudo fosse diferente, minha família é bilionária, são repletos de riquezas.
Porém, a maior riqueza eles não possuem: riqueza de valores, honestidade e a
riqueza de um amor sincero.

Último ano na faculdade, eu poderia comemorar. No entanto, os


problemas entre meus pais só estão aumentando. As discussões agora se
transformaram em agressões físicas. Hoje pela manhã precisei salvar a minha
mãe, porque meu pai decidiu matá-la asfixiada com o travesseiro. Nosso
apartamento está um ambiente impossível de viver em paz, por esse motivo
vou procurar um lugar legal para morar e pretendo levar minha irmãzinha
comigo. Sofía precisa crescer em um lugar saudável, evitando os pais que são
extremamente tóxicos.
No final da aula decidi ligar para a Cláudia, não gosto de chamá-la de
“babá”, acho termos como “empregadas” “funcionárias” ou “faxineiras”
muito pesados. Esses anjos que salvam as nossas vidas diariamente deveriam
ter um salário mais valorizado. Infelizmente, meu pai não quis aumentar o
salário da Cláudia, mesmo com meus pedidos insistentes. Ele me disse: “Não
vou aumentar o salário de uma simples babá, que cuida de uma criança que
não é minha filha”.
Meu pai é um homem difícil, com uma ignorância inabalável. Tenho
orgulho dos meus valores e princípios, serei um homem bom no futuro,
diferente dele.
O telefone residencial demorou para ser atendido, que é normal.
Cláudia passa maior parte do tempo brincando com a Sofía no quarto, após
alguns minutos acabei desistindo. Minha irmã se recuperou bem da infecção
na garganta, depois de noites em claro. Eu não conseguia dormir, ficava com
medo. A infecção dificultou a sua respiração, causando desconforto na hora
do sono. Tenho um cuidado dobrado, porque sou um cara muito ponderado e
criava situações neuróticas na minha cabeça. Como, por exemplo: uma
insuficiência respiratória.
Mano, honestamente? Eu não sei como algumas mulheres conseguem
cuidar de um lar e de filhos sem surtar ou enlouquecer. Mesmo com ajuda, eu
fiquei criando cenas loucas na minha cabeça, com medo absurdo de uma
infecção de garganta.
Acho que o amor que sinto por minha irmã é tão imenso que uma
simples gripe quase me desestabilizou.
— Bruno… — Ouço uma voz conhecida chamando meu nome no
corredor. Giro meu corpo, olhando para trás e vejo Carlos correndo na minha
direção. — Cara, preciso da sua ajuda.
— Da minha ajuda?
Ele assentiu.
— Pode falar, Carlos!
Estou preparado para ouvir a bomba atômica. Carlos é um dos meus
melhores amigos. O único problema, são as drogas e as bebedeiras que não
cessam. Ele não tem um pingo de responsabilidade, não sei como conseguiu
chegar no último ano de Direito.
— Então, tá ligado aquela morena que estou saindo?
Lá vem…
— Estou, qual é o problema?
— Ela está desconfiada da ruiva, preciso que você minta que ela é sua
namorada.
Comecei a rir, Carlos não bate bem da cabeça.
— Foi mal, não vai rolar. — Respondi, pensando no quanto as
pessoas são desleais. Não sou um santo, tenho uma lista de conquista
razoável. No entanto, sempre sou direto: não estou interessado em
relacionamento.
Meus envolvimentos são casuais e prazerosos, nada de compromissos
sérios.
— Fala sério, Bruno. É só mentir que você está comendo uma ruiva
gostosa. Cara, relaxa.
— Carlos, não estou a fim de problemas. Eu já estou carregando uma
bagagem extensa, meus pais estão sempre querendo se matar; — Disparei
meus problemas. Não gosto de ficar reclamando, existem pessoas
enfrentando provações piores, mas agora é um momento adequado para
desabafar. Carlos é insistente, ele vai continuar me enchendo o saco, preciso
ser sincero: — Tenho uma irmãzinha de dois anos que é minha
responsabilidade. Afinal, minha mãe só pensa em viajar e planejar festas
luxuosas. E meu pai, você sabe… Ele odeia a minha irmã, porque colocou na
cabeça que ela não é sua filha.
— Nossa, que barra!
— Eu queria ajudar, mas não tenho ânimo para nada. — Infelizmente,
é real. Sofía é minha única inspiração, preciso continuar por ela.
— Bom, acho que vou falar com o Thomas.
— Isso, ele pode ajudar. Eu vou passar na biblioteca e depois
pretendo visitar algumas imobiliárias na cidade.
— Vai se mudar? — Afirmo com a cabeça. — Certo, boa sorte. Vou
procurar o Thomas, até mais.
Suspirei aliviado. Carlos ainda mantém o bom senso. Vou usar os
computadores da biblioteca para pesquisar algumas imobiliárias próximas da
Faculdade, tenho intenção de economizar tempo, para chegar mais cedo em
casa e passar algumas horas com a minha irmã.
No momento que entrei na biblioteca, uma garota me parou na porta.
Ela segurou no meu pulso, com firmeza. Fiquei parado, um pouco
desconfiado do comportamento estranho da garota. Ela levantou o olhar e
prendo minha respiração por alguns segundos.
Cacete!
Ela tinha os olhos mais lindos que já vi. Eram azuis-céu, com íris
grandes e cintilantes. A boca era bonita, harmoniosa e carnuda. O cabelo
louro escuro está preso no alto da cabeça, um penteado distinto e inusitado.
Reparei também na postura dela. Era impecável, lembrando uma modelo de
capas de revistas. É uma mania estranha, mas sempre reparo na postura de
uma mulher.
— Posso ajudá-la? — Indaguei, ficando mais confuso com essa
aproximação inesperada. A garota só me entregou uma folha de papel e saiu
correndo.
Abro a boca, olhando para os lados, tentando entender o que acabou
de acontecer.
Ué! Que guria doida...
Abro o papel e sinto meu corpo aquecer com a mensagem escrita:

“Oi, tudo bem? Sou uma caloura na faculdade, sou estudante de


psicologia. Você não me conhece, mas há meses tenho reparado em você.
Tenho cuidado dos seus passos e te admirado em silêncio, mas já faz
algumas semanas que não tenho presenciado um sorriso no seu rosto. Você
está calado, não conversa com seus amigos e não sorri. Eu não faço ideia
quais são os problemas que está enfrentando, mas quero que saiba que o seu
sorriso é encantador, você tem covinhas que são lindas. O seu sorriso
melhora o meu dia, é aquele tipo de sorriso espontâneo que todas as pessoas
amam. Eu preciso de um resquício da sua felicidade para meu mundo ser
completo. A sua felicidade para mim, é como uma obra de arte colorida e
cheio de vida.
Então, por favor, continue a sorrir.
Com carinho e admiração, Francinny Godoi”.
ANJO CELESTIAL
07

O meu primeiro contato com a Doutrina Espírita, foi com 13 anos. Eu


buscava um acalanto para minha dor, eu tinha acabado de perder meus pais
em um grave acidente de carro, ficando sozinha. Não sabia como tapar o
vazio no meu peito, era uma dor inexplicável. Quando a minha tia conseguiu
a minha guarda judicialmente, eu ficava noites implorando por um milagre de
Deus. Na época, a minha tia tinha um computador velho que funcionava na
base da grosseria, mas que me permitiu pesquisar sobre "contato com os
mortos". Foi quando descobri as cartas psicografadas. Eu busquei vários
Centros Espíritas, alguns duvidosos e outros que fugiam do que realmente
procurava: uma forma de acalmar a saudade que sentia dos meus pais.
Foi na escola, conversando com uma professora que descobri o
Centro Espírita Caminho da Rosa Azul, um lugar de pura positividade que
me auxiliaram e me fizeram entender que a morte do corpo físico é um
fenômeno natural que atinge todos os seres da criação, cedo ou tarde. A
morte é apenas uma mudança de estado, uma passagem para encontrar nossa
evolução. Foram anos de estudo, foram anos desvendando meus pesadelos e
descobrindo que eles, na verdade, eram o desencarne de algumas pessoas,
que estavam perdidas e pediam ajuda nos meus sonhos. Quando aprendi a
controlar, as visões começaram acontecer em qualquer momento do dia. Na
faculdade, no barzinho se divertindo com as amigas ou até mesmo quando
estava deitada na minha cama, lendo um livro.
Em uma noite qualquer, acordei ouvindo um cantarolar doce. Era uma
cantiga antiga, e que não reconheci de imediato. E quando levanto a cabeça
vejo uma mulher de meia-idade deitada ao meu lado. Ela usava um vestido de
época e mantinha uma expressão horrível no rosto.
O susto foi tão grande que fiz até xixi na cama.
Eu ainda sinto medo.
Eu ainda tenho horror quando um espírito surge na minha frente como
fumaça, mas é um dom que recebi de Deus. Ele é único capaz de abençoar
pessoas com certos dons. E sou muito grata pelo meu, mesmo sentindo
medinho às vezes.
No centro Espírita participo das palestras, antes de me encontrar com
minhas amigas. Vou sair para comemorar, minha semana foi agitada e cheia
de surpresas. Os representantes da Lummertz Advocacia me ligaram, passei
na entrevista de emprego. Depois de vários exames admissionais, pretendo
começar na próxima segunda-feira.
É claro que meu coração está repleto de gratidão, estou tão animada
para festejar com minhas amigas que não vou participar dos passes no centro.
— Angélica; — Luana, uma médium do Centro Espírita se
aproximou. — Como você está?
— Estou ótima, infelizmente não vou participar dos passes hoje.
Tenho que encontrar algumas amigas.
Ela concordou com a cabeça, sempre serena e esbanjando um sorriso
acolhedor.
— O espírito da garota que te seguiu até o centro está relutante. Ela
não quer seguir para o Plano Espiritual, deseja passar uma mensagem para o
irmão.
— Uma mensagem para o Bruno Alcântara?
— Sim, Angel. Ela precisa da sua ajuda!
— Sinto muito, Luana. Eu não posso ajudá-la. Eu já tentei, Bruno
Alcântara tem uma ignorância inabalável. Ele me chamou de louca e de
doente.
— Algumas pessoas mudam para enfrentar as dores que surgem no
seu caminho e são essas pessoas que mais precisam de amor. Estamos aqui
para evoluir e transmitir bondade, você tem um dom único, Angel. Não
esqueça que deve usá-lo para o bem.
Compreendo a minha missão, mas não posso mudar os pensamentos
das pessoas. Devemos respeitar os pensamentos e opiniões diferentes. Bruno
Alcântara não acredita que sou uma médium. O homem é difícil, é uma
pessoa cheia de rancor e amargura. Será impossível convencê-lo a entrar
dentro de um Centro Espírita.
— Eu posso tentar. — E mais uma vez, as palavras fogem da minha
boca. Não era exatamente o que eu estava pensando, mas agora já falei.
Luana sorriu, maravilhada com minha resposta.
— Deus é bom o tempo todo, Angel.

Dizem que meu nome carrega a pureza dos anjos, eu sempre me achei
uma pessoa tranquila e do bem. Não gosto de pensar negativo e quando penso
faço de tudo para mudar o rumo dos meus pensamentos. Entretanto, quando
Bruno Alcântara domina qualquer pensamento dentro da minha cabeça, não
consigo imaginar nada legal ou fofo. Ele está mais para um íncubo sexual
pronto para atacar, um pecado nítido que pode consumir qualquer bondade
que existe no nosso coração.
— Angélica, você está me ouvindo? — Karen gritou, fazendo-me
pular na cadeira.
— Quê?
— Você vai querer outra rodada de tequila? — Ana Lúcia, ergueu a
mão tentando chamar o garçom. — Eu estou com fome, acho que vou
aproveitar e pedir uma porção de tilápia.
— Para mim, está ótimo.
— Tudo bem, uma porção de tilápia e outra rodada de tequila.
— Você não está dirigindo? — Karen ficou meio neurótica depois
que meus pais morreram no acidente de carro, que foi causado por
embriaguez no volante.
— Relaxa, eu vou embora de Uber. Não estou pretendendo esquecer
meu carro no estacionamento de novo.
Ambas riram do meu desastre.
— Angélica, você é surreal. Que tipo de pessoa esquece o próprio
carro?
— Esquecer o carro é normal, tem pessoas que esquecem os próprios
filhos. Uma mulher foi levada a delegacia semana passada, porque esqueceu
a filha dentro do carro e uma bebê de um ano e dez meses acabou morrendo.
— Uau, sem histórias tristes e dramáticas na mesa, por favor. É a
noite da bebedeira. — Protestou Karen, ela é uma hippie “good vibes” que
tem uma floricultura na cidade. E Ana Lúcia é uma policial que sonha um dia
ser delegada. Nós nos conhecemos no ensino médio e somos amigas
inseparáveis até hoje, mesmo com cada uma seguindo profissões e caminhos
diferentes.
— Tudo bem, vamos às novidades. Quem começa? — bato na mesa.
— Rufem os tambores… — Karen me acompanha, rindo feito uma
adolescente.
— Está bem. Está beeeeeem, eu começo. — Diz Lúcia. — Estou
pronta; — pigarreou. — Parei de tomar o anticoncepcional, Fábio acha que já
está na hora de um bebê chegar.
— AI MEU DEUS! — Gritei. Tenho uma paixão por bebês recém
nascidos. Eu amo crianças, mas bebês com aquele cheirinho maravilhoso de
leite materno é meu ponto fraco.
— Eu vou ser a madrinha, madrinha Karen paz e amor. — Ela faz o
sinal da paz com os dedos, arrancando-me uma gargalhada.
— Agora é a minha vez, adivinhem quem é mais nova contratada da
Lummertz Advocacia? — Jogo meus cachos, que estão lindos e perfeitos esta
noite.
— Ah não, jura?
— JURO!
Minhas amigas pularam, soltando gritinhos histéricos. É bom sentir
que somos amados, que a nossa felicidade também preenche a vida de outras
pessoas. Karen contou sobre um encontro com um rapaz oito anos mais novo.
Ana Lúcia começou a encher o saco chamando a Karen de “Papa anjo” e
“Mamãe Mucilon”. Eu nunca achei errado uma mulher mais velha se
relacionar com um homem mais novo, se ele for maior de idade, é claro.
Os homens estão sempre se relacionando com mulheres oito ou dez
anos mais jovem e nossa sociedade não condena esses homens. No entanto,
quando uma mulher de 27 anos começa a namorar um rapaz de 20 anos, ela é
duramente criticada. É claro, que Lúcia estava brincando e as doses de tequila
ajudaram um pouco com as piadinhas.
— Quem quer dançar?
— Eita! Você já está bêbada. — Retorquiu Karen, rindo do meu
pedido.
— Eu não estou bêbada.
— Angel, quando você bebe muito acaba incorporando um espírito da
ragatanga em você.
— Que engraçadinha; — Minhas amigas sabem que sou médium e
nunca foi um problema para elas. Ana Lúcia é católica, Karen é uma hippie,
meio Wiccana. — Eu vou me jogar na pista…
Somos três mulheres com sonhos, personalidade, pensamentos e
opiniões diferentes, mas nos respeitamos acima de tudo. Acho que é por este
motivo que nossa amizade continua sólida e inabalável. O respeito é o
verdadeiro alicerce de uma amizade.
As Minhas amigas me acompanharam até a pista de dança, a minha
noite estava perfeita. Eu poderia passar o restante da madrugada dançando
com minhas amigas, mas Ana Lúcia é casada e mesmo com um marido legal
e gente boa, ela não acha adequado passar a madrugada na balada. Karen
trabalha no sábado, então, nossa diversão vai acabar logo.
— Alguém quer água? — Gritou Karen. Eu e Lúcia aceitamos. —
Ótimo, não demoro!
Minha amiga se afastou no meio do aglomerado de pessoas.
— É quase meia noite; — disse Lúcia, observando a tela do celular.
— Daqui a pouco vou ligar para o Fábio me buscar, não estou… — Minha
amiga arregalou os olhos, ela ficou estática na minha frente.
— Ana Lúcia… — Eu não consegui terminar o questionamento,
porque neste instante sinto alguém deslizando a mão nos meus cachos.
Quando viro-me, fico cara a cara com o advogado do Diabo. Um calafrio
estranho percorreu minha espinha, não tinha como escapar. O homem estava
aqui, bem na minha frente, com poucos centímetros separando nossos corpos.
Ele esbanjava um sorriso presunçoso no rosto e uma beleza espetacular.
Bruno Alcântara é o cúmulo da pura beleza, esse homem não existe.
Ele está com o cabelo um pouco úmido, usando uma camiseta preta básica e
uma simples calça jeans. Uau… Esse vestuário casual combinou com ele. Os
belos bíceps estão a mostra, eu tenho um fetiche estranho por braços
masculinos. Algumas mulheres reparam na bunda, no volume em frente as
calças, nos detalhes do rosto, mas eu sou louca por braços fortes e bem
musculosos. Eu fico excitada só de imaginar um homem forte me prendendo
nos seus braços e me fazendo…
— Angélica Amaral, que surpresa inesperada.
Engulo em seco.
Deus, por que você criou Bruno Alcântara sem um único defeito? Por
que ele precisava ser tão gostoso e ter esse rosto perfeito?
O ADVOGADO DO DIABO
08

Os pesadelos voltaram, dificultando as minhas noites de sono. Há


meses eu dormia bem, tinha um ótimo descanso, mas tudo mudou quando
conheci a Angélica Amaral. A mulher com um sorriso doce e um olhar
bondoso não sai da minha cabeça. Não foi a beleza radiante da mulher que
me impressionou ou a maneira descontraída de iniciar uma conversa, mas sim
as pétalas de rosas-amarelas que encontrei nos corredores do Fórum. Havia
várias pétalas de rosas no chão que me guiaram até o banheiro masculino,
onde encontrei a Angélica. Depois ela disparou detalhes sobre a minha vida
que quase ninguém conhece, apenas amigos próximos e meus familiares.
— Um café, senhor. — Uma das minhas funcionárias entrega-me uma
xícara. Ela ficou meio hesitante por um momento, mas em seguida
completou: — As rosas no jardim, desabrocharam novamente.
É impossível, eu voltei a cortá-las ontem.
— Saia!
A mulher concordou, mas quando chegou na porta voltou a me
encarar.
— Desculpa a minha intromissão, senhor…
— Não quero saber, apenas saia e me deixe sozinho.
— Acredito que o Senhor deveria procurar um Centro Espírita. — Ela
saiu correndo antes que pudesse esbravejar ou demiti-la.
Cedo ou tarde a morte chegará para todos, apenas morremos. Não
existe um céu ou um inferno, onde as almas seguem. Não existe uma maneira
de falar com os mortos, não existe uma forma infalível para acabar com as
dores que ficam. Eu só estou cansado, cansado de sofrer por ela, cansado de
pensar nela e sentir a culpa castigando qualquer resquício de bondade que
ainda sinto.
— Bruno…
— Maldição, será que não posso ficar tranquilo na minha própria
casa?
Aurora arqueou uma sobrancelha, ignorando meus protestos.
— Você está trabalhando há horas neste escritório, tenho certeza que
seus pensamentos não estão permitindo qualquer minuto de paz.
Puta merda, ela tem razão. Eu preciso parar de pensar na Angélica,
nessa baboseira de rosas e Centros Espíritas.
— Fale, Aurora. Eu estou ouvindo.
A Governanta assentiu.
— Carlos está na sala de estar, aguardando permissão para entrar no
escritório. Ele quer falar com o Senhor.
— Carlos? Ele não deveria estar em uma reunião?
Aurora ergueu os ombros, confusa com as minhas perguntas.
— Inferno, mande ele entrar.
— Sim Senhor!
Carlos é meu sócio, ele administra um dos Escritórios de Advocacia
que tenho investido muito nos últimos meses. Quero saber o porquê não está
participando da Reunião. Ele pode andar fora da linha às vezes, mas é um
excelente advogado que também tem um nome conhecido e prestigiado. Eu
não me arrependo da nossa sociedade, mas não participar de uma reunião
importante com nossa equipe de Comércio Internacional e Aduaneiro, é
inaceitável.
O homem demorou alguns minutos para entrar no meu escritório, mas
quando ele passou pela porta, sinto a minha cabeça latejar com os gritos do
meu amigo de longa data:
— BRUNO ALCÂNTARA, MEU BOM AMIGO…
— Você tem cinco minutos para me explicar o porquê não está na
reunião com nossa equipe de Comércio Internacional e Aduaneiro.
O homem congelou no meio do escritório, arregalando os olhos na
minha direção.
— A reunião? Bom, ela foi rápida! — Diz com a voz hesitante. Carlos
puxou a cadeira e sentou-se como se fosse dono da propriedade.
— Ela foi rápida? Hmmm, vamos discutir as questões…
— Meu Deus, homem... Você não relaxa? Qual foi a última vez que
você saiu para se divertir?
— Não tenho tempo para diversão, Carlos. — Retruquei, sabendo
onde meu amigo queria chegar.
— Você está muito sério, qual foi a última vez que trepou com uma
mulher…
— Ah não; — levanto-me, começando a perder minha paciência. —
Não quero falar sobre mulheres.
— Não estou brincando, Bruno.
Encarei o perfil do Carlos, ele estava com um semblante fechado,
quase transformado. É costumeiro encontrar o Carlos sempre alegre e
sorridente, mas agora… Meu amigo não mantinha uma expressão amigável.
Qual é o problema?
— Preste atenção, você tem 35 anos. Só pensa nos seus honorários
milionários, esquecendo-se de viver. Qual foi a última vez que se interessou
por uma mulher de verdade?
— Não, por favor. Você é a pessoa mais inadequada para começar
uma lição de moral.
— Talvez eu seja, seja inadequado, impróprio e inconveniente, mas
sou o seu amigo há anos e sei que você não está legal, Bruno. Você precisa
parar de se culpar, cara. Sofía não queria…
Avanço contra ele, fazendo Carlos levantar-se imediatamente da
cadeira, erguendo as mãos na defensiva.
— Calma, Bruno. Céus, eu não quero brigar. Não quero começar uma
discussão, somos sócios e amigos. — Disse num tom entristecido.
— Saia, Carlos.
— Você vai viver fugindo? Francinny já eras, ela ficou no passado
e… — ele balança a cabeça. — Sofía está morta.
— Eu sei, porra. Todas as pessoas que conheço jogam na minha cara
frequentemente que a minha irmã está morta. No entanto, ninguém… —
cerrei os dentes para controlar minha voz e não continuar gritando: —
Ninguém pensa em tudo que precisei enfrentar, ninguém se coloca no meu
lugar.
— Bruno, eu sei que não é fácil. Eu consigo entender, mas você não
pode ficar se culpando para sempre; — Carlos passou a mão no cabelo. —
Vou estar no Império Bar, vivendo e aproveitando o máximo que posso. Se
você quiser, pode me encontrar lá. Tchau, Bruno.
Meu amigo saiu do meu escritório, transtornado. Ele não foi único, eu
também fiquei transtornado com a nossa discussão.
Viver não é uma tarefa fácil, o trabalho ocupa minha cabeça a maior
parte do tempo. Os crimes, os processos, os clientes e meus escritórios
diminuem um pouco a minha dor. Encontro um sentido nos grandes
processos criminosos em cima da minha mesa, mesmo com toda perturbação
que encontro na mente dos meus clientes. É bom saber que existem pessoas
mais fodidas que eu. É bom saber que existem pessoas que também estão
sofrendo, pode parecer loucura, mas não me sinto sozinho.
Aurora entrou no escritório alguns minutos depois, com um copo com
água, ela colocou o copo em cima da minha mesa, fitando-me concentrada.
— Ele não está errado! — Murmurou. — O Senhor deveria sair um
pouco, respirar ares diferentes e conhecer pessoas novas.
— Não tenho cabeça ou paciência para conhecer pessoas novas.
Ela bufou, cruzando os braços.
— Bruno, você tem medo do sofrimento, eu consigo entender, meu
querido. — Aurora se aproximou, pousando a mão com carinho no meu rosto
para me fazer encará-la nos olhos. — Você já sofreu muito e já se machucou
muito. Qualquer pessoa ficaria fechada para os sentimentos. Mas não
devemos ter medo de viver, você merece ser feliz. Talvez, as rosas
desabrochando possa ser um sinal, para continuar vivendo mesmo quando
estiver ferido, cortado e machucado. Bruno, chega de sofrer… Ela merece
descansar em paz.
A governanta piscou para afastar as lágrimas.
Eu reconhecia a verdade em cada palavra, eu tinha que seguir em
frente e simplesmente esquecer. Mas sou um homem com falhas e erros, não
sou perfeito. Eu cuidei da Sofía com todo meu coração para no fim perdê-la,
depositei todo o amor que ela merecia para crescer feliz e não sentir a falta do
carinho de uma mãe ou de um pai. E no final, ela se foi!
Inferno...
A morte dela sempre vai me assombrar. Talvez, uma noite de
bebedeira possa me ajudar a dormir bem, só vou ter uma ótima ressaca no dia
seguinte, mas a bebida pode aliviar um pouco os pesadelos.
O ADVOGADO DO DIABO
09

O local estava lotado, normal para uma sexta-feira a noite. Império


Bar é reconhecido internacionalmente por seus coquetéis únicos, os turistas
fazem a festa no estabelecimento. Os preços não são razoáveis, o Império Bar
busca um público mais requintado. O local é espaçoso, com várias mesas
espalhadas por um amplo salão, uma iluminação baixa, eles preferem
destacar o bar com seus coquetéis incríveis. Era um verdadeiro monumento
às grandes estandes espelhadas atrás dos imensos balcões, com garrafas de
bebidas de várias partes do mundo. Um grupo de Bartenders estão se
dobrando para atender o público.
Aproximo-me do balcão.
Carlos disse que estaria no Império Bar, mas não vejo um sinal do
homem. Uma moça rapidamente me atendeu:
— Qual é o pedido?
— Uma dose de uísque, por favor.
— Uísque puro, senhor?
— Sim!
A mulher rapidamente começou a preparar meu pedido, enquanto
analisava o ambiente. Um DJ animava a noite no bar, tocando músicas
eletrônicas que é referência do local. Os lustres de cristal brilhavam com as
luzes holográficas dos projetores.
A Bartender me serviu.
Decido circular a pista de dança a procura do meu amigo, mas para
minha sorte encontrei Carlos em uma mesa rodeada de mulheres. Ele mudou
sua fisionomia quando me aproximei, ficando mais cauteloso.
— Bruno; — disse seco. — Que bom que escolheu me ouvir.
— Carlos, agora não é um momento para relembrar a nossa discussão.
Só preciso de uma noite de diversão… — aprecio o grupo de mulheres que
estão conversando e bebendo na mesma mesa que Carlos está sentado. — E
quem sabe encontrar uma boa distração.
Carlos riu, puxando uma cadeira para me sentar.
— Como nos velhos tempos.
Por um momento esqueci minhas dores. Por um momento me permiti
sorrir e aproveitar as bebidas, as mulheres e uma boa diversão.
Não demorou muito para uma das mulheres se aproximar, ela reparou
bem no relógio de marca em meu pulso e depois no meu celular em cima da
mesa.
— Você é amigo do Carlos? — Pergunta num ronronar bastante
sedutor.
— Carlos é meu sócio e amigo, nos conhecemos na faculdade.
— Uau. Sócio? Então, você também é advogado?
— Sim, sou advogado criminalista.
Ela puxou a cadeira para mais perto, esbarrando as suas pernas nas
minhas.
— O senhor defende os criminosos?
Uma pergunta que estou acostumado a ouvir.
— Defendo, é o meu trabalho.
— Céus, não é perigoso? Alguns desses criminosos podem se voltar
contra o Senhor.
Gargalhei, terminando de beber o meu uísque.
— É claro que não! Eu estudei, me preparei para o que faço. Tenho
uma postura firme e centrada quando o assunto é meu trabalho, não faço
promessas que não pretendo cumprir aos meus clientes, sou completamente
preparado.
— Em todos os sentidos? — Diz observando minha boca. A mulher
percorreu a mão na minha coxa, subindo em direção da virilha.
— Sim, em todos os sentidos.
Posso beijá-la agora mesmo, mas minha noite só está começando.
Tem várias opções no Império Bar, mulheres bonitas e charmosas. Não vou
me prender na primeira que surgir querendo sexo, hoje decidi ser um pouco
mais seleto com a mulher que pretendo levar para cama. Estou cansado do
mesmo perfil: charmosas, bonitas e interesseiras.
— Eu vou no bar, comprar mais uma dose de uísque. — Digo,
levantando-me.
— Oh não. Você pode chamar um garçom. — A mulher segurou na
minha mão, impedindo-me de se afastar totalmente. — Não precisa perder
tempo no bar que está lotado.
Olhei para meu amigo que já estava com a língua na boca de uma
loira. Carlos não perde tempo. Eu poderia aproveitar a oportunidade, a
mulher ao meu lado está quase implorando para beijá-la, mas uma risada
descontraída ganhou minha atenção.
Não pode ser!
Em uma mesa, há quase cinco passos de distância está Angélica
Amaral. A mulher está linda, deslumbrante, ela mantinha uma conversa
animada com duas moças, que são bonitas também. Às três se destacam na
multidão, elas tinham um estilo único, uma alegria e uma beleza que
capturava os olhares de vários homens. Quando a Angélica se levantou, os
seus cachos se moveram como nuvens, livres e belos.
Ela usava um vestido bordô. A minha garganta ficou seca quando
percebo o bonito decote em “v”, que mostrava um pouco dos seios generosos,
uma das alças do vestido escorregava pelos ombros.
Muito sexy!
A mulher é divina...
Ela conversou alguns minutos com as amigas, rindo e com uma
expressão tão alegre que tornava sua beleza insuportável de presenciar.
Que maldição, por que ela tinha que ser tão meiga e sedutora ao
mesmo tempo?
A minha nova “acompanhante” ainda segurava na minha mão,
falando algumas palavras que não consigo captar ou compreender agora,
porque só estou imaginando meus dedos entrelaçando nos cachos sedosos e
brilhantes da esquizofrênica. Só posso estar louco, uma dose de uísque não
pode ter acabado com a minha sanidade.
Angélica caminhou até a pista de dança com as amigas. Não consegui
controlar meu próprio corpo, quando percebo estou puxando o meu braço
para a mulher inconveniente me soltar e seguindo a Angélica até a pista de
dança.
Para disfarçar o meu interesse, aproximo-me do bar. Fico observando-
a de longe, apenas admirando enquanto seu quadril ganha vida no ritmo da
música. Ela percorreu as mãos no próprio corpo, mordendo o lábio inferior.
Ah não, golpe baixo!
Caminhei em sua direção, mesmo com minha razão gritando para
ficar longe, mas neste instante só consigo pensar com a cabeça do meu pau.
Ela é bonita e muito gostosa, posso me esquecer por uma única noite
que Angélica Amaral tem problemas psiquiátricos, vou esquecer que ela
pesquisou sobre a minha vida até desvendar meus piores traumas e descobrir
sobre a morte da minha irmã, usando esse fato para me desestabilizar na
audiência. Tudo tem uma explicação, com certeza Angélica investigou a
minha vida. É a única explicação lógica, aquele papinho de médium não me
convenceu.
Parei alguns centímetros de distância, admirando sua bunda
empinada. Foi a sua amiga quem notou a minha presença por primeiro. A
mulher arregalou os olhos e ganhou um tom rosado nas bochechas.
Eu realmente não consegui me controlar, tem algo que me prende a
ela, que me faz perder completamente a noção, quando menos espero meus
dedos estão deslizando nos cachos macios.
Ela vira-se.
Ficamos frente a frente.
Caralho, Angélica é fascinante.
Seus olhos verdes-claros estão destacados com uma maquiagem
chamativa, os lábios cheios ganharam mais vida com o batom vermelho
sangue.
— Angélica Amaral, que surpresa inesperada. — Digo não contendo
a satisfação na minha voz. A mulher ficou excitada com minha chegada, a
maneira que ela está me encarando só aumenta o meu tesão.
— Vo-você aqui? — A respiração dela está desenfreada, deslizei meu
olhar no decote da mulher. Acho que sei quem vai parar na minha cama nesta
noite. Meu pau endureceu só de imaginar a Angélica pelada nos meus braços.
— O Império Bar é o lugar preferido de um amigo.
— Ah; — ela cortou contato visual, prestando atenção na colega. —
Lúcia quero apresentar, Bruno Alcântara. Ele é o advogado do Thomas, meu
ex-chefe.
— Bruno Alcântara? — A mulher ficou pasmada, medindo-me da
cabeça aos pés.
— Exatamente! — Angélica novamente mordeu o lábio inferior,
fiquei hipnotizado por alguns segundos.
— Uau! É um prazer conhecê-lo; — estendeu a mão. — Angel
comentou muito sobre você.
— Angélica Amaral comentando sobre mim? — aceito o
cumprimento da mulher com muita educação. Angélica ficou visivelmente
constrangida com a revelação da amiga.
— Comentei o necessário! — Contestou, fazendo de tudo para não
me encarar nos olhos. O comportamento embaraçado da Angélica apenas
aumentou o meu desejo por ela. Sinal que a mulher sente-se abalada com
minha presença, só preciso descobrir quais são seus planos para hoje a noite,
antes de começar a flertar.
— Gostaria de saber quais foram os comentários necessários,
poderíamos conversar no bar?
Angélica abre a boca, chocada com meu pedido. Neste instante uma
das amigas que tinha se afastado há poucos minutos, surgiu com garrafinhas
de água. Ela tinha uma aparência distinta, uma pele bonita e corada, lábios
pequenos e charmosos, os dreadlocks eram estilosos tornando a beleza da
moça mais exótica. Também reparei nos olhos, são azuis-escuros, apenas o
vestuário era mais simples.
— Uau. Quem é o bonitão? — Soltei um riso, impressionado com a
espontaneidade da hippie. Angélica enrubesceu, até mesmo o pescoço ganhou
uma tonalidade avermelhada.
— Meu Deus, Karen. — Diz, balançando a cabeça.
— Ué. Ele não é bonito?
Às três mulheres ficam encarando o meu perfil. Tudo bem, isso está
ficando estranho!
É normal me destacar na multidão, tenho um rosto bonito, um corpo
sarado e uma conta bancária milionária que chama atenção de muitas
mulheres. Sou realmente um homem com vários atrativos, mas essas três não
me olham com cobiça ou desejo. Elas estão me avaliando. A morena com
cabelos lisos, chamada Lúcia, ficou fascinada quando Angélica revelou meu
nome. Porém, a sua expressão mudou completamente, ganhando um ar mais
desconfiado.
E a Karen? Bom, ela transmite um ar de divertimento. A hippie está
curtindo a minha presença.
No entanto, Angélica Amaral está surpresa, excitada e um pouco
incomodada…
— Meu nome é Bruno Alcântara, é um prazer.
A boca da Karen ganha o formato de um “O”, parecendo espantada
também.
Caralho, o que a Angélica andou falando sobre mim? Nosso primeiro
encontro não foi memorável, mas tenho certeza que posso mudar a opinião
que a Angélica criou na própria cabeça insana quando trepar com ela a noite
inteira.
— Nossa, não sei o que dizer. — Argumentou Karen.
— Bom, eu vou ao banheiro. Vocês podem ficar a vontade, não
demoro. — Angélica girou pelos calcanhares, pronta para fugir. Entretanto,
não sou um homem que desiste fácil. Eu quero essa mulher na minha cama.
— Você sempre foge? — Provoquei — Fugiu na audiência, fugiu
quando ofereci ajuda e agora está fugindo novamente. É só um drink no bar,
quero conversar com você.
A mulher vira-se para me encarar com um semblante sério.
— Certo, eu também quero conversar com você; — Ela fitou as
amigas. — Vocês não se importam?
— Não se preocupe conosco, pode aproveitar a sua noite. — Diz
Karen com malícia.
— Tudo bem, Angel. Divirta-se!
Ela assentiu.
— Vou beber água; — Rebateu, esbarrando seu corpo no meu quando
caminhou até o bar. — É necessário diminuir o efeito do álcool.
Concordo, detesto foder mulheres bêbadas. Geralmente, não
aguentam uma metida com força quando estão com efeito do álcool no corpo.
Despeço-me das amigas da Angélica, ambas foram educadas e sigo a
mulher até o bar.
ANJO CELESTIAL
10

Bruno Alcântara está aqui, sentado no banco a minha frente, com um


sorriso convencido no rosto e extremamente gostoso.
Bebi minha água para afastar o calor do meu corpo. Mantenho o foco,
lembrando a mim mesma que esse homem precisa da minha ajuda, ele tem
uma amargura pesada dentro do coração.
O espírito da garota não vai seguir para o plano espiritual enquanto
não ajudá-lo.
— Estou aqui, Bruno Alcântara. Vamos conversar.
O homem me encarou com uma cobiça que fez meu sangue fervilhar
e molhar minha calcinha.
Concentre-se Angélica.
Respirei fundo, evitando olhá-lo nos olhos, aquelas íris lindas estão
mais claras novamente. É impressionante como o castanho dos seus olhos
ganham um brilho dourado.
— Você não faz o tipo baladeira; — disse devorando meu decote. —
Você é muito delicada para curtir festas agitadas da grande São Paulo.
Sorri, concordando sutilmente com a cabeça.
— Eu gosto de sair com minhas amigas, não é sempre que saímos
para baladas e barzinhos. Porém, você tem razão. Não sou muito festeira,
prefiro livros de poesias e romances espíritas.
— Romances espíritas? — Ele franziu as sobrancelhas.
— Sim, amo Zibia Gasparetto. Os livros dela são perfeitos, com
histórias apaixonantes e inspiradoras. Geralmente são psicografados pelos
espíritos e…
— O quê? — Bruno riu, debochando descaradamente. — Um espírito
foi ditando um romance enquanto Zibia Gasparetto foi escrevendo?
— Exatamente, os romances espíritas trazem histórias verdadeiras,
que retratam fatos verídicos. Romances que realmente aconteceram.
Bruno balançou a cabeça, pegando o copo de uísque e bebendo o
líquido acobreado de uma única vez.
— Você acredita mesmo que uma pessoa morta se comunica com
uma médium resultando em livros de romances? — Bufou, com total
descrença.
— Bruno, você é um homem descrente, que não acredita na bondade
e no amor, mas você precisa saber que a fé é a mãe de todas as virtudes. Ela
que nos conduz no caminho certo e nos faz vencer o impossível; — minha
mão pousou em cima da dele, segurei com força. — Posso ajudá-lo!
O homem encarou nossas mãos que agora estão entrelaçadas e sorriu.
— Eu realmente preciso da sua ajuda nesta noite.
Meu coração disparou.
Ele vai conversar sobre a irmã?
Oh Deus, isso é maravilhoso. Eu sei que não estamos em um lugar
favorável para termos esse tipo de conversa, mas posso entender um pouco
seus pensamentos e quem sabe convencê-lo a participar do Centro Espírita.
— Eu fico muito feliz…
— Bruno; — Um homem bem-apessoado, usando um bonito blazer
azul, jogou os braços por cima dos ombros do Bruno Alcântara. — Eu estava
te procurando, mas como sempre meu amigo está bem acompanhado.
O homem secou minhas coxas, subindo o olhar desejoso até meu
decote.
Mexo-me desconcertada.
Por que os homens necessitam dessa falta de respeito tão descarada?
É só um decote, seios não foram feitos para o deleite dos homens.
— Carlos, essa é minha amiga, Angélica Amaral. Angélica, esse é
meu amigo e também sócio, Carlos Solano.
Amiga?
Mantenho minha boa educação e cumprimento o homem que não está
sendo discreto.
— É um prazer, moça bonita. — Ele levou minha mão até os lábios e
depositou um beijo, minha vontade foi mandá-lo para puta que pariu. Não
vivemos mais no século dezoito, naquela época esse cumprimento era cortês
e galanteador. Hoje em dia qualquer comportamento vindo de um homem é
repleto de malícia.
— Cacete — Bruno vociferou. — Você está lambendo a mão da
mulher, tenha modos.
Carlos riu, olhando-me como se quisesse me devorar
— Ela é deliciosa.
— Desculpe, ele está bêbado. Carlos fica sem noção quando ingere
muita bebida alcoólica.
— Você quer dançar? — Seguro na mão do Bruno, puxando-o para
longe do amigo inconveniente e tarado. Carlos ficou com uma expressão
chateada quando o advogado do Diabo aceitou o pedido de um anjo.
Bruno me seguiu até a pista de dança, não largando da minha mão um
único segundo. A pista estava animada, tocando músicas eletrônicas dos anos
90. São as melhores no meu ponto de vista.
— Gosto dessa música; — Ele murmurou no meu ouvido, causando
arrepios no meu corpo inteiro. Acalme-se Angel, ele é apenas um homem
comum… com um rosto magnífico e um corpo espetacular. — Eu não
entendo o porquê você não é justa, eu te entreguei meu amor, mas você não
se importou.
— Co-como? — Comecei a gaguejar feito uma criança.
— É a letra da música; — Bruno riu, puxando meu corpo para perto,
enquanto nos movimentamos no ritmo da música eletrônica. — Gosto da
letra, ela carrega uma verdade que não podemos ignorar.
— Hmm, entregou o seu amor a uma mulher que não se importou
com seus sentimentos? — Instiguei, sentindo seu corpo no meu, enquanto
suas mãos deslizavam para meu quadril em movimento.
— Não acredito no amor, Angélica Amaral. Apenas no desejo!
— O desejo abre as portas para o amor, ele é início de um forte
sentimento.
Bruno franziu o cenho, meneando a cabeça. É claro que ele não
concordou com meu argumento.
— Acredito que o desejo é momentâneo.
— Está errado, o desejo é o princípio de tudo. Das paixões, dos
amores e da vida. Desejamos os toques, desejamos carinho, desejamos
companhia e às vezes desejamos a solidão, desejamos prazer ou apenas um
beijo. O desejo move até mesmo os nossos sonhos.
Bruno parou de acompanhar meu ritmo, ficou encarando meu perfil
por alguns minutos, processando tudo o que acabei de dizer. Aproveito a
oportunidade para admirá-lo: A barba por fazer que cobre seu maxilar, os
lábios harmoniosos que neste momento estão entreabertos. Lábios que foram
criados para serem beijados. Céus, eu estou despencando em um abismo
chamado Bruno Alcântara, não consigo parar de encará-lo.
O homem prendeu os olhos castanhos na minha boca.
— Você tem razão, o desejo nos move.
Eu não deveria ter bebido várias doses de tequila, meu corpo está
queimando com a aproximação desse homem e não consigo afastá-lo, mesmo
sabendo que é errado.
Bruno Alcântara leu meus pensamentos, porque o homem me segurou
com força nos seus braços, enfiando os dedos nos meus cachos.
— Linda; — roçou seus lábios nos meus. Desmoronei,
completamente seduzida por ele. — Você é um anjo travesso, mas
infelizmente eu sou um castigo do Diabo.
Eu não consegui responder, porque Bruno Alcântara grudou nossos
lábios com urgência.
Bruno não era paciente, era um homem devastador. A sua boca era
possessiva e muito saborosa, sinto o gosto do uísque que acabou aumentando
o calor do meu corpo. Ele não parou o beijo, provando-me com veemência. A
sua língua choca-se contra a minha em uma dança sensual e avassaladora.
Não consigo me controlar, agradeço as músicas eletrônicas do
estabelecimento que abafava meus gemidos prazerosos. Estou perdendo a
minha lucidez e não me importo, só quero sentir a boca do Bruno, as suas
mãos fortes e excitantes que estão estimulando e sentindo meu corpo.
Há anos não tenho um momento tão eletrizante, um amasso de fazer a
minha calcinha encharcar. Bruno tem uma masculinidade enlouquecedora
que prende as mulheres, eu não consigo soltá-lo.
Eu quero mais!
Não quero apenas desvendar os seus traumas, mas também os seus
desejos mais sacanas. Afinal, ele está com uma ereção de tornar até mesmo as
santas pecadoras.
Nosso momento estava perfeito, Bruno beijava-me com tamanha
cobiça que pensei que o mundo pertencesse a nós. E naquele instante senti
que nossa ligação nasceu em outras vidas. Mas um perfume de rosas
impregnou no Império Bar, abalando o meu desejo. Quando me afasto do
Bruno, completamente sem fôlego e tentando me estabilizar novamente, a
vejo parada há poucos passos de distância... O espírito da garota!
Ela mantinha um sorriso radiante no rosto, com os olhos brilhando de
felicidade.
— Oh Deus, não acredito. — Lamuriei.
— Nem eu, esse beijo foi…
— Desculpa, eu não posso. — Interfiro, empurrando o Bruno para
afastar totalmente nossos corpos. Eu devo ajudá-lo e não dormir com esse
homem, ele está quebrado e precisando de ajuda. — Sinto muito, é errado.
As lágrimas chegaram sem a minha permissão. Estou envergonhada e
com medo, não é legal sair correndo feito uma louca. A minha atitude só
aumenta as desconfianças do Bruno Alcântara sobre minha sanidade. No
entanto, esse meu dom sempre está interferindo em minha vida em momentos
importantes e especiais. E se eu não fosse uma médium? Eu poderia ter uma
noite de amor memorável com um homem espetacular. Eu poderia por um
momento não me sentir culpada por estar desejando um homem que necessita
da minha ajuda mediúnica.

*Música: What Is Love.


O ADVOGADO DO DIABO
11

Angélica Amaral saiu correndo dos meus braços, a mulher


inesperadamente começou a chorar após o nosso beijo. Eu poderia pensar que
nosso amasso na pista de dança foi um verdadeiro fracasso, mas ainda
consigo sentir o gosto dela na minha boca, consigo sentir o seu corpo
derretendo nos meus braços e não consigo me esquecer das suas unhas
arranhando os meus bíceps.
Ela estava excitada. Puta que pariu, meu pau está quase explodindo na
calça.
Eu quero comer essa mulher.
Angélica está enlouquecendo a minha cabeça. A única mulher que um
dia desejei tão intensamente destruiu a minha vida, não confio nas pessoas ao
meu redor e nunca me arrisco. Conheço a crueldade, as mentiras e as mentes
doentes das pessoas, desacreditar na bondade e no amor é fácil quando você é
enganado e também trabalha no ramo criminalista. Tenho todos os motivos
do mundo para não a seguir, mas hoje não estou no meu normal, essa é única
resposta plausível para meu comportamento neste momento, porque estou
correndo atrás de uma esquizofrênica.
Eu a perdi no meio da multidão do Império Bar, pensei em procurá-la
no banheiro feminino. No entanto, a minha intuição está gritando para correr
até o estacionamento do bar e não perdi mais tempo. Angélica precisa ter uma
ótima explicação para o seu comportamento, porque me recuso acreditar que
ela não sentiu nada quando me beijou.
Por pura ironia do destino, encontrei a Angélica próxima da minha
picape. Era notório que a mulher estava transtornada, ela esbravejava olhando
para tela do próprio celular.
— Angélica?
Ela sobressaltou, arregalando os olhos na minha direção. Aproximo-
me da mulher com cautela, ela pode estar em meio a uma crise. Pessoas
esquizofrênicas têm surtos psicóticos muito agressivos.
— Bruno, eu sinto muito. A nossa noite estava ótima, mas surgiu um
imprevisto. Eu queria ficar e aproveitar cada momento ao seu lado, mas não
posso! — Ela disparou várias palavras sem parar, até perder o fôlego.
— Mulher, qual é o problema? Você estava excitada…
— Ela está aqui; — alterou a voz. — A garota das rosas-amarelas.
Novamente fiquei cego, uma onda enfurecida circulou o meu corpo,
deixando-me totalmente descontrolado.
Não ouse falar dela.
Não quero uma desconhecida falando da garotinha que mais amei, da
garotinha que levou embora o pouco que restava do meu coração.
— Você acha isso certo? Pesquisar sobre a minha vida e usar a morte
de uma criança para me desequilibrar?
— Bruno…
— Você é a mulher mais nojenta e asquerosa que conheci. É cruel e
baixa; — Eu queria machucá-la também, queria que ela sentisse um terço da
minha dor. — Foda-se, eu só pretendia te comer mesmo. Vai para o inferno!
Viro-me, evitando pensar na minha irmã. Ignorando as explicações da
mulher. O meu plano era beber e ganhar uma boa ressaca de brinde, vou me
concentrar na intenção de ficar bêbado até me esquecer de cada sensação
dela, até me esquecer da sua boca macia e de como seu corpo reagiu ao meu
toque.
Quando estou entrando novamente no bar, esbarro em um grupo de
quatro homens, um deles empurra-me com agressividade.
— Perdeu a noção, maluco?
Eu poderia descontar a minha raiva nesses filhos de uma puta, usar
minha pistola glock que está guardada em uma gaveta embaixo do banco do
motorista, mas a minha raiva foi reprimida quando encontrei o Carlos, meu
amigo rapidamente percebeu que o tempo estava fechando.
— Calma, rapaziada. — Disse Carlos, tentando tranquilizar. —
Estamos apenas curtindo a noite, esbarrões sempre acontecem em lugares
lotados.
— Você está marcado, cara. — um deles aponta para mim, típico
playboy que quando fica bêbado encontra coragem até para enfrentar o
próprio Diabo.
— Vamos; — Carlos empurra-me para longe do grupo. — Qual é o
problema, Bruno? Você estava quase esmurrando o rosto do cara.
— Aquela vadia; — digo com os dentes cerrados. — Angélica
Amaral, ela pesquisou sobre a minha vida. A mulher descobriu que minha
irmã está morta, e está usando a Sofía para me desequilibrar.
— Não posso acreditar; — paramos próximo do bar. — A mulher
com rostinho de anjo e com corpo sensual de uma súcubo?
— Exatamente, meu plano era levá-la para a cama, trepar com ela até
sua buceta ficar dolorida, mas Angélica insiste na mesma conversa…
— Na mesma conversa? — Carlos interrompa-me, confuso com as
minhas respostas sem contexto. Faço o possível para controlar minha raiva,
para conseguir conversar e explicar a história.
No bar peço mais uma dose de uísque para acalmar meu nervosismo.
— Vou explicar como conheci Angélica Amaral.
O Bartender nos serviu.
Carlos ficou bastante interessado no meu relato, ele ignorou
completamente o copo de bebida enquanto ouvia a história do Thomas e da
sua funcionária com problemas psiquiátricos. Eu não quero me estender na
conversa, o processo do Thomas é sigiloso e mesmo referindo-se a um amigo
de longa data não é profissional e adequado ficar revelando processos
particulares. Carlos conhece o temperamento difícil do Thomas, sabe que o
homem às vezes extrapola, mas tratando-se da Angélica Amaral acredito que
nada é exagero da parte dele, ela é realmente doente.
Quando peguei o copo de uísque novamente, meu corpo inteiro ficou
inerte. Eu não sabia como reagir o que acabei de ver, dentro do copo havia
várias pétalas de rosa-amarela e também em cima do balcão. O Bartender
pegou um pano e começou a limpar o balcão esbravejando palavrões.
— Bruno… — Carlos franziu as sobrancelhas, percebendo a
quantidade assustadora de pétalas de rosas. — Que porra é essa? Como essas
pétalas surgiram aqui?
Uma sensação aterrorizante fez todos os pelos do meu braço eriçar.
Eu não sabia desvendar o medo horrendo que percorreu meu corpo.
Olhei em direção da porta, recordando-me do grupo de homens que
esbarrei quando estava entrando novamente no Império Bar, um desespero
dominou os meus pensamentos e depois… Angélica Amaral está sozinha no
estacionamento!
— Inferno…
Corri para fora do bar, com Carlos gritando no meu encalço.
Por favor, esteja bem!
Minha mente virou uma névoa de puro horror, eu só conseguia pensar
na mulher que deixei sozinha e indefesa. No momento que entrei no
estacionamento vejo uma imagem que não vai sair da minha cabeça tão
facilmente.
Angélica Amaral estava caída no chão, com um dos Playboys em
cima dela, rindo da situação deprimente da mulher. Angélica debatia-se.
Tentando lutar contra o infeliz, enquanto seus amigos gravavam com os
celulares e riam da situação.
— Caralho; — Carlos Resfolegou. — Que bando de filhos de uma
puta.
— Carlos, ligue para a polícia.
Um véu cegou qualquer razão que eu poderia ter neste momento. Eu
apenas corri até minha picape, com uma agilidade impressionante abro a
porta e pego a pistola.
— SOLTEM ELA! — Gritei.
Os rapazes olham-me alarmados, eles estão tão bêbados que nem
notaram minha aproximação.
— Não se intrometa, cara. Só queremos uma fotinha dos peitinhos
durinhos dela.
Apontei a pistola na cabeça do infeliz. O cara pulou de cima da
Angélica, cambaleando para trás.
— Calma, foi mal. Só estávamos brincando; — falou um deles, mirei
a pistola na sua direção. — Qual é? Não queremos problemas…
Um deles correu, depois o outro.
— Estou chamando a polícia; — Disse Carlos, parando ao meu lado.
— Bruno, largue essa arma. — Meu corpo inteiro estava tremendo de raiva.
Carlos segurou no meu pulso. — Não é necessário, meu amigo. E vocês dois
saiam daqui!
Os playboys correram, tropeçando nas próprias pernas. Um deles caiu
no chão, rastejando de bêbado.
Guardei a arma no cós da minha calça jeans, ainda travada.
— Que inferno. Carlos, Preciso do seu blazer. — Ele assentiu, tirando
o blazer e entregando-me. Com cuidado amparei Angélica que estava caída
no chão completamente em choque. — Angélica? — A mulher sobressaltou,
levantando aquele olhar amedrontado para me encarar. — Está tudo bem,
vista o blazer.
— Bruno? — Ela choramingou, segurando com firmeza no meu
braço. — Como…
— Shhh, você está com o vestido rasgado, é melhor vestir o blazer, a
polícia pode chegar a qualquer momento.
Com cuidado a levantei do chão, Angélica não tinha firmeza nas
próprias pernas, precisei segurá-la com força para não cair novamente.
— Eles machucaram você?
Ela negou com a cabeça, apoiando o seu corpo no meu.
Cacete!
A mulher estava trêmula e muito gelada.
— Eu quero ir embora. — Sussurrou, fungando o nariz.
— É aconselhável esperar a polícia chegar, você precisa denunciar
esses abusadores. — Carlos observou Angélica com pesar, até mesmo meu
amigo que é um canalha ficou sensibilizado com a cena que presenciamos
hoje.
— Não, eu quero ir embora. Tomar um banho e tirar esse cheiro de
bêbado do meu corpo. Ele lambeu o meu rosto, estou quase pelada.
A segurei com mais força nos meus braços, não compreendendo essa
necessidade de proteção.
— Carlos…
Meu amigo imediatamente entendeu o recado, porque não me deixou
terminar a frase:
— Pode levá-la, eu vou esperar a polícia chegar. Não se preocupe,
mas amanhã ela precisa procurar uma delegacia e denunciar.
— O Império Bar tem câmeras de segurança, precisamos de uma
requisição.
— Deixe isso comigo, leve a mulher para casa. Ela não para de
tremer.
Concordei, guiando a Angélica até minha picape. Eu ainda estava
sentindo a adrenalina no meu corpo, a minha cabeça pode explodir a qualquer
momento de puro nervosismo.
Angélica quase foi estuprada no estacionamento do Império Bar, se as
pétalas de rosas não surgissem… Maldição!
Esmurrei a porta da picape fazendo a mulher sobressaltar, não queria
assustá-la. No entanto, é difícil deixar de lado a minha culpa.
— Eu posso chamar um táxi. — Diz com um semblante assustado.
— Por que você não foi embora? Por que não requisitou um Uber?
Vê-la sem aquele brilho fascinante e contagiante está me torturando.
— Eu… Eu estava conversando com a Karen por ligação, meu plano
era encontrá-la em um restaurante aqui perto, mas fui surpreendida e…
— Chega, entre na picape. Você está segura agora, Carlos vai passar
todas as informações para os policiais e amanhã vou acompanhá-la até a
delegacia.
Para minha surpresa e também alívio, Angélica não protestou. Ela
apenas entrou na picape, sentou no banco e prendeu o cinto de segurança.
Bom, tudo que ela precisa no momento é de uma ótima noite de sono.
Respeitei o silêncio da mulher, não tentei iniciar uma conversa. Eu consigo
imaginar o medo e desespero que ela enfrentou. Infelizmente, tenho uma
grande porcentagem de culpa, se eu não fosse um filho da puta amargurado
nunca teria deixado a Angélica sozinha no estacionamento.
Esmurrei o volante várias vezes, esquecendo-me da minha convidada.
— Você sempre esmurra as coisas quando fica com raiva? — Ela
forçou um sorriso, lutando para disfarçar o medo que ainda sente.
— Não, eu só não consigo esquecer a cena que presenciei. Sinto
muito por tudo, principalmente por deixá-la sozinha.
Angélica soluçou quando as lágrimas voltam a cair.
— Você me salvou. Está tudo bem; — limpa as lágrimas com o dorso
da mão. — Eu vou ficar bem.
— Você vai, vou me certificar disso!
Ela assentiu, apoiando a cabeça no vidro. Angélica fechou os olhos e
permaneceu calada o resto do trajeto.
ANJO CELESTIAL
12

Acordei no sábado com olheiras gigantescas e com dores nas costas.


Quando aquele homem abusador me derrubou no chão com uma rasteira
rápida, acabei batendo com força as minhas costas no chão. Tenho certeza
que logo vai surgir um hematoma horrível, a minha pele é muito sensível e
qualquer esbarrão fica marcado.
Cheguei em casa exatamente uma e meia da manhã. Bruno me deixou
em frente ao portão da minha casa, ele se certificou de várias formas se eu
estava realmente bem. Foi apenas um susto dos grandes, sou uma mulher de
26 anos que cresceu em São Paulo, conheço os perigos que podemos
encontrar de madrugada em um estacionamento deserto. Bruno sentiu-se
responsável pelo ataque dos abusadores, mas também tenho a minha
porcentagem de culpa. Quando Bruno Alcântara me deixou sozinha no
estacionamento, eu não deveria ficar parada como uma presa fácil esperando
os ataques dos lobos. Eu escolhi ligar para minha amiga buscando um
conselho. Bom, eu estava confusa, chateada e ainda sentia o tesão em cada
centímetro da minha pele, e não podemos esquecer o espírito da garota que
tornou a minha noite com Bruno Alcântara um verdadeiro caos.
Após um banho demorado e relaxante vou até à cozinha, tomar um
bom café da manhã.
Afinal, ainda são dez horas.
Minha priminha estava importunando a tia Fani (como sempre), nos
sábados e domingos ela aproveita a oportunidade para usufruir de cada
momento com a mãe. Ela chama-se Valentina, uma garotinha muito
inteligente que estuda em um colégio particular, com um turno cansativo.
Valentina entra às sete horas da manhã, chegando em casa apenas às cinco
horas da tarde. Os estudos, as aulas de língua estrangeira e natação são pagos
pelo pai, um homem que tem um estilo de vida caríssimo no Rio de Janeiro.
— Estou falando, mamãe. Tem uma nave alienígena estacionada na
frente de casa. — Cruza os bracinhos.
— Menina, você vai parar de assistir desenhos no YouTube. Estou
alertando, vou colocá-la de castigo.
— Bom Dia, Família. — Cumprimento, começando a vasculhar os
armários atrás de comida.
— Bom Dia, nossa Anjinha. Como está se sentindo?
— Um pouco dolorida, minha noite foi conturbada.
A minha tia mudou completamente a sua fisionomia, uma ruga de
preocupação vincou na sua testa.
— O que aconteceu? — Ela não disfarçou o tom aflito.
— É uma longa história, preciso ingerir algum alimento por primeiro.
Ela imediatamente começou arrumar a mesa, colocando os cestos de
pães caseiros, pegando manteiga e patê de frango na geladeira.
— Angélica, tem uma nave alienígena estacionada na frente da nossa
casa. — Insistiu Valentina. — Eu juro, juradinho.
— Uma nave? Igual dos Mib-Homens de Preto? — Indaguei,
arrancando um riso divertido da minha priminha.
— Igualzinha, vem ver… — Ela segura na minha mão, puxando-
me…
— Valentina Amaral, já falamos sobre essas histórias de alienígenas.
Você tem medo e não dorme de noite e faz xixi na cama.
— Mamãe malvada, eu não faço xixi na cama.
— Tudo bem, tia Fani. Eu quero ver a nave alienígena.
— Ebaaaa. — Valentina pulou de alegria. — É incrível, você vai
amar.
Minha prima me guiou até a sala, escancarando as cortinas da janela e
abrindo os vitros.
— Veja Angélica, a nave alienígena… — ela apontou com o dedinho.
— Eles querem abduzir a nossa família.
Céus!
Eu quase tombei para trás, rezando para uma nave alienígena me
abduzir mesmo. Não era uma nave, era a picape gigantesca do Bruno
Alcântara. A bela caminhonete estava estacionada na frente da minha casa,
tenho certeza que meu queixo caiu até os pés neste exato momento, estou
completamente boquiaberta com tudo.
— É impossível…
— Eu reconheço essa picape da Mercedes-Benz até mesmo na
Muralha da China; — Minha tia Fani correu até a porta. — Não podemos
deixá-lo lá fora.
— Tia Fani, por favor. Não, eu só preciso tomar um café da manhã
com total sossego, você não imagina o que me aconteceu…
— Você pode me contar quando nosso convidado entrar.
Ela abriu a porta.
Oh Deus, eu nunca consigo discutir com ela. Tia Fani é o tipo de
pessoa que quando encasqueta com alguma coisa devemos sair da frente,
porque ela atropela sem piedade para provar que está completamente certa. E
tenho certeza absoluta que a tia Fani colocou dentro da sua caixola que o
Bruno Alcântara é meu novo affair.
Sem escolhas acabo seguindo minha tia para fora da casa, Valentina
nos segue com certo receio, ela acredita fielmente que a picape esplendorosa
é uma nave espacial.
— Será que ele está passeando no bairro? — Ela indagou, quase
sussurrando quando me aproximei da picape.
Ergui os ombros, lutando para não demonstrar meu nervosismo.
Minha tia olhava para todos os lados, procurando o homem que desapareceu
do mapa. Será que ele sofreu um acidente ou foi assaltado?
— INÊS! — O grito da minha tia assustou até mesmo os espíritos que
vagam na terra.
— FALE FANI. — Respondeu nossa vizinha aos berros também.
Misericórdia!
Por que a minha tia é tão escandalosa? Bom, mesmo com todos os
seus defeitos inconvenientes, eu a amo intensamente.
— VOCÊ NÃO VIU UM MOÇO BONITÃO IGUAL O
RODRIGÃO, PASSEANDO NA RUA?
— VI NÃO…
Neste instante a janela da picape começou a descer.
Meu coração disparou como se estivesse fazendo parte de uma
maratona.
Bruno Alcântara estava dentro da picape esse tempo todo? Abro
minha boca, mas as palavras não saem.
O homem passou a mão no rosto inchado, coçando os olhos. Ele
bocejou, espreguiçando-se em seguida.
— Bom dia, Anja.
Não, não é possível.
— Você passou a madrugada dormindo dentro da picape? —
Interpelo altiva.
— Eu queria me certificar se você ficaria bem. — Explicou, abrindo a
porta da caminhonete.
Eu não soube o que dizer, fiquei totalmente impressionada.
— Você dormiu dentro da picape; — Minha tia entrou na minha
frente. — Com certeza está precisando de um banho quente para relaxar os
músculos.
O homem arregalou os olhos na minha direção, como se pedisse
ajuda.
— Tia Fani, por favor…
— Não quero ouvir desculpas e pretextos, Bruno é um convite e não
está em condições de recusar, você passou a madrugada inteira dormindo
dentro da picape em frente à minha casa, acho que mereço algumas
explicações. — Ela lança um sorriso acolhedor, mantendo o olhar carinhoso
de sempre. — Angélica, pode convidá-lo.
O olhar carinhoso transforma-se em uma expressão predadora quando
minha tia vira-se na minha direção. Não posso dispensá-lo, depois do homem
dormir aqui fora com total desconforto e mal acomodado dentro da picape só
para certificar se eu estava bem.
— Minha tia tem razão, acredito que um banho quente vai ajudá-lo e
um ótimo café da manhã também.
Bruno Alcântara tem uma beleza incomparável quando acorda, ele
fica com os olhos levemente puxadinhos por causa do inchaço, mas não tinha
um sinal de olheiras. Diferente da minha aparência, eu acordei pedindo
misericórdia a Deus. A minha aparência está péssima, depois da noite
estressante.
— Eu realmente não quero incomodar, só queria me certificar se a
Angélica ficaria bem mesmo. Agora…
— Que besteira; — Tia Fani enganchou seu braço no dele, deslizando
a mão livre no bíceps fortes. A Safada aproveitou a oportunidade. — Um café
vai ajudá-lo a contar o que aconteceu ontem, quero saber cada detalhe.
Sinto muito Bruno Alcântara. Você acabou de conhecer a mulher
mais insistente da face da terra.
Tia Fani arrastou o advogado do Diabo para dentro da nossa casa.
Eu sabia que tudo mudaria, mas não imaginei o impacto estrondoso
que teria na minha vida.
O ADVOGADO DO DIABO
13

(Há quatro anos)

Fazer uma boa gestão do meu tempo não está sendo uma tarefa fácil.
Infelizmente, o dia a dia de um advogado é bem corrido, principalmente um
advogado que está inaugurando a sua primeira agência de advocacia. Eu
estou lutando para dividir meu tempo sem acabar exausto mentalmente.
Não é fácil atender os clientes, estudar os processos, participar das
audiências, comparecer nas reuniões, congressos, gerenciar mais dois
escritórios associados e ainda ser um bom marido e um bom pai. Amo minha
profissão, mas também amo minha família. Felizmente, não sou um cara que
esquece de datas comemorativas, amanhã estou completando nove anos com
minha esposa. Quando ouvi o tão esperado “sim” no altar, a minha vida
ganhou um novo sentido.
— Senhor Alcântara; — Minha Assistente adentrou no meu
escritório. — Jonas vai se atrasar para a reunião, infelizmente o voo está
atrasado.
— Certo, posso aguardá-lo. Só preciso ligar para minha esposa.
A minha assistente fechou o sorriso, mudando sua fisionomia alegre.
Há algum tempo tenho notado o interesse dela. É uma mulher belíssima, com
atrativos que chama atenção de qualquer homem. Principalmente os cachos,
sempre achei os cabelos cacheados exuberantes. A minha assistente tem uma
aparência que admiro. No entanto, sou bem casado. Francinny é uma esposa
incrível, nunca passou por minha cabeça traí-la com outras mulheres.
— Sim Senhor! — Ela saiu do meu escritório, cabisbaixa.
Minha assistente não é o tipo de mulher que esconde seus desejos,
suas paixões e sonhos. Ela é bastante transparente, é fácil desvendar uma
mulher com essa característica. Tenho certeza que logo vou precisar contratar
outra funcionária, ela não vai ficar trabalhando no meu escritório por muito
tempo, minha assistente está abalada emocionalmente. Penso que não é
adequado se apaixonar pelo próprio chefe ou por qualquer colega de trabalho,
mas tem certos sentimentos que não controlamos.
Disquei o número da minha esposa, a ligação é atendida de imediato.
— Bruno, meu amor. Eu estava pensando em você. — Disse um
pouco ofegante.
— Estava correndo na esteira?
Ela riu alegremente do outro lado da linha.
— É claro, sempre em forma.
— Fran, estou ligando para avisar que vou me atrasar um pouco.
Poderia buscar a Sofía na escola?
Ela fica em silêncio por alguns segundos.
— Amor, vou dar um jeitinho. Eu tenho um compromisso no
consultório daqui a pouco.
— Um compromisso?
— Lembra-se do garoto com transtornos, chamado Felipe?
Felipe era um dos pacientes da minha esposa. Era um rapaz jovem
com transtornos psiquiátricos. Francinny tem tratado dos sintomas
depressivos do rapaz, ajudando muito na sua melhora.
— Lembro sim, amor. Não se preocupe, está tudo bem. Eu dou um
jeito, posso buscá-la.
— Muito obrigada, você é o melhor marido do mundo. Eu te amo,
tchau.
— Eu te amo, estou com saudade. Amanhã…
Ela desligou a chamada ou acabou caindo a ligação. Fran está sempre
reclamando que o celular está travando. É isso… Talvez um celular novo vai
melhorar o nosso dia amanhã.
Vou fazer uma pesquisa na Internet e…
— Senhor Alcântara, uma ligação no ramal dois. É importante! —
Disse minha assistente com uma expressão aflita.
Sem questionar atendi a ligação.
— Alô, Bruno Alcântara.
— Senhor Bruno, aqui é a diretora da Escola Sagrado Coração. Sofía
teve um pequeno probleminha.
Imediatamente fiquei de pé, pegando a chave do meu carro e minha
carteira.
— O que aconteceu?
— Ela não quer…
— PELO AMOR DE DEUS. O QUE ACONTECEU COM A
MINHA IRMÃ?
Por favor, não faça “suspense” quando o assunto é minha irmã. Eu me
transformo em um predador para protegê-la.
— Sofía ficou mocinha, ela está menstruada e gostaria de ir embora.
Infelizmente, a sua calça jeans ficou manchada.
Meu coração diminuiu a pulsação, fiquei mais aliviado com a notícia.
A menstruação é uma coisa normal para todas as mulheres. Sofía tem 11
anos, já estava na hora de acontecer a primeira menstruação.
— Certo, chego em 20 minutos; — Desliguei a chamada. — Eduarda
pode remarcar minha reunião com o Jonas, surgiu um imprevisto.
A minha assistente concordou com a cabeça, pronta para exercer sua
função com perfeição, só para receber um elogio da minha parte e ser notada.
Quando você cria uma menina como se fosse sua própria filha, você
aprende a entender as mulheres. Consigo identificar um olhar ansioso, um
gesto inseguro e um comportamento diferente da Sofía. Eu sei até mesmo
quando uma gripe está prestes a chegar, é uma intuição que gradualmente fui
adquirindo.
Eu faço o possível para Sofía se sentir amada e segura, esqueço-me do
trabalho ou da minha própria vida só para ampará-la. Nossa relação é
amigável, mas a Sofía chegou naquela fase crítica da pré-adolescência. O seu
corpo está mudando, as mudanças estão a cada dia mais visíveis e são nesses
momentos que não sei como agir. A minha sorte chama-se "Francinny", ela
sempre estará ao meu lado, a minha esposa ama a Sofía com todo coração e
são ótimas amigas. É a mãe que minha irmã nunca teve, sou extremamente
grato por tudo que a Francinny fez e ainda faz por nós.

Sofía estava muito envergonhada, ela praticamente me ignorou


quando cheguei na Escola. Entreguei meu blazer para minha irmã amarrar na
cintura e diminuir um pouco o constrangimento. Ela apenas falou comigo
quando estacionei meu carro no estacionamento de uma drogaria.
— Bruno, qual é o problema? — encara-me alarmada.
— Você precisa de absorventes. Eu vou comprar…
— NÃO! — Gritou. — Você não vai entrar na drogaria comprar
absorventes, por favor. Estou com uma bandeira do Japão na bunda, meus
colegas estão me chamando de Miss Menstruação.
— Sofía, meu amor. A menstruação faz parte da vida de uma mulher.
É comum e normal.
— Não, não é normal ficar menstruada na Escola quando você está
usando uma calça jeans na cor branca, isso é puro azar. Meus amigos já
implicam com a minha marquinha no braço, agora minha menstruação é
assunto no colégio inteiro. — Diz com os olhos lacrimejando.
— A sua marquinha é linda, é igual da apresentadora Angélica.
Sofía nasceu com uma pinta no braço, próxima do ombro.
— Bruno, da apresentadora Angélica é na coxa. É sexy e bonita, a
minha é algo estranho.
Quando foi que ela ficou tão difícil e pessimista?
A Sofía é linda, uma garotinha perfeita. A cor dos seus olhos são
como duas gotas de ouro, um castanho-dourado fascinante. E o cabelo é
belíssimo também, ela está se desenvolvendo muito rápido.
— Você gostaria de comprar os absorventes com a Francinny?
— Por favor; — limpou as lágrimas. — É mais fácil falar sobre
menstruação com uma mulher, Bruno.
Soltei um riso.
— Eu compreendo! Bom, para melhorar o humor da minha
irmãzinha, acho que vou pedir uma pizza gigante de mussarela.
— Ela vai ficar muito feliz, tenho certeza. — Sofía sorriu.
Quando as pessoas que amo estão felizes, é como apreciar uma
paisagem do próprio paraíso.
— Ótimo, vamos para casa.
Há meses Sofía não tem notícia dos pais biológicos. Eu não faço
muita questão da participação da minha mãe em nossas vidas. Ela é uma
mulher fútil e amargurada, procura a filha só quando lhe convém. E meu pai?
O homem só pensa no Império Alcântara e nas nossas empresas. Sofía não
tem o costume de chamá-lo de pai, mas usa a palavra “mãe” quando se refere
a Valéria Alcântara.
Ela tinha o costume de me chamar de “pai”, mas tudo mudou quando
a nossa mãe abriu a boca para explicar que éramos irmãos. Ela tinha 7 anos
quando Dona Valéria decidiu traumatizar a criança dizendo que ela não tinha
um “pai” de verdade.
Deixei meu carro estacionado na frente do prédio. Tenho certeza que
a Francinny está no consultório cuidando do paciente com transtornos e daqui
a pouco vou ter que sair novamente para comprar os absorventes. Minha
esposa usa aqueles absorventes internos e bizarros, que não é adequado para
uma menina de 11 anos.
— Boa tarde, Davi. — Sofía cumprimentou o porteiro, sorridente e
animada, mas o homem não retribuiu o sorriso costumeiro. Ele apenas
abaixou a cabeça, desviando o olhar.
Minha irmã encara-me com um semblante pasmado, também não
entendi o comportamento do Davi. Ele é um funcionário amistoso, sempre
sorrindo e alegre. Enfim, acredito que não está nos seus melhores dias, todas
as pessoas enfrentam tribulações, até mesmo aquelas que estão sempre
sorrindo.
Entramos no elevador, Davi continuava estranho quando as portas se
fecharam.
— Uau. Qual é o problema dele? Será que alguém da família morreu?
— Indagou Sofía, com o belo rostinho cheio de dúvidas.
— Não, ninguém morreu. Ele pode estar enfrentando um dia ruim. É
comum, dias ruins na vida dos adultos.
Ela assentiu, ainda encasquetada com o comportamento do porteiro.
— Podemos fazer uma caixinha do amor para ele. — Diz, alegrando-
se novamente. — Colocar dentro de uma caixa várias guloseimas, chocolates
e doces, para melhorar o humor do Davi.
Gargalhei, essa garotinha é formidável.
— Boa ideia, vamos fazer uma caixinha do amor.
Sofía pulou de alegria, festejando com a minha resposta.
Chegamos no nosso andar, Sofía não parava de falar da caixinha do
amor. Ela também está pensando em comprar um livro, para o Davi passar o
seu tempo lendo histórias incríveis. É um dos pontos fortes da minha irmã.
Ela ama livros, tem a sua própria biblioteca com histórias adequadas para
uma garota na pré-adolescência.
Entramos no nosso apartamento, Sofía soltou um suspiro aliviada e…
— AAAAAAAH, ISSO! COM MAIS FORÇA!
Minha irmã arregalou os olhos.
— Bruno?
Eu não consegui responder, porque meu sangue gelou nas veias.
— AAAAAAH LIPE, METE COM VONTADE.
Eu não sentia meu próprio corpo, só uma ondulação de puro
nervosismo e horror.
Os gemidos são da minha esposa e estão vindo do nosso quarto. Não
sei como cheguei até o corredor e flagrei a minha mulher de quatro na cama,
completamente nua. Havia um homem deslizando as mãos na bunda dela e
metendo com força...
ANJO CELESTIAL
14

Algumas pessoas não são inconvenientes por maldade. A minha tia é


uma mulher maravilhosa, com um coração generoso. O problema é sua
imaginação fértil e cheia de ideias. Quando a Dona Fani cria alguma situação
dentro da sua cabecinha, acontece episódios inéditos. Como, por exemplo:
Bruno Alcântara tomando banho no meu banheiro.
Eu não consigo controlar minha ansiedade, estou quase roendo as
minhas unhas (que são lindas e bem feitas), não sou uma mulher propícia a
encontros vulgares dentro do meu quarto. Tem uma criança de apenas 8 anos
morando nesta casa, tenho muito cuidado quando o assunto é relacionamento.
Não acho adequado permitir qualquer homem entrando na minha casa, mas
Bruno Alcântara tem uma energia magnética que acaba puxando-me na sua
direção. Talvez, seja nossa ligação de outras vidas ou minha necessidade de
ajudá-lo, eu não sei… Mas a cada segundo ao lado dele sinto-me mais presa e
mais fascinada.
A porta do banheiro é aberta.
Bruno saiu do banho com uma toalha enrolada na cintura e secando o
cabelo com a minha toalha de rosto.
Tenho que agradecer aos céus por estar sentada na minha cama nesse
exato momento, porque se eu estivesse de pé cairia dura no chão. O corpo do
homem é espetacular, músculos visíveis em cada centímetro do abdômen. A
pele morena está úmida, gotas de água escorriam do pescoço, passando pelo
peitoral forte e descendo…
— Angélica?
Busquei coragem para encarar o advogado do Diabo, controlando a
minha vontade de pular em cima dele e brincar de cavalgar até perder a
minha dignidade.
Molhei meus lábios com a língua, desviando meu olhar do corpo
seminu do homem.
— Posso ajudá-lo?
Bruno riu, meneando a cabeça.
Sinto meu rosto esquentando quando percebo o duplo sentido na
pergunta.
— Eu não quis dizer no sentido malicioso. — Tentei corrigir a minha
gafe. — Você precisa de alguma coisa?
— Vestir as minhas roupas. — Ele apontou para as roupas em cima
da minha cama. — Eu gostaria que você ficasse, mas acredito que…
— Não, eu vou sair.
Ele voltou a rir, desta vez um riso mais sem vergonha.
— Mas antes, eu queria me desculpar. A minha tia foi muito
inapropriada, eu não queria causar nenhuma situação embaraçosa. Sinto
muito.
Bruno ficou encarando meu perfil, seu sorriso maroto aos poucos foi
dissipando. Ele concordou com a cabeça, desviando o olhar para reparar no
meu quarto.
Engulo em seco, sentindo o clima no cômodo tornando-se mais
quente.
Bruno reparou bem na minha cama, depois na minha belíssima estante
de livros. O homem se aproximou, lendo os títulos de cada livro.
— Esses são os romances Espíritas? — pegou um exemplar,
cheirando as páginas em seguida.
Oh Céus!
Ele quer destruir meu coração?
Homens que cheiram as páginas dos livros só existem em filmes e
romances clichês. Bruno Alcântara é um homem sedutor, com uma aparência
exuberante e não tem um perfil peculiar. Ele é apenas mais um bilionário
charmoso que esbanja um ar superior.
Com receio aproximo-me, parando ao lado do melhor amigo do
Diabo. É meio cômico, mas sinto meu estômago embrulhar, como se tivesse
uma migração de pássaros aqui dentro.
— Sim, às três primeiras fileiras são Romances Espíritas; — peguei
meu livro preferido. — Você gosta de ler?
Bruno franziu o cenho, ainda com os olhos fixos nos títulos que
brilham na minha estante.
— Eu gostava, quando minha irmã era viva!
As palavras dele me atingiram como uma bala perdida diretamente no
meu coração.
— Eu sinto muito, Bruno.
O homem vira-se, fitando-me com um semblante entristecido.
— Todas as pessoas sentem, mas ninguém conhece a dor que sinto
todos os dias.
Um nó forma-se na minha garganta. Eu evito as lágrimas porque não
é um momento adequado para minha emoção aflorar.
— Você está errado… Quando falamos da nossa dor abertamente,
podemos encontrar pessoas que acabam se identificando instantaneamente
com nossos anseios e sofrimento. — Digo, recordando-me dos meus pais. —
Quando você fala da sua irmã, lembro dos meus pais e acabo sentindo a sua
dor; — era tarde demais, as lágrimas chegaram como uma chuva no verão. —
Eu sei exatamente o que você está sentindo. Não é fácil, mas a minha fé ajuda
a diminuir a saudade e a dor.
Bruno bufou, colocando o livro que estava segurando no seu devido
lugar.
— Angélica, eu quero vestir a minha roupa.
Concordo com a cabeça, limpando as lágrimas com as mãos.
— Vou deixá-lo à vontade! — Girei pelos calcanhares, caminhando
até a porta.
— Espere…
Parei no centro do quarto, sentindo meu coração enlouquecer.
— Eu sinto muito; — Bruno completou. — Você não deveria
enfrentar uma dor lastimável tão jovem.
Eu só posso estar completamente abalada emocionalmente ou perdi a
sanidade de fato, porque quando ouvi as palavras do Bruno com total
sinceridade e afeto, não consegui controlar minha vontade louca de beijá-lo.
Quando menos espero giro na sua direção novamente, aproximando-me com
determinação.
O homem ficou inerte com meu toque, não queria bancar a mulher
fútil e desesperada, mas meu coração está tão apertado.
Queria senti-lo.
Demonstrar que ainda existe algo bom dentro dele, um resquício de
amor e bondade.
Fiquei nas pontas dos pés, enlaçando o seu pescoço com os braços e
grudei os nossos lábios.
Ele retribuiu meu beijo com fúria e desejo, entrego-me com a mesma
intensidade, oferecendo tudo que tenho. Não senti receio ou insegurança, só
queria comprovar que sentir amor, desejo ou qualquer sentimento bom não é
errado. Os sentimentos são irresistíveis, não podemos fugir deles.
Ele deslizou as mãos no meu corpo, provando-me a cada toque, Bruno
tem uma pegada deliciosa. O homem sabe atiçar o corpo de uma mulher, ele é
atencioso com as mãos, saboreando as preliminares.
As suas mãos com cuidado percorrem as minhas costas, descendo até
a bunda. Ele apertou com força, acertando um tapa em seguida. Gemi quando
senti a minha bunda queimar com o tapa ousado…
— COM LICENÇA!
Santo Deus!
Sobressaltei com o susto.
Bruno afastou nossos corpos imediatamente, um pedacinho de gente
estava parada na porta, nos olhando com espanto.
— Angélicaaaa, você está beijando igual à moça da novela. —
Comentou Valentina, levando as mãozinhas até o rosto.
— Valentina… — Como reagir? Oh, essa pestinha sempre consegue
me deixar sem fala.
Bruno Alcântara puxa-me na frente do próprio corpo, com certeza
para esconder a ereção e também o corpo seminu.
— Ela está treinando, Angélica quer ser atriz igual à moça da novela.
— Explicou Bruno num tom animado.
— É sério? — Os olhinhos da minha prima cintilavam com
empolgação.
— É sério, mas você precisa contar a novidade para sua mãe. O que
acha?
— Sim, eu vou contar. ÔH MAMÃE… — Valentina saiu correndo do
quarto aos berros.
— Bruno, ela é impossível. Sinto muito!
Ele riu, beijando minha testa.
— Ela é uma criança muito inteligente, que não deveria assistir
novelas. Acho melhor vestir a minha roupa, antes que sua tia entre no quarto.
Concordei, rindo só de imaginar a situação.
— Ótimo, eu vou tentar controlar a empolgação da minha priminha.
Encontro você na cozinha!

Bruno não ficou incomodado com a tagarelice da minha tia ou com as


perguntas sobre espaço sideral, ou alienígenas da minha priminha. Ele até
mentiu dizendo que tinha presenciado uma nave alienígena quando era
criança, inventou uma história hilária sobre os alienígenas que entregavam
doces e balas para crianças obedientes. Valentina ficou encantada,
acreditando que os alienígenas não são maléficos. As crianças são fáceis de
manipular, essa inocência é admirável.
— Valentina é hiperativa, igual à prima. — Falou tia Fani, com um
sorriso orgulhoso no rosto. — Minha querida Angel é uma mulher fortíssima,
bondosa e muito bonita…
E lá vamos nós de novo!
Ela vai começar um discurso falando das minhas qualidades e depois
vai começar a contar dos meus relacionamentos desastrosos.
— … Ela é uma ótima cozinheira também, Angel faz bolos
deliciosos.
Bruno está controlando o riso, ele encara-me com um ar debochado.
— Infelizmente não tem sorte quando o assunto são homens…
Eu queria entrar embaixo da mesa.
— Tem certeza? Angélica é uma mulher decidida, que gosta de tomar
a iniciativa.
— Nem sempre, só quando estou inspirada. — Digo, com certa
provocação.
Bruno semicerrou os olhos, tamborilando os dedos na mesa.
— Inspirada?
Eu afirmei com a cabeça, bebericando meu café.
— Bom; — olhou na tela do celular. — Angélica, acho melhor você
trocar de roupa. Precisamos ir até à delegacia.
— Delegacia? — Minha tia ficou toda alarmada.
— Sim, Angélica sofreu uma tentativa de estupro ontem no
estacionamento do Império Bar.
Acho que minha tia vai ter uma parada cardíaca, a mulher
empalideceu na hora.
— Tia, calma. — Levanto-me, abanando seu rosto com um papel
toalha. — Eu estou bem, Bruno me salvou. Não fiquei machucada…
— Por que você não me contou? — Choramingou.
— Eu tentei…
— Você tentou? Ará, uma notícia dessas tem que contar de imediato,
Angel.
— Tudo bem, tia Fani. Eu vou denunciar, sem preocupações.
— É claro que vai; — minha tia fitou Bruno Alcântara com
admiração. — Muito obrigada por salvar minha sobrinha, não tenho palavras
para expressar minha gratidão.
Bruno sorriu, assentindo.
— Não precisa agradecer, era minha obrigação salvá-la.
— É melhor eu me arrumar, não vou demorar. Você espera alguns
minutinhos?
— Tudo bem, eu aguardo! — Respondeu Bruno, observando meu
pijama que uso geralmente em casa. Foi neste instante que percebi o quanto
estou ridícula.
Concentre-se Angélica, agora não é um momento para pensar na
roupa que está usando e sim, na oportunidade de ajudar Bruno Alcântara.
Quando corri até meu quarto para me arrumar, decidi pegar meu livro
preferido da Zibia Gasparetto e coloquei dentro da minha bolsa.
O ADVOGADO DO DIABO
15

Angélica fez um boletim de ocorrência, ela conversou com uma


delegada que vai iniciar as investigações. As provas e testemunhas estão do
nosso lado, qualquer conduta violenta deve ser denunciada pelas mulheres. O
silêncio não é aconselhável, elas devem denunciar e procurar a delegacia
mais próxima. Após uma manhã conturbada com relatos e procurando
vestígios dos culpados, decidimos almoçar em um restaurante comum.
Angélica estava eufórica, a mulher mantinha uma animação
admirável, mesmo sofrendo uma tentativa de estupro, ela não se deixou
abalar. Continua com as suas perguntas impertinentes e as conversas
descontraídas não cessam.
— Vou começar trabalhar na segunda-feira; — disse, segurando com
cuidado a bandeja com comida. — Estou muito animada, vou trabalhar em
um escritório de Advocacia.
Chegamos na mesa que escolhemos.
Angélica tem uma beleza impressionante, um sorriso que transmite o
encanto de um pôr do Sol. Uma mulher meiga, mas com um corpo sensual
que se destaca na multidão. Ela tem um jeitinho todo especial e único, um
ótimo gosto para vestuários também. Angélica optou por uma roupa mais
casual. Uma calça jeans clara, uma blusinha com detalhes azulados e um
clássico blazer branco. O problema está nos cachos, ela resolveu prendê-los,
deixando alguns fios caídos. Eu adoro o cabelo dela solto, com os cachos
volumosos e totalmente livres.
— Qual é nome do Escritório? — Indaguei, evitando devorá-la com
os olhos.
— Lummertz Advocacia!
O QUÊ?
Eu quase tombei para trás, mesmo sentado na cadeira. O destino com
certeza está brincando conosco. Lummertz Advocacia é minha associada,
sendo administrada por Carlos. Minha prioridade é a Lummertz Advocacia e
também meu próprio Escritório no centro da cidade, localizado em um
Edifício de alto Padrão.
— Você passou na entrevista?
Quem foi a irresponsável que contratou a mulher que desejo levar
para minha cama? O meu tesão só aumentou quando Angélica me beijou
inesperadamente dentro do próprio quarto. Eu pretendia trepar com ela, mas
aquela garotinha com um riso alegre acabou atrapalhando meus planos.
— Sim, minha entrevista foi ótima. Fiquei tão feliz, não posso ficar
sem trabalho. Ainda estou pagando as parcelas do meu carro.
— Maldição! — As palavras fogem da minha boca. Não posso
dispensá-la, Angélica necessita do emprego.
— Desculpa, eu falei alguma coisa errada?
— Não, eu apenas acabei lembrando de um imprevisto. Preciso visitar
um escritório associado que tenho investido muito nos últimos meses. —
Corrijo meu erro. — Não podemos demorar.
Ela concordou com a cabeça, olhando-me compenetrada.
— Posso chamar um Uber, não precisa se preocupar.
— Angélica, está tudo bem. Eu quero levá-la embora, depois penso
no meu compromisso.
— Ótimo, você acredita que a delegada vai conseguir encontrar os
culpados? — Pergunta-me num tom sereno.
— Creio que sim, com as imagens das câmeras de segurança do
Império Bar, podemos encontrar os culpados com os números das placas dos
carros; — Expliquei, recebendo total atenção da minha acompanhante. Eu
gosto da maneira como ela me olha, Angélica expressa muita verdade apenas
com um olhar, ela está relaxada e confortável com a minha presença. —
Agora é questão de tempo!
Angélica sorriu, desviando a sua atenção para a comida. Fiquei
reparando nas suas mãos, eram pequenas e com unhas bem feitas e bonitas.
Ela tem características que admiro em uma mulher, tem uma personalidade
fascinante e uma beleza incomparável.
— Você não vai comer? — gesticulou em direção do meu prato
repleto de comida.
— Eu vou, mas primeiro quero fazer uma pergunta, você me permite?
— Angélica franziu as sobrancelhas bem delineadas.
— É claro, pode me perguntar qualquer coisa!
Ela é uma pessoa muito diferente das quais estou acostumado a lidar.
Angélica é um ponto de equilíbrio, mesmo com seu jeitinho agitado e com
seus assuntos animados.
— Por que uma mulher como você está solteira?
A minha pergunta acabou pegando ambos desprevenidos. Não era
exatamente a pergunta que gostaria de fazer, minha curiosidade era mais
profissional. No entanto, estou surpreso com meu próprio comportamento. A
vida particular da Angélica não me interessa, meu único interesse é trepar
com ela e saciar o meu desejo.
Angélica pigarreou, bebendo um pouco do suco. Ela pensou por
alguns segundos antes de responder:
— Não sou uma mulher com sorte no amor; — sua voz saiu
cabisbaixa. — Tenho várias responsabilidades, comecei a trabalhar muito
nova, com 16 anos. Eu precisava ajudar a minha tia com as despesas da casa
e meus namorados não entendiam meus objetivos. Eles diziam que não tinha
muito tempo disponível ou que só pensava no trabalho; — ela ergueu os
ombros. — Reclamavam do sexo, eu sempre estava exausta para ficar horas
transando.
— Você começou a trabalhar com 16 anos? — É normal um
adolescente participar de estágios. No meu próprio Escritório contratamos
estagiários, com uma jornada de trabalho de no máximo quatro horas por dia.
Não prejudicando no desempenho escolar.
— Meu primeiro trabalho foi em um mercado, trabalhei como
operadora de caixa por dois anos. Não foram anos fáceis, mas consegui
aguentar e vencer. — Ela voltou a sorrir, como se o mundo fosse mais feliz
por causa do seu riso contagiante.
Às vezes é bom conhecer as histórias de outras pessoas para
compreender que cada uma tem seu conjunto de emoções, dificuldades e
alegrias. É preciso olhar com mais intensidade e não permitir que uma
primeira impressão transforme suas opiniões em julgamentos. Eu julguei
Angélica Amaral quando a conheci, a julguei de louca, doente e usei um
preconceito absurdo para esconder o óbvio: ela é uma mulher formidável.
— Angélica, apoiar uma namorada, esposa ou até mesmo uma colega,
é a maior prova de amor que demonstramos; — Digo, ainda sem entender
essa minha necessidade de consolá-la por relacionamentos que estão no
passado. — Só uma pessoa altruísta e compreensiva consegue apoiar os
sonhos e objetivos do parceiro. Quando alguém questiona seu tempo ou até
mesmo insiste em fazer sexo quando você está nitidamente cansada, não é
considerado digno do seu amor.
A mulher ficou me encarando, boquiaberta. Ganhando um brilho
diferente nos olhos verdes-claros. Ela molhou os lábios com a língua,
concordando com a cabeça.
— Você quer dizer que o amor é altruísta? — Indagou.
— Exatamente!
— Bruno, você tem noção do quanto é fascinante?
Acabei rindo.
É bom saber que ela me acha fascinante.
— Para ser honesto, você é a primeira mulher que me chama de
fascinante. Já ouvi outros elogios mais sacanas, mas não espero nada trivial
de você.
Angélica gargalhou.
— Bruno Alcântara, você precisa me conhecer melhor. — Diz,
pegando os papéis toalhas.
— Em qual sentido? — Provoquei.
— Você vai ter que descobrir!
Decidi guardar a minha resposta.
Angélica Amaral está mexendo comigo, de uma maneira que preciso
ser cauteloso. Eu só quero descobrir os seus desejos mais íntimos, transar
com ela até sua buceta arder e pretendo deixar seu corpo marcado com
chupões. Angélica sentirá meu toque até na alma, vou fazer a mulher lembrar
do meu pau a cada segundo do seu dia. Esse é meu plano e depois cada um
seguirá seu próprio caminho.
Sem conexões.
Sem sentimentos ou emoções.
É apenas sexo.
Deixei Angélica na sua casa após nosso almoço. Ela também me
contou um pouco da história da tia e da família, não queria me estender em
assuntos familiares. Quando ela começou a questionar sobre minha irmã e
parentes próximos, eu sugeri que fossemos embora. O trajeto até minha casa
foi tranquilo, não queria focar meus pensamentos na Angélica. Eu tinha
assuntos para resolver, principalmente na Lummertz Advocacia.
Estacionei minha picape no lugar costumeiro, em frente a Mansão.
Abri o porta-luvas para pegar minha carteira e também a chave eletrônica do
portão principal.
O meu corpo congelou quando vejo um livro da Zibia Gasparetto
dentro do Porta-Luvas.
Aquela mulher ardilosa!
Como ela colocou o livro aqui dentro? Eu teria percebido qualquer
movimento dela.
Angélica Amaral está me surpreendendo.
Balancei a cabeça descrente. Lendo o nome do livro: O Advogado de
Deus, ditado pelo espírito Lucius. Fiquei por longos minutos analisando o
título do livro e a capa, um aroma estranho de rosas impregnou dentro da
picape. Olhei para os lados um pouco confuso e bastante perturbado, por um
momento pensei em acreditar… não, é claro que não!
Angélica esqueceu o livro dentro da minha picape propositalmente,
mas por quê?
Não vou perder meu tempo lendo um romance sem fundamentos e
com crenças ridículas.
Deixei o livro no lugar que encontrei, amanhã vou devolvê-lo. Aurora
estava me aguardando na entrada da Mansão com uma carranca.
— Boa tarde, Aurora. Acordou com um ótimo humor! — Ironizei.
— Você tem visita; — Respondeu seca. — É uma das suas amantes.
— Como esperado, elas sempre aparecem nos finais de semana.
Estou precisando de uma boa gozada para esquecer um pouco aquela
mulher que invade os meus pensamentos sem permissão e principalmente
“abandona” livros no porta-luvas da minha picape.
Paula Crisóstomo estava me aguardando, sentada no sofá da sala,
usando apenas uma lingerie.
— Paula?
A mulher abriu um sorriso radiante.
— Meu amor, você demorou!
Paula Crisóstomo é uma das Advogadas que trabalham na Lummertz
Advocacia e também gerencia uma equipe jurídica experiente e de qualidade
na área contratual.
— Houve um imprevisto…
— O imprevisto foi a garota que sofreu uma tentativa de estupro no
estacionamento? Carlos me contou; — riu, meneando a cabeça. — Que
situação deprimente, com certeza ela estava bêbada.
— Ela não estava bêbada, Paula. E mesmo se tivesse, o álcool não é
desculpa para a violência sexual.
Ela suspirou fundo.
— Você pode ser um homem com um coração de gelo, mas tem
valores admiráveis.
— Chega de conversas desnecessárias, vamos para o meu quarto. —
Comentei, aproveitando uma boa distração nesta tarde.
ANJO CELESTIAL
16

Eu sou uma mulher muito responsável, mas às vezes surgem no meu


caminho alguns imprevistos. Hoje meu carro resolveu morrer, meu querido
carrinho popular não ligou o motor.
Comecei a minha segunda-feira bem!
Devo agradecer aos aplicativos de transporte. Cheguei no trabalho
com 20 minutos de antecedência, bastante aliviada.
Paula Crisóstomo estava me aguardando com um sorriso amistoso, ela
elogiou meu scarpin e meu terno feminino, depois começou as explicações:
— Vou apresentar cada área da Lummertz Advocacia. —
Caminhamos juntas, passando por várias salas. — O Escritório é dividido em
quatro andares, atuamos nas áreas: Aduaneiro e comércio Internacional,
licitações, contratos administrativos e regulação, contratos empresariais,
recuperação de empresas e falência, heranças familiares e ações trabalhistas.
Eu balanço a cabeça em compreensão, gravando na memória cada
área que foi citada.
— Nossa equipe é formada por profissionais com nomes prestigiados
e reconhecidos no mercado, advogados totalmente capacitados; — entramos
em um elevador. — Na Lummertz Advocacia priorizamos a qualidade no
atendimento aos clientes.
— Compreendo! — Falei um pouco apreensiva. Paula Crisóstomo
tem uma voz autoritária e também uma postura superior.
Honestamente? Ela não será uma chefe fácil.
Um grupo de homens entrou no elevador. Encolho-me no canto, não
quero atrapalhar, os homens estão participando de uma conversa carregada.
No entanto, uma voz familiar ganhou a minha atenção:
— Bom dia, Paula Crisóstomo.
Meu coração dispara, sinto as borboletas começando uma revoada no
meu estômago.
Não vou levantar meu olhar, continuei encarando o chão.
— Bom dia, Bruno Alcântara! — Respondeu num tom bem meloso.
— Não vai me apresentar a sua nova amiga?
Ai não!
Engulo em seco, encontrando coragem para levantar a minha cabeça.
Uma onda eletrizante percorreu meu corpo quando nosso olhar se encontra.
Bruno Alcântara estava aqui, dentro do elevador e simplesmente
deslumbrante.
As palavras ficam presas na minha garganta, porque a presença dele
era avassaladora. Bruno Alcântara é um anjo caído, só posso chegar a esta
conclusão.
— Ela chama-se Angélica Amaral. É a nova assistente do Carlos.
— Do Carlos? — Bruno franziu o cenho, voltando sua atenção no
meu perfil. Ele encarou meus lábios e depois analisou meu cabelo preso em
um coque formal.
As portas do elevador abrem-se novamente.
— Sim, do Carlos; — Paula forçou um sorriso amarelo, parecendo
intrigada. — Angélica, vamos…
— Claro; — Digo sem jeito. — Com licença!
Os homens com ternos elegantes abrem espaço, permitindo a minha
saída do elevador.
— Vou acompanhá-las. — Bruno nos alcançou, recebendo um olhar
duro da Paula.
— Bruno, não é necessário.
— Eu insisto, quero me assegurar do desenvolvimento dos negócios e
atividades de cada área. — Retorquiu com um semblante sereno.
— Posso garantir que o desenvolvimento de cada equipe…
— Paula Crisóstomo, você está esquecendo do seu lugar na Lummertz
Advocacia.
Paula empalideceu, ficando nitidamente incomodada com a resposta
do Bruno.
O clima ficou desagradável, uma tensão começou a transparecer entre
eles.
Paula Crisóstomo tem uma ótima aparência. Ela é uma mulher
exuberante que esbanja elegância, mas quando ela ficou com raiva do Bruno,
sinto uma energia pesada se revelando. Eu posso jurar que presenciei uma
sombra negra circulando o corpo da mulher.
Um calafrio percorreu minha espinha…
Calma, Angélica!
Eu só estou nervosa com meu novo emprego, encontrar o Bruno na
Lummertz Advocacia só aumentou meu nervosismo e minha ansiedade.
Respirei fundo, controlando meus anseios. É apenas tensão se acumulando
por causa do meu novo desafio: trabalhar em um escritório de Advocacia.
— Angélica, quero apresentar um dos fundadores da Lummertz
Advocacia; — Comentou áspera. — Bruno Alcântara!
— É um prazer conhecê-lo. — Esbanjei um sorriso radiante,
mantendo meu profissionalismo.
— Acredite, Srta. Angélica… O prazer será todo meu! — Bruno
aceitou meu cumprimento, ele apertou minha mão com um pouco de força.
Um calor assustador transitou no meu corpo, parando entre minhas pernas.
Oh Droga!
Bruno poderia reprimir o sorriso sem vergonha ou disfarçar, ele está
me encarando com desejo e cobiça.
Eu tenho várias perguntas neste momento, mas só consigo pensar na
onda de luxúria queimando minha pele. Bruno é um dos fundadores da
Lummertz Advocacia e tudo que aconteceu entre nós dois deverá ser mantido
em segredo. Não posso arriscar meu novo emprego, mesmo sentindo uma
atração assustadora por ele.
Paula Crisóstomo continuou suas apresentações, mas não conseguia
me concentrar. Bruno seguia calado no nosso encalço, só falava quando era
questionado por Paula.
— Você vai trabalhar na área de Ações trabalhistas, será uma das
assistentes do Carlos Solano. — Explicou Paula.
O nome não me surpreendeu. Quando estávamos no Império Bar,
Bruno me apresentou ao amigo e também sócio.
— Você vai trabalhar no terceiro andar; — por fim, Bruno Alcântara
decidiu falar. — Carlos é muito profissional quando está no escritório, não se
assuste com o comportamento hostil.
Concordo com a cabeça, seguimos até o terceiro andar, após Paula
ficar horas me apresentando as áreas que a Lummertz Advocacia atua no
mercado.
Os advogados e funcionários do escritório renomado eram calados e
compenetrados, muitos deles não notaram a nossa presença. E só percebiam a
nossa aproximação quando a Paula escolhia apresentar alguém importante ou
funcionários indispensáveis. Como, por exemplo: Vítor, o estagiário que faz
de tudo no escritório, inclusive cafés deliciosos.
Chegamos na sala do Carlos, ele estava conversando no celular
quando entramos.
— Bom Dia, Carlos. — Cumprimentou Paula.
Carlos imediatamente levantou-se, ficando de pé e desligou a
chamada.
O homem arrumou nó da gravata, cravando seus olhos esverdeados na
minha direção.
— Angélica?
Paula franziu o cenho, nos encarando alternadamente.
— Vocês se conhecem? — Ela indagou com certa autoridade na voz.
Será que essa mulher não consegue controlar as suas atitudes ditadoras?
— É uma longa história, Paula. — Bruno retrucou, parecendo de
mau-humor. — Carlos, Angélica será sua nova assistente.
Ele ficou completamente chocado, até seu rosto enrubesceu.
— Carlos vai informá-la sobre as tarefas e todas as responsabilidades
de um assistente jurídico. Tenha um ótimo dia de trabalho! — Bruno sorriu,
ele lançou um olhar demorado para o amigo que estava congelado próximo
da sua mesa.
O advogado do Diabo deixou o escritório em silêncio com a Paula
Crisóstomo no seu encalço e pela fisionomia da mulher, ela não estava muito
animada.
Meu chefe pigarreou, ganhando minha atenção.
— Esse mundo é muito pequeno; — comentou com um meio sorriso.
— Por favor, sente-se. — Ele gesticulou em direção da poltrona. — Está
preparada?
— Sempre; — digo, sentando-me. Abro minha bolsa, pegando meu
iPad. — Podemos começar…
Carlos explicou que um Assistente jurídico precisa ter finalizado a
graduação em Direito, a Lummertz Advocacia exige experiência neste ramo.
No entanto, tudo indica que o Carlos Solano está enfrentando alguns
problemas judiciais com a sua última assistente. Ele só não quis me contar o
que aconteceu exatamente, e como tenho muita experiência no ramo
executivo decidiram me contratar por um prazo determinado. Bom, pode ser
um trabalho temporário, mas vou tirar total proveito do meu novo emprego,
buscando mais conhecimento e experiências.
Na hora do almoço Carlos me liberou, recomendando alguns
restaurantes próximos. Fiquei agradecida, a fome estava começando a me
castigar.
— Carlos, quero te agradecer!
Ele franziu a testa, olhando-me receoso.
— Agradecer?
Eu confirmo com a cabeça, explicando:
— Quando aconteceu aquele incidente no estacionamento do Império
Bar, você me concedeu o seu blazer. Foi muito gentil da sua parte, ele está
bem guardadinho. Amanhã posso trazê-lo. — Sorri amistosamente.
Carlos manteve-se inerte, ainda com as sobrancelhas franzidas.
Ué?
Qual é o problema dele?
Será que nunca ouviu um agradecimento?
— Na verdade; — massageou a nuca. — Foi iniciativa do Bruno, ele
praticamente me ordenou para tirar o blazer e entregar a você.
— Mesmo assim, muito obrigada!
Carlos enrubesceu, cortando contato visual.
— Certo, pode sair para o almoço.
Eu assenti, pegando minha bolsa e saindo do escritório do meu novo
chefe. Para ser honesta, estou muito aliviada. Eu jurava que minha chefe seria
a autoritária Paula Crisóstomo.
Quando cheguei perto do elevador, simplesmente congelei.
Bruno Alcântara estava encostado ao lado do elevador, com os braços
cruzados. O homem abriu um sorriso majestoso quando me aproximei.
— O que você está fazendo?
— Esperando você; — Diz num ronronar sensual. — Vamos almoçar
juntos.
Engulo em seco.
— Bruno, não acho adequado nossa aproximação. Pode começar
boatos indesejados. Eu não quero…
— Ninguém ousaria falar de você neste escritório. — Tudo nele
acabou mudando, até mesmo a postura. O homem se tornou um leão pronto
para atacar. — Pode confiar.
— Por que você não me contou que era um dos fundadores da
Lummertz Advocacia? — Questionei, não contendo minha insatisfação.
— E acabar com toda a diversão? Nunca! Eu gostei de ver a
expressão de surpresa no seu rosto, como enrubesceu na minha presença.
— Você é tão convencido e presunçoso.
Bruno gargalhou.
O seu riso alegre e inesperado fez meu coração pular completamente.
Bruno sabe o quanto é lindo, mas será que ele conhece o poder do seu
sorriso?
— Quando você sorri é como presenciar a beleza da aurora boreal. —
Levei a mão até minha boca, não permitindo que saia qualquer palavra sem
sentido novamente.
— Aurora Boreal? A única Aurora que eu conheço é a minha
governanta; — zombou. — Pode me explicar? — Ele continuou rindo, com
gentileza afastou a minha mão, aproveitando o momento para acariciar meus
lábios.
— Você é como a noite, Bruno. Misterioso, perigoso e assustador,
mas tem as suas belezas resplandecentes. A noite tem uma beleza rara e
poucas pessoas conseguem admirá-la ou escolhem apreciá-la, porque sentem
medo da sua escuridão.
— Compreendo. Isso significa que você não tem medo da minha
escuridão, Angélica?
— Não, eu não tenho!
O ADVOGADO DO DIABO
17

(Há quatro anos)

As malas e os pertences da minha ex-esposa estão na sala de estar,


esperando o caminhão de mudança. Francinny está há horas chorando e
pedindo perdão, eu não consigo encará-la, não consigo esquecer a cena que
presenciei.
Francinny estava me traindo com um dos seus pacientes há cinco
meses. Um moleque chamado Felipe, de apenas vinte anos. Ele é sete anos
mais novo, os dois aproveitavam os dias da “terapia” para usar o meu
apartamento e usar a minha cama.
Meu punho ainda está queimando de dor, porque não controlei a
minha raiva, esmurrando o rosto do moleque até quebrar o seu nariz e o
maxilar.
Os funcionários da empresa de mudança chegaram no apartamento.
Francinny se desespera:
— Bruno, meu amor. Foi um erro, por favor…
Eu ignorei.
— Podem levar tudo; — Digo, instruindo os homens. — Tudo que
está nesta sala, todas as caixas e malas.
Os homens rapidamente começam a carregar as caixas para fora do
apartamento.
— Bruno, são nove anos de relacionamento. Você não pode esquecer
tudo que vivemos, esquecer dos nossos planos. — Ela soluçou. — Tenho
certeza que você já errou, com certeza já me traiu com aquela assistente
chamada Eduarda.
Encarei minha ex-mulher completamente incrédulo.
— Não estou acreditando, você tem a coragem de me acusar por um
erro que você mesma cometeu? — Esbravejei, controlando minha raiva e
revolta. Não posso perder a minha cabeça, Francinny quer me desequilibrar.
— Eu estava me sentindo solitária e cansada. Você só pensava no
Escritório e nos clientes, Bruno. Esquecendo-se da sua própria família.
— Como você é cínica, nunca pensei ou imaginei a minha vida sem a
minha família.
Francinny limpou as lágrimas, observando meu punho enfaixado.
— E a Sofía? Como ela vai reagir?
É sério? Agora ela resolveu pensar na minha irmã, depois de transar
descaradamente com um moleque, deixando a porta do quarto aberta.
Sofía flagrou tudo.
A Francinny gemendo de quatro.
Minha irmã presenciou o meu surto de raiva e os gritos da Francinny
no momento que comecei a espancar o garoto.
Não posso perdoá-la, por mim e por minha irmã. Sofía é uma criança,
não deveria presenciar tudo que aconteceu neste apartamento. Ela está
trancada no quarto, não quer falar comigo ou com minha ex-esposa.
— Francinny, tudo que mais desejo agora é que você suma das nossas
vidas. Está decidido, amanhã vou entrar com o processo de separação.
— Eu não vou aceitar. — Vociferou transtornada. — Não é o fim do
nosso casamento, eu te amo.
Comecei a rir, meneando a cabeça.
— Você destruiu o nosso casamento. Não existe amor ou qualquer
sentimento recíproco da sua parte, e você sairá do nosso casamento sem
direito aos bens que possuo!
— Bruno…
O grupo que está trabalhando na mudança entrou novamente no
apartamento e começaram a carregar as malas da minha ex-mulher para fora.
— Você vai sair sozinha ou vou ter que arrastá-la para fora do
apartamento?
Ela ficou parada, olhando-me com aqueles olhos azuis-céu que amo
incondicionalmente.
A dor de uma traição não tem explicação, depositamos nossa
confiança, o nosso carinho, amor e amizade na pessoa que escolhemos dividir
a nossa vida e sonhos. E no final, ela escolhe quebrar tudo como se não
significasse nada. Não quero perder a fé nas pessoas, não quero deixar de
confiar. Eu vou superar essa traição, porque tem uma garotinha de apenas
onze anos que precisa da minha força, da minha proteção e do meu amor.
— Francinny, estou avisando. Eu vou arrastá-la para fora do meu
apartamento e a humilhação será pior.
Ela aquiesceu, pegando uma bolsa que estava jogada em cima do sofá.
— Você vai se arrepender, Bruno. — Ameaçou entre as lágrimas que
não cessam.
— Está errada, não sou eu quem vai se arrepender nessa história.
Agora vá e suma da minha frente!
Francinny caminhou para fora do apartamento, fechando a porta sem
olhar para trás. Meu relacionamento de nove anos acabou, uma traição
destruiu a minha família.
As pessoas não pensam nas consequências das suas escolhas, elas
brincam com a sorte e com os sentimentos alheios. É necessário pensar nas
pessoas que vivem do seu lado, ninguém vai juntar todos os cacos
estilhaçados do coração que você quebrou. Ninguém vai consertar os seus
erros ou carregar as dores das pessoas que você machucou. Quem sofre
precisa enfrentar tudo sozinho e buscar força para recomeçar, porque você fez
as escolhas erradas.

(Duas semanas depois)

Meus dias estão nublados, recomeçar uma vida sem a minha esposa
não está sendo uma tarefa fácil. Francinny está marcada em cada cômodo do
meu apartamento, o perfume dela ainda está impregnado no nosso antigo
quarto. Não consigo mais dormir na cama que costumava ser nossa, não
consigo respirar direito dentro daquele apartamento.
É exatamente por esse motivo que estou visitando um imóvel em um
condomínio fechado no bairro da Praia da Lagoa. É uma mansão luxuosa,
com vista para cidade.
Sofía está me acompanhando, ela também tem sentindo a falta da
Francinny. Entretanto, é orgulhosa e teimosa como uma Alcântara, não negou
o sangue que corre nas suas veias. Francinny procurou Sofía três vezes nesta
mesma semana, querendo conversar. A minha irmãzinha recusou às três
tentativas de aproximação.
— Eu gosto do apartamento; — comentou. — Gosto do Senhor Davi.
— Eu também gosto, meu amor. É difícil, eu consigo compreender.
Mas precisamos recomeçar, tenho certeza que você vai gostar da Mansão. Ela
é linda, eu estava vendo as fotos no anúncio, a Mansão tem um jardim
enorme.
Minha irmã encolheu-se no banco.
— Eu gosto de rosas!
— Eu sei; — sorri, evito demonstrar o quanto meu divórcio tem me
abalado quando ela está por perto. — Você pode plantar as suas próprias
rosas, flores coloridas de várias espécies.
Sofía olha-me, ganhando um brilho vivido nas íris castanhas-
douradas.
— Jura? Meu próprio jardim? — Um sorriso largo nasceu no seu
rosto e meu coração se encheu de esperança.
— Nosso próprio jardim, posso ajudá-la?
— É lógico, eu vou adorar plantar rosas no nosso novo jardim.
Concordei, ficando animado com a felicidade da minha irmã. Sofía
ficou muito calada depois do episódio desastroso e traumático no meu
apartamento. É bom vê-la sorrindo novamente.
Quando chegamos na Mansão um agente imobiliário estava nos
aguardando. Sofía desceu primeiro do carro, animada para conhecer a
Mansão.
— Boa tarde, me chamo Gustavo — O agente cumprimentou. —
Prontos para conhecer a Mansão?
— Sim, muito! — Sofía respondeu, totalmente eufórica.
— Por favor, entrem…
O Agente imobiliário começou apresentar o imóvel luxuoso. A
Mansão tem quatro andares, com cômodos espaçosos e bem arejados.
— No piso térreo, vocês encontram a sala de estar com lareira, sala de
jantar, terraço, suítes para os hóspedes, cozinha e área para os funcionários e
também as escadarias… — mostrou duas escadas, uma que levava até os
andares superiores e outra que levava até o andar inferior. — No andar
inferior…
— Um porão? — Interrompeu Sofía, fascinada com os cômodos
gigantescos.
— Não é tecnicamente um porão; — corrigiu o agente imobiliário. —
É um salão de festas, contendo um bar completo, com uma belíssima adega
de vinhos e uma grande piscina térmica.
Minha irmã abriu a boca, completamente fascinada. Ela segurou na
minha mão puxando-me em direção do terraço. O jardim era amplo, como
minha irmã sempre sonhou. As árvores frutíferas e as flores de diversas
cores. É uma propriedade densamente arborizada.
— Uau. Podemos ter um buldogue agora?
— Bom, tenho certeza que um cachorro vai adorar correr nesse
jardim. — Acabei concordando, há meses ela tem me pedido um cachorrinho.
Sofía soluçou.
O choro chegou de repente, me aterrorizando. Até mesmo o agente
imobiliário acabou se assustando. A minha irmã estava sorridente e feliz,
agora esse choro abalado está me desequilibrando novamente.
— Sofía; — segurei no rostinho da minha irmã, limpando as lágrimas
dela. — Qual é o problema?
— Sinto muito, Bruno. Por tudo, você não merecia sofrer. Eu sei o
quanto você está lutando para se manter forte por minha causa, tudo que está
fazendo é por mim. Não é justo! — fungou.
Meu coração se apertou.
Ela é minha força.
Sem ela... Sem a minha menina nunca conseguiria seguir em frente.
— Sofía, você é a minha família. É minha única razão para continuar
em frente. Não se sinta culpada, meu amor. Adultos passam por momentos
difíceis, eu vou ficar bem.
Ela esfrega os olhinhos com as mãos.
— Com licença; — Interfere Gustavo. — A minha irmã está
vendendo filhotinhos de buldogue inglês.
— Ótimo, eu vou querer um filhotinho e também pretendo comprar a
Mansão. — Beijei a testa da minha irmã. — Vamos ficar bem, Sofía.
— Você me promete?
— Eu prometo. É palavra de irmão mais velho!
ANJO CELESTIAL
18

Infelizmente ganhei alguns olhares desconfiados quando saí para


almoçar com o Bruno, principalmente as mulheres ficaram me encarando
com escárnio.
Eu não queria ficar incomodada, mas acabei sentindo certa aflição.
Bruno, por outro lado, parecia muito satisfeito com a minha companhia. Ele
me levou em um restaurante próximo da Lummertz Advocacia.
O estabelecimento era bem frequentado, empresários e mulheres bem-
sucedidas esbanjam a sua grandeza e dinheiro em cada mesa. Eu sou uma
mulher independente, meu currículo profissional é admirável, mas estou me
sentindo um peixinho fora d'água.
Esse lugar é elevadíssimo, não faço parte desse mundo.
Um garçom imediatamente nos atendeu.
— Senhor Alcântara; — Falou o jovem rapaz. — Infelizmente a mesa
que o Senhor…
— Pode ser outra; — Cortou — Hoje vou almoçar com uma
convidada, quero um lugar mais reservado.
O garçom olha-me, notando a minha presença.
— Por favor, podem me acompanhar.
O restaurante tinha uma decoração rústica, as mesas de madeira
maciça, as paredes de tijolos e colunas grandes de pedras.
Seguimos até um lugar calmo, sem movimento excessivo, era uma
pequena sala com apenas cinco mesas disponíveis. Uma delas estava ocupada
por um casal, escolhemos uma mesa um pouco afastado do casalzinho
apaixonado que não parava de trocar carícias.
O garçom nos entregou os cardápios, pensei que encontraria uma
culinária francesa ou até mesmo os famosos escargots, mas fiquei muito feliz
quando encontro uma opção variada da culinária mineira.
A minha boca salivou e meu estômago quase pulou de alegria. Prefiro
a nossa conhecida culinária brasileira, não existe nada melhor do que uma
rica feijoada.
— Gosta da culinária mineira? — Indagou Bruno.
— Eu amo; — Digo, escolhendo um prato típico com um delicioso
frango ao molho pardo. — Honestamente, eu estava me sentindo um peixe
fora d'água. Fiquei feliz em encontrar arroz e feijão no cardápio.
Bruno gargalhou.
— Angélica, você tem uma simplicidade admirável.
Eu sorri, a minha simplicidade é um tesouro valioso. É uma qualidade
que torna tudo mais leve e fácil. Eu sou uma pessoa simples, não podemos
esconder nossa verdadeira essência. Quando aceitamos quem somos,
incluindo nossas manias, defeitos e qualidades, aprendemos a nos amar. O
amor próprio é a porta para a felicidade.
— Eu faço parte de uma família humilde, que precisou trabalhar duro
para conquistar qualquer objetivo; — Bruno faz nosso pedido enquanto falo
sobre minha vida: — Acabei aprendendo muito jovem que a felicidade está
nas pequenas coisas.
Bruno riu, quando garçom se afastou novamente.
— Eu discordo; — encara-me com intensidade. — A felicidade não
está nas pequenas coisas, ela está na ambição, no dinheiro, nas conquistas e
no prazer.
Balancei a cabeça.
Bruno é um homem cético, sem fé ou crenças. Ele pensa que o poder
ou dinheiro compra todos os prazeres da vida. Ele merece mais do que isso,
mais do que esses pensamentos descrentes e solitários.
— Quando dizemos que a “felicidade está nas pequenas coisas”,
significa que você deve ficar perto das pessoas, hobby ou sonhos que fazem o
seu coração vibrar; — Expliquei meio resignada. — É uma felicidade
espontânea, que chega quando estamos perto de alguém especial ou
passeando com nosso cachorrinho em um dia de folga.
— Angélica…
— Angel! — Corrijo, mordendo meu lábio inferior.
Bruno suspirou, prendendo o seu olhar faminto nos meus lábios.
— Tudo bem, Angel… — ele relaxa na cadeira. — Você é muito
transparente, uma mulher honesta e admirável.
Meu coração pulou dentro do meu peito.
Ele me acha admirável?
— Sinto que devo ser honesto também; — Bruno segura na minha
mão, entrelaçando nossos dedos. — Quero transar com você!
O quê?
Fiquei boquiaberta, sem saber o que dizer.
— De preferência hoje, na minha Mansão.
Meu corpo inteiro queimou de excitação, as palavras dele acertaram
em cheio o centro das minhas pernas.
— Não podemos negar, estamos completamente atraídos um pelo
outro. Eu quero você e tenho certeza que você também me deseja. Angel, não
vamos ignorar o que sentimos.
Céus! Bruno Alcântara é mesmo um demônio impuro e repleto de
pecados, mas não consigo ficar longe. Ele provoca em mim sensações
maravilhosas. Eu queria prová-lo e queria senti-lo novamente nos meus
braços. Porém, tem muita coisa em jogo… O meu novo emprego, não posso
me esquecer que o Bruno Alcântara é o advogado do Thomas Fagundes,
estou processando meu ex-chefe e o advogado contratado por ele, é agora o
meu atual chefe.
A minha cabeça latejou, só de pensar na imensa bola de neve que
estou me enrolando.
Preciso me lembrar do espírito da garota que sempre está surgindo
quando menos espero. E proteger meu coração no meio dessa história toda,
não posso evitar de sentir qualquer sentimento nobre por um homem bonito e
inteligente. Bruno Alcântara é deslumbrante, mesmo com um coração de
gelo.
Eu respirei fundo, encarando aqueles olhos castanhos tão intensos e
indecifráveis.
— Bruno, não será certo…
Ele riu, passando a mão no cabelo.
— Sabe o que não será certo? Eu trepar com você em cima de uma
mesa de escritório, porque é isso que vai acontecer com você trabalhando na
Lummertz Advocacia. — Diz sem controlar o desejo na voz. — Não vou
prejudicar o seu emprego, podemos manter o profissionalismo dentro do
escritório se você aceitar o meu pedido… Quero comer você!
Minha nossa...
Respiro com dificuldade, sentindo a luxúria destruir o meu bom senso
e qualquer juízo que possa existir dentro da minha cabeça.
É errado!
Bruno Alcântara é o meu chefe, um dos fundadores da Lummertz
Advocacia. Um homem perturbado que não acredita na bondade, não confia
no amor ou nas pessoas a sua volta.
— Angel, eu vou buscá-la às 20 horas. Esse horário está bom para
você?
Abro a boca, querendo dizer “não”. Mas como sempre as palavras
saem contraditórias.
— Sim, esse horário está ótimo!

Eu não estou acreditando que concordei com os planos pecaminosos


do Bruno. Faço de tudo para manter meu profissionalismo no trabalho, mas
não consigo tirar o nosso almoço da cabeça. Ele foi muito direto, fez questão
de deixar muito claro todas suas intenções.
Meu sangue estava fervilhando nas veias.
Quando Carlos se afastou para atender uma ligação, rapidamente
digito uma mensagem para minha amiga Karen.

“Estou com problemas, acho que vou dormir com meu novo
chefe”

Envio a mensagem. Não vou entrar em muitos detalhes, conheço


muito bem a minha amiga. Ela também é uma sonhadora, que vive no mundo
dos Ursinhos Carinhosos.
O meu celular vibrou.
Rapidamente leio a resposta.
“Ele é gostoso?”

“Karen, estou falando sério. É errado. Eu não posso”

Minha amiga me responde imediatamente:

“Angel, quando foi a última vez que viveu um amor sórdido com um
homem? Você não se arrisca, às vezes é necessário viver com intensidade
sem pensar nas consequências”

Leio a mensagem da minha amiga várias vezes, lutando para


acalmar a minha ansiedade. É apenas uma noite de sexo casual, estou
precisando relaxar. Não significa que vou casar com o cara no outro dia.
Karen tem razão, devo arriscar um pouquinho.
O ADVOGADO DO DIABO
19

Angel estava me aguardando em frente da sua casa quando cheguei.


Ela decidiu caprichar no visual, usando um vestido curto e colado no corpo.
Ele tinha um decote trançado por cordões, num tom dourado vívido.
Destacando os lábios com batom vermelho, o cheiro do perfume dela quase
me enlouqueceu.
Os cachos estão soltos, do jeitinho que eu gosto.
Abro a porta da picape, ela entrou com um sorriso radiante no rosto e
como sempre falando sem parar:
— A Valentina queria participar do nosso encontro. Ela é uma
garotinha elétrica, foi necessário um Kinder Ovo para conseguir distraí-la e
fugir dela.
Acabei rindo.
— Usar um Kinder Ovo é uma ótima estratégia; — gracejei, fazendo
Angélica rir do meu comentário. — Valentina é uma criança inteligente,
tenho certeza que logo vai notar a sua fuga sorrateira.
— Então, acho melhor você dirigir.
Eu concordei.
Os meus envolvimentos com outras mulheres nunca foram
oficializados. Eram encontros casuais, apenas sexo, gosto de transar com elas
e não assumir nada entre nós. É necessário esclarecer que não terá nenhum
vínculo afetivo, Angélica merece um pouco da minha honestidade, mas
primeiro abro o porta-luvas e pego o livro.
— Acho que você esqueceu dentro do meu carro.
Angélica ficou inerte, ela encarou o livro sem jeito, pigarreando com
a garganta.
— Obrigada por guardá-lo.
— Disponha não esquecendo livros sem fundamentos dentro da
minha picape. — Desaprovei, ganhando um olhar fulminante da minha
acompanhante.
— Um livro sem fundamentos? Você chegou a ler? — Retorquiu com
uma voz alterada.
— Angélica, às suas crenças são irrelevantes. Espiritismo não é aquilo
em que acredito!
— O mundo espiritual existe; — comentou cabisbaixa, guardando o
livro dentro da bolsa. — Na doutrina espírita encontramos respostas para
muitos de nossos questionamentos. Entendemos algumas dores e sofrimentos
que enfrentamos.
Fiquei calado, não queria discutir com ela e atrapalhar meus planos.
— Como foi o primeiro dia na Lummertz Advocacia? — Mudei
rapidamente de assunto. Chega desse papinho de espíritos.
Angel suspirou fundo.
— Ótimo, Carlos é muito paciente e gentil.
Ri com escárnio.
Acredito que não estamos falando da mesma pessoa.
— Gentil?
Ela afirma com a cabeça, mantendo um semblante sério.
— Ele foi atencioso, explicando detalhes do meu trabalho na
Lummertz Advocacia.
Carlos não é exatamente um homem prestativo. No escritório ele tem
fama de autoritário, não mantém um comportamento amigável.
Principalmente com nossas funcionárias, trazendo alguns transtornos para o
escritório.
Não vou contrariá-la.
Angélica pode conhecer o mau-humor do Carlos ainda nesta semana.
É questão de tempo, tenho certeza que a sua opinião sobre ele vai mudar
rapidinho.
Por que a opinião dela sobre o meu amigo está me incomodando?
Que besteira!
Ela é uma mulher solteira, pode achar qualquer homem gentil e
atencioso.
Menos o Carlos…
Os meus pensamentos estão me traindo. Na verdade, minha atração
por ela está me desequilibrando. Tudo que preciso é de uma boa transa com
essa mulher e depois vou conseguir evitar esses pensamentos possessivos.

Chegamos na minha Mansão no horário previsto. Aurora estava nos


aguardando com a mesma carranca de sempre. Ela odeia minhas amantes, ela
insiste em dizer que todas são grosseiras.
Angélica desceu da picape totalmente encantada. Ela girou o corpo,
olhando ao redor.
— Uau, que bela Mansão.
Sorri em agradecimento, guiando a Angélica até a entrada.
— Espero que goste do interior da Mansão. Ela tem cômodos
espaçosos e quartos exuberantes. Você pode escolher um deles…
— O quê? — Questionou, franzindo as belas sobrancelhas.
Aurora aproximou-se, impedindo minha resposta. Queria explicar que
não durmo na mesma cama com minhas amantes, elas dormem em quartos
separados. Depois do meu casamento desastroso, não quero nenhuma mulher
na minha vida e principalmente dividindo a cama comigo. Não permito que
uma relação ultrapasse o prazer, estou fugindo de qualquer relacionamento
duradouro.
— Angélica, esta é a minha governanta; — Elas trocam olhares. —
Aurora, esta é a minha nova amiga. Ela vai participar do jantar.
Aurora ficou séria. Mantendo a sua postura defensiva, mas Angélica
tem uma iniciativa impressionante. Ela praticamente pulou no pescoço da
minha funcionária, abraçando Aurora como se fossem amigas há anos.
— Meu Deus, uma governanta; — Aurora arregalou os olhos na
minha direção. — Que incrível, eu sempre leio sobre as governantas nos
meus livros de romances. Elas sempre são amigas das mocinhas ou tem casos
pecaminosos com os barões; — Angélica tateou os lábios com o dedo
indicador, analisando Aurora. — Você é muito bonita, é um prazer conhecê-
la.
Com as bochechas completamente vermelhas, Aurora forçou um
sorriso.
— Seja bem-vinda; — Diz encabulada. — O jantar já está servido.
Eu faço o possível para não rir da situação.
Aurora ficou realmente constrangida com o comportamento da minha
convidada. Não era essa atitude que Aurora estava esperando, minhas
amantes não são amistosas.
A minha governanta moveu-se até a sala de jantar.
Permitindo um momento a sós com minha nova “amiga”.
Angélica seguiu adiante, não contendo o fascínio no olhar. Ela
caminhava girando o corpo para não perder um único detalhe da imensa sala
de estar. Fiquei satisfeito e feliz com sua reação, vê-la contente fez meu
coração reagir de uma maneira que não era esperado.
Surpreso com minha própria euforia, puxei a Angélica para mais
perto.
— Gostou? — Indaguei, reparando nos seus olhos verdes-claros que
são lindos.
— A Mansão é maravilhosa e você… — Angel reparou no meu
vestuário. — Está magnífico.
Nosso olhar se conecta.
O perfume dela.
O sorriso.
Os lábios.
A beleza hipnotizante que ela possui. Angélica está me
enlouquecendo. Eu não consigo ficar longe, quando menos espero pressiono
o seu corpo contra o meu.
O primeiro toque dos meus lábios foi apenas uma carícia,
mordiscando lentamente seu lábio inferior. Ela abriu a boca, permitindo a
invasão da minha língua. O beijo aos poucos se torna fervoroso, ardente,
faminto. Ela gemia, segurando-me com força. Aprecio cada sensação, o sabor
da sua boca e os gemidos repletos de tesão.
— Eu quero comer você! — Murmurei excitado, sentindo meu pau
rígido.
— Primeiro o jantar… Hmmm… — Ela gemeu com a surpresa do
meu toque, minhas mãos descem até a barra do seu vestido.
Preciso saber o quanto ela está molhada.
Meus dedos percorrem as suas coxas, subindo na parte interna até
chegar na umidade da sua calcinha.
Puta que pariu.
Ela já estava encharcada.
— Que buceta deliciosa, quero meter fundo dentro de você; — com
agilidade afasto a calcinha para o lado para sentir sua entrada úmida.
Angélica estremeceu quando penetrei um dedo dentro dela. — Gostaria do
meu pau rasgando a sua buceta?
Angélica gemeu, tombando a cabeça para trás, ela fechou os olhos.
Aproveito para mordiscar o seu queixo, descendo minha boca no seu
pescoço.
Chupo a sua pele, beijo e mordo até deixá-la marcada.
— Angel, diga-me o que você quer… — enterrei um segundo dedo
dentro dela. A sua vagina se contraiu com a investida dos meus dedos.
— Bruno… Ah, meu Deus!
Ela arfou.
Estremecendo nos meus braços.
— Com licença, Senhor Alcântara.
Angélica soltou um gritinho, afastando a minha mão imediatamente.
Aurora surgiu na sala como um fantasma. A mulher avaliou os
movimentos constrangidos da minha acompanhante que alinhava o vestido.
— Você sempre interrompendo as minhas brincadeiras. — Digo
irritado.
— Creio que você pode brincar em um lugar mais reservado e
particular, esta Mansão possui mais de seis quartos.
— Ah, Céus! Mil perdões; — Angélica adianta-se com as bochechas
vermelhas. — Sinto muito mesmo, que vergonha. Não foi intencional, eu…
— Angel, está tudo bem. Aurora só está de mau-humor.
A mulher arqueou uma sobrancelha e cruzou o braço.
— Bruno, acho melhor jantarmos. — Angélica sugeriu ainda
constrangida com o flagrante da minha funcionária.
— Certo, vamos jantar…
E depois pretendo comer você!
O ADVOGADO DO DIABO
20

Angélica não tem noção do quanto é admirável. Quando estávamos


jantando, ela praticamente obrigou as minhas funcionárias a participar do
jantar.
Ela é dona de uma pureza e bondade que não encontramos hoje em
dia. Angel é rara, única e especial. Eu tenho total consciência da pessoa
maravilhosa que entrou no meu caminho, mas não posso e não quero me
envolver intensamente com ela.
Conheço o final dessa história.
Angélica terá seu coração partido.
Quando ela sorri ou quando ela conversa alegremente na mesa,
contando histórias animadas para minhas funcionárias, sinto uma raiva e uma
revolta inexplicável… Por que não posso amá-la?
É melhor terminar com isso, transar e aproveitar nossa noite. Depois
vou levá-la até a sua casa e cada um segue seu próprio caminho.
Angélica não merece um homem fodido, quebrado e principalmente
indiferente quando os sentimentos estão em jogo.
— Angel, podemos ir?
A mulher olha-me fascinada, assentindo:
— Certo, foi um prazer conhecê-las.
— Volte sempre, Angélica. Foi bom conhecê-la. — Disse uma das
empregadas.
Se ela soubesse… Angélica nunca mais entrará nesta Mansão.
Seguimos até o andar superior.
Angélica elogiou o jantar, engrandecendo minhas funcionárias:
— Elas são ótimas, você deveria aumentar os salários delas.
Rindo, discordo:
— Não, as minhas funcionárias têm um ótimo salário. Principalmente
quando elas pernoitam na Mansão, eu pago o dobro.
Angélica abriu a boca, chocada com minha revelação.
— Como assim? Você paga o dobro?
Ergui os ombros.
— Bom, elas deixam as suas famílias, maridos e filhos, para trabalhar
na Mansão quando exijo, acho justo. — Abro a porta da suíte.
Minha acompanhante entrou, observando a imensa cama. Ela respirou
fundo, reparando no belo lustre e depois na porta de vidro que levava até a
bonita sacada.
— Está tudo bem? — Indaguei, tirando meu blazer.
— Estou um pouco nervosa, faz muito tempo que eu não… — molha
os lábios com a língua. — Transo.
— Angel, precisamos ser honestos. Se você não está confortável, se
pensa que estamos seguindo um caminho que não lhe agrada ou se está
confusa, você precisa me dizer…
— Não; — corta-me. — Eu quero!
O meu pau endureceu de tesão, usei todo meu autocontrole para não
agarrá-la.
— Tire o vestido, quero apreciar o seu corpo.
Angel concorda com a cabeça e com movimentos lentos, ela abre o
zíper lateral do vestido, descendo as alças e depois abaixa o decote.
Cacete!
Ela tinha seios lindos, redondos e com bicos rosados. Angélica era
completamente suculenta. Não perco um único movimento dela, quero
reverenciar cada centímetro do seu corpo.
— Você não vai tirar a sua roupa também? — Pergunta-me com um
sorriso safado nos lábios. Eu apenas afirmei com a cabeça, aproveitando o
belo espetáculo. Os lindos cachos soltos, caídos nos ombros. Os olhos verdes
brilhantes, que ganharam um tom mais vívido por causa da excitação.
Linda.
Maravilhosa.
Perfeita.
Angélica só estava de calcinha na minha frente, faço sinal para ela se
aproximar mais.
A mulher diminui o espaço que separa nossos corpos quentes e
excitados.
— Está preparada para conhecer a luxúria do próprio Diabo?
Ela arfou, fazendo que sim com a cabeça.
— Ótimo, deite na cama.
Angélica moveu-se em direção a cama, ofegante e bastante ansiosa. A
mulher não perdia um único movimento do meu corpo.
Entrei no banheiro, peguei os preservativos.
Aproveito para se livrar da minha roupa, sem tirar os olhos da mulher
que me espera.
Ela está com as bochechas coradas.
Tenho certeza que sua buceta já está pronta, mas quero me deliciar
com o sabor dela.
Abaixei minha cueca para colocar a camisinha, ouço um gemido da
minha amante quando masturbo a extensão grossa com a mão.
— Você gostou?
Ela sorriu, linda, safada e minha.
— Eu amei!
Chega de esperar.
Angélica me recebeu com urgência na cama, ela me devorou com a
boca. Nosso beijo foi repleto de mordidas, gemidos e puxões de cabelo. A
mulher deslizava as suas unhas afiadas nas minhas costas com vontade.
Eu gostei… A Minha anja acabou se transformando em uma pecadora
na cama.
Minha boca percorreu a sua pele, até abocanhar o mamilo com
vontade.
Brinquei com seus seios, fazendo Angélica gritar no quarto.
Hmmm, ela é do tipo escandalosa.
— Bruno, que delícia.
Eu mal comecei…
Rindo, vou descendo até a sua barriga, mordiscando a pele exposta.
Angélica gostou dos meus chupões, porque imediatamente ergueu o quadril
para encontrar meu rosto.
Safada!
Então, você gosta de uma boa chupada?
— Abra as pernas, sem pudor. — Ordeno.
Ela abriu as pernas e com a própria mão afasta a calcinha para minha
total satisfação.
Sinto o cheiro do sexo. O cheiro da sua buceta é maravilhoso.
Caralho, estou quase gozando só por sentir o calor da sua umidade.
Eu brinco com os dedos por primeiro, penetrando com vontade dentro
dela.
Angélica arfou, rebolando o quadril.
— Bruno… Por favor, eu quero você!
Ignorei o seu pedido, mergulhando a minha boca na sua entrada
encharcada.
Brinco com seu clitóris sem pressa, apreciando o corpo dela perdendo
o controle.
Angel gritou, agarrando o lençol.
Continuo chupando sem piedade, mesmo quando ela gozou na minha
boca e começou estremecer.
— Oh Deus, você quer me matar? — Ela leva as mãos trêmulas até o
rosto, encabulada por chegar no clímax.
— Não quero; — arranco a sua calcinha, jogando-a no chão. —
Quero apenas possuir você; — posiciono-me entre as suas pernas, enterrando
meu pau dentro dela.
Angélica gritou com a força da minha investida.
Eu não consigo parar de meter dentro dela.
A cada estocada feroz e rápida, Angélica geme enlouquecida.
Capturei seus lábios novamente para calar um pouco os gemidos
excessivos. O prazer era incontrolável para ambos, Angélica se contorcia
embaixo do meu corpo, arranhando-me com suas unhas lindas.
O meu tesão percorreu meu corpo e gozo com vontade. Fico
completamente transtornado com os espasmos prazerosos, mas continuo com
as estocadas preguiçosas, até sentir o corpo relaxar.
— Caralho, Anja.
Angélica riu, beijando meus lábios.
— Você é incrível, Bruno.
Com cuidado saio de cima dela, tirando a camisinha para jogá-la no
lixo.
Quando voltei do banheiro, Angélica estava prendendo os cachos com
uma presilha.
— Eu gosto dos seus cachos soltos; — revelo. — Eles são lindos.
Ela me olha surpresa, esbanjando o sorriso mais lindo que já vi.
Por um momento sinto um calafrio estranho circular o meu corpo.
— Que bom, mas estou com calor. Sinto muito, vou prendê-los. —
explicou.
— Vou ligar o ar-condicionado.
Peguei o controle, ligando o ar.
— Hmm, que delícia; — fechou os olhos por alguns segundos. — Eu
poderia ficar horas transando com você com esse ar-condicionado ligado.
Soltei um riso alegre.
— Ele está ligado agora, podemos transar o quanto desejar.
Angélica vira-se na minha direção, deslizando as próprias mãos no
corpo.
Ela masturbou sua buceta molhada.
— Tem uma posição que adoro…
Peguei outro preservativo, com meu pau latejando de tesão quando
Angélica ficou de quatro empinando a sua bunda gostosa na minha direção.
ANJO CELESTIAL
21

Eu estava exausta!
Bruno Alcântara é um homem avassalador.
Foram quatro rodadas de sexo selvagem, um sexo que não estava
acostumada. Eu era uma mulher mais tradicional, com certos limites. No
entanto, não controlei minha vontade, meu desejo e principalmente meus
sentimentos por ele.
Eu queria estar com ele.
Eu queria beijá-lo e sentir seus braços fortes ao meu redor,
protegendo-me.
A minha felicidade não pode ser expressa com palavras, a sensação
do seu toque ainda está na minha pele. Não consigo esquecer seu membro
duro, das suas mãos segurando os meus cachos com força e tesão.
Agora só preciso descansar e quem sabe… Repetir, sexo matinal é
maravilhoso.
Quando minha exaustão começou a me guiar para o reino dos sonhos,
sou balançada na cama.
— Angélica, acorde…
— Hmmm; — resmunguei, sonolenta. — Eu quero dormir, estou
cansada.
— Não, acorde…
— Bruno, por favor. Transamos quatro vezes, a minha vagina está
dolorida.
Ouço uma risada.
— Ótimo, como eu esperava. Queria você toda dolorida, mas não a
quero na minha cama.
O quê?
Viro-me para encará-lo.
Bruno estava com uma fisionomia fechada.
— Não estou entendendo; — Falei meio sem graça. — Acabamos de
transar. Como você não me quer na sua cama?
Ele passou a mão no cabelo desgrenhado por causa do sexo.
— Angel, você pode escolher um quarto na Mansão e descansar, mas
na minha cama… — Bruno cortou contato visual. — Você não dorme.
Levanto-me, completamente chocada.
— Ai meu Deus, eu sou muito burra; — comecei a procurar o meu
vestido, Bruno ficou observando a minha reação com uma expressão
indiferente. — Tudo bem, acabei entendendo, vou solicitar um Uber.
— Angélica, você não precisa ir embora. Só não quero dividir a
minha cama com você.
Comecei a rir, incrédula com que acabo de ouvir.
— Você não quer dividir a cama comigo? — balancei a cabeça. —
Bruno, acabamos de transar nesta cama.
Ele não respondeu.
Ficou me observando vestir o meu vestido, depois as minhas
sandálias. Não encontrei a minha calcinha, mas que se foda.
Peguei a minha bolsa caída no chão, procurando meu celular para
chamar um Uber.
São duas horas da manhã. Que maravilha!
— Angel, não é necessário um drama exagerado devido a uma
simples cama. Tem vários quartos nesta Mansão, escolha um que lhe agrada.
— Bruno caminhou na minha direção, mas rapidamente me afasto.
— Você nunca mais vai tocar no meu corpo.
— Eu não sou o tipo de homem que transa e fica trocando carinho
depois ou que fica abraçadinho na cama fazendo juras de amor. —
Esbravejou. — Meu Deus, somos adultos. É apenas sexo casual, nunca pensei
em relacionamentos.
Estou abalada demais para responder.
Sinto-me usada e humilhada.
Saio do quarto, decidida a ir embora. No entanto, não tenho uma
surpresa agradável no corredor.
A garota das rosas-amarelas estava impossibilitando a minha
passagem.
Ela sorriu. Linda e com uma luz resplandecente emergindo do seu
corpo.
O medo percorreu a minha espinha.
Os calafrios eriçam os pelos dos meus braços.
Imediatamente sinto meu corpo gelado e pesado. Não, por favor!
— Você aqui? — Disse sem reprimir o lindo sorriso. — Eu sabia…
Eu sempre soube!
Oh Deus…
Sinto alguém me balançando, mas estou muito assustada para reagir.
O medo está controlando minhas emoções.
— Fique, ele precisa de você!
— Não, você está errada. Ele não precisa de ninguém. É um homem
frio e calculista.
Bruno só pensa em si mesmo.
Ouço um grito:
— ANGÉLICA, QUE INFERNO!
Foi como acordar de um coma, o desespero golpeou meu coração.
As lágrimas transbordam dos meus olhos.
— Ei, shh… Angélica, está tudo bem.
Alguém me abraçou, um homem forte e acolhedor. Eu consigo sentir
o seu corpo quente, até mesmo as batidas do seu coração quando apoio a
minha cabeça no seu peito e choro sem parar.
— Meu Deus, mulher. O que aconteceu?
Levanto a minha cabeça para encarar aqueles olhos castanhos e
lindos.
— Bruno? — Funguei, despertando do medo que me tomou. — Eu
sinto muito…
— Calma, você precisa respirar. Você está pálida e muito gelada.
Bruno me levou novamente até o quarto. Ele me fez sentar na cama e
imediatamente começou a tirar o meu vestido, em seguida minhas sandálias.
No closet, Bruno pegou uma blusa de moletom que ficou enorme no
meu corpo.
— Merda, você está muito gelada; — ele mudou a temperatura do ar-
condicionado. — Os seus lábios estão roxos… — depois afasta os edredons.
— Deite na cama!
Faço o que me pede, encolhendo-me embaixo dos edredons.
Bruno deita-se ao meu lado, abraçando-me com força.
— Durma. Eu vou ficar aqui, com você.
O sono não demorou para chegar.
Eu estava exausta, mas o medo me conduziu para sonhos conturbados
de noite.

Acordei de manhã com meu celular despertando, ainda estou


sonolenta e cansada. E com meu corpo pesado, mas preciso trabalhar.
Com cuidado me levantei, para não despertar o Bruno que dormia
tranquilamente.
Recordo da minha noite desastrosa, da indiferença do Bruno e da
minha surpresa assustadora no corredor. O espírito é bondoso, não é uma
entidade obsessora. Porém, não consigo evitar o medo.
No banheiro, observei o meu reflexo no espelho. E para a minha sorte,
não estou com um semblante abatido ou cansado.
Escovei os meus dentes, usando a escova do Bruno. Não me importo
com sua reação, eu só quero trabalhar, focar no meu novo emprego.
Abro a torneira do chuveiro.
Eu queria esquecer a indiferença dele, queria me esquecer da sua boca
na minha e como me sinto quando estou do seu lado.
Na água quente do chuveiro luto para relaxar meu corpo dolorido por
causa da nossa transa selvagem. Meus seios estão todos marcados por
chupões, não posso trabalhar com esse vestido curto e decotado, tenho menos
de uma hora para voltar até a minha casa e trocar de roupa.
— Bom dia; — sobressalto, quase caindo dentro do box. — Você
acordou muito cedo.
Bruno pegou sua escova de dente.
— Eu preciso trabalhar. — Respondi ríspida.
Ele encará-me, enquanto escova os próprios dentes. Um pouco
retraída começo a lavar meu corpo com a esponja-de-banho.
— Eu sou um dos fundadores da Lummertz Advocacia; — Comentou
num tom calmo. — Não se preocupe com o horário.
Fiquei calada. Não demonstrando o quanto estou magoada.
A porta do box abriu, meu coração disparou no mesmo instante.
— Bruno, o que você está fazendo?
Ele sorriu.
— Quero foder você!
Bruno aproxima-se, mas não permito que toque no meu corpo.
— Não, chega. Eu não quero… — Merda, acabei revelando a minha
mágoa.
Ele não se afasta.
— Angel, eu sinto muito mesmo. Desculpe, eu não deveria agir de
uma maneira tão insensível. Eu sou complicado; — observo a água do
chuveiro cair sobre o seu corpo, completamente nu. Evito olhar para baixo,
não quero saber o quanto ele está duro. — Meu passado não é fácil, não sou
um homem fácil. Carrego muitos tormentos e não confio em ninguém.
— Voltar a confiar em alguém é uma tarefa desafiadora, mas não é
impossível. Você precisa se comprometer e acreditar…
— Angélica; — ele segurou no meu rosto. — Eu acredito na força do
desejo… do desejo que sinto por você.
Ele não me permitiu responder, porque a sua boca grudou na minha
com vontade.
O beijo foi feroz e apaixonado. Bruno colou o meu corpo na parede,
sinto seu pau roçando na minha entrada.
— Você está me deixando louco; — ele ergueu minha perna esquerda
até sua cintura. — Olhe para mim, Angélica.
Nosso olhar se conecta.
Fiquei imersa naquelas íris castanhas e hipnotizantes. É maravilhoso
olhar para seu rosto excitado e belo.
— Eu vou comer você com força, segure-se para não deslizar no piso
molhado.
Bruno colocou a cabeça do seu pau duro feito pedra na minha entrada,
penetrando lentamente. A água seca a lubrificação natural, tornando a
penetração desconfortável. Acabei mordendo seu ombro, quando sinto uma
leve dor.
— Shh, calma… — começa a movimentar o quadril lentamente.
O prazer era impiedoso, fiquei completamente entregue e disposta a
tudo por esse homem.
Bruno Alcântara será minha perdição ou minha salvação. Ele pode se
tornar a razão dos meus dias mais felizes e prazerosos. E no fim, ele nunca
vai compreender a força do sentimento que está crescendo dentro do meu
coração.
Bruno continuou a nossa transa com fervor, só acabando quando
ambos alcançamos um orgasmo alucinante.
ANJO CELESTIAL
22

Cheguei atrasada no escritório, com vários olhares curiosos e


desconfiados, porque Bruno Alcântara está ao meu lado, segurando em minha
mão.
Eu poderia chegar adiantada. Porém, aconteceu um sexo quente no
chuveiro e precisei trocar de roupa em casa.
A Mansão do Bruno não é longe do centro de São Paulo.
Infelizmente, o meu bairro é um pouco distante, ocasionando um atraso
indiscutível.
Tenho certeza que Carlos Solano vai me demitir, entrei no escritório
um pouco afobada.
— Bom dia, Senhor Carlos. Desculpa o meu atraso. — Peguei meu
iPad.
Carlos reparou bem no meu vestuário, depois nos meus cachos soltos.
— Bruno me explicou o motivo do atraso. — Comentou num tom
debochado. — Ele me enviou um e-mail, esclarecendo algumas questões
sobre a senhorita. Então, você e o Bruno…
— Oh, não. — Adianto-me. — Foi apenas um jantar.
Carlos riu e riu, até perder o fôlego.
— Essa história eu já conheço. Sente-se, temos muito trabalho hoje.
Sento-me na poltrona, pronta para começar meu dia de trabalho.
A minha manhã foi conturbada, Carlos não estava sorridente e
amigável. Fiquei trancada no escritório elaborando documentos, analisando
processos e ouvindo Carlos esbravejar sobre os arquivos codificados no
sistema.
Ele passou a maior parte do tempo estudando um processo de um
cliente, enquanto trabalhava no meu iPad.
— Angélica, vamos jantar hoje à noite!
QUÊ?
Fiquei pasmada.
Pisquei várias vezes, pensando estar presenciando uma alucinação.
Afinal, vejo espíritos.
— Você quer jantar comigo? — Indaguei, sem acreditar.
— É um jantar de negócios, para manter boas relações interpessoais e
para tratar de trabalho. Quero conhecer você e pretendo fazer um teste; —
Carlos encara-me com um sorriso lupino. — Acredito que você é muito
especial, Angélica.
— Senhor Solano, creio que um jantar será muito inapropriado.
— E dormir com o Bruno Alcântara, um dos fundadores da Lummertz
Advocacia, não é?
Engulo em seco.
Fiquei calada, meu silêncio será mais adequado. Olhei no relógio,
agradecendo aos céus por chegar no meu horário de almoço.
— Bom, estou no meu horário de almoço. Você pode me liberar?
— É claro, Angélica. E por gentileza, envie seu endereço no meu e-
mail, pretendo buscá-la às 21 horas. Lembre-se é apenas um jantar com
objetivo profissional.
Eu concordei com a cabeça, meio resignada. No entanto, antes de sair
do escritório envio meu endereço no e-mail do Senhor Solano. Ele agradeceu,
voltando sua atenção para a tela do MacBook.
Saí do escritório com certo receio. Ficamos a manhã toda lendo
papéis e elaborando documentos, tínhamos tempo de sobra para conversar
sobre o trabalho. Por que escolheu um jantar?
Ainda atordoada com o que aconteceu, sigo até o elevador.
Suspirando pesadamente quando vejo o Bruno parado ao lado das portas do
elevador, ele estava me aguardando.
— Olá! — Cumprimentei sem jeito. Estou muito nervosa para manter
a minha animação de sempre.
— Você está com uma fisionomia péssima. Está tudo bem?
Faço que sim com a cabeça, mas o Bruno não ficou convencido. O
Advogado do Diabo analisou meu semblante, depois desviou o olhar até a
porta do escritório do Carlos Solano.
— Angel, ele falou alguma coisa que magoou você?
— É sério? Agora resolveu se importar? — Acabo descontando a
minha frustração no Bruno, esbravejando: — Você praticamente me expulsou
do seu quarto, às duas horas da manhã. Foi um completo idiota e agora quer
bancar o protetor?
Bruno enrijeceu o corpo. Olhando-me com certo desprezo.
— Eu não divido a minha cama com amantes, com casinhos que não
significam nada.
A minha vontade foi gritar: VOCÊ DORMIU COMIGO, PORRA.
Mas não quero bancar a mulher deselegante e neurótica. Ele tem
razão, foi apenas um caso. Um sexo casual que não significou nada, mesmo
sentindo meu coração batendo forte quando ele está por perto, não posso
pensar na hipótese de um romance com Bruno Alcântara.
— Você pode sair da minha frente? — Perguntei bastante ríspida.
Bruno bufou totalmente irritado, ele colocou a mão dentro do blazer e
tirou uma pequena caixinha.
— Pílula do dia seguinte; — Disse ganhando um rubor nas
bochechas. — Transamos sem preservativo no banheiro.
Olhei para a caixinha sem expressar nenhuma preocupação.
— Eu uso anticoncepcional. Não se preocupe, agora pode sair da
minha frente?
Bruno relaxou, até sua fisionomia mudou. O homem começou a
sorrir, só pode ser brincadeira…
— Você vai almoçar comigo, Angélica Amaral.
Revirei os olhos, ignorando as palavras do melhor amigo do Diabo.
Bruno apertou o botão do elevador.
— Não quero almoçar com você!
— Bom, sou seu chefe e passamos a noite juntos. No momento você
não está em condições de recusar o meu pedido, mas se quiser ser demitida
pode recusar. — Respondeu num tom presunçoso.
Filho de uma mãe!

Meu almoço com o Bruno foi tenso, ele fazia questão de me irritar.
Usando a nossa transa para me chantagear e fazer piadinhas sem graça, como
estava de mau-humor não ousei falar sobre meu jantar com o Carlos.
E outra… Bruno Alcântara não merece nenhuma explicação ou
satisfação da minha parte.
Carlos chegou no horário marcado, aproveito a oportunidade para
devolver o blazer. Ele agradeceu com muita cordialidade, no caminho
falamos sobre a sua família e irmãos. Carlos nasceu no Paraná, passou a sua
infância em uma cidade de interior. A família decidiu se mudar para São
Paulo quando o negócio da mãe começou a render muito dinheiro. Ela é
proprietária de várias butiques no centro da cidade e também na cidade Natal
em que morou por longos anos.
Falei um pouco da minha vida, do acidente trágico dos meus pais.
Carlos sempre ouvia com atenção, sem questionamentos inapropriados.
Chegamos no restaurante um pouco atrasados, o trânsito de São Paulo
sempre prejudicando e também nos atrasamos porque o Carlos escolheu um
local distante, estamos no Terraço Itália. Demoramos quarenta minutos
cansativos no trânsito caótico que no fim valeram a pena. A mesa que o
Carlos escolheu era impecável, próxima das imensas paredes de vidros e a
vista… Céus, era de arrepiar!
O local tinha uma vista bonita e muito romântica.
— Você já esteve aqui? — Carlos perguntou com um sorriso amistoso
no rosto.
— Eu não, apenas uma amiga. Ela saiu reclamando dos preços.
Carlos riu.
Após nos acomodar, decidimos observar o menu.
— Eu adoro a gastronomia italiana. — Confessou, agora pegando a
carta de vinhos. — Um vinho suave tem uma harmonização perfeita com a
gastronomia italiana.
Carlos analisava a carta de vinho com atenção, enquanto meus
pensamentos viajam pela belíssima vista da cidade. Como seria um jantar
romântico com Bruno Alcântara?
Será que ele já amou intensamente uma mulher?
Acabei rindo dos meus próprios devaneios, Bruno não faz o tipo
romântico que manda flores ou que enche uma amante de elogios graciosos.
Ele só está preocupado com o sexo, em ultrapassar as preliminares e gozar.
Carlos faz nosso pedido, como não tenho conhecimento da
gastronomia italiana, acabo concordando com os pratos que o Carlos
escolheu.
— Você está muito pensativa, preocupada com o Bruno?
— O quê? — Mexo-me desconcertada. — É claro que não, eu só
estava pensando no meu trabalho.
— Uhun, sei… — Carlos apoia os antebraços na mesa, inclinando-se
para frente como se fosse contar um segredo. — Você almoçou com ele hoje?
Engulo em seco, não estou entendendo as interrogações. A onde
Carlos quer chegar com tantas perguntas?
— Carlos, nosso jantar não era profissional? Eu não estou
compreendendo o seu interesse no meu relacionamento com o Bruno.
Ele sorriu, alegre e animado.
— Eu sabia; — O homem só faltou pular de alegria. — Já estava na
hora.
— Permaneço confusa!
Carlos não está sendo específico e direto nesta conversa.
— Bruno não se envolve intensamente com uma mulher; — Explicou,
virando para admirar a vista. — Ele evita sentir qualquer afeto ou carinho
quando está se relacionando, mas com você é diferente.
Comecei a rir, se ele soubesse de toda a verdade.
— Eu não sou diferente, sou uma mulher comum. Bruno não está
interessado em relacionamentos, ele é um homem calculista e indiferente.
— Ele nem sempre foi assim. — Carlos mudou sua fisionomia,
ficando com uma expressão mais entristecida. — Bruno, já foi um homem
muito afetuoso, que colocava a família sempre em primeiro lugar. Ele
transbordava alegria e gratidão, um cara que amava a sua família. Tudo
mudou quando a Francinny seguiu um caminho errado e depois a irmã mais
nova faleceu, desmoronando a vida do meu amigo.
Calma, eu estou ciente do falecimento da irmã, porém…
— Desculpa, quem é a Francinny?
Carlos olha-me pasmado. Ele abre a boca, desacreditado e diz:
— Você não conhece a história da Francinny? Pensei que o Bruno
tivesse… — Carlos bufou, passando a mão no rosto. — Droga, falei demais,
sinto muito!
Agora não é o momento para sentir muito, Carlos acredita mesmo que
está rolando um relacionamento especial entre mim e o Bruno. Ele acredita
ao ponto de revelar um segredo íntimo do amigo. É muito difícil guardar
nossos próprios segredos, às vezes precisamos carregar cargas de pessoas que
gostamos e queremos bem. Entretanto, nem sempre conseguimos protegê-los.
Carlos acabou revelando um fato sobre a vida do Bruno que era sigiloso, um
fato que acredito que poucas pessoas conhecem.
Eu posso compreender o deslize do Carlos, ele só estava feliz pelo
amigo.
— Está tudo bem, Carlos. Eu não vou questionar o Bruno, não vou
exigir explicações. Sou apenas uma funcionária; — comentei meio sem
graça. — Tudo que rolou entre nós dois, foi passageiro. O Bruno não quer um
relacionamento. Ele já deixou claro as suas intenções, mas gostaria de saber
quem é a Francinny, porque a verdade pode mudar tudo.
Carlos aquiesceu, respirando aliviado.
— Sim, a verdade pode mudar tudo. — Concordou com meio sorriso.
— Angélica, pretendo contar quem é a Francinny. E você precisa me
prometer que não vai questionar o Bruno sobre ela.
— Eu prometo!
Não sou uma mulher inexperiente, estou ciente que o Bruno tem um
passado. Um passado que não foi fácil, uma história difícil que carrega uma
bagagem cheia de dor. No entanto, não estava com meu psicológico
preparado para conhecer a história da Francinny, e quando Carlos revelou a
verdade, não consegui evitar o gosto amargo da revolta.
ANJO CELESTIAL
23

Francinny e Bruno se conheceram na faculdade, eram aquele tipo de


casal que todos invejam. Um casal que enfrentava qualquer coisa se
estivessem juntos. Bruno amava Francinny com todo o seu coração, um amor
genuíno que até mudou a maneira de Carlos enxergar os relacionamentos
com as garotas que se envolvia. Ele queria sentir um terço do amor que o
Bruno sentia pela Francinny, era admirável encontrar um amor tão
verdadeiro. Bruno e Francinny se casaram após três anos de namoro, ambos
construíram uma vida juntos.
O Bruno começou sua carreira como advogado conquistando o seu
lugar e seus escritórios.
A Francinny inaugurou seu consultório no centro da cidade, ela era
uma psicóloga. Carlos descreveu Francinny como uma mulher calma e muito
meiga. Ela sempre estava sorridente e dificilmente encontrava a mulher de
mau-humor. Uma esposa perfeita na percepção de alguns homens, ela era
muito bonita e tinha um corpo delicado que combinava com a sua
personalidade. Carlos acreditou que o casamento dos dois duraria para
sempre, mas um erro destruiu tudo.
Francinny enganou a todos com seu jeitinho tímido e amoroso. No
fundo, ela era uma grande manipuladora que traiu o Bruno com um dos seus
pacientes, a traição foi pega em flagrante quando Bruno chegou mais cedo no
apartamento em que morava.
Na época o escândalo da traição foi abafado por amigos próximos e
pelos próprios familiares da Francinny, que ficaram constrangidos com o erro
inexplicável da mulher. No entanto, a Francinny não desistiu do Bruno tão
facilmente e tentou reatar o casamento inúmeras vezes.
Certa vez, acabei lendo uma pesquisa feita por uma Universidade
Americana, onde dizia que os seres humanos buscam o amor, somos
motivados a buscar carinho, afeto e companhia. Já foi comprovado
cientificamente que o amor traz benefícios para a saúde, acredito que
ninguém gosta de enfrentar a vida sozinho.
Precisamos de uma palavra amiga.
Precisamos de uma garantia e às vezes de carinho, não podemos viver
sem a presença das pessoas que amamos. Mas você consegue compreender o
impacto de uma traição na vida de uma pessoa que conviveu anos com
alguém, depositando e assegurando todo amor e confiança? Bom, qualquer
pessoa se transformaria no advogado do Diabo.
Bruno tem todos os motivos para fugir de relacionamentos, ele tem
todos os motivos para não confiar e acreditar nas pessoas a sua volta. Agora
posso compreender o seu comportamento, ele tem medo… Medo do
sofrimento e da dor, Bruno precisou enfrentar uma traição dolorosa e a morte
da irmã que mais amava, uma pessoa sem estrutura perderia a fé.
O nó na minha garganta era inevitável, eu sentia dentro do meu
coração que o Bruno precisava da minha ajuda, minha alma gritava para curar
aquela dor que está corroendo um homem que tem ganhado meu coração.
Os garçons trazem a nossa refeição, despertando-me dos meus
pensamentos entristecidos. Após a nossa longa conversa, decidimos comer
em silêncio apenas saboreando a culinária italiana e admirando a vista de São
Paulo. Foi neste instante que notei uma mudança brusca na postura do Carlos,
o homem enrijeceu o corpo e as bochechas ficaram completamente
vermelhas.
Senhor, ele está engasgado?
— Carlos, você está bem? Qual é o problema? — Indaguei nervosa.
Ele apenas balançou a cabeça, com os olhos presos na entrada do
restaurante.
Encasquetada com a reação do homem, acabo me virando para trás,
olhando em direção da entrada e quase tenho uma parada cardíaca.
Bruno Alcântara conversava com um garçom do local e ao seu lado
estava Paula Crisóstomo, segurando na sua mão como se fossem um casal.
O advogado do Diabo começou a percorrer o olhar nas mesas, uma
por uma… até nos encontrar. Engulo em seco quando nosso olhar se conecta,
ele sorriu de uma maneira predadora.
— Droga! — xinguei baixinho.
— Eu acho que estava certo no final. — Disse Carlos com um sorriso
malicioso, ele relaxou na cadeira, observando Bruno Alcântara se aproximar
com total confiança.
Como Carlos consegue ficar tão calmo?
Estou quase surtando.
Bruno está aqui…
Com outra mulher…
De mãos dadas com ela…
Ele tem um caso amoroso com Paula Crisóstomo… Angélica, como
você pode ser tão ingênua?
O nervosismo castiga meu estômago. Eu queria sair correndo para
longe e não me sujeitar a tal humilhação, mas quando me viro novamente
Bruno Alcântara já está parado ao lado da nossa mesa.
— Boa noite; — cumprimentou com um sorriso debochado. — Não
estou atrapalhando o jantar?
Carlos riu e meneou com a cabeça.
— Não, é lógico que não. Gostaria de se sentar? — ele apontou para
as cadeiras vagas.
Eu mal conseguia respirar, Bruno está me ignorando completamente.
— Não será necessário, reservei uma mesa; — ele puxa a cadeira da
mesa ao lado. — Sente-se Paula!
A mulher olha-me, mantendo um risinho superior.
— Angélica, você está linda; — o seu tom foi bastante nojento. —
Tenham um ótimo jantar.
Ela sentou-se na cadeira ignorando qualquer resposta que saísse da
minha boca. Paula aceitou o menu de um garçom que se aproximou. Bruno
sentou no seu lugar, folheando o menu, evitando qualquer contato.
Continuei olhando para ele como uma idiota apaixonada.
Bruno estava deslumbrante, ele fica lindo vestindo ternos e roupas
formais, mas quando está usando um vestuário mais versátil é completamente
delicioso. O homem escolheu uma calça jeans escura, uma camiseta preta e
uma camisa branca por cima, ele arregaçou as mangas, mostrando o
belíssimo relógio e pulseiras masculinas.
E o cabelo… Céus, ele estava desgrenhado como se tivesse acabado
de transar.
Será que ele dormiu com ela?
— Angélica… — Carlos sussurrou. — Você poderia disfarçar? Vai
lesionar o próprio pescoço de tanto olhar para trás.
Meu rosto queimou de vergonha, imediatamente me viro para frente.
Carlos mantinha uma expressão de puro divertimento.
— Desculpa; — Murmurei constrangida. — Eu não esperava o Bruno
no Terraço Itália!
— Eu esperava… — Carlos bebeu o vinho, olhando na mesa em que
o amigo estava com sua acompanhante, evito olhar novamente. — Acabei
comentando com a Paula Crisóstomo sobre nosso jantar de negócio, eu tinha
uma certa intuição que ela contaria para o Bruno. Afinal, os boatos da nova
funcionária estão a todo vapor na Lummertz Advocacia.
— Boatos?
Aquele nó continua castigando a minha garganta. Eu sabia que os
comentários poderiam começar a qualquer momento, as pessoas são
maldosas.
— Alguns advogados da Lummertz estão desconfiados que você
possa ser uma oportunista. Infelizmente alguém descobriu que você entrou
com uma ação trabalhista contra Thomas Fagundes, geralmente esses
processos são sigilosos; — Carlos ergueu os ombros, parecendo
despreocupado. — Pretendo descobrir quem está espalhando os boatos sobre
você. Bruno já está ciente de tudo, fiz questão de informá-lo sobre as
calúnias.
Sinto que meu coração vai sair pela boca a qualquer momento.
— Carlos, eu posso perder o meu emprego?
Ele afirmou com a cabeça meio sem jeito.
Eu sabia como acabaria, sou uma funcionária nova que está se
envolvendo com um dos fundadores da Lummertz Advocacia, não tenho
preparação acadêmica e não tenho experiências em escritórios de advocacia.
— Eu preciso ir até o banheiro, com licença.
— Certo, compreendo!
Levanto-me, completamente perdida.
Bruno mantinha uma conversa calma com Paula Crisóstomo, com
sorrisos e toques carinhosos. Presenciar essa cena só me causou mais
desconforto, rapidamente me afasto. No caminho pergunto a um garçom para
qual direção ficavam os banheiros, ele me auxiliou com muita educação e
profissionalismo.
Eu precisava refrescar meus pensamentos, molhar um pouco o rosto e
limpar o suor de nervosismo. Para a minha sorte eu não usei muita
maquiagem nesta noite. É normal inovar com as minhas maquiagens, mas
decidi ser mais discreta e formal.
Quando estou secando minha pele com os papéis toalhas, Paula
Crisóstomo entrou no banheiro, ela me encarou pelo reflexo do espelho.
— Você tem muita coragem… — diz com os dentes cerrados.
— Desculpa, eu não estou compreendendo.
Paula começou a rir.
— Angélica, não se faça de sonsa. Vai abrir as pernas para o Carlos
agora? Afinal, Bruno acabou te descartando, mas é normal descartar putas.
Abro a boca, sem saber como reagir às acusações.
— Bruno me contou que você foi até a Mansão, abrir as pernas como
uma simples vadia. Ele me conta tudo, sabe? Até mesmo as posições
patéticas que você ousou na cama. — Paula gargalhou. — E também revelou
que você é uma esquizofrênica que acabou surtando depois da transa…
Deus, por que as pessoas são tão cruéis?
Saí do banheiro com o meu coração e minha dignidade totalmente
despedaçados, as lágrimas chegaram como uma avalanche, embaçando minha
visão.
No corredor encontrei Carlos e Bruno discutindo exaltados, os
homens param as ofensas imediatamente quando notam minha aproximação.
— Angélica, o que aconteceu? — Indagou Carlos num tom
preocupado.
— Você pode me levar para casa; — funguei. — Por favor…
Carlos fuzilou o melhor amigo do Diabo.
— Eu vou levá-la, Angel… — Bruno deu um passo a frente, tentando
acariciar meu rosto.
— NÃO ME TOQUE; — Gritei, não sentindo vergonha ou receio,
não me importo se estamos em um estabelecimento bem frequentado e
reconhecido. Não quero o Bruno encostando um dedo no meu corpo. —
Carlos, por favor…
O homem estava completamente perdido, ele nos encarava
alternadamente.
— Bom; — pigarreou. — Acho melhor você e o Bruno… — Carlos
parou de falar, olhando com uma fisionomia assustadora em direção dos
banheiros. — Eu não demoro!
Carlos não me deixou protestar, ele caminhou decidido quando
percebeu a Paula saindo do toalete.
— Angélica; — Bruno sussurrou. — Precisamos conversar!
Ignorei, observando Carlos repreender a Paula. A mulher apenas
gargalhava enquanto Carlos esbravejava sermões como se ela fosse uma
criança.
— Você precisa me escutar, eu não queria magoá-la. Eu juro… —
praguejou um palavrão — Por favor, fale comigo…
Funguei, ainda ignorando.
— Eu fiquei com ciúmes, caralho! — Alterou a voz, fazendo meu
coração disparar. — Posso explicar, só me ouça por cinco minutos…
— Quero ir embora; — criei coragem para encará-lo nos olhos, nunca
presenciei um homem tão aflito. — Apenas me leve para minha casa!
— Certo, eu vou levá-la.
Bruno forçou um sorriso, mas ele sabia que as coisas não estavam
fáceis.
Eu não vou ceder, meu coração está magoado. Não acredito que o
Bruno contou detalhes da nossa transa para a Paula Crisóstomo lembrando
um garotinho punheteiro. Ele vai precisar de uma boa explicação, porque não
quero manter uma relação com um homem tão dissimulado.
O ADVOGADO DO DIABO
24

(Há quatro anos)

A minha vida não está doce ou suave como antes, tenho andado
distraído nas últimas semanas. Mesmo com as audiências e os prazos que
castigam a minha desatenção. Não é profissional, mas não consigo concentrar
os meus pensamentos no trabalho.
Sofía não está bem, há dias tem reclamado de dores no estômago. É
claro que já procuramos um médico que receitou apenas omeprazol todos os
dias pela manhã e principalmente em jejum. E para piorar totalmente a nossa
situação, Francinny não desistiu. Ela insiste no nosso casamento, a mulher
descobriu meu novo endereço, infernizando a minha vida incansavelmente.
Estou esgotado… Esgotado emocionalmente e fisicamente, preciso de
um pouco de paz. Um único segundo de paz!
— Senhor Alcântara; — Minha assistente entrou no escritório com
um semblante aflito. — Você tem uma visita.
— Tem hora marcada? — Minha cabeça estava doendo, não tenho
dormido bem de noite, causando-me dores irritantes próximo das têmporas.
— Acredito que não será…
A porta é aberta com agressividade, minha ex-esposa adentrou.
Francinny estava acabada, com seu rosto sem vida e pálido. Ela usava apenas
um conjunto de moletom e um tênis surrado. O cabelo preso e desgrenhado, e
os olhos marejados por lágrimas.
— QUEM É ELA? — Gritou Francinny, fazendo minha assistente
sobressaltar. — Você tem outra mulher, eu sei.
Para não perder completamente a minha razão, respirei fundo várias
vezes. Controlando a revolta que fez morada dentro do meu peito. Francinny
me traiu, dormiu com outro homem na nossa própria cama e agora está
exigindo explicações? Ela não tem um pingo de vergonha na cara ou bom
senso, qualquer pessoa aprenderia com seus erros e seguiria em frente.
— Eduarda pode chamar os seguranças? — A minha assistente saiu
praticamente correndo do escritório. Ela está com medo da minha ex-esposa
desde que Francinny tentou agredi-la no estacionamento do escritório. Ela
colocou na cabeça que Eduarda era minha amante, ficou dias perseguindo a
minha assistente. Precisei aconselhá-la a registrar um boletim de ocorrência,
só assim Francinny parou com a perseguição.
— Não ouse, Bruno. — Ela aponta para mim com as mãos trêmulas.
— Você destruiu a minha vida, olhe o meu estado… — fungou, desabando
em lágrimas.
Eu estou olhando para ela… Olhando enojado e com raiva do amor
que senti por essa mulher. Ela não valorizou a nossa família, o nosso
casamento e a vida que construímos juntos.
— Estou me humilhando há meses, fico me rastejando por você.
Bruno, todas as pessoas merecem segundas chances!
Sim, todas as pessoas estão destinadas a errar, elas podem cometer
deslizes ou caminhar por linhas tortas, mas quando seus erros acabam
machucando ou ferindo alguém, você precisa repensar as suas atitudes e não
exigir uma segunda chance.
— Francinny, eu não vou perdoá-la. Você me traiu, por favor, apenas
pare… O nosso casamento acabou.
Ela soluçou, levando a mão até a boca. Neste momento minha
assistente entrou novamente no escritório com certo receio.
— Senhor, ligação da escola Sagrado Coração no ramal dois.
Eu assenti com a cabeça, atendendo a ligação.
— Alô, Bruno Alcântara…
“Senhor Bruno, aqui é diretora do Colégio Sagrado Coração.
Infelizmente não tenho uma boa notícia, a Sofía acabou desmaiando no
corredor…”
— Meu Deus, ela está bem?
“Sim, ela já está recuperando a consciência. Mas está reclamando de
dores intensas no estômago”
Droga, perdi a noção do tempo. Eu só pensava na minha irmã, não sei
em qual momento desliguei a ligação, saí do escritório às pressas. Eu só
queria saber como estava a minha filha, os meus pensamentos ficaram
totalmente nublados.
— Bruno o que está acontecendo? — Francinny correu atrás de mim
até o elevador. — Por favor; — suplicou, segurando no braço. — Aconteceu
alguma coisa com a Sofía?
Percebi a preocupação da minha ex-esposa, ela me encarava assustada
e um pouco perturbada.
— Ela não está bem, há dias tem reclamado de dores no estômago…
— Você a levou no médico? — corta-me, estalando os dedos
completamente agoniada.
— É claro que a levei em um médico, ele receitou omeprazol, ela está
tomando todos os dias em jejum.
— Se ela está doente, você nem deveria mandá-la para escola. —
Francinny passou as mãos trêmulas no rosto. Eu conheço minha ex-mulher,
ela está se controlando para não me xingar de irresponsável. Era sempre
assim quando Sofía ficava doente, Francinny me culpava por qualquer
resfriado.
— Sofía me garantiu que estava melhor e as dores tinham parado, por
esse motivo foi para a Escola; — Expliquei, apertando o botão do elevador.
— Ela está em época de provas, não pode faltar em muitas matérias.
A porta do elevador abriu… Três seguranças saíram, prontos para
arrastar a Francinny para fora do meu escritório.
— Esperem; — Eu só posso estar louco, porque estou parando os
seguranças. Francinny está desequilibrada, mas não quero enfrentar os
hospitais e os médicos sozinho. — Não será necessário!
Os três homens concordam, abrindo espaço para entrarmos no
elevador.
Minha ex-mulher ganhou um brilho diferente no rosto, como se
estivesse sentindo esperança. Pretendo evitar qualquer tipo de expectativa,
não vamos reatar nosso casamento. No entanto, preciso de ajuda…

Francinny me acompanhou até o hospital, ela mal conversou comigo


no trajeto, só tentava acalmar a minha irmãzinha que gemia de dor.
Quando chegamos no hospital, Sofía foi atendida rapidamente, um
aglomerado de enfermeiras e médicos ficam ao redor da sua maca hospitalar,
enquanto a minha irmã gritava de dor.
Liguei pra minha mãe para informá-la sobre estado de saúde da
própria filha. E pela primeira vez - em 11 anos - ela se importou, até pediu a
localização do hospital.
Francinny continuava sentada no banco de espera, ela balançava a
perna freneticamente.
Foram horas esperando.
Foram horas angustiantes.
Até que um médico de plantão decidiu conversar conosco. Eu
controlei meu nervosismo, pode ser apenas uma intoxicação alimentar ou
gastrite.
O médico nos guiou até seu consultório, ele foi muito educado e
atencioso, mas o seu olhar… Não havia nada bondoso, era um olhar
entristecido que me causou náuseas terríveis, uma sensação estranha de
perda.
O médico respirou fundo, sentou-se na sua cadeira.
— Infelizmente não tenho boas notícias.
Acho que esqueci como respirar.
— Doutor, qual é o problema? — Francinny indagou com sua voz
trêmula.
— Sofía Alcântara passou por uma bateria de exames, ela está fraca e
com anemia…
— Por favor, pode ir direto ao ponto. — Não controlei meu desespero
e medo.
— Sofía está com câncer. Um câncer gástrico, a doença em pessoas
novas como no caso da Sofía, é extremamente raro.
— Não; — comecei a rir, negando qualquer diagnóstico de câncer. —
Ela só tem 11 anos, é uma criança perfeita que está com uma dorzinha no
estômago. A minha irmã não está com câncer.
O médico olha-me com pesar. Ele pegou prontuário da minha irmã,
contendo os resultados dos exames.
— Situações como da Sofía são delicadas, o seu tumor é provocado
por uma mutação genética, é raríssimo em uma criança de 11 anos.
Normalmente afeta homens, por volta dos 70 anos, devido a fatores como
tabagismo, grande ingestão de alimentos e inflamações bacterianas. —
Entrega-me o prontuário, mal conseguia olhar os resultados dos exames,
porque as lágrimas já estavam embaçando a minha visão. — As chances de
cura são de 95%, em estágios menos avançados.
— Em qual estágio ela está? — Perguntou Francinny, eu não queria
saber…
— Infelizmente, ela já está no estágio três.
Você já sentiu uma dor tão dilacerante ao ponto de não conseguir
respirar?
Eu senti meu mundo desabar completamente, eu não poderia viver
sem minha irmã.
Sofía é minha única felicidade.
Ela me faz ter fé, me faz acreditar em Anjos ou na bondade. Minha
irmã é uma aquarela nesse mundo fodido e cheio de dor, não posso perdê-la.
ANJO CELESTIAL
25

Infelizmente a traição traz consigo muitos tormentos e pensamentos


contraditórios. A traição muda sua maneira de enxergar o mundo, faz você
ignorar todos os sentimentos genuínos que o destino lhe traz.
Dói muito, eu consigo imaginar.
No entanto, você não pode causar danos às outras pessoas só porque
foi machucado no passado. Ninguém se cura ou esquece as tristezas e as
traições, ferindo o próximo.
Não podemos apagar nossos sofrimentos, mas podemos lutar para que
as más recordações não interfiram nas nossas vidas e escolhas. Bruno precisa
arriscar, ele precisa assumir os seus sentimentos, sem medo de se ferir
novamente. O medo impede qualquer homem ou mulher de encontrar a
felicidade.
Após meu jantar desastroso com Carlos Solano, Bruno manteve-se
calado no trajeto até a minha casa.
Ele confessou que sentiu ciúmes, mesmo não querendo se envolver
intensamente com uma mulher, Bruno acabou permitindo que o ciúme
cegasse a sua razão.
Comecei a rir, sou mesmo patética. Bruno é amante da Paula, ele
praticamente me ignorou no Terraço Itália. E agora… Estou dentro da sua
picape, buscando justificativas para o seu comportamento deprimente.
— Angel; — Murmurou, despertando-me dos meus pensamentos. —
Eu queria me desculpar…
— Por me ignorar ou por contar sobre a nossa transa para a Paula
Crisóstomo? — Não consegui controlar a raiva no meu tom de voz.
— Eu não sei o que ela falou para você dentro daquele banheiro, mas
posso garantir que é mentira. — Bruno mudou a direção que estávamos
seguindo, saindo da avenida principal que levava até meu bairro.
— Para onde estamos indo?
— Quero conversar com você, em particular e de preferência em um
lugar tranquilo. — Ele olha-me por alguns segundos.
Eu apenas concordei com a cabeça.
O clima entre nós dois continuava pesado. Eu não quero me exaltar,
não sou uma pessoa agressiva que acaba extrapolando com as palavras, não é
da minha índole tal comportamento. No entanto, estou muito magoada, só
queria evitar essa conversa.
— Droga; — Bruno estacionou o carro no encostamento de uma rua
com o fluxo de carros moderado. — Por que você não me contou sobre o
jantar com o Carlos?
A pergunta me pegou desprevenida.
— Você foi um cretino, Bruno. — Digo, com minha garganta
oscilando. — Transamos na noite anterior…
— Eu já me desculpei; — Interrompa-me. — Almoçamos juntos,
ficamos uma hora conversando no restaurante. Você deveria ter me contado
sobre o jantar, falar a verdade constrói uma boa relação. A verdade é a base
de toda confiança e respeito… — Ele hesita, respirando fundo.
Eu posso compreender certas atitudes dele, depois de uma traição tão
dolorosa acabamos valorizando qualquer palavra sincera e verdadeira. Bruno
Alcântara pode ter um coração de gelo, mas tem integridade. É um homem
com valores e princípios admiráveis, quando ele me salvou no
estacionamento e me acompanhou até a delegacia, pude conhecer um pouco
do homem justo e íntegro. Porém, não podemos nos enganar, somos adultos e
sabemos que nosso envolvimento não está correto, chegou a hora de jogar as
cartas na mesa.
— Você falou que a verdade é a base de toda confiança e respeito…
— Bruno assentiu, mantendo um semblante calmo. — Eu não contei sobre
meu jantar com Carlos Solano, porque você deixou claro as suas intenções, é
apenas sexo casual, lembra-se? Não será necessário explicações, não somos
um casal e acredito que nunca vamos ser!
— Certo, eu entendi. — Bruno ligou a picape novamente. Ele não
voltou a me questionar ou exigir explicações.
Eu não estou errada, não somos um casal. Não posso exigir uma
satisfação sobre a Paula, mesmo sentindo uma pontada de ciúmes. É uma
questão de bom senso, precisamos manter a maturidade nessas ocasiões, às
vezes vai machucar, vai doer e castigar o nosso coração.
Não podemos obrigar alguém a nos amar da maneira que desejamos.

Meus dias na Lummertz Advocacia foram normais. A Paula


Crisóstomo me ignorava, e a minha indiferença era a mesma. Não fazia
questão de cumprimentá-la, ignorava a mulher a maior parte do tempo.
Carlos evitou falar sobre o nosso jantar, eu também não queria relembrar da
minha “pequena” humilhação no restaurante.
Na sexta-feira Carlos participou de uma reunião, meu coração
acelerou quando ouvi o nome do Bruno no meio das conversas exaltadas dos
Advogados. Eu não queria sentir essa alegria avassaladora em saber que ele
poderia chegar a qualquer momento. O meu coração estava me sabotando,
meu corpo e meus pensamentos estão me sabotando. Eu amava a ideia de
encontrá-lo, meus dias estão monótonos sem o Bruno por perto.
Quando saio para almoçar, o meu maior desejo é vê-lo parado
próximo do elevador, aguardando para me acompanhar até o restaurante com
a melhor culinária mineira de São Paulo.
Na verdade, eu sentia falta dele.
Minha esperança era vê-lo e quem sabe… dizer que estou querendo
arriscar, esquecer nossas discussões bobas e senti-lo em cada pedacinho do
meu corpo.
— Com licença; — Uma moça adentrou a sala de reunião. — O
Senhor Alcântara não participará da Reunião!
Todos ficaram trocando olhares confusos.
Foi Carlos Solano quem tomou a iniciativa de ligar para o Bruno,
após alguns minutos conversando com o advogado do Diabo, ele anunciou:
— Bruno precisou fazer uma viagem de última hora para o Rio de
Janeiro. Não me informou quando vai retornar.
Meu coração começou disparar.
Fiquei nervosa com a notícia da viagem inesperada, mas meus
pensamentos negativos são substituídos pelas ordens do Carlos.
A Reunião foi complicada, alguns advogados da Lummertz estão
seguindo um caminho fraudulento que foge completamente da ética e normas
do escritório. Os advogados serão demitidos e denunciados, junto com os
funcionários que estão agindo de uma maneira suspeita.
Respirei aliviada quando a reunião terminou. Eu só queria pegar a
minha bolsa e passar no Centro Espírita buscar um pouco de orientação.
— Angélica; — Carlos aproxima-se, ele analisou meu perfil por
alguns segundos com o cenho franzido. — Você e o Bruno estão bem?
Mordi meu lábio inferior, negando com a cabeça.
Eu queria estar bem com ele, mas deixamos nossa insegurança e
desconfiança acabar com tudo.
— Meu amigo não é uma pessoa fácil. — Continuou Carlos. — Ele é
um homem desconfiado, que passou por grandes perdas e dores.
— Eu compreendo algumas atitudes do Bruno; — Falei baixinho. —
Não queria desistir tão fácil.
— É só não desistir, Bruno vai voltar… — Carlos segurou na minha
mão, não foi um toque malicioso no meu ponto de vista, foi apenas um gesto
carinhoso. Carlos deu leves batidinhas no dorso da minha mão, ressaltando:
— Ele gosta de você, só está com medo de sentir e amar novamente.
Minha garganta queimou por causa das lágrimas que queriam dominar
minhas emoções. Carlos tem razão, Bruno tem medo de relacionamentos, tem
medo de sentir e principalmente acreditar nas pessoas novamente.
— Felizmente, sou uma mulher paciente…
Carlos sorriu de leve, afirmando sutilmente com a cabeça.
— É de uma mulher como você que o Bruno precisa.
Sabe aquela sensação que tudo vai terminar bem? Aquele sentimento
de esperança que surge de repente? Então, estou me agarrando nessas
sensações!
A esperança gosta de chegar quando tudo está desmoronando, quando
estamos perdendo um amor ou até mesmo a fé. Ela chega para nos manter
fortes e confiantes.
Eu vou esperá-lo… Porque sou a única que consegue decifrar as suas
tristezas, entender as suas desconfianças e principalmente amá-lo com todo
meu coração.
O ADVOGADO DO DIABO
26

Eu deveria imaginar que acabaria assim.


Angélica tem total razão, não somos um casal. Não há motivos para
criar uma cena de ciúmes, para correr atrás da mulher feito um garotinho
apaixonado.
Sou um homem adulto, que passou por grandes tormentos, tenho
ciência do quanto essas relações intensas e rápidas são perigosas. No
momento meu afastamento da Lummertz Advocacia é compreensível,
Angélica precisa do trabalho e meu desejo por ela está causando transtornos
para ambos.
Meu comportamento foi deprimente, convidar a Paula Crisóstomo
para me acompanhar até o Terraço Itália foi um erro que não vou cometer
novamente. Eu tinha noção do quanto meu envolvimento com a Angélica
estava incomodando a Paula. Carlos decidiu abrir a sua boca grande e
inconveniente para espalhar boatos do meu suposto namoro pela Lummertz
Advocacia, em menos de um dia todos estavam comentando sobre meu
pseudo relacionamento. É claro que minha chegada inesperada de mãos dadas
com a Angélica Amaral contribuiu um pouco, mas foi a Paula quem espalhou
os boatos caluniosos, tenho certeza que meu amigo não falou mal da
Angélica, ele resolveu tramar um plano só para me causar ciúmes e provar
que meus sentimentos pela Anja de cabelos cacheados são verdadeiros.
Carlos Solano é um amigo leal, que às vezes cria situações
embaraçosas para comprovar que está realmente certo. E não posso negar,
estou realmente atraído pela Angélica, estou enlouquecido por um desejo que
não consigo controlar. É por esse motivo que decidi viajar até o Rio de
Janeiro e aproveitar os últimos dias da semana em um hotel na Copacabana.
Voltei apenas na terça-feira com meus prazos estourando, com
clientes neuróticos e audiências remarcadas.
Quando cheguei no meu escritório principal no centro da cidade, um
caso intrigante estava me aguardando. Havia uma mulher na sala de recepção,
ela tinha uma ótima aparência e um vestuário formal. Pelas jóias e anéis de
diamantes percebi que fazia parte da Elite do nosso País.
Uma das minhas assistentes explicou que a mulher estava tentando
marcar um horário há semanas, como a minha agenda jurídica está
completamente pesada neste mês, ela decidiu ajudá-la… O nome da mulher é
Heloísa Marcondes. Esposa de um Senador pedófilo que me procurou há um
ano, mas não concordou com meus honorários.
A mulher entrou no meu escritório demonstrando nervosismo, ela
reparou no ambiente amplo e luxuoso, depois fixou seu olhar no pequeno bar
que havia próximo das minhas estantes de livros.
— Gostaria de uma dose de uísque?
A mulher riu sem jeito, mas concordou com a cabeça. Após preparar
nossas bebidas, aconselho a mulher a sentar-se na poltrona e ofereci o copo
de uísque a ela.
Heloísa ficou analisando o líquido dentro do copo por alguns
segundos antes de falar:
— Quero colocar meu marido na prisão. Ele estuprou minha neta de
apenas 8 anos.
A revelação não me chocou.
O Senador Marcondes já foi acusado de abuso infantil, mesmo com
todas as acusações o homem acabou eleito.
— Senhora Heloísa, meus honorários não são acessíveis. Atuo em
casos de muita exposição na mídia, principalmente quando um político é
acusado de estupro ou pedofilia.
A mulher agita-se, ficando de pé.
— Eu estou disposta a pagar, você é o advogado do Diabo. Sabe lidar
com uma imprensa agressiva e maldosa, não quero minha neta exposta. Por
favor… — Os olhos da mulher enchem-se de lágrimas. — Filmei tudo, tenho
as gravações.
— Primeiramente, você precisa procurar uma delegacia, após
denunciar o pedófilo para a polícia, você pode me procurar!
— Não quero expor a minha neta, uma denúncia pode prejudicar a
saúde mental dela. — Diz aflita.
A criança com certeza já está com a sua saúde mental abalada,
sofrendo abusos do próprio avô.
— Como você já conseguiu reunir todas as provas, precisa denunciar.
A polícia vai ajudar, a criança não será exposta. Eu posso garantir que o
Senador Marcondes ficará preso, vou contribuir com todo meu conhecimento
e competência no caso.
— Eu não consigo, tenho medo e se ele…
— Não se preocupe, eu vou acompanhar a senhora até a delegacia. —
A mulher olha-me aliviada, desabando em lágrimas em seguida.
O Mundo está podre. As pessoas estão destinadas ao sofrimento, não
podemos negar.
Acompanhei a mulher até a delegacia, aconselhando no que era
necessário. Após horas de interrogatórios e explicações, a polícia entrou em
ação…

A minha manhã como esperado foi muito conturbada. Heloísa


Marcondes seguiu a polícia até um Edifício de luxo no centro da cidade.
Agora só preciso aguardar os noticiários, os podres dos políticos sempre são
divulgados na mídia.
Eles não se importam com as famílias, artigos e notícias de políticos
são acessados a todo momento, principalmente notícias do novo governo. Os
grandes jornais aproveitam para ganhar visualização e grandes índices de
audiência. A mídia não gosta de jogar limpo, eles fazem pré-julgamentos sem
pensar nas consequências. É essencial um desempenho psicológico
ponderado nesses casos, um advogado necessita de atenção, serenidade e
principalmente de muito profissionalismo.
No horário de almoço frequentei o mesmo restaurante próximo da
Lummertz Advocacia, evitando passar em frente do escritório, não quero
esbarrar com a Angélica. É melhor evitar um encontro com a mulher que
mexeu com minha cabeça, me fazendo perder a razão devido a um ciúme
besta.
Quando entrei, fui bem atendido como sempre. Um dos garçons me
acompanhou até a mesa, oferecendo o menu. Tudo estava tranquilo, eu estava
tranquilo até notar uma moça de cabelos cacheados… Só pode ser
brincadeira!
Angélica estava sozinha em uma mesa, a mulher mantinha uma
péssima fisionomia. Os cachos estão soltos, livres e lindos como sempre, mas
seu rosto está sem vida, um olhar caído e entristecido.
— Inferno! — O que essa mulher está fazendo aqui?
O garçom me olhou assustado.
— Desculpe, Senhor. Tem alguma coisa errada com o menu?
— Não, eu gostaria de outra mesa… — olhei para os lados
procurando uma forma de fugir dela, não quero encarar a mulher que está
modificando minha vida. — Uma mesa em uma das salas reservadas.
— Vou providenciar. — O rapaz girou pelos calcanhares, pronto para
disponibilizar a melhor mesa do restaurante, mas já era tarde demais…
Quando voltei meu olhar na direção da mulher, fiquei paralisado. Angélica
estava me observando, com aqueles olhos-verdes fascinantes. Ela sorriu de
uma maneira tão genuína que senti meu corpo estremecer, era como estar no
topo de uma montanha-russa.
Essa mulher é especial, muito especial.
Angélica levantou-se e caminhou decidida até a mesa que estou
sentado. Continuei parado, sem esboçar nenhuma emoção. Porém, todo meu
corpo está tremendo, até minha respiração ficou intensa.
— Bruno; — ela diz meu nome como uma canção sedutora, como um
canto de uma sereia. — Eu estava preocupada; — puxou a cadeira, sentando-
se sem ao menos ser convidada. Eu queria evitar qualquer conversa com ela,
qualquer encontro e agora Angélica Amaral está sentada bem na minha
frente. — Você sumiu, Carlos explicou que você precisou fazer uma viagem
de última hora, mas mesmo assim fiquei nervosa e aflita.
— Aflita? — Ri com escárnio. — Angélica, você mesma jogou as
cartas na mesa, não há motivos ou razões para ficar aflita.
— Eu estava errada, sobre tudo… senti a sua falta!
As palavras dela me acertam em cheio, porque no fundo desejava
estar com ela, fazendo Angélica gemer e gritar meu nome enquanto fodo a
sua buceta… Maldição! O meu desejo está cegando a minha razão
novamente.
— A nossa discussão foi desnecessária, meu jantar com Carlos foi
desnecessário e sua chegada com a Paula no Terraço Itália também.
Fiquei calado. Reconheço meus erros, só não gosto de ficar
relembrando a todo momento.
— Eu senti a sua falta nesses últimos dias, eu queria conversar com
você, queria almoçar com você e principalmente estar ao seu lado, só para
sentir o aroma do seu perfume ou o toque das suas mãos; — cortou contato
visual — Você deixou claro as suas intenções, eu sei… é apenas sexo, mas
não me importo.
Queria dizer a ela o quanto me importo, Angélica vai acabar magoada
ou ela pode me magoar. É um risco que não estou a fim de correr. Nós dois
nos conhecemos há poucas semanas, mesmo vivendo momentos intensos e
inexplicáveis, não posso concordar com seus argumentos.
— Angel…
— Senhor; — O Garçom interrompeu. — Tem uma mesa disponível,
pode me acompanhar?
Droga, não quero ser rude ou demonstrar totalmente meu incômodo,
mas pretendo almoçar sozinho.
— Você já almoçou? — Indaguei.
Angélica negou com um sorriso retraído.
— Estou sem fome, só bebi um pouco de suco; — olhou no relógio de
pulso. — Meu horário de almoço já está acabando, eu preciso trabalhar. Vejo
você na Lummertz?
— Não, minha agenda jurídica está corrida nesta semana. Vou deixar
a Lummertz Advocacia nas mãos do Carlos.
Foi notório a decepção no olhar da mulher.
É melhor assim, não podemos insistir em um envolvimento que só
nos causou transtornos.
— Entendo, você pode me ligar?
Novamente sinto aquela sensação de calafrios no corpo, uma vontade
louca de tocá-la.
— Angélica; — Respirei fundo. Eu precisava ser honesto, mesmo
sentindo meu corpo, meu desejo e todos os meus sentidos implorando por ela.
O sofrimento será inevitável, estou marcado pela dor e pela desconfiança.
Não posso sustentar um desejo insano, porque no fim é apenas sexo. — Eu e
você, nós dois… não vai acontecer novamente.
Angélica ficou inerte.
Ela piscou várias vezes quando as lágrimas começam se acumular nos
seus olhos.
— Sinto muito! — Digo, me odiando. Eu queria amá-la, eu queria
seguir em frente sem pensar nas dores que carrego, mas não consigo.
— Entendo; — Diz com a voz falha. — Desculpa importuná-lo.
Quando Angélica se levantou, minha vontade era gritar meus reais
medos.
Honestamente? Eu sou um grande covarde!
Vou almoçar ou tentar almoçar, depois desse encontro inesperado
perdi completamente meu apetite. Tenho certeza que a Anja de cabelos
cacheados vai estar nos meus pensamentos a todo instante.
— MEU DEUS! — O grito de uma mulher me faz sobressaltar na
cadeira, imediatamente olhei na direção dos gritos histéricos e notei uma
pequena multidão se formando ao redor de alguém que está caído no chão.
O garçom que há poucos minutos havia me entregado o menu e me
atendido com educação, correu até a minha mesa. O rapaz mantinha uma
expressão preocupada no rosto. Os maus pressentimentos chegaram, aquelas
sensações que fazem estremecer até os ossos. Quando a Sofía ficou doente,
os pressentimentos ruins estavam presentes a cada batida do meu coração,
principalmente quando começou a luta contra o câncer que matou a minha
irmã. E agora… Os pressentimentos voltaram como uma bomba lançada para
destruir vidas.
— Com Licença; — disse aflito. — A moça que estava
acompanhando o Senhor…
Angélica?
Não… Por favor, não…
Uma onda de angústia e desolação percorreu cada músculo do meu
corpo. O desespero foi implacável, fazendo minha cabeça pulsar com uma
dor dilacerante.
Eu corri até a pequena multidão, derrubando as cadeiras e empurrando
quem ficasse na minha frente.
Angélica estava caída no chão, desacordada.
— Angel, acorde.
Com cuidado tentei despertá-la, acariciando o seu rosto… Puta
Merda, a mulher estava queimando de febre.
— Precisamos ligar para a Emergência; — Comentou uma Senhora.
— A moça não está bem.
A peguei no colo, levantando Angélica do chão gelado e
desconfortável.
— Eu posso levá-la até um hospital. Ela é a minha… — as palavras
ficam presas.
— Namorada? — Completou a Senhora.
— Mais ou menos. — Respondi, observando a pele pálida da mulher
que bagunçou meus pensamentos, meu coração e minha vida.
ANJO CELESTIAL
27

Acordei em uma cama de hospital.


Eu deveria ter ouvido a minha tia quando ela me alertou sobre minha
suposta reação alérgica. Acabei descuidando da minha saúde, só pensando no
meu trabalho e no melhor amigo do Diabo.
É como aquelas sátiras engraçadas que lemos em revistas ou em
jornais, elas são hilárias porque são impossíveis de acontecer. Exatamente
como eu e o Bruno.
Somos impossíveis.
Entretanto, existe algo que nos prende, que liga o nosso destino,
impossibilitando qualquer afastamento.
O espírito da garota está buscando ajuda de um guia-espiritual. Na
sexta-feira após o término do meu expediente, fui direto até o Centro Espírita
Caminho da Rosa Azul, recebi meus passes e conversei com a Luana, uma
médium muito querida do centro em que frequento. Ela explicou que os
médiuns estão possibilitando uma passagem tranquila para a alma da garota,
mas ela está fazendo algumas exigências.
Alguns espíritos ficam presos nas emoções inferiores, como rancor,
mágoa e vingança. Negando seguir para o plano espiritual, eles podem tentar
prejudicar as pessoas que estão ligados e também existem os espíritos que
frequentemente ficam presos à Terra por amar intensamente um familiar.
Como uma mãe que ama muito um filho e não quer deixá-lo sozinho depois
da sua partida ou uma irmã que está lutando para curar as dores do irmão
mais velho.
Luana não contou quais foram as exigências do espírito, mas garantiu
que no fim as surpresas serão milagrosas e belíssimas. Eu acreditei, mantive
meus pensamentos em Deus e nas mensagens de bondade que a doutrina
espírita sempre me passou.
Quando cheguei em casa o pior aconteceu, senti uma dor de cabeça
muito forte e depois os espirros. Pensei que poderia ser a minha rinite dando
ar da sua “graça”, mas no sábado a minha garganta começou a incomodar
valendo, no domingo a febre chegou. E agora… estou sentada na cama de um
hospital, um ambiente muito chique.
A sala era espaçosa, havia dois sofás confortáveis de couro branco.
Uma mesa de centro, com várias revistas em cima. Reparei também nas
luminárias requintadas e com toque vintage, alguns quadros de paisagens
românticas ganhavam destaque nas paredes de tons claros. Uma belíssima
televisão de última geração está presa em um suporte embutido na parede e
alguns balcões.
O meu coração acelerou quando percebo um belo buquê de rosas-
amarelas, iluminando o quarto com sua beleza, trazendo um ar de alegria e
companheirismo.
Como é possível?
Minha tia não tem dinheiro para pagar um quarto particular deste
nível, com certeza estou em um hospital privado.
Eu fiquei sentada na cama por longos minutos, com os soros presos
nas minhas veias.
Minha cabeça ainda doía, mas sentia que a febre já não estava
castigando o meu corpo.
A porta do quarto se abriu, Bruno Alcântara adentrou carregando
várias sacolas plásticas.
O homem ficou completamente estagnado quando me viu sentada na
cama. E minha reação? Bom, era um misto de alegria, vergonha e raiva.
Ele me deu um fora no restaurante…
Agora estou me lembrando. Eu falei do quanto senti a sua falta,
revelei meus sinceros sentimentos e depois… Bruno terminou com um
grande “sinto muito”.
Não, você está errado. Você não sente muito… Quem sente tudo,
entregando totalmente o seu coração, sou eu! Mesmo presenciando a sua
rejeição não consigo deixar de sentir aquela ligação, aquela vontade de estar
com ele a todo momento.
— Você está melhor? — Indagou com certo receio.
Ignorei a pergunta, desviando o olhar para o soro hospitalar preso no
suporte.
Bruno pigarreou.
— A sua tia ligou… — emendou, aproximando-se. — Ela ligou no
seu celular, acabei atendendo. Fani ficou muito preocupada, ela só não está
no hospital porque não tem com quem deixar a Valentina.
Respirei aliviada só de ouvir o nome da minha tia e da minha
priminha.
— Obrigada! — Quando abri a boca e minha voz saiu, senti uma dor
dilacerante na garganta, principalmente quando engoli a saliva. Fiz uma
careta horrível de dor.
Bruno franziu o cenho, pousando as sacolas em cima dos balcões.
— Você não está bem, está com as amígdalas inflamadas. Poderia
ficar até sem voz por semanas se não tratasse a infecção; — ele abriu as
sacolas. — Eu trouxe comida, as refeições dos hospitais não são elogiadas.
Então, comprei uma sopa em um restaurante próximo do hospital. Você
precisa comer antes do médico liberá-la.
Ele começou a procurar algo dentro dos balcões. Depois de alguns
segundos, Bruno encontrou uma bandeja comum de hospitais.
— Como você sabia que havia uma bandeja dentro dos balcões? —
Minha voz saiu rouca e a minha garganta… Que Deus tenha misericórdia!
Bruno olha-me com um brilho afetuoso nos olhos castanhos.
— Minha irmãzinha ficou internada neste hospital quando começou o
tratamento contra o câncer.
Câncer? Não posso acreditar. A irmãzinha do Bruno enfrentou um
câncer?
— Eu sinto muito, você não deveria me trazer aqui, esse lugar não
traz boas lembranças.
Ele ficou calado, apenas arrumou a bandeja.
Bruno tinha uma agilidade impressionante, ele sabia o que estava
fazendo porque passou uma boa parte do seu tempo dentro de um hospital
preparando várias bandejas de comida para a irmã.
Tudo estava tão claro agora…
Meu coração doeu, meu peito se apertou e por um momento senti uma
sensação de perda incontrolável. As lágrimas chegaram como uma
tempestade, meus soluços eram cheios de sentimentos. Eu só queria afastar a
dor dele, porque também me machucava.
— Angel; — Bruno rapidamente me amparou. — Está tudo bem, não
precisa chorar… — limpou as minhas lágrimas com carinho. — Ei, calma…
— Por que você não me contou?
— É uma fase da minha vida que não gosto de relembrar. Foi difícil e
doloroso, apesar dos anos ainda sofro e não superei a perda dela. É melhor
não falar de acontecimentos que continuam machucando.
— Bruno; — meus lábios inferiores tremem. — Eu estou apaixonada
por você!
Às vezes é necessário libertar nossas paixões, abrir nosso coração sem
medo. O amor tem caminhos espinhosos, mas também nos permite voar para
vencer certos obstáculos.
Não vou desistir.
— Angel, você não pode me amar; — ele diz num tom calmo. — Eu
sou um homem muito complicado e não mereço uma mulher como você!
— Está errado; — sorri, deslizando minha mão na sua barba por
fazer, contornando os lábios com carinho. Bruno fechou os olhos para
saborear meu toque. — Você merece um amor bom, merece ser amado, não
permita que o medo te impeça de ser feliz. Você merece uma história nova e
esquecer os capítulos dolorosos do passado.
— Minha Anja; — ele murmurou, abrindo os belos olhos castanhos
para me encarar com intensidade. — Eu não quero te machucar.
— Você não vai!
Bruno meneou a cabeça, umedecendo os lábios com a língua. Ele
segurou no meu rosto, puxando-me para mais perto, roçando os seus lábios
no canto da minha boca.
— Acho…
A porta do quarto é aberta.
Bruno imediatamente se afastou.
Um médico sorridente e com uma estatura baixa chegou para
atrapalhar meu momento romântico.
— Boa tarde; — disse. — Meu nome é Leonardo.
O médico ficou quase uma hora no meu quarto, falando dos
resultados os meus exames (que estão todos ótimos), receitando antibióticos,
analgésicos e vitaminas para melhorar minha imunidade. Chamou uma
enfermeira para tirar o soro do meu braço, depois me entregou um atestado
médico de oito dias, eu quase surtei na cama:
— Eu não posso ficar sem trabalhar; — minha garganta ardeu, me
alertando que a infecção não vai parar de me castigar. Droga, estou péssima
para trabalhar e mesmo assim protestei: — Eu tenho boletos no final do mês.
— Angel, todas as pessoas têm boletos no final do mês. Eu sou um
dos fundadores da Lummertz Advocacia, priorizamos a saúde dos nossos
funcionários; — ele cruzou os braços — Você não vai trabalhar com uma
infecção grave na garganta!
— Vou sim. — Respondi convicta.
— Não vai!
— É claro que… — novamente a dor impossibilitou a minha fala.
— Você me ama mesmo?
As minhas bochechas esquentam de vergonha.
A enfermeira ficava observando nossa interação com um sorriso
amistoso no rosto.
— É claro que eu te amo… — Estou quase ficando rouca.
— Então, você vai descansar e se recuperar. Depois pode trabalhar o
quanto quiser na Lummertz Advocacia. — Bruno foi até o balcão pegou a
bandeja e me entregou. — Coma, não pode tomar antibióticos fortíssimos
com o estômago vazio. Se você me ama realmente, vai se cuidar e me deixar
cuidar de você.
— Como assim?
Bruno sorriu, me ajudando com a bandeja pesada quando tentei pegar
a tigela de sopa.
— Você vai ficar na minha casa até se recuperar totalmente.
— O QUÊ?
Aí que dor…
— Sem dramas, Angélica. Agora pense na sua saúde.
— Bruno, eu não posso ficar na sua casa; — "Casa" é eufemismo para
aquela propriedade. É uma mansão gigantesca e belíssima. — Minha tia Fani
pode ficar preocupada…
— Não se preocupe, convenço a Dona Fani com meu charme; —
lança uma piscadela presunçosa. — Estamos decididos!
— Não estamos, não!
Eu não posso e não quero ficar na Mansão do Bruno, tenho a minha
própria casa e vou me sentir mais à vontade no meu lar.
ANJO CELESTIAL
28

— Que Mansão maravilhosa; — Disse minha tia Fani totalmente


eufórica. A mulher ficou em êxtase com a beleza da Mansão. — Bruno é tão
gentil.
Forcei um sorriso.
Sim, Bruno está agindo gentilmente, me surpreendendo a maior parte
do tempo.
Quando o médico me liberou, Bruno Alcântara usou toda a sua
determinação para me convencer que ficar na Mansão era adequado.
Apesar dos meus protestos e reclamações, aqui estou eu… deitada na
cama do advogado do Diabo.
— Tia Fani, ficar na Mansão não é apropriado.
Minha tia como sempre rejeitou a minha opinião. Ela acredita
devotamente que minha história de amor é real.
— É uma grande besteira, você só precisa conhecer o ambiente, se
entrosar com as funcionárias e se familiarizar com os cômodos. É uma
questão de tempo.
— Vou ficar aqui até me recuperar, em dois dias estarei ótima e
depois volto para a nossa casa.
— Você recebeu um atestado de oito dias, ficará na Mansão até
terminar o tratamento com o antibiótico. — Diz altiva. — Angel, cuidar da
saúde é primordial, não comece a pensar bobagens.
— Não sou eu quem está pensando bobagens, tenho certeza que está
criando cenas inimagináveis na sua cabecinha.
Ela bufou, cruzando os braços.
— Eu só quero o melhor para você. E desde quando pensar na
felicidade da minha sobrinha preferida é bobagem? — aproxima-se, sentando
ao meu lado na cama. — Você e o Bruno são perfeitos juntos.
Mordi meu lábio inferior, ainda sinto uma insegurança, mesmo me
declarando e revelando meus sentimentos mais verdadeiros.
— Eu gosto dele; — confesso. — Mas não é recíproco.
— Não é? — soltou uma gargalhada. — Angel, ele trouxe café na
cama para você. Bruno foi me buscar e no caminho só fez perguntas sobre
você.
— Ele perguntou sobre mim?
Minha tia aquiesceu, completando:
— Ele perguntou sobre os seus antigos namorados e também sobre a
morte dos seus pais.
Engulo em seco.
As borboletas no meu estômago começam a dançar em um ritmo
alegre e angustiante.
Perguntar sobre meus ex-namorados é normal, quando estamos em
um relacionamento com outra pessoa a curiosidade prevalece. Queremos
saber um pouco sobre os amores antigos do nosso novo affair. No entanto,
perguntar sobre a morte dos meus pais é um pouco estranho. Bruno ainda está
imerso no luto e não consegue superar a perda da irmã.
— O que ele perguntou?
— Bruno queria saber mais detalhes da morte dos seus pais. Angel,
meu amor… — Suspirou, olhando-me com carinho. — Contei como
aconteceu o acidente.
Minha garganta queimou.
A Doutrina Espírita me ajudou, curou a minha dor. No entanto,
sempre penso em como seria a minha vida se meus pais estivessem vivos.
Penso nas escolhas erradas do meu pai. E se ele não tivesse bebido até encher
a cara? E se ele não tivesse dirigido alcoolizado? Como seria meus dias com
eles?
— Você e o Bruno enfrentaram a mesma dor. Angel, você tem um
dom único. Use-o para ajudar aquele que seu coração ama; — minha tia
depositou um beijo amoroso na minha testa. — Eu te amo muito, mas preciso
ir.
— Tudo bem; — Olhei no relógio. — Já está na hora de buscar a
Valentina.
Ela assentiu com um sorriso no rosto.
— Pretendo voltar na sexta-feira, vou trazer a Valentina.
— Será maravilhoso, tia. Não sei como vou ficar oito dias sem a
minha priminha.
— Você vai sobreviver; — gesticulou ao redor, mostrando o quarto
luxuoso. — Aproveite o atestado médico para curtir os momentos ao lado de
um Advogado bonitão.
— Tia Fani… — Gargalhei.
— Amo você!
Ela saiu do quarto deixando para trás a sua energia contagiante.

A noite os calafrios voltaram, a febre não estava me deixando dormir.


Bruno estava deitado ao meu lado e dormia profundamente.
Olhei no relógio era exatamente meia-noite.
Com dificuldade me levantei da cama para procurar os remédios.
— Droga; — A Febre pode continuar enquanto o antibiótico não faz
efeito. Na cômoda encontrei o paracetamol e tomei um comprimido. — Frio,
estou com muito frio.
— Olá!
— AAAAAAH… — derrubei o copo de água no chão, quase pisando
em cima dos cacos afiados. A sensação foi de puro terror quando me viro,
encontrando o espírito da garota no quarto.
— ANGEL… — Bruno despertou com meu grito, ele levantou da
cama em um pulo desesperado. — Puta que pariu, o que aconteceu? — Ele
me puxou para longe dos cacos estilhaçados. — Você se machucou?
— Ela está aqui… — Digo resignada. — A Sofía!
O homem mudou sua afeição, mas não foi raiva ou ódio que consegui
decifrar no seu rosto. Foi uma reação diferente que não estava esperando,
Bruno ficou intrigado.
Percebi que sua garganta oscilou antes de dizer o inesperado:
— Então, converse com ela!
Meu coração saltitou.
Uma onda de alegria percorreu meu corpo. A emoção que estou
sentindo neste momento é de uma paz inexplicável.
Os meus olhos ardem com as lágrimas que começam a chegar.
— Bruno…
— Diga a ela que vou ficar bem, ela pode ir.
Solucei, chorando feito uma condenada.
Viro-me para o espírito novamente, limpando as minhas lágrimas e
buscando coragem no homem que aprendi a amar.
Por quanto tempo segui temendo os meus dons? Eu não sei, mas
chegou a hora de caminhar sem medo.
— Olá; — respondi, abrindo um riso sincero. — Você ouviu, não é?
— Sim, eu só quero me despedir. — Ela disse sem conter a emoção
na voz. — O Bruno vai ficar bem, eu sei que vai… Ele tem você!
As lágrimas não paravam de cair.
Eu estava muito emocionada para dizer qualquer palavra.
— Ele é maravilhoso. É um amigo leal, um companheiro para todas
as horas e um pai maravilhoso. Diga a ele o quanto sou grata por tudo e
nunca… nunca vou deixar de amá-lo. É hora de ir, eles estão me esperando!
O que aconteceu a seguir foi a cena mais linda que presenciei. Um
clarão de luz resplandecente tomou o corpo do espírito, ela sorriu antes de
sumir completamente.
Em questão de segundos o quarto estava silencioso, só os soluços do
meu choro ecoavam.
— Shhh; — sou protegida por um abraço acolhedor. — Eu estou aqui.
— Ela se foi!
Ele me apertou mais forte nos seus braços, beijando com carinho o
topo da minha cabeça.
— É melhor você deitar na cama, está queimando de febre. Amanhã
conversamos, quando estiver melhor.
Bruno ficou do meu lado a noite inteira, demorei para dormir e meu
choro excessivo só piorou a minha febre e as dores na garganta.
Na manhã seguinte, Aurora me levou café na cama. Bruno havia
acordado cedo para trabalhar no escritório e tudo indica que ficará o dia todo
fora.
A dor de garganta não permitiu saborear o café caprichado que a
Aurora preparou, mas aproveitei um chocolate quente cremoso.
— Vou abrir as portas para a sacada. O quarto precisa ficar arejado
para expulsar esse vírus de gripe e infecção. — A mulher congelou quando
olhou em direção do Jardim. — Meu Deus; — faz um sinal da cruz. — É
impossível!
A curiosidade foi maior que a minha gripe forte, simplesmente pulei
da cama, correndo feito uma vizinha fofoqueira até às portas da sacada e
quando olho para o jardim, havia um mar de pétalas de rosas-amarelas.
O gramado verde e bem cuidado, virou um lindo tapete de pétalas de
rosas.
Ela se despediu de uma forma majestosa.
— O Bruno precisa urgentemente encontrar uma Médium! —
Comentou a mulher totalmente nervosa.
— Ele já encontrou — Sorri. — Eu sou uma médium do Centro
Espírita Caminho da Rosa Azul. É um pouco irônico o espírito da Sofía usar
pétalas de rosas para se comunicar.
— Você? — Aurora empalideceu. — Não posso acreditar.
— Bom, acho que tenho outra história para contar. É melhor se
sentar… — apontei para cama.
A Governanta concordou com a cabeça. Ela ficou um pouco assustada
com minha revelação e bastante curiosa também. Então, comecei a relatar as
minhas experiências e como conheci o Bruno Alcântara.
O ADVOGADO DO DIABO
29

(Há dois anos)

A vida toma outra direção quando uma pessoa importante


adoece e vai definhando bem na nossa frente. Sofía lutou, lutou bravamente.
Eu tentei…
Busquei ajuda, implorei e me humilhei de joelhos. Suplicando ajuda
aos profissionais e no fim, perdi a minha irmã.
As células cancerígenas devastaram uma criança, uma garotinha que
poderia ter um futuro brilhante e lindo. Foram quimioterapias e radioterapias
agressivas que arrancaram aquele brilho único da minha irmã.
Presenciei o seu sofrimento dia após dia. Noites agonizantes de
sofrimento, cheguei ao meu limite.
Eu só estava esperando um milagre, não queria perder a fé. Eu
continuava acreditando lealmente em um Deus que ignorou a minha dor e a
dor da minha irmã.
Eu perdi minha essência.
Eu perdi qualquer resquício de bondade quando o câncer se
transformou em metástase e subiu para cabeça da minha irmã.
— Bruno, precisamos ir. — Aurora segurou na minha mão, uma
mulher que contratei para me ajudar na Mansão. Ela também presenciou o
sofrimento da minha irmã. — Você não pode ficar na chuva.
Até o céu está chorando.
Até mesmo a natureza se calou quando ela se foi.
Os meus amigos estão distantes, eles sabem que as condolências que
posso receber não farão diferença. Nada que digam agora vai diminuir a
minha dor.
— Eu vou ficar; — Digo, olhando para o túmulo da minha irmã. —
Vou ficar aqui do lado dela.
Aurora soluçou.
— Você não pode ficar aqui, Bruno. Ela se foi…
— Aurora; — Carlos se aproximou. — É melhor você esperar no
carro. Thomas pode acompanhá-la?
— É claro! — Meu amigo conduziu Aurora para fora do cemitério.
— Bruno, ela descansou. Sofía estava sofrendo muito, era egoísmo
querê-la conosco ciente do sofrimento que ela estava enfrentando.
— Carlos, eu quero ficar sozinho!
— Entendo; — Suspirou. — Fique bem, meu amigo.
Carlos seguiu para fora do cemitério, por um momento pensei em
convidá-lo para ficar, mas quando vejo meus pais biológicos sendo
amparados por conhecidos, sinto uma revolta inexplicável.
— Que espetáculo; — Gritei. — Os pais amorosos que sempre
estiveram presentes.
— Bruno; — Carlos voltou, tentando evitar a minha crise de raiva. —
Agora não é a hora, você terá tempo para expressar o que está sentindo…
— FODA-SE.
Havia uma multidão de pessoas no enterro da minha irmã. Pessoas
que nunca estiveram do nosso lado, que não cuidaram dela quando ficou
resfriada pela primeira vez ou auxiliaram quando aconteceu a primeira
menstruação. Nunca vi essas pessoas visitando a minha irmã no hospital
quando ela começou a passar a maior parte do seu tempo dentro de um quarto
repleto de aparelhos que ajudaram a manter a sua respiração ou seu coração
batendo.
— A mãe fútil, que preferia pagar 20 mil reais para uma babá do que
cuidar da própria filha. E o pai… — gargalhei ironicamente. — Pai? Bom,
você odiava a Sofía, insistia em dizer que a garota não era uma Alcântara
legítima. Vocês dois são podres!
— Já chega! — Meu pai gritou.
— Já chega mesmo, quero distância dos dois; — Olhei enojado para
minha mãe que estava em prantos. — O ÚNICO QUE ESTÁ SENTINDO A
MORTE DA SOFÍA SOU EU… — Esfreguei meus olhos, minhas lágrimas
se misturaram com as gotas da chuva.
Eu continuei no cemitério.
As pessoas foram embora, cada uma seguindo a sua vida e
esquecendo a dor do cara que perdeu a sua única família.

A dor continuava.
Os pesadelos horripilantes não me deixavam dormir à noite. E todos
os dias estava no cemitério, deixando uma rosa amarela que ela tanto amava.
Eu buscava um sinal, uma razão para continuar em frente.
Três semanas após o falecimento da Sofía, encontrei uma mulher
próximo do túmulo da minha irmã. Ela depositou um belíssimo buquê de
rosas em cima do túmulo, quando me aproximei notei que era minha ex-
mulher. Francinny chorava baixinho, sussurrando palavras de perdão.
Ela não apareceu no velório ou no enterro. Minha ex não suportou
presenciar o sofrimento da Sofía e quando minha irmã estava definhando no
hospital, ela simplesmente sumiu.
— Fran?
A mulher sobressaltou, virando para me encarar. Seu rosto estava
vermelho e seus olhos repletos de lágrimas.
— Bruno… Meu Deus; — ela me abraçou, chorando intensamente.
— Sinto muito!
— Eu também!
Ficamos por longos minutos abraçados.
Eu não sei se um dia vou conseguir perdoar a traição da minha ex-
esposa, mas não consigo odiá-la. Ela ficou do meu lado quando Sofía
começou o tratamento, infelizmente não aguentou ficar até o final. Era muita
dor e sofrimento, ninguém suportaria.
— Obrigado por tudo, Fran. Por ficar do meu lado em um momento
tão delicado.
Ela fungou, afastando-se para limpar as lágrimas.
— Tudo bem; — respirou fundo. — Eu amava muito ela.
Eu sei!
Sofía era uma luz que conquistava o coração de qualquer pessoa que
se aproximava dela.
— Você vai ficar bem? — Perguntei.
— Eu vou superar. É necessário seguir em frente, apesar de tudo… —
olha para o túmulo. — E você vai ficar bem?
Neguei com a cabeça.
— Nunca! Eu sinto a falta dela a todo momento. É um vazio que nada
ou ninguém pode preencher. Eu estou sentindo ódio da vida, uma revolta
inexplicável. Eu sinto raiva do mundo, odeio passar por um grupo de pessoas
sorridentes e felizes. Odeio saber que existem pessoas alegres, enquanto
minha irmã está dentro de um caixão. — Desabafo até perder o fôlego.
— Bruno, ninguém tem culpa.
— Eu tenho… Não pretendo abrir meu coração novamente, qualquer
tipo de amor é destruidor.
A dor fez morada dentro do meu coração.
O luto me acompanhará por toda a minha vida e nunca vou
conseguir seguir em frente sem sentir medo do sofrimento, sem lembrar da
minha irmã sem vida dentro de um caixão.
O ADVOGADO DO DIABO
30

O Jardim continuava um mar dourado de pétalas de rosas. Fiquei


parado olhando para as pétalas ainda sem acreditar. Era como se um
caminhão tivesse descarregado uma floricultura no meu jardim.
Respirei fundo…
Não queria duvidar da minha sanidade, mas tudo que está
acontecendo aqui é surreal.
Angélica conversando com alguém de madrugada no meu quarto, foi
uma experiência difícil de descrever. As pétalas de rosas que surgem
inesperadamente e sempre me levam até a Angélica.
Era como se minha irmã estivesse planejando o nosso encontro.
Soltei um riso incrédulo.
Você está perdendo completamente a noção, Bruno Alcântara.
Afastei qualquer pensamento absurdo da minha cabeça, as crenças da
Angélica não podem modificar as minhas opiniões.
— Angélica; — A voz da minha governanta ganhou a minha atenção.
— Você deveria estar na cama!
Imediatamente subi as escadas que levavam até o terraço, Angélica
estava agachada no chão acariciando Edgar.
Ela nunca vai melhorar da infecção se ficar perambulando pela
Mansão.
— Boa tarde; — Digo, surpreendendo às duas. — O que está
acontecendo aqui?
Angélica ficou de pé, sorrindo feito um anjo divino. Ela estava com
uma aparência ótima, as bochechas coradas e parecia melhor.
— Que bom que chegou; — Angélica praticamente pulou nos meus
braços, enchendo meu rosto de beijos. Aurora ficou nos observando com um
sorriso alegre no rosto. — Por que não me contou que tinha um cachorrinho e
que ele fede igual a um porco?
— Edgar não gosta de banho e passa maior tempo cavando buracos
no jardim.
— Qual é a raça dele? — Indagou.
— É um buldogue inglês, Sofía era única que conseguia dar banho
nele, nem mesmo tosadores profissionais aguentaram o temperamento
rabugento do cachorro.
— Ele já fugiu de um Pet Shop, foi um desespero na época para
conseguir encontrá-lo. — Contou Aurora. — Ficamos três dias procurando
Edgar.
O cachorro continuou deitado no chão, ignorando a nossa existência.
— Eu conheço uma pessoinha que vai conseguir dar um banho no
Edgar. — Angélica quase pulou de alegria. — Vou buscá-la amanhã.
— Buscar quem?
— A Valentina; — Diz mantendo o sorriso radiante. — Ele está
precisando de companhia, a minha priminha pode animá-lo.
Concordei com a cabeça.
A garotinha encantadora, com uma inteligência admirável. Talvez
Angélica tenha razão, Edgar precisa de uma boa companhia. De uma criança
para animar a vida tediosa do cachorro, depois que Sofía faleceu até ele ficou
depressivo.
— Perfeito, eu vou tomar um banho. — Informo. — E você deveria
estar na cama.
Angélica ergueu os ombros, despreocupada.
— Uma pessoa hiperativa não consegue ficar deitada em uma cama
sem fazer nada!
Não queria maliciar a frase, mas da maneira que ela falou não tem
como não pensar em sexo.
— Senhor Alcântara, vou preparar um lanche, com licença. — Aurora
afastou-se, permitindo que ficássemos a sós.
Angélica olha-me com cobiça, sussurrando:
— Quer companhia no banho?
Sorri extasiado.
Ela sabe revirar minha cabeça.
Angélica gosta de me surpreender, essa é a verdade.
— Você está doente.
— Eu já estou melhor e fazer sexo pelo menos uma ou duas vezes por
semana pode evitar gripes e resfriados. E também ajuda na imunidade, o
sêmen contém vitamina C, então… acredito que não é errado engolir; —
provocou, mordendo o lábio inferior. — Se você me deixar te chupar, é claro!
— Eu vou deixar e vou foder a sua boca.
Sem esperar - porque o tesão já estava enlouquecendo minha razão -
peguei a Angélica no colo. A mulher soltou um gritinho, encontramos uma
das minhas funcionárias quando estávamos subindo para o quarto.
— Desculpa… — Angélica Lamuriou. — Bruno exagera às vezes.
— Pretendo exagerar quando comer a sua buceta. — Sussurrei no seu
ouvido, mordendo o lóbulo da sua orelha. Ela estremeceu, gemendo excitada.
Chegamos no quarto.
Fomos imediatamente arrancando as nossas roupas, ficando livres
para brincar até perder a noção do tempo.
Entre os nossos beijos intensos e apaixonados, murmurei:
— O que você quer?
— Eu quero gozar. Quero te chupar e sentar em você até esquecer da
minha essência. Eu quero me perder e quero me encontrar trepando em cima
do seu pau.
Puta que pariu… Agora quem está com febre sou eu.
Angélica abaixou-se, ficando de joelhos. O meu corpo inteiro virou
um frenesi de luxúria. Ela terminou de tirar a minha cueca, libertando a
minha ereção dura.
Eu sou um homem paciente, que ama as preliminares antes de um
sexo avassalador. Mas com ela… Eu queria trepar gostoso, dominar cada
toque, cada beijo e cada sensação dela.
Meter forte e com vontade…
— É errado; — Ela acariciou meu pau com suas mãos macias,
masturbando minha ereção. — Estamos brigados, você terminou tudo e agora
estou prestes a chupar seu pau até sentir o gosto da sua porra na minha boca.
— Cacete… Esqueça tudo, mulher. Casais brigam!
— Somos um casal? — Ela gemeu, vejo o brilho apaixonado naqueles
olhos-verdes.
— Sim, somos um casal… — deslizou a mão no meu pau, me
torturando de prazer.
— Que bom saber!
Angélica tocou a cabeça do meu pau com a língua, saboreando por
primeiro.
A sua boca foi aos poucos preenchida com meu membro duro e
grosso. A mulher me chupou com vontade, devorando toda extensão.
Segurei no seu cabelo com força e como prometido, fodi a sua boca.
Meus movimentos eram rápidos e fortes, mas minha mulher não recuou, ela
aproveitava para acariciar meu abdômen e enterrando as unhas nos músculos
da minha coxa.
— Caralho; — rosnei. — Que boquinha deliciosa, mas agora quero te
comer até ficar delirando de prazer.
Eu estava quase atingindo um orgasmo quando Angélica parou de me
chupar.
— Não quero que você pare, faça com força e com muita vontade.
Sorri, ajudando-a se levantar do chão.
— Minha anja safada; — As emoções que ela me faz sentir, é como
voltar na adolescência e presenciar a leveza de um primeiro amor. — Eu
quero apenas fazer amor com você de uma maneira intensa e verdadeira…
Angel não permitiu que eu terminasse a frase. A sua língua invadiu a
minha boca com urgência. Começamos a nos beijar loucamente.
Com o desejo controlando o nosso corpo, agarrei um dos seus seios,
apertando para senti-lo.
Ela gemeu…
Com seu corpo excitado…
Angel me agarrou com força para não fugir dos seus braços e
continuei o beijo delicioso. Não parei… não quero parar de sentir o sabor da
sua boca.
Ela é minha!
Minha amante inesperada!
Minha amiga que me surpreendeu com sua honestidade e
simplicidade.
A mulher que aos poucos estou entregando o meu coração.
— Eu te amo; — Confessou novamente, mordiscando meus lábios. —
Amo muito.
Gemi, sentindo meu coração (que há dois anos estava congelado) se
aquecer.
— Fique de quatro na cama…
Ela buscou fôlego.
— A posição que mais amo. — diz com a voz sedutora.
— Eu sei… Apenas arranque essa calcinha, porque quero me afundar
dentro de você.
Angélica rapidamente tirou sua calcinha, ficando de joelhos na cama e
depois empinando a sua bunda gostosa para mim.
Admirei cada curva do seu corpo.
Eu estava louco para comer essa bucetinha apertada, só precisava
saber o quanto ela estava molhada.
Minhas mãos percorrem a sua bunda, sentindo a pele macia até
encontrar a sua entrada.
Caralho, a mulher estava encharcada.
— Anja, segure com força nos lençóis.
Ela gemeu quando agarrei o seu quadril com firmeza, enterrando meu
pau com urgência dentro dela.
Angélica gritou um palavrão quando meu pau entrou fundo.
— Que delícia, Bruno… aaaah… Oh, meu Deus.
Começo a foder sua buceta molhada, apreciando os gemidos altos e
excitantes.
A mulher tinha um fogo enlouquecedor, ela começou a rebolar a
bunda no ritmo das minhas estocadas, gritando sem parar.
Puta que pariu!
— Shh, calma… — Deslizei as minhas mãos nas suas costas,
acariciando para acalmá-la. — Eu vou com mais calma.
— Não, pode continuar. Eu quero sentir o seu pau com selvageria.
— Merda, Angélica… Caralho; — Fiquei fora de controle. O suor
começou a escorrer no meu abdômen, nunca peguei uma mulher desta forma.
— Eu sou louco por você!
— Isso… Isso… continue!
Eu não parei.
A posição sensual que favorece uma penetração mais profunda,
acabou com a minha lucidez. Eu agarrei o cabelo dela, puxando com força,
sem parar as investidas fortes e rápidas.
O seu corpo começou a tremer, atingindo um orgasmo que acabou
molhando completamente o lençol da cama.
Porra!
— Oh Céus; — contorceu o corpo. — Bruno, por favor…
Angélica lutava para continuar mantendo o corpo forte enquanto
metia dentro dela.
Eu não conseguia parar… vê-la gozar desta forma só aumentou o meu
tesão.
Meu pau latejou quando meu orgasmo chegou com tudo, minha mente
ficou atordoada com a intensidade do prazer que me atingiu quando gozei
dentro dela.
Ficamos parados por alguns minutos. Recuperando completamente o
fôlego.
— Bruno, você estava inspirado hoje!
Relaxei, afastando nossos corpos suados e me deitando ao seu lado na
cama.
— Você é minha inspiração. — Beijo com carinho a sua têmpora.
— Posso dormir um pouquinho? Estou muito cansada.
— Descanse, eu vou estar aqui quando acordar.
— Promete? — sussurrou sonolenta.
— Eu prometo!
Eu sempre vou estar aqui por você…
ANJO CELESTIAL
31

A Valentina corria por todos os cômodos da Mansão com Edgar no


seu encalço, o belo buldogue inglês abandonou o sedentarismo.
Ele ficou tão animado com a presença da minha priminha que até nos
deixou banhar seus pelos dentro de uma banheira.
Bruno ficou resmungando que o cachorro estava muito sujo para
colocar dentro de uma banheira que poderíamos usar, mas acabamos
ignorando o seu protesto.
A presença da Valentina melhorou minha saúde de uma maneira
impressionante, brincamos e corremos pelo imenso Jardim.
Às funcionárias do Bruno prepararam um delicioso piquenique ao ar
livre, até mesmo o advogado do Diabo participou.
Talvez, nomear Bruno Alcântara como “O Advogado do Diabo” é
muito pesado.
Ele enfrentou muitas batalhas sozinho. É um homem bom que está
libertando a sua verdadeira essência. Algumas pessoas se fecham quando
passam por grandes provações, qualquer um ficaria com receio ou com medo
das feridas causadas pelo passado.
— Eu poderia morar neste Castelo; — Disse Valentina quando a
coloquei no quarto para dormir. — E você poderia se casar com o Bruno.
Soltei uma risada.
— Adultos não podem se casar de uma hora para outra. Eles precisam
se conhecer por primeiro.
— Tenho certeza que vocês já se conhecem o suficiente. — Diz,
sentando-se na cama. — Bruno é gentil e muito legal, eu gosto dele.
— Eu também gosto dele, meu amor. Mas não posso me casar com o
Bruno.
Valentina encolheu-se na cama, puxando o cobertor até o pescoço.
— Isso não é justo!
Suspirei.
Realmente não é justo. O amor não deveria ser tão complicado, todos
os relacionamentos são difíceis. Ninguém nasce com um manual de
instrução, precisamos entender os defeitos e os pensamentos opostos da
pessoa que escolhemos amar. E às vezes elas trazem consigo grandes
tormentos, algumas dores e aflições que temos que lidar no futuro.
Eu vou ter um longo caminho pela frente, Bruno Alcântara ainda é um
mistério que quero aprender a desvendar.
— Você tem razão; — respondi, beijando a testa da minha priminha
em seguida. — O amor não é justo às vezes. Agora é hora de dormir, amanhã
conversamos mais sobre o casamento.
— Amanhã quero conversar com o Bruno, vou convencê-lo a se casar
com você. — Diz convicta.
Comecei a rir.
Valentina é uma teimosa incurável idêntica à mãe.
— Tudo bem; — É hora de terminar com essa conversa. — Boa noite,
sonhe com os anjinhos.
— Vou sonhar com o paraíso dos buldogues.
Ela deitou novamente na cama, fechando os olhinhos. Agora chegou a
minha vez de relaxar o meu corpo. Desci para a sala de estar, Bruno estava
sentado em um dos imensos sofás, admirando as chamas da lareira elétrica.
— Ela dormiu; — digo, sentando-me ao seu lado no sofá. Em cima de
uma mesa de centro havia duas taças e um pequeno balde com gelos e uma
garrafa de vinho rosé. A decoração ficou com um bonito buquê de rosas-
amarelas. — Uau. Como essas rosas chegaram aqui?
Bruno riu, abrindo o vinho sem nenhum esforço.
— Tem uma floricultura aqui perto. Eles têm um ótimo atendimento,
são conhecidos por realizar entregas tarde da noite; — despejou um pouco de
vinho na taça. — Muitos casais aproveitam os momentos em motéis da
cidade, algumas floriculturas lucram muito fazendo entregas à noite.
— Por que as rosas-amarelas? — Ele entrega-me a taça de vinho.
— As rosas-amarelas fazem parte da minha história e agora… —
Bruno me olhou como se eu fosse a fonte de um desejo apaixonante e
incomparável. — elas fazem parte da sua história, da história que estamos
construindo juntos.
Não importa qual é a sua idade.
Não importa quantos momentos inesquecíveis você já viveu.
Não importa os objetivos e metas que você já conquistou dia após dia.
Todas as pessoas querem ter a sorte de um amor seguro, de um olhar
sincero e de palavras amigas. Precisamos de alguém que nos entenda, que
aceite nossas falhas e acertos. De uma pessoa que fique do nosso lado quando
estamos discordando de tudo ou com raiva do mundo, quando acordamos de
mau-humor de manhã e mesmo assim nos prepare um café delicioso.
Você já reparou que os gestos mais simples são os que mais
precisamos para amar intensamente?
Bruno é um amor seguro, que estou começando acreditar que pode
dar certo. Ele não conquistou somente o meu coração, mas também a minha
alma, a minha essência… Bruno Alcântara me tem por inteira.
— Obrigada pelas rosas, elas são lindas. — Pousei a taça de vinho em
cima da mesa para pegar o belíssimo buquê. — Que engraçado; — sorri,
admirando as pétalas — Valentina colocou na sua cabecinha que vamos nos
casar.
— Ela é muito parecida com a sua tia.
— A fruta não cai longe do pé. — Ressaltei, arrancando um riso
alegre do Bruno.
— Realmente!
— Precisamos encontrar um vaso, as rosas podem murchar. Elas são
tão lindas… — Olhei ao redor procurando qualquer vaso disponível.
— Na cozinha, podemos encontrar um vaso disponível.
Bruno me guiou até a cozinha, onde encontramos um vaso pequeno
em cima do balcão. Enchi com água e arrumei as rosas com cuidado para não
espetar os dedos nos espinhos.
Bruno ficou calado, admirando meus movimentos. O silêncio era um
pouco satisfatório, porque mesmo calado a presença dele estava em cada
centímetro do meu corpo.
— Você ficou linda com a minha camisa.
Meu rosto corou, fiquei ineditamente constrangida. A tia Fani trouxe
uma mochila com roupas íntimas e algumas peças que eu poderia usar, mas
nada confortável para dormir. Depois de tomar um banho no começo da
noite, vasculhei o closet do Bruno e achei uma camisa um pouco amassada e
usada.
— Desculpa, eu não queria ser invasiva.
— Angel, você não está sendo invasiva; — aproximou-se, pousando
suas mãos na minha cintura. — Você está sexy e muito gostosa.
Sorri sem jeito, admirando a beleza do homem que entrou na minha
vida. Ficar ao lado dele, trocando carícias e momentos únicos parecia a
escolha certa. Eu não queria pensar nas alternativas negativas, nos obstáculos
que poderiam surgir no nosso caminho ou no meu processo contra o Thomas
Fagundes.
Estou parecendo uma adolescente apaixonada, mas só consigo
imaginar uma vida plena e realizada ao lado do Bruno.
Fiquei nas pontas dos pés para pressionar meus lábios nos dele. Meu
beijo foi carinhoso, apaixonado e lento. Eu aproveitei a sensação das suas
mãos fortes e possessivas, os toques macios dos seus lábios e do seu corpo
ardente.
Entramos em sintonia.
Bruno me beijou com adoração, retribuindo nossas carícias
apaixonadas.
Por um momento pensei que meu amor poderia ser recíproco, por um
momento pensei que existia uma chama aquecendo seu coração, fazendo
Bruno me amar com a mesma verdade que amo ele.
Eu amava cada detalhe dele, cada defeito e cada qualidade. Eu
entendia os seus anseios e temores, adorava quando ele era honesto e
cuidadoso.
— Angel, eu quero você… — sussurrou, roçando nossos lábios
molhados.
— Você já me tem por inteira.
Ele riu, trilhando um caminho de beijos até meu pescoço.
— Sim, mas quero você como minha namorada, como minha mulher!
Oh céus…
Meu coração iniciou uma maratona dentro do meu peito, só posso
estar sonhando.
— Bruno, não brinque com algo tão sério.
Ele me encarou, analisando meu perfil com as sobrancelhas franzidas.
— Não estou brincando, quero namorar você. Há anos tenho evitado
relacionamentos, sempre deixei meus casos amorosos para trás sem pensar
nos danos que estava causando. Muitas delas… — Ele respirou fundo. —
Estavam comigo por causa do dinheiro, mas conheci mulheres boas que não
mereciam a minha indiferença.
— Ei, está tudo bem; — interfiro. — Não preciso de explicações,
Bruno. Vamos oficializar a nossa relação, quero ser a sua namorada.
Ele capturou meus lábios novamente, beijando-me com fervor.
Eu até perdi o fôlego com o beijo urgente, era como viver um sonho
maravilhoso, um conto de fadas que muitas mulheres idealizam. Não me
lembro em qual momento da minha vida estive tão apaixonada. Há anos não
tenho um relacionamento intenso e assustador. Parecia tudo novo, os
sentimentos e as emoções. Na verdade, Bruno estava me possibilitando
momentos inexplicáveis.
— Eu amo você… Amo muito!
— Angel, eu quero que saiba que ainda é amedrontador para mim.
Não consigo esquecer as dores do passado, mas você está conquistando a
minha confiança e um dia serei inteiramente seu.
— O meu amor é paciente, ele não é ambicioso ou egoísta. Meu amor
é puro e singelo, não se preocupe.
— Eu sei; — beija minha testa. — Você é perfeita!
— Em cima da mesa ou no sofá?
Ele entendeu o recado rapidinho.
— No sofá… é mais aconchegante.
A maneira que ele me olhou - excitado e apaixonado - fez meu corpo
queimar de tesão. Bruno se transforma na cama, ele sabe como enlouquecer
uma mulher.
Queria a boca dele em cada centímetro do meu corpo, eu queria a
boca dele entre minhas pernas me fazendo estremecer de prazer.
ANJO CELESTIAL
32

— Caralho, você é muito linda. — Bruno arrancou a camisa que


cobria meu corpo. — Quero provar o gosto da sua buceta hoje.
Acho que os anjos das safadezas ouviram as minhas preces.
Eu mal conseguia respirar enquanto Bruno tirava a própria roupa, sem
cortar contato visual. Gosto da forma que ele admira meu corpo, com
adoração e tesão.
Amo me sentir desejada por ele.
Bruno apagou as luzes da imensa sala de estar, deixando o cômodo
iluminado com as chamas da lareira.
Com cuidado seu corpo pairou sobre o meu. Ele deslizou as pontas
dos dedos na minha pele, causando arrepios intensos.
— Às vezes acredito que estou sonhando.
— Você não é o único…
Voltamos a nos beijar, completamente sedentos pelo prazer que
percorria os nossos corpos.
Prendi a respiração quando ele desceu os beijos em direção do meu
pescoço e depois abocanhou meu seio, chupando e mordiscando minha pele
excitada.
— Meu Deus; — gemi, não consigo controlar o desejo na minha voz.
— Você está me enlouquecendo.
Bruno deslizou a língua, enchendo minha barriga com beijos e…
descendo!
Descendo mais…
Meu Deus!
Meu corpo estremeceu dos pés à cabeça quando Bruno chupou meu
clitóris. Ele era perfeito, sabia usar a língua com ferocidade.
Beijando a minha entrada com vontade, deixando-me intensamente
molhada.
O tesão se acumulando dentro do meu ventre era delicioso e
arrebatador…
Ele enterrou o rosto entre minhas pernas com desejo, sugando minha
umidade como se fosse um néctar doce e saboroso.
Segurei no seu cabelo, rebolando o quadril no ritmo da sua língua
experiente. Minhas costas arquearam quando sinto seus dedos penetrando
com força. Gritei, permitindo que meu corpo sinta o prazer completo, os
espasmos de um orgasmo dominaram até a minha alma. O êxtase do prazer
me fez perder a noção de tudo. Bruno continuou a tortura, sugando meu
clitóris com apetite.
— Ah, cacete. — Tentei me afastar, mas meu namorado era
insaciável. — Bruno…
Ele riu, se controlando.
— Certo, respire fundo; — beijou minha coxa. — Eu vou parar por
alguns minutos até você recuperar o fôlego.
— Que amável… — ironizei
— Meu amor, não pretendo ser amável nesta noite. — Bruno
rapidamente se posicionou entre minhas pernas, direcionando a sua ereção
grossa na minha entrada e empurrou com força para dentro. O movimento me
arrancou outro grito prazeroso.
Ele quer me matar de tesão?
O homem é lindo e ainda fode bem pra caralho.
As estocadas começaram ferozes, cada movimento fundo e selvagem.
Eu perdi completamente o controle do meu corpo, estava entregue e perdida
na luxúria que dominava minhas ações.
— Eu amo a sua buceta apertada; — Bruno enterrou seu rosto no meu
pescoço, sussurrando no meu ouvido: — E amo o perfume da sua pele,
principalmente o perfume dos seus cachos.
Ama…
Ama?
Meu coração estava dançando macarena dentro do meu peito. Será
que ele tem noção do impacto das suas palavras?
Ele acabou de confessar que ama a minha buceta, que convém com o
momento. Mas também disse que ama o perfume da minha pele e meus
cachos… Isso já é um grande começo!

Acordei no sofá da sala com uma manta cobrindo meu corpo. Bruno
estava dormindo ao meu lado, abraçando-me com seus braços fortes e
quentes.
Olhei no relógio eram quase oito horas da manhã, com cuidado afastei
os braços do Bruno para conseguir levantar.
Ainda sonolenta procurei um banheiro e acabei encontrando algo sutil
na área dos funcionários. Após minha higiene matinal, vesti a camisa do
Bruno novamente e corri até a cozinha preparar um café da manhã reforçado.
Bruno tinha um verdadeiro arsenal dentro dos armários, comida que
não acabava mais… Até temperos e embalagens com idiomas estrangeiros.
Que tipo de pessoa compra comida importada?
Do tipo milionária, Angélica.
Acabei rindo da minha própria resposta. Às vezes me esqueço que o
homem é podre de rico.
Arrumei a mesa, com tudo que tinha direito. Estava faminta…
— O que você está fazendo na minha cozinha?
Quase derrubei o cesto de pães no chão.
Jesus Cristo, que susto.
— Bruno, você ficou doido? Quer me matar do coração?
— Você é muito assustada para uma mulher que vê espíritos vagando
entre nós. — Zombou, observando a mesa repleta de comida. — Meu Deus,
vamos receber visita para o café da manhã?
— Ver espíritos não é sinônimo de coragem, eu ainda sinto um medo
inexplicável. E respondendo a sua pergunta; — coloquei o cesto de pães em
cima da mesa. — Não vamos receber visitas, só quero deixar a mesa
bonitinha.
— Bonitinha? — riu, meneando a cabeça. — Você é estranha,
Angélica Amaral.
— Que elogio gratificante! — ironizei.
— Pode acreditar… Eu estou elogiando. Você é uma mulher difícil de
encontrar, quase um diamante raro. Posso me considerar um homem
imensamente sortudo.
Minhas bochechas esquentam.
Mordi meu lábio inferior, um pouco constrangida. Eu não sei lidar
com o Bruno carinhoso, mas pretendo amar cada detalhe dele. Até mesmo as
características que estou conhecendo há pouco tempo.
— Me fale um pouco sobre a sua família…
— Minha família? — riu com desdém, ficando com um olhar
sombrio. — A minha única família morreu há dois anos.
Suspirei pesadamente, observando o homem que amo se sentar na
cadeira para aproveitar o café da manhã, mas com uma carranca mal-
humorada.
— Desculpa, não queria bancar a intrometida! — evitei encará-lo,
puxando uma cadeira para me sentar.
— A minha família é proprietária do Estaleiro Âncoras; — Fiquei
petrificada na cadeira. Bruno é herdeiro de um império. As notícias do
Estaleiro Âncoras ganham destaque nos portais de empreendedorismo. —
Meu pai é Júlio Alcântara e minha mãe a socialite brasileira Valéria
Alcântara.
Eu sabia que o nome Alcântara tinha um peso na elite da grande São
Paulo, mas nunca imaginei que Bruno fazia parte de uma família com
tamanho prestígio.
— Bruno, você é bilionário? — Perguntei, completamente chocada.
Não bastava os honorários milionários, agora ele é herdeiro de uma fortuna
imensurável.
— Eu não sou bilionário, meus pais são. Não quero ter relação com o
Império Alcântara. Tenho a minha carreira, corri atrás de tudo que conquistei,
meus pais são insignificantes.
Engulo em seco, ciente que deveria encerrar nossa conversa, mas
acabei perguntando:
— Como era a relação da Sofía com eles?
O homem mudou sua postura, olhando-me com certa raiva.
— Angel, não quero falar dos meus pais, por favor!
— Mas…
— Minha família sempre ignorou a existência da Sofía. Tenho razões
e motivos válidos para desprezar meus pais.
Compreendo o rancor do Bruno, com certeza a família não era
estruturada, tinham falhas que beneficiaram na mudança do Bruno, qualquer
pessoa manteria distância de uma família tóxica.
— Eu entendo; — Digo, esticando a minha mão para segurar na sua.
— Eu amo você e sempre vou estar aqui.
A expressão severa que modificou o seu belo rosto aos poucos foi
suavizando.
— Obrigado! — sorriu de leve.
— Bom Dia; — Aurora entrou na cozinha, ela parou para analisar a
mesa por alguns segundos. — Vamos receber visitas?
Bruno gargalhou, recuperando o bom humor.
— Angélica queria deixar a mesa bonitinha.
Mostrei a língua, irritada com o deboche descarado.
— Bom, a mesa realmente está… — Ela prendeu o riso. —
Caprichada!
— É claro que está; — peguei um pedaço de bolo. — Não podemos
desperdiçar uma comida tão gostosa.
Ficamos conversando na mesa, Aurora estava mais solta e animada
com minha presença. Ela fez muitas perguntas sobre o centro espírita que
frequento. As outras funcionárias foram chegando, usando seus uniformes
costumeiros. A única que não usava um uniforme era a Aurora, ela tinha uma
aparência mais aristocrática.
Quando estávamos deixando a mesa, uma das funcionárias do Bruno
entrou correndo na cozinha com um semblante um pouco assustado.
— Patrão; — falou aflita. — O senhor tem visitas.
Bruno franziu o cenho.
Seguimos até a sala de estar, eu quase tenho uma parada cardíaca
quando flagrei quem estava aguardando o Bruno... Thomas Fagundes e a
Paula Crisóstomo!
Thomas mudou de cor, atingindo um nível de vermelho assustador. O
homem estava soltando fogo pelas ventas.
— Eu não queria acreditar; — Esbravejou. — Quando Paula me
contou; — riu com escárnio. — Você perdeu o juízo, Bruno? Essa mulher é
doente, tem problemas mentais.
Droga, meu corpo começou a tremer instantaneamente. Eu queria sair
correndo, ficar longe desse homem desprezível.
— Thomas podemos conversar no meu escritório? — Bruno mantinha
uma calma letal que só aumentou meu nervosismo. — É um assunto que
devemos tratar em particular; — encarou Paula. — E você está demitida…
— O quê?
Bruno não respondeu, ele apenas seguiu até o escritório com Thomas
no seu encalço, deixando-me sozinha com a cobra mentirosa. Felizmente,
Aurora ficou ao meu lado, avaliando a situação com uma sabedoria que
encontramos em poucas pessoas.
— Satisfeita? — Comentou Paula, aproximando-se como uma raposa
traiçoeira. — Você conquistou tudo que queria; — gesticulou ao redor. —
Uma mansão, um homem bonito e rico.
Meu coração estava tão disparado que mal conseguia falar.
— Eu acho que você deveria ir embora…
— Calada, empregada doméstica. — Gritou, interrompendo Aurora.
— Estou conversando com a oportunista.
— Paula, você está perdendo a razão. Por favor, eu não quero discutir
com ninguém. — Um nó começou a se formar na minha garganta. Eu
realmente não gosto de discussões desnecessárias. Paula está procurando uma
inimiga no lugar e na pessoa errada.
— Não estou perdendo a razão; — Debochou. — Acredito que você
não foi informada sobre os planos do Bruno Alcântara. Querida, você está
dormindo com o inimigo, a única que perdeu completamente a noção foi
você!
— Já chega! — Aurora entra na minha defesa. — Saia
imediatamente...
Paula apenas riu, mantendo o ar debochado e cínico.
— Você sabia que as testemunhas que foram depor contra você no dia
da audiência receberam um suborno do advogado do Diabo? — As lágrimas
já estavam escorrendo no meu rosto. — Ele forjou provas alegando sua
incapacidade mental.
Agora está fazendo sentido.
Quando pedi ajuda aos meus colegas de trabalho todos negaram, não
aceitando depor ao meu favor mesmo sabendo que sofri uma injustiça e
ataques cruéis do Thomas.
— Não, ele não fez tal coisa; — Digo entre os soluços. — Bruno é um
homem bom, ele nunca me prejudicaria.
Paula gargalhou até perder o fôlego.
— Céus, que burra… — Paula analisou a camisa do bruno que cobria
meu corpo. — Você acredita que o Bruno conquistou fama entre criminosos e
políticos corruptos jogando limpo?
— Basta, Paula. Você conseguiu o que queria. — Aurora disparou
altiva, ela apontou para a porta. — Agora saia…
Eu não queria acreditar na Paula, mas havia uma vozinha dentro da
minha cabeça que estava gritando: você é uma mulher manipulável e ingênua.
Paula Crisóstomo saiu da Mansão vitoriosa, ela praticamente esfregou
na minha cara que o amor da minha vida é uma grande mentira.
Ainda atordoada, caminhei até o escritório. Queria tirar esta história a
limpo, quando me aproximei da porta ouço os gritos exaltados do Thomas:
— Você ficou louco, Angélica Amaral é doente. Ela tem problemas
psiquiátricos, já não basta o que você passou ao lado da Francinny, agora
quer manter um relacionamento com uma esquizofrênica?
— Tudo bem, Thomas. Você tem razão… Eu só posso estar louco,
agora saia do meu escritório. — Vociferou.
Ouço os palavrões e os xingamentos de ambos, Bruno mandou o
amigo de longa data tomar naquele lugar e depois a porta é aberta.
Thomas ficou parado na minha frente, encarando-me com uma raiva
mortal.
— Saia da minha frente!
Dou vários passos para trás, o homem passou bufando feito um touro
enraivecido.
Entrei no escritório, Bruno estava sentado na poltrona, com as
bochechas vermelhas por causa da raiva que obviamente está sentindo.
Ele me olhou por alguns segundos, balançando a cabeça.
— Isso não vai dar certo! — Abro a boca tentando responder, mas as
lágrimas não permitiram. — Sinto muito, Angélica.
Funguei, passando o dorso da mão no rosto.
— Eu te amo, Bruno… — Solucei. — Amo muito mesmo!
— Amor não é o suficiente, eu sou um cara fodido emocionalmente.
Não vou conseguir manter um relacionamento com você.
Eu balanço a cabeça, descrente.
— Já que estamos jogando limpo agora, eu quero saber… Você forjou
provas contra mim? — Bruno empalideceu. — É verdade que subornou as
testemunhas para alegar a minha incapacidade mental?
— Angélica, eu não me importo com os questionamentos morais. A
minha função é assegurar a defesa do meu cliente. — Diz seco.
— Ótimo, vou acordar a Valentina; — quando estava saindo do
escritório, viro-me para encará-lo, sentindo meu coração se quebrando aos
poucos. — Esqueça tudo que vivemos nos últimos dias, você é o único
doente aqui.
Saí do escritório, juntando os meus cacos no chão. Eu queria ser
inquebrável, não queria sentir um amor tão assustador por ele, não queria
chorar até perder o fôlego e fingir que não estou completamente destruída.
ANJO CELESTIAL
33

Após minha trágica manhã na Mansão do Bruno decidi que lutaria


para recomeçar, pedi demissão da Lummertz Advocacia, expliquei todo
ocorrido ao Carlos Solano. Ele ficou chocado, mas entendeu a minha decisão.
No Centro Espírita uma médium me explicou que Thomas Fagundes
já fizera parte da minha vida em uma reencarnação passada. Ele foi um
homem cruel que não aceitava a minha indiferença e acabou assassinando
meu amor, porque a sua obsessão foi maior que qualquer princípio moral.
Nesta vida ele teve a chance de se redimir e buscar um perdão, mas o ódio
que ele sentiu e ainda sente por mim, está impregnado no seu coração.
Evitei perguntar sobre o Bruno e principalmente sobre o espírito da
irmã que agora encontrou a paz que necessitava. Eu só queria entender o ódio
que o Thomas sentia, estou rezando todas as noites por sua alma e pedindo
que esse ódio diminua.
Merecemos seguir em frente, sem rancores, mágoas e maldições.
Sentimentos ruins que impedem a nossa vida de seguir por um caminho
próspero e feliz.
Tenho entregado currículos em empresas, um novo trabalho vai
melhorar meu humor e minha autoestima, depois da rejeição do Bruno e
também da revelação maldosa que recebi da Paula, não estou nos meus
melhores dias.
— Angélica; — Valentina entrou correndo no meu quarto. — Você
tem uma visita muito importante.
— Uma visita? — Quando estava me levantando da cama, Bruno
Alcântara surgiu na porta. Minhas pernas quase cederam, elas viraram uma
gelatina e meu coração? Acho que ele pode sair pela minha boca a qualquer
momento, até meu estômago está revirando.
Ele me causa sensações tão óbvias que será difícil esquecê-lo, um
sentimento puro e magnífico. Bruno mexe comigo, com minhas emoções,
com meu corpo e principalmente com meu coração.
Eu o amo…
Não sei quando vou deixar de amá-lo, porque seus beijos e seus
toques estão impregnados na minha alma.
Ele não imagina o tamanho do meu amor!
— Podemos conversar? — deu um passo à frente. Bruno estava lindo,
usando seus ternos caros que tornavam sua aparência quase sobrenatural.
Eu apenas concordei com a cabeça, sento-me na cama novamente
para ter certeza que não vou acabar desmaiando.
Bruno mantinha um semblante sereno, ele não estava aqui para
começar uma discussão.
— Estou ouvindo, pode falar. — Tentei encorajá-lo. Bruno suspirou
fundo, olhando-me nos olhos.
— Certo, eu não estou aqui para pedir uma segunda chance. Acredito
que pessoas como eu, não merecem segundas chances; — ele colocou as
mãos dentro dos bolsos da calça social. — Mas precisamos aprender com
nossos erros, principalmente quando machucamos alguém especial.
Eu não vou chorar, chega de chorar por ele. Meu coração pode estar
alegre com sua presença, mas tenho meu orgulho e não vou me humilhar por
um homem que está desinteressado.
— Acabei machucando você, não era minha intenção. Quando
Thomas entrou no meu escritório e usou a Francinny para me atingir, eu
fiquei com raiva… Muita raiva!
— E você descontou a sua raiva em mim? — Indaguei hesitante.
— Sim, acabei descontando em você. A minha atitude foi desprezível,
queria te pedir perdão. Perdão por tudo, Thomas é um homem
desequilibrado. Eu conheço meu amigo há anos, ele poderia usar fatos do
meu passado para me atingir e mesmo assim acabei perdendo a cabeça.
Engulo em seco, sentindo minha pulsação aumentar.
— Um perdão não muda o que você fez… — meus olhos começaram
a queimar, me controlo para não chorar na frente dele. — Bruno, você forjou
provas contra mim.
— Angel, estou arrependido. Passei horas ouvindo sermões da Aurora
e depois uma lição de moral do Carlos. Acredite, eu estava pensando em
mudar minha estratégia de defesa, na próxima audiência…
— Não terá uma próxima audiência; — disparo. — Desisti do
processo, não quero relação ou envolvimentos judiciais contra o Thomas
Fagundes.
Joana acabou entendendo a minha decisão. Chega de problemas e de
estresse desnecessário, minha vida se transformou em um inferno desde que
escolhi processar um milionário arrogante e cruel.
Bruno passou a mão no rosto, meneando a cabeça.
— Você fez a escolha errada. Depois de tudo, depois das discussões e
das acusações, você acha mesmo que deixaria o Thomas vencer o processo?
— Não sei, um homem que forjou provas contra uma mulher inocente
é capaz de tudo.
Bruno me encarou, mudando sua expressão. O homem parecia
derrotado e cansado, meu coração reagiu querendo consolá-lo, mas não quero
ceder. Bruno merece a minha indiferença, vou lutar para mudar tudo que
estou sentindo por ele.
— Compreendo. Eu só queria pedir perdão, não pretendo seguir em
frente sem assumir meus erros; — ele vira em direção a porta. — Você
sempre terá uma vaga de emprego na Lummertz Advocacia, se precisar da
minha ajuda é só me procurar ou pode procurar o Carlos. Você tem nosso
contato e também meu endereço. Seja feliz, Angélica.
Bruno saiu do quarto sem olhar para trás, ele nem tentou reatar nosso
relacionamento. Não comentou sobre os dias que passamos juntos, das nossas
noites e também da promessa de um namoro que não durou um único dia.
Eu nunca vou perdoá-lo, Bruno Alcântara. Você conquistou meu
coração e depois me despedaçou.

— Meu nome é Angélica Amaral, falo em nome da empresa…


— Vai tomar no rabo! — Desligou a chamada.
Bom, já faz dois meses que minha vida resume-se em palavrões e
xingamentos. Estou trabalhando em um Call Center de cobranças, apenas
seis horas de trabalho e o salário é ótimo. Infelizmente não consegui emprego
na área que gosto de atuar, mesmo com um ótimo currículo.
No Call Center temos 40 minutos para descansar, meu expediente
termina às duas horas da tarde. E aproveito os meus minutinhos de descanso
para comer alguma coisa, como a minha tia Fani sempre diz: Um estômago
vazio não ajuda um cérebro agitado.
É normal no meu horário de almoço, almoçar com algumas colegas de
trabalho, elas me ajudaram a superar o Bruno. Há dois meses não tenho
notícias dele, evito pesquisar seu nome na internet, evito qualquer notícia
relacionada ao Império Alcântara.
— Vocês acham legal um vibrador em formato de dinossauro? —
Indagou Letícia, mostrando a foto de um vibrador bem bizarro. As
gargalhadas ganharam a mesa.
— Que horror, você vai gritar “aaaah, meu rexpintossauro” quando
gozar?
Quase me engasguei com o suco. Lívia era a mais marota do grupo,
ela falava palavrões o tempo todo.
Letícia olhou para o vibrador bizarro.
— Você tem razão, é muito estranho.
— Quer a minha opinião? — Letícia me encarou com seus olhos de
jabuticaba. — Eu achei legal!
— Meu Deus, Angélica; — Lívia revirou os olhos. — Você tem dedo
podre até para vibradores.
Fazer o quê?
Os garçons trazem o nosso almoço, comemos rápido e sem enrolação.
Afinal, só temos 40 minutos para almoçar sem nos atrasar. Como sempre
almoçamos em silêncio, mas quando senti o cheiro de comida um enjoo subiu
por minha garganta e depois o vômito jorrou no chão.
— Urgh, que nojooo. — Letícia pulou para longe.
O vômito voltou e voltou!
Estava despejando tudo que havia dentro do meu estômago no chão.
— Droga, você precisa ir ao banheiro.
Lívia rapidamente me ajudou, ela era a mais velha do grupo e apesar
dos palavrões tinha uma personalidade muito centrada.
Corri até o banheiro, sentindo o líquido azedo queimar a minha
garganta, desta vez consegui chegar até o vaso sanitário, vomitando até
minha alma.
— Meu Deus; — Lívia segurou meus cachos. — Você estava ótima,
os enjoos começaram do nada.
— Eu senti o cheiro da comida e os enjoos começaram. — Explico
com a voz falha.
Lívia ficou do meu lado por alguns minutos me acalmando. Letícia
surgiu no banheiro com um copo descartável contendo água.
— Beba, vai ajudar a diminuir os enjoos. — Entrega-me o copo.
— Obrigada!
— Você disse que os enjoos começaram quando sentiu o cheiro da
comida?
Balancei a cabeça em confirmação.
— E a sua menstruação? Ela está em dia?
Tenho certeza que minha pressão subiu, porque sinto um calor
assustador no corpo, meu coração quase parou de bater.
Eu estava atrasada, muito atrasada… Não fiquei menstruada nos
últimos meses.
— Não pode ser! — As lágrimas começam a transbordar. — Lívia, eu
acho…
— Você está grávida, porra.
Oh meu Deus!
Mesmo mal e com meu estômago revirando corri até uma farmácia
mais próxima, minhas colegas de trabalho me acompanharam. Comprei um
teste de gravidez e voltei para o restaurante.
No banheiro faço todos os procedimentos, esperando o resultado…
Após alguns minutos o positivo surgiu. No primeiro momento senti um medo
aterrorizante, eu preferia ver centenas de espíritos de uma única vez, mas
depois lembro que sou apaixonada por bebês!
SEGUNDA PARTE
Esquecendo o passado.
O ADVOGADO DO DIABO
34

(cinco meses depois)

— Como você reagiu à notícia do falecimento do seu pai?


Meu terapeuta ficou observando minha reação, já faz três meses que
estou buscando ajuda. Não consigo esquecer a morte de minha irmã ou
confiar nas pessoas, quando perdi a única mulher que me aceitou com minhas
falhas e temores, percebi que necessitava de ajuda. Angélica era uma luz,
uma mulher com uma fé admirável, tinha um dom incrível e um caráter
íntegro.
Afastá-la só me fez perceber o quanto estava perdido. Não posso mais
viver assim, com medo de sofrer, com medo de confiar e principalmente amar
novamente.
O único problema era os questionamentos, meu terapeuta fazia
perguntas diretas e duras, ele não se importava com minha reação ou com
meu desconforto. Nas primeiras sessões, eu queria sair correndo e não falar
sobre assuntos que me causam grandes tormentos.
— Foi estranho; — confesso. — Eu não conhecia o homem que
estava dentro daquele caixão. Tudo sobre meu pai, sobre Júlio Alcântara era
um mistério para mim. Era como olhar para um rosto totalmente
desconhecido!
— Entendo, acredita que a relação entre pai e filho poderia ter sido
diferente?
Neguei com a cabeça.
— Meu pai sempre foi um homem fechado, ele não deixava ninguém
ultrapassar suas barreiras.
— Você também criou algumas barreiras nos últimos anos, Bruno.
Minha garganta oscilou, sinto um calafrio na espinha. Ele tem razão, a
maior parte do tempo meu terapeuta está certo.
— Eu sei, acabei me transformando em uma cópia exata do homem
que mais desprezei.
Benjamin Amorim, era um terapeuta conhecido na cidade, não foi
fácil conseguir marcar uma sessão com ele. Várias pessoas indicam o seu
trabalho, mas às vezes penso em desistir.
— Creio que não; — Benjamin bateu a caneta no caderno que sempre
enche de anotações. — A perda de um ente querido tem um efeito
avassalador na vida de algumas pessoas. Você criou um personagem para
evitar todo o sofrimento que foram se acumulando. Não podemos garantir
nossa felicidade no futuro, mas não podemos acreditar que tudo será
exatamente igual ao passado. Um novo amor sempre terá uma nova história,
uma nova amizade sempre trará novas recordações. Nada será igual ao
passado, a vida é um grande espetáculo e a plateia nunca será a mesma.
Concordei em silêncio, meus pensamentos voaram até uma morena de
cabelos cacheados. Não consigo esquecê-la, mesmo lutando para seguir em
frente, fico recordando os momentos que vivemos juntos. Foram poucos, mas
marcaram a minha alma.
Angélica chegou como um arco-íris depois de uma tempestade forte e
assustadora.
— Você está com um leve sorriso no rosto, está pensando na
Angélica?
Soltei uma risada descontraída. É um pouco assustador, mas ele
sempre desvenda meus pensamentos.
— Eu nunca vou deixar de pensar nela!
— Por que, Bruno? Por que não consegue esquecê-la?
— Não é óbvio? Eu a amo! Vou amá-la até meu último suspiro.
Meu terapeuta alargou um sorriso, relaxando na sua poltrona
costumeira.
— Inacreditável; — disse, fazendo anotações no caderno novamente.
— Que belo avanço, Bruno Alcântara.
— Você é assustador; — levanto-me do sofá. — Chega por hoje.
— Bom, você sempre decide quando a nossa sessão termina. —
Zombou. — Até aproxima!

As discussões entre os diretores, gerentes e assessores do Estaleiro


Âncoras estavam a todo vapor, eles não aceitam a minha decisão. Vou vender
a minha porcentagem que acabei herdando com o falecimento do meu pai,
não quero envolvimento com o Estaleiro Âncoras.
— Você perdeu o juízo; — vociferou um dos diretores. — O estaleiro
está há gerações na sua família, começou como uma simples construtora de
imóveis e hoje dominamos o mercado náutico.
— Minha decisão está tomada; — leio novamente as documentações
antes de assiná-las. — O sobrenome Alcântara não terá mais envolvimento
com o mercado náutico.
Assinei os documentos rapidamente enquanto os novos donos do
estaleiro mantinham um sorriso vitorioso no rosto.
Agora eles terão que convencer a dona Valéria, tenho certeza que
minha mãe não será tão fácil de persuadir.
Minha tarde foi cansativa e estressante, eu só queria chegar em casa e
descansar. Estou de férias, meu terapeuta sugeriu alguns meses afastado do
meu escritório. E sinceramente? Está me fazendo bem, sem os clientes
psicopatas ou as mentes doentias que sempre ajudaram a manter minhas
máscaras.
Acho que o Benjamin tem razão, acabei criando um personagem que
foge totalmente dos meus princípios e valores, porque fiquei imerso no luto e
na dor.
A minha Mansão estava silenciosa, Edgar ficou alegre com minha
chegada. Agora que estou de férias tenho aproveitado os dias ensolarados
para passear com o buldogue. Ele precisava de atividades físicas e as
caminhadas estão me ajudando a relaxar.
— Bruno; — Aurora gritou. — Você chegou!
A mulher surgiu na sala de estar muito pálida e com os olhos
arregalados.
— Qual é o problema, Aurora? — desfaço o nó da gravata.
— Encontrei a Angélica no shopping. — Meu sangue parou de correr
nas veias. — Bruno, ela está grávida…
Abro a boca, mas minha voz ficou presa na garganta.
— Eu estava passeando com meu neto e acabei avistando a Angélica
de longe. Você sabe o quanto gosto dela, decidi segui-la para cumprimentar e
saber como ela estava; — Aurora começou a estalar os dedos. — Ela entrou
em uma loja de artigo para bebês e recém-nascidos, quando me aproximei…
— os olhos começam a lacrimejar. — A barriga já está aparecendo, ela pode
estar com 5 meses ou mais.
Eram várias informações de uma única vez, minha cabeça estava
explodindo.
— Aurora, calma. Eu não tenho contato com a Angélica há meses, ela
pode ter conhecido outra pessoa… — imagina-la com outro homem só
aumentou minha dor na cabeça. — Você está exagerando.
— Não, eu não estou exagerando. Quando me aproximei acabei
ouvindo a conversa dela com outra mulher, você quer saber? — Aurora abriu
um sorriso, as lágrimas escorreram no seu rosto.
O meu corpo inteiro começou a tremer.
Não pode ser!
— Aurora, por favor…
— Ela estava querendo comprar um berço, mas ele passou do seu
orçamento. Foi quando a mulher que estava acompanhando a Angélica falou
em alto e bom som: você deveria procurar o Bruno, ele tem a obrigação de
ajudá-la.
Sentei no sofá, completamente atordoado.
— Bruno, você será pai!
Neguei com a cabeça, não posso e não quero acreditar nesta história.
Angélica não esconderia uma gravidez por cinco meses, ela não é uma
mulher vingativa.
Eu conheço a sua essência, convivi com sua honestidade e verdade,
me recuso acreditar que a Angélica está me enganando há meses.
ANJO CELESTIAL
35

Entrei na sala dos passes, pensando no valor exorbitante do berço que


gostaria de comprar para a minha filha. Ele era tão bonito, digno de uma
princesa. Às vezes penso em seguir os conselhos da Ana Lúcia, em procurar
o Bruno. No entanto, lembro de tudo que passei e do quanto lutei para
conseguir esquecê-lo. Não será fácil criá-la sozinha, mas já cheguei até aqui e
Deus não te dá um fardo que você não possa carregar, se ele me abençoou
com uma filha que está crescendo saudável no meu ventre, é sinal que
consigo cuidar dela.
— As filas para os passes estão agitadas hoje. — Comentou uma
médium voluntária.
— Às sextas-feiras são sempre assim, muito movimentadas. Pode
abrir a porta, estou preparada. — Arrumei as cadeiras para receber as pessoas
que precisam de um tratamento espiritual.
— Certo!
A porta é aberta, as pessoas foram entrando uma por uma e sentando
nas cadeiras vagas, fui auxiliando no que era preciso…
— Ainda tem cadeiras vagas? — Meu corpo gelou quando ouço a voz
que sussurrou atrás de mim, meu coração disparou de uma maneira
inexplicável. Até minha filha começou a se mexer na minha barriga, ela é
sempre tão quietinha de dia.
Sem acreditar, viro-me lentamente, ficando de frente com… Bruno
Alcântara.
O homem sorriu de leve, deslizando o seu olhar até a minha barriga
que já está redonda e grandinha.
— Bruno?
— Aqui Senhor… — Uma médium mostrou uma cadeira vaga. —
Pode se sentar!
Ele analisou meu perfil com intensidade, os olhos castanhos vidrados
e cintilando uma serenidade admirável.
— Precisamos conversar.
Meu ar não saía dos pulmões, era difícil respirar. Meu Deus, vou ter
uma insuficiência respiratória!
— Ar… Estou passando mal.
A correria começou quando meus olhos escureceram e minha pressão
caiu lá nos pés.
Ouço os gritos das médiuns que corriam atrás de água. O Bruno
surtando, pedindo para as pessoas abrirem espaço e me arrastando para fora
do centro espírita.
— Respire, mulher. — Falou num tom exaltado. — Meu Deus, calma,
apenas respire.
Uma médium entrega-me um copo com água, puxei o ar
freneticamente.
— Tudo bem, eu não estou aqui para discutir com você. — Bruno me
tranquilizou. — Beba a água…
Com as mãos trêmulas levei o copo até a boca.
— Ótimo, você vai melhorar! — ele sorriu de uma maneira tão linda e
afetuosa que acabou afetando a minha coordenação motora e o copo
escapuliu dos meus dedos, se estilhaçando no chão.
— Droga, mil vezes droga. Você não deveria estar aqui. — Xinguei,
alterando o tom de voz.
Afasto-me dos cacos no chão.
Estou usando rasteirinhas porque são mais confortáveis, não quero me
machucar.
— O Centro Espírita é um lugar público. É tipo uma igreja, né? Entra
quem quer.
Argh!
— Ótimo, os passes já começaram. Você está precisando de uma
purificação, com licença… — giro pelos calcanhares.
— Angélica… — Bruno caminha no meu encalço.
— Não, Bruno. Por favor, nããão.
— Precisamos conversar, eu não quero brigar. Eu só quero falar com
você…
Como ele ficou sabendo?
Tia Fani não quebraria minha confiança, prometi que quando me
sentisse pronta entraria em contato com o pai da minha filha.
Minhas amigas não contariam, elas detestam o Bruno. Como ele
descobriu?
— Eu não quero conversar, não temos nenhum assunto para tratar.
— Você está esperando um filho meu. — Minhas pernas quase
cederam. — Angélica, estamos na frente de um centro espírita. Eu acho mais
adequado uma conversa madura, vamos agir como dois adultos, sem
escândalos e discussão.
Comecei a rir.
— Quem disse que estou esperando um filho seu?
— Você!
— O quê? — Gritei. — Eu conheci outra pessoa.
Bruno respirou fundo, controlando-se para não perder a paciência.
— Na quarta-feira encontrei você no Shopping Guarapiranga, eu
estava com o Carlos; — acho que vou desmaiar, meu cérebro vai diluir a
qualquer momento. — Pensei que seria legal cumprimentá-la, segui você até
uma loja de artigos para bebê, foi quando ouvi uma conversa entre você e sua
amiga…
— Você ouviu o quê?
— Ela dizendo em alto e bom som que sou o pai do seu filho, na hora
fiquei tão atordoado que desisti de cumprimentá-la; — observou o horário no
relógio de pulso. — Eu precisava ingerir tudo que acabei ouvindo, não
conseguia acreditar que você escondeu uma gravidez por cinco meses.
— Isso é impossível, eu teria visto você… — Sabe aquela sensação
de cair dentro de um abismo? Então, acredito que estou perdida, caindo
dentro de um abismo sem fim.
— Não teria, vocês estavam de costas para mim, admirando um berço
que fugiu do seu orçamento.
Um calor transitou no meu corpo, subindo pelo pescoço e fazendo
meu rosto queimar de vergonha. Ele não pode ter ouvido justo essa conversa,
Ana Lúcia me paga!
— Bruno, eu… eu… — as lágrimas começam a verter dos meus
olhos.
— Não estou com raiva de você, não estou aqui para brigar. Só quero
ajudá-la, você deveria ter me procurado quando descobriu a gravidez.
Ajudar? Funguei, limpando minhas lágrimas.
Ele não pode estar falando sério.
Tudo o que eu queria era o seu amor, Bruno me machucou, me
humilhou e me enganou das piores formas. Pensei que a nossa relação fosse
especial, um amor seguro e leal. No fim, ele desistiu tão facilmente de nós
que me senti usada, ele deveria ter me dito que não arriscaria, que não
lutaria… teria me poupado, teria poupado o meu coração!
— Eu quero que você desapareça da minha frente, não quero o seu
dinheiro, não quero a sua ajuda. Quero você longe da minha filha…
— Filha? É uma menina?
Ignorei o sorriso majestoso que nasceu no seu rosto. Ignorei a pontada
no peito, as borboletas no estômago e as mesmas sensações que ele ainda me
faz sentir.
— Você ouviu, agora vá embora!
— Qual é o nome? Você já escolheu?
Suspirei derrotada, ele não desiste.
— Tenho que participar dos passes, não deveria estar aqui fora
conversando com você. — Digo áspera. — Adeus, Bruno.
— Eu não vou sair da sua vida tão facilmente dessa vez. Você está
grávida e quero estar presente em cada momento. Não pense que vou ficar
longe da minha filha; — ele olhou novamente o horário no relógio. —
Preciso participar de uma reunião na Lummertz Advocacia, não posso me
atrasar, mas amanhã vou procurá-la novamente.
Engulo em seco, não sei como reagir.
Bruno caminhou até a bela picape que está estacionada do outro lado
da rua.
Fiquei parada observando o homem que amei tão intensamente, está
difícil de acreditar. É um sonho, não pode ser real…
Cheguei em casa derrotada, meus pés estavam doendo e minha cabeça
latejava um pouco. A minha tarde foi estressante, não consegui me concentrar
no centro espírita. Meus pensamentos estavam presos no homem que um dia
amei.
— Angélica; — Valentina desceu as escadas correndo para me
encontrar. — Quer saber quem nos visitou hoje?
Eu posso imaginar!
— Querida, eu não estou bem. Só quero descansar.
— Mas o Bruno queria falar com você.
— Eu já conversei com ele, como foi a escola hoje? — Mudei o
assunto, quero esquecer um pouco a minha tarde desastrosa.
— Divertida, já posso estudar em uma escola de adultos. — Ela
sorriu.
— Você está se referindo a uma Universidade? — Valentina afirmou,
que garotinha espertalhona.
— Sou muito inteligente, posso estudar com os adultos.
— Valentina Amaral; — minha tia surgiu da cozinha com as mãos
cheias de massa. — Angélica está grávida, ela precisa descansar.
— Eu só estou contando sobre meus planos, quero estudar em uma
escola de adultos.
— Pelo amor de Deus, vá para seu quarto e me deixe conversar com
sua prima em particular.
— Eu quero participar da conversa; — cruza os bracinhos. — Não é
justo!
— Meu amor, podemos conversar mais tarde. — Digo, mas a garota
está relutante.
Após minha tia chantageá-la com outro Kinder Ovo, ela subiu para o
quarto.
Na cozinha tia Fani lavou as mãos. Ela não estava com uma
fisionomia afável.
Minha barriga roncou, acho melhor me alimentar.
— Conversou com o Bruno?
Fiquei calada, preparando um sanduíche caprichado.
— Angel, já estava na hora. Você precisa de ajuda para criar essa
criança. Bruno é rico, ele não está preocupado com os boletos no final do mês
ou com IPVA do carro; — um bolo se formou na minha garganta. — Não
pode enfrentar essa responsabilidade sozinha.
— Não quero o dinheiro dele, não quero ser alvo de críticas
novamente. Paula Crisóstomo me chamou de oportunista, tenho certeza que
muitas pessoas pensam da mesma forma. Aposto que ele tem o mesmo
pensamento. — Dou uma mordida no sanduíche, estou morrendo de fome.
Carregar uma criança não é uma tarefa fácil, sinto dores nas costas, dores nas
pernas, nos pés e uma fome que nunca passa.
— Ele não vai abrir mão da filha, Bruno estava muito determinado
hoje. Ele ignorou meus xingamentos e só queria saber sobre você.
— Tia Fani, você xingou o homem?
— É lógico, ele forjou provas contra você. Brincou com seus
sentimentos, ele não sairia da minha casa sem ouvir algumas verdades. —
Diz, ficando com as bochechas vermelhas de raiva.
— Ele não retrucou? — Estou completamente boquiaberta.
— Bruno Alcântara é um cretino miserável, mas não é louco. Ele
ouviu meu discurso e só depois informei o endereço do Centro Espírita, onde
ele poderia encontrar você.
— Acho que não tenho escolha, ele vai me procurar amanhã; — Estou
me sentindo péssima, a pior mãe do mundo. Prometi que protegeria Carolaine
de todo mal, principalmente do pai dissimulado. — Bruno não merecia o meu
perdão, não merecia conhecer o rostinho da nossa filha, mas Deus tem outros
planos e meu coração não consegue odiá-lo.
Estou exausta mentalmente, não gosto de alimentar sentimentos ruins.
Ainda estou magoada? Sim, estou… Não vou esquecer as dores que ele me
causou, mas não posso odiar e desprezar o pai da minha filha. Carolaine será
uma criança muito amada por mim e por minha família, só espero estar
tomando a decisão certa. Não acredito que um homem tão transtornado como
o Bruno possa ser um bom pai.
— Amanhã converse com ele, diga quais são as suas condições para
uma boa convivência entre vocês.
— Certo, eu tenho algumas exigências mesmo. Não vou facilitar —
acaricio a minha barriga, sentindo a minha filha se mexendo. — Agora vou
descansar, amanhã preciso trabalhar.
— Você está fazendo a escolha certa, Angel.
A minha razão diz que estou fazendo a escolha certa, mas o meu
coração… Ele ainda está receoso com minhas escolhas.
O ADVOGADO DO DIABO
36

A minha vida ficou caótica após o falecimento da minha irmã. Não


era um homem feliz, meus dias eram deprimentes e o meu trabalho…
completamente insano e doentio!
Mesmo amando a minha profissão, tenho ciência do quanto os casos
criminosos são perturbadores.
A terapia tem me ajudado a entender que não é errado acreditar e
confiar novamente, ou até mesmo amar. Angélica entrou no meu caminho
iluminando tudo como um farol, vê-la no Centro Espírita tão tranquila, com a
barriga redonda e grandinha, me fez sentir sensações inimagináveis. Eu
queria gritar de alegria, eu queria abraçá-la e agradecer por tudo. Angélica
estava me proporcionando um mundo novo, um recomeço gracioso. Usei
todo meu autocontrole para não dizer meus verdadeiros sentimentos.
Eu vou ser pai…
Pai de uma menina, é surreal e maravilhoso ao mesmo tempo. Na
verdade, estou sentindo um misto de emoções, não sei como consegui dirigir
pelo centro conturbado de São Paulo.
Cheguei na Lummertz antes do esperado, pensei que poderia me
atrasar, mas Carlos estava me aguardando na sala de reuniões. Meu amigo
ficou alarmado quando entrei, acho que estou transparecendo a minha alegria,
porque ele imediatamente perguntou:
— O que aconteceu?
— Eu vou ser pai; — as palavras fogem eufóricas da minha boca. —
Vou ser pai de uma menina!
Carlos ficou de queixo caído, uma expressão confusa ganhou o seu
olhar.
— Bruno, que história é essa?
Controlei a minha respiração que está completamente pesada e
acalmei meus pensamentos alvoroçados.
— Angélica está grávida, acabei descobrindo a verdade.
Meu amigo ficou pálido, ele parecia não acreditar no que acabara de
ouvir.
— É sério? Meu Deus… Angélica?
— Vou explicar!
Com calma comecei a relatar a história que Aurora me contou, falei
que procurei a Angélica no Centro Espírita e como ela reagiu.
— Você falou que foi a Aurora que avistou ela no shopping? —
Indagou com uma expressão preocupada.
— Não, se eu contasse que foi a Aurora que encontrou ela no
shopping, Angélica não me confirmaria a história.
— Ela escondeu uma gravidez por cinco meses… — Carlos balançou
a cabeça descrente. — É insano!
— Não é insano; — Eu estava merecendo. — Eu não fiz as escolhas
certas, acabei errando e machucando uma mulher boa. Angélica só estava se
protegendo e protegendo a criança que está gerando.
— Bruno, esconder uma gravidez não é sinônimo de proteção. Ela
queria se vingar, achou que impedindo o seu direito como pai seria uma boa
lição.
Neguei com a cabeça.
Não acredito em vingança, ela ainda está magoada e ainda sente
algum sentimento verdadeiro por mim. A sua reação no Centro Espírita só
comprova que estou certo, Angélica ficou atormentada e fascinada com
minha presença ao ponto de perder a coordenação motora. Recordar do
comportamento dela só me faz querê-la por perto.
— A escolha da Angélica não pode ser considerada vingativa. Eu fui
um perfeito idiota, um grande miserável com ela. No primeiro obstáculo
acabei desistindo de tudo, principalmente da mulher que estava aprendendo a
amar; — Angélica não merecia a minha confusão, meus medos e uma
rejeição tão dura. Eu precisava me manter forte, enfrentar meus temores e não
desistir dela. — Agora tenho uma chance de recomeçar, uma nova
oportunidade para fazer a escolha certa. Eu vou ser um bom pai, um pai
presente, responsável e amoroso. É a minha obrigação depois de todo mal
que causei, vou amar a minha filha com todo meu coração, ela nunca terá os
meus temores. Quando minha filha nascer, ela terá um pai seguro, confiável e
centrado.
Carlos ficou me encarando pasmado por alguns minutos e depois
sorriu.
— Você sempre foi um bom pai, Bruno. Sofía era uma menina
educada e muito amorosa. Angélica não faz ideia, mas fez a melhor escolha
quando engravidou de você. Nunca conheci um homem tão íntegro e leal,
você merece conquistar uma nova felicidade.
Para conquistar uma nova felicidade, preciso reconquistar a mãe da
minha filha. Eu vou ser paciente, pretendo concordar com qualquer exigência
da Angélica. Não tenho o direito de discordar, vou continuar lutando e buscar
a minha força espiritual.

No dia seguinte fui até a casa da Angélica às seis horas da tarde para
ser mais exato. Fani me recebeu com uma carranca mal-humorada, ontem ela
passou vinte minutos me xingando. Não respondi, não estava em condições
de retruca-la ou me defender.
— Bruno… — Valentina correu para me abraçar. — Eu estava com
saudade, como está o Edgar?
— Ele está ótimo, com saudades também.
— Eu posso fazer uma visita? Quero muito revê-lo. — Diz com
empolgação.
— Você pode visitá-lo quando desejar, será sempre bem-vinda.
— Valentina; — Angélica surgiu no topo da escada. — Não fique
importunando o Bruno, ele está aqui para falar sobre a minha gestação.
— Ela não está me importunando; — faço um cafuné no cabelo
escuro da garotinha. — Valentina é especial.
Igual à prima!
— Podemos conversar no meu quarto? — Pediu Angélica.
Concordei, pedindo licença a Valentina que estava agarrada nas
minhas pernas. A garotinha ficou chateada com o pedido da prima, mas
entendeu no final.
O quarto era exatamente como me lembrava, não esqueci um único
detalhe.
— Quero falar um pouco sobre minha gravidez; — Angélica
comentou seca, sentando-se na beirada da cama. — Acabei engravidando
porque esqueci de tomar o anticoncepcional quando estava me recuperando
na Mansão, os antibióticos também cortaram o efeito do contraceptivo.
Afirmei com a cabeça, estou ciente que o antibiótico pode diminuir a
eficácia da pílula anticoncepcional. Eu sempre fui cuidadoso quando
mantinha relações sexuais com outras mulheres, mas com a Angélica meu
envolvimento foi muito intenso. Ela mexeu com a minha cabeça, não
conseguia pensar direito com a minha Anja de cabelos cacheados dormindo
ao meu lado. Eu só pensava em estar dentro dela e fodendo...
— Bruno?
Meu coração deu um solavanco.
A voz dela…
A pele…
Os cachos…
Os olhos verdes-claros…
Meu Deus, sempre tão linda, até mesmo usando um pijama de flanela.
— Oi? Desculpe, fiquei um pouco distraído.
Ela semicerrou os olhos, aquiescendo.
— Eu tenho algumas condições para uma convivência amigável; —
ela se levantou, pegou um caderno na estante de livros e me entregou. —
Leia com atenção…
Peguei o caderno e comecei a ler a lista. Eram termos absurdos, como
visitá-la apenas uma vez na semana, ficar longe das consultas e do pré-natal,
ajuda financeira só quando for realmente necessário.
— Angélica, gostaria de participar do pré-natal, tenho que tirar as
minhas dúvidas com o médico. E sobre ajuda financeira…
— Não quero o seu dinheiro; — corta-me ríspida. — Eu trabalho, sou
independente e tenho meu próprio dinheiro.
Droga, isso vai ser mais difícil do que pensei.
— Anja, eu estou ciente que você trabalha e tem seu próprio dinheiro,
mas criar uma criança não é uma tarefa tão simples. Eu quero ajudar!
— As minhas condições estão escritas no caderno, se você quiser
conhecer a Carolaine.
— Carolaine? O nome dela será Carolaine?
Angélica apenas assentiu, mantendo um olhar afiado.
— É um nome muito bonito; — Digo num tom suave. — Gostei,
acredito que tenha um significado forte, vou pesquisar quando chegar em
casa.
— Era o nome da minha mãe. Significa “aquela que é doce e forte” —
um sorriso singelo nasceu no seu rosto, acertando precisamente o meu
coração. — Tenho certeza que a nossa filha será uma mulher forte.
— Igualzinha à mãe!
Ela me encarou com seus olhos-verdes cintilantes. Por um momento
pensei que ela cederia, mas Angélica ergueu novamente as suas barreiras.
— Você concorda com minhas exigências?
— As suas exigências são absurdas; — Respondi sem conter minha
sinceridade. — Eu quero participar do pré-natal, visitá-la três vezes na
semana para acompanhar a sua gestação. E ajudar no que for necessário, com
o enxoval, fraldas e remédios. Se quiser, compro até mesmo um berço ou um
guarda-roupa…
— Não quero, eu consigo comprar. — Voltou a interromper.
Meu Deus, que mulher teimosa!
— Angel, eu tenho total responsabilidade. Conheço os meus direitos
como pai, você não pode me excluir em um momento tão importante das
nossas vidas, porque ela também faz parte da minha vida, ela também é
minha filha; — Estava deixando a emoção me dominar, não quero e não
posso ficar longe da Carolaine. — Eu sei que errei com você, mas não vou
falhar com a nossa filha!
Angélica ficou pensativa por alguns minutos.
— Por favor, você pode me odiar. Só me deixe participar do pré-natal.
— Continuei insistindo, vê-la apenas uma vez na semana é loucura. Não
quero perder o vínculo com a Angélica, podemos estar separados, ela pode
me odiar e não suportar viver ao meu lado. No entanto, uma relação amigável
será fundamental para o desenvolvimento da Carolaine no futuro. — Eu não
vou interferir na sua vida, mas quero participar das consultas.
— Por que? Eu não consigo compreender, Bruno. Você desistiu de
tudo, desistiu de nós. E por que não pode desistir dela?
— Porque estou feliz, porque amo a ideia de ser pai, amo tudo
relacionado a essa criança. E você não pode impedir esse tipo de amor,
Angélica. Sinto muito, não posso ficar longe de vocês!
Angélica desabou na minha frente. A mulher começou a chorar
incansavelmente, fiquei desesperado, não sabia como reagir. A minha única
saída foi pedir ajuda a Dona Fani que subiu as escadas me xingando de
cretino miserável.
— Muitas mulheres não conseguem controlar as suas emoções na
gravidez; — Disse Fani, acalmando a sobrinha. — Angélica virou uma
manteiga derretida. Respire fundo, querida…
— Eu… — soluçou, — Não consigo; — voltou a chorar sem parar.
— Eu quero ficar sozinha; — soluçou novamente, fungando de uma maneira
exagerada. — Preciso pensar…
Fani me encarou com raiva, sinto a minha alma sair do corpo e voltar
novamente. Merda, vou ter que ouvir mais uma série de xingos.
— Bruno, vamos descer até a cozinha. Precisamos conversar.
Acabei concordando, não queria deixar a Angélica sozinha, mas ela
precisa se acalmar.
Na cozinha Fani me serviu um pedaço de torta salgada, eu mal
consegui comer.
— O que você falou para ela? — Interpelou altiva.
— Nada, não fui grosseiro. Eu só quero participar da gestação, falei
como estava me sentindo!
A mulher arqueou uma sobrancelha toda desconfiada.
— E como você está se sentindo?
— Meu Deus, eu estou feliz. A mulher que amo está grávida de uma
menina, você tem noção do quanto estou eufórico com a notícia?
Fani balançou a cabeça, percebi um lampejo de ternura ganhar o seu
olhar.
— Não está sendo fácil, Bruno. Angélica amava você e agora está
carregando uma filha do homem que ela mais amou. Você não pode chegar
aqui dizendo que a ama, dizendo palavras amorosas e depois abandoná-la
novamente.
— Não vai acontecer de novo, é uma promessa.
— Vou acreditar em você com uma condição… — Ela apoiou às duas
mãos na mesa, inclinando-se para frente. — Vai participar do Centro Espírita
e vai acompanhar a Angélica todas as sextas-feiras.
— Ótimo, eu gostei das palestras. — Confesso, as palestras espíritas
são gratificantes. Uma lição para pessoas que carregam um pouco de rancor
no coração, devo admitir que saí do Centro Espírita mais leve e revigorado.
— E não se preocupe, não vou machucá-la.
— Desculpa atrapalhar a conversa; — Angélica entrou na cozinha
com os olhos vermelhos e o rosto inchado por causa do choro. — Eu tomei
uma decisão!
Eu fiquei em pé, sentindo meu corpo inteiro tremer de nervosismo.
— Você pode me acompanhar no pré-natal ou em qualquer consulta
médica; — Graças a Deus, ela pensou com sabedoria. — Vamos dividir as
despesas, vou escrever outra lista e você vai comprar o que está apenas
listado nela. Tudo bem?
— Perfeito, enquanto as visitas?
— Apenas nos finais de semana, trabalho durante a semana e quando
chego em casa, só quero descansar.
— Maravilhoso; — A minha voz saiu tão animada que até a própria
Fani soltou uma risada. — Posso pegar a lista amanhã?
— Pode; — Angélica forçou um sorriso. — Obrigada por… —
Hesitou, mordendo o lábio inferior.
— Angélica, pode terminar a frase? — Indaguei rindo, parecendo um
garotinho apaixonado.
— Obrigada por me procurar quando soube a verdade.
Não será fácil conquistá-la novamente. Angélica ainda está magoada,
mas não pretendo seguir minha vida sem a mulher que amo. O tempo será
meu amigo, vou confiar e acreditar na força do amor que sinto por ela.
ANJO CELESTIAL
37

Pensar no Bruno virou rotineiro, eu não conseguia tirar o homem da


minha cabeça. Ele estava presente em cada segundo do meu dia, não
conseguia esquecer o olhar apaixonado, as palavras amorosas e
principalmente a sua honestidade.
Acho que a Carolaine gostava da presença do pai, porque quando
Bruno voltou no outro dia para buscar a lista que escrevi, ela dava pulos
dentro da minha barriga.
O problema foi na quarta-feira, estava cansada depois de uma manhã
conturbada no trabalho, então dormi o restante da tarde e quando levantei
para comer alguma coisa, encontrei o excelentíssimo Bruno Alcântara na
minha sala. Ele estava com a minha lista em mãos, a expressão no seu rosto
era hilária.
O que está acontecendo?
— Bruno?
O homem sobressaltou, arregalando os olhos na minha direção.
— O que você está fazendo? E como entrou na minha casa? —
Indaguei um pouco confusa.
— A sua tia me deixou entrar, ela está lá fora conversando com a
vizinha.
— Entendi, mas as visitas são nos finais de semana. — Bruno
concordou com a cabeça.
— Eu sei, eu sei… é que… — olhou para a lista, depois voltou a me
encarar com as bochechas completamente vermelhas. — Você pode me dizer
o que é uma esgotadeira?
Levei a mão até a boca para conter a gargalhada.
— É que… — ele começou a massagear o próprio pescoço, bastante
constrangido. — Não sou bom comprando produtos para gestantes.
— Ai Deus; — controle-se Angélica, mantenha a concentração. —
Uma esgotadeira serve para esgotar o leite materno.
— Hmm; — ele voltou a olhar para a lista. — E conchas coletoras,
por que você precisa de uma concha?
Jesus Cristo!
Eu não aguentei, minha gargalhada ecoou na sala. Chorei de tanto rir,
não é possível… Homens são hilários quando estão tentando resolver
questões femininas.
— As conchas coletoras; — controlei o riso, Bruno ficou mais
envergonhado com a minha crise epiléptica de riso. — São para coletar o leite
materno que escorre dos seios. Meu Deus, era só pesquisar no Google.
Ele ignorou meu ataque histérico, lendo novamente a lista.
— E tem…
Chega! Arranquei a lista da sua mão.
— Vamos fazer o seguinte… — Ganhei atenção dele, aqueles olhos
castanhos ficam vidrados no meu perfil, sinto um calafrio percorrer meu
corpo e minha vagina ficou muito alegrinha. Já faz cinco meses que não…
Eita! Vai acalmando a sua perereca, Angélica Amaral.
Não posso pensar nessa hipótese.
— Angélica, vamos fazer o quê?
A minha razão quer agir de uma forma madura e centrada. O meu
coração quer amar você loucamente. E minha… bom, ela quer sentar no seu
pau até ficar ardida.
Meu Deus, que pensamentos são esses?
Eu preciso acordar, não posso perder meu juízo. Repreendo meus
próprios pensamentos e volto minha atenção no que é necessário no
momento:
— Então, vamos comprar tudo o que está escrito na lista juntos; —
ele está se empenhando, devo me esforçar um pouquinho também. — Só
preciso comer alguma coisa e trocar de roupa, tudo bem?
— Tudo bem, eu vou aguardar!
Bruno me levou em um dos shoppings mais caros de São Paulo,
estava me sentindo fora da casinha. As pessoas que frequentam o shopping
eram chiques e sofisticadas, eu até encontrei uma atriz global saindo de uma
loja. Não sabia como andar em um ambiente cheio de pessoas elegantes.
— Eu não deveria ter vestido um simples macacão de gestante; —
olhei para baixo. — Ou uma simples rasteirinha.
— Você está linda; — meu coração deu um pulo. — A gravidez te fez
bem, você está deslumbrante.
— Fala sério, estou igual a um botijão de gás.
Bruno gargalhou, negando com a cabeça.
— Não concordo, continuo achando você linda.
A minha filha começou a dançar na minha barriga, ela também gosta
dos elogios do pai.
— Podemos entrar naquela loja; — ele apontou para uma imensa loja
de artigos para bebê. — Se você quiser, é claro.
A loja não parecia muito movimentada. Havia poucas pessoas
circulando ou conversando com os atendentes, achei interessante pesquisar os
preços, olhar os berços e os pequenos guarda-roupas.
Eu fiquei encantada com a variedade de produtos, principalmente com
as roupinhas. Não parei de perambular os corredores, analisando o preço de
cada coisinha, até mesmo de uma simples mamadeira e os preços eram
exorbitantes.
— Bruno, não podemos comprar nesta loja.
Ele se manteve sereno com os valores, eu estava assustada e queria
sair correndo do local. Pelo amor de Deus, quem paga 120 reais em uma
mamadeira?
— Pode comprar o que você quiser, Anja. Sabe que dinheiro não é um
problema para mim.
— Não posso, os preços são altíssimos.
Bruno revirou os olhos, segurando na minha mão. O toque repentino
dos seus dedos na minha pele foi caloroso, amigável e excitante… Acredito
que não deveria existir uma distância ou as brigas para separar os casais que
se amam de verdade. O destino deveria agir como nosso amigo, unir dois
corações e duas vidas que poderiam conquistar a felicidade juntos.
Agora tenho que me contentar com seu sorriso sedutor, com seus
olhares discretos e principalmente com a sua presença tão apaixonante, sem
expressar meus verdadeiros sentimentos. Não posso pensar na hipótese de
querê-lo novamente, Bruno está sendo um cavalheiro, empenhando-se no seu
papel de pai. Tenho certeza que a Carolaine será apaixonada por ele, qualquer
mulher se apaixonaria por Bruno Alcântara.
— Com licença; — ele me arrastou até uma atendente. — Pode
encontrar todos os produtos que estão nesta lista?
Ele tirou do bolso o papel.
Uma moça (que estava usando o uniforme da loja) sorriu lindamente
para o pai da minha filha.
— Será um prazer ajudar; — Disse num tom sensual. — Você tem
preferência por marcas?
— Os mais baratos! — Respondo, foi neste instante que a mulher
notou a minha presença. Ela forçou um sorriso amarelo, analisando meu
vestuário com um ar esnobe.
Eu detesto pobre que pensa que é superior só porque trabalha em lojas
sofisticadas. A minha vontade era de dizer: Vai melhorando a postura,
querida. A sua realidade é bem diferente.
A mulher nos acompanhou por toda loja, empurrando o carrinho de
compras e sempre com sorrisinhos sedutores quando falava com o pai da
minha filha.
Bruno não parecia se importar com exibicionismo descarado da
funcionária. Ele até conversava com ela, perguntando quanto tempo ela
trabalhava como vendedora. A interação de ambos estava me causando
náuseas.
— Você será pai? — Perguntou a mulher. E mais uma vez a minha
vontade foi de gritar: NÃO ESTÁ VENDO A MINHA BARRIGA, INFELIZ?
— Sim, vou ser pai de uma menina! — A voz orgulhosa do Bruno
encheu meu coração de ternura. No entanto, minha ternura se transformou em
raiva em fração de segundos.
— Ela será linda igual ao pai. — A funcionária aproveitou a
oportunidade para deslizar as mãos desinibidas no antebraço do meu…
— Eu vou esperar você no carro; — Digo áspera. — Com licença…
— dei meia volta, sem permitir nenhum protesto do Bruno. Eu queria sair
daquele ambiente sufocante, dos flertes da mulher sem compostura e
profissionalismo.
Droga!
Não deveria me importar. Não deveria doer tanto, eu ainda estava
magoada com o Bruno, mas também… continuava apaixonada por ele!
No estacionamento do shopping fiquei encostada na bonita picape
com meus pensamentos fervilhando, os ciúmes corroendo a minha razão e
meu amor por ele querendo se libertar, fugir da gaiola repleta de mágoas e
insegurança.
Não deveria, mas ainda amo Bruno Alcântara. E meu amor está
ficando cada vez mais forte com aproximação dele.
Após trinta minutos aguardando, Bruno saiu do elevador com um
funcionário da Loja, os dois carregavam várias sacolas.
Bruno caminhou até a picape com o semblante fechado, ele colocou
as sacolas nos bancos traseiros, agradecendo o funcionário da loja pela ajuda.
O rapaz se afastou, voltando para o elevador e para suas funções.
— Qual é o seu problema? — Meu corpo inteiro estremeceu, Bruno
ficou me encarando sério, aqueles olhos-castanhos refletindo uma confusão
ou um anseio, não consigo identificar… estou muito nervosa.
— O quê?
— Você saiu correndo da loja como se a vendedora tivesse alguma
doença contagiosa. — Vociferou, girando a chave da picape nos dedos.
— Eu não estava me sentindo bem; — minto descaradamente. E devo
admitir, fiquei envergonhada com minha atitude. — Tenho tonturas e enjoos.
— Você ainda sente enjoos? Meu Deus, Angel, eu não sou um idiota.
— Ele riu desconcertado. — Eu estou tentando, me empenhando ao máximo
para ser um bom pai e ajudar você de todas as formas possíveis. Se a minha
presença causa tamanho desconforto por que decidiu me acompanhar até o
shopping e me ajudar com as compras?
— Não é isso…
— Pelo amor de Deus, Angélica. Somos adultos, mentir não vai
resolver em nada!
— Eu não gostei do comportamento da vendedora, ela estava se
oferecendo… — O arrependimento bateu na hora, principalmente quando
percebo a reação do Bruno, ele ficou boquiaberto. — Desculpa, a minha
conduta não foi certa.
— Quê? Você ficou com ciúmes da vendedora?
Meu rosto queimou…
Que vergonha, eu apenas afirmei com a cabeça.
— Minha Anja; — Ele reduziu o espaço que separa nossos corpos. O
seu olhar mudou, ganhando um fulgor malicioso. Meu coração começou a
bater mais forte, mais rápido… Deus, eu não estou conseguindo controlar o
desejo que percorre o meu corpo. — Eu só tenho olhos para você desde o dia
em que te conheci, quando você entrou no fórum com seu jeitinho agitado e
radiante. Nunca vou pensar em outra mulher, porque você me tem por inteiro.
Tudo ao meu redor virou um filme em câmera lenta, as cores ficaram
mais intensas e até mesmo som caótico de carros entrando e saindo do
estacionamento virou uma sinfonia agradável. Eu só queria sentir o sabor dos
seus lábios novamente, Bruno não hesitou quando fiquei nas pontas dos pés e
segurei no seu rosto com suavidade, colando os nossos lábios em seguida.
A sua boca domina a minha.
O nosso beijo foi árduo e apaixonado, eu queria aproveitar cada
segundo. Nos beijamos sem parar, recompensando os meses que ficamos
separados, as nossas carícias eram eletrizantes…
Uma mistura de desejo, amor e carinho.
Bruno me segurou nos seus braços com anseio, não queria deixá-lo.
Eu me agarrei nele, com força e saudade.
Estou aqui por você, sempre vou estar aqui!
Uma buzina alta de um carro, acabou interrompendo o nosso beijo.
Busquei fôlego, observando o belo rosto do homem que amo. As
bochechas estão coradas e os olhos-castanhos marejados por um desejo que
estou sentindo fervilhar a minha pele.
— Senti a sua falta! — ele murmurou, roçando os lábios úmidos nos
meus.
— Eu também senti a sua falta…
O ADVOGADO DO DIABO
38

Os desencontros são normais na vida de muitas pessoas, estamos


sempre deixando para trás alguém importante, alguém que tornou a nossa
vida mais completa e bonita. Às vezes tornamos desconhecidos ou estranhos
na vida de alguém especial por puro orgulho.
A reconciliação e o perdão são uma das maiores verdades que podem
existir no mundo. Você perdoa uma discussão, um afastamento ou até erros
dolorosos, o perdão é uma dádiva que poucas pessoas possuem. Não é
qualquer um que consegue perdoar, sem pensar nos frutos do ressentimento.
Angélica Amaral tem um coração de ouro, uma bondade tão
admirável. É incrível como ela me paralisa, como o beijo dela é viciante,
como meu coração perde o controle quando ela está por perto.
Chegamos na sua casa no começo da noite, Fani estava nos
aguardando na sala com a Valentina ao seu lado. A garotinha pulou de alegria
quando entramos, carregando as imensas sacolas.
— Angélica, você comprou mais roupinhas para Carolaine?
— Compramos, você quer ver?
Ficamos na sala por vários minutos, a família da Angélica era
pequena. É somente ela, a tia e a priminha, mas são extremamente unidas.
Esperei a Angélica mostrar todos os produtos que compramos, conversar um
pouco com a tia antes de me despedir:
— Bom, já está ficando tarde; — ela me encarou de uma maneira
intensa. — Angélica, eu posso voltar amanhã?
— Você pode ficar se quiser… — mordeu o lábio inferior. — Eu
estou pensando em preparar um jantar especial esta noite.
Fani me olhou de esguelha, aguardando a minha resposta.
Deus, como respira mesmo?
Ela está me pedindo para ficar, meu coração começou a pulsar
rapidamente dentro do meu peito. As atitudes dela me surpreendem, me tiram
o fôlego, Angélica é meu ponto fraco e meu porto seguro, minha ruína e
minha salvação.
— Certo, eu vou ficar!
Valentina foi a primeira a festejar a minha decisão. Depois Fani sorriu
alegremente, dizendo:
— Você vai lavar a louça!

O jantar foi divertido, Fani falou um pouco sobre o pai da Valentina e


como se conheceram, relembramos o acidente da Angélica no estacionamento
do Império Bar, infelizmente virou mais um caso esquecido. Angélica não
queria dar continuidade na ocorrência, ela estava com vários problemas.
Nosso relacionamento que no começo foi conturbado, uma gravidez e um
trabalho cansativo. Nos últimos meses ela só estava procurando um ponto de
equilíbrio e um pouco de paz. Falei um pouco sobre minha terapia, devemos
procurar ajuda quando estamos perdidos ou desabando, não é errado procurar
auxílio de alguém que pode melhorar nosso psicológico e nossa vida.
Após nosso jantar, lavei a louça como a Fani sugeriu. Angélica ficou
cuidando dos meus movimentos.
— Não vou quebrar nenhum copo; — digo num tom calmo. —
Comecei a morar sozinho com 22 anos, precisava cozinhar, lavar a louça e
minha própria roupa e cuidar de uma criança.
— Quando a Sofía faleceu; — O nome da minha irmã não me causava
mais incômodos. — A sua mãe ou o seu pai procuraram você?
Fiquei em silêncio enquanto me recordo do afastamento total da
minha família. A morte da minha irmã aumentou a ruptura entre meus pais.
Minha mãe decidiu atormentar meu pai e culpá-lo pela morte da filha, meu
pai era insensível demais para aturar as acusações desnecessárias da ex-
esposa.
— Não, minha família nunca foi próxima. Meu pai faleceu há poucas
semanas; — terminei de lavar o terceiro prato, colocando no escorredor de
louça. — Eu conversei com a minha mãe no velório.
Angélica se aproximou, com um semblante entristecido. Ela é
inacreditável, sente pela perda de um homem completamente desumano.
— Sinto muito, Bruno.
— Estou bem, a morte do meu pai não interferiu em nada.
— E o estaleiro? Você vai administrar as empresas do seu pai?
Soltei um riso, peguei um pano para secar as mãos, virando-me para
encarar Angélica nos olhos.
— Eu vendi a minha parte, não quero meu nome relacionado ao
Estaleiro Âncoras. Quero ficar longe do ambiente ganancioso e louco que
meu falecido pai criou naquelas empresas.
— Gostaria de saber como ele está? Posso tentar uma comunicação…
— Não; — minha voz saiu alterada, não quero a minha mulher se
comunicando com um homem tão impiedoso. — Sinceramente? Pretendo
ficar longe das pessoas que já se foram, Angélica.
Ela suspirou pesadamente.
— Eu entendo, sinto muito mesmo!
— O importante; — segurei na sua cintura, puxando-a para mais perto
do meu corpo. — é que estamos bem, eu e você… Eu senti muito a sua falta,
muito mesmo!
— Eu sei; — Angélica beijou meus lábios com carinho. — Você pode
dormir comigo… — sorriu constrangida. — Minha cama é espaçosa.
— Eu vou ficar; — acariciei os cachos macios, depois a bochecha
corada. — Porque não vou conseguir me afastar, tudo me leva até você, as
minhas ações, meus pensamentos e o meu coração.
Voltei a beijá-la, depositando todo meu amor em um único beijo. Eu
caminhei por lugares tortos, amei uma mulher errada, perdi uma irmã querida
e nunca conheci a verdadeira união de uma família. Escolhi uma profissão
prestigiada, venci processos impossíveis e acabei inocentando o imperdoável.
Infelizmente, usei algumas máscaras, afastei pessoas boas, admiráveis e nos
últimos anos não fui um amigo presente na vida de pessoas que sempre
torceram por mim.
A vida é uma grande roda gigante, que está em constante movimento.
E agora tenho uma oportunidade de mudar o meu futuro.
Posso reconstruir minha vida, conquistar uma nova família.
Agradecer os amigos próximos pelos conselhos, mostrar que a vida apesar de
dura e triste, tem suas riquezas e belezas. Não podemos perder a fé, uma vez
a mulher que ganhou meu coração me disse: A fé é a mãe de todas as
virtudes. Ela que nos conduz no caminho certo.
Algumas pessoas são verdadeiros anjos, que nos conduzem a um
caminho repleto de luz. Angélica não faz ideia, mas ela é a razão da minha
fé.
ANJO CELESTIAL
39

Na manhã seguinte acordei com o Bruno sentado na cama, ele estava


lendo um livro, seus olhos estão vidrados nas páginas. Quando reparo qual
livro o Bruno escolheu ler, sinto meu coração aquecer. Ele está lendo um
romance espírita.
— Bom dia; — digo, bocejando. — Lendo de manhã?
— Eu fiquei curioso, queria entender um pouco a doutrina espírita. O
advogado de Deus, é um livro muito marcante.
— Sim, ele é um livro belíssimo.
Olhei no relógio, eram dez horas da manhã.
Céus…
Sobressaltei da cama.
— O que aconteceu?
— Meu trabalho; — Droga, corri até o guarda-roupa. — Estou muito
atrasada.
Fui dormir tarde da noite, assisti um filme após o jantar e depois…
Bom, Bruno resolveu recompensar os meses sem sexo. Ele não se relacionou
com nenhuma mulher nos últimos meses, estava cuidando da sua saúde
mental. As terapias estão ajudando muito o pai da minha filha, estou curiosa
para conhecer o terapeuta que conseguiu invadir os pensamentos conturbados
do famoso advogado do Diabo.
— É sério, Angélica? — Bruno riu. — É dez horas da manhã!
— Por que você não me acordou? — Esbravejei.
— Porque você fica linda quando está dormindo…
Argh!
— Eu preciso trabalhar.
— A onde você está trabalhando? — Indagou, fechando o livro.
— Em um Call Center de cobranças.
Bruno mudou a sua fisionomia, fiquei parada tentando entender
aquela preocupação que refletia no seu olhar.
— É um ambiente de puro estresse!
Não questionei…
Realmente era um pesadelo, todos os dias recebia xingos, grosserias e
os sermões da monitoria.
— Angel, tem certeza que quer continuar trabalhando em um Call
Center de cobrança? Você está grávida de cinco meses, acho que um
ambiente estressante não te fará bem na gestação.
A minha obstetra comentou que o estresse é um grande inimigo da
gestação saudável. Eu pensei na demissão várias vezes, não vou mentir. Mas
preciso do emprego e agora com uma bebê chegando, vou precisar de todos
os benefícios trabalhistas para conseguir o salário maternidade.
— Eu sei; — confesso. — Meu trabalho não é fácil, tenho quedas de
pressão drásticas quando estou no trabalho, mas preciso do emprego.
Bruno ficou pensativo por alguns segundos, com seu olhar preso na
capa do livro.
— No meu escritório… Você pode trabalhar como auxiliar da minha
assistente pessoal. Estou de férias, mas pretendo voltar a trabalhar, quero
também expandir meu conhecimento e atuar em outras áreas jurídicas.
— Bruno…
— Apenas pense na minha proposta. Você sabe que meu
comportamento no escritório é inteiramente profissional. Não vou mimar
você só porque é a mãe da minha filha; — acabei rindo, relembrando do seu
comprometimento na Lummertz Advocacia. Ele apenas surgia na hora do
almoço para me acompanhar. — Angélica, gostaria de ajudá-la no final da
gestação, faltam poucos meses para Carolaine chegar, você merece descansar
um pouco. A sua saúde é primordial para um parto seguro e rápido.
Mordi meu lábio. Ele tem razão, preciso amenizar o estresse
acumulado nos últimos meses. Não será fácil mudar totalmente minha rotina,
mas quero pensar na minha saúde e na saúde da minha filha. Começar a me
alimentar melhor, beber mais água e fazer caminhadas relaxantes.
— Certo, posso trabalhar como auxiliar no escritório!
Um sorriso majestoso iluminou o rosto do Bruno, ele ficou feliz com
minha decisão. E honestamente? Eu também, vou ter um momento só meu e
pensar mais na minha filha.

As semanas desenrolaram tranquilamente, Bruno me fazia algumas


visitas e nos finais de semana passava as noites comigo. Era comum
encontrar algumas peças de roupas do Bruno espalhadas no meu quarto,
perfumes e outros utensílios masculinos, como um barbeador ou relógios na
bancada do banheiro.
— Uau. — Minha tia adentrou o quarto. — O Bruno está se mudando
para nossa casa?
Meu rosto queimou de vergonha. Havia uma pilha de roupa dobrada
em cima da cama, Bruno dobrou antes de entrar no banheiro para tomar um
banho.
— Ele só dorme aqui nos finais de semana.
Tia Fani suspirou.
— Angel, eu só estou preocupada. Não quero vê-la triste e magoada
novamente. Bruno me prometeu que ficaria do seu lado, mas ainda tenho um
pouco de receio. Acredito que chegou o momento certo para oficializar a
união entre vocês, há meses estão nesse mesmo drama incansável.
— Tia Fani, ainda é cedo. Vou tentar levar as coisas calmamente.
— Só estou pensando na sua felicidade!
— Eu estou feliz, ele tem estado do meu lado. É um pai maravilhoso,
sempre pensa na Carolaine… — suspirei. — Na próxima semana vou
começar a trabalhar no escritório dele. Estou decidida, quero constituir minha
família. Bruno está participando do Centro Espírita, soube que ele está
frequentando o Centro nas quartas-feiras também, ele mudou muito.
— O Bruno não mudou… Ele apenas usava algumas máscaras para se
proteger.
Até mesmo minha tia percebeu a maneira do Bruno enfrentar a traição
da ex-esposa e o luto. Cada pessoa tem a sua maneira de enfrentar as dores e
provações da vida. Não nos cabe julgar o comportamento e atitudes de
alguém, devemos apenas tentar entender. E perceber que o mundo não gira ao
redor do nosso próprio umbigo, existem pessoas que matam vários demônios
por dia.
— Eu sei, não se preocupe, tia Fani.
Minha tia beijou minha testa com carinho antes de sair do quarto.
Após 20 minutos, Bruno saiu do banheiro, devidamente vestido.
— Qual é o problema? — ele franziu o cenho, caminhando até minha
estante de livros. — Você está pensativa… — pegou outro romance espírita.
— Às vezes acredito que estou sonhando. Que tudo não é real, você
aqui… comigo, dormindo ao meu lado.
Bruno me encarou sério.
O cheiro de sabonete e colônia recendeu no meu quarto. Eu amava
tudo relacionado a ele, até mesmo o aroma de uma colônia pós barba.
Bruno acabou com os centímetros que nos separavam, ele me segurou
nos seus braços e me beijou com fervor. O beijo foi possessivo, cheio de
paixão e amor. Eu quase me desequilibrei, mas Bruno me agarrou com mais
força. Eu perdi o controle do meu corpo, os toques das minhas mãos estão
selvagens, segurei com vigor no seu cabelo, aprofundando o beijo
enlouquecedor.
Era real…
O meu amor por ele…
A nossa vida juntos…
O tesão que se acumulava entre as minhas pernas.
— Eu quero você; — Gemi. Bruno mordiscou o meu lábio inferior.
— Agora…
— Minha Anja insaciável, acabei lendo em um site que a gravidez
aumenta a líbido da mulher. Acho que estão certos; — deslizou seus lábios
no meu pescoço. — Você está esgotando a minha energia.
— Esgotar a sua energia? Bruno, você é um íncubo ávido por sexo.
— Íncubos e Anjos não deveriam se relacionar; — gracejou. —
Vivemos um amor proibido.
Gargalhei, meneando a cabeça.
— O nosso amor é perfeito!
Bruno voltou a me beijar, guiando nosso corpo unido até a cama. Ele
me deitou com cuidado, sempre atencioso e com medo de machucar a minha
barriga, depois correu até a porta para girar a chave.
Bruno estava ansioso, com as mãos trêmulas e maliciosas, ele
começou a tirar minha roupa. Aproveitando a oportunidade para beijar minha
pele e acariciar meu corpo.
Antes do sexo, Bruno tem uma mania (afetuosa no meu ponto de
vista), ele fica por longos minutos beijando a minha barriga e conversando
com a Carolaine, ela sempre pula e se agita, não para de se mexer um único
segundo. São maravilhosos os momentos que estou passando ao lado dele, é
maravilhoso saber que nossa filha sente o carinho e o amor do pai. É bom
saber que somos amadas por ele.
O ADVOGADO DO DIABO
40

Angélica está recebendo vários elogios da minha assistente no


escritório. Quando voltei das minhas férias inesperadas, havia uma agenda
lotada, clientes que estão me procurando há meses.
A minha mulher auxiliou no que era preciso, eu não permito que a
Angélica permaneça no escritório por mais de seis horas. O salário era bom,
ela trabalhava de uma maneira admirável. Era compenetrada, responsável e
muito inteligente. Trabalhando ao lado dela, tenho que controlar a minha
vontade de abraçá-la e de confessar tudo que sinto por ela. Vê-la em um
macacão social de gestante, transitando no meu escritório com uma agenda e
algumas pastas nas mãos, só aumenta o meu amor e o meu tesão!
Respirei profundamente, lutando para não pensar nos gemidos dela ou
como Angélica está fogosa nas últimas semanas.
Antes do almoço, participei de uma reunião rápida com meu contador,
ele disponibilizou uma planilha com uma visão detalhada dos meus lucros
nos últimos meses. Eu continuava rico, como esperado e agora com a venda
da minha herança, tenho uma conta bancária imensurável.
— Senhor Alcântara; — Minha secretária pessoal entrou no meu
escritório. — Valéria Alcântara gostaria de conversar com o senhor.
— A minha mãe? — Fiquei boquiaberto, não esperava revê-la, não
agora… Estou feliz, tudo em minha vida está se reorganizando. Valéria não
pode me desequilibrar, controlei a minha raiva e autorizo a sua entrada.
Minha mãe entrou, com os mesmos vestidos espalhafatosos e as
bolsas de grifes. O corte de cabelo não mudou, ela nunca modificou o corte
curto que tornava a sua aparência mais elegante e insuportável.
— Como ousa; — vociferou. — Você vendeu o Estaleiro Âncoras?
Suspirei fundo, sabendo que estou prestes a começar uma batalha.
— Vendi apenas a minha parte, você faz o que quiser com a sua
porcentagem.
— VOCÊ FICOU LOUCO? O Estaleiro está há gerações na nossa
família, não pode renunciar a tudo por puro capricho ou vingança.
— Vingança? — Gargalhei. — Eu sou conhecido pela grande mídia
nacional como “O advogado do Diabo”, tenho uma agenda jurídica
extremamente lotada, sou um dos advogados mais procurados do Brasil.
Conquistei meu próprio império, você acha mesmo que perderia o meu tempo
buscando vingança contra vocês? — As minhas palavras saem da minha boca
como flechas venenosas, não consegui conter o desdém no meu tom de voz.
Minha mãe ficou transtornada, ela acha mesmo que ficaria
administrando as empresas da família? Valéria Alcântara é muito burra, só
posso chegar a essa conclusão!
— Eu estou recebendo propostas absurdas; — disparou, jogando a
bolsa em cima da minha mesa. — Os novos proprietários estão duvidando da
minha capacidade de gerenciar um império, que a minha presença na empresa
não é necessária.
Ergui os ombros, não me preocupando com as decisões dos novos
proprietários do Estaleiro Âncoras. A minha mãe é uma mulher fútil,
mesquinha e muito arrogante, qualquer pessoa com um raciocínio saudável
consegue perceber que ela não é qualificada para um cargo que está no topo
da hierarquia, infelizmente eles não estão errados. O meu pai poderia ser um
homem desumano, mas quando o assunto era o famoso Estaleiro Âncoras, ele
sabia caminhar com equilíbrio e sensatez.
Valéria Alcântara só estava preocupada com os jantares de gala e com
as viagens luxuosas.
— Vou preparar um drink, gostaria de me acompanhar? Você está
muito nervosa, uma boa dose de uísque vai amenizar a tensão. — Digo,
debochando descaradamente.
— Você é desprezível, Bruno Alcântara. É igualzinho ao seu pai…
Rangi os dentes, gemendo de raiva.
— Desprezível… — enchi um copo com uísque, mesmo com as mãos
tremendo de ódio. Coloquei dois gelos no líquido forte, virando-me em
direção da minha mãe. — Você negligenciou a própria filha, passou metade
da sua vida curtindo festas luxuosas e viagens milionárias. E agora vem até
meu escritório me chamar de desprezível?
— Bruno, por favor. Eles estão conspirando contra mim, querem me
obrigar a vender a minha parte do Estaleiro.
— Não posso fazer nada. Eu já assinei todos os documentos, contratos
e licenças que desvinculam o meu nome do Império Alcântara.
— Você me odeia tanto assim?
— Na verdade, eu a desprezo… — bebi o uísque. — É diferente!
— O desprezo e o ódio andam lado a lado.
— Que poético, mas não tenho tempo para frases profundas no
momento, estou no meu horário de almoço.
A porta do meu escritório é aberta, Angélica entrou carregando uma
bandeja enorme. Ela mantinha o cuidado, equilibrando duas latas de Coca-
Cola, duas marmitas e três potes estranhos.
— Comprei o nosso almoço, Gleice me explicou que você
provavelmente estaria ocupado… — Ela olhou para a minha mãe com um
sorriso radiante que conquistaria até o próprio Diabo. Será que ela tem noção
do quanto o seu sorriso é poderoso? — Olá, meu nome é Angélica Amaral,
sou a namorada do Bruno. — Colocou a bandeja em cima da mesa,
estendendo a mão para um cumprimento.
Valéria olhou para a barriga redonda da Angélica. A sua expressão
enraivecida foi tomada por uma afeição espantosa e descrente. Ela ignorou o
cumprimento da minha mulher, interpelando:
— O que significa isso?
Angélica recolheu a mão, ganhando um rubor nas bochechas.
— Angélica Amaral é a minha mulher. Como você mesma pode ver,
ela está grávida de cinco meses.
— Grávida? Você será pai?
Uma dor de cabeça chata começou a me incomodar. A minha mãe
consegue ser uma mulher irritante, nossa discussão é completamente
desnecessária.
— Não é óbvio? — Retruquei com os dentes cerrados.
Angélica pigarreou dramaticamente.
— A senhora gostaria de almoçar conosco? Eu posso providenciar
outra marmita…
— Não se incomode, menina. — Valéria diz seca, sem encarar
Angélica nos olhos. — Quero que o meu filho resolva a minha situação.
— Hmm; — ignorei Valéria Alcântara, chegando perto da minha
mulher. — Que cheiro delicioso, o que você comprou?
— Usei o Ifood; — disse rindo. — Comprei duas marmitas
completas, saladas e sobremesas. Não queria sair para almoçar no centro
caótico de São…
— BRUNO, COMO OUSA ME IGNORAR… — Tudo aconteceu
muito rápido, em um segundo minha mãe estava parada no centro do meu
escritório, no outro ela estava arremessando uma das marmitas na parede. —
Eu não vou perder a minha fortuna…
Angélica ficou estagnada.
Minha reação foi vergonhosa, eu surtei… Os meus gritos começaram
e perdi completamente a minha razão. Usei palavras duras para agredir a
minha mãe verbalmente, enquanto ela desabava em lágrimas.
— Você é a mulher mais grotesca que conheço. É superficial, falsa e
asquerosa… Eu odeio tudo relacionado a você…
— Bruno já chega! — A voz serena da Angélica sobrepôs. — Peça
desculpa para a sua mãe.
— QUÊ? — ri com escárnio.
— Ela está pedindo a sua ajuda, tenho certeza que você pode orientá-
la sem começar uma terceira guerra mundial.
— Você viu; — apontei para a comida espalhada no chão. — Ela é
totalmente desequilibrada, não tem como orientar uma pessoa lunática.
Valéria soluçou, limpando as lágrimas.
— Eles estão tramando contra mim, eu sei…
— Por favor, sente-se; — Angélica segurou no braço da minha mãe,
guiando-a até a poltrona. — A senhora precisa se acalmar, Bruno vai ajudá-
la, você só precisa explicar o que aconteceu. E sem ofensas de ambas as
partes, por favor. — Minha mulher me lançou um olhar afiado.
Valéria controlou o choro e começou a relatar. Tudo indica que ela
quase assinou documentos que alegavam sua incapacidade mental para
administrar um estaleiro de grande porte. Um novo diretor que administra
uma das empresas no centro da cidade, tentou persuadir a minha mãe a
assinar vários documentos que ela desconhecia. Valéria só não assinou
porque um simples estagiário alertou o perigo de assinar documentos sem lê-
los com atenção, com certeza o estagiário acabou ouvindo alguns boatos. Ela
decidiu levar os documentos para a casa e leu cada folha com calma,
descobrindo o golpe.
Problemas e mais problemas…
Será que nunca terei paz?
— Certo, vou ajudá-la, mas preciso de tempo para encontrar pessoas
qualificadas para auxiliar no que for necessário.
— Obrigada, Bruno.
Eu apenas assenti com a cabeça, fazendo um gesto vago com a mão.
— Sinto muito pelo transtorno; — comecei a rir, Angélica tem uma
bondade admirável, mas às vezes ela ultrapassa qualquer limite coerente. —
A Senhora gostaria de um copo com água?
Minha mãe avaliou o rosto delicado da Angélica, reparando em cada
detalhe. Algo diferente cintilou no seu olhar, uma expressão de ternura que
nunca presenciei antes.
— Não será necessário, querida. — Forçou um sorriso amarelo. —
Você já sabe o sexo do bebê?
— É uma menina, ela vai se chamar Carolaine!
Valéria Alcântara limpou as lágrimas que voltaram a transbordar dos
seus olhos.
— Tenho certeza que ela será uma criança muito amada; — Angélica
sorriu, concordando sutilmente com a cabeça. Minha mãe levantou-se para
pegar a bolsa de grife. — Agradeço pela ajuda, voltarei na próxima semana…
— Marque um horário; — Interfiro. — Não chegue no meu escritório
sem um horário marcado porque não vou vê-la novamente.
Valéria suspirou pesadamente, ela caminhou até a porta, mas antes de
sair vira-se na minha direção:
— Não existe um dia sequer em que eu não penso nela, não existe um
único dia em que eu não sinta o arrependimento corroendo a minha vida
miserável; — Nunca testemunhei Valéria Alcântara arrependida ou sentindo
qualquer remorso, mas hoje… senti uma certa sinceridade nas palavras dela.
— Eu sinto muito por tudo, meu filho.
— É passado, mãe. Siga em paz, vou entrar em contato quando
encontrar alguém qualificado para te ajudar.
— Tudo bem, parabéns pela gravidez e tenham um casamento
próspero e feliz.
A minha mãe saiu do meu escritório sem olhar para trás, fiquei por
longos minutos observando as comidas espalhadas na parede e no chão, as
palavras da minha mãe foram significativas para mim.
"Tenham um casamento próspero e feliz".
Um casamento…
Angélica estava abaixada, juntando os restos de comida.
— Angélica, levante-se. Não precisa limpar essa sujeira, tenho uma
equipe que organiza e limpa o escritório.
— Desculpa entrar sem avisar, mas estávamos ouvindo os gritos da
sua mãe na recepção.
Um casamento…
Será que estou preparado para viver outro casamento?
— Bruno, você está bem?
— Sim, eu estou ótimo. Só estou pensando um pouco.
Angélica mantinha a expressão adorável de sempre, o mesmo sorriso
radiante que amo infinitamente. Ela chegou de mansinho, conquistando
minha confiança e meu coração. Angélica é aquele tipo de pessoa que
gostaríamos de guardar dentro de um baú, para protegê-la como se fosse um
tesouro inestimável. Ela é aquele tipo de pessoa que queremos seguir de mãos
dadas, planejar o nosso futuro ou conversar por horas.
Talvez, eu mereça um novo casamento!
ANJO CELESTIAL
41

O Centro Espírita Caminho da Rosa Azul estava participando de uma


ação voluntária para ajudar mulheres vítimas de violência doméstica, as
palestras agora eram de mulheres que sofreram algum tipo de abuso. E
conhecemos histórias como da Fernanda, o seu ex-marido não aceitou a
separação, pensava que a Fernanda era sua propriedade e para se vingar
decidiu trancar os cachorros que ela tanto amava dentro da casa (ela é
veterinária) e começar um incêndio. Fernanda perdeu tudo, o imóvel ficou
destruído e os cachorros morreram carbonizados.
Ela está lutando para recomeçar do zero, mas infelizmente não está
sendo fácil depois do trauma que precisou enfrentar. Agora estamos
vendendo bolos, pastéis e coxinhas para arrecadar dinheiro e ajudar as
mulheres que acabaram perdendo a dignidade e uma vida próspera por causa
dos relacionamentos abusivos.
— Angélica, acorde… — Ana Lúcia bateu palmas. — Você está
quase dormindo na barraca de coxinha.
— Oh, desculpa; — eu convidei as minhas amigas para ajudar na ação
voluntária. Elas aceitaram no mesmo instante. Karen está ajudando a senhora
que vende os pastéis. — Eu estava pensando na história da Fernanda.
— Sim, eu também não consigo parar de pensar na história dela. O
homem trancou os cachorros dentro da casa e ateou fogo. Angélica, é
completamente doentio.
— Eu sei, queria ajudar de alguma maneira.
— Você já está ajudando, minha querida. Chega de pensar em fatos
tristes, não te fará bem na gestação. Como está o seu relacionamento com o
Bruno?
Fiquei pensativa novamente. Na verdade, está um pouco estranho, o
próprio Bruno está estranho. Ele anda disperso, com os pensamentos
perdidos desde que Valéria Alcântara foi visitá-lo no escritório. Às vezes ele
fica parado me olhando, representa que quer me dizer alguma coisa, mas
sempre hesita ou disfarça. Eu não quero perguntar e bancar a namorada
neurótica, então evito as perguntas inapropriadas.
— Eu não sei, Bruno está ficando meio distante ultimamente.
Lúcia olha-me franzindo o cenho.
— Ai meu Deus, vai começar outro drama? Já não bastaram os
obstáculos e desentendimentos que enfrentaram?
— Eu sei; — um nó formou-se na minha garganta. — Tudo estava
perfeito, até a mãe dele decidir invadir o escritório na semana passada e
começar uma discussão. Eu acho que passei dos limites, acabei me
envolvendo na discussão.
— Você é a mulher dele, estão praticamente morando juntos. É
comum passar certos limites no casamento.
Comecei a rir.
— Não somos casados, Ana Lúcia. Ele nem sequer me pediu em
namoro, mas dorme todos os finais de semana na minha casa.
— Então pergunte quais são os planos dele. Você nunca vai saber se
não perguntar.
— Tem razão; — Nenhuma relação vai sobreviver sem a honestidade.
Uma boa comunicação é a base de um relacionamento duradouro. — Eu vou
falar com ele.
— E falando no Diabo… — minha amiga sorriu, gesticulando na
direção de três homens. Um deles era meu namorado (é claro), o segundo era
Carlos Solano e o outro… não conhecia. Os três caminharam até a barraca
que estou administrando.
— O Centro Espírita está lotado hoje. — comentou Bruno,
cumprimentando Ana Lúcia em seguida.
— Como vai, Angélica?
— Estou ótima, Carlos. E você?
— Bem, um pouco entusiasmado com a ação voluntária. Quero
ajudar…
— Primeiro, vamos às apresentações. Angélica, esse é meu terapeuta
e também amigo, Benjamin Amorim.
O homem estendeu a mão para um cumprimento formal.
— É um prazer conhecer a famosa Angélica Amaral, tenho ouvido
muito sobre você. — Esbanjou um sorriso alegre.
— Espero que só notícias boas!
— Certamente; — O homem era bonito, muito apresentável e
charmoso, ele não passava dos 40 anos. — Estou aqui para participar da ação
voluntária.
— Benjamin vai escolher cinco mulheres que sofreram abusos
domésticos para tratar seus traumas no consultório, será tudo gratuito. O
tratamento vai durar cerca de um ano, dependendo do avanço das pacientes.
— Explicou Bruno, bastante animado com tudo.
— Isso é maravilhoso, não tenho palavras para agradecer.
— E tem mais… — Bruno continuou. — Vou fazer uma doação
razoável para ajudar na campanha. O Carlos está aqui para tirar as dúvidas
das mulheres e auxiliar aquelas que desconhecem seus direitos.
— Quero começar quanto antes. — Carlos olhou ao redor. — Onde
posso me sentar?
Foi neste instante que percebi a bolsa lateral no corpo do Carlos.
— Posso ajudar; — Disse Ana Lúcia. — Vou levá-los até a Luana.
Carlos e o Benjamin seguiram a Ana Lúcia para dentro do Centro
Espírita.
Fiquei a sós com o Bruno.
— Posso ajudar com as vendas?
— É claro! — Bruno entrou na barraca me ajudando no que era
preciso.
— Por quanto tempo vai ficar trabalhando de voluntária no Centro
Espírita? — Indagou, beijando minha bochecha com carinho.
— Até às 18 horas, por quê?
— Vamos jantar fora hoje…
— O quê?
— No restaurante que costumávamos almoçar. Eles têm um ótimo
atendimento, nunca jantei no restaurante e estava pensando que seria legal.
— Que horas? — Tem alguma coisa errada, ele está muito nervoso.
— Às 20 horas, tudo bem?
— Certo, eu vou… — Só porque quero desvendar o motivo deste
nervosismo.
O meu dia foi cheio de surpresas, Bruno decidiu doar um apartamento
para a Fernanda que sofreu uma violência absurda do ex-marido, ajudou
outras mulheres e doou uma quantia razoável para a ação voluntária
continuar. Quando cheguei em casa contei para a minha tia as surpresas que
recebi hoje, falei dos amigos do Bruno chegando para ajudar, do homem que
amo lutando por uma causa tão íntegra e bonita. Eu estou tão orgulhosa, estou
tão feliz e decidi caprichar no visual.
Mesmo grávida usei um vestido longo, muito elegante e na cor
carmim. Ele tinha detalhes de cristais no decote discreto. Prendi o meu cabelo
em um coque tradicional. Não usei muita maquiagem, mas destaquei meus
lábios carnudos com um batom bordô.
Bruno chegou uma hora antes do esperado, o homem estava uma
pilha de nervos.
— Qual é o problema?
Bruno apenas analisou cada detalhe do meu vestido, depois avaliou o
meu rosto.
— Você está linda, deslumbrante!
— Bruno…
— Eu estou bem, só estou um pouco nervoso. — Ele usava um
belíssimo terno, parecia até uma ocasião especial.
— Por que você está tão nervoso?
— Podemos conversar no restaurante; — meu coração começou
acelerar no meu peito. — Teremos mais privacidade.
Eu não protestei, estava ficando angustiada. Não sabia o que estava
acontecendo, não compreendia tal nervosismo. Pode ser algo relacionado ao
escritório ou sobre a Lummertz Advocacia, mas ele teria me falado.
Chegamos no Restaurante antes do horário marcado, os atendentes
sempre atenciosos, nossa mesa já estava preparada em uma sala privada (na
mesma que almoçamos juntos), Bruno pediu um espumante sem álcool e
alguns aperitivos.
— Hoje o dia foi incrível no Centro Espírita, fiquei muito feliz em
poder ajudar.
Concordei com a cabeça, sorrindo de leve.
— E foi gentil da sua parte convidar o Carlos e o Benjamin para
participar da campanha.
Bruno segurou na minha mão, sinto seus dedos gelados e trêmulos.
Qual é o problema dele?
— Você fez alguma coisa errada? Alguma coisa que vai me
machucar?
— Quê? — Bruno gargalhou. — Não, meu Deus!
— Então, por que está tão nervoso?
Ele suspirou, encarando-me tão intensamente que fez os pelos do meu
braço eriçar.
— Quero me casar com você; — Oh Deus, perdi o fôlego por alguns
segundos. — Quero me casar com sua essência, com a sua alma, com seu
coração, quero viver todos os dias da minha vida ao seu lado.
— Bruno… O quê? Como?
— Apenas ouça; — minha garganta queimou, as lágrimas já estavam
querendo chegar. — Depois que a minha irmã faleceu, comecei a fugir de
todos os sentimentos bons. Eu fiquei com raiva da vida, com raiva do mundo
e tinha inveja da felicidade alheia. Aquela dor foi corrompendo meu coração,
deixei de acreditar na bondade ou até mesmo na fé que um dia me moveu. Eu
mergulhei em um abismo tão profundo, doloroso, cruel e ninguém conseguia
me salvar. Então, busquei equilíbrio no trabalho, nos crimes doentios que
surgiam na minha mesa e por um tempo, eu consegui esquecer o luto e a dor.
— Por favor; — eu já estava chorando. — Você não precisa…
— Eu preciso que você entenda; — Bruno passou a mão no cabelo.
— Era prazeroso saber que existiam pessoas mais fodidas que eu; — ele
abriu um sorriso entristecido. — Isso pode me transformar em um grande
filho da puta.
— Não transforma, jamais vou pensar tal coisa sobre você.
— O trabalho ocupou meus pensamentos, mas então… — engoliu em
seco. — As rosas começaram a desabrochar no meu jardim, Sofía amava
plantar rosas, as amarelas eram as suas preferidas. E quando minha irmã
faleceu, às flores se foram com ela, simplesmente murcharam e secaram. Para
evitar pensar nela, acabei proibindo o plantio de qualquer espécie de flores no
meu jardim. No entanto, as flores começaram a desabrochar sozinhas,
misteriosamente e de uma maneira sobrenatural. Aurora me alertou que
poderia ser um aviso dela, da Sofía. Eu não queria acreditar, então decidi
cortar as rosas e arrancá-las da terra, mas elas sempre surgiam no outro dia
como um passe de mágica. Tudo começou uma semana antes de te conhecer
no fórum. Eu já estava ficando louco, fazia uma semana que aquelas flores
estavam surgindo misteriosamente no meu jardim e depois você entra na
minha vida com seus dons mediúnicos. Sabe como encontrei você no
banheiro do Fórum?
Neguei com a cabeça, limpando as lágrimas.
— Havia uma trilha de pétalas de rosas nos corredores do Fórum, que
me levaram até você. O mesmo aconteceu no Império Bar, no exato momento
em que você foi atacada no estacionamento uma trilha de pétalas de rosas
surgiu de uma maneira sobrenatural no balcão, onde eu estava apoiado e
bebendo um copo de uísque. Foi neste instante que percebi que você estava
precisando de ajuda. Acredito que a minha irmã queria nos unir porque sabia
que a sua luz poderia me salvar, Sofía sabia que a sua fé e a sua bondade,
transformaria a minha vida. Ela colocou você no meu caminho, porque sabia
que eu me apaixonaria por você.
Cobri a minha boca com a mão para calar os soluços.
— Você me salvou quando eu já tinha desistido de mim, você se
tornou meu lar quando estava perdido e não pertencia a lugar nenhum. Eu
estava sem rumo, mergulhado na dor do luto, com medo de confiar em
qualquer sentimento nobre que nascesse em meu coração. E quando você
entrou na minha vida, você me amou de uma maneira tão real e pura, aceitou
meus demônios e no fim enfrentou meus temores para estar ao meu lado. Eu
nunca… — Bruno se emocionou, permitindo que lágrimas chegassem. —
Nunca vou conseguir expressar minha gratidão e principalmente o tamanho
do meu amor por você. Eu te amo Angélica Amaral, amo muito. Você
gostaria de se casar comigo?
Céus, a minha pressão caiu... Acho que vou desmaiar!
— Estou passando mal… — Revelei, levantando-me a procura de ar.
— Merda… — Bruno rapidamente veio ao meu socorro, ele me guiou
até a janela do restaurante. A brisa gelada da noite bateu contra meu rosto, me
fazendo estremecer.
Respirei…
Respirei…
Respirei novamente… Controlando meu coração que perdeu o ritmo
depois das revelações.
— Angel, está melhorando?
Eu afirmei com a cabeça, inspirando profundamente.
— Você não pode fazer revelações bombásticas para uma mulher
grávida.
Bruno acabou rindo sem graça, ele passou a mão no rosto para limpar
a pele úmida por causa das lágrimas.
— Mil perdões, eu deveria ter pedido você em casamento na barraca
de coxinha.
Gargalhei até a Carolaine começar a se mexer dentro da minha
barriga.
— Era por isso que você estava nervoso?
— Sim, eu queria que fosse especial.
— Oh Deus e foi… Você quase me matou do coração; — ele voltou a
rir. — Foi perfeito!
— Eu ainda não acredito que sou merecedor de uma mulher tão
fantástica. Vou ser honesto, estou morrendo de medo, mas não quero viver
sem você e sem a nossa filha.
— Você é merecedor, Bruno. Eu também não quero viver sem você, é
claro que aceito o seu pedido de casamento.
— Quê? — ele piscou aqueles cílios volumosos, seus olhos
cintilavam uma felicidade surreal, uma felicidade que só encontramos em
livros e filmes de romance.
— Eu quero me casar com você!
— Jura?
— Juro para além desta vida!

No espiritismo o amor é a conexão e a atração entre as almas. Existem


várias formas de amor, mas todas são válidas. Para a doutrina espírita o amor
sempre será mais forte que o ódio, mais forte que qualquer mal que possa
existir no mundo. Usamos o amor, a luz e a fé para modificar vidas. E foi
com a minha fé, meu amor e a minha determinação que consegui salvar um
homem dominado pela dor, pela mágoa e ódio.
Ter fé é muito mais que entrar em Templos, Igrejas ou Centros
Espíritas. É se interessar pela vida do outro, é se importar quando ninguém
mais está olhando para o próximo. É dar um pouquinho do nosso tempo para
ouvir o lamento de um amigo, é sorrir para o porteiro ou dar bom dia para um
simples estranho na rua. A fé modifica as rotinas, vidas, sonhos e amores.
Precisamos continuar amando quando tudo está desabando, precisamos
continuar acreditando na força da bondade ou nas palavras de encorajamento.
Um amor nunca será um peso, nunca vai nos prejudicar, ele sempre
traz consigo um aprendizado que devemos valorizar. Não importa se você
segue junto da pessoa amada ou se cada um tomou caminhos opostos.
Devemos valorizar o dom da vida, o dom da fé e o dom de amar, espero
encher a vida do Bruno com meus dons, espero que você consiga encontrar
alguém que demonstre que o amor verdadeiro nasce da fé.

FINAL.
EXTRA

(ANGÉLICA ALCÂNTARA)

O jardim da Mansão estava repleto de bexigas e decorações cor de


rosa. É o aniversário da Valentina, ela está completando 9 aninhos de muita
inteligência.
As crianças não paravam de correr, Valentina convidou todos os
amiguinhos da Escola e também alguns colegas do bairro. Tia Fani organizou
um Buffet impressionante, com o conhecimento da Aurora para festas
luxuosas, às duas tornaram o aniversário da Valentina em um sonho de
princesa.
Havia Piscina de bolinha, pula-pula infláveis de todas as formas e
tamanhos e também pequenos tobogãs. Bruno contratou um show de
animadores de festa infantil e também cosplay das princesas da Disney. A
festa estava perfeita, mesmo com ajuda financeira do pai da Valentina, minha
tia nunca conseguiu planejar uma festa como ela sonhava e desejava. O
aluguel de salões são caríssimos na minha cidade, infelizmente só
conseguimos planejar o aniversário de um aninho da Valentina. Agora Bruno
está nos proporcionando um verdadeiro sonho, ele está recebendo alguns
convidados que estão chegando e também os amigos.
O problema no momento são as minhas contrações. A Carolaine
escolheu nascer no mesmo dia em que a Valentina chegou para alegrar as
nossas vidas.
— Angélica; — A minha priminha correu na minha direção. — Você
só vai ficar sentada?
— Desculpa, meu amor. Eu não posso ficar muito tempo de pé, a
minha barriga está muito grande.
— É uma pena, eu queria que você brincasse no pula-pula comigo!
— Eu sinto muito mesmo…
Ela ficou chateada, mas rapidamente esqueceu quando seus
amiguinhos gritam o seu nome, Valentina correu até o pequeno tobogã para
brincar.
As dores estão aumentando, elas começaram de manhã, uma simples
dor na lombar e depois as cólicas estranhas. Agora as dores estão quase
insuportáveis e tenho certeza que não estou completamente dilatada para um
parto normal. Com cuidado levanto-me da cadeira, faço de tudo para não
gemer de dor.
Bruno estava conversando com o Benjamin que não tirava os olhos
dos filhos.
Tudo bem… Você só precisa subir até o quarto e deitar um pouco.
Não posso estragar a festa tão sonhada da minha tia e também da
Valentina, ela está tão feliz. O primeiro obstáculo eram subir as escadas até o
terraço, meu corpo começou a suar de dor e cada passo era aterrorizante.
Observei ao redor, procurando cada membro da minha família: A
Valentina brincava com os amigos, Tia Fani não parava de fofocar com uma
amiga, meu marido mantinha uma conversa alegre com seu terapeuta. Aurora
enchia um prato com docinhos para o neto, uma mulher segurava na
mãozinha dele, com certeza é sua filha. Elas estavam tão perto, eu poderia
pedir ajuda… Uma brisa gelada bateu contra meu rosto, estremecendo até
meus ossos.
— Estou aqui para ajudá-la. — A voz que sussurrou fez todos os
pelos do meu corpo arrepiar.
Viro-me lentamente.
Havia o espírito de uma mulher próxima da escadaria. Ela tinha um
brilho tão lindo e puro, um brilho que encheu meu coração de paz. Eu soube
que tudo acabaria bem, que a Carolaine chegaria nesta vida para cumprir uma
missão tão bela e única.
— Obrigada, muito obrigada! — As lágrimas chegam.
O espírito sumiu exatamente como chegou, de uma maneira
sobrenatural. E um vento forte começou de repente, era uma ventania surreal
que arrastava até as mesas e as cadeiras.
Bruno foi o primeiro a tentar me procurar no meio dos gritos das
crianças e das mães, ele girava o corpo me procurando.
— Olhe em direção das escadas; — gemi, não conseguindo me
mover. — Por favor…
Foi como se o meu sussurro voasse entre os ventos fortes e chegasse
até ele. Bruno virou-se diretamente na minha direção com uma expressão
assustada. Imediatamente correu para me encontrar, desviando das crianças
que não demonstram um resquício de medo, já os adultos estão desconfiados
da ventania sobrenatural que dominou a festa de aniversário.
— Você está bem? — Bruno segurou no meu rosto, analisando cada
detalhe e limpando as lágrimas que escorriam por minhas bochechas.
— Ela vai nascer, a Carolaine…
— Agora? Meu Deus, Angel! Por que você não avisou?
— Eu não queria estragar a festa…
— E dar à luz a uma criança em uma festa de aniversário é
completamente normal.
— Eu preciso subir as escadas, não consigo.
Bruno me pegou no colo, minha barriga latejou, acho que tem uma
faca cortando todos meus órgãos vitais.
A dor era horrível!
— Você aguenta mais alguns minutos; — ele empurrou a porta do
terraço. — Eu preciso pegar alguns documentos e a bolsa da Carolaine.
— Tudo bem, eu aguento.
Bruno me deixou no sofá e subiu as escadas correndo, não demorou
muito para voltar. O homem estava uma pilha de nervos.
— Amor, você precisa certificar se tudo que precisa está dentro da
bolsa.
Ele abriu o zíper da bolsa e começou a mostrar tudo que havia dentro
dela.
— Ótimo, está tudo aí dentro. Podemos ir agora?
Bruno riu, ajudando-me a levantar do sofá. Apesar do sorriso alegre
no seu rosto, Bruno estava muito pálido. O homem até deixou a bolsa cair no
chão quando me guiava para fora.
— Bruno, acalme-se…
— É sério? A nossa filha vai nascer a qualquer momento.
— Amor, preste atenção. Vai demorar até meu corpo atingir dez
dedos de dilatação, o caminho ainda é longo. Agora quero que você respire e
olhe pra mim… — Ele balança a cabeça em concordância, fitando-me
intensamente. — Não posso subir na picape, você precisa dirigir o meu
carro.
— Dirigir o seu carro, certo… Eu consigo… Eu acho!
Soltei uma risada.
— Você não ficou tão nervoso no dia do nosso casamento.
— É claro que não, você não estava em trabalho de parto.

(BRUNO ALCÂNTARA)

Eu tinha que agradecer a Deus. O trânsito de São Paulo que sempre


estava tão caótico, hoje está tranquilo e calmo. Angélica gemia ao meu lado
de dor, eu não sabia o que dizer a ela nesta hora.
Um filme iniciou na minha cabeça, comecei a relembrar o nosso
primeiro encontro no fórum, as cenas que vivemos juntos deveriam ser
memorizadas nas páginas de um livro.
Lembrei do nosso casamento, dos votos que fizemos juntos no Centro
Espírita, recebemos muitas bênçãos desde então. Tenho participado das
sessões espíritas e das ações voluntárias inspiradoras, e meu trabalho seguiu
um outro rumo. Agora defendo os direitos de mães solteiras, mulheres que
sofrem algum tipo de violência conjugal e criamos a instituição "A luz de
Sofía", para ajudar mulheres que necessitam de amparo, tratamento
psicológico e até mesmo financeiro. Recebemos ajuda de todo canto do
Brasil, ficamos famosos quando resolvi fazer uma publicação no Facebook
relatando a história de uma mãe que enfrentou um verdadeiro inferno ao lado
do ex-marido.
— Por favor, converse comigo. Diga sobre o que está pensando. — A
sua voz saiu falha por causa da dor.
— Desculpe, amor. Eu estava pensando no começo da nossa relação e
depois meus pensamentos voaram até a instituição que criamos juntos.
Ela riu.
— Amo a sua sinceridade, amo quando abre os seus pensamentos sem
medo.
Dificilmente encontramos alguém que consegue entender todos os
nossos pensamentos. Dificilmente conseguimos encontrar alguém que ouça a
nossa verdade. Com ela consigo expressar minhas opiniões, pensamentos e
emoções sem medo. Eu sei que no final do dia, ela vai me entender e ficar ao
meu lado.
— Eu sempre vou estar aqui para revelar os meus pensamentos mais
pervertidos. — Descontraí, arrancando outro riso fraco dela. — Já estamos
chegando, Angel.
— Eu sei!
— Agorinha pouco, quando começou uma ventania sobrenatural na
festa, eu acabei ouvindo uma voz. — Reparei que a minha mulher mudou a
sua postura, ela me encarou rapidamente. — Era uma voz fraca, parecia
distante e mesmo assim consegui ouvir quando ela me disse: Angélica está
próxima das escadas.
— Eu estou sentindo as dores desde manhã; — Merda, como eu não
percebi? Segurei com força no volante. — No começo eram apenas dores na
lombar e cólicas estranhas, mas agora de tarde foi intensificando… Então, um
espírito surgiu para me ajudar!
— Eu sinto muito amor, eu não percebi.
— Não se preocupe, eu disfarço bem.
A minha mulher chegou no hospital às 16 horas. Angélica optou por
um parto normal, não queria uma cesariana. Ela me garantiu que aguentaria
as dores do parto.
Não demorou muito para Fani notar nosso sumiço repentino e me
ligou quando Angélica entrou no quarto hospitalar. Expliquei o que estava
acontecendo, acalmando a tia da minha esposa que ficou aflita do outro lado
da linha. Eu assegurei que Angélica ficaria bem, ela poderia ficar na festa até
o último convidado deixar a Mansão. Dona Fani ficou um pouco hesitante,
mas concordou no final. Ela não poderia abandonar quase cem convidados.
Eu não estava preparado psicologicamente para o parto da minha
filha. Os gritos da Angélica ecoavam no quarto, não aguentei ficar vendo o
sofrimento dela. As dores foram aumentando conforme os minutos passavam,
após três horas de agonia e dores, Fani chegou no hospital…
— Como ela está?
— Sofrendo, meu Deus. Estou oficialmente iniciando o celibato, não
vou mais tocar nela.
Fani acabou rindo.
— Quanto de dilatação ela está?
— Apenas quatro, ela precisa chegar até os dez dedos de dilatação. —
Eu teria morrido…
— Acho que a Carolaine só nasce amanhã. — Fani mantinha uma
calma invejável.
— Eu tentei convencê-la a optar pela cesariana ou até mesmo
anestesia para diminuir as dores do parto.
— Acredite, Bruno… — Fani riu. — Daqui algumas horas ela vai
implorar pela anestesia!
Eu acho que a boca da Fani era santa, porque Angélica aguentou mais
uma hora de dores e depois solicitou a analgesia.
Angélica foi preparada para receber a anestesia, como esperado foi
aplicada na região dorsal. Depois de alguns minutos consegui entrar no
quarto, Angélica estava muito pálida por causa das dores que tinha
enfrentado.
Fiquei ao lado dela até o nascimento da nossa filha, Angélica foi forte
e muito guerreira. Carolaine demorou para nascer, ela chegou para iluminar
nossas vidas em uma madrugada chuvosa.
Quando a enfermeira me entregou a minha filha, uma bebê perfeita e
que não parava de chorar, senti um amor imensurável.
Entre os erros e os acertos, acho que encontrei a minha felicidade
verdadeira. Carolaine chegou para provar que recomeços existem, que as
pessoas buscam melhorar e quando temos fé vencemos as dores que achamos
que são eternas.
EPÍLOGO

A minha filha tem uma paixão por estrelas, a grandeza das estrelas ou
a imensidão do universo, nunca intimidou a minha menina. Carolaine era
encantadora, um pouco teimosa como qualquer criança de apenas 6 anos. E
com uma sede de conhecimento insaciável, Carolaine começou a demonstrar
o seu interesse por estrelas aos 4 anos. Ela fazia perguntas impressionantes,
até mesmo a Valentina que tem um fascínio pelo desconhecido e acreditava
em vida em outros planetas, ficava chocada com as perguntas da Carolaine.
Certa vez ela me perguntou:
— Papai, você gosta da solidão das estrelas?
Eu passei horas explicando a ela que as estrelas eram corpos celestes
que produziam luz própria. A minha filha continuou a retrucar, dizendo que
muitas estrelas vivem sozinhas e sem companhia, igual ao nosso vizinho que
sempre passeava com um pinscher. Ele era um senhor de idade, viúvo e que
acabará de perder uma irmã querida.
Às vezes Deus usa algumas pessoas para mostrar que ele existe, que o
bem permanece no mundo e que estamos nesta vida para evoluir. Carolaine
ficou dias comparando a solidão das estrelas com nosso vizinho.
Certa noite quando estava no terraço admirando as estrelas com
minha família, veio uma recordação alegre da minha falecida irmã, Sofía
tinha um gesto admirável de criar caixinhas de amor para pessoas que ela
amava. A ideia chegou de repente, iluminando a minha noite. Expliquei os
meus planos para a minha esposa e como sempre muito alegre e radiante,
topou no mesmo instante. No outro dia, falei para a Carolaine como
poderíamos ajudar o nosso vizinho. Ela ficou eufórica, amou a minha ideia e
colocamos em prática no final da tarde. Minha filha foi até a casa do nosso
vizinho solitário, apertou o interfone e falou que tinha um presente especial
para entregar a ele. Após alguns minutos um senhor com uma expressão
entristecida, saiu para nos atender. Carolaine foi muito educada, entregou a
caixa para o senhor, dizendo:
— Moramos naquela casa! — ela apontou com o dedinho.
O senhor ficou um pouco confuso, eu precisei explicar o acontecido a
ele. E depois de uma longa conversa fiquei sabendo que o seu nome era
Antônio, ele tinha 75 anos e muita história para contar. O senhor Antônio
faleceu há seis meses, infelizmente. Ele participou dos últimos aniversários
da Carolaine e tenho certeza que tornamos o final da sua vida mais feliz.
A minha filha tem um dom único com as pessoas, ela tem as mesmas
qualidades da mãe e a cor dos olhos também. Apenas uma característica dela
que me deixa extremamente intrigado. Carolaine nasceu com uma marquinha
na perna, próxima do tornozelo. Era idêntica a da minha irmã, uma marca de
nascença que segundo a pediatra, é herança genética.
Por um bom tempo pensei em reencarnação, eu estou participando do
Centro Espírita. A minha visão sobre a fé e as crenças, mudou muito nos
últimos anos. Sou um homem que não deixa de agradecer a Deus um único
dia, tenho uma família perfeita e um pouco barulhenta. Afinal, quando Dona
Fani e a Valentina chegam para passar os finais de semana conosco, é uma
verdadeira festa.
Os médiuns do Centro Espírita me garantiram que não era uma
reencarnação, para um espírito voltar é muito complexo.
Angélica também não gostava da comparação, eu consigo
compreender a minha mulher. E com tempo parei com minhas suposições,
agora curto cada segundo com minha família. Uma família feliz que vai
aumentar em agosto, Angélica está grávida de novo e para minha alegria é
outra menina.
— Você está muito pensativo? — Angélica indagou, surpreendendo-
me na sala de estar.
— Eu estava pensando na Carolaine!
— Você sempre está pensando nela. — Ela sorriu, sentando-se ao
meu lado.
— Eu também penso em você, na Ágata… — acariciei a barriga da
minha mulher. — Você está bem?
— Com sono; — bocejou. — Podemos descansar agora que a
Carolaine…
— Mamãe… — Angélica sobressaltou, a nossa filha descia os
degraus da escada, segurando o seu ursinho. — Você prometeu que ficaria
comigo.
Angélica fez menção de se levantar, mas segurei no seu braço.
— Agora é a minha vez, pode se preparar para dormir; — beijo seus
lábios com carinho. — Não vou demorar, eu te amo.
— Eu também te amo.
Corri até às escadas, pegando a Carolaine no colo.
— É hora de dormir, mocinha.
Ela riu.
Levei Carolaine até o quarto, a coloquei na cama, certificando se ela
estava bem coberta. A noite está muito fria, não quero a minha menina
resfriada.
— É hora de dormir… — Reforço, ajeitando o seu ursinho no
traseiro.
— Papai, você acredita em anjos?
Beijei sua testa com carinho.
— É claro que acredito em anjos.
— Você já conheceu um?
Fiquei pensativo por alguns segundos, lembrando da felicidade que
conquistei, da família abençoada que iluminou a minha vida.
— Sim, eu conheci uma anja uma vez.
— É sério? E como ela era?
— Ela era linda e muito bondosa.
— Uau. Ela tinha asas? — seus olhinhos verdes cintilavam.
— Sim, ela tinha asas lindas, os cabelos cacheados e macios, iguais às
nuvens de algodão.
— O Papai do céu ouviu as suas orações e enviou ela para te ajudar.
Um nó formou-se na minha garganta.
— Realmente… Ela me salvou, dissipou a minha angústia e a dor.
Tornou a minha vida mais completa.
— E agora você tem a mamãe, eu e a Ágata.
Voltei a beijar seu rostinho lindo.
— Chega de conversa, durma. Eu vou ficar aqui até você dormir.
— Você promete?
— Prometo, meu amor.
Eu sempre vou estar presente na sua vida, na vida da minha família. A
razão dos meus dias mais felizes são vocês!
RECADO DA ESCRITORA

Oi, tudo bem?


Meu nome é Jéssica, mas meus amigos me chamam de Jéss, entrei no
mundo da escrita em 2017 para tentar fugir de uma depressão e agora estou
lançando meu segundo livro na Amazon e tenho várias obras publicadas no
Wattpad.
Sou apaixonada por livros, por gatos e chocolates. Moro no Interior
do Paraná com minha família e amo criar enredos na minha cabeça quando
não estou fazendo nada.

Meu Instagram: @livros.dejess


Meu Wattpad: @jessikaalves1
Meu Facebook: Jéss Alves (Autora)
Minha Página: Livros de Jéss
Meu e-mail: autorajessalves@gmail.com

Conheça meu livro: O meu Garoto (disponível na Amazon).


AGRADECIMENTOS

Quero primeiramente agradecer as minhas leitoras no Wattpad,


porque são elas que me motivam a continuar escrevendo. Quero agradecer a
você que leu o livro completo, a minha revisora que cuidou com carinho do
meu livro, a minha designer que transformou a minha capa em algo
simplesmente maravilhoso. Quero agradecer a todas as pessoas que torcem
por mim, muito obrigada mesmo!

Fiquem com Deus e até a próxima.