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ISSN 2177-3734

Realização

XXXI ENSEA
ENCONTRO NACIONAL SOBRE ENSINO
DE ARQUITETURA E URBANISMO

XXXV COSU
REUNIÃO DO CONSELHO
SUPERIOR DA ABEA

CADERNOabea
Patrocínio

NOVOS CENÁRIOS PARA O ENSINO DE ARQUITETURA E URBANISMO


ATUALIZAR, AVALIAR, ACREDITAR

Associação Brasileira de Ensino


de Arquitetura e Urbanismo
Apoio
37

22 A 24 DE NOVEMBRO DE 2012
Centro Universitário Belas Artes de São Paulo
2 XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA 3
XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

CADERNO abea 37

Realização:
XXXI ENSEA
Encontro Nacional sobre Ensino de
Associação Brasileira de Ensino de
Arquitetura e Urbanismo
Arquitetura e Urbanismo

Patrocínio:
XXXV COSU
Conselho Superior da ABEA

NOVOS CENÁRIOS PARA


O ENSINO DE ARQUITETURA E URBANISMO
ATUALIZAR – AVALIAR – ACREDITAR
Apoio:

22 a 23 de novembro de 2012
Centro Universitário Belas Artes de São Paulo
4 XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA 5
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CADERNO abea 37
DIRETORIA ABEA BIÊNIO 2011/2013

DIRETORIA EXECUTIVA
Presidente Fernando José de Medeiros Costa - UFRN/RN
XXXI ENSEA
Vice-Presidente
Secretário
Gogliardo Vieira Maragno – UFMS/MS
Amadja Henrique Borges - UFRN/RN
Encontro Nacional sobre Ensino de
Sub-Secretário
Secretário de Finanças
Débora Pinheiro Frazatto - PUC-Campinas/SP
José Roberto Geraldine Jr. - Barão de Mauá/SP
Arquitetura e Urbanismo
Sub-Secretário de Finanças Andrea Lúcia Vilella Arruda FASA/MG
XXXV COSU
DIRETORIA CONSELHO FISCAL
Isabel Cristina Eiras de Oliveira - UFF/RJ Titulares Conselho Superior da ABEA
Ana Ma. Reis Goes Monteiro - UNICAMP/SP Jose Antonio Lanchoti - Moura Lacerda/SP
Carlos Eduardo Nunes Ferreira - UNESA/RJ João Carlos Correa - OCIESC/SC
Maria Inês V. Q. B. Bandeira - FANOR/CE Fábio Mariz Gonçalves - USP/SP
Yone Yara Pereira - FURB/SC Suplentes NOVOS CENÁRIOS PARA
Esther J. B. Gutierrez - UFPEL/RS Dirceu Lima da Trindade - PUC/GO
Ana Paula Rebello Lyra - UVV/ES Roberto Py Gomes da Silveira - UFRGS/RS O ENSINO DE ARQUITETURA E URBANISMO
Wanda Vilhena Freire - UFRJ/RJ Ana Lúcia Abrahim - UNINILTONLINS/AM
Wilson Ribeiro Santos Jr - PUC-Campinas/SP
Márcio Cotrin Cunha - UFPB/PB
ATUALIZAR – AVALIAR – ACREDITAR

COMISSÃO ORGANIZADORA ABEA


Fernando José de Medeiros Costa - Presidente ABEA
Catalogação da Publicação na Fonte. UFRN / Biblioteca Setorial de Gogliardo Vieira Maragno - Vice-Presidente ABEA
Arquitetura
Jose Roberto Geraldine Junior - Diretor ABEA
José Antônio Lanchoti - Diretor da ABEA
Encontro Nacional sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo (31. : 2012: Andrea Vianna - Secretária ABEA
São Paulo, SP).
Anais: XXXI ENSEA/XXXV COSU: Novos cenários para o ensino COMISSÃO CIENTÍFICA
de arquitetura e urbanismo: atualizar, avaliar, acreditar./ XXXI Encontro
Nacional sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo, XXXV Reunião do Débora Frazzato Verde dos Santos - Diretora ABEA
Conselho da ABEA. São Paulo-SP – Brasil, 22 à 24 de novembro de Amadja Henrique Borges - Diretora da ABEA
2012, Centro Universitário Belas Artes de São Paulo; Comissão
organizadora Fernando José de Medeiros Costa... et al... – São Paulo:
ABEA, 2012. COMISSÃO ORGANIZADORA BELAS ARTES
270 p.: il. – (Caderno; 37) Ênio Moro Jr.
1. Arquitetura. – Ensino. 2. Arquitetura – Congresso. 3.
Turgnev R. de Oliveira
Urbanismo. 4. Prática pedagógica. I. Costa, Fernando José de Medeiros.
II. 35.. III. 2012. IV. São Paulo, SP. V. Título. VI. Caderno.
22 a 23 de novembro de 2012
RN/UF/BSE-ARQ CDU 72 Centro Universitário Belas Artes de São Paulo
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APRESENTAÇÃO

No momento que nos aproximamos das comemorações dos quarenta PROGRAMAÇÃO GERAL XXXI ENSEA XXXV COSU-ABEA
anos da ABEA, vemos voltar à baila das discussões nas mais diversas Quinta-Feira - 22 de Novembro Sexta-Feira – 23 de Novembro Sábado – 24 de Novembro
instâncias do exercício profissional da Arquitetura e Urbanismo temas
9:00 9:00
que já discutimos, firmamos entendimento e defendemos posições. XXXI ENSEA XXXI ENSEA
Apresentação de Trabalhos: Apresentação de Trabalhos:
No seio da disputa por mercado de trabalho, a formação em Arquitetura 1- Práticas Pedagógicas no Ensino de 1- Práticas Pedagógicas no Ensino de
Arquitetura e Urbanismo Arquitetura e Urbanismo
e Urbanismo entra na discussão como sendo de péssima qualidade. O 2- Transformações e rebatimentos: 2- Transformações e rebatimentos:
cenário socioeconômico, avanços cenário socioeconômico, avanços
ensino passa a ser o grande vilão da qualidade das nossas obras e do tecnológicos, mundo profissional e tecnológicos, mundo profissional e
rebatimento no ensino rebatimento no ensino
desequilíbrio na cobrança de honorários causado por recém formados. A Intervalo Café Intervalo Café
solução apontada por muitos é um maior controle sobre a formação e 11:00 11:00

sobre o acesso ao mercado de trabalho. Volta à discussão então a velha XXXI ENSEA
Apresentação de Trabalhos: Abertura do XXXV COSU
1- Práticas Pedagógicas no Ensino de
solução que a grande maioria dos descontentes vê como a solução para Arquitetura e Urbanismo Contextualização: CAU, INEP-MEC,
2- Transformações e rebatimentos: AEAULP, Conf. das Cidades, Arcu-Sul,
os problemas da Arquitetura e Urbanismo no Brasil: exame pós-formatura. cenário socioeconômico, avanços Concurso
tecnológicos, mundo profissional e
A criação do Conselho de Arquitetura e Urbanismo a partir da aprovação rebatimento no ensino
da Lei 12.378/2010 acendeu as esperanças dos descontentes. O Exame 12:30 12:30

da Ordem imposto pela área do Direito para a obtenção do título de Intervalo para almoço Intervalo para almoço

Advogado inspira os adeptos do controle. Por outro lado os acordos 14:00 14:00 14:00

Palestra: Ensino x Qualificação


firmados pelo País no âmbito do Mercado Comum do Sul, o Mercosul, Profissional: panorama brasileiro – prof.
Gogliardo Maragno, vice-pres. ABEA
preveem o livre trânsito de profissionais em 2015. O Mercosul Educacional Debate e encaminhamentos
Palestra: Interações entre Ensino e
já implantou um sistema de acreditação de cursos que tem como objetivo Inscrições e Exercício Profissional XXXI ENSEA e XXXV COSU
entrega de material prof. J. Roberto Geraldine Jr,
inicial a mobilidade acadêmica de docentes e estudantes. Seria a coord. Comissão de Ensino e Formação
Profissional do CAU/BR
acreditação uma solução viável para o Brasil? Quem deveria implantar

TARDE
Debate: Ensino x Exercício Prof.
um sistema como esse? Intervalo Café Intervalo Café

Outro fator que se deve considerar é a expansão do número de cursos 16:00 16:00 16:00

sem um planejamento que defina áreas prioritárias de abertura de cursos. Mesa Redonda: Qualidade do
Ensino x Exame de Habilitação
Esse fator aliado à questionável eficiência dos processos oficiais de prof. Evandro Carvalho – ABEDI
Assoc. Brasil. de Ensino de Direito
avaliação do ensino superior gerenciados pelo INEP indica a necessidade Inscrições e prof. Milton Martins – ABEM
entrega de material Deliberações e Encerramento
Assoc. Brasil. de Ensino Médico
de a ABEA retomar a discussão da questão da avaliação da formação do prof. Fernando Costa - ABEA
XXXI ENSEA e XXXV COSU
Assoc. Brasil. de Ensino Arq. e Urb.
arquiteto e urbanista. prof. J. Roberto Geraldine Jr - CAU/BR
Conselho de Arquitetura e Urbanismo
É nesse clima de discussão que a ABEA convocou professores,
Intervalo Intervalo Café
coordenadores, diretores e estudantes a discutir “NOVOS CENÁRIOS 19:00 18:30 18:30
PARA O ENSINO DE ARQUITETURA E URBANISMO: ATUALIZAR, AVALIAR, Palestra:
ACREDITAR” no XXXI Encontro Nacional sobre Ensino de Arquitetura e Características e panorama do ensino
de Arquitetura e Acreditação nos

N O IT E
Estados Unidos
Urbanismo – ENSEA, e na XXXV Reunião do Conselho Superior da ABEA ABERTURA SOLENE
XXXI ENSEA e XXXV COSU prof.ª Donna Robertson, IIT, EUA
Pres. ACSA: Association of Collegiate
– COSU, no período de 22 a 24 de novembro de 2012. Schools of Architecture
O Caderno ABEA número 37 trás a programação do evento, textos dos
20:30 20:00
convidados sobre os temas debatidos, registra os trabalhos apresentados
Coquetel de Boas vindas Livre para confraternização
e os resultados dos debates desenvolvidos no evento.

A Diretoria
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SUMÁRIO Projeto de orientação para melhorias 
Flávio Martins VIANA; Jéssica 
Querioz da Silva FALCÃO; 
INTRODUÇÃO  11  132 
habitacionais no bairro de Custodópolis  Regina Coeli Martins Paes 
Ata conjunta do XXXI Encontro Nacional sobre Ensino de Arquitetura e  AQUINO 
15  Lucio Costa: um professor de Teoria e 
Urbanismo (ENSEA) e XXXV Conselho Superior da ABEA (COSU)  Joanes da S. ROCHA  140 
Textos referenciais distribuídos para a discussão do tema Qualidade do  História 
27  Práticas pedagógicas no ensino de arquitetura 
Ensino x Exame de Habilitação  SEÇÃO TEMÁTICA 2  155 
e urbanismo 
Criatividade e Ensino de Arquitetura  Profa. Maria Elisa Meira  29 
Ateliê projeto integrado. O urbanístico  Lisete Assen de OLIVEIRA; 
A Associação Brasileira de Educação Médica  e o arquitetônico no projeto urbano  Carlos Alberto BARBOSA DE  156 
(ABEM) e a proposta de instituição de um  Prof. Dr. Milton de Arruda  contemporâneo  SOUZA 
33 
Exame de Habilitação para o Exercício da  Martins  Os métodos e processos em projetos,  Paula BATISTELLO 
Medicina no Brasil  as novas tecnologias e a criação do  Vivian DELATORRE  172 
Exame de Ordem: controle de mercado ou  Wikiproj Na Unochapecó  Katiane L. BALZAN 
Prof. Frederico de Almeida  39 
avaliação profissional?  A criatividade no ensino de Arquitetura 
Transformações e rebatimentos: cenário  e Urbanismo: considerações sobre a 
Bráulio Vinícius FERREIRA  189 
SEÇÃO TEMÁTICA 1  sócio‐econômico, avanços tecnológicos,  45  criatividade no ensino da Arquitetura e 
mundo profissional e rebatimento no ensino  do Urbanismo 
Questões sobre a qualificação e o ensino de  Gogliardo Vieira  O planejamento e o projeto urbanos na 
46 
arquitetura e urbanismo no Brasil  MARAGNO  proposta de revisão do Projeto Político  Cristina Maria Perissinotto 
Pressupostos na construção de uma rede  Pedagógico do Curso de Arquitetura e  BARON; Hélio HIRAO; Evandro 
Adalberto R. HECK  68  196 
MERCOSUL de escolas de Arquitetura  Urbanismo da Faculdade de Ciências e  FIORIN; Arlete Maria 
Projeto de Arquitetura e Acessibilidade –  Tecnologia da UNESP – Campus de  FRANCISCO 
Outra forma de abordagem do projeto  Antonio RODRIGUES  76  Presidente Prudente‐SP 
arquitetônico  Avaliação do curso de Arquitetura da 
Roberto MONTEZUMA;  UFRGS segundo os seus egressos e o  Geraldo Ribas MACHADO  215 
Fernando Diniz MOREIRA;  Conceito Preliminar de Curso 
Julien INECHEN; Cristiano  Lacunas e enlaces para o aprendizado e 
Sasquia Hizuro OBATA; Daniele 
NASCIMENTO; Luiz  conhecimento de sustentabilidade das 
RXA (Recife X Amsterdam): Um Workshop  Ornaghi SANT’ANNA; Samuel  228 
CARVALHO ; José Claúdio  87  construções no ensino de Arquitetura e 
em Arquitetura e Urbanismo  Dereste dos SANTOS 
Cruz SILVA; Lucia VERAS;  Urbanismo 
Luís VIEIRA; Vera PIRES;  Nauíra Zanardo ZANIN; Maria 
Roberto GHIONE; Pedro  das Graças Velho do AMARAL; 
SALES   Daniella RECHER; Deloan 
Alberto Luiz dos SANTOS  A experiência do Canteiro Experimental   Mattos PERINI; Júlia Piaia 
Implantação de um Escritório Modelo e seus  237 
Regina Coeli Martins Paes  93  da UFFS  RAIMUNDO; Jean MASCHERIN;  
reflexos no ensino de Arquitetura  Amadeus REOLON; Jhenifer 
AQUINO 
Fernando Carneiro PIRES  Patrícia STUMM; Michele 
Vivência em Bioconstrução  99  PEINHOPF 
Soraya NÓR 
O verso do reverso na integração entre as  Amadja H. BORGES  Gabriel Ernesto M. 
104  A experiência de ensino do concreto 
atividades‐fim da Universidade  Cecília M. R. de MEDEIROS  SOLÓRZANO; Luiz Felipe O. 
armado a estudantes de Arquitetura  256 
A extensão como laboratório da prática  CHAMPLONI; Janes C. A. 
Bartira Freitas CALADO  118  por meio de histórias em quadrinhos 
profissional dos estudantes  OLIVEIRA 
Graduação: opções teóricos‐
O EIV e a academia  Gilson Jacob BERGOC  124  João Carlos CORREIA  263 
metodológicas 
   
10 XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA 11
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INTRODUÇÃO

O papel da ABEA no cenário de transformação do ensino


de do exercício profissional em Arquitetura e Urbanismo1
O incentivo à abertura de novos cursos, notadamente no ensino
privado, induzido pela política expansionista adotada pelo Governo Federal
através do MEC a partir dos anos 90, permitiu que, dos 72 cursos existentes
no país em 1994, chegássemos em meados de 2012 – dezoito anos
passados – a mais de 270 cursos na área de Arquitetura e Urbanismo.

A participação da Abea, a partir da reestruturação da entidade como


Associação Brasileira de Ensino de Arquitetura e Urbanismo em 1985, foi
fundamental para o enfrentamento dos problemas advindos do rápido
crescimento e disseminação dos cursos de Arquitetura e Urbanismo no
país e na permanente busca de qualificação do ensino neste período.

Em 1990, foi iniciado o reconhecimento (estado da arte) da área a


Solenidade de abertura do evento partir do Inventário dos cursos de Arquitetura e Urbanismo conduzido
pela Abea. A auto avaliação conjunta da área de ensino, desenvolvida
previamente nos cursos, subsidiou os seminários regionais e nacional,
realizados em 1993 a 1994 pela Ceau, que resultaram na promulgação
da Portaria MEC nº 1.770/94 – Diretrizes Curriculares Nacionais para o
ensino de Arquitetura e Urbanismo (concomitantemente com a área de
Direito). Os padrões de qualidade e os requisitos estabelecidos para a
abertura e funcionamento dos cursos de Arquitetura e Urbanismo até
hoje são adotados nos instrumentos regulatórios oficiais.

No período de 1995 a 1996 a ação da Abea teve por foco a


reavaliação dos projetos pedagógicos dos cursos e das práticas
acadêmicas correspondentes, com o objetivo de “redesenhar” os
currículos plenos, adequando-os às exigências decorrentes da nova base
legal expressa nas Diretrizes Curriculares e Conteúdos Mínimos de 1994,
e na nova legislação para ensino superior (LDB).

A partir de 1997 a Abea contribuiu ativamente com o processo de


1
Adaptado de “O papel da Associação Brasileira de Ensino de Arquitetura e
Urbanismo” in SCHLEE, Andrey; GUTIERREZ, Ester; COSTA, Fernando; MARAGNO,
Gogliardo; OLIVEIRA, Isabel de; SANTOS Jr, Wilson dos. Trajetória e estado da arte
Solenidade de abertura do evento da formação em Engenharia, Arquitetura e Agronomia – volume X: Arquitetura e
Urbanismo. Brasília: INEP: CONFEA, 2010
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avaliação externa dos cursos correspondente à verificação periódica – profissional, reunidas no Colégio Brasileiro de Arquitetos (CBA), a Abea
autorização, reconhecimento e renovação de reconhecimento – e ao exame se empenhou nos últimos doze anos na construção de uma
anual de qualificação dos alunos concluintes – o antigo Provão e o atual regulamentação própria e independente gerida por um conselho específico
Enade. da Arquitetura e Urbanismo desvinculado das demais categorias
profissionais que integravam o sistema multiprofissional Confea. Essa
Em 1998 a Abea protagonizou o processo de definição das novas luta produziu frutos no final de 2010 com a aprovação e sanção da Lei
Diretrizes Curriculares, aprovadas pelo Conselho Nacional de Educação 12378 que regulamenta o exercício da Arquitetura e Urbanismo e cria o
(CNE) em 2006, incentivando a ampla participação do conjunto dos cursos CAU, efetivado no final de 2011, e um novo patamar para o exercício
de Arquitetura e Urbanismo do país no debate e na formulação de profissional no país.
propostas consolidadas pelo Grupo de Trabalho de Ensino de Arquitetura
e Urbanismo do Confea e protocoladas no MEC. Ao longo dessa trajetória tanto as necessidades diagnosticadas
como a natureza da profissão de arquiteto e urbanista definiram as
Mais de uma década após a definição pela Ceau, com total apoio exigências para a educação escolarizada dos arquitetos e urbanistas,
e participação da Abea, do documento “PERFIS DA ÁREA & PADRÕES DE estabeleceram padrões de qualidade para o ensino na área e
QUALIDADE: Expansão, Reconhecimento e Verificação Periódica dos promoveram a constante atualização das exigências legais atinentes ao
Cursos de Arquitetura e Urbanismo”, em novembro de 2008 a Abea realizou ensino e ao exercício profissional. Para tanto, foram fundamentais a
o Encontro sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo no qual o tema contribuição e a aprovação das entidades profissionais de ensino e de
central da discussão foi o referido documento. Setenta e seis estudantes.
representantes de mais de cinquenta instituições de ensino aprovaram
indicações para a atualização do documento, as quais foram Entretanto, os anos recentes trazem novo cenário com significativas
sistematizadas para apreciação do Congresso Nacional da Abea, a transformações econômicas, culturais, ambientais, tecnológicas e com
realizar-se em novembro de 2009 em Brasília. um novo papel do Brasil no cenário das nações, despertando como
protagonista e transformando-se em polo de atração tanto de
Infelizmente em 2010 vimos uma “atualização” das diretrizes investimentos de capital, quanto de profissionais em fuga da conjuntura
curriculares levada a cabo pelo CNE sem nenhuma consulta à área de de crise em seus países. Além das próprias transformações no âmbito
ensino de arquitetura e urbanismo motivada por uma demanda de caráter do exercício e regulamentação profissional com o advento da lei e
trabalhista. As modificações foram pontuais e, ainda que as diretrizes conselho próprios.
tenham sido preservadas em sua essência, o trabalho final de graduação
sofreu alterações indesejáveis, flexibilizando algum de seus aspectos Mudanças na prática profissional produzem impacto na prática
essenciais. A prática consolidada tem demostrado que felizmente essas acadêmica da mesma maneira que mudanças na prática acadêmica
modificações não tem sido aceitas ou incorporadas na quase totalidade geram impacto na prática profissional. Por isso o novo cenário mundial e
dos cursos, principalmente naqueles mais afeitos ao compromisso da nacional não pode passar em branco na área de ensino de arquitetura e
busca permanente da qualidade de ensino. urbanismo.

Fiel aos compromissos técnicos e sociais da Arquitetura e A acentuada expansão de cursos e de vagas segue cada vez mais
Urbanismo a Abea tem atuado em várias frentes, tais como a participação forte como política governamental sem que o correspondente sistema de
como membro efetivo do Conselho da Cidade desde sua criação; na luta controle preconizado pela LDB e hoje sob responsabilidade quase total
pela universalização da acessibilidade contemplada pela Lei Federal nº do INEP/MEC venha conseguindo acompanha-la. A ausência, morosidade
10.098/00 (BRASIL, 2000) e pelo Decreto-Lei nº 5.296/04 (BRASIL, 2004), ou fragilidade no controle das condições de abertura e oferta de cursos,
e na aprovação da Lei Federal nº 11.888/08 (BRASIL, 2008a), relativa à nos processos de autorização, reconhecimento e sua renovação em
assistência técnica, que assegura às famílias de baixa renda a assistência diversas áreas e, notadamente, na nossa tem (re) despertado perigosos
técnica pública e gratuita para o projeto e a construção de interesse social. anseios de reserva de mercado travestidos em controle através da adoção
de sistemas de êxito no mínimo discutível em outros países ou áreas. O
Em conjunto com as demais entidades nacionais da categoria indevidamente chamado de exame de ordem (arquitetos e urbanistas
14 XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA 15
XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

não estão submetidos a uma ordem e sim a um conselho), mais


propriamente um exame pós-formatura ou de habilitação, além de não
trazer garantias de melhoria da prática profissional (haja vista o resultado
insatisfatório onde já foi adotado), retira das instituições de ensino sua
intransferível responsabilidade em formar concomitantemente bons
profissionais e bons cidadãos, transferindo a tarefa a enriquecidos
“cursinhos” que visam unicamente a aprovação nos exames para o
ingresso profissional, decretando a falência absoluta do sistema de
ensino e formação profissional.

Assim, a ABEA propõe uma discussão séria e profunda do efetivo


papel que os cursos de arquitetura e urbanismo devem desempenhar
diante do cenário de mudanças, além de uma reflexão sobre a relevância
e lacunas do que efetivamente hoje se ensina e do que a sociedade ATA CONJUNTA
(incluindo o mercado) necessita. Para tanto recorremos a ajuda de
entidades de ensino de outras áreas que tem, de maneira peculiar,
enfrentado o mesmo tema, como o ensino de Direito e o ensino Médico.
Além disto, considerando o trânsito internacional, entidades similares a XXXI Encontro Nacional sobre
ABEA na América do Norte (ACSA) e a AEAULP, Academia das Escolas de
Arquitetura e Urbanismo de Língua Portuguesa trazendo suas Ensino de Arquitetura e Urbanismo
experiências e o contexto europeu.
(ENSEA)
Discutir a atualização das práticas pedagógicas, a avaliação DOS
e NOS cursos de arquitetura e urbanismo, o fortalecimento do sistema
de controle de qualidade de ensino e a implementação de sistemas de
acreditação tanto no âmbito internacional, já em andamento no ARCU- e
SUL e cada vez mais necessário diante da imigração profissional que
vivenciamos, como no âmbito nacional, para auxiliar e reforçar o hoje
insuficiente sistema de controle oficial do MEC, o que pode culminar até
mesmo na proposição de um dispositivo de distinção de padrão de
XXXV Conselho Superior da ABEA
qualidade.
(COSU)
A inércia pode determinar que a área de ensino de arquitetura e
urbanismo seja mera seguidora de decisões externas, mas o contrário,
uma ação ágil e ajuizada pode fazermos avançar e colocando-nos em
posição de vanguarda liderando e assumindo o controle de um processo
de ajustamento com reflexos decisivos, positivos e esperados na
qualidade da arquitetura e urbanismo aprendida e praticada em nosso
país.

Que tenhamos todos um trabalho exitoso neste XXXI ENSEA e


XXXV COSU-ABEA. Vamos Atualizar, Avaliar e Acreditar.

São Paulo, novembro de 2012.


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XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

Ata conjunta do XXXI Encontro Nacional sobre Ensino de


Arquitetura e Urbanismo (ENSEA) e XXXV Conselho
Superior da ABEA (COSU)

Realizados no Centro Universitário Belas Artes de São Paulo


de 22 a 24 de novembro de 2012
Às dezenove horas do dia vinte e dois de novembro de dois mil e doze, no
Auditório do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, o presidente
da ABEA, professor Fernando José de Medeiros Costa deu inicio à seção
solene de abertura do XXXI Encontro Nacional sobre Ensino de Arquitetura
e Urbanismo (ENSEA) e XXXV Conselho Superior da ABEA (COSU), com
a presença das seguintes autoridades: O Pró-Reitor Institucional Arquiteto
e Urbanista Turguenev Roberto de Oliveira representado o Magnífico Reitor
do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo Professor Paulo Cadim,
o Coordenador do Curso de Arquitetura e Urbanismo do Centro
Universitário Belas Artes de São Paulo Professor Arquiteto e Urbanista
Ênio Moro Júnior; o Presidente do CAU/BR - Conselho de Arquitetura e
Urbanismo do Brasil, Arquiteto e Urbanista Haroldo Pinheiro Villar de
Queiroz, a Arquiteta e Urbanista Saide Kahtouni, representando o
Presidente da ABAP – Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas,
Solenidade de abertura do evento Arquiteto e Urbanista Jonathas Magalhães e, representando a Federação
Nacional dos Estudantes de Arquitetura e Urbanismo do Brasil - FENEA,
o Acadêmico Pedro Ernesto Chaves Barbosa. Presentes também a
professora Donna Robertson, presidente da Association of California
School Administrators. Após a palavra de todos os membros da mesa, o
professor Fernando Costa proferiu discurso de abertura, deu as boas
vindas aos participantes e declarou abertos os eventos. Em seguida, o
Centro Universitário Belas Artes de São Paulo ofereceu um coquetel de
abertura dos eventos e de confraternização dos participantes. Presentes
representantes das seguintes Instituições:
Centro Universitário Belas Artes de São Paulo BELAS ARTES
Centro Universitário Curitiba UNICURITIBA
Centro Universitário de Rio Preto UNIRP
Centro Universitário Luterano de Ji-Paraná CEULJI/ULBRA
Centro Universitário Moura Lacerda CUML
Centro Universitário Univates UNIVATES
Conselho de Arquitetura e Urbanismo CAU/GO
Conselho de Arquitetura e Urbanismo da Bahia CAU/BA
Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Goiás CAU/GO
Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Sergipe CAU/SE
Conselho de Arquitetura e Urbanismo de SP CAU/SP
Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil CAU/BR
Conselho de Arquitetura e Urbanismo do DF CAU/DF
Conselho de Arquitetura e Urbanismo do RJ CAU/RJ
18 XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA 19
XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

Conselho de Arquitetura e Urbanismo do RS CAU/RS arquitetura e urbanismo, coordenada pela professora Débora Pinheiro
Escola Edgar A. Graeff de Arquitetura e Urbanismo PUC/GO
Faculdade de Arquitetura da Universidade de Brasília FAU/UnB
Frazatto. Após as exposições e debates das referidas seções, foram
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ FAU/UFRJ encaminhadas recomendações a serem apreciadas pelo COSU. Por
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo FAU/USP recomendação da Comissão Científica, os trabalhos inscritos no evento
Faculdade de Ciências e Tecnologia – UESP FCT-UNESP-Pres. Prudente cujos autores não compareceram para apresentá-los, também serão
Faculdade de EC, Arquitetura e Urbanismo da UNICAMP FEC/UNICAMP
Faculdade Nordeste S/A FANOR publicados no Cadesno da ABEA nº 37, juntamente com os trabalhos
Faculdades Integradas Teresa D’Ávila FATEA apresentados.
Faculdades Santo Agostinho FASA
Federação Nacional dos Estudantes de Arquitetura FeNEA Às 14 horas do dia vinte e três de novembro, foram realizadas as Palestras:
FIAM - FAAM Centro Universitário FIAM - FAAM “Ensino x Qualificação Profissional: o panorama brasileiro” pelo professor
Fundação Universidade Federal do Tocantins UFT
Gogliardo Maragno e “Interações entre Ensino e Exercício Profissional”
Instituto de Ciências Jurídicas e Sociais ICF
Instituto Fed. de Ed., Ciência e Tecnologia Fluminense IFF pelo professor José Roberto Geraldine Júnior, coordenador da Comissão
Pontifícia Universidade Católica de Campinas FAU PUC/CAMPINAS de Ensino e Formação Profissional do CAU/BR. Após as palestras, a
Pontifícia Universidade Católica do Paraná PUC/PR palavra foi aberta aos participantes que puderam debater os assuntos
Universidade Católica de Brasília UCB
Universidade Comunitária da Região de Chapecó UNICHAPECÓ relacionados (CEF-CAU/BR) ao Ensino e Exercício Profissional com os
Universidade de Itaúna UI palestrantes. Às 16 horas deu-se início à mesa redonda “Qualidade do
Universidade de São Paulo USP Ensino x Exame de Habilitação” que contou com a participação dos
Universidade de Taubaté UNITAU
professores Frederico Almeida da Associação Brasileira de Ensino de
Universidade de Uberaba UNIUBE
Universidade do Oeste Paulista UNOESTE Direito (ABEDI), Milton Martins da Associação Brasileira de Ensino Médico
Universidade do Vale do Rio dos Sinos UNISINOS (ABEM) e a moderação do professor Fernando Costa da ABEA. Ficou
Universidade Estadual de Goiás UEG evidente na fala dos palestrantes a unidade de pensamento em torno
Universidade Estadual de Londrina UEL
Universidade Federal de Alagoas UFAL dos seguintes princípios: Não cabe aos Conselhos fazer avaliação de
Universidade Federal de Pelotas UFPel cursos, essa é uma atribuição do MEC; Não se pode exigir uma prova de
Universidade Federal de Santa Catarina UFSC habilidade profissional de um indivíduo de vinte e dois anos de idade que
Universidade Federal de Uberlândia UFU
não tem experiência de habilidade profissional; Os processos atuais de
Universidade Federal de Viçosa UFV
Universidade Federal do Paraná UFPR avaliação de egressos são processos que avaliam resultados e não a
Universidade Federal do Rio Grande do Norte UFRN formação; O Exame de Ordem é uma solução do século XX para um
Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRGS problema do século XXI; Argumenta-se que o exame contribui para a
Universidade Federal Fluminense UFF
Universidade Federal de Pelotas UFPEL melhoria do ensino, porém o vestibular não melhorou a qualidade do
Universidade Positivo UP ensino médio; Os exames e avaliações devem ser realizados durante o
Universidade Potiguar UnP curso e não após a formatura; Um selo ou certificação de qualidade deve
Universidade Regional de Blumenau FURB
ter visita in loco; Os sistemas oficiais de avaliações devem ser fortalecidos,
Universidade Vila Velha UVV
aprimorados. Após as falas dos convidados iniciou-se um debate que
XXXI ENSEA envolveu os participantes e convidados. Seguindo a programação, às 18
horas a professora Donna Robertson do Illinois Institute of Technology
As atividades programadas para o XXXI ENSEA se desenvolveram nas
(IIT-EUA) Presidente da Association of Collegiate Schools of Architecture
manhãs dos dias vinte e três e vinte e quatro de novembro, com a
(ACSA) proferiu a palestra “Características e panorama do ensino de
apresentação de trabalhos por professores e estudantes. Os trabalhos
Arquitetura e Acreditação nos EUA”. Após a palestra foi aberto espaço
inscritos foram distribuídos pela comissão científica para apresentação
em duas seções temáticas que funcionaram simultaneamente: a primeira, para o debate com a participação dos presentes.
“Transformações e rebatimentos: cenário sócio-econômico, avanços No dia vinte e quatro de novembro os trabalhos foram retomados às nove
tecnológicos, mundo profissional e rebatimento no ensino”, coordenada horas, seguindo a sistemática do dia anterior, com a recomposição das
pela professora Amadja Henrique Borges e secretariada pela professora mesas redondas coordenadas, uma pela professora Débora e a outra
Ana Paula Rabello Lyra, e a segunda, Práticas pedagógicas no ensino de pela professora Amadja, dando-se continuidade às apresentações dos
20 XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA 21
XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

trabalhos inscritos no do Encontro. No total foram apresentados dezesseis institucionalizado o CEAU, o CABA continua a existir e a se reunir à revelia
trabalhos, seguidos de debates. do CAU/BR. Informou ainda que, como representa o seu Estado (o RN)
no plenário do CAU/BR solicitou que o vice-presidente Gogliardo
XXXIV COSU representasse a ABEA naquele Colegiado. Gogliardo relata as atividades
Às onze horas da manhã do dia 24 de novembro, o presidente da ABEA deste ano, lembrando a criação do CBA em 1997 e da luta pela
deu início à XXXV Reunião do Conselho Superior da ABEA – COSU, com a regulamentação própria conquistada no final de 2010, o processo de
apresentação da proposta de pauta para os trabalhos que, após discutida transição em 2011 e a implantação do CAU já em 2012. Há uma pressão
foi definida com os seguintes itens: 1) Informes; 2) Eleições da diretoria no CAU São Paulo de se criar um CEAU Paulista e há uma pressão para
da ABEA em 2013 para o biênio 2013/2015; 3) Selo de Qualidade ou Associação dos Engenheiros e Arquitetos terem um assento. Fernando
Acreditação do Curso; 4) Concurso TFG; 5) Aniversário de 40 anos da lembra que este movimento também ocorre em Pernambuco e Itamar vê,
ABEA em 2013 e definições para o próximo CONABEA em 2013; 6) com muita preocupação, esta criação de novos Colegiados. Gogliardo
Solicitação de Inadimplentes da ABEA; 7) Relatoria do ENSEA; 8) Informes informa ainda que um dos primeiros trabalhos do CEAU está sendo a
Finais – Encerramento. elaboração de um Manual de Contratação de Serviços que deverá conter
uma tabela referencial de honorários, e que esse manual está sendo
1) Informes. 1.1) Dando início ao primeiro ponto de pauta o diretor elaborado pelas Entidades para ser homologado pelo CAU/BR. Em São
Gogliardo relatou que participou da conferência da ACSA em Barcelona, Paulo a formação do Colegiado de Entidades Paulista deverá ter a
na qual 50% dos presentes eram professores dos USA e Canadá e os composição semelhante à composição original do CEAU. Geraldine não
demais 50% das demais localidades do mundo. Na ocasião foram participou da sessão plenária que deliberou sobre o assunto, mas informa
apresentadas experiências da prática profissional dos países que Lanchotti participou, acompanhando a discussão desde o início,
representados, quando a ABEA teve a ocasião de expor a nossa inclusive os encaminhamentos que alteravam a configuração original.
experiência. A direção da ACSA afirmou que está em seus planos a Como resultado dos informes, os seguintes encaminhamentos foram
promoção de um dos próximos eventos no BRASIL. 1.2) O Presidente aprovados pela plenária: Os integrantes da ABEA devem participar dos
informou que a ABEA recebeu convite para participar do próximo Encontro Colegiados das Entidades nos Conselhos dos Estados, buscando
Regional de Estudantes de Arquitetura e Urbanismo (EREA) que será defender as posições históricas da ABEA, assim como devem trazer
realizado em Natal/RN em janeiro próximo e já confirmou a presença. as questões polêmicas para discussão coletiva no interior da entidade
1.3) O representante das Instituições de Ensino de Arquitetura e Urbanismo e, em locais onde não houver membros da Diretoria, a ABEA deve buscar
no Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU/BR), Geraldine Jr., e os se fazer presente nos Colegiados, através da participação de outros
diretores da ABEA que participam dos conselhos nos Estados, relataram professores. A ABEA deve pautar discussão no sentido de buscar a
sua atuação e os principais conflitos vivenciados. Nos relatos foram uniformidade de procedimentos para a revalidação de diplomas pelas
destacados a formação e o papel de Colegiados de Entidades da categoria Instituições brasileiras credenciadas para tal.
ou mesmo mistos entre arquitetos e urbanistas e categorias afins em
alguns Estados, definindo os rumos do debate político do próprio CAU. 2) Eleições da diretoria da ABEA em 2013 para o biênio 2013/2015.
1.4) O Presidente da ABEA informa que o processo de acreditação das Considerando que a atual diretoria da ABEA tem mandato até novembro
escolas e cursos do Mercosul foi finalmente iniciado em Junho de 2012 de 2013, o presidente da ABEA solicita a indicação no nomes para compor
no Brasil e, até o final do ano, estarão concluídas as visitas das 16 escolas. a Comissão Eleitoral para a eleição da diretoria da ABEA para o biênio
Esse processo é sigiloso e o órgão brasileiro responsável pela sua 2013-2015 a ser realizada no XVII CONABEA – Congresso Nacional da
condução só divulgará o nome dos cursos que forem acreditados. O ABEA em 2013. Após discussão a plenária aprovou por Unanimidade a
Brasil faz gestão junto a Reunião das Agencias de Avaliações (RANA) seguinte composição: Comissão Eleitoral para a eleição da diretoria da
para que se abram mais editais pois, atualmente, só acontecem a cada ABEA para o biênio 2013-2015 titulares a Profª. Daniela Mendes (UFRS),
5 anos e, no caso do Brasil, são insuficientes para o grande número de o Prof. Maribel (UNB) e o Prof. Mauricio (UFF). Como suplentes foram
instituições. 1.5) A ABEA tem assento no Colégio de Brasileiro de Arquitetos indicados o Prof. Nei (FURB) e a Profª. Carmem da UNIURBE (suplentes)
(CBA) e no Colegiado das Entidades Nacionais (CEAU) do CAU. O
presidente da ABEA informou que, apesar de o CAU/BR ter 3) Selo de Qualidade ou Acreditação do Curso.
22 XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA 23
XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

Durante a discussão foram levantados pontos para encaminhamentos e de um livro que conte a história de atuação da ABEA, sugere que o mesmo
para a orientação de ações da ABEA. A Comissão de Ensino e Formação seja produzido para lançamento no CONABEA de 2013. Nesse ponto
do CAU/BR realizou seminários regionais ao longo do ano de 2012 nos pede a indicação de Instituições interessadas em organizar o evento.
quais foi discutido, entre outros assuntos, a realização de um processo Foram indicadas as cidades de Natal (UFRN), Campo Grande (UFMS),
de verificação da qualidade do ensino. Essa discussão teve como objetivo Vitória (UVV), Balneário de Camboriú (UDESC) e Goiânia (PUC/GO).
identificar se a criação deste Selo seria o desejo do CAU e das Escolas. Quanto à data a plenária deixou a cargo da diretoria estudar a data mais
A Comissão encaminha sugestões de operacionalização e Indicadores conveniente. A temática sugerida para o evento deverá abordar as questões
que foram relacionados na síntese dos Seminários citados; das consequências das Lei de Responsabilidade Técnica, Residência
em Arquitetura e Urbanismo, atividades dos escritórios modelos,
Foi sugerido que a ABEA providencie agendamento de reunião com o
laboratórios de extensão e as decorrências e interfaces com o mundo
Ministro Aloisio Mercadante para tratar dos Perfis e Padrões de Qualidade
profissional , como resgatar a presença de uma formação voltada à
e da revisão das Diretrizes Curriculares.
demanda da sociedade e a responsabilidade profissional, frente à Lei de
participar nas decisões recorrentes das avaliações, das designações Assistência Técnica. Ao final foram tomadas as seguintes deliberações:
dos avaliadores e contribuir com estudos de construção dos Instrumentos A sede para a realização do XVII CONABEA – Congresso Nacional da
de avaliação conjuntamente com os segmentos do Governo, do Ensino e ABEA e do XXXII ENSEA – Encontro Nacional sobre Ensino de Arquitetura
do exercício Profissional. e Urbanismo será a cidade de Goiânia com o apoio da PUC/GO; A diretoria
deverá definir temática considerando os temas sugeridos na
4) Concurso TFG discussão; A ABEA deverá contratar profissional para produzir uma
Sobre esse ponto o presidente da ABEA relembra que a ABEA participou publicação sobre os 40 anos da ABEA, sob a coordenação da professora
da criação do concurso Opera Prima em parceria com a Revista Projeto e Ester Gutierres.
a patrocinadora FADEMAC. Depois de alguns anos de existência do 6) Solicitação de Inadimplentes da ABEA
concurso, a revista Projeto patenteou o nome Opera Prima como de sua
propriedade. O concurso passou a ser chamado de Premio Paviflex de O presidente informa que algumas Instituições solicitaram anistia no
TFG e a contar com a parceria da Revista AU. Em seguida foi a FADEMAC pagamento de anuidades atrasadas e não pagas. Relatou que
que passou a fazer restrições ao financiamento do concurso o que motivou anualmente o número de escolas adimplentes tem sido maior que cem
a saída da ABEA e a consequente entrada do IAB. Daí em diante o concurso cursos. Ficou decidido que a ABEA DEVE manter a mesma postura de
voltou a ser chamado de Opera Prima e realizado com a participação da não abonar débitos, como forma de valorizar as Instituições que pagam
revista Projeto, do IAB e a FADEMAC. No ano de 2012 a FADEMAC retirou- em dia.
se do concurso e o mesmo não foi realizado. No ano de 2007 a ABEA
7) Relatoria do ENSEA
realizou a 1ª Mostra Nacional de Práticas Pedagógicas e a 1ª Mostra
Nacional de Trabalhos Finais de Graduação da ABEA. Informa o presidente Relatos da Sessão Temática 1 coordenado pela professora Amadja H
que nesse ano foi feito contato com um fabricante de Material de Borges (UFRN/RN) com relatoria da professora Ana Paula Rabello Lyra. A
Construção que demonstrou interesse pelo projeto e que poderá financiar apresentação dos trabalhos despertou discussão sobre a formação ideal
o “Premio ABEA de Trabalho Final de Graduação”, e resgatar também a do Arquiteto e Urbanista do século XXI através de uma rede de Escolas da
“Mostra Nacional de Práticas Pedagógicas”. A expectativa é resgatar estas América Latina a exemplo do sistema de acreditação do Mercosul, como
duas premiações no aniversário da ABEA em 2013. um Laboratório de discussão sobre o que é uma boa arquitetura na
américa latina sem comprometer as características culturais de cada
5) Aniversário de 40 anos da ABEA em 2013 e definições para o próximo
região. Relato de experiência do convênio de cooperação técnica entre
CONABEA em 2013
Instituições Pernambucanas e Holandesas com destaque para troca de
O presidente lembra que em 2013 a ABEA estará completando 40 anos experiências sobre formas de integração e reconciliação da cidade com
de sua fundação e essa data deverá ser comemorada juntamente com a seus rios urbanos. O Convênio gerou um workshop em Recife e outro
realização do nosso próximo evento. Lembrando o projeto de elaboração encontro em Amsterdam. As propostas resultaram em um documento do
possível futuro de Recife que foi entregue aos dirigentes locais. Outo
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XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

trabalho relata experiência da adoção do conceito da acessibilidade em Instituições públicas têm reforçado docentes titulados muito jovens porém
uma edificação com espaço privado e público onde o aluno deve propor sem qualquer vivência prática e isso acaba empobrecendo também a
um espaço para acessível a todos. Também houve o relato da experiência formação e a abordagem de conteúdos mesmo quando atende as
do recém criado EMAU do Instituto Federal Fluminense que atua com diretrizes curriculares. A questão que se coloca que há uma busca por
base na carta POEMA da FENEA onde a responsabilidade técnica pelos novas linguagens, pois o modelo presente não está dando conta de fato
projetos são do professore orientador. aprender o que se quer ensinar, por falta de domínio pedagógico entre
outras questões, e não só o reconhecimento da mudança do perfil do
Relatos da Sessão Temática 2 que teve a coordenação da professora aluno mas também quais as implicações em nossas práticas didáticas
Débora Frazato. Foram apresentados trabalhos que versaram sobre a desse aluno. A ABEA deve tratar rapidamente dessa temática em seus
integração de alunos do 7º período em atividades de 12 horas semanais próximos encontros
em Ateliê de projeto integrado, de uma semana de recepção a alunos
ingressantes através de atividades propositivas com a composição 8) Informes Finais – Encerramento.
aleatória de equipes em Ateliê Vertical, e na sequência discutiu-se
O presidente informa que não foi possível fazer a impressão de todos os
abordagens que estimulem a criatividade e novas linguagens mais
certificados para serem entregues no próprio evento. Dessa forma os
adequadas ao mundo contemporâneo e concernentes ao universo dos
respectivos certificados serão remetidos aos participantes no formato
jovens. Por um lado houve uma manifestação de que os estudantes não
pdf via email. Na continuidade e tendo cumprido a pauta estabelecida, o
podem nem deveria abandonar o desenho a mão como gênese
presidente professor Fernando Costa agradeceu em seu nome e em
entendendo que o mesmo não concorre nem é o único, mas faz parte do
nome de toda a diretoria da ABEA a presença de todos assim como
processo de concepção, representação e linguagem. Entende-se,
agradeceu o apoio indispensável e fundamental do Centro Universitário
entretanto que hoje não cabe ao curso atrelar o ensino de informática a
Belas Artes e a sua Faculdade de Arquitetura e de Urbanismo, na pessoa
programas gráficos específicos, mas sim ter infraestrutura instalada em
do professor Ênio Moro Jr., assim como a seus demais professores,
laboratórios e eventuais atividades eletivas promoverem ensinos
estudantes e funcionários. Nada mais tendo a tratar, o presidente deu por
específicos. Da mesma forma entende-se a importância de atualizar a
encerrado o XXXV COSU, do qual lavro a presente ata.
infraestrutura instalada como no caso dos laboratórios de modelo e
maquetes que deve incorporar equipamentos para prototipagem rápida
(fresas) e fabricações digitais. O aumento de conteúdos prejudica muitas
vezes a aprendizagem de questões básicas como do ensino e projeto da
paisagem que vem sendo implementados com exíguas cargas horárias.
A preparação e capacitação dos docentes tem que ser tratada de forma
concreta e a ABEA deve novamente abordar essa problemática. As
Diretrizes têm que ser amplas com formação generalista com
instrumentos e linguagens que traduzam e aproximem conteúdos do
processo de aprendizagem. Há conteúdos que não se esgotam em uma
disciplina, mas sim são básicas para tudo como ética, acessibilidade,
sustentabilidade. Cursos noturnos devem viabilizar que os trabalhos
possam ser desenvolvidos em sala de aula para que o tempo não seja
mais importante que o próprio aluno. A formação tem que continuar a ser
generalista e deve-se atentar que se quiser colocar tudo na graduação o
aluno espana com a produção de tantos resultados quando várias
questões acabam sendo abordadas a titulo de informes e
superficialmente. A ABEA deve encaminhar com brevidade a discussão
de habilitação x carga horária. Além de docentes titulados os cursos
chamam também por docentes com experiência prática. Algumas
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XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

Textos referenciais distribuídos para a discussão do tema:

Qualidade do Ensino x Exame


Professora Donna Robertson do Illinois Institute of Technology (IIT-EUA)
Presidente da Association of Collegiate Schools of Architecture (ACSA) de Habilitação
proferindo a palestra “Características e panorama do ensino de Arquitetura e
Acreditação nos EUA”.

Mesa Redonda “Qualidade do Ensino x Exame de Habilitação” que contou com a


participação dos professores Frederico Almeida da Associação Brasileira de A ABEA não alterou o conteúdo dos textos creditando a seus autores,
Ensino de Direito (ABEDI), Milton Martins da Associação Brasileira de Ensino toda a responsabilidae sobre os mesmos.
Médico (ABEM) e a moderação do professor Fernando Costa da ABEA
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XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

Criatividade e Ensino de Arquitetura1

Profa. Maria Elisa Meira

A burguesia difundiu a ESCOLA; com o tempo a transformou em


mercadoria: hoje enfrenta o desafio de ampliar a instrução sem contudo,
ampliar e permitir o acesso à educação.

Num primeiro momento isto foi possível. Romper a relação instrução/


educação gerou duas escolas ou, se quisermos uma Escola dual, uma
para preparar para o trabalho-instrução, outra para preparar para o mando-
educação.

Gramci chamou a isto, em tradução livre, Escola Interesseira. E


contrapôs a esta concepção de escola da burguesia, a Escola
Omnilateral, capaz de possibilitar aos homens, não só instrução para o
trabalho, mas também capacidade critica e renovadora, verdadeira
Educação.

A acelerada renovação tecnológica, característica de nosso tempo, faz


cada vez mais, e em menos tempo, necessária a escola para que a
produção prossiga. O capital necessita selecionar quadros, quanto maior
for o universo de busca, maiores possibilidades terá de ter acesso aos
melhores; ao mesmo tempo, havendo muitos, o poder relativo do saber
se dilui de maneira que dele não advenha o mando.

Então, enquanto a escola é valorizada e revalorizada, a contradição se


agrava, como prover instrução para todos, única forma de preparação
para o trabalho hoje, e ao mesmo, impedir que todos tenha-. acesso à
educação, o que levaria certamente à liberação da dominação.

Esta contradição, intrínseca à concepção de Escola Dual, não podia


ser de outro modo, se ampliou ela mesma maneira que se difundiu a
escola e a correspondente obrigatoriedade da escola, de tal forma que
“contaminou” a escola de preparação de quadros, na concepção inicial, a
escola da educação. Assim se tornou impossível. manter a escola das
elites com as características imaginadas inicialmente. Hoje a Escola

1 - Texto publicado no Caderno Abea 3 – set 1991 e apresentado no X ENSEA e V CONABEA


Transcrição e versão da conferência proferida no Colóquio Internacional Criatividade, Arquitetura e Interdiciplina,
B. Aires, jul 1989
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XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

destinada à burguesia não tem como incluir em seus objetivos a Ao pressupor a passagem de “quem sabe” a “quem não sabe”, coloca
Educação. o estudante em posição de passividade. Ao ocupar o tempo e a “cabeça”
do aluno em “tomar” saber (ser ensinado) adormece a capacidade
Se não vejamos o que sucede com os Arquitetos. As escolas de
criadora (dar respostas). Estabelecendo modelos a repetir não brinda
Arquitetura adestram, portanto instruem para o trabalho, e para que esta
perguntas a responder (criar).
afirmação fique mais clara me explico desenvolvendo três eixos de análise
a respeito dos conteúdos, metodologia e conduta pedagógica dominantes. Entendo que a Universidade é o lugar para aprender a aprender, não é
o lugar de ensinar.
Do ponto de vista da “formação” profissional e dos conteúdos
curriculares, o conceito dominante é agrupar pedaços de matemática, Assim, quando buscamos, como agora, ampliar, fortalecer a capacidade
física, história, geografia, etc., as chamadas matérias, que são mais uma criadora (Educação) temos que ter claro que a instituição escola existe
vez retalhadas em disciplinas, que se dizem necessárias para a prática hoje para impedi-la; receber motivações e criar respostas é um processo
do arquiteto. único.

Repartir tudo e deixar ao estudante a chamada síntese; ele terá que O poder de poder criar, é o estímulo para criar. Se ignorarmos isto não
juntar os pedaços sozinho, sem que, em nenhum momento haja percebido conseguiremos ampliar o que criatividade (qualidade do criador).
o todo, porque não lhe foi dada esta oportunidade Prevalecerá, o mito da “vocação”, da capacidade genética, do dom; o
Quanto à metodologia, a teoria é separada da prática, a divisão social que significa dizer que alguns são criativos e outros não. Eu não acredito
do trabalho é acrescida da separação entre trabalho manual e intelectual, nisto.
e tudo é escamoteado pelo arquiteto/professor, que facilmente a nível do Criar é viver, poderíamos dizer frente ao mundo de hoje, sobreviver.
atelier “projeta” seus sonhos. Aquilo que não consegue viabilizar na prática Para viver é necessário criar, o isto não é poesia, para viver é imperativo
profissional é referência considerada como importante para o criar.
projeto do estudante. É ainda reforçada a “imagem” de que o arquiteto Viver aqui tem um significado muito mais amplo do que estar no mundo;
não é um profissional compreendido e por consequência considerado viver aqui é ser governante, ter autonomia. Mas numa sociedade diretiva,
pela sociedade. tanto a autonomia como a criação são limitadas pelos grupos
Profissionais “passam” aos estudantes experiências de seu trabalho hegemônicos
com arquitetos, o que impede a experimentação, a investigação (investigar Paulo Freire nos diz que os alunos não aprendem porque não têm
é descobrir o segredo, ver atrás de...) estímulo; cada pergunta que o professor faz, o professor já tem a resposta,
Os pressupostos pedagógicos são um desastre total. Uma única visão pois ele só faz só faz perguntas sobre aquilo que le já sabe. O aluno sabe
pedagógica, a diretividade que propõe a passagem do que sabe ao que disto, portanto não precisa pensar ( criar respostas a um estímulo). Repete
não sabe, e coloca o saber como propriedade (de alguém) e não espaço aquilo que já lhe foi dito que é a resposta. É um jogo de cartas marcadas
a ocupar. para ambos, e como jogo de cartas marcadas não é interessante.

Estabelecendo modelos, referências a repetir, a re-fazer, a orientação Quando dizemos que a didática predominante nos cursos de arquitetura
pedagógica predominante não permite a elaboração própria a partir da é a critica, eu diria que não é a critica (esta incluiria o espaço da criação)
experiência de cada um, da capacidade de cada um. Diria com toda a e sim a censura que limita, impõe condena o que está fora da vivência/
segurança, que a relação pedagógica diretiva impede o ato criador. experiência do arquiteto/professor. Tanto é verdade, que a referência
principal dos cursos de arquitetura é a obra dos próprios arquitetos; por
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XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

outro lado a cidade (biblioteca de arquitetura, o grande livro) é considera Rio de Janeiro, 22 de setembro de 2005
feia, é desconsiderada.

Tenho observado que as sociedades centrais, com grandes graus de


formalidade em sua organização, criaram uma rigidez tal, que elas A Associação Brasileira de Educação Médica (ABEM) e a proposta de
mesmas agora desejam romper. Olham as sociedades periféricas como instituição de um Exame de Habilitação para o Exercício da Medicina
grandes graus de informalidade e as tentam entender; de nenhuma forma no Brasil1
as querem copiar, ali há vida. Na informalidade, os indivíduos e igualmente
os grupos se desenvolvem como sujeitos. Prof. Dr. Milton de Arruda Martins
Presidente da ABEM
Entendo que a Educação objetiva o homem governante, e me pergunto
como criar estímulos maiores e melhores que aqueles que vêm do A proposta de realizar um exame (ou exames) para médicos recém
concreto, do mundo que nos rodeia. Assim, entendo que no plano social formados, seguindo o exemplo do Exame da Ordem dos Advogados
e político existem grandes estímulos para a criação. do Brasil, tem sido muito discutida. Esta proposta tem várias versões e,
de uma forma geral, trata-se de introduzir no Brasil a exigência de que o
Me preocupa que não reforcemos a despolitização, deixando a·política/ estudante de Medicina, após receber o seu diploma, tenha que se
filosofia como área específica dos políticos profissionais. No submeter a um exame e apenas no caso de ser aprovado poder registrar
enfrentamento da vida cotidiana está o maior estímulo à criatividade. seu diploma no Conselho Regional de Medicina e ser habilitado a exercer
Colocar nosso “mundinho” de intelectuais no mundo do trabalho e, ai a profissão de médico. Este exame tem sido chamado por vários nomes,
sim, seremos criativos. “Exame de Ordem”, “Exame de Qualificação”, “Exame de Habilitação”,
“Exame de Proficiência em Medicina”.
Existem projetos de lei em tramitação no Congresso Nacional, como
o Projeto de Lei do Senado número 217, de 2004, que visa instituir o
“Exame Nacional de Proficiência em Medicina”e o Projeto de Lei da
Câmara Federal número 4342, de
2004, que visa instituir o “Exame de Habilitação para Exercício da
Medicina”. O Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo
decidiu realizar, em caráter experimental, um “Exame de Habilitação”,
para alunos de Medicina que estejam cursando o sexto ano de
faculdades localizadas no Estado de São Paulo e médicos formados há
menos de um ano. Este exame terá duas fases, uma prova objetiva e
uma avaliação prática, e a primeira fase será realizada no dia 9 de
outubro próximo.
A ABEM tem discutido em profundidade o tema, em suas reuniões de
diretoria, em seus encontros e congressos regionais, e com especialistas
e dirigentes de outras entidades médicas e de estudantes de Medicina,
e vem a público manifestar sua posição contrária à instituição no Brasil
de qualquer tipo de Exame de Habilitação, realizado após o final do
Curso Médico.

1 - Texto disponível em <http://www.profpito.com/abem.html> Acesso em 10 nov. 2012


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XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

Reconhecemos a existência de vários problemas no ensino médico exemplo próximo dos exames de Residência Médica: muitos estudantes
brasileiro que necessitam de urgente solução, principalmente a dos últimos anos do curso, preocupados com sua aprovação nesses
necessidade dos governos federal e estaduais de não autorizar a abertura exames, acabam por dedicar-se mais a estudar para o exame do que
de novas escolas médicas e de fechar as escolas médicas que não com sua formação prática. Não pode ser esquecido também o brutal
possuem condições mínimas de funcionamento e de formação de impacto que o vestibular tem sobre o ensino do segundo grau. Um exame
médicos de qualidade. Nos últimos anos, em especial durante a gestão influencia decisivamente o comportamento dos estudantes e seu
do Ministro Paulo Renato, houve autorização pelo MEC para abertura de conteúdo tem que ser discutido com muito cuidado e profundidade: pode
grande número de escolas médicas. Levantamento realizado pela pretender-se um impacto positivo e o resultado ser um impacto negativo
Associação Paulista de Medicina revelou que durante o Governo do sobre a formação.
Presidente Fernando Henrique Cardoso foram autorizados 42 novos Apesar de haver diferenças importantes entre a formação dos médicos
cursos de Medicina, sendo 11 em instituições públicas e 31 em e dos advogados, é inegável que a instituição do Exame de Ordem pela
instituições privadas. Desde o início do Governo do Presidente Luis Ordem dos Advogados do Brasi l fe z co m qu e diminuísse a
Inácio Lula da Silva já foram autorizados preocupação com o número e a qualidade das escolas de direito em
21 novos cursos de Medicina, sendo 3 em instituições públicas e 18 em nosso país. Existem hoje numerosas escolas de direito de baixa qualidade
e que dão enormes lucros a muitos empresários do ensino superior. A
instituições privadas.
instituição de um Exame de Habilitação para o exercício da Medicina é
A ABEM reconhece, também, a necessidade de aperfeiçoar o sistema de alto interesse para muitas empresas que se dedicam ao ensino
de avaliação das escolas médicas, e tem contribuído de forma intensa superior. Muitos empresários desse setor imaginam que terão muito mais
nesse sentido. Ao mesmo tempo, a ABEM considera muito importante facilidade em obter autorização para abertura de novos cursos de
aperfeiçoar as avaliações dos alunos feitas ao longo dos seis anos do Medicina ou para aumento de vagas dos existentes caso haja um Exame
curso médico. As escolas médicas só devem fornecer diploma aos de Habilitação.
estudantes que tiverem os conhecimentos, as habilidades e as atitudes É fundamental, também, avaliar o que aconteceria com aquele que
estabelecidos pelas Diretrizes Curriculares para os Cursos de concluiu um curso de Medicina e não foi aprovado no Exame de
Medicina, que são os princípios orientadores para a formação médica Qualificação. Surgirá um novo personagem, o bacharel em Medicina. O
em nosso país. que ele poderá fazer e o que ele não poderá? Os Conselhos Regionais
À primeira vista, muitos problemas da formação médica no Brasil de Medicina passarão a ter uma nova e intensa atividade, coibir o exercício
seriam resolvidos com a obrigatoriedade de um Exame de Habilitação. ilegal da Medicina por parte desses profissionais. É importante ressaltar
Só poderia exercer a profissão quem fosse aprovado nesse exame e a que o bacharel em direito tem várias opções profissionais, não apenas
sociedade estaria protegida contra médicos de formação deficiente. a de ser advogado: pode ser, por exemplo, juiz, promotor, delegado,
Entretanto, uma análise um pouco mais profunda revela que essa havendo formação específica para cada uma dessas profissões.
solução pode, ao contrário, contribuir para piorar substancialmente o Estabelecer que o critério decisivo para o exercício da profissão de
ensino médico em nosso país. médico seja a aprovação em um exame realizado após receber o diploma
Um exame desse tipo terá um impacto muito importante no tira a responsabilidade das escolas médicas pela eventual formação
comportamento dos estudantes de Medicina, em especial nos últimos insuficiente e elas devem ser as principais responsáveis por essa
anos do curso. Preparar-se para o exame passará a ser a preocupação formação.
central de nossos alunos. É muito provável que haja proliferação de A ABEM considera que há outras prioridades para tornar a formação
cursinhos preparatórios para o Exame de Habilitação e os alunos de nossos médicos de melhor qualidade e de acordo com as
passem a estudar os conteúdos que mais provavelmente serão exigidos necessidades de nossa sociedade:
no exame e se dedicarão menos às atividades práticas, à sua formação
integral, ao seu treinamento nos ambulatórios, enfermarias e unidades - Estabelecer o número de médicos que o Brasil realmente necessita
de emergência. Em vez de contribuir para melhorar a formação dos formar por ano e adequar o número de vagas nas escolas médicas a
médicos, o Exame de Qualificação poderá contribuir para piorá-la. Há o essa necessidade. Existe um grande prejuízo à sociedade quando
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XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

existem médicos em número insuficiente, mas também quando existem algum programa de Residência Médica ou o seu resultado ser exigido
médicos em excesso; por empregadores.
O caminho proposto pela ABEM é que a discussão sobre a implantação
- Estabelecer o número de especialistas de cada área e formá-los com
ou não de um Exame de Habilitação para médicos seja uma discussão
qualidade, nos programas de Residência Médica; nacional e não regional, e que envolva as entidades profissionais, as
- Aperfeiçoar cada vez mais o sistema de avaliação das escolas médicas; escolas médicas, os estudantes de medicina, médicos residentes e a
sociedade. Essa discussão deve ter como princípio a busca da melhor
- Aperfeiçoar a avaliação dos estudantes de Medicina pelas escolas
alternativa para que a sociedade tenha acesso a médicos formados de
médicas, com avaliações constantes e formativas de conhecimentos,
acordo com as Diretrizes Curriculares, competentes, éticos, humanos,
habilidades e atitudes;
socialmente responsáveis e adequados às necessidades de nossa
- Incentivar e colaborar com todas as escolas médicas na implantação sociedade.
das Avaliar em um único momento, no final de toda a formação, é uma
Diretrizes Curriculares. estratégia de avaliação inadequada e anacrônica. A avaliação deve ser
feita em vários momentos do curso médico, com variados instrumentos
Talvez o mais importante seja os governos federal e estaduais
de avaliação, que possam medir a aquisição de conhecimentos, de
assumirem o seu papel: não permitir a abertura de novas escolas
habilidades e atitudes médicas. A avaliação deve ser formativa, o avaliado
médicas sem uma clara demonstração de sua necessidade, que inclua
deve ter sempre um retorno de sua avaliação para que possa se recuperar
a aprovação pelo Conselho Nacional de Saúde. Devem, também,
e a instituição deve ser responsável por essa recuperação.
promover a avaliação adequada das existentes, determinar o fechamento
das escolas que não tiverem condições mínimas de funcionamento e A ABEM propõe-se a liderar uma discussão nacional sobre o
oferecer condições de excelência às escolas públicas, que são de sua aprimoramento da avaliação do estudante de Medicina, com a criação
responsabilidade direta. de instrumentos de avaliação de conhecimentos, habilidades e atitudes
Reconhecemos a atuação do Conselho Regional de Medicina do que sejam aplicados em vários momentos do curso médico. O estudante
Estado de São Paulo no sentido de contribuir para o aprimoramento da que fosse insuficiente em uma dessas avaliações poderia se recuperar
formação médica. Entretanto, consideramos que sua decisão de e ser novamente submetido a ela e o responsável pelo suporte e formação
promover um “Exame de Habilitação” deveria ser revista. Não há dos alunos seria, é claro, a sua escola médica.
necessidade de fazer um exame para avaliar se é possível fazer um
exame desse tipo. Algumas das nossas mais tradicionais escolas
médicas realizaram, neste ano, exames de residência com parte objetiva
e parte prática, houve centenas ou milhares de candidatos e estas
instituições provaram que é possível fazer uma avaliação prática bem
feita, não há necessidade de demonstrar o que já foi demonstrado.
Como experimento para avaliar os conhecimentos, habilidades e
atitudes dos alunos do sexto ano das escolas médicas do Estado de
São Paulo também há problemas. Há uma grande probabilidade de haver
um vício de seleção, uma vez há um número importante de estudantes
que não farão o exame por discordarem dessa proposta. Mas o problema
mais importante é que se cria uma situação de fato, é criado um exame
sem antes haver uma discussão mais profunda que envolva todas as
entidades interessadas em aprimorar a formação médica. Cria-se,
inclusive, um temor nos estudantes do sexto ano, que ficam preocupados
em não fazer o exame porque ele poderia ser utilizado na seleção para
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XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

Exame de Ordem: controle de mercado ou avaliação profissional?1 Ensino Médio (ENEM), como bem lembrou o advogado Maurício Gieseler,
consultado pelo Última Instância.
Não acredito que o Exame de Ordem, unificado ou não, seja perfeito e
Prof. Frederico de Almeida2 imune a falhas, sejam elas operacionais, sejam elas típicas fraudes.
Como disse, num Exame nacional, é maior a probabilidade de certos
problemas ocorrerem, dada a magnitude da operação que envolve a
Em sua mais recente edição realizada pela prestigiada FGV (Fundação aplicação da prova.
Getúlio Vargas), o Exame de Ordem, mantido pela OAB (Ordem dos Por outro lado, sou bastante cauteloso em relação a certas “teorias da
Advogados do Brasil) como condição para o exercício profissional, é alvo conspiração” que veem no Exame uma confabulação de poucos
de críticas e suspeitas de erros, que poderiam geram, inclusive, sua dirigentes da advocacia para aprovarem pessoas determinadas – seus
anulação. parentes, conhecidos, alunos, amigos dos amigos, etc.
Não fo ssem a s esperanças depositadas na seriedade e na Acredito mesmo que um Exame nacional diminua as chances de
competência da FGV para a aplicação da prova – substituindo o influências pessoais indevidas na seleção dos candidatos. Porém, estou
igualmente prestigiado (ao menos até denúncias de fraude) Cespe convencido de que há uma intencionalidade da OAB na realização do
(Centro de Seleção e Promoção de Eventos), da Universidade de Brasília, Exame, que é institucional (e não pessoal, de alguns dirigentes) e que vai
as críticas não seriam nenhuma novidade. Há tempos o Exame de além do objetivo declarado de avaliar competências e habilidades
Ordem é contestado pela sua efetiva capacidade de avaliar as habilidades profissionais para o exercício da advocacia.
profissionais, e por s ua suposta falta de competência, lisura e A mobilização da OAB pela instituição de um exame obrigatório para o
objetividade na seleção de novos advogados. exercício profissional vem desde pelo menos a década de 1960, quando
A unificação de um Exame de Ordem nacional foi uma decisão o Estatuto da Advocacia de 1963 previa o Exame de Ordem como uma
controvertida do Conselho Federal da OAB, e que encontrou resistências das formas de ingresso na profissão, ao lado dos chamados “cursos
em várias seccionais. Um dos argumentos para a unificação do Exame de estágio”, mantidos pelas próprias faculdades de direito, e cuja
nacional foi justamente a de refutar críticas e suspeitas quanto à lisura e conclusão habilitaria automaticamente o bacharel como advogado. Foi
à seriedade da prova, supostamente ameaçadas por interesses locais somente com o Estatuto de 1994 que o Exame de Ordem se afirmou
escusos , indevidamente representados na s seccionais e nos como única forma de ingresso do bacharel em direito na profissão.
responsáveis pela organização da avaliação. As denúncias que Não por acaso, esse período conheceu uma expansão nunca antes
atingiram a Cespe, e agora, ainda que com menor intensidade, a FGV vista do número de cursos de direito criados no país, fenômeno que iria
não se diferenciam em nada, de maneira geral, das críticas anteriores se acentuar na década de 1990. Também nesse
que atingiam os Exames locais.
período (e por conta justamente da expansão do ensino jurídico), a
A diferença é que, num Exame nacional, esses problemas tendem a
ganhar repercussão maior. Além disso, a escala de um Exame nacional, advocacia se submeteu a um intenso processo de massificação,
com todas as suas implicações em termos de logística para produção, acompanhado da precarização das formas de exercício profissional.
aplicação e correção das provas, certamente abre flancos maiores e A OAB, como entidade representante e controladora da profissão, vem
mais sensíveis à ocorrência de problemas, voluntários ou não – e a OAB agindo desde então, de modo um tanto errático e ineficiente, para
deveria se lembrar disso antes de criticar tão feroz e apressadamente o combater os efeitos negativos dessa massificação. Nessa sua ação,
Ministério da Educação (MEC) pelas falhas no Exame Nacional do Exame de Ordem e ensino jurídico tornaram-se questões centrais da
1 Artigo originalmente publicado no site Última Instância em 8 de dezembro de 2010. política da OAB em relação ao seu mercado de trabalho e à sua própria
2 Frederico de Almeida é advogado e cientista político. Participou de diversas pesquisas sobre a administração capacidade de controlar o exercício profissional.
e a reforma da justiça. Foi pesquisador e Coordenador-adjunto do Núcleo de Pesquisas do IBCCRIM; pesquisador
do CEBEPEJ e do Ministério da Justiça; Coordenador de Prática Jurídica da Escola de Direito de São Paulo da Daí porque o Exame de Ordem tenha também como objetivo – se é que
FGV; e Coordenador- Geral de Supervisão da Educação Superior do Ministério da Educação. Atualmente é assessor
de Relações Institucionais da PROTESTE Associação de Consumidores. Edita o não pode ser esse considerado seu objetivo central – o de controlar o
blog POLÍTICA%JUSTIÇA (http://politicajustica.blogspot.com).
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mercado profissional, restringindo a entrada de novos advogados. E, ao


Os cursos jurídicos e a educação republicana
atuar nesse sentido, o Exame converte-se em uma avaliação não dos
bachareis, mas sim dos cursos jurídicos. Ao contrário do objetivo de 19 de outubro de 2011
controle do mercado – eventualmente negado pelos dirigentes da Ordem Prof. Frederico de Almeida
– o objetivo de avaliação dos cursos jurídicos é expressamente
assumido pela OAB, que com base nos resultados alarmantes de
reprovação no Exame de Ordem pressiona o MEC por mudanças na
No último dia 19 de setembro realizou-se na sede da Direito GV o evento
política sobre as instituições de ensino, além de criar sua própria
Os cursos jurídicos e a educação republicana, organizado pela Abedi
mobilização, por meio do selo “OAB Recomenda”, que certifica a qualidade
de cursos com base nos resultados de seus alunos no Exame. (Associação Brasileira de Ensino do Direito), e que contou com o apoio
Dessa forma, OAB e MEC têm sido, nas últimas décadas, ora parceiros das Escolas de Direito de São Paulo e do Rio de Janeiro da Fundação
Getúlio Vargas.
ora rivais na política do ensino superior jurídico. Formalmente, cabe ao
As discussões feitas durante o evento foram muito interessantes e
MEC avaliar cursos, e à OAB avaliar profissionais. Por conta das
pressões do mercado de trabalho, a OAB acabou por invadir as trouxeram novo fôlego aos debates sobre os rumos do ensino jurídico no
atribuições do MEC, que por muito tempo foi não só omisso, como Brasil. Se há mais de 30 anos fala-se em crise do ensino jurídico, é certo
permissivo em sua missão. Nos últimos anos, o MEC tem sido mais que as propostas para a resolução dessa crise se diversificaram ao longo
rigoroso na autorização de novos cursos, bem como na supervisão e na do tempo, com o surgimento concomitante de atores e discursos diversos
renovação dos atos autorizativos dos cursos já existentes – movimento sobre como se alcançar um ensino jurídico de qualidade. A acelerada
que atraiu novamente a simpatia da OAB, que se aliou ao Ministério nesse
expansão da oferta de ensino superior nas últimas décadas, e a recente
processo.
e intensa ascensão social das classes populares à chamada “nova
Por outro lado, ao perder o foco do que deveria ser uma avaliação para
fins de certificação profissional, a OAB perdeu também a chance de classe média” — movimento que passa também pela inclusão
melhorar seu Exame de Ordem, investindo em inovações metodológicas educacional — apenas tornam o cenário do ensino jurídico mais complexo,
de avaliação de competências e habilidade, e numa reflexão mais demandando reflexões
sa udável (e meno s co rporativa ) so bre a dive rsi ficação e as inovadoras e avançadas para seu aprimoramento.
transformações da advocacia, e sobre a evolução do ensino jurídico num Alguns consensos resultantes das discussões no evento da Abedi
país com grande dificuldade em garantir direitos e justiça para todos. sinalizam caminhos importantes para a renovação do debate sobre o
ensino jurídico no Brasil. O primeiro deles parece ser o de que, para além
de um debate metodológico, curricular e pedagógico (que já é bastante
sofisticado hoje no Brasil), e de uma discussão ampla sobre a política
estatal para os cursos jurídicos (ainda fortemente baseada em uma falsa
dicotomia “qualidade versus quantidade”), aqueles interessados na
compreensão e no aprimoramento da situação atual do ensino jurídico
devem focar suas atenções nos mecanismos mais precisos da regulação,
da avaliação e da supervisão dos cursos e instituições de ensino

Texto disponível em <http://www.abedi.org/?p=80> acesso em 10 nov. 2012


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superior mantidos pelo Ministério da se destinando a atividades tidas por secundárias ou estranhas à sua
Educação. área de formação — quando não ao desemprego. Nesse aspecto, um
Afinal, é por meio desses mecanismos regulatórios (diretrizes debate como esse, pela via da formação jurídica, pode inclusive contribuir
curriculares, instrumentos e indicadores de avaliação de qualidade, para a valorização de funções e atividades essenciais à administração da
decretos e portarias educacionais) que o Estado, por meio do MEC, busca justiça — como a polícia e os serventuários da justiça — hoje tidas como
estabelecer os padrões mais detalhados de sua política ampla para o secundárias ou menos valorizadas pelos estudantes que buscam nos
ensino superior em relação a projetos pedagógicos e outras questões cursos jurídicos um caminho para um bom posicionamento profissional
curriculares e metodológicas, incluindo o perfil do egresso e o papel do e social. Além disso, colabora para a reflexão sobre o papel do Direito e
docente. Se por um lado os participantes do evento ressaltaram os sobre qual a formação desejável para atividades profissionais que têm
avanços da regulação da educação superior nos últimos anos, reduzindo relação direta com a administração pública — o funcionalismo público
o espaço da “política de balcão” no MEC e aumentando o rigor e a em geral, dos técnicos administrativos aos auditores fiscais —, e que
objetividade das práticas estatais nesse setor, por outro lado enfatizou-se hoje acabam recepcionando bacharéis sem outras opções ou apenas
a importância do aprimoramento daqueles mecanismos regulatórios, de preocupados com salário e estabilidade.
modo que o objetivo de formalização, racionalização e objetivação do Porém, creio que o consenso mais importante resultante do evento
processo de autorização e reconhecimento de cursos mantenha um promovido pela Abedi foi o que busca estabelecer uma identidade social,
espaço necessário para a profissional e política para o docente em Direito. Elemento essencial de
diversidade de modelos de ensino jurídico e de projetos institucionais
qualquer projeto educacional, a docência, no caso do ensino jurídico, tem
na área.
dificuldades em se afirmar como alternativa profissional e estilo de vida
Um segundo ponto importante apresentado no evento da Abedi foi a
exclusivos daqueles acadêmicos ligados ao Direito, sendo ainda
necessidade, justamente, de se pensar e praticar a diversidade no ensino
predominante o perfil do profissional-docente — o advogado, promotor ou
jurídico, em termos de modelos de ensino e projetos institucionais, que
juiz que, com ou sem formação e titulação específica, dedica-se ao
sejam capazes de atender às diversidades sociais e regionais do país,
magistério como atividade importante, mas não exclusiva em sua
bem como aos diferentes interesses que levam um estudante a procurar
subsistência e em seu projeto de vida. Construir uma identidade (ou
a formação em Direito. Nesse aspecto, os participantes do evento
melhor: diversas identidades) do docente em Direito passa
apontaram para a necessidade de se pensar em cursos jurídicos que
necessariamente pelos debates sobre a formação para a docência —
estruturem sua oferta para além da formação para as atividades
papel esperado dos mestrados e doutorados, em geral ineficientes nesse
profissionais tradicionais do Direito — advogado, juiz, promotor — e
aspecto —, sobre suas condições objetivas de trabalho — debate que
sejam capazes de formar indivíduos para atividades profissionais que
deve ir além dos aspectos estritamente trabalhistas, alcançando mesmo
tenham no Direito, se não um requisito essencial, ao menos um
outros elementos relacionados ao desenvolvimento do ensino, da
diferencial desejável.
pesquisa e da extensão — e sobre o posicionamento e a visibilidade do
Ao prometerem futuros profissionais muitas vezes bloqueados por
docente como um ator político capaz de influenciar os debates
mercados saturados, clivagens sociais e hierarquias de prestígios entre
acadêmicos, legislativos e regulatórios sobre os rumos do ensino do
as atividades relacionadas ao Direito, muitos cursos jurídicos acabam
Direito no Brasil.
contribuindo para a frustração de expectativas de bacharéis que acabam
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SEÇÃO TEMÁTICA 1

Transformações e rebatimentos: cenário sócio-


econômico, avanços tecnológicos, mundo
profissional e rebatimento no ensino

Coordenação:
Professora Amadja Henrique Borges
e Professora Ana Paula Rabello Lyra

A ABEA não alterou o conteúdo dos trabalhos, creditando a seus


autores, toda a responsabilidae sobre os mesmos.
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QUESTÕES SOBRE A QUALIFICAÇÃO E O É verdade que principalmente a partir dos anos 1990 observamos uma
expansão acentuada na criação de curso resultado de uma política
ENSINO DE ARQUITETURA E URBANISMO governamental que busca elevar rapidamente indicadores numéricos de
matriculados no ensino superior. Ainda que o termo proliferação tenha
NO BRASIL como significado estrito aumento ou multiplicação, seu emprego em geral
alude a crescimento sem controle, como de pragas ou bactérias.
Gogliardo Vieira Maragno Podemos discordar da eficiência do atual sistema de controle da oferta
Doutor. Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. de cursos de graduação, porém ele efetivamente existe e é exercido pelo
gogliardo.maragno@ufms.br Ministério da Educação através do SINAES1.
A respeito da diminuição da qualidade da arquitetura brasileira, é preciso
esclarecer a que tipo de arquitetura se refere, se a arquitetura exemplar
RESUMO registrada nas importantes publicações da área, ou a arquitetura comum
O trabalho reconhece o crescimento expressivo dos cursos, seus que se vê cotidianamente nas cidades. Está última vem apresentando
problemas e relações com a habilitação profissional, buscando melhoras gradativas alcançando classes sociais e recantos do país
demonstrar que o privilégio do exercício privativo não foi apresentado anteriormente não alcançados. Quanto à deterioração da formação dos
pela corporação e sim imposto pela sociedade. Através de um retrospecto arquitetos, a que tanto profissionais recém-egressos quanto formados
comparativo da legislação educacional e profissional busca-se há mais tempo aludem, pode-se contrapor a evidencia de que nos
compreender o presente e vislumbrar ações futuras. O panorama dos disputados concursos de provimento de cargos e também nos de projetos
cursos desde 1930 permite acompanhar a distribuição no território, os vencedores tem sido majoritariamente arquitetos jovens, egressos
observar as influências sociais, econômicas e políticas, além de comparar de cursos que supostamente os estão preparando de maneira deficiente,
a situação nos estados, país e exterior. Analisam-se as deficiências no fato que no mínimo aponta uma contradição. E, finalmente, quanto à
sistema de ensino e de controle do ensino que propiciam o surgimento saturação do mercado, a relação arquiteto versus população urbana no
de argumentos falaciosos em defesa de um controle do ingresso no Brasil coloca o país na média de outros países desenvolvidos ou em
mercado travestido de controle da qualidade profissional. Não se pode
estágio mais avançado de desenvolvimento.
substituir a avaliação formativa, quando é possível recuperar deficiências
Estes contra-argumentos não pretendem endossar a política
sob a responsabilidade das IES, por uma avaliação pontual no final do
educacional e o controle de oferta de cursos do MEC, reconhecidamente
processo. A avaliação NOS e DOS cursos deve ser de qualidade e elevado
incapaz de acompanhar as demandas quantitativas e qualitativas
senso de responsabilidade social. Ações de melhoria do ensino devem
requeridas pela sociedade contemporânea, tampouco ignorar os sérios
contar com IES e MEC, com apoio do CAU, ABEA e entidades.
problemas existentes no ensino de arquitetura e urbanismo no país
inclusive. Há cursos com qualidade abaixo do admissível e que a continuar
Palavras-chave: ensino de arquitetura e urbanismo, abea, arquitetura
como estão não devem continuar formando profissionais. Pretende-se
e urbanismo, ensino.
destacar questões que ultrapassam o senso comum e afrontam desejos
algumas vezes inconfessos de controle do mercado por parte de uma
I. INTRODUÇÃO
parcela de profissionais e associações distanciados das reais
Em diálogos na sociedade profissional dos arquitetos e urbanistas
necessidades sociais do país em ações com viés corporativo.
alguns conceitos e opiniões se repetem como verdades absolutas, ainda
Há que se reconhecer uma crise mais disciplinar que profissional já
que não se sustente no todo ou em parte após análise mais aprofundada.
apontada há bom tempo2 que se traduz em problemas relacionados mais
Ouve-se que há proliferação de cursos de arquitetura e urbanismo no
à qualidade que a quantidade. A ABEA em seus quase quarenta anos de
Brasil, que a qualidade da arquitetura da arquitetura brasileira é cada vez
existência não tem adotado uma política restritiva a abertura de novos
mais baixa, que escolas formam profissionais cada vez piores e que há
profissionais em excesso no mercado, tudo contribuindo para um quadro 1. SINAES é o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior que tem por objetivo legal analisar instituições,
cursos e desempenho dos estudantes através de um processo de avaliação que leva em consideração aspectos como
de crise profissional. ensino, pesquisa, extensão, responsabilidade social, gestão da instituição e corpo docente.
2. Em 1984 o professor Edgard Graeff já apontava que “o exercício da arquitetura e urbanismo atravessa hoje no Brasil
uma crise de amplitude sem precedentes, fruto da convergência de fatores estruturais e conjunturais” (GRAEFF, 1985).
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cursos, mas tampouco os apoia indiscriminadamente. Sua política tem e a casa que ele construiu cai e fere de morte o proprietário, esse
sido sim de congregar agentes interessados - professores, estudantes, arquiteto deverá ser morto.
profissionais e a própria sociedade – em busca de melhor distribuição 230º - Se fere de morte o filho do proprietário, deverá ser morto o
geográfica e social de cursos e profissionais e por patamares o mais filho do arquiteto.
elevado na qualidade do ensino. No entanto, no período recente o número 231º - Se mata um escravo do proprietário ele deverá dar ao
de cursos se tornou tão expressivo (já são mais de 270 distribuídos proprietário da casa escravo por escravo.
desigualmente no país) que o atual sistema de avaliação e controle tem 232º - Se destrói bens, deverá indenizar tudo que destruiu e porque
se mostrado insuficiente e incompetente para cumprir seu papel. não executou solidamente a casa por ele construída, assim que
essa é abatida, ele deverá refazer à sua custa a casa abatida.
E, se por um lado a sociedade brasileira demanda cada vez mais a
233º - Se um arquiteto constrói para alguém uma casa e não a leva
participação do arquiteto e urbanista na resolução de seus problemas de ao fim, se as paredes são viciosas, o arquiteto deverá à sua custa
espaço habitável, por outro a própria sociedade e os profissionais não consolidar as paredes.
encontraram ainda dispositivos que propiciem os benefícios da atuação Ao mesmo tempo o Código em seu artigo 228 estabelece a
do arquiteto a totalidade da população. Mesmo que, desde 2008, exista remuneração a que o arquiteto faz jus por seu trabalho, constituindo o
uma lei que assegure “às famílias de baixa renda assistência técnica que deve ter sido não somente a primeira legislação profissional, dos
pública e gratuita para o projeto e a construção de habitação de interesse
artigos anteriores, como também a primeira tabela de honorários:
social” (Lei 11.888/2008).
228º - Se um arquiteto constrói uma casa para alguém e a leva a
Com o crescimento das cidades e o agravamento das condições de
execução, deverá receber em paga dois siclos, por cada sar de
moradia, saneamento, transporte, etc., além das demandas por espaço
superfície edificada.
apropriado nas áreas de saúde, educação, cultura e lazer, a sociedade
Interessante observar que a severidade draconiana na aplicação da lei
reconhece a importância e necessidade da atuação do arquiteto e
de talião se aplicava também a outras duas profissões: o cirurgião
urbanista, mas nem sempre pode alcança-lo. Ao se falar em saturação
negligente deveria sofrer a amputação de uma das mãos e o advogado
do mercado, é preciso distinguir o tipo de mercado: aquele do arquiteto
de defesa que por sua torpeza deveria ter amputada sua língua. Fica
projetista autônomo que atendia somente as camadas elevadas da
claro que as penas aplicadas aos arquitetos eram as mais severas,
população, típico do século XX, contrapondo-o ao profissional pronto a
demonstrando a preocupação daquela sociedade com o efeito de sua
contribuir na solução dos problemas espaciais das aglomerações
atuação profissional.
urbanas nas diferentes escalas e características. Um arquiteto que sem
deixar de atender o cliente privado possa atender as demandas de toda
II. ENSINO E REGULAMENTAÇÃO PROFISSIONAL
a sociedade. Nesta forma de atendimento mais amplo é que não somente
A profissão é regulamentada em nosso país desde 1933 através
os cursos, mas também o recém-implantado Conselho de Arquitetura e
inicialmente do Decreto nº 23.569 com a engenharia e agrimensura e
Urbanismo deve focar sua ação. Necessário observar que o exercício
posteriormente da lei 5.194/1966 com engenharia e agronomia. Depois
privativo da arquitetura, sua regulamentação e a exigência do diploma de
de árdua e longa luta os arquitetos e urbanistas organizados através de
curso superior foram exigências impostas de longa data pela sociedade
suas entidades no Colégio Brasileiro de Arquitetos – CBA alcançaram a
em relação aos arquitetos, e não o contrário. O exercício privativo a
almejada legislação própria, a lei 12.378/2010 que regulamenta o exercício
determinada formação é requerido para aquelas áreas em que
da Arquitetura e Urbanismo e cria o Conselho de Arquitetura e Urbanismo
conhecimentos especializados técnico-científicos são imprescindíveis,
do Brasil - CAU. Um dos principais aspectos desta lei é definição clara
e sua falta acentua os riscos quanto a garantia da incolumidade do meio
das atividades e atribuições. Ademais ela deixa claro o caráter nacional
ambiente, dos bens e da vida dos usuários.
da habilitação profissional que pode ser exercida em qualquer parte do
Sempre é bom lembrar o Código de Hamurabi que em seus artigos
país, a exigência do diploma de curso superior em curso reconhecido
229 a 233 estabelece, segundo o preceito de olho por olho dente por
pelo Estado como prova de aquisição de conhecimentos especializados
dente então vigente e em nome da sociedade, condições de competência
que garantam a integridade humana, patrimonial e ambiental. Isto tudo
e habilidade necessárias ao exercício profissional. somado determina a prerrogativa do exercício profissional privativo que
229º - Se um arquiteto constrói para alguém e não o faz solidamente não deve ser entendido como reserva de mercado, mas sim garantia de
incolumidade a sociedade.
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Diante da determinação (ou reafirmação, de maneira própria) pela nova representados. Teoria, por outro lado, é a habilidade de demonstrar
lei da responsabilidade dos arquitetos e urbanistas, convém lembrar e explicar aquela hábil produção feita segundo os princípios das
que a necessidade de habitar é permanente, e provavelmente por isso a proporções. Segue-se, portanto, que aqueles arquitetos que se
arquitetura jamais conheceu períodos de paralizações (MEIRA, apud, esforçaram em adquirir habilidades práticas ou manuais sem uma
MARAGNO, 1999). Assim, com a nova lei temos apenas a caracterização adequada preparação teórica nunca se tornaram capazes de atingir
de um novo momento no país de uma velha caminhada da profissão no posições de autoridade correspondente a seus esforços, enquanto
mundo, sendo que sua história serve para reafirmar as características aqueles que se apoiaram apenas em teorias e na erudição
que ao longo de milênios marcaram o trabalho dos arquitetos e urbanistas estiveram obviamente caçando sombras sem atinar com a
(...) constatados no acervo edificado e no desenho das cidades (CONFEA, substância de seu ofício. Mas aqueles que conseguiram um
1998). Diante dos novos e agigantados desafios oferecidos aos arquitetos completo domínio da teoria e da prática, como homens guarnecidos
e urbanistas na atualidade, é preciso observar que princípios, que valores, por todos os lados rapidamente atingiram seus objetivos e
que comportamentos e que caminhos somos chamados a esposar. detiveram consigo a autoridade de seu ofício. (Vitruvius, 1960)
Responsabilizar-se significa casar com algo. Assim, ao se falar de Se observarmos os ordenamentos legais dos dois “mundos”,
responsabilidade dos arquitetos estamos nos referindo a que tipo de acadêmico e profissional, verificamos que estão inter-relacionados em
contrato o arquiteto deve assumir em nossos dias diante de sua própria muitos pontos, mais do que alguns poderiam supor ou mesmo desejar.
consciência e da sociedade (CORREA, 1999). A Constituição estabelece em seu artigo 5º que é livre o exercício de
Observado mais uma vez a história, pode-se reconhecer diferentes qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações
status assumidos pelos arquitetos em diferentes períodos: o arquiteto- profissionais que a lei estabelecer. No caso da arquitetura e urbanismo
sacerdote da antiguidade, o arquiteto-filósofo da Grécia antiga, o arquiteto as qualificações requeridas pela lei estão presentes no art. 3º da 12.378/
orgulhoso do império romano, o arquiteto-operário medieval, o arquiteto- 2010:
mediador do renascimento, o arquiteto do estado na revolução industrial Os campos da atuação profissional para o exercício da arquitetura e
e o arquiteto liberal do século XX (BRANDÃO, 2005) o mais emblemático urbanismo são definidos a partir das diretrizes curriculares nacionais
da prática profissional em nosso país. que dispõem sobre a formação do profissional arquiteto e urbanista
Essa preleção evidencia a questão que se nos coloca: Quem será o nas quais os núcleos de conhecimentos de fundamentação e de
arquiteto do século XXI no mundo e especialmente no Brasil? Em que conhecimentos profissionais caracterizam a unidade de atuação
bases e profundidade se darão nossas contribuições? Até que ponto profissional.
continuaremos sob a égide do trinômio vitruviano - utilitas, firmitas e
Por sua vez, o art. 5º trata da condição exclusiva para uso do título de
venustas -, talvez transformado em quadrinômio, como defendem alguns
arquiteto e urbanista (privilégio do exercício privativo da profissão) que é
adicionando, acrescentando o lugar? Ou encontraremos novas bases de
o registro no CAU, enquanto o art. 6º define os dois únicos requisitos para
sustentação para o nosso trabalho?
o registro: I- a capacidade civil e; e II- diploma de graduação em arquitetura
Para profissionais do chamado mercado a universidade vem formando
e urbanismo, obtido em instituição de ensino superior oficialmente
arquitetos afastados da realidade, mais relacionados à teoria e a filosofia
reconhecida pelo poder público. Assim está estabelecido o vínculo de
que a práxis projetual. Para professores e pesquisadores o mercado
subordinação do exercício profissional privativo à formação acadêmica
apresenta uma visão limitada, distorcida e distante das necessidades
específica contemplada pelas diretrizes curriculares.
dos grupos sociais e das características disciplinares. Persistiremos na
manutenção antagônica de dois mundos afeitos a nossa prática, o Por outro lado, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional
acadêmico e o profissional, unido como gêmeos xifópagos pelas costas, (LDB - Lei 9394/1996) em seu art. Art. 43 estabelece que a educação
cada um vislumbrando realidades sob olhar diverso? A resposta ainda superior tem por finalidade formar diplomados nas diferentes áreas de
parece estar no velho Vitrúvius quando trata da educação do arquiteto: conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para
Prática é o exercício contínuo e regular de atividades em que a participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar
trabalhos concretos são feitos com quaisquer materiais na sua formação contínua.
necessários e de acordo com os projetos devidamente
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Finalidade que é reforçada pelas Diretrizes Curriculares Nacionais de


Arquitetura e Urbanismo (Res. CNE 02/2010, reafirmando Res. CNE 06/ III. DIRETRIZES CURRICULARES E PROJETOS PEDAGÓGICOS
2006 e Port. MEC 1.770/1994) em seu art. 4º ao afirmar que o curso de As diretrizes curriculares constituem o instrumento fundamental a ser
Arquitetura e Urbanismo deverá ensejar condições para que o futuro observado na elaboração e diferenciação do projeto pedagógico e este,
egresso tenha como perfil sólida formação de profissional generalista3. por sua vez, o instrumento primordial para obtenção e posterior controle
As diretrizes não se referem a pesquisadores ou acadêmicos e sim a da qualidade de ensino, devendo servir de ponto de partida nas avaliações
profissionais de com privilégio de exercício privativo estabelecido em lei, das condições de ensino. Os projetos pedagógicos devem contemplar a
instituindo, portanto, o vínculo de subordinação da formação acadêmica organização dos cursos através de um conjunto de componentes
ao exercício profissional, além de evidenciar que não existem curriculares compostos, segundo a Res. 02/2010, do próprio projeto
modalidades na arquitetura e urbanismo: ela é generalista. pedagógico, da descrição de competências, habilidades e perfil do futuro
Além do já exposto, as Diretrizes elucidam que os conteúdos do curso profissional, dos conteúdos curriculares, do estágio, do acompanhamento
de graduação deve distribuir-se em dois núcleos: e avaliação do aluno, das atividades complementares e do trabalho de
I. de Conhecimentos de Fundamentação, composto por campos do curso.
saber que forneçam o embasamento teórico necessário para que o a. Os Projetos Pedagógicos
futuro profissional possa desenvolver seu aprendizado; e Além do já exposto, eles devem descrever as características do curso
II. de Conhecimentos Profissionais, composto por campos de saber
destinados à caracterização da identidade profissional do
que demonstrem as particularidades do ensino da instituição antecipando
egresso, constituído por Teoria e História da Arquitetura, do tanto quanto possível o perfil do profissional que pretende formar além
Urbanismo e do Paisagismo; Projeto de Arquitetura, de Urbanismo e das condições para um ensino de qualidade satisfatória. Os projetos
de Paisagismo; Planejamento Urbano e Regional; Tecnologia da pedagógicos devem ser resultado de amplo debate e de construção
Construção; Sistemas Estruturais; Conforto Ambiental; Técnicas coletiva devendo ser conhecido e apropriado por todos os agentes,
Retrospectivas; Informática Aplicada à Arquitetura e Urbanismo; direção, professores e alunos, balizando todas as ações do curso.
Topografia. Existem no país inúmeros projetos pedagógicos consistentes e
Finalmente há o Trabalho de Curso (anteriormente denominado criativos, porém não é o que ocorre em parte considerável dos cursos.
Trabalho Final de Graduação)4 que deve estar centrado em determinada Em muitos ele não passa de documento forma e burocrático para atender
área teórico-prática ou de formação profissional como atividade de síntese as exigências oficiais de oferta, muitas vezes elaborado individualmente
e integração de conhecimento e consolidação das técnicas de pesquisa. ou por equipe restrita entre quatro paredes. E mesmo assim – ou talvez
Ainda que esteja expressa a necessidade de centrá-lo em área teório- por isso – muitos são desrespeitados ou ignorados no cotidiano dos
prática ou de formação profissional, a ABEA já discutiu e reconheceu que cursos quando o que vale é o currículo invisível praticado por professores
a redação contemplada pela Portaria 1.770 era mais explicita e apropriada acomodados que independentemente de modificações e novos rumos
ao estabelecer que o Trabalho Final de Graduação objetivava avaliar as que se pretenda incluir nos currículos repetem ano a pós ano suas velhas
condições de qualificação do formando para acesso ao exercício práticas. Em ouro extremo há projetos pedagógicos que se pretendem
profissional. Este objetivo demonstrava atendimento em mais ampla tão inovadores ou revolucionários que no afã da diferenciação deixam de
plenitude às inter-relações entre LDB, Diretrizes e legislação profissional, atender aspectos essenciais para garantir um profissional com
porém a redação foi negada pelo Conselho Nacional de Educação que habilidades e conteúdos suficientes para receber as atribuições
considerou que ela extrapolava o âmbito acadêmico em desacordo, profissionais com alcance nacional previstas na lei e almejadas pela
segundo eles, aos preceitos de flexibilidade da LDB. sociedade.
Cada curso deve conter elementos referenciais que o caracterizem e
balizem a escolha por parte de candidatos, elementos que subsidiarão
posteriormente sua própria avaliação, interna e externa. Estes elementos
contemplam as três dimensões básicas de um curso: o próprio projeto
4 Consideramos que Trabalho de Curso é muito genérico, pois todos os trabalhos são de curso e há um diferenciado, pedagógico, o corpo docente e a infraestrutura para sua oferta.
o último que é o Trabalho de Conclusão do Curso.abrangendo o urbanismo, a edificação, o paisagismo, bem como a
conservação e a valorização do patrimônio construído, a proteção do equilíbrio do ambiente natural e a utili
zação racional dos recursos disponíveis. (Art. 3º, § 1º), abordando não somente o objeto (concepção, organização e
construção do espaço...), mas também os usuários (indivíduos, grupos sociais e comunidades).
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b. Corpo Docente organizar os espaços, em alguns casos são oferecidos em espaços


O sistema educacional brasileiro busca garantir que o corpo docente improvisados e desprovidos de condições satisfatórias para o
tenha compromisso com o tripé do ensino universitário: ensino, pesquisa atendimento das atividades pedagógicas do curso. Alguns cursos mantém
e extensão, buscando que o vínculo dos professores vá além dos limites o espaço de laboratórios, mas sem equipamentos adequados ou já
restritos dos horários de aula das disciplinas. Na prática surgem dois obsoletos. Outros, melhor aparelhados estão à disposição quase
problemas. Por um lado partes das instituições privadas preocupadas exclusiva de programas de pós-graduação pouco servindo ao cotidiano
excessivamente com questões financeiras em detrimento das da relação ensino-aprendizagem na graduação.
pedagógicas atendem minimamente o exigido para regimes de Em que pese se encontre cursos com espaços, mobiliários e
contratação e titulação e, não raramente, um atendimento cíclico que equipamentos adequados, muito há que se melhorar em relação ao
acompanha os períodos de avaliação modificando-se radicalmente, para conforto ambiental, acesso universal, atendimento às condições
pior, nos intervalos após autorizações, reconhecimentos ou renovações. específicas do curso, etc. Faltam salas, inclusive para uso no
Assim professores com maior ou menor titulação são contratados ou desenvolvimento de tarefas fora do horário de aulas, falta mobiliário
dispensados de acordo com o ciclo avaliativo. Não é prática geral, mas a adequado, acesso a rede e internet, etc. Além disto, há ausência de
incidência compromete o conjunto. espaço para exposição, para encontro, para debate e mesmo que possam
Nas instituições públicas vem ocorrendo um fenômeno diverso acompanhar o dinamismo requerido para a prática do atelier de projeto,
resultado da restrição na contratação de professores com jornadas de que deve funcionar como um laboratório vivo para investigação de
quarenta horas com dedicação exclusiva e com titulação mínima de mestre soluções e alternativas.
ou doutor. As duas condições a princípio favoráveis quanto a qualidade d. Cargas Horárias
de ensino, terminam por afastar mais que o desejável o corpo docente da
A carga horária mínima para oferecimento dos cursos no Brasil é de
realidade do mercado. É desejável professores com tempo de dedicação
3.600 horas5 que deve ser ocupadas por aulas teóricas, conferências,
que extrapolem as atividades restritas das aulas, como já se disse, mas,
produção em ateliê e laboratórios, viagens de estudos, visitas a obras e
no caso da arquitetura e urbanismo e áreas como direito, medicina, etc.
conjuntos, participação em pesquisas e atividades extracurriculares e
onde se ensina mais que uma ciência um ofício, ao se restringir quase
estágio curricular supervisionado. Sendo que este último e as atividades
na totalidade do corpo docente a prática do oficio que ele está ensinando,
complementares podem ocupar um máximo de 20% da carga horária
resulta em um afastamento indesejável da realidade profissional. Como
total.
proclamava o professor Eduardo Kneese de Melo em antigos eventos da
Conteúdos e habilidades específicos, que contemplem aspectos
ABEA, o curso ideal deve contar com professores com dedicação
regionais culturais, climáticos, entre outros, bem como que contemplem
diversificada: o arquiteto puro, o arquiteto-professor, o professor arquiteto
abordagens multi ou interdisciplinares que contribuam não somente com
e o professor puro. Tanto o profissional do mercado trazendo sua
o futuro profissional mas também com a formação do cidadão, são
experiência quanto o pesquisador buscando novos caminhos e soluções
desejáveis e benvindos. Porém, estes conteúdos não podem ser
e, no intermédio, professores e profissionais com diferenciado
oferecidos em detrimento dos conteúdos e habilidades essenciais
envolvimento proporcionando dinamismo e diversidade de abordagem
estabelecidos pelas diretrizes. Infelizmente, não é o que tem acontecido
aos cursos.
em algumas instituições, principalmente naquelas que tem adotado a
Ao exigir um mínimo de mestres e doutores, a legislação educacional
carga horária mínima como teto, que não são poucas.
visa sua qualificação e prática de pesquisa. Porém o sistema brasileiro
A carga horária média dos cursos brasileiros é de 4.012 horas (4.268h
de pós-graduação não supre uma necessidade fundamental: formação
nas instituições públicas e 3.968h nas instituições privadas). Em junho
didática e pedagógica. Evidente que os mestres e doutores trazem massa
de 2012 havia um total de 69 cursos (25% do total) oferecendo a carga
crítica e potencializando a discussão e fundamentação teórica nas
horária mínima de 3.600h. Ao mesmo tempo 5 cursos6 ofereciam carga
atividades dos cursos, mas não garantem por si só a qualidade
horária acima de 5.000h, com aproximadamente 44% a mais que os
pedagógica em sala de aula.
cursos com a mínima.
c. Infraestrutura
A infraestrutura tem sido um dos pontos mais sensível na oferta de 5. Resolução CNE 02/2007.
ensino de qualidade. Em um curso que pretende ensinar a arte de 6. Os cinco cursos com carga horária mais elevada em junho de 2012: UNITAU 5508, USP/SP 5490, USP/SC 5415,
USJT 5400 e PUC-CAMP 5202.
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Ainda que a carga horária não possa ser considerada um indicativo As informações disponibilizadas pelo INEP, inclusive os resultados do
absoluto de qualidade de ensino - tão importante quanto o tempo em si é Censo da Educação Superior constituem importante material que pode
o uso que se faz dele - ela não deixa de indicar o compromisso dos subsidiar pesquisas sobre as condições de oferta dos cursos de
cursos com a seriedade e com a qualidade. Seu comprometimento em arquitetura e urbanismo, principalmente se associados a dados do
outras atividades que não as essenciais, quando não apropriadamente Sistema de Informação e Comunicação do Conselho de Arquiteto e
justificado evidencia impropriedades dos projetos pedagógicos Urbanismo – SICCAU seja em relação aos profissionais e também
demonstrando insuficiência na abordagem de conteúdos e habilidades confirmando dados dos cursos quando de seu cadastro no CAU. Os
essenciais ao arquiteto e urbanista. primeiros dados que começam a ser produzidos e disponibilizados pela
Há cursos substituindo exageradamente a carga horaria essencial por Comissão de Educação e Exercício Profissional já permitem ampliar
conteúdos acessórios e, em alguns casos, por práticas que demonstram consideravelmente as possibilidades de análises e segurança. Estes
a intenção única de barateamento de custo com a redução de encargos dados já permitem confirmar ou contradizer algumas falas do senso
dos professores, o que precisa ser coibido. Há instituições com a oferta comum repetidas em reuniões profissionais, além de apontar novos
demais de uma dezena de cursos em distintos pontos do território com a caminhos a percorrer.
mesma e mínima carga horaria nominal de 3.600h. Além disto, há o tema Os dados já disponíveis já proporcionam algumas considerações em
da dicotomia entre hora/aula e hora/relógio, sendo que o CNE já deixou relação à expansão do número de cursos. Esta expansão não deve ser
claro que o que conta é a hora/relógio. Assim, um curso que nominalmente analisada com a frieza dos números, mas sim contratadas com outras
disponha de 3.600h porém suas aulas sejam de 50minutos ao invés de variáveis, como crescimento populacional urbano, produto interno bruto,
60minutos, está oferecendo na verdade 3.000horas. O fator de conversão isolamento e distanciamento geográfica, etc. Desde os anos 1990 vimos
neste caso é de 0,833. nos eventos da ABEA, com as limitações impostas pela disponibilidade
Em comparação com a carga horária exigida em outros países a do de dados e de material humano, elaborando o que chamamos de
Brasil é superior a da Alemanha, e inferior ou semelhante a muitos outros. Panorama dos Cursos de Arquitetura e Urbanismo no Brasil. Ao simples
Cada sistema universitário considera diferentes atividades acadêmicas total geral inicial, podemos agora distinguir a criação de cursos quanto
no computo geral, sendo por isso mero referencial que demanda análise ao caráter público e privado e observar o crescimento de cada grupo
mais cuidadosa. A título de exemplo, a Alemanha exige um mínimo de desde 1930, década da regulamentação da profissão no Brasil.
3.190h em cinco anos de curso seguido por um estágio obrigatório de Três cursos (UFRJ, USP e Mackenzie) permanecem como únicos por
dois anos, enquanto a França exige 4.070h em seis anos sem mais de duas décadas. Os anos 1940 demonstram um crescimento dos
necessidade de estágio posterior. Na Grã-Bretanha a carga horária cursos públicos e uma estabilização até a década de 1970 quando há a
mínima é de 6.000h em cinco anos com o curso baseado na prática primeira leva de criação de cursos privados.
desenvolvida nos atelieres e seguida. Na Itália, um dos países com maior Se os anos 1980 evidenciam uma estabilização (será fruto da crise
número de arquitetos por habitantes, a carga horária total chega a 7.500h econômica?), os anos 1990 marcam o início de uma curva ascendente
incluindo práticas extraclasses, enquanto Holanda e Bélgica exigem que persiste até os dias atuais com acentuação ainda maior a partir de
4.200h, em Portugal o mínimo é de 4.125 horas no Porto e 4.400h em 2005 aproximadamente.
Lisboa, e na Espanha varia entre 3.750h em Barcelona e 4.500 em Madrid. O gráfico com crescimento percentual por década em relação a anterior
(ESPAÑA, 2005). permite visualizar de outra maneira, observando-se que o crescimento
maior do número de cursos privados se deu nos anos 1960-70 e seguiu
IV. PANORAMA DA OFERTA DE CURSOS NO BRASIL alto, porém com menor percentual, volta a crescer significativa e
Em junho de 2012 existiam no Brasil 270 cursos de graduação em expressivamente no recente período dos anos 1990-2000. Enquanto isso,
arquitetura e urbanismo, maioria já implantada e bom número em o crescimento do número de cursos públicos praticamente alterna
implantação, ou seja, ainda não formaram a primeira turma de décadas de crescimento com estagnação.
profissionais. Do total, 19% são de instituições públicas (federal, estadual
ou municipal) e 81% de instituições privadas.
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Figura 2. Gráfico Comparativo de Crescimento da População e do Número de Cursos de Arquitetura e


Urbanismo no Brasil.

É possível comparar a relação arquiteto/população no Brasil com a


mesma relação em outros países, verificando que atualmente com
aproximadamente 2.370 hab/arq, segundo dados do IBGE (2010) e do
CAU/BR (2012), estamos nos igualando ao índice médio dos países
mais desenvolvidos, em torno de 2.200 habitantes por arquiteto7. Quanto
maior o índice há menor oferta de arquitetos para a população. Na
distribuição regional observamos que sete unidades da federação
apresentam índices mais elevados: enquanto o Distrito Federal apresenta
o índice mais baixo (1.141hab/arq), o Maranhão apresenta o mais elevado
(12.620hab/arq) denotando falta de arquitetos e urbanistas que pode ser
justificada pela baixa renda per capita e consequente falta de acesso ao
serviço dos arquitetos.
Também é possível observar a relação população/curso. Considerando
que os estados originários dos antigos territórios foram os últimos a
Figura 1. Gráficos de Crescimento Absoluto e Percentual dos Cursos de Arq. e Urb. no Brasil. ofereceram cursos de arquitetura e urbanismo, em alguns casos a oferta
Da mesma forma, o gráfico comparativo entre o crescimento da passou a ser exagerada. É o caso do Amapá que conta atualmente com
população, especialmente a urbana, e de cursos indica, que até os anos três cursos e um índice 223.375hab/curso, acima de Santa Catarina,
1990 os cursos – e consequentemente os arquitetos por eles formados segundo colocado com 23 cursos e que apresenta um índice de
– cresceram menos que a população urbana, ou seja, muitas cidades 271.671hab/curso enquanto o Pará, com apenas dois cursos tem um
passaram a apresentar déficit de cursos e arquitetos. índice de 3.790.526hab/curso.

7. Relação habitante/arquiteto de alguns países:


Argentina 508, Italia 794, Portugal 925, Espanha 1412, Alemanha 1698, Chile 1916, Grã-Bretanha 2043, Austrália
2264, França 2420 e Estados Unidos 2807. Fonte: UIA, 2011.
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A relação arquitete/curso também pode oferecer dados interessantes A responsabilidade pela formação é das instituições de ensino e o
que implica na disponibilidade professores em quantidade suficientes diploma o qualifica para o exercício profissional obtido após o registro no
para ensinar nos cursos existentes. Enquanto São Paulo com 74 cursos Conselho. Portanto, as avaliações dos estudantes NOS cursos ao longo
apresenta uma grande disponibilidade de arquitetos por curso (645), de todo o percurso acadêmico e principalmente no trabalho de conclusão
Acre, Roraima, Amapá e Rondônia apresentam índices que variam entre de curso tem importância capital para a o oferecimento de profissionais
48 e 59 arq/curso, o que pode significar dificuldade em encontrar de qualidade à sociedade. Da mesma forma a avaliação DOS cursos
professores no mercado local para atender a demanda dos cursos já para que ofereçam qualidade de ensino pelo menos em patamares
existentes. mínimos e que, ao mesmo tempo, estejam avaliando cuidadosa e
Dados que começam a ser produzidos pelo CAU/BR, como do alcance responsavelmente seus estudantes é papel fundamental do Estado na
geográfico dos cursos já existentes, podem servir de indicativos para a garantia de oferecimento de profissionais competentes.
política de abertura de novos cursos, oferta de vagas, e também em Pouco se tem discutido sobre a avaliação acadêmica NOS cursos. Não
relação a aspectos a serem observados com maior atenção nas raro observa-se um indesejável “jogo de empurra”. Professores das
avaliações de curso. primeiras séries apostando que nas séries subsequentes os estudantes
adquirirão os conteúdos e habilidades que ainda não demonstram em
suas disciplinas, enquanto os professores das séries finais considerando
que se nas disciplinas anteriores eles não atingiram o patamar, não
deverá ser ele o responsável por isto. Da mesma forma nas bancas de
trabalho final de curso considera-se que se o estudante já chegou até ali
é porque está preparado e merece a aprovação, olvidando o
comprometimento na responsabilidade social que esta sua omissão
representa.
Na ABEA sempre defendemos que o trabalho de conclusão de curso
corresponde ao exame de qualificação e que pode mesmo ser o produto
a ser avaliado quanto a qualidade do ensino oferecida pelos cursos em
lugar dos provões e “enades” existentes. Porém isto exige elevada taxa
de profundidade e seriedade no processo de avaliação.

a. A Crise do Sistema de Avaliação


A avaliação DOS cursos anteriormente se baseava principalmente nos
dados recolhidos pela visita in loco de três avaliadores, todos com amplo
conhecimento das diretrizes curriculares e exigências da área,
comprometidos com o aprimoramento do ensino e designados pelas
antigas comissões de especialistas. No caso da arquitetura e urbanismo
Figura 3. Concentração e Sobreposição de Cursos de Arquitetura e Urbanismo da CEAU. Com a transferência desta incumbência da SESu para o INEP
no Brasil. no final dos anos 1990, as Comissões foram extintas ou modificadas
quanto a seus objetivos. A avaliação passou a ser feita através da análise
V. QUALIDADE E AVALIAÇÃO DO ENSINO E SEU CONTROLE
prévia de documentos e posterior visita in loco de apenas dois avaliadores
O crescimento das cidades implica em maior demanda social pela
selecionados do banco de avaliadores do MEC após livre inscrição. Se é
atuação dos arquitetos e urbanistas, enquanto o aumento de renda da
verdade que por um lado este procedimento democratizou e deu
população significa um aumento do mercado de trabalho para os
transparência ao corpo de avaliadores, por outro também é verdade que
profissionais. Estes fatos em conjunto colocam em evidencia e aumentam
passou a contar com avaliadores com menor domínio das diretrizes
a exigência em relação à adequada qualificação profissional dos
curriculares e menor envolvimento com as discussões e eventos da área
arquitetos e urbanistas.
sobre a qualidade do ensino.
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“... o que queremos ressaltar é exatamente o lugar preciso do sujeito


PRESSUPOSTOS NA CONSTRUÇÃO DE nesse processo, enfatizando a maneira como ele assimilou, durante
UMA REDE MERCOSUL DE ESCOLAS DE diferentes processos de socialização, determinados princípios e valores
e como isto faz com que ele se posicione diante do mundo, em função de
ARQUITETURA uma racionalidade que parte de dentro dele, que se inspira no que ele
vivenciou e que dá espaço, pois, à subjetividade”. (Silva, 2001: p. 203)
Corcuff (apud Silva, 2001: p.199), fala sobretudo de agentes, para indicar
Adalberto R. HECK 1 que estes são levados a agir, do interior e do exterior, assim como agem
Mestre, Universidade do Vale do Rio dos Sinos livremente”. Desta reflexão resulta preservada a autonomia relativa dos
heck@unisinos.br agentes em relação ao campo em que estão inseridos bem como em
relação ao habitus2 que os conformou. Incorporando a prática à discussão
RESUMO teórica. Diante da impossibilidade da aceitação tácita do dito certo como
Neste ensaio é feita uma abordagem sobre pressupostos a adotar na sendo a verdade, cabe ponderar que as estruturas cognitivas, longe de
construção de redes de escolas de arquitetura, tomando como exemplo serem absolutas, estabelecem relações com estruturas objetivas onde
a rede ARCU-SUR, de Escolas Acreditadas no MERCOSUL, a partir da a capacidade individual de entendimento do ser humano está associada
aceitação de que os sujeitos envolvidos devem trabalhar para a a sua condição de ser social. Os possíveis lhe são determinados por sua
construção de um processo que considere suas especificidades e pontos participação em relação aos mecanismos distributivos aproximando-se
em comum, em um projeto de ensino, norteado pela visão de um futuro assim da condição de prováveis.
sustentável, na produção das cidades e da arquitetura do século XXI. Assim, tanto a natureza dos conhecimentos, quanto seu modo de
Defende o processo de internacionalização do ensino da arquitetura, aquisição estabelecem as condições como seus agentes organizam sua
ancorado no reconhecimento dos determinantes estruturais, de caráter aprendizagem. O sistema de ensino produz estruturas mentais que são
políticos e ideológicos, culturais, socioeconômicos e étnicos dos países profundamente interiorizadas pelos atores sociais:
participantes. Reconhece as potencialidades decorrentes da troca de “Quanto mais estes esquemas intelectuais encontram-se incorporados
experiências e de vivências entre os participantes da rede em diálogo na mente dos professores e estudantes, tanto mais tendem a escapar a
entre cursos latino-americanos, tendo como meta central, enriquecer o um domínio consciente por parte desses”. (Bourdieu apud Martins, 1990:
processo de ensino de arquitetura e qualificar a construção curricular do p.69).
profissional arquiteto, egresso das universidades participantes, “As significações contidas na arquitetura institucional estão, portanto,
considerando os agentes envolvidos nestes movimentos. ligadas a um processo cognitivo que permite à sociedade compreendê-
las e relacioná-las às instituições nele materializadas”. (Moussatche,
PALAVRAS-CHAVE: Ensino da Arquitetura, Internacionalização, Alves-Mazzotti e Mazzotti, 2000: p.301). Na intensidade de sua utilização,
na capacidade de sua apropriação pelos usuários, situa-se a valorização
Acreditação.
do aprendizado, sendo construída sua imagem, positiva ou
negativamente, constituindo-se, logo, em representação social de seus
I - O lugar de onde se fala sujeitos, atribuindo-lhes identidade própria.
O espaço do ensino da arquitetura deve corresponder aos objetivos É importante ressaltar que diferentes grupos sociais concorrem para a
dos sujeitos envolvidos no processo de ensino, pesquisa e extensão. formação de redes nas escolas de Arquitetura, fato este que coloca em
Estes agentes alteram seus possíveis em decorrência de acúmulos e de xeque a noção abstrata de comunidade como sendo uma síntese
movimentos de aquisição de novas posições no contexto social onde harmoniosa de interesses, conjunto de indivíduos com características
estão inseridos. O conhecimento e a capacitação profissionais decorrem homogêneas. Segundo Boterf (1984: p.55), o termo comunidade “oculta
da sua prática, ancorada em um acervo que lhe é peculiar e que lhe o próprio fato da diferenciação interna (...) mascara os interesses opostos
instrumentaliza em suas ações.
2. Adota-se a noção de habitus, amplamente abordada por Bourdieu em sua produção intelectual, entendido como o
conjunto de disposições duráveis ou “estruturas estruturantes”, geradoras de práticas e representações que não se
1. Arquiteto e Urbanista, Professor, Coordenador Executivo do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade constituem em previsíveis e obedientes respostas segundo regras pré-estabelecidas, mas sim baseadas na
do Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo, Rio Grande do Sul. improvisação de seus produtores.
70 XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA 71
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que existem entre os grupos sociais porque estes ocupam posições difundidos no campo da arquitetura. A tendência de introdução de uma
diferentes...” linguagem arquitetônica única, dita internacional, participa do processo
A educação acontece na cidade, na casa, nos múltiplos locais de de quebra de identidade cultural dos povos, dentro de uma crescente
congrassamento e de interação entre sujeitos humanos e, portanto, globalização onde o individualismo prepondera em detrimento do coletivo,
aprendizes. Os paradigmas atuais de educação atribuem a esta teia de massificado e sem personalidade própria.
possibilidades de aprendizado a condição de formadora de cidadãos, A arquitetura oriunda da escola pode, em decorrência do
desconstituindo a função atribuída tradicionalmente à escola de desconhecimento dos valores de seus agentes, vir a contribuir para
transmissora de conteúdos e reprodutora dos conhecimentos e saberes assujeitá-los à hierarquia social que os situa como um nível inferior de
oficiais. O processo educativo não se dá de forma autônoma e desenvolvimento e consagra como ideal de futuro a reprodução da lógica
desvinculada da realidade social de seus agentes, mas sim inserido no a que estão submetidos. Nesta direção, a arquitetura, soma-se ao
conjunto de vivências expresso na cultura e na identidade dos mesmos. conjunto de mecanismos que concorrem para a perpetuação da ordem
Determinantes estruturais, de caráter político e ideológico, culturais (com dominante expressos na forma de valoração dos saberes fundada na
conteúdo simbólico e identitário), socioeconômicos, étnicos, concorrem consagração dos valores das classes melhor abonadas em capitais de
na estruturação do habitus dos agentes e perpassam a educação dos diversas ordens (cultural, político, simbólico, econômico...). A este respeito
cidadãos. pondera Bourdieu:
II - O ensino da arquitetura com o olhar no futuro “É provável por um efeito de inércia cultural que continuamos tomando
O ensino da arquitetura pode contribuir como processo de afirmação o sistema escolar como um fator de mobilidade social, segundo a
de um conjunto de representações materiais da comunidade universitária ideologia da “escola libertadora”, quando, ao contrário, tudo tende a
e profissional, impregnada de significados, traduzindo-se em discurso mostrar que ele é um dos fatores mais eficazes de conservação social,
de compreensão por vezes restrita a alguns dos agentes que se pois fornece a aparência de legitimidade às desigualdades sociais, e
relacionam no espaço. As representações são decorrentes do lugar de sanciona a herança cultural e o dom social tratado como dom natural”.
onde se observa, “... o ponto de vista é a partir de um ponto (...) o lugar (Bourdieu, 2001: p.41)
ocupado pelo agente no sistema de posições do campo exerce uma A educação deve assumir compromissos com a sociedade do futuro,
influência importante sobre suas percepções, apreciações e ações no pois trabalha com um horizonte temporal que se projeta mais além
interior do campo”.(Silva, 2001: p.195) considerando as mudanças significativas de nosso tempo.
Como linguagem, a arquitetura pode promover o esclarecimento ou “Se falar no compromisso do educador com a sociedade do futuro
configurar o processo de exclusão – Você não é daqui, esta não é a sua implica em elaborar uma representação mental figurada de algo ausente,
casa! – transformando-se assim em mecanismo de subordinação e cabe perguntar, como se constrói este conteúdo antecipativo? As
promotor do aculturamento de seus usuários. representações mantêm uma relação específica com o real, mas não se
Discurso de modernidade ou de desenvolvimento as políticas de ensino confundem com os objetos que representam”. (Werle, 1999: p.82).
da arquitetura não podem ser vistas fora do contexto onde foram gestadas. Tal assertiva traz em seu cerne a reflexão sobre os compromissos que
O Brasil enquanto economia periférica, em decorrência desta condição, devem nortear a política de ensino em escolas de arquitetura e lança
tem sua política fortemente influenciada pelas determinações centrais. uma saudável inquietude sobre os conceitos de educação.
Desta condição advém, em grande parte, a tendência a implantar políticas Diante desta ponderação, poder-se-ia pensar que a arquitetura e o
gerais e, portanto, desvinculadas das realidades regionais. E a arquitetura, urbanismo do século XXI, tendem a inserir-se no conjunto de ações
por consequência, apresenta-se por vezes como universal, impessoal e globalizadas e atentam para pressupostos de vanguardas internacionais.
inadequada ao ambiente onde está sendo implantada. A produção em Nesse sentido, é adotada neste ensaio a noção de educação para a
série e uniformizada, concorre para a desconstituição dos valores locais sustentabilidade que considera a produção do espaço em diferentes
e para a afirmação da importação de cultura e construção de um caminho escalas (desde o edifício até a cidade) e em diferentes abordagens
de mão única em direção à consolidação da dependência. (projeto, construção, as relações entre projeto e construção, impactos
Exemplificando esta afirmação, situo a tendência crescente em nosso com relação às práticas socioespaciais e o ambiente natural).
país da adoção de linguagens arquitetônicas exógenas, reprodutoras de Segundo John Motloch, a educação para a sustentabilidade deve
valores de mercado, muitas vezes estabelecidos como “moda” e preparar os futuros profissionais de arquitetura para, além de lidar com
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os desafios ambientais econômicos e sociais imediatos existentes em as possibilidades de preparação, tanto do corpo docente quanto do
cada contexto, saber intervir em sistemas variados de forma a criar alunado e, por consequência, dos egressos da universidade, uma vez
ambientes mais saudáveis ecológica, social e economicamente, após que as competências profissionais derivam do grau de apropriação das
feita a intervenção; aprender o desafio de fazer arquitetura e urbanismo inovações científicas e tecnológicas e dos debates e da investigação
considerando as leis da natureza e respeitando os limites locais e permanentes em torno da responsabilidade social da profissão,
regionais; entender a dinâmica de cada local de intervenção, juntamente extrapolando os limites de cada país. Este processo possibilita o
com a comunidade que o habita, buscando a solução mais sustentável crescimento recíproco dos atores envolvidos em intercâmbio, qualifica a
de intervenção para aquele contexto em questão, e, finalmente, aumentar atuação dos participantes no processo de ensino aprendizagem e valoriza
o capital social que possa intervir profissionalmente de maneira a a titulação oferecida pelos cursos, contribuindo como diferencial na busca
qualificar todo e qualquer ambiente construído. (Bruscatto, 2011: p.01). da excelência acadêmica e, por decorrência, apontando para a
O conceito do ambiental contempla a preservação de valores identitários sustentabilidade como resultado da própria formação do arquiteto.
e da diversidade cultural de seus produtores. Há que se incorporar às O movimento de Acreditação de cursos de Arquitetura e Urbanismo na
possibilidades da tecnologia e da inovação permanentes na produção região do Mercosul potencializa importante troca de experiências e a
de cidades e edifícios adequados às demandas do futuro, o acervo cultural discussão de métodos de ensino e da necessidade de adaptação dos
afirmativo dos valores de seus produtores. cursos de arquitetura à crescente preocupação com temas emergentes
III – O papel da internacionalização como estratégia de qualificação como a sustentabilidade do planeta.
E sob esta perspectiva, ao mesmo tempo universal e regional, que se A educação desempenha papel central para a construção de sociedades
afirma a oportunidade de que as escolas de Arquitetura integrem-se a sustentáveis, fato este amplamente difundido por diferentes organismos
redes de conhecimento, buscando parceiros com identidades e objetivos internacionais e, organizações não governamentais e destacado como
próximos, de modo a permitir, através da troca permanente de experiências base para a implementação de políticas públicas voltadas ao ambiente
e vivências, construir o ensino da Arquitetura e do Urbanismo, em natural e à possibilidade de um futuro para a humanidade em nosso
consonância com expectativas de futuro. Aí se situa a importância de planeta.
movimentos como o promovido pelo Mercosul de Acreditação de Cursos .Assim, no debate internacional, as expressões educação para a
de Arquitetura e Urbanismo, construindo uma rede em busca da excelência sustentabilidade ou educação para um futuro sustentável têm sido
do ensino, da pesquisa e da extensão, que oportunize a seus integrantes, recorrentes. Essa inflexão do discurso e da ação pode ser verificada em
reafirmar sua identidade latino-americana incorporando inovações e documentos relacionados ao programa Década das Nações Unidas para
processos globalmente desenvolvidos, ao lugar onde se produz a nossa a Educação para o Desenvolvimento Sustentável, que engloba o período
visão de mundo. de 2005 a 2014, e é promovida pela Organização das Nações Unidas
Assumindo que as escolas de arquitetura não são homogêneas na para a Educação, a Ciência e a Tecnologia - UNESCO (UNESCO, 2006).
construção dos saberes sobre a profissão da arquitetura, as redes A universidade é um agente importante e tem seu papel responsável na
internacionais, propiciam, através do diálogo entre diferentes visões, a educação para a sustentabilidade. A estrutura curricular dos cursos de
reflexão sobre as cidades que se pretende construir para as nações arquitetura deve contemplar o tema da sustentabilidade e a implantação
latino-americanas integrantes da rede ARCU-SUL. Tais redes do mesmo no âmbito geral dos cursos de arquitetura ainda não acontece
potencializam a produção de novos saberes questionando fatores com efetividade.
determinantes estruturais (de caráter social, econômico, político e Aspectos relacionados à inserção do projeto arquitetônico ao mundo
ideológico), fortalecendo simbolicamente enquanto identidade regional, dos usuários e calcados na possibilidade de valorização de sua cultura
preservando suas especificidades culturais e seus valores étnicos. remetem à investigação dos resultados, das suas possibilidades e
Antepõe-se à visão excludente e territorialista enquanto uma nova proposta potencialidades bem como de sua implantação. Entenda-se projeto
de integração entre nações construindo uma identidade coletiva expressa arquitetônico enquanto espaço amplo de relação e inserção urbana,
na aceitação de uma realidade comum e complementar entre nações suporte de possibilidades de aproveitamento de espaços tanto internos
unidas por contingências socioculturais e históricas em um cenário de quanto externos destinados a acolher as necessidades totais da
dependência em relação a países centrais. educação, envolvendo toda uma comunidade.
A Internacionalização é um movimento necessário no sentido de ampliar Conforme Schön, o espaço do aprendizado, deve reunir as condições
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necessárias para se constituir em “ateliê” de construção oportunizando novas investigações de interesse conjunto, nas áreas da educação e da
aos seus usuários a interação e a diversidade de possibilidades de sustentabilidade, bem como o fortalecimento de vínculos para a
fruição e aproveitamento de seus espaços de saberes e de investigação: mobilidade acadêmica.
professor e aluno, escola e comunidade, em processo reflexivo buscando Enquanto projeto, a Acreditação deve considerar, ao trabalhar com a
o real aprendizado apoiado na instrução. As escolas são projetadas na incerteza em relação ao futuro, a realidade dos países latinoamericanos
afirmação de que o espaço do aprendizado não é neutro, não se adapta participantes. seu momento no processo de desenvolvimento
a toda e qualquer realidade e identifica-se com os princípios que socioeconômico e ambiental, respeitando as especificidades de cada
nortearam a sua concepção. O processo de Acreditação eleva esta cultura e potencializando-se nos pontos de convergência de interesses
discussão, conferindo-lhe uma ampliação destes espaços e a interação na formação do Arquiteto. Este desafio precisa ser enfrentado com
de experiências no campo do ensino da arquitetura sustentadas na coragem proporcional à sua urgência no sentido de alavancar a excelência
realidade latino-americana, em suas potencialidades e especificidades, acadêmica das escolas de arquitetura dos países membros, capaz de
de modo a alavancar novas ações integradoras de ensino da arquitetura. reafirmar a importância do profissional arquiteto na construção da
“Não é através de soluções técnicas para os problemas que sociedade futura.
convertemos soluções problemáticas em problemas bem definidos; ao IV – Conclusões
contrário, é através da designação e da concepção que a solução técnica A boa arquitetura, bem como a educação, não ocorrem sem trocas e sem
de problemas torna-se possível”..( Schön,2000: p.8) diálogo. O processo de Acreditação, ao propor ações de intercâmbio entre
Em seu trabalho intitulado “Educando o Profissional Reflexivo”, defende países integrantes do Mercosul, poderá enriquecer, através da troca de
que um projeto arquitetônico envolve um elevado grau de incerteza quanto experiências, o ensino de arquitetura.
a seus requisitos, tem características que lhe conferem a singularidade e Direcionando o foco no ensino a partir da prática projetual e na
resulta de decisões projetuais que envolvem conflitos de valores, Aponta sustentabilidade busca discutir o ensino da arquitetura com o olhar nas
para a importância destas definições do arquiteto na afirmação ou na demandas futuras, oportunizando necessária discussão sobre métodos
negação de princípios do objeto projetado. Cita Nelson Goodman ao de ensino e investigando possibilidades de adaptação dos cursos de
afirmar: “A definição de um problema é um processo ontológico, uma arquitetura à crescente preocupação com o tema da sustentabilidade.
maneira de apresentar uma visão de mundo” (Goodman apud Schön, Neste sentido, a comunidade universitária é um agente importante e tem
2000:16). E, a racionalidade técnica está subordinada às definições e seu papel responsável na educação para a sustentabilidade. A estrutura
concepções do arquiteto quanto aos problemas que se propõe a enfrentar. curricular dos cursos de arquitetura deve contemplar o tema da
O ensino da Arquitetura está permeado por incertezas na busca da sustentabilidade e a implantação do mesmo no âmbito geral dos cursos
construção de algo novo. Algo novo que atenda às expectativas vindas do de arquitetura.
futuro e se ancore nas possibilidades do presente. Neste contexto é REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
necessário saber que recursos nos estão disponibilizados e identificar BOTERF, Guy Le. IN: BRANDÃO, Carlos Rodrigues (org.). Repensando a Pesquisa
tendências de desenvolvimento de nossas cidades e do meio ambiente. Participante. São Paulo: Brasiliense, 1984.
As fronteiras entre diferentes vertentes do conhecimento humano se BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. 4 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.
diluem e apontam para uma visão planetária do desenvolvimento em BRUSCATO, Underléa, HECK, Adalberto da Rocha, EDELWEISS, Roberta e BAUER,
busca de soluções eficientes e ambientalmente sustentáveis. Rosane M. V. Diálogos: o ensino de arquitetura a partir da prática projetual e a
O diálogo entre cursos latino-americanos tem como mote central arquitetura social sustentável. Resistência, Argentina: Ponencias XV Congresso
ARQUISUR, 2011.
enriquecer o processo de ensino de arquitetura dentro de cada
MARTINS, Carlos Benedito. A Pluralidade dos Mundos e das Condutas Sociais: A
universidade, através da troca de experiências3, explorando mudanças Contribuição de Bourdieu para a Sociologia da Educação. Brasília: Em Aberto, nº
desejáveis nos sistemas educacionais, como a inserção da revisão 46, 1990.
conceitual no processo de projeto e o ensino da sustentabilidade em MOTLOCH J. & PACHECO, P. Sustainability Through Knowledge-Sharing Across
todos os níveis do curso. Oferece como perspectiva a possibilidade de University, Public and Private Sectors, Proceedings, Greening of the Campus V
National Conference, BSU, 2003.
3. O Curso de Arquitetura e Urbanismo da UNISINOS participou, em 2010, do Programa MARCA - Mobilidade MOUSSATCCHE, Helena, ALVES-MAZZOTTI, Alda & MAZZOTTI, Tarso Bonilha.
Acadêmica Regional dos Cursos Acreditados no MERCOSUL. O intercâmbio ocorreu no segundo semestre com
as Universidades da República (Montevidéu), Nacional do Nordeste (Argentina), Católica de Santa Fé (Argentina) Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, V.81, n. 198, p.299-315, Brasília,
e Nacional de San Juan (Argentina), com excelentes resultados. 2000.
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c) A conceituação e prática projetual específica das condições de


PROJETO DE ARQUITETURA E Acessibilidade Total nas edificações e do Desenho Universal na
ACESSIBILIDADE – OUTRA FORMA DE composição dos espaços;
d) A inserção no meio urbano do projeto de edificação a partir da relação
ABORDAGEM DO PROJETO público/privado, com especial abordagem de Função e Estética.
ARQUITETÔNICO A questão da Acessibilidade para atender pessoas com necessidades
especiais é colocada neste semestre como temática para reflexão,
direcionando para a apreensão de seu conceito mais amplo e a sua
Antonio RODRIGUES NETTO incorporação à concepção do projeto.
Com a apresentação de um programa de necessidades para uma
Mestre. Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. faculdade de arquitetura e um centro de eventos, cujo(s) projeto(s)
antonio.netto@belasartes.br deve(m) ser desenvolvido(s) em um terreno que varia entre 10.000m² e
15.000m² (é proposto um terreno diferente, em diferentes regiões da
Denise Xavier de MENDONÇA cidade a cada semestre, sempre com a preocupação de que apresente
Mestre. Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. uma declividade significativa para o estudo em níveis diversos e tendo
denise.mendonca@belasartes.br também pelo menos frente para duas vias), espera-se que o aluno saiba
transpor o conceito de acessibilidade de uma simples atitude mecânica
RESUMO (cumprir o que a norma técnica e a administração pública estabelecem
O trabalho se propõe a apresentar a conceituação de uma experiência minimamente), para uma discussão mais ampla com a realização de um
desenvolvida em um semestre da sequência de projeto arquitetônico do espaço público – que integra o programa proposto – onde o assunto
curso de graduação de Arquitetura e Urbanismo em que se alia a “espaço para todos” pode se dar de modo pleno.
necessidade de envolver os alunos na questão da acessibilidade para Tem-se como meta fazer o aluno perceber que quando a arquitetura
todos e a relação público/privado como elementos de integração dos ocupa um espaço com o objeto construído, produz, ao mesmo tempo, o
locais de vivência e organização do ambiente urbano. A ideia é trabalhar a seu negativo, o espaço não ocupado resultante, o espaço “vazio”.
construção do espaço a partir do externo para o interno, da volumetria e Nesse momento é importante que uma reflexão mais apurada sobre a
da proposta formal, da circulação e da integração, antes de estabelecer o qualificação deste “vazio” deva ser feita e discutida, tornando esse espaço
desenho dos ambientes e a divisão dos espaços edificados. Trabalhar desprovido de ocupação física – não construído – pleno de significado,
com a maquete como elemento básico para “desenhar” o projeto é o uma vez que ele será responsável pela agregação e integração do usuário
principal mote para fazer o aluno entender o espaço e a espacialidade da na vida comunitária e pública.
sua concepção arquitetônica. É esta conceituação – onde o “espaço ocupado” (arquitetura) e “espaço
PALAVRAS CHAVE: metodologia, acessibilidade, ensino, projeto. não ocupado” (espaço público) devem ser a realização consequente e
propositiva de um único ato – que evidencia a questão metodológica aqui
I – INTRODUÇÃO proposta de como desenvolver o projeto.
Este trabalho tem por objetivo apresentar a proposta metodológica de A acessibilidade se expande, dentro do conceito proposto, além do
desenvolvimento da disciplina de projeto realizada no 5º semestre do espaço físico, para a dimensão sensorial, buscando com isto traduzir,
curso de arquitetura e urbanismo do Centro Universitário Belas Artes de através da apropriação do espaço com a arquitetura, a relação das funções
São Paulo e também demonstrar os resultados parciais e finais obtidos propostas da edificação e do espaço livre com a vizinhança, com o bairro,
com a sistemática de trabalho utilizada. com a cidade.
A disciplina – Projeto de Arquitetura e Acessibilidade – é desenvolvida A partir desses conceitos discutidos, propostos e trabalhados, o espaço
visando: “construído com ou sem edificação” se torna o interlocutor entre as
a) A compreensão e prática do conceito de projeto de arquitetura de pessoas, o canal de conexão e fluidez da vida urbana cotidiana.
edificações de uso múltiplo e suas relações com o uso público;
b) A circulação nas e entre as edificações; II – O PROCESSO DE TRABALHO
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A condução da disciplina parte de um processo metodológico que impõe privado a ser projetado no terreno:
o estudo da ocupação do terreno através: (i) sistema de fluxos existentes no local – linhas pretas – em que o
a) da circulação, aluno identifica os fluxos de circulação de pessoas através do terreno
b) das relações de uso estático e dinâmico do espaço privado e público, para atingir pontos e/ou equipamentos de interesse junto ou próximos ao
c) dos acessos às diversas funções propostas para as edificações a lote;
serem projetadas, (ii) sistema de fluxos sugerido pela intervenção – linhas vermelhas
d) da volumetria do “espaço ocupado” relacionado ao “espaço não – em que o aluno identifica os fluxos pretendidos de serem mantidos ou
ocupado”. criados com/para a ocupação do lote com o projeto;
Inicia-se o trabalho com a maquete topográfica do terreno em escala (iii) visuais a serem ressaltadas pelo projeto – setas azuis – em que
1:1000, nela desenvolvendo, quase que integralmente, a etapa de o aluno identifica as posições de identificação de visuais do projeto
composição e concepção/partido do projeto a ser detalhado com base compatíveis com o entorno e com relação à cidade;
no programa e pré-dimensionamento apresentados para discussão com (iv) elementos de contenção física – papel Kraft – e contenção visual –
o aluno. papel vermelho – da paisagem, a serem criados pelo projeto, entendendo-
se como contenção física aquela que não permite a transposição física,
mas permite a transposição visual e a contenção visual aquela que não
permite nem a transposição física nem a visual;
(v) áreas de convivência/permanência a serem realizadas no projeto –
papel preto – identificando os espaços do lote que o aluno pretende que
contenham áreas de permanência para o convívio das pessoas, tanto do
público em geral quanto dos alunos da faculdade.
(vi) escolha individualizada de dois layers específicos – papel de cor –
selecionados pela sensibilidade e observação de cada aluno de
elementos que irão interferir ou afetar diretamente o projeto a ser proposto.
A elaboração do Diagrama Perceptivo não necessariamente implica
Fig. 1 – maquete com o terreno em cobrir totalmente a superfície da maquete com os elementos utilizados
Fonte: Xavier, 2010. para identificar as várias sensações e intenções projetivas, mas tão
II.1 – Diagrama da Análise Perceptiva somente o aluno iniciar o processo de apropriação do espaço,
O primeiro momento é o desenvolvimento do Diagrama de Análise predefinindo as condições em que irá iniciar o processo de organização
Perceptiva, a respeito dos sentidos, significados e sensações oferecidos do espaço para implantação do projeto.
pelo local.
A visita previamente feita ao local do terreno é base para o conhecimento
dos equipamentos de vizinhança, das condições do viário e do tráfego,
das condições das edificações dos lotes do entorno e da região próxima,
do transporte público disponível e de quaisquer outras características
físicas e urbanísticas que envolvam o conhecimento intrínseco das
condições do terreno a ser edificado.
A partir da intuição e sensibilidade adquirida com a visita à área onde
se localiza o terreno, o aluno estabelece, sobre a maquete topográfica,
um diagrama de linhas de forças direcionais de circulação e de
visualização e a identificação de espaços estáticos e dinâmicos,
“ocupáveis” e “não ocupáveis”. Fig. 2 – Maquete com a composição dos elementos de
Alguns layers de significação são propostos como parâmetro para a percepção dos espaços e fluxos existentes e propostos.
elaboração de um código comum de interpretação do espaço público/ Fonte: Xavier, 2011
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II.2 – Exercício da Massa Edificada II.3 – Exercício da Maquete de Estudos


Em seguida passa-se para a etapa do Exercício de Massa Edificada Após esse primeiro ensaio de implantação, passa-se à terceira etapa
que é a etapa de sensibilização do programa em relação ao terreno e ao do processo: a Maquete de Estudos. A partir da discussão do conjunto
seu entorno. Aqui o aluno materializa o programa de necessidades através obtido – a junção do diagrama de Análise Perceptiva com a ocupação
de volumes edificados. com a Massa Edificada – direciona-se o olhar do aluno à proposição
Após o desenvolvimento do pré-dimensionamento do programa projetual ali existente.
apresentado e a avaliação das relações de uso e função dos espaços Propõe-se que ele adote os procedimentos em relação aos ajustes
propostos, propõe-se ao aluno a análise das características de cada topográficos necessários à implantação de um projeto – respeitando os
espaço segundo a sua função de maior ou menor envolvimento com o conceitos de acessibilidade já discutidos – transformando o terreno em
público; separam-se as áreas nos grupos de espaços públicos/sem espaços edificáveis e transitáveis.
restrição (amarelo), espaços intermediários/mais ou menos restritivo Os volumes propostos de massa edificada devem ser transformados
(laranja) e espaços privados/restrito (vermelho). em maquetes de edificações, prevendo suas funções específicas e deve
O aluno transforma essas áreas em volumes e passa então a realizar revelar – mesmo que preliminarmente – a intenção da forma arquitetônica
a implantação geral com blocos, dimensionados segundo os volumes idealizada.
previstos no programa de necessidades, sobre a maquete topográfica A maquete modificada na sua espacialidade topográfica e de
apoiando-se nas proposições de sensibilidade sobre o uso do terreno ocupação passa a ser o “molde” tridimensional para o desenvolvimento
desenvolvido na Análise Perceptiva. do projeto, representando assim a primeira produção “final” do trabalho
com o espaço construído a partir dos volumes edificados e sua relação
com os espaços livres agregadores da vida comunitária.

Fig. 3 – Maquete com a composição de volumetria das massas edificadas,


considerados os três grupos de espaços: públicos, intermediários, privados.
Fonte: Rodrigues Netto, 2011
Fig. 5 – Maquete de estudos em escala 1:1000, finalizada com a volumetria definida
plasticamente e o tratamento básico dos espaços livres.
Fonte: Rodrigues Netto, 2010

Nesta etapa do trabalho o aluno desenvolve as proposições de solução


dos espaços não edificados, através da representação bidimensional
em planta, cortes e elevações, definido as condições de tratamento
paisagístico dos espaços e determinando os caminhos e acessos à(s)
edificação(ões) a partir da organização do terreno e da circulação.
A implantação do conjunto arquitetônico se consolida a partir desta
etapa uma vez que são os caminhos (circulação) e os acessos (entradas
e saídas) da rua para o lote e do lote para a(s) edificação(ões) que irão
Fig. 4 – Maquete com a composição de volumetria das massas edificadas, sobre a estabelecer a ocupação básica do terreno.
composição de percepção dos espaços e fluxos existentes e propostos.
Fonte: Xavier, 2011
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II.4 – Desenvolvimento do ante–projeto


O passo seguinte, já em escala maior – 1:500 – envolve o
Desenvolvimento do ante–projeto através da organização dos espaços/
funções das edificações e detalhamento de sua estruturação através
das plantas para cada pavimento, cortes e elevações.
O aprimoramento das propostas formais através da adequação dos
espaços necessários ao bom desempenho das funções previstas, bem
como a imposição de acessibilidade total às diversas funções da
edificação, que implica na inclusão de rampas compatíveis com a
NBR9050/04 resulta na moldagem de formas inusitadas, audaciosas e
belas, que ajustadas à reformulação topográfica do terreno, permitem
visualizar soluções bastante interessantes.
Na metodologia proposta, mais uma vez a volumetria será objeto de
produção por parte do aluno, demonstrando o produto final resultante do
projeto desenvolvido em uma segunda maquete na Escala 1:500.
Solicita-se que, sendo este um produto final do trabalho, apresente de
forma representativa a materialidade concebida para o projeto
desenvolvido, demonstrando assim, através de elementos gráficos
apostos nas faces das edificações, ou por materiais aplicados, o produto
Fig. 6 – Plantas de implantação dos vários níveis de térreo definidos no projeto em pretendido como resposta formal e espacial do projeto desenvolvido.
função dos espaços edificados e dos acessos definidos de ingresso no lote e do
lote às edificações.
Fonte: Xavier, 2011

Fig. 7 – Planta com a implantação da massa edificada e tratamento da topografia e


Fig. 8 – Maquetes em esc. 1:500 apresentando a resposta formal, materialidade e
do espaço livre do lote; perfil do terreno com a massa edificada e cenário das
tratamento dos espaços livres do terreno, como produto final da concepção do
proposições de concepção de espaço nas edificações.
projeto.
Fonte: Xavier, 2010
Fonte: Rodrigues Netto, 2011
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Fig. 10 – Exemplo de exercício no solarscópio com a tomada no mesmo ângulo e no


mesmo horário em dias de solstícios e de equinócios.
Fonte: Rodrigues Netto, 2010

III – CONCLUSÃO
Fig. 9 – Plantas baixas, elevações em escala 1:500 contendo inclusive layout dos
A experiência a ser demonstrada é basicamente a forma de atuar através
ambientes, e perspectiva do produto final com a proposta de materialidade.
de elementos tridimensionais e externos ao projeto, propondo ao aluno
Fonte: Xavier, 2011
construir sua idéia a partir do “externo” para o “interno”, compreendendo
II.5 – Exercício no Heliodon (solarscópio) melhor a integração do espaço urbano com o espaço confinado do lote e
Para uma completa compreensão do estudo idealizado, desenvolve- a relação do espaço público com o espaço privado, além de se dar ênfase
se, com a maquete 1:500 finalizada, um exercício de visualização das na acessibilidade como elemento fundamental para a integração do
condições de insolação e sombreamento provocado pelo conjunto homem com o espaço, a mobilidade e a dinâmica da cidade.
edificado proposto, com a utilização do Heliodon (mais conhecido como A aplicação desta metodologia tem apresentado respostas positivas
solarscópio), sendo efetuadas tomadas fotográficas em pelo menos dois na maior parte das turmas uma vez que significa um trabalho diferenciado,
horários – meio da manhã e meio da tarde – do dia mais representativo quase lúdico, na montagem do raciocínio de projeto.
de cada estação do ano, para posterior discussão com os alunos sobre Possibilita ao aluno visualizar a elaboração do projeto através de
as implicações da forma de ocupação do terreno considerada a orientação condutas diversas: pela ocupação e organização espacial do terreno e
solar e a volumetria do entorno imediato do terreno. Outro dado analisado sua topografia; pela volumetria ajustada ao entorno; pela proposta formal
é a maior ou menor verticalização proposta no projeto e suas concebida e adequada ao espaço físico disponível; ou mesmo por uma
consequências com relação aos espaços livres resultantes da conjunção de mais de uma, ou mesmo de todas essas atitudes que
implantação das edificações. divergem da simples elaboração das plantas, cortes e elevações do
projeto.
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A “construção” do interior da(s) edificação(ões), ou seja, a elaboração RXA (RECIFE X AMSTERDAM): UM


da divisão e distribuição do espaço interno, atendendo ao programa
proposto resulta numa maior concretude na apropriação das dimensões WORKSHOP EM ARQUITETURA E
e organização da circulação, tanto vertical como horizontal do(s) edifício(s),
além das funções e inter-relação entre os ambientes projetados.
URBANISMO
O desempenho dos alunos ao final das duas etapas principais do
trabalho – a Maquete de Estudos 1:1000 e a Maquete 1:500 – é avaliado Roberto MONTEZUMA
também através de exposições realizadas para apresentação da produção Arquiteto, Professor da UFPE e Presidente do CAU-PE,
a toda comunidade acadêmica, no sentido de os próprios alunos auto montezuma@afmarquitetos.com.br
avaliarem a qualidade, características e diversidade dos projetos Fernando Diniz MOREIRA
propostos para um mesmo tema e num mesmo espaço, considerando Arquiteto, Ph.D., Professor da UFPE e Conselheiro Federal CAU-BR,
fernando.diniz.moreira@gmail.com
as variáveis e os parâmetros utilizados para o seu desenvolvimento.
Julien INECHEN
A bibliografia apresentada a seguir é a bibliografia básica utilizada como Arquiteto, Mestre, Doutorando UFRN,
apoio ao curso, sendo dela extraído o embasamento conceitual e os Cristiano NASCIMENTO
elementos definidores e norteadores da elaboração do projeto com Arquiteto, Mestre, Doutorando UFPE, Arquiteto da FUNDAJ
ênfase na Acessibilidade para todos. Luiz CARVALHO
ABNT – Associação Brasileira de Normas e Técnicas. Acessibilidade Arquiteto, Mestrando pela TUDelft, Governo do Estado
de Pessoas Portadoras de Deficiências a Edificações, Espaço, Mobiliário José Claúdio Cruz SILVA
e equipamentos Urbanos; NBR 9050. Rio de Janeiro: 1994/ REVISÃO Arquiteto, Mestre, Arquiteto do CAU-PE
Lucia VERAS
2004.
Arquiteta, Doutora, Professora da UFPE
I V – REFERÊNCIAS Luís VIEIRA
JACOBS, Jane. Morte e vida de grandes cidades. Reedição. São Paulo: Martins Arquiteto, Professor da UFPE, Conselheiro do CAU-PE
Fontes, 2000. Vera PIRES
Arquiteto, VPRG Arquitetos, Conselheira do CAU-PE
MEYER,Regina M. P. O espaço da vida coletiva in Os centro das metrópoles: Roberto GHIONE
reflexos e propostas a cidade democrática do século XXI. São Paulo: Ed. Terceiro Arquiteto, VPRG Arquitetos
Nome, 2000. (páginas 25 a 33). Pedro SALES
Arquiteto, Doutor, Professor da Escola da Cidade
PANERO, Julius & ZELNIK, Martin. Las Dimensiones Humanas en Los Espacios
Interiores: Estandares Antropométricos. (Santiago Castán, Ed. Castellana). Mexico:
D.F.: Gustavo Gilli, 1984. RESUMO
Este trabalho expõe os resultados do projeto rXa, uma experiência de
ROGERS, Richard e GUMUCHDJIAN,Philip. Cidades para um Pequeno Planeta. Ed.
em português. São Paulo: Barcelona, Editora Gustavo Gili, 2001.
cooperação técnica e acadêmica realizada ao longo de 2011 e 2012
envolvendo diversas instituições acadêmicas e do setor público das
SUN, Alex. Projeto da Praça: convívio e exclusão no espaço público. São Paulo: cidades de Recife e Amsterdam. O objetivo ao rXa foi a promoção e a
SENAC, 2008. construção de contatos, interfaces, conhecimento e parcerias entre
profissionais, empresas e instituições ligadas ao planejamento e
desenho urbano do Recife e de Amsterdam para futuras ações, envolvendo
planos, projetos, e transmissão de experiências de planejamento e
desenho das duas cidades. A estratégia foi criar um ambiente de troca,
que se configure como uma oportunidade para que estudantes brasileiros
e técnicos de planejamento das duas cidades pudessem rever seus
modelos de planejamento e vislumbrar a possibilidade de incorporar
práticas projetuais consagradas em uma à outra. O projeto partiu de uma
88 XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA 89
XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

experiência de ensino na UFPE, na qual estudantes do segundo ano do O objetivo ao rXa foi a promoção e a construção de contatos, interfaces,
curso de arquitetura e urbanismo desenvolveram projetos de conhecimento e parcerias entre profissionais, empresas e instituições
requalificação urbana para uma área do Recife em parceria com arquitetos ligadas ao planejamento e ao desenho urbano do Recife e de Amsterdam
brasileiros e holandeses por um ano inteiro, e frutificou na realização de para futuras ações que possam vir a ser desenvolvidas conjuntamente,
um workshop, um curso e uma exposição que circulou por ambas as envolvendo planos, projetos, e transmissão de experiências e tecnologias
cidades. ligadas ao processo de planejamento e desenho das cidades.
A hipótese alentada é de que as boas práticas holandesas possam
PALAVRAS CHAVE: projeto urbano, desenho urbano, paisagismo, servir ao Recife, ao mesmo tempo em que as experiências do Recife
águas, meio-ambiente, workshop. podem indicar novas abordagens dentro de um cenário econômico
europeu em crise.
I – INTRODUÇÃO
Recife e Amsterdam compartilham um passado em comum e visões
do futuro. O rXa foi uma oportunidade para repensar os projetos, processos
e produtos para duas cidades. Arquitetos brasileiros e holandeses
colaboram desde 2010, quando foram estabelecidos contatos entre o
Centro de Arquitetura de Amsterdam (Arcam) e representantes de
instituições acadêmicas, profissionais e governamentais de arquitetura
e urbanismo de Recife. Em novembro de 2010, representantes do Arcam
foram ao Recife para tratar de formas de cooperação com representantes
do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB/PE), da Prefeitura do Recife, do
Governo do Estado de Pernambuco, da Fundação Joaquim Nabuco
(FUNDAJ), do Centro de Estudos Avançados da Conservação Integrada
(CECI) e do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade
Federal de Pernambuco (UFPE). Houve imediato interesse de todos os
envolvidos no desenvolvimento de uma parceria para uma exposição e
workshop dentro das comemorações do Ano do Brasil na Holanda, em
2011. Foi estabelecida uma parceria entre a UFPE e o Arcam para a
realização de intercâmbio entre alunos da instituição e profissionais de
planejamento holandeses.
Em 2011, alunos do segundo ano da UFPE desenvolveram trabalhos Figura 1: Projetos desenvolvidos pelos alunos do segundo ano da UFPE
de reaqualificação urbana para o Recife como parte de suas atividades A estratégia foi criar um ambiente de troca que se configure como uma
acadêmicas. Foram realizadas videoconferências para discussão dos oportunidade para que técnicos de planejamento das duas cidades
três temas centrais do intercâmbio: água, mobilidade e patrimônio. As possam rever os seus modelos de planejamento e vislumbrar a
sessões envolveram a apresentação e discussão dos trabalhos possibilidade de incorporar práticas projetuais consagradas em uma à
desenvolvidos pelos alunos da UFPE ao mesmo tempo em que projetos outra. A ferramenta metodológica para viabilizar estas trocas foi a realização
brasileiros e holandeses pertinentes aos temas centrais eram de um workshop que reuniu profissionais do planejamento urbano das
apresentados. De outubro a novembro foi realizada a exposição rXa no duas cidades. Como atividades suplementares foi realizado um ciclo de
Arcam, em Amsterdam, com cerca de 4000 visitantes, resultando em três debates abertos entre profissionais e o público, na qual diversos
artigos publicados e quarenta menções na mídia. Em 2012, com o início profissionais de Amsterdam apresentaram e discutiram propostas
do funcionamento dos Conselhos de Arquitetura e Urbanismo (CAUs/UF holandesas nas áreas de patrimônio histórico, manejo das águas,
e CAU/BR), o CAU/PE juntou-se às instituições promotoras para viabilizar desenho urbano, mobilidade, paisagismo e planejamento territorial. Foi
o rXa no Recife, no mês de abril, com workshop na Fundaj e exposição no realizada a exposição rXa no Recife em abril de 2012, com ampliação do
IAB/PE. conteúdo a partir da exibição da produção multimídia de registro da
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XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

experiência realizada em Amsterdam, em 2011, e de um novo módulo infra-estruturas urbanas e o patrimônio aprofundam a perspectiva histórica,
com as discussões sobre a cidade do Recife tratadas pelos trabalhos que não deve escapar ao planejador mais astuto, e apontam para o futuro
dos alunos do de Arquitetura e Urbanismo da UFPE. em um planejamento ao longo prazo.
Um dos resultados desse multifacetado intercâmbio entre as cidades
do Recife e Amsterdam foi uma o surgimento de uma base metodológica
que parte da auto-expressão do território da cidade do Recife. A planície
baixa, densamente irrigada por rios e canais que desaguam no Oceano
Atlântico, sugere a forma de uma árvore aquática – water tree, em inglês,
a língua comum do evento. Os arquitetos e urbanistas intuíram que o
protagonismo destas águas pode vir a ser o mote para um novo ciclo de
desenvolvimento econômico e ambiental da cidade.

Figura 2: Símbolo rXa Figura 3: Exposição rXa, Recife, abril 2012

Figura 5: Conceito Water-tree

Figura 4: Exposição rXa, Recife, abril 2012 Rebatimentos


Devido a originalidade destas idéias e à participação de uma ampla
Water-tree: uma proposta para o recife gama de arquitetos advindos de diferentes insitituições técnicas e
Os temas abordados foram o patrimônio urbano, as águas e a acadêmicas, as propostas da rXA encontraram um enorme eco na
mobilidade, tendo como eixo central a rede fluvial-estuarina do Recife e sociedade e nas estruturas de planejamento, justamente em um
sua interface com o ambiente construído da cidade em sua área histórica, momento no qual a Região Metropolitana do Recife passa por um período
entendendo a água, e sua relação com a cidade como uma paisagem de crescimento acelerado da economia, com forte pressão sobre a
cultural ímpar e com a necessidade de ser conservada de modo integrado. historicamente frágil infraestrutura urbana, gerando graves problemas
O território do Recife se apresenta aos holandeses com generosas urbanísticos. O Recife sofreu ainda um abandono deliberado das práticas
possibilidades de estabelecer relações entre as duas realidades ao de gestão consequente da cidade, com o desmantelamento das
mesmo tempo tão semelhantes e diversas. As relações entre as novas estruturas de planejamento como a Fidem, a Fiam e as divisões técnicas
92 XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA 93
XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

das prefeituras.
Estas discussões retornam oportunamente à pauta dos arquitetos e
IMPLANTAÇÃO DE UM ESCRITÓRIO
urbanistas no momento em que esta categoria profissional conquista a MODELO E SEUS REFLEXOS NO ENSINO
autoexpressão por meio do recém-criado Conselho de Arquitetura e
Urbanismo (CAU-PE), que está se propondo a atuar mais decisivamente DE ARQUITETURA
frente aos problemas urbanos que a cidade atravessa. Como parte desta
estratégia, foi produzido um documento, intitulado Elementos para um Alberto Luiz dos SANTOS
projeto de cidade e do território – Contribuições aos futuros prefeitos dos Estudante do Curso de Arquitetura e Urbanismo do IFF.
municípios pernambucanos, que foi entregue aos candidatos à prefeituras alberto_luiz@live.com
da RMR e está disponível para consulta publica no site do CAU/PE. Regina Coeli Martins Paes AQUINO¹
O documento defende um planejamento de longo prazo para que a Doutora. Universidade Federal do Norte Fluminense.
cidade chegue aos 500 anos, em 2037, oferecendo qualidade de vida raquino@iff.edu.br
para toda a população. Este planejamento de longo prazo integraria outros
projetos prioritários, como a gestão democrática e transparente, a
retomada do controle urbano, a mobilidade, a recuperação das RESUMO
centralidades, o meio ambiente e a valorização dos quadros técnicos da O Escritório Modelo de Arquitetura e Urbanismo - EMAU constitui ao
administração pública. mesmo tempo um núcleo de serviço à comunidade e um laboratório do
Conclusões habitat, integrando ensino, pesquisa e extensão. O EMAU objetiva uma
Assim, acreditamos que a experiência do rXa foi bastante positiva devido participação discente na execução de projetos de cunho social, atendendo
a articulação de diversas insituições públicas ligadas a arquitetura e comunidades e entidades. Todo o trabalho é acompanhado por professor
urbanismo, ao profícuo intercâmbio entre profissionais brasileiros e orientador do Curso de Arquitetura e Urbanismo que orienta os alunos
holandeses, às ricas trocas entre o ensino e a prática, que colocou alunos neste exercício de prática profissional, proporcionando ao discente:
diante de problemas concretos, e, sobretudo, ao fato de provar que é despertar uma consciência social através do trabalho para a população
impossível separar e compartimentabilizar as diversas áreas (patrimônio carente e ou instituições beneficentes; desenvolver seu espírito crítico;
histórico, manejo das águas, desenho urbano, mobilidade, paisagismo, proporcionar o relacionamento comunidade/empresa/escola; estudar
planejamento territorial, arquitetura) em torno de um projeto de cidade, alternativas para solução de edificações de baixo custo; exercitar o contato
que tenha um conceito central que articule o todo. com o cliente e valorizar a instituição de ensino como um todo no mercado
de trabalho. Os primeiros resultados de sua implantação no Curso de
Arquitetura do Instituto Federal Fluminense têm sido de grande valor para
alunos envolvidos e a própria Instituição, se inclinando para a definitiva
caracterização de EMAU.

PALAVRAS CHAVE: responsablidade social; assistência técnica;


comunidade

I – INTRODUÇÃO
No início da década de 90, após a reabertura política e o retorno das
atividades nos Centros Acadêmicos e na FeNEA – Federação Nacional

1. Arquiteta e Urbanista graduada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro


em 1985, doutora pela Universidade Estadual do Norte Fluminense em 2003; atuou
como coordenadora do curso de Arquitetura e Urbanismo do Instituto Federal
Fluminense; professora e líder do Grupo de Pesquisa e Extensão do Curso de
Arquitetura e Urbanismo do Instituto Federal Fluminense.
94 XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA 95
XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

de Estudantes de Arquitetura – as discussões sobre as atividades e ·Garantir qualidade de vida digna para todos os habitantes
práticas acadêmicas dos estudantes de arquitetura e urbanismo durante dos assentamentos;
a graduação foram retomadas, buscando não somente o complemento ·Uso tecnológico que respeite as necessidades sociais,
da educação universitária, mas também o compromisso com a realidade culturais e estéticas dos povos;
social brasileira. O segmento das discussões, na busca de imersão na ·Equilíbrio ecológico e desenvolvimento sustentável do
comunidade, na liberdade da idealização, surgiu o Escritório Modelo de ambiente construído;
Arquitetura e Urbanismo – EMAU, um projeto de extensão universitária. ·Arquitetura valorizada como patrimônio e responsabilidade
Ele visa a melhoria da educação e da formação profissional através da de todos.
vivência social e da experiência teórico-prática como um todo.
A extensão, assim como o ensino e a pesquisa, é fundamental para a O escritório deve trabalhar com comunidades que não possam ter
formação profissional, pois é um instrumento de interação do meio acesso ao trabalho profissional de arquitetura e urbanismo. A escolha
acadêmico com a sociedade, tendo como princípio básico contribuir para dos locais pretende ainda difundir a atividade da arquitetura e urbanismo,
o desenvolvimento desta, através da aplicação do conhecimento gerado buscando a ampliação da atuação do profissional através da
e adquirido na universidade. Afirma, ainda, o compromisso da disseminação da consciência do arquiteto e de toda a população.
universidade com o desenvolvimento do saber. Desta forma entende-se O princípio metodológico fundamental aponta para o envolvimento de
que o EMAU é um complemento à formação profissional. Os clientes do alunos universitários e população como sujeitos de um processo onde
Escritório Modelo são pessoas que não têm condições de pagar os adquiram experiências, compartilham conhecimentos, implementam
honorários de um arquiteto, organizações não-governamentais que ações, percorrendo uma trajetória onde através da extensão, o aluno
tenham um propósito filantrópico, associações de bairro e instituições educa e é educado pelos grupos populares.
governamentais. EMAU é uma experiência de troca, na qual os estudantes O trabalho foi efetuado através de visitas as comunidades com o perfil
levam às comunidades os conhecimentos específicos de arquitetura e do projeto; diagnostico de pontos críticos nessas comunidades;
urbanismo, e retornam à comunidade acadêmica o conhecimento realização de projetos de construção, reforma e urbanização nestas
adquirido em suas atividades. comunidades; apresentação de proposta de planejamento urbano e
Os objetivos do projeto são: oferecer assistência técnica diretamente paisagístico para gestores dos municípios da região norte/noroeste
às famílias, associações de moradores ou outros grupos organizados fluminense e realização de levantamentos arquitetônicos e urbanísticos
que as representem; firmar convênios ou parcerias entre entes públicos em apoio a Promotoria Pública do Estado quando requisitado pelo referido
e extensão universitária nas áreas de arquitetura, urbanismo e engenharia; orgão.
levar aos estudantes a importância da extensão universitária para a III – Resultados e Discussões
formação acadêmica; auxiliar no planejamento urbano do município de O Escritório Modelo de Arquitetura e Urbanismo – EMAU está sendo
Campos dos Goitacazes respeitando o código de obras, estatuto da cidade implantando e desenvolvendo suas atividades com sucesso, cuja
e o plano diretor, gerando uma melhoria no processo de urbanização finalidade é atender à população de Campos e Região Norte e Noroeste
levando a classe menos favorecida os direitos garantidos pela Fluminense, levando a ela assistência e retornando dela com
constituição, visto que a fiscalização de obras na cidade de Campos dos conhecimento prático.
Goytacazes não é eficaz permitindo que existam muitas construções A maior procura aos serviços do EMAU é feita pela parcela de pessoas
irregulares em áreas de risco e preservação. que têm a necessidade de legalizar imóveis ou terrenos, fruto do passado
II – Metodologia histórico da região marcado por ocupações irregulares. Nesses casos o
A meta principal deste projeto de extensão é incentivar e desenvolver o levantamento é realizado por um grupo de alunos, bolsistas e voluntários,
trabalho participativo dentro e fora da universidade, não se restringindo à que posteriormente entregam a planta revisada pelo professor orientador,
discussão, mas também promovendo a ação, bem como a troca entre as conforme a necessidade do caso, para ser usada junto aos
partes envolvidas. O eixo norteador do EMAU, a partir de nossa realidade procedimentos judiciais.
acadêmica e regional são os quatro postulados da UNESCO e União
Internacional de Arquitetos para educação em Arquitetura e Urbanismo:
96 XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA 97
XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

Como um exemplo das atividades desenvolvidas, um estudo de caso Ainda em parceria com movimentos estudantis, o EMAU incentiva a
realizado na Praia do Açu está apresentado na Figura 1. participação dos alunos em encontros de estudantes de arquitetura pelo
aproveitamento e aprendizado que os alunos recebem. Nesses encontros
são realizadas intervenções, oficinas, debates, seminários, que
completam a bagagem acadêmica do aluno.
O Escritório Modelo atende organizações não governamentais, como
por exemplo, o abrigo “Lar de Débora” (Figura 3) para quem atualmente
trabalhamos em um projeto de reforma/acréscimo para a construção de
salão de festas e alojamentos para idosos e crianças.

Figura 1: Levantamento na Praia do Açu em São João da Barra. (a) Planta de


situação/locação e (b) Fachada Frontal do imóvel
Fonte Própria
O EMAU também desenvolve os seus trabalhos em parceria com outros
projetos, devido a sua correlação e afinidade com outros temas
levantados, seja em projetos de extensão, movimentos estudantis, ONG’s,
etc. Figura 3: Lar de Débora: (a) fachada frontal (b) localização
Com o Projeto de Extensão Melhorias Habitacional, no Bairro de Fonte: (a) Própria e (b) Google Maps
Custodópolis, Campos dos Goytacazes, o EMAU acompanha casos
O espaço físico (Figua 4) disponível para a realização dos trabalhos
estudados pelos bolsistas do projeto e a partir do diagnóstico propõe,
conta com bancada para 5 computadores, 6 mesas trapezoidais,
junto a eles, melhorias simples nas residências que se interessam pelos
pranchetas para desenho, arquivos, quadros para avisos em ambiente.
serviços do Escritório Modelo, conforme está apresentado na Figura 2.
O ambiente é utilizado exclusivamente pelos bolsistas e voluntários de
projetos de pesquisa e extensão ligados ao EMAU.

(a) (b)
Figura 4: (a) e (b) – Espaço Físico do Escritório Modelo
Fonte Própria
Os primeiros resultados da implantação do Escritório Modelo de
Arquitetura e Urbanismo no Curso de Arquitetura do Instituto Federal
Figura 2: Planta para melhoramento de residência realizada em parceria com o Fluminense têm sido de grande valor para a formação profissional dos
Projeto “Melhorias Habitacionais em Custodópolis”. Detalhe para a área de maior alunos envolvidos. A iniciativa ainda funciona como um laboratório de
modificação. extensão, mas se inclina à uma maior mobilização dos estudantes para
Fonte Própria
98 XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA 99
XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

que o Escritório Modelo funcione de acordo com seus princípios


estabelecidos pela FeNEA. VIVÊNCIA EM BIOCONSTRUÇÃO
Os EMAU’s desenvolvem atividades acadêmicas com interesse didático
dentro das universidades, caracterizando-se assim como uma importante
ferramenta pedagógica no Ensino de Arquitetura e Urbanismo. Fernando Carneiro PIRES
Graduando. Universidade Federal de Santa Catarina.
IV – Conclusão nandocpires@hotmail.com
A formação de EMAUs nas faculdades de arquitetura e urbanismo se Soraya NÓR
faz necessário principalmente após a aprovação da Lei da Assistência Doutora. Universidade Federal de Santa Catarina.
Técnica. Essa lei, além de assegurar o direito à moradia e assistência soraya@arq.ufsc.br
técnica, busca aperfeiçoar e qualificar o uso e aproveitamento racional do
espaço edificado e de seu entorno, e evitar a ocupação de áreas de risco
e interesse ambiental. A assistência técnica pode ser oferecida
diretamente às famílias, associações de moradores ou outros grupos RESUMO
organizados que as representem. O projeto permite também que sejam A Vivência em Bioconstrução foi uma atividade acadêmica de capacitação
firmados convênios ou parcerias entre entes públicos e extensão e integração interdisciplinar, relacionada a três projetos de extensão, sendo
universitária nas áreas de arquitetura, urbanismo e engenharia. O EMAU dois do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFSC, e uma
visa levar aos estudantes a importância da extensão universitária para a disciplina optativa, denominada “Vivência de Integração dos Projetos de
formação acadêmica e promover melhorias nas comunidades, Extensão Universitária com o Instituto Çarakura”. Ela promoveu um
introduzindo o estudante de arquitetura em atividades de cunho social, processo de troca e aprendizado baseado na vivência e na prática reflexiva
econômico e ambiental, sendo o Escritório Modelo a ponte entre os e refletida, onde mais do que informações, incorporamos sensações e
estudantes de arquitetura e a sociedade como um todo. relações interpessoais e de pertencimento com o meio, ou seja, lidamos
com um processo que tem lugar, tempo e pessoas. Neste processo, não
AGRADECIMENTOS lidamos apenas com conceitos e informações intelectuais, são
A realização desse trabalho não seria possível sem o apoio dos materialidades e relações sutis que atuam na existência como um todo.
moradores que permitiram a entrada dos estudantes em seus domicílios, Neste sentido, trabalhar com o corpo é uma forma de exercitar a mente e
dos alunos voluntários e professores do curso de Arquitetura e Urbanismo interiorizar a experiência sem fragmentar o pensamento e a ação objetiva.
do IFF, dos alunos Flávio Viana e Jessica Queiroz Falcão que trabalham
em parceria no projeto “Melhorias Habitacionais em Custodópolis” e do PALAVRAS-CHAVE: Bioconstrução, Vivência.
IFF por proporcionar a participação e atender as necessidades dos alunos
para a realização dos projetos. O quê
A Vivência em Bioconstrução foi uma atividade acadêmica de capacitação
REFERÊNCIAS e integração interdisciplinar, relacionada a três projetos de extensão e
FeNEA – Federação Nacional de Estudantes de Arquitetura e Urbanismo. Disponível
uma disciplina com estudantes haitianos em intercâmbio na UFSC,
em: <http://www.fenea.org/>. Acesso em: 10 de out. de 2012.
denominada “Vivência de Integração dos Projetos de Extensão
FeNEA. Projeto de orientação a Escritório Modelos de Arquitetura e Urbanismo. Universitária com o Instituto Çarakura”. A Vivência envolveu três grupos de
Disponível em: <http://www.fenea.org/>. Acesso em: 10 de out. de 2012. gestão estudantil e uma associação comunitária, promovendo assim a
GONSALEZ, F., RODRIGUES, I. Implementação de Escritórios de Gerenciamento interdisciplinaridade e a aproximação da universidade com a sociedade.
de Projetos, Monografia (MBA em Projetos) – Departamento de Administração da Quando e contexto
Faculdade de Economia, Administração e Ciências Contábeis. São Paulo: A “Vivencia de integração dos projetos de extensão universitária com o
Universidade de São Paulo, 2002. instituto Çarakura” aconteceu durante um final de semana, nos dias 26 e
MARICATO, Ermínia. A cidade do pensamento único. Desmanchando consensos. 27 de maio de 2012, no Sítio Çarakura, com apoio do Ateliê Modelo de
Petrópolis: Ed. Vozes, 2000. Arquitetura – AMA/ARQ/UFSC, do Núcleo de Educação Ambiental do Centro
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Tecnológico da UFSC – NEAmb e da Pró Reitoria de Assuntos Estudantis Bioconstrução como o processo e o produto das construções com baixo
da UFSC – PRAE. impacto ambiental, que utilizam prioritariamente materiais naturais
No dia 26, a atividade iniciou com uma dinâmica de apresentação entre abundantes na região, valorizam características e saberes locais e, na
os participantes e após uma visita ao sítio, ambas coordenadas por uma sua construção e no seu uso, proporcionam uma relação de
das moradoras do Sítio Çarakura, que é a sede do Instituto Çarakura. pertencimento e cuidado do homem em relação à natureza.
Foram apresentadas as ferramentas e as técnicas para utilização e corte
do bambu, seguidas de atividades práticas de corte, orientadas pelo eng.
agrônomo também responsável pelo sítio e instituto, que também
conduziu o grupo numa visita às experiências agroecológicas existentes
no Sítio Çarakura. Após desenvolveram-se as etapas de preparo da massa
do “Cob”, que consiste numa mistura de terra, palha, goma e água, com
a qual se construiu uma parede para um depósito nas instalações do
banheiro seco.
Na noite do dia 26 foram apresentados os objetivos e atividades dos
Projetos de Extensão e as expectativas dos participantes. E na noite do
dia 27, fizemos uma avaliação da Vivência, com depoimentos bastante
positivos por parte de todos e houve o encerramento da atividade. Figura 1 - Dinâmica de apresentação dos participantes.
Os projetos de extensão “Estruturação da sede do Instituto Çarakura” e
“Adequação Ambiental do Sítio Çarakura”, dos Departamentos de
Arquitetura e Urbanismo e de Engenharia Sanitária e Ambiental
respectivamente, em andamento no AMA - Ateliê Modelo de Arquitetura e
no NEAmb - Núcleo de Educação Ambiental do Centro Técnológico da
UFSC, em parceria com o Instituto Çarakura, têm por objetivo aprimorar a
estrutura física do referido instituto e envolver estudantes e professores
da UFSC em atividades práticas que promovem a consciência ambiental.
O projeto de extensão “Moradia para a população atingida pela UHE
Artibonite - Haiti” em consonância com a disciplina optativa “Ateliê Livre -
Relocação de população de baixa renda” está desenvolvendo estudos de
habitação para reassentamento de famílias, em função da construção de Figura 2 - Visita guiada pela coordenadora do Instituto, Andrea de Oliveira.
uma usina hidrelétrica no Rio Artibonite - Haiti. Os estudos serão
oferecidos ao governo haitiano por intermédio do Exército Brasileiro.
Nestes estudos, as ayividades de permacultura e a vivência programada
buscará aproximar destas técnicas os estudantes haitianos e brasileiros
envolvidos na disciplina.
Reflexões
Processo de troca e aprendizado baseado na vivência e na prática
reflexiva e refletida, onde mais do que informações, incorporamos
sensações e relações interpessoais e de pertencimento com o meio, ou
seja, lidamos com um processo que tem lugar, tempo e pessoas. Neste
processo, não lidamos apenas com conceitos e informações intelectuais, Figura 3 - Utilização do bambu na bioconstrução. Apresentação pelo bolsista
são materialidades e relações sutis que atuam na existência como um Fernando Pires.
todo. Neste sentido, trabalhar com o corpo é uma forma de exercitar a
mente e interiorizar a experiência sem fragmentar o pensamento e a
ação objetiva.
102 XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA 103
XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

Figura 4 - Preparo do COB - bioconstrução com terra. Orientação do bolsista


Fernando Pires.

Figura 5 - Apresentação do Haiti e debates sobre a vivência, à noite.

Figura 6 - Participantes da Vivência

Figura 7 – Cartaz da Vivência.


104 XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA 105
XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

1980. Somando-se à proliferação dos cursos de graduação, a política


O VERSO DO REVERSO NA INTEGRAÇÃO governamental de pós-graduação foi crescendo no País e definindo novas
práticas. Se por um lado, elas foram fundamentais para a qualidade da
ENTRE AS ATIVIDADES-FIM DA produção de nossos cursos, por outro foi-se atrelando o ensino
unicamente à pesquisa, distanciando-o da extensão. Esta, passou a ter
UNIVERSIDADE um papel secundário, com menos prestígio na academia e,
consequentemente, com maior dificuldade de ser viabilizada. Seguindo
Amadja H. BORGES a lógica geral, houve uma perda considerável de sua participação no
Profa. Dra. PPGAU/DAR/UFRN amadjaufrn@gmail.com cotidiano de nossos cursos. Apesar desta realidade, algumas
Cecília M. R. de MEDEIROS experiências promovem o resgate da indissociabilidade das atividades-
Mestranda. PPGAU/UFRN cecilia.marilaine@yahoo.com.br fim. Este artigo apresenta, a partir do olhar do docente e do dissente,
algumas reflexões sobre a importância dessa articulação na formação
acadêmica, a partir de uma experiência, as ações desenvolvidas pelo
RESUMO
Grupo de Estudos em Reforma Agrária e Habitat – GERAH, do
Os cursos de arquitetura e urbanismo têm a possibilidade de expressar,
Departamento de Arquitetura – DARQ, da Universidade Federal do Rio
de fato, a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. Durante
Grande do Norte – UFRN, que integra o ensino, a pesquisa e a extensão
a ditadura militar (1964-1985), foram protagonistas na resistência ao
na perspectiva da pesquisa participante. Como público-alvo, direciona
ensino desvinculado da realidade, realizando ações juntos à sociedade
sua atuação para os movimentos sociais, em especial o Movimento dos
civil, contribuindo com a oposição às ações governamentais que negavam
Trabalhadores Rurais Sem Terra-MST, inserindo o rural e o campo,
os direitos sociais. Com o fim do período de exceção, essa resistência
estranhos no cotidiano da arquitetura e do urbanismo, como seu principal
dilui-se e a extensão passa a ter um papel secundário no cotidiano de
alvo de intervenção profissional. Tendo a interdisciplinaridade como meio,
nossos cursos. Este artigo apresenta algumas reflexões sobre a
busca a integração entre diversos saberes, numa perspectiva de que é
importância dessa articulação na formação acadêmica, a partir de uma
na articulação entre as diversas áreas de atuação, entre o saber
experiência que busca integrar o ensino, à pesquisa e à extensão. Busca,
acadêmico, técnico e popular que se pode contribuir com a transformação
também, articular as atividades da graduação com a pós-graduação, o
da ordem desigual e perversa em que se submete a nossa sociedade.
saber do docente com o do dissente e deste com o saber popular, no
As ações do Grupo levaram à criação da disciplina Projetos Políticas
método dialógico que articula a teoria e a práxis na assistência técnica a
de Habitação Social II: Habitação de Interesse Social no Campo e do
habitação de interesse social-ATHIS e na formulação teórica para o
Seminário Temático A construção do habitat na obra de Henri Lefebvre:
desenho possível da habitação social, do habitat do campo e da formação
Do rural ao urbano no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e
acadêmica engajada com as questões sociais.
Urbanismo – PPGAU. Na graduação, o módulo Assistência Técnica a
Palavras-chave: Atividades-fim da Universidade; Extensão; Teoria e
Habitação de Interesse Social-ATHIS, passou a ser oferecida logo após a
práxis; Habitat do campo; Assistência Técnica a Habitação de Interesse
aprovação da Lei Federal com o mesmo nome, de dezembro de 2008.
Social. Várias dissertações e teses surgiram deste trabalho coletivo, técnicos
Introdução especializados em habitação social no campo e lideranças participantes
Os cursos de arquitetura e o urbanismo têm a possibilidade de do MST.
expressar, de fato, a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão.
Durante períodos de exceção no Brasil, como durante a ditadura militar
Caminhos de atuação na formação do método “O desenho do possível”
(1964-1985), colaboraram com a resistência ao ensino desvinculado da
realidade, através de importantes participações em comunidades,
A atuação do Grupo articula várias ações na construção de uma proposta
comissões e ações junto aos movimentos sociais, contribuindo com a
metodológica de organização do espaço, compartilhando a ciência em
oposição às ações governamentais que negavam os direitos sociais.
projetos populares, na construção de alternativas às necessidades
Após a democratização do País, essa resistência diluiu-se nas escolhas
específicas dos projetos de assentamentos chamados de “reforma
políticas de atuação, assim como perdeu um pouco do fio condutor
agrária” e as possibilidades da formação de profissionais arquitetos,
articulado entre os poucos cursos existentes até o início da década de
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qualificados para atuarem enquanto parte de sua assessoria técnica. desconhecendo suas realidades financeiras. Outro agravante é a sua
Tendo como principais referências metodológicas H. Lefebvre e C. rigidez no cumprimento de tarefas, o que torna quase inviável a
Brandão, a metodologia adotada cria parâmetros para o desenho de continuidade do trabalho coletivo organizado e assistido, sobretudo com
assentamentos rurais, enquanto reflexo do vivido e das expectativas de a falta de infraestrutura, as distâncias e os problemas sazonais do campo.
organização do Movimento, através de um processo de planejamento O desenvolvimento de suas atividades requer o conhecimento das
participativo. São implementadas, também, ações em parceria com o especificidades da questão agrária, da habitação social e do debate
INCRA e o MST. Seus projetos tratam de retroalimentar possibilidades teórico, este consolidado no grupo de estudo sobre a contribuição de
metodológicas de propostas de pesquisa participante em mutirões Henri Lefebvre. Sua concepção de vida cotidiana e método também são
habitacionais assistidos, como parte complementar do aprendizado sobre incorporados na compreensão das necessidades específicas dos
a assistência técnica para a realidade do campo. Portanto, o trabalho de assentamentos do MST, movimento de maior expressividade no País
parceria com movimentos populares requer a compreensão de suas desde as duas últimas décadas do século passado.
características, potencialidades e limites, além da capacidade de São vários tipos de ação na releitura das propostas organizativas no
espacializar o seu ideário, no chamado “O desenho do Possível”. Quanto planejamento e gestão das ações de intervenção em cada momento
à parceria com o Estado, tem-se dado através do INCRA/RN, com rupturas vivenciado, de acordo com a conjuntura política. No momento atual,
e continuidades, de acordo com os momentos políticos/gestores, articulam-se vários grupos envolvidos com a temática, na perspectiva de
diferenciando-se ao longo desse percurso. Partindo das diretrizes interferir na política habitacional direcionada ao mundo rural,
organizacionais do movimento parceiro, o MST, o GERAH tem desenvolvido acrescentando-se, além dos estudados assentamentos coordenados
e avaliado, sistematicamente, parâmetros a partir das experiências que pelo MST, os de outros movimentos, os dos pequenos proprietários rurais
participa e avalia, integrando a pesquisa à extensão e ao ensino. e dos povos das águas e das florestas. Para enfrentar este novo desafio,
Analisar as necessidades específicas a assentamento humano no o Grupo coordena um projeto iniciado em 2011, que possibilita a
campo, para movimento de cunho popular e rural requer compreender as articulação entre seus assessores e suas direções, na perspectiva de
sutilezas de sua cotidianidade dividida entre os assentados e sua direção contribuir com a isonomia das habitações sociais do campo e da cidade.
e entre os interesses individuais e coletivos.
Os conflitos entre o saber científico e o popular, entre o movimento e o Os projetos de pesquisa e extensão
Estado e entre direção e bases do Movimento interferem na produção de
seus habitats e habitações. Isto requer habilidade política e conhecimento Os projetos vinculados a esta experiência, assim como as disciplinas
da assistência técnica que, nem sempre está preparada para lidar com da graduação e da pós-graduação, anteriormente mencionadas,
as dificuldades advindas das diferentes concepções, assim como as confirmam a relação entre a pesquisa, o ensino e a extensão, assim
regras e normas dos diversos órgãos encarregados das políticas como entre o grupo e redes de pesquisa locais e nacionais, bem como
públicas, interferindo no andamento da obra e na gestão dos profissionais os trabalhos apresentados e publicados sobre as temáticas em foco:
envolvidos. movimentos sociais, reforma agrária, habitação de interesse social e
Apesar das mudanças inseridas a cada gestão, a responsabilidade relação entre teoria e práxis. São 18 anos de atividades de intervenção
técnica, lei federal desde dezembro de 2008, não é aplicada para tal em assentamentos rurais que alimentam propostas metodológicas para
segmento. Para o MST a habitação continua enquanto objeto de desejo e a produção de seus habitats e habitações, no campo da pesquisa
de alternativa de trabalho e remuneração, porém sem ser considerada participante.
como possibilidade de mudança. Quanto à intervenção dos moradores,
compartilhada com a grande maioria de suas direções e militância,
reproduz técnicas e hábitos tradicionais, muitos dos quais inadequados.
Com a inserção da CEF, em 2008, há relativo crescimento da
compreensão das necessidades práticas da construção de uma moradia,
trazendo exigências formais que consolidaram parte dos interesses da
metodologia do GERAH, a qualidade da construção. No entanto, trata as
entidades organizadoras dos movimentos como empresas,
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Disciplinas relaciona- Produção acadêmica Disciplinas relaciona- Produção acadêmica


Período Projetos de pesquisa Projetos de extensão Período Projetos de pesquisa Projetos de extensão
das às ações relacionada às ações das às ações relacionada às ações
2002 A UNIVERSADADE E O BORGES, Amadja Henrique. 2010 ASSISTÊNCIA TÉCNICA A CONCRETIZANDO SONHOS SEMINÁRIO
MST: Resgate das ações MST: habitats em movimeto. HABITAÇÃO DE COM O MST NA TEMÁTICO II – Henri
do Departamento e do Tipologias dos habitats dos INTERESSE SOCIAL NO CONSTRUÇÃO E NA Léfèbvre: Crítica à vida
Curso de Arquitetura e assentamentos originários do CAMPO: Possibilidades e REFORMA DE SUAS cotidiana II
Urbanismo MST nos estados de São Paulo limitações da metodologia MORADIAS: A assessoria SEMINÁRIO
e Rio Grande do Norte. (TESE de autogestão da técnica de arquitetos e TEMÁTICO I – Henri
DE DOUTORADO EM construção dos engenheiros em habitações Léfèbvre: Teoria dos
ARQUITETURA E assentamentos de interesse social no campo momentos
URBANISMO/USP) coordenados pelo MST
2003 (AÇÕES ASSOCIADAS)
2003-2004 NECESSIDADES, PROJETO DE Ateliê integrado CERQUEIRA, Maria Cândida 2011 HENRI LÉFÈBVRE, OS A ASSESSORIA TÉCNICA SEMINÁRIO MACHADO, Pascal. Interesses
EXPECTATIVAS E ASSENTAMENTO DO Teixeira de. Assentamento POSSÍVEIS - DE ARQUITETOS E TEMÁTICO II – Henri da Habitação Social: políticas e
SONHOS NO DESENHO MOVIMENTO DOS Margarida Alves: contribuição IMPOSSÍVEIS NA ENGENHEIROS EM Léfèbvre: Crítica à vida processos no Rio Grande do
DO POSSÍVEL: Proposta TRABALHADORES RURAIS para o processo de criação de CONSTRUÇÃO DO HABITAÇÕES DE cotidiana II Norte. (DISSERTAÇÃO EM
metodológica de SEM TERRA – MST uma metodologia pra o HABITAR INTERESSE SOCIAL NO ARQUITETURA E
organização do espaço ASSENTAMENTOS DO MST: desenho de habitats ASSISTÊNCIA TÉCNICA A CAMPO URBANISMO/UFRN)
físico-territorial dos O Habitat do Maria da Paz concentrados de HABITAÇÃO DE I COLÓQUIO O ESPAÇO DO
assentamentos do assentamentos rurais do MST. INTERESSE SOCIAL NO HABITAT NA OBRA DE
Movimento dos (TRABALHO FINAL DE CAMPO: possibilidades e HENRI LEFEBVRE: do rural
Trabalhadores Rurais Sem GRADUAÇÃO EM limitações da metodologia ao urbano
terra ARQUITETURA E de autogestão da
URBANISMO/UFRN) construção dos
2005-2006 O DESENHO DO A UFRN NA CONSTRUÇÃO POLÍTICA E PROJETO PAULA, Hiramisis Paiva de. assentamentos
POSSÍVEL NA DE UM PROJETO- DA HABITAÇÃO Educação e sustentabilidade: coordenados pelo MST
CONSTRUÇÃO DE UMA REFERÊNCIA DE SOCIAL II assentamentos Maria da Paz- 2012 A POLÍTICA DO HABITAT O VERSO DO REVERSO NA SEMINÁRIO MEDEIROS, Cecília Marilaine
REFERÊNCIA ASSENTAMENTO DE João Câmara/RN. (TESE DE DO CAMPO: CONSTRUÇÃO DO HABITAT TEMÁTICO II – Henri Rego de. Mutirão x
REUSO DE AGUA REFORMA AGRÁRIA DOUTORADO EM PERSPECTIVAS E DO CAMPO: gênero, Léfèbvre: Crítica à vida organicidade: Reflexões sobre
RESIDUARIA EM 1º. COLÓQUIO DE EDUCAÇÃO/UFRN) DESAFIOS participação e cidadania cotidiana I os processos de construção
ASSENTAMENTO RURAL HABITAÇÃO E CIDADANIA: SOARES, Vivianne Glayse A ASSESSORIA TÉCNICA coletiva dos habitats dos
ORGANIZAÇÃO E Habitação de Interesse Social Mafra. A construção de um DE ARQUITETOS E assentamentos rurais
PRODUÇÃO DO ESPAÇO no Campo habitat rural: gestão e projeto ENGENHEIROS EM coordenados pelo MST no RN.
SOCIO-AMBIENTAL: O DESENHO DO POSSÍVEL: do assentamento Resistência HABITAÇÕES DE (DISSERTAÇÃO EM
Subprojeto do Projeto: A UFRN e o MST na Potiguar I. (TRABALHO FINAL INTERESSE SOCIAL NO ARQUITETURA E
Práticas sociais e implementação de uma DE GRADUAÇÃO EM CAMPO: ampliação, reuso de URBANISMO/UFRN) – EM
processos educativos na metodologia-referência para a ARQUITETURA E águas residuais e o ANDAMENTO
educação no campo autogestão e construção de URBANISMO/UFRN) planejamento das áreas livres
assentamentos rurais PINTO, Pedro Henrique em assentamentos
Pinheiro Xavier. Participação e coordenados pelo MST
resistência: a construção
coletiva do assentamento
resistência I-RN.
(MONOGRAFIA EM CIÊNCIAS
SOCIAIS)
ALGUNS MOMENTOS DE ATUAÇÃO DO GRUPO
2007-2008 HABITATS EM PROJETOS DE TÓPICOS ESPECIAIS
MOVIMENTO: CONSTRUÇÃO E REFORMA EM ARQUITETURA E
Possibilidades e limitações DAS HABITAÇÕES DOS URBANISMO – Henri
da metodologia de ASSENTAMENTOS RURAIS Léfèbvre: Do rural ao
autogestão da construção DO MST urbano
dos assentamentos
coordenados pelo MST na
melhoria de suas
habitações
2009 A CASA DOS SONHOS DO CONCRETIZANDO SONHOS ASSISTÊNCIA CERQUEIRA, Maria Cândida
MST: Mudança nos sonhos, COM O MST NA TÉCNICA A Teixeira de. A assistência
desejos e expectativas das CONSTRUÇÃO DE SUAS HABITAÇÃO DE técnica nos habitats do MST e
famílias do campo nos MORADIAS: A assessoria INTERESSE SOCIAL o papel do arquiteto e
projetos de assentamentos técnica de arquitetos e TÓPICOS ESPECIAIS urbanista. (DISSERTAÇÃO EM
rurais vinculados ao MST a engenheiros em habitações EM ARQUITETURA E ARQUITETURA E
partir da assistência técnica de interesse social no campo URBANISMO 03 – URBANISMO/UFRN)
do GERAH CONCRETIZANDO SONHOS Henri Léfèbvre: Do rural MEDEIROS, Cecília Marilaine
COM O MST NA ao urbano Rego de. Arquitetura da terra e
CONSTRUÇÃO DE SUAS POLÍTICA E PROJETO transformação das referências
MORADIAS: Curso de DA HABITACAO de morada do MST.
capacitação de mutirantes SOCIAL II (TRABALHO FINAL DE
HABITAT E CIDADANIA NO GRADUAÇÃO EM
CAMPO: As experiências do ARQUITETURA E
Grupo de Estudos em URBANISMO/UFRN)
Reforma Agrária e Habitat
nos assentamentos rurais
coordenados pelo MST no RN
(documentário)
HABITAT E CIDADANIA:
Metodologias intervenções e
assessoria técnica a
habitações de interesse social
no campo
O ESPAÇO DO HABITAT NA
OBRA DE HENRY
LÉFÈBVRE
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A repercussão: uma formação integrada e interdisciplinar

A experiência prática para a formação do arquiteto e urbanista tem um


peso significativo. Este relato tem o objetivo de mostrar, do ponto de vista
do estudante de arquitetura e urbanismo, como foram articuladas as
atividades formativas de ensino, pesquisa e extensão e em que
contribuíram para o desenvolvimento das habilidades profissionais.
A partir do terceiro período do curso, começamos a desenvolver
atividades relacionadas à extensão universitária, acompanhando o
GERAH nas ações de assessoria ao MST – naquela ocasião, ao
assentamento Maria da Paz, localizado no Município de João Câmara/
RN, onde se trabalhou a idealização do projeto de parcelamento do solo
do assentamento, bem como o da moradia. Enquanto bolsista de extensão
e também voluntária na pesquisa, nossa participação se dava com o
acompanhamento e desenvolvimento de relatórios das visitas à área,
assim como colaboração com o desenvolvimento de desenhos e
maquetes. Dessa forma, passamos a contribuir com a construção de
plantas e mapas para subsidiar as oficinas e discussões com os
assentados. Nesta atividade especificamente, trabalhamos com a
interpretação de mapas específicos: hidrologia, vegetação, tipo de solo e
topografia, assim, dada a escala de trabalho (um assentamento rural de
1.170 ha) e, ao mesmo tempo, o nível de detalhes exigido (arruamento e
loteamento em concordância com essas informações, especialmente a
topografia) proporcionou um exercício para o desenvolvimento de
elementos que só foram abordados nos anos seguintes da graduação.
Elementos do desenho urbano eram adaptados para a realidade rural,
como por exemplo, a necessidade de uma via de circulação do gado,
além das informações sobre a legislação ambiental.
Estes aprendizados citados não foram os únicos, para além dessas
questões técnicas, o maior aprendizado se deu com o acompanhamento
do processo de planejamento participativo com o grupo, de como se dá a
troca entre o saber técnico e o popular. Para tanto, foi necessário criar
estratégias de apresentação das informações para que pudessem ser
compreendidas pelos assentados e assim, munidos deste conhecimento,
agregarem a sua experiência para propor soluções que, muitas vezes,
foram surpreendentes para a assessoria.
O segundo momento dessa experiência se deu no acompanhamento
do processo construtivo das moradias do assentamento, em regime de
mutirão. Nesse caso, podemos elencar alguns pontos importantes: o
fato do mutirão ter assessoria técnica de um grupo que tem a pesquisa
participante como método foi, de certa forma, muito bom também para
nosso aprendizado, uma vez que a troca de saberes e as orientações
serviam para nossa compreensão; a vivência em um canteiro de obra
possibilitou o entendimento da importância do planejamento e da
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organização para a obra, do almoxarifado à organização das equipes de que o INCRA durante muito tempo construiu no país todo; a segunda diz
construção; outro ponto interessante foi o conhecimento do andamento respeito à apropriação dessa base do mutirão como forma de trabalho
dos serviços executados na construção das moradias – da fundação ao coletivo em todas as tarefas desenvolvidas nos coletivos e em todos os
acabamento. momentos de luta, ou seja, tratava-se de uma prática coletiva consolidada,
O acompanhamento desse processo tornou possível o base de sua práxis do MST em todos os seus processos organizativos.
desenvolvimento de um projeto de pesquisa que teve como objetivo a Os trabalhos desenvolvidos nessas disciplinas levaram as ações
elaboração de manuais para lideranças e bases do MST sobre a desenvolvidas na pesquisa e na extensão para a inseri-las como parte
organização da construção coletiva de suas moradias, sendo desenvolvido de nossa formação no curso. Foi uma iniciativa nossa de levar para a
apenas um volume, intitulado: Mutirão por autogestão das habitações, discussão em sala de aula um novo universo de estudo para o estudante
que esclarece de que forma podem ser formadas as equipes do processo de arquitetura e urbanismo, que envolve os movimentos sociais,
de construção e qual o papel de cada uma. Essa experiência veio assentamentos rurais e habitação de interesse social.
repercutir posteriormente no nosso objeto de estudos para o mestrado. No ano de 2007 o GERAH dá início ao trabalho com o universo de
Em 2005, quando o GERAH passou a assessorar o pré-assentamento antigos assentamentos rurais, com o levantamento da situação das
Resistência Potiguar 1, colaboramos na realização de oficinas de moradias e desenvolvimento de projetos de melhoria e ampliação das
desenvolvimento dos projetos do habitat e da moradia, juntamente com a mesmas. Nossa participação se deu com a contribuição do método,
estudante de arquitetura e urbanismo Vivianne Soares, que estava desenvolvido pelo Grupo, para essa assessoria, desenvolvendo um
desenvolvendo seu Trabalho Final de Graduação sobre aquela modelo de dossiê e planejamento para o processo de construção. Essa
experiência. Para nós, essas oficinas são momentos onde o exercício da colaboração já mostrou o aprendizado que ganhamos com o
troca de saber é muito claro. Esse foi o nosso maior aprendizado. Naquele acompanhamento das experiências anteriores.
caso, se deu a partir da apresentação de possibilidades técnicas para Quando já estávamos no último ano do curso, o GERAH volta a trabalhar
que os futuros moradores pudessem aprender e se apropriar dessas com os novos assentamentos, no entanto, com uma nova configuração:
possibilidades para criar o desenho ideal do seu futuro habitat, acrescenta-se aos agentes envolvidos – os assentados, o MST e o INCRA:
acrescentando à proposta os seus hábitos, necessidades e sonhos. a CEF, o que por sua vez, vai suscitar uma adequação ao método de
No decorrer do processo, foi necessário o nosso afastamento dos trabalho do Grupo. Assim como nas assessorias aos assentamentos
trabalhos de campo por motivos de licença gestante, o que por sua vez, Maria da Paz e Resistência Potiguar 1, no caso do Bernardo Marim e
possibilitou acessar o conhecimento complementar à temática que Roseli Nunes, nossa contribuição foi no acompanhamento e atendimento
trabalhamos, através de disciplinas do curso de Serviço Social, que às demandas do desenvolvimento da obra, além da participação da equipe
tratavam especificamente sobre Movimentos Sociais e sobre a Formação de gestão do processo, composta por pesquisadores do Grupo e
Social, Econômica e Política do Brasil e do Nordeste. Isso nos fez militantes do MST. Nossa maior contribuição, e da mesma forma
aprofundar, do ponto de vista teórico, o teor político e social inerente às aprendizado, se deu no entendimento e atendimento das demandas da
experiências que acompanhamos. Além dessas disciplinas, outra foi CEF, ora traduzindo as normas deste órgão para o Movimento e
muito importante para observar as questões teóricas próprias do modo assentados, ora transpondo a situação no canteiro das obras para
de morar dos acampados e assentados do MST, universo tratado no responder as exigências desse agente. Como continuidade a esse
trabalho desenvolvido para a disciplina Morada Brasileira, do Curso de trabalho, com a conclusão do curso, passamos a acompanhar enquanto
Arquitetura e Urbanismo. Naquela ocasião, nos propomos a desenvolver responsável técnica pelo processo.
uma pesquisa que abarcasse esse universo, que foi aceito pela O resultado de toda essa vivência com a assessoria técnica a um
professora. Posteriormente, desenvolvemos também um trabalho para a movimento social, ao universo da habitação de interesse social, apontou
disciplina Planejamento e Projeto Urbano e Regional 04, que novamente com um diferencial no tema desenvolvido no Trabalho Final de Graduação
se voltou para os acampamentos e assentamentos do Movimento, mas – TFG. Esse, tratou das referências de morada do MST e dos assentados,
agora para tratar das referências e expectativas com relação à moradia acrescentando uma questão proposta pelo GERAH em várias experiências
por parte desses grupos. Esse trabalho, em especial, apontou para duas que trabalhou, mas que não foi aceita pelos grupos assessorados:
questões: a primeira, é que as experiências assessoradas pelo GERAH tecnologias de construção não convencionais. Nos casos em que o Grupo
possibilitaram que as novas bases perdessem a referência dos projetos propôs agregar algum tipo de tecnologia diferenciada eram recebidas de
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forma resistente, o que é muito justificado se lembrarmos de que muitos


daquelas famílias viveram sua vida toda em casas de taipa, portanto, Conclusões
uma referência que guarda em si lembranças de situações que gostariam Objetivamos demostrar neste artigo, a importância da indissociabilidade
de superar. Por isso, o sonho dessas famílias é o que não lhes é das atividades-fim da universidade, através das experiências de um grupo
tradicional e que representa uma melhoria nas suas condições de morada: de estudos, o GERAH. Sobre a ótica de duas perspectivas de uma mesma
construções convencionais de tijolo cerâmico. Entendemos assim, que reflexão, apontamos a importância dessa articulação no olhar do docente
não existe uma referência concreta de construção com esse tipo de e do discente.
tecnologia, comumente chamada de alternativa, que lhes demonstrasse A partir de uma metodologia que tem como base a pesquisa participante
uma situação diferente das vivenciadas por eles. Assim, desenvolvemos e da articulação direta com necessidades reais e atuais de um movimento
um trabalho de assessoria ao MST para a idealização e construção de social, experimenta-se conteúdos algumas vezes estranhos ao cotidiano
moradias construídas com blocos de adobe para seus militantes, a serem da arquitetura e do urbanismo, mas oportunos de serem trabalhados
construídas no Centro de Formação do Movimento no Estado, e assim, tanto na pesquisa quanto em sala de aula. Dessa forma, as disciplinas
construir uma nova referência de morada. Nosso trabalho percorreu desde da graduação e da pós-graduação formadas a partir das experiências do
o processo de discussão dos projetos, negociações com o Governo do referido grupo são uma oportunidade de conhecimento das possibilidades
Estado para financiamento da experiência, até a formação dos assentados metodológicas dos mutirões habitacionais e aprendizado sobre a
para a confecção dos adobes e construção com os mesmos. O TFG foi assistência técnica e a realidade habitacional do campo. Assim como a
concluído sem que o financiamento pudesse ser atendido, mas a disciplina teórica baseada na obra de Henri Lefebvre vem engrandecer o
experiência foi de grande contribuição para o GERAH, na medida em que, debate entre a relação da teoria com a práxis, do concebido com o vivido
aplicando sua metodologia numa situação específica, pode refletir sobre e da vida cotidiana e social.
a aplicabilidade dessas tecnologias junto ao Movimento, que respondeu A experiência de formação acadêmica e prática, apresentada no relato
de forma contraditória as nossas expectativas, demonstrando que a da aluna, demonstra como puderam ser trabalhados e exercitados o
resistência a essas tipologias não é só dos assentados; assim como conhecimento do curso e da vivência em torno dos assentamentos rurais
mostrou que os desafios da organização e participação no mutirão não e a relação entre essas, até então, desconhecidas formas de
dizem respeito apenas às bases, a militância e direção do Movimento conhecimento. Mostrou que a experiência com ações participativas, com
compartilham das mesmas contradições que suas bases. o desenho de habitats rurais e canteiros de obra autogeridos foi importante
Essas experiências vivenciadas no lócus de sua realização resultaram complemento ao conteúdo do curso e fomentou o interesse da estudante
em um aprendizado que é difícil mensurar, mas plausível de apontar sua na busca por conhecimentos complementares, expandindo sua formação
repercussão. O histórico aqui apresentado tem o objetivo de mostrar com disciplinas de outras áreas. Como resultado desse processo de
alguns elementos que, em conjunto com a formação em sala de aula, amadurecimento teórico e prático, seu Trabalho final de graduação
possibilitaram um amadurecimento e uma experiência da prática abordou os três campos da formação do Arquiteto e Urbanista –
profissional, culminando na forma em que foi desenvolvido o Trabalho planejamento, projeto e tecnologia.
Final de Graduação. Mas também, muitas dúvidas foram acumulando, A experiência com assistência técnica a habitação social, o contato
assinalando a necessidade de um aprofundamento teórico que, por sua com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra do Brasil – MST,
vez, resultou num projeto de pesquisa para o mestrado, atualmente em com os assentamentos rurais, com a vida cotidiana das famílias
fase de conclusão. A problemática da dissertação foi observada no assentadas, com seus sonhos, suas necessidades e todas as
decorrer do processo aqui descrito, a partir da observação dos conflitos contradições que envolviam aquele contexto compuseram um
das experiências que acompanhamos, dessa forma, trata da relação conhecimento além do planejamento e da técnica acadêmica da
entre os processos de construção coletiva dos habitats dos universidade. Como consequência, ao se graduar a aluna passa a ser
assentamentos rurais coordenados pelo MST e a sua organicidade e responsável técnica pelas obras assessoradas pelo GERAH,
visa contribuir com a compreensão da importância desse processo para compartilhando do método, sempre em construção, assim como
a organicidade do Movimento. contribuindo com as pesquisas e descobertas do Grupo.
Dessa vivência nos canteiros de obra, nos assentamentos rurais,
reuniões, assembleias, discussões, articulações, muitas indagações
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foram se acumulando dessa prática, culminando num projeto de pesquisa Andrade (Org.). Metodologia do trabalho social: a experiência da extensão
para o mestrado, resultado da reflexão de todas as experiências universitária. 1. ed. Natal: EDUFRN, 2006.
vivenciadas durante a graduação. BORGES, Amadja H.; MEDEIROS, Cecília M. R.; CERQUEIRA, Maria C. T.
No campo da arquitetura e do urbanismo, faz-se necessário novos Redesenhando com o MST o habitat da Reforma Agrária. In: I Congresso
aprendizados para se lidar com outras demandas e se, realmente, cumprir Internacional Sustentabilidade e Habitação de Interesse Social, 2010, Porto
o papel social da profissão e do ensino desta. Afinal de contas, para que Alegre. Anais do I Congresso Internacional Sustentabilidade e Habitação
serve a Lei 1.888, de Assistência Técnica para Habitação de Interesse de Interesse Social. Porto Alegre: PUC-RS, 2010. v. 1. p. 1-11.
Social, se não ensinamos - e aprendemos – a lidar com os objetos mais _______. Lei da Assistência Técnica e os desafios frente aos projetos de HIS no
importantes de sua conquista, os movimentos sociais e a necessidade campo: a experiência da parceria Universidade, Estado e Movimento no
RN. São Paulo, ABEA. Anais do XXVII ENSEA. 2009.
do profissional se expor, ousar buscar soluções técnicas e políticas quase
impossíveis, em momentos de conflitos de interesses? Como se inserem BORGES, Amadja. H.; BERTOLINI, Valéria A.; MEDEIROS, Cecília M. R. Habitação
de interesse social nas universidades. In: ENCONTRO NACIONAL SOBRE ENSINO
nesta lógica, os projetos pedagógicos – ex-político-pedagógicos – das
DE ARQUITETURA E URBANISMO, Goiânia. Anais eletrônicos... 2006.
nossas escolas? Os nossos interesses pedagógicos? A nova lei será
mais uma lei esquecida? Ou esqueceremos de ensinar sua origem, a BRANDÃO, Carlos R. (Org.). Pesquisa participante. 4. ed. São Paulo: Brasiliense,
1981.
sua trajetória histórica e ela será adaptada a outros fins, muitos dos
quais avessos ao conquistado? Assim sendo, busca-se enfatizar “No _______. Repensando a pesquisa participante. 3. ed. São Paulo: Brasiliense,
1987.
verso do reverso...”, a importância da troca entre saberes, entre o científico
e o popular, entre diferentes ramos do conhecimento, entre o do professor BRANDÃO, Carlos R.; STRECK, Danilo R. (Org.). Pesquisa participante: o saber
e do aluno, na perspectiva de contribuir na transformação da realidade da partilha. Aparecida, SP: Idéias & Letras, 2006.
existente, na relação da ordem próxima com a ordem distante, do específico CERQUEIRA. Maria C. T. A assistência técnica nos habitats do MST e o papel do
arquiteto e urbanista. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo)
com o geral porque, como diz Henri Lefebvre,
– Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da
“O mundo é o espelho do homem porque ele é sua obra: a
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 2009.
obra de sua vida prática, cotidiana. Mas não é um espelho
passivo. O homem se conhece, toma consciência de si na LÉFÈBVRE, Henri. Critique de la vie quotidienne. Vol. I: Introduction. Paris:
sua obra. Ela vem dele, mas ele vem dela, ela é feita por ele, L’Arche Ed. 1958.
mas ele se faz nela e por ela.” Henri Lefebvre (1977, p.176). _______. Critique de la vie quotidienne. Vol. II: Fondements d’une sociologie de
la quotidienneté. Paris: L’Arche Ed. 1962.
_______. Du rural à l’ urbaine. Paris: Anthropos, 1970.
Referências
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São Paulo: Brasiliense, 1996. – Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da
BOGO, Ademar. Lições da Luta pela Terra. Salvador: Memorial das Letras, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 2012.
1999. MEDEIROS, Cecília M. R. Arquitetura da terra e a transformação das referências
BORGES, A. et al. A moradia enquanto instrumento de aproximação entre as de morada do MST. Trabalho Final de Graduação (Graduação em Arquitetura
bandeiras de luta dos movimentos do campo e da cidade. In: LEAL, Suely e e Urbanismo) – Departamento de Arquitetura da Universidade Federal do
LACERDA (org.). Novos padrões de acumulação Urbana na produção do Rio Grande do Norte, 2009.
habitat: olhares cruzados Brasil França. Recife, Ed. Universitária da UFPE, PAULA, Hiramisis P. Educação e sustentabilidade: assentamento Maria da
2010. Paz – João Câmara/RN. Tese (Doutorado em Educação Ambiental) –
BORGES, Amadja H. MST – Habitats em movimento: tipologias dos habitats Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do
dos assentamentos originários do MST nos estados de SP e RN. Tese Rio Grande do Norte, 2005.
(Doutorado em Planejamento Urbano e Regional) – Programa de Pós- SOARES, Vivianne G. M. A construção de um habitat rural: Gestão e Projeto
Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Arquitetura da do Assentamento Resistência Potiguar I. Trabalho Final de Graduação
Universidade de São Paulo, 2002. (Graduação em Arquitetura e Urbanismo) – Departamento de Arquitetura da
_______. O desenho do possível: a UFRN e o MST na construção de um projeto- Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 2006.
referência de assentamento de reforma agrária. In: Ilza Araújo Leão de
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A EXTENSÃO COMO LABORATÓRIO DA ideológica, em uma atividade de extensão. O que é inquestionável é que
quando essas áreas se conectam e se somam obtém-se um profissional
PRÁTICA PROFISSIONAL DOS muito mais qualificado.
Ora, o campo do ensino promove um exercício contínuo de estímulo do
ESTUDANTES saber do professor, que através da exposição de ideias na sala de aula e
Bartira Freitas CALADO da construção de respostas às dúvidas dos alunos, vai consolidando
Graduanda do CAU, Universidade Federal do Rio Grande do Norte. seu conhecimento, ampliando suas reflexões e se abrindo para novas
bartiracalado@yahoo.com.br perspectivas. Aqui a construção do conhecimento se dá através dialética
gerada pela necessidade de transmissão do conhecimento para outro
RESUMO ser, e ocorre através da palavra.
Qual a importância da atividade de Extensão para o aprendizado de No campo da pesquisa o professor se torna aluno e os livros, seus
Arquitetura e Urbanismo? Que novas perspectivas essa atividade pode professores. Por isso, a pesquisa é fundamental para a capacitação do
delinear para o estudante da área? Várias são as questões que surgem profissional, seja ele professor ou estudante. Observa-se que o
quando se analisa a sua prática e importância no processo de ensino- intercâmbio de conhecimento ocorre principalmente através da escrita, e
aprendizagem. Esse trabalho traz algumas reflexões, do ponto de vista atualmente, através dos meios tecnológicos e da globalização; não
do estudante, sobre esse tema, que foram delineadas a partir da existem mais fronteiras para a troca de saber, podendo-se estar no Polo
experiência vivida no Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFRN, em Norte ou Polo sul, a comunicação acontece quase que instantaneamente.
especial nas atividades desenvolvidas no Grupo de Estudos em Reforma Portanto, pode-se ter acesso ao que se está estudando e produzindo em
Agrária e Habitat (GERAH). Durante o processo foi possível perceber quais determinado assunto no mundo inteiro, o que torna a pesquisa uma
as competências e habilidades que o aluno de arquitetura e urbanismo ferramenta preciosa.
deve desenvolver para aprender a lidar com conflitos e saber contornar No trabalho de extensão tem-se a oportunidade de vivenciar como a
as diferentes situações que surgem na prática em comunidades. Dessa teoria acontece na prática. Percebe-se que o conhecimento da extensão
maneira, a atividade de extensão se transforma em um laboratório que ocorre através das relações do cotidiano, e isto quase sempre implica
através do cotidiano vivido vai amadurecendo o aluno para sua futura em equações que não são precisas, já que as variáveis são muitas e
diversas: como os sonhos das pessoas; o desejo de um que pode ser
prática profissional.
diferente do outro; os sentimentos de empatia e antipatia; os costumes
locais; as crenças; entre outros. No caso deste trabalho, faz-se uma
PALAVRAS CHAVE: extensão, ensino-aprendizado, prática profissional.
reflexão sobre o resultado de práticas de extensões realizadas pelo Grupo
de Pesquisa GERAH, do Curso de Arquitetura e Urbanismo da
O TRABALHO DE EXTENSÃO VERSUS A ATIVIDADE DE ENSINO E
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, que envolve assistência
PESQUISA
técnica em dois assentamentos do Estado do Rio Grande do Norte, que
A Extensão é a atividade acadêmica que está relacionada diretamente
mostram como a Extensão é uma prática muito importante no processo
com a prática, é realizada, normalmente, fora da universidade, em uma
de ensino e aprendizagem, na medida em que torna o professor e os
comunidade, em um bairro, ou com um grupo de pessoas determinadas,
estudantes muito mais aptos para atuarem junto a qualquer comunidade,
no intuito de auxiliar através do conhecimento adquirido na academia,
capacitando-os a desenvolver competências que não são requisitadas
diversas ações.
em sala de aula, ou seja, aprender a lidar com as adversidades que
Na universidade existem os campos de ensino, de pesquisa e de
surgem, principalmente quando se pretende trabalhar de maneira coletiva
extensão. Eles podem funcionar individualmente e ao mesmo tempo como
e participativa.
um todo: pode-se ensinar sem desenvolver pesquisa ou trabalhos em
extensão; assim como se pode trabalhar por um tempo apenas na
A ATIVIDADE DE EXTENSÃO DE EMBELEZAMENTO DAS ÁREAS DE USO
pesquisa e não estar ensinando ou praticando alguma atividade de
COLETIVO NOS ASSENTAMENTOS ROSELI NUNES E ROSÁRIO NO
extensão; como também, pode-se ter um professor que esteja afastado,
ESTADO DO RN
sem ensinar e praticar pesquisar e que esteja envolvido, por uma questão
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O GERAH é um grupo de pesquisa que atua no Estado do Rio Grande Foto 01: Reunião de apresentação do projeto no Assentamento Roseli Nunes.
Fonte: acervo do GERAH, 2012.
do Norte há 18 anos prestando assistência técnica no campo e lutando
O primeiro assentamento escolhido para se beneficiar desse projeto de
para que esse seja um direito adquirido por toda população rural,
extensão da universidade, subsidiado pela verba federal do MEC_SISU
principalmente aquela menos favorecida. O grupo acredita que a
foi o Assentamento Roseli Nunes. A escolha levou em consideração o
assessoria técnica prestada por um arquiteto possibilita um planejamento
fato de ser uma área conhecida, na qual o GERAH já vinha prestando
mais eficiente das atividades de implantação do espaço físico do habitat,
assistência técnica desde o inicio do planejamento das habitações na
já que são competências desse profissional o domínio do estudo do
comunidade. O processo foi iniciado: foram realizadas oficinas para
planejamento físico-espacial que garante uma série de benefícios aos
apresentar o projeto à comunidade, no intuito de mobilizar as pessoas
seus usuários, como a qualidade estética, funcional e de conforto das
para a oportunidade de elas construírem áreas agradáveis de uso comum,
habitações, assim como o uso racional e sustentável de toda a área
que poderiam ter mobiliário, parque, quadra, o que a eles julgassem ser
onde será implementado o projeto.
sua maior necessidade ou sonho. Mas para surpresa de todos, o
Neste caso relatado, a atividade de extensão tinha como objetivo
processo teve que ser interrompido devido ao pouco envolvimento das
promover o embelezamento de um assentamento rural, ou seja, fazer um
pessoas da região: marcava-se a reunião e poucos apareciam; outro
projeto para a área de uso coletivo da população, segundo os moldes da
fator negativo foi a divisão do assentamento em duas associações que
metodologia trabalhada pelo GERAH. Resumidamente, o grupo trabalha
promovia constantes disputas de poder e desestimulavam a ação em
com concepções do filósofo e sociólogo Henri Lefebvre, que defende que
conjunto dos assentados. O processo demorou alguns meses e a partir
é fundamental no processo de compreensão e produção do espaço o
dele foi possível estabelecer várias reflexões que serão abordadas mais
diálogo entre os diversos saberes (método regressivo-progressivo), onde
adiante.
deve ser relevante não apenas aspectos técnicos, mas aspectos da vida
Depois disso, tentou-se mais um assentamento em que o GERAH
cotidiana e do sonho dos grupos sociais envolvidos no processo, e
também já havia prestado assistência técnica há alguns anos, mas na
também com a técnica de pesquisa-ação com proposições de Carlos
primeira visita de vistoria se verificou que o mesmo apresenta problemas
Brandão e perspectivas de teses desenvolvidas pelo Grupo.
parecidos com os enfrentados no Roseli Nunes: disputa de associações
De maneira geral, a ação nos assentamentos ocorreu obedecendo às
e falta de união da coletividade. Por isso, optou-se por outro assentamento,
seguintes etapas: escolha do assentamento; visita de reconhecimento e
o Rosário, onde finalmente, foi possível desenvolver o projeto de extensão
medição da área; reunião geral com os assentados para apresentação
que atualmente está iniciando sua etapa de execução, com previsão de
do projeto e para conhecer as necessidades da comunidade; elaboração
conclusão dos trabalhos para o final de fevereiro de 2013.
de várias propostas de uso da área baseada nos sonhos e desejos dos
moradores, com maquetes e desenhos. Uma vez aprovado o projeto,
REFLEXÕES SOBRE A PRÁTICA DE EXTENSÃO E O PROCESSO DE ENSINO
parte-se para a etapa de construção através de mutirões. E APRENDIZADO NO CURSO DE ARQUITETURA E URBANISMO
Que lições essas experiências trouxeram para o trabalho de extensão e
para o processo de aprendizagem do aluno? Primeiro que é fundamental
para o desenvolvimento de um projeto de extensão que a comunidade
selecionada entenda e deseje aquele projeto; que o veja como uma
oportunidade que trará benefícios para a localidade. É impressionante
observar como o trabalho se desenvolve bem quando a população “abraça
a causa”. Para se ter uma ideia, no segundo encontro no Assentamento
Rosário, a comunidade já estava organizada, com um grupo de pessoas
destinadas a dar suporte as ações promovidas pela universidade, com
um programa de necessidades já resolvido do que gostariam que o projeto
da praça contemplasse.
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como a percepção da dinâmica das relações sociais e sua influência no


processo de produção de um projeto.
Quando o aluno percebe que o planejamento prévio de uma ação numa
comunidade tem variáveis que estão além das previstas ao se elaborar
um projeto, torna-se muito mais consciente do trabalho que terá que
enfrentar e desenvolver para resolver satisfatoriamente uma situação.
Dessa maneira, a atividade de extensão se transforma em um laboratório
que através do cotidiano vivido vai amadurecendo o aluno para sua futura
prática profissional.
Pode-se dizer também que a prática na extensão torna o professor-
pesquisador mais aguçado para refletir sobre as questões que surgem
no campo teórico, capacita-o para ensinar e promover de maneira mais
adequada a formação do aluno.
Isto posto, comprova-se a importância da atividade de extensão no
Foto 02: Projeto aprovado para o espaço de uso coletivo do Assentamento Rosário. processo de ensino-aprendizado do estudante de Arquitetura e Urbanismo
Fonte: acervo do GERAH, 2012. e de como a ação de um bom profissional pode contribuir para transformar
a vida das pessoas, através de uma intervenção apropriada dos espaços
físicos do seu habitat, no caso citado neste artigo, nos habitats dos
Ficou muito clara a diferença de receptividade do projeto entre os dois
assentamentos rurais, entendidos não somente como residência, mas
assentamentos e de como isso é delimitador de uma ação que terá
como o espaço onde o indivíduo desenvolve sua vida diária, com seu lote
sucesso ou não, mostrando a importância de se criar um elo entre o
de moradia, área de equipamentos sociais de uso coletivo que na maioria
proponente da atividade de extensão e os beneficiados, que
dos casos inexiste.
necessariamente deveriam entrar com uma contrapartida no projeto, ou
seja, seu envolvimento, sua organização e engajamento na ação. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
A experiência nas atividades de extensão descritas há pouco também BORGES, Amadja Henrique. MST:Hábitos no rural em movimento. Tese de
doutorado. FAU/USP. São Paulo. 2002.
trouxeram novas perspectivas sobre a prática do futuro profissional de
Arquitetura e Urbanismo, mostrando que muitas vezes a teoria não é ______________. O desenho do possível: a UFRN e o MST na construção de um
suficiente para resolver problemas que surgem nas práticas cotidianas. projeto referência de assentamento de reforma agrária. In: ANDRADE, Ilza Araújo
Leão de (Org.). Metodologia do trabalho social – a experiência da Extensão
Visto dessa maneira, a extensão tornar-se muito importante para Universitária. Natal-RN: EDUFRN Editora da UFRN,2006. P. 57-71.
complementar o aprendizado promovido pelo curso, já que ela desenvolve
___________, MEDEIROS, Cecília M. R., CERQUEIRA, Maria C., MACHADO, Pascal.
competências que dificilmente teriam oportunidade de ser trabalhadas
A moradia enquanto instrumento de aproximação entre bandeiras de luta dos
em sala de aula, como por exemplo, aprender a lidar com conflitos que movimentos do campo e da cidade. In: LEAL, Suely, LACERDA, Norma (Org.) Novos
surgem da divergência de opiniões e desejos de uma coletividade; saber padrões de acumulação urbana na produção do habitat: Olhares cruzados:
contornar as diversas situações sem comprometer a qualidade técnica Brasil-França/Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2010. P. 414-438.
do projeto, propondo medidas eficientes que conciliem o desejo da BRANDÃO, Carlos R. (Org.) Pesquisa Participante. São Paulo. Brasiliense, 1986.
maioria. Tudo isso torna a atividade de extensão um desafio para o P.34-41.
estudante, que é obrigado a desenvolver um grau maior de maturidade LEFEBVRE, Henri. Do rural ao urbano. Tradução de BORGES, Amadja Henrique.
para conseguir um resultado satisfatório do seu trabalho. Et al. EDUFRN (no prelo)

CONSIDERAÇÕES FINAIS
O trabalho na extensão demonstra ser eficiente para capacitar o estudante
de Arquitetura e Urbanismo com habilidades que teriam poucas
oportunidades de serem desenvolvidas no ambiente da sala de aula,
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Nesse terreno é que entra o arquiteto e urbanista e sua formação


O EIV e a academia profissional, que este texto pretende abordar de forma sucinta, sem
pretender aprofundar o tema, mas colocar algumas questões para
Gilson Jacob BERGOC1 reflexão.
Doutor. Universidade Estadual de Londrina. Para isto será inicialmente problematizado a relação entre a dinâmica
bergoc.uel@gmail.com econômica atual e alguns dos desafios colocados pelo Estatuto da Cidade,
tomando o Estudo de Impacto de Vizinhança – EIV – como referência e a
Resumo participação do arquiteto e urbanista em equipes de elaboração desse
Ao problematizar a relação entre o Estudo de Impacto de Vizinhança – estudo, para então entrar no questionamento da formação desse
EIV –, a atuação da academia e dos profissionais envolvidos na profissional. Destaca-se nesse aspecto a necessidade de criar
elaboração deste instrumento, este trabalho identifica a baixa participação mecanismos, metodologias, que possibilitem a preparação do discente
do arquiteto e urbanista na elaboração deste estudo, em casos levantados para enfrentar a dinâmica econômica e os interesses do mercado.
em Londrina-Paraná. Questiona a forma como vem sendo abordado o Percebendo a falta de sistematização e de troca de experiências sobre o
EIV e outros instrumentos do Estatuto da Cidade na formação do arquiteto EIV e reconhecendo sua importância nas transformações urbanas em
e urbanista e aponta algumas conseqüências na atuação profissional curso ou que estão por vir, conclui propondo a realização de evento e
frente aos desafios da dinâmica econômica atual. Propõe a sistematização criação de uma rede de pesquisas nacional para aprofundar o
das experiências dos municípios brasileiros através da realização de um conhecimento sobre este e outros instrumentos urbanísticos.
evento nacional para proporcionar a troca de informações e o As transformações urbanas e o EIV
aprofundamento de reflexões sobre o assunto, além da criação de uma As transformações que estão ocorrendo no mercado de trabalho, com
rede nacional de pesquisa, que verifique a diversidade das aplicações a economia dinâmica, tem repercutido no desenho das cidades. Novos
do instrumento, subsidiando tanto a ação profissional, quanto as instrumentos estão disponíveis para que urbanistas enfrentem os
institucionais e docentes. desafios colocados, tanto pela precariedade existente, quanto pelas
Palavras-chave intervenções que as empresas realizam no ambiente urbano visando os
Estudo de Impacto de Vizinhança. Estatuto de Cidade. Instrumentos interesses do mercado, relacionado à maximização de lucros. Não se
Urbanísticos. Formação e elaboração de EIV. observa ações significativas no sentido da recuperação dos investimentos
públicos que valorizam áreas urbanas específicas. Poucas publicações
Introdução tratam da utilização dos instrumentos urbanísticos à disposição.
O Estatuto da Cidade completou onze anos, mas sua aplicação ainda Albuquerque e Lins (2006, p. 8) lembram que
esta apenas começando. Pode-se afirmar que um dos fatores importantes Entre os itens a serem avaliados no EIV, conforme a regra do art.
para levar tanto tempo entre sua aprovação e a aplicação se deve às 37 do Estatuto da Cidade, está a valorização imobiliária. Ressalta-
limitações colocadas pela correlação de forças nos municípios, onde o se que este instrumento legal estabeleceu como deveres do Estado:
a promoção da justa distribuição dos ônus e benefícios da
mercado imobiliário, que tem grande poder e facilidade de articulação,
urbanização, a tarefa de recuperar, para toda a sociedade, a
consegue impor sua lógica frente á diversidade e dispersão dos demais valorização resultante de obras públicas, entendendo que a
interesses, principalmente dos pequenos proprietários e dos não recuperação social da valorização do solo obtida como resultado
proprietários urbanos, que são desarticulados ou capturados pelo de investimentos públicos deve ser operada para garantir a
discurso dos interesses imobiliários, só para citar algumas efetivação da função social da propriedade. (ALBUQUERQUE e
condicionantes. Pode-se atribuir também à dinâmica econômica, que LINS, 2006, p. 8).
esteve parada ou em “marcha lenta” até meados dos anos 2000 e que a Gonçalves Neto (2010, 21) também aborda essa questão salientando
partir de certo momento passou a exercer uma pressão nova e constante que “o interesse coletivo deve prevalecer sobre o uso da propriedade
decorrente de políticas nacionais de aumento de renda e segurança social. individual” e que a população deve ser informada sobre os processos de
intervenção bem como da possibilidade de “recuperação dos
1. Docente do Curso de Arquitetura e Urbanismo da UEL, coordenador do Projeto de Extensão “Apoio à analise investimentos públicos que proporcionaram a valorização de imóveis
de Estudos de Impacto de Vizinhança junto ao Conselho Municipal da Cidade” e Conselheiro do Conselho Municipal urbanos”, tendo por meio a gestão democrática, com a participação da
da Cidade de Londrina – Paraná.
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população, visando garantir a função social da cidade e da propriedade Outra publicação oficial destaca que o EIV foi introduzido em função da
urbana. necessidade de avaliar os impactos “de uma sociedade que está
O Estudo de Impacto de Vizinhança – EIV – tem sido utilizado pelos assistindo ao escasseamento dos recursos naturais” (BRASIL, 2004 p.
municípios, mas pouco se sabe sobre como este instrumento tem 113) e é um instrumento
contribuído para que as empresas assumam os custos externos “integrado ao direito urbano-ambiental, que tem sua matriz no
decorrentes de seus empreendimentos. Espera-se que a formação do cumprimento da função social da propriedade. A partir da análise
arquiteto e urbanista seja suficiente para que, no processo de projeto, dos impactos é possível avaliar a pertinência da implantação do
empreendimento ou atividade no local indicado, ou seja, avaliar se o
seja capaz de resolver os impactos urbanos que as atividades decorrentes
proposto está adequado ao local, estabelecendo uma relação
dos novos empreendimentos causam no seu entorno. Entretanto, da cidade com o empreendimento e do empreendimento
considerando um conjunto de projetos relacionados a empreendimentos com a cidade, considerando o meio no qual está inserido. Além
de porte significativos e que tiveram que apresentar o EIV em Londrina – disso, a partir da avaliação de impactos é possível apontar formas
Paraná, nos meses finais de 2011, observou-se que em sua grande para mitigar o impacto gerado, ou seja, minorar os efeitos do
maioria continuam sendo feitos considerando apenas os aspectos empreendimento ou atividade no meio urbano, além de medidas
relacionados aos limites dos terrenos e aos aspectos legais compensatórias para o mesmo meio no qual a atividade ou
estabelecidos pela legislação urbanística tradicional, calcada em índices empreendimento instalar-se-á.*” (BRASIL, 2004 p. 112). (grifo
de ocupação e de aproveitamento, recuos e gabaritos entre outras nosso).
exigências que estão consolidadas. Saliente-se que parte destes projetos Depreende-se que o instrumento não se limita aos aspectos técnicos,
são oriundos de grandes metrópoles brasileiras e até do exterior, como o aos itens que deverão ser estudados, sendo que a lei estabelece como
de um grande Shopping Center que está em construção muito próximo mínimo a análise dos impactos do empreendimento ou atividade quanto
do centro histórico. ao adensamento populacional, os equipamentos urbanos e comunitários,
Qual o papel do arquiteto e urbanista e da Universidade? o uso e ocupação do solo, a valorização imobiliária, a geração de tráfego,
Por um lado pode-se questionar como os municípios estão utilizando a demanda por transporte público, a paisagem urbana, o patrimônio
os instrumentos do Estatuto da Cidade para proporcionar as natural e cultural. Além de analisar estes aspectos a vizinhança deve ser
transformações necessárias às melhorias urbanas. Por outro lado ouvida. Esses estudos devem embasar a vizinhança a tomar decisões
indagar: qual o papel que a formação do arquiteto e urbanista tem sobre a instalação do empreendimento em suas proximidades,
desempenhado para atuar na minimização e reversão desse processo? conhecendo antecipadamente as condições e conseqüências
Como as disciplinas de projeto de arquitetura e de urbanismo tratam os decorrentes da atividade que será instalada. A vizinhança compreende
instrumentos do Estatuto da Cidade? Há reflexão crítica sobre a atuação tanto os moradores quanto as atividades econômicas estabelecidas. Esse
da especulação imobiliária e o papel do Estado na construção das cidades talvez seja o ponto mais delicado e difícil para ser trabalhado no processo
brasileiras? Como vem sendo a abordagem sobre esta legislação, seus de ensino. É necessário desenvolver habilidades que nem sempre são
objetivos e instrumentos? Existe troca de experiência e reflexão entre a trabalhadas nos cursos de arquitetura e urbanismo, dentre as quais se
academia, o poder público, as empresas e a comunidade? Se existe, pode destacar a discussão das diferenças e diversidade de interesses.
como tem se processado? Outras tantas questões podem ser formuladas, Diferenças entre o causador do impacto e os moradores e proprietários
mas vamos nos ater a algumas dessas para introduzir uma reflexão da área de abrangência do empreendimento, que sofrerão os impactos
tomando o Estudo de Impacto de Vizinhança como referência. advindos da nova atividade. Apresentar para a população os aspectos
Na publicação “Estatuto da Cidade: guia para implementação pelos positivos e, principalmente, os negativos decorrentes da nova atividade,
municípios e cidadãos” consta que ouvir as críticas e sugestões, incorporá-las aos projetos, mas
“O objetivo do Estudo de Impacto de Vizinhança é democratizar o principalmente estabelecer o quanto dos custos urbanos decorrentes
sistema de tomada de decisões sobre os grandes empreendimentos das intervenções necessárias para viabilizar o empreendimento no local
a serem realizados na cidade, dando voz a bairros e inicialmente escolhido cabe ao empreendedor, repassando-o para ele
comunidades que estejam expostos aos impactos dos grandes parcial ou totalmente. As habilidades e o conhecimento necessários para
empreendimentos. Dessa maneira, consagra o Direito de Vizinhança enfrentar essa situação dependem muito da experiência profissional e
como parte integrante da política urbana, condicionando o direito de pouco dos exercícios realizados em sala, que passam longe de simular
propriedade.” (BRASIL, 2002, p. 201). (grifo nosso).
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uma situação concreta onde está em jogo interesses econômicos, arquiteto e urbanista. Engenheiros Civis, Advogados e Economistas detem
políticos, sociais e culturais. Quando muito, o processo de ensino se 57% da participação nas equipes técnicas, conforme pode ser visto no
limita a fazer os estudos técnicos e propor mitigações a partir dos gráfico 1.
exercícios que identificam alguns problemas relacionados à situação Por essa razão pode ser levantada a hipótese de que os arquitetos e
acadêmica proposta. Participar de audiências, conferências, reuniões, urbanistas não tem assumido esse trabalho como seu, ao contrário de
ouvir a população, interpretar suas preocupações e rever o projeto a partir engenheiros, advogados, geógrafos, entre outros. Cabe indagar as razões
dessa etapa acabam sendo um aprendizado relacionado ao cotidiano desse distanciamento. Será que os arquitetos e urbanistas não
profissional dos que se dedicam a este tipo de trabalho. Neste aspecto, compreendem a importância do instrumento e sua relação com a cidade?
a formação acadêmica fica muito aquém da realidade e necessidade Será que não esta sendo dada a devida importância no processo de
profissional e das demandas da sociedade. ensino? Será que estamos enfatizando o aspecto do projeto, relegando
A afirmativa acima esta baseada nos EIVs realizados até o momento, ao segundo plano os impactos decorrentes, minimizando sua
tomando Londrina como um caso, no qual se constatou que a participação importância? Consequentemente, o instrumento e a atividade profissional
do arquiteto e urbanista é muito limitada. Dos EIVs em tramitação no de elaboração do estudo estão sendo desvalorizadas? Essas questões
Conselho Municipal da Cidade em fins de 2011 verificou-se que a apontam para a necessidade de reflexão do papel da academia nesse
processo: até que ponto está sendo formadora ou apenas reprodutora
de conhecimentos, conteúdos e metodologias estabelecidas? A academia
está agindo de forma inercial neste processo? A academia deseja ter
uma ação transformadora em relação à conquista do direito à cidade?
Da realização da função social da cidade e da propriedade urbana?
As mudanças em relação às práticas pedagógicas necessitam de
atitudes, de ações articuladas de docentes e discentes. As ações devem
envolver a pesquisa e a extensão e não limitar os conteúdos curriculares
a teorias e metodologias que refletiram as necessidades do passado.
Proporcionar aos estudantes o contato com a realidade social,
transformando a cidade no objeto de estudo, fazendo dela sua “sala de
aula” é uma das alternativas que se colocam para enfrentar a situação
advinda da renovação urbana que está ocorrendo em função da dinâmica
econômica atual.
Temos um grande desafio como docentes para dar rumo diferente ao
ensino de arquitetura e urbanismo, e por conseqüência aos futuros
profissionais, que devem ser ampliados alem dos limites da utilização
de materiais e tecnologias que estão na moda, enfrentando problemas
reais cotidianos, tomando o cuidado de fugir da armadilha de “responder
às demandas do mercado”. Formar um arquiteto e urbanista preparado
para enfrentar a escassez de material e os limites físicos do espaço
existente é o grande desafio acadêmico que estamos enfrentando. Será
Gráfico 1 - Profissionais participantes de EIV – Londrina – meses 10/11/12 de 2011. que estamos conscientes disso e preparados para enfrentar essa
Fonte: Levantamento dos EIVs apresentados ao Conselho Municipal da Cidade nos meses de outubro, novembro e realidade?
dezembro de 2011.
Para tentar responder a esta questão foram pesquisadas as
participação do arquiteto e urbanista limitou-se a 2% dos profissionais
publicações sobre EIV. Foram encontrados apenas tres livros publicados,
identificados nas equipes técnicas apresentadas. Comparando à
todos tendo advogados como autores, ou seja, em sua totalidade estão
participação de outros profissionais constantes das equipes técnicas
relacionados aos aspectos jurídicos do instrumento. O retorno, em
identificadas nestes trabalhos, foi verificado que a profissional
ferramentas de busca eletrônica, indica grande quantidade de publicações
“programadora” teve 13% de participação, sendo muito superior ao do
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na rede, entretanto poucos artigos abordam os aspectos metodológicos é necessário abrir espaço para a população, impactadas pelas
da elaboração do Estudo podendo ser um sinal da baixa produção transformações urbanas decorrentes da dinâmica econômica, ambiental
acadêmica e mesmo técnica, sobre o assunto, embora tenha quantidade e cultural relacionadas a este processo, apresentem sua perspectiva,
significativa de EIVs publicados. sobre a forma como afeta suas condições de vida. Este período de
Uma rápida análise dos dados coletados e da forma como vem sendo discussão poderá subsidiar de forma concreta a reflexão sobre as práticas
tratado nos convida ao aprofundamento da reflexão sobre os conteúdos pedagógicas e metodológicas dos nossos cursos e apresentar caminhos
ocultos nesse processo. A produção da cidade continua sendo ditada relacionados às necessidades concretas colocadas pela sociedade, não
pelo mercado, tendo o lucro como o objetivo fundamental do processo. se restringindo às demandas de mercado ou aos limites sócio-políticos
Vários profissionais se apropriaram do EIV no sentido de atender as das localidades. Considerando as ferramentas existentes, seria
demandas do mercado, sendo que o arquiteto e urbanista tem interessante formar uma rede nacional de pesquisa sobre o tema, que
demonstrado um distanciamento em relação este tipo de atividade, possibilite sistematizar a diversidade das experiências institucionais em
abrindo mão do seu papel nas definições sobre a produção e apropriação curso subsidiando não só a ação profissional como também as docentes
do espaço urbano, principalmente no que se refere à qualificação do no sentido da atualização permanente dos conteúdos curriculares, das
espaço, se restringindo à realização dos projetos de arquitetura e de metodologias e da didática necessária à aquisição e desenvolvimento
urbanismo, tomando-os como fim em si mesmo. É preciso reverter essa dos conhecimentos e habilidades profissionais sintonizadas com as
situação, resgatar para o âmbito da arquitetura e urbanismo um papel demandas sociais, culturais e econômicas hodiernas.
que seja relevante nas definições sobre o desenho da cidade, começando Referencias bibliográficas
pelas edificações e ampliando para o espaço urbano. A academia tem Albuquerque, Lins. A valorização imobiliária na avaliação do estudo de impacto de vizinhança. Anais do IV Congresso
uma função importante, no sentido de estabelecer os momentos Brasileiro de Direito Urbanístico.. In http://www.ibdu.org.br/imagens/avalorizacaoimobiliarianaavaliacao.pdf . Acesso
em 05/10/2012.
necessários para a reflexão sobre a cidade, utilizando o processo de BARROS, Fernando João Rodrigues de, et al. EIV- Estudo de Impacto de Vizinhança Londrina Norte Shopping. Londrina:
formação como um momento privilegiado da aquisição de habilidades e Arquivo eletrônico – CD, 2011.
conhecimentos que podem fazer a diferença em relação ao que BARROS, Fernando João Rodrigues de, et al. EIV- Estudo de Impacto de Vizinhança Sociedade Educacional Every S/
S LTDA. Londrina: Arquivo eletrônico- CD, 2011.
atualmente esta ocorrendo. É necessário resgatar as discussões sobre
BENINI, Andresa Rezende. EIV- Estudo de Impacto de Vizinhança agência bancária da Caixa Econômica Federal Av.
a apropriação do espaço e estabelecer o contraponto com a parcela da Paraná. Londrina: Arquivo eletrônico- CD, 2011.
sociedade que é a usuária final da cidade produzida, mas que nem sempre BENINI, Andresa Rezende. EIV- Estudo de Impacto de Vizinhança Banco de Brasil Agência Av. Maringá.Londrina:
é considerada adequadamente nos exercícios projetuais acadêmicos. O Arquivo eletrônico- CD, 2011.

papel do Estado também precisa ser reintroduzido na Academia, no sentido BENINI, Andresa Rezende. EIV- Estudo de Impacto de Vizinhança Centro Comercial- Lote 6-G, Gleba 05, Fazenda
Palhano. Londrina: Arquivo eletrônico- CD, 2011.
de se capturar seu sentido mais amplo. Atualmente fica muito restrito à BENINI, Andresa Rezende. EIV- Estudo de Impacto de Vizinhança Espaço Jardim Sul. Londrina: Arquivo eletrônico- CD,
função ordenadora e gestora dos contratos terceirizados dos serviços 2011.
públicos. BENINI, Andresa Rezende. EIV- Estudo de Impacto de Vizinhança Leroy Merlin. Londrina: Arquivo eletrônico- CD, 2011.
É preciso avançar na compreensão das relações que se estabelecem BRASIL. Estatuto da Cidade: guia para implementação pelos municípios e cidadãos : Lei n. 12.257 de 10 de julho de 2001,
que estabelece diretrizes gerais da política urbana. 2. ed. Brasília : Câmara dos Deputados. Coordenação de Publicações,
entre o processo de ensino-aprendizagem, a atuação profissional e as 2002.
consequências para as cidades e seus habitantes, para as atividades BRASIL. Plano Diretor Participativo. Guia para a elaboração pelos municípios e cidadãos. Brasília : Ministério das
existentes e as novas, que vão transformando a cidade cotidianamente, Cidades/Confea, 2004.

tendo o Estado como um agente importante desse processo. FERREIRA, Carlos Henrique Nalin; PEREIRA, Daniela dos Santos; PEREIRA, Danila dos Santos. EIV- Estudo de
Impacto de Vizinhança Mercado Padovani. Londrina: Arquivo eletrônico- CD, 2011.
Considerações finais GONÇALVES NETO, P.S. Análise de impactos de vizinhança decorrentes da implantação de supermercados no Município
Considerando esses aspectos, pode-se depreender que há de São Carlos. São Carlos : UFSCar, 2010.
necessidade de criar um momento específico para debater de forma LIMA, Ruy. EIV- Estudo de Impacto de Vizinhança Veronese Incorporações Imobiliárias LTDA. Londrina: Arquivo eletrônico-
CD, 2011.
aprofundada as experiências de aplicação dos instrumentos do Estatuto
PEREIRA, Gilmar Domingues. EIV- Estudo de Impacto de Vizinhança Congregação Cristã do Brasil. Londrina: Arquivo
da Cidade e em particular sobre o Estudo de Impacto de Vizinhança. As eletrônico- CD, 2011.
várias interfaces relacionadas a este estudo – a academia, o Estado, ROSSI, Marcelo Flausino. EIV- Estudo de Impacto de Vizinhança Associação Bíblica e Cultural Regência Divina de
particularmente na esfera municipal, as empresas que elaboram o EIV, – Londrina. Londrina: Arquivo eletrônico- CD, 2011.

podem revelar o que está ocorrendo nos Municípios brasileiros, que SORANSO, Bruno Felipe Martins. EIV- Estudo de Impacto de Vizinhança Indústria e Comércio Hidromar. Londrina:
Arquivo Eletrônico- CD, 2011.
ficaram com a responsabilidade de implantar os instrumentos. Também
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em que é essencial para garantir a dignidade da pessoa humana. A


PROJETO DE ORIENTAÇÃO PARA habitação é importante para preservar a saúde, a segurança e a
MELHORIAS HABITACIONAIS NO BAIRRO privacidade das pessoas (SEABRA, 2000).
Num projeto ideal de desenvolvimento integral, enquanto a ação
DE CUSTODÓPOLIS concreta está envolvida em direção à melhoria visível de certos aspectos
da vida, o sucesso é medido pelo impacto que estas ações têm sobre a
Flávio Martins VIANA capacidade da comunidade e das suas instituições em tratar de questões
Estudante do Curso de Arquitetura e Urbanismo do Departamento de Pesquisa e de desenvolvimento a níveis cada vez maiores de complexidade e eficácia
Extensão do Instituto Federal Fluminense. flavio.mviana@gmail.com (WHITE, 2005).
Jéssica Querioz da Silva FALCÃO Custodópolis está localizado em uma área periférica da cidade de
Estudante do Curso de Arquitetura e Urbanismo do Departamento de Pesquisa e Campos dos Goytacazes no estado do Rio de Janeiro, conforme
Extensão do Instituto Federal Fluminense. jqfalcao@gmail.com apresentado na Figura 1 e por este motivo, muitas vezes esquecido pela
Regina Coeli Martins Paes AQUINO população. Segundo os entrevistados mais antigos, que não sabiam
Professora Coordenadora do Curso de Arquitetura e Urbanismo do Instituto
Federal Fluminense Líder do Grupo de Pesquisa e Extensão. raquino@iff.edu.br
com exatidão como o bairro começou, anteriormente ao nome atual, era
popularmente conhecido como “Cidade de Palha”, isto porque quando
se passava pela área, muitas “casas de palha” e vastas plantações de
Resumo cana eram vistas. Essas, por sua vez, eram comumente construídas por
O projeto apresentado consiste em uma proposta de criação de um barro, bambu e folhas de palmeiras ou sapé.
modelo de prática, onde a interação serviço-comunidade-instituição de
ensino superior seja capaz de contribuir para o processo de
transformação de um “bairro vulnerável” em um “bairro saudável”. Para
tanto focaliza Custodópolis, subúrbio da cidade de Campos dos
Goytacazes, Rio de Janeiro, distante cerca de 6 km da sede do município
- e aponta para a perspectiva de um veículo impulsionador de melhorias
na qualidade de vida de, aproximadamente, vinte mil pessoas moradoras
na comunidade. Além disso, abrange as possibilidades de investimento
em um cenário multidisciplinar de aprendizagem, âmbito da graduação,
articulando ensino, pesquisa e extensão. Os objetivos do projeto são Figura 1: Localização de Custodópolis, na cidade de Campos dos Goytacazes, estado do Rio de Janeiro
Fonte: www.maps.google.com.br
proporcionar serviços e orientações técnicas, no setor de construção civil,
nas fases de projeto, construção, uso e manutenção de suas moradias, Na memória dos moradores dessa comunidade existe a lembrança do
para proporcionar uma edificação de qualidade, de menor custo e Doutor Custódio Siqueira, médico famoso que foi dono de grande parte
ambientalmente correta; identificar soluções técnicas pós uso; propor daquelas terras. Homem conhecido por sua grande simplicidade e
melhorias que poderiam ser realizadas como experiência de canteiro de generosidade que loteou parte de sua propriedade e a vendeu por preços
obras pelos alunos do curso de Arquitetura e Urbanismo do Instituto bem populares e acessíveis a grande parte da população local, que para
Federal Fluminense - IFF. A troca de experiências entre os acadêmicos e homenageá-lo, a localidade recebeu o nome “Custodópolis”. Por esse
a comunidade propicia a melhor compreensão da realidade dos atrativo, o bairro se desenvolveu e novos moradores chegaram. Pessoas
envolvidos nestes eventos, com suas dificuldades específicas. simples e dispostas a construir um lugar melhor (JUNCA, 2008).
Com decorrer dos anos, essa população que impulsionava o bairro a
Palavras-chave: melhorias habitacionais, comunidade, Campos dos um futuro promissor, por algum motivo se desgastou e todas as conquistas
Goytacazes foram estagnadas, restando apenas histórias.
Através deste trabalho está sendo possível fortalecer a comunidade de
Introdução Custodópolis e apontar caminhos para uma melhor gestão participativa
O direito de habitação ou moradia é um direito fundamental, na medida da mesma. Considera-se este trabalho como grande contribuinte para
as políticas públicas do município de Campos dos Goytacazes.
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O objetivo principal deste projeto é dar acesso direto à comunidade Resultados e Discussão
dos conhecimentos gerados no curso de Arquitetura e Urbanismo do
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia – IFF campus Campos Como as casas visitadas foram executadas pela autoconstrução, a
centro, contribuindo na busca de soluções para os graves problemas organização das mesmas é efetuado pela racionalização dos espaços e
habitacionais da população de Custodópolis, formulando políticas algumas vezes falta de de acabamentos. Como mais importante
participativas e emancipadoras. Esta pesquisa, portanto, pode ser contribuição do presente trabalho, foi verificado que em alguns casos, o
considerada de grande relevância no intercâmbio com a sociedade, maior problema não está exatamente no fator econômico, mas na falta
implicando em relações multi, inter ou transdisciplinares e de informação sobre as condições mínimas necessárias para uma boa
interprofissionais. habitabilidade de um imóvel, ou seja, uma boa iluminação e ventilação
A viabilização de um processo de desenvolvimento sócio-econômico desses ambientes. Além de alguns conceitos de ergonomia para
sustentável para esta comunidade carente passa, obviamente, pela maximizar os espaços construídos e um saudável uso das edificações.
criação e estímulo de condições favoráveis que possam satisfazer as Para atuar como exemplo das atividades desenvolvidas, tem-se os
suas prioridades individuais e coletivas mais prementes. dois estudos de casos apresentados abaixo:
Esta comunidade necessita de serviços referentes a projetos e
construção de habitações populares e não possui condições financeiras Estudo de caso 1: Relatório do 2º Levantamento
para contratar profissionais habilitados (arquitetos e engenheiros) para Data: 10 de maio de 2012
elaborarem projetos arquitetônico e complementares (estrutural, elétrico, Local: casa de Dona Maria Helena
hidrossanitário e preventivo de incêndio) e ou para fiscalizarem a obra, Endereço: Rua Carlos Bruno, nº 42, Campos dos Goytacazes - RJ
quando em construção, para que seja construída com boa qualidade
técnica e ambiental. Uso e Ocupação do Solo
Os aconselhamentos provenientes dos acadêmicos de arquitetura,
universitários esses que possuem importantes informações que A propriedade é ocupada por 3 famílias, sendo a matriarca da mesma,
agregadas à saúde servem de respostas para alguns “mistérios” da a dona Maria Helena, de 64 anos, que mora sozinha no imóvel que ocupa
população como a grande quantidade de pessoas com doenças o térreo do lote. Atualmente, esse imóvel não é totalmente ocupado pela
respiratórias que poderiam ser amenizadas através de pequenas moradora, pois os seus filhos já não residem mais com ela.
reformas e modificações em suas residências. O recuo frontal da construção, funciona como lavanderia, depósito,
estacionamento e pátio coletivo. A lateral esquerda foi cedida para a
Metodologia construção do sobrado para a moradia de seus filhos, sendo uma situada
no pavimento térreo e a outra no pavimento superior. Para efeito de estudo,
O trabalho foi efetuado através de levantamentos realizados nos somente a casa matriz foi analisada entre as moradias do lote.
domicílios do bairro, onde são produzidos “croquis”, imagens fotográficas,
coleta de relatos de seus moradores para posterior análise das condições
de habitabilidade do local, detectando os seus eventuais problemas, para
dessa forma propor soluções e na tentativa de cria um quadro da habitação
na cidade. Para auxiliar na comunicação dos estudante com os moradores,
as visitas dos educandos são acompanhados por agentes de saúde do
Centro de Saúde e Escola de Custodópolis, que mantém um bom
relacionamento com a comunidade e conhece de perto os seus
problemas, gerando dados importantes para o trabalho.
Após os levantamentos, os seus produtos são analisados e são
realizados plantas das moradias e os relatórios que descrevem as Figura 2: Vista da rua. Figura 3: Pátio.
condições encontradas, seus problemas, potencialidades e propostas Fonte: Arquivo Pessoal, 2012. Fonte: Arquivo Pessoal, 2012.
para a resolução de problemas. Patologias da Construção
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O imóvel mais antigo, tem por volta de 70 anos, segundo as informações Diagnóstico
dadas pela proprietária. Foi observado que o terreno foi alteado para ficar
no nível da rua. Porém, ocorre o afloramento de água, que a moradora Como ações urgentes, temos que na casa da senhora Maria Helena,
acredita estar relacionado com a caixa de esgoto e do restante da deve ser realizada uma substituição das caixas de passagem de esgoto,
instalação sanitária mal executada. Há dois anos ocorreu uma queda do por caixas adequadas Como ações posteriores para garantir o maior
telhado, então atualmente não há forro entre a casa e a cobertura de telha conforto e proporcionar o devido uso dos ambientes prejudicados pela
amianto. falta de iluminação e ventilação natural, foi proposto a abertura de um
Quanto aos aspectos de ventilação e iluminação, os ambientes prisma de ventilação nos fundos da residência, para onde seriam voltadas
prejudicados são a sala e o quarto dos fundos. Esse último não conta as janelas do quarto, banheiro e cozinha. E mudança de local da
com a iluminação natural, pois a além de uma pequena báscula também lavanderia, que atualmente ocupa o plano de visão da fachada principal e
consta no ambiente, uma janela fechada e escorada contra o seu prejudica o acesso ao interior da casa pelos equipamentos necessários
desabamento, e iluminação artificial também está em falta. Todas as para sua utilização.
janelas situadas na lateral direita da edificação, estão voltadas para o
terreno vizinho, já que não há o afastamento lateral entre a casa e o
terreno, ocasionando problema principalmente por tratar-se de ambientes
do setor íntimo da residência. Nessa moradia, o piso é cimentado.

Habitabilidade/Qualidade da Moradia

A moradia do pavimento térreo, tem as condições de habitabilidade


principalmente prejudicadas pelo problema citado sobre a instalação
sanitária, ocasionando forte odor e afluência de água.

Figura 6: Quarto dos fundos (a parede ao Figura 7: Prisma de ventilação com a parede do lado
fundo é o muro da casa) Fonte: Arquivo esquerdo do quarto dos fundos. Fonte: Arquivo Pessoal.
Pessoal.

Estudo de Caso 2: Relatório do 6º Levantamento


Data: 22 de maio de 2012
Local: casa de dona Maria
Endereço: Rua Ueta Marinho, nº146, casa 02, Custodópolis - Campos
dos Goytacazes

Uso e Ocupação do Lote/Residência

A propriedade é ocupada por uma família, sendo a chefe da mesma, a


senhora Maria, que reside no local a mais de quarenta anos, e divide o
imóvel com um filho.O lote é compartilhado com outra família.O recuo
Figura 4: Planta original Figura 5: Planta proposta
frontal da construção é tomado por mato e vegetação alta, o que impede
Fonte: Arquivo Pessoal, 2012 Fonte: Arquivo Pessoal, 2012. sua utilização, além de um deposito, atualmente sem utilização. Conforme
pode ser observado na Figura 8 e Figura 9.
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não funciona e não possui chuveiro. As paredes estão sem pintura e com
mofo.
Obs.: Não foi possível tirar fotos do banheiro, pois o mesmo não possui
iluminação e ventilação naturais e a câmera não possuía flash.
Quantos aos demais ambientes, o piso mostra defeitos como
rachaduras e em alguns locais o mesmo já não existe. As paredes
pintadas há muitos anos, apresentam patologias como mofo, limo,
bolores, o que prejudica a família que nela reside.
A casa possui duas pequenas salas, que impossibilitam a circulação
Figura 8: Imagem entre as duas
residências.
da proprietária, visto que tem alguns móveis e a área de circulação é
Fonte: Arquivo Pessoal, 2012. mínima.
Patologias da Construção
A cobertura é de telha de amianto e não possui forro, o que gera sérios Diagnóstico
transtornos a moradora e seu filho em dias de chuva, visto que a casa fica No casa da senhora Maria, deve ser realizada uma substituição das
inundada. Quantos aos aspectos de ventilação e iluminação, todos os caixas de passagem de esgoto, por caixas adequadas. É necessário que
ambientes possuem graves problemas, visto que os vãos existentes não se faça uma adaptação do banheiro(abertura de vão de iluminação e
são suficientes. Nessa moradia, o piso é antigo e está em péssimo ventilação naturais, coloca-lo no mesmo nível da residência,colocação
estado de conservação. de piso e revestimento, instalação de caixa de descarga e chuveiro, bem
como barras de apoio)para maior conforto da moradora, pintura das
paredes, troca de piso e de janelas, para melhorar a circulação de ar e
promover a iluminação natural. No acesso a casa, que atualmente é feito
por uma trilha na terra, o ideal é a colocação de um cimentado, que
possibilite a sua locomoção de forma mais fácil, principalmente em dias
de chuva, foi pensado um pequeno jardim na lateral, com cultivo de
vegetação decorativa e uma pequena horta para a família. Para auxiliar
nos dias de chuva, a proposta e a utilização de forro de pvc em toda
residência.No caso das salas, ´foi feita a proposta de integração das
duas, para melhorar a circulação interna da casa.
Figura 9: Acesso ao lote. Vista do deposito. Figura 10: Vista da vegetação no acesso ao
Fonte Arquivo Pessoal, 2012. lote. Fonte: Arquivo Pessoal, 2012. Abaixo seguem fotos das propostas realizadas pela equipe que
executou o levantamento, para melhorias na residência em estudo.

Agradecimentos
A realização desse trabalho não seria possível sem o apoio do Centro
de Saúde e Escola de Custodópolis, a colaboração os moradores do
bairro que permitiram a entrada dos estudantes em seus domicílios, dos
alunos e bolsistas Alberto, Luisa e Priscila Silva nos levantamentos, do
Professor Luiz de Pinedo Quinto Jr com a metodologia de trabalho e ao
IFF, por proporcionar a participação e atender as necessidades dos alunos
Habitabilidade/Qualidade da Moradia para a realização do projeto.
A moradia tem as condições de habitabilidade principalmente
prejudicadas pelo problema citado sobre a instalação sanitária, Referências
ocasionando forte odor e afluência de água.O banheiro está em um nível AQUINO, Regina Coeli Martins Paes. Melhorias Habitacionais. Campos
bem acima da casa,não possui adaptação para cadeirante, a descarga dos Goytacazes, RJ. Projeto de extensão do IF Fluminense, 2008.
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LUCIO COSTA: UM PROFESSOR DE singelo artigo é dedicado ao mestre Lucio Costa, logo, porque chamar
tanta atenção para um acontecimento que, segundo o próprio Lucio, em
TEORIA E HISTÓRIA carta ao arquiteto franco-suíço em 1936, admite que estava “alheio” ao
Joanes da S. ROCHA1 modernismo, inclusive a pessoa de Corbusier, e que “aventurava-se
Mestre. Instituto de Ensino Superior Planalto nesse desafio apenas com a insatisfação do ecletismo dominante.”
joanesrocha@gmail.com (SEGAWA, 2010, p. 80)
Muito bem, o primeiro passo, seguindo o enredo do dramaturgo britânico
William Shakespeare, é descrever o palco dos acontecimentos, aqui, a
RESUMO Escola Nacional de Belas-Artes no Rio de Janeiro, e, em seguida, introduzir
Reconhecido mundialmente como o urbanista de Brasília, a Capital os atores desta nossa epopéia modernista, incluindo o protagonista Lucio
Modernista, Lucio Costa, também, exerceu grande influencia sobre a Costa, e, porque não seus arquiinimigos, para, então, dialogar com esta
historiografia nacional e seus estudantes. Então, porque não refletir sobre dualidade: historiador e professor.
está experiência de pesquisa e ensino que, até hoje, é indissociável ao
professor universitário, nos relatos e vivências deste grande arquiteto e 1. A Educação Superior e a ENBA
ex-direto da Escola Nacional de Belas Artes - ENBA.
A partir do decreto de 12 de agosto de 1816, por João VI (1767 - 1826),
PALAVRA-CHAVE: Ensino Superior, Historiografia, Arquitetura, Lucio criou-se a Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios para a qual se contratou
Costa. uma Missão Artística Francesa que chegaria ao país no mesmo ano para
inaugurar as atividades da instituição. No entanto, por motivos adversos,
Introdução inclusive a independência em 1922, a escola só foi funda, sob o título de
Academia Imperial de Belas Artes – Aiba em 1826.3
A visita do arquiteto franco-suíço Le Corbusier (1887-1965) à América Chefiada por Joachim Lebreton (1760 - 1819), e contanto com grandes
do Sul no ano de 1929, foi fundamental para a disseminação das ideias artistas como Debret (1768 - 1848) e Nicolas Antoine Taunay (1755- 1830),
da arquitetura modernista no Brasil, mas não influenciou a todo de uma a Academia Imperial de Belas Artes, formou o que seria o estilo dominante
só vez, mesmo entre os que viriam a defender o modernismo mais tarde, na, então, capital Rio de Janeiro. Definindo os dogmas artísticos até por
como Lucio Costa (1902-1998), encontraram, inicialmente, certa volta de 1870, formando grandes pintores como Victor Meirelles (1832-
relutância. 1903) autor do quadro Primeira Missa no Brasil (1860) e Pedro Américo
Apesar do curto período em terras brasileiras, Le Corbusier pode (1843-1905) pintor de Independência ou Morte (1888), Almeida Júnior
discursar para os havidos estudantes da Escola Nacional de Belas-Artes (1850-1899) e Rodolfo Amoedo (1857-1941), dentro outros.
Carlos Leão (1906-1983 - formado em 1931) e Álvaro Vital Brazil (formado Mas não foi somente nas artes que a Aiba exerceu seu poder, dentre os
em 1933) dentre outros, como a engenheira Carmen Portinho (1903- professores, vindos das França, estava o arquiteto Grandjean de Montigny,
2001). Em São Paulo, Corbusier conheceu e convidou Gregori Warchavchik que lecionou até 1850, e construiu diversos edifícios em estilo
(1887-1965) para ser delegado do CIAM2 na América do Sul, bem como neoclássico, como a antiga Alfândega, atual Casa França-Brasil e o
entrou em contato com Jayme da Silva Telles e Flávio de Carvalho (1899- primeiro prédio da própria Academia. Além, é claro, de influenciar uma
1973) na casa do arquiteto russo. série de novos arquitetos como José Maria Jacinto Rebelo, autor do
Certamente, foram todos nomes importantes para a construção do Palácio Itamarati. (REIS FILHO, 1997, p. 117)
conceito de arquitetura moderna no Brasil, no entanto, o título deste O programa didático de Grandjean de Montigny dividia-se em disciplinas
do Ensino Teórico e do Ensino Prático. A primeira subdividia-se em:
1
Arquiteto e Urbanista, Mestre em Teoria e História da Arquitetura pela Universidade de Brasília (UnB). Graduando História da Arquitetura, através de estudo dos antigos; Construção e
em História (Bacharelado) pela mesma instituição, e professor de História da Arquitetura em faculdades no Distrito
Federal - DF.
2
Sigla para Congrès Internationaux d’Architecture Moderne. Talvez, o mais conhecido dos CIAMs, seja o IV CIAM, 3 Não é que descomedíramos o ensino da engenharia no Brasil até 1826, ano da fundação da Aiba, porém é crucial
ocorrido em 1933 em Atenas, cuja sua publicação, a Carta de Atenas, foi largamente difundida, defendendo os quatro balizar cronologicamente e espacialmente o estudo. Para os interessados em maiores informações, indicamos o livro:
pontos do urbanismo modernista: Morar, Trabalhar, Locomover e Lazer, influenciando, inclusive, o plano para a nova TAVARES, Aurélio de Lira. A engenharia Militar Portuguesa na Construção do Brasil. Rio de Janeiro: Biblioteca
capital: Brasília. do Exército, 2000.
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Perspectiva; e Estereotomia. O Ensino Prático continha aulas de Desenho, abandonada em virtude da valorização de padrões estéticos importados
Cópia de Modelos e Estudo de Dimensões; e Composição. da França e Inglaterra que nada tinham haver com a tradição lusitana.6
Apesar de produzir edificações de interesse nas capitais, Nestor A atuação de Mariano Filho não foi menor que a de Severo, na condição
relembra que as obras neoclássicas produzidas no interior se mostravam de presidente da Sociedade Brasileira de Belas Artes, Filho patrocinou
como pastiches daquilo que deveriam expressar. Ainda, pautados nas viagens de arquitetos às cidades mineiras, e é aqui que entre nosso,
técnicas e materiais colônias, foi, portanto, apenas após a libertação dos ainda estudante, protagonista, Lucio Costa, quando adere ao neocolonial.
escravos, o trabalho remunerado, construção das ferrovias, energia
elétrica e a proclamação da república, que houve uma real transformação 2. A formação de um mestre
na relação do lote com o entorno, materiais e técnicas. (REIS FILHO,
1997, p. 48) Filho de brasileiros, mas nascido em Toulon, França, em 27 de fevereiro
Os primeiros vestígios do Ecletismo, consolidado após a Declaração de 1902. Lucio Costa recebeu uma sólida educação na Europa. Versado
da República, em 1889, puderam ser vistos a partir de 1850. Nestor em idiomas e artes desde pequeno, frequentou o Royal Grammar School,
continua relatando que houve, neste período, uma clara evolução da onde, segundo ele, jogava cricket no verão e rugby no outono.7 Da terra da
qualidade de mão de obra, não só pelos imigrantes, mas pela qualificação rainha e The Beatles, Lucio partiu para Paris, e de lá para Friburgo, Suíça;
interna, como no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, fundado em 1873, depois, Beatenberg. Com o advento da primeira guerra mundial sua
e a “Sociedade Propagadora da Instrução Popular”, sob diretoria de família se mudou para Montreux, onde estudou no Collège National.
Ricardo Severo, nosso primeiro personagem, e, que com o tempo, se No ano de 1916, retornam ao Brasil, quando no ano seguinte, 1917,
tornaria o pilar de uma série de maus entendidos junto a Lucio Costa. seu pai que, nas palavras de Lucio, “estranhamente sempre desejou ter
É desta época, também, a criação da Escola Nacional de Belas Artes - um filho artista” o matriculo na, já mencionada, Escola Nacional de Belas
ENBA, no Rio de Janeiro, efetivada em 8 de novembro de 1890, quando Artes, onde se formou arquiteto em 1922. (COSTA, 1995, p. 12)
são aprovados os estatutos da instituição e do Conselho Superior de Durante sua estadia na ENBA, Costa concebe alguns projetos afinados
Belas Artes, responsável pelo seu funcionamento.4 com o estilo eclético e neocolonial, para a firma Rabecchi e para o
A virada do século XX se mostrou muito conturbada na América Latina, Escriptorio Technico Heitor de Mello. Entre 1921-22, construiu seu primeiro
por motivo das várias comemorações dos centenários de independência projeto, a Casa Rodolfo Chambellend, no Rio de Janeiro, e em 1922,
nos países americanos, e no Brasil isso não seria diferente. Os novos forma pareceria com Fernando Valentim, numa época de estilos diversos
Estados Nacionais como México, Peru, Equador voltavam seus olhos como ele mesmo aponta:
para um passado longínquo, nos Maias, Incas e Astecas.5 No Brasil, que, Era uma época do chamado ecletismo arquitetônico. Os estilos
ainda, não havia aberto completamente seus olhos as matrizes indígenas, “históricos” eram aplicados sans façon de acordo com a natureza
do programa em causa. Tratando-se de igreja, recorria-se ao
restaurou como nacional a arquitetura colonial portuguesa, dando, deste
receituário românico, gótico ou barrocos; se edifício público ou
modo, início a uma arquitetura intitulada “neocolonial”. palacete, ao Luis XV ou XVI; se de banco, o Renascimento italiano;
A partir da primeira década do século XIX, defensores do neocolonial se de casa, a gama variava do normando ao basco, do missões ao
deflagraram uma série de ataque ao ecletismo, tido pelos mais colonial. (COSTA, 1995, p. 15)8
nacionalistas, como uma versão grotesca da Paris de Napoleão III.
Encabeçando o grupo, estavam o engenheiro e arqueólogo português Como vencedor de uma série de concursos, Lucio Costa ganhou uma
Ricardo Severo (1869 - 1940), e o médico e historiador da arte José visita para as cidades coloniais de Minas Gerais, comissionado pela
Mariano Filho, que, segundo algumas fontes, foi o responsável pela Sociedade Brasileira de Belas Artes. E, assim, ele partiu para Diamantina,
disseminação do termo “neocolonial”. pela primeira vez.9 Quando de volta ao Rio de Janeiro, registrou suas
Nascido em Lisboa, Severo nutria uma grande paixão por sei país natal, impressões no artigo Considerações sobre o nosso gosto e estilo,
e viu na arquitetura e na arte brasileiras ramos da expressão cultural
portuguesa, aclimatados, segundo ele próprio, ao trópico em todo o seu 7 Lucio veio para o Brasil com poucos meses, e retornou para a Europa aos 8 anos de idade, quando seu pai, Joaquim
esplendor durante a época colonial, mas, posteriormente, renegada e Ribeiro da Costa, foi enviado à Inglaterra para integrar a missão naval comanda pelo Almirante Huet de Bacellar, em
Newcastle. Residindo na Europa até seus 15 anos de idade.
4 http://www.itaucultural.org.br acessado em 04 nov. 2012 8 Trecho do texto concedido, em entrevista, a Roberto Marinho de Azevedo em 1982.
5 GUERRA, François-Xavier (org.) Mémoires en Devenir. Amérique latine XVI-XX siècle. Bordeaux, Maison des 9 Sobre sua visita à Diamantina, Lucio comenta: “E mal sabia que, 30 anos depois, iria projetar nossa capital para um
Pays Ibériques, 1994, Introdução: p. 9-27 rapaz da minha idade nascido ali.” (COSTA, 1995, p. 27)
144 XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA 145
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publicado no jornal A Noite, em 18 de junho de 1924, como se segue um Corbusier, apresentou um projeto distinto e racionalista.10 De forma que,
trecho: no ano de 1929, por ocasião da visita de Le Corbusier, alguns arquitetos,
como Warchavchik, Flávio de Carvalho e outros, já estavam, razoavelmente,
Encontrei um estilo inteiramente diverso desse colonial de estufa, imergidos nos novos padrões da arquitetura, o que só viria acontecer a
colonial de laboratório que, nesses últimos anos, surgiu e ao qual, Lucio no ano seguinte, com o convite para dirigir a Escola em que se
infelizmente, já está habituado o povo, a ponto de classificar o
formou.
verdadeiro colonial de inovação. (apud SLADE, 2007, p. 51)

3. O diretor modernista
A partir de seu relato no jornal A Noite, Lucio Costa começa a questionar Na efervescência da chamada Revolução de 30, e os debates que
a si mesmo e a arquitetura que estava sendo produzida na época. ocorrem na Associação Brasileira de Educação (ABE), o, então, presidente
Questionamento este, necessário para a formação de todo e qualquer Getúlio Vargas (1883 -1954), optou por uma renovação cultural, chamando
historiador, pois, ele mesmo, se coloca como desgostoso com a jovens profissionais para ocupar cargos de importância, dentre eles Lucio
arquitetura produzia a partir das cartilhas ecléticas e neocoloniais. Costa, 11 que assumia, aos 28 anos de idade, a diretora da Escola de
No entanto, abandonar os ditames ecléticos e neocoloniais não foi um Belas Artes.12
processo instantâneo, pelo contrário, foram necessários, A princípio, sua chegada foi muito bem acolhida, pois foi um dos
aproximadamente, cinco ou seis anos repletos de acontecimentos e melhores alunos daquela instituição e foi, também, associado ao
atores, outrora mencionados na introdução, que, a partir daqui, tomam movimento de José Mariano Filho. No entanto, no ano de 1930, logo após
corpo central na formação de Lucio Costa. sua posse, Lucio Costa inicia um processo de modernização, substituindo
os professores academicistas por professores de cunho modernistas.
Em Outubro de 1920, Charles-Edouard Jeanneret e Amédée Ozenfant Logo após assumir a ENBA, Lucio foi para São Paulo ao encontro de
lançaram a revista L’Esprit nouveau, publicada até 1925. Foi o início da Warchavchik para convidado para ser professor na nova matriz curricular
carreira de Jeanneret, futuramente conhecido como Le Corbusier, no da Belas Artes. Deste modo, por intermédio de Mário de Andrade, o recém
campo da teoria histórica. Segundo Segawa (2012, p.77), é difícil estimar empossado diretor entrou em contato com Warchavchik e outras
todas as pessoas que possuíam a assinatura desta revista no Brasil, sumidades na capital paulistas, como Paulo Prado e Olívia Penteado.
talvez umas 11, no entanto, é certo que Jayme da Silva Telles, formado em (COSTA, 1995, p.72)
1926 pela ENBA, possui um exemplar, pois chamou a atenção para a Com o mesmo propósito de renovar o quadro, Lucio convidou Affonso
revista durante uma aula, como relembra o próprio Lucio Costa. Este foi, Eduardo Reidy (1909 – 1964) e o arquiteto belga Alexander Buddeus, que
provavelmente, um dos seus primeiros contatos com o autor franco-suíço, teria, segundo Segawa, introduzido as revistas Form e Morden Bauformen,
mas que não gerou inquietação em Lucio. na ENBA. (2010, p. 78)
Outro nome importante neste processo de “conversão” de Lucio Costa Contudo, suas ações não foram tidas levianamente por seus
ao modernismo foi Gregori Warchavchik. Em 1929, recém casado com opositores. Christiano das Neves, em São Paulo, e, seu antigo patrono
Leleta, Lucio foi morar em Correiras, onde entrou em contato com a revista na ENBA, José Mariano Filho, na Capital Federal, o acusaram de trazer à
Para Todos, que continha uma fotografia da casa “modernista” de 10 Apesar de participar de outros concursos públicos, e não ter vencido nenhum deles, Flávio de Carvalho é considerado
Warchavchik, exposta em São Paulo, a mesma casa que outrora um dos pioneiros da arquitetura moderna no país. Também, reconhecido por suas chamadas “experiências”. em 1931,
realiza o polêmico evento Experiência nº 2, em que caminha com boné na cabeça, de forma desafiadora, em sentido
comentamos ter recebido a visita de Le Corbusier e Flávio de Carvalho. contrário ao de uma procissão de Corpus Christi e é hostilizado. No teatro, é reconhecido pelo teatro experimental “O
Bailado do Deus Morto”, e suas pinturas classificadas como expressionista – surrealista.
Todavia, apesar de ter sido um dos primeiros contatos de Lucio com a 11 “O portador do convite foi Rodrigo M. F. de Andrade, que ele ainda não conhecia. Segundo Lucio, a ideia de convocá-
produção moderna paulista, a casa de 1929, não foi a primeira experiência lo teria resultado de um texto escrito, em 1929, para um jornal mineiro a pedido de seu amigo Manuel Bandeira.” (CCBB,
2012, p. 12)
modernista de Warchavchik. Em 1925, ele já havia publicou seu Manifesto 12 Segundo a professora Maria Lucia Bressan Pinheiro, há um hiato histórico esquecido, pelo próprio Lucio Costa, que
da Arquitetura Funcional, no Il Piccolo, de 14 de junho e no Correio da é que seu convite foi anterior à revolução de 30, “(...) pois a data da primeira reunião da Congregação da Escola em cuja
ata comparece a assinatura de Lúcio Costa (e não mais a de José Corrêa Lima) como Diretor é 13/09/1930. Entretanto,
Manhã, 1° de novembro de 1925. (BENEVOLO, 1998, p. 711) tal nomeação - e efetiva posse - de Lúcio Costa à diretoria da ENBA em data anterior à Revolução de 1930 - que, como
se sabe, foi deflagrada em 03/11/1930 – é sistematicamente ignorada na bibliografia específica. O próprio Lúcio Costa
E, em 1927, no concurso para o palácio do Governo do Estado de São não faz referência ao assunto, talvez por não ter tido oportunidade de tomar qualquer iniciativa efetiva no curto espaço
de tempo transcorrido entre a reunião de 13/09 e a eclosão da revolução. Seja como for, o fato é que consagrou-se, como
Paulo, Flávio de Carvalho, também presente no encontro com Le data oficial do início do mandato de Lúcio Costa na diretoria da ENBA, a data de 08/12/1930.” (PINHEIRO, 2005)
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Escola uma “orientação perniciosa” e, até, se vender para o novo estilo. agrada por completo, então, numa espécie de paliativo, lança-se a
Lucio rebateu no mesmo nível por meio de jornais e revistas,13 porém, desenhar as chamadas “casas sem dono”. Por possuir certa quantidade
isso não impediu que fosse deposto em setembro do ano seguinte, em de tempo ocioso, Lucio se debruça sobre os textos de Walter Gropius
1931.14 (1883-1969), Mies van der Rohe (1886-1969) e Frank Lloyd Wright, com
Mas isso tudo não aconteceu antes ele deixasse marcas profundas em quem se encontrou pessoalmente, porém nenhum deles foi tão
alguns estudantes que participaram da greve contra a decisão. Dentre influenciador quanto Le Corbusier, visto que, segundo Lucio, era o que
eles estavam Jorge Machado Moreira (1904 – 1992), Ernani Vasconcellos melhor entendia o tripé: social, tecnológico e artístico. (SEGAWA, 2010,
(1912 - 1988) e Carlos Leão, que, depois, fariam parte do projeto do p.81)
Ministério da Educação e Saúde – MES. Até mesmo Frank Lloyd Wright Outro intelectual que participou da chamada revolução cultural de 30 no
(1867–1959), que se encontrava no Rio de Janeiro participando do júri do Rio de Janeiro foi Anísio Teixeira que assumiu a Diretoria da Instrução
segundo concurso do Farol de Colombo, foi procurado e se mostrou Pública do Distrito Federal, a convite do prefeito Pedro Ernesto, em 1931.
solidário ao protesto contra o fim da reforma na ENBA.15 Anísio, também, contribui para a criação da Universidade do Distrito
Sua proposta continha a inclusão das disciplinas de Urbanismo e Federal,17 local da última experiência docente que Lucio Costa teve. Em
Paisagismo, e a separação do ensino da Arquitetura das demais Belas 1934, publica Razões da nova Arquitetura, como programa para um curso
Artes, assumindo identidade própria, mais próxima do pensamento de pós-graduação do Instituto de Artes dirigido por Celso Kelly, na antiga
modernista, da problemática urbana e das novas técnicas da indústria Universidade do Distrito Federal.18
da construção.16 No texto de 34, Lucio Costa lança uma série de reflexões sobre o conceito
A reforma visará aparelhar a escola de um curso técnico-científico de beleza e desenvolvimento que marcaram sua época, período de um
tanto quanto possível perfeito, e orientar o ensino artístico no sentido
“clima de guerra santa profissional”. Da mesma forma, defende que de
de uma perfeita harmonia com a construção. Os clássicos serão
estudados como disciplina; os estilos como orientação crítica e não
todas as artes, a arquitetura, - em razão do sentido eminentemente utilitário
e social -, não pode ser dar ao luxo de seguir impulsos individualísticos,
para aplicação direta. (COSTA, 1995, p. 68)
grifo de Lucio, pois o que se via na época [1934], era que grande maioria
Questionado sobre o ensino do estilo colonial, Lucio respondeu: das obras estavam sem rumo, sem raízes. (COSTA, 1995, p. 108)
Acho indispensável que os nossos arquitetos deixem a escola, Certamente, o ano de 1936 foi um divisor de águas para a arquitetura
conhecendo perfeitamente a nossa arquitetura da época colonial – moderna no Rio de Janeiro, e porque não dizer, no Brasil. Mesmo vencendo
não com o intuito de transposição ridícula dos seus motivos, não de o concurso para a nova sede do Ministério da Educação e Saúde – MES,
mandar fazer falsos móveis de jacarandá (os verdadeiros são
o projeto de Archimedes Memória e Francisque Cuchet, de ornamentação
lindos) – mas, de aprender as boas lições que ela nos dá de
simplicidade perfeita, adaptação ao meio e à função, e conseqüente marajoara, não foi construído. (SEGAWA, 2010, p.89)
beleza. (IDEM, Ibidem) Em seu lugar, por intermédio do, então, ministro Gustavo Capanema,
Mas não só de teoria é composta a década de trinta, juntamente com Lucio Costa foi convocado para desenvolver as instalações da nova sede,
Warchavchik, Lucio Costa constrói a casa Schwartz, hoje, destruída, mas sob os padrões arquitetônicos do modernismo. Nas décadas seguintes,
que contava com um terraço-jardim de Roberto Burle Marx. Além disso, Lucio participou de uma série de importantes projetos como o Pavilhão
construíram, ainda, os apartamentos proletários na Gamboa, no Rio de do Brasil para a New York World’s Fair, de 1939, em parceria com Oscar
Janeiro. Niemeyer (n. 1907), assim como o conjunto residencial no Parque Guinle,
Enquanto associado a Carlos Leão, e já não mais diretor da ENBA, Rio de Janeiro na década de 40.
Lucio se vê contratado para construir “casas de estilo”, o que não lhe Em 1957, Lucio encontrava-se em seu ápice profissional, quando
venceu o concurso para o Plano Piloto de Brasília – PPB. Cidade, esta,
13 Segundo Maria Lucia, os principais debates públicos foram travados nos jornais “Diário da Noite” dos dias 14/08/ inaugurada apenas três anos depois, em 1960.19 Mesmo ano que recebeu
1931 e 09/09/1931, e no “O jornal” no fascículo do dia 22/07/31. (PINHEIRO, 2005) o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Harvard.
14 Outro momento importante, aqui não explorado por falta de espaço, foi o Salão de 31, na tentativa de romper com a
produção vigente, o evento contou com a participação de artistas da semana de 1922 como Portinari, Guignard, Tarsila
do Amaral, Cícero Dias, Di Cavalcante, Bruno Giorgi, entre ourtos. O evento tomou lugar na casa de Dona Olivia
Penteado, à revelia do patrocínio do Conselho Nacional de Belas Artes, daí, a ausência de premiações. 17 Participaram da idealização da Universidade do Distrito Federal os intelectuais Mário de Andrade, Gilberto Freyre,
15 (BENEVOLO, 1998, p. 712) (SEGAWA, 2010, p.79) Prudente de Morais Neto, Sérgio Buarque de Holanda, Portinari, Celso Antonio e outros.
16 Rejeitada nos embates iniciais da ENBA, a reforma seria implantada apenas em 1946, com a fundação da Faculdade 18 É, também, desta época, 1934, o projeto rejeitado para a vila operária de Monlevade, Minas Gerais.
Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil, atual UFRJ. (CORDEIRO, 2012, p.953) 19 RELATÓRIO do Plano Piloto de Brasília. Elaborado pelo ArPDF, COODEPLAN, DePHA. Brasília: GDF, 1991
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Todos os fatos até aqui elencados, foram largamente explorados pela 1951. E nos estudos de Debret e outros viajantes da época colonial, que,
historiografia arquitetônica nacional e, até, internacional, 20 quiçá, por melhor que fossem as anotações e desenhos de Debret em sua obra
juntamente com o Complexo da Pampulha de Niemeyer, os mais Voyage pittoresque et historique au Brésil, ela foi publicada entre 1834 e
estudados! No entanto, cabe à intenção do presente artigo sobrevoar 1839 na França, ou seja, já estava defasada mais de um século.
rapidamente o assunto para, assim, poder discorrer sobre o exercício do Assim, cabia ao novo consultor desmentir e reescrever a história da
Lucio Costa historiador junto ao Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico América Portuguesa, não só para os ditos “leigos”, mas para o próprio
Nacional – SPHAN entre 1937-1972, que fundamentaram nossas reflexões quadro do recém criado SPHAN. Como nota a professora Maria Lucia,
sobre o Lucio Historiador. sobre as primeiras declarações de Rodrigo Mello Franco de Andrade, na
qualidade de diretor do SPHAN, com erros de estilo arquitetônico,
4. O historiador do SPHAN (1937-1972)21 classificando barroco como românico: “(...) velhíssima igreja do Rosário,
de estilo românico e em cujo pórtico se destacam ornatos devidos ao
Se fosse este um artigo centrado no patrimônio, certamente, Aleijadinho.”24 (apud PINHEIRO, 2006, p.10)
iniciaríamos com nomes como Eugène Emannuel Viollet-le-Duc (1814- Para trazer o assunto mais próximo ao leitor brasileiro, Lucio forja uma
1879) John Ruskin (1819-1900) ou Camillo Boito (1836-1914).22 Todavia, série de reflexões comparativas entre a América Espanhola e a Portuguesa,
encurtemos a história para chegar logo ao Brasil com o pintor francês analisando toda a conjuntura social, técnica e estética do momento. Por
Jean Baptiste Debret, um dos pioneiros nos estudos sobre arte e isso, não é de se estranhar, quando o historiador inglês John Bury, formado
arquitetura no nacional. em Oxford, em seu livro Arquitetura e Arte no Brasil Colonial, qualifica
Em suma, Debret atribuía aos jesuítas missionários à primazia pela Lucio Costa, como “historiador de arte e arquiteto”. (2006, p. 64)
propagação da arquitetura portuguesa na América, adaptando a tipologia Lucio é referenciado como historiador da arte porque, anos antes, em
ao clima e relevo. Da mesma maneira, o autor apresenta, na prancha 41, 1937, escreveu o ensaio Documentação necessária, que tratava sobre as
a fachada e a planta da, então, Academia Imperial das Belas Artes do Rio influências da arquitetura portuguesa, indígena e africana, citando,
de Janeiro, dentre outros edifícios, enaltecendo o estilo neoclássico inclusive, seu contemporâneo Gilberto Freyre (1900-1987) e o, ricamente
importando junto com sua comitiva, a Missão Francesa. (DEBRET, 1975, ilustrado, texto Mobiliário luso-brasileiro, de 1939, classificando e
p. 250-51). analisando a feitura “do móvel brasileiro, ou mais precisamente o móvel
Seguramente, da mesma forma, Lucio Costa foi sensível a importância português feito no Brasil”, como ele coloca, nos diversos momentos de
da arquitetura Jesuítica no Brasil, quando publicou seu ensaio A produção. 25
arquitetura dos jesuítas no Brasil na Revista do Serviço do Patrimônio Tal qual o artista italiano Giorgio Vasari (1511-1574)26 que lançou-se
Histórico e Artístico Nacional, em 1941.23 como grande biografo dos artistas do maneirismo, o arquiteto Lucio Costa
Dois anos após apresentar a nova arquitetura moderna do Brasil em ajudou a alastrar o conhecimento sobre o barroco e a vida de Antonio
New York, coube a Lucio, e a um pequeno grupo de técnicos, inventariar Francisco Lisboa, Aleijadinho, nascido em 1738 em Ouro Preto, antiga
o patrimônio nacional praticamente do zero, pois, de uma forma geral, os Vila Rica, por meio se seus ensaios e roteiro.27
poucos estudos sobre arquitetura colonial, até então existentes, estavam
sobre duas bases: nas fontes manchados pelas erronias visões do CONSIDERAÇÕES FINAIS
neocolonial, como coloca Lucio Costa no ensaio Muitas Construções, Em seu texto Interessa ao estudante, Lucio Costa expõe o viés pelo
alguma arquitetura e um milagre, publicado no Correio da Manhã de qual sempre lutou, e como viu a produção da arquitetura e das disciplinas
de Teoria e História da Arquitetura:
20 Por exemplo, em 1943 o MoMa - The Museum of Modern Art de New York, abriu uma exposição intitulada Brazil Builds,
que contava com um belo livro catálogo de 200 páginas, resultado da viajem ao país do arquiteto Philip L. Goodwin (1885-
1958) e do fotografo G. E. Kidder Smith (1913-1997). (SEGAWA, 2010, p. 100) 24 Entrevista ao Diário da Noite, RJ, 19/05/1936
21 Hoje, conhecido por Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o SPHAN foi criado pelo 25 (COSTA, 1962, p. 86-94) (COSTA, 1995, p. 464)
Decreto-Lei n° 25, de 30 de Novembro de 1937, durante o mandato de Gustavo Capanema como o compromisso de 26 Seu texto Le vite de’ più eccellenti pittori, scultori e architettori (Vida dos mais excelentes pintores, escultores e
identificar, fiscalizar, documentar, preservar e promover o patrimônio cultural brasileiro. arquitetos), escrito em 1543, mas publicado apenas em 1550, é considerado uma das primeiras obras bibliográficas e
22 BOITO, Camillo. Os restauradores: Conferência feita na Exposição de Turin em 7 de junho de 1884. São Paulo: Artes críticas da arte.
& Ofícios, 2º Ed. 2003 27 Em 1968, Lucio escreveu um roteiro para o curta-metragem de Joaquim Pedro de Andrade com fotografia de Pedro de
23 Referência original: COSTA, Lucio, A arquitetura dos jesuítas no Brasil. Revista do Serviço do Patrimônio Histórico Moraes, e o ensaio para a revista do SPHAN intitulado A arquitetura de Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Em seu
e Artístico Nacional, Rio de Janeiro, n. 5, p. 105-169, 1941. Porém, aqui, optou-se pela versão digitalizada da revista ensaio, Lucio se propõe a analisar como o risco original do mestre mineiro se manifesta na capela franciscana de São
ARS da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo – USP, como apresentado nas referências. João Del Rey.
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Assim, portanto, de uma parte, história e teoria da arquitetura, de outra, Apesar de dividir o ensino, é importante ressaltar que no campo
teoria e prática da profissão de arquiteto, atividades consubstanciadas profissional Lucio não faz as mesmas considerações, pois:
na disciplina que se convencionou denominar, como redundância, (...) o que importa não são as artes, mas a Arte. A arte deve estar
Composição de Arquitetura, e onde se aprende a arte de compor presente em tudo: na urbanização, na concepção arquitetônica, no
tecnicamente os edifícios e de ambientá-los, ou seja, simplesmente, a equipamento e na ambientação de interiores, na forma utilitária dos
arquitetura. (COSTA, 1995, p. 117) utensílios, na disposição e feitio dos impressos, na indumentária.
Ao longo da experiência arquitetônica, Lucio Costa mudou suas (CCBB, 2012, p. 24)
predileções estilísticas, do neocolonial ao moderno, contudo, não Contudo, para nós, arquitetos, Lucio Costa deixa claro um processo
abandonou o interesse pelo passado que ele chama de “história e teoria bem mais técnico. Para ele, no ensaio Considerações sobre o ensino da
da arquitetura” ou o questionamento e avanço das técnicas com a “prática arquitetura, 29 a composição arquitetônica abrange por si só, o
da profissão de arquiteto”. planejamento integral do edifício, os estudos preliminares, o anteprojeto,
Sob este viés de formação, entre a prática e a teoria, o moderno e o o estudo da estrutura, o estudo das instalações e o projeto definitivo de
antigo, qual momento seria mais emblemático, do que a atuação de execução com os respectivos pormenores e especificações, sendo crucial
Lucio no final da década de trinta? Quando se erguia o Ministério da a presença do jogo entre a concepção plástica inicial e a forma fina do
Educação e Saúde – MES, no Rio de Janeiro, e se desenvolvia o projeto edifício. (apud COSTA, 1962, p. 115)
para o Museu das Missões, no Rio Grande do Sul. O primeiro no mais Assim como outros modernistas, Lucio era a favor da evolução técnica
puro estilo moderno, e o outro fruto de uma extensa pesquisa histórica. e científica, no ensaio O novo humanismo científico e tecnológico, por
No Museu das Missões, Lucio propõe mantém as ruínas e os solicitação do Massachusetts Institute of Technology – MIT, por ocasião
“esplêndidos consolos de madeira do antigo Colégio de São Luis”, criando do centenário da instituição, em 1961, Lucio expõem que, para ele, o
uma esquadria de vidro, através da qual, a presença das ruínas da igreja desenvolvimento científico e tecnológico não se contrapõe a natureza,
se somam às esculturas expostas. pelo contrário, é a face oculta que deve ser revelada pelo intelecto humano,
Segundo o arquiteto, então consultor do SPHAN, os visitantes são mas, da mesma forma, deixa claro a função da estética em seu ensaio
“geralmente pouco ou mal informado” e que cabe ao arquiteto promover Considerações sobre arte contemporânea:30
este contato entre o transeunte e o passado ali impregnado nas pedras. Enquanto satisfaz apenas às exigências técnicas e funcionais, não
(COSTA, 1995, p. 496) Um sentimento que ele mesmo nutria em relação é ainda arquitetura; quando se perde em intenções meramente
à arquitetura, como lemos em sua carta ao Ministro da Fazenda datada formais e decorativas, tudo não passa de cenografia; mas quando
de 1939, “Admiro cada vez mais a arquitetura antiga e muito – popular ou erudita – aquele que a ideou para e hesita ante a
particularmente a nossa arquitetura antiga. As velhas casas e os velhos simples escolha de um espaçamento de pilares ou da relação entre
a altura e a largura de um vão, (...) coordena e orienta em determinado
móveis do Brasil colonial me satisfazem e emocionam cada vez mais.”
sentido toda a massa confusa e contraditória de pormenores,
(COSTA, 2001, p. 120) transmitindo assim ao conjunto ritmo, expressão, unidade e clareza,
Quanto ao ensino da arte, Lucio escreveu, por solicitação de Capanema, o que confere à obra seu caráter de permanência – isto sim, é
o artigo Do desenho,28 em 1940, Nele, pode-se ler que “(...) o desenho arquitetura. (apud COSTA, 2001, p.58)
visa desenvolver nos adolescentes o hábito da observação, o espírito de Na condição de intelectual, Lucio Costa entrou tardiamente no
análise, o gosto pela precisão, fornecendo-lhes os meios de traduzirem modernismo, mas, com o tempo, se mostrou um dos pilares do ensino
as ideias e de registrarem as observações graficamente, (...).” (apud no Brasil. Todavia, aqui, não nos referimos apenas a sua curta experiência
COSTA, 1995, p. 242) na diretoria da ENBA, mas, - como um professor da Grécia antiga, que
Para tal Lucio, propõe modalidades diferentes para as distintas ensinou arquitetura para todos fora de uma sala de aula -, evocamos as
necessidades, tornado, de tal modo, mais específico o ensino. Aos alunos palavras de Segawa: “fez-se arquitetura no Brasil, apesar das escolas.”
artistas, dar-se-ia uma grande carga de desenho de criação, aos (2010, p. 131)
ilustradores, desenho de ilustração, e aos inventores, desenho técnico.

28 Na versão publicada no site do IPHAN aparece sob o título O ensino do Desenho. Http://portal.iphan.gov.br acessado 29 Originalmente publicado na revista do Diretório Acadêmico da Escola Nacional de Belas-Artes – ENBA, Revista de
em 09 de nov. 2012. Já, na versão do livro Sobre Arquitetura aparece sob o título Ensino do Desenho. Todavia, aqui se Arte -, número 3, setembro de 1945.
optou pela versão no livro Registro de uma vivencia. 30 O ensaio foi escrito nos anos 40, mas só foi publicado em 1952 nos Cadernos de Cultura, do Ministério da Educação.
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Mesmo sem fazer uso do nome completo: Teoria e História da Arquitetura DEBRET, Jean Baptiste. Viagem pitoresca e histórica ao Brasil. 6ª Ed. São
e Urbanismo, que mesmo hoje, varia de instituição para instituição, Lucio Paulo: Martins Fontes, 1975
Costa comenta que; “Interessa, antes de mais nada, conhecer como, em PINHEIRO, Maria Lucia Bressan. Lucio Costa e a Escola Nacional de Belas
Artes. In: 6o. Seminário DOCOMOMO-Brasil, 2005, Niterói. Anais do 6o. Seminário
condições idênticas ou diferenciadas de épocas, de meio, de material e DOCOMOMO-Brasil, 2005.
de técnica ou de programa, os problemas da construção foram _______ . Origens da noção de preservação cultural no Brasil. Risco (São Carlos),
arquitetonicamente resolvidos no passado.” (1962, p. 113) v. 3, p. 1, 2006.
Para concluir, credita-se, deste modo, a Lucio Costa, parte considerável, REIS FILHO, Nestor Goulart. Quadro da arquitetura no Brasil. São Paulo: Editora
da forma pela qual ensinamos hoje: quando entendemos que é sim Perspectiva, 1997
possível fazer uma arquitetura de ponta, sem desmerecer os longos anos SEGAWA, Hugo. Arquiteturas no Brasil 1990-1990. São Paulo: Editora da
que, como humanidade, empilhamos pedras e decoramos paredes, pois Universidade de São Paulo, 2010
SLADE, Ana . Arquitetura moderna brasileira e as experiências de Lucio Costa na
.... década de 1920. Arte & Ensaio (UFRJ), v. 15, p. 46-53, 2007.
Já é tempo de acabar-se com a praga dos professores porventura
eruditos mas desconhecedores das exigências reais da profissão,
e que levam o ano a se derramarem em considerações de ordem
geral ou desenvolvendo pormenores esdrúxulos, para depois se
escusarem, por falta de tempo, de abordagem a matéria que importa
e os alunos anseiam por conhecer. (COSTA, 1962, p.117)

REFERÊNCIAS
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o patrimônio cultural. Rio de Janeiro, MinC/Fundação Nacional Pró-Memória, 1987.
BENEVOLO, Leonardo. História da arquitetura moderna. São Paulo:
Perspectiva, 1998.
BRUAND, Yves. Arquitetura Contemporânea no Brasil. São Paulo: Perspectiva,
2002.
BURY, John. Arquitetura e Arte no Brasil Colonial. Brasília: IPHAN / MONUMENTA,
2006
Centro Cultural Banco do Brasil - CCBB. Lucio Costa: 1902-2002. Brasília: 2012
CONDURU, Roberto. Entre histórias e mitos. Uma revisão do neocolonial. Resenhas
Online, São Paulo, 08.093, Vitruvius, sep 2009 <http://www.vitruvius.com.br/
revistas/read/resenhasonline/08.093/3025>. Acessado em 14 out. 2012
CORDEIRO, Caio Nogueira Hosannah. A Reforma Lucio Costa e o Ensino da
Arquitetura e do Urbanismo da ENBA à FNA (1931 - 1946). IX Seminário Nacional
de Estudos e Pesquisas “História, Sociedade e Educação no Brasil”.
Universidade Federal da Paraíba – João Pessoa – 31/07 a 03/08/2012 – Anais
Eletrônicos – ISBN 978-85-7745-551-5. 2012. (Seminário).
COSTA, Lúcio. A arquitetura dos jesuítas no Brasil. ARS (São Paulo), São Paulo, v.
8, n. 16, 2010 . Disponível em <http://www.scielo.br/
scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1678-53202010000200009&lng=pt&nrm=iso>.
acessos em 08 nov. 2012.
_______ . Registro de uma vivência. São Paulo: Empresa das Artes, 1995
_______ . Sobre Arquitetura. Porto Alegre: CEUA, 1962
COSTA, Maria Elisa. Com a palavra Lucio Costa. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2001
154 XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA 155
XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

SEÇÃO TEMÁTICA 2

Práticas pedagógicas no ensino de arquitetura e


urbanismo

Coordenação:
Professora Débora Pinheiro Frazatto

A ABEA não alterou nem revisou o conteúdo dos trabalhos, creditando a


seus autores, toda a responsabilidae sobre os mesmos.
156 XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA 157
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da cidade depende também do aprofundamento do instrumental de


ATELIÊ PROJETO INTEGRADO. O intervenção integrada do profissional arquiteto-urbanista.
URBANÍSTICO E O ARQUITETÔNICO NO A ementa para a disciplina, conforme a Matriz Curricular do Curso é:
Questões políticas e socioeconômicas na produção,
PROJETO URBANO CONTEMPORÂNEO planejamento e projeto integrado do ambiente construído
(cotidiano e institucional), relativas ao espaço, técnica,
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Lisete ASSEN DE OLIVEIRA1
integrado da habitabilidade multifamiliar e plurifuncional em
Dra. Arq-urb. Universidade do Vale de Itajaí. lisete_ao@terra.com.br
estruturas intra e interurbanas. Programas e projetos urbano-
Carlos Alberto BARBOSA DE SOUZA2
arquitetônicos, de grande porte envolvendo aspectos sócio-
Me. Arq-urb. Universidade do Vale de Itajaí. cao@univali.br
econômicos, funcionais, técnico-construtivos e de
infraestrutura, e sua relação com o ambiente. Requalificação
RESUMO
e centralidade urbana complexa. (Matriz Curricular, Curso
O Projeto Integrado - 7º Período do Curso de Arquitetura e Urbanismo
de Arquitetura e Urbanismo, UNIVALI, 2005)3
da Universidade do Vale de Itajaí - propõe uma prática projetual que
O artigo aqui apresentado baseia-se na experiência da disciplina do 7º
relacione as escalas, urbanística e arquitetônica, e suas especialidades
semestre, a qual se desenvolve desde 2007. Cabe assim, citar
tecnológicas inerentes. Enfatizado como Projeto urbanístico-arquitetônico,
inicialmente as participações e contribuições dos professores Dr. arq-
o ateliê, no eixo de Planejamento Urbano, focaliza a passagem do Plano
urb. Hugo Lucini, um dos principais responsáveis pela concepção e
(planejamento) ao Projeto urbanístico e, no de Projeto Arquitetônico a
operacionalização desta experiência e integrante da equipe docente até
passagem do Edifício-Objeto ao Sistema edificado da Cidade, ressaltando
2009, do Esp. Arq-urb. José Ângelo Casagrande Mincache que atuou na
o protagonismo dos edifícios e seus programas na Arquitetura da Cidade.
disciplina de 2010-1 a 2011-1 e da Arq.-urb. Me. Leticia Castro que, desde
Privilegiam-se Integração, Simultaneidade e Hierarquia dos conteúdos
2012-1, integra a equipe de professores de Projeto urbanístico-
na busca de autonomia e domínio metodológico - fatores de qualificação
arquitetônico. Vale descartar também a contribuição dos demais
profissional. Esta experiência tem sido direcionada para o projeto de
professores que atuam ou atuaram na disciplina como responsáveis
Centralidades Urbanas e alinhada ao instrumento Operações Urbanas
pelas especialidades acima citadas em diferentes semestres de
Consorciadas/Estatuto da Cidade tendo por premissa que qualidades
realização da disciplina4.
urbanísticas e arquitetônicas, e as tecnologias inerentes ao Sistema de
A ideia de que há interdependência e transversalidade entre as diferentes
Centralidades Urbanas podem viabilizar alternativas mais sustentáveis
escalas co-presentes no espaço da cidade tem sido uma força condutora
(econômica, social e ambiental) na produção e apropriação da cidade
da nossa prática acadêmica. Temos nos proposto especular o projeto
brasileira.
que aceita a convivência e a superposição de temas e a relação entre as
PALAVRAS-CHAVE: urbanístico-arquitetônico, projeto integrado, ensino
escalas e que do atrito entre diferentes temas e escalas, incluindo suas
de projeto.
contradições e tensões, podem surgir novos temas e escalas que os
I - Introdução
articulam5. Também a simultaneidade da arquitetura e da cidade, de seus
O ateliê denominado Projeto Integrado vem sendo desenvolvido desde
diferentes sistemas e especialidades potencializa sua funcionalidade,
2005 quando, na reformulação da matriz curricular, definiram-se duas
novas disciplinas de Projeto, localizadas nos 4° e 7° semestres do Curso, expressividade e viabilidade (Figura 1).
que possibilitassem ao estudante de arquitetura e urbanismo, em
determinados momentos da sua carreira, o aprofundamento de uma
prática integradora dos diversos conteúdos inerentes ao projeto e a 3
Esta ementa tem sido ajustada num processo constante de reavaliação das práticas de ensino-aprendizado. Mantemos
qualificação do ambiente construído. Acreditamos que a maior qualificação aqui a matriz original da disciplina, vigente em grande parte da experiência aqui exposta.
4
Eng. Andriei J. Beber e Marina Duarte (atual) na área de sistemas estruturais, Dr.Arq.-urb. Stavros Wrobel Abib e Me.
1
Professora de Projeto Urbanístico na disciplina desde sua implantação, tendo implantado ainda e também em Arq-urb. Luciano Pereira Alves (atual) na área de infraestrutura urbana. Eng. André Sagave e Me Arq-urb. Camila
conjunto com Professor Hugo Lucini a disciplina do 4º Período. Responsável pela articulação entre os professores. Pereira (atua) na área de tecnologia. Me. Eng. João Luiz Pacheco e Me Arq-urb.. Rafael Cartana (atual) na área de
2
Professor de Projeto Arquitetônico. Atuou na disciplina de 2010-2 a 2012-1, quando se tornou Coordenador do conforto ambiental. Dra. Arq-urb. Gilcéia Pesce do Amaral e Silva que atuou no semestre 2012-1.
5
Curso. Atuou na disciplina do 4º Período durante vários semestres. ASSEN DE OLIVEIRA, Lisete (2001 e 2003)
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patrimônio e bem da cultura material, forma estruturada e dinâmica, que


contém e está contida por um conjunto de sistemas. A forma, neste sentido,
adquire condição de fator social e não apenas resultado das relações e
da dinâmica sócio-econômica. Sistemas, situações e lugares urbanos,
com diferentes durações, constituem a dinâmica de permanências e
mudanças, criam e recriam significados e identidade da cidade.
Ressalta-se que o projeto urbanístico pode ser agente transformador
da cidade, pois a partir de uma intervenção direta à escala de uma parte,
uma porção ou fragmento do território é capaz de imprimir novas dinâmicas
à escala do todo, tendo impactos nas diferentes escalas da cidade, onde
se inclui o sistema edificado. O projeto urbanístico lê a dinâmica da
estruturação da cidade e propõe sua intensificação e/ou reformulação.
Na escala urbanística propomos, portanto, identificar e projetar as
variáveis interdependentes dos diferentes sistemas e, sobretudo, a
estruturação urbanística, o sistema de espaços públicos (e sua
configuração) e a morfologia urbana, esta última tendo por base suas
inter-relações com a tipologia arquitetônica, já historicamente reconhecida
Figura 1. Esquema síntese da abordagem proposta.
Fonte: Lisete Assen de Oliveira, Notas de aula, 2008. como dos mais importantes elementos estruturantes da cidade.
Incluem-se aqui também as necessárias e rigorosas relações entre o
Este paradigma conceitual e de conteúdos, leva também à construção
espaço urbano e as tecnologias, presentes seja na escala urbana onde
de processos de ensino-aprendizagem que buscam instrumentos e
as infraestruturas e as densidades têm decisivo peso, seja na escala do
recursos de leituras propositivas da complexidade do contexto da
edifico e seu agrupamento. As infraestruturas e as tecnologias, neste
organização espacial da forma urbana contemporânea, e que favoreçam,
sentido podem facilitar às cidades a superação do alto custo da sua
sobretudo, a autonomia de decisão projetual através do domínio
construção e apropriação (mobilidade, por exemplo), indicadores
metodológico.
relacionados à sustentabilidade.
Desse modo, o projeto integrado considera dois grandes eixos
A realidade brasileira permite-nos contextualizar, incluir, conceber e
organizadores de sua prática. O eixo composto pelos conteúdos
viabilizar o Projeto Urbanístico-arquitetônico como alinhado às Operações
urbanístico, arquitetônico, conforto ambiental, estrutural, tecnológico e
Urbanas Consorciadas, instrumento estabelecido pelo Estatuto da
infraestrutura urbana e o eixo de sua abordagem onde se destacam os
conceitos de integração, simultaneidade, hierarquia e domínio Cidade.
metodológico6. Considera-se operação urbana consorciada o conjunto de
Para tanto, a disciplina é desenvolvida em doze (12) horas semanais e intervenções e medidas coordenadas pelo Poder Público
a equipe docente é formada por dois (2) professores arquiteto-urbanistas municipal, com a participação dos proprietários, moradores,
- responsáveis pela condução do ateliê - e quatro professores das áreas usuários permanentes e investidores privados, com o
de infraestrutura urbana, conforto ambiental, tecnologia e sistemas objetivo de alcançar em uma área transformações
urbanísticas estruturais, melhorias sociais e a valorização
estruturais.7
ambiental. (BRASIL, Lei Federal 10.257/2001)
II - Do urbanístico, do arquitetônico e das Especialidades técnicas. A disciplina de Projeto Integrado assume que as operações
Na disciplina de Projeto Integrado, os conteúdos de urbanismo são consorciadas possibilitam uma nova realidade à proposição e a dinâmica
tratados a partir da compreensão da cidade e de suas partes como da organização das cidades brasileiras. Em nossa abordagem, projeto
6
Conforme exposição do Professor Dr. Hugo Lucini, na apresentação da disciplina, ao corpo docente da Instituição
urbano é tomado como alternativa complementar à prática do
na Formação Continuada em julho de planejamento urbano para responder aos desafios das cidades
2006
7
A carga horária é cumprida em dois dias na semana, sendo um dia com oito horas (manha e tarde) e outro dia
brasileiras. O projeto urbano, passa da maior generalização presente
para as especialidades com quatro horas.
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nos instrumentos de Planejamento Urbano, para a maior concretude e Algumas questões passam a ser incluídas no rol daquelas
especificidade, próprias do Projeto. 8 consideradas fundamentais nas soluções investigadas. A superposição
Nesta perspectiva o exercício projetual desenvolvido busca a e a convivência das funções e usos diversificados, a configuração do
estruturação na escala da cidade-território através do desenho de lugares espaço público que o edifício favorece e constituem, acessos, fluxos
centrais especialmente em áreas não consolidadas respondendo a interiores e exteriores (horizontais e verticais) e situações onde as escalas
dinâmica de expansão, de dispersão, fragmentação e de segregação do edifício e do urbanístico se confundem, se superpõem ou transitam1.
urbanas contemporâneas. O desenho destas centralidades, por sua vez, Estas questões evidenciam-se nos térreos, onde cidade e edifício se
deve especular as relações entre temas e escalas, identificando, encontram. Mas igualmente se relacionam à paisagem e linguagem
reconhecendo e interpretando demandas, exercício que consideramos urbanas.
como fundamental e essencial ao projeto e à formação do arquiteto. Das especialidades de Tecnologia, Infraestrutura, Conforto Ambiental
Esta compreensão vê a cidade como forma urbanística realizada em Urbano e nas Edificações e Sistema Estrutural.
todas as escalas, histórica e coletivamente construída, sendo que os As especialidades são conteúdos e variáveis intrínsecas e fundamentais
projetos da cidade, de um bairro ou de um seu fragmento contêm a escala para a realização e qualificação do projeto urbanístico-arquitetônico e
do edifício e o projeto de um edifício contem a escala da cidade. são trabalhados de forma integrada e simultânea. A Tecnologia, seus
Da Arquitetura desdobramentos e aplicações na infraestrutura urbana, no espaço público
A arquitetura é considerada a partir de seu potencial protagonismo na e nos edifícios, nos sistemas estruturais, no conforto ambiental (urbano
configuração da cidade. A escala arquitetônica é tratada por um lado com e nas edificações) e nos materiais construtivos ganham importância,
autonomia relativa, pois vinculada diretamente com a cidade, e por outro pois a arquitetura e o urbanístico não são generalizações, mas
como sendo elemento e fator decisivo na qualificação da cidade. concretizações particularizadas no tempo e no espaço.
A arquitetura participa do projeto urbanístico a partir das soluções do A tecnologia oferece viabilidade física, executiva e de manutenção à
sistema edificado, predominantemente fechado e suas, superposições, arquitetura e à forma urbana, sendo também fator de sua qualificação
articulações e transições com a escala da cidade. Acredita-se que a funcional, construtiva e expressiva. Propõe-se entendê-la e, sobretudo,
arquitetura contemporânea deve ampliar sua dimensão de arquitetura praticá-la como parte, simultaneamente, integrante da arquitetura e da
urbana, restabelecendo vínculos configuracionais com os demais edifícios cidade. Igualmente as soluções tecnológicas, dos sistemas de
e com o espaço urbano, superando as práticas da arquitetura enquanto infraestrutura dos edifícios, dos sistemas estruturais e de conforto
objeto necessariamente individualizado na paisagem. ambiental jogam papel na composição da paisagem. A tecnologia - e
O sistema habitacional surge como fator extensivo e repetitivo de seus desdobramentos -, neste caso, além de constituir a concretude do
construção das cidades e os programas singulares de equipamentos ambiente projetado, deve ser discutida nas decisões de projeto como
públicos, comuns ou coletivos - que carregam de expressividade a fator qualificador da funcionalidade, da economia construtiva/manutenção
paisagem urbana - podem ser explorados em situações urbanas e da expressividade arquitetônica e urbanística.
particulares e estruturantes.
Em ambos, habitação e programas singulares, a tipologia arquitetônica III -A temática da Centralidade Urbana e os contextos de projeto
é tratada na sua inter-relação com os sistemas morfológicos e de A temática proposta para disciplina que propõe investigar as questões
densidades urbanas (especialmente habitacionais). expostas acima e na ementa, já apresentada, é a do projeto de
Assim, a partir da escala da arquitetura de seus edifícios - o sistema Centralidades urbanas. A centralidade urbana é reconhecidamente
edificado - poderá imprimir novas dinâmicas e impactos qualificadores estruturante da cidade tradicional e tem sido amplamente discutida como
da cidade e da cultura urbana, nas suas diferentes escalas. Seus potencialmente capaz de recuperar algumas continuidades na
princípios de desenho devem constituir a simultaneidade da fragmentação da forma urbana contemporânea. E ainda, na centralidade
funcionalidade de seu programa e a configuração da cidade - seja na urbana, a arquitetura tem papel fundamental de amplificar significados
escala da paisagem urbana, seja na escala de seus lugares urbanos coletivos e públicos da cidade.
suporte das decisões que no projeto se operam. Como áreas de projeto, temos privilegiado as do contexto onde a
Universidade se localiza, a Microrregião da Foz do Rio Itajaí, composta
8
Temos, nesta experiência, discutido se as Operações urbanas Consorciadas devem sempre (ou não) estarem previstas
9
nos Planos Diretores e o quanto esta disposição engessa a dinâmica do processo de planejamento. ASSEN DE OLIVEIRA, 2001
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por dez cidades10 onde se destacam as cidades de Itajaí, Balneário · Que as diferentes escalas e variáveis do ambiente construído e suas
Camboriú, Navegantes e Camboriú, as quais estabelecem fortes vínculos relações devem conter parâmetros de sustentabilidade (social e ambiental) de
maneira a constituir formas arquitetônicas e urbanas que respondam aos desafios
sociais e econômicos, interdependentes e complementares. Em
contemporâneos do crescimento das cidades com qualidade ambiental urbana e
conjunto, estas quatro cidades concentram em torno de 77% da população maior justiça social, no que se inclui o debate contemporâneo sobre cidade
total da microrregião (aproximadamente 457.000) numa forma urbana dispersa x cidade compacta.
relativamente contínua (Figura 2) · Que as densidades (habitacionais, de comércios, serviços e
equipamentos) devem ser cotejadas à luz da formação de centralidade e a
demanda habitacional para populações de faixas de rendas alta, média e baixa
pode ser discutida através do desenho destes tecidos urbanos centrais onde há
maior potencial de convívio de distintos setores socioeconômicos.
· Que o tecido urbano e as tipologias arquitetônicas são capazes de
responder em diferentes escalas às transições e aos diálogos da cidade no
tempo (de implantação e crescimento) e no espaço; às articulações entre altas e
baixas densidades existentes e/ou previstas no projeto e no seu entorno e às
situações urbanas diferenciadas como frente, fundos, térreos, pavimentos
intermediários e coberturas.

IV - A abordagem metodológica adotada


Tomamos como conteúdos básicos intrínsecos do projeto a articulação
espacial entre as categorias da espacialidade, tipologia, morfologia,
apropriação, que alimentam a construção da estrutura espacial dos
lugares nas diferentes escalas envolvidas. (Figura 3)

Figura 2. Cidades de Itajaí, Balneário Camboriú, Camboriú e Navegantes.


Fonte: Google Earth. Acesso em 15 de maio de 2011.
No aprofundamento desta temática no projeto urbanístico-arquitetônico
considera-se:
· Que a natureza da Centralidade Urbana, Escalas, Programas Urbanos e
Arquitetônicos e Infraestruturas devem observar a conurbação urbana existente,
que os permite falar em cidade-território, que gera novas demandas na dinâmica
e perspectivas futuras da vida urbana contemporânea. A Centralidade urbana
pode superpor e miscigenar atividades, usos públicos e privados (comércios,
serviços, habitação, educação, cultura, saúde, lazer, etc.), equipamentos
comunitários e urbanos tradicionais bem como novos programas urbanos
pensados para a cidade do futuro.
· Que a implementação de uma nova centralidade pode ser considerada
como parte de uma Operação urbana, e ponderada à luz do regime urbanístico
definido pelo Plano Diretor vigente, base inicial para o Projeto, representando a Figura 3. Esquema da abordagem e dos conceitos básicos inter-relacionados
passagem do Plano ao Projeto, mas que criticamente analisado, está sujeito a Fonte: Esquema de Lisete Assen de Oliveira a partir de esquema inicialmente
novos olhares. O Projeto urbanístico-arquitetônico poderá ajustar e revisar o desenhado por Hugo Lucini e Lisete Assen de Oliveira em 2008
Plano Diretor. Assim a construção de hipóteses futuras responde a estruturação
existente, suas tendências e alternativas futuras.
10
Municípios de Balneário Piçarras, Bombinhas, Camboriú, Ilhota, Itajaí, Itapema , Luís Alves, Navegantes, Penha e
Porto Belo, conforme a Associação dos Municípios da Foz do Rio Itajaí, AMFRI, disponível em http://www.amfri.org.br/
municipios/index.php. Acesso em 10 de março de 2012
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A morfologia urbana é compreendida como as características formais, usos, formas e significados coletivos e públicos 13. Estas relações de
e compositivas do tecido urbano, com seus diferentes atributos físicos escalas presentes na estruturação da forma urbana evidenciam-se na
(sítio físico, traçado, parcelamento, tipologias, etc.). Destacamos que a aplicação de designações como “arquitetura da cidade” (ROSSI, 1977),
morfologia está intimamente inter-relacionada e potencializada pelas “a cidade como arquitectura” (PORTAS, 2011) e “macroarquitetura”. Esta
diferentes tipologias arquitetônicas, compreendida como resultado das última é utilizada por Gustavo Munizaga Vigil (1993) em seu
relações entre as alternativas para as densidades, a organização do Macroarquitetura: Tipologías y Estratégias de Desarrollo Urbano, onde o
sistema de edifícios, a configuração urbana apropriada para a cidade no autor define estrutura como “[...] una organización esencial que permite
todo ou em suas partes. su funcionamiento y adaptabilidad [...]” (Munizaga Vigil apud Assen de
A tipologia - enquanto esquemas de organização espacial e Oliveira, 2011).
tridimensional dos elementos e relações essenciais internas e externas Esta abordagem metodológica é desenvolvida em Etapas e com
- permite trabalhar a articulação funcional e significativa entre o edifício e instrumentos que permitem a ênfase no desenho como recurso essencial
a cidade11. e fundamental de projeto e onde conceituar e desenhar são atitudes que
A espacialidade é essência do habitat humano (artificial, mas incluindo- se retroalimentam.
se o sitio físico geográfico) nas suas diferentes escalas, sendo sua
apropriação e uso ou fenomenologia: a estrutura de relações vínculos e
V - As Etapas, as estratégias e os instrumentos metodológicos.
vivência dos grupos sociais que usufruem a mesma, com toda a
problemática subjacente no plano cultural, social e econômico. (LUCINI,
2005) Num período de dezoito semanas e com doze horas semanais em
O lugar é, portanto, o objeto do projeto, manifestação da complexidade classe, o Projeto é desenvolvido em três Etapas. Ao longo do semestre a
e é setor do território urbano, em diversas escalas, que incorporam equipe de Professores, ao início de cada Etapa, detalha as estratégias,
também as edificações (LUCINI, 2005). ajustando os conteúdos e considerando a dinâmica do ateliê de Projeto.
E, por padrões espaciais, conforme temos exposto12, entendem-se Temos em geral, realizado a ETAPA 1 em grupo de até quatro alunos com
características de localização, forma e atividades, as quais combinadas participações individualizadas, a ETAPA 2, em grupo de quatro alunos e
resultam numa espacialidade vivenciada, incluindo-se a apropriação e o individualmente ou em duplas e a ETAPA 3 em grupo e individualmente.
significado. Estas ideias estão relacionadas aos conceitos de Alexander Procura-se assim, sabendo-se que a discussão e a crítica sejam um
e ao denominado por Munizaga Vigil, como “patrones de configuración”. processo coletivo, destacar a necessária participação e expressão
“Los “patrones de configuración constituyen “el cómo”; los aspectos o individual no projeto.
efectos característicos que toman los elementos de configuración.” […] en Etapa 1. Leitura propositiva
la análisis interesará descubrir las configuraciones aparentes y A primeira Etapa tradicionalmente conhecida como lançamento inicial,
subyacentes en lo morfológico, lo funcional y de significación. En la é tratada na disciplina como uma Leitura propositiva, onde o aluno toma
propuesta, cómo establecer la estructura basica y destacar sus elementos partido, entendendo que toda proposição contem em si uma interpretação
para definir ciertas acciones objetivas” ( MUNIZAGA VIGIL apud ASSEN da realidade. As especialidades igualmente buscam definir os padrões
DE OLIVEIRA, 2011) indicados aos sistemas construtivos, soluções técnicas e tecnologias
Podemos assim reconhecer e principalmente propor Padrões ponderando funcionalidade, significado, durabilidade, a manutenção
Espaciais, em diferentes escalas e identificar as relações predominantes viabilidade econômica, do ambiente urbano público e do sistema
e estruturantes. edificado.
A estruturação espacial - do todo ou de suas partes - temos A Leitura propositiva – Do Plano ao Projeto - é desenvolvida através do
considerado como variável indicadora de situações e lugares urbanos uso de Diagramas14 (Figura 4), da Construção de Cenários futuros totais
onde diferentes escalas - do território, da cidade e do edifício - transitam, e/ou parciais para a estruturação do tecido urbano e enfatizando que
convivem, superpõem-se ou articulam-se, gerando complexidades de conceitos e diretrizes devem acompanhar e/ou ser acompanhados por
desenhos.

13 Ver ASSEN DE OLIVEIRA, Lisete, 2006


11 ASSEN DE OLIVEIRA, 2003 14. Conforme BARK ( 2010) Diagrama é uma forma de discurso visual que integra imagem, texto e números e
12 Ver ASSEN DE OLIVEIRA, Lisete, 2011. facilita o trato de problemas complexos.
166 XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA 167
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Figura 4. Diagramas de estruturação da centralidade nas escalas da cidade-


Figura 6. Padrões Espaciais.
território e esquemas conceituais.
Fonte: Imagens dos Projetos dos alunos Gustavo Peters de Souza, Marco
Fonte: Imagens dos projetos dos alunos Gustavo Peters de Souza, Marco
Antonio L Duarte e Fernando L P Fontanella; dos alunos Lais Wittkowski, Raíza
Antonio L Duarte e Fernando L P Fontanella; dos alunos, Arnon Rodrigues, Nilton
da Silva Jr.e Rodrigo Reche; dos alunos Daniella B. Spina e Gabriel S. Tritapepe15, Morastini e Ricardo Geroni, respectivamente. Montagem de Arnon Rodrigues
respectivamente. Montagem de Arnon Rodrigues. Etapa 2. O processo que vê a cidade como um conjunto articulado de
Os cenários futuros para a estruturação geral da área de projeto sistemas e o protagonismo da arquitetura
seus limites e vínculos com o território e/ou entorno, o programa Nesta etapa adotam-se, como recurso de desenvolvimento, as escalas
básico (incluindo-se densidades) são organizados através de do todo e do trecho, sobre os quais se discutem conteúdos urbanísticos,
masterplan (Figura 5) e correlacionados a Padrões espaciais arquitetônico, das especialidades e relações, entendendo a cidade como
urbanístico-arquitetônicos desejáveis para o todo e/ou para as um conjunto articulado de sistemas. Esta etapa privilegia o processo de
partes, para situações recorrentes ou singulares da Centralidade desenvolvimento dos projetos e poderá ter, por consequência, ênfases
diferenciadas entre os trabalhos. Na abordagem das especialidades
proposta. (Figura 6) que privilegiam 16

destacam-se os conteúdos tecnológicos como condição para a


viabilização da centralidade proposta
Neste processo, Lugares e Trechos Urbanos (tecido extensivo e
singularidades) onde a arquitetura torna-se fundamental, constituem um
sistema. (Figura 7)

Figura 5. Masterplan e Estruturação da centralidade.


Fonte: Imagens dos Projetos dos alunos Arnon Rodrigues, Nilton da Silva Jr.e
Rodrigo Reche; dos alunos Daniella B. Spina e Gabriel S. Tritapepe; dos alunos
Lais Wittkowski, Raíza Morastini e Ricardo Geroni; e dos alunos Daniella B. Spina
e Gabriel S. Tritapepe, respectivamente. Montagem de Arnon Rodrigues
15
Este projeto recebeu em 2010, o 1 Prêmio Nacional de Urbanismo Sustentável, Alphaville. Figura 7. O todo e os trechos
16
Conforme COMAS (1986) o lançamento de soluções não obedece, necessariamente, a linearidade da maior a Fonte: Imagens dos Projetos dos alunos Arnon Rodrigues, Nilton da Silva Jr.e
menor escala, e que desde o início surgem para o arquiteto soluções e imagens parciais e totais as quais vão ao Rodrigo Reche e dos alunos Gustavo Peters de Souza, Marco Antonio L Duarte e
longo do processo sendo analisadas criticamente. Acreditamos ainda que somente na finalização da alternativa é
que conseguimos precisar o conceito efetivamente trabalhado. Fernando L P Fontanella, respectivamente. Montagem de Arnon Rodrigues.
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Nestes lugares a serem aprofundados arquitetonicamente e em geral, 1:750, (Figura 9) enfatizam-se as situações projetuais que
urbanisticamente tem-se nos Padrões Espaciais um recurso de demonstrem as interações e vínculos entre as escalas.
esclarecer o espaço público e privado aberto e fechado. (ruas,
praças, largos, equipamentos).
Do ponto de vista urbanístico-arquitetônico o masterplan é
aprofundado a partir dos diferentes sistemas espaciais identificados,
prioritariamente em 3d, cortes e plantas e com critérios quantitativos
e qualitativos. Temos trabalhado com os Sistemas de Centralidades
/escalas, de Espaços Abertos Públicos e Privados, de Densidades
Figura 9. Maquete Física do trecho . Turma 2010-2 e Turma 2012 1B.
Habitacionais (vínculos com a infraestrutura urbana) de Distribuição Fonte: Foto de Angelo Mincache e Carlos Alberto de Souza, respectivamente.
de Equipamentos Comunitários (escalas, distribuição, significado), Assim, a arquitetura toma lugar de protagonista do espaço urbano
Morfológico–Tipológico (cheios/vazios, repetições/diferenciações, (Figura 10) e os térreos e pavimentos de uso público e/ou coletivos são
tecido extensivo/singularidades), de Usos e Atividades (programas lugares, articuladores entre espaços abertos e fechados, fundamentais
particularizados); de Fluxos e Mobilidade (particularizados em tipos na vida urbana de lugares centrais (Figura 11).
e equipamentos correspondentes); de Vínculos com o entorno
(morfologia, usos, fluxos, paisagem, escalas, etc), de Infraestruturas
e de tecnologias urbanas; de Sustentabilidade ambiental e social
(escalas e suas interações). (Figura 8)

Figura 10. O desenvolvimento dos térreos como articuladores de escalas.


Fonte:Imagens dos Projetos dos alunos Arnon Rodrigues, Nilton da Silva Jr.e
Rodrigo Reche; dos alunos Gustavo Peters de Souza, Marco Antonio L Duarte e
Fernando L P Fontanella. Montagem de Arnon Rodrigues

Figura 8. O processo que vê a cidade como um conjunto articulado de sistemas


Fonte: Imagens dos Projetos dos alunos Lais Wittkowski, Raíza Morastini e
Ricardo Geroni e dos alunos Gustavo Peters de Souza, Marco Antonio L Duarte
e Fernando L P Fontanella. Montagem de Arnon Rodrigues.
A proposta de aprofundamento de um trecho parte da premissa
de que no trecho se responde a complexidade da centralidade
urbana (programa, diversidade de usos e fluxos), sendo este a base
de aprofundamento das especialidades, as quais podem, no
entanto, ter abordagens e detalhamento próprio e inerente a cada
uma, sendo este encaminhamento proposto pelo professor
responsável pelo conteúdo específico. Figura 11. O desenvolvimento dos térreos como articuladores de escalas.
Nesta etapa, que se inicia com uma maquete física na escala, Fonte: Imagens do Projeto dos alunos Lais Wittkowski, Raíza Morastini, Ricardo
Geroni. Montagem de Arnon Rodrigues.
170 XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA 171
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Etapa 3. O aprofundamento da parte e a retomada do todo. Busca-se, portanto, evidenciar, investigar e revelar as decisões
projetuais, as variáveis do projeto e os lugares específicos que
A Etapa 3 visa destacar o Projeto urbano como um processo que evolui potencializam esta relação e suas articulações17 (Figura 13)
de etapas de maior generalidade até etapas de maior definição até que
haja somente um projeto. Deste modo todas as delimitações anteriores,
urbanísticas, arquitetônicas e das especialidades, vão cada vez mais
sendo integradas e sendo apropriadas no projeto, tanto na escala da
cidade, como na de suas partes. Por outro lado, como no seu
desenvolvimento, os projetos podem, como já dito, adquirir ênfases
diferenciadas. Retoma-se aqui a autonomia do estudante e o domínio
metodológico que requer que o aluno examine quais aprofundamentos
se tornam fundamentais para seu projeto.
De forma geral o Projeto urbanístico-arquitetônico enfatiza a arquitetura
dos edifícios como fundamental na qualificação da centralidade, como
Arquitetura Pública e como Fato Urbano. Ao mesmo tempo, o
aprofundamento do masterplan requer delimitá-lo dentro de uma possível
Operação Urbana, além de que o processo de aprofundamento do trecho
permite sua melhor delimitação. Na escala da cidade o masterplan é
ajustado à luz do desenvolvimento dos trechos, contendo a delimitação
da Operação urbana, suas Etapas de construção e implementação (Figura
12). Numa síntese, são esclarecidas as áreas públicas e privadas, a
população envolvida e sugeridos os instrumentos urbanísticos possíveis
de serem aplicados.
Figura 13. O aprofundamento projetual das situações estratégicas. Transposição
da BR-101 em Balneário Camboriú e Museu contemporâneo.
Fonte: Trabalhos dos alunos Diogo Gotten e Deivdi W. Hess, respectivamente.
Desse modo, também se reconhece os vínculos entre a infraestrutura
urbana e a da edificação, sendo, as decisões sobre as tecnologias, partes
importantes no processo de decisão no projeto arquitetônico tanto para
dar suporte às novas edificações e a centralidade, como para seu o pleno
funcionamento.
I - Considerações finais
O desenvolvimento desta disciplina - no âmbito do Curso de Arquitetura
e Urbanismo da UNIVALI - tem produzido impactos positivos na postura,
qualificação profissional e capacidade crítica dos estudantes e na
Figura 12. As etapas de implantação
identidade do Curso.
Fonte: Imagens dos Projetos dos alunos Gustavo Peters de Souza, Marco
Antonio L Duarte e Fernando L P Fontanella;e dos alunos Arnon Rodrigues, Esta experiência permite-nos afirmar que o exercício de projetar
Nilton da Silva Jr.e Rodrigo Reche, respectivamente. Montagem de Arnon atravessando escalas nos leva a ampliar os recursos de qualificação na
Rodrigues formação do arquiteto-urbanista e sua capacidade de responder às
diferentes escalas do ambiente construído. Também na atuação docente,
O Trecho Urbano, dedicado ao contínuo aprofundamento da qualidade esta experiência tem aportado novos desafios e reflexões, provocando
espacial e construtiva, integra os diversos enfoques que o ambiente
17 Nesta Etapa destaca-se a arquitetura também como um conjunto integrado de sistemas (funcionalidade,
construído admite e a disciplina aborda, revelando-se de forma indubitável compartimentação interna, de circulações, estrutural; de vedações e interfaces; de conforto ambiental natural e artificial;
o protagonismo da arquitetura na configuração do espaço urbano. de infraestruturas prediais, etc.).
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OS MÉTODOS E PROCESSOS EM em arquitetura e urbanismo. De um lado, temos a metodologia tradicional


do ensino de projeto de arquitetura, a qual vem passando por uma crise,
PROJETOS, AS NOVAS TECNOLOGIAS E A que segundo COMAS (1986) destaca-se por vários motivos como desprezo
do conhecimento prévio e da motivação do aluno; o ensino baseado
CRIAÇÃO DO WIKIPROJ NA UNOCHAPECÓ somente na intuição na criação e na prática, sem aplicação do
conhecimento teórico; baixa qualidade da produção arquitetônica por falta
de senso crítico; subserviência às exigências do mercado repetindo
Paula BATISTELLO
modelos aceitos; os acadêmicos tentam atender as expectativas do
Mestre. Unochapecó. paula@batistello.com.br
professor que hierarquiza o processo em cima de seus conhecimentos,
Vivian DELATORRE
isso impede a associação de novos conhecimentos; e pouco espaço
Especialista. Unochapecó. vividel@unochapeco.edu.br
para o trabalho em equipe e colaborativos – trabalhos individuais
Katiane L. BALZAN
provocam a competição entre os acadêmicos. De outro lado, são
Mestre. Unochapecó. katilaura@unochapeco.edu.br
necessárias situações reais de projeto em que se possa efetivamente
testar novas práticas metodológicas e de interação entre membros de
equipes. O objetivo destes experimentos é validar os estudos teóricos,
RESUMO de modo que eles possam ser divulgados para o meio profissional e ser
As novas tecnologias voltadas ao processo de projeto arquitetônico incorporados às práticas pedagógicas na universidade (CELANI;
têm proporcionado discussão acerca dos processos colaborativos e de MEDRANO, 2009).
fabricação digital. Tais processos surgem como ferramentas para a O processo de projeto arquitetônico é dinâmico e a habilidade e domínio
inovação, tanto no ensino quanto na prática do projeto de arquitetura. A do mesmo se dão por meio de formas de representação. Manipular as
metodologia tradicional do ensino de projeto de arquitetura vem passando técnicas e selecionar as formas de representação que melhor contribuam
por uma crise. Testar novas práticas metodológicas e de interação para a compreensão do problema, pode levar à melhor solução do projeto.
multidisciplinas pode resultar em melhoria do processo e aproximação O processo de projeto arquitetônico é composto por diversas fases
com a prática profissional. Nesse contexto, o WIKIPROJ - Laboratório de intercaladas por ciclos de decisões e métodos diversificados, dos mais
Processos Colaborativos em Projetos surge como articulador dos novos sistemáticos aos mais intuitivos. Conhecer diferentes métodos de projeto
métodos e processos em projetos e viabiliza a aplicação das novas e saber em que tipo de problema de projeto eles podem ser utilizados é,
tecnologias no curso de Arquitetura e Urbanismo da Unochapecó, por fim, uma habilidade fundamental do arquiteto. (ANDRADE; RUSCHEL;
propiciando discussão acerca da matriz curricular vigente, assim como MOREIRA, 2011)
uma visualização de inserções dessas inovações em uma próxima No conceito de concepção de projeto utilizando BIM (Building Information
matriz. Modeling), o processo deixa de ser linear e passa a ser colaborativo e
simultâneo, no qual uma equipe multidisciplinar está envolvida já na etapa
PALAVRAS-CHAVE: Matriz Curricular de Arquitetura e Urbanismo. de concepção de projeto, onde a linguagem arquitetônica passa a ser
Processos de Projeto. Processos Colaborativos em Projeto. gerada não apenas pelo processo de projeto, como também através de
simulações, análises, custos e da comunicação dos profissionais em
1. Introdução todas as fases e etapas do projeto.
No passado a arquitetura era a materialização de desenhos feitos à Schön (2000) ressalta que para muitos estudantes de Arquitetura o
mão no papel. Atualmente a arquitetura é a materialização de informações processo de projeto é bastante confuso, e que muitos consideram
digitais, concebidas digitalmente e construídas digitalmente. A avaliação misteriosa a experiência do ateliê como um todo. Para Schön (2000), o
da qualidade dessa produção passa pela avaliação da qualidade da ensino de Projeto Arquitetônico se estabelece principalmente por meio
tecnologia empregada nessa produção. (MITCHELL, 2005 apud de ateliês nos quais se aprende fazendo. Segundo Comas (1986), o
NARDELLI, 2010). ensino de Projeto Arquitetônico sendo aplicado da maneira descrita por
Processos colaborativos e de fabricação digital como ferramenta para Schön (2000) em que se aprende fazendo, mantém o processo de projeto
uma prática inovadora, podem implicar na forma de ensinar e aprender com pouca fundamentação teórica: “[...] no Brasil, apesar das reformas
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curriculares, pouco se avançou na fundamentação do trabalho em atelier Porém, conforme o esquema da Figura 1, baseado em Silva (1998),
e na questão da falta de orientação conceitual e metodológica para o podemos verificar que vários condicionantes de projeto são dependentes
desenvolvimento do projeto.” (COMAS, 1986 apud RIO, 1998, p. 205). de decisões iniciais, o que mesmo irá diminuir os problemas é saber
O Curso de Arquitetura e Urbanismo da Unochapecó apresenta, a partir priorizá-las conforme as principais necessidades dos projetos. Pode-se
de sua matriz curricular vigente, uma experiência em relação aos métodos dizer que esse é um esquema de imposições verticais que somam
e processos de projeto que evidencia a necessidade de revisão e reflexão determinantes horizontais condicionando ou não a tomada de decisões
acerca da temática. Percebe-se que é preciso revisar o método de projeto para atingir uma meta de solução final.
que vem sendo aplicado no ensino de arquitetura e acredita-se que a
inserção das novas tecnologias relacionadas a este processo possam
corroborar para um esclarecimento do mesmo, tanto para o acadêmico
quanto para o professor, assim como possibilitar uma aproximação mais
efetiva entre academia e indústria da construção civil.
Pretende-se, portanto, articular as novas tecnologias com as
experimentações que vem sendo aplicadas no Curso de Arquitetura e
Urbanismo da Unochapecó, assim como lançar diretrizes para uma nova
matriz curricular na escola em questão, embasada nos princípios e
aspirações do WIKIPROJ - Laboratório de Processos Colaborativos em
Projetos.

2. Os processos e métodos de projeto


Os processo de projeto segundo Vries e Wagter (1991) apud Andrade,
Ruschel e Moreira (2011) apresentam os seguintes problemas: Figura 1: Esquema de escolha de decisões de sistemas de projeto e seus
· Processos mal estruturados – os problemas são mal definidos, condicionantes.
na impossibilidade de descrever os passos que irão levar a uma solução Fonte: Adaptado de Silva (1998).
bem-sucedida os arquitetos criam soluções e, então verificam se estas
satisfazem as condições colocadas pelo problema. As discussões sobre métodos de projeto iniciaram com as análises de
· Processo de projeto em aberto – não existe uma meta real de projetos, onde os projetistas retratavam o progresso das atividades, do
morfologia a ser alcançada; início à solução final. Definir métodos era necessário para minimizar
· Processo sem um ponto de partida – o arquiteto realiza algumas custos na execução dos projetos, com a diminuição dos erros. Segundo
conjecturas sobre objetivos do partido, volumetria, aparência e perfil do Markus (1971) apud Andrade, Ruschel e Moreira (2011) o processo de
uso como base e as aperfeiçoa, isso pode acarretar em uma solução projeto possui um movimento circular, com diferença entre processo de
boa ou não e serem apontados outros caminhos. projeto e sequência de decisões. O processo de projeto é a sequência
Segundo Lawson (2005) apud Andrade, Ruschel e Moreira (2011) há íntegra de acontecimentos, que parte das primeiras concepções de um
duas técnicas muito utilizadas para reduzir ou minimizar os problemas projeto e vai até a sua realização total; a sequência de decisões é um
de processo de projeto que são: intervalo individual do processo de projeto, seja a captação de informação,
· Reduzir número de requisitos para um nível aceitável; a análise, a síntese, etc.
· Sobreposição de princípios de ordenação de projeto – fornece Os métodos de projeto indicados por Asimow, Jones, Markus, Broadbent
um ponto inicial para o processo de projeto e uma série de critérios que e atualmente por Lawson, apesar de serem estruturados com formas ou
possam ser usados para avaliação nos estágios iniciais. nomenclaturas diferenciadas tendem sempre a três fases essenciais de
Estrutura Vertical métodos projetuais – Análise, Síntese e Avaliação (ANDRADE; RUSCHEL;
Condicionantes Horizontais MOREIRA, 2011).
Condicionantes Horizontais
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É nesta fase que se constitui e hierarquiza os requisitos do projeto


2.1 Análise arquitetônico.
Identifica os principais elementos que compõem o problema do projeto.
Define-se: metas e objetivos, critérios de desempenho, principais 2.2 Síntese
restrições, possíveis impactos das soluções para os usuários, clientes e É a fase criativa onde as ideias são concebidas, assim como as
localidades e estabelece uma lista de especificações como características possíveis soluções que atendam os objetivos e satisfaçam as restrições.
de dimensionamento, configuração e determinação das relações entre Segundo Kowaltowski, Bianchi e Petreche (2011), a criação passa a ser
os ambientes, custo estipulado, perfil dos fluxos, orientações tratada de forma mais científica a partir do século XIX associada à
predominantes, visuais, formas de articulação do edifício com o entorno, psicologia, nas Leis da Gestalt onde o pensador deve perceber o
etc. problema e entender sua dinâmica para reestruturá-lo; na Teoria
Pode-se perceber que o objetivo principal da fase de análise é definir Psicanalista de Sigmund Freud onde a relaciona-se com a imaginação
um programa arquitetônico. “O objetivo do programa arquitetônico, ou a representação mental nas brincadeiras e nos jogos da infância,
primeiro passo do processo de projeto, é descrever o contexto do projeto onde criatividade e neurose resultam de um conflito no inconsciente e
e, assim, estabelecer o problema a que a forma deverá responder.” uma pessoa criativa tem um ego flexível que aceita ideias originais do
(KOWALTOWSKI; MOREIRA, 2011). Peña; Parshall apud Kowaltowski; inconsciente. Trabalha com quatro abordagens de criatividade que
Moreira (2011) mostram que os bons resultados de projetos, desde sua podemos verificar na Figura 2:
boa aparência ao seu funcionamento, dependem da programação de A síntese possui passos intuitivos a partir de organização das formas,
requisitos do projeto e definem essa fase como a mais importante tarefa materiais, hierarquias de visuais, orientações predominantes, iluminação
do arquiteto. A importância do programa de necessidades leva a refletir e outros condicionantes – pode resultar em soluções parciais e
sobre a importância da relação clienteXprojetista. A riqueza de informações combinações de soluções e pode ser baseada em formas precedentes,
que se pode chegar nesse momento pode provir de um excelente metáforas, esboços reflexivos, regras de composição e estilos.
questionário ou forma de abordar, mas vai depender muito do grau de
confiança entre os envolvidos para que todas as informações sejam
reveladas. O objetivo final do programa de necessidades, assim como a
fase de análise, é determinar um problema mensurável e real para uma
boa solução, e não tentativas de soluções que não obtenham êxtase ou
ainda não sejam finalizadas como boas, apenas finalizadas por conclusão
do tempo de projeto.
Paralelamente e ainda na fase de análise o conceito também deve ser Figura 2 - Esquema das abordagens criativas de Freud.
discutido com não menos importância que o programa de necessidades.
Segundo Scaletsky (2006) conceitos são construções intelectuais criadas Essa fase pode ser baseada em métodos de tentativa e erro ou métodos
pelo arquiteto em função de um contexto único aonde: por um lado, existe de satisfação de restrições. Os métodos de tentativa e erro geralmente
um problema de projeto mal estruturado e em constante transformação e são processos rudimentares em que o projetista se utiliza da própria
por outro uma visão de mundo e um conjunto de experiências que o tentativa mal sucedida para alcançar uma boa solução. Já o método de
arquiteto construiu ao longo de sua vida. O conceito, como comentado, é busca de satisfação de restrições trabalha com as restrições do projeto,
associado a um nome de forma livre (e nem sempre consciente) pelo seja elas do meio ambiente em que o projeto será executado ou das
arquiteto que o está construindo, sendo um tipo de representação restrições exigidas pelo cliente, em que o programa será atendido. Além
eminentemente textual de ideias e intenções de projeto. disso, nesse método se aplica as linguagens formais e tipológicas que
“O conceito não é apenas uma elaboração mental prévia, destinada a deverão provir do conceito. Pode-se perceber perfeitamente que esta fase
ser substituída pelo projeto [...], mas o medium histórico da linguagem está condicionada ao sucesso desde que a fase de análise tenha
[...]. Cumpre ao arquiteto, no momento em que germina o seu conceito, cumprido sua meta de delimitação do problema.
ter um olhar voltado para aquilo que ele pretende recolher no projeto, o
qual lança ao mundo como o fruto de sua atividade.” (BRANDÃO, 2005)
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2.1 Avaliação responsável pela execução, etc., ou ainda pode ser utilizada no processo
Esta fase irá garantir a boa solução do projeto, ou pelo menos a mais conceitual do projeto, auxiliando na tomada de partido e decisões formais.
aceitável, detectando deficiências e distinguindo o que é compatível ou A partir dessa discussão deve-se reconhecer que as ferramentas digitais
conflitante. Neste momento entram as simulações de desempenho, por têm grande potencial de desenvolvimento de projetos e muitos arquitetos
exemplo. já incluem a simulação como parte de seu processo de projeto, o que faz
Segundo Makalwi (2005) a simulação de desempenho tem como objetivo refletir as atitudes no ensino de projeto arquitetônico.
principal prever o comportamento da construção como um todo, desde a
sua concepção até sua demolição. O uso de simulação de desempenho 2.2 Representação
em projeto de arquitetura está em ascensão. Isto é devido ao aumento de O sucesso das fases anteriores depende da qualidade da comunicação
poder computacional e amadurecimento no campo da simulação da entre elas. É a representação que permite aos participantes a informação
edificação. sobre a evolução das metas, soluções e avaliações, ou seja, a troca de
Com o surgimento da tecnologia BIM (Bulding Information Modeling), informações e faz o elo entre as fases.
definida pelo National BIM Standards Committee (NBIMS), como “uma Quanto mais complexo o projeto, maior a necessidade de novos
representação digital das características físicas e funcionais de uma profissionais envolvidos no processo (engenheiros estruturais,
edificação”. Para Eastman et al. (2008), o BIM fundamenta-se em duas engenheiros mecânicos, economistas, advogados, especialistas em
tecnologias: a modelagem paramétrica e interoperabilidade. Sendo a eficiência energética, contratantes, fabricantes, coordenadores, etc.) e
modelagem paramétrica constituída de entidades, normalmente com isso é necessário um bom fluxo de informações e acesso às
geométricas, com parâmetros fixos ou variáveis e a interoperabilidade a mesmas. O modo de informação pode influenciar a formação do
capacidade de comunicação entre softwares sem perda de dados e pensamento de projeto, com impacto direto no processo.
informações. Novas ferramentas vêm sendo desenvolvidas no intuito de O processo de projeto arquitetônico com o sistema BIM tende a
melhorar a capacidade dos softwares de simulação, integradas ao BIM, solucionar problemas de falta de integração entre as fases de concepção,
no entanto, a indústria da construção, incluindo arquitetos, está consciente anteprojeto, projeto executivo, detalhamento, etc. principalmente pela
das necessidades de uma melhor integração dessas ferramentas no redução das falhas. Trabalhar com BIM é sinônimo de trabalho colaborativo
ciclo de vida da construção. Somente praticantes elitizados estão em equipe interdisciplinar. Os métodos de projeto tomam outra frente a
aproveitando os recentes acontecimentos na simulação de desempenho. partir de então, fortalecendo muito o conceito inicial de uma obra, para
As principais diferenças que ocorrem no processo de projeto de forma garantir o foco no objetivo principal. Sendo assim, não se pensa mais em
tradicional para o BIM, são o trabalho colaborativo entre os profissionais projeto como uma forma de representação abstrata e sim como uma
especialistas desde a etapa de concepção até o modelo final, as simulação, onde o edifício passa a ser construído de forma virtual e existe
simulações e avaliações do edifício antes da etapa de anteprojeto e a uma lógica material da construção física.
quantidade de informações geradas por estes modelos. Segundo Andrade e Ruschel apud Kowaltowski et al (2011) o BIM possui
Ainda no processo de avaliação pode-se tirar partido de outra nova como princípios coordenação, colaboração e interoperabilidade e pode
tecnologia que é a prototipagem rápida e fabricação digital. Segundo ser uma tecnologia para o desenvolvimento e uso da informação do projeto
Pupo e Celani (2011) a evolução tecnológica não está somente nos do edifício, visando à documentação do projeto, simulação da construção
softwares e na maneira de conceber e/ou produzir projetos, mas também e operação do edifício. Caracteriza-se em três fases: BIM 1.0 – representa
na maneira de produzir maquetes físicas. Novas tecnologias de produção a emergência dos aplicativos baseados em objetos com ênfase em
nos fazem voltar à riqueza de detalhes antigamente existentes em modelagem paramétrica; BIM 2.0 – estágio de convergências e de
maquetes físicas, porém obsoletas pela facilidade de criação de modelos popularização do uso de ambientes de interação com programas
digitais que permite pensar o projeto como um todo e ainda poder integrados de análise; BIM 3.0 – prática de trabalhos entre equipes
apresentar esta maquete digital ao cliente. No entanto, a maquete física multidisciplinares com modelos integrados e fluxos de informações.
traz uma riqueza de detalhes muito maior, aproxima o criador de sua obra Cabe destacar que em meio a todas essas mudanças e conceitos BIM,
e pode ser utilizada para testes estruturais, de conforto térmico e acústico, “o desenho enquanto parte fundamental do processo criativo está sofrendo
para a construção de detalhes em uma escala menor e apresentação transformações proporcionadas pelos meios tecnológicos, alterando e
deste à obra, seja para o mestre de obras, serralheiro, engenheiro interferindo nas ações cognitivas dos arquitetos” (CELANI; RIGHI, 2008,
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p. 4). Por ser o desenho a maneira pelo qual o arquiteto se comunica, faz- de cultura contemporânea e teoria e história; e disciplinas práticas a
se uma reflexão sobre o ensino de desenho arquitetônico, onde por muito partir de projeto arquitetônico e estudo da forma, estas duas últimas
tempo os desenhos bidimensionais tinham esse papel de comunicar e também utilizam ferramentas de projeto à mão, e não ferramentas digitais
ao longo da história estes desenhos tendem a simplificar o que é de processo de projeto.
complexo, e com o advento do BIM ocorre uma mudança de paradigma. No 4º período, ele passa por um momento de avaliação de conteúdos,
em que se considera que o mesmo está em uma fase de transição e
3. O processo de ensino aprendizagem do Curso de Arquitetura e
crescimento acadêmico no curso.
Urbanismo na matriz 333
Do 5º ao 8º período o aluno caminha para a autonomia e é oferecida a
A matriz curricular vigente (333) do Curso de Arquitetura e Urbanismo
maioria das disciplinas de formação técnica de um arquiteto e urbanista.
da Unochapecó é estruturada em cinco fases de aprendizado e três
A cobrança é progressiva nestes períodos, considerando que ao chegar
divisões de conteúdo, como se pode visualizar na Figura 1. As fases: 1 -
ao 8º período o mesmo terá fundamentado todos os conhecimentos entre
Descobrir: encanto e estudo; 2 - Avaliar conteúdos: transição; 3 - Caminhar
as áreas de projeto arquitetônico, projeto urbanístico, teoria e história da
para a autonomia: cobrança progressiva; 4 - Articular conteúdos: transição;
arquitetura e urbanismo, materiais, estruturas e expressão gráfica. É
5 - Ser autônomo: emancipação, profissionalismo, ética e cidadania; são
somente no 5º período, quando ele inicia a caminhada para a autonomia,
articuladas em sequência com os seguintes eixos de conteúdo:
que é oferecida a disciplina de CAD aplicado à arquitetura e urbanismo,
Fundamentação; Articulação profissional; Estruturação profissional.
com software BIM.
A partir de então, no 9º e 10º períodos a matriz prevê disciplinas com
articulação de conteúdos e o último processo de transição para serem
autônomos, com disciplinas que exigem essa articulação como resposta
final às temáticas apresentadas. No 11º período o acadêmico deve ser
autônomo, construindo o Trabalho de Conclusão de Curso em Arquitetura
e Urbanismo (TCAU) com autonomia, contando com o apoio de docentes
das áreas de Arquitetura, Urbanismo, Estruturas e Conforto para orientá-
los nas tomadas de decisões.
Além dessa estruturação, a matriz 333 prevê seis linhas estruturadoras
com um coordenador em cada uma delas, para garantir a discussão e
organização das mesmas. As linhas estruturadoras são: Arquitetura;
Urbanismo; Conforto; Estruturas e tecnologia; Teorias e história; e
Expressão gráfica.

3.1 Diagnóstico da matriz


A matriz curricular 333 foi organizada pensando em facilitar discussões
entre períodos e linhas estruturadoras. Também se esperava que com a
inserção de um software BIM na disciplina de CAD os acadêmicos
tivessem maior facilidade na criação dos projetos e autonomia para a
integração dos mesmos.
Figura 3: Esquema de organização da matriz curricular 333 do Curso de
Porém, o que se vivenciou nas fases foi uma interdependência entre as
Arquitetura e Urbanismo da Unochapecó.
Fonte: Projeto Político Pedagógico do Curso de Arquitetura e Urbanismo da
disciplinas. Várias tentativas de discussões entre as linhas estruturadoras
Unochapecó, 2007. foram efetivadas, não completamente sem sucesso, pois foi possível
Nos três primeiros períodos do curso o aluno passa por um processo diagnosticar vários problemas no decorrer dessas discussões. O ponto
de descobrimento, com disciplinas de fundamentação - expressão gráfica mais crítico revelou-se nas linhas de expressão gráfica e projeto
com ferramentas à mão; introdução e fundamentação da arquitetura e arquitetônico, pois pretendia-se que com a redução da carga horária
urbanismo com disciplinas teóricas a partir das disciplinas de seminário dessas disciplinas, as disciplinas de outras linhas fossem estruturadas
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como componentes das mesmas. Entretanto, isso acabou não estudantes na representação do projeto arquitetônico (bidimensional),
acontecendo em função da dificuldade de articulação entre docentes, em um segundo momento desenvolveu-se um modelo tridimensional de
uma vez que boa parte fora contratada como emergencial e acabava por forma a auxiliar nas explicações referentes à representação do desenho,
não participar das reuniões das linhas estruturadoras ou iniciava a mas os acadêmicos a representavam o desenho à mão. Este método
disciplina sem apropriar-se das discussões. contribuiu para o entendimento dos alunos em relação ao que estavam
Na disciplina de Seminário em Arquitetura e Urbanismo, que acontece representando, mas percebeu-se, frente às novas tecnologias, que era
no 10º período com a intenção de discutir os conteúdos aplicados até preciso avançar.
então e embasar o TCAU, acabou-se por detectar algumas falhas no Os croquis manuais que exploram a observação auxiliam na
processo. O mesmo ocorreu na própria disciplina de TCAU. Percebe-se compreensão do espaço tridimensional, mas se tratando de desenho
que os acadêmicos ainda apresentam dificuldades de conteúdos e de técnico a utilização do método tradicional de desenho a mão, torna-se
articulação dos mesmos. Entendem as disciplinas isoladas, mas não um trabalho repetitivo. O acadêmico não vislumbra aplicação por este
conseguem integrar e aplicar em Projeto os conceitos de Teoria e História, processo quase não existir mais em meio aos profissionais, como
Conforto e Estruturas, sem contar a dificuldade de criação da forma por também nas fases subsequentes do curso, que já adotam o uso do
falta de ferramentas que os auxiliem. Tendo como base as ferramentas à desenho assistido por computador.
mão livre, poderiam perfeitamente criar qualquer forma, mas não o fazem A partir desta observação, em um terceiro momento inseriu-se uma
pelo temor de não conseguir graficar posteriormente. ferramenta de desenho auxiliado por computador. Uma vez que a disciplina
As disciplinas de Teoria e História, que deveriam dar embasamento de de CAD aplicado à Arquitetura e Urbanismo já havia incorporado uma
métodos de projeto a partir de arquitetos reconhecidos, embasamento ferramenta BIM, optou pela mesma ferramenta, mas o objetivo principal
de conceitos de projetos acaba não tendo este sucesso por ainda manter de utilizar uma ferramenta BIM, é vislumbrando um novo método de ensino
uma concepção de historicidade e pouca teoria. Assim, as disciplinas de de desenho e projeto. Nesta etapa não se abandonou o desenho à mão
projeto arquitetônico e urbano acabam prejudicadas pela baixa carga por completo, para que não houvesse perdas no processo de ensino
horária. As disciplinas de Conforto, também com pequena carga horária, aprendizagem. Desta forma a disciplina foi dividida dois momentos:
são prejudicadas pela falta de um laboratório e tecnologias acessíveis representação do projeto arquitetônico “à mão”, ainda com auxílio de um
aos acadêmicos, que permitam a aplicação do conteúdo desta área em projeto modelado em três dimensões e em um segundo momento os
todas as demais disciplinas de projeto. A pouca integração desta disciplina alunos representaram o projeto em três dimensões com o auxílio do
com os projetos faz com que eles cheguem ao final do curso com um software ArchiCAD, gerando os desenhos bidimensionais. Os resultados
grau de cobrança que não são capazes de cumprir. A falta de articulação dos alunos utilizando o software Archicad foram satisfatórios, o que pode
das disciplinas de Estruturas e Tecnologia com os projetos faz com que contribuir para um processo gradativo na representação gráfica digital,
os acadêmicos não consigam obter uma liberdade formal por falta de onde uma das grandes reclamações dos professores de Projeto
conhecimento estrutural. Arquitetônico é a má qualidade da representação gráfica. Mas existe uma
É possível perceber, portanto, o insucesso da aplicação da matriz e grande ruptura do desenho “à mão” para o desenho CAD, por o ensino
inicia-se o questionamento de o que poderia ser melhorado. Por outro não ocorrer de forma gradativa, uma vez que uma única disciplina, no 5º
lado, esses questionamentos são todos vistos como resultados válidos período, não consegue suprir essas deficiências, pois é necessário focar
da matriz, uma vez que propiciou essa reflexão acerca dos métodos e no uso da ferramenta e não se consegue avançar em uma nova
processos de projeto no ensino de arquitetura. metodologia, devido à baixa carga horária.
Como forma de experimentar alterações nesse processo, algumas O quarto momento, que ainda não foi implantado, é utilizar apenas o
tentativas de modificação no mesmo foram realizadas em determinadas BIM no ensino de desenho arquitetônico. A metodologia será focada na
disciplinas da matriz curricular 333. Na disciplina de desenho arquitetônico, visualização tridimensional tendo como apoio saídas de campo, para
da primeira fase na matriz, buscou-se inserir novas tecnologias. Em um que o aluno perceba a construção e seja capaz de representá-la em três
primeiro momento a disciplina era desenvolvida da forma tradicional de dimensões. Para Ruschel et al. (2011), um dos objetivos do BIM, é gastar
desenho à mão. A metodologia utilizada era baseada na representação mais tempo projetando e menos tempo desenhando. Entende-se que o
de desenhos bidimensionais e no ensino do sistema mongeano de ensino de desenho arquitetônico deve contribuir para este processo de
representação. Tendo em vista a dificuldade de visualização dos projeto. Os desenhos deixam de ser representação simplificada e estão
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conectados à indústria da construção civil, com detalhes mais completos Com o WIKIPROJ, que será implantado a partir de 2013, pretende-se
em um único modelo que é o edifício virtual. renovar a prática de ensino em arquitetura e urbanismo, integrando
A partir da lógica de concepção de projeto através da adoção de um saberes na síntese projetual; produzir conhecimento a partir das
partido e a partir de uma metodologia de projeto, percebe-se que existe experiências colaborativas, sistematizando-as nas linhas temáticas da
uma grande preocupação quanto à resposta formal dos edifícios, da grade, com vistas ao fortalecimento dos núcleos de pesquisa existentes
visualização do projeto como um todo, baseado em análise e e ao surgimento de novos núcleos; inovar nas respostas às demandas
levantamento de dados físicos, conceituais e do entorno. Hoje, esta é no setor da prestação de serviços e da extensão comunitária, contribuindo
uma atividade isolada do projetista em um processo linear de projeto. No para a transformação do ambiente construído e na qualidade de vida da
conceito de concepção de projeto utilizando BIM, o processo deixa de ser sociedade; e qualificar a oferta de estágios em arquitetura e urbanismo,
linear e passa a ser colaborativo e simultâneo, no qual uma equipe oportunizando o contato com processos colaborativos e ferramentas
multidisciplinar está envolvida desde a etapa de concepção de projeto, inovadoras.
onde a linguagem arquitetônica passa a ser gerada também através de O mesmo está sendo estruturado de modo a envolver laboratórios de
simulações, análises, custos e comunicação dos profissionais em todas conforto ambiental, laboratório de processos de projetos, laboratório de
as fases e etapas do projeto. geoprocessamento e laboratório de prototipagem rápida, todos
Nas disciplinas de Projeto Arquitetônico I e II, percebeu-se uma grande trabalhando com profissionais docentes especializados em processos
deficiência por parte dos alunos no lançamento do partido arquitetônico, colaborativos como mostra a Figura 4.
onde a forma de expressão solicitada era os croquis manuais. Ao detectar
esse problema e buscando aliar a incorporação de ferramentas digitais,
foi inserido na disciplina a ferramenta SketchUP, pela rápida, fácil e intuitiva
manipulação dos sólidos tridimensionais, dando liberdade na definição
de novas formas e em uma visualização simultânea durante a
manipulação. Apenas uma aula foi utilizada para o ensino desta
ferramenta em Projeto Arquitetônico I. Já em Projeto Arquitetônico II, duas
aulas foram destinadas, pois era necessário modelar o terreno de forma
tridimensional para que os alunos compreendessem a topografia do
mesmo, exigência da ementa da disciplina. Com essa aplicação pode-
se perceber uma maior a criatividade por parte dos acadêmicos, um
maior entendimento do partido em relação à topografia e entorno, e maior
facilidade para lançar diferentes soluções para o partido arquitetônico,
assim como para sua evolução.

1. O WIKIPROJ
Percebendo que as tecnologias citadas no decorrer deste artigo, como
projeto colaborativo com processo BIM, prototipagem rápida, fabricação Figura 4: Funcionograma organizacional do WIKIPROJ.
digital e aplicação de softwares de desempenho, principalmente na área
de conforto, podem facilitar o processo de ensino-aprendizagem na O WIKIPROJ pode ser considerado como o futuro “coração” do curso,
arquitetura, buscou-se uma maneira de inserir das mesmas no Curso de tanto por integrar a estrutura laboratorial, de estágios, de pesquisa e
Arquitetura e Urbanismo da Unochapecó. extensão, mas por ser o grande “laboratório” de ensino, utilizando-se dos
Assim surge o WIKIPROJ – Laboratório de Processos Colaborativos processos colaborativos e de fabricação digital como ferramenta para
em Projetos, que tem como objetivo desenvolver a formação acadêmica, uma prática inovadora que implicará na forma de ensinar e aprender em
integrando o ensino, a pesquisa e a extensão por meio de ferramentas arquitetura e urbanismo.
projetuais colaborativas que permitam a resposta em forma de projetos Segundo Pupo (2009) os projetos de pesquisa e extensão aproximam
para a sociedade. o meio acadêmico da comunidade. Os projetos de extensão têm o objetivo
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de aplicar o conhecimento gerado nas pesquisas, aproximando o mesmo


do mundo “real” e descobrindo as possíveis complicações. Com toda 2. BIBLIOGRAFIA
sua inovação e diversidade de aplicação, as técnicas de prototipagem e ANDRADE, Max L. V. X. de; RUSCHEL, Regina Coeli. Building Information
fabricação digital divulgadas por meio dos projetos de extensão, Modeling (BIM). Artigo disponível em KOWALTOWSKI, Doris C. C. K.;
proporcionam uma propagação do conhecimento com a qual os MOREIRA, Daniel de Carvalho; PETRECHE, João R. D.; FABRICIO, Márcio
laboratórios dessa natureza devem sempre contar para futuros projetos M. (orgs.). O Processo de Projeto em Arquitetura. São Paulo: Oficina de
e desafios. Textos, 2011.
ANDRADE, Max L. V. X. de; RUSCHEL, Regina Coeli; MOREIRA, Daniel de
5. Considerações Finais Carvalho. O Processo e os Métodos. Artigo disponível em KOWALTOWSKI,
Conforme visualizado anteriormente, o Curso de Arquitetura e Doris C. C. K.; MOREIRA, Daniel de Carvalho; PETRECHE, João R. D.;
Urbanismo da Unochapecó possui uma matriz curricular passível de FABRICIO, Márcio M. (orgs.). O Processo de Projeto em Arquitetura. São
adaptações, porém tais adaptações dependem do planejamento do Paulo: Oficina de Textos, 2011.
ensino por parte dos docentes assim como qualquer adaptação de BRANDÃO, Carlos Antônio Leite. Linguagem e Arquitetura: O Problema
tecnologias em currículos como métodos de ensino e não como ementas. do Conceito. Artigo disponível em:http://www.google.com.br/
Algumas tecnologias citadas podem ser enquadradas no processo de ?
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síntese do projeto e ainda na fase inicial da matriz, a de descobrir, e o e - a r q u i t e t u r a - o - p r o b l e m a - d o -
encanto e estímulo pode ser reforçado por maiores possibilidades conceito.doc&ei=RTaHULuHJef30gGm8YGwBA&usg=AFQjCNGdGJAx_IvIOttqASIEOtO-
projetuais. A prototipagem rápida e utilização de processos de projetos QiMabg. Acessado em 23/10/2012.
por meio de softwares para projetos colaborativos inseridas em fases
iniciais irão instruir os acadêmicos e facilitar o desenvolvimento e CELANI, Gabriela e MEDRANO, Leandro. O Escritório Modelo Experimental
crescimento intelectuais futuros, pois permitirão a continuidade da da UNICAMP: Um Laboratório para o Desenvolvimento de Novos Métodos
melhoria do desempenho, sem romper processos projetuais por conta e Processos de Projeto. Artigo apresentado em IV Projetar. São Paulo:
da troca de ferramentas. Hoje isso ocorre quando os acadêmicos ainda 2009.
não chegaram em uma fase de avaliação de conteúdos e maturidade CELANI, Gabriela; RIGHI, Thales. Esboços na era digital: Uma discussão
para seguir para a autonomia. Acredita-se que dessa maneira a utilização sobre as mudanças na metodologia de projeto arquitetônico. SIGRADI,
do software BIM pelo acadêmico não será somente como ferramenta e 2008. Disponível em http://www.fec.unicamp.br/~lapac/papers/righi-celani-
priorizará o mesmo como método ou processo de projeto. 2008.pdf. Acesso em: 30 set. 2012.
O processo de projetar com essas e outras novas ferramentas como a COMAS, Carlos Eduardo (org.) Projeto Arquitetônico: Disciplina em Crise,
utilização de simuladores de desempenho, testes em túnel de vento, Disciplina em Renovação. São Paulo: Projeto, 1986. 94 p.
projetos colaborativos com compatibilização dos mesmos priorizando a EASTMAN, Chuck; TEICHOLZ, Paul; SACKS, Rafael; LISTON, Kathleen.
integração entre áreas de construção, conforto, projeto, teoria, tecnologias BIM Handbook: A Guide to Building Information Modeling for Owners,
e urbanismo, muda completamente a partir do que está sendo Managers, Designers, Engineers and Contractors. Hoboken (NJ): John
costumeiramente feito atualmente. Wiley & Sons, 2008.
Com o citado acima, a revisão da matriz curricular é necessária e deverá KOWALTOWSKI, Doris C. C. K.; MOREIRA, Daniel de Carvalho. O Programa
objetivar o vínculo entre as ementas e o real processo de projeto com Arquitetônico . Artigo disponível em KOWALTOWSKI, Doris C. C. K.;
inserção das novas tecnologias. MOREIRA, Daniel de Carvalho; PETRECHE, João R. D.; FABRICIO, Márcio
Fica claro também que o WIKIPROJ, como um grande laboratório de M. (orgs.). O Processo de Projeto em Arquitetura. São Paulo: Oficina de
processos colaborativos de projetos, poderá fundamentar a nova matriz Textos, 2011.
curricular e ou no mínimo exercer experiências da integração dessas KOWALTOWSKI, Doris C. C. K; BIANCHI, Giovana; PETRECHE, João R. D.
novas tecnologias e mudanças que devem ser almejadas, atuando não A Criatividade no Processo de Projeto. Artigo disponível em
somente como fomento da pesquisa, mas da integração de novos KOWALTOWSKI, Doris C. C. K.; MOREIRA, Daniel de Carvalho; PETRECHE,
processos e métodos à realidade com a integração de pesquisa, ensino João R. D.; FABRICIO, Márcio M. (orgs.). O Processo de Projeto em
e extensão, sempre aspirada pelas universidades. Arquitetura. São Paulo: Oficina de Textos, 2011.
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XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

MALKAWI, Ali M. Performance Simulation: Research and Tools. Artigo A CRIATIVIDADE NO ENSINO DE
disponível em KOLAREVIC, Branco; MALKAWI, Ali M. Performative
Architecture – Beyond Instrumentality. New York, Spon Press: 2005. ARQUITETURA E URBANISMO
NARDELLI, Eduardo Sampaio. O Estado da Arte. Artigo disponível em Considerações sobre a Criatividade no Ensino da Arquitetura
http://www.revistaau.com.br/arquitetura-urbanismo/152/artigo34836-
e do Urbanismo
1.asp, acessado em 15/10/2012.
PUPO, Regiane Trevisan. Inserção da Prototipagem e Fabricação Digitais
no Processo de Projeto: um Novo Desafio para o Ensino de Arquitetura.
Tese de Doutorado. Campinas, São Paulo: 2009. Bráulio Vinícius FERREIRA1.
PUPO, Regiane Trevisan; CELANI, Maria Gabriela C. Prototipagem Rápida Mestre, Universidade Federal de Goiás. braulio.arq@hotmail.com
e Fabricação Digital na Arquitetura: Fundamentação e Formatação. Artigo
disponível em KOWALTOWSKI, Doris C. C. K.; MOREIRA, Daniel de
Carvalho; PETRECHE, João R. D.; FABRICIO, Márcio M. (orgs.). O Processo
de Projeto em Arquitetura. São Paulo: Oficina de Textos, 2011. RESUMO
RIO, Vicente del. Projeto de arquitetura: entre criatividade e método. In: Este texto é resultado da minha pesquisa realizada no mestrado em
Arquitetura: pesquisa & projeto. Rio de Janeiro: FAU; UFRJ, 1998. educação na Pontifícia Universidade Católica de Goiás. Além da pesquisa
RUSCHEL, Regina Coeli; ANDRADE, Max Lira Veras Xavier de; MORAIS, teórica desenvolvida durante a elaboração da dissertação, a pesquisa de
Marcelo de; SALES, Adriano de Alencar. O ensino de BIM: exemplos de campo, que incluía a entrevista com professores e alunos, revelou
implantação em Cursos de engenharia e arquitetura In: V Encontro de aspectos interessantes sobre a prática pedagógica do ensino de projeto
Tecnologia da Informação e Comunicação na Construção Civil – TIC 2011, e a criatividade.
2011, Salvador. Anais do TIC2011. Salvador: UFBA, 2011. 1CD. PALAVRAS CHAVE: criatividade, ensino de projeto.

SANTOS, Flávio Anthero Vianna dos. MD3E: uma proposta de método I. A Criatividade
aberto de projeto para uso no design industrial. 2005. 168 f. Tese A criatividade é hoje um dos termos mais utilizados como capacidade
(Doutorado em Engenharia de Produção)–Universidade Federal de Santa valorizada em todos os campos do conhecimento. Originalidade, inovação
Catarina, Florianópolis, 2005. na solução de problemas, riqueza de idéias, pensamento flexível, abertura
SCHÖN, Donald. Educando o profissional reflexivo: um novo design para e fluidez no processo de produção são características das pessoas
o ensino e a aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 2000. criativas, cobiçadas pelas empresas num mundo globalizado, no qual a
SILVA, Elvan. Uma introdução ao projeto arquitetônico. 2. ed. rev. e ampl. concorrência em âmbito mundial e o desenvolvimento tecnológico exigem
Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1998. 125 p. constantes inovações. Lotufo (1999, p. 796) faz, a esse respeito, a seguinte
(Livro-texto) ISBN 85-7025-440-7 colocação:
Os estudos mais abrangentes sobre criatividade surgiram exatamente
neste contexto da concorrência tecnológica. Vários autores como Mühle,
1980, Ziechmann, 1980, Kneller, 1978, citam o choque do Sputnik, 1957,
como ponto de partida das pesquisas amplas na área da criatividade. O
avanço tecnológico da União Soviética resultou na preocupação da
sociedade americana em buscar renovações profundas no campo da
Psicologia e Pedagogia, diante do medo de perder a liderança técnico-
científica.
A criatividade é própria da natureza humana, é uma de suas
necessidades. Há uma tendência em tratar a criatividade apenas do ponto
de vista artístico, restringindo o ato criativo ao campo das artes. Ostrower
1 Bráulio Vinícius Ferreira, é doutorando em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás.
Bolsista da FAPEG – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás.
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(1996) afirma que, o ato de criar só pode ser visto, num sentido amplo e particular, deixando perceber que a criatividade no processo de trabalho
global, como um agir integrado ao viver humano. Segundo esta autora, a é fundamental para a atividade do arquiteto e urbanista.
natureza criativa do homem se elabora num contexto cultural, no qual Kneller (1999) afirma que existem quatro categorias de definições para
todo indivíduo se desenvolve, e num contexto social, no qual necessidades criatividade:
e valores culturais se moldam aos valores da vida. Ela pode ser considerada do ponto de vista da pessoa que cria, isto é,
Há, então, dentro do indivíduo, uma polarização da seguinte relação: a em termos de fisiologia e temperamento, inclusive atitudes pessoais,
criatividade que representa o potencial de ser único e a criação, que será hábitos e valores. Pode também ser explanada por meio dos processos
a realização deste potencial dentro de um contexto. Uma das idéias de mentais, motivação, percepção, aprendizado, pensamento e
Ostrower é considerar os processos criativos na interligação dos dois comunicação – que o ato de criar mobiliza. Uma terceira definição focaliza
níveis da existência humana: o individual e o cultural. influências ambientais e culturais. Finalmente, a criatividade pode ser
Alguns autores afirmam que, ao adentrar nesta importante e complexa entendida em função de seus produtos, como teorias, invenções, pinturas,
área, haverá desde o início um problema conceitual que é a definição de esculturas e poemas.
criatividade ou do que entender por criatividade. Segundo Martínez (1997), Esta última concepção é que tem predominantemente guiado, por
existem mais de 400 sentidos diferentes para o termo, além de palavras tradição, o estudo da criatividade. Este é, na verdade, o modo mais óbvio
com significados aproximados, como produtividade, pensamento criativo, de abordar o assunto, uma vez que os produtos, sendo públicos e
pensamento produtivo, originalidade, inventividade, descoberta e prontamente obteníveis, são mais facilmente avaliados do que
inteligência. personalidades. (KNELLER, 1999, p.15)
A criatividade pode ser definida como o processo de produção de alguma As definições de criatividade apontam para um denominador comum: o
coisa nova. Este conceito parece estar intimamente ligado ao produto, ou elemento novidade. Cria-se quando se descobre uma nova maneira de
ao resultado, mas Martínez (1997) afirma que o processo através do qual resolver uma atividade, quando se dá a um objeto um novo sentido,
se chega ao produto, ou ao resultado, está implícito e tem um papel quando se cria sentidos para as palavras ou quando são feitas novas
fundamental. combinações de notas musicais, criando, assim, uma nova melodia. A
Para Ostrower (1996), o ato de criar está intimamente relacionado ao novidade está sempre presente no ato de criar.
de formar. É basicamente dar forma a algo novo, não importando qual Para Kneller (1999), a novidade por si só não torna criativo um ato ou
seja o campo de atividade. Desta forma, não só os campos da Arquitetura uma idéia. Outro fator que deve estar presente é a relevância. Como o ato
ou das Artes podem se apropriar do termo. criador é uma resposta de uma situação particular, ele deve resolver ou
Gomes (2001) afirma que criar significa o processo pelo qual seres dar noções de solução para a situação que o fez surgir. Portanto, segundo
humanos encontram meios para conceber, gerar, formar, desenvolver e este autor, um ato ou uma idéia são criadores não apenas por serem
materializar idéias. Segundo este autor o ato de criar é resultante de dois novos mas também porque conseguem algo adequado a uma dada
fatores bem distintos nos seres humanos: os cinco sentidos perceptivos situação.
e a quantidade de conexões que o cérebro produz. A criatividade pode ser melhor compreendida quando contrastada com
Não há como chegar a um conceito absoluto de criatividade, mas pode- a inteligência. Segundo Kneller (1999), o pensamento criador é inovador
se afirmar, em síntese, que criatividade é o processo de descoberta ou exploratório e aventureiro, é atraído pelo desconhecido e indeterminado,
de produção de algo novo, que cumpre as exigências de uma determinada pois o risco e a incerteza são seus estimulantes. O pensamento não
situação social, processo que, além disso, tem um caráter pessoal. criador; é cauteloso, metódico, conservador. Absorve o novo no já conhecido
Segundo Gomes (2001), o processo criativo permite, àquele que o e prefere dilatar as categorias existentes a inventar novas. Outros autores
conhece, obter consciência de suas potencialidades para a prática denominam estes dois tipos de pensamento de “divergência” e
profissional. O conceito de criatividade como processo é fundamental “convergência”.
para a atividade do arquiteto e urbanista, pois o produto que se espera O pensamento não criador ou convergente é, em grande parte, medido
obter como resultado de seu trabalho passa pela etapa da concepção, pelo teste de inteligência que em geral exige repostas únicas e corretas
da representação e da construção ou implantação, e cada uma destas para problemas exatamente definidos e, na maioria das vezes, essas
etapas de trabalho estabelece um processo de desenvolvimento respostas são convencionais. A pessoa que se submete a este tipo de
teste deve apresentar como características boa memória e boa
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capacidade de reconhecer e de resolver problemas. A inventividade, a melhor em testes de pensamento criador do que aquelas situadas no
especulação ou a exploração de outras idéias não estão presentes neste terço inferior.
tipo de teste. Seria, portanto, razoável admitir que até certo ponto todos os homens
Kneller (1999) estabelece uma relação entre criatividade e inteligência, são criativos, à medida que podem exprimir seu potencial criador. Esta
porém, não afirma que tal relação é absoluta, mas que são poucas as conclusão é baseada na lógica e não em experiências comprovadas, por
pessoas altamente criativas que não são também altamente inteligentes. isso devem ser encaradas com cautela; postura contrária poderia gerar
Este autor afirma que a criatividade não é uma qualidade única. O termo conclusões equivocadas em relação ao potencial criativo do homem.
deve ser definido como um processo mental, como sendo um grupo de II. Atividade Criativa
capacidades relacionadas, como fluência, originalidade e flexibilidade, Em relação à atividade criativa, alguns autores apontam para a existência
que costumam agir em conjunto, o que justifica o fato de agrupá-las sob de fases ou etapas reconhecíveis. Para Kneller (1999), por exemplo o
um único termo. processo criativo se desenvolve durante um período de tempo e este
Uma outra corrente de pesquisadores define criatividade como um tipo período pode ser analisado como sendo composto de vários estágios da
especial de solução de problemas marcado por traços como a novidade atividade criativa. Este autor propõe uma fase inicial, a apreensão, que
e a persistência. Mas tal definição pode ser limitadora da amplitude do antecede a fase da preparação, a incubação, a iluminação e, por fim, a
termo criatividade e pode gerar uma série de equívocos. verificação.
Kneller (1999, p.24) afirma: Outros autores afirmam que a atividade criativa não pode ser dividida
Nada se ganha, pois, quando se considera a criatividade como espécie com esta precisão de fases, pois os vários processos que participam na
de solução de problema. Para sermos justos com a criatividade, criação são tão complexos e ligados uns nos outros que seria um equívoco
precisamos considerá-la como fenômeno, ou grupo de fenômenos, separá-los numa seqüência.
autônomo. Se o incluímos em outra categoria, acabaremos enevoando A fase da apreensão é caracterizada, segundo Kneller (1999), por uma
nossa própria visão dos fatos que investigamos. É obvio a qualquer demorada preparação consciente, que é seguida por intervalos de
pessoa que há certas soluções de problemas que são criativas. Mas é atividade não consciente. O criador tem de ter o seu primeiro “insight”, ou
injustificado pressuposto ver em toda criatividade um caso de solução de seja, apreender uma idéia a ser realizada ou um problema a ser resolvido.
problema. (KNELLER, 1999, p.24) Até o momento da apreensão, o autor não teve inspiração, mas apenas a
Um outro equívoco em relação à criatividade é relacioná-la apenas ao noção de algo a fazer. A preparação é constituída pela investigação das
campo das artes. Da mesma maneira que um escritor transforma suas potencialidades da idéia inicial. O criador lê, anota, discute, indaga,
experiências da cena humana em novela ou peça de teatro, o cientista coleciona. Nesta fase, o criador pode propor possíveis soluções,
verifica e aprofunda os dados que adquiriu, a fim de produzir uma nova ponderando a viabilidade de cada proposta. A preparação inclui também
teoria. Uns e outros rearranjam conhecimento e experiência existentes, o meio criador. Segundo o autor, a criação requer técnica, que pode ser
próprios ou alheios, em uma nova forma ou um novo padrão. Tanto o bruta ou refinada, conforme a natureza do meio. A fase da incubação tem
escritor quanto o cientista trabalham pela intuição e pelo intelecto, pois o como característica o trabalho do inconsciente que, sem limites e
escritor e o cientista têm de caminhar a partir de idéias que são sentidas desimpedido pelo intelecto literal, faz as inesperadas conexões que
mais do que compreendidas, que têm tanto de sensações quanto de constituem a essência da criação. O momento da iluminação leva o
pensamentos. processo de criação ao seu ponto máximo, pois, de repente, o criador
Alguns trabalhos ou profissões oferecem mais espaço do que outros à percebe a solução para seu problema, o conceito que enfoca todos os
criatividade. A propaganda e o ensino podem ter funções mais criativas fatos ou o pensamento que completa as idéias em que ele trabalha. A
do que aquelas que exigem um trabalho excessivamente braçal, pois se última fase da atividade criativa é a verificação ou a revisão, na qual o
exige do publicitário e do professor mais originalidade na ação e no criador precisa distinguir, na sua produção, o que é válido, pois a fase de
pensamento. Porém, Kneller (1999) afirma que as pesquisas demonstram iluminação é falível.
que a criatividade contribui para o êxito das atividades mais comuns, Embora a apresentação das fases da atividade criativa seja tão evidente
como a de balconista de uma grande loja. Segundo o autor, em não há como separá-las. Sobre o processo da atividade criativa, Kneller
determinado estudo ficou patente que as vendedoras que se colocavam (1999) esclarece:
no terço superior da lista de vendas em suas lojas também se saíam
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Primeiro há um impulso para criar. Segue-se a este um período, exprimir em forma de indagação, criadora torna mais fácil encontrá-lo o
freqüentemente demorado, em que o criador recolhe material e investiga objeto da pesquisa.
diferentes métodos de trabalhá-lo. Vem a seguir um tempo de incubação São também características da atividade criativa a amplitude e a
no qual a obra criadora procede inconscientemente. Então surge o fertilidade de suas abordagens; uma das marcas desta atividade criativa
momento da iluminação, e o inconsciente anuncia de súbito os resultados é não aceitar o erro como um ponto final, mas como motivo para mudar
de seu trabalho. Há por fim, um processo de revisão em que as données as formas de abordagens a respeito do objeto da criação. Muitas vezes o
de inspiração são conscientemente elaboradas, alteradas e corrigidas. que parece erro pode ser uma intuição distorcida durante o processo da
(KNELLER, 1999, p.73) atividade criativa, podendo levar a uma outra direção, que pode ser a
Apesar de a atividade criativa apresentar um desenvolvimento de etapas correta. O uso dos erros de forma inteligente é outra condição da atividade
distintas, a realização destas etapas acontece de forma dinâmica. O criativa.
processo de realização de uma atividade criativa não acontece de forma O sujeito da atividade criativa precisa saber quando parar de dirigir
linear; pelo contrário, é a relação das etapas que resulta em uma atividade sua obra e permitir que ela o dirija. Deve saber, portanto, quando é provável
criativa bem sucedida. que sua obra seja mais sábia do que ele. É necessário, como condição
Além das fases ou etapas da atividade criativa, existem algumas da atividade criativa, a submissão do criador à obra de criação.
condições que devem existir para que, segundo Kneller (1999), ocorra a
verdadeira criação. A receptividade é a primeira delas, pois se é certo que
as idéias criadoras não podem ser forçadas, também é certo que elas GOMES, Luiz Vidal Negreiros. Criatividade: projeto, desenho, produto.
não surgem se não se está receptivo. Muitas idéias perdem-se Santa Maria – RS: sCHDs Editora Ltda., 2001.
simplesmente porque a pessoa se acha tão ocupada que nem consegue KNELLER, G. F. Arte e Ciência da Criatividade. 14. ed. São Paulo: Ibrasa,
notá-las ou perceber sua significação. 1999.
A imersão é a condição para se envolver com o assunto da atividade LOTUFO, E. Criatividade no Ensino Universitário. In: Fragmentos de
criativa. Tal condição nutre a imaginação e fortalece a atividade criativa, Cultura, Goiânia, v.9, n. 4, p.795-811, jul./ago. UCG, 1999.
pois oferece uma série de novas abordagens em relação ao problema, MARTÍNEZ, A. M. Criatividade, Personalidade e Educação. Campinas:
evidencia novos caminhos para a solução de um problema e a ajuda o Papirus, 1997.
sujeito da atividade criativa a pensar mais profundamente e de modo OSTROWER, F. Criatividade e Processos de Criação. 11ª ed. Petrópolis:
mais global a respeito de sua atividade, revelando dificuldades e Vozes, 1996
possibilidades que antes não seriam notadas.
As outras condições da atividade criativa são a dedicação e o
desprendimento. A imersão naturalmente leva à dedicação, pois o criador
precisa se envolver profundamente em seu trabalho para reunir a energia
necessária à concentração que a atividade criativa exige. Ao mesmo tempo,
quando o sujeito da atividade criativa focaliza em demasia seu trabalho,
pode limitar seu pensamento e prejudicar a criatividade. Desta forma, é
necessário desprendimento para que se consiga ver o processo como
um todo, permitindo, assim, outras formas de leitura e observação da
atividade criativa.
A imaginação e o julgamento são também condições da atividade criativa.
A imaginação produz idéias, porém não as comunica; já o julgamento
comunica as idéias mas não as produz. A criação só ocorrerá se houver
cooperação entre a imaginação e julgamento, uma vez que a atividade
criativa é, ao mesmo tempo, produção e comunicação.
A interrogação é outra condição da atividade criativa. Para o pensamento
criador, é tão importante fazer perguntas quanto respondê-las, pois ao se
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O planejamento e o projeto urbanos na I - INTRODUÇÃO


O Curso de Arquitetura e Urbanismo de Presidente Prudente foi criado
proposta de revisão do Projeto Político em 20031, no contexto da política da Unesp de ampliação do número de
Pedagógico do Curso de Arquitetura e vagas no ensino superior gratuito, atendendo demandas sociais
apresentadas por uma região que, no conjunto do Estado de São Paulo,
Urbanismo da Faculdade de Ciências e está entre aquelas que têm menor participação no PIB e menor renda por
habitante.
Tecnologia da UNESP – Campus de O curso de Arquitetura e Urbanismo foi elaborado por profissionais da
Presidente Prudente-SP Faculdade de Ciências e Tecnologia, sobretudo da área de Ciências
Sociais, atuantes e com tradição em pesquisas urbanas e correlatas,
dos Departamentos de Geografia e Planejamento, Urbanismo e Ambiente.
Cristina Maria Perissinotto BARON O desafio proposto estava na formação de um profissional que tivesse
Doutora. Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. condições de enfrentar os problemas urbanos decorrentes da
crisbaron@fct.unesp.br concentração populacional que vem ocorrendo nas cidades brasileiras
com respostas em diferentes esferas de atuação, do planejamento
Hélio HIRAO urbano, passando pela gestão e propondo intervenções em diferentes
Doutor. Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. escalas.
hirao@fct.unesp.br Em 2010, houve a necessidade de repensar o Projeto Político
Pedagógico, por questões externas e internas ao curso. Externas, aponta-
Evandro FIORIN
se o processo de discussão que a própria UNESP, através da sua Pró-
Doutor. Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”.
Reitoria de Graduação, propôs aos cursos afins, no caso, os dois cursos
evandrofiorin@fct.unesp.br
de Arquitetura e Urbanismo, de Presidente Prudente e Bauru. Este
Arlete Maria FRANCISCO processo foi denominado de Articulação e teve como objetivo fazer um
Doutora. Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. diagnóstico, identificando as semelhanças e diferenças entre os cursos.
arletefrancisco@fct.unesp.br Internamente, havia necessidade de adequação às normas vigentes das
Novas Diretrizes Curriculares para os Cursos de Arquitetura e Urbanismo,
RESUMO implantadas em 2010, como também, reforçar práticas pedagógicas
O curso de Arquitetura e Urbanismo criado na Universidade Estadual projetuais no ensino do Arquiteto Urbanista por meio de disciplinas de
Paulista “Júlio de Mesquita Filho” - Faculdade de Ciências e Tecnologia – Projeto, abrangendo o Urbanismo, a Edificação e o Paisagismo e
Campus de Presidente Prudente – SP; em 2003, buscou a formação de redistribuir a carga horária do curso, possibilitando o ingresso do aluno
um profissional que compreendesse as implicações do crescente nas atividades de pesquisa e extensão.
processo de urbanização das cidades brasileiras e suas implicações Neste artigo, apresentamos o Projeto Político Pedagógico inicial, a
socioespaciais, propondo, além da formação do arquiteto generalista, metodologia utilizada na reestruturação curricular, discutindo aspectos
uma ênfase em planejamento e gestão urbanos. Em 2010, iniciou-se um de interdisciplinaridade horizontal e vertical, bem como o fomento dos
processo interno de revisão do Projeto Político Pedagógico. Este trabalho grupos de pesquisa e, finalmente, o resultado do trabalho coletivo do
apresenta o processo metodológico proposto para a reestruturação e as corpo docente nas discussões e decisões que resultaram em alterações
principais alterações na proposta da matriz curricular, a partir das do perfil profissional e consequentemente, na nova matriz curricular
discussões sobre as questões urbanas e o papel do arquiteto urbanista. proposta no Projeto Político Pedagógico para o Curso de Arquitetura e
Discussões essas que levaram a sutil mudança na ênfase, de Urbanismo da UNESP – Campus Presidente Prudente.
planejamento e gestão urbanos para planejamento e projeto urbanos,
reforçando a reflexão e ação sobre a cidade. 1 Resolução UNESP 30, de 22 de maio de 2003 e Deliberação do Conselho Universitário, em sessão de 27/03/03,
PALAVRAS-CHAVE: planejamento, projeto urbano, proposta pedagógica, publicado no Diário Oficial do Estado de São Paulo, em 23/05/2003. A primeira turma do Curso de Arquitetura e
pesquisa em arquitetura e urbanismo Urbanismo teve início em agosto de 2003. Em 2004 o vestibular passou a ser anual.
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II - O PROJETO POLÍTICO PEDAGÓGICO INICIAL E A ENFÂSE NO  contribuir para a elaboração de uma Política de Preservação e
PLANEJAMENTO E GESTÃO URBANOS Revitalização do Patrimônio Ambiental;
O curso de Arquitetura e Urbanismo criado na Universidade Estadual  considerar, em todos os desafios apontados, a necessidade de
Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – UNESP, na Faculdade de Ciências e articulação das agendas das políticas públicas explicitadas em inúmeros
Tecnologia no Campus de Presidente Prudente, no Estado de São Paulo, documentos, tais como o Estatuto da Cidade, o Habitat II e a Agenda 21.
é o segundo curso proposto pela UNESP, iniciando suas atividades há Foi neste contexto de desafios e discussões sobre o urbanismo e a
10 anos. O curso do Campus de Bauru, da Faculdade de Arquitetura, qualidade dos espaços urbanos que surge o curso de Arquitetura e
Artes e Comunicação foi encampado pela UNESP em 1988. A localização Urbanismo, na busca de profissionais capazes de apreender a
dos respectivos campi no Estado de São Paulo teve influência sobre o complexidade imposta pela cidade e de propor soluções compreensivas.
perfil do profissional desejado. O curso tinha como objetivos: formar profissionais na área de Arquitetura
O contexto no qual foi idealizado o perfil do arquiteto urbanista da UNESP e Urbanismo, com ênfase na capacitação profissional para o
de Presidente Prudente teve como discussão o processo de urbanização planejamento e a gestão urbanos; desenvolver linhas de pesquisa
decorrente do ritmo de crescimento populacional e do aumento associadas a essa formação superior, fortalecendo o trabalho que já era
significativo de pessoas que passaram a viver em cidades. Embora, nos desenvolvido nas áreas de Planejamento Urbano e Regional
últimos anos, o ritmo destes movimentos tenha sido reduzido, não se (Departamento de Planejamento) e Geografia Urbana (Departamento de
observa uma reversão destas tendências. Portanto, entender este Geografia) e realizar um trabalho de extensão universitária na perspectiva
processo significa “... compreender as mudanças nos papéis de oferecimento de subsídios para se pensar um “novo projeto urbano”
desempenhados pelas cidades, a ampliação deles no mundo na escala dos pequenos e médios municípios (SPOSITO, 2002).
contemporâneo e as novas formas de relação entre espaços urbanos e Nesse sentido, a proposta do Curso de Arquitetura e Urbanismo da
áreas rurais” (SPOSITO, 2002). UNESP – Campus de Presidente Prudente permite a reflexão sobre o
Outro ponto importante sobre este contexto refere-se à crescente modo de pensar e agir sobre problemas inerentes às “grandes
internacionalização da economia, em conjunto com os conhecimentos aglomerações urbanas”, mas também, fundamentalmente, sobre
científicos e tecnológicos, discussões estas que passam pela questões relativas às “cidades médias ou pequenas”. Dessa maneira,
globalização e consequente mudanças nos papéis das cidades em reforça a necessidade de observar a importância das cidades do interior
diferentes escalas espaciais da realidade. paulista, produtos do ciclo econômico da cafeicultura e do algodão. A
Assim sendo, os desafios propostos sobre o papel do arquiteto expansão da ferrovia e, posteriormente, da malha rodoviária forneceu as
urbanista podem ser resumidos em: condições favoráveis à constituição de uma rede urbana composta por
compreender o aumento do número de cidades e da importância dos cidades de pequeno e médio porte.
papéis urbanos; Sobre “cidade média”, Sposito (2001) coloca que não há um conceito
estudar as conseqüências da ampliação dos fluxos internacionais e preciso para defini-la, mas sim uma noção ou classificação para designar
das relações entre cidades de diferentes portes; cidades com população entre 200 a 500 mil habitantes. Porém, mais do
avaliar as novas formas de estruturação urbana, reconhecendo seus que parâmetros populacionais, devem ser considerados como
sujeitos e seus interesses econômicos e políticos; indicadores para a sua classificação os papéis que estas cidades
apreender as relações que se estabelecem entre as formas urbanas desempenham em uma divisão do trabalho interurbana e na expansão e
produzidas e os processos que a determinam; aglomeração urbanas. Nessa mesma linha, Pontes (2001) estabelece
pensar um novo projeto de cidade, o que inclui uma redefinição do alguns critérios os quais também passam pela demografia, mas,
conjunto de valores e práticas socioespaciais; principalmente, sobre o papel da cidade considerado dentro de uma rede
inserir, no âmbito desse novo projeto urbano, a redefinição do próprio urbana e as características próprias do município nas suas relações
habitat urbano; espaciais com as atividades urbanas, ou seja, com o espaço intraurbano.
desenvolver e pesquisar uma Arquitetura e um Urbanismo adequados Tem-se,
às condições regionais; “ de maneira mais direta, um profissional capaz de:
inventariar a produção arquitetônica regional; Aliar em sua prática profissional as interações entre plano e projeto,
espaços públicos e privados, escalas individuais e coletivas;
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Reconhecer a complexidade que a vida urbana tem assumido em


um país marcado pelas desigualdades socioespaciais;
Valorizar a atuação interdisciplinar, contribuindo com seus saberes
para a formulação de políticas públicas habitacionais, de urbanização,
reurbanização e intervenções pontuais ou mais compreensivas
sobre o tecido urbano;
Atuar no interior do poder público e/ou individualmente como
profissional liberal sem perder a perspectiva de que a cidade é ao
mesmo tempo resultado e processo da produção de um modo de
vida que exige, permanentemente, a intervenção criativa e soluções
públicas para seus problemas.” (SPOSITO, 2002:73)
A seguir, apresenta-se o conjunto de disciplinas propostas na primeira
matriz curricular por áreas de estudo, conforme a proposta das Diretrizes
Curriculares do MEC, lembrando que o curso se realiza no período de 5
anos e em tempo integral. As disciplinas possuem 60horas/aula, com
exceção de Trabalho Final de Graduação - TFG, para o qual propõem-se
180 horas/aula divididas em 30 horas/aula para TFG I, 60 horas/aula
para TFG II e 90 horas/aula para TFG III.

Quadro 1: Áreas de Estudos “Conhecimentos de Fundamentação”.


Obs. em itálico as disciplinas optativas
Fonte: Sposito, 2002. Elaborado pelos autores.
Quadro 2: Áreas de Estudos “Conhecimentos Profissionais”
Obs. em itálico as disciplinas optativas
Fonte: Sposito, 2002. Elaborado pelos autores.

Para obtenção da graduação em Arquitetura e Urbanismo é necessário


a carga horária mínima de 4020 horas, das quais 3060 horas (76,11%)
obrigatórias e 960 horas (23,88%) realizadas entre as 1800 que compõem
o total máximo de disciplinas optativas.
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III - A METODOLOGIA PROPOSTA NA REESTRUTURAÇÃO CURRICULAR: 9. Sistema Confea/Crea: Atribuições profissionais: avaliar as atribuições
O PAPEL DO PROJETO POLÍTICO PEDAGÓGICO do CREA com o perfil profissional e a matriz curricular proposta. Considerar
as atribuições do CREA na elaboração dos Programas de Ensino.
O processo de Reestruturação Curricular foi coordenado por uma
Como atividades da Reestruturação houve em março a palestra “Projeto
Comissão de Trabalho definida pelo Conselho do Curso. Esta organizou
Político Pedagógico”, proferida pelo Prof. Dr. Vandeí Pinho da Silva, quando
Reuniões Gerais, com todos os docentes, e Reuniões de Trabalho, por
foram abordados os desafios sobre a construção do PPP; a formação
áreas de conhecimento. Paralelamente, aconteceram as Reuniões
profissional; a pesquisa e extensão na Universidade Pública;
Discentes as quais foram coordenadas pelos representantes de cada
metodologias de ensino (interdisciplinaridade e transdisicplinaridade);
ano do curso. Na sequencia, foi proposto um Fórum de discussão sobre
organização curricular e o papel da articulação entre os cursos da UNESP.
o Projeto Político Pedagógico com convidados externos para analisarem
Na Semana do Projeto Político Pedagógico, retomou-se as discussões
a proposta.
em função das Diretrizes Gerais a partir das áreas - Tecnológicas;
As Reuniões tiveram como objetivos: discutir o perfil profissional; os
Representação e Meios de Expressão, Teoria e História, Planejamento e
objetivos do curso; realizar um Diagnóstico Geral do Curso; discutir e
Projeto. Algumas observações fazem-se necessárias uma vez que, na
analisar a matriz curricular a partir dos Programas de Ensino e, enfim,
discussão sobre os diagnósticos parciais, verificou-se que não havia
propor uma nova Matriz Curricular. Elas se iniciaram em novembro de
redução de carga horária na nova proposta. Retomamos, portanto, após
2010 e os trabalhos foram concentrados em março e abril de 2011.
o entendimento de todas as áreas, a discussão sobre os conteúdos
Ao todo, foram cinco Reuniões Gerais e diversas reuniões por áreas de
essenciais.
conhecimento. Na 5a Reunião Geral, que abriu a Semana do Projeto
Uma alteração substancial foi realizada nas áreas de Projeto e
Político Pedagógico, no qual discutimos e analisamos os diagnósticos
Tecnologia. Nas reuniões parciais da área de Projeto, discutiu-se um
parciais para propor a Reestruturação, definiu-se o Perfil Profissional e
modelo baseado na proposta de um Ateliê, sempre no segundo semestre
as Diretrizes Gerais.
de cada ano. No primeiro semestre, teríamos os Projetos individuais, de
As Diretrizes Gerais para os encaminhamentos dos trabalhos de
Arquitetura, Urbanismo e Paisagismo. Havia uma tentativa de garantir a
Reestruturação Curricular contemplaram os seguintes itens:
interdisciplinaridade entre os respectivos projetos, mas sobretudo, a
1. Perfil Profissional: definiu-se pelo Perfil proposto no projeto atual,
transdisciplinaridade entre as demais áreas. Teríamos, portanto, no Ateliê:
alterando o texto para “Arquiteto Urbanista generalista com ênfase no
arquitetos, geógrafos, economistas e engenheiros. A dificuldade de
Planejamento e Projeto Urbanos”.
operacionalizar o Ateliê como Disciplina fez com que adotássemos outro
2. Nucleação das disciplinas no Departamento de Planejamento,
modelo. Trabalhou-se, portanto, os três eixos de Projeto previstos nas
Urbanismo e Ambiente: foi ratificada pelo grupo a importância de manter
Diretrizes Curriculares do MEC – Edificação, Urbanismo e Paisagismo –
um núcleo principal de disciplinas no Departamento de Planejamento,
integrados no primeiro e quarto ano, e, separadamente, no segundo e
Urbanismo e Ambiente, considerando a necessidade de formar um corpo
terceiro ano. A área de Tecnologia também se reestruturou, pois os
docente, também para a implementação da Pós-graduação.
docentes haviam realizado uma proposta de disciplinas e cargas horárias
3. Carga Horária – total e das disciplinas – mínimo 3600 horas –
considerando o Ateliê. Após as discussões, optou-se por disciplinas com
disciplinas e TFG: definiu-se como ideal trabalhar com 3600 horas/aula
cargas horárias teóricas e práticas, as quais permitem a assessoria aos
entre disciplinas obrigatórias e optativas. O Trabalho Final de Curso, as
trabalhos desenvolvidos nas disciplinas projetuais.
Atividades Complementares e o Estágio Supervisionado Obrigatório não
No dia 13 de abril ocorreu o Fórum sobre a Reestruturação com os
fazem parte desta carga horária. Teríamos, portanto:
professores doutores Miguel Antonio Buzzar e Ana Maria Góes Monteiro,
4. 3600 horas/aula + TC (240) + AC (240) + ES (120) = 4.200 horas
do IAU-USP e UNICAMP, respectivamente.
5. Pré-requisitos: discutidos posteriormente na matriz curricular
As principais considerações foram:
proposta.
 o papel da Universidade Pública no ensino, pesquisa e extensão está
6. Estágio Supervisionado Obrigatório: 120 hs
contemplado no projeto;
7. Atividades Complementares: 240 hs
os objetivos do curso estão bem fundamentados na proposta atual e
8. MEC – Diretrizes Curriculares: incorporação das Diretrizes
no perfil profissional, sem desconsiderar a formação generalista;
Curriculares
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 a participação de outros departamentos, principalmente, do Urbanismo e Ambiente) e fomentar a formação de novos grupos de
Departamento de Geografia é importante para garantir a pesquisa para o estudo e a ação projetiva na escala urbana e regional.
interdisciplinaridade; Busca-se também, dar subsídios para a extensão universitária na
 a importância de aumentar a carga horária das disciplinas perspectiva de auxiliar no desenvolvimento urbano das cidades
profissionalizantes, na área de Projeto, e iniciá-las a partir do primeiro brasileiras, com especial atenção às pequenas e médias cidades do
ano; interior paulista, bem como na melhoria da qualidade do espaço
 a importância do Trabalho Final de Graduação, de mantê-lo como construído e de áreas livres urbanas.
disciplina, para realização de atividades coletivas de discussão sobre as A expansão urbana desordenada, a especulação fundiária e imobiliária,
temáticas projetuais, bem como, garantir um padrão de qualidade dos a precariedade das fontes de financiamento para projetos de urbanização/
trabalhos, considerando que estes refletem a produção arquitetônica e reurbanização e para a provisão da habitação, o casuísmo que, por vezes,
urbanística do curso; impera através de soluções de curto prazo, no âmbito do poder local, etc.
 a discrepância das ementas das disciplinas, umas estão bem são fatos já exaustivamente reconhecidos por aqueles que lidam com a
detalhadas e outras concisas. Foi sugerido a revisão geral; arquitetura, o urbanismo e o planejamento urbano. Esse Arquiteto
 incrementar o acervo bibliográfico; Urbanista tem como desafio entender, analisar e propor soluções para
 importância das viagens pedagógicas para o ensino de Arquitetura os problemas urbanos, nas esferas do planejamento, como também
e Urbanismo; das ações projetivas.
 foi sugerido não descartar totalmente a implantação de pré- Como parte não desprezível das situações-problema apresentadas
requisitos. brevemente no parágrafo anterior há também a ausência e/ou o
Ao final, propostas de trabalhos conjuntos entre as Universidades despreparo de equipes técnicas interdisciplinares no interior do poder
Públicas do interior do Estado de São Paulo foram sugeridas; inclusive público, as quais sejam capazes de conhecer, analisar, formular, gerenciar
um Fórum permanente de discussão sobre Ensino, Pesquisa e Extensão. e avaliar ações e políticas que coloquem a questão urbana como elemento
Após o Fórum, foram realizados ajustes na Matriz Curricular e os central da promoção da qualidade de vida e da diminuição das
trabalhos foram reequacionados para finalização desta proposta de desigualdades sócio espaciais. Trata-se, assim, de formar (no mais amplo
Reestruturação. sentido do termo) profissionais capazes de apreender a complexidade
IV - O NOVO PROJETO POLÍTICO PEDAGÓGICO DO CURSO DE da cidade e propor soluções compreensivas para os tais desafios, a fim
GRADUAÇÃO EM ARQUITETURA E URBANISMO E A ÊNFASE EM de:
PLANEJAMENTO E PROJETO URBANOS § Aliar em sua prática profissional as interações entre
plano e projeto, espaços públicos e privados, escalas individuais e
O Projeto Político Pedagógico propõe com um dos objetivos o ensino coletivas;
de arquitetura e urbanismo com ênfase no Planejamento e o Projeto § Reconhecer a complexidade que a vida urbana
Urbanos, trabalhando a interdisciplinaridade e buscando, por meio de assume em um país marcado pelas desigualdades sócio-espaciais,
disciplinas encadeadas, uma abordagem sobre o enfrentamento dos procurando estabelecer ações projetivas que de fato considerem
problemas urbanos contemporâneos com base na possibilidade de tais disparidades, entendendo as novas circunstâncias impostas
reflexão e consequente ação projetiva sobre a cidade real. Manteve-se a ao exercício da função social do arquiteto, porém, sem perder de
vista a dimensão político-crítica inerente as suas escolhas;
preocupação e formação dos egressos sobre as questões urbanas, § Valorizar a atuação interdisciplinar, contribuindo com
reforçando as ações projetivas sobre os espaços existentes. seus saberes para a formulação de projetos nas suas diversas
Além dessa formação proposta, pretende-se fortalecer o trabalho de escalas de intervenção, planos urbanos, políticas públicas
pesquisa já iniciado nas áreas de Planejamento Urbano e Regional do habitacionais, de urbanização, reurbanização e intervenções
Departamento de Planejamento, Urbanismo e Ambiente e de Geografia pontuais ou mais compreensivas sobre o tecido urbano;
Urbana, do Departamento de Geografia. Objetiva também desenvolver as § Contribuir para o entendimento da formação das
linhas de pesquisa associadas a essa formação superior, tais como: cidades brasileiras, sua história, patrimônio cultural, bem como para
Projeto, História e Tecnologia do Edifício e da Cidade; Projeto e Gestão o estudo e projetação em áreas urbanas de grande relevância,
além da pesquisa estético-construtiva e do exame de obras
Ambiental; Território e Políticas Públicas (Departamento de Planejamento, arquitetônicas emblemáticas do presente e do passado;
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§ Fomentar a utilização dos materiais construtivos e


tecnologias disponíveis, experimentando alternativas que possam
ser mais coerentes com a cidade contemporânea, com renovação
dos recursos naturais e a preservação do meio ambiente;
§ Atuar individualmente como profissional liberal,
coletivamente em escritórios, empresas ou em cooperativas de
projetos, Organizações Não Governamentais e ou junto ao poder
público, dentre outras áreas, sem perder a perspectiva de que a
cidade é, ao mesmo tempo, resultado e processo da produção de
um modo de vida que exige, permanentemente, a intervenção criativa
e soluções inovadoras para seus problemas. (BARON et all, 2012)
Apresentamos, a seguir, as linhas gerais em relação ao planejamento
e ao projeto urbano e demais considerações sobre o Projeto Político Obs. em itálico as disciplinas optativas
Quadro 3: Áreas de Estudos “Conhecimentos de Fundamentação”
Pedagógico do curso de Arquitetura e Urbanismo da UNESP – Campus
Fonte: BARON, 2011. Elaborado pelos autores.
de Presidente Prudente1. A matriz curricular, reflexo do perfil profissional
desejado e das discussões teóricas sobre a cidade, foi também
estruturada em função das possíveis práticas projetuais no ensino de
arquitetura e urbanismo, a partir: da elaboração de projetos para a solução
de problemas concretos com a participação de profissionais de áreas
diferentes; do desenvolvimento de proposições arquitetônicas e
urbanísticas que podem e deveriam ser realizadas no atual contexto
urbano, considerando as dinâmicas sociais e políticas; bem como, da
preocupação que os conhecimentos de representação e linguagem, de
teoria e história e de tecnologia possam também contribuir de forma
efetiva para a construção de um conhecimento e repertório sobre a cidade,
edifício e a paisagem (SEMINÁRIO..., 2007).
Cabe ainda ressaltar a estratégia na matriz curricular da diminuição da
carga horária ao longo dos anos, possibilitando que os alunos e docentes
possam desenvolver atividades de pesquisa e extensão dentro destas
temáticas, alimentando desta forma o processo contínuo de aprendizado
e entendimento da cidade contemporânea como um processo contínuo.
Nesta proposta, portanto, as disciplinas de Projeto Arquitetônico,
Urbanístico, Paisagístico e de Planejamento compõem o eixo estruturador
do curso de Arquitetura e Urbanismo da UNESP – Campus de Presidente
Prudente (BARON, 2011). A seguir, apresenta-se as disciplinas propostas
na nova matriz curricular, por áreas de estudos:
O Projeto Político Pedagógico possui ainda o Trabalho Final de
Graduação, as Atividades Complementares e o Estágio Supervisionado
Obrigatório.
Desse modo, o primeiro contato do ingressante com a prática do projeto
arquitetônico, urbanístico e paisagístico se dá logo no 1º Semestre em:
2 Para a reestruturação curricular utilizou-se documentos internos da UNESP, como o Manual de Graduação, e bibliografia
específica sobre Projetos Políticos Pedagógicos como os textos organizados por PINHO, S. Z. de. (coord.). Oficinas Obs. em itálico as disciplinas optativas
de Estudos Pedagógicos : Reflexões sobre a Prática do Ensino Superior. São Paulo: Cultura Acadêmica / Universidade Quadro 4: Áreas de Estudos “Conhecimentos Profissionais”
Estadual Paulista, Pró-Reitoria de Graduação, 2008. Fonte: BARON, 2011. Elaborado pelos autores.
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Fundamentos de Projetos – disciplina que introduz as questões relativas No 8º Semestre é oferecida a disciplina de Projeto de Arquitetura,
à percepção e construção do espaço em suas diferentes escalas, tendo Urbanismo e Paisagismo, na busca pela confluência de conteúdos. Com
a cidade como palco dessas discussões. De acordo com a ênfase a perspectiva de um “trabalho projetual integrado”, são propostas
proposta, a disciplina de Sociologia Urbana introduz o aluno nas teorias intervenções urbanas e regionais, ligando essas discussões à disciplina
sociais sobre o espaço urbano em função dos modos de vida citadinos. de Planejamento Urbano e Regional e demais disciplinas, tal como:
Na sequência, no 2º Semestre, a disciplina de Projeto de Arquitetura e Preservação e Renovação Urbana (optativa), procurando assim trabalhar
Urbanismo busca aprofundar as noções trabalhadas anteriormente, problemáticas de amplo espectro.
desenvolvendo conceitos e metodologias de projeto, através do estudo Este grupo de disciplinas deve abordar temas relevantes ao debate
da obra de arquitetos urbanistas emblemáticos. A disciplina de Projeto sobre a produção da cidade contemporânea, tais como: a habitação de
de Paisagismo trabalha a teoria e a prática relativas à vegetação na interesse social, o planejamento dos sistemas urbanos e regionais, os
estruturação da paisagem do entorno a edificação. espaços públicos e coletivos e a preservação e renovação urbana. No
A partir do 3º Semestre, as atividades projetuais relativas ao edifício e à Quadro 1, é possível visualizar a distribuição das disciplinas ao longo
cidade são separadas para que seus conteúdos específicos possam dos semestres.
ser ministrados, no entanto, deve ser prevista uma desejável As disciplinas de Projeto de Paisagismo fazem uma abordagem sobre
interdisciplinaridade. Nesse sentido, a disciplina de Projeto de Arquitetura projetos de intervenções em espaços livres. Enfocam a Paisagem com a
I trabalha projetos de pequeno porte, podendo ou não, estarem restritos diversidade dos elementos do território, sejam biofísicos, arquitetônicos
a um lote; enquanto a disciplina de Comunicação e Linguagem Urbana ou urbanos e sua relação com a vivência humana.
ampara as leituras da cidade e a prática do projeto urbano. Como visto anteriormente, o conjunto das disciplinas projetuais inicia-
No 4º Semestre o projeto amplia a escala e o recorte espacial, podendo se de forma integrada no primeiro ano, reunindo as três dimensões
ou não se restringir ao desenho da quadra, comparecendo então, as (arquitetura, urbanismo e paisagismo) com o objetivo de introduzir o aluno
disciplinas de Projeto de Arquitetura II, Desenho Urbano e Direito aos conceitos fundamentais das questões projetuais, incluindo processos
Urbanístico. Esta última refletindo a preocupação com a legislação intuitivos e estratégias do cotidiano do processo criativo em arquitetura,
arquitetônica mas, sobretudo como suporte à reflexão do planejamento e urbanismo e paisagismo.
das questões urbanas, referenciais da ênfase do curso. As disciplinas de Planejamento, heterogêneas entre si, pretendem
No 5º Semestre, os projetos de médio porte passam a ser discutidos e fornecer ao aluno conhecimentos de direito, economia, meio ambiente e
a escala do bairro poderá então ser trabalhada em: Projeto de Arquitetura planejamento especificamente voltados à prática profissional do Arquiteto
III e Projeto de Urbanismo I. Nesse contexto, a disciplina de Forma Urbana Urbanista com o perfil de formação pretendido pelo curso, ou seja, um
e Meio Ambiente deve ser entendida como um apoio teórico às discussões profissional que tenha habilidades para interpretar e agir nas dimensões
desenvolvidas na prática projetual. Para um maior aprofundamento teórico do plano e do projeto, sobre os espaços privados e públicos e individuais
sobre as problemáticas urbanas recentes, temos a disciplina de Políticas e coletivos da cidade contemporânea.
de Habitat. Além dessa, poderiam ser oferecidas mais alternativas a Na área de Teoria e História, as disciplinas têm como objetivo a
serem escolhidas entre o hall de disciplinas optativas, tal como: Estatuto construção de um repertório reflexivo sobre as produções artísticas e
da Cidade. obras arquitetônicas e urbanísticas do passado e do presente, da
No 6º Semestre, a escala dos projetos aumenta e a cidade pode passar formação e história das cidades, bem como das noções sobre valor
a ser trabalhada, determinando assim alguns recortes urbanos nas estético, preservação e técnicas retrospectivas para edifícios
seguintes disciplinas: Projeto de Arquitetura IV, Projeto de Urbanismo II e emblemáticos e ou conjuntos e patrimônios urbanos.
Projeto de Paisagismo II, tendo como pano de fundo as discussões da Dessa maneira, adotamos uma metodologia de ensino que trabalha
disciplina Metrópoles e Cidades Médias. com obras modernas e contemporâneas, logo no início do curso, na
No 7º Semestre comparecem as disciplinas de Projeto de Arquitetura V disciplina de Arquitetura e Urbanismo e, posteriormente, as disciplinas
e Projeto de Urbanismo III, aliando o suporte teórico da disciplina de Teoria e História da Arquitetura e Urbanismo I, II e III constroem uma
Economia Regional e Urbana. A cidade como palco de projetos de maior apresentação cronológica das obras. Com essa proposta queremos trazer
porte conta com o aprofundamento da reflexão sobre o planejamento e o aluno para mais perto do nosso tempo e, assim, configurar um salto
questões urbanas, a serem escolhidas entre o hall de disciplinas inicial para as disciplinas de projeto de arquitetura e urbanismo.
optativas, tal como: Produção e Consumo do Espaço Urbano.
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As disciplinas de História das Cidades e História das Cidades §Conceitos de natureza, ambiente e paisagem – formada pelas
Brasileiras estudam as cidades em função dos processos de urbanização, disciplinas de Topografia, Geomorfologia e Mecânica dos Solos. A primeira
buscando a conexão entre tempo e História para o entendimento e reflexão aborda os aspectos mais técnicos da formação e configuração do solo
sobre a atualidade, a primeira abordando a cidade como obra humana e urbano; Geomorfologia introduz o estudo da configuração urbana em
como ocorreu o processo de urbanização europeu, considerando o tempo função das análises morfoescultural e morfoestrutural do relevo a partir
e os aspectos históricos e a segunda sobre a urbanização das cidades das características morfológicas de ocupação do solo urbano e finalmente,
brasileiras, ou seja, como ocorreu a configuração do espaço urbano no Mecânica dos Solos, com um conteúdo mais técnico voltado para o estudo
Brasil. de fundações e sistemas de contenções;
As demais disciplinas que compõem esta área são História das Artes §Conforto – o conjunto de disciplinas formado por Ergonomia, Conforto
I e II, Estética I, Patrimônio Cultural, Técnicas Retrospectivas, Arquitetura Térmico, Conforto Acústico, Conforto Luminoso e Eficiência Energética
e Urbanismo no Brasil, História da Arte Brasileira, Estética II e Leitura do abordam conteúdos que trabalham o ambiente construído, tanto das
Projeto Contemporâneo. Cabe ressaltar os conteúdos das disciplinas edificações quanto dos espaços urbanos. Neste sentido, a Ergonomia
de Patrimônio Cultural e Técnicas Retrospectivas, o primeiro trabalhando busca estudar os aspectos de antropometria para o dimensionamento e
os elementos para identificação de patrimônio cultural, seja ele composição de espaços e equipamentos das edificações e das áreas
antropológico, arqueológico, arquitetônico ou histórico e o segundo, além urbanas; o Conforto Térmico possui conteúdos que estudam a adequação
de abordar as teorias, práticas projetuais e as soluções tecnológicas da arquitetura ao clima e os aspectos relacionados ao conforto térmico
para a preservação, conservação, restauração, reconstrução, reabilitação urbano, com vistas ao planejamento; o Conforto Acústico e Luminoso
e reutilização de edificações e conjuntos arquitetônicos desenvolve também possuem estas abordagens, que partem das suas
também um conteúdo de caráter projetual que poderá ser trabalhado em características específicas para os edifícios e, posteriormente, vão para
conjunto com a disciplina de Projeto de Arquitetura, Urbanismo e a escala urbana, vendo o comportamento dos materiais para a acústica
Paisagismo – PAUP. urbana e a iluminação pública. A disciplina de Eficiência Energética estuda
Na área de Tecnológicas temos conteúdos tradicionais voltados para a o aproveitamento dos recursos naturais existentes.
construção das edificações propriamente ditas e conteúdos que abordam O grupo de disciplinas voltado ao ensino da área de Representação
os aspectos urbanos a partir do território físico. Os profissionais desta Gráfica foi idealizado para cumprir o conteúdo básico até a metade do
área trabalham, em suas pesquisas e projetos de extensão, em conjunto curso, com teor de fundamentação e, a partir do terceiro ano, com
com os profissionais das áreas da Geografia Física e da Engenharia disciplinas de representação, estudo e análise do meio urbano. No
Ambiental. Na estrutura curricular, propriamente dita, este conjunto de primeiro grupo, temos Meios de Expressão e Representação, Desenho
disciplinas se inicia, no primeiro semestre, com Fundamentos Técnico, Desenho de Observação, Desenho Arquitetônico e Elementos
Tecnológicos, sendo este introdutório para preparar o olhar e a percepção de CAD. A três primeiras no primeiro semestre do curso objetivando que
do aluno ingressante para as questões tecnológicas, ou seja, os princípios o estudante receba esta fundamentação desde o ingresso, pois trata-se
que relacionam forma, força e material dos elementos estruturais através de conteúdo não contemplado pelo ensino médio. Para não sobrecarregar
do estudo de obras significativas. a carga horária dos primeiros anos, parte do conteúdo de representação
As disciplinas de tecnologia possuem três linhas de abordagens: será também compartilhado nas disciplinas projetuais e tecnológicas,
§Tecnologia da Construção – formada pelas disciplinas responsáveis conforme necessário nos programas.
pelo comportamento e aplicação dos materiais: Resistências dos O segundo grupo de disciplinas, a partir do terceiro ano são: Modelos e
Materiais, Sistemas Estruturais, Estruturas em Concreto, Estruturas em Maquetes, Multimeios, Representação Cartográfica, Sistema de
Madeira e Aço e pelas disciplinas que abordam a materialidade, as Informação Geográfica - SIG, Modelização do Espaço Urbano. Algumas
técnicas e os sistemas de instalações, a saber: Materiais de Construção, dessas disciplinas são subsidiadas pelo Departamento de Cartografia.
Técnicas Construtivas, Instalações Hidráulicas, Instalações Elétricas e Vale ressaltar que tais disciplinas abordam os conteúdos para a formação
Gerenciamento e Administração de Projetos e Obras. Temos também, do profissional Arquiteto Urbanista com ênfase para os aspectos de
neste conjunto de disciplinas, Infraestrutura Urbana, disciplina voltada planejamento e projeto urbanos..
para o estudo dos desempenhos técnicos e funcionais dos componentes No quadro abaixo, apresenta-se um resumo da atual carga horária
básicos da infraestrutura urbana, buscando relacioná-las ao desenho proposta:
urbano e a morfologia da cidade;
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trabalhadas visando uma articulação entre as especificidades de cada


área de conhecimento e a inter relação necessária para que possamos
agir sobre os espaços. Este agir pressupõe uma ação que, por sua vez,
pressupõe um posicionamento político ideológico de quem está por trás
desta ação. É neste sentido que a proposta curricular deve ser Política
Pedagógica, discutindo valores humano-sociais, éticos e profissionais
da formação do futuro Arquiteto Urbanista e, portanto, é imprescindível
que não haja dicotomia entre a teoria e a prática.
AGRADECIMENTOS
Agradecimento aos docentes: Eda Maria Góes, Everaldo Santos Melazzo,
Hélio Hirao, José Roberto Castilho, Maria Encarnação Beltrão Sposito,
Quadro 05: resumo da carga horária por áreas de conhecimento: Raul Borges Guimarães e demais docentes que contribuíram para a
Fonte: BARON, 2011. Elaborado pelos autores. formulação do primeiro projeto político pedagógico do Curso de Arquitetura
Esta matriz curricular proposta com a distribuição das disciplinas ao e Urbanismo da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UNESP –
longo do curso pretende subsidiar e complementar a formação com Campus de Presidente Prudente e aos docentes: Carolina Lotufo Bueno
conhecimentos teóricos e empíricos voltados à formação dos alunos a Bartholomei, Claudemilson dos Santos, Encarnita Salas Martin, Everaldo
partir de duas condicionantes: Santos Melazzo, Fernando Sérgio Okimoto, Luís Antonio Barone, Marcos
A – a firme convicção a respeito das características de um curso de Faccioli Gabriel e Suzana Cristina Fernandes de Paiva, além de docentes
arquitetura e urbanismo em uma Universidade Pública que deve fornecer de outros departamentos da unidade e dos discentes: Artur Felipe da
ao aluno um amplo e profundo conhecimento teórico e prático, voltados Costa Rosa e Pétilin Assis de Souza, que participaram da reformulação
para as demandas arquitetônicas e urbanísticas atuais; curricular de 2011. Os integrantes do grupo de pesquisa em Projeto,
B – as experiências acumuladas a partir do perfil do corpo docente e Arquitetura e Cidade. Importante ressaltar também, o apoio do
dos departamentos que sustentam a interlocução e o diálogo com outras Departamento de Planejamento, Urbanismo e Ambiente da Faculdade
formações acadêmicas, particularmente o Departamento de de Ciências e Tecnologia da UNESP – Campus de Presidente Prudente
Planejamento, Urbanismo e Ambiente, com o curso de Engenharia e da Fundação para o Desenvolvimento da UNESP – FUNDUNESP.
Ambiental, o Departamento de Geografia, com o curso de Geografia e o REFERÊNCIAS
Departamento de Cartografia com o curso de Engenharia Cartográfica. BARON, C. M. P. (Coord.). Reestruturação Curricular - Curso de Arquitetura e
Tais condicionantes, mais que valorizar uma possibilidade de Urbanismo – FCT – UNESP. Presidente Prudente: Faculdade de Ciências e Tecnologia
interdisciplinaridade (fundamental na formação universitária da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – Unesp, 2011. (não
contemporânea), sinalizam a direção das possibilidades futuras de um publicado)
curso de pós-graduação que as articule. BARON, C. M. P. ; FIORIN, E.; FRANCISCO, A. M. HIRAO, H.. COMPLEX-CIDADE: o
planejamento e o projeto urbano na proposta pedagógica e nas pesquisas do
V - CONSIDERAÇÕES FINAIS
Curso de Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UNESP
A proposta de Reestruturação Curricular do Curso de Arquitetura e – Campus de Presidente Prudente-SP. In: ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL
Urbanismo da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UNESP – Campus DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO EM ARQUITETURA E URBANISMO – ENANPARQ,
de Presidente Prudente buscou manter a ideologia proposta inicialmente II, 2012, Natal. Anais... Natal:, setembro de 2012.
através dos estudos e reflexões sobre as questões urbanas, buscando BRASIL. Congresso. Senado. Resolução n0 2, de 17 de junho de 2010. Ministério
uma maior participação do Arquiteto Urbanista nas discussões e da Educação, Conselho Nacional de Educação, Câmara de Educação Superior.
proposições sobre o modo de pensar a cidade. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais do curso de Arquitetura e Urbanismo,
A carga horária proposta nas áreas de Planejamento e Projeto de alterando dispositivos da Resolução CNE/CES n0 6/2006. Publicada no DOU de 18/
6/2010, Seção 1, pp. 37-38, jun. 2010.
Arquitetura, Urbanismo e Paisagismo tiveram um aumento significativo
PONTES, B. M. S. As cidades médias brasileiras: os desafios e a complexidade do
no intuito de garantir a compreensão dos diversos aspectos discutidos seu papel na organização do espaços regional. (década de 1970). In: SPOSITO, M.
no Projeto Político Pedagógico. As demais disciplinas também foram
214 XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA 215
XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

E. B. (org.). Urbanização e cidades: perspectivas geográficas. Presidente Prudente:


GAsPERR/FCT/UNESP, 2001.
AVALIAÇÃO DO CURSO DE ARQUITETURA
SEMINÁRIO ENSINO DE ARQUITETURA E URBANISMO, I, 2007. Anais..., São Paulo, DA UFRGS SEGUNDO OS SEUS EGRESSOS
Universidade de São Paulo, 2007.
SPOSITO, M. E. B. (Coord.). Projeto Político Pedagógico - Curso de Arquitetura e E O CONCEITO PRELIMINAR DE CURSO1
Urbanismo – FCT – UNESP. Presidente Prudente: Faculdade de Ciências e Tecnologia
da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” - Unesp, 2002. (não
publicado)
SPOSITO, M. E. B. Novas formas comerciais e redefinição da centralidade intra-
urbana. In: SPOSITO, M. E. B. (org.). Textos e contextos para a leitura geográfica Geraldo Ribas MACHADO2
de uma cidade média. Presidente Prudente: UNESP/FCT, 2001.
Doutor. Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
geraldo.machado@ufrgs.br

Resumo: Este estudo identificou características acerca da qualidade do


curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio Grande
do Sul, a partir da opinião apurada com ex-alunos cadastrados no
instrumento intitulado Portal do Egresso, de forma a complementar a
avaliação atribuída pelo MEC para o curso segundo o Conceito Preliminar
de Curso. O uso de técnicas estatísticas permitiu apurar, dentre outros
indicadores, que os graduados atribuem grande importância aos
conhecimentos adquiridos durante o curso para o exercício das atividades
profissionais, e que tem aumentado a proporção de alunos que trabalham
enquanto realizam seus estudos. Dessa forma, foi avaliado o objetivo do
curso de Arquitetura e Urbanismo da UFRGS de formar profissionais
aptos a exercer a profissão segundo às exigências do mercado de
trabalho.
Palavras–chave: Egresso. Avaliação institucional. Qualidade. Mercado
de trabalho.
Introdução
O presente pesquisa evidencia os resultados de uma investigação
sobre os egressos do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), uma dimensão de grande
importância não incluída no modelo atual da avaliação realizada pelo
Ministério da Educação (MEC).
A qualidade dos cursos de graduação das instituições de ensino
superior, recentemente, tem sido evidenciada pelo Conceito Preliminar
1
Este trabalho tem por origem tese de doutorado intitulada Perfil do Egresso da UFRGS (www.lume.ufrgs.br/handle/
10183/24186), defendida em maio de 2010, como requisito do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRGS
para obtenção do título de doutor, com orientação da professora doutora Denise Leite.
2
Doutor em Educação (UFRGS), Mestre em Engenharia da Produção (UFRGS), professor do Departamento de
Ciência da Informação da UFRGS, coordenador do Núcleo de Avaliação Institucional da Faculdade de
Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS, membro-pesquisador do Grupo de Pesquisa (CNPq) Inovação e
Criatividade no Ensino do Design e da Arquitetura – UFRGS.
216 XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA 217
XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

do Curso (CPC), que leva em conta desempenho de estudantes, os Departamentos de Expressão Gráfica e de Urbanismo possam atingir
infraestrutura e instalações, recursos didático-pedagógicos e titulação seus objetivos em relação ao planejamento e à gestão do currículo do
do corpo docente, que por sua vez é determinante para avaliar a instituição curso bem como do seu projeto pedagógico, com vistas à melhoria da
pelo Índice Geral de Cursos (IGC), que considera em sua composição a qualidade do ensino e ao atendimento dos estudantes, no sentido de
qualidade não só dos cursos de graduação como também dos cursos de adequar a formação acadêmica para o exercício profissional no mercado
pós-graduação. de trabalho.
De abordagem quantitativa e natureza pretensamente aplicada, a Se, de um lado, a avaliação atual dos cursos de graduação expressa
experiência de acompanhar ex-alunos corresponde à implantação de aspectos relevantes da realidade observada, de outra parte tal avaliação
mecanismos de acompanhamento de egressos da UFRGS, e posterior se ressente da participação sistemática daqueles que pela instituição
organização dos dados coletados, para apuração de uma grande passaram, cujas percepções, pareceres e críticas possam fundamentar
variedade de indicadores sobre egressos de todas as modalidades de projetos institucionais e suscitar a implementação e a reavaliação de
ensino da instituição. Do cadastro geral de respondentes, totalizando políticas aplicadas ao ensino de graduação.
quase sete mil ex-alunos, cerca de cento e vinte são oriundos dos curso Ao se avaliar o nível de satisfação da formação recebida pelos egressos
de Arquitetura da UFRGS, os quais informaram, dentre outros aspectos, dos cursos de Arquitetura da UFRGS, impõe-se verificar a adequação da
se estão trabalhando em sua área de formação, se estão desempregados mesma às necessidades do mercado e da sociedade (ANDRIOLA, 2006),
ou não, quais cursos de educação continuada gostariam de realizar e o frente aos novos desafios que surgem no seu processo de
quanto foi importante para o exercício da profissão o que aprenderam em desenvolvimento (MONTEIRO, 1988), visando à capacitação profissional
seus cursos. que combine os conhecimentos teóricos e práticos de alto nível mediante
Vale destacar que são de extrema relevância os dados que elaboram cursos e programas que estejam constantemente adaptados às
um diagnóstico sobre a realidade experimentada pelo ex-aluno no mundo necessidades presentes e futuras da sociedade (UNESCO, 1998).
do trabalho, para fins de um melhor conhecimento das condições atuais É importante para a Universidade conhecer a opinião de seus ex-alunos,
de inserção dos diplomados no mercado de trabalho (BERTRAND, 2005), que já estão inseridos ou tentando se inserir no mercado de trabalho,
a exemplo das investigações realizadas por Machado (2010) e Machado sobre o desempenho da Universidade relativamente aos seus cursos,
(2011). Esta relevância diz respeito à investigação das repercussões bem como conhecer aspectos da vida profissional de seus egressos
sociais das atividades de uma instituição de ensino superior, através do (UFRGS, 1992).
acompanhamento sistemático dos seus egressos, mapeando-se as O acompanhamento de egressos visa não apenas a acompanhar a
relações entre a universidade e a sociedade (DIAS SOBRINHO; RISTOFF, trajetória profissional dos ex-alunos, de modo a possibilitar o
2003), tais como as que caracterizam a situação de inserção e de conhecimento de suas dificuldades para a integração no mundo do
adequação ao mercado de trabalho dos pós-graduados. trabalho, mas, também, obter destes a avaliação sobre o curso realizado
A importância do monitoramento efetivo de egressos é reconhecida por (UEL, 2006). Tal objetivo pode ser alcançado pois
Andriola (2006, p.131), tomando por referência Dias Sobrinho e Ristoff [...] a avaliação da formação acadêmica e profissional é entendida
(2003): como uma atividade estruturada que permite a apreensão da qualidade
do curso no contexto da realidade institucional, no sentido de formar
Nada é mais relevante do que a investigação das repercussões
cidadãos conscientes e profissionais responsáveis e capazes de
sociais das atividades de uma IES, através, por exemplo, do
acompanhamento sistemático dos seus egressos; mapeando realizar transformações sociais” (BRASIL, 2006, p. 6).
opiniões, atitudes e crenças acerca da universidade e da sociedade; Neste contexto, propõe-se um acompanhamento de graduados em
identificando e avaliando o valor agregado pela IES; verificando a Arquitetura, no caso objeto do presente artigo, em um processo de
opinião dos empregadores e de setores da sociedade civil avaliação contínuo, regular e sistemático de conhecimento da realidade
organizada, acerca da adequação e pertinência da formação educacional avaliada (ANDRIOLA, 1999). Para que possa se instalar a
profissional e cidadã dos recursos humanos formados. cultura da avaliação, o processo necessita ter a sua continuidade
Com efeito, aliadas a outros indicadores das demais dimensões, as assegurada nas sequências de gestões (ABREU JÚNIOR, 2009), na
informações sobre egressos arquitetos podem representar importante busca contínua de atualização e de autossuperação pelos atores-sujeitos
ferramenta gerencial para que o Departamento de Arquitetura e, em parte, e de autorregulação institucional (GASPARETTO, 1999).
218 XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA 219
XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

A satisfação das expectativas dos usuários e beneficiários de uma Todas as medidas do CPC são padronizadas, o que quer dizer que as
instituição de ensino superior e o desempenho de seus egressos no notas dos componentes são atribuídas em função da média da área a
campo laboral (ABREU JÚNIOR, 2009) são preocupações fundamentais que pertence o curso, em quantidades de desvios padrões. A política, no
para melhorar a qualidade da educação. A análise e interpretação das caso, é privilegiar os cursos que se destacam em sua área, já que a
informações coletadas durante o processo de avaliação permitem a expressão do escore ou afastamento padronizado concede maior
identificação de práticas bem sucedidas, como é o caso do resultado para os cursos que se distinguem dos demais quando o desvio
reconhecimento dos egressos em estudo em relação à importância dos padrão é baixo, isto é, como uma espécie de prêmio por se destacar em
conhecimentos adquiridos, pois ela apresenta também os subsídios para relação aos cursos da área.
a necessária disseminação dos aspectos positivos encontrados (UFRGS,
2005). Como o momento é de mudanças em relação ao modelo de cálculo,
sendo que uma delas já está em vigor já que apenas os concluintes
O Conceito Preliminar de Curso estão participando do Enade, e a atribuição dos pesos está em discussão
Em agosto de 2008, o MEC lançou o indicador intitulado Conceito por uma comissão que trata do assunto, este artigo não pretende avançar
Preliminar de Curso (CPC), segundo o qual os cursos das instituições nesta matéria.
de ensino superior passaram a ser avaliados com uso de métodos O curso de Arquitetura da UFRGS ostenta uma das melhores avaliações,
estatísticos aplicados a diferentes variáveis: desempenho de estudantes, como se pode observar a seguir pelo que apresentam a Figura 1. As
infraestrutura e instalações, recursos didático-pedagógicos e corpo categorias que mais contribuíram para a alta pontuação no CPC, segundo
docente, através da titulação dos professores. Os conceitos atribuídos os dados constantes na Tabela 1, pela ordem, foram o Indicador de
aos cursos são expressos em variável quantitativa discreta de 1 a 5, e Diferença de Desempenho, a Nota para Proporção de Doutores, a Nota
dependem de confirmação a ser feita por visita de comissão de dos Concluintes e a Nota dos Ingressantes, com pesos respectivamente
avaliadores, uma vez que o indicador, como o próprio nome refere, iguais a 30%, 20%, 15% e 15%.
representa uma avaliação de caráter preliminar.
O cálculo do Conceito Preliminar de Curso até então realizado foi dado
pela expressão a seguir:
CPC 0,2 NPD 0,05 NPM 0,05 NPR 0,05 NF
0,05 NO 0,3 NIDD 0,15 NI 0,15 NC

Onde:
NPD = Nota Proporção de Doutores, com base no Censo: professores doutores/
professores vinculados ao curso;
NPM = Nota Proporção de mestres, com base no Censo: professores mestres/
vinculados ao curso;
NPR = Nota proporção de professores com TP/TI, com base no Censo: número de
professores vinculados ao curso com dedicação TP ou TI/ número de professores
vinculados;
NF = Nota Infraestrutura: número dos que responderam positivamente ao
questionário Enade/número total dos que responderam ao item;
NO = Nota de Organização didático-pedagógica: número dos que responderam
positivamente ao questionário Enade/número total dos que responderam ao item; Figura 1 - Conceito Preliminar de Curso dos cursos de Arquitetura melhor
NIDD = Indicador de Diferença de Desempenho, com base na prova do Enade, já avaliados das IES no Brasil – triênio 2008-2010
padronizada de 0 a 5; Fonte: Dados da pesquisa
NI = Nota de ingressantes, com base na prova do Enade, já padronizada de 0 a 5;
NC = Nota Concluinte, com base na prova do Enade, já padronizada de 0 a 5.
220 XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA 221
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Tabela 1 - Composição do cálculo do Conceito Preliminar do Curso de Arquitetura - identificar a evolução do tipo de dedicação durante a realização do
da UFRGS em planilha Excel – triênio 2008-2010 curso em função de sua época de conclusão.

Metodologia
Em setembro de 2004 foi lançado o instrumento de pesquisa intitulado
Portal do Egresso 3 (www.ufrgs.br/ufrgs/Egressos/index.htm), de
elaboração conjunta do grupo de trabalho e do Centro de Processamento
de Dados da UFRGS, com objetivo inicial de consultar os egressos da
graduação e da pós-graduação em relação a sua atividade profissional,
para saber se atuavam na área de formação, se atuavam em outra área
ou se estavam desempregados, assim como saber sua opinião a respeito
da formação obtida na universidade. Do total de cadastrados respondentes
pelo instrumento de pesquisa, foram selecionados os egressos do curso
de Arquitetura.
Os testes estatísticos para verificação das hipóteses e satisfação dos
objetivos, disponíveis na versão integral da tese de doutorado que
embasou este trabalho, foram elaborados com uso do software BioEstat
5.0 (www.mamiraua.org.br), em grande parte não-paramétricos, já que
quase todas as variáveis monitoradas são do tipo nominais. Todos os
Fonte: Dados da pesquisa agrupamentos em distribuição de frequências 4 (tabela dinâmica), as
tabelas5 e os gráficos foram realizados utilizando-se o Microsoft Excel.
As tabelas e as figuras foram elaboradas por este autor, a partir dos
Problema, hipóteses e objetivos da pesquisa
dados empíricos coletados no instrumento de pesquisa Portal do
Egresso 6 .
Segundo a avaliação anteriormente apresentada pelos critérios do MEC,
pode-se considerar o curso de Arquitetura da UFRGS como um dos
Apresentação e discussão dos resultados
melhores de Brasil. Paralelamente, este estudo propõe-se a oferecer
subsídios para responder à seguinte questão: “Os curso de Arquitetura
Desde o lançamento do Portal do Egresso, em setembro de 2004,
da UFRGS é reconhecido pelos seus egressos como de boa qualidade,
foram realizadas quatro apurações do conjunto de egressos cadastrados,
no sentido de capacitá-los adequadamente ao exercício da profissão?”
em todas as modalidades de ensino oferecidas pela UFRGS, sobre ex-
A hipótese de pesquisa é de que os egressos do curso em estudo
atribuem grande importância aos conhecimentos adquiridos durante o 3 Em novembro de 2003, representantes dos Núcleos de Avaliação das Unidades da UFRGS formaram um grupo de
trabalho sobre egressos, sob a orientação da Secretaria de Avaliação Institucional (SAI), em continuidade ao Programa
curso realizado para o exercício das atividades profissionais, validando de Avaliação Institucional Permanente da instituição, ocasião em que definiram e implementaram instrumentos e
em grande parte a boa avaliação do curso segundo o CPC. procedimentos para o acompanhamento dos ex-alunos de graduação, pós-graduação, Escola Técnica e Colégio de
Aplicação.
O objetivo geral da investigação consiste em avaliar as características
de situação profissional contrapondo-as com as de formação acadêmica 4 As tabelas referentes às áreas profissionais e aos vínculos profissionais apresentam somente as opões mais frequentes,
que possam atribuir significado à realidade profissional vivenciada pelos diplomados pela UFRGS no mercado de
dos egressos o curso de Arquitetura da UFRGS. trabalho, motivo pelo qual os dados relativos não totalizam 100.
Classificam-se como objetivos específicos da pesquisa: 5 As estatísticas constantes nas tabelas oferecem uma dupla representação numérica: os dados absolutos, que decorrem
- avaliar o nível de satisfação da formação recebida pelos egressos do da contagem do número de respostas sobre a variável pesquisada, são representados no cabeçalho pela letra n, e os
valores relativos por %, expressando probabilidades empíricas de ocorrências de nomes ou números, ao se induzirem
curso em estudo, identificando a importância dos conhecimentos conclusões para toda a população em estudo.
adquiridos durante o curso para o exercício da profissão por eles atribuída;
6 O banco de dados oriundo dos acessos no Portal do Egresso, utilizado para fins de obtenção dos indicadores, foi
- identificar se o egresso do curso trabalho na sua área de formação e atualizado até julho de 2009, perfazendo cerca de sete mil egressos cadastrados. O instrumento de coleta de dados por
com tipo de vínculo e qual é a incidência de desemprego; questionário foi elaborado com perguntas fechadas sobre dados gerais de identificação, áreas de atuação e vínculo
profissional, cursos realizados na universidade, em no máximo três, e, finalmente, expectativas do egresso a respeito
de educação continuada e participações em outras atividades institucionais.
222 XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA 223
XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

alunos que concluíram seus cursos até 2006. Em julho de 2009, havia Tabela 3 - Distribuição dos egressos do curso de Arquitetura
6737 registros 7 de egressos no banco de dados. Destes 4,1% são da UFRGS segundo vínculo profissional
oriundos da educação profissional ou Colégio de Aplicação, 74,9% de
cursos de graduação, 9,1% de cursos de especialização e 12% de cursos
de Mestrado ou Doutorado. Dos graduados, 123 são ex-alunos do curso
de Arquitetura da Universidade.
No que tange à atuação profissional, os 68,4% dos egressos do curso,
que trabalham como arquitetos (Tabela 2), podem ajudar a explicar a
elevada proporção de 84,2% dos que consideram como muito importantes
os conhecimentos adquiridos para o exercício da profissão (Figura 2),
em que pese haver 6,7% de desempregados (Tabela 3), acima da média
geral de 5,4% para os cursos do gênero apurada no levantamento relativo
a todos os cursos. Há que se considerar que outros cursos, como
Medicina, por exemplo, têm proporção bem mais alta de egressos que
trabalham na área de formação, no caso citado chegando a mais de
90%.
Vale ressaltar que um dos objetivos desta pesquisa é o de avaliar o Não constam vínculos profissionais com participação igual ou inferior a 3% cada.
nível de satisfação da formação recebida e a hipótese de pesquisa é a de Fonte: Dados da pesquisa
que os egressos arquitetos atribuem grande importância ao aprendizado
para o exercício da profissão. Além disso, dados sobre valorização
profissional, advindos da experiência no mercado de trabalho, em boa
parte atendem as exigências do SINAES sobre a existência de
mecanismos para avaliar a adequação da formação recebida na
Universidade e para utilizar as opiniões dos egressos para
aperfeiçoamento do processo de formação.
Sobre os que têm ocupação, de acordo com os dados da Tabela 3, o
vínculo principal é o de profissional liberal ou autônomo (39,0%), seguido
de empregado de empresa privada (10,5%), empresário (7,6%) e servidor
público municipal (6,7%).
Figura 2 - Importância dos conhecimentos adquiridos durante o curso para o exercício
Tabela 2 - Distribuição dos egressos do curso de Arquitetura
da profissão dos egressos do curso de Arquitetura da UFRGS (em %)
da UFRGS segundo área profissional
Fonte: Dados da pesquisa

Uma das características mais marcantes dos egressos do curso de


Arquitetura é a proporção dos que trabalham na área enquanto realizam
os seus cursos, dado que vem aumentando ao longo do tempo, totalizando
a expressiva participação de 93,2% no período considerado de 2000 a
2006 (Figura 3).
Há uma série de razões, que fogem do escopo deste estudo, pelas
quais alguns cursos de graduação da UFRGS apresentam taxas de
Não constam áreas profissionais com participação igual ou inferior a 1% cada.
desemprego altas, como o de Ciências Sociais, com 15,4% de
Fonte: Dados da pesquisa
desempregados - outros como os cursos de Medicina, Odontologia e
7 Do total de cadastrados, 2337 não informaram curso realizado. Todos os dados sobre curso realizado incluíram na Música apresentaram ocupação integral de seus egressos. Estudos de
amostra cada registro de segundo ou terceiro curso realizado na UFRGS.
224 XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA 225
XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

acompanhamento de egressos, em geral, trazem à tona a discussão A identificação dos tipos de expectativas preferenciais dos egressos
acerca da qualidade do ensino e adequação dos currículos à situação em relação à UFRGS está relacionada à finalidade de facilitar a formação
profissional (SCHARTZMAN; CASTRO, 1991). Nos últimos anos, criou-se de uma rede de comunicação entre ex-alunos e a Universidade,
a necessidade de mais informação sobre a qualidade do ensino fornecido, subsidiando a troca de informações profissionais (empregos, contatos
originando-se uma série de indicadores de qualidade (AMARAL, 2009) com empresas, etc.) e acadêmicas (cursos, palestras etc.) através da
descritivos e quantitativos indispensáveis para o julgamento dos formação de um banco de dados atualizado, com uso de tecnologia de
indicadores qualitativos em matéria de avaliação institucional (DIAS informação adequada, haja vista a dificuldade de operacionalização do
SOBRINHO, 1998). acompanhamento em função da mobilidade dos egressos (GASPARETTO,
É relevante que um adequado acompanhamento de egressos 1999).
proporcione um diagnóstico à luz da realidade experimentada pelo ex- A Figura 4 a seguir relaciona as preferências manifestadas pelos
aluno no mundo do trabalho. Bertrand (2005) ressalta a necessidade de egressos arquitetos de continuar estudando na própria UFRGS, com
um melhor conhecimento das condições atuais de inserção dos destaque para realização de curso de pós-graduação em nível de
diplomados no mercado de trabalho. A universidade, ao preparar seus mestrado, proporção mais alta dentre as demais, correspondendo a
estudantes para o mercado de trabalho, prepara-o para uma realidade 22,3% das assinalações.
que em breve não mais existirá. O egresso da universidade, quando
dotado exclusivamente de conhecimento instrumental, de utilização
imediata, está condenado a uma curta vida profissional (BROM, 2006). A
compreensão de que as mudanças que vêm ocorrendo no mundo do
trabalho cada vez mais vão exigir flexibilidade e o desenvolvimento contínuo
de novas habilidades é, para Teixeira (2002), talvez o grande desafio que
se coloque hoje para os jovens que estão iniciando suas carreiras
profissionais e também para aqueles que não conseguem se inserir no
mercado de trabalho.

Figura 4- Expectativas dos egressos do curso de Arquitetura da


UFRGS de educação continuada na UFRGS (em %)
Fonte: Dados da pesquisa

As informações sobre a realidade dos graduados em Arquitetura pela


UFRGS, apresentadas de forma parcial e interpretadas neste objetivaram
contribuir com o planejamento e a gestão em nível de departamento, com
vistas à melhoria da qualidade do curso de Arquitetura a partir da criação
de uma base de dados que viabilize um relacionamento contínuo com os
egressos, que permita, sobretudo, a adequação da formação acadêmica
para o exercício profissional no mercado de trabalho.

Conclusões
A hipótese de que os egressos do curso de Arquitetura da UFRGS atribuem
Figura 3 - Distribuição dos egressos do curso de Arquitetura da UFRGS segundo
grande valorização aos conhecimentos adquiridos em seus cursos para
tipo de dedicação durante a realização e segundo época de conclusão de curso o exercício das atividades profissionais pôde ser plenamente aceita:
(em %) consideraram como importância máxima 84,2% dos ex-alunos.
Fonte: Dados da pesquisa
226 XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA 227
XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

Assim, a avaliação do MEC por meio do Conceito Preliminar de Curso, BROM, Luiz Guilherme. Universidade e mercado de trabalho. Disponível em:
uma das mais altas dos cursos de arquitetura das instituições de ensino <http:www.universia.com.br/materia/materia.jsp>. Acesso em: 10 abr. 2009.
superior brasileiras, pôde ser afirmada a partir de um olhar externo à DIAS SOBRINHO, José. Funcionamento e modos sociais de avaliação institucional.
Instituição, de quem por ela já passou e agora tem a oportunidade de Revista Avaliação: RAIES, Campinas, v.3n.2,p.65-76, jun.1998
contrapor a sua vivência acadêmica com a experiência no mercado
DIAS SOBRINHO, José; RISTOFF, D. I. (Orgs.) . Avaliação democrática para uma
trabalho.
universidade cidadã. Florianópolis: Insular, 2003. 184 p.
Agrega-se à alta proporção dos que valorizam os conhecimentos
adquiridos uma importante característica dos egressos dos cursos de GASPARETTO, A. Avaliação Institucional: um processo doloroso de mudança: a
Arquitetura da UFRGS, que é a participação de 68,4% dos que atuam na experiência da UESC. Revista Avaliação, Campinas, v. 4, n. 3, 1999.
mesma área de formação, acrescidos de 2,6% dos que atuam como MACHADO, Geraldo Ribas. Perfil do Egresso da Universidade Federal do Rio
professor de ensino superior. Outro dado que retrata a realidade deste Grande do Sul. Porto Alegre: UFRGS. Pós Graduação em Educação, 2010. (Tese
profissional é a forma de vínculo, predominantemente em empresas de Doutorado)
privadas ou como profissional liberal, totalizando 39% das respostas MACHADO, Geraldo Ribas. Um sistema de acompanhamento de egressos
atribuídas, diferentemente do que se oberva em relação a outras áreas para o curso de Biblioteconomia da Universidade Federal do Rio Grande
do conhecimento ou de atuação profissional para ex-alunos da UFRGS. do Sul [recurso eletrônico]. In: Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da
Sobre o interesse de continuar estudando na UFRGS, ex-alunos mestres Informação (12. : 2011 out. : Brasília, DF). Anais... políticas de informação para a
e doutores desejam cursar doutorado em 24,9% e pós-doutorado em sociedade [recurso eletrônico]. Brasília, DF : Thesaurus, 2011.
15,3%. Complementam os indicadores de expectativas os que revelam MONTEIRO, Antonio Luiz Ribeiro. Avaliação do curso de graduação em
as preferências de participar de seminários, em torno de 45% das Administração da FCAP por seus egressos. Recife: UPE-FCAP,1988.
respostas dos egressos.
SCHWARTZMAN, Simon; CASTRO, Maria Helena de Magalhães. A trajetória
Historicamente, vem diminuindo a proporção dos que trabalham na área
acadêmica e profissional dos alunos da USP. São Paulo: Núcleo de Pesquisas
durante o curso, devido à crescente participação dos que a ele se dedicam sobre o Ensino Superior da Universidade de São Paulo, 1991. (Documento de
integralmente, conforme apurou-se na investigação sobre todos os Trabalho ; 2/91)
egressos da UFRGS por este autor, que deu origem ao presente artigo.
Tal característica é típica também para os arquitetos egressos da TEIXEIRA, Marco Antonio Pereira. A experiência de transição entre a
universidade e o mercado de trabalho na adultez jovem. Porto Alegre: UFRGS-
Instituição: proporção dos que trabalham enquanto estudam vem
Pós-Graduação em Psicologia do Desenvolvimento, 2002. (Tese de Doutorado).
aumentando ao longo do tempo, ultrapassando o expressivo patamar de
90% em períodos recentes. UNESCO.Tendências da educação superior para o século XXI. In: CONFERÊNCIA
MUNDIAL SOBRE O ENSINO SUPERIOR, 1998, Paris. Anais ...
Referências bibliográficas UNIVERSIDADE ESTADUAL DE LONDRINA. Pró-Reitoria de Planejamento. Diretoria
de Avaliação e Acompanhamento Institucional. Acompanhamento do egresso.
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dos cursos de graduação da UFC. Revista da Rede de Avaliação Institucional
da Educação Superior, Campinas, 2006.
BERTRAND, Olivier. Educação e Trabalho. In: DELORS, Jacques. A educação
para o século XXI. Porto Alegre: Artes Médicas, 2005.
228 XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA 229
XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

urbanismo na busca dos enlaces e conteúdos passíveis de inserção ou


LACUNAS E ENLACES PARA O interfaces com o conhecimento de sustentabilidades das construções –
APRENDIZADO E CONHECIMENTO DE englobando questões tecnológicas, socioeconômicas e ambientais – e
da identificação de lacunas entre o mercado e a academia, como a falta
SUSTENTABILIDADE DAS CONSTRUÇÕES de pesquisas e a sobreposição de práticas profissionais alheias aos
NO ENSINO DE ARQUITETURA E materiais e sistemas construtivos, resistência em adotar práticas
sustentáveis, culturalmente arraigadas na sociedade.
URBANISMO .
Palavras–chave:
Sasquia Hizuro OBATA1 sustentabilidade, construções, lacunas e enlaces.
Doutora. Universidade Cruzeiro do Sul. sasquia.obata@gmail.com
Daniele Ornaghi SANT’ANNA2 I) A FORMAÇÃO ACADÊMICA EM ARQUITETURA E URBANISMO
Mestre. Universidade Cruzeiro do Sul. ornaghi@usp.br
Os cursos de Arquitetura e Urbanismo são enquadrados dentro da
Samuel Dereste dos SANTOS3
área das ciências sociais aplicadas. Desta maneira, a formação do
Mestre. Universidade Cruzeiro do Sul. samuel_dereste@yahoo.com.br
arquiteto requer o enlace de uma série de disciplinas que irão formar o
seu arcabouço técnico conceitual para poder atuar profissionalmente de
maneira consciente.
Resumo:
A resolução 112/2005 do CNE – Conselho Nacional da Educação –
O tema sustentabilidade tem permeado as práticas profissionais e se versa que um curso de Arquitetura e Urbanismo deverá estabelecer ações
consolidado no âmbito mercadológico, bem como incorporado com base no desenvolvimento de condutas e atitudes com
timidamente às disciplinas constituintes do currículo de ensino superior responsabilidade técnica e social, tendo como princípios a qualidade de
de arquitetura e urbanismo. Este trabalho objetiva investigar fragilidades vida dos habitantes dos assentamentos humanos e a qualidade material
e potencialidades do aprendizado e do conhecimento no ensino de do ambiente construído, o uso da tecnologia em respeito às
arquitetura e urbanismo concernentes à sustentabilidade das necessidades socioculturais, estéticas e econômicas, equilíbrio ecológico
construções. e o desenvolvimento sustentável do ambiente natural e construído.
Como referenciais o trabalho pauta-se na Estrutura Curricular estabelecida Espera-se que um egresso em Arquitetura e Urbanismo, dotado de
pelo MEC – Ministério da Educação para os cursos de arquitetura e formação generalista, possa compreender e traduzir as necessidades
de indivíduos, e grupos sociais com relação à concepção, organização e
1
Doutora em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Mackenzie. Mestre em construção do espaço interior e exterior, abrangendo o urbanismo, a
Engenharia Civil pela Escola Politécnica da USP. Engenheira Civil pela Fundação edificação, o paisagismo, bem como a conservação e a valorização do
Armando Álvares Penteado - FAAP. Professora do curso de Arquitetura e Urbanismo patrimônio construído, a proteção do equilíbrio do ambiente natural e a
e Engenharia Civil da Universidade Cruzeiro do Sul e da FAAP. Professora - Pleno utilização racional dos recursos disponíveis. Assim, o profissional está
I da FATEC-Tatuapé. Coordenadora e professora do curso de pós-graduação lato- sempre à prova da compatibilização entre demandas de caráter humano,
sensu em Construções Sustentáveis e do curso de Facilities da FAAP. Professora e de caráter tecnológico.
no curso de pós-graduação lato-sensu em Arquitetura, Cidade e Sustentabilidade Segundo o CNE (2005), a formação profissional deve revelar as
do Centro Universitário Belas Artes. Membro associado do Conselho Brasileiro de
seguintes competências e habilidades:
Construções Sustentáveis – CBCS.
2
Arquiteta e Urbanista. Doutoranda, Mestre e Especialista pela Faculdade de a) o conhecimento dos aspectos antropológicos, sociológicos e
Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Professora do curso de econômicos relevantes e de todo o espectro de necessidades, aspirações
Arquitetura e Urbanismo da Universidade Cruzeiro do Sul. Especialista em Meio e expectativas individuais e coletivas quanto ao ambiente construído;
Ambiente da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente da Prefeitura de São Paulo. b) a compreensão das questões que informam as ações de preservação
3
Arquiteto e Urbanista. Mestre em Arquitetura e Urbanismo. Especialista em Docência da paisagem e de avaliação dos impactos no meio ambiente, com vistas
no Ensino Superior. Professor do curso de Engenharia Civil da Universidade Cruzeiro ao equilíbrio ecológico e ao desenvolvimento sustentável;
do Sul.
230 XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA 231
XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

c) as habilidades necessárias para conceber projetos de arquitetura, grupos de disciplinas, a fim de que os conteúdos possam ser
urbanismo e paisagismo e para realizar construções, considerando os corretamente estudados, permitindo que sejam abordados todos os
fatores de custo, de durabilidade, de manutenção e de especificações, conteúdos necessários para que se tenha um egresso com as
bem como os regulamentos legais, e de modo a satisfazer as exigências competências e habilidades anteriormente citadas.
culturais, econômicas, estéticas, técnicas, ambientais e de acessibilidade O primeiro grupo, denominado de Núcleo de Conhecimentos de
dos usuários; Fundamentação pode ser desenvolvido em diferentes níveis de
d) o conhecimento da história das artes e da estética, suscetível de conhecimentos e sua composição deve fornecer o embasamento teórico
influenciar a qualidade da concepção e da prática de arquitetura, necessário para que o futuro profissional possa desenvolver seu
urbanismo e paisagismo; aprendizado na área da Arquitetura e do Urbanismo. As disciplinas
e) os conhecimentos de teoria e de história da arquitetura, do urbanismo participantes deste núcleo são:
e do paisagismo, considerando sua produção no contexto social, cultural, - Estética e História das Artes;
político e econômico e tendo como objetivo a reflexão crítica e a pesquisa; - Estudos Sociais e Econômicos;
f) o domínio de técnicas e metodologias de pesquisa em planejamento - Estudos Ambientais;
urbano e regional, urbanismo e desenho urbano, bem como a - Desenho e Meios de Representação e Expressão.
compreensão dos sistemas de infra-estrutura e de trânsito, necessários Já o segundo grupo, denominado de Núcleo de Conhecimentos
para a concepção de estudos, análises e planos de intervenção no espaço Profissionais é responsável pela formação e caracterização da identidade
urbano, metropolitano e regional; profissional. É constituído pelas disciplinas de:
g) os conhecimentos especializados para o emprego adequado e - Teoria e História da Arquitetura, do Urbanismo e do Paisagismo;
econômico dos materiais de construção e das técnicas e sistemas - Projeto de Arquitetura, de Urbanismo e de Paisagismo;
construtivos, para a definição de instalações e equipamentos prediais, - Planejamento Urbano e Regional;
para a organização de obras e canteiros e para a implantação de infra- - Tecnologia da Construção;
estrutura urbana; - Sistemas Estruturais;
h) a compreensão dos sistemas estruturais e o domínio da concepção e - Conforto Ambiental;
do projeto estrutural, tendo por fundamento os estudos de resistência dos - Técnicas Retrospectivas;
materiais, estabilidade das construções e fundações; - Informática Aplicada à Arquitetura e Urbanismo;
i) o entendimento das condições climáticas, acústicas, lumínicas e - Topografia;
energéticas e o domínio das técnicas apropriadas a elas associadas; - Estágio curricular supervisionado.
j) práticas projetuais e soluções tecnológicas para a preservação, O texto da Resolução dá grande ênfase ao Estágio Curricular
conservação, restauração, reconstrução, reabilitação e reutilização de Supervisionado, que deve ser concebido como conteúdo curricular
edificações, conjuntos e cidades; obrigatório, de maneira a propiciar ao egresso uma vivência profissional
k) as habilidades de desenho e o domínio da geometria, de suas na área da arquitetura e do urbanismo, contribuindo para a integração
aplicações e de outros meios de expressão e representação, tais como dos seus conhecimentos. Outra ferramenta de grande importância são
perspectiva, modelagem, maquetes, modelos e imagens virtuais; as Atividades Complementares, que são denominadas como
l) o conhecimento dos instrumentais de informática para tratamento de componentes curriculares enriquecedores e implementadoras do perfil
informações e representação aplicada à arquitetura, ao urbanismo, ao do formando.
paisagismo e ao planejamento urbano e regional; O Trabalho Final de Curso, por sua vez, é definido e explorado dentro da
m) a habilidade na elaboração e instrumental na feitura e interpretação resolução como um instrumento de aplicação dos conhecimentos
de levantamentos topográficos, com a utilização de aerofotogrametria, adquiridos ao longo do curso de graduação. Dotado de regras específicas,
foto-interpretação e sensoriamento remoto, necessário na realização de como formato de organização e avaliação, deve contemplar a execução
projetos de arquitetura, urbanismo e paisagismo e no planejamento de objetos que permitam a integração de conteúdos estudados.
urbano e regional. II) ENLACES PARA O APRENDIZADO E CONHECIMENTO DE
A resolução 112/2005 do CNE institui que para que se atinja o objetivo SUSTENTABILIDADE DAS CONSTRUÇÕES NO CURSO DE ARQUITETURA
da formação profissional, o curso deve ser concebido sob dois grandes E URBANISMO
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XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

Ao longo do curso de Graduação em Arquitetura e Urbanismo, diversas dimensões características e suas características produtivas, como
disciplinas buscam dar ao aluno ferramentas que permitam a ele sistemas de fôrmas, escoramentos, dentre outros;
desenvolver projetos de maneira adequada e vinculada às necessidades b) Sistemas Prediais
dos dias atuais. Dentro das disciplinas pertencentes ao Núcleo de Todos os Sistemas Prediais deverão estar corretamente adequados
Conhecimentos Profissionais, as disciplinas fornecem subsídios técnicos dentro da solução arquitetônica, incluindo a compatibilização entre
para a realização de projetos eficientes tanto sob o aspecto funcional diferentes subsistemas. Deverá ser feita uma análise sobre a possível
quanto sob o aspecto econômico. interferência entre subsistemas;
A sustentabilidade pode ser analisada sob o aspecto do simples c) Desempenho térmico e acústico
impacto gerado no ambiente em função da realização de uma atividade, A soma do Sistema Estrutural, Sistemas Prediais e Sistemas de
ou ainda ser encarada como consequência da pouca resolução de Vedação Horizontal e Vertical da edificação devem fornecer ao usuário o
problemas ainda na fase de projeto, que minimiza enormemente os limiar mínimo de conforto térmico e acústico. Porém tais sistemas ocupam
impactos gerados pelas edificações. Sob este olhar, a falta de espaço no projeto e precisam ser devidamente equalizados. O arquiteto
conhecimento técnico sobre a sustentabilidade ganha o viés da precisa conhecer tais sistemas e estudar sua compatibilização ainda na
responsabilidade profissional e um aspecto mais amplo. fase de projeto.
Além das disciplinas de projeto arquitetônico e urbanístico que devem d) Desempenho Energético
contemplar a questão de maneira mais direta, a sustentabilidade possui O grande desafio para as novas edificações é a questão da diminuição
favorável percolação na maioria dos conteúdos, desde as mais teóricas do gasto energético, que gerará impactos ao longo de toda a vida útil da
até as mais pragmáticas, pelo seu caráter multidisciplinar e de interesse edificação. O estudo das fachadas, sua orientação e dos materiais
coletivo. empregados (vidros, brises, etc) irá condicionar a utilização de iluminação
A obliquidade mais patente com o tema são as disciplinas de conforto e ventilação natural na edificação, diminuindo os gastos com energia.
ambiental, enfatizando neste sentido a iluminação, a térmica e a ventilação Também se destaca nos novos estudos o retrofit, que surge para renovar
natural. Nestas matérias, o melhor aproveitamento das variáveis os sistemas obsoletos substituindo por novas soluções, anunciando uma
ambientais devem ser observados como fundamentos de projeto – estas maior preocupação com as questões de conservação energética.
disciplinas não foram engendradas apenas para prover somente bem e) Desempenho global das Edificações
estar humano, mas para oferecer soluções de projeto que sejam Com a criação da norma ABNT 15575 – Edifícios Habitacionais de até 5
econômicas – tanto no âmbito pecuniário quanto ambiental. Pavimentos – Desempenho, surge no mercado da construção civil nacional
Os conteúdos mais doutrinários, na linha de Teoria e História da uma cobrança quanto a eficiência das edificações que estão sendo
Arquitetura e Urbanismo, podem introduzir conteúdos conceituais que construídas. Assim, faz-se necessário que o arquiteto conheça esta
extrapolam as questões sanitaristas e funcionalistas. legislação no sentido de compreender o que certas tomadas de decisão
As disciplinas relacionadas à tecnologia precisam, através da integração ainda na fase de projeto podem acarretar para o edifício como o todo.
com as disciplinas de projeto, fornecer diretrizes para a execução dos Desta maneira, evidencia-se que o tema sustentabilidade dentro da
projetos arquitetônicos, tornando o processo mais técnico e menos Arquitetura e Urbanismo está diretamente ligada ao conhecimento sobre
intuitivo. Por exemplo, o emprego de uma matriz modular no projeto as novas técnicas, materiais e o amadurecimento constante do processo
arquitetônico significará a resolução e a compatibilização de diversos de projeto, procurando-se a oferta de um curso pautado em análises de
problemas dimensionais ainda na fase de projeto, ligando o projeto a projetos que podem ser tomado de inovações tecnológicas com sistemas
produção da edificação. Assim, o processo de projeto dentro do curso de automatizados e com sensores assim como pautado em sistemas
Arquitetura e Urbanismo precisa agregar variáveis que irão ser decisivas bioconstrutivos, ou seja, é preciso que o alinhamento projetual e o senso
para a sua eficiência e consequente sustentabilidade. Os projetos de desenvolvimento de práticas sustentáveis sejam o resultado de
desenvolvidos dentro de um curso de Arquitetura e Urbanismo, como aplicações de técnicas passivas ou no limiar das exigências, com técnicas
exercício para a prática profissional, precisam contemplar: ativas, mas que levam a real redução energética não só em uso e
a) Sistema Estrutural operação da construção, mas tomada desde a produção destas
A solução arquitetônica deve ser concebida dentro dos moldes tecnologias inovadoras que podem demandar alto consumo energético
característicos do sistema estrutural a ser adotado, considerando suas e impacto ambientais e sociais superiores.
234 XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA 235
XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

De modo geral, o caráter mais amplo das Diretrizes Curriculares indicadores de obras mais vendáveis do que sustentáveis, e sob este
Nacionais do Curso de Graduação em Arquitetura e Urbanismo do viés conclui-se que o atendimento a sustentabilidade seja muito mais
Ministério da Educação possibilita a introdução e dosagem de substratos pela imagem das empresas e menos da qualidade de sustentabilidade
(disciplinas e conteúdos das mesmas) relacionados ao meio ambiente de fato, em que o atendimento sócio-ambiental se remete a obra em si e
e à sustentabilidade. Esta permissividade pode ser tanto benéfica quanto não gera uma ação de pilotagem múltipla.
perniciosa, na medida em que os conteúdos podem ganhar ênfase ou A pilotagem múltipla que aqui se coloca representa a participação e
serem abordados superficialmente. Esse interstício pode ser observado adoção responsável dos vários atores, impactados, impactantes e
tanto no Núcleo de Conhecimentos de Fundamentação quanto no Núcleo interessados na sustentabilidade das construções, em que a integração
de Conhecimentos Profissionais. dos órgãos públicos atue na revisão dos impactos e riscos das obras em
Em síntese, o perfil desejável do egresso do alunato de arquitetura e relação à degradação do espaço urbano, em que há empresários,
urbanismo é o de um “profissional generalista, apto a compreender e empresas, instituições de ensino e governo envolvidos, não impactando
traduzir as necessidades de indivíduos, grupos sociais e somente ao empresariado a dúvida de serem demasiadamente exigidos
comunidade”(2005), como versa as referidas diretrizes do MEC. Assim, sobre seus negócios, mas poderem ser sim cobrados tendo-se o
se justifica e adquire vultosa importância a incorporação dos conteúdos respaldo das análises, simulações que a academia suportada pelo
correlatos à no ensino de arquitetura e urbanismo, pois o tema abarca governo pode proporcionar, iniciando, por exemplo, na oferta de uma
outras áreas de conhecimento tangenciadas pela arquitetura (sociologia, graduação que prepara o aluno com competências e formação para
psicologia, física, dentre outras), o que reforça o aspecto generalista. auditorias ambientais e para os ambientes construídos.
Ainda no perfil do egresso, no que se refere à concepção, podem se Assim, indica-se primeiramente o ensino e treinamento da gestão
destacar a proteção do equilíbrio do ambiente natural e a utilização racional integrada de competências profissionais, não como aulas de ateliê, mas
dos recursos disponíveis como preceitos indispensáveis, e neste sentido, sob a condição de desenvolvimento de projetos integrados de fato que
é conveniente aprovisionar embasamento substancial para que a contemplem as diversas áreas e as outras áreas do conhecimento, ou
sustentabilidade incorpore de modo efetivo suas práticas profissionais. seja, projetos que contemplem as interfaces com outras áreas como
III) Lacunas para evolução virtuosa do conhecimento em biologia, agronomia, fisiologia, psicologia, etc.
sustentabilidades das construções Para isto, indica-se que as atividades complementares hoje da forma
Partindo do pressuposto que o conhecimento refere-se ao aprender de como são atribuídas, não são de fato integrantes e sim conteúdos fechados
modo contínuo, e ser a capacidade que nós seres humanos podemos e não exigem do graduando a busca de conexão em uma determinada
desenvolver o aprender a aprender, o acumular experiências, bem como, solução de problema, completa um “buraco”, preenche-se sim, como um
adquirirmos a capacidade de fazer do próprio conhecimento um contínuo cavo, sem gerar uma complementação de forma a gerar maior integração.
incorporar de conceitos, de relações, de situações, de mudanças, entende- Muitas vezes são relegadas simplesmente a condição de cumprimento
se que o conhecimento de um assunto como sustentabilidades das de horas.
construções seja de integração e que permita uma evolução de modo Outra lacuna importante é o desenvolvimento da crítica e do poder de
virtuosa. aprender com erros constatados, neste sentido há que ter uma disciplina
Sob esta condição quando se destaca a possível existência de lacunas que apresente rotinas de análise de obras e projetos em todo seu ciclo
para a evolução virtuosa do conhecimento em sustentabilidades das de vida, noções de como considerar os materiais e os produtos em reuso,
construções, remete-se a condição da oferta de atividades acadêmicas reciclagem e não só a noção do conceito e da paridade berço-a-berço
que potencializem a capacidade que temos do conhecimento sobre um dos recursos utilizados, mas a proposição de estudos e projetos. Uma
tópico, como o de sustentabilidades das construções a qual este artigo linha de conhecimento promissora, embora não explorada pela totalidade
se propõe, assim como, conteúdos que permitam a incorporação do dos cursos de arquitetura e urbanismo é a avaliação pós-ocupação do
processo aprender a aprender não como mote isolado na academia, ambiente construído, bem mais talhada no âmbito da pós-graduação,
mas como estratégia de que permita atuação profissional em diferentes mas que na graduação ainda aparece de forma incipiente.
fronteiras e desafios. Há ainda não só o contexto de inserções de novas formas para o
Atualmente pode se destacar que as sustentabilidades das construções desenvolvimento do conhecimento na academia, mas também as lacunas
são consideradas pelo atendimento às certificações, que as tornam como
236 XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA 237
XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

das relações entre o mercado, entre as esferas políticas e institucionais,


que podem ser direcionadas por diversos assuntos como:
A EXPERIÊNCIA DO CANTEIRO
§ A falta pesquisa e consequente desconhecimento sobre o EXPERIMENTAL
impacto climático das construções,
§ A ausência de responsabilidade política sobre o espaço urbano DA UFFS1
e suas construções,
§ A falta de discussões, debates e reflexões sobre problemas Nauíra Zanardo ZANIN2
socioambientais e a ausência de fato de uma educação ambiental. Mestre. Universidade Federal da Fronteira Sul. nauira@nauira.arq.br
§ O descolamento da relação entre graduações, especializações Maria das Graças Velho do AMARAL3
ou pós-graduações. Mestre. Universidade Federal de Santa Catarina. arqmgva@gmail.com
Conclusões ou comentários Daniella RECHE4
As diretrizes do MEC ressaltam em inúmeras ocasiões a necessidade Mestre. Universidade Federal da Fronteira Sul.
de entremear as questões ambientais ao projeto pedagógico e aos daniellareche@uffs.edu.br
conteúdos disciplinares do referenciado curso. Deloan Mattos PERINI5
Embora o tema seja mencionado em toda sua, a intensidade de Discente. Universidade Federal da Fronteira Sul. deloan@hotmail.com
inserção dos assuntos ficam a critério dos constituintes do curso, ou Júlia Piaia RAIMUNDO4
seja, elementos como congregações, conselhos, núcleos docentes Discente. Universidade Federal da Fronteira Sul. julia-
estruturantes e coordenações de curso. piaia@hotmail.com
Ainda que essa inserção seja venha se intensificando, se identifica Jean MASCHERIN4
uma nítida cisão entre mercado e meio acadêmico. Também há mister Discente. Universidade Federal da Fronteira Sul.
de observar tendências mercadológicas, bem como desenvolvimento de jean.maske@gmail.com
novas tecnologias (sistemas e materiais) e coligar essas referências as Amadeus REOLON4
práticas acadêmicas, por vezes distantes destes contextos. Discente. Universidade Federal da Fronteira Sul.
Sob este prisma, são necessárias ponderações frequentes e revisões amadeusreolon@hotmail.com
para introduzir este relevante e sedicioso tópico - a complexa, Jhenifer Patrícia STUMM4
multidisciplinar e emergente sustentabilidade. Discente. Universidade Federal da Fronteira Sul.
Finalmente há que destacar que o aprendizado e aquisição da patistumm@yahoo.com.br
sustentabilidade das construções passam por rebatimentos na estrutura Michele PEINHOPF4
formal das instituições de ensino e transformações contínuas em fase Discente. Universidade Federal da Fronteira Sul.
com o cenário socioeconômico, os avanços tecnológicos e o mundo michele.peinhopf@gmail.com
profissional.
Referências
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 15575 - Edifícios RESUMO
habitacionais de até cinco pavimentos – Desempenho – Generalidades. O Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFFS conta com o apoio didático-
Rio de Janeiro, 2008. pedagógico de um Canteiro Experimental, espaço que oportuniza aos
BRASIL. Ministério da Educação. Diretrizes Curriculares dos cursos de estudantes a aplicação contínua de conhecimentos teórico-prático-
graduação em Arquitetura e Urbanismo. Parecer 112/2005. Brasília, 2005. reflexivos e a inovação no uso de materiais e técnicas construtivas.
BRASIL. Ministério da Educação. Diretrizes Curriculares dos cursos de 1
Artigo apresentado no XI SIACOT e IV SIIDS – Universidade de Taumalipas e PROTERRA – Tampico, Tamaulipas,
graduação em Arquitetura e Urbanismo. Resolução 2/2010. Brasília, 2005. México – Set/2011, com o título “A terra no Canteiro Experimental da UFFS”
BRASIL. Ministério da Educação. Diretrizes Curriculares Nacionais dos cursos 2
Arquiteta e Urbanista (2002) e mestre em Engenharia Civil (2006), pela UFRGS. É docente do Curso de Arquitetura
de graduação em Arquitetura e Urbanismo. Resolução 4/2010. Brasília, 2006. e Urbanismo da UFFS e responsável pelo Canteiro Experimental.
3
Arquiteta e Urbanista (1990) e mestre em Engenharia Civil (1999) pela UFSC. Em 2011 foi docente do Curso de
Arquitetura e Urbanismo da UFFS. Atualmente é arquiteta da Universidade Federal de Santa Catarina.
4
Arquiteta e Urbanista e mestre pelo Curso de Pós-graduação em Urbanismo, História e Arquitetura da Cidade, pela
UFSC. É docente e Coordenadora do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFFS.
5
Acadêmicos Bolsistas - Canteiro Experimental.
238 XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA 239
XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

Concebido como espaço de prática e experimentação da arquitetura, é O curso está sendo oferecido, provisoriamente, no Seminário Nossa
extremamente importante no ensino-aprendizagem e na crítica do fazer Senhora de Fátima (SNSF). A infraestrutura, a estrutura viária e as
arquitetônico. edificações requeridas pelo Campus serão construídas em etapas, em
No primeiro semestre de 2011 houve a implementação do Canteiro terreno próprio localizado nas margens da rodovia estadual RS 135, sendo
Experimental no Curso a partir da oferta da componente curricular (CC) que o primeiro prédio se encontra em obras. O Canteiro Experimental
‘Canteiro Experimental I’ para a 3ª fase, tendo como objetivo a está previsto para ser construído em etapa subsequente a esta, e contará
experimentação prática de conhecimentos teóricos obtidos, aproximando- com um espaço livre de 2.500m² e um espaço coberto de 380m², com
os do processo construtivo e de sua viabilização. depósito fechado e bancadas com instalações elétricas e hidráulicas.
O presente artigo objetiva apresentar referenciais teóricos relacionados No primeiro semestre de 2011, foi oferecida aos estudantes da 3ª fase
ao Canteiro Experimental, a metodologia das atividades realizadas na a disciplina ‘Canteiro Experimental I’ que necessita da estrutura
CC, seu planejamento, os resultados obtidos, as limitações encontradas laboratorial do Canteiro Experimental. Esta disciplina tem por objetivo
e a repercussão entre os estudantes, buscando contribuir para a reflexão proporcionar aos estudantes a experimentação prática dos
sobre o processo de ensino-aprendizado da arquitetura. conhecimentos teóricos obtidos, aproximando-os do processo construtivo
e sua viabilização, bem como oportunizar a inovação no uso de materiais
PALAVRAS-CHAVE: ensino-aprendizado da arquitetura, canteiro e técnicas construtivas. Para viabilizar este laboratório, as docentes Nauíra
experimental, construção em terra. Zanardo Zanin e Maria das Graças Velho do Amaral, responsáveis pela
I - Introdução disciplina, solicitaram o uso temporário de espaços que serviram de
apoio ao Canteiro: 1) Atelier de Desenho; 2) depósito de materiais; e 3)
A Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), criada em 2009, é uma espaço coberto para servir de suporte às atividades práticas - os dois
instituição de ensino superior pública e popular, com cursos distribuídos últimos cedidos pela Prefeitura e pelo Seminário (Figura 1). Para a
em cinco campi localizados no interior dos três estados do Sul. O curso verificação dos protótipos foi apresentada proposta de uso da estrutura
de Arquitetura e Urbanismo é ofertado no campus Erechim (RS) com laboratorial de outras instituições através de convênios, até a construção
entrada anual de 50 alunos. dos laboratórios definitivos no Campus.
O Projeto Pedagógico do Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFFS
(PPC) pauta o aprendizado em saberes presentes nas esferas da técnica,
da arte e da ciência, atendendo à singularidade do processo de formação
do arquiteto: a prática reflexiva. É através do processo criativo e propositivo
que a técnica e a ciência são apreendidas no curso de Arquitetura e
Urbanismo. A proposta do curso é assegurar a formação de profissionais
generalistas, capazes de compreender e traduzir as necessidades de
indivíduos, grupos sociais e comunidades, com relação à concepção, à
organização e à construção do espaço interior e exterior, abrangendo o
urbanismo, a edificação, o paisagismo, bem como a conservação e a Figura 1: espaço aberto, espaço coberto e depósito - aula prática de ‘Canteiro Experimental I’.
valorização do patrimônio construído, a proteção do equilíbrio do ambiente Foto: Nauíra Zanardo Zanin

natural e a utilização racional dos recursos disponíveis. O Canteiro Na sequência da grade curricular, está prevista a disciplina ‘Canteiro
Experimental foi concebido, segundo o PPC (PROJETO, 2010), como o Experimental II’ na qual serão realizados protótipos de diferentes soluções
apoio didático-pedagógico, proposto para ser o espaço de prática e estruturais. Para tanto, realizou-se o projeto de uma estrutura própria,
experimentação da arquitetura e ajudar o estudante a elaborar a crítica ainda que provisória, com um depósito para os materiais e ferramentas,
sobre as próprias decisões através da avaliação de suas escolhas, isto com cerca de 10m² e uma área coberta com cerca de 60m², equipada
é, do acerto e do erro (RONCONI, 2008, p. 8). O Canteiro Experimental do com instalações hidráulicas e energia elétrica para a realização das
Curso de Arquitetura e Urbanismo insere-se na UFFS em consonância atividades práticas.
com seu caráter popular e inclusivo, por ser um espaço de aproximação De abril a dezembro de 2011, o Projeto de Iniciação Acadêmica
e reflexão sobre a realidade da construção civil no país. ‘Implementação do Canteiro Experimental no Curso de Arquitetura da
UFFS’, que conta com o apoio de três bolsistas remunerados e três
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bolsistas voluntários, auxilia as atividades realizadas na disciplina de simulação da realidade, onde se incentiva seu questionamento e a
‘Canteiro Experimental I’, servindo de apoio e incentivo à realização de busca por alternativas.
experimentos. O projeto promove também a investigação das É nessa chave que eu entendo o canteiro experimental: não se trata
possibilidades de utilização do Canteiro Experimental junto aos de usar um atalho para aprofundar um conhecimento tecnológico
professores das demais componentes curriculares, tendo como base o necessário para o exercício responsável na cidade. Trata-se de
próprio PPC. Somada a isso, a investigação de experiências realizadas aprofundar a consciência de cada um na intervenção do espaço
em outras Instituições de Ensino Superior também fortalece as atividades que se deseja. (KATINSKI, 2008, p.14)
práticas realizadas no Canteiro Experimental. O acompanhamento e Sob esse ponto de vista, Arantes (2008) explica que, diferentemente de
registro das atividades que foram desenvolvidas ao longo desse primeiro um canteiro de obras, o canteiro experimental não visa treinar técnicas e
ano de atividades fortalece o papel do Canteiro Experimental e marca habilidades construtivas, mas apresenta uma proposta pedagógica
sua instalação no Curso de Arquitetura da UFFS. apoiada na crítica ao canteiro convencional e às relações de trabalho
A seguir serão apresentados os referenciais teóricos que norteiam as historicamente ali estabelecidas. Propõe, respaldado em Paulo Freire
atividades do Canteiro Experimental, espelhado especialmente nas (1987), a pedagogia do canteiro experimental como um “método de
reflexões derivadas do canteiro experimental da Faculdade de Arquitetura conscientização”, que articula o saber e o fazer, onde se questiona a
e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP). Descreve-se a autonomia dos sujeitos e suas potencialidades transformadoras: “o que
metodologia de ensino-aprendizagem adotada nas aulas e as está em construção nesse canteiro não são apenas formas arquitetônicas,
experimentações desenvolvidas pelos estudantes durante o primeiro mas um novo tipo de arquiteto” (ARANTES, 2008, p.27).
semestre de 2011. Como fechamento, apresentam-se as percepções Segundo Minto (2006), com a reforma acadêmica, ocorrida em 1962,
dos estudantes sobre as atividades realizadas, sob diferentes aspectos, o ensino da arquitetura voltou-se para o desenho, distanciando-se
como o gerenciamento e autogestão do grupo de trabalho, as dificuldades gradativamente do canteiro de obras. Na prática da formação do
encontradas e a importância dos aprendizados para a formação. arquiteto, afastaram-se os processos de criação e de construção,
impedindo o entendimento das complexas relações estabelecidas no
II - O papel do Canteiro Experimental processo criativo e distanciando os arquitetos da realidade social.
A arquitetura só se realiza quando sai do papel e, dessa forma, é
Como afirma Ronconi (2002, p.153): “Falta o contato com as culturas
indissociável a prática da teoria. O ensino da arquitetura deve, portanto,
propiciar a praxis, em toda sua complexidade, como uma “ação racional construtivas, com as possibilidades econômicas e com a organização
crítica”, que “não visa a simples reprodução do presente – mas a sua social”.
transformação” (FERRO, 2008, p.20). O canteiro experimental é o espaço O canteiro de experimentações é uma forma de aproximar o desenho
pedagógico da práxis arquitetônica. Nesse exercício, estimula-se a do “fazer arquitetônico”. A principal ideia defendida por PISANI et al. (2006)
criatividade dos estudantes, futuros profissionais, na resolução de é a de que um processo prático de aprendizado alimentaria várias áreas
entraves que surgem no cotidiano da obra; permite-se o pensar criativo do saber com muito mais eficiência e durabilidade que as atividades
aproximado da realidade dos materiais de construção e das formas que teórico-conceituais. Ronconi (2002, p.155) também defende a ideia de
se pretendem alcançar; apresentam-se as condicionantes climáticas, que o canteiro experimental não é apenas o lugar para desenvolver
que interferem sobremaneira no andamento das atividades; vivenciam- habilidades construtivas dos alunos, nem laboratórios para ensaios de
se e questionam-se as dificuldades enfrentadas pelos operários da corpos de prova, mas é o espaço onde se coloca em prática uma síntese
construção civil - o trabalho pesado, a repetição, a alienação e falta de de tudo que foi ensinado: “Não um canteiro de tecnologia, mas sim um
autonomia. canteiro da arquitetura”.
O estranhamento (...) da divisão social do trabalho (sobretudo entre Segundo PISANI et al. (2006), o canteiro experimental nas escolas de
trabalho intelectual e manual) é o primeiro passo para que a relação arquitetura e urbanismo proporciona a seus estudantes maior qualidade
entre arquitetos e operários, entre desenho e canteiro, não se dê de formação, por meio do conhecimento prático e da reflexão realizada
mais por imposição e prescrição, mas por diálogo e ação coletiva. sobre as atividades. Esse processo estimula, entre os acadêmicos,
(FERRO, 2008, p.30). autonomia e a criatividade na solução dos problemas arquitetônicos
Embora não seja uma obra real, o canteiro experimental é um espaço propostos.
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Fazer com as próprias mãos o que pensava, e ao fazer instruir o que executavam suas habitações enterradas ou semienterradas,
pensar (...). Mas na arquitetura não é bem assim: o desenho surge aproveitando-se das propriedades de inércia térmica proporcionadas pelo
como mediação entre o pensamento do arquiteto e o fazer do solo (LA SALVIA, 1983). As construções autóctones Mbyá-Guarani,
operário, pois há uma cisão que impede a contiguidade entre o presentes até os dias atuais, também incorporam a terra em estruturas
fazer e o pensar (...). (ARANTES, 2002, p.53, grifo do autor) leves de pau-a-pique de taquara com taipa de mão, aproveitando-se de
Segundo Pisani et al. (2006, p.2), a formação do arquiteto está se materiais disponíveis localmente (ZANIN, 2006).
resumindo “em uma reflexão teórica e conceitual apoiada em materiais e Durante as atividades com terra, os transeuntes detinham-se a observar
métodos que não empregam a simultaneidade entre a prática e a reflexão os estudantes e por meio de diálogos relataram suas memórias de
durante o ‘fazer’ arquitetônico”. A responsabilidade da materialização da
infância, quando a terra ainda era um material construtivo recorrente:
arquitetura, que passa necessariamente pela experiência da construção, Resgatar essas técnicas tradicionais, que foram deixadas de lado,
deixou lentamente de ser da responsabilidade do profissional que a criou, nos faz entender um pouco mais da história do local (...). Em uma
e esse fato tornou o projeto um fruto menos multidisciplinar do que das aulas de taipa de mão, um casal de idosos parou para olhar o
realmente necessita ser para atender aos anseios da sociedade. que estávamos fazendo. Eles lembraram de ter paredes assim nas
Reginaldo Ronconi (2002, p.152) diz que “lentamente esse processo suas casas quando crianças, mas que nunca mais tinham visto.
forma um arquiteto que pensa arquitetura, mas que perde, Nos deram os parabéns pela iniciativa e nos desejaram sorte. (Diário
progressivamente, a chance de materializar seu pensamento”. de Experimentações de Júlia Piaia Raimundo, CE1,CGAU-UFFS, 2011-
1)
Conforme Pisani et al. (2006, p.4), o canteiro experimental “é uma
O fato do Campus da UFFS em Erechim estar afastado dos grandes
tentativa de melhorar não só a qualidade da formação e informação a centros urbanos proporciona que os próprios estudantes compartilhem
serem desenvolvidas em nossos alunos, mas, também, conferir uma entre si as experiências construtivas que vivenciam no ambiente familiar:
qualidade maior ao processo de aquisição destas.” Ele apresenta a Por coincidência, no final de semana anterior, eu havia ido para
função de exercitar o aluno na resolução de problemas e incentivar na casa. Eu e meu pai fizemos um forno de adobe, como “presente”
invenção de novos componentes urbanístico-arquitetônicos que para minha mãe. Com isso, meu pai me explicou várias coisas.
(Diário de Experimentações de Núbia Raquel Lyneburguer,
atendam à materialização da Arquitetura.
CE1,CGAU-UFFS, 2011-1)
O canteiro experimental, além de retomar a aprendizagem prática da
A escolha da terra esteve pautada também pela disponibilidade de
arquitetura, possibilita o uso de outros materiais, a experimentação, como
materiais, uma vez que estamos em processo de “construção” da
o próprio nome diz. É a oportunidade que o aluno tem de refletir, discutir,
universidade e os laboratórios estão sendo literalmente construídos. A
errar e, talvez o mais importante, executar o projeto. Há um contato direto
terra é facilmente manuseável e relativamente segura, permite a divisão
com os materiais utilizados, com suas características físicas, onde se
de tarefas em um grande grupo, assim como possibilita trabalhar
aprende na prática. O canteiro experimental não tem função de se ater à
diferentes técnicas construtivas. Somado a isso, ressalta-se a
reprodução de tipologias arquitetônicas ou de técnicas construtivas
necessidade de investigação a nível local, das propriedades do material,
tradicionais. Os exercícios propostos devem exercitar a reflexão sobre a
sua adequação e aprimoramento das técnicas frente às características
questão proposta e não indicar apenas “resposta” para o problema
bioclimáticas da região.
apresentado (PISANI, 2006).
Minto (2006, p. 2) defende que
No Curso de Graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFFS, a
Um ensino universitário com maior ênfase nos canteiros
disciplina ‘Canteiro Experimental I’ está proposta na fase do curso em
experimentais, com comprovação científica suficiente para lhe atribuir
que a ênfase é dada aos materiais. Ronconi (2002) ressalta que o canteiro
respeitabilidade e êxito, é necessário para a elevação da arquitetura
experimental mantém o contato do aluno com os materiais convencionais,
de terra como um sistema construtivo possível e maduro, como
materiais alternativos e dá liberdade para criar e observar como esses
qualquer outro já estabelecido.
materiais se comportam. O material escolhido para dar início à
aproximação dos estudantes com a prática, no canteiro da UFFS, foi a As experimentações com esse material introduzem as possibilidades
terra crua. Essa escolha está pautada pelo histórico de utilização da terra de investigação na realidade em que se insere o recente Curso de
na região, desde seus primeiros habitantes, indígenas da etnia Kaingang, Graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFFS.
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III - Ensino-aprendizagem e organização do Canteiro Experimental Posteriormente, quando iniciaram as atividades de transformação do
A oferta da disciplina ‘Canteiro Experimental I’ deu início, ainda que de espaço coberto cedido pelo Seminário Nossa Senhora de Fátima, as
forma improvisada, às atividades desse laboratório. Enfrentam-se atividades começaram a se diferenciar entre os grupos e, a cada aula,
dificuldades por estarmos em uma universidade em construção, contudo, alternavam-se os grupos para garantir que todos experimentassem
conta-se com a dedicação do corpo docente, técnicos, coordenação diferentes atividades.
acadêmica e administrativa, bolsistas e com a compreensão e A disciplina ‘Canteiro Experimental I’ contou, no início das atividades,
entusiasmo dos estudantes. A disciplina tem carga horária semanal de 4 com uma palestra realizada pelo professor engenheiro agrônomo Alfredo
horas, sendo realizada no turno vespertino. Como alguns alunos ainda Castamann (Curso de Agronomia - UFFS), sobre as características físico-
não conheciam certas ferramentas utilizadas nas aulas de ‘Canteiro químicas do solo da região, com fins de utilização como material de
Experimental I’, foi solicitado o apoio dos técnicos em serviços gerais, construção. Nos dias 04 e 09 de abril de 2011, ocorreu a 1ª Semana
para que os mesmos auxiliassem na preparação das experimentações. Acadêmica organizada pelos cursos de Arquitetura e Urbanismo,
Outra colaboração importante para manter a organização, o controle na Agronomia e Engenharia Ambiental e Energias Renováveis da UFFS, na
distribuição dos materiais e equipamentos e ainda auxiliar na distribuição qual foram realizadas duas oficinas no espaço do Canteiro Experimental:
das tarefas entre os estudantes, foi o auxílio dos seis alunos bolsistas do Oficina de Arquitetura de Baixo Impacto, ministrada pelo arquiteto e
Programa de Iniciação Acadêmica, com dedicação de 20 horas semanais educador Tomaz Lotufo (USP) e Oficina de Mosaicos e Tintas Naturais,
para o projeto ‘Implementação do Canteiro Experimental no Curso de ministrada pelas arquitetas e educadoras Vivian Ecker (UFRGS) e Nauíra
Arquitetura da UFFS’. Zanin (UFFS).
No início do semestre, a turma de 50 estudantes foi dividida em 5 A avaliação da disciplina é apoiada por um Diário de Experimentações
grupos de 10 integrantes, para realizarem juntos as experimentações. individual, onde cada estudante deve registrar o planejamento,
Cada grupo tinha a liberdade de realizar a autogestão na divisão das desenvolvimento e avaliação posterior a cada exercício prático, incluindo
tarefas. A cada aula, dois bolsistas ficavam encarregados de registrar e proporções utilizadas, soluções formais experimentadas, erros e acertos.
distribuir os materiais e equipamentos para os grupos, certificando-se, O Diário deve ser ilustrado com croquis e fotografias das atividades
ao final da aula, de que estavam recebendo-os limpos e em bom estado. realizadas e suas respectivas etapas. Ao final de cada exercício solicita-
Ocorriam reuniões semanais entre as professoras da disciplina e os se o registro da percepção do estudante sobre a técnica, com dificuldades
bolsistas, nas quais eram programadas as aulas, que iniciavam com um e possibilidades de inovação ou técnicas alternativas para o mesmo
momento de diálogo dentro do Atelier de Desenho, para organizar a aula uso. O Diário deve incluir todos os encontros em sequência cronológica
e conversar sobre o exercício que seria realizado. Logo, os grupos e é vistoriado ao final de cada aula. A partir do Diário de Experimentações
seguiam para a prática, que ocupava a maior parte do tempo disponível e avalia-se a compreensão das técnicas e propriedades dos materiais
era realizada no canteiro provisório, localizado ao lado do Atelier. Antes de experimentados por cada estudante. No processo de avaliação também
iniciarem e após terminarem as atividades práticas, eram orientados é considerada a participação efetiva de cada estudante durante as aulas.
alongamentos corporais e aquecimento, para evitar lesões pelo esforço
repetitivo ou despreparado. Música e intervalo para lanche eram IV - Descrição e apreciação das atividades realizadas no semestre
incentivados. 2011-1
Foi acordado com a turma que nos dias em que não estivesse chovendo, A seguir são descritas as atividades práticas realizadas no Canteiro
seriam realizadas as aulas práticas, e nos dias chuvosos, os quais Experimental da UFFS durante o primeiro semestre de 2011. As
impossibilitariam os alunos de usar o espaço aberto, as aulas seriam experimentações tiveram a terra crua como material principal, sendo
teóricas, realizadas no Atelier de Desenho, onde a turma aproveitaria utilizada em diferentes proporções e técnicas construtivas. Como
para debater e refletir, com o apoio de artigos e livros, sobre a importância mencionado anteriormente, as atividades práticas tiveram o apoio de
do canteiro experimental. Também foram exibidos documentários momentos teóricos e reflexivos, proporcionando o questionamento e
apresentando construções que utilizam materiais e técnicas alternativas amadurecimento das propostas realizadas.
que estavam sendo realizadas em aula. a)Testes de Solos
Inicialmente todos os grupos realizavam todas as atividades, garantindo Os primeiros contatos que os estudantes tiveram com o CC de ‘Canteiro
que os integrantes pudessem se revezar e realizar diferentes tarefas. Experimental I’, foi uma aula introdutória, com o professor Alfredo
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Castamann, especialista em solos, que descreveu diversas parte inferior com meias toras de eucalipto. Acima das toras foram fixadas
características dos solos e seus componentes. As primeiras atividades lascas de taquara na horizontal, espaçadas a cada 10 cm, servindo de
práticas desenvolvidas foram nove testes – olfativo, sensorial, prova da sustentação para a taipa de mão. A técnica para aplicação da taipa de
cor, prova do tato, prova do brilho, prova da sedimentação, prova da coesão, mão necessita de duas pessoas trabalhando em conjunto e consiste em
prova da bola e prova dos hambúrgueres -visando conhecer as colocar simultaneamente uma porção da massa em ambos os lados da
características do solo encontrado na região de Erechim. Com os testes parede (Figura 3). Notou-se, após uma semana do experimento, que
foi possível concluir que o solo disponível não continha matéria orgânica, algumas paredes fissuraram mais durante a secagem, isso devido à
era argiloso e siltoso e com plasticidade adequada para a execução de massa não possuir uma homogeneidade adequada. As fissuras foram
adobes na proporção de 1:1 (terra:areia). preenchidas com a aplicação do reboco de terra.
b) Adobes
Após os resultados obtidos nos testes, a turma começou a preparar a
confecção dos tijolos de adobe. Após a fabricação das formas para os
adobes, a turma começou a confeccionar os tijolos. O processo consistia
em: 1. peneirar a terra, 2. com o auxílio de uma lona misturar a mesma
quantidade de terra, areia e fibra vegetal; 3. adicionar água até atingir um
ponto de liga, processo este que era feito pelo pisoteamento na mistura.
Na primeira vez que a turma fez este processo, um aluno pisava
diretamente na mistura. Com o decorrer do semestre, devido ao clima
frio, começou-se a adotar outro sistema, onde a lona era virada sobre a
mistura para ser pisoteada. Com a mistura pronta, a massa era jogada
dentro das formas molhadas, começando pelos cantos e após
completando-as, e para finalizar eram desenformados os adobes. O tempo
de cura era de uma semana para virá-los, e mais uma para armazená-
los em definitivo, contudo esse prazo variava devido ao clima. A turma Figura 3: aula prática de ‘Canteiro Experimental I’ – taipa de mão.
passou por uma situação de vandalismo, onde os tijolos foram destruídos. Foto: Nauíra Zanardo Zanin
Após esse ato, um espaço coberto foi limpo e cercado para que esse tipo d) Reboco de terra
de situação não se repetisse (Figura 2). O reboco de terra foi aplicado sobre a taipa de mão, como uma segunda
camada de massa para o preenchimento das fissuras de secagem.
Foram realizadas três massas com diferentes composições: 1. terra,
areia, sisal e água; 2. terra, areia, sisal, mucilagem de cactus e água; 3.
terra, areia, cal e água. Em todos os experimentos utilizou-se o dobro da
quantidade de areia, em comparação com a terra. O primeiro experimento
teve menor capacidade de aderência na parede. Sobre ele foi aplicado o
segundo experimento, com cactus, que auxiliou na impermeabilização
da parede. O terceiro experimento, devido à cal, resultou em uma coloração
mais clara.
Figura 2: aula prática de ‘Canteiro Experimental I’ – confecção de adobes. Foto: Maria das Graças Velho do Amaral
e) COB com garrafas
c) Vedações com taipa de mão Em um dos espaços foi utilizada a técnica de COB com garrafas,
Como mencionado na Introdução, o Canteiro Experimental foi semelhante à taipa de mão, com a diferença de que garrafas de vidro são
estruturado em um espaço cedido pelo Seminário Nossa Senhora de fixadas junto à estrutura de madeira que será vedada, utilizando a mesma
Fátima, utilizando nos experimentos um “Piquete” com estrutura de toras técnica e materiais da taipa de mão. O resultado ficou muito interessante
de eucalipto, remanescente da Semana Farroupilha de 2010. Cada grupo de observar, principalmente quando os raios de sol são refletidos pelos
ficou responsável por desenvolver um módulo de parede, fechando a vidros das garrafas (Figura 4).
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Figura 4: aula prática de ‘Canteiro Experimental I’ – vedação de calfitice, forno de adobe, COB com garrafas (fundo
Figura 5: aula prática de ‘Canteiro Experimental I’ – forno de adobe.
à direita) e taipa de mão com reboco de cal.
Foto: Nauíra Zanardo Zanin Foto: Nauíra Zanardo Zanin

f) Calfitice realização de dois fornos de COB. Para a realização dos fornos, foi utilizada
Outra técnica desenvolvida pelos alunos foi o calfitice. Como base, a mesma massa da produção de adobes, composta por partes iguais de
esta técnica necessita uma grelha onde é fixado um tecido de juta, na 1 (terra) : 1 (areia) : 1 (palha). Inicialmente, foram moldadas as cúpulas
qual é aplicado o calfitice, que consiste em uma mistura de terra, areia, com areia úmida sobre uma bancada. A seguir iniciou-se a colocação do
cal hidratada, cimento, sisal e água. A “juta” foi grampeada na estrutura COB pela base do molde de areia. As camadas inferiores são mais
de madeira e o calfitice foi aplicado como um reboco. O uso da técnica espessas, em torno de 10cm, conforme a cúpula vai sendo coberta com
não obteve o resultado esperado, pois a espessura da parede mostrou- o COB, vai-se diminuindo sua espessura. A cada camada, deve-se fazer,
se muito fina, então os alunos aplicaram novamente outra camada. com os dedos, o entrelaçamento das fibras para melhor união com a
Passada uma semana a parede estava mais firme, porém não da forma camada seguinte. É importante não esquecer a abertura do forno, que
ideal e a sensação era de uma parede muito frágil. Mais tarde, verificou- precisa ter o tamanho adequado para a pizza, assim como o espaço para
se que o cimento utilizado estava vencido. a chaminé, que deve ser colocado ao fundo, abaixo da altura interior do
g) Forno para pizzas com adobes forno, para garantir a permanência do calor por mais tempo. Ao final,
Uma das últimas atividades desenvolvidas foi a construção de um forno como acabamento, os estudantes criaram figuras zoomorfas e
para pizzas, utilizando os adobes pequenos confeccionados pelos antropomorfas, utilizando a criatividade e divertindo-se durante o processo.
próprios alunos. A estrutura foi montada com toras de eucalipto e a base Depois de duas semanas de secagem, foi retirada a areia de dentro dos
com tijolos refratários assentados sobre areia e uma camada isolante fornos, que demonstraram ter uma estrutura muito resistente.
de palha e lama, próprios para a utilização sob calor. Riscou-se um i) Concurso relâmpago: coberturas verdes
diâmetro na base para servir de guia, tanto para o tamanho em planta Em uma aula chuvosa, foi lançado o desafio de cada grupo desenvolver
como para guiar a altura da cúpula do forno. Os tijolos foram dispostos uma solução para proteger a porta de entrada do Atelier de Desenho,
em círculo e conforme subiam as fiadas, aumentava-se a inclinação de cujos requisitos eram a utilização de cobertura vegetada e algumas
assentamento, semelhante ao arco romano. A boca do forno foi feita em dimensões mínimas. Depois de apresentadas as propostas, houve uma
arco pleno (romano). Havia um clima de descontração e empolgação na escolha democrática, onde foi escolhida a proposta do Grupo 3, que teve
turma, de modo que quase se esqueceu da chaminé do forno (Figura 5). a tarefa de realizar uma maquete na escala 1:5. Essa tarefa demandou
Após a finalização da cúpula, foi aplicada uma camada de isolamento muita dedicação do grupo durante as aulas de ‘Canteiro Experimental I’.
térmico com lama e palha. Por fim, foi feito um reboco de terra, areia e j) Demais atividades realizadas
sisal. Algumas atividades que não envolviam a terra como material construtivo
h) Forno para pizzas com COB foram desenvolvidas ao logo do semestre: foi construída uma bancada
Atividade realizada durante a Primeira Semana Acadêmica, ocorrida de madeira para utilização junto ao forno de adobes, bancos de madeira
nos dias 04 a 09 de abril de 2011, e conduzida pelo arquiteto Tomaz e bancos feitos com garrafões de vidro cheios de água. Durante a Semana
Lotufo, em uma oficina denominada Arquitetura de Baixo Impacto. Durante Acadêmica também foi realizada a Oficina de Mosaicos, onde iniciou-se
a oficina, Tomaz conduziu os estudantes na produção de adobes e na a produção de mosaico em duas mesas, reaproveitando amostras de
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cerâmica e de pastilhas de vidro e formando um desenho em mandala. estavam sendo realizadas no SNSF.
Esta técnica teve seu acabamento desenvolvido durante as aulas de Preparamos as formas para os tijolos de adobes, pedimos ajuda
‘Canteiro Experimental I’. para os trabalhadores na obra das salas de aula, ao lado do
V - Percepções dos estudantes nos diários de experimentações seminário, para serrar as madeiras na medida certa para forma
Na produção do Diário de Experimentações os alunos foram solicitados grande e pequena, deu errado, pois colocamos fundo na forma e
a registrar as atividades realizadas, atentando para a descrição dos não precisaria, assim repetimos o exercício não colocando o fundo
na forma, foi divertido pois a maioria não tinha experiência com
procedimentos e resultados, incluindo também suas percepções
martelo, de cada 3 marteladas acertávamos 1 no prego. Mas no
pessoais. A intenção das docentes era aproximar-se dos processos final deu tudo certo e as formas ficaram bem feitas para a confecção
vivenciados, das tentativas, dos erros, das dificuldades enfrentadas e dos tijolos. (Diário de Experimentações Vanessa Strapason,
dos momentos de celebração com a finalização das tarefas. Nos diários, CE1,CGAU-UFFS, 2011-1)
observa-se que as vivências, embora desenvolvidas em grupo, são Com instalações improvisadas e falta de alguns materiais, alunos e
pessoais. Alguns alunos participavam das atividades com terra com muita professores precisavam usar a criatividade para dar andamento às
satisfação, enquanto outros evitavam envolver-se nas atividades práticas. experimentações. Os diários expressam diferentes pontos de vista sobre
De uma forma geral, observa-se pelos relatos que a turma iniciou o esse aspecto:
semestre muito empolgada, porém com a continuidade e a repetição dos [...] estávamos demorando muito e se tornando muito cansativo. A
trabalhos, os estudantes foram perdendo a motivação. Segundo os falta de materiais adequados também dificulta e acho que isso foi o
depoimentos, isso deveu-se em parte pelo cansaço, em parte pelas principal fator que atrasou nosso trabalho. (...) Após colocar alguns
atividades não serem mais novidade: grampos percebemos que os grampos se soltavam do bambu o que
Nas primeiras aulas todos estavam empolgados. Era tudo novidade. nos deixou mais frustrados. (...) Mas foi muito bom trabalhar com o
Chegávamos exaustos em casa no final da tarde, mas não nos grupo. Driblamos as dificuldades com bom-humor. (Diário de
importávamos porque tínhamos trabalhado e nos divertido muito. Experimentações de Tiago Tartas, CE1,CGAU-UFFS, 2011-1)
Mas a empolgação foi passando. Chegou a um ponto que ter aula de Talvez se tivéssemos as melhores condições de local e material
canteiro já parecia um castigo. Todos estavam cansados, o trabalho não seriam tão interessantes as aulas. Nota-se um grande empenho
já não rendia tanto. Parecia que tinha barro em tudo o que a gente por parte dos professores, os quais não medem esforços para
fazia. (Diário de Experimentações de Júlia Piaia Raimundo, conseguir passar as matérias, para aquisição dos materiais (até
CE1,CGAU-UFFS, 2011-1) mesmo em inventar novas coisas). Dificuldades sempre existiram e
De certa forma, considera-se que o cansaço e a necessidade de devem ser superadas, senão seria muito fácil. Enfim, considero que
as aulas foram proveitosas e objetivas, agregaram um trabalho de
persistência fazem parte do processo construtivo. As tarefas são pesadas,
contato com o material, bem como a união, a interação entre os
pois envolvem esforço físico e a divisão de tarefas pela autogestão alunos de toda a turma. (Diário de Experimentações de Douglas
acabava não sendo sempre equilibrada dentro dos grupos, o que suscitava José Rorig, CE1,CGAU-UFFS, 2011-1)
o descontentamento: Passados três meses de atividades, considerando que a disciplina
Dificuldade mesmo é fazer o pessoal trabalhar com o barro acontecia em uma única tarde por semana, os estudantes começaram a
principalmente a parte de pisá-lo. Confesso que também não gosto
se sentir cansados e desanimados para as atividades práticas, o que os
muito, com certeza uma betoneira seria bem melhor. (...) Verifica-se
que a turma dispersou, alguns alunos não tem comprometimento levou a algumas reflexões:
com as tarefas atribuídas ao grupo, isso traz uma sobrecarga em Depois de todas as aulas pude perceber o quão difícil é o trabalho
alguns do grupo. (Diário de Experimentações de Douglas José Rorig, dos trabalhadores da construção civil. Depois de todas as
CE1,CGAU-UFFS, 2011-1) experimentações, pude verdadeiramente dar valor e a devida
atenção às atividades feitas, pelo esforço que exigiam. (Diário de
Interessante foi verificar a autonomia de alguns grupos que, por iniciativa
Experimentações de Joana Pinotti Zin, CE1,CGAU-UFFS, 2011-1)
própria, decidiam refazer algum experimento, encontrando, por meio do Ao final de todos os dias me sentia bem cansada, sendo que nosso
diálogo reflexivo, novas soluções mais adequadas. Esse processo trabalho nem era tão pesado assim, com isso percebo o valor das
proporciona autonomia para gerenciar problemas, fortalecendo a pessoas que transformarão nossos projetos em realidade, o quanto
autodeterminação e desenvolvendo capacidades criativas. Dificuldades devem se sentir cansados e de onde eles tiram forças para irem
relativas à inexperiência com as atividades práticas foram enfrentadas, trabalhar todos os dias? Bom deve ser da família, ou as percepções
em alguns casos, buscando auxílio junto aos operários das obras que deles são diferentes das nossas. Confesso, as primeiras aulas
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foram mais divertidas, pois estávamos conhecendo as sensações meu ponto de vista são tão ou mais importantes que as facilidades,
de se sujar como criança, sentir o barro, ver as coisas acontecerem. no momento em que a partir delas podemos debater como turma e
Fiquei mais desanimada quando vi nossos trabalhos destruídos, dá futuros profissionais e realizar inferências sobre isso. Os dias
uma sensação até de raiva. É assim que a gente aprende a valorizar chuvosos mostram que muitas vezes você não consegue realizar
o que as pessoas fazem. Quanto ao meu grupo não tive problemas, tudo o que você programa em um dia ou mês, que as pessoas
foi um grupo unido e manteve uma boa relação, a maioria do grupo cansam ao trabalhar em uma obra, isso pode ser visto pelo
colaborava sempre nas tarefas. Achei a matéria bem importante, comportamento dos próprios alunos; que os dias quentes são
nem pelo fator de conhecermos as técnicas construtivas melhores para trabalhar do que os dias frios; que se utiliza e
alternativas, mas por precisar fazer os trabalhos em equipe e saber desenvolve muito a criatividade quando não há materiais específicos
fazer isso. (Diário de Experimentações de Andressa de Martini, disponíveis. Além disso tivemos a oportunidade de trabalharmos em
CE1,CGAU-UFFS, 2011-1) grupo- método muito utilizado no curso de arquitetura- de forma a
Andressa comenta, em seu diário, a destruição das obras realizadas. proporcionar maior integração entre os alunos e conhecer o modo
Isso ocorre por estarmos instalados em um local com trânsito frequente de trabalho e percepção das atividades de cada um. (Diário de
Experimentações de Gessica Steffens, CE1,CGAU-UFFS, 2011-1)
de pessoas estranhas à instituição. O apoio da vigilância foi fundamental
Hoje eu e a Jhenifer ficamos responsáveis pelos materiais e
para a continuidade dos trabalhos. Foi muito frustrante e desanimador
ferramentas, infelizmente não participei ativamente de nenhuma
ver o resultado e até presenciarem atos de vandalismo. Porém, mesmo
atividade. A turma foi dividida em grupos para realizar as últimas
com os contratempos, os alunos reconhecem que a presença do Canteiro
atividades que haviam sido propostas há algumas semanas.
Experimental é fundamental na sua formação:
Finalmente a maquete foi finalizada (quase um parto (risos)) todos
O canteiro experimental é muito importante, não apenas para a
os integrantes do meu grupo (G3), exceto eu, finalizaram ela e o
formação profissional, mas também para a formação humana dos
arquitetos. Além de nos permitir a experimentação, o canteiro nos forno também foi construído. Parece que a turma recuperou aquele
possibilita, ainda, a sensibilidade, sensibilidade esta que falta nos ânimo das primeiras aulas. Acho por ser a última aula também. Os
jovens arquitetos. Digo sensibilidade tanto no sentido de conhecer bancos, a parede de litros e a parede de vidro também foram
o material, sua textura, seu peso, suas dimensões, quanto no sentido finalizados. Apesar dos imprevistos, desânimos, estresses durante
de se colocar no lugar do construtor, aprender a valorizar/ respeitar o semestre, acho que fechamos o semestre, e a matéria com chave
o trabalho de quem torna real o nosso projeto. (Diário de de ouro tendo o nosso espaço sido construído (transformado).
Experimentações e Relatório de Bolsa de Júlia Piaia Raimundo,
(Diário de Experimentações de Jean Mascherin, CE1,CGAU-UFFS,
CE1,CGAU-UFFS, 2011-1)
2011-1)
Algumas percepções trazem diferentes aspectos vivenciados nas
Como síntese das reflexões dos alunos, segue um esquema de
atividades dentro do Canteiro Experimental, abordando observações sobre
perguntas e palavras-chave registrado em um Diário de Experimentações
técnicas e materiais, a influência do clima no processo construtivo, as
(Figura 6).
relações estabelecidas dentro do grupo de trabalho, entre outros.
As percepções dos estudantes ilustram muitas questões recorrentes
Vimos que apesar de os materiais serem iguais para todos os
grupos- terra peneirada; areia; fibras e água- dependendo da mistura
em canteiros experimentais, fortalecendo a necessidade desse
realizada por cada grupo de trabalho eles saem diferentes, na taipa laboratório na formação de arquitetos conscientes de seu papel como
de mão isso pode ser observado com mais intensidade pois teve agentes de transformação do espaço e partícipes na escolha dos meios
paredes que fissuram bem mais que as outras, e depois foram utilizados para tal.
recuperadas com reboco aplicado. Outra experiência interessante VI - Conclusões
e até inusitada foi realizada com a sobra da massa realizada para o A implementação do Canteiro Experimental do Curso de Graduação
reboco da taipa de mão, ia ser jogada fora e surgiu a ideia “Por que
em Arquitetura e Urbanismo da UFFS, está em processo e seu sucesso
não acrescentar fibra e fazer adobes?”. Até foi pensado que não ia
dar certo porque tinha cal dentro mas resolvemos experimentar e
depende de um conjunto de fatores, porém, o PPC ressalta sua
foi bem importante para análises, vimos que eles ficam de outra cor importância no curso e orienta os esforços para sua concretização. É
(mais claros) são bem mais leves e mais fáceis de cortar quando importante considerar que a instituição está, literalmente, em construção.
comparados aos feitos com terra, isso só vem a comprovar a Dessa forma, o Canteiro Experimental segue na mesma direção, embora
resistência que esta proporciona. No decorrer da disciplina nos a necessidade de instalações adequadas seja imediata. A utilização de
deparamos com algumas dificuldades de ordem prática, mas que no
254 XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA 255
XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

nesse semestre, especialmente na disciplina ‘Canteiro Experimental I’.


Por fim, ressalta-se que todo pensamento crítico, todo o sentimento
em crise, toda atividade criativa e todas as relações proporcionadas
durante o semestre devem estar permeadas pelo prazer em transformar
espaços, essa alquimia da mistura de matéria e energia, com alegria e
entusiasmo. A continuidade, a repetição, o esforço, podem ser
desmotivadores, contudo, quando a colaboração, a parceria, a cooperação
estão presentes, enfocando um objetivo comum, a ação pode ter uma
pitada de diversão e certamente o resultado final ficará marcado pelo
processo de trabalho coletivo.

VII – Referências Bibliográficas


ARANTES, P.F. (2002). ARQUITETURA NOVA: Sérgio Ferro, Flávio Império e
Rodrigo Lefèvre, de Artigas aos mutirões. São Paulo: Editora 34.
ARANTES, P.F. (2008). Qual futuro para o canteiro experimental? In: Canteiro
experimental: 10 anos na FAU USP. São Paulo: FAUUSP.
FERRO, S. (2008). Experimentação em arquitetura: práxis crítica e reação
conservadora. In: Canteiro experimental: 10 anos na FAU USP. São Paulo: FAUUSP.
FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
KATINSKI, J.R. (2008). O canteiro experimental e o aprendizado do arquiteto. In:
Canteiro experimental: 10 anos na FAU USP. São Paulo: FAUUSP.
LA SALVIA, Fernando. A habitação subterrânea: uma adaptação ecológica. In:
WEIMER, Günter (org.). A arquitetura no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Mercado
Figura 6: Página do Diário de Experimentações de Ana Lúcia Roesler Mohr (CE1/CGAU/UFFS, 2011-1)
Aberto, 1983.
espaços improvisados reforça a urgência na execução desse laboratório,
MINTO, F.C.N. (2006). O aprendizado da arquitetura com terra crua: uma experiência
ainda que a criatividade seja aguçada ao “criar com o que existe disponível”
no Canteiro Experimental da FAU-USP. Disponível em: http://www.cricyt.edu.ar/
(Diário de Experimentações de Andrei Luís Signor, CE1,CGAU-UFFS, 2011- s e c p r e n s a / s i a c o t / c d e n l i n e a / p a r t i c i p a n t e s /
1). Considera-se que o esforço demandado para a concretização do Negrini%20Minto,%20Fernando%20Cesar/CV%20-
Canteiro Experimental é de muita valia para a qualidade do ensino %20Fernando%20Cesar%20Negrini%20Minto.pdf. Acesso em: 20 de julho de 2011.
oferecido pelo Curso de Graduação em Arquitetura e Urbanismo dessa PISANI, M.A.J.; CORRÊA, P.; CALDANA, V.; VILLÀ, J. GRAZIOSI, J. (2006) Canteiro
instituição. experimental: prática ou invenção? Grupo Arquitetura e Construção - Vol. I No 2
O Canteiro Experimental, embora com instalações improvisadas, Out 06 Página 2 de 15.
proporciona aos estudantes a aproximação com questões práticas da PROJETO Pedagógico do Curso de Graduação em Arquitetura e Urbanismo -
materialização da arquitetura, possibilitando a participação no processo Bacharelado (2010). Chapecó: Universidade Federal da Fronteira Sul/ MEC.
de transformação do espaço. As experimentações realizadas enfocaram RONCONI, R. L. N. (2002). Inserção do Canteiro Experimental nas Faculdades de
a terra como material construtivo, trazendo questionamentos sobre sua Arquitetura e Urbanismo. São Paulo, 2002. Tese (Doutorado) – Faculdade de
utilização na arquitetura contemporânea e indicando usos potenciais frente Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.
às questões sócio-ambientais enfrentadas no cenário atual: “nossas RONCONI, Reginaldo (2008). Apresentação: Canteiro para espaços experimentais
cidades são parte da natureza, ou ao menos deveriam estar integradas à de arquitetura - Antônio Domingos Batalha. In: Canteiro experimental: 10 anos na
natureza” (Diário de Experimentações de Andrei Luís Signor, CE1,CGAU- FAU USP. São Paulo: FAUUSP.
UFFS, 2011-1). Esse pensamento revela uma visão integrada de fatores
condicionantes das soluções arquitetônicas, vislumbrados pelos
questionamentos e reflexões provocadas pelas atividades realizadas
256 XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA 257
XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

A EXPERIÊNCIA DE ENSINO DO CONCRETO desenvolver práticas pedagógicas mais eficientes mantendo-se assim
sempre atualizados sobre novas metodologias.
ARMADO A ESTUDANTES DE
Pensamos que a compreensão das bases teóricas do concreto armado,
ARQUITETURA POR MEIO DE HISTÓRIAS pode acontecer de diversas maneiras utilizando-se de diferentes
EM QUADRINHOS. documentos ou artefatos, fugindo assim, da tradição do livro didático.
Portanto, a escolha que fazemos da proposta de uso de histórias em
quadrinhos para o ensino, busca romper com a metodologia centrada
Gabriel Ernesto M. SOLÓRZANO
apenas no livro didático e/ou nas normas técnicas, como fonte de
Graduando, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de
informação e reflexão a respeito do Concreto Armado no processo ensino-
Brasília ernestgabriel@gmail.com
aprendizagem. Busca-se então, possibilidades de tornar o trabalho em
Luiz Felipe O. CHAMPLONI
sala de aula mais prazeroso tanto para o aluno como para o professor.
Graduando, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de
São várias formas de abordagem das Histórias em Quadrinhos (HQ)
Brasília ernestgabriel@gmail.com
no ensino do Concreto Armado durante o curso de Arquitetura e
Janes C. A. OLIVEIRA
Urbanismo. Elas podem ser utilizadas para introduzir um tema, aprofundar
Professor Doutor, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade
um conceito já apresentado, gerar discussão a respeito de um assunto
de Brasília janes@unb.br
ou para ilustrar uma idéia. Não existem regras para sua utilização, porém,
uma organização deverá existir para que haja um bom aproveitamento de
RESUMO seu uso no ensino. Pode-se, desta forma, atingir o objetivo da
O ensino do concreto armado em cursos de graduação em arquitetura aprendizagem. A experiência demonstra que a leitura de HQ é essencial,
e urbanismo enfrenta um grande dilema, pois a metodologia utilizada pois se tem nela uma nova forma de ver, de ler, além de desenvolver no
pelos professores da área de estruturas, geralmente com formação em aluno habilidades de compreensão.
engenharia civil, nem sempre é assimilada pelos estudantes. Muitas Um componente importante das HQ é que cada quadrinho tem que
vezes, as aulas carecem de exemplos palpáveis, voltados à realidade do trazer em si uma densidade muito grande de informações, para que o
arquiteto. Buscando contribuir para um melhor entendimento das bases leitor compreenda o que o autor da mesma está tentando passar como
teóricas do concreto armado, este trabalho propõe uma metodologia mensagem. Todas essas informações devem estar presentes na imagem
objetivando tornar o concreto armado mais acessível aos estudantes de e no texto formando um conjunto harmonioso e não enfadonho. Há que
arquitetura. Para tal, o meio escolhido foi à arte seqüencial utilizando as haver uma complementaridade entre imagem e texto, para que aquele
histórias em quadrinhos (HQ). Os resultados demonstram que, por se monte de desenhos e palavras, separados entre si por quadros, faça
tratar de uma linguagem simples, direta e de fácil assimilação, os sentido, e passe, para quem lê, a emoção que pretendia. A imagem e o
estudantes de arquitetura conseguem associar o conteúdo textual à texto, complementando-se, devem dar conta de passar ao leitor toda a
linguagem visual, desvendando o fascinante universo do concreto gama de emoções e informações necessárias para a compreensão do
armado. enredo.
PALAVRAS-CHAVE: concreto armado - ensino - arquitetura - histórias Cada quadrinho deve ser como que um retrato fiel ao exato instante em
em quadrinhos que a cena ocorre, dando sentido à seqüência de quadrinhos tanto os
que antecederam, como os que virão. Para isso, cada quadrinho traz
I - Introdução vários elementos que devem apresentar equilíbrio entre si, como os
A utilização das diferentes linguagens para o ensino do Concreto Armado personagens principais e secundários, seu posicionamento na cena, as
vem contribuindo para a dinamização do cotidiano da sala de aula expressões faciais e corporais, o cenário, a perspectiva, o enquadramento,
diversificando a prática do ensino da disciplina, permitindo melhor o jogo de sombra, luz e cores. O cenário deve conter todos os elementos
compreensão por parte dos alunos da mensagem que o professor deseja que a cena requer. É imprescindível a presença de cada um dos
que ele receba. O profissional da educação vive em constante desafio de componentes para o enriquecimento da cena, para dar a densidade
emocional e artística, sem, no entanto, haver uma poluição de informações
258 XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA 259
XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

desnecessárias, ou empobrecimento, pela falta de elementos que variedade de títulos e tiragens que, às vezes, atingem até milhões de
contribuam para a perfeita transmissão da mensagem que se deseja. exemplares, que são consumidos, principalmente, por um público
O leitor a quem se destina a HQ deve ser considerado também no composto de crianças e jovens.
momento da criação, sua faixa etária e consequentemente seu momento
cognitivo é categoria fundamental para ser levada em consideração no
processo de criação da HQ. O importante é que as HQ não devem estar
além da capacidade de compreensão do seu leitor, público-alvo, nem II - Utilizando as Histórias em Quadrinhos no Ensino do Concreto Armado
pode tampouco estar aquém, menosprezando a capacidade analítica e O ensino do concreto armado nas escolas de engenharia e arquitetura
de compreensão. faz parte das cadeiras obrigatórias da grade curricular e de essencial
importância para o futuro profissional visto que 80% das obras construídas
Desde a Pré História pode-se verificar registros de imagens exercitadas no Brasil utilizam tal material. Como se trata de um material com
pelo homem, quando procuravam representar nas paredes das cavernas características diferenciadas (natureza heterogênea, comportamento
cenas do seu cotidiano, como, por exemplo, os incidentes de suas elasto-plástico), o entendimento de suas propriedades e aplicações torna-
caçadas. Frente aos perigos de um meio hostil, o homem descobria, se uma tarefa laboriosa. No curso de arquitetura e urbanismo, o ensino
sem mesmo saber, a sua capacidade criadora através da imagem, não do concreto armado é ministrado em apenas um semestre, com uma
só comunicando, mas produzindo cultura. Bem mais adiante, os povos carga horária de oito créditos semanais. Ao longo dos anos percebemos
egípcios produziam imagens pintadas ou modeladas no interior dos certa dificuldade por parte dos alunos de arquitetura e urbanismo em
templos, nos túmulos, nos quais apareciam figuras do faraó, da corte, assimilar os conteúdos básicos para a concepção dos projetos e esta
reportando episódios repletos de símbolos e que representavam cenas dificuldade nos motivou a apresentar tal projeto de pesquisa, investigando
de caçadas, de colheitas, de oferendas, ou mesmo cenas domésticas. algumas ferramentas pedagógicas que visam melhorar a compreensão
Pouco a pouco imagens e textos foram se adaptando. do conteúdo ministrado. A utilização das Histórias em Quadrinhos torna-
Os quadrinhos são formados por dois códigos de signos gráficos: a se uma importante e criativa ferramenta pedagógica e seu emprego visa
imagem e a linguagem escrita. A história em quadrinhos atual possui contribuir para ressaltar os tópicos importantes, as hipóteses básicas de
mais um elemento gráfico na sua composição, que aparece como um dimensionamento além de suscitar discussões acerca da aplicação do
prolongamento do personagem, o que proporciona maior dinamização material concreto armado.
na leitura: são os chamados balões. Este, considerado um elemento Como todo recurso pedagógico, as histórias em quadrinhos exigem
recente na moderna história em quadrinhos, manifestou-se já na Idade planejamento, ajustamento do material ao conteúdo a ser trabalhado e
Média. finalidade em seu uso. Assim, selecionar, analisar e questionar as HQ é
Com a invenção da imprensa, a palavra escrita deu um grande salto e fundamental para o sucesso de seu emprego. Além disso, é preciso
o avanço da tecnologia e dos novos meios de impressão possibilitaram reconhecer os elementos que constituem a linguagem quadrinizada
o desenvolvimento desse meio de comunicação de massa que contém a (balões, seqüência, ilustrações, etc.) para explorar suas possibilidades
expressão gráfica e visual. Os “comics” verdadeiramente modernos, com enquanto portador de texto com características específicas.
a forma atual, começaram a aparecer em 1889, na França e em 1896, Foram selecionados 20 temas que englobam o conteúdo da disciplina
nos Estados Unidos da América. Entre os precursores das histórias em de Sistemas Estruturais em Concreto Armado que abrangem desde o
quadrinhos estão o suíço Rudolph Topffer, o alemão Wilhelm Busch, o histórico de aplicação do material, propriedades mecânicas e reológicas,
francês Georges (“Christophe”) Colomb, e o brasileiro Angelo Agostini. as bases para o dimensionamento, o detalhamento dos principais
No Brasil, as Histórias em Quadrinhos começaram em 1869, devido a elementos estruturais e aplicações práticas. A idéia é enfatizar tópicos
Angelo Agostini, cartunista italiano radicado no Brasil. Agostini, autor de que fazem parte do dia a dia do arquiteto como conciliação de projetos, o
desenhos de teor cômico, mas ainda assim de cunho crítico, utilizava-se arranjo estrutural e a definição da geometria de lajes, vigas e pilares (pré-
em suas histórias dos cortes gráficos que viriam a ser um dos elementos dimensionamento).
determinantes na futura criação das histórias em quadrinhos. Hoje, as Entre os assuntos separados para discussão destacamos a história
histórias em quadrinhos estão presentes nos mais variados países, com do concreto armado no Brasil e no mundo, a utilização concreto armado
diversos autores, e suas publicações circulam com uma enorme versus concreto protendido, a importância do cobrimento das armaduras,
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XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

o controle tecnológico do concreto, o controle de qualidade na (arquiteto e o calculista) e a obra (operários). Todos os personagens
concretagem, as características do aço estrutural, o detalhamento das formam a turma do concreto (figura 1) que se interagem no decorrer das
peças estruturais, as formas e escoramentos, o pré-dimensionamento histórias.
das peças estruturais em concreto armado, as armaduras mínimas no
concreto armado, o dimensionamento à flexão (lajes e vigas), o
dimensionamento ao cisalhamento, o dimensionamento de pilares de
concreto armado, os princípios do concreto protendido, o arranjo estrutural
básico: Lajes – Vigas – Pilares, a estabilidade global dos edifícios altos,
os estados Limites últimos e de utilização, as ações em estruturas de
edificações, as estruturas isostáticas e hiperestáticas, as estruturas
mistas: concreto + aço.

III - Objetivos e Metodologia Empregada


Em se tratando de objetivos gerais destacamos a utilização de
ferramentas pedagógicas visando melhorar a compreensão do conteúdo
da disciplina de sistemas estruturais em concreto armado, no curso de
arquitetura e urbanismo. Os objetivos específicos abrangem: Figura 1 – Personagens da Turma do Concreto

-Enfatizar as bases teóricas da disciplina sistemas estruturais em · Quadrinização do roteiro;


concreto armado; Corresponde o grande desafio do trabalho em resumir um determinado
-Utilizar as Histórias em Quadrinhos como ferramenta pedagógica no tema em poucos quadrinhos, enfatizando a idéia principal.
curso de arquitetura;
-Contribuir para divulgação do material concreto armado e de suas · Revisão, diagramação e arte-finalização;
vantagens nos projetos de arquitetura e urbanismo; Nesta etapa são revisados os desenhos, faz-se a colocação de cores e
ajustes necessários. A cada semana são publicados alguns banners,
Buscando-se atingir os objetivos propostos, foram realizadas as em formato A3, destinando um espaço para o leitor anotar as críticas e/ou
seguintes atividades: sugestões.
· Estudo da NBR6118/2003 e literatura específica sobre o concreto
armado;
A etapa de revisão bibliográfica é uma fase de extrema importância
para o trabalho, pois garante que os temas escolhidos e o conteúdo das IV - Resultados Obtidos e Considerações Finais
histórias estejam em conformidade com a norma vigente.
· Seleção dos tópicos a serem enfatizados no trabalho; Serão apresentados neste trabalho 3 exemplos (figuras 2 a 4) que
Foram selecionados os temas mais relevantes ou que geraram mais foram produzidos em sala de aula, na escola de arquitetura da
discussões durante a exposição do conteúdo em sala de aula. Universidade de Brasília. Os trabalhos tratam dos seguintes temas: “o
concreto moldado na obra”, “a importância do cobrimento das armaduras”
· Definição do roteiro; e “a verificação dos estados limites de desempenho”. Estes e outros
Procuramos criar um roteiro rico em exemplos que lembrasse o dia a temas estão sendo desenvolvidos na disciplina Sistemas Estruturais
dia da faculdade ou do campus universitário. em Concreto Armado.

Começamos a utilizar as HQs como ferramenta pedagógica no ensino


· Criação dos personagens principais e secundários;3
do concreto armado no início do ano de 2011 e percebemos uma excelente
A criação de personagens esteve direcionada para 3 ambientes aceitação por parte dos alunos e professores. Os primeiros resultados
específicos: a universidade (professores e alunos), escritório de projetos indicam que associando os quadrinhos a uma criteriosa fundamentação
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teórica acompanhado de um planejamento dos temas, resulta num


recurso viável e de grande potencial para a ação pedagógica.
GRADUAÇÃO: OPÇÕES TEÓRICOS-
METODOLÓGICAS
V - Referências João Carlos CORREIA
Clímaco, J. C. T. de Souza – Estruturas de Concreto Armado: Fundamentos Doutor. Universidade Anhembi Morumbi. arqjoaocarlos@gmail.com
de Projeto, Dimensionamento e Verificação – Editora da Universidade de
Brasília – UnB – Brasília – 2005; ...céu de Brasília
traço do arquiteto
Margarido, Aluizio Fontana - Fundamentos de Estruturas – Um programa gosto tanto dela, assim...
para arquitetos e engenheiros que se iniciam no estudo das estruturas, Djavan
São Paulo: Zigurate Editora, 2001;
Rebello, Yopanan C.P.,- A concepção estrutural e a Arquitetura, São Paulo: Resumo:
Zigurate Editora, 2001;
Silva, Daiçon Maciel da; Souto, André Kraemer - Estruturas – Uma O conflito entre o lápis e papel versus computadores e seus programas
abordagem Arquitetônica,Porto Alegre: Editora Sagra Luzzato, 2000; computacionais ainda percorre um longo caminho e bons debates. O
Calazans, Flávio Mário de Alcântara - História em Quadrinhos na Escola. que se procura neste trabalho é como garantir a memória do
São Paulo: Editora Paulus, 2004. desenvolvimento de um projeto feito ainda por alunos iniciantes na arte
de projetar, com uma visão rápida e constante o que nos sistemas
tecnológicos nos obriga a um número excessivo de “salvar como” e sem
uma visão de todo o processo. O sistema “tubinho” é uma ótima diversão
e com bons resultados no processo de se projetar.

Introdução:

Como deve ser ensinado o Projeto de Arquitetura? A resposta que se


tem observado em escolas de Arquitetura ao longo das últimas décadas
tem sido um estado de indefinição paradigmática no ensino do projeto,
caracterizado pela ausência de princípios reguladores consensuais no
exercício acadêmico (Mallard, 2005).
Este problema formou toda uma geração de arquitetos-docentes, em
parte acomodados a atitudes extremas, ora de reprodução, ora de
negação de princípios arquitetônicos e didáticos estabelecidos, porém
pouco dispostos ou preparados para atitudes de reflexão.
Como resultado, Sobreira afirma que é observado um processo de
ensino-aprendizagem fragilizado, em que os produtos acadêmicos
(projeto elaborado pelo aluno), apesar da aparente diversidade plástica,
são em boa parte expressões típicas das ausências de crítica e de reflexão
do ato de projetar. Nesse processo, o arquiteto-docente se torna apenas
um mediador de ações de projetos unilaterais, esboçadas a partir de
diretrizes e programas arquitetônicos previamente estabelecidos, sobre
os quais inexistem reflexões ou questionamentos.
264 XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA 265
XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

O aluno, futuro arquiteto, limitado ao seu “pouco repertório conceitual”, mas principalmente no hermetismo do processo de aprendizagem.
que é agravado pela carência de relações interdisciplinares ou de (Sobreira, 2008)”
reflexões teóricas, é conduzido pelas impressões ora extremamente
subjetivas (gosto e estilo), ora extremamente objetivas (normas, legislação
e catálogos técnicos) que são apresentadas pelo professor. Constrói-se, Construção do conhecimento
a partir daí, o seu produto acadêmico – o projeto – de forma hermética e
pouco reflexiva. Portanto, sob qual caminho devemos seguir para projetar? Devemos,
enquanto arquitetos-educadores, ensinar princípios ou apresentar as
Um produto de múltiplas influências, porém de frágeis confluências, bases conceituais necessárias para a formulação e a reflexão sobre os
que ao final é avaliado e rotulado pelo educador segundo medidas mesmos?
de desempenho que estão igualmente situadas ora nos extremos No caso específico do princípio arquitetônico a desconstrução do
da subjetividade (gosto), ora nos extremos da objetividade princípio como artifício pedagógico significaria não necessariamente a
(normatização).
negação do Renascentista, do Barroco, do Eclético, do Moderno ou do
“O arquiteto-educador, quando extremamente estilístico, apresenta
Pós-Moderno, mas o conhecimento e a reflexão sobre as bases
dificuldades na apreensão de uma visão crítica da Arquitetura conceituais que dão suporte a cada uma dessas expressões, de forma a
enquanto disciplina reflexiva, e em geral é limitado por fortes construir novos princípios.
influências de formação pessoal (área de interesse) ou institucional Esses princípios não estarão necessariamente vinculados a estilos,
(escola – no sentido amplo da palavra – da qual é originário). mas a métodos de apreensão dos contextos (social, ambiental,
Como conseqüência, elege estilos e expressões plásticas que econômico, urbano...) e de concepção do espaço arquitetônico. Pode-se
considera como “referências estilísticas” ideais. O produto observar, por exemplo, que apesar de aparentes divergências estéticas,
acadêmico ideal, na visão desse educador, está situado dentro do
o Clássico e o Moderno estão ligados a certos princípios arquitetônicos
universo imaginário e simbólico formulado pelo mesmo, e qualquer
expressão que se distancie desse ideário é julgada inoportuna.
que são comuns, ou pode-se concluir, como sugere David Harvey, sobre
(Sobreira, 2008)” o pós-modernismo, pela ausência de qualquer princípio.
Descontruir o princípio, portanto, seria refletir sobre o ato projetual, o
A normatização extrema, por outro lado, é reflexo da fragilidade do processo, ao invés de concentrar a atenção apenas no produto. Sob essa
professor diante da formação de conceitos teóricos e da pouca perspectiva, não haveria, no ensino do projeto, estilo a ser ignorado ou
familiaridade em relação à crítica da arquitetura associada ao ato projetual. previlegiado, não haveria corrente a ser predominante ou marginal. A
Em geral, esse arquiteto-docente é proveniente de uma realidade prática decisão estilística seria parte de um processo de construção do
inserida em rotinas de repetição e de normatização, e conseqüentemente conhecimento, resultante da reinterpretação de conceitos. Afirma Sobreira:
pouco reflexivas. Para esse educador o bom produto acadêmico é o projeto
“Nesse processo de (re)aprendizado não apenas as correntes
devidamente formatado, segundo as normas, as diretrizes, os padrões
estilísticas são objeto de reflexão, mas também a própria
pré-definidos e a necessidade de mercado. contextualização do que será projetado, isto é, a conceituação da
Nestes dois casos o processo de aprendizagem, assim como a Arquitetura enquanto objeto de múltiplas dimensões: espacial,
capacidade de apreensão de conceitos e de avaliação crítica do objeto temporal, social, econômica, simbólica, etc.”
arquitetônico, por parte do aluno, são esquecidos na rotina de ensino do
projeto de arquitetura. A autonomia criativa, a percepção contextual e a Quando se trata do princípio metodológico, nos referimos não apenas
visão crítica, elementos essenciais na formação do arquiteto e urbanista, à revisão do método projetual, como simulação acadêmica de uma
são suprimidos em função da tarefa de reprodução de baixo conteúdo atividade profissional futura, mas especialmente à revisão do método de
conceitual (seja estilística ou normativa). ensino. Afinal, o saber e as ferramentas metodológicas associadas à
execução do projeto são em geral confundidas com as ferramentas do
“Essa fragilidade conceitual, quando presente no ensino do projeto ensino do projeto. Entre o arquiteto e o professor de arquitetura há uma
de Arquitetura, se expressa não apenas na fragilidade dos produtos, lacuna didática que precisa ser preenchida com a reflexão sobre o método
e seus princípios.
266 XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA XXXV COSU - Conselho Superior da ABEA 267
XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo XXXI ENSEA - Encontro Nacional Sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo

Sob o ponto de vista didático-pedagógico, portanto, o processo unilateral talvez a resposta final não seja o mais importante, mas os caminhos
do tipo pergunta-resposta (programa-projeto), deveria ser substituído por utilizados na reflexão sobre o tema.
uma relação mais complexa, porém mais coerente com o processo de A disciplina de Projeto, apesar de ser tradicionalmente definida como
aprendizagem: conceitos-reflexão-idéia. Neste caso, o projeto, enquanto “disciplina de ateliê”, portanto conduzida de forma prática e experimental,
disciplina, seria o resultado dessa tríade cíclica, que reforça o sentido de não pode estar dissociada da apreensão teórica ou da exposição dos
processo, ao invés do simples produto, através da reflexão e da conceitos. Afinal, considerando o processo de elaboração como algo tão
apreensão dos conceitos, da reflexão sobre o tema e sobre os princípios, importante quanto o produto em si, no processo de aprendizagem do
da formulação e reformulação das idéias, em um ciclo dinâmico de projeto a tradicional “caixa preta” do processo criativo é aberta, dissecada;
elaboração projetual. e o processo que em geral é hermético e unilateral passa a ser
desvendado e acompanhado em cada uma das etapas.
Projeto: criação e desenvolvimento

Os distintos níveis das disciplinas de Projeto, ao longo da grade Diretrizes para o ensino do projeto de arquitetura
curricular de um curso de Arquitetura e Urbanismo, não podem representar
apenas a evolução da complexidade programática, temática, estrutural
ou funcional. Deve-se entender que há diferenças na forma de se Em um contexto contemporâneo de reflexão o foco não seve ser o estilo,
apreender o espaço e de lidar com a arquitetura enquanto objeto de e sim o método. Não apenas o método projetual como rotina de execução
aprendizagem. de produtos planejados, mas principalmente o método de ensino como
ponto de partida para o exercício criativo. As aparentes contraposições
“... dessa forma, uma casa mínima não é necessariamente um entre o Neoclassicismo, Modernismo, Pós-Modernismo,
programa a ser tratado nos projetos preliminares, assim como um Deconstrutivismo e tantos outros “ismos”, usualmente interpretados na
complexo multifuncional não é tema exclusivo dos projetos finais.
história como uma seqüência de rupturas conceituais, deveriam ser
Complexidade programática é apenas um dos critérios, que
depende de definições e precisões entre processo e produto.
exploradas no ensino do projeto como reflexos da contínua e necessária
(Sobreira, 2008)”
revisão conceitual resultante das mudanças nas dinâmicas sociais,
econômicas, industriais e políticas de cada época. Cada “novo” conceito,
O tema abrigo, por exemplo, pode estar presente no primeiro e no portanto, se escreve como em um palimpsesto, em que o pensamento
último semestre da estrutura curricular, variando neste caso o enfoque de cada tempo é impregnado pelos vestígios do tempo anterior.
metodológico, o processo de condução dos trabalhos e a abrangência Sobreira afirma:
do produto final. A conceituação, a reflexão, e a formulação despretensiosa
de idéias relacionadas ao sentido de habitabilidade, de conforto, ou até “Dessa forma, a fim de se evitar a “Síndrome do Vazio Conceitual”,
mesmo o simbolismo que se expressa a partir da idéia de casa, enquanto que tem se alastrado nas escolas de Arquitetura, e de maneira a
refúgio ou abrigo são elementos mais importantes, em determinados se estabelecer um processo de construção do conhecimento a
estágios da aprendizagem, do que o tradicional conjunto de elementos partir de uma desconstrução criativa de princípios, algumas
técnicos graficamente apresentados, contendo a representação de um reflexões são necessárias, como fundamentos para o ensino do
projeto arquitetônico. projeto de Arquitetura:”
Da mesma forma, temas abstratos ou pouco usuais podem ser
importantes fontes de referência criativa, especialmente quando o objetivo Portanto, pode-se aplicar para o desenvolvimento da disciplina de projeto
é concentrar a atenção na criatividade, ao invés da solução programática. os diversos princípios abaixo elencados baseados na literatura de
Um exercício acadêmico em projeto, portanto, não pode ser lançado como Sobreira:
uma pergunta que guarda uma resposta única, precisa e objetiva. Trata- Princípio Processual – o ensino do projeto deve atentar para o processo,
se de um exercício provocativo, em que se estimula a potencialidade como essência do produto;
criativa, associada à multiplicidade de possibilidades. Em alguns casos Princípio da Complexidade Evolutiva – a evolução dos projetos na
estrutura curricular não deve corresponder necessariamente a uma
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evolução programática e dimensional, mas à evolução da complexidade Princípio Contextualista – deve ser garantida a contextualização do
contextual, em que são gradualmente acrescentadas – em cada nível de aprendizado à realidade social, ambiental, econômica, cultural e
aprendizado – novos condicionantes projetuais; geográfica do lugar; a experiência acadêmica do professor e do aluno no
Princípio Reflexivo – o ensino do projeto, nas escolas de arquitetura, ensino deve ser complementada pela extensão, como forma de
não deve ser orientado apenas para o mercado, que é instável e socialização das atividades e dos produtos acadêmicos, garantindo a
imprevisível, mas pelas demandas sociais, pelos avanços tecnológicos aplicabilidade concreta do conhecimento adquirido;
e pelas perspectivas de futuro; Princípio da Não-Genialidade – o culto à genialidade é um dos grandes
Princípio da Criatividade Analógica – devem ser incentivados os vícios do ensino do projeto, que usualmente elege o extraordinário como
instrumentos de criação projetual que exploram o caminho direto entre a expressão única e válida do fazer arquitetônico. Ressalta-se
cognição e a materialização da idéia: croquis e maquetes físicas. Esses indevidamente, nesses casos, a individualidade e a excepcionalidade,
instrumentos analógicos (como ferramentas de criação, e não de gerando uma arquitetura de “salto-alto”, da exceção, de pouca
apresentação), pelo seu vínculo físico e direto com o processo criativo e permeabilidade social. Como conseqüência, a arquitetura do cotidiano,
cognitivo, se complementam – no fazer projetual – aos mais avançados em que o singular e o extravagante deveria ceder lugar ao que é anônimo,
instrumentos tecnológicos desenvolvidos através da mediação digital; ordinário e econômico em favor da urbanidade, acaba sendo esnobada
Princípio da Criatividade Digital – a tecnologia computacional pode em função da excepcionalidade e do individualismo, e termina por
oferecer ferramentas que vão além da mera representação gráfica, de engrossar a mancha da informalidade e distanciando ainda mais o
forma que o uso de programas gráficos ou especializados como ArchCAD arquiteto da produção do espaço das cidades.
ou ainda o sistema BIM no ensino do projeto deve ser estimulado como “Desconstruir o Princípio” no ensino projetual é construir o
ferramenta de apoio à criação, e não apenas de digitalização ou conhecimento a partir das bases conceituais que o sustentam.
reprodução; Desconstrução, neste sentido, não é destruição ou negação de uma
Princípio Interdisciplinar – as disciplinas de projeto são a espinha- referência, mas a decomposição ou dissecação de uma estrutura em
dorsal de qualquer curso de Arquitetura e Urbanismo, mas não são auto- seus elementos fundamentais, e a partir daí a reconstrução do objeto a
suficientes, de forma que a interdisciplinaridade é uma prática essencial partir de uma reflexão contextualizada no tempo e no espaço. Os princípios
para a completa apreensão das diversas faces (histórica, tecnológica, podem ser metodológicos, conceituais ou didáticos e precisam ser
social, simbólica, ambiental, etc) da disciplina; desconstruídos não apenas pelo aprendiz, mas especialmente pelo
Princípio Conceitual – teoria e prática são elementos indissociáveis educador.
em qualquer processo de aprendizagem, de forma que o ensino do projeto Em geral, o produto da aplicação de Princípios Arquitetônicos, quando
deve trazer a discussão teórica para o ambiente pragmático da concepção observados sob o olhar histórico-conceitual, é o estilo. Este, no entanto,
arquitetônica, seja através da discussão temática em seminários, tende a ser apreendido como expressão superficial de um processo de
elaboração de estudos de caso, memoriais descritivos ou exposição de repetição estética, em que a motivação conceitual é ignorada em função
motivos, como parte essencial da produção acadêmica das disciplinas da superficialidade da expressão plástica.
de projeto; Enfim, o ensino do projeto não deve ser confundido com a disseminação
Princípio da Diversidade Pedagógica – a diversidade de enfoques e de estilo ou propagação de princípios arquitetônicos pré-estabelecidos.
de experiências dos arquitetos-educadores de Projeto de Arquitetura deve A reflexão sobre o método projetual tem sido substituída pela formulação
ser observada como uma potencialidade, e não como uma limitação superficial do que se denomina partido arquitetônico, expressão
didático-pedagógica. No entanto, deve-se ressaltar a importância de se apropriada para acolher a diversidade de expressões projetuais, mas
criar ambientes e momentos de discussão e exposição de idéias, de também indevidamente utilizada para mascarar a eventual falta de
metodologias, de processos de avaliação e de fundamentação conceitual, propósitos na formulação dos exercícios projetuais. É preciso desconstruir
a fim de que a formação do aluno seja concebida como um todo articulado os princípios metodológicos da concepção projetual, conduzindo o aluno
e conscientemente inter-relacionado, permitindo também a difusão de às bases elementares da Arquitetura enquanto objeto de aprendizagem,
experiências bem-sucedidas, assim como revisão das experiências mal- a fim de que se possa construir conhecimento a partir da informação.
sucedidas;
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Atividade:

Para ajudar nas reflexões acima é proposto um exercício projetual onde


todo o projeto é desenvolvido e discutido num exercício chamado de
“tubinho”. Consiste na utilização de um tubo de papel manteiga
convencional, adquirido em supermercados, com 7,5 ou 15 metros de
comprimento onde todas as ocorrências de reflexão, processo, pesquisa
e desenvolvimento do projeto é feito neste papel em tubo, que não pode
ser cortado porem pode ser emendado.
Esta metodologia* tem sido utilizada em alguns cursos de arquitetura
e urbanismo de universidades paulistas cujo resultado apresentado
mostra-se de grande valia e entendimento pelo aluno do desenvolvimento
do seu projeto e não apenas como cumpridor de atividades ou tarefas.
Tudo ocorre neste campo, ou seja, no papel tubinho.
Poderia-se afirmar que para as novas sistemáticas tecnologias que
estão chegando aos cursos de arquitetura e urbanismo como o sistema
BIM (Building Information Manegement), este processo “tubinho” acaba
sendo uma forma um pouco menos complexa e primitiva de entender
que um projeto de arquitetura não é planta somente. É um sistema
complexo de interatividade de formas, funções e tecnologias que tem
que funcionar levando em consideração todas as atividades que
conjuntamente cria um espaço para o bem estar do ser humano.
*A ideia do “tubinho” foi apresentada pelo professor arquiteto Carlos
Antunes sendo apropriada por alguns professores das disciplina
de projeto de arquitetura da Universidade Anhembi Morumbi e da
Unisantos onde também o professor Antunes é professor.

Bibliografia

CARSALADE, Flávio. “A questão da avaliação no ensino de


projeto”. Cadernos de Arquitetura e Urbanismo, n. 8. Belo Horizonte, fev.
2001.
HARVEY, David. Condição pós-moderna. São Paulo, Edições Loyola, 1992.
KARLEN, M. Planejamento de Espaços Internos. São Paulo: Bookman,
2010
MALARD, Maria Lúcia. Alguns problemas de projeto ou de ensino de
arquitetura. Cinco textos sobre arquitetura. Belo Horizonte, UFMG, 2005.
SOBREIRA, F. A desconstrução do princípio: Ensaio sobre o ensino do
projeto de arquitetura. 095.05 ano 08, abr 2008. Disponível em
www.vitruvios.com. br. Acesso em 28 de maio de 2012