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“MINHA VIDA COTIDIANA É MEU GURU” (monge anônimo)

“Não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã se


preocupará consigo mesmo. Basta a cada dia a própria dificuldade” (Mt. 6,34)

Com estas palavras, Jesus estabelece a diferença entre o modo pagão e o modo
cristão de viver o cotidiano. A “cotidianidade” de nossa vida está tecida de
coisas “ordinárias”, contraposta ao que ocor-
re de maneira “extra-ordinária”.
Falamos de uma cotidianidade humana, isto é, daquelas atividades de nossa
vida diária que, embora irrelevantes em sua aparência, tem uma razão de ser,
uma motivação e um modo de fazer-se que não se deve à mera casualidade ou
a um impulso instintivo de repetição ou automatismo.
O cotidiano é o que vivemos e/ou fazemos cada dia: o conjunto de
circunstâncias, atividades e rela-ções que formam a trama da vida de uma
pessoa por
meio das quais Deus atua nela e ela se relaciona com
Deus. Sua característica é a estabilidade, pois tende-
mos a criar hábitos de atitudes e conduta, que em cer-
to sentido condicionam nossa vida para o bem ou pa-
ra o mal.
O cotidiano é o meio no qual o amor toma densidade e se expressa
preferentemente.
Podemos afirmar que a pessoa “vale pelo que ama”, e ama o que valoriza e na medida em que o valoriza.
Não basta conhecer para amar o conhecido; é necessário dar valor e calor àquilo que se conhece.
Ninguém ama pelo mero fato de conhecer. É certo que o processo para chegar ao amor começa
geralmente pelo conhecimento; mas ninguém dá o salto direto do conhecimento ao amor;
é necessário passar pela experiência. O cotidiano torna-se o “lugar” das experiências.

Nesse caldo de cultivo, o Amor se dirige a pessoas concretas e reais, se renova a


cada dia, aprende a expressar-se sem buscar gratificações imediatas, converte as
dificuldades em estímulos e se exercita na fidelidade a toda prova. É esta
fidelidade no cotidiano que possibilita a transformação da realidade.
Tem-se dito que “a humildade do amor é o dom da vida cotidiana”, a humildade do amor sem “brilho”...
O amor é precisamente o lubrificante que dá sentido à vida cotidiana e lhe faz superar as dificuldades
inerentes à mesma: o desprendimento de si mesmo, a busca da verdade e do bem comum, a aten-
ção ao que facilita a vida dos outros... se tornam “normais” quando se cultiva o amor.
O amor se mede pelas obras. “O amor deve consistir mais em obras do que em palavras”
(EE. 230).
“Obras são amores, e não boas razões”.
Para S. Inácio e sua espiritualidade, Amor é Serviço, é trabalhar com Deus na
mesma direção.
A identificação entre amor e trabalho é encontrado no mesmo Deus, que é
Criador porque é Amor.
Mas o cotidiano tem um perigo que é a rotina, essa sensação de fazer tudo mecanicamente, inclusive o
sagrado, e de perder com isso o ardor do novo ou o impacto do extraordinário. Quando esse perigo se
torna real, o amor se converte em costume e a fé num conjunto de respostas já prontas.
Que fazer então?
Quando a vida cotidiana do cristão se torna monótona e se faz “normal”, é
necessário sacudí-la com algum “detalhe anormal”, que ajuda para revigorá-la
e dar-lhe fecundidade.
Neste sentido, os tempos de oração são os momentos privilegiados para que
toda pessoa consciente de sua responsabilidade social e empenhada na
transformação de seu “entorno” sócio-cultural, possa encontrar em sua vida
cotidiana a fonte e sua fecundidade transformadora.
Tais “momentos” ajudam a propiciar o primado do amor acima do ter, saber e
poder;
possibilitam fomentar o valor fundamental das pessoas acima das
obras e instituições;
impulsionam a promover a solidariedade acima dos impulsos do
egoísmo;
facilitam abrir horizontes de esperança no poder do amor e do
bem, acima do mal;
dinamizam a criar âmbitos de diálogo acima da imposição e do
domínio sobre o outro.
Texto bíblico: Lc. 10,38-42
O Espírito nos faz abrir os olhos às realidades novas em nossa vida cotidiana;
mas nossos olhos somente se abrirão se formos fiéis à voz do Espírito nos simples atos de nossa vida cotidiana.
Na oração: suas atividades diárias formam parte do seu caminho para Deus? Você tem consciência que cada
dia é um “tempo de graça”? Você “apalpa” a presença de Deus nas “rotinas diárias”?