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DISCIPLINA: História PROFESSORES: Ana Carolina Rocha, Diogo Alchorne Brazão, Fabrício Sampaio

Imperialismo no século XIX e Primeira Guerra Mundial

1. Imperialismo no século XIX

A segunda metade do século XIX se caracterizou pela expansão da produção industrial e abarcou
mudanças significativas não apenas no processo produtivo, mas, também, nas políticas realizadas pelos
Estados que passaram pela implantação da indústria. Como já vimos, a indústria deixou de ser uma realidade
inglesa, pois Estados da Europa Continental incorporaram as inovações tecnológicas e até financiaram a
pesquisa e a aplicação produtiva dos conhecimentos assim produzidos. Não apenas o continente europeu
inaugurou a produção industrial que conhecemos, os EUA e o Japão também participaram dessa mudança no
sistema produtivo. Os EUA após a Guerra Civil (1861-1865) e o Japão depois da Revolução Meiji (1868).

No plano econômico, traduziu-se na junção de empresas de um mesmo país, visando à redução dos
custos de produção e à garantia de lucro. Assim, surgiram conglomerados econômicos que foram
transformando o capitalismo que passou da fase concorrencial para a monopolista. Essa foi a base da
formação de holdings, trustes e cartéis na virada do século XIX para o XX. Já no plano político, as empresas
"nacionais" pressionavam os governos de seus países de origem para desenvolver políticas que atendessem
às exigências de manutenção de mercados e garantias de acesso a matérias-primas e outros recursos. Dessa
forma, os governantes delinearam ações que configuram o que denominamos imperialismo.

O plano cultural foi afetado por um discurso que assinalava o "fardo civilizador do homem
branco", responsável pela ajuda humanitária aos povos pouco desenvolvidos. Tal "fardo" associava-se a
tentativas de legitimação de caráter científico que afirmavam, dentro de um pensamento racista, a
superioridade do homem branco em relação aos demais grupos humanos do globo. Percebemos, com isso,
que a ciência integrou arranjos ideológicos que favoreciam, no âmbito internacional, intervenções das
potências industriais para realização de seus interesses econômicos.

As justificativas para a ingerência dos países europeus sobre grupos humanos e organizações
políticas na África e na Asia residiam em uma ideologia que afirmava a incapacidade dos povos
africanos e asiáticos de conduzirem uma vida civilizada. A sustentação dessa ideologia tinha uma matriz
dita científica, pois se alimentava do discurso evolucionista instituído pelo pensamento de Charles Darwin
na segunda metade do século XIX e adaptado por intelectuais como H. Spencer, na Inglaterra, e Gobineau,
na França.

Teorias racistas foram criadas do pensamento evolucionista que afirmam ser o branco o mais apto,
enquanto que "amarelos" e "negros" eram menos evoluídos, ou seja, menos aptos. Contudo, todos eram seres
humanos e este sentimento de humanidade fazia com que fosse dever dos brancos seguir para a África e para
a Asia para ajudar os povos destes continentes. Como já assinalamos, essas teorias racistas encobriam
interesses econômicos e políticos que tinham condições, nessas circunstâncias, de se realizarem plenamente.

Entretanto, as potências industriais europeias entravam em rota de colisão, pois cada qual queria
garantir um melhor pedaço dessas áreas do globo. Percebemos, então, que a chamada “partilha” dos
continentes africano e asiático não foi algo tranquilo, mas trouxe uma tensão constante que, para muitos
governos, só seria solucionada com algumas guerras. O quadro político europeu havia ficado ainda mais
complicado com as unificações tardias da Itália e da Alemanha, potências que exigiam uma maior
participação na divisão dessas áreas e entravam em choque com os já pronunciados imperialismos inglês e
francês.

Os choques imperialistas se traduziam, no interior da Europa, em questões de ordem nacional.


Assim, nacionalismo e imperialismo se nutriam e cobravam uma resposta militar. O que, de fato, aconteceu
no início do século XX.

1.1. A Conferência de Berlim: partilha da África

Ainda no século XIX, houve uma tentativa de evitar a guerra em uma Conferência realizada em
Berlim entre 1884 e 1885. Os países que disputavam territórios, principalmente na África, estabeleceram um
acordo determinado aos Estados europeus que pretendessem a administração de povos e territórios no
continente africano a necessidade de uma política de colonização, ou seja, deveriam povoá-los. Isso definia
uma estratégia de transferência de populações da Europa para a África e, de certa forma, amenizava as
tensões oriundas do crescimento demográfico europeu e das agitações sociais do período.

Podemos afirmar que a costa atlântica africana, depois de séculos de escravismo internacional,
repousou suas atividades econômicas na produção de alimentos e outros produtos vegetais necessários à
indústria europeia. Já, na costa oriental, o tráfico escravista ganhou impulso, sendo encorajado pelas
potências ocidentais como forma de ganho na venda de fuzis de tráfico, fundamentais para a captura de
escravos. Além disso, o comércio de marfim e a produção de especiarias com mão de obra escrava
possibilitavam lucros expressivos aos Estados europeus. Os europeus se assenhorearam do tráfico escravista
praticado por árabes na parte oriental da costa africana.

A região central do continente africano foi a mais duramente espoliada, pois as populações foram
tratadas de forma brutal. As maiores atrocidades foram cometidas pelo rei Leopoldo II, da Bélgica, que se
tornou soberano do Congo. Os congoleses foram escravizados e tiveram parte da população massacrada
pelas forças do rei belga. Isso foi realizado com apoio dos britânicos e holandeses que se beneficiavam
indiretamente da exploração belga.
1.2. O imperialismo na Ásia

De forma resumida, as políticas imperialistas organizadas no continente asiático se estabeleceram de


maneiras ligeiramente distintas das políticas em África. Desde as Grandes Navegações os reinos absolutistas
mantiveram contatos intensos com a Ásia, estabelecendo companhias de comércio e algumas experiências
coloniais. Dessa maneira, a empreitada colonialista se desenvolveu através das estruturas políticas já
existentes. Os europeus se apropriavam das lógicas de organização das sociedades asiáticas de maneira a
garantir seus interesses privados. Tal prática também se consolidou na África e demonstra diferentes lados
da mesma moeda da exploração colonial.

Alguns conflitos imperialistas em África e Ásia:

Conflito Localização Envolvidos Motivações Desfecho


Guerra do Ópio Dinastia Qing Proibição do Tratado de
(1839-1842); (China) x Inglaterra comércio do ópio Nanquin; cessão
China
(1856-1860) aos chineses de Hong Kong à
ING
Negação do Anexação da
imperialismo Índia como
Revolta dos Índia Índia vs. Inglaterra
britânico pela colônia inglesa.
Sipaios (1857)
população indiana
Guerra dos Bôeres África do Sul Colonos de origem Minas de ouro e Vitória inglesa e
(1880-1902) holandesa (bôeres) x diamante criação da União
Império Britânico Sul-Africana.
Guerra dos China Punhos Luta de chineses Vitória das
Boxers (1899- Harmoniosos tradicionalistas tropas ocidentais
1902) (boxers) x países contra as invasões e crise da
ocidentais estrangeiras Dinastia Qing.
Questão Marrocos França x Alemanha Disputa por Diplomacia
Marroquina colônias do norte desgastada entre
(1905) africano. FRA e ALE.

2. A Primeira Guerra Mundial

O nacionalismo e o imperialismo abasteciam discursos belicistas que apontavam para uma guerra como
meio eficaz de consolidação dos interesses de cada país industrial. Contudo, nenhum país entraria em um
confronto se não tivesse preparação adequada. Assim, orçamentos dos Estados eram consumidos em compra
de armamentos e preparação de efetivos militares. Isso aconteceu na Europa entre 1870 e 1914, originando a
expressão Paz Armada. Operações militares existiram nesse período na Ásia envolvendo a China, o Japão,
a Rússia e a Turquia, mas no continente europeu o que existiu foi um preparo para a guerra.

Eram vários os focos de tensão que alimentavam a ideia de um confronto militar entre Estados europeus
dos quais, podemos destacar:

• O revanchismo francês: o nacionalismo alimentava a ideia de um novo confronto entre França e


Alemanha como uma desforra em relação à Guerra Franco-Prussiana de 1870 em que os franceses
perderam a Alsácia-Lorena para os alemães.
• A "Itália Irredenta": o governo italiano pretendia incorporar territórios em poder da Áustria em que
existiam "italianos", ou seja, o nacionalismo na Itália assinalava o interesse em uma guerra contra os
austríacos para obtenção de terras e populações com pretensos italianos que não faziam parte do
Estado.
• A anexação da Bósnia-Herzegovina pelo Império Áustro-Húngaro: os austríacos recebiam
investimentos da Alemanha e se associaram à Hungria em uma política expansionista na região
Balcânica. A incorporação de territórios com população eslava aumentou a tensão entre a Sérvia
(país eslavo na região) e os austríacos.

2.1. Montagem do sistema de alianças:

Os interesses conflitantes entre as potências industriais definiram aproximações necessárias contra ameaças
maiores. Esse foi o caso da França e da Inglaterra, antigas rivais, que se aproximaram por temerem o vigor
da expansão alemã. Os alemães procuravam nos austríacos, antigos rivais, e nos italianos, parceiros no
processo de unificação, forças que pudessem fazer frente aos poderios inglês e francês. Acrescente-se a isso
as vinculações da Rússia imperial com a França e a Inglaterra e do império turco com a Alemanha e teremos
bem nítida a situação de beligerância na Europa.

O sistema de alianças:

Tríplice Aliança: Alemanha, Império Austro-Húngaro e Itália

Tríplice Entente: Inglaterra, França e Império Russo


O que faltava para a eclosão do conflito militar era um pretexto. Isso aconteceu no dia 28 de junho de
1914. Nessa data, o herdeiro do Império Austro-Húngaro, Francisco Ferdinando, foi assassinado na cidade
de Sarajevo, em atentado cometido por um grupo terrorista chamado Mão Negra. Tal grupo pretendia a
autonomia da região da Bósnia-Herzegovina que havia sido anexada ao Império Austríaco. Muitos
terroristas defendiam a incorporação do território à Sérvia, pois acreditavam no projeto pan-eslavista
desenvolvido pelo governo sérvio com apoio da Rússia.

2.2. Fases da Primeira Guerra Mundial

O confronto envolveu, em sua longa duração,


muitos países, podendo ser chamada de "Mundial". A
opinião pública era de que a guerra não passaria de
algumas semanas ou alguns meses. Porém, à medida que
demorava, outros países eram cobrados em seu
posicionamento frente ao conflito e acabavam por apoiar
um lado ou outro em confronto. Eram duas grandes forças
contrárias que atuavam na busca de compromissos de
outros Estados que apoiassem suas pretensões.

A guerra geralmente é dividida em 3 grandes


fases:

1. A guerra de movimentos (1914-1915)


2. A guerra de posições ou guerra de trincheiras
(1915-1917)
3. A ofensiva de 1918

2.2.1. A guerra de movimentos (1914-1915):

Os alemães desenvolveram um plano para que a


guerra fosse rápida: o Plano Schlieffen. Tal plano previa a
passagem de tropas alemãs pela Bélgica até atingirem o
território francês mais ao norte. A ideia era chegar a uma
fronteira francesa em que não houvesse forças militares.
Dessa forma, sem resistência francesa considerável, as
tropas alemãs poderiam atingir rapidamente Paris e, se a
capital francesa caísse, a França estaria fora do confronto.

No entanto, o que se sucedeu à tentativa alemã foi


um equilíbrio de forças entre os países beligerantes: dada
a rápida movimentação das tropas pelo território europeu,
novas estratégias foram criadas no sentido de organização
dos adversários. É o momento da guerra de posições, mais
conhecida como a guerra de trincheiras.

2.2.2. A guerra de trincheiras (1915-1917):

Em 1915, as novidades importantes do conflito residiram na entrada da Itália ao lado da Entente


contra a Áustria-Hungria e a Alemanha (os chamados impérios centrais), no bloqueio naval feito pela
Inglaterra aos portos alemães e na anexação por parte da França e da Inglaterra das possessões alemãs no
ultramar. A ideia era sufocar os alemães que:

• teriam mais uma frente de batalha aberta contra a Itália;

• não receberiam recursos de suas áreas de exploração na África e na Ásia.

A resposta alemã veio com a declaração da Guerra Total a partir da utilização intensiva dos
submarinos. A guerra submarina desbloqueou os portos alemães e vários navios ingleses foram
naufragados. Os alemães pretendiam impedir que a Inglaterra mantivesse relações comerciais com outros
países o que, até ali havia permitido o abastecimento das tropas da Entente no front ocidental contra a
Alemanha. O II Reich afirmava que qualquer país poderia ser
torpedeado pelos submarinos alemães se realizassem comércio
com a Inglaterra. Essa "Guerra Total" ampliou o número de
participantes no confronto.

Na frente ocidental, essa fase foi marcada pela guerra


de trincheiras: os exércitos defendiam suas posições
utilizando-se de uma extensa rede de trincheiras que eles
próprios cavavam. Enquanto isso, na frente oriental, o exército
alemão impunha sucessivas derrotas ao mal treinado e muito
mal-amado exército russo. Apesar disso, não teve fôlego para
conquistar a Rússia.

2.2.3. A ofensiva de 1918

O ano de 1918 já demonstrava a iminente vitória da Tríplice Entente em detrimento dos Impérios Centrais.
Dois processos engendrados em 1917 foram centrais para que o desequilíbrio de forças pendesse para o lado
dos países da Entente:

1) A saída da Rússia da guerra com a assinatura do Tratado Brest-Litovski, assinado pelo país e a
Alemanha. A pressão da sociedade russa pela saída do conflito se fazia presente desde o início da
guerra, porém suas reivindicações só foram atendidas em fins de 1917, quando a Rússia foi
governada pelos socialistas bolcheviques, que deram início à construção da nação socialista no
território.
2) A entrada dos Estados Unidos da América na guerra: além de serem os principais financiadores
da Entente, os ataques organizados pela Alemanha a navios ingleses com cidadãos norte-americanos
formaram o pretexto para o Congresso estadunidense permitir o ingresso na Guerra. Com capital
financiado na guerra e um bom contingente de soldados americanos, a entrada dos EUA estabeleceu
o desequilíbrio de forças, dando início à ofensiva de 1918.

O confronto ainda durou até novembro de 1918, quando o Reich desmoronou e, na cidade de Weimar,
políticos social-democratas proclamaram a República. Começavam as negociações para o estabelecimento
de um acordo de paz.

3. As negociações para o fim da guerra: o fim dos conflitos?

As negociações para se firmar um tratado de paz foram conduzidas pela Inglaterra e França. Os EUA
pretendiam ter uma participação efetiva e o presidente do país, Woodrow Wilson, apresentou 14 pontos para
uma paz duradoura no mundo. O projeto ficou conhecido como os 14 Pontos de Wilson. Embora algumas
proposições fossem acatadas, o documento que selou oficialmente a Primeira Guerra Mundial foi a Paz de
Versalhes.
O Tratado de Paz, assinado em Versalhes pelo governo social-democrata alemão, responsabilizou
somente a Alemanha pela ocorrência da guerra e, para muitos, representava uma humilhação. Mas essa era a
exigência dos vencedores, em especial, os governos inglês e francês. Por ser considerada a única nação
responsável pelo confronto, o acordo estabeleceu pesadas reparações que deveriam ser cumpridas pela
Alemanha.

Dentre os efeitos do encerramento da guerra e dos acordos de paz para a Alemanha, que nos
informam o caráter punitivo dos mesmos, encontramos:

• perda da Alsácia-Lorena que foi devolvida à França;

• cessão do "corredor polonês" para que a Polônia tivesse saída para o mar;

• fim das possessões alemãs ultramarinas, tomadas pela Inglaterra e França como parte da reparação
econômica pelos estragos provocados pelo conflito;

• desmilitarização da Alemanha que significava redução do efetivo militar e do equipamento bélico;

• pagamento de indenização em dinheiro no valor de 132 bilhões marcos-ouro, depois reduzida para
3 bilhões;

• proibição de união com a Áustria (Anschluss);

• ocupação militar estrangeira em caso de agitações;

• entrega de parte da produção de carvão e minério de ferro para a França a título de reparação de
guerra.

A configuração político territorial europeia foi alterada, pois podemos considerar que os chamados
impérios centrais desapareceram (II Reich, Império Austro-Húngaro e Império Otomano) e novos países
foram criados como, por exemplo, Tchecoslováquia, Hungria, Polônia, Estônia, Lituânia, Letônia, Finlândia
e lugoslávia. Além disso, foram proclamadas as repúblicas da Alemanha e da Áustria.