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Pro-Posições VaI.

8 n° 2[23], * Março de 1999

PÓS-MODERNISMO, PÓS-ESTRUTURALISMO E NOVA HISTÓRIA:


A RECUSA DA RAZÃO TOTALIZANTE

Antônio Lúcio Campos Almeida*

Resumo: O presente estudo visa focalizar, em traços essenciais, o empreendimento convergente


de determinadas correntes de pensamento, no campo da filosofia, das ciências sociais e da his-
tória, no sentido de ocupação de um espaço hegemônico exc1udente, tendo como substrato
comum a tendência ao irracionalismo e o abandono da categoria da totalidade na explicação da
realidade histórico-social, Por outro lado, intenta este estudo desvendar o caráter ideológico-
político de tal démarche, visto que, mediante a diluição das categorias fundamentais da práxis
social inovadora, reforça a tendência sempre crescente de adesão ao status quo neoliberaL
Palavras-chave: Totalidade, irracionalismo, pós-modernismo, pós-estruturalismo, nova
história,
Abstract: The artic1e attempts to discuss the essential traits of a movement which is briging
about the convergence of several currents in philosophy, social sciences and history, which
have in common a tendency towards irrationalism and the abandon of the category of totality in
the explanation of sociohistorical reality. The artic1ealso seeks to unveil the ideologico-political
character of this démarche, since, through the dilution of the fundamental categories of an
innovating social prexis, it strengthens an evergrowing acceptance ofthe neoliberal status quo.
Keywords: Totality, irrationalism, post-modernism, post-structuralism, new history.

Introdução espaço em que se torne impossível pensar a


sociedade fora das categorias que justificam o
Não é a predominância dos motivos econô- atual arranjo social, econômico e político
micos na explicação da histÓria que distin- neoliberaL Para compreender adequadamente a
gue de modo decisivo o marxismo da ciência significação ideológico-política desse procedi-
hurguesa, é o ponto de vista da totalidade. mento, impõe-se, de antemão, traçar em linhas
(Lukàcs. 1989, p. 4\).
essenciais o quadro conjuntural subjacente.
Esgotado o arranjo social do Welfare Sta-
A tendência ao irracionalismo marca forte-
te pelo refluxo da "onda longa expansiva"
mente o panorama das idéias contemporâneas (MandeI, 1982) que se seguiu ao fim da Se-
e constitui fonte de preocupação para todos
gunda Guerra Mundial, a solução encontra-
os que julgam acertadamente que não se aban- da para manter a reprodução das taxas de lu-
dona impunemente o modelo de racional idade cro do capital foi uma redefinição do papel do
totalizante na explicação do real, Essa tendên- Estado na arbitragem social, com a conse-
cia se faz presente, sobretudo, no domínio da qüente ressignificação do conceito de cida-
Filosofia, das Ciências Sociais e da História. Ela dania. Convém observar, a propósito, que
se consubstancia numa crítica geral à
modernidade e à razão moderna. Essa ampla e a crise do Wclfare State explicita o fracasso
diversificada déll/arche intelectual, quando do único ordenamento sociopolítico que. na
submetida ao exame crítico, deixa entrever que
estam os diante de uma grande operação ideo-
lÓgica,cujo poder de envolvimento emocional " Mestrando em filosofia da educação pela Faculda-
e de ocullamento teórico pretende instituir um de de Educação da Unicamp

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ordem do capital, visou expressamente compa- substrato comum, um núcleo categorial, que é
libilizar a dinâmica da acumulação capitalista a tendência ao irracionalismo.Quando se declara
com a garantia de direitos políticos e sociais
não mais haver lugar para as "grandes narrati-
mínimos (Netto. 1993. p. 68).
vas", quando se confere uma ênfase hiperbólica
ao caráter fragmentário, provisório e cambiante
Reconduzido o Estado a suas funções
de toda elaboração teórica, quando se sobre-
mínimas. quais sejam "prover uma estrutura
valoriza o emocional e o imaginário na constru-
para o mercado e prover os serviços que o
ção do conhecimento, quando se procura en-
mercado não pode fornecer" (Hayek, 1978,
contrar paradigmas epistemológicos em filoso-
apud Merquior, 1991, p. 191), e liberado o mer-
fias de matriz irracionalista,como Schopenhauer
cado para cumprir a precípua função de ins-
e Nietzche, o caminho se abre à recusa de qual-
tância ~lediadora das relações sociais, inevi-
quer herança da razão iluminista.
tável se fez que a significação teórico-prática
Na intenção de tornar mais nítido esse
de cidadania, como produto histórico dos em-
bates de classes no interior da sociedade ca- quadro de idéias, propomo-nos analisar sepa-
pitalista, tenha-se alterado substancialmente. radamente três manifestações que nos pare-
Ao cidadão sujeito de direitos historicamente cem mais inquietadoras, a saber, o pós-moder-
nismo, o pós-estruturalismo e a /lOl'ahistória.
conquistados substitui-se agora o cidadão
Advertimos, no entanto, que as repetições
consumidor. O fenômeno da progressiva exclu-
temáticas são inevitáveis, visto serem tais
são social, já previsto por Marx, representa o
movimentos confluentes para concepções
corolário lógico da nova ordem capitalista.
teórico-metodológicas comuns.
Ora, visto que o pensamento das classes
dominantes é sempre, em última instância, o re-
flexo das modificações operadas no interior das
o pós-modernismo
relações de produção, e tende a tornar-se o pen-
samento dominante de uma época, patenteia-se Em entrevista à Revista Cultura Vozes, o
o caráter ideológico dos "novos paradigmas" sociólogo francês Pierre Bourdieu simplesmente
descartou a relevância teórica do chamado
de explicação do mundo. Neoliberalismo, "qua-
Iidade totar', pós-modern ismo, pós-estrutura- pós-modernismo, considerando-o como "uma
lismo, "nova história" são os semblantes multi-' bobagem". Alegava Bourdieu que, paradoxal-
facetados dessa orquestração ideológica. cujo mente, se desenvolvem longos discursos para
papel não se esgota na apresentação de alter- justificar a pretensa inviabilidade atual das "lon-
nativas, mas, como já salientamos, destinam-se gas narrativas". Por radical que seja, em sua
a tornar inviável o espaço de operação de cate- generalização. é possível admitir que a fragili-
gorias diversamente orientadas. É o domínio do dade teórica de muitas manifestações dessa
chamado "pensamento único", que hoje se es- corrente, aliada à multiplicidade caótica dos ní-
tende desde os produtos mercantis da indús- veis e planos de análise, impedindo qualquer
tria cultural e do "Jast thinking" mediático até síntese minimamente coerente, faça jus à taljul-
freqüentes elaborações teóricas de periódicos gamento sumário.
e produções acadêmicas. De fato, o pós-modernismo parece, por ve-
Tratar tais vertentes do pensamento como zes, muito mais um amontoado de slogans so-
simples modismos inconseqüentes, reflexo no bre o fim da modernidade e sobre a "sociedade
plano do pensamento, da obsolescência progra- pós-industrial", do que uma elaboração teórica
mada dos produtos materiais no mercado globa- que se pretenda filosófica. O que não tem impe-
lizado, seria evitar a percepção do que há de dido, no entanto, que o clima intelectual por ele
grave e arriscado em tal empreendimento inte- instaurado se revele profundamente corrosivo.
lectual. Por di versificado que seja em suas mo- Proclama-se, resumidamente, a caducidade
ti "ações e fontes i nspi radoras, subsiste um das grandes sínteses teóricas derivadas do
l1uminismo. () cerne da intenção iluminista.

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como viu Kant, reside na idéia de emancipação dades teóricas, o pós-modernismo está aderin-
do homem e da humanidade pelo exercício da do ao discurso dominante que faz das mass-
razão crítica. O homem somente pode se auto- media o instrumento por excelência de aliena-
determinar como liberdade pelo saber racional. ção e de fetichização das relações sociais.
Pela razão ele se eleva à maioridade e conquista
a autonomia. Do conceito axial de razão crítica o pós-estruturalismo
derivam a possibilidade da ciência, da verdade
e da reforma das instituições, com seu corolário Confesso desconhecer a razão do prefixo
último: a Revolução. Embora representando a "pós" na designação desta vertente do pensa-
ideologia da burguesia ascendente em sua opo- mento contemporâneo. Talvez se deva à tendên-
sição ao AI/ciel/ Régime, o IIuminismo detinha cia hoje generalizada de prestigiar a pretensa
vetores que ultrapassavam os interesses de uma superação dos paradigmas teóricos passados.
só classe e que apontavam para uma emancipa- De qualquer forma, essa versão mais recente do
ção universal. Claro está que, enquanto movi- pós-modernismo vem se impondo como modis-
mento de idéias mais que sistema filosófico, o mo de prestígio em certos meios culturais e aca-
Iluminismo não é unívoco. A supervalorização dêmicos, constituindo novo desafio aos defen-
do saber científico conduziu a contrafações ma- sores da racionalidade objetiva. Se pensarmos
nipulatórias da razão, à hipertrofia da razão ins- que modalidades do estruturalismo, especial-
trumental. Isso ocorre, sintomaticamente, quan- mente as ligadas à antropologia de Lévi-
do a burguesia revolucionária perde seu cará- Strauss, continham em germe uma filosofia ex-
ter universal. Todavia, nesse mesmo momento, plosivamente anti-humanista e potencialmente
por volta de 1848,o novo antagonismo burgue- anti-racionalista, podemos considerar que seu
sia-proletariado exaspera a luta de classes, ense- sucedâneo ampliou ou radicalizou a démarche
jando a elaboração teórica do projeto de eman- já em elaboração. A filosofia implícita no estru-
cipação humana universal de Marx e Engels. turalismo é condensada por Lepargneur (1972,
Ocorre que a crítica à modernidade realiza- pp. 129-110):
da pelo pós-modernismo não se cinge apenas à
hipertrofia da razão instrumental, mas dirige-se A cultura produz a consciência; a verdade do
ao conjunto da racional idade moderna e, cm homem reside no inconsciente; à pergunta de
Nietzche: 'Quem está falando?', responde-se:
especial, à racionalidade marxista. Daí, por gc-
'ninguém' ou 'ça' ou '0 sistema', 'o mistério
neralização,a dccretação categórica da inviabili- do ser'; numa palavra. trata-se da filosofia da
dade de qualquer síntese explicativa do real. Em personagem de Samuel Beckett que declara:
seu lugar, propõe-se uma tarefa empobrecedora "Eu sou feito de palavras, das palavras dos
para a razão: já que não mais é possível a ambi- outros."
ção de um pensamento totalizante do movimen-
to do real, que se concentre a análise no frag- Como ocorre em outras versões "pós-mo-
ment,irio,no efêmero, nas singularidades irredu- dernas", os pressupostos teóricos nem sempre
tíveis. Se não é mais possível vislumbrar um são claramente expostos e justificados, mas a
sentido na história, que se refugic a razão nas proposta é manifesta: trata-se de uma contes-
particularidades desconexas do quotidiano. tação dos fundamentos das ciências sociais e
Dessa forma, com o culto do fragmento, do que da própria filosofia, embasada em desenvolvi-
é efêmero e provisório, pretende-se dar adeus à mcntos teóricos em torno do papel e da nature-
Razão Iluminista. za da linguagem. Como fontes inspiradoras
O que realmcnte ocorre é quc o hábito mcncionam-se Foucault, Derida, Barthcs.
mental do fragmcntário se instalou na mcntali- O sujeito histórico, fonte da práxis trans-
dade comum por influência dos mcios de comu- formadora do real, sofre um descentração e
nicação de massa. Ao cxtrapolar essa cons- se dilui, substituído que é pelo poder ubíquo
tatação cmpírica para o plano das impossibili- ela linguagem e pelas "práticas discursivas".

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"A linguagem constitui o sujeito" - esta, a güidades, Tomaz Tadeuda Silva (1994, pp. 247-
súmu]a da filosofia pós-estruturalista. A ca- 248) termina por ena]tecer o papel positivo do
tegoria da política enquanto mediação essen- pós-estruturalismo na superação dos "dogma-
cial da práxis transformadora se dissolve, tismos" e das "metanarrativas". Como sempre,
visto que o poder já não é referenciado a um o que se visa com ta] discurso é a decretação da
centro, mas é concebido como uma miríade de caducidade do marxismo, ao ensejo da crise do
focos, de "micropoderes", em cujo nível se dá "socialismo rea]". Confunde-se, sem mais, a cri-
o jogo sempre reversível da dominação e da re- se de uma tradição marxista - o marxismo-]eni-
sistência. Os efeitos da "virada lingüística" não nismo - com a tradição marxista em geral. Pode-
se detêm aí. Transformada em linguagem, em mos, sem favor, concordar com a recusa das in-
discurso, a realidade destitui-se de toda obje- terpretações talmúdicas da obra de Marx, o que
tividade. Já não é possível distinguir entre o contraria, aliás, o próprio caráter dialético que
verdadeiro e o falso, porquanto a própria dis- lhe é essencial. Se Marx deve ser superado, é
tinção, criada pela linguagem, só possui valor exatamente no scntido da auj71ebullgdia]ética:
contextual. Se não há verdade no sentido for- negação-conservação-superação. Reconhecer o
te do termo, não existe igualmente razão para que é periférico e datado em seu sistema, atua-
se falar de ideologia. O conhecimento objeti- ]izar as virtual idades analíticas nele contidas,
vo transmuda-se em "representação simbóli- constitui tarefa inelidíve]do marxismoautêntico.
ca", os referentes apartam-se da significação
e ganham importância preponderante. A Nova História
Ao lado da dessubstantivação do sujeito,
da descentração da política e da descons- Nesse rápido esboço das tendências dis-
trução do conhecimento, o pós-estruturalismo sol ventes da raciona]idade, que lugar pode
realiza a "descausa]ização da história", que ocupar a verlente mais recente na evolução da
passa a ser vista como lugar do fortuito e do revista Allllales, a saber, a chamada "Nova
contigente. Nega-se qualquer vínculo inteligí- História"? A dificuldade reside aqui não só na
vel de necessidade entre os eventos ou entre apreciação que se possa fazer de suas propos-
as relações sociais. Nessa ótica, o marxismo, tas mClodológicas preponderantes, mas tam-
porlador da concepção iluminista de progres- bém, já de início, na própria caracterização es-
so e de razão na história, será visto "como um pecífica dessa escola ou movimento historio-
efeito involuntário, e apenas derivativo, de uma gnífico. Dificuldade essa que se vincula, so-
antiquada episteme vitoriana" (Zaidan Filho, bretudo, ao fala da enorme produção recoberta
1989, p.44). Se a existência de potencia]idades por tal epíleto. Na inviabilidade, portanto, de
imanentes no processo histórico, que cabe ao efetuar uma apreciação crítica globa], cingimo-
homem atualizar, não passa de ilusão, só resla nos à consideração de alguns aspectos teóri-
às ciências sociais a tarefa descritiva da rea]i- co-melodológicos que nos parecem geradores
dade, agora desprovida de qualquer dimensão de inquietação. Eles dizem respeito, no essen-
ontológica. Pode-se indagar, então, que senti- cial, à ressignificação do conceito de ciência
do ainda resta à práxis política, uma vez que as histórica com o abandono final no percurso do
categorias normativas da práxis foram dissol- longo processo de evolução teórico-meto-
vidas e negadas pela idéia central do homem do]ógica no interior dos Allllales, de qualquer
como linguagem. Em suma, se não há verdade pretensão a ser uma elaboração totalizante do
movimento do real. Pierre Nora é explícito:
fora do "texto", que papel cabe ainda à razão?
Diante de tal "filosofia", o que surpreende É essa noção de história 10lal que me parece
é a aceitação acrítica que esse "novo paradig- problemática hoje (...).Vivemos uma história
ma" vem obtendo nos meios intelectuais brasi- em migalhas, eclética, ampliada em direção às
leiros, a pretexto de "abertura aos novos discur- curiosidades, às quais não precisamos nos
sos". Em considerações críticas cheias dc ambi- recusar (1974. apud Dosse, 1992. p. 182).

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o desafio sempre presente em toda histó- estranha dialética de duas tcmporalidades en-
ria dos Anna/es de integrar os progressos das tão se estabelece: um tempo vivo, dinâmico, o
ciências sociais - desafio a que não está ausen- das "elites", e um tempo morto, estático, o das
te a constante preocupação de seus historia- camadas populares. Acontece que a própria
dores em manter a hegemonia no campo acadê- identificação da origem da cultura popular está
mico e cultural- termina praticamente em capi- sujeita a enganos. Como observa Dosse,
tulação final. A história se demite de seu esta-
tuto científico autônomo e passa a constituir- a adequação estabelecida entre uma cultura e o
se como "antropologia histórica". Como obje- povo é artificial. pois essa cultura é, em geral,
to assume a descrição da "cultura material". Que proposta ou imposta pelas classes dominan-
tes, nas formas degradadas, específicas. desti-
não nos engane o termo. Não se trata mais de
nadas ao povo, mas que não se enraízam nas
analisar a base material dos processos sociais camadas populares (Dosse, ]992, p. ]77).
e de articular dialeticamenteos dois planos numa
explicação totalizante dos eventos históricos. Os equívocos não param aí. O erro maior da
"Cultura material" designa apenas um conjun- "história cultura!", ou etno-história, é tratar a
to de elementos etnográficos: "hábitos físicos, cultura como um domínio autônomo e não como
gestuais, alimentares, afetivos, hábitos men- uma instância superestrutural de uma socieda-
tais" (Burguiere, 1990,apudDosse, 1992,p. 174). de historicamente determinada. Omite-se assim
Nessa linha inserem-se trabalhos sobre a his- a determinação social da cultura, fazendo-a, ao
tória do gosto, da etiqueta, das manieres de contrário, a instância criadora do social.
table, tomadas como indicadores de diferenci- Essas considerações sobre a vertente da
ação social. Mergulha-se então na descrição dos etno-históriajá permitem introduzir a questão
costumes que se manifestam no quotidiano. do caráter ideológico que vem assumindo a
Este, o quotidiano, passa a ser o quadro privi- Nova História. É patente a postura conserva-
legiado dos "novos objetos" historiográficos: dora - por vezes até reacionária - das novas
a criança, a mulher,a família, os marginalizados produções historiográficas. As turbulências de
sociais, o homem comum. Essa microhistória é maio de 68 levaram boa parte da intelectualidade
bem caracterizada por Carlo Ginzburg: "Propo- francesa a uma atitude de recusa a qualquer
mos definir a micro-história e a história em ge- projeto dc transformação estrutural da socie-
ral como a ciência do vivido" (1981, apud dade do capital. O temor do futuro altera a vi-
Dosse, 1992,p. 175).Microobjetos que induzem são do passado e os "novos historiadores" se
os historiadores à busca de novas fontes do- distanciam sempre mais do viés iluminista que
cumentais: a tradição oral, a história de vida. a vê na história potencial idades de progresso e
memória dos mais velhos, a iconografia e seme- de transformação social. A matriz teórica mar-
lhantes. Ainda sob a influência da etnografia, xista é sistematicamente negada em sua valida-
um outro objeto será privilegiado: a cultura. Esta de analítica. Refugia-se então numa paradoxal
é vista sobretudo pela c1ivagem cultura erudita história sem hislOricidade. A supervalorização
/ cultura popular. Campo certamente rico e pro- do quotidiano, a que já nos referimos, enquan-
missor para o olhar histórico, não fosse o equí- to quadro privilegiado da duração, é indicativa
voco em que, freqüentemente, se incorre ao dis- dessa intenção de evitar a dialética presente-
tanciar os dois níveis, ou em não se perceber a passado-futuro, essencial a toda ciência histó-
interconcxão que se estabelece entre eles na rica que assuma a tarefa de revelar o potencial
constituição do complexo cultural de uma soci- transformador inscrito no movimento do real.
edade historicamente detcrminada. Introduz-se, Se o presente é ameaçador, se o futuro está pre-
dessa forma. uma hierarquia valorativa, atribuin- nhe de incógnitas, melhor fazer da história uma
do-se ao pólo erudito o lugar dinâmico da mu- ciência neutra, apenas descritiva, desprovida
dança e do progresso e ao pólo popular traços de qualquer dimensão analítica politicamente
dc permanência, de rcpetição e de atraso. Uma comprometida. Melhor ainda limitar-se à super-

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l"ície epiknomenal do devir histórico. aos mi- "desl'io do histório". Perde-se então toda a sig-
croobjetos, m icropoderes, microssaberes. "Cu- nificação simbólico-universal que a Revolução
riosidodes·'. enfim. como confessa Pierre Nora. Francesa assume na obra de Marx.
O modelo etnográl'ico presta-se então muito
bem a essa história pasteurizada. história dos
tempos mortos, em que os connitos e toda mu-
dança significativa foram exorcizados. Presta- As considerações precedentes visavam
se, ainda. à desconstrução do sujeito, da práxis submeter a Nova História a um olhar crítico, re-
transformadora. UI7IO histório sem homens: a cortando alguns aspectos (entre outros pos-
aspiração de Braudel é retomada pela ova síveis) que nos pareceram inquietantes relati-
História. que para tanto realiza a mutação cpis- vamente ao estatuto epistemológico da histó-
temológica necessária à operação de desrefe- ria. A nosso ver. esses traços são reforçadores
renciar o real. Não é sem razão que Foucault, da tendência dissolvedora da racional idade
praticante dessa história de múltiplos centros, que encontramos em outras vertentes do pen-
a vê com confessa simpatia. samenlo contemporâneo.
O resultado é que não se fala mais de "his- Todavia, das análises feitas poderia resul-
tória", mas de "histórias". Descrições, "curio- tar a impressão de um inteiro negativismo, o
sidades": este o segredo do sucesso mercantil que seria injusto em relação a alguns autores
alcan<;ado pela Nova História. Se essa modali- e obras catalogados na designação genérica
dade de escritura histórica ocupa um lugar de de Nova História. Além disso, seria confissão
prestígio na indústria cultural, é porque, como de ingenuidade denegar os méritos de avanço
observa Dosse historiográl'ico na ampliação do campo de ob-
jetos ainda não contemplados pela análise an-
a inlluência da etnologia no discurso hist6rico terior dos historiadores. Os equívocos não se
corresflondc a esse poder invasor dos meios situam aí, mas no modo de tratamento teórico-
de comunicação de massa que impõe sua lei e metodológico que é dado a tais objetos novos,
suas normas e é flonador de uma história cul- e no projeto ideológico subjacente à mudan-
tural. (... ) Encontramos na escola dos Annotes
ça da concepção da história. Para efeito de sín-
um helo exemplo de adaptação a essa socieda-
tese, algumas proposições básicas podem ser
de dos meios de comunicação de massa. Ela se
instala C01ll0 moda cultural ao apresentar uma delincadas:
hist6ria em migalhas em uma sociedade cada Há. na ova História. uma patcnte des-
vez mais fragmentada (Dosse. 1992. p. I ~O). continuidade em rela<;ão às gera<;ões an-
teriores dos AI/I/oles. muito embora alguns
o mesmo cariz ideológico mani festa-se na traços tcndenciais já estejam nelas presen-
tentativa de suprimir as descontinuidades his- tcs. O próprio novo título quc assume a
tóricas. de esvaziar os momentos de ruptura. Os revista - "Écol/olI/ies. Societés. Ci\'ili-
saltos qualitativos operados pelas revoluções -::,atiol/s" - é revelador de alteração de ru-
são. dessa forma. destituídos de significação mos substancial. O projeto inicial da revis-
progressista. ou então considerados como pu- ta. o de ser uma história global, é totalmen-
ros desvios da normalidade histórica, momen- te riscado. Permanece. no entanto. a mes-
tos de puro desvario totalitário. A interpreta<;ão ma ausência da categoria política. en-
dada por Marx à Revolução Francesa. como quanto mediação analítica fundamental.
momento histórico privilegiado de exasperação A intenção ele aproximar a história dos
da luta de classes e de superação do conrJito avanços metodológieos das ciências so-
de classes antagônicas. interpretação esta re- ciais tcrmina numa perda de autonomia ci-
tomada por Arbert Soboul. é submetida a uma enlírica. dando a parecer que são estas-
radical re\'i~ã(l por François FureI. que. em sín- em especial a antropologia - é que vêm a
tese. vê na Revolução Francesa um período de subsumir a hist(íria.
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Realiza-se uma omissão progressiva das às mudanças. quando, com François Furet,
determinações econômicas do movimento se declara que "a Revolução Francesa está
do real, ou, quando estas ainda se apresen- terminada", fica patente a intenção ideo-
tam, não possuem nenhuma prioridade em lógica reacionária de sepultar o passado
relação a outras instâncias sociais. É sabi- inquietante e justificar a adesão ao discur-
do que os Annales sempre procuraram uma so dominante do capitalismo "globalizado".
via intermediária entre o positivismo e o Tudo, enfim, conflui para o abandono da
marxismo. Na Nova História, entretanto, há visão iluminista da história como lugar dos
um refluxo em direção ao paradigma posi- progressos da razão no conflitivo processo da
tivista e um afastamento sempre mais acen- emancipação do homem. Com a diluição da
tuado do modelo marxista. racional idade histórica, com o afastamento
A procura de novos objetos, a influência definitivo do modelo marxista, insere-se a Nova
do modelo etnográfico e, por fim, a recu- História no projeto geral, hoje tendencialmente
sa de concepções totalizantes levam a hegemônico, da Desrazão.
Nova História a uma fragmentação sem-
pre crescente do objeto histórico. Assis- Referências Bibliográficas
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