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PRÉ-UNIVERSITÁRIO OFICINA DO SABER Aluno(a):

DISCIPLINA: Literatura PROFESSORA: Suéllen da Mata


Data: 12 / 01 / 2021

Modernismo – 3ª geração Lista 18


Questão 1 - (Enem)
Famigerado

Com arranco, [o sertanejo] calou-se. Como arrependido de ter começado assim, de evidente. Contra que aí
estava com o fígado em más margens; pensava, pensava. Cabismeditado. Do que, se resolveu. Levantou as
feições. Se é que se riu: aquela crueldade de dentes. Encarar, não me encarava, só se fito à meia esguelha.
Latejava-lhe um orgulho indeciso. Redigiu seu monologar.

O que frouxo falava: de outras, diversas pessoas e coisas, da Serra, do São Ão, travados assuntos, insequentes,
como dificultação. A conversa era para teias de aranha. Eu tinha de entender-lhe as mínimas entonações, seguir
seus propósitos e silêncios. Assim no fechar-se com o jogo, sonso, no me iludir, ele enigmava. E, pá:

— “Vosmecê agora me faça a boa obra de querer me ensinar o que é mesmo que é: fasmisgerado... faz-me-
gerado... falmisgeraldo... familhas-gerado...?”
ROSA, J. G. Primeiras estórias.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988.

A linguagem peculiar é um dos aspectos que conferem a Guimarães Rosa um lugar de destaque na literatura
brasileira. No fragmento lido, a tensão entre a personagem e o narrador se estabelece porque

A. o narrador se cala, pensa e monologa, tentando assim evitar a perigosa pergunta de seu interlocutor.
B. o sertanejo emprega um discurso cifrado, com enigmas, como se vê em “a conversa era para teias de
aranhas”.
C. entre os dois homens cria-se uma comunicação impossível, decorrente de suas diferenças
socioculturais.
D. a fala do sertanejo é interrompida pelo gesto de impaciência do narrador, decidido a mudar o assunto da
conversa.
E. a palavra desconhecida adquire o poder de gerar conflito e separar as personagens em planos
incomunicáveis.

Questão 2 – (Enem)
A partida de trem

Marcava seis horas da manhã. Angela Pralini pagou o táxi e pegou sua pequena valise. Dona Maria Rita de
Alvarenga Chagas Souza Melo desceu do Opala da filha e encaminharam-se para os trilhos. A velha bem-
vestida e com joias. Das rugas que a disfarçavam saía a forma pura de um nariz perdido na idade, e de uma
boca que outrora devia ter sido cheia e sensível. Mas que importa? Chega-se a um certo ponto — e o que foi
não importa. Começa uma nova raça. Uma velha não pode comunicar-se. Recebeu o beijo gelado de sua filha
que foi embora antes do trem partir. Ajudara-a antes a subir no vagão. Sem que neste houvesse um centro, ela
se colocara do lado. Quando a locomotiva se pôs em movimento, surpreendeu-se um pouco: não esperava que o
trem seguisse nessa direção e sentara-se de costas para o caminho.

Angela Pralini percebeu-lhe o movimento e perguntou:

— A senhora deseja trocar de lugar comigo?


Dona Maria Rita se espantou com a delicadeza, disse que não, obrigada, para ela dava no mesmo. Mas parecia
ter-se perturbado. Passou a mão sobre o camafeu filigranado de ouro, espetado no peito, passou a mão pelo
broche. Seca. Ofendida? Perguntou afinal a Angela Pralini:

— É por causa de mim que a senhorita deseja trocar de lugar?


LISPECTOR, C. Onde estivestes de noite.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980
(fragmento).

A descoberta de experiências emocionais com base no cotidiano é recorrente na obra de Clarice Lispector. No
fragmento, o narrador enfatiza o(a)

A. comportamento vaidoso de mulheres de condição social privilegiada.


B. anulação das diferenças sociais no espaço público de uma estação.
C. incompatibilidade psicológica entre mulheres de gerações diferentes.
D. constrangimento da aproximação formal de pessoas desconhecidas.
E. sentimento de solidão alimentado pelo processo de envelhecimento.

Questão 3

Leia o trecho abaixo:

Não tenho uma palavra a dizer. Por que não me calo, então? Mas se eu não forçar a palavra a mudez me
engolfará para sempre em ondas. A palavra e a forma serão a tábua onde boiarei sobre vagalhões de mudez.

O fragmento, extraído da obra de Clarice Lispector, apresenta

A. uma reflexão sobre o processo de criação literária.


B. uma postura racional, antissentimental, triste e recorrente na literatura dessa fase.
C. traços visíveis da sensibilidade, característica presente na 2a fase modernista.
D. a visão da autora, sempre preocupada com o valor da mulher na sociedade.
E. exemplos de neologismo, característica comum na 3a fase modernista.

Questão 4 – (Enem)

Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da
pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê,
mas sei que o universo jamais começou.

[...]

Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas continuarei a escrever. Como começar pelo início, se as
coisas acontecem antes de acontecer? Se antes da pré-pré-história já havia os monstros apocalípticos? Se esta
história não existe, passará a existir. Pensar é um ato. Sentir é um fato. Os dois juntos — sou eu que escrevo o
que estou escrevendo. […] Felicidade? Nunca vi palavra mais doida, inventada pelas nordestinas que andam
por aí aos montes.

Como eu irei dizer agora, esta história será o resultado de uma visão gradual — há dois anos e meio venho aos
poucos descobrindo os porquês. É visão da iminência de. De quê? Quem sabe se mais tarde saberei. Como que
estou escrevendo na hora mesma em que sou lido. Só não inicio pelo fim que justificaria o começo — como a
morte parece dizer sobre a vida — porque preciso registrar os fatos antecedentes.
LISPECTOR, C. A hora da estrela. Rio de Janeiro:
Rocco, 1988 (fragmento).
A elaboração de uma voz narrativa peculiar acompanha a trajetória literária de Clarice Lispector, culminada
com a obra A hora da estrela, de 1977, ano da morte da escritora. Nesse fragmento, nota-se essa peculiaridade
porque o narrador

A. observa os acontecimentos que narra sob uma ótica distante, sendo indiferente aos fatos e às
personagens.
B. relata a história sem ter tido a preocupação de investigar os motivos que levaram aos eventos que a
compõem.
C. revela-se um sujeito que reflete sobre questões existenciais e sobre a construção do discurso.
D. admite a dificuldade de escrever uma história em razão da complexidade para escolher as palavras
exatas.
E. propõe-se a discutir questões de natureza filosófica e metafísica, incomuns na narrativa de ficção.

Questão 5 – (Enem)

Antiode

Poesia, não será esse no verso, como as


o sentido em que manhãs no tempo.
ainda te escrevo:
flor! (Te escrevo: Flor é o salto
da ave para o voo:
flor! Não uma o salto fora do sono
flor, nem aquela quando seu tecido
flor-virtude — em
disfarçados urinóis). se rompe; é uma explosão
posta a funcionar,
Flor é a palavra como uma máquina,
flor; verso inscrito uma jarra de flores.

MELO NETO, J. C. Psicologia da composição.


Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997 (fragmento).

A poesia é marcada pela recriação do objeto por meio da linguagem, sem necessariamente explicá-lo. Nesse
fragmento de João Cabral de Melo Neto, poeta da geração de 1945, o sujeito lírico propõe a recriação poética
de

A. uma palavra, a partir de imagens com as quais ela pode ser comparada, a fim de assumir novos
significados.
B. um urinol, em referência às artes visuais ligadas às vanguardas do início do século XX.
C. uma ave, que compõe, com seus movimentos, uma imagem historicamente ligada à palavra poética.
D. uma máquina, levando em consideração a relevância do discurso técnico-científico pós-Revolução
Industrial.
E. um tecido, visto que sua composição depende de elementos intrínsecos ao eu lírico.

Questão 6

O nada que é

Um canavial tem a extensão que números e seus afins


ante a qual todo metro é vão. possam prendê-lo nos seus sins.

Tem o escancarado do mar Ante um canavial a medida


que existe para desafiar métrica é de todo esquecida,
porque embora todo povoado que dá esse efeito singular:
povoa-o o pleno anonimato de um nada prenhe como o mar.
MELO NETO, João Cabral de.
Museu de tudo e depois, 1988.
Ao comparar o canavial ao mar, a imagem construída pelo eu lírico formaliza-se em

A. uma assimetria entre a ideia de nada e a de anonimato.


B. uma descontinuidade entre a ideia de mar e a de canavial.
C. uma contradição entre a ideia de extensão e a de canavial.
D. um paradoxo entre a ideia de nada e a de imensidão.
E. um eufemismo entre a ideia de metro e a de medida.