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O MOVIMENTO PENTECOSTAL E A POPULARIZAÇÃO DO EVANGELHO


NO BRASIL: UM RETRATO DO SEU PRIMEIRO CENTENÁRIO

FERREIRA, Ismael de Vasconcelos


Graduando em Teologia – Instituto Superior de Teologia Aplicada (INTA)
ismaelvasconcelos@yahoo.com.br

SENA, Filadelfia Carvalho


Doutoranda em Educação Brasileira (UFC)
Professora do Instituto Superior de Teologia Aplicada (INTA)

RESUMO

O movimento pentecostal tem suas raízes epistemológicas ainda nos tempos


apostólicos, tendo como marco histórico a descida do Espírito Santo no Dia de
Pentecostes, bem como a utilização dos dons espirituais na igreja de Corinto. Fatos
históricos nos permitem a compreensão de conceitos básicos a respeito do avanço deste
movimento, como os “despertamentos” ocorridos a partir do século XVIII. Já em 1900,
os eventos ocorridos em Los Angeles marcam a chegada do movimento pentecostal no
Brasil. Com a instalação de novas denominações religiosas, o país assiste a uma
sequência de fenômenos religiosos denominados “ondas”. Como o país vivia
praticamente num marasmo espiritual com as denominações históricas já instaladas,
vem o pentecostalismo resgatar conceitos e formas esquecidas pelos primeiros
colonizadores proporcionando ao movimento um avanço numérico e geográfico graças
à inclusão das populações marginalizadas. Com isto, esta pesquisa visa analisar o
movimento pentecostal enquanto fator desencadeante de uma série de outros
movimentos paralelos, bem como observar os fatos históricos ocorridos antes da
instalação do movimento no Brasil. Propõe também contribuir para o enriquecimento da
literatura sobre o assunto, apresentando novos pontos de discussão. Este texto é fruto de
uma pesquisa bibliográfica que teve início na elaboração de um trabalho monográfico
de conclusão de curso. Têm-se também como objetivos específicos: conhecer a história
do movimento pentecostal no Brasil, identificar os principais pontos de conflito entre o
movimento e o pensamento hodierno e enumerar as principais contribuições para o
Brasil neste seu primeiro centenário. Por ser considerado um problema social e ostentar
uma estatística singular, o movimento pentecostal carece de pilares epistemológicos que
nos ajudem na sua compreensão.

PALAVRAS-CHAVE
Fenômeno religioso, movimento pentecostal, despertamento, pentecostalismo,
popularização do evangelho
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INTRODUÇÃO

O movimento pentecostal no Brasil é um dos fenômenos religiosos em franco


crescimento na atualidade, bem como um dos mais revolucionários da história do
cristianismo. A forma como ele acontece e os impactos sociais decorrentes dele são
motivos que levam muitos estudiosos a pesquisarem suas raízes em busca de um fator
comum que justifique todas as manifestações atribuídas a ele.
É sabido que este movimento não é proveniente exclusivamente do atual século
ou do século passado, apesar ter comemorado cem anos de existência em 2006. Porém a
gênese do movimento pentecostal remonta os primórdios do cristianismo, quando os
primeiros cristãos tinham como propósito levar o evangelho a todos os povos, marco
para o surgimento de todas as ramificações, bem como, as complicações a ela inerentes
até hoje.
Com relação às complicações do tipo fenômenos espirituais aparentemente
estranhos e práticas cristãs que contrariam estereótipos estabelecidos pela atual
sociedade, elas existem apenas quando analisadas à luz das ciências que estudam o
comportamento humano. Isto porque não se podem comparar eventos reconhecidos
pelos cristãos como “espirituais” ou mesmo a decisão por um modo de vida diferente
com conceitos e teorias elaborados por pessoas, embasados em estudos resultantes da
observação isolada de meras manifestações físicas ou orais.
Existem ainda muitos outros problemas que realmente vulgarizam o movimento.
São os eventuais erros teológicos e doutrinários e o distanciamento do verdadeiro ideal
pentecostal. Isto será discutido detalhadamente em outra oportunidade.
Tudo isto justifica a escassez de literatura especializada sobre o assunto em
análise, sendo necessária uma busca mais acurada de trabalhos que não apenas
critiquem o movimento pentecostal, mas também justifiquem, através da história, as
razões da sua existência.
Este artigo, portanto, visa contribuir para o enriquecimento da literatura sobre o
movimento pentecostal, analisando-o à luz de autores que já apresentaram resultados de
pesquisas sobre o assunto, bem como apontando novos pontos de discussão. Ele é fruto
de uma pesquisa bibliográfica que teve início na elaboração de um trabalho
monográfico de conclusão de curso, sendo que este é apenas um dos assuntos que
deverão ser abordados neste trabalho.
Assim, é proposta deste artigo analisar o movimento pentecostal enquanto fator
desencadeante de uma série de outros movimentos paralelos. Têm-se também como
3

objetivos específicos: conhecer a história do movimento pentecostal no Brasil e no


mundo, identificar os principais pontos de conflito entre o movimento e o pensamento
hodierno e enumerar as principais contribuições para o Brasil neste seu primeiro
centenário.

1. RAÍZES DO MOVIMENTO PENTECOSTAL

O Dia de Pentecostes1, marco referencial para o movimento pentecostal, é


narrado no capítulo 2 do livro dos Atos dos Apóstolos. Por ocasião da festa de
Pentecostes, havia cerca de 120 pessoas, dentre elas os apóstolos, reunidas em um local
reservado na cidade de Jerusalém. No entanto, essas pessoas não estavam comemorando
a festa, mas cumprindo aquilo que Jesus, antes de ascender ao céu, deixou como ordem:
que permanecessem em Jerusalém até que fossem batizados pelo Espírito Santo e assim
pudessem ir a outras cidades, “Judeia, Samaria e até os confins da terra” (Atos 1.8). Este
batismo era necessário, pois somente através desta experiência, os discípulos teriam
poder e autoridade para anunciar o evangelho em todas as nações.
De acordo com o relato bíblico isto realmente ocorreu e chegou a causar
agitação entre as pessoas que estavam do lado de fora do cenáculo, local onde ocorrera
o fenômeno, sendo necessária, posteriormente, uma explicação do apóstolo Pedro
acerca do que havia acontecido (STAMPS, 1995, p. 1631).
A partir de então, as manifestações semelhantes a estas ocorridas no Dia de
Pentecostes, passaram a ser reconhecidas como pentecostais. No entanto,

a relação do pentecostalismo com a citada festa é indireta e acidental, por


duas razões. Primeiro, porque a doutrina pentecostal está diretamente
relacionada à descida do Espírito Santo; segundo, por causa da afirmação
doutrinária da manifestação dos dons da glossolalia, falar em línguas
estranhas, e da profecia como sinais que acompanharam a inédita
manifestação do Espírito Santo (SOUZA, 2004, p. 16).

Assim, a denominação de Pentecostes e todas as variações da palavra, inclusive


movimento pentecostal, e a associação do termo ao acontecido, foi herdada apenas por
ocasião da festa, não denotando nenhuma relação concreta e mesmo correta dos fatos.
Após este acontecimento houve uma perseguição aos cristãos, o que os obrigou a
deixarem Jerusalém, saindo em missão por todas as cidades pregando o evangelho. Os
cristãos pentecostais atribuem essa força missionária ao poder derramado naquele dia
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O termo pentecostal origina-se de Pentecostes, nome dado a uma festa anual do povo judeu, celebrada
cinquenta dias após a Páscoa, também conhecida como a festa das semanas, realizada no fim da ceifa do
trigo, ou dia seis do terceiro mês, Sivân (junho), em comemoração ao recebimento do Decálogo
(MENDONÇA, 2001)
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em que “todos foram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas”
(Atos 2.4). Isto fez com que os primeiros cristãos fossem arregimentados tanto para
constituírem a primeira igreja quanto para servirem nela, sendo missionários aonde quer
que estivessem, contribuindo para o aumento do número de cristãos.

1.1 A igreja de Corinto

Com o avanço da pregação do evangelho, uma importante cidade tornou-se


ícone do que posteriormente ficou conhecido como “entusiasmo religioso”.

O termo “entusiasmo” (do grego en = “em” e théos = “Deus”) aponta para


situações em que as pessoas afirmam receber revelações diretas de Deus,
muitas vezes acompanhadas de êxtases místicos, visões e outros fenômenos
associados a uma experiência religiosa de grande fervor de intensidade
(MATOS, 2006, p. 25)

A igreja que foi estabelecida nesta cidade, conhecida biblicamente como igreja
de Corinto, foi palco das primeiras manifestações ditas pentecostais do tempo da era
apostólica. No entanto, o pastor daquela igreja, o apóstolo Paulo, precisou exortar
severamente os fiéis acerca do que estava acontecendo no meio deles.
Após terem sido “cheios do Espírito Santo” (Atos 2.4), um grupo de pessoas
“com inclinações místicas (…) que valorizavam grandemente certas experiências e
práticas religiosas” (LOPES, 1998), começou a deturpar o movimento com uma falsa
interpretação e aplicação do que havia sido preconizado no início. Isto acarretou uma
série de problemas em uma igreja que era conhecida por seus dotes espirituais. Dentre
os problemas ocorridos, destaca-se o desprezo pelos “cristãos que não apresentavam as
mesmas manifestações” (LOPES, 1998), gerando um problema local e que ultrapassou
as fronteiras do tempo chegando aos dias atuais, onde algumas igrejas pentecostais
ainda adotam o mesmo comportamento.

1.2 Outros antecedentes históricos

Alguns estudiosos afirmam que o movimento pentecostal foi levado avante por
outros grupos religiosos denominados montanismo, anabatista, quacres e metodistas.
Este primeiro foi um movimento carismático do cristianismo antigo (década de 170) que
teve como fundador Montano e que alegou “ser o porta-voz do Espírito Santo que iria
anunciar a volta de Cristo e a descida da Nova Jerusalém” (MATOS, 2006, p. 25).
Os outros movimentos foram provenientes dele, ainda que inovando em alguns
aspectos. Por exemplo, os anabatistas apelavam para revelações diretas de Deus e
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relativizavam a importância da Bíblia. Foram chamados de fanáticos por seus


contemporâneos.
Já mais recentemente, os quacres ingleses (século XVII) enfatizavam a “luz
interior” e o metodismo (século XVIII), com os irmãos Wesley, que ficaram conhecidos
por desenvolverem suas práticas de vida e de cristianismo com muita disciplina e
método.

1.3 Os grandes “despertamentos”

A história do movimento pentecostal contempla também três acontecimentos


que contribuíram para o seu avanço. Foram denominados “despertamentos2” e
ocorreram no século XVIII, início do século XIX e meados deste mesmo século (1857-
1858).
Estes “despertamentos” trouxeram consigo novidades com relação à pregação do
evangelho e ao modo de viver dos cristãos. O cristianismo adotou um caráter mais
emocional, as pregações valorizaram mais a forma em detrimento do conteúdo, houve o
acréscimo de apelos insistentes às pessoas após as reuniões e uma valorização maior da
santidade e perfeição cristã.
De acordo com MATOS (2006, p. 29), “nas décadas posteriores à Guerra Civil
(1861-1865) (…) a santidade cristã começou mais e mais a ser entendida em termos do
batismo com o Espírito Santo”, criando um conceito de uma segunda bênção, distinta da
conversão. Isto persiste até hoje na maioria das igrejas pentecostais, sendo inclusive
distintivo para seleção e consagração de obreiros.
Ainda como fruto destes “despertamentos”, Charles Parham (1873-1929) um
pregador metodista influenciado pelo movimento de santidade (holiness), criou em 1900
um instituto bíblico em Topeka, estado do Kansas nos Estados Unidos. Foi ele o
primeiro a ensinar que o “falar em línguas” (glossolalia) era a evidência inicial do
batismo no Espírito Santo, conseguindo formar futuros líderes em sua escola.
Nesse ínterim, surge o “pentecostalismo moderno” (WOLFART, 2010), a partir
de 1906, com um americano de origem negra, ex-aluno de Parham, chamado William
Seymour (1870-1922).

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“Despertamento” tem origem na palavra despertar que, de acordo com o dicionário da língua
portuguesa, significa acordar, tirar do estado de inércia, animar, avivar, estimular
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1.4 O avivamento da Rua Azusa

O atual movimento pentecostal tem seu retrato mais fiel nas reuniões ocorridas
na cidade de Los Angeles, a partir do dia 9 de abril de 1906. Era um movimento
liderado por William Seymour, em um prédio na Rua Azusa, e que chamava atenção
pelo barulho feito pelos participantes, sendo noticiado na época nos jornais da cidade
como “Estranha Babel de línguas”. Este movimento era estratégico por ser Los Angeles
uma cidade que “recebia muitos imigrantes europeus que se encarregaram de anunciar a
novidade” (ALENCAR, 2010, p. 31)
Essas reuniões persistiram até a morte de Seymour, em 1922 e de sua esposa
Jennie, em 1936. Com a demolição do prédio da Rua Azusa foram encerrados os
trabalhos naquele local, no entanto, o pentecostalismo moderno permaneceu,
espalhando-se pelos Estados Unidos e por várias partes do mundo, inclusive o Brasil.

2. O MOVIMENTO PENTECOSTAL NO BRASIL

A continuação do movimento pentecostal ocorrido na Rua Azusa chegou ao


Brasil em 1910. O sociólogo Paul Freston, com o propósito de explicar a implantação
desse movimento no país, caracterizou-o em “três ondas” (FRESTON, 1994, p. 70). Em
cada uma delas é possível observar uma evolução no movimento pentecostal, sendo que
no final, observou-se um afastamento dos ideais do movimento nascente. No entanto,
ele continuou conhecido como pentecostal, mesmo apresentando algumas variações
grosseiras.
A primeira onda, ocorrida no período de 1910 e 1911, é marcada pela chegada
de duas denominações religiosas, a Congregação Cristã no Brasil (1910) e a Assembleia
de Deus (1911). Essas duas igrejas não foram pioneiras na evangelização do país, pois
outras denominações já haviam se instalado bem antes, como os anglicanos, luteranos,
congregacionais, presbiterianos, metodistas, batistas e episcopais, além da Igreja
Católica, responsável pelo maior número de fiéis e que não se via tão ameaçada por
essas denominações.
As igrejas da primeira onda “dominaram amplamente o campo pentecostal
durante quarenta anos” (MATOS, 2006, p. 38).
A segunda onda é marcada pela fragmentação do campo pentecostal na década
de 50 e início dos anos 60, quando outras denominações pentecostais chegaram ao
Brasil. Foram elas: Igreja do Evangelho Quadrangular (1951), Igreja Evangélica O
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Brasil para Cristo (1955) e Igreja Pentecostal Deus é Amor (1962). Essas denominações
acrescentaram mais um adereço à doutrina pentecostal: a cura divina. Suas reuniões e
pregações tinham como ponto principal a valorização da cura de doenças.
Com a terceira onda, já no final dos anos 70, surge o termo neopentecostalismo
que seria uma caricatura do movimento original (pentecostal), no entanto, não mais
valorizando unicamente aquilo que havia sido preconizado no início como o falar em
línguas. Sua ênfase pautava-se na teologia da prosperidade e, em alguns casos, era
associada a exorcismo de demônios e outras manifestações típicas do movimento
neopentecostal.
A representante maior dessa terceira onda é a Igreja Universal do Reino de Deus
(1977), seguida da Igreja Internacional da Graça de Deus (1980), Igreja Renascer em
Cristo, Comunidade Sara Nossa Terra, Igreja Paz e Vida, Comunidades Evangélicas e
muitas outras.

3. A POPULARIZAÇÃO DO EVANGELHO NO BRASIL

De acordo com o que já foi explicitado, o evangelho deveria ser pregado a todas
as pessoas indistintamente, ou seja, deveria ser acessível ou popularizado. No Brasil,
isto não estava acontecendo a contento, conforme se pode constatar na citação a seguir:

Em 1910, a Igreja Católica celebrava missas em latim, a Igreja Luterana,


cultos em alemão, a Igreja Anglicana em inglês. Até mesmo a única igreja
pentecostal da época, a Congregação Cristã do Brasil, celebrava seus cultos
em italiano (ALENCAR, 2010, p. 19)

Não havia uma reunião religiosa na língua do povo, o português. Isso limitava o
acesso às populações carentes e marginalizadas à mensagem do evangelho, deixando de
fora esta parte significativa da população. Realmente, não havia interesse em privilegiar
essas classes. A maioria nem sabia ler ou escrever, portanto não estavam aptos a receber
esta mensagem.
O movimento pentecostal, portanto, promoveu a popularização do evangelho no
Brasil. No entanto, conforme a citação anterior, essa popularização não se deu com a
primeira representante pentecostal que se limitou exclusivamente à comunidade italiana
estabelecida no país. Por isso, em 1911, uma segunda representante do movimento
pentecostal tomou para si a responsabilidade de dar acesso às camadas mais pobres a
este evangelho.
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Isso aconteceu com a Igreja Assembleia de Deus “que foi a que mais se
expandiu, tanto numérica quanto geograficamente” (MATOS, 2006, p. 38) com
representações em várias localidades do país. Em outras denominações históricas não
houve o mesmo crescimento, permanecendo modestamente.
O mais curioso é que este crescimento não foi demorado ou necessitou de
grandes estratégias. A Assembléia de Deus tornou-se em pouco tempo a maior
representante do protestantismo brasileiro (e do movimento pentecostal) por instalar-se
entre as populações mais pobres. Não para simplesmente valorizar os pobres, mas
“porque nasceu pobre” (SOUZA, 2004, p. 24).
Enquanto as demais denominações religiosas se instalavam nos grandes centros,
onde a população era híbrida3 e bem mais exigente, dois missionários suecos
provenientes dos Estados Unidos e que haviam conhecido o “batismo no Espírito
Santo”, chegaram ao Brasil graças a uma profecia recebida. Eram eles Daniel Berg e
Gunnar Vingren. Foram para a cidade de Belém do Pará e lá fundaram a que se tornaria
a maior igreja pentecostal no Brasil (DALGALARRONDO, 2008, p. 120). A partir
dessa experiência, toma impulso o movimento pentecostal e é possível observar um
crescimento espantoso dessa denominação religiosa.
De acordo com dados obtidos na época, o número de membros dessa igreja
cresceu de 20, em sua fundação, para 14.000 em 1930 e em 1940, cresce para 80.000,
tendo atingido a marca de 120.000 membros em 1950 (READ, 1967, p. 121). A partir
daí surgiram as denominações da segunda onda e que também contribuíram para o
avanço do número de pentecostais, bem como da popularização do evangelho no Brasil.
Estima-se que hoje “mais de 80% da população evangélica [brasileira] é
pentecostal” (ALENCAR, 2010, p. 46). Este número compreende as igrejas pentecostais
históricas da primeira onda, as da segunda onda e as neopentecostais que hoje
contribuem consideravelmente para o aumento dessa estatística.

4. CONTRIBUIÇÕES DO PENTECOSTALISMO PARA O PAÍS

Não se pode fazer uma avaliação correta de como estaria o protestantismo


brasileiro sem o fenômeno do movimento pentecostal. No entanto, pode-se especular
que certamente não haveria hoje uma população de 26,6 milhões de evangélicos no

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De acordo com o dicionário da língua portuguesa, híbrido é relativo a elementos provenientes de línguas
diversas.
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Brasil de acordo com o último Censo de 2000 (IBGE, 2000). Talvez este número fosse
muito menor sem o efeito causado pelo movimento pentecostal.
Mas esta contribuição não é só quantitativa. De acordo com o que foi explicitado
anteriormente, este número deve-se principalmente à inclusão das classes menos
favorecidas que não se adequavam ao “rígido, tradicionalista e rotineiro” protestantismo
histórico (MATOS, 2006, p. 48). Então, a inclusão torna-se um fator preponderante nas
contribuições do pentecostalismo no Brasil.
É importante ressaltar que atualmente esse movimento não se restringe somente
às classes menos favorecidas. Pelo contrário, com as novas denominações provenientes
da terceira onda (neopentecostais) e a atualização do pensamento das igrejas
pentecostais históricas, de certa forma, influenciadas pelos novos pentecostais, o
movimento passou a abranger também pessoas da classe média. Para isso, construiu
suntuosos templos nos grandes centros do país, situados em áreas nobres das grandes
cidades.
O movimento pentecostal também fez com que o relacionamento com Deus
fosse mais profundo, onde o cristão se utilizava de um culto mais alegre e fervoroso e
uma vida mais plena e de satisfação. As emoções surgiram com mais intensidade e isso
agradou muito as pessoas. A prova disso são os louvores que hoje conseguem ser mais
eficazes, sobretudo na evangelização das pessoas.
No entanto, há que se ressaltar também os problemas que foram gerados após a
instalação do movimento pentecostal como: o desprezo pelas escrituras, um falso
conceito de vida espiritual que se sustenta num “toma-lá-dá-cá” com Deus, a
infalibilidade dos pastores, a fuga dos princípios éticos que outrora regiam o movimento
e a deturpação do culto. São esses alguns problemas que permeiam o dia-a-dia das
igrejas pentecostais. Mas esta é uma reflexão que não faz parte, neste momento, do
objetivo desta discussão.
É bem verdade que já se observa uma melhora em alguns desses pontos, mas
ainda é algo muito primário e carece de muita discussão e conscientização quanto a um
possível retorno ao protestantismo pentecostal ideal ou pentecostalismo clássico.

CONCLUSÃO

Conhecer a história do movimento pentecostal e seus efeitos nos dias atuais


proporciona um pensamento mais crítico e reflexivo acerca da popularização do
evangelho no Brasil.
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Ainda que o movimento pentecostal seja tachado como retrógrado ou


antiintelectualista, seus dividendos são bem mais apreciáveis por contemplarem a
maioria dos evangélicos existentes hoje no país. Não se excluem aqui os problemas,
pelo contrário, propõe-se uma discussão mais acurada acerca das incompreensões e
mesmo dos erros persistentes.
Sendo assim, a discussão sobre o movimento pentecostal requer bem mais do
que meras afirmações isoladas. É preciso que haja mais dedicação ao conhecimento da
causa e, portanto, elaboração de novas pesquisas acerca dos possíveis problemas
encontrados.

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