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PRÉ-UNIVERSITÁRIO OFICINA DO SABER Aluno(a):

DISCIPLINA: Literatura PROFESSORES: Suéllen da Mata

A LITERATURA APÓS A GERAÇÃO DE 45 TEXTO 17

Contexto histórico-cultural
O regime ditatorial brasileiro, iniciado com o golpe militar de 1964, endureceu ainda mais com a publicação do
Ato Institucional no 5 (AI-5), em 1968, intensificando a repressão à resistência contra a ditadura militar. As
liberdades democráticas foram suspensas e as eleições para cargos executivos passaram a ser indiretas, isto é,
prefeitos, governadores e presidentes eram indicados pelo Congresso. Este, por sua vez, estava dividido em duas
grandes forças políticas: de um lado, a Arena, partido que reunia os apoiadores do regime e que compunha a
maioria do corpo legislativo; de outro, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que congregava os opositores
que haviam escolhido a linha institucional como forma de luta.

Em 1969, o governo militar brasileiro criou o Destacamento de Operações de Informação — Centro de Operações
de Defesa Interna (DOI-CODI), com o propósito de combater inimigos internos do regime, o que foi usado como
justificativa para ações violentas contra todos os que se opunham à ditadura.

A luta armada foi entendida pelos grupos mais radicais como uma forma legítima de combate ao regime.
Sequestros e assaltos a bancos foram cometidos para financiar a resistência armada. Os resultados desse tipo de
ação foram trágicos, porque grande parte dos militantes teve como fim o exílio ou a morte, como o capitão de
exército Carlos Lamarca (1937-1971), que desertou para participar da guerrilha, e militantes como Iara Iavelberg
(1944-1971), que morreram na luta contra a ditadura.

Enquanto alguns membros da sociedade escolheram a luta armada para lutar contra o regime, outros optaram
pelo deboche. O comportamento irônico e escrachado deles foi chamado desbunde. Essa expressão corresponde a
uma atitude de busca de meios de vida alternativos, com interesses voltados para o autoconhecimento espiritual e
a livre expressão das sensações; inclui ainda o desinteresse por posturas ideológicas convencionais, como
socialismo, marxismo, trotskismo.

O movimento hippie foi o ponto de partida para esse tipo de comportamento. Aparentemente, essa atitude
encerrava um componente de distanciamento das questões políticas que então eram discutidas no país. No
entanto, o questionamento de convenções sociais e morais também é uma forma de posicionamento político. Basta
verificar que as pessoas que optaram por essa postura eram tão reprimidas e perseguidas quanto aquelas que
adotavam um discurso político mais articulado, com propostas ideológicas mais claramente definidas.

Em meados dos anos 1970, alguns acontecimentos abalaram o regime ditatorial brasileiro. Em 1973, o estudante
Alexandre Vannucchi Leme foi preso e torturado até a morte nas dependências do DOI-CODI de São Paulo; a versão
oficial divulgada pelo Exército afirmava que o estudante tinha se suicidado. Em 1975, o jornalista Vladimir Herzog
foi preso e conduzido a interrogatório, sob tortura, no mesmo DOI-CODI, onde morreu; mais uma vez, a versão
oficial apresentou a tese de suicídio. Em 1976, outra ação violenta das forças radicais que apoiavam o regime
ditatorial resultou na morte do operário Manoel Fiel Filho, no mesmo local onde Herzog fora assassinado; ainda
dessa vez, o governo tratou o caso como suicídio.

Essas mortes despertaram a sociedade para os riscos da radicalização do regime ditatorial. Além disso, sucessivas
derrotas eleitorais da Arena, partido do governo, evidenciavam uma queda no apoio ao regime. Assim, na segunda
metade dos anos 1970, teve início a Abertura política, processo de resgate da normalidade democrática. Lenta e
gradual, estendeu-se até a promulgação de uma nova Constituição, em 1988.

Mesmo com todos os acontecimentos negativos impostos pelo regime ditatorial, a cultura brasileira marcou a
época em todas as áreas com muita criatividade e até hoje é reverenciada como a de um período dos mais férteis.

A tradição crítica da literatura brasileira costuma definir como terceira geração modernista o período que se
inicia em 1945 e segue, em princípio, até os dias de hoje. Com o tempo, essa cronologia se mostrou insuficiente. Por
isso, costuma-se datar o final dessa terceira geração entre os anos de 1964, em que ocorreu o golpe militar, e 1968,
em que houve um endurecimento do regime. De fato, foi um momento de mudança nas artes brasileiras, como
vimos no capítulo anterior.

A arte se ressentiu bastante da censura, no período. Muitas obras foram engavetadas, mas muitas obras de
qualidade sobreviveram à tragédia cultural da ditadura.

A poesia
A poesia do período se caracterizou por um duplo movimento. De um lado, uma tentativa de renovação formal,
como se vê no Concretismo, no Neoconcretismo e no Poema Processo; de outro lado, uma tentativa de renovação
da tradição, notável nos movimentos Tendência, Violão de Rua e Poesia Práxis.

Poesia Concreta
A poesia convencional, de matriz clássica, reafirmada entre nós pelo Parnasianismo do final do século XIX,
baseava-se no prestígio da rima e da métrica. Os modernistas de 1922 contestaram a rigidez formal dos
parnasianos e pregaram a adoção de versos brancos e livres, porém continuaram a fazer poemas em versos.

Nos anos 1950, surgiu no Brasil um grupo de poetas que passou a fazer o que foi denominado de Poesia Concreta.
Formado inicialmente por Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari, o Concretismo teve
contribuições importantes de José Lino Grünewald, Ronaldo Azeredo, Pedro Xisto, entre outros. Embora neste
capítulo o enfoque seja para a produção literária dos anos 1960 e 1970, é fundamental estudarmos o Concretismo,
que influenciou bastante os movimentos poéticos das décadas seguintes.

Na Poesia Concreta, o que restava da convenção poética foi abolido, isto é, o verso; as palavras foram dispostas
livremente no branco da página, estabelecendo jogos que permitiam múltiplas interpretações; outros elementos
de expressão começaram a ser usados (cor, tipologia de letra, recursos gráficos, etc.).

No exemplo ao lado, já não faz mais sentido


falar em verso; além disso, repare na cor,
concebido como outro elemento de expressão.

O poema “lygia fingers” foi feito em 1953, em


homenagem a Lygia de Azeredo (com quem o
autor, Augusto de Campos, se casaria).
Palavras em português misturam-se a termos
retirados de outros idiomas. Por exemplo, em
inglês: fingers (dedos), lonely (solitário); em
italiano: sorella (irmã), figlia (filha); em
latim: lynx (lince), grypho (grifo, criatura
lendária com cabeça de águia e corpo de
leão), felix (feliz). Os sentidos se embaralham,
como a aprisionar a amada em um amontoado
de letras. Ao mergulhar nesse poema e buscar
seus variados significados, é possível descobrir
a aventura da leitura poética.

Sem o verso e sem a rima, restava à Poesia


Concreta a palavra. Ainda assim, a proposta foi
bastante inovadora, pois os concretistas
desmembraram a palavra, isolando letras,
sílabas e fonemas, como mostra o trecho a
seguir.

CAMPOS, Augusto de. lygia fingers. Arquivo do autor.


Nos poemas transcritos, o espaço em branco adquire importância na Poesia
Concreta — um ponto importante de sua proposta. Os poetas concretos
adotaram uma expressão para definir seu estilo, retirada do escritor irlandês
James Joyce (1882-1941): verbivocovisual. Essa expressão significa: a
poesia deve ser verbal, porque se funda na palavra, no verbo; vocal, porque
supõe uma leitura oralizada, em voz alta, para se perceberem as sonoridades
envolvidas; e visual, porque precisa ser vista, para que os efeitos provocados
pelos espaços em branco sejam percebidos em sua plenitude.

Os poetas concretos foram acusados de alienação política. No entanto,


convém lembrar que a proposta do Concretismo tinha um caráter
revolucionário e transformador, na medida em que seus adeptos
tentavam inovar a expressão poética. Muitos poemas concretos
apresentam preocupação social explícita, como se vê no exemplo a seguir.

PIGNATARI, Décio.
Beba coca cola.
In: Poesia pois é
poesia 190-2000.
CAMPOS, Augusto de. Bestiário. Cotia: Ateliê
Arquivo do autor. (Fragmento). Editorial;
Campinas: Ed. da
Unicamp, 2004. p.
128.

Embora os concretistas não abandonassem a palavra, a possibilidade de se propor um poema apenas constituído
por imagens gráficas não seria desprezada por eles. Observe o poema a seguir.

Os concretistas deixaram uma marca


bastante forte na poesia brasileira. Os poetas
do Neoconcretismo, movimento surgido em
1958, buscaram resgatar a visão subjetiva
que, na visão deles, estava relegada a
segundo plano pelo excessivo racionalismo
concretista. O Poema Processo, de 1967,
radicalizou as propostas concretistas,
chegando ao limite de abolir a palavra e usar
In: SIMON, Iumna Maria; DANTAS, Vinicius de Avila (Sel.). Poesia concreta. São sinais como expressão poética.
Paulo: Abril Educação, 1982. p. 63. A marca mais evidente da influência
concretista é a Poesia Visual, uma arte que se coloca
como poema e se utiliza de símbolos diversos, além da
palavra. O poema sem título de Philadelpho de Menezes,
composto em 1984, por exemplo, convida o leitor a viajar
pelos múltiplos sentidos e referências que realiza.

Poesia Engajada
No contexto histórico brasileiro dos anos 1960 e 1970, a
luta contra a censura e a repressão atingiu todos os
segmentos artísticos. A poesia não ficou de fora.
MENEZES, Philadelpho. Concreta e visual. São Paulo: Ática,
A Poesia Práxis (1962) foi concebida para responder 1998. p. 95.
às questões sociais da época. O termo práxis quer dizer
“prática, ação concreta”. O que se propõe é que o artista seja um transformador da palavra, atribuindo a ela
sentidos inusitados, embora verdadeiros e coerentes com o contexto em que estão inseridos. A Poesia Práxis
mantém a preocupação com a pesquisa formal que caracterizava a Poesia Concreta, mas busca acentuar a ligação
entre arte e realidade social.

O poema a seguir refere-se à televisão como grande veículo de entretenimento e de propaganda dirigida à classe
média, que conquistou o público de forma definitiva. Isso refletia uma transformação fundamental nas artes
brasileiras do período, enfatizando o crescimento extraordinário dos instrumentos da indústria cultural.

TV
o vidro transparência / o olho cego consciência a praça de olho negro
a consciência no vídeo / a transparência do vidro o povo = olho morcego
o povo cego da praça / o olho negro da massa
a praça de olho cego / a massa de olho negro sem ver o povo com a venda
a câmara negra = sua tenda
o vidro transparência
o cego consciência sem ver / a venda no olho do povo
a massa diante do vídeo te vê / a câmara negra do sono
a massa = olho de vidro
CHAMIE, Mário. In: Sábado na hora da escuta: antologia. São Paulo: Summus, 1978.

Em 1962, a editora Civilização Brasileira, do Rio de Janeiro, publicou a coleção “Violão de rua”, reunindo poetas
comprometidos com a luta política que então se travava no país contra a censura e a opressão. O projeto mantinha
estreita ligação com o Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE), entidade
colocada na ilegalidade a partir de 1964, mas que continuava a buscar canais de resistência e de luta. Leia o poema.

A bomba suja
Introduzo na poesia quando se dispara, lenta, Cabe agora perguntar
A palavra diarreia. a espoleta da fome. quem é que faz essa fome,
Não pela palavra fria quem foi que ligou a bomba
Mas pelo que ela semeia. É uma bomba-relógio ao coração desse homem.
(o relógio é o coração)
Quem fala em flor não diz tudo, que enquanto o homem trabalha Quem é que rouba a esse homem
quem fala em dor diz demais. vai preparando a explosão. o cereal que ele planta?
O poeta se torna mudo Quem come o arroz que ele colhe
sem as palavras reais. Bomba colocada nele se ele o colhe e não janta?
muito antes dele nascer;
No dicionário a palavra que quando a vida desperta Quem faz café virar dólar
é mera ideia abstrata: nele, começa a bater. e faz arroz virar fome
Mais que palavra, diarreia é o mesmo que põe a bomba
é arma que fere e mata. Bomba colocada nele suja no corpo do homem.
Pelos séculos de fome
Que mata mais do que faca, e que explode em diarreia Mas precisamos agora
mais que bala de fuzil, no corpo de quem não come. desarmar com nossas mãos
homem, mulher e criança a espoleta da fome
no interior do Brasil. Não é uma bomba limpa: que mata nossos irmãos.
é uma bomba suja e mansa
Por exemplo, a diarreia, que elimina sem barulho Mas precisamos agora
no Rio Grande do Norte, vários milhões de crianças. deter o sabotador
de cem crianças que nascem, que instala a bomba da fome
setenta e seis leva à morte. Sobretudo no Nordeste dentro do trabalhador.
mas não apenas ali:
É como uma bomba H que a fome do Piauí E sobretudo é preciso
que explode dentro do homem se espalha de Leste a Oeste. trabalhar com segurança
pra dentro de cada homem
trocar a arma de fome pela arma da esperança.

GULLAR, Ferreira. In: Violão de rua. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1962. p. 43-45. v. II.

Poesia Marginal
Na passagem da década de 1960 para a de 1970, no Rio de Janeiro, surgiu um grupo de poetas que buscava canais
alternativos de produção e veiculação de seus textos. Passaram a produzir os próprios livros de forma artesanal,
utilizando-se para isso de um aparelho chamado mimeógrafo, que produzia cópias de documentos escritos. Essa
prática deu nome à geração de poetas que se seguiu ao período da Poesia Concreta e da Poesia Engajada:
a geração mimeógrafo. Como buscavam fazer sucesso à margem do grande mercado editorial, ficaram conhecidos
também com poetas marginais.

Os próprios autores tratavam de vender seus livros em lugares frequentados por um público que buscava coisas
novas, na literatura e na vida. Os representantes da Poesia Marginal inspiravam-se muitas vezes em suas próprias
experiências, dando ao poema um caráter pessoal e subjetivo. No entanto, em seus grandes momentos, a Poesia
Marginal expressou, mais do que perspectivas individuais, os anseios de toda uma geração que tentava escapar dos
rótulos ideológicos então vigentes, utilizando-se, para isso, muitas vezes, do deboche e da ironia.

O pequeno poema a seguir, sem título, foi escrito por uma das maiores representantes da Poesia Marginal: Ana
Cristina Cesar.

ela quis
queria me matar
quererá ainda, querida?
CESAR, Ana Cristina. In: Poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. p. 102.

A Poesia Marginal também abordou a temática do cotidiano. Isso já acontecia no Modernismo do início do século
XX. Aqui, trata-se sobretudo de resgatar os efeitos lúdicos da palavra e da poesia, mantendo a ligação com o
presente, como mostra o poema “Obra aberta”, de Cacaso, publicado originalmente no livro Na corda bamba, de
1978.

Obra aberta

Quando eu era criancinha


O anjo bom me protegia
Contra os golpes de ar.
Como conviver agora com
Os golpes? Militar?
CACASO. In: Lero-lero. Rio de Janeiro: 7 Letras;
São Paulo: Cosac & Naify, 2002. p. 54.

A prosa
A prosa do período se caracterizou pela diversificação de temáticas, com o gradativo aumento das narrativas de
ficção sobre a realidade urbana, em sintonia com o progressivo processo de industrialização e o grande
crescimento das cidades do país.
O conto
Em meados dos anos 1970, o público leitor brasileiro passou a consumir livros que traziam coletâneas com
narrativas curtas. Foi o chamado boom do conto. Esse fenômeno editorial foi um estímulo para o surgimento ou
afirmação de autores importantes, que tornaram o conto um gênero literário de grande circulação entre nós.

O leque temático do conto era bastante amplo: a ambientação rural teve em Guimarães Rosa um praticante
exemplar, e continuou com José J. Veiga; a cidade é o pano de fundo de escritores como Dalton Trevisan, João
Antônio e Rubem Fonseca; a atmosfera reflexiva de Clarice Lispector permanece, na companhia de Caio Fernando
Abreu, Nélida Piñon e Lygia Fagundes Telles; o realismo fantástico está presente em Murilo Rubião, entre outros.

Leia, a seguir, um trecho do conto “O cobrador”, de Rubem Fonseca.

Me irritam esses sujeitos de Mercedes. A buzina do carro também me aporrinha. Ontem de noite eu fui ver o
cara que tinha uma Magnum com silenciador para vender na Cruzada, e quando atravessava a rua um sujeito
que tinha ido jogar tênis num daqueles clubes bacanas que tem por ali tocou a buzina. Eu vinha distraído pois
estava pensando na Magnum, quando a buzina tocou. Vi que o carro vinha devagar e fiquei parado na frente.

Como é?, ele gritou.

Era de noite e não tinha ninguém perto. Ele estava vestido de branco. Saquei o 38 e atirei no para-brisa, mais
para estrunchar o vidro do que para pegar o sujeito. Ele arrancou com o carro, para me pegar ou fugir, ou as
duas coisas. Pulei pro lado, o carro passou, os pneus sibilando no asfalto. Parou logo adiante. Fui até lá. O
sujeito estava deitado com a cabeça para trás, a cara e o peito cobertos por milhares de pequeninos
estilhaços de vidro. Sangrava muito de um ferimento feio no pescoço e a roupa branca dele já estava toda
vermelha.

Girou a cabeça que estava encostada no banco, olhos muito arregalados, pretos, e o branco em volta era
azulado leitoso, como uma jabuticaba por dentro. E porque o branco dos olhos dele era azulado eu disse —
você vai morrer, ô cara, quer que eu te dê o tiro de misericórdia?

Não, não, ele disse com esforço, por favor.

Vi da janela de um edifício um sujeito me observando. Se escondeu quando olhei. Devia ter ligado para a
polícia.

Saí andando calmamente, voltei para a Cruzada. Tinha sido muito bom estraçalhar o para-brisa do Mercedes.
Devia ter dado um tiro na capota e um tiro em cada porta, o lanterneiro ia ter que rebolar.
FONSECA, Rubem. O cobrador. In: O cobrador. 2. ed.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979. p. 166-167. (Fragmento).

Romance-reportagem
O romance-reportagem nasceu da junção entre a atividade jornalística e a expressão ficcional. Com ele,
jornalistas, quase sempre dedicados às seções policiais, conseguem contar histórias reais empregando estratégias
ficcionais no texto, porém sem se distanciar do fato real. Os nomes de destaque do gênero são José Louzeiro, Doc
Comparato e Aguinaldo Silva, entre outros.

A temática da marginalidade é bastante explorada no romance-reportagem. Em Lúcio Flávio, o passageiro da


agonia (1975), José Louzeiro conta a história de um dos mais famosos criminosos do Brasil, conhecido por sua
inteligência acima da média. Na cena transcrita a seguir, Lúcio está na penitenciária, recapturado depois de mais
uma de suas fugas espetaculares.
Lúcio segurava o isqueiro como se fosse microfone, dava entrevistas. Os pequeninos pontos sujos no chão,
nas paredes encardidas e no teto, eram as pessoas. A multidão a que estava se dirigindo.

— Saibam todos, que já não tenho mais o que explicar a respeito de mim mesmo. Fiquem cientes de que
jamais teremos conhecimento total da verdade. O que já disseram de mim, do que fiz e do que não fiz, tá nos
jornais. Verdade e mentira, uma ao lado da outra. Nunca me preocupei com isso. O que sou, o que poderia
ter sido, jamais saberei. O criminoso atrai a atenção pela audácia demonstrada. Não é o montante de dinheiro
que tira de um banco que desperta curiosidade. É a aventura que terminou para os bem comportados. Muitos
gostariam de tentar, mas têm medo. A aventura deixa feridas, marcas no rosto e no peito, que jamais se
apagarão. Ela é a mulher apaixonante, a princesa de olhos azuis que mata cada amante que passa a noite ao
seu lado. Vale a pena entregar-se de corpo e alma à princesa [...]? É a opção que o mundo nos propõe.

Esses monólogos de Lúcio seguiam-se interminavelmente. Quando ouvia passos na galeria, parava. Depois
prosseguia, ainda que os assuntos não se relacionassem muito bem.

— Esta é a Rádio Esperança, falando do cárcere de um presídio imundo. Vamos lhes apresentar as
novidades por aqui. Hoje teremos sopa de água suja com macarrão estragado. Mas já se tem notícia de que
a coisa vai melhorar. Tudo tende a melhorar. É o que dizem constantemente.
LOUZEIRO, José. Lúcio Flávio, o passageiro da agonia.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975. p. 190-191. (Fragmento).

Realismo fantástico
O realismo fantástico consiste na inserção de elementos mágicos, sobrenaturais ou simplesmente surpreendentes
e inexplicáveis, em episódios corriqueiros. O narrador apresenta o absurdo de forma natural, como algo
integrado à lógica de outros absurdos socialmente aceitos. Entre nós, o maior praticante dessa modalidade foi
Murilo Rubião. Leia a seguir um trecho desse autor.

Hoje sou funcionário público e este não é o meu desconsolo maior.

Na verdade, eu não estava preparado para o sofrimento. Todo homem, ao atingir certa idade, pode
perfeitamente enfrentar a avalanche do tédio e da amargura, pois desde a meninice acostumou-se às
vicissitudes, através de um processo lento e gradativo de dissabores.

Tal não aconteceu comigo. Fui atirado à vida sem pais, infância ou juventude.

Um dia dei com os meus cabelos ligeiramente grisalhos, no espelho da Taberna Minhota. A descoberta não
me espantou e tampouco me surpreendi ao retirar do bolso o dono do restaurante. Ele sim, perplexo, me
perguntou como podia ter feito aquilo.

O que poderia responder, nessa situação, uma pessoa que não encontrava a menor explicação para sua
presença no mundo? Disse-lhe que estava cansado. Nascera cansado e entediado.

Sem meditar na resposta, ou fazer outras perguntas, ofereceu-me emprego e passei daquele momento em
diante a divertir a freguesia da casa com os meus passes mágicos.

O homem, entretanto, não gostou da minha prática de oferecer aos espectadores almoços gratuitos, que eu
extraía misteriosamente de dentro do paletó. [...]
RUBIÃO, Murilo. O ex-mágico da Taberna Minhota.
In: O pirotécnico Zacarias. São Paulo: Ática, 1995. p. 53-54. (Fragmento).
Literatura engajada
A narrativa de compromisso social, nos anos 1960 e 1970, buscava denunciar a falta de liberdade e a luta contra
os mecanismos repressivos montados pela ditadura brasileira.

O romance Quarup (1967), de Antônio Callado, conta a trajetória do Padre Nando, desde a expressão de suas
dúvidas existenciais e religiosas, até a decisão de entrar para a luta armada. Nesse caminho, conhece Francisca, que
trabalha com a alfabetização dos camponeses de Pernambuco.

Francisca tirou um slide de fora da série. A palavra de duas letras mas grande na parede. Vários camponeses
leram juntos:

— Eu.

Outro slide e disseram:

— Re.

— Pensem em classe e clamor — disse Francisca enquanto colocava o slide com o pronome e o verbo.

— Eu re — disse um camponês.

— Eu remo! — disse outro.

— Eu clamo! — disse outro.

— Eu sei, professora, eu sei Dona Francisca. EU RECLAMO!

[...]

— Reclamar vocês todos sabem o que é — disse Francisca.

Os camponeses riram.

— Só que precisam reclamar cada vez mais. Reclamar tudo a que vocês têm direito. Direito também vocês
sabem o que é. Direito todo homem tem de comer, de ganhar dinheiro pelo trabalho que faz, de votar em
quem quiser em dia de eleição.

— O voto é do povo — disse um camponês.

— O pão é do povo — disse outro.

— O pão dá saúde e vida ao povo — disse outro.


CALLADO, Antônio. Quarup. 9. ed.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978. p. 315-316. (Fragmento).

Experimentalismo
Durante os anos de 1960 e 1970, uma grande discussão percorria as páginas dos jornais e os livros de crítica
literária: a relação entre inovação formal e registro da realidade. Segundo essa discussão, tínhamos, de um lado,
escritores que se interessavam mais em produzir uma literatura de denúncia, que pudesse se comunicar com o
público de forma direta, e, de outro, aqueles que se preocupavam com a renovação da linguagem ficcional,
colocando a mensagem em segundo plano.
No entanto, esses dois aspectos não eram necessariamente excludentes, na ficção do período. Nela, encontramos
iniciativas renovadoras da narração e igualmente interessadas em denunciar a situação social brasileira. É o caso
do romance Zero (1974), de Ignácio de Loyola Brandão, em que texto e imagem se misturam, como se pode
perceber na página reproduzida a seguir.

Romance psicológico
A abordagem de questões sociais não significava o abandono
de uma perspectiva psicológica e intimista. Em muitas
obras do período, os personagens centrais são indivíduos
colocados como vítimas não apenas de um estado
policialesco, mas de todo um processo de modernização
forçada à qual aquele estado se ligava intimamente.

O romance Em câmera lenta (1977), de Renato Tapajós, é, por


si só, um retrato da violência que se cometia contra a arte.
Envolvido com a luta armada, o autor foi preso em 1973. Na
cadeia, conseguiu escrever o livro, que tratava exatamente da
guerrilha e denunciava a tortura. Quando o livro foi lançado, o
autor foi novamente preso e a obra, censurada.

Todos olharam para ele, como se esperassem uma


decisão. A sala do apartamento era pequena e abafada,
estava desarrumada e enevoada pela fumaça dos cigarros.
Os três rapazes transmitiam uma sensação de imenso
cansaço e desânimo. Sentada no chão, Marta o olhava
com os olhos vermelhos, injetados, como se ele pudesse
mudar as coisas. Ele já sabia de tudo, viajara a noite
inteira. Um olhar se desviou para a parede, como se dela
pudesse sair uma informação, um desmentido, uma ajuda.
Ele se sentia seguro e começava a ver que ia ter que
assumir alguma responsabilidade, tomar decisões. O
pessoal estava esgotado e, pelo jeito, faltava uma certa
iniciativa aos companheiros. Claro que o golpe tinha sido
BRANDÃO, Ignácio de Loyola. Zero. São Paulo: Global,
2010. p. 135. (Fragmento).
duro: praticamente todo o Comando Regional preso, pelo
menos dois mortos. Eles tinham limpado os aparelhos,
avisado quem podia ser atingido, mas de repente era como se a iniciativa tivesse acabado. Era preciso pegar
os contatos, reorganizar o Comando com quem soubesse como recontatar todo mundo, programar algumas
ações de emergência para garantir a sobrevivência. Um trabalho enorme a ser feito, e eles ali, olhando para
as paredes. Ele sentiu que ia precisar se integrar no novo Comando e, mesmo difusamente, que tinha a
firmeza e as condições necessárias para isso. Começou a falar, a decidir, a agitar os companheiros. Os olhos
de Marta brilharam de novo, os outros entraram na discussão. Ele ainda precisaria voltar a São Paulo, acertar
as coisas com a organização lá. Mas a decisão tinha sido tomada, ele ia ficar no Comando e tinha um monte
de ideias. Confiava na organização, na sua linha e em si mesmo.
TAPAJÓS, Renato. Em câmera lenta. 2. ed. São Paulo: Alfa-Omega, 1977. p. 22-23. (Fragmento).