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INTERPRETAÇÃO E APLICAÇÃO DAS LEIS

1. O juiz é o intermediário entre a norma e a vida. Ele é o executor e não o criador da lei. É o que aplica o direito.
2. O julgamento é um silogismo em que a premissa maior está na lei, a menor espécie de fato e corolário (dedução
lógica) na sentença.
3. O juiz deve em cada caso achar a norma ou a combinação de normas que se aplica ao fato concreto, fazendo
três indagações:
a. Apurar que o direito existe.
b. Determinar o sentido desta norma jurídica.
c. Decidir se esta norma se aplica ao caso concreto.
4. A averiguação da existência da lei pode ser formal (crítica do texto) ou substancial (controle jurisdicional).
5. O juiz pode exercer a sua crítica.
6. A promulgação é o único meio formal para constatar a existência da lei.
7. O regulamento não pode sair da esfera discricionária que lhe é assinada pelo direito vigente e não pode ditar
normas estranhas ou exorbitantes daquela faculdade discricionária.
8. O que se disse para normas legislativas, vale também para costumes, onde forem reconhecidos.
9. A atividade central que se desenvolve na aplicação da norma de direito é a que tem por objeto a interpretação.
10. Só nos sistemas jurídicos primitivos a letra da lei era decisiva, tendo um valor místico e sacramental.
11. A missão do intérprete é justamente descobrir o conteúdo real da norma jurídica, determinar em toda a
plenitude o seu valor, penetrar o mais que é possível na alma do legislador, reconstruir o pensamento
legislativo.
12. Alguns, por timidez ou inexperiência estão estritamente agarrados ao texto da lei.
13. A interpretação deve ser objetiva, equilibrada, sem paixão, arrojada por vezes, mas não revolucionária, aguda,
mas sempre respeitadora da lei.
14. O jurista há de ter sempre diante dos olhos o fim da lei, o resultado que quer alcançar na sua atuação prática.
15. A interpretação é uma atividade única complexa, de natureza lógica e prática, pois consiste em induzir de certas
circunstâncias a vontade legislativa.
16. Além da interpretação científica, os escritores falam de uma interpretação usual ou legal, quando a
determinação do sentido de uma norma ocorre por via de costume ou por força de outra lei. Esta última chama-
se precisamente interpretação autêntica. A interpretação autêntica tem, por certo, de comum com a
interpretação doutrinal o seu fim.
17. Disto resulta que a chamada interpretação autêntica não é verdadeira interpretação, mas funda a sua eficácia
de modo autônomo na declaração de vontade do legislador: é uma lei com efeito retroativo.
18. Uma lei não pode ser interpretada senão por outra lei.
19. A finalidade da interpretação da lei é determinar o sentido objetivo da lei.
20. A antiga concepção dominante ensinava que a função do intérprete consiste em procurar a vontade do
legislador.
21. A lei é o resultado de uma vontade coletiva.
22. A lei deve conceber-se como um organismo corpóreo (a palavra da lei) penetrado por um impulso espiritual.
23. O conteúdo espiritual da lei não coincide com aquilo que dela pensam os seus artífices (criadores). A lei deve
interpretar-se em si mesma, como incorporando um pensamento e uma vontade própria. Deve-se visar o
sentido que ali está imanente e vivo – a vontade da lei.
24. O intérprete não deve limitar-se a simples operações lógicas, mas tem de efetuar complexas apreciações de
interesses, embora dentro do âmbito legal.
25. Na interpretação da lei, em primeiro lugar se busca o sentido literal; o conteúdo possível da lei.
26. O segundo passo é a interpretação lógica, onde se quer deduzir de outras circunstâncias o pensamento legal,
isto é, de elementos racionais, sistemáticos e históricos.
27. O sentido das palavras estabelece-se com base no uso linguístico, o qual pode ser diverso conforme os lugares e
os vários círculos profissionais. Pode existir um uso linguístico individual do próprio legislador.
28. É preciso que a norma seja entendida no sentido que melhor responda à consecução do resultado que se quer
obter.
29. Pois os caminhos para se chegar a um certo fim podem ser vários, e desse fim não se deduz qual o caminho
preferido; e por outra parte o legislador pode ter-se enganado quanto ao meio que empregou.
30. Precisamos distinguir a circunstância histórica de onde veio o impulso exterior para a criação da lei.
31. Pode acontecer que uma norma ditada para um certo fim adquira função e destino diverso.
32. Um princípio jurídico não existe isoladamente, mas está ligado por nexo íntimo com outros princípios.
33. O preceito singular não só adquire individualidade mais nítida, como pode assumir um valor e uma importância
inesperada caso fosse considerado separadamente, ao passo que em correlação e em função de outras normas
pode encontrar-se restringido, ampliado e desenvolvido.
34. Mesmo quando versa sobre relações novas, a regulamentação inspira-se frequentemente na imitação de outras
relações que já têm disciplina no sistema.
35. No caso onde o sentido das palavras é duvidoso, a interpretação lógica ajuda a fixar o sentido real da lei,
escolhendo um dos sentidos possíveis, que resultam do simples contexto verbal.
36. Na interpretação de expressões de sentido duplo, ou indeterminadas, cabe escolher, na dúvida, o significado
pelo qual o princípio jurídico menos se desvia do direito regular, ou pelo qual se chega a um resultado mais
benigno, do que a um mais rigoroso.
37. Interpretação extensiva – destina-se a corrigir uma formulação estreita de mais.
38. Se pelo contrário a incompatibilidade tem lugar entre uma disposição principal e uma disposição secundária e
acessória, então leva à ineficácia da última, deixando firme a disposição fundamental.
39. A interpretação não se detém uma vez apurado o sentido das normas: compete-lhe ainda desenvolver o
conteúdo das disposições, em todas as suas direções e relações possíveis.
40. Os preceitos jurídicos têm um conteúdo virtual que é função do intérprete extrair e desenvolver.
41. Se a disposição é limitada só a uns casos, para os outros casos não abrangidos deve entender-se o contrário.
42. O argumento “a contrário” propõe-se extrair um pensamento novo não expresso, em antítese com o
estabelecido para o caso regulado, uma segunda norma com conteúdo oposto ao formulado na lei.
43. Em face das lacunas da lei, o juiz não pode furtar-se a julgar, alegando que não existe norma para aplicar ao
caso concreto: a sua recusa equivaleria a uma denegação de justiça.
44. A analogia é, pois, uma aplicação correspondente de um princípio ou de um complexo de princípios a casos
juridicamente semelhantes.
45. Para que se possa recorrer à analogia: é necessário que falte uma precisa disposição de lei para o caso a decidir
e que haja igualdade jurídica, na essência, entre o caso a regular e o caso regulado.
46. A interpretação extensiva não faz mais do que reconstruir a vontade legislativa já existente, para uma relação
que só por inexata formulação dessa vontade parece excluída. A interpretação extensiva revela o sentido
daquilo que o legislador realmente queria e pensava.
47. A teoria das fontes - a lei e o costume não produzem direito, mas todo o direito tem a sua raiz na convicção de
cada um, e o juiz se deve remeter à sua consciência para descobrir livremente o direito.
48. A lei não tem uma vontade no sentido psicológico; mas inegavelmente encerra um querido (voluto), o resultado
da vontade dos órgãos estaduais - a vontade do Estado.
49. O Código Civil Suíço estabelece que no caso de lacunas o juiz deve decidir segundo as regras que adotaria se
fosse legislador.
50. A chamada interpretação evolutiva é sempre mera aplicação, sendo ao mesmo tempo objetiva e atual. Assim,
pode acontecer que uma norma ditada para certa ordem de relações adquira mais tarde um destino e função
diversa. Assim, uma disposição jurídica pode ganhar, com o tempo, um sentido novo.
51. O juiz pode aplicar princípios da lei a casos novos, dar a princípios da lei um sentido novo, desde que não vá de
encontro a outras normas.
52. O juiz deve limitar-se a aplicar as leis – ele poderá se encontrar em momentos trágicos de ter de sentenciar em
oposição ao seu sentimento pessoal de justiça e de equidade, e de aplicar leis “más”.
53. As operações fundamentais da elaboração científica (quantitativa e qualitativa) são três: a análise jurídica, a
concentração lógica e a construção jurídica.
54. A análise jurídica consiste na decomposição da regra de direito nas suas unidades elementares, na separação e
eliminação daquilo que é particular e contingente, e na redução dos preceitos jurídicos a conceitos jurídicos.
Este trabalho de análise é preparatório para uma operação mais complexa, de natureza sintética.
55. Uma vez distinguidos e separados, os elementos do direito devem reunir-se para serem reagrupados segundo
razões intrínsecas de semelhança, de íntima afinidade, e extraindo-se as regras gerais que presidem às soluções
particulares. Uma vez apurado o princípio, ele mesmo se torna em fonte de novas regras de direito.
56. Pode acontecer que um princípio excepcional em certo tempo se torne dominante mais tarde, e vice-versa.
Estas ideias-forças que são os princípios de direito devem sempre manter contato com a vida, sob pena de se
converterem em dogmas estéreis.
57. Entende-se por construção jurídica o procedimento pelo qual se procura colher as qualidades essenciais
características de um instituto, reconduzindo-as a conceitos mais amplos e conhecidos.
58. Uma boa construção jurídica são as seguintes:
a. A construção jurídica há de coincidir exata e inteiramente com o direito positivo, não apoiando-se em
concepções artificiosas e falsas. A ficção é uma síntese figurativa, simbólica.
b. A construção jurídica deve ter unidade sistemática, sem contradições; de modo que, a concepção
teórica não se pode por em conflito com outros princípios e teoremas científicos.
c. A construção jurídica deve ter beleza artística.
59. A educação jurídica não se adquire senão depois de longo hábito de estudo. O leigo não é capaz de tal força de
abstração; não sabe separar o importante do não importante; fica embrulhado no meio duma quantidade de
pormenores que o impedem de conseguir uma exata aplicação dos princípios.
60. Não é a vida que deve adaptar-se ao direito, mas sim o direito à vida.
61. Existe ainda uma capacidade espiritual, um sentimento próprio, e assim se explica como, ao lado da técnica na
aplicação, há também uma aplicação instintiva do direito, por via da qual, sem mais, o prático sente a decisão
justa e a segue.
62. Ao julgar, portanto, o juiz utiliza, e deve utilizar, conhecimentos extra-jurídicos que constituem elementos ou
pressupostos do raciocínio.
63. As normas jurídicas não são imortais, mas sujeitas a modificarem-se e a extinguirem-se.

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