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Notas para dissertação, a partir da leitura de Neve, Lino (2012)

Capítulo 8:
- “visão coletivista” da terra desencadeia ações coletivas de retomadas e
autodemarcação: p. 529
- visão crítica sobre atuação indigenista do Estado impulsionou a adoção da
autodemarcação como mecanismo de pressão sobre este (p. 542)
- “forma mais acabada” da autodemarcação como resposta à inoperância do Estado foi a
experiência kulina no Juruá (p. 550).

Terra de viver x terra qualquer


Ao comentar como as diferenças das concepções de terra para índios e não-índios se
tornam evidentes nos contextos das lutas indígenas pelo reconhecimento dos seus
direitos territoriais, Neves (2012) destaca o caráter mais amplo da expressão “território
de reprodução física e cultural” contida na legislação indigenista. Para os índios,
argumenta o autor, “a terra ocupada é uma ‘terra de viver’”, nos múltiplos, diversos e
complexos sentidos abarcados pela noção de vida aí contida (:524).1 Por esse motivo, a
reivindicação de uma TI não poderia jamais dizer respeito a uma “terra qualquer”,
conclui Neves. Ou seja: trata-se de um contrapondo radical (i.e., desde a raiz da própria
concepção) à ideia de que a terra se encerraria no registro da exploração de recursos.
Explorar mais o ponto sobre ‘terra qualquer’ e o contraste com: inserção dos
rios/floresta; o lado não-indígena também, estendendo para a questão do aproveitamento
hidrelétrico e pegando elementos do Ocekadi para uma breve digressão sobre o modo
Estado/Mercado de conceber a terra/os rios.

Limites e inimigos
O contraste entre as concepções indígenas e não-indígenas de terra se desdobra, na
discussão de Neves, na questão da materialização de limites promovida pela
demarcação física de uma determinada área. Cada povo conhece bem as “fronteiras” de
seu espaço, argumenta o autor, mobilizando a noção kulina (apresentado em Merz,
1997:17) de que os limites da terra estão onde uma pessoa kulina pode ir “sem encontrar
1
“A ‘terra’ é a mãe”, afirma Braz Oliveira França, liderança baré responsável pela
coordenação da demarcação das TIs no médio e alto Rio Negro (Neves, 2012:524).
inimigos”. Do ponto de vista indígena, portanto, o estabelecimento de diferenças
espaciais se dá não apenas pelo traçado de limites físicos, mas por relações sociais de
conflito ou aliança, argumenta Neves (2012:527) – sem, no entanto, estender-se sobre o
assunto.
Força centrífuga.

Itijó Madijá: Os nossos avós andaram nesta terra, eles trabalharam nesta terra.Nós
conhecemos os limites da nossa terra por nossos avós. Não posso dar a terra dos
antecedentes nem dos futuros Madijá porque não sou o dono do que é de todos os
Madijá, do que é da comunidade, dos avós, dos futuros (Merz, 1997: 82).

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