Você está na página 1de 313

© 1984 Living Stream Ministry

Edição para a Língua Portuguesa


© 2003 Editora Árvore da Vida

Título do original em inglês:


Life-Study of Second Corinthians

ISBN 85-7304-182-X — Volume II

1ª Edição — Setembro/2003-7.000 exemplares

Traduzido e publicado com a devida autorização do Living Stream Ministry e todos os


direitos reservados para a língua portuguesa pela Editora Árvore da Vida.

Editora Árvore da Vida


Av. Corifeu de Azevedo Marques, 137
Butantã — CEP 05581-000
TeI.: (11) 3723 6000 — São Paulo — SP — Brasil
Home Page: http://wwvv.arvoredavida.org.br
E-mail: editora@arvoredavida.org.br

Impresso no Brasil

As citações bíblicas são da Versão Revista e Atualizada de João Ferreira de Almeida, 2a


Edição, e Versão Restauração (Evangelhos), salvo quando indicado pelas abreviações:
BJ— Bíblia de Jerusalém
lit. — tradução literal do original grego ou hebraico
IBB-Rev. — Imprensa Bíblica Brasileira, versão Revisada
NVI — Nova Versão Internacional
TB — Tradução Brasileira
VRA — Versão Revista e Atualizada
VRC — Versão Revista e Corrigida de Almeida
ESTUDO-VIDA DE SEGUNDA CORÍNTIOS

MENSAGEM TRINTA E UM

A MANIFESTAÇÃO DA VIDA MEDIANTE O


ANIQUILAR DA CRUZ (1)

Leitura Bíblica: 2Co 4:1-18

DOUTRINA E EXPERIÊNCIA
Os capítulos três e quatro de 2 Coríntios são
diferentes em natureza. O capítulo três é na verdade
um capítulo sobre doutrina. Percebo que para muitos
de nós, doutrina não é uma palavra positiva. Por
causa de nosso passado, um passado religioso cheio
de doutrina, não consideramos doutrina algo
agradável ou prazeroso. Ao dar testemunho numa
reunião da igreja, alguns dizem: “O que quero
compartilhar com vocês não é doutrina. É uma
experiência real e preciosa”. Todos apreciamos o
termo experiência e, sempre que temos
oportunidade, queremos testificar acerca de nossa
experiência do Senhor ou no Senhor. Hesitaríamos
em levantar e dizer: “O que estou para dizer a vocês é
doutrina”. Não obstante, tenho a ousadia de dizer que
o capítulo três de 2 Coríntios fala de doutrina. É claro,
via de regra, doutrina deve envolver experiência. Do
mesmo modo, toda experiência espiritual autêntica
envolve doutrina. Por isso, podemos dizer que 2
Coríntios 3 é um capítulo que fala de doutrina com
um pouco de experiência.
Deixe-me dar-lhe meus motivos para dizer que 2
Coríntios 3 diz respeito a doutrina. Os versículos 8 e 9
falam do ministério do Espírito e do ministério da
justiça. Assim, o ministério da nova aliança é
primeiro do Espírito e depois de justiça. Não se trata
de doutrina? Se formos justos e não influenciados por
um conceito negativo acerca desse termo,
admitiremos que de fato trata-se de doutrina. Uma
vez que a Bíblia é um livro de doutrinas, não podemos
evitá-las ou ignorá-las. No capítulo três,
especificamente, temos a doutrina de que o
ministério da nova aliança é um ministério do
Espírito e de justiça.
O capítulo três, todavia, também contém um
pouco de experiência. Por exemplo, no versículo 18,
Paulo diz: “E todos nós, com o rosto desvendado,
contemplando, como por espelho, a glória do Senhor,
somos transformados de glória em glória, na sua
própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito”. Esse
versículo contém tanto doutrina como experiência.
Embora Paulo fale do ponto de vista da experiência,
ao mesmo tempo sua palavra inclui doutrina.
Se 2 Coríntios 3 é basicamente um capítulo sobre
doutrina, qual é a natureza do capítulo quatro? É um
capítulo sobre experiência. Como sabemos disso? O
versículo 1 nos dá uma indicação de que esse capítulo
diz respeito à experiência: “Pelo que, tendo este
ministério, segundo a misericórdia que nos foi feita,
não desfalecemos”. Paulo aqui se refere a ter “este
ministério”. Mesmo isso se relaciona à doutrina e
também à experiência. Mas não desfalecer é
definitivamente uma questão de experiência.
Mesmo no capítulo quatro, um capítulo sobre
experiência, podemos encontrar doutrina. De modo
semelhante, no capítulo três, um capítulo sobre
doutrina, há experiência. Podemos dizer que 2
Coríntios 3 é doutrinário do ponto de vista da
experiência e que 2 Coríntios 4 fala da experiência do
ponto de vista da doutrina. Ter essa compreensão
desses dois capítulos é essencial para entender o que
abordaremos nesta mensagem.

A MANIFESTAÇÃO DA VIDA
Que tipo de experiência encontramos no capítulo
quatro? Não é a experiência da salvação, justificação
ou perdão. Alguns podem dizer que aí temos a
experiência da cruz. Contudo, falar assim negativo
demais. O que encontramos aqui é a manifestação de
vida. Esse capítulo trata da experiência da
manifestação da vida.
Os cristãos podem ler 2 Coríntios 4 sem perceber
que esse capítulo trata da manifestação da vida. Os
versículos 10 e 11 dizem: “Levando sempre no corpo o
morrer de Jesus, para que também a sua vida se
manifeste em nosso corpo. Porque nós, que vivemos,
somos sempre entregues à morte por causa de Jesus,
para que também a vida de Jesus se manifeste em
nossa carne mortal”. Nesses versículos Paulo não usa
o adjetivo manifestado. Antes, ele usa o verbo
manifestar-se. Há diferença entre o que é
manifestado e o que se manifestada. O adjetivo
manifestado não envolve experiência ou processo.
Mas manifesta-se envolve um processo ou
procedimento. Nesses versículos, Paulo não diz que a
vida de Jesus é manifesta. Se tivesse dito isso,
nenhum processo ou procedimento estaria envolvido.
Não haveria necessidade de passar por coisa alguma
em nossa experiência. Mas quando Paulo fala que a
vida de Jesus se manifesta em nós, isso envolve um
processo. Para a vida de Jesus manifestar-se é preciso
haver um processo, um procedimento. Em 4:10-12,
podemos definitivamente ver a manifestação da vida.
Isso indica que esse capítulo diz respeito à
experiência da manifestação da vida.
A manifestação da vida vem por intermédio do
aniquilar da cruz. Por esse motivo, o título desta
mensagem é “A Manifestação da Vida mediante o
Aniquilar da Cruz”. Naturalmente, no capítulo quatro
não encontramos a palavra cruz. Não obstante, o
conceito da cruz está implícito. Por exemplo, o “o
morrer de Jesus” no versículo 10 certamente implica
a cruz. A morte de Jesus não é a mesma coisa que o
morrer de Jesus. Não devemos pensar que morrer é o
mesmo que morte. Não; há pelo menos uma diferença
entre eles. A experiência da manifestação da vida
relaciona-se com o morrer de Jesus.
Depois de apresentar o ministério da nova
aliança de forma um pouco doutrinária no capítulo
três, Paulo passa a apresentar a experiência de um
ministro da nova aliança no capítulo quatro. Ao fazer
isso, por que será que ele se refere ao morrer de Jesus
para que Sua vida se manifeste? Indubitavelmente,
Paulo e os outros apóstolos tinham muitas
experiências. Por que, então, ele apresenta essa
experiência específica no capítulo quatro? O ponto
central desse capítulo nada mais é que a manifestação
da vida mediante o aniquilar da cruz. No capítulo
três, ele nos diz o que é o ministério da nova aliança.
Depois, no capítulo quatro, ele testifica desse
ministério pela sua experiência. A fim de testificar do
ministério da nova aliança, o ministério do Espírito e
da justiça, era necessário que ele apresentasse a
experiência da manifestação da vida por intermédio
do aniquilar da cruz.
O MINISTÉRIO CONFIRMADO
Em 4:1, Paulo diz: “Pelo que, tendo este
ministério, segundo a misericórdia que nos foi feita,
não desfalecemos”. Suponha que ele tivesse redigido
esse versículo de forma diferente e tivesse dito assim:
“Portanto, tendo esse serviço, segundo a abundante
graça que recebemos, somos consolados”. Será que
essa redação confirmaria o que Paulo diz no capítulo
três? Claro que não. Não haveria beleza ou riquezas
para corresponder às questões abordadas no capítulo
três. Em 2 Coríntios 3, Paulo aborda alguns pontos
maravilhosos: o ministério do Espírito, o ministério
da justiça, a transformação de glória em glória. No
capítulo quatro há algo que corresponde a cada um
desses itens, e que descreve o maravilhoso ministério
da nova aliança, o ministério do Espírito, da justiça,
da transformação de glória em glória. Esse
ministério, descrito de forma doutrinária no capítulo
três, precisa ser confirmado. No capítulo quatro,
Paulo confirma, do ponto de vista da experiência, os
itens que ele acabara de falar acerca do ministério da
nova aliança.
Alguém que lesse o capítulo três poderia dizer:
“Paulo, você acabou de nos dizer o que é o seu
ministério. É do Espírito e da justiça, e visa a
transformação de glória em glória. Isso é
maravilhoso, mas você pode confirmar para nós esse
excelente ministério pela sua experiência? pode
indicar-nos alguma experiência como confirmação do
seu ministério?” Quase se antecipando a tais
indagações, Paulo parece dizer: “No capítulo
seguinte, o capítulo quatro, vou contar a vocês a
minha experiência”. O que ele diz no capítulo quatro
acerca de sua experiência, portanto, tem de enfatizar
os itens cruciais abordados no capítulo três. Isso quer
dizer que tem de ressaltar algo relacionado com o
Espírito, justiça, transformação e glória. Ao ler o
capítulo quatro, precisamos encontrar os pontos que
correspondem a todos esses itens do capítulo três.
No capítulo quatro, que corresponde ao Espírito
no capítulo três? Não seria correto dizer que é o
“espírito da fé” mencionado no versículo 13, porque
se refere a outra coisa. A resposta é: vida. Vida nesse
capítulo é um sinônimo do Espírito. No capítulo
acerca de doutrina, Paulo fala do Espírito, mas, no
capítulo a respeito de experiência, ele fala de vida.
Vida na doutrina é o Espírito, e o Espírito em nossa
experiência é vida.
Podemos usar a diferença entre alimento cru e
alimento cozido para ilustrar a diferença entre o
Espírito e a vida. Antes de preparar uma refeição, o
que temos à mão são alimentos crus, os quais não
comemos; comemos, sim, o alimento cozido. A
doutrina pode ser comparada a alimentos crus e
nossa experiência espiritual ao alimento cozido que
comemos. O Espírito em 2 Coríntios 3 é o “alimento
cru”, mas a vida no capítulo quatro é a “comida
cozida”. Assim, podemos dizer que vida é o Espírito
“cozido” ou processado para nossa experiência. Além
disso, somos todos cozinheiros. Toda vez que
cozemos o Espírito, Ele se toma vida para nós. Por
isso, agora desfrutamos comida cozida. Isso quer
dizer que a vida no capítulo quatro é o Espírito
processado. Depois de processado e cozido, o Espírito
se toma vida para nós em nossa experiência.
Por enquanto, não procuraremos descobrir que
elemento no capítulo quatro corresponde a justiça no
3. Em vez disso, vamos perguntar o que corresponde
a transformação. Assim como vida é sinônimo de
Espírito, também renovar-se é sinônimo de
transformar-se. Paulo fala de renovação no versículo
16, ao dizer que “o nosso homem interior se renova de
dia em dia”. Embora transformação e renovação
sejam sinônimos, ainda há uma diferença entre eles.
Transformação envolve um processo. Quando o
processo de transformação ocorre, toma-se
renovação.
Qual é o sinônimo no capítulo quatro para glória
no 3? Na verdade, não há sinônimo. Não importa
quanto seja processada, glória continua sendo glória.
Tanto no capítulo três como no 4 Paulo fala de glória.
Entretanto, a glória no capítulo três não tem tanto
peso quanto a do 4. Em 4:17, Paulo fala de “eterno
peso de glória”. A glória do capítulo três tem peso
dispensacional nesta era, mas a da capítulo quatro
tem peso eterno. Em outras palavras, no capítulo três,
glória tem peso para esta era, mas no capítulo quatro,
tem peso para a eternidade. Devemos lembrar-nos
que 3:18 fala que a glória é de um grau para outro.
Indubitavelmente, a glória no capítulo quatro é o grau
mais desenvolvido. Pelo menos, tem nível mais
elevado do que a do capítulo três.
No capítulo três, os itens sobre o Espírito,
transformação e glória são meio doutrinários, mas no
capítulo quatro, os pontos equivalentes são
experimentais. Como vimos, o Espírito torna-se vida,
transformação toma-se renovação, e a glória
dispensacional toma-se glória eterna.

O ESPÍRITO E VIDA
A manifestação de vida equivale à manifestação
do Espírito. Em 3:8, Paulo diz que seu ministério; o
ministério da nova aliança, é do Espírito. No capítulo
quatro, ele apresenta uma confirmação experimental
disso. Nesse capítulo, ele parece dizer: “Deixem-me
confirmar-lhes que meu ministério é do Espírito.
Quando fui a vocês, vocês não viram algo manifestado
em mim? Que vocês viram? religião judaica? práticas,
hábitos e costumes judaicos? Não; vocês não viram
nenhuma dessas coisas. Vocês, coríntios, têm de
admitir que o que viram em mim foi a manifestação
da vida, e não de uma religião, filosofia, costume ou
prática judaica”. A vida manifestada em Paulo era o
Espírito experimentado, o Espírito processado, o
Espírito que fora “cozido”.
Quando estava com os coríntios, Paulo era cheio
de vida e poder, mas também era bondoso, humilde e
tolerante. Todas essas virtudes eram parte da
manifestação do Espírito que ele experimentava. Seu
ministério era o ministério do Espírito manifestado
nele como vida. Portanto, ele era cheio de vida. A vida
não só se manifestava nele, como também operava
nos crentes em Corinto.
A vida podia ser manifestada em Paulo porque
ele experimentava o aniquilar da cruz. Suponha que
Paulo não tivesse quaisquer problemas, tribulações,
oposição ou perseguição. Suponha que ele também
fosse forte fisicamente e nunca tivesse quaisquer
problemas de saúde. Se tivesse sido esse o caso,
provavelmente não teria havido a manifestação da
vida em Paulo, mas quando Paulo estava com os
coríntios, ele realmente teve problemas e
dificuldades, e encontrou oposição e perseguição. Às
vezes, até mesmo os santos em Corinto lhe causavam
problemas. Ele sabia que se tudo fosse fácil e
agradável, não seria possível ter a mesma
manifestação de vida.
Quando estamos numa situação confortável, há
menos oportunidades de a vida se manifestar, mas
quando sofremos oposição, perseguição e críticas,
quando temos problemas de saúde e somos
atribulados pelos santos na igreja, estamos numa
situação adequada para a manifestação da vida.
Quando estava com os coríntios, Paulo estava nessa
situação. Isso lhe proporcionava excelente
oportunidade para que o Espírito, em seu interior, se
manifestasse como vida.
Nos versículos 8 e 9, Paulo chama a atenção para
a situação difícil em que estava. Ele diz: “Em tudo
somos atribulados, porém não angustiados;
perplexos, porém não desanimados; perseguidos,
porém não desamparados; abatidos, porém não
destruídos”. Nesses versículos, ele menciona quatro
coisas. Primeiro, diz que eram atribulados em tudo,
ou de todas as formas, porém não angustiados. A
versão chinesa diz que eram atacados de todos os
lados, das quatro direções: de frente, por trás, pela
direita e pela esquerda. Não obstante, não ficaram
angustiados, ou confinados. Isso indica a vida. Não
ficar angustiado em tal situação é ter a manifestação
da vida.
Segundo, Paulo diz que estavam perplexos, isto é,
incapazes de encontrar saída, mas não desanimados.
Os apóstolos foram encarcerados; não tinham saída.
Todavia, não estavam totalmente sem saída. Essa
parte do versículo 8 contém um jogo de palavras no
grego. Primeiro, ele fala sobre ser incapaz de
encontrar saída, e depois de não ser totalmente
incapaz de encontrar saída. Novamente, isso é vida.
Aparentemente eles eram incapazes de descobrir a
saída, mas, por causa do Espírito neles corno vida,
não eram totalmente incapazes de encontrar a saída.
Terceiro, Paulo diz que eram perseguidos, mas
não desamparados. Isso significa que eram
perseguidos por inimigos, mas não foram
abandonados, desertados; isto é, não foram deixados
para trás num apuro maligno.
Finalmente, no versículo 9, Paulo diz que foram
abatidos, porém não destruídos. Embora tivessem
sido abatidos, não pereceram.
Paulo foi atribulado, ficou perplexo, foi
perseguido e abatido. Tudo isso proporcionou uma
oportunidade para a vida se manifestar. A vida vence
todas essas coisas. Embora experimentasse
tribulação, perplexidade, perseguição e abatimento,
Paulo ainda estava muito vivo. Ele não estava
angustiado nem desanimado, e não estava
desamparado nem destruído. A vida com certeza se
manifestou nele.

O VIVER DE PAULO E SEU MINISTÉRIO


Ao apresentar a própria experiência corno
confirmação do seu ministério, Paulo indicou que ele
e seu ministério eram um. O que ele era e o que vivia
eram seu ministério. O ministério era o que ele era e
não apenas o que fazia ou a obra que realizava. Ele
vivia de tal maneira que seu viver era a confirmação
do seu ministério. O ministério de Paulo era do
Espírito, e seu viver era cheio de vida. lss quer dizer
que seu viver era a manifestação do Espírito
processado, “cozido”. Ele vivia pelo Espírito e a vida
saía dele. A vida foi manifestada e ministrada aos
coríntios. Quando ela entrou neles, imediatamente se
tomou o Espírito. Então, quando expressaram o
Espírito, Ele se tomou vida para os outros. Essa foi a
confirmação do ministério da nova aliança de Paulo.
Em 2 Coríntios 4, Paulo parece dizer aos
coríntios: “Nosso viver e nosso ser são a confirmação
de nosso ministério. Nós e o ministério somos um.
Isso quer dizer que somos o ministério. Ele é nosso
ser, nossa pessoa, nosso viver. O que vivemos é a
confirmação dele. Eu disse a vocês que o ministério é
do Espírito. Agora confirmo isso testificando-lhes da
minha experiência da manifestação da vida numa
situação difícil”.

ATRIBULADOS POR TODOS OS LADOS


Às vezes o Senhor permite que fiquemos numa
situação em que somos atribulados por todos os
lados. Você se sente feliz quando está em tal
ambiente? Às vezes é corno se o Senhor nos atirasse
no meio dessa circunstância, uma circunstância em
que somos atacados pela frente e por trás, pela
esquerda e pela direita. Somos atribulados de todas
as formas, isto é, de acordo com o sentido do grego,
de todos os lados. Isso visa à manifestação da vida.
Talvez você fique a imaginar quem são os que
atacam, os que causam tribulação de todos os lados.
Os que mais o atacam podem ser os de sua própria
família. Seu cônjuge, filhos e parentes de seu cônjuge
podem tomar as coisas difíceis para você. Se clamar
ao Senhor por misericórdia, Ele pode deixar claro que
a maior misericórdia é estar em tal situação a fim de
ter a manifestação da vida.
Vida, o Espírito “cozido”, é a expressão do
Espírito. Por isso, visto que Paulo manifestou vida,
seu viver e ser eram a confirmação do seu ministério.
Ele e o ministério do Espírito eram um.
No capítulo três Paulo dá a entender que os
apóstolos eram todos um com seu ministério. Então,
no capítulo quatro, ele apresenta uma vida que
confirma essa afirmação. O que são e o que vivem são
seu ministério. Eles ministram vida aos outros, não
meramente falando, mas muito mais vivendo. Seu
viver confirma seu falar e fortalece seu ministério.
Assim, os ministros e o Espírito são um.
ESTUDO-VIDA DE SEGUNDA CORÍNTIOS

MENSAGEM TRINTA E DOIS

A MANIFESTAÇÃO DA VIDA MEDIANTE O


ANIQUILAR DA CRUZ (2)

Leitura Bíblica: 2Co 4:1-18


Na mensagem anterior enfatizamos que 2
Coríntios 3 é um capítulo que fala de doutrina e 2
Coríntios 4 fala de experiência. Além do mais, vimos
que o que Paulo fala no capítulo quatro é uma
confirmação em sua experiência do que ele diz acerca
do ministério no capítulo três. Para cada um dos itens
principais a respeito do ministério no capítulo três,
há um ponto correspondente no capítulo quatro.
Assim, vida corresponde a Espírito, renovação a
transformação, peso de glória a graus de glória. Mas a
que corresponde justiça em 2 Coríntios 3? A fim de
responder a essa pergunta adequadamente,
precisamos falar um pouco mais acerca de justiça.

TUDO EM BOA ORDEM


Justiça refere-se a uma condição, um estado, em
que tudo está em boa ordem. Onde quer que haja
justiça, não há perturbação, confusão ou tumulto. Por
exemplo, numa reunião da igreja, freqüentemente
podemos ver justiça porque ali tudo está certo e em
boa ordem. Como conseqüência, a reunião está numa
condição, ou estado, de justiça. Mas suponha que os
irmãos estejam a discutir, as irmãs, zangadas e as
crianças a correr ao redor do salão de reuniões. Que
bagunça não haveria! Em tal situação, uma condição
de tumulto, não haveria justiça nenhuma. Justiça
refere-se a um estado em que tudo está em boa
ordem.
Segunda Pedro 3:13 diz: “Nós, porém, segundo a
sua promessa, esperamos novos céus e nova terra,
nos quais habita justiça”. O fato de a justiça habitar
no novo céu e nova terra indica que tudo estará em
boa ordem, que nada estará errado, desarranjado ou
tumultuado. Em vez de tumulto e confusão, haverá
paz e ordem. Aos olhos de Deus, tal estado é justiça.
Toda a condição nos novos céus e nova terra será de
justiça. Nada estará desordenado; antes, tudo estará
em boa ordem. Essa condição de ordem é uma
condição de justiça.
Em 4:8, Paulo fala de ser atribulado de todas as
maneiras ou atacad6 de todos os lados; mas, não
importa quanto fosse atribulado ou atacado, nele não
havia inquietação; antes, havia a manifestação de
vida. Essa manifestação produziu uma condição de
paz e calma.
Suponha que você seja atribulado de todos os
lados pelo seu cônjuge, pelos seus filhos e pelos
parentes de seu cônjuge. Entretanto, em vez de ficar
perturbado ou inquieto, você manifesta vida. Isso
significa que vida brota de você nessa situação. Como
resultado, sua condição será de paz e ordem. A
despeito da perturbação que lhe vem de todos os
lados, você permanece nessa condição de ordem e
paz. O Espírito processado, o Espírito “cozido”,
experimentado por você como vida, acalma toda a
situação. Isso é justiça.
Em 4:8-9, Paulo fala de ser atribulado, estar
perplexo, ser perseguido e abatido. É de se esperar
que uma situação assim resulte em perturbação, mas
se você se encontrar em tal situação e ainda assim
tudo fica calmo e em ordem, isso é a manifestação da
vida. Além disso, esse estado de ordem é um estado
de justiça.

CHEIO DE VIDA E JUSTIÇA


Sempre que o Espírito for expresso como vida
haverá justiça. Onde houver justiça, tudo estará
calmo, em paz e em ordem. Se você experimentar isso
na vida familiar, seus filhos serão acalmados e seu
cônjuge, subjugado. Tal vida sempre acalma os
alvoroços. Quando os outros recebem essa vida de
você, também desfrutarão uma condição de paz.
A vida da igreja é uma vida de justiça. Nela tudo
deve ser calmo, tranqüilo e ordenado. Com certeza, o
milênio, o reino de mil anos, será cheio de justiça.
Visto que haverá justiça no reino, haverá também
paz. O reino é simplesmente uma esfera de justiça
com paz. Essa justiça é o resultado da vida.
De acordo com a Bíblia, no milênio, a morte será
grande mente reduzida e restringida (Is 65:20).
Haverá abundância de vida. Como conseqüência, o
ambiente no milênio será de paz. A Bíblia usa o termo
justiça para denotar esse estado e condição de paz.
Depois do milênio, haverá o novo céu e nova
terra com a Nova Jerusalém, onde não haverá morte,
e a vida fluirá para manter uma condição de paz (Ap
21:4; 22:1). Será uma justiça eterna. Então todos
expressaremos a vida divina num estado de justiça. A
vida da igreja hoje deve ser uma miniatura dessa
condição. O mesmo deve ocorrer na vida familiar.
Pela misericórdia e graça do Senhor, nossa vida da
igreja e familiar devem ser cheias de vida e justiça.
Um viver cheio de vida e justiça é confirmação do
ministério da nova aliança. Segundo a palavra de
Paulo em 2 Coríntios 3, o ministério da nova aliança é
um ministério do Espírito e de justiça. Ele supre
Cristo como o Espírito e justiça aos outros. Em 2
Coríntios 4, Paulo apresenta a experiência do Espírito
e de justiça. Quando experimentamos o Espírito, a
vida se manifesta. Quando a vida se manifesta, somos
introduzidos numa condição de paz, em que nada
está errado ou fora de ordem. Isso é justiça, um
estado em que tudo é vivo, certo e está em ordem. Aos
olhos de Deus, isso é justiça. Os apóstolos
experimentaram o Espírito, manifestaram vida e
viveram numa condição de justiça. Outra vez vemos
que seu viver e ministério eram uma coisa só.

SER CONSUMIDO
Vimos que renovação no capítulo quatro
corresponde a transformação no capítulo três. Em
4:16, Paulo diz: “Por isso, não desanimamos; pelo
contrário, mesmo que o nosso homem exterior se
corrompa, contudo, o nosso homem interior se
renova de dia em dia”. A tradução “nosso homem
exterior se corrompa” é correta. Todavia, muitos
preferem dizer que nosso homem exterior é
consumido, gasto, esgotado. Devemos entender o
verbo “corromper-se” na voz ativa, e não passiva.
Podemos usar a queda das folhas da árvore como
ilustração. No outono, muitas árvores perdem as
folhas, e no inverno elas hibernam. Por um lado, a
queda das folhas da árvore é ativa, mas em outro
sentido é passiva. É ativa no sentido de que as árvores
perdem, as folhas. Nenhuma força externa faz com
que as folhas caiam. E a própria árvore que as deixa
cair. Podemos dizer que quando uma árvore deixa
cair as folhas, ela se corrompe. Isso é ativo. Mas em
outro sentido, as árvores são forçadas a deixar cair as
folhas. Se pudesse falar, a árvore talvez dissesse:
“Socorro! Não quero perder as folhas. Gostaria que a
estação passasse de outono diretamente para
primavera. Minhas folhas, então, não se perderiam”.
O fato de a árvore perder as folhas também pode ser
considerado como passivo. A palavra de Paulo “nosso
homem exterior se corrompa” é ativo, mas também
pode ser entendido como se fosse voz passiva. Assim,
podemos dizer que nosso homem exterior é
consumido ou desgastado.
Vamos agora aplicar essa compreensão à
experiência diária. Suponha que um irmão seja
atribulado de todos os lados. Com certeza, quem é
atribulado e atacado dessa forma seria desgastado,
consumido. Se fosse você que passasse por tal
tribulação, não gritaria e diria: “Por favor,
salvem-me. Estou sendo consumido. Todos vocês me
desgastam e esgotam. Sou consumido por todos
vocês”? Não obstante, esse irmão, e todos nós,
precisamos perceber que, assim como uma árvore
perde as folhas, também nosso destino é que o
homem exterior seja consumido.
Aquele que criou as árvores determinou que
muitos tipos de árvores perdessem as folhas. Como
“árvores” cristãs, também fomos destinados a “perder
as folhas”. Uma vez que esse é nosso destino, por fim
algo ou alguém nos impelirá a deixá-las cair. Deus
nunca teve intenção de deixar que nosso homem
exterior sobrevivesse por muito tempo; antes,
determinou que o velho homem, nosso homem
exterior, se corrompesse, fosse consumido. Portanto,
o destino do nosso homem exterior é morrer. Você
pode viver por muitos anos, mas por fim seu homem
exterior morrerá. Não é intenção de Deus prolongar a
vida dele. Por isso, não clame por ajuda a fim de
preservá-lo e não peça para ser salvo das coisas ou
pessoas que o consomem. Antes, diga: “Senhor, eu Te
dou graças. Todas essas pessoas e coisas me ajudam a
deixar cair as folhas mais cedo e mais rápido. Senhor,
quero cooperar. Quero perder as folhas mais cedo,
porque, então, amadurecerei mais cedo. Senhor, eu
Te louvo por essa ajuda!”
O Senhor usa a vida conjugal para consumir
nosso homem exterior. Antes de se casar, um jovem
pode sonhar com o tipo de irmã que vai desposar. Vai,
então, em busca da pessoa que será o cumprimento
de seu sonho. De modo semelhante, as jovens estão à
procura de um “príncipe encantado” como marido.
Todos sonham com a futura vida conjugal. Alguns
podem viajar de uma igreja local para outra,
esperando encontrar o irmão ou irmã de sua escolha.
Contudo, jovens, não importa quão espertos sejam,
vocês não podem derrotar Deus. Ele já determinou
seu destino com relação à vida conjugal. Não há
necessidade de que gastem tanta energia em busca da
esposa ou marido dos sonhos. Antes, simplesmente
orem: “Senhor, Tu já determinaste o meu destino.
Não preciso viajar de um lugar para outro, em busca
do meu cônjuge. Gostaria, pelo contrário, de ser o
Isaque de hoje, à espera de que me envies a mulher
que destinaste para mim”. Entretanto, é pouco
provável que muitos jovens façam isso ou acatem essa
palavra. Mas estou certo de que depois de alguns anos
de vida conjugal, adorarão ao Senhor e dirão:
“Senhor, Tu és soberano. Não foi minha escolha, mas
Tua destinação”.
Irmãos, eu lhes asseguro que o Senhor lhes dará
a esposa mais conveniente a fim de atribulá-lo e até
atacá-lo para que seu homem exterior seja
consumido. Toda mulher sabe a melhor hora de
atacar o marido. Isso com certeza é a soberania do
Senhor. Às vezes, quando você comete um erro, sua
esposa pode ser muito bondosa para com você e
dizer-lhe que não fique preocupado com isso, mas
quando você não cometeu erro nenhum, ela pode
atacá-lo com muito vigor e sem motivo. Na verdade,
há um motivo: Deus em Sua soberania permite que
ela faça isso a fim de que você, como uma árvore,
deixe cair as folhas.
Por um lado, a árvore perde as folhas por si só;
por outro, a estação e o ambiente a forçam a isso.
Quando chega o outono, ela tem de perder as folhas,
não importa quão verde e florescente tenha sido no
verão. De modo semelhante, quando o outono e o
inverno chegam na vida cristã, podemos ser
atribulados pelos familiares. Em época de frio muito
severo, seremos forçados a perder as folhas. Isso quer
dizer que, por um lado, nosso homem exterior se
corrompe e que, por outro, é consumido.
Quando experimentamos a corrupção do homem
exterior, podemos dizer ao Senhor que não
conseguimos agüentar mais. O Senhor, entretanto,
pode deixar claro que vamos agüentar isso por mais
algum tempo porque nosso destino é ter o homem
exterior consumido. Essa é minha maneira de
entender essa questão, de acordo com a experiência.

A RENOVAÇÃO DO HOMEM INTERIOR


Também pela experiência posso testificar que
algo resulta desse corromper, desse consumir: a
renovação do homem interior. Sim, o homem exterior
se corrompe, mas o homem interior se renova. Se
tivéssemos escolha, é claro, escolheríamos a
renovação e evitaríamos a corrupção, mas se
pudéssemos evitar a corrupção do homem exterior,
não haveria a renovação do homem interior. Todos
preferimos ser como as sempre-verdes 1 . Em certo
sentido, quando chega a primavera, uma
sempre-verde não está muito cheia de frescor, mas as
que perdem as folhas e hibernam no inverno ficam
cheias de frescor. No mesmo princípio, quando
experimentamos a corrupção do homem exterior,
desfrutamos a renovação do homem interior.
Em 2 Coríntios 3, Paulo fala de transformação.
No processo de transformação, um elemento divino é
acrescentado ao nosso ser e com ele somos
constituídos. Essa constituição produz
transformação. Como vimos, em 2 Coríntios 4,
transformação torna-se renovação. Essa renovação
não envolve apenas o acréscimo do elemento divino
ao nosso ser. A velha natureza, o homem exterior, é,
na verdade, removido para que a vida em nós, isto é, o
Espírito da vida, tenha oportunidade de se
desenvolver. Esse desenvolvimento da vida interior é
a renovação. Novamente podemos usar as árvores
como ilustração. No inverno, elas hibernam, mas na
primavera podemos ver o desenvolvimento da vida
interior. Isso não é só transformação, mas também
renovação.
Transformação é questão de constituição;
renovação envolve substituição. Ser renovado

1
Diz-se de planta que permanece verdejante durante as estações frias, como o pinheiro, e quase todas
as espécies tropicais, e cujas folhas são persistentes (Dicionário Aurélio). (N.T.)
significa que o homem exterior é consumido. Assim
como a árvore perde as folhas, também o velho
elemento do homem exterior se corrompe. O
resultado é que a vida interior se desenvolve de
maneira cheia de frescor. Quando chega a primavera,
a árvore torna-se viva, nova e vigorosa. Folhas novas
brotam e posteriormente a árvore floresce e dá frutos.
Isso é um quadro da renovação do homem interior.
Por meio dessa experiência de renovação,
prosseguimos de glória em glória. A glória é elevada
de um nível para outro, da glória atual para a glória
eterna.
ESTUDO-VIDA DE SEGUNDA CORÍNTIOS

MENSAGEM TRINTA E TRÊS

O MORRER DE JESUS E A RENOVAÇÃO DO HOMEM


INTERIOR (1)

Leitura Bíblica: 2Co 4:10-18


Vimos que, como continuação de 2 Coríntios 3, o
capítulo quatro apresenta o quadro de uma vida que
capacita os ministros da nova aliança a ser um com
seu ministério. Como poderiam os apóstolos provar
que eram ministros da nova aliança? Pelo viver
descrito no capítulo quatro. É por esse viver que eles
são um com seu ministério.
Em 2 Coríntios 4, Paulo não fala de sua obra. Não
se refere ao que fez ou realizou. Pelo contrário, fala de
uma vida, um viver que ele e seus cooperadores
tinham. De acordo com esse capítulo, ele e seus
cooperadores viviam de tal maneira que sua vida se
tomou seu ministério.

O NOME DE JESUS
Ao apresentar o seu viver como ministro da nova
aliança, Paulo usa o nome Jesus de maneira muito
especial. Em nenhum outro lugar, em seus escritos,
ele usa o nome Jesus da maneira que o faz em 2
Coríntios 4. No versículo 10, Paulo diz: “Levando
sempre no corpo o morrer de Jesus, para que também
a sua vida se manifeste em nosso corpo”. Ele aqui se
refere à morte e à vida de Jesus. O versículo 11
prossegue: “Porque nós, que vivemos, somos sempre
entregues à morte por causa de Jesus, para que
também a vida de Jesus se manifeste em nossa carne
mortal”. Ele também usa o nome Jesus no versículo
14: “Sabendo que aquele que ressuscitou o Senhor
Jesus também nos ressuscitará com Jesus e nos
apresentará convosco”. Nesses versículos, ele
repetidas vezes usa o nome Jesus.
É importante descobrir por que nesse capítulo
Paulo usa o nome de Jesus de modo tão específico.
Não é fácil explicar o motivo; na verdade, pode haver
mais de um. Nesta mensagem, vamos começar a
considerar por que Paulo usa o nome Jesus da forma
que o faz em 2 Coríntios 4.

UM REGISTRO DE VIDA
Já enfatizamos que, no capítulo quatro, Paulo
retrata o seu próprio viver e o dos seus cooperadores.
Essa é a vida que os fez um com seu ministério. Essa
vida contrasta com as obras enfatizadas pelos cristãos
de hoje.
O cristianismo tornou-se uma religião. Toda
religião depende de certas obras, porque sem obras
ela não pode sobreviver. Uma religião não consegue
existir, a menos que seus adeptos executem certas
obras. Como resultado, na religião temos obras de
muitos tipos. Embora seja fácil ressaltar as obras da
religião, é muito difícil encontrar algo que provenha
da vida. Assim, um princípio básico da religião é que
ela é cheia de obras, mas carente de vida. Isso ocorre
não só com relação à religião cristã' mas a qualquer
religião. Toda religião é cheia de obras, atividades e
ações; porém, não há vida.
Compreendendo a religião sob esse ângulo,
vamos outra vez olhar para a história de Jesus.
Quando consideramos o registro da vida do Senhor
na terra, vemos que a ênfase não está nas obras. Os
quatro Evangelhos não salientam o que o Senhor fez,
que obras realizou. Antes focalizam principalmente
um registro de vida. A ênfase dos Evangelhos está na
vida, e não em obras ou atividades. São biografias que
apresentam uma Pessoa com um viver específico. Por
isso, não são primordialmente uma narrativa dos
prodígios do Senhor, mas uma descrição do Seu viver
na terra. Esse é um dos motivos de Paulo, em 2
Coríntios 4, usar o nome Jesus com tanta freqüência.
O uso desse nome no capítulo quatro nos leva de volta
ao Senhor como um homem cuja vida estava em
unidade com Seu ministério. O Senhor viveu de tal
forma que Sua pessoa era uma com Seu ministério. A
rigor, o Senhor não realizou uma obra; antes,
simplesmente teve certo tipo de viver.
Quando ouvem que os Evangelhos enfatizam a
vida do Senhor e não Suas obras, alguns talvez
argumentem: “Irmão Lee, os Evangelhos também não
nos dão uma narrativa das obras do Senhor Jesus?”
Certamente sim. Não nego que eles descrevem a obra
do Senhor, mas se lê-los cuidadosamente, verá que o
quadro neles não foi pintado como narrativa das
obras do Senhor. Pelo contrário, foi pintado para
expressar a vida do Senhor. Pelo menos, nesse
quadro, a vida do Senhor Jesus é apresentada de
forma mais enfática do que Suas obras. Os
Evangelhos nos mostram mais da vida do Senhor do
que de Sua obra. Sim, eles descrevem as obras do
Senhor, mas muito mais apresentam a vida que Jesus
teve e nos mostram de que maneira Ele viveu.
Há muitas indicações nos Evangelhos de que o
Senhor Jesus não se preocupou em realizar uma
grande obra. Sabemos que em Seu ministério, Ele fez
muitos milagres. Um deles foi o de alimentar uma
multidão de mais de cinco mil com cinco pães e dois
peixes. O Senhor Jesus alimentar tal multidão com
cinco pães e dois peixes não foi um milagre
maravilhoso? Certamente foi um grande milagre.
João 6:14 descreve a reação das pessoas a esse
milagre: “Vendo, pois, os homens o sinal que Ele
fizera, diziam: Este é verdadeiramente o Profeta que
havia de vir ao mundo”. O versículo seguinte descreve
a resposta do Senhor Jesus: “Sabendo, pois, Jesus
que estavam para vir e arrebatá-Lo para O fazerem
Rei, retirou-se novamente Ele sozinho, para o
monte”. Isso indica que o Senhor Jesus não se
importava em ter uma grande quantidade de
seguidores. Em vez de se importar com a multidão,
Ele foi embora. Mas se estivéssemos lá com Ele,
provavelmente ficaríamos empolgados ao ver a
multidão a segui-Lo. Talvez louvássemos a Deus por
Sua bênção sobre essa obra, agradecendo-O porque
tantos O seguiam. O Senhor Jesus, entretanto, não
ficou empolgado. Ele não permitiria que as pessoas O
fizessem rei. Ele deixou a multidão e foi ao monte
orar.
Outro exemplo de o Senhor se importar com vida
e não com obra é encontrado em João 12. Em
Jerusalém, grande multidão Lhe deu calorosas
boas-vindas. Eles tomaram folhas de palmeiras e
saíram ao Seu encontro, exclamando: “Hosana!
Bendito o que vem em nome do Senhor, o Rei de
Israel!” (Jo 12:13). Até mesmo os fariseus admitiram
que o mundo ia após Ele (v. 19). Além do mais,
quando André e Filipe disseram ao Senhor que os
gregos O procuravam, Ele respondeu: “É chegada a
hora de ser glorificado o Filho do Homem. Em
verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo não
cair na terra e morrer, fica ele só; mas se morrer,
produz muito fruto” (vs. 23-24). Isso indica
claramente que Ele se importava com vida, e não com
obra. Nos quatro Evangelhos há muitas ilustrações
desse fato. Toda vez que pessoas, conforme seus
conceitos, pensavam que era a oportunidade certa de
o Senhor realizar uma grande obra, Ele nunca tirava
vantagem disso. Em vez disso, Ele ia embora. Ele não
viera fazer uma grande obra. Seu objetivo era a vida.

QUALIFICADO PELA VIDA


Aquele que foi à cruz para realizar a redenção a
fim de cumprir o propósito eterno de Deus não era
um grande obreiro. Não foi uma obra marcante que
qualificou-O a ser o Redentor; antes foi a vida que Ele
teve. Sabemos pelos Evangelhos que Ele não foi uma
pessoa famosa, que vivia numa mansão, numa grande
cidade. Não, Ele foi um homem criado no lar de um
carpinteiro de Nazaré, uma cidade desprezada, num
distrito da desprezada Galiléia. Porém, a vida que Ele
teve O qualificou a ser o Redentor, com vistas ao
cumprimento do propósito eterno de Deus.
É crucial ver que o Senhor Jesus estava
qualificado pela vida e não por obra. Essa questão de
prioridade de vida sobre obra é um aspecto muito
importante da restauração do Senhor hoje. O Senhor
quer restaurar uma vida; Ele não procura realizar
uma obra de reavivamento.

UM JESUS DE VIDA
Desde a Reforma, os cristãos têm
freqüentemente orado por um reavivamento. Alguns
têm orado por um grande reavivamento para avivar
todos os crentes. Mas, segundo a história, nunca
houve isso. É claro, cerca de oitenta anos atrás houve
um reavivamento no País de Gales. Alguns líderes
cristãos ficaram empolgados e esperavam que esse
reavivamento se espalhasse por todos os continentes,
mas isso não ocorreu. Na verdade, depois de alguns
anos, ele acabou, até mesmo no País de Gales.
Em 1958, fui convidado para ir a determinado
lugar em Londres. Um dia, meu anfitrião levou-me
para passear pelo interior da Inglaterra e Escócia.
Enquanto dirigia, ele apontou pela janela do carro e
disse que muitas pessoas do interior da Escócia
jamais ouviram falar de Jesus. Disse-me também que
a Escócia se parecia muito com um país pagão.
Entretanto, a Escócia não é muito longe do País de
Gales, onde o grande reavivamento ocorreu. Isso
indica que reavivamentos não funcionam. Só há uma
coisa que funciona: a vida. Esse foi o motivo de o
Senhor Jesus não ter vindo para realizar uma grande
obra; pelo contrário, Ele veio apenas viver. Agora,
Sua vida se espalhou por todos os cantos da terra. Ele
não é um Jesus de obra, mas de vida.
Precisamos ressaltar para os santos na
restauração do Senhor que até mesmo muitos de nós,
tanto jovens como velhos, ainda se importam com
obras. Subconsciente ou inconscientemente nosso
interesse está relacionado com uma obra pelo Senhor.
Alguns, por exemplo, podem aspirar ser grandes
evangelistas. A idéia de levar a cabo uma grande obra
pode ainda estar em seu coração, em seu
subconsciente. Eu o encorajo a pôr de lado esse
conceito. Deus não respeita nenhuma obra. Muito do
prejuízo entre os cristãos foi resultado de obras
humanas. Quanto mais tentamos trabalhar pelo
Senhor, mais problemas criamos e mais dano
causamos. Creio que esse é o motivo de Paulo, ao
apresentar a confirmação do seu ministério, usar o
nome Jesus. Ele não diz: “O Senhor Jesus Cristo, Rei
dos reis e Senhor dos senhores”. Em vez disso, ele fala
simplesmente de Jesus: o morrer de Jesus, a vida de
Jesus, e por causa de Jesus. A vida manifestada no
corpo de Paulo não era a de um grande homem. Era a
vida de Jesus, um homem pouco conhecido, de uma
região desprezada.

VIDA MANIFESTADA EM CARNE MORTAL


Em 2 Coríntios 4, Paulo não se gaba de sua obra.
Ele não diz: “Coríntios, vocês precisam ver que eu sou
o apóstolo mais proeminente. Estabeleci igrejas ao
longo de todo o caminho, de Chipre até Corinto.
Estou pronto para ir mais longe, para Roma, para a
Espanha e então até as partes mais remotas da terra.
Isso é a confirmação do ministério que o Senhor me
confiou”.
Em vez de falar sobre sua obra e realizações,
Paulo fala de tribulações. No versículo 8, ele diz: “Em
tudo somos atribulados”. Se fôssemos ele,
provavelmente teríamos dito: “Coríntios, somos
abençoados de todas as formas. Vocês não percebem
que nossa obra foi abençoada pelo Senhor? Essa
bênção sobre nossa obra prova que nosso ministério é
do Senhor e que provém Dele”.
Paulo disse aos coríntios que ele e seus
cooperadores eram atribulados em tudo. As pessoas
mundanas considerariam isso um sinal de maldição,
e não de bênção. Elas perguntariam: “Como vocês
podem ser abençoados por Deus se são atribulados?
Por que são atribulados de todos os lados?” Paulo,
porém, falou ainda de estar perplexo, ser perseguido
e estar abatido. Alguns dariam crédito a Paulo por ser
perseguido, porque isso pode indicar que ele fazia
uma boa obra. Mas não lhe dariam crédito pelas
tribulações, perplexidades e abatimento.
Paulo não pára com a descrição registrada nos
versículos 8 e 9. No versículo 10, ele continua:
“Levando sempre no corpo o morrer de Jesus, para
que também a sua vida se manifeste em nosso corpo”.
Nesse versículo, ele não diz: “Levando sempre no
corpo a grande bênção do poderoso Deus”. Em vez
disso, fala de levar no corpo o morrer de Jesus.
Aparentemente, ele era um apóstolo lamentável,
numa situação miserável.
No versículo 11, Paulo prossegue: “Porque nós,
que vivemos, somos sempre entregues à morte por
causa de Jesus, para que também a vida de Jesus se
manifeste em nossa carne mortal”. Talvez
esperássemos que ele dissesse “ser resgatados da
morte”, em vez de “ser entregues à morte”. Ele,
contudo, era sempre entregue à morte, para que a
vida de Jesus se manifestasse em sua carne mortal.
Note que aqui Paulo não fala de corpo mortal,
mas de carne mortal. A palavra corpo é positiva, mas
carne é negativa. Mortal implica que a carne está
morrendo. Não acho que ficássemos contentes se
alguém chamasse nosso corpo de carne mortal. Não
obstante, Paulo adotou tal expressão ao falar de si
mesmo.
Paulo não gostava de se gabar. Ele preferia ser
pequeno e permanecer numa condição humilde. Na
verdade, o nome Paulo quer dizer pequeno. Nesses
versículos, ele parece dizer: “Prefiro permanecer em
minha pequenez. A vida manifestada em mim é a vida
de um nazareno, e não a de um grande homem do
mundo. Ademais, a vida de Jesus é manifestada em
minha carne mortal. Não sou uma grande pessoa,
manifestando algo maravilhoso num corpo
esplêndido. Não, sou alguém pequeno que manifesta,
na carne mortal, a vida de Jesus, um homem de
Nazaré”.

MINISTRAR VIDA PELA MORTE


No versículo 12, Paulo diz: “De modo que, em
nós, opera a morte, mas, em vós, a vida”. Nesse
versículo, ele se refere à sua obra. Sua obra foi uma
obra da morte que operava nele. Qual é a obra dos
apóstolos? A obra dos apóstolos é que a morte opera
neles para que a vida opere nos crentes.
Pode não soar agradável para nós ouvir de morte
que opera nos apóstolos, mas o resultado, a
conseqüência, desse operar de morte é maravilhosa: é
vida nos outros. Essa é a verdadeira obra do
ministério da nova aliança. Não se trata de trabalhar,
mas de morrer. Na restauração do Senhor,
precisamos morrer, para que a vida opere nos outros.
Assim, nosso morrer é o nosso trabalhar. O Senhor
não precisa que você realize uma obra para Ele. Ele
precisa que você morra. Se você morrer, a vida
operará nos outros. Você vai ministrar vida aos
outros morrendo. Portanto, nossa obra é ser
entregues à morte.
Os versículos que consideramos nesta mensagem
são uma janela pela qual podemos perscrutar a
experiência de Paulo. Agora compreendemos que os
apóstolos não eram seguidores de uma grande
pessoa, mas de um pequeno homem, Jesus de
Nazaré. Além disso, em vez de exaltados, eles eram
sempre entregues à morte, para que a vida de Jesus se
manifestasse em sua carne mortal. A morte operava
neles, para que a vida operasse nos crentes.
ESTUDO-VIDA DE SEGUNDA CORÍNTIOS

MENSAGEM TRINTA E QUATRO

O MORRER DE JESUS

E A RENOVAÇÃO DO HOMEM INTERIOR (2)

Leitura Bíblica: 2Co 4:10-18


Em 4:10, Paulo diz: “Levando sempre no corpo o
morrer de Jesus, para que também a sua vida se
manifeste em nosso corpo”. Nesse versículo, ele fala
de “o morrer de Jesus”. Por que ele usa essa
expressão? Para responder a essa pergunta,
precisamos considerar novamente quem é Jesus.
A fonte, a origem do homem Jesus é Deus. Jesus
é Deus encarnado, Deus concebido no ventre de uma
virgem. Exteriormente, Ele é um homem, mas
interiormente é Deus. Assim, Ele não é simples. Esse
nazareno é uma pessoa maravilhosa. Quando estava
na terra, exteriormente era humilde em todos os
aspectos. Nasceu numa manjedoura e cresceu no lar
de um pobre carpinteiro, na desprezada cidade de
Nazaré. Entretanto, interiormente, Jesus era glorioso
porque o Deus altíssimo estava Nele. Exteriormente,
era um homem humilde; interiormente era o Deus
altíssimo. De fato Jesus é maravilhoso.

A MORTE DE JESUS
Agora precisamos prosseguir e ver algo sobre a
morte de Jesus. Quando muitos cristãos mencionam
a morte de Cristo, sua compreensão se limita à
redenção. De acordo com seu conceito, a morte de
Jesus era somente para redenção. Freqüentemente
citam o versículo que diz: “Eis o Cordeiro de Deus,
que tira o pecado do mundo!” (Jo 1:29). É totalmente
verdade que a morte de Cristo visava à redenção.
Cremos nisso tanto quanto outros cristãos, senão até
mais. Porém, a redenção é apenas um aspecto da
morte de Cristo. Sua morte também tem muitos
outros aspectos.
Em 2 Coríntios 4, vemos o aspecto de destruir, de
consumir, e não da redenção ou de infundir vida.
Segundo esse capítulo, a morte de Jesus visa
consumir, desgastar, o nosso homem exterior. Por
esse motivo, Paulo diz em 4:16 que nosso homem
exterior se corrompe.
Embora o homem Jesus fosse Deus encarnado,
Deus tornando-se homem, até mesmo o Seu homem
exterior precisava ser consumido. De acordo com a
condição exterior, Ele era humilde, mas no sentido
espiritual, Ele não era um homem insignificante. Pelo
contrário, Ele equivalia a toda a velha criação.
Quando foi crucificado, não foi somente um homem
de Nazaré que morreu na cruz. Quando foi
crucificado, toda a velha criação, inclusive todos nós,
também o foi. O Senhor Jesus morreu para o
cumprimento do propósito eterno de Deus, e não
apenas para o cumprimento da redenção.
O primeiro objetivo no propósito eterno de Deus
é pôr fim à velha criação. O Senhor Jesus, como Deus
encarnado, era parte da velha criação. Não foi por
intermédio da encarnação que Ele se tornou um
homem na nova criação. Antes, mediante a
encarnação, Ele se tornou um homem na velha
criação, um homem que precisava ser consumido.
Aos trinta anos, o Senhor Jesus saiu a ministrar.
Nos três anos e meio de Seu ministério, Ele foi
constantemente entregue à morte. Como homem
maduro de trinta anos, Ele esteve continuamente sob
o processo do aniquilar. Não pense que Ele foi
crucificado somente nas seis horas que esteve numa
cruz física. Não, por pelo menos três anos e meio, Ele
foi crucificado diariamente. Todos os dias Ele teve um
viver de cruz.
O Senhor Jesus foi pregado na cruz diariamente.
Às vezes Ele era crucificado pela mãe. Outras vezes,
por Pedro ou outro discípulo. Ele foi pregado na cruz
até mesmo pelo amor dos discípulos. Por exemplo,
quanto mais Pedro amava o Senhor Jesus, mais ele O
crucificava. Assim, antes de ser literalmente
crucificado pelos romanos, Jesus foi repetidamente
crucificado pela mãe, irmãos e discípulos. Em João 7,
temos um exemplo de o Senhor sendo crucificado
pelos irmãos.
Na verdade, nos três anos e meio de Seu
ministério, a principal coisa que o Senhor Jesus fez
não foi viver, mas morrer. Ele tinha um vi ver de cruz.
Isso é o que Paulo quer dizer com levar sempre no
corpo o morrer de Jesus. É uma crucificação lenta,
gradual e contínua.
Agora podemos entender que o Senhor Jesus foi
crucificado não só nas seis horas em que esteve numa
cruz física. Por pelo menos três anos e meio, Ele foi
crucificado contínua, gradual e lentamente. Nas
palavras de Paulo, essa crucificação gradual é levar no
corpo o morrer de Jesus.

MORRER DIARIAMENTE
OS apóstolos foram designados pelo Senhor para
ser Seus seguidores. Eles foram designados por Ele,
não para fazer uma grande obra, mas ter certo tipo de
vida. Por isso, não se esperava que fizessem uma
grande obra, seguindo um Cristo grandioso
exteriormente. Eles deviam seguir o homem Jesus
vivendo a vida desse pequeno homem. Essa vida não
é bem-vinda, mas rejeitada, sempre crucificada,
sempre entregue à morte. Jesus teve um viver assim e
Seus seguidores, os apóstolos, também. Essa é a razão
de Paulo dizer que eles levavam sempre no corpo o
morrer de Jesus.
Seguir Jesus de Nazaré é ser morto; não é
realizar uma grande obra. Além do mais, ser
martirizado num instante é bem fácil, mas ser morto
gradual, lenta e constantemente é muito difícil.
Morrer gradualmente envolve mais sofrimento do
que ser martirizado num instante. Por pelo menos
três anos e meio o Senhor Jesus foi gradualmente
levado à morte. Essa também foi a experiência de
Paulo por muito tempo. Aonde quer que fosse, ele
experimentava em seu corpo o morrer de Jesus.
Referindo-se a isso em 1 Coríntios 15:31, ele diz: “Dia
após dia, morro!” Aqui, ele parece dizer: “Em vez de
viver, eu na verdade morro dia após dia. Estou
passando por um aniquilar lento, gradual e
contínuo”. Esse matar contínuo é o que Paulo quer
dizer por levar no corpo o morrer de Jesus.

O HOMEM EXTERIOR É CONSUMIDO


O morrer de Jesus visa consumir a velha criação
em nós. Quando Jesus, o Filho de Deus, tomou-se
homem, Ele tinha tanto uma parte exterior, que
representava a velha criação, como uma parte
interior, que representava o Deus eterno. A parte
exterior foi consumida, entregue à morte, mas a
interior foi ressuscitada. Isso ocorreu com o Senhor
Jesus, com os apóstolos e também com todos os
crentes.
Pelo nascimento natural, tomamo-nos pessoas
da velha criação, e pela regeneração, tomamo-nos
pessoas da nova criação. Como pessoas regeneradas,
ainda temos uma parte exterior que representa a
velha criação. Essa parte precisa ser consumida,
eliminada, extinta, mas ao mesmo tempo temos uma
parte interior que representa o Deus eterno. Essa
parte deve ser desenvolvida, ressuscitada e renovada.
O morrer de Jesus relaciona-se com o homem
exterior, que precisa ser consumido. Como crentes
autênticos, todos temos uma parte do nosso ser que
Paulo descreve como o homem exterior. O homem
exterior se corrompe, consome, desgasta, dissipa. O
dissipar-se do homem exterior equivale a levar no
corpo o morrer de Jesus. Assim, levar no corpo o
morrer de Jesus, na verdade, é sinônimo de o homem
exterior consumir-se. Na restauração do Senhor,
experimentamos ser entregues ao morrer de Jesus
para que o homem exterior seja consumido. Somos
submetidos ao processo de morrer, o processo de o
homem exterior ser entregue à morte.
Suponha que certo irmão jovem seja muito
inteligente. Em muitos grupos cristãos, ele pode ser
admirado e até mesmo exaltado. Todavia, na vida da
igreja na restauração do Senhor, em vez de ser
entronizado, ele experimentará ser entregue ao
morrer de Jesus. Na restauração, parece que quanto
mais esperta é a pessoa, mais é pregada na cruz.
Essa obra de crucificação é freqüentemente
executada pelo Senhor por intermédio das pessoas ao
nosso redor, principalmente na vida familiar. Por
exemplo, talvez antes de uma jovem entrar para a
vida da igreja, seu marido raramente lhe fazia passar
por maus pedaços, mas agora que ela está na
restauração, parece que o marido se tomou uma
dificuldade. Ela não deve culpar o marido. O Senhor
todo-poderoso no trono o usa para consumir a velha
criação dela, o seu homem exterior. Parece que o
Senhor lhe deu a incumbência de levar a cabo a obra
de pregar a esposa na cruz. A irmã pode chorar e
clamar ao Senhor, dizendo-Lhe que não consegue
suportar isso. Mas ainda há muito mais dessa obra de
crucificação por vir, e a irmã precisa estar pronta para
isso. O Senhor pode usar seu marido para pregar um
dos cravos, e os irmãos e irmãs, até mesmo os
presbíteros da igreja, para pregar muitos outros. Ela
talvez diga: “Não consigo tolerar a situação com meu
marido ou com a igreja. Por que os presbíteros me
fazem passar por essa dificuldade?” O motivo é que o
Senhor usa diversas pessoas para pregá-la na cruz,
isto é, para consumir seu homem exterior.
Quando alguns santos não estão contentes com a
igreja em sua cidade, talvez queiram mudar-se para
outro lugar. Visto que os santos os estão pregando na
cruz, levando-os à morte, eles gostariam de ir para
uma igreja onde acham que a situação seria diferente.
Na verdade, se se mudarem com o objetivo de evitar o
morrer de Jesus, podem experimentar ainda mais
disso na outra cidade.
Se você não for capaz de superar as barreiras na
igreja em sua cidade, não conseguirá superá-las em
nenhuma outra. Em vez de se mudar de um lugar
para outro, simplesmente permaneça onde está e
permita que os santos o levem à morte.
Além disso, chorar por causa da situação é um
sinal de que você ainda não foi crucificado. Um morto
não derrama lágrimas. Chorar por causa da
experiência de ser consumido indica que você precisa
mais do morrer de Jesus. Permaneça onde está até
ser plenamente crucificado.

NOSSO DESTINO FINAL: RESSURREIÇÃO


Quando alguns ouvem sobre ser entregue ao
morrer de Jesus, talvez digam: “Oh! que destino
terrível é o nosso na restauração do Senhor! Estamos
sendo crucificados, consumidos, entregues à morte”.
O morrer de Jesus pode ser nosso destino hoje, mas
não é nosso destino final. Nosso destino final é a
ressurreição. Quem não está disposto a ser
crucificado pode sofrer, mas quem está disposto a ser
crucificado se alegrará. Ele se rejubilará em
ressurreição.
Em 4:14, Paulo deixa claro que nosso destino
final é a ressurreição: “Sabendo que aquele que
ressuscitou ao Senhor Jesus também nos ressuscitará
com Jesus e nos apresentará convosco”, Ele aqui não
fala de ser sepultado ou crucificado, mas ressuscitado
com Jesus. Essa é uma declaração vitoriosa. Indica
que nosso destino final é a ressurreição.
A vida da igreja na restauração do Senhor pode
parecer um altar, um lugar de sacrifícios, mas, na
verdade, é um desfrute em ressurreição. Desde que se
disponha a ser crucificado, você pode ter esse júbilo
em ressurreição. Você, então, pode arrepender-se de,
no passado, ter-se recusado a ser pregado na cruz.
Talvez diga para si mesmo: “Se eu tivesse tido
disposição para receber mais cravos, mais alegria eu
teria hoje!” Já que nosso destino final é a
ressurreição, não devemos chorar porque somos
entregues à morte. Pelo contrário, com espírito forte,
devemos regozijar-nos em ressurreição.

O ESPÍRITO DA FÉ
Segunda Coríntios 4:13 diz: “Tendo, porém, o
mesmo espírito da fé, como está escrito: Eu cri; por
isso, é que falei. Também nós cremos; por isso,
também falamos”. O espírito aqui é o espírito
mesclado, o Espírito divino mesclado com o espírito
humano regenerado.
Em seus comentários sobre esse versículo, tanto
Alford como Vincent falaram acerca do espírito
mesclado, mas o que eles falaram foi um pouco vago.
Alford disse: “Não o Espírito Santo especificamente,
contudo tampouco uma disposição humana: o
Espírito Santo que habita em nós interiormente
penetra e caracteriza todo o homem renovado”. Por
um lado, Alford fala do Espírito Santo. Por outro,
indica que algo humano, representado pelo termo
disposição, também está envolvido. Na verdade,
Alford estava se referindo ao espírito humano.
Vincent diz: “Espírito da fé: não distintamente o
Espírito Santo, nem, por outro lado, uma faculdade
ou disposição humana, mas a mescla de ambos”. As
considerações de Vincent avançam em relação às de
Alforcf. O termo faculdade com certeza é um avanço
em relação ao termo disposição. Além do mais,
Vincent fala de mesclar o Espírito com uma faculdade
humana específica. Essa mescla, na verdade, é a
mistura do Espírito Santo com nosso espírito
humano.
Hoje, temos uma expressão mais clara e definida.
Não precisamos usar o termo disposição ou
faculdade para descrever o espírito da fé em 4:13,
porque sabemos que esse espírito é o nosso espírito
humano mesclado com o Espírito Santo. Precisamos
exercitar tal espírito para crer e falar, como fez o
salmista (Sl 116:10 VRA): crer nas coisas do Senhor
que experimentamos, principalmente Sua morte e
ressurreição, e falar delas. A fé está no nosso espírito,
que está mesclado com o Espírito Santo, e não na
mente. As dúvidas estão na mente. O espírito aqui
indica que é pelo espírito mesclado que os apóstolos
tinham um viver crucificado em ressurreição para
levar a cabo seu ministério.
ESTUDO-VIDA DE SEGUNDA CORÍNTIOS

MENSAGEM TRINTA E CINCO

O MORRER DE JESUS E A RENOVAÇÃO DO HOMEM


INTERIOR (3)

Leitura Bíblica: 2Co 4:10-18


Em 4:10, Paulo diz: “Levando sempre no corpo o
morrer de Jesus, para que também a sua vida se
manifeste em nosso corpo”. No versículo 16, ele
prossegue: “Por isso, não desanimamos; pelo
contrário, mesmo que o nosso homem exterior se
corrompa, contudo, o nosso homem interior se
renova de dia em dia”. A experiência do morrer de
Jesus resulta na renovação do homem interior.

O HOMEM EXTERIOR E O HOMEM


INTERIOR
Que é o homem interior? É difícil explicar. Por
mais de quarenta anos tenho considerado e estudado
o significado do homem exterior e do homem interior
em 4:16. Alguns escritos dizem que o homem exterior
denota nosso homem natural e o homem interior
denota nosso homem espiritual. Não digo que essa
compreensão esteja errada, mas é um pouco vaga.
Se considerar o contexto desse capítulo, o
homem exterior primeiramente significa o corpo
físico. No versículo 10, Paulo fala de “levar sempre no
corpo o morrer de Jesus”, e no 11 menciona a carne
mortal. Levar no corpo o morrer de Jesus equivale a
consumir, corromper, o homem exterior. Por isso,
o homem exterior no versículo 16 tem de se referir
principalmente ao corpo.
De maneira semelhante, o homem interior nesse
versículo tem de se referir ao nosso espírito
regenerado, como indica o versículo 13, onde Paulo
usa a expressão “o mesmo espírito da fé”. Como já
enfatizamos, o espírito aqui é o espírito mesclado, o
espírito humano regenerado mesclado com o Espírito
Santo. O corpo se corrompe, mas o espírito
regenerado deve renovar-se dia após dia. De acordo
com o contexto, o homem exterior é principalmente o
corpo, e o homem interior é principalmente o espírito
regenerado.
O homem exterior inclui nosso corpo e alma (o
corpo é seu órgão, e a alma é sua vida e pessoa). O
homem interior inclui nosso espírito regenerado e
nossa alma renovada, (o espírito regenerado é sua
vida e pessoa, e a alma renovada é seu órgão). A vida
da alma tem de ser negada (Mt 16:24-25), mas as
funções da alma (a mente, vontade e emoção) têm de
ser renovadas e elevadas sendo subjugadas (2Co
10:4-5), a fim de ser usadas pelo espírito, que é a
pessoa do homem interior.
Segundo a palavra de Paulo no versículo 16, o
homem exterior se corrompe, desgasta-se e acaba.
Por meio do aniquilar contínuo, ou seja, do trabalho
da morte, o nosso homem exterior, isto é, o nosso
corpo material com sua alma que o anima (1Co
15:44), corrompe-se e se desgasta. O homem exterior,
com o corpo como seu órgão e a vida anímica como
sua vida e pessoa, tem de se corromper.
Todos temos um homem exterior. Quando estava
na terra, o Senhor Jesus também tinha um homem
exterior. Seu homem exterior precisava ser
consumido.
No versículo 16, Paulo também diz que nosso
homem interior é renovado dia após dia. Essa
renovação do homem interior ocorre quando ele se
nutre do suprimento fresco da vida de ressurreição.
Quando o corpo mortal, o homem exterior, se
corrompe pela obra aniquiladora da morte, o homem
interior, isto é, o nosso espírito regenerado com as
partes interiores do nosso ser (Jr 31:33; Hb 8:10; Rm
7:22, 25), é metabolicamente renovado dia após dia
com o suprimento da vida de ressurreição. Quando o
homem interior é renovado, as funções da alma
(mente, emoção e vontade) são também renovadas.

O DESGASTE DO HOMEM EXTERIOR


Vamos agora aplicar essa questão ao viver diário,
principalmente à vida familiar e vida da igreja.
Suponha que um jovem e uma jovem na vida da igreja
se casem. Ele é forte, saudável, inteligente e vigoroso.
Não levará muito tempo para a irmã descobrir que
seu marido é uma pessoa forte, com uma vida natural
forte. Seu homem exterior é composto do seu corpo
vigoroso e sua alma forte. Seu homem exterior
precisa experimentar o morrer de Jesus. O Senhor vai
usar a esposa desse irmão para consumir seu homem
exterior. Ao mesmo tempo, vai usar o irmão para
consumir o homem exterior dela.
O homem exterior não merece ser aperfeiçoado,
fortalecido, exaltado ou entronizado. Quando estava
na terra, o Senhor Jesus não precisava ter Seu
homem exterior entronizado. Pelo contrário, o que
Ele precisava era que o homem exterior fosse
entregue à morte. Como todos temos um homem
exterior forte, precisamos experimentar o morrer de
Jesus.
Na vida da igreja, descobri que o homem exterior
das irmãs é até mais forte do que o dos irmãos. Por
esse motivo, é normalmente muito mais difícil uma
irmã ser posta na cruz do que um irmão. Parece que
mais cravos são necessários no caso das irmãs. O
homem exterior dos irmãos pode ser comparado com
vidro, mas o das irmãs pode ser comparado com
borracha. É muito mais fácil quebrar o vidro do que a
borracha. Mas quer nosso homem exterior seja como
vidro ou como borracha, nenhum de nós é facilmente
quebrado. Parece que determinados santos precisam
de uma crucificação eterna, já que seu homem
exterior é tão resistente. Alguns estão na vida da
igreja há vinte anos e seu homem exterior ainda não
foi quebrado. Eles não têm nenhuma intenção de ser
quebrados. Parece que são sempre capazes de evitar
ser postos na cruz.
Quanto mais experimentamos o consumir-se, o
morrer do homem exterior, mais o homem interior é
renovado. Nosso espírito regenerado com nossa
mente, emoção e vontade renovadas precisam ser
ressuscitados, desenvolvidos, ampliados e
refrescados. Por isso, enquanto o homem exterior se
corrompe, o interior é ressuscitado, renovado e
desenvolvido.
A vida que pode levar a cabo o ministério da nova
aliança é uma vida de ter o homem exterior entregue
à morte e o homem interior renovado e ressuscitado.
Na verdade, essa vida é o ministério da nova aliança.
Essa vida e esse ministério são necessários para a
restauração do Senhor hoje. Somente esse ministério
pode infundir vida nos outros e ministrar Cristo aos
outros como o Espírito que dá vida e como justiça.
Dons, capacidade, atividade vigorosa, obras
diligentes, nada disso vale coisa alguma. A única coisa
necessária é uma vida crucificada, a vida em que o
homem exterior continuamente experimenta o
morrer de Jesus, para que as partes interiores do
nosso ser ressuscitem, sejam revigoradas e
desenvolvidas.
Espero que todos fiquemos impressionados com
o fato de que o ministério da nova aliança não é uma
questão de talento ou capacidade; antes, é totalmente
uma questão de vida. Nessa vida, o ser natural é
entregue à morte, para que o ser espiritual seja
ressuscitado, renovado e desenvolvido. Essa vida é
extremamente necessária para a restauração do
Senhor hoje.

DIFERENTES TIPOS DE SOFRIMENTO


Nas mensagens anteriores e nesta, temos muito
para dizer acerca do morrer de Jesus. Fico muito
preocupado, pois alguns dos santos talvez tenham
uma compreensão errônea disso. Podem pensar que
todo tipo de sofrimento é uma experiência de ser
entregue ao morrer de Jesus. Quando cantam um
hino como “Sem Premir-se a Azeitona”2, talvez não o
entendam corretamente ou o que Paulo quer dizer
com o morrer de Jesus. Portanto, para evitar
mal-entendidos, desejo ressaltar que nem todos os
sofrimentos experimentados pelos cristãos são da
mesma categoria. Na verdade, há pelo menos três
tipos de sofrimentos que os cristãos podem
experimentar. Vamos agora ponderar sobre essas
categorias.

2
Hinos, hino 320, publicado por esta Editora. (N. T.)
Sofrer na Velha Criação
O primeiro tipo de sofrimento é o que é comum a
todos os seres humanos. Os cristãos, é claro, não são
os únicos a sofrer. Todos sofrem. O sofrimento é
universal por causa da queda do homem. Devido à
queda, a criação tornou-se velha. Essa é uma
condição muito negativa porque velhice na criação
indica que a criação é caída, corrupta e decadente. Na
velha criação e no homem caído, há muitas
calamidades e doenças. Visto que vivemos na velha
criação caída, estamos sujeitos a doenças. Alguns
podem contrair tuberculose. Outros podem
desenvolver um câncer. Não devemos pensar que
uma pessoa se torna vítima de doenças tais como
essas porque é má. Não, doença é uma das
calamidades comuns no universo caído. Os crentes e
incrédulos são seres humanos e como tais não podem
evitar calamidades.
Quando alguns ouvem sobre doenças e
calamidades, talvez digam: “Será que Deus não nos
protege?” Sim, Deus nos protege. Não obstante,
quando uma calamidade ataca, todos, crentes e
incrédulos, igualmente podem sofrer.
Esse primeiro tipo de sofrimento com certeza
não é o que Paulo quer dizer com o morrer de Jesus.
Não aplique o sofrimento causado por calamidades
na velha criação ao ser entregue ao morrer de Jesus
em 2 Coríntios 4. Se o fizer, então todos os incrédulos
experimentam o morrer de Jesus, porque também
sofrem de doenças e calamidades. É um erro sério
compreender que o morrer de Jesus refere-se aos
sofrimentos comuns a todos por causa das
calamidades da velha criação.
Sofrer por Pecados e Erros
O segundo tipo de sofrimento que os cristãos
experimentam é o que advém de pecados e erros. Se
formos desleixados ou tolos no exercício de nossas
responsabilidades, podemos sofrer perda. Por
exemplo, um irmão pode ter um emprego que exige
que esteja no trabalho em dada hora. Contudo, ele
constantemente chega atrasado ao trabalho. Como
conseqüência, ele é despedido. Isso pode ser
considerado sofrimento, mas é um sofrimento que
resulta de desleixo. Se um irmão perder o emprego
por tal motivo, não deve dizer que esse sofrimento é o
morrer de Jesus. Esse sofrimento não tem
absolutamente nada a ver com o morrer de Jesus.
Advém, sim, da falha em cumprir com a sua
responsabilidade.
Em 4:10, Paulo fala do morrer de Jesus. Depois,
no versículo 11, ele diz: “Porque nós, que vivemos,
somos sempre entregues à morte por causa de Jesus”.
Eu chamaria a atenção de vocês às palavras “por
causa de Jesus”. O morrer de Jesus, no versículo 10, é
usado intercambiavelmente com ser entregue à
morte por causa de Jesus, no versículo 11. Isso quer
dizer que o morrer de Jesus envolve sofrimento que é
por causa de Jesus. Um irmão que perde seu emprego
por negligência e irresponsabilidade não é despedido
por causa de Jesus. Ele não deve atribuir isso a Jesus.
Ele foi despedido por causa do seu desleixo. Não seria
justo de modo nenhum considerar esse sofrimento
como o morrer de Jesus, como sofrimento por causa
de Jesus. Sofrimento por causa de pecados ou erros
não é a experiência do morrer de Jesus.
Para tornar isso ainda mais claro, vamos usar
outra ilustração. Suponha que você não tranque a
porta de casa quando vai para a reunião da igreja. Na
verdade, você esqueceu até de fechar a porta.
Enquanto está na reunião, alguém entra em sua casa,
rouba muitas coisas e causa-lhe grande prejuízo. Ao
conferir as perdas e danos, não diga: “Louvado seja o
Senhor, isso é uma experiência do morrer de Jesus”.
Novamente digo, esse sofrimento e perda não é o
morrer de Jesus. Você não deve atribuir essa perda a
Jesus, ou pensar que está experimentando o morrer
de Jesus. Quando você sofre puramente por causa de
Jesus e por causa da igreja, do Corpo, isso é o morrer
de Jesus.
Quando cantamos um hino como “Sem
Premir-se a Azeitona”, precisamos ser cuidadosos
para não inconscientemente introduzir o
asceticismo 3 . O asceticismo envolve um suicídio
gradual, uma auto-mortificação lenta e constante,
como a que é descrita no livro A Imitação de Cristo.
Esse livro contém um elemento forte de asceticismo.
Quando os que praticam o asceticismo falam sobre
tomar a cruz, na verdade, eles falam de
auto-mortificação. Não devemos ter uma concepção
ascética ao cantar o hino “Sem Premir-se a Azeitona”.
Na verdade, cantar esse hino relacionando-o com o
morrer de Jesus pode indicar que nossa compreensão
do morrer de Jesus não é exata. O ser entregue ao
morrer de Jesus não é questão de sofrimento comum.
De fato, o objetivo do morrer de Jesus não é
causar-nos sofrimento, mas consumir o nosso
homem exterior.

3
Ou: ascetismo: “Moral que desvaloriza os aspectos corpóreos e sensíveis do homem” (Dic. Aurélio).
(N. T.)
O Morrer de Jesus
A terceira categoria de sofrimento
experimentada por cristãos é o morrer de Jesus.
Paulo não o experimentou porque estava errado. Pelo
contrário, ele estava certo de todas as formas. Não
obstante, ele foi atribulado, ficou perplexo, foi
perseguido e abatido, mas tudo isso foi por causa de
Jesus, do Corpo e do ministério da nova aliança.
Paulo e os outros apóstolos não estavam errados
e esses sofrimentos específicos não estavam
relacionados com qualquer erro deles. Mas eles ainda
tinham o homem exterior e esse precisava ser
consumido.
Quando estava na terra, o Senhor Jesus não
cometeu erros nem esteve errado em nada, mas tinha
o homem exterior que precisava ser consumido.
Portanto, o morrer de Jesus não é uma punição,
correção ou disciplina. Estes estão relacionados com
a segunda categoria de sofrimento cristão.
Corrigir-nos, punir-nos ou disciplinar-nos não é o
objetivo do morrer de Jesus. Tampouco o são as
calamidades naturais. Antes, é um tipo de
perseguição, operação ou tratamento que nos
sobrevém para consumir nosso homem natural,
nosso homem exterior, nossa carne, para que nosso
homem interior tenha a chance de se desenvolver e se
renovar.
ESTUDO-VIDA DE SEGUNDA CORÍNTIOS

MENSAGEM TRINTA E SEIS

A NOVA CRIAÇÃO EM CRISTO TORNA-SE A JUSTIÇA


DE DEUS MEDIANTE O SEGUNDO PASSO DA
RECONCILIAÇÃO (1)

Leitura Bíblica: 2Co 5:1-21


Em 2 Coríntios 5, Paulo aborda diversos itens
importantes. Vamos sucintamente enumerá-los e
depois ponderar sobre eles.

SEIS PONTOS IMPORTANTES


Primeiro, nesse capítulo Paulo aborda o desejo
dos apóstolos de se revestir de um corpo
transfigurado (5:1-8). Isso se relaciona com a
redenção do corpo. Ele desejava ser revestido de um
corpo transfigurado, de um corpo em ressurreição.
Nos versículos 1 e 2, ele diz: “Sabemos que, se a nossa
casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos da
parte de Deus um edifício, casa não feita por mãos,
eterna, nos céus. E, por isso, neste tabernáculo,
gememos, aspirando por sermos revestidos da nossa
habitação celestial”.
O segundo item abordado por Paulo nesse
capítulo é o esforço, ou ambição, de agradar ao
Senhor: “É por isso que também nos esforçamos,
quer presentes, quer ausentes, para lhe sermos
agradáveis” (v. 9). Aqui, esforçar-se é ambicionar,
ser zeloso com um objetivo inabalável, lutar
vigorosamente por agradar ao Senhor. Todos
devemos esforçar-nos por agradar ao Senhor. Não
devemos ter a ambição de obter posição na vida da
igreja, mas de agradar ao Senhor.
O terceiro item é ser constrangido a viver para o
Senhor. Nos versículos 14 e 15, Paulo diz: “Pois o
amor de Cristo nos constrange, julgando nós isto: um
morreu por todos; logo, todos morreram. E ele
morreu por todos, para que os que vivem não vivam
mais para si mesmos, mas para aquele que por eles
morreu e ressuscitou”. Nesses versículos, ele fala de
ser constrangido a viver, não pelo Senhor, mas para o
Senhor.
Nos versículos 16 e 17, Paulo passa a mencionar
um quarto item, a nova criação: “Assim que, nós,
daqui por diante, a ninguém conhecemos segundo a
carne; e, se antes conhecemos Cristo segundo a carne,
já agora não o conhecemos deste modo. E, assim, se
alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas
antigas já passaram; eis que se fizeram novas”.
Quinto, nos versículos 18 a 20, Paulo fala a
respeito do ministério da reconciliação. No versículo
18 ele diz: “Ora, tudo provém de Deus, que nos
reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos
deu o ministério da reconciliação”. No versículo 19,
ele fala da “palavra da reconciliação”, e no 20, roga
aos santos que, por causa de Cristo, se reconciliem
com Deus.
Por fim, no versículo 21 temos o item crucial da
justiça de Deus: “Aquele que não conheceu pecado,
ele o fez pecado por nós; para que, nele fôssemos
feitos justiça de Deus”.
Aparentemente, esses seis itens são de diferentes
categorias e não se relacionam um com o outro.
Assim, é possível ler esse capítulo sem ver a
continuação entre um item e outro. Na verdade, há
uma seqüência, e não é difícil vê-la.
Não só os pontos importantes do capítulo cinco
dão continuidade aos outros mas o próprio capítulo
cinco é continuação do quatro. Isso é indicado pelo
fato de 5:1 começar com a palavra “porque” (VRC).
Isso significa que o que nele é abordado é uma
explicação do que é falado em 4:13-18.

ANELAR PELA TRANSFIGURAÇÃO


Em 5:1, Paulo fala de a nossa casa terrestre deste
tabernáculo ser desfeita. Isso significa o nosso
homem exterior consumir-se, corromper-se. Mais
para o fim de 2 Coríntios 4, ele diz que o nosso
homem exterior se corrompe, que nosso homem
interior é renovado e que não consideramos as coisas
que se vêem, mas as que se não vêem. Isso quer dizer
que vivemos e andamos pela fé. Então, em 5:1, ele dá
uma explicação, dizendo que sabemos que se nosso
homem exterior, nossa casa terrestre deste
tabernáculo, se desfizer, temos uma melhor nos céus.
Por isso, no capítulo cinco há claramente uma
continuação da palavra de Paulo no capítulo quatro.
Essa continuação indica que no final do capítulo
quatro, Paulo tomou-se, de fato, maduro. Ele foi
regenerado no espírito e transformado na alma. Todo
o seu ser foi renovado. A única coisa ainda a ser
completada era a plena redenção do corpo físico. O
corpo de Paulo ainda estava na velha criação, ainda
não tinha sido mudado, transfigurado. Dessa forma,
em 5:1-8, ele expressa seu desejo, sua aspiração, de
obter a transfiguração do corpo.
Era desejo de Paulo não ser despido, isto é, não
ter seu corpo retirado dele. Seu desejo era ser vestido,
isto é, vestir um corpo transfigurado. A morte envolve
a separação entre a pessoa e o seu corpo. Às vezes,
num funeral, o pastor diz que o falecido se foi, que
partiu e não está mais conosco. Freqüentemente os
cristãos usam a expressão “ir para o Senhor”. O anelo
de Paulo não era ficar sem corpo. Ele não desejava ser
despido, ter o corpo removido. Seu anelo era ser
vestido com um corpo ressurreto. Isso quer dizer que
seu anelo era ser redimido no corpo. Ele sabia que seu
espírito fora regenerado e a alma fora transformada,
mas também percebia que o corpo ainda não fora
transfigurado. Por isso, anelava e aguardava a
redenção do corpo. Esse anelo 'é abordado nos
primeiros oito versículos do capítulo cinco.

MOLDADO POR DEUS


No versículo 5, Paulo diz: “Ora, foi o próprio
Deus quem nos preparou para isto, outorgando-nos o
penhor do Espírito”. O termo grego traduzido por
preparou também significa modelou, moldou,
ajustou. Deus trabalhou em nós, modelou-nos,
moldou-nos, preparou-nos, ajustou-nos com o
objetivo de que nosso corpo mortal fosse absorvido
pela Sua vida de ressurreição. Assim, todo o nosso ser
será saturado de Cristo. Deus nos deu o Espírito como
penhor, fiança, amostra, garantia dessa parte
maravilhosa e excepcional da Sua salvação completa
para nós em Cristo.
Deus tenciona vestir-nos com um corpo de
ressurreição, isto é, transfigurado, mas se quisermos
que isso ocorra, precisamos de certas qualificações.
Um pecador não está qualificado para ser vestido com
tal corpo. Ele não é adequado para isso. Todavia,
Deus trabalhou em nós, moldou-nos, recortou-nos
para isso. Assim como um alfaiate corta uma jaqueta
para ajustá-la ao corpo, Deus também nos está
moldando para vestirmos um corpo de ressurreição.
Deus não molda um corpo, Ele molda a nós. Quando
você compra um par de sapatos novos, escolhe os que
se ajustam ao formato de seus pés. A maneira de Deus
é oposta: Ele molda nossos pés para se encaixar nos
sapatos. Ele nos molda e prepara para que nos
ajustemos a um corpo ressurreto.
Como Deus molda um pecador para que ele vista
um corpo ressurreto? Ele o molda perdoando seus
pecados, pondo nele a vida divina para regenerar seu
espírito e transformando sua alma. Isso é o que quer
dizer Deus moldar-nos.
Você foi moldado por Deus? A melhor resposta é
dizer que fomos moldados até certo ponto. Embora
tenha sido um pouco moldado por Deus, sei que não o
fui totalmente. Portanto, preciso ser mais moldado.

O PENHOR DO ESPÍRITO
Com relação ao moldar de Deus, Paulo diz que
Ele nos deu o penhor do Espírito. Isso indica que o
fator principal de Deus nos moldar é colocar-Se em
nós como Espírito que dá vida para ser um penhor.
Isso quer dizer que Deus Se penhorou para cumprir
isso por nós. Ele Se colocou como o Espírito que dá
vida em nosso espírito para garantir que um dia nos
vestirá com um corpo de ressurreição. Temos o
penhor de que fomos feitos e estamos qualificados
para esse propósito. Isso também está' incluído no
ministério da nova aliança. Por intermédio do
ministério da nova aliança somos moldados,
qualificados e preparados para ser revestidos com um
corpo de ressurreição. Todos aguardamos que isso
aconteça.
ESFORÇAR-SE POR AGRADAR AO SENHOR
Que devemos fazer enquanto aguardamos ser
revestidos com um corpo transfigurado? O versículo
9 dá a resposta: “É por isso que também nos
esforçamos, quer presentes, quer ausentes, para lhe
sermos agradáveis”. A expressão “por isso” no início
do versículo 9 estabelece a conexão do versículo 9
com o 8. Visto que esperamos ser vestidos com um
corpo transfigurado, esforçamo-nos por agradar ao
Senhor. De modo semelhante, assim como
aguardamos a redenção do nosso corpo,
esforçamo-nos para Lhe ser agradáveis. O que Paulo
diz nos versículos 10 a 13 relaciona-se com seu
esforço, ou ambição, de agradar o Senhor.

CONSTRANGIDO A VIVER PARA O SENHOR


No versículo 14, Paulo prossegue: “Pois o amor
de Cristo nos constrange”. Novamente o vocábulo
pois indica uma conexão, uma continuação.
Esforçamo-nos para agradar o Senhor porque o Seu
amor nos constrange. O amor de Cristo no versículo
14 é o amor que foi manifestado na cruz mediante Sua
morte por nós.
O termo grego traduzido por constrange,
literalmente significa pressionar de todos os lados,
reter para um objetivo, limitar forçosamente,
confinar para um só objetivo em determinados
limites, restringir a uma só linha e um só propósito,
como numa estrada estreita e murada. O mesmo
verbo grego é usado em Lucas 4:38, 12:50, Atos 18:5 e
Filipenses 1:23. Dessa forma, os apóstolos foram
constrangidos pelo amor de Cristo a viver para Ele e
Lhe ser agradáveis.
Vimos que ser constrangido significa ser
pressionado de todos os lados e confinado a um
objetivo. Quando somos constrangidos, somos
limitados como se caminhássemos por uma estrada
estreita e murada, e somos forçados a prosseguir em
certa direção. Embora amemos ao Senhor, não
estamos sempre dispostos a tomar o Seu caminho.
Sem ser encenados, ou confinados, por Ele,
provavelmente teríamos escapado de Cristo e a igreja,
mas o amor de Cristo nos constrange, pressiona de
todos os lados e confina a um objetivo. Não temos
outro caminho. Não há outro caminho para
tomarmos. Na verdade, não é nossa escolha. Se a
escolha tivesse sido de fato nossa, todos
provavelmente estaríamos em outro lugar hoje. Não,
não depende de nós fazer a escolha; o amor de Cristo
é que nos constrange.
De acordo com 5:14 e 15, o amor de Cristo nos
constrange a vivê-Lo. O versículo 15 diz: “E ele
morreu por todos, para que os que vivem não vivam
mais para si mesmos, mas para aquele que por eles
morreu e ressuscitou”. É difícil explicar o que
significa viver para Cristo, embora seja fácil
compreender o que significa viver por Ele. Hoje, tanto
no catolicismo como nas denominações, as pessoas
fazem muitas coisas por Cristo. Contudo, podemos
fazer alguma coisa pelo Senhor sem fazê-la para o
Senhor.
Se considerarmos o contexto, veremos que viver
para o Senhor significa ter o tipo de vida que Ele teve.
No capítulo quatro, vemos que os apóstolos
experimentavam o morrer de Jesus. Quando
experimentamos o morrer de Jesus, podemos ter o
tipo de vida que Ele teve. Isso é viver para o Senhor.
Viver para o Senhor é ter uma vida crucificada. É
viver de tal forma que o homem exterior é sempre
levado à morte. O Senhor Jesus teve essa vida, e os
que têm tal vida hoje vivem para o Senhor. Essa
compreensão de viver para o Senhor está de acordo
com o conceito transmitido no capítulo quatro.
Os cristãos freqüentemente tentam viver pelo
Senhor conforme seus próprios conceitos. Numa
mensagem anterior ilustrei isso contando como
alguns chineses do sul me forçaram a comer o pão
que prepararam para mim, embora esse não estivesse
totalmente cozido e fosse extremamente difícil de
digerir. Embora eu preferisse comer arroz, eles
insistiram que eu o comesse. Eles o prepararam para
eu comer, mas não o prepararam para mim.
Igualmente podemos fazer muitas coisas pelo Senhor,
e não para Ele.
O que o Senhor quer não é que sejamos tão ativos
por Ele. Ele quer que experimentemos o morrer de
Jesus, para que o nosso homem natural e nosso ser
ativo sejam eliminados. Muitos são ativos ou
dinâmicos pelo Senhor de forma natural. Fazem
coisas por Ele com dinamismo natural. Isso O ofende
e não nos permite desfrutá-Lo. Portanto, o que
precisamos é ser constrangidos pelo amor do Senhor,
para simplesmente viver para Ele.
Se quisermos viver para o Senhor, precisamos
negar nosso homem exterior. O homem exterior é a
carne. Quando vivemos para Cristo, não vivemos pelo
nosso homem exterior, pela nossa carne. Isso quer
dizer que viver para Cristo exige que vivamos pelo
nosso homem interior, pelo nosso espírito
regenerado.
CONHECER OS OUTROS SEGUNDO O
ESPÍRITO
No versículo 16, uma continuação dos versículos
14 e 15, Paulo diz: “Assim que, nós, daqui por diante,
a ninguém conhecemos segundo a carne; e, se antes
conhecemos Cristo segundo a carne, já agora não o
conhecemos deste modo”. Não conhecer os outros
segundo a carne significa não conhecê-los segundo o
homem exterior. Na adequada vida da igreja, os que
lideram e os que servem não conhecem os outros
segundo o homem exterior. Entretanto, entre os
cristãos hoje, é comum conhecer os crentes segundo o
homem exterior. Por exemplo, as pessoas podem ser
conhecidas segundo a profissão, posição, talentos e
capacidade. Na igreja, pelo contrário. devemos
conhecer os outros segundo o homem interior,
segundo o espírito.
Como continuação do versículo 16, o versículo 17
diz: “E, assim, se alguém está em Cristo, é nova
criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se
fizeram novas”. O termo criatura também pode ser
traduzido por criação. Que é a nova criação? É uma
pessoa regenerada com a vida de Deus e que vive no
homem interior, e não no homem exterior. Uma
pessoa que vive no homem exterior está na carne, na
velha criação. Por isso, é velho; porém quem vive para
o Senhor no homem interior está na nova criação.
Agora podemos ver como estão interligados esses
quatro pontos importantes. O esforço, ou ambição,
por agradar ao Senhor está ligado ao desejo de ter um
corpo ressurreto, Viver para o Senhor está
relacionado com esforçar-se por agradar ao Senhor.
Se não vivermos para o Senhor, não poderemos
agradá-Lo. Se quisermos alegrá-Lo, precisamos viver
para Ele. A fim de viver para o Senhor, precisamos
levar nosso ser natural à morte. Então seremos
capazes de agradá-Lo. Se tivermos tal viver, com
certeza seremos uma nova criação, uma pessoa que
vive no espírito, no homem interior. Portanto, o anelo
de ter um corpo transfigurado está ligado com o
esforço de agradar ao Senhor, o esforço de agradar ao
Senhor está ligado com viver para o Senhor, e viver
para o Senhor está ligado com ser uma nova criação.
ESTUDO-VIDA DE SEGUNDA CORÍNTIOS

MENSAGEM TRINTA E SETE

A NOVA CRIAÇÃO EM CRISTO TORNA-SE A JUSTIÇA


DE DEUS MEDIANTE O SEGUNDO PASSO DA
RECONCILIAÇÃO (2)

Leitura Bíblica: 2Co 5:1-21


Na mensagem anterior, abordamos diversos
pontos importantes em 2 Coríntios 5: o anelo de ter
um corpo transfigurado, o esforço, ou ambição, de
agradar ao Senhor, viver para o Senhor, e ser nova
criatura, ou criação. No versículo 17, Paulo fala da
nova criação: “E, assim, se alguém está em Cristo, é
nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que
se fizeram novas”. A velha criação não tem a viela e
natureza divinas, mas a nova criação, os crentes
nascidos novamente de Deus, sim (Jo 1:13; 3:15; 2Pe
1:4). Assim, eles são nova criação (GI6:15), não de
acordo com a velha natureza carnal, mas de acordo
com a nova natureza da vida divina. O vocábulo eis no
versículo 17 é um chamado para observar a
maravilhosa mudança da nova criação.

O MINISTÉRIO DA RECONCILIAÇÃO
Nos versículos 18 a 20, Paulo passa a falar do
ministério ela reconciliação: “Ora, tudo provém de
Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio
de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, a
saber, que Deus estava em Cristo reconciliando
consigo o mundo, não imputando aos homens as suas
transgressões, e nos confiou a palavra da
reconciliação. De sorte que somos embaixadores em
nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso
intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que
vos reconcilieis com Deus”. Precisamos ler esses
versículos com muito cuidado. A expressão “de sorte
que” no versículo 20 é uma locução conjuntiva que o
liga com os anteriores. De acordo com esse versículo,
os embaixadores de Cristo são um com Deus, são
como Deus e exortam como Deus. Sua palavra é a
palavra de Deus, e o que fazem é a ação de Deus.
Além disso, a expressão “em nome de Cristo” significa
da parte de Cristo. Como quem representa Cristo, os
apóstolos eram Seus embaixadores. Hoje, um
embaixador é alguém autorizado a representar seu
governo. De igual modo, os apóstolos estavam
autorizados por Cristo a representá-Lo na obra de
reconciliação.
A redação de Paulo em 5:20 é incomum. Depois
de dizer “somos embaixadores”, ele diz “como se
Deus exortasse por nosso intermédio”. Ele parece
dizer: “Somos embaixadores de Cristo e fazemos uma
obra reconciliatória. É como se Deus os exortasse por
intermédio de nós. Somos um com Cristo e um com
Deus. Cristo é um conosco, e Deus também. Portanto,
Deus, Cristo e nós, os apóstolos, somos todos um”. O
ministério da nova aliança é um ministério no qual
Deus, Cristo e os ministros são um.
A palavra de Paulo no versículo 20 é categórica e
enfática. Ele diz: “De sorte que somos embaixadores
em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso
intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que
vos reconcilieis com Deus”. Deus, Cristo e os
apóstolos eram um para levar a cabo o ministério da
reconciliação.
OS DOIS PASSOS DA RECONCILIAÇÃO
A palavra de Paulo no versículo 20 sobre ser
reconciliado com Deus não é dirigida aos pecadores,
mas aos crentes em Corinto. Esses crentes já tinham
sido parcialmente reconciliados com Deus, e não
plenamente reconciliados. Não seria verdade dizer
que os crentes coríntios não tinham sido nem um
pouco reconciliados com Deus. Em 1 Coríntios
capítulo um, Paulo refere-se a eles como santos, como
aqueles que foram chamados por Deus à comunhão
de Seu Filho. Portanto, eles certamente foram
reconciliados com Deus até certo ponto. Talvez
tivessem sido reconciliados com Ele pela metade.
Os livros de 1 e 2 Coríntios mostram que os
crentes em Corinto, uma vez parcialmente
reconciliados com Deus, ainda viviam na carne, no
homem exterior. Entre eles e Deus havia o véu de
separação da carne, do homem natural. Esse véu
corresponde ao véu no interior do tabernáculo, o véu
que separava o Santo Lugar do Santo dos Santos, e
não ao véu à entrada do Santo Lugar. Os crentes
coríntios podiam estar no Santo Lugar, mas não no
Santo dos Santos. Isso quer dizer que ainda estavam
separados do lugar onde Deus está. Por isso, ainda
não se tinham reconciliado com Deus plenamente.
No versículo 19 é o mundo que deve ser
reconciliado com Deus.
No versículo 20 são os crentes, os que já foram
reconciliados com Deus, que devem ser reconciliados
com Ele mais um pouco. Isso indica claramente que
há dois passos para que as pessoas sejam totalmente
reconciliadas com Deus. O primeiro passo é, como
pecadores, ser reconciliados com Deus a partir do
pecado. Com esse objetivo, Cristo morreu pelos
nossos pecados (1Co 15:3) para que fossem perdoados
por Deus. Esse é o aspecto objetivo da morte de
Cristo. Nesse aspecto, Ele os levou na cruz para que
Deus os julgasse em Cristo por nós. O segundo passo
é, como crentes vivendo na vida natural, ser
reconciliados com Deus a partir da carne. Para esse
propósito, Cristo morreu por nós — as pessoas — para
que vivamos para Ele na vida de ressurreição (2Co
5:14-15). Esse é o aspecto subjetivo da morte de
Cristo. Nesse aspecto, Ele foi feito pecado por nós
para ser julgado e morto por Deus, a fim de que Nele
nos tornássemos a justiça de Deus. Pelos dois
aspectos de Sua morte, Ele reconciliou totalmente
com Deus os escolhidos de Deus.
Esses dois aspectos da reconciliação são
claramente retratados pelos dois véus do tabernáculo.
O primeiro véu é chamado de reposteiro (Êx 26:36).
Um pecador era conduzido a Deus por intermédio da
reconciliação do sangue da expiação para entrar no
Lugar Santo passando por esse reposteiro. Isso
tipifica o primeiro passo da reconciliação. O segundo
véu (Êx 26:31-35; Hb 9:3) ainda o separava de Deus,
que estava no Santo dos Santos. Esse véu precisava
ser rasgado para que o pecador fosse levado a Deus
no Santo dos Santos. Esse é o segundo passo da
reconciliação. Os crentes coríntios tinham sido
reconciliados com Deus porque tinham passado pelo
primeiro véu e entrado no Santo Lugar, mas ainda
viviam na carne. Precisavam passar o segundo véu,
que já fora rasgado (Mt 27:51; Hb 10:20), para entrar
no Santo dos Santos a fim de viver com Deus no
espírito (1Co 6:17). O objetivo dessa Epístola era
conduzi-los ao espírito, a fim de que fossem pessoas
no espírito (1Co 2:14), no Santo dos Santos. Isso é o
que o apóstolo quer dizer com: “Vos reconcilieis com
Deus”.
No Antigo Testamento, quando um pecador ia a
Deus, ele primeiro tinha de se achegar ao altar para
ter os pecados perdoados mediante o sangue da
oferta pelo pecado. Depois disso, ele podia entrar no
Lugar Santo. Esse é o primeiro passo da
reconciliação, o passo pelo qual um pecador começa a
ser reconciliado com Deus. Essa era a situação dos
crentes em Corinto e também da maioria dos
verdadeiros cristãos hoje. Eles foram reconciliados
com Deus em parte, mediante a cruz na qual Cristo
morreu como nossa oferta pelo pecado, onde Ele
derramou Seu sangue para remover nossos pecados.
Quando cremos Nele, fomos perdoados por Deus,
reconciliados com Ele e conduzidos de volta a Ele.
Anteriormente, nós nos havíamos desviado de Deus,
mas, mediante o arrependimento, voltamos para Ele
e fomos reconciliados com Ele. Entretanto, fomos
reconciliados com Deus somente em parte, pela
metade.

A PLENA RECONCILIAÇÃO
Embora os coríntios tivessem sido salvos e
reconciliados com Deus parcialmente, ainda viviam
na carne, isto é, na alma, no homem exterior, no ser
natural. O véu da carne, do homem natural, ainda os
separava de Deus. Isso quer dizer que seu ser natural
era um véu separador. Portanto, precisavam do
segundo passo da reconciliação. Em 2 Coríntios 5,
Paulo trabalhava para cumprir esse segundo passo.
Ele trabalhava sobre os coríntios para cortar em
pedaços o véu da carne, crucificar a vida natural,
consumir o homem exterior deles. O que ele
procurava fazer em 1 e 2 Coríntios era rasgar o véu de
separação da carne, para que os crentes em Corinto
pudessem entrar no Santo dos Santos.
As bênçãos de Deus podem ser encontradas no
Lugar Santo, mas o próprio Deus está nos Santo dos
Santos. No Lugar Santo estão as bênçãos do Espírito,
o candelabro e o altar de incenso, porém não há a
presença direta de Deus. A fim de ter o próprio Deus,
precisamos ser mais reconciliados e entrar no Santo
dos Santos. Precisamos dar o segundo passo da
reconciliação a fim de ser introduzidos na presença
de Deus. Essa é a plena reconciliação, que não só nos
tira do pecado mas também da carne, do homem
natural, do ser natural. Então somos levados a Deus e
tomamo-nos um com Ele.

A CONSUMAÇÃO FINAL E MÁXIMA DA


SALVAÇÃO DE DEUS
O versículo 21, o último versículo do capítulo
cinco, diz: “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez
pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos
justiça de Deus”. Aqui temos a consumação final e
máxima da salvação de Deus: a Sua justiça.
Precisamos lembrar-nos de que o ministério da
nova aliança é um ministério do Espírito e de justiça.
Ele transmite o Espírito da vida aos crentes. Isso
resulta num estado, numa condição, que é chamada
de justiça. Antes de ser salvos, estávamos numa
condição totalmente condenada por Deus. Nada
estava certo, e Deus de modo nenhum podia justificar
essa condição. Mas depois de salvos fomos
introduzidos num estado em que pudemos ser
justificados por Deus. Isso é justiça. Todavia, se
formos honestos, admitiremos que, por um lado,
estamos numa condição justa, mas, por outro, certas
coisas relacionadas com o nosso viver ainda não estão
corretas. Essas coisas podem não ser comparáveis a
pecados grosseiros que talvez estivessem em nós
antes de termos sido salvos. Não obstante, há pontos
que não estão corretos. Especificamente, ainda há a
separação entre nós e Deus causada pelo nosso
homem natural, nosso ego. Isso é pecado.
Suponha que marido e mulher não sejam salvos.
Eles têm dificuldades de relacionamento e
freqüentemente brigam. Às vezes discutem de
maneira muito rude. Mas suponha que um dia o
marido é salvo e entra para a vida da igreja. Ele
começa a mudar, e essa mudança afeta a mulher. Por
fim, ela também é salva e entra para a vida da igreja.
Como o marido, ela também começa a mudar. Agora
marido e mulher estão num estado que a Bíblia
chama de justiça. Entretanto, o homem, agora um
irmão no Senhor, tem uma disposição muito forte.
(Disposição é diferente de caráter porque é
totalmente parte de nosso ser, de nossa constituição).
Além disso, a mulher é muito peculiar e raramente
concorda com os outros. Freqüentemente ela
contradiz os outros. Como poderia ela e o marido
viver juntos em paz, já que ele tem disposição forte e
ela é muito peculiar? Embora talvez já não briguem
um com o outro como antes, eles não concordam
entre si. Como resultado, não se falam muito. Uma
vez que a conversa invariavelmente leva a desacordo,
o marido pode dizer à mulher que é melhor que não
se falem. O que eles têm é meia reconciliação e meia
justiça.
Entretanto, suponha que esse casal ouça uma
mensagem sobre a necessidade de mais reconciliação.
O marido começa a condenar a própria disposição, a
mulher condena a própria peculiaridade e ambos
condenam a vida natural. Como conseqüência, há a
possibilidade de que sejam introduzidos no Santo dos
Santos para desfrutar o Senhor. O marido, então,
talvez diga: “Louvado seja o Senhor!” E a esposa
talvez responda: “Amém!” Se for essa a situação do
casal, eles ficarão numa condição que pode ser
chamada de justiça de Deus.
Em 5:17-21, vemos três tópicos: a nova criação, a
plena reconciliação e a justiça de Deus. Por que
dizemos que essa justiça é a consumação final e
máxima da salvação de Deus? Essa afirmativa
baseia-se em 2 Pedro 3:13, que fala do novo céu e
nova terra onde habita justiça. O fato de a justiça
habitar o novo céu e nova terra indica que tudo será
totalmente levado de volta para Deus. Tudo será
encabeçado e posto em boa ordem. Nada estará
errado e nada ficará fora de ordem. Tudo no novo céu
e nova terra estará correto e satisfatório para Deus.
Deus será capaz de olhar para todo o universo e
justificar tudo.
Você foi salvo e introduzido em Cristo? Você está
agora em Cristo? Se pode satisfazer essas condições,
então é uma nova criação, mas embora possa ter
certeza de dizer que é uma nova criação em Cristo,
poderá não ter a ousadia de declarar que é a justiça de
Deus. O motivo de lhe faltar essa ousadia é que você é
como uma borboleta que não saiu totalmente do
casulo. Somente quando o nosso “casulo” for
totalmente desfeito é que poderemos dizer que somos
justiça de Deus. Até então podemos dizer que somos a
justiça de Deus apenas parcialmente. Precisamos que
a cruz faça avançar sua obra em nós, para que o
restante do nosso casulo seja consumido. Por fim, o
mais tardar na Nova Jerusalém, seremos plenamente
a justiça de Deus. Deus, então, será capaz de se gabar
para o Seu inimigo, Satanás, que tudo na Nova
Jerusalém é justiça, que nada está errado ou deixa a
desejar, que tudo para Ele é satisfatório. Por isso,
Deus será capaz de justificar tudo na Nova Jerusalém.
Essa é a justiça que é a consumação do ministério da
nova aliança.

TORNAR-SE A JUSTIÇA DE DEUS


O ministério da nova aliança, um ministério do
Espírito e de justiça, operará uma condição de justiça
primeiro nos indivíduos, segundo na igreja e terceiro
no reino milenar. Quando o reino vier, haverá justiça
na terra. Então tudo será satisfatório para Deus e Ele
justificará tudo. Embora a era do reino ainda não
tenha vindo, podemos ter um ante gozo da justiça do
reino, hoje, na vida da igreja e na vida familiar. Às
vezes, na igreja em certa cidade, a condição pode ser
tal que tudo, todos e cada item são justificados por
Deus. Tal igreja é a justiça de Deus. Essa condição
pode também estar presente na vida familiar. Em
alguns casos tenho visto que numa família cujos
membros foram totalmente salvos, há uma condição
onde nada está errado, e tudo é satisfatório para com
Deus e justificado por Ele. Tal família é uma família
de justiça. O fruto do ministério da nova aliança é
produzir essa justiça.
Os capítulos três, quatro e cinco falam sobre o
ministério da nova aliança e seus ministros, mas essa
seção consuma-se com a palavra de Paulo acerca da
justiça de Deus.
Muitos dos cristãos de hoje sabem apenas que
Cristo morreu pelos seus pecados. Não percebem que
Ele morreu por eles, que são carne e são a velha
criação. Mas em 2 Coríntios Paulo não fala que Cristo
morreu pelos nossos pecados; antes, diz: “Um morreu
por todos” (5:14). Isso quer dizer que Ele morreu por
nós. Em 1 Coríntios 15:3, Paulo diz-nos que Cristo
morreu pelos nossos pecados. Para que os nossos
pecados fossem perdoados por Deus, Cristo morreu
por eles. Isso, entretanto, é apenas o estágio inicial da
reconciliação. Cristo não morreu na cruz só pelos
nossos pecados, mas também por nós, nossa carne,
nosso ser natural, nosso homem exterior. Cristo
morreu na cruz para que nosso homem exterior,
nosso ser natural, fosse aniquilado a fim de que nos
tomemos justiça de Deus. Por isso, Ele morreu pelos
nossos pecados para que fôssemos perdoados e
justificados por Deus. Cristo, porém, morreu por nós
para que nos tomássemos justiça de Deus.
Tomar-se justiça de Deus é muito mais profundo
do que ser justificado por Deus. O ministério da nova
aliança leva-nos de volta para Deus a tal ponto, que,
na verdade, tomamo-nos justiça de Deus. Não só
somos justificados por Deus, mas até mesmo nos
tomamos a Sua justiça.

O PECADO, A CARNE E O HOMEM


EXTERIOR
No versículo 21, Paulo diz que Cristo foi feito
pecado a nosso favor para que Nele nos tomássemos
justiça de Deus. O pecado aqui é, na verdade,
sinônimo de carne. João 1:14 diz que Cristo, como a
Palavra, tomou-se carne. Segunda Coríntios 5:21 diz
que Ele foi feito pecado. De acordo com Romanos 8:3,
Deus enviou Seu Filho em semelhança de carne
pecaminosa. Assim, o pecado e a carne são
sinônimos. Além do mais, já que a carne é nosso
homem exterior, ele é totalmente pecado. Nós
mesmos, nosso ser natural, nada somos exceto
pecado. Cristo ser feito carne equivale a ser feito
pecado. Quando Ele foi à cruz, levou essa carne com
Ele. Isso quer dizer que Ele nos levou à cruz, isto é,
levou o nosso ser natural, o nosso homem exterior.
No capítulo quatro, Paulo fala do homem
exterior e no cinco fala de pecado. O homem exterior
é a carne, e a carne é pecado. Portanto, homem
exterior, carne e pecado são sinônimos.
Cristo em Sua encarnação foi feito carne, isto é,
foi feito pecado.
Isso também quer dizer que Ele foi feito nós. Ao
ser crucificado, Ele levou nosso homem natural, o
homem exterior, a carne, o pecado, à cruz e pregou-os
ali. Essa foi a hora que Deus condenou o pecado, a
carne, o homem exterior. Quando Cristo morreu na
cruz, Deus condenou nosso homem natural. Ele
condenou a você e a mim. O objetivo de Deus em
fazer isso foi que nos tomássemos, em Cristo, a justiça
de Deus. O Cristo ressurreto é justiça, ressurreição e o
Espírito que dá vida. Nesse Cristo, podemos
tomar-nos a justiça de Deus. Esse é o resultado, a
conseqüência, a consumação final e máxima da
salvação de Deus, e isso é o que o ministério da nova
aliança vai gerar.
A conclusão desses capítulos sobre o ministério
da nova aliança e seus ministros é simplesmente a
justiça de Deus. A sua vida familiar é justiça de Deus?
Você é justiça de Deus? A igreja em sua cidade é
justiça de Deus? Cremos que o ministério da nova
aliança opera com o objetivo de fazer de nós, nossa
vida familiar e nossa vida da igreja a justiça de Deus.
Então, quando a era do reino chegar, a justiça de
Deus estará na terra. O reino introduzirá o novo céu e
a nova terra com a Nova Jerusalém. Nesse novo céu e
nova terra, habitará justiça. Esse é o resultado e a
consumação do ministério da nova aliança.
ESTUDO-VIDA DE SEGUNDA CORÍNTIOS

MENSAGEM TRINTA E OITO

O MESCLAR DA DIVINDADE COM A HUMANIDADE

Leitura Bíblica: 2Co 3:18; 4:7-15

OS PRINCIPAIS PASSOS DA PLENA


SALVAÇÃO DE DEUS
Na plena salvação de Deus há muitos passos
importantes. Eles incluem redenção, regeneração,
transformação e glorificação. Como criaturas de
Deus, fomos criados por Ele para cumprir Seu
propósito. Entretanto, tornamo-nos caídos.
Tornar-se caído é perder-se. Tornamo-nos perdidos
por causa de nossa queda no pecado. Deus, porém,
tornou-se um homem na Pessoa do Filho a fim de ser
nosso Redentor. Como tal, Ele morreu na cruz pelos
nossos pecados. Embora fôssemos caídos e perdidos,
Deus veio como homem cumprir a redenção e
conduzir-nos ele volta a Si mesmo.
A redenção, contudo, é simplesmente o estágio
inicial da plena salvação de Deus. Quando cremos no
Senhor Jesus, fomos redimidos para Deus, mas, ao
mesmo tempo, o Espírito de Deus, com base na
redenção de Cristo, entrou em nosso ser.
Especificamente, o Espírito entrou em nosso espírito
para nos regenerar, introduzir a vida de Deus em
nosso espírito mortificado e vivificá-lo. Dessa forma,
fomos regenerados de Deus. Ser regenerado não é o
mesmo que nascer de nossos pais para receber a vida
física, mas é nascer de Deus para receber a vida
espiritual. Isso quer dizer que o próprio Deus, que é
vida, entrou em nosso espírito para ser nossa vida,
natureza e pessoa.
Em nossa experiência, a redenção e a
regeneração ocorrem ao mesmo tempo. Fomos
redimidos, e nossos pecados foram perdoados. Como
conseqüência, fomos justificados por Deus e
reconciliados com Ele. Agora que Cristo nos redimiu
para Deus, não há mais problemas entre nós e Deus.
Ao mesmo tempo, fomos regenerados, nascemos de
novo de Deus. Mediante a regeneração, tomamo-nos
filhos de Deus.

TRANSFORMAÇÃO, CONSTITUIÇÃO,
REORGANIZAÇÃO
A regeneração, assim como a redenção, é
somente o início, o estágio inicial da salvação de
Deus. Da mesma forma que o nascimento é o início
da vida humana, a regeneração é o início da vida
espiritual. Depois da regeneração, precisamos da
transformação.
Se quisermos entender o significado da
transformação, precisamos usar termos tais como
constituição e reorganização. Usado com respeito à
transformação, o termo constituição significa que
determinado elemento novo é acrescentado ao nosso
interior e constituído em nós. É claro, o que é
acrescentado a nós é o elemento divino. Antes de ser
regenerados, não tínhamos o elemento divino. Quer
fôssemos bons ou maus, 'odos possuíamos somente o
elemento humano. Os que são caídos e os que são
redimidos são iguais, no sentido de ter o elemento
humano.
Podemos comparar-nos a um copo d'água. Quer
esteja limpo ou sujo, o copo não contém nada além de
água. Não contém nenhuma outra coisa, nenhum
outro elemento. Por isso, o que está no copo não tem
o sabor ou cor de coisa alguma, exceto água. Todavia,
se for colocado chá nesse copo d'água, outro elemento
é adicionado à água. Então, duas substâncias, água e
chá, chá e água, são misturados. Essa mescla é o que
queremos dizer com constituição. A água é
constituída no chá, e o chá, na água.
Continuando a usar a ilustração de água e chá,
queremos enfatizar que é impossível que a água se
tome chá sem que o elemento do chá lhe seja
adicionado. Há somente uma maneira de a água
tomar-se chá, qual seja, colocar chá na água. Quando
o elemento do chá é acrescentado à água, esse
elemento vai constituir a água em chá. Uma vez que a
água se tenha tomado chá, ela tem dois elementos:
chá e água. Quem a tomar receberá os dois elementos.
Ele ingere somente uma bebida, mas recebe dois tipos
de elementos. Desfruta a água para saciar a sede e o
chá para dar-lhe certo sabor.

NÃO É GERADA UMA TERCEIRA


SUBSTÂNCIA
Precisamos estar bem esclarecidos, entretanto,
de que a mescla do chá com a água não produz uma
terceira substância, uma substância que não é nem
chá nem água. Dizer que o elemento do chá é
mesclado com a água não quer dizer que as duas
substâncias originais, chá e água, são anuladas e não
mais existem. Pelo contrário, a água ainda é água, e o
chá ainda é chá. A diferença é que, uma vez
mesclados, chá e água já não estão mais separados.
São distintos, mas não estão separados porque foram
mesclados e constituídos numa única entidade, uma
bebida. No mesmo princípio, quando a divindade é
mesclada com a humanidade, tanto uma como a
outra continuam a existir. Não seria verdade dizer
que essa mistura gera uma terceira substância, algo
que não é divino nem humano.

O INÍCIO DO MESCLAR
Quando fomos regenerados, o “chá” divino foi
acrescentado a nós. Antes, quer nosso
comportamento fosse bom ou mau, tínhamos
somente o elemento da humanidade. Tanto um
ladrão de banco como uma pessoa muito ética são a
mesma coisa, no sentido que nenhum deles tem o
elemento divino, já que não foram regenerados.
Louvamos o Senhor porque, na época da nossa
regeneração, Deus entrou em nosso ser. Nessa
ocasião, a Pessoa divina com a vida divina, a natureza
divina e o ser divino foram acrescentados a nós. Que
tremenda diferença isso faz! Agora, como pessoas
salvas e regeneradas, temos dois elementos: o
humano e o divino. Ademais, temos a vida divina bem
como a humana, e a natureza divina bem como a
humana. O elemento da divindade foi acrescentado
ao elemento de nossa humanidade.
O acréscimo do elemento divino ao nosso ser, na
época da regeneração, marca o início do mesclar da
divindade com a humanidade em nós. Regeneração,
portanto, é simplesmente o início do mesclar.
Quando o chá é acrescentado à água, tanto o chá
como a água operam para produzir uma entidade,
uma bebida. Podemos dizer que o chá e a água
cooperam para produzir essa bebida. No mesmo
princípio, uma vez que Deus tenha sido acrescentado
ao nosso ser, Ele começa a operar em nosso interior.
Agora, precisamos cooperar com a obra de Deus, com
o Seu trabalho.
Desde que fomos regenerados, um processo de
constituição e transformação tem ocorrido em nós.
Esse processo também envolve reorganização. Pelo
nosso nascimento como seres humanos fomos
organizados de determinada maneira, mas agora que
um novo elemento, o elemento divino, entrou em
nosso ser, há a necessidade de reorganização. Por
isso, precisamos de constituição, transformação,
reorganização.
Nos primeiros séculos da história da igreja,
certos mestres da Bíblia viram a questão do mesclar,
experimentaram-na e a tocaram. Alguns deles,
contudo, chegaram a um extremo e afirmaram que na
mescla da divindade com a humanidade em Cristo, as
duas naturezas originais geraram uma terceira. Isso é
herético e foi condenado pelo Concílio de Calcedônia.
Depois, os mestres cristãos temeram falar da mescla
da divindade com a humanidade, mas sabemos que
alguns, em todos os séculos, continuaram a ensinar
de maneira correta acerca da mescla da divindade
com a humanidade. Recentemente, li dois livros de
autores católicos que falam desse mesclar de forma
correta.

UMA PREFIGURAÇÃO DO MESCLAR


A oferta de manjares, composta de flor de farinha
mesclada com azeite, é uma prefiguração do mesclar
da divindade com a humanidade. Em alguns casos, o
azeite era derramado sobre a flor de farinha; em
outros, era misturado, ou mesclado, com ela. No caso
do azeite mesclado com a farinha para fazer um bolo
a ser usado na oferta de manjares, duas substâncias —
farinha e azeite — eram mescladas. O azeite não era
simplesmente acrescentado à farinha, mas era
mesclado com ela. Nesse mesclar, todavia, nenhum
desses elementos cessava de existir: o azeite ainda era
azeite, e a farinha fina ainda era farinha. Porém, por
meio, do processo de mescla, a farinha e o azeite se
tomavam uma entidade só. Entretanto, nem o azeite
nem a farinha perdiam sua natureza específica por
causa dessa mescla. Além disso, a mescla do azeite
com a farinha não produzia uma terceira natureza,
uma substância que não era nem farinha nem azeite.
O produto da mescla era um bolo com duas
naturezas, dois elementos, duas substâncias.
A oferta de manjares prefigura Cristo. A
humanidade de Cristo é tipificada pela flor de farinha
e Sua divindade, pelo azeite. A mescla do azeite com a
flor de farinha indica que em Cristo a divindade não
foi apenas adicionada à humanidade, mas mesclada
com ela. Assim como o azeite foi mesclado com a
farinha, também, em Cristo, a divindade mesclou-se
com a humanidade. Portanto, Cristo tem duas
naturezas: divindade e humanidade, mescladas em
Sua única Pessoa. Em Sua vida na terra, era evidente
que Ele era um homem autêntico, mas muitas vezes
era manifestado que Ele era de fato Deus. No bolo
usado na oferta de manjares, tanto o sabor do azeite
como o da farinha podiam ser provados. De modo
semelhante, com Cristo, tanto a divindade como a
humanidade são manifestadas.

A CABEÇA E O CORPO
Cristo hoje é a Cabeça do Corpo, e nós, Seus
seguidores, somos Seus membros. Como Cabeça, Ele
tem duas naturezas, e orno Seus membros também
temos as mesmas duas naturezas. Cristo, a Cabeça,
tem divindade e humanidade, e nós, Seus membros,
também as temos. Considere o seu corpo: a cabeça e
os membros são da mesma substância. Não é possível
a cabeça ser de uma substância e os membros, de
outra. Não, o corpo todo é da mesma substância, do
mesmo elemento. Em todo o corpo há o mesmo
sangue, a mesma vida e a mesma natureza. O mesmo
ocorre no relacionamento entre Cristo e a igreja. O
que Cristo é e tem, nós, como Seus membros, também
somos e temos. Cristo tem tanto humanidade como
divindade, e nós também. Isso quer dizer que Cristo e
nós, que cremos Nele e somos Seus membros, temos
duas naturezas. Contudo, queremos enfatizar
novamente que o mesclar da divindade com a
humanidade em nós não produz uma terceira
natureza. Nossa humanidade não cessa de existir.
Nem a divindade nem a humanidade são anuladas na
mescla.

DIVINDADE E HUMANIDADE
ENTRETECIDAS
No Estudo-Vida de Êxodo, salientamos que o
éfode, vestimenta usada pelo sumo sacerdote, era
fabricado de ouro e linho entretecidos. Essas duas
linhas não eram meramente colocadas lado a lado ou
uma sobre a outra, mas eram entretecidas num tecido
só. Nesse tecido, tanto o fio de ouro como o fio de
linho podiam ser vistos. Isso também representa o
mesclar da divindade com a humanidade em Cristo.
O fio de ouro significa a divindade de Cristo e o fio de
linho, a Sua humanidade. Essa tecelagem do ouro
com o linho no éfode indica que em Cristo, as duas
naturezas, divindade e humanidade não são apenas
acrescidas uma à outra, mas tecidas juntas,
mescladas. Além disso, assim como o tecer do ouro
com o linho não produziram uma terceira substância,
também a mescla da divindade com a humanidade
em Cristo não as anula, a fim de produzir uma
terceira natureza.

O PROCESSO DE MESCLA
É muito importante que percebamos que todo
cristão autêntico, todo verdadeiro crente em Cristo, é
uma pessoa em processo de mescla da vida e natureza
divinas com a vida e natureza humanas. A vida divina
não só está mesclada com nossa vida humana, mas
ainda está no processo de se mesclar com ela. Como
conseqüência, somos seres humanos divinos.
Podemos também dizer que somos seres divinos
humanos. É por isso que dizemos que os cristãos são
homens-Deus. Nossa vida é a vida de um
homem-Deus, e nosso viver, como indica o éfode
composto de ouro e linho, é um viver da divindade
mesclada com a humanidade. Nossa veste espiritual
não é somente linho, mas também ouro. Temos ouro
e linho tecidos numa única vestimenta. Essa é nossa
conduta, comportamento, caráter, viver.
Louvamos ao Senhor porque o processo de
mescla ainda acontece em nós. Esse processo
contínuo é a transformação. Podemos também
chamá-lo de constituição e reorganização.
A Bíblia revela que, como crentes em Cristo,
somos transformados, constituídos, reorganizados.
Todavia, isso não é ensinado entre a maioria dos
cristãos hoje. Pelo contrário, eles aprendem a
aperfeiçoar seu caráter e comportamento. Esse
ensinamento, entretanto, não está de acordo com a
Bíblia. Tudo o que a Bíblia fala a respeito de nosso
comportamento ou conduta envolve transformação. É
vital que percebamos que a transformação é o modo
certo. No processo de transformação, o elemento de
Deus, a divindade, opera em nós para transformar
nossa humanidade de humanidade natural em
humanidade espiritual. Isso, porém, não quer dizer
que nossa humanidade será perdida. Tampouco quer
dizer que a divindade será mudada ou alterada de
alguma forma. Não; nem nossa humanidade nem a
divindade de Deus serão mudadas; mas são
mescladas numa única entidade, um único ser. Essa
mescla gera autênticos homens-Deus. Também gera a
“água-chá” celestial para que bebamos e desfrutemos
dia após dia.
ESTUDO-VIDA DE SEGUNDA CORÍNTIOS

MENSAGEM TRINTA E NOVE

OS MINISTROS DA NOVA ALIANÇA (8)

Leitura Bíblica: 2Co 6:1-13

O QUE SOMOS E O QUE FAZEMOS


Em 2:12 a 3:11, Paulo aborda o ministério da
nova aliança, e em 3:12 a 7:16, os ministros da nova
aliança. Nessa Epístola, a seção sobre os ministros da
nova aliança é muito maior do que a seção sobre o
ministério da nova aliança. O motivo disso é que Deus
se importa muito mais com os ministros do que com o
ministério. Em outras palavras, Ele se importa mais
com o que somos do que com o que fazemos. Isso
quer dizer que o que somos é muito mais importante
para Ele do que o que fazemos.
Hoje, tanto no meio cristão como no mundo,
mais atenção é dada ao que as pessoas fazem do que
ao que elas são. Os cristãos, em especial, prestam
atenção à obra ou ao ministério, no entanto
negligenciam a pessoa que faz a obra. Prestam
atenção à obra e ao ministério, muito mais do que ao
obreiro e ao ministro. Entretanto, segundo a Bíblia,
Deus presta mais atenção ao que somos do que ao que
fazemos ou podemos fazer. Ele se importa com a
pessoa que somos e com a vida que temos. Por isso,
em 2 Coríntios, Paulo primeiro apresenta o
ministério do Novo Testamento, então passa a
mostrar que esse ministério excelente, maravilhoso,
precisa de excelentes ministros com uma vida
excelente.
Precisamos ficar profundamente impressionados
pelo fato de que Deus se importa muito mais com o
que somos do que o que fazemos. O que fazemos tem
de ser medido pelo que somos. Além disso, nosso ser
tem de corresponder à nossa obra, isto é, o que somos
precisa corresponder ao que fazemos. Nosso ser tem
de corresponder à nossa ação. Assim, nosso ser e ação
andam juntos. Se nos importarmos somente com o
que fazemos e não em ser a pessoa adequada, então o
que fizermos não será de muito peso. Nossa ação só
terá peso quando for correspondida pelo que somos.

TRABALHAR POR MEIO DE UMA VIDA


TODO-AJUSTÁVEL
Em 6:1, Paulo diz: “E nós, na qualidade de
cooperadores com ele, também vos exortamos a que
não recebais em vão a graça de Deus”. A conjunção e
aqui indica continuação. Na última parte do capítulo
cinco (vs. 16-21), o apóstolo diz-nos que, como
ministros da nova aliança, eles são comissionados
com o ministério da reconciliação para a nova criação
do Senhor. Desse versículo até o fim do capítulo sete,
ele passa a mostrar-nos como trabalham. Trabalham
com Deus, por meio de uma vida (e não de um dom)
que é todo-suficiente e totalmente madura, capaz de
se ajustar a todas as situações, de resistir a todo e
qualquer tratamento, aceitar todo e qualquer
ambiente, operar sob toda e qualquer condição e
aproveitar toda e qualquer oportunidade para levar a
cabo o seu ministério.
Alguns que lêem isso podem dizer: “Essa é uma
boa palavra para cooperadores e ministros, mas não
se aplica a mim. Sou leigo; não sou ministro”. Na
restauração do Senhor porém não há leigos. Cada um
é ministro, cooperador e até mesmo tem potencial e
capacidade de se tornar apóstolo. Já enfatizamos que
os apóstolos são exemplos e modelos do que todos os
crentes devem ser. Em Efésios 3, Paulo diz que ele é
menos que o menor de todos os santos (lit.). Além
disso, o nome Paulo significa pequeno. Se Paulo, que
se considerava menos que o menor de todos os
santos, podia ser ministro e apóstolo; e quanto a
você? Todos temos capacidade para ser ministros da
nova aliança. Sobre isso, nossa ênfase não deve estar
no que fazemos, mas no que somos. Nossa
capacidade não é primordialmente a de fazer, mas a
de ser.
Eu diria que em 2 Coríntios 6:1 a 7:16, podemos
ver que os apóstolos trabalham com Deus por meio de
uma vida todo-ajustável. Esse trecho não indica que
eles trabalham com Deus por meio de um poder
todo-suficiente ou um dom todo-miraculoso. Os
cristãos de hoje, todavia, devotam a atenção
principalmente ao poder e aos dons. Alguns podem
indagar: “Você tem poder? Você não sabe que o Dr.
Fulano de Tal é um pregador poderoso? Que dons
você tem? Oh! o Dr. Fulano de Tal é muito dotado!”
Mas entre os cristãos hoje há muito pouca conversa
sobre vida ou sobre viver. Os que na verdade não têm
poder podem fingir que são poderosos. Por exemplo,
de maneira presunçosa eles podem orar: “No nome
poderoso de Jesus eu amarro todos os demônios!”
Mas o mais interessante é que Paulo em 2 Coríntios
não fala assim. Na verdade, ele fala muito pouco
sobre dons ou poder. Como é usado em 2 Coríntios, o
dom não se refere aos dons miraculosos, e poder não
tem a conotação comumente dada pelos cristãos hoje.
Se ler cuidadosamente todo o livro de 2 Coríntios,
verá que a ênfase de Paulo está na vida. Daí, em 6:1 a
7:16, vemos que ele trabalhava com Deus por meio de
uma vida todo-ajustável.
Ser ministro do Novo Testamento não depende
de dom ou poder, mas de ter uma vida capaz de se
ajustar a toda e qualquer situação. Por certo, em
6:1-13, o termo todo-ajustável não é usado, mas se
considerar o que está contido nesses versículos, verá
que eles descrevem uma vida que certamente é
todo-ajustável. Como veremos em mensagem
posterior, Paulo aqui menciona dezoito qualificações,
três grupos de itens e sete tipos de pessoas. Ele, por
isso, estava, de todas essas maneiras, qualificado para
ser ministro da nova aliança.
Em 6:1-13, Paulo não inclui na lista de
qualificações, coisas tais como filosofia e psicologia.
Se quisermos ser ministros adequados da nova
aliança, precisamos ter as dezoito qualificações e os
três grupos de itens e ser os sete tipos de pessoas
mencionados por Paulo. Somente dessa forma
podemos estar qualificados para ser cooperadores de
Deus para o Seu ministério do Novo Testamento.
Em 6:1, Paulo não diz que os apóstolos
trabalham juntos, uns com os outros. Não; ele diz que
trabalhavam com Deus. Os apóstolos não eram
apenas comissionados por Deus com seu ministério,
mas também trabalhavam com Ele. Eram os
cooperadores de Deus (1Co 3:9). Paulo e seus
cooperadores trabalhavam com Deus.

RECONCILIADOS COM DEUS


Se quisermos ter uma compreensão adequada do
que significa trabalhar com Deus, precisamos trazer à
memória o que Paulo disse no final do capítulo cinco.
Ele já dissera que fora comissionado por Deus com o
ministério da reconciliação, isto é, com a obra de
reconciliar as pessoas com Deus.
Anos atrás, eu tinha uma maneira muito limitada
de entender a reconciliação. Minha compreensão era
que, antes de ser salvos, éramos inimigos de Deus e
não havia paz entre nós e Deus. Em vez de haver paz,
estávamos em inimizade com Deus. Mas quando nos
arrependemos e cremos no Senhor Jesus, Seu sangue
lavou nossos pecados e recebemos o perdão de Deus.
Conseqüentemente, fomos por Ele justificados e
reconciliados com Ele. Uma vez reconciliados com
Ele dessa forma, já não havia inimizade entre nós e
Ele. Pelo contrário, ficamos em paz com Ele. Essa
compreensão fica muito aquém do significado pleno
da reconciliação do Novo Testamento. Não é o
significado pleno da reconciliação ministrada pelo
apóstolo Paulo.
Que é a reconciliação ministrada por Paulo?
Tenho lido muitos livros que se referem a esse tema,
mas nenhum deles ressaltou que o ministério da
reconciliação não é meramente levar os pecadores de
volta para Deus, mas, muito mais, é introduzir os
crentes totalmente em Deus. Assim, não é suficiente
simplesmente ser conduzido de volta a Deus; também
precisamos estar Nele.
O último versículo do capítulo cinco, versículo
21, diz: “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez
pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos
justiça de Deus”. De acordo com esse versículo,
tornamo-nos a justiça de Deus, não meramente por
intermédio de Cristo, com Cristo ou por Cristo, mas
em Cristo. Por esse versículo, também vemos que nos
tornamos não só justos diante de Deus, mas nos
tornamos a Sua própria justiça. Ser justo é uma coisa,
mas tornar-se justiça é algo mais. Por exemplo,
podemos ter um objeto que é dourado, mas não é
ouro puro. Que maravilha que em Cristo podemos
tornar-nos a própria justiça de Deus!
Você tem certeza de que pode declarar que está
em Cristo? Como crentes autênticos, podemos
testificar que estamos Nele, mas será que estamos em
Cristo de modo prático no viver diário? Por exemplo,
você está em Cristo quando faz um gracejo? Quando
faz uma piada, tem certeza de que está Nele? Você
precisa admitir que está fora de Cristo nessa hora.
Não há meio-termo: ou estamos em Cristo ou fora
Dele. Visto que não estamos sempre em Cristo de
forma prática, precisamos de mais reconciliação.
Precisamos ser reconciliados de volta a Cristo.
Suponha que você esteja numa situação em que
precisa esperar na fila por longo tempo. Enquanto
espera, pode não se sentir nem um pouco contente.
Na verdade, pode ficar extremamente aborrecido.
Você está em Cristo nessa hora? Não; está fora de
Cristo. Onde, então, está? Está em si mesmo. Às
vezes, a sua situação pode ser ainda pior, porque pode
estar na carne, talvez em sua raiva. Portanto, você
precisa do ministério da reconciliação para
introduzi-lo de volta em Deus.
Não creio que muitos leitores de 2 Coríntios 5
têm a compreensão de que reconciliação é ser
introduzido de volta em Deus. Foi essa sua
compreensão de reconciliação nesse capítulo? Não
obstante, isso é, . na verdade, o que Paulo quer dizer
com reconciliação.
Por anos a fio eu lia os capítulos cinco e seis de 2
Coríntios sem perceber como o capítulo seis é a
continuação do cinco. No cinco, Paulo diz-nos que
fora comissionado com o ministério de reconciliar os
outros com Deus. No seis, ele leva a cabo esse
ministério com relação aos coríntios.

UM COM DEUS POR MEIO DA MESCLA COM


ELE
A compreensão bíblica de reconciliação inclui
mais do que meramente ser conduzido de volta a
Deus. É ser introduzido de volta Nele. Por isso, de
acordo com a Bíblia, conduzir os outros a Deus
significa introduzi-los Nele e fazê-los totalmente um
com Ele. Contudo, em muitos ensinamentos cristãos,
a questão de unidade com Deus é erroneamente
compreendida. Conforme o conceito mantido por
muitos cristãos, ser um com Deus pode ser
comparado à mulher ser uma com o marido. No caso
de marido e mulher, há uma unidade corporativa,
mas na Bíblia ser um com Deus significa ser mesclado
com Ele. É estar em Deus e permitir que Ele entre em
nós. Biblicamente falando, a unidade com Deus é
aquela na qual entramos em Deus e Ele entra em nós.
Por isso, o Senhor Jesus disse: “Permanecei em Mim,
e Eu permanecerei em vós” (Jo 15:4). Ele não disse
“Permanecei Comigo e Eu convosco”. Que vergonha
que alguns cristãos se oponham a esse maravilhoso
conceito bíblico de que somos um com Deus sendo
mesclados com Ele!

INTRODUZIDOS DE VOLTA EM DEUS


Até que sejamos totalmente um com o Senhor,
estando Nele e permitindo que Ele esteja em nós
integralmente, ainda vamos necessitar do ministério
da reconciliação, com o qual Paulo foi comissionado.
Ele foi comissionado com a obra de introduzir os
crentes em Deus de forma absoluta e prática. Uma
vez que virmos isso, estaremos qualificados para
entender a última parte do capítulo cinco e a primeira
parte do seis. Como já enfatizamos, a conjunção
e no início de 6:1 indica que o capítulo seis é
continuação da última parte do cinco.
Insto com você a que não se apegue ao seu antigo
e limitado conceito de reconciliação. Você pode ter
estudado livros religiosos ou espirituais e sentir que
tem uma interpretação apropriada disso. Mas quero
encorajá-lo a adotar essa nova e mais completa
compreensão de reconciliação, e ver que ser
reconciliado é ser introduzido de volta em Deus, e o
ministério da reconciliação é o ministério de
introduzir pessoas em Deus.
Houve muitos problemas entre os crentes em
Corinto. Todos esses problemas eram sinais de que os
crentes não estavam totalmente em Deus. Em muitos
pontos específicos, eles não estavam em Deus.
Embora fossem salvos e tivessem nascido de Deus,
não viviam Nele. Por isso, em muitos itens do viver
diário, eles estavam fora de Deus. Portanto, Paulo
teve encargo de introduzi-los em Deus. Isso é
reconciliá-los com Deus.

TRABALHAR COM DEUS


Não só os apóstolos foram comissionados com a
obra, o ministério, de reconciliação, mas ao
introduzir os outros em Deus eles trabalharam com
Ele. Sabiam que, por si mesmos, não poderiam
introduzir ninguém em Deus. Eles não tinham essa
habilidade ou capacidade. Precisavam fazer essa obra
com Deus.
No passado, muitos de nós disseram trabalhar
por Deus, mas quando você trabalhava por Ele, teve a
sensação de que trabalhava com Ele? Há uma
diferença importante entre trabalhar por Deus e
trabalhar com Ele. Mesmo no viver humano,
trabalhar com outra pessoa é diferente de
simplesmente trabalhar por ela. Vamos tomar o
exemplo da mulher que prepara a refeição do marido.
Ela pode gostar de cozinhar para ele, mas não com
ele. Assim, se o marido entra na cozinha e tenta
preparar a refeição com ela, ela talvez diga: “Por
favor, deixe-me preparar essa refeição para você. Não
venha à cozinha incomodar-me. Sente-se e descanse
até a comida ficar pronta”. Isso indica que a mulher
prefere cozinhar para o marido, mas não com ele. O
mesmo pode ocorrer ao trabalhar pelo Senhor.
Freqüentemente gostamos de trabalhar por Ele, mas
não queremos trabalhar com Ele. Nossa atitude pode
até ser de que o Senhor deve permanecer no céu
enquanto trabalhamos por Ele na terra. Se
trabalharmos dessa forma, não poderemos
reconciliar os outros com o Senhor. Visto que nós
mesmos não estamos no Senhor de maneira prática
na obra, não conseguimos reconciliar ninguém mais
com Ele. Somente trabalhando com o Senhor
podemos reconciliar outros com Ele.
Trabalhar com Deus significa estar Nele. Quando
estamos Nele, podemos introduzir outros Nele.
Somente uma pessoa que esteja em Deus consegue
introduzir outros Nele. Se você não estiver Nele, com
certeza não poderá introduzir ninguém. Nossa
proximidade com Deus é a medida do resultado da
nossa obra. Se estivermos muito longe de Deus, não
poderemos aproximar os outros Dele. Até que ponto
conseguimos conduzir e introduzir outros em Deus é
sempre diretamente proporcional a onde estamos
com respeito a Deus. Se formos um com Deus,
poderemos conduzir outros exatamente até o ponto
onde nós estamos. Portanto, se quisermos introduzir
outros no Senhor, precisamos primeiro estar Nele.
Quanto mais estivermos Nele, mais poderemos
reconciliar outros com Ele. Que isso nos cause
profunda impressão!

NÃO RECEBER A GRAÇA DE DEUS EM VÃO


Na última parte de 6:1, Paulo diz aos coríntios:
“Também vos exortamos a que não recebais em vão a
graça de Deus”. Essa exortação é a obra de
reconciliação, mencionada em 5:20.
Paulo exortou os crentes em Corinto a que não
recebessem a graça de Deus em vão. Graça é o Cristo
ressurreto tomando-se o Espírito que dá vida para
introduzir em nós o Deus processado em
ressurreição, a fim de ser nossa vida e suprimento de
vida para que vivamos em ressurreição. Isso quer
dizer que graça é o Deus Triúno tomando-se vida e
tudo para nós. Por essa graça, Saulo de Tarso, o
principal dos pecadores (1Tm 1:15-16), tomou-se o
apóstolo mais proeminente, labutando mais
abundantemente do que todos os demais (1Co 15:10).
A graça de Deus sempre nos conduz de volta a Ele. De
acordo com o contexto de 6:1, não receber a graça de
Deus em vão significa não permanecer em nada que
nos distraia de Deus, mas ser conduzidos de volta a
Ele.
PLENA SALVAÇÃO
Em 6:2, Paulo prossegue: “Porque Ele diz: Eu te
ouvi no tempo da oportunidade e te socorri no dia da
salvação; eis, agora, o tempo sobremodo oportuno,
eis, agora, o dia da salvação”. A expressão “tempo
oportuno” refere-se ao tempo de ser reconciliados
com Deus, no qual Ele nos acolhe. Salvação nesse
versículo, conforme o contexto, refere-se a
reconciliação. Reconciliação, na verdade, é plena
salvação.
No capítulo cinco, Paulo fala de reconciliação e
no seis, de salvação. Assim, a salvação mencionada
em 6:2, na verdade; refere-se à reconciliação.
Somente quando nós, os crentes, os salvos em Cristo,
tivermos sido totalmente reconciliados com Deus, é
que seremos totalmente salvos. Até então, estaremos
salvos apenas parcial e não plenamente.
Em 6:1-13, vemos um quadro de alguém
totalmente salvo. Provamos nossa plena salvação ao
ter uma vida todo-ajustável. Nesses versículos, Paulo
é o modelo de um crente totalmente salvo, de alguém
que tem uma vida todo-ajustável. Na mensagem
seguinte vamos considerar os detalhes dessa vida.
ESTUDO-VIDA DE SEGUNDA CORÍNTIOS

MENSAGEM QUARENTA

OS MINISTROS DA NOVA ALIANÇA (9)

Leitura Bíblica: 2Co 6:3-13


Em 6:1-2, vemos a obra do ministério
reconciliador, e em 6:313, a vida adequada para o
ministério. De 6:3 até o fim do capítulo sete, o
apóstolo descreve uma vida todo-ajustável para levar
a cabo o ministério da nova aliança. No versículo 3,
ele diz: “Não dando nós nenhum motivo de escândalo
em coisa alguma, para que o ministério não seja
censurado”. O ministério aqui é o ministério da nova
aliança (3:8-9; 4:1). Nesta mensagem, vamos
considerar a vida que é adequada para tal ministério.
Essa vida é uma vida todo-ajustável.

A PRIMEIRA CATEGORIA DE
QUALIFICAÇÕES

Na Muita Perseverança
No versículo 4, Paulo diz: “Pelo contrário, em
tudo recomendando-nos a nós mesmos como
ministros de Deus: na muita paciência4, nas aflições,
nas privações, nas angústias”. Nos versículos 4 a 7, o
autor dá-nos a primeira categoria de qualificações dos
ministros de Deus, os ministros da nova aliança (3:6).
Quando os li, muitos anos atrás, fiquei intrigado com

4
O vocábulo grego para paciência também pode ser traduzido por perseverança, como em Lc 8:15.
(N.T.)
o fato de que a primeira qualificação dada por Paulo é
perseverança. Pensava que, ao falar das qualificações
dos ministros do Novo Testamento, ele devia ter
começado com algo grandioso. Em vez disso, ele
começa com as palavras “na muita perseverança”. Se
um crente hoje fosse oferecer-se para ser missionário
médico, com certeza mencionaria sua formação. Será
que em vez disso reivindicaria possuir a qualificação
de perseverança? Não obstante, a primeira
qualificação relacionada por Paulo é perseverança.
Muitos tradutores concordam que o termo grego
traduzido por perseverança em 6:4 implica paciência.
Algumas versões usam a palavra paciência, em vez de
perseverança. Entretanto, traduzir a palavra grega
como paciência não é suficiente. Há uma diferença
entre paciência e perseverança. É claro, ambas são
virtudes. Paciência, porém, está aquém de
perseverança. Paciência não implica sofrimento, ao
passo que perseverança, sim. Se você me falar por
muito tempo, vou precisar de paciência para ouvi-lo,
mas se for necessário submeter-me a algum
sofrimento, além de paciência preciso de
perseverança.
A primeira qualificação de um ministro do Novo
Testamento é a capacidade de suportar tribulações.
Ele tem de ser capaz de suportar pressão, opressão,
perseguição, pobreza e toda e qualquer provação. O
irmão Watchman Nee certa vez disse que a pessoa
mais poderosa é a que consegue perseverar.
Perseverança requer força. Se quisermos perseverar
na tribulação, precisamos ser fortalecidos e
tomar-nos poderosos.
O irmão Nee manifestou perseverança nos vinte
anos de sua prisão. Uma coisa é ser mártir
instantâneo; outra coisa muito diferente é ficar na
prisão por muitos anos. Um mártir instantâneo pode
ser preso, julgado e executado, tudo em pouco tempo.
Para isso, não é necessária a perseverança. Mas se
alguém for lançado na prisão e depois sujeitado a
tribulações por anos a fio, a perseverança é
absolutamente necessária.
Todo ministro do Novo Testamento tem de
aprender a perseverar. Todos os apóstolos,
presbíteros e diáconos necessitam de perseverança.
Certos santos são muito bons para esgotar os
presbíteros. Nesse ponto, deixem-me dizer uma
palavra aos que aspiram ser presbíteros. Vocês
precisam estar prontos para suportar um contínuo
moer. Se forem colocados no presbitério, serão
colocados entre pedras de moer. Alguns irmãos e
irmãs vão moê-lo constantemente. Eles parecem ter a
“comissão” de pôr à prova a espiritualidade dos
presbíteros. Por meio deles vocês serão postos à
prova para ver por quanto tempo conseguem
suportar. Mas, ao suportar e perseverar, ministramos
vida aos outros. Os que têm perseverança são os que
ministram vida.

Nas Aflições
Paulo refere-se às suas aflições em 1:8: “Porque
não queremos, irmãos, que ignoreis a natureza da
tribulação que nos sobreveio na Ásia, porquanto foi
acima das nossas forças, a ponto de desesperarmos
até da própria vida”. Essa é outra qualificação do
ministro da nova aliança.

Nas Necessidades
É difícil apreender o verdadeiro significado da
palavra traduzida por privações 5 . Darby em sua
tradução usa o termo necessidades. A versão chinesa
usa o termo pobreza. Sempre que estamos com
escassez, com carência de comida, habitação ou
vestes, estamos em necessidades. Em 12:10, onde a
mesma palavra grega é usada, a versão chinesa usa a
palavra que significa apuros. O termo grego significa
restrições ou limitações, necessidades urgentes que
pressionam fortemente. Isso se refere aos
sofrimentos resultantes de calamidades e apuros. Um
exemplo de calamidade foi a erupção do Monte Santa
Helena há alguns anos. Foi uma calamidade para os
que moravam nas vizinhanças do vulcão. A
conseqüência de calamidades assim é carência e
escassez nas necessidades diárias. Paulo passou por
muitas calamidades e apuros e, como conseqüência,
esteve em necessidades.
Hoje, os cristãos avaliam alguém que é servo de
Deus não pela sua experiência em necessidades, mas
pelas riquezas. Quem tem grandes riquezas é
considerado abençoado pelo Senhor. Se porém um
crente fica pobre, carente de alimento, moradia,
vestes ou tem outras necessidades para o viver diário,
muitos dizem: “Esse irmão não é aprovado por Deus.
Deus não o abençoa, pois não está contente com ele,
nem se agrada dele”. E quanto a Paulo, então, que
estava em necessidades? Certamente ele era alguém
aprovado por Deus. Não devemos pensar que
riquezas são sinal de que somos abençoados pelo
Senhor ou aprovados por Ele. Pelo contrário, pode ser

5
O vocábulo grego para privações também pode ser traduzido por necessidades (VRC), como em 2Co
12:10. (N. T.)
que escassez, privação e pobreza sejam as verdadeiras
qualificações de um ministro da nova aliança.

Nas Angústias
No versículo 4, Paulo também fala de angústias.
Literalmente, o termo grego traduzido por angústias
significa estreiteza de espaço, ou seja, apuros,
dificuldades, angústias. Não é fácil explicar a
diferença entre aflições e angústias. Alguns
tradutores até mesmo invertem a ordem dessas
palavras no versículo 4, usando angústias por
aflições, e aflições por angústias. Podemos dizer que
angústias são sofrimentos interiores em reação às
aflições exteriores.
Por meio das diversas palavras que Paulo usa no
versículo 4, sabemos que ele estava em várias
dificuldades. Esse versículo claramente indica que a
vida dele era de aflição, calamidade, apuros,
necessidades e angústias. Você gosta de ouvir falar
disso? Você ainda quer ser um ministro da nova
aliança ao ouvir das dificuldades e problemas de
Paulo? Hoje muitos jovens são encorajados a fazer
seminário. Depois de se formar num seminário,
podem achar um bom emprego como pastor ou
ministro, receber moradia e salário adequado. Paulo,
entretanto, não era desse tipo de ministro, e não teve
esse tipo de vida. Em vez disso, sua vida, a vida que o
qualificava a ser um ministro da nova aliança, era
uma vida de perseverança, aflição, necessidades e
angústias.

Nos Açoites
O versículo 5 diz: “Nos açoites, nas prisões, nos
tumultos, nos trabalhos, nas vigílias, nos jejuns”. Os
açoites referem-se aos espancamentos que Paulo
sofreu. Em 11:23 ele refere-se a “açoites sem medida”,
e as palavras sem medida literalmente significam
acima da medida. Em 11:24, Paulo diz: “Cinco vezes
recebi dos judeus uma quarentena de açoites menos
um”. Além disso, de acordo com Atos 16:23, em
Filipos, ele e Silas receberam muitos açoites e depois
foram lançados na prisão.

Nas Prisões
Em 11:23, Paulo fala de “muito mais em prisões”.
Muitas vezes ele foi lançado na prisão. Já
mencionamos a ocasião em Filipos. Em Efésios 3:1,
ele se refere a si mesmo como “prisioneiro de Cristo
Jesus”, e em Efésios 4:1, como “prisioneiro no
Senhor”. Novamente, em 2 Timóteo 1:8 e Filemom 9
e 23, ele se refere a prisões.

Nos Tumultos
Tumultos referem-se a rebeliões, revoltas e
grandes perturbações. Atos 17:5 descreve um desses
tumultos. Atos 19 descreve um grande tumulto
ocorrido em Éfeso. O versículo 23 desse capítulo diz:
“Por esse tempo, houve grande alvoroço acerca do
Caminho”.

Nos Trabalhos
Em 2 Coríntios 11:23, Paulo diz que ele estava
“em trabalhos, muito mais”, e no versículo 27, fala de
“em trabalhos e fadigas”. Ele menciona isso em 1
Tessalonicenses 2:9: “Porque, vos recordais, irmãos,
do nosso labor e fadiga; e de como, noite e dia
labutando para não vivermos à custa de nenhum de
vós, vos proclamamos o evangelho de Deus”. Ele se
refere a isso novamente em 2 Tessalonicenses 3:8,
onde diz: “Nem jamais comemos pão à custa de
outrem; pelo contrário, em labor e fadiga, de noite e
de dia, trabalhamos, a fim de não sermos pesados a
nenhum de vós”.

Nas Vigílias
Vigílias referem-se a ficar sem dormir, tais como
as que os apóstolos experimentaram em Atos 16:25;
20:7-11, 31; e 2 Tessalonicenses 3:8. Paulo refere-se a
isso em 2 Coríntios 11:27, falando de “em vigílias,
muitas vezes”. Isso se refere a uma situação em que,
ou não há como dormir ou não há tempo para dormir.
Esse era um aspecto do viver de Paulo.

Nos Jejuns
Os jejuns no versículo 5 não se referem a jejuns
para oração, mas aos jejuns devidos a falta de comida.
Em 11:27, os jejuns são mencionados junto com
trabalhos e fadigas, vigílias e fome e sede. Já que os
jejuns são citados junto com fadigas, eles têm de se
referir a jejuns involuntários devido à falta de
comida. Daí, diferem de fome. Fome pode referir-se a
uma situação na qual não há como obter comida;
jejum involuntário pode referir-se a uma situação de
pobreza.

Na Pureza
O versículo 6 continua: “Na pureza, no saber, na
longanimidade, na bondade, no Espírito Santo, no
amor não fingido”. Pureza aqui relaciona-se com
intenção. Na intenção, Paulo era puro.
A palavra pureza nesse versículo implica muita
coisa. Se a intenção não for singela, ela não será pura.
Se na intenção visamos a alguma coisa além do
próprio Senhor, nossa intenção não é pura.
Igualmente, se nosso objetivo é ganhar algo além da
glória de Deus, nosso objetivo não é puro. Pureza
indica que não nos importamos com nada senão com
Deus e Sua glória.

No Saber
Saber, é claro, é questão da mente. O fato de
Paulo incluir “no saber” indica que nenhum ministro
do Novo Testamento deve ser ignorante. Como
ministros da nova aliança, precisamos ser bem
instruídos. Por esse motivo, encorajo os jovens a ter
educação adequada e aprender línguas estrangeiras.
Especialmente, se quiser ser usado pelo Senhor, você
precisa obter conhecimento de grego ou hebraico.
Também é proveitoso estudar história. Sem dúvida,
precisamos estudar a Bíblia e aprender a revelação
bíblica correta. A fim de ser ministros da nova
aliança, precisamos ser instruídos.

Na Longanimidade
É difícil diferenciar perseverança de
longanimidade. Perseverança enfatiza a força ou
capacidade de suportar sofrimento, e longanimidade
enfatiza a duração do sofrimento. A fim de ser
ministros do Novo Testamento, precisamos perceber
que nada pode ser realizado para o propósito eterno
de Deus sem sofrimento. Desde a queda do homem,
tudo na vida humana é realizado por meio de
sofrimento. De acordo com Gênesis 3, as mulheres
sofrem para dar à luz. O sofrimento é necessário para
criar filhos. É claro, como pais, desfrutamos os filhos.
Quando a mãe abraça o filhinho ou o contempla a
dormir, fica muito feliz. Entretanto, é um fato que
filhos causam problemas aos pais. Pode ser que, ao
criar os filhos, haja mais sofrimento do que desfrute.
Além disso, também de acordo com Gênesis 3, o
homem tem de labutar para ganhar a vida, porque a
terra produz cardos e abrolhos. Parece que a erva
daninha sempre cresce melhor que o que plantamos.
Isso é sinal dos problemas e sofrimentos do viver
humano.
Todos, ricos e pobres igualmente, têm
problemas. Se como ministros da nova aliança
queremos ajudar os outros nos sofrimentos, como
podemos nós mesmos querer evitá-los? Não podemos
ser exceção. Em vez disso, precisamos sofrer e
posteriormente experimentar longanimidade. Nunca
pense que, como ministro, você pode evitar
sofrimentos. Você terá alegria na vida conjugal ou
familiar, mas também terá sofrimento,
provavelmente mais sofrimento que alegria. Na
verdade, um ministro da nova aliança sofre mais do
que os outros. Como ministro, ele é alguém que deve
ter uma vida humana adequada como o Senhor Jesus
teve. O Senhor sofreu mais do que todos. Ter uma
vida humana verdadeira é sofrer. A vida humana não
é uma vida principalmente de gozo, mas de
sofrimento. Quanto mais temos uma vida humana
para ministrar Cristo aos outros, mais sofremos.
Desse modo, precisamos da qualificação da
longanimidade.
Na Bondade
Creio que no conceito de Paulo há uma conexão
entre longanimidade e bondade. Normalmente,
quando sofremos, não temos a capacidade de nos
importar com os outros, mas a bondade implica que
nos dedicamos aos outros. Creio que o conceito de
Paulo é que enquanto sofremos, também precisamos
importar-nos com os demais e ser bondosos para com
eles. Temos longanimidade e também bondade.
Mesmo quando sofremos, devemos ainda ser
bondosos para com os outros.

No Espírito Santo
A maioria dos tradutores entendem o espírito no
versículo 6 como se esse termo se referisse ao Espírito
Santo. Assim, põem a expressão espírito santo em
maiúsculas. Aqui, porém, segundo o contexto, Paulo
não se refere ao Espírito de Deus, mas ao nosso. Isso
quer dizer que nosso espírito deve ser santo. A
expressão “um espírito santo” refere-se ao espírito
regenerado dos apóstolos.

No Amor Não Fingido


Amor relaciona-se ao coração. Nesse versículo,
temos a intenção, a mente, o coração e o espírito.
Com açoites no corpo (v. 5), o saber da mente e amor
do coração, todo o ser dos apóstolos, isto é, corpo,
alma e espírito, é exercitado em sua vida para levar a
cabo seu ministério. Para ser ministros da nova
aliança, todo o nosso ser, corpo, alma e espírito, tem
de ser correto.

Na Palavra da Verdade
No versículo 7, Paulo diz: “Na palavra da
verdade, no poder de Deus”. Verdade aqui se refere à
realidade da nova aliança. Verdade significa realidade
e denota todas as coisas verdadeiras reveladas na
Palavra de Deus, que são principalmente: Cristo
como a corporificação de Deus e a igreja como o
Corpo de Cristo. A palavra da verdade é a expressão
da realidade divina revelada no Novo Testamento.

No Poder de Deus
O poder de Deus corresponde à palavra da
verdade. A palavra da verdade sem o poder de Deus é
mero conhecimento na forma de letras; no poder de
Deus toma-se realidade. O poder é o Espírito de Deus,
até mesmo o próprio Deus.
ESTUDO-VIDA DE SEGUNDA CORÍNTIOS

MENSAGEM QUARENTA E UM

OS MINISTROS DA NOVA ALIANÇA (10)

Leitura Bíblica: 2Co 6:3-13


Em 6:4-7a, Paulo cita dezoito qualificações dos
ministros da nova aliança: na muita perseverança,
nas aflições, nas necessidades, nas angústias, nos
açoites, nas prisões, nos tumultos, nos trabalhos, nas
vigílias, nos jejuns, na pureza, no saber, na
longanimidade, na bondade, num espírito santo, no
amor não fingido, na palavra da verdade e no poder
de Deus. Desde o meio do versículo 7 até o 10, ele fala
de três grupos de coisas e sete tipos de pessoas.
Vamos agora considerar esses grupos e pessoas.

TRÊS GRUPOS

Pelas Armas da Justiça, quer Ofensivas, quer


Defensivas
No versículo 7, Paulo diz: “Pelas armas da justiça,
quer ofensivas, quer defensivas6”. Isso indica que a
vida dos apóstolos pelo seu ministério é uma vida de
batalhas, lutando pelo reino de Deus. Armas da
justiça são usadas para lutar a fim de ser correto para
com Deus e para com os homens segundo a justiça
Dele (Mt 6:33; 5:6, 10, 20). As armas da mão direita,
como espada, são ofensivas; as da mão esquerda,
como o escudo, são defensivas.
6
Alguns tradutores, em vez de quer ofensivas, quer defensivas, traduzem assim: à direita e li esquerda,
como a VRC. (N.T.)
Por Honra e por Desonra
Na primeira parte do versículo 8, Paulo diz: “Por
honra e por desonra, por infâmia e por boa fama”. A
honra vem de Deus e dos que O amam. A desonra
vem do diabo e dos que o seguem. Se quisermos ser
ministros apropriados da nova aliança, em nossa
experiência vamos sempre receber duas avaliações.
Alguns nos darão glória e dirão que somos excelentes;
outros nos acusarão de ser miseráveis e dignos de
pena, e vão acumular desonra sobre nós.

Por Infâmia e por Boa Fama


A infâmia advém dos opositores e perseguidores
(Mt 5:11). A boa fama advém dos crentes e dos que
recebem a verdade pregada e ensinada pelos
apóstolos. Através dos anos essa tem sido a nossa
situação. Temos recebido tanto infâmia como boa
fama. Se você sempre tem boa fama apenas,
provavelmente não é honesto e fiel para com o
Senhor. Se for fiel para com o Senhor e honesto para
com a igreja e os santos, vai tanto sofrer infâmias
como ter boa fama.

SETE TIPOS DE PESSOAS

Como Enganadores e Sendo Verdadeiros


No final do versículo 8, Paulo diz: “Como
enganadores e sendo verdadeiros”. Era como se os
apóstolos fossem enganadores aos olhos dos
judaizantes e dos de outras religiões e filosofias, mas
eram verdadeiros aos olhos dos que amavam a
verdade de Deus.
Em Mateus 10:16, o Senhor Jesus diz: “Sede,
portanto, prudentes como as serpentes e símplices
como as pombas”. Outros podem acusar-nos de ser
serpentes, isto é, enganadores; ainda assim devemos
ser sinceros e honestos, isto é, como as pombas.
Todos precisamos aprender a ser prudentes como as
serpentes. Senão, não seremos como “enganadores”.
Isso é ter a forma de serpente sem a natureza
venenosa. Devemos aprender a ser prudentes como
as serpentes, isto é, como serpentes na aparência,
mas não na realidade. Que os outros digam de nós
que somos enganadores, que somos serpentes. Não
obstante, somos de fato verdadeiros, porque não há
veneno de serpente em nós.

Como Desconhecidos, mas Bem Conhecidos


No versículo 9, Paulo diz: “Como desconhecidos
e, entretanto, bem conhecidos”. Os apóstolos eram
como desconhecidos no sentido de que não se
exibiam. Mas eram bem conhecidos no sentido de que
davam testemunho da verdade de Deus. Também
devemos ser desconhecidos no sentido de não
divulgar ou manifestar a nós mesmos. Como
resultado, os outros não nos conhecem. Entretanto,
ao mesmo tempo podemos ser bem conhecidos
porque testificamos da verdade de Deus.
Primeiramente, devemos ser desconhecidos e depois
ser bem conhecidos. Não consiga renome fazendo
propaganda de si mesmo, mas seja fiel, sempre
testificando a verdade de Deus para os outros.

Como se Estivéssemos Morrendo e, contudo,


Eis que Vivemos
Os apóstolos estavam como se estivessem
morrendo ao sofrer perseguições (1:8-10; 4:11; 1Co
15:31), mas viviam na ressurreição do Senhor (2Co
4:10-11). Também devemos ser os que são levados à
morte, que estão como que morrendo e também que
vivem em ressurreição.

Como Castigados, porém Não Mortos


No versículo 9, Paulo também diz: “Como
castigados, porém não mortos”. Na percepção
superficial dos opositores, era como se os apóstolos
estivessem sendo castigados, mas, no cuidado
soberano do Senhor, eles não estavam sendo levados
à morte. Enquanto sofremos, os que têm visão muito
superficial das coisas podem dizer: “Essas pessoas
estão sob a punição de Deus. Se não estivessem sendo
punidas por Deus, por que sofreriam tanto?”
Entretanto, ao mesmo tempo que sofremos, ainda
estamos sob o cuidado soberano do Senhor e não
somos levados à morte. Assim, sofremos e ainda
assim vivemos.

Entristecidos, mas Sempre Alegres


Os apóstolos eram entristecidos pelas condições
negativas das igrejas (11:28). Ainda assim estavam
sempre alegres na graça suficiente e na vida de
ressurreição de Cristo (12:9-10).

Pobres, mas Enriquecendo a Muitos


No versículo 10, Paulo também fala dos apóstolos
como “pobres, mas enriquecendo a muitos”. Eles
eram como pobres em coisas materiais, contudo
enriqueciam a muitos com riquezas espirituais (Ef
3:8).
Nada Tendo, mas Possuindo Tudo
Por fim, no versículo 10, Paulo diz: “Nada tendo,
mas possuindo tudo”. Eles eram como pessoas que
nada tinham de maneira humana, mas possuíam
todas as coisas na economia divina.
Precisamos perguntar-nos se somos os sete tipos
de pessoas descritas nesses versículos. Também
devemos conferir se temos as primeiras dezoito
qualificações e as dos três grupos. O que temos nesses
versículos são dezoito qualificações que se iniciam
com “em”, três com “por” e sete com “como”7, Sobre
esses sete tipos de pessoas, devemos ser como
enganadores, contudo verdadeiros; como
desconhecidos, contudo bem conhecidos; como se
estivéssemos morrendo e contudo eis que vivemos;
como castigados, porém não mortos; como
entristecidos, mas sempre alegres; como pobres, mas
enriquecendo a muitos; como nada tendo, mas
possuindo tudo. Por um lado, devemos parecer
enganadores, desconhecidos, moribundos,
castigados, entristecidos, pobres e que nada têm. Por
outro, devemos ser verdadeiros, bem conhecidos,
vivos, não moribundos, sempre alegres, enriquecendo
a muitos e possuir tudo. Não apenas nós devemos ser
ricos em coisas espirituais, mas também tomar os
outros ricos. Além disso, devemos ser bem
conhecidos, pelo menos pelos anjos.

TER LÁBIOS ABERTOS E CORAÇÃO


ALARGADO PARA OS CRENTES
No versículo 11, Paulo prossegue: “Para vós

7
Em algumas expressões, o vocábulo como não aparece explicitamente. (N. T.)
outros, ó coríntios, abrem-se os nossos lábios 8 , e
alarga-se o nosso coração”. Os apóstolos, tão
plenamente maduros e todo-ajustáveis, como
descrevem os versículos 3 a 10, têm lábios abertos e
coração alargado para os crentes. Com coração
alargado, eles são capazes de incluir todos os crentes
independentemente de sua condição; com lábios
abertos têm liberdade para falar francamente a todos
eles acerca da verdadeira situação para a qual se
desviaram. Essa abertura e alargamento são
necessários para reconciliar, trazer de volta para Deus
os crentes que se desviaram ou foram distraídos.
No versículo 12, Paulo continua: “Não tendes
limites em nós; mas estais limitados em vossos
próprios afetos”. Por ser infantis (v. 13), os coríntios
eram limitados, estreitos, em seus afetos para com os
apóstolos. As crianças são muito limitadas no afeto e
facilmente se sentem ofendidas pelos que as
corrigem. Literalmente, o termo grego traduzido por
“em vós mesmos” aqui é entranhas. É o mesmo
termo traduzido por entranhável afeto em 7:15. O
mesmo termo é traduzido por terna misericórdia em
Filipenses 1:8. O vocábulo grego significa afeição
interior, ou seja terna misericórdia e compaixão.
Em 2 Coríntios 6:13 Paulo faz um apelo aos
coríntios: “Ora, como justa retribuição (falo-vos como
a filhos), dilatai-vos também vós”. O apóstolo queria
que os coríntios lhe retribuíssem com o mesmo
coração alargado, a fim de incluí-lo em seus temos
afetos.
O uso que Paulo faz do termo filhos no versículo
13 indica que os crentes coríntios eram infantis no
8
Lábios, literalmente boca. (N. T.)
parecer do apóstolo e também que o apóstolo, ao lidar
com eles, falou como um pai aos seus filhos.
Nesse versículo, Paulo insta para que os coríntios
se dilatem.
Dilatar-se exige crescimento e maturidade de
vida. Isso é o que faltava aos coríntios (1Co 3:1, 6;
14:20). O apóstolo estava trabalhando para suprir a
carência deles. Dilatar-se, por meio do crescimento e
maturidade de vida, equivale a ser plenamente
reconciliado com Deus, segundo o contexto, que vem
desde o final do capítulo cinco. Ao escrever dessa
forma, o apóstolo realizava seu ministério de
reconciliar os crentes, que não tinham sido nem
sequer meio reconciliados com Deus.
Segunda Coríntios 6:3-13 mostra-nos o que
significa ser plenamente salvo. Nesses versículos,
temos o modelo de alguém que experimentou a plena
salvação. A prova de que fomos totalmente salvos é
ter uma vida todo-ajustável. Desse modo, o padrão da
plena salvação é o padrão de uma vida todo-ajustável.
Não devemos pensar que a vida todo-ajustável
descrita em 6:313 seja somente para alguém como
Paulo. Não; todo crente tem a possibilidade de se
tomar ministro do Novo Testamento. Todos que
foram plenamente salvos com certeza são ministros
da nova aliança com uma vida todo-ajustável. Isso
quer dizer que se, como crente do Novo Testamento,
você não for ministro adequado da nova aliança, você
ainda não foi totalmente salvo. Se tivermos sido
totalmente salvos e tivermos uma vida todo-ajustável,
então qualquer situação ou circunstância será
apropriada para que ministremos vida aos outros. É
sendo totalmente salvos que nos tomamos
qualificados para ser ministros do Novo Testamento.
Nunca devemos pensar que as qualificações
nesses versículos são somente para Paulo ou
determinados ministros da nova aliança, e não para
nós. Paulo é um modelo do que todos os crentes
devem ser. O que ele tinha é o que também
precisamos ter hoje. Todos devemos ter uma vida
todo-ajustável.
Se quisermos ter uma vida todo-ajustável,
precisamos de um coração alargado, que inclui todo o
povo de Deus. Não só os apóstolos e presbíteros
devem ter tal coração, mas todo o que crê em Cristo
também. Se não formos adequadamente alargados
nesta era, o Senhor irá alargar-nos na próxima era.
Com certeza, quando chegar a hora de entrar na Nova
Jerusalém, já teremos um coração alargado. Aí então
poderemos dizer: “Irmão Paulo, agora sou igual a
você. Você tem um coração alargado, e eu também”.
Contudo: espero que não esperemos até a próxima
era para ser alargados. E muito melhor ser alargado
hoje.
O objetivo destas mensagens é alargar-nos, e não
que nos tomemos grandes pessoas. Tenho visto
muitos homens bem conhecidos cujo coração era
muito estreito. Eles eram considerados grandes
homens, mas seu coração era pequeno. Prefiro ser
alguém pequeno com grande coração, com coração
alargado para incluir todo crente em Cristo.
Se tivermos as dezoito qualificações que se
iniciam com “em”, as três que se iniciam com “por” e
as sete que se iniciam com “como”, teremos sido de
fato alargados. As dezoito que começam com “em”
podem ser arranjadas em nove pares: na muita
perseverança e aflição, em necessidades e angústias,
em açoites e prisões, em tumultos e trabalhos, nas
vigílias e jejuns, na pureza e no saber, em
longanimidade e bondade, num espírito santo e amor
não fingido, na palavra da verdade e poder de Deus.
Já salientamos que longanimidade e bondade andam
juntas. Enquanto sofremos, precisamos ser bondosos
com os outros. Semelhantemente, tumultos e
trabalhos andam juntos. Aparentemente estes não
formam um par, mas na verdade formam. Pela
experiência sabemos que o nosso labor pelo Senhor
vai suscitar oposição, que, por sua vez, resulta em
tumultos. Um espírito santo e um amor não fingido
também formam um par. Quando temos um espírito
santo, também temos amor não fingido. Por fim, a
palavra da verdade e o poder de Deus andam juntos.
É significativo que na lista de Paulo,
perseverança e aflições venham primeiro, e a palavra
da verdade e o poder de Deus venham por último.
Provavelmente gostaríamos de que estes fossem os
primeiros, os principais, mas Paulo os coloca por
último, como os menos importantes. Ele, aqui,
ressalta uma vida todo-ajustável, uma vida que se
ajusta a toda situação e que não faz com que os outros
tropecem. Ele não tem muito a dizer aqui a respeito
da palavra da verdade e do poder de Deus.
Como ministro da nova aliança, Paulo tinha uma
vida que ajudava as pessoas, em vez de fazê-las
tropeçar. Era uma vida que conseguia ajustar-se a
qualquer situação. Para ser esse tipo de pessoa, nosso
coração precisa ser muito alargado, até que tenhamos
as dezoito qualificações em nove pares, além das que
se iniciam com “por” e “como”.
As qualificações com “por” e “como” são também
arranjadas em pares. Há três pares com “por”: por
glória ou desonra, por infâmia e boa fama, pelas
armas da justiça ofensivas e defensivas. Há sete pares
com “como”: como enganadores, contudo
verdadeiros; como desconhecidos, contudo bem
conhecidos; como moribundos, contudo vivos; como
castigados, contudo não mortos; como entristecidos,
contudo alegres; como pobres, contudo enriquecendo
a muitos; como nada tendo, contudo possuindo tudo.
Todos os que têm essas qualificações com “em”, “por”
e “como” foram alargados e têm uma vida
todo-ajustável para ser ministros apropriados da
nova aliança.
ESTUDO-VIDA DE SEGUNDA CORÍNTIOS

MENSAGEM QUARENTA E DOIS

OS MINISTROS DA NOVA ALIANÇA (11)

Leitura Bíblica: 2Co 6:1-13


Muitos mestres da Bíblia tratam 2 Coríntios 6
como se fosse separado do capítulo cinco. Eles não
enfatizam que os capítulos cinco e seis estão ligados.
Na verdade, o capítulo seis é uma explicação do cinco.

TORNAR-SE A JUSTIÇA DE DEUS


Vimos que no capítulo cinco, os apóstolos
receberam o ministério da reconciliação para
introduzir o povo de Deus (e não só os pecadores) de
volta no próprio Deus, para que, em Cristo, se tomem
a justiça de Deus. Os apóstolos foram comissionados
com o ministério de introduzir o povo de Deus Nele e
torná-los organicamente um com Ele. Quando somos
introduzidos de volta em Deus dessa forma,
tornamo-nos a justiça de Deus.
Já que a justiça é um atributo de Deus, tomar-se
justiça de Deus em Cristo é tomar-se esse atributo
divino. Nesse sentido, tomamo-nos o que Deus é.
Deus é justiça, e em Cristo tomamo-nos essa justiça
de Deus, um atributo do que o próprio Deus é. Que
maravilha! Esse é o propósito da salvação de Deus e o
objetivo de Sua economia. A economia de Deus ao
nos salvar visa fazer de nós a expressão de Deus, até
mesmo um de Seus atributos. Isso é revelado no
capítulo cinco de 2 Coríntios.
A NECESSIDADE DE MAIS RECONCILIAÇÃO
Paulo percebeu que sua descrição de
reconciliação no capítulo cinco envolvia algo muito
profundo. Assim, no capítulo seis, ele explica que a
reconciliação no capítulo cinco equivale à plena
salvação. Por esse motivo, em 6:2 ele refere-se à
reconciliação como salvação. A salvação aí não é
salvação de pecadores, mas de pessoas reconciliadas
com Deus pela metade. Os que foram reconciliados
com Deus parcialmente apenas necessitam de mais
reconciliação, de mais salvação.
Todos podemos com confiança declarar que
fomos salvos.
Entretanto, podemos ainda não ter sido
totalmente salvos. Portanto, precisamos
humilhar-nos perante o Senhor e orar:-ó Senhor, sou
grato a Ti porque pela Tua misericórdia e graça Tu me
salvaste. Mas, Senhor, ainda não fui totalmente salvo.
Ainda preciso de Tua salvação”.
Alguns crentes foram salvos amplamente;
outros, porém, foram muito pouco salvos. Nestas
mensagens, tenho encargo de que todos sejamos
muito mais salvos. Preocupo-me com a porcentagem
de sua salvação. Até que ponto, até onde, você foi
salvo? Alguns que estão sob esse ministério há anos
podem ainda ter tido somente uma salvação muito
limitada. Além do mais, a porcentagem de sua
salvação tem aumentado lentamente. O que quero
ressaltar aqui é que reconciliação e salvação têm
vários graus. Isso é verdade principalmente com
relação à reconciliação. Espero que o grau de nossa
reconciliação com Deus aumente rapidamente.
O que temos no capítulo seis é um progresso
relativo à salvação. De acordo com o contexto, ser
salvo (6:2) é simplesmente ser reconciliado com
Deus.
Enquanto algumas partes de nosso ser não são
salvas, nelas há uma discrepância entre nós e Deus.
Uma palavra mais acurada para descrever essa
condição é inimizade. Em Romanos 8, Paulo diz que
o pendor9 da carne é inimizade contra Deus. Mas o
pendor do espírito é vida e paz (Rm 8:6). Quando
estamos no espírito, temos vida e também paz. Paz é
um indício de ser reconciliado com Deus. Enquanto
há algo em nós que carece de paz, alguma parte de
nós está em inimizade com Deus. Isso indica que,
pelo menos em determinadas coisas, não fomos
reconciliados com Deus porque nessas questões não
há paz entre nós e Deus. Por certo, sempre que não
houver paz, há inimizade; mas quando a paz vem, a
inimizade desaparece. Pode-se também dizer que
quando a inimizade se vai, a paz vem. Ter paz ou não
depende de ser reconciliado com Deus.

NÃO RECEBER EM VÃO A GRAÇA DE DEUS


Em 6:1, Paulo diz aos coríntios: “E nós, na
qualidade de cooperadores com ele, também vos
exortamos a que não recebais em vão a graça de
Deus”. Ele aqui parece dizer: “Crentes em Corinto,
não recebam em vão a graça de Deus. Ele lhes deu
muita graça. Concedeu-lhes graça sobre graça. Já que
vocês receberam tanta graça de Deus, rogo-lhes que
não a recebam em vão”. Receber em vão a graça de
Deus significa recebê-la sem progredir na questão de
ser salvo.
9
O vocábulo pendor em grego é mente. (N. T.)
Se quisermos ser os que não recebem a graça de
Deus em vão, precisamos de mais salvação. Esse é o
motivo de Paulo dizer no versículo 2: “Porque ele diz:
Eu te ouvi no tempo da oportunidade e te socorri no
dia da salvação; eis, agora, o tempo sobremodo
oportuno, eis, agora, o dia da salvação”. Os
pregadores freqüentemente usam esse versículo para
pregar o evangelho. Ao fazê-lo, dizem algo assim:
“Agora é a hora, o dia da salvação. Não percam a
oportunidade de receber a graça de Deus”. No
versículo 1, todavia, Paulo não fala sobre receber a
graça de Deus, ele adverte sobre receber a graça de
Deus em vão. Os coríntios já tinham recebido a graça
de Deus. Sua necessidade era permitir que ela
operasse neles. Se permitissem que ela operasse
neles, eles não a receberiam em vão. Isso é ser
reconciliado com Deus plenamente e em todos os
aspectos. Além do mais, isso é experimentar a
salvação atual. Hoje deve ser um dia de mais
salvação, um dia de progresso em ser reconciliado
com Deus mediante Sua graça.

A NECESSIDADE DE SER ALARGADO NO


CORAÇÃO
Se quisermos ser plenamente reconciliados com
Deus, plenamente salvos, precisamos ser alargados
no coração. Paulo apelou aos coríntios que se
alargassem: “Não tendes limites em nós; mas estais
limitados em vossos próprios afetos. Ora, como justa
retribuição (falo-vos como a filhos), dilatai-vos
também vós” (6:12-13). Como já salientamos, ser
alargado requer os aspectos da vida todo-ajustável,
abordados em 6:3-10. Isso requer os dezoito itens que
começam com “em”: na perseverança, nas aflições,
nas necessidades, nas angústias, nos açoites, nas
prisões, nos tumultos, nos trabalhos, nas vigílias, nos
jejuns, na pureza, no saber, na longanimidade, na
bondade, num espírito santo, no amor não fingido, na
palavra da verdade, no poder de Deus. Também
requer os três pares que começam com “por”: pelas
armas da justiça ofensivas e defensivas, pela honra e
desonra, por infâmia e por boa fama. Por fim, ela
exige todos os sete pares que começam com “como”:
como enganadores mas verdadeiros, como
desconhecidos mas bem conhecidos, como morrendo
e eis que vivemos, como castigados mas não mortos,
como entristecidos mas sempre alegres, como pobres
mas enriquecendo a muitos, como nada tendo mas
possuindo tudo. Se tivermos todas essas
características da vida todo-ajustável, todos os itens
com “em”, “por” e “como”, de fato fomos alargados.
Nos últimos cinqüenta anos, conheci muitos
queridos e preciosos presbíteros e cooperadores.
Muitos deles eram muito rigorosos e rígidos. Com
relação à palavra do Senhor em Mateus 10:16 sobre
ser “prudentes como as serpentes”, esses irmãos
rígidos não conseguiam absolutamente ser “como
serpentes”. Tampouco podiam ser “como
enganadores, e sendo verdadeiros”. Ser verdadeiro
significa ser rígido. Os irmãos aos quais me refiro não
eram somente rigorosos, mas extremamente rígidos.
Por exemplo, um deles poderia dizer: “Oh! aquela
pessoa não devia estar na igreja. Expulsem-na! Como
é possível aceitá-la? Oh! aquela irmã é horrível. Ela
devia ser condenada”. Muitas vezes tentamos ao
máximo convencer esses irmãos rígidos a ser mais
flexíveis. Podemos dizer: “Esse é um verdadeiro
irmão no Senhor. Sem dúvida, ele está errado em
certas coisas, mas ainda precisamos acolhê-lo,
perdoando-o e dando-lhe uma oportunidade de
melhorar”. Não obstante, às vezes um irmão rígido
reagiria dizendo: “Não! Essa não é a maneira bíblica!”
Essa atitude é uma clara indicação de que os que são
rigorosos e rígidos dessa forma precisam ser
alargados.
Precisamos ser rígidos e rigorosos, mas devemos
sê-lo com nós mesmos, e não com os outros. Para
isso, precisamos ser alargados. Os que são muito
rígidos normalmente são também estreitos. Eles
precisam ter o coração alargado.
Quando nos alargamos em nosso coração, não
devemos tomar-nos frouxos. Antes, devemos
continuar a ser rigorosos e rígidos com nós mesmos,
mas não aplicar esse princípio aos outros. Se o
Senhor tiver feito tal obra em nós, teremos sido
alargados.
Gostaria de lhe pedir que considerasse
novamente todos os tópicos abordados por Paulo em
6:3-10. Se tivermos todas essas características e
qualificações, teremos um coração alargado.
Exteriormente podemos ser muito pequenos, mas
nosso coração será como um oceano. Mas se não
tivermos essas qualificações, teremos um coração
muito pequeno. Podemos ser grandes aos nossos
próprios olhos, contudo nosso coração pode ser
extremamente limitado. Por exemplo, nossa atitude
pode ser que, se determinada pessoa comete um erro,
não temos qualquer relação com ela a não ser que se
arrependa. Isso é um sinal de limitação. Também é
um sinal de que não somos capazes de reconciliar os
outros com Deus, porque nós mesmos não fomos
totalmente reconciliados com Ele. Nossa limitação é
um claro indício de que fomos reconciliados com I
eus apenas parcialmente e a porcentagem de nossa
salvação é muito pequena. O tamanho de nosso
coração depende do grau de nossa reconciliação com
Deus.

PERDOAR E ESQUECER
Freqüentemente, quando vou a uma reunião de
casamento, as pessoas insistem que eu fale algo.
Entretanto, reluto em falar em casamentos. Não que
não tenha nada para dizer, mas o que de fato desejo
dizer pode ser franco e honesto demais para a
ocasião. Eu definitivamente não gosto da conversa
agradável e bondosa, comum em casamentos, pois
geralmente está distante da verdade. Se eu fosse falar
numa reunião de casamento, gostaria de falar a
verdade, principalmente sobre a dificuldade que
marido e mulher têm em perdoar um ao outro.
Uma vez que um irmão tenha sido ofendido pela
esposa, ele pode nunca mais esquecer a ofensa nem
perdoar a esposa. É claro, muitas esposas também
são assim. O que eu gostaria de dizer aos
recém-casados é isto: “Irmã, evite ao máximo ofender
seu marido. Se ofendê-lo, pode levar muitos anos
para ele perdoá-la. Irmão, não pense que sua mulher
é um anjo. Ela com certeza não o é. Ademais, você
precisa amá-la sempre. Se falhar em expressar o seu
amor para com ela, ela pode ficar ofendida e lembrar
da sua falha por muito tempo”. Uso isso como
ilustração adicional da estreiteza de coração.
Todos os casados precisam ser alargados no
coração. Irmão, sua esposa o ofendeu? Insto que você
a perdoe. Se for capaz de perdoar a ofensa e
esquecê-la, isso é um sinal de que você se tomou uma
pessoa dilatada, alguém com coração alargado.
Quando você é ofendido por alguém, está
disposto a perdoá-lo?
Perdoar na verdade é esquecer. Talvez, em vez de
falar sobre perdoar, devamos falar sobre esquecer.
Por fim o marido diria à esposa: “Querida, vamos
esquecer essa ofensa”. Esquecer é o verdadeiro
perdão.
Tanto na vida familiar como na vida da igreja,
você provavelmente foi ofendido muitas vezes. Você
tem mantido um registro de todas essas ofensas?
Você se lembra como seu cônjuge o ofendeu, ou como
você foi ofendido por certo presbítero? Você se
lembra de todas as ofensas causadas pelos santos?
Precisamos perdoar e esquecer todas as ofensas.
Podemos perdoar, mas talvez seja mais difícil
esquecer. Essa dificuldade com perdoar e esquecer é
causada por um coração que ainda não foi
adequadamente alargado. Assim, vemos novamente
que precisamos que nosso coração seja dilatado. Ser
plenamente reconciliado e salvo vai fazer com que de
fato sejamos dilatados no coração.
ESTUDO-VIDA DE SEGUNDA CORÍNTIOS

MENSAGEM QUARENTA E TRÊS

OS MINISTROS DA NOVA ALIANÇA (12)

Leitura Bíblica: 2Co 6:14 a 7:1


Vimos que ser plenamente reconciliados com
Deus é ter a plena experiência da salvação de Deus.
Também vimos que ser plenamente reconciliados e
salvos é ter o coração alargado. Passemos agora a
considerar 6:14 a 7:1, uma exortação franca do
ministério reconciliador.

NÃO SE PÔR EM JUGO DESIGUAL


O versículo 14 diz: “Não vos ponhais em jugo
desigual com os incrédulos; porquanto, que
sociedade pode haver entre ajustiça e a iniqüidade?
Ou que comunhão, da luz com as trevas?” Essa
palavra acerca de não se pôr em jugo desigual foi
proferida pelo apóstolo com base no fato de que sua
boca (ou lábios) estava aberta e seu coração alargado
para os crentes no versículo 11. Tendo estabelecido
que a plena reconciliação é a plena salvação que
resulta no coração dilatado, Paulo exorta os crentes
coríntios a não se pôr em jugo desigual com os
incrédulos.
A palavra desigual no versículo 14 significa
diferente, denota uma diferença em espécie. Isso se
refere a Deuteronômio 22:10, que proíbe jugo sobre
animais diferentes. Crentes e incrédulos são
diferentes. Não devem ser postos sob o mesmo jugo
por causa da natureza divina e posição santa dos
crentes. Isso deve ser aplicado a toda relação íntima
entre crentes e incrédulos, não só casamento e
negócios.
Essa palavra indica que os crentes coríntios
estavam em jugo desigual com os incrédulos. Eles não
estavam separados, para Deus, das pessoas
mundanas. Isso indica que não estavam plenamente
reconciliados com Deus. Assim, o apóstolo os exortou
a que não se pusessem em jugo desigual com os
incrédulos, mas a que se separassem, a fim de ser
plenamente reconciliados com Deus, conduzidos de
volta a Ele.
De acordo com o Antigo Testamento, o gado era
classificado em duas categorias: limpos e imundos.
Os limpos ruminavam e tinham casco fendido.
Ovelhas e bois eram animais limpos, mas jumentos,
cavalos, mulas e porcos não. Dessa forma,
Deuteronômio 22:10 diz: “Não lavrarás com junta de
boi e jumento”. Aqui vemos que a lei ordenava aos
filhos de Israel que não pusessem no jugo um animal
limpo com um imundo, isto é, não colocasse o limpo e
o imundo sob o mesmo jugo. Um animal limpo, como
boi, poderia ser oferecido a Deus, mas o imundo não.
Portanto, o limpo e o imundo são desiguais.
Em 6:14, Paulo não se importa com o
ensinamento da lei, mas com o significado espiritual
desse requisito. Hoje, nós, os crentes, somos limpos.
Somos como bois e cordeiros para ser oferecidos a
Deus. Os incrédulos, entretanto, são imundos, e não
devemos ficar no mesmo jugo com eles.
Ser posto no mesmo jugo com os incrédulos
significa desviar-se de Deus. Livrar-nos de tal jugo
desigual é voltar para Deus e ser reconciliado com
Ele. Por exemplo, um irmão não deve casar-se com
uma incrédula. Casar-se com uma incrédula é ser
posto sob jugo desigual. Esse jugo desigual o
desviaria de Deus. De modo semelhante, formar
sociedade comercial com um incrédulo também é ser
posto em jugo desigual. Suponha que um crente e um
incrédulo sejam sócios num negócio e tenham o
mesmo interesse e objetivo. Eles formam na verdade
uma parelha em jugo desigual. Essa parceria, ou
sociedade, precisa acabar. Qualquer irmão que se
envolva numa parceria de negócios dessa forma será
desviado de Deus pelo seu negócio. O seu negócio irá
afastá-lo gradualmente de Deus. Qualquer irmão
nessa situação precisa eliminar o jugo desigual nos
negócios e ser reconciliado com Deus, isto é,
conduzido de volta a Ele.
Além disso, amizades com incrédulos podem
fazer com que sejamos postos em jugo desigual.
Principalmente os jovens gostam de fazer amizades.
Jovem, se você cultivar amizade íntima com
incrédulos, isso vai fazer com que seja posto em jugo
desigual. Esse jugo irá desviá-lo de Deus. Um amigo
incrédulo não vai ajudá-lo a se aproximar de Deus;
antes, irá afastá-lo Dele. Enquanto mantiver tal
amizade desigual, você será desviado de Deus cada
vez mais, e gradualmente se afastará Dele. Por isso,
Paulo exorta-nos a que não nos ponhamos em jugo
desigual com os incrédulos para que sejamos
mantidos em Deus e plenamente introduzidos de
volta Nele.

A DIFERENÇA ENTRE CRENTES E


INCRÉDULOS
Em 6:14-16, o apóstolo usa cinco ilustrações para
descrever a diferença entre os crentes e os incrédulos:
nenhuma sociedade, ou parceria, entre justiça e
iniqüidade; nenhuma comunhão, ou comunicação,
entre luz e trevas; nenhuma harmonia, ou
concordância, entre Cristo e Belial; nenhuma parte,
ou porção, entre crente e incrédulo; nenhuma ligação,
ou concordância, entre o templo de Deus e os ídolos.
Essas ilustrações também revelam que os crentes são
justiça, luz, Cristo e o templo de Deus, e os incrédulos
são iniqüidade, trevas, Belial (Satanás, o diabo) e
ídolos.
No versículo 14, Paulo diz: “Que sociedade pode
haver entre a justiça e a iniqüidade? Ou que
comunhão, da luz com as trevas?” Não deve haver
contato algum entre a justiça e a iniqüidade. Não deve
haver relação, ou sociedade, alguma entre eles. De
modo semelhante, luz e trevas nada têm a ver um
com o outro. Eles não podem ter comunhão. Como
crentes, estamos na luz. Se tivermos comunhão, ou
amizade íntima, com os incrédulos, essa amizade é
comunhão entre luz e trevas. Para um crente,
desposar uma incrédula significa a luz ter comunhão
com as trevas.
No versículo 15 (IBB-Rev.), Paulo continua: “Que
harmonia há entre Cristo e Belial? ou que parte tem o
crente com o incrédulo?” Belial é outro nome de
Satanás, o diabo. Não pode haver harmonia entre
Cristo e o Diabo. Nós, crentes, somos de Cristo, e os
incrédulos são de Satanás. Se tivermos amizade com
os incrédulos, isso significa tentar harmonizar Cristo
com Satanás. O crente não tem parte alguma com o
incrédulo.
No versículo 16, Paulo prossegue: “Que ligação
há entre o santuário de Deus e os ídolos? Porque nós
somos santuário do Deus vivente, como ele próprio
disse: Habitarei e andarei entre eles; serei o seu Deus,
e eles serão o meu povo”. Aqui vemos que não pode
haver ligação entre o templo de Deus e os ídolos. Os
incrédulos têm ídolos, mas nós somos o templo de
Deus. Como, então, pode haver relação íntima entre
os crentes e os incrédulos?

O TEMPLO DO DEUS VIVO


No versículo 16, Paulo diz que somos o templo do
Deus vivo.
Como Deus vivo, Ele habita em nós e anda em
nós para ser nosso Deus de forma subjetiva, a fim de
que participemos Dele e sejamos Seu povo,
experimentando-O de forma viva.
Em 1 Timóteo 3:15, Paulo diz que somos a igreja
do Deus vivo. O Deus vivo que vive na igreja tem de
ser subjetivo para ela, e não meramente objetivo. Um
ídolo num templo pagão não tem vida. O Deus que
não só vive, mas também age, move-se e opera no Seu
templo vivo, a igreja, é o Deus vivo. Uma vez que Ele é
o Deus vivo, a igreja também vive Nele, por Ele e com
Ele. Um Deus vivo e uma igreja viva vivem, movem-se
e operam juntos. A igreja viva é a casa e a família do
Deus vivo. Assim, ela se torna a manifestação de Deus
na carne.
Deus disse: “Habitarei e andarei entre eles; serei
o seu Deus, e eles serão o meu povo” (2Co 6:16). Essa
é nossa situação hoje. Deus vive em nós, habita em
nós e anda entre nós. Ele é o nosso Deus, e nós somos
o Seu povo.

SEPARADOS E RECONCILIADOS
No versículo 17, Paulo exorta os coríntios,
dizendo: “Por isso, retirai-vos do meio deles,
separai-vos, diz o Senhor; não toqueis em coisas
impuras; e eu vos receberei”. Ser separado é ser
reconciliado, conduzido de volta a Deus (5:20) de
forma prática. A expressão “coisas impuras” denota o
que pertence à iniqüidade, trevas, Belial e ídolos,
citados nos versículos 14 a 16. Por não tocar tais
coisas imundas, somos separados para Deus e com
Ele reconciliados. Portanto, sair do meio deles e
separar-se é ser conduzido de volta a Deus. Uma vez
separados dessa maneira, Deus nos recebe. As
palavras “vos receberei” enfatizam a recepção alegre,
por parte de Deus, aos crentes que foram plenamente
reconciliados, conduzidos de volta a Ele.

FILHOS E FILHAS
O versículo 18 continua: “Serei vosso Pai e vós
sereis para mim filhos e filhas, diz o Senhor
Todo-Poderoso”. O relacionamento entre pai e filho
implica vida. Isso é mais profundo do que Deus ser
nosso Deus e nós, Seu povo, como menciona o
versículo 16. Deus é o Criador, e o Pai é quem gera.
Ele nos gerou e nos fez Seus filhos e filhas.
O versículo 18 é o único exemplo no qual o Novo
Testamento indica que Deus tem filhas. Na maioria
das vezes, é-nos dito que os crentes são filhos de
Deus. O motivo desse versículo falar tanto de filhos
como de filhas é profundamente pessoal. Para muitos
pais, os filhos são preciosos. Sei que tanto no oriente
como no ocidente, os pais que têm somente filhas
anelam ter pelo menos um filho. Embora os filhos
sejam preciosos, as filhas são queridas, amadas.
Suponha que um pai tenha três filhos e nenhuma
filha. Com certeza gostaria de ter uma filha, e ela lhe
seria muito querida. Muitos pais, que têm tanto filhos
como filhas, dirão que as filhas são queridas e os
filhos são preciosos.
Creio que, no versículo 18, Paulo quer que
vejamos que não só somos preciosos para Deus como
filhos, mas também queridos para Ele como filhas.
Você quer ser filho ou filha de Deus? Sou um filho de
Deus mas também estou feliz em ser Sua filha. Gosto
de ser precioso e querido para Ele. Percebendo que
podemos ser preciosos e queridos para o Pai, Paulo
indica que somos tanto filhos como filhas para Ele.
De acordo com a Bíblia, Deus não coloca muita
ênfase em que sejamos do sexo masculino ou do
feminino. Num sentido muito real e positivo, aos
olhos Dele todos somos do sexo feminino. Em 11:2,
Paulo declara: “Porque zelo por vós com zelo de Deus;
visto que vos tenho preparado para vos apresentar
como virgem pura a um só esposo, que é Cristo”. Isso
não indica que para Deus todos os crentes são do sexo
feminino? Se não fôssemos do sexo feminino aos Seus
olhos, como poderíamos ser parte de uma virgem
pura apresentada a Cristo? Cristo deve ser nosso
Marido, e nós, Sua esposa. Nesse sentido, todos
somos do sexo feminino. Podemos até dizer que, para
Deus, somos tanto filhos como filhas. Ao assumir a
responsabilidade e. levar a cabo a guerra espiritual,
somos filhos. Devemos ser filhos fortes para
responsabilidade e guerra, mas ao mesmo tempo,
devemos ser filhas muito queridas e preciosas para o
Pai. Portanto, por um lado, somos filhos preciosos;
por outro, filhas queridas.

APERFEIÇOAR A SANTIDADE
Em 7:1, Paulo diz: “Tendo, pois, ó amados, tais
promessas, purifiquemo-nos de toda impureza; tanto
da carne como do espírito, aperfeiçoando a nossa
santidade no temor de Deus”. O fato de Paulo usar o
termo “pois”, no início desse versículo, indica que ele
é a conclusão da última parte do capítulo seis,
especificamente, dos versículos 14 a 18. As promessas
são as mencionadas em 6:16-18. A impureza, ou
contaminação, da carne refere-se a coisas materiais; a
contaminação do espírito, a coisas do mundo
espiritual, tais como ídolos. Purificar-nos de toda
contaminação da carne e do espírito significa
furtar-se de todos os desvios a fim de ser totalmente
reconciliados com Deus.
Em 7:1, Paulo fala de aperfeiçoar a santidade no
temor de Deus. Santidade é separar-se para Deus, é a
separação de todas as coisas afora Deus. Aperfeiçoar
a santidade é fazer essa separação plena e perfeita, ter
todo o nosso ser (espírito, alma e corpo) plena e
perfeitamente separados, isto é, santificados, para
Deus (1Ts 5:23). Isso é ser plenamente reconciliados
com Ele.
Santo não significa só santificado, separado, para
Deus, mas também diferente, isto é, distinto, de tudo
o que é comum. Somente Deus é diferente, distinto,
de todas as outras coisas. Portanto, Ele é santo; a
santidade é Sua natureza. Conforme Efésios 1:4, Ele
nos escolheu para ser santos. A maneira com que Ele
nos faz santos é transmitir a Si mesmo, o Santo, a nós,
para que todo o nosso ser seja permeado e saturado
com Sua natureza santa. Para nós, os escolhidos de
Deus, ser santo é participar de Sua natureza divina
(2Pe 1:4) e ter todo o nosso ser permeado com o
próprio Deus. Isso é diferente de mera perfeição ou
pureza sem pecado. A verdadeira santidade toma
nosso ser santo, como o próprio Deus, em Sua
natureza e caráter.
Em 7:1, Paulo menciona o temor de Deus. Esse
temor está relacionado com não ousar tocar coisas
que não pertençam ou não estejam relacionadas com
Deus (6:17).
Já ressaltamos que os crentes são justiça, luz,
Cristo e o templo.
Quando nos pomos em jugo desigual com os
incrédulos, introduzimos a justiça de Deus na
iniqüidade, a luz de Deus nas trevas, conduzimos
Cristo ao Diabo e associamos o templo de Deus aos
ídolos. Os ídolos contaminam nosso espírito. Daí,
tanto no mundo espiritual como no mundo físico, há
contaminação. Ser separado de contaminação, de
coisas imundas, é, na verdade, ser reconciliado com
Deus.
No capítulo seis, Paulo, de fato, realiza o
ministério da reconciliação. Ele insta com os coríntios
para que se separem de coisas imundas. Ser separado
do que é imundo é ser reconciliado com Deus e
santificado para Ele; é também ser integralmente
salvo. Desse modo, ser plenamente salvo inclui
separação do que é imundo, santificação e
reconciliação com Deus. Esse é o motivo pelo qual
Paulo, no início desse capítulo, fala sobre salvação; e
no fim dele, sobre separação. Salvação é separação,
separação é santificação, e santificação é
reconciliação.
ESTUDO-VIDA DE SEGUNDA CORÍNTIOS

MENSAGEM QUARENTA E QUATRO

OS MINISTROS DA NOVA ALIANÇA (13)

Leitura Bíblica: 2Co 7:2-7


O capítulo sete é também parte da seção em 2
Coríntios acerca dos ministros da nova aliança. Nela,
Paulo retrata o tipo de vida dos ministros. Nesta
mensagem, vamos procurar tocar o sentimento no
espírito de Paulo, expresso em 7:2-7. Ao ler 7:2-16, a
questão crucial é tocar o sentimento do autor e
também seu espírito. Entretanto, não é fácil fazer
isso.

A PREOCUPAÇÃO ÍNTIMA DA VIDA QUE


MINISTRA
O que temos em 7:2-16 é a preocupação íntima
da vida que ministra. Todo crente que ama o Senhor e
quer chegar ao padrão de Deus deve tomar-se
ministro da nova aliança. Já que somos crentes em
Cristo, devemos ser ministros do Novo Testamento,
não importa se somos apóstolos, evangelistas,
presbíteros ou diáconos. Tal ministro é alguém que
supre Cristo aos outros para a edificação da igreja, o
Seu Corpo. Quando jovem, ouvi que todo crente deve
ser pregador do evangelho. Agora vemos que não
devemos ser só pregadores do evangelho, mas
ministros da nova aliança, os que ministram Cristo
como vida, para que a igreja seja edificada como
Corpo de Cristo. Esse ministério não deve ser levado a
cabo só pelos apóstolos e presbíteros, mas por todos
na igreja.
O objetivo da restauração do Senhor hoje é
restaurar esse ministrar de Cristo por meio de todos
os crentes, para que a igreja seja edificada. Essa
compreensão baseia-se na palavra de Paulo em
Efésios 4, onde diz que os apóstolos, profetas,
evangelistas e pastores e mestres aperfeiçoam os
santos para a obra do ministério, com vistas à
edificação do Corpo de Cristo. Para que todos sejamos
os edificadores da igreja, isto é, ministremos Cristo
para a edificação da igreja, precisamos de uma vida
que ministra. A fim de que sejamos ministros da nova
aliança, precisamos de tal vida ministradora.
Precisamos levar uma vida de ministrar Cristo aos
outros com vistas à igreja.
Há muitos anos li vários livros que encorajavam
os crentes a ser espirituais, santos e vitoriosos, mas
nunca li um livro sequer que nos incumba de viver
uma vida que ministra. Muitos leram livros sobre
como ser espiritual, ter um viver santo ou ser
vitorioso, mas você já leu um livro que lhe diga como
ter um viver que ministra? Creio que nenhum de nós
leu um livro assim.
Em minhas viagens, por cinqüenta anos,
encontrei muitos tipos de cristãos. Particularmente
encontrei alguns que tinham reputação de ser
espirituais. Mas para mim, até mesmo esses tais não
tinham uma vida ministradora adequada. Viviam de
maneira muito cautelosa a fim de ser “espirituais”,
“santos” e “vitoriosos”, mas não viviam como os que
ministram. Pela graça do Senhor, não pelos nossos
próprios esforços, todos devemos procurar ter um
viver que ministra.
UMA VIDA FRUTÍFERA
A vida ministradora que vemos em 2 Coríntios é
uma vida frutífera. Podemos ser “espirituais”,
“santos” e “vitoriosos”, e ainda assim ser infrutíferos.
Há problemas com esse tipo de espiritual idade,
santidade e vitória. É questionável se essas
qualidades são verdadeiras e autênticas. Você não
acha incomum alguém ser “espiritual”, contudo
infrutífero? De acordo com a Bíblia, ser espiritual visa
ser frutífero. No Evangelho de João, o Senhor não nos
diz que sejamos espirituais, santos e vitoriosos; antes,
em João 15, Ele nos incumbe de dar frutos, até
mesmo dar muito fruto, e fruto que permanece. Isso é
ter um viver que ministra.
Em minha casa há muitas árvores frutíferas:
pessegueiros, limoeiros e laranjeiras. Por muito
tempo, algumas delas não deram fruto nenhum.
Devido à falta de frutos, estávamos pensando se não
seria melhor cortá-las. Embora não dessem frutos,
elas continuaram a crescer muito bem. Na verdade,
eram verdes, florescentes e cheias de folhas.
Entretanto, quanto mais cresciam dessa forma, mais
eu ficava incomodado com elas. Às vezes, ao olhar
para elas, dizia: “Arvores, que estão fazendo aqui?
Estão cheias de folhas verdes e seus ramos se
alongam, mas não dão fruto”. Podemos tomar isso
como ilustração de crentes que talvez sejam
“espirituais”, “santos” e “vitoriosos”, mas infrutíferos.
Não dão fruto porque não têm uma vida que ministra.
É muito importante ver que todos precisamos ter
uma vida que ministra.
Quando jovem, ouvi muitas mensagens sobre 2
Coríntios 7.
A ênfase delas era: entristecer-se segundo Deus.
Elas enfatizavam que se nos entristecêssemos
segundo Deus, não nos arrependeríamos de nos ter
entristecido. Contudo, embora tivesse ouvido
algumas mensagens sobre isso, nada me disseram
sobre o sentimento e o espírito de Paulo nesse
capítulo. Aqui vemos a sua preocupação íntima.

A NECESSIDADE DE UMA PREOCUPAÇÃO


AUTÊNTICA
É possível tomar-se perito em questões
espirituais e poderoso na pregação, e ainda assim ser
infrutífero. Na verdade, em vez de ser frutífero e
ministrar vida, tal pessoa acaba fazendo com que
outros sofram “morte”. Um irmão pode até visitar
outra cidade e dar uma conferência, mas o resultado
disso talvez sejam muitos mortos. Serão “mortos”,
não por palavras erradas, mas por palavras certas.
Além disso, no pastorear dos santos, também é
possível matar os outros. O motivo desse matar, dessa
ausência de frutos, é a falta de preocupação íntima.
Um irmão que dá uma conferência numa igreja pode
estar preocupado somente em dar as mensagens, sem
ter qualquer preocupação com a igreja nessa cidade.
De modo semelhante, podemos visitar uma farm1ia
para pastoreá-la, e não ter uma preocupação
amorosa; pelo contrário, nossa motivação pode ser
demonstrar nosso conhecimento, espiritualidade,
dons ou capacidade. O resultado disso é morte.
Algumas mães parecem não ter sabedoria, e
ainda assim, embora não sejam habilidosas, criam os
filhos de forma muito boa porque têm preocupação
amorosa para com eles. Tais mães têm preocupação
tema e íntima com os filhos. Por outro lado, algumas
madrastas podem ser cultas, bem dotadas e
inteligentes, mas carecem da preocupação necessária
pelas crianças. Ao cuidar dos filhos, o mais
importante não é conhecimento ou habilidade, mas
preocupação íntima. O mesmo ocorre ao cuidar de
igrejas ou pastorear os santos. O que é necessário é a
preocupação íntima de uma vida que ministra. Os
irmãos que dão conferências às igrejas têm de ter
uma preocupação verdadeira com as igrejas. Não
devem meramente ficar interessados em dar
mensagens excelentes como demonstração de
conhecimento, talento ou capacidade.
Quando jovem, eu ficava um pouco perturbado
com 2 Coríntios 7. Considerava a Bíblia um livro
sagrado e clássico, e parecia-me que 2 Coríntios 7 não
era um escrito clássico. Conseguia entender por que
capítulos como Romanos 5 e 8 estavam na Bíblia, mas
não sabia por que um capítulo como 2 Coríntios 7 fora
incluído. No versículo 6, Paulo diz que foi consolado
com a vinda de Tito, e no 7, ele prossegue: “E não
somente com a sua chegada, mas também pelo
conforto que recebeu de vós, referindo-nos a vossa
saudade, o vosso pranto, o vosso zelo por mim,
aumentando, assim, meu regozijo”. Parecia-me que
tal versículo não devia estar na Bíblia. Você alguma
vez ponderou por que 2 Coríntios 7 está no Novo
Testamento? Se nunca pensou sobre o assunto, isso
pode indicar que você é um pouco descuidado ao ler a
Palavra. Posso testificar que quanto mais atenção
presto a esse capítulo, mais o amo, mais aprendo com
ele e sou por ele influenciado.
Esse capítulo revela que precisamos de
preocupação íntima. Se tivermos capacidade de levar
a cabo uma obra, mas faltar-nos preocupação íntima,
nossa obra será infrutífera. O que é necessário para
estabelecer uma boa vida familiar e da igreja é a
preocupação íntima. Quão frutíferos somos, quantos
frutos damos, não depende do que somos capazes de
fazer, mas se temos ou não uma preocupação íntima.
O irmão Nee disse-nos que ao pregar o
evangelho, precisamos ter preocupação autêntica
pelas pessoas. Desde que tenhamos preocupação
autêntica pelos outros, estamos bem encaminhados
para ser qualificados a fim de ser usados por Deus
pela salvação deles. Um testemunho muito bom disso
está no livro Visto e Ouvido. Naquele livro, o escritor,
Dennis McKendrick, conta-nos que ficou diante de
um grupo de incrédulos e chorou, sem dizer uma
palavra. Não obstante, vários foram salvos, porque
ele tivera uma profunda preocupação. Eloqüência,
dom e poder nunca poderão tocar as pessoas tão
profundamente como a sua preocupação por elas.
Em 1 Coríntios, Paulo era como pai a disciplinar
os filhos, mas até mesmo essa disciplina proveio de
preocupação íntima e profunda. Por exemplo, a mãe
pode dar umas palmadas no filho, mas enquanto ele
recebe as palmadas, a criança percebe que a mãe o
disciplina com espírito e atitude de amor. Assim,
mesmo quando dá palmadas no filho, ela o ama. Os
filhos sabem se os pais os disciplinam com espírito de
amor, ou não. Foi com espírito amoroso e preocupado
que Paulo escreveu 1 Coríntios. Por certo, em 2
Coríntios como um todo, e principalmente no
capítulo sete, vemos a preocupação íntima de Paulo
com os crentes.

AQUECER OS OUTROS
Em 2 Coríntios 7, Paulo foi muito emotivo. No
versículo 13, ele diz que “muito mais nos alegramos
pelo contentamento de Tito”. J. N. Darby salienta que
não é possível traduzir exatamente para o inglês a
expressão em grego “muito mais”. Paulo era muito
humano e emotivo ao ministrar vida. Ele era tão
emotivo porque a sua preocupação era tão profunda e
íntima. Sem essa preocupação, nunca poderíamos
alegrar-nos abundantemente como Paulo o fez. Pelo
contrário, podemos ser tão gelados quanto um
congelador, totalmente destituídos de preocupação
com os santos. Em vez de aquecer os outros,
tornamo-los ainda mais frios. Nada consegue crescer
numa condição tão gelada. Precisamos que o clima
primaveril nos descongele e aqueça nossa vida.
Novamente, há a necessidade de uma vida que
ministra. Você sabe o que é uma vida que ministra? É
uma vida que aquece os outros. Aprenda a aquecer os
outros. Isso é ter preocupação íntima com eles.
Muitos lêem 2 Coríntios 7 sem tocar a
preocupação íntima de Paulo. Se não tivermos essa
preocupação com os outros, não seremos frutíferos.
Se eu quiser ministrar vida aos santos, preciso ter
preocupação autêntica com eles, preocupação que é
emotiva, profunda e íntima. Preciso ficar tão
preocupado que, às vezes, posso parecer tolo ou fora
de mim mesmo.

A EXORTAÇÃO DE PAULO
Em 7:2, Paulo diz: “Acolhei-nos em vosso
coração; a ninguém tratamos com injustiça, a
ninguém corrompemos, a ninguém exploramos”. A
exortação franca de 6:14 a 7:1 é feita entre parênteses,
e visa conduzir os crentes distraídos de volta ao seu
Deus santo, afastando-os de tocar coisas
contaminadoras, para que sejam plenamente
reconciliados com Ele. Assim, 7:2 é, na verdade, a
continuação de 6:11-13, a exortar os crentes a ter o
coração dilatado para com os apóstolos, para
acolhê-los. Desse versículo até o fim do capítulo, o
apóstolo em sua exortação expressa a preocupação
íntima com os crentes, para que sejam consolados e
encorajados a fim de prosseguir positivamente com o
Senhor depois de ser integralmente reconciliados
com Ele.
Quando Paulo diz: “Acolhei-nos”, ele, na
verdade, diz ao coríntios: “Irmãos, quero entrar e
habitar em vocês, mas vocês são limitados e se
fecharam. Não têm coração dilatado para
acolher-nos. Eu os amo e me preocupo com vocês. É
por isso que insto com vocês para que se abram e nos
acolham, para que entremos e habitemos em vocês”.
Se visitar a igreja em outra cidade sem o espírito
que Paulo tem no versículo 2, você pode ter o
sentimento inconsciente de que é mais instruído em
coisas espirituais do que outros e que tem algo para
ministrar a eles. Essa não é a atitude de que
precisamos, mas suponha que você apele para os
santos da mesma forma que Paulo faz no versículo 2,
instando com eles para que o acolham no coração de
modo que você habite neles. Certamente isso vai tocar
as pessoas profundamente.
No versículo 2, Paulo diz que não tratou ninguém
com injustiça, a ninguém corrompeu ou explorou.
Parece que Paulo vindica a si mesmo, mas sua
vindicação é feita de forma íntima e amorosa.
No versículo 3, Paulo continua: “Não falo para
vos condenar; porque já vos tenho dito que estais em
nosso coração para, juntos, morrermos e vivermos”.
Aqui temos a expressão de relacionamento íntimo, e
não uma conversa cortês ou polida. Ele é franco na
forma de falar, mas também muito íntimo e tocante.
O fato de ele falar aos coríntios dessa forma, mostra
que entre eles havia um relacionamento íntimo.
Somente com os íntimos é que podemos falar dessa
forma.
No versículo 3, Paulo chega ao ponto de dizer que
os coríntios estavam no coração dos apóstolos para,
juntos, morrer e viver. Ele aqui parece dizer: “Não
digo isso para condená-los, porque também já disse
que vocês estão em nosso coração. Já que temos vocês
em nosso coração e nosso coração está dilatado,
apelamos a vocês que alarguem o seu coração e nos
acolham. Coríntios, vocês estão em nosso coração
para juntos morrermos e vivermos”. Que palavras
profundas, ternas e íntimas! Quão profundamente
tocante!

CONFORTADO E TRANSBORDANTE DE
JÚBILO DEVIDO A UMA PROFUNDA
PREOCUPAÇÃO
O versículo 4 continua: “Mui grande é a minha
franqueza para convosco, e muito me glorio por vossa
causa; sinto-me grandemente confortado e
transbordante de júbilo em toda a nossa tribulação”.
O grego aqui tem artigo definido antes de conforto e
júbilo, o que enfatiza encorajamento e gozo
específicos. Aqui também, as palavras de Paulo são
íntimas e tocantes.
No versículo 5 (VRC), Paulo diz: “Porque, mesmo
quando chegamos à Macedônia, a nossa carne não
teve repouso algum; antes em tudo fomos
atribulados: por fora combates, temores por dentro”.
A carne aqui se refere ao homem exterior, que inclui o
corpo e a alma. As lutas por fora e os temores eram
por dentro. Essas lutas e temores envolviam o corpo
exteriormente e a alma interiormente: Não ter
repouso na carne difere de não ter alívio no espírito.
O versículo 6 diz: “Porém Deus, que conforta os
abatidos, nos consolou com a chegada de Tito”. Por
causa da profunda preocupação com a reação dos
crentes coríntios à sua primeira epístola, Paulo, sem
alívio no espírito (2:13), até mesmo muito abatido
devido a sua preocupação, estava ansioso para ver
Tito, a fim de saber da reação deles. Tito agora, não só
chega, como também traz boas novas sobre a reação
positiva deles. Isso torna-se grande encorajamento
para o apóstolo.
No versículo 7, Paulo continua: “E não somente
com a sua chegada, mas também pelo conforto que
recebeu de vós, referindo-nos a vossa saudade, o
vosso pranto, o vosso zelo por mim, aumentando,
assim, meu regozijo”. Aqui novamente Paulo é muito
emotivo por causa de sua preocupação.
Todos precisamos ser alargados no coração,
reconciliados plenamente com Deus. Então teremos
uma vida que ministra, que pode dar muito fruto.
Somente a vida que ministra nos capacita a dar fruto.
Dar frutos é o resultado de uma vida que ministra.
ESTUDO-VIDA DE SEGUNDA CORÍNTIOS

MENSAGEM QUARENTA E CINCO

OS MINISTROS DA NOVA ALIANÇA (14)

Leitura Bíblica: 2Co 7:2-16


Em 7:2-3, Paulo diz: “Acolhei-nos em vosso
coração; a ninguém tratamos com injustiça, a
ninguém corrompemos, a ninguém exploramos. Não
falo para vos condenar; porque já vos tenho dito que
estais em nosso coração para, juntos, morrermos e
vivermos”. A palavra de Paulo aqui revela sua
preocupação profunda e íntima pelos coríntios. Essa
palavra não é meramente ética, religiosa, espiritual
ou até mesmo amorosa. É possível dizer uma palavra
de amor e sentir amor pelos outros, mas ainda assim
não ter muita preocupação com eles. Nosso amor
pelos outros tem de se tornar nossa preocupação por
eles. Paulo tinha tal preocupação pelos crentes em
Corinto.
A mãe não tem só amor pelos filhos, mas
também se importa muito com eles. Somente uma
mulher com tal preocupação está qualificada para ser
uma mãe adequada. Uma mulher pode não ter
cultura esmerada, mas se tiver profunda preocupação
com os filhos, estará qualificada para ser boa mãe. É
claro, conhecimento e habilidade são úteis, mas não
são pré-requisitos. O único pré-requisito para ser boa
mãe é preocupar-se e importar-se. O mesmo
princípio é verdade quanto a cuidar da igreja. Não é
adequado que os presbíteros simplesmente amem a
igreja. Esse amor tem de se tornar preocupação
profunda, preocupação com todos os mais jovens e
mais fracos. Essa preocupação faz o nosso labor ser
frutífero. Todos precisamos desse tipo de
preocupação íntima com os outros.
Pouco tempo atrás, quando estava trabalhando
nesse capítulo, fiquei imaginando que palavra usaria
para descrever o sentimento de Paulo. Percebi que a
palavra de Paulo aqui não é algo meramente ético,
moral, religioso ou espiritual. O que ele diz aqui é
uma questão de preocupação íntima, profunda, terna
e afetuosa com os crentes. No versículo 2, Paulo diz:
“Acolhei-nos” e no versículo 3 declara: “Estais em
nosso coração para, juntos, morrermos e vivermos”.
Essas não são palavras humanas comuns; pelo
contrário, são palavras dos céus, palavras do coração
de Deus. O anelo de Paulo era que, assim como ele
tinha os coríntios em seu coração, também queria
estar no coração deles. Os crentes em Corinto
estavam no coração de Paulo tanto para viver como
para morrer juntos. Isso com certeza é uma palavra
expressando uma preocupação íntima.
No versículo 8 (VRC), Paulo prossegue:
“Porquanto, ainda que vos contristei com a minha
carta, não me arrependo; embora já me tivesse
arrependido por ver que aquela carta vos contristou,
ainda que por pouco tempo”. Ao usar o termo “carta”,
Paulo refere-se à sua primeira epístola aos coríntios.
Sua palavra concernente a arrependimento indica
que ele, não só era ousado e franco ao repreender os
crentes em sua primeira Epístola, mas também temo
e suave para com eles. A expressão “vos contristou”,
no versículo 8, mostra que a primeira Epístola do
apóstolo aos crentes de Corinto fora eficaz.
UMA PALAVRA SUAVE, TERNA
No versículo 8, Paulo usa a expressão “embora” e
“ainda que”. Ele diz “ainda que vos contristei”,
“embora já me tivesse arrependido” e “ainda que por
pouco tempo”. Por que Paulo usou diversas vezes
essas expressões? De acordo com a minha maneira de
entender, se essas expressões fossem tiradas, a
palavra de Paulo nesse versículo seria muito dura.
Acrescentar essas expressões tem o efeito de
abrandar sua palavra. Além do mais, sem o uso
dessas expressões, Paulo no versículo 8 estaria
vigorosamente vindicando a si mesmo e
argumentando em benefício próprio. Ao acrescentar
essas expressões ele reduz a impressão de que estava
vindicando a si mesmo.
Os irmãos casados devem aprender com Paulo, a
fim de evitar discussões com a esposa. Quando um
irmão estiver falando com a esposa, pode descobrir
que inserindo as expressões mencionadas, pode
suavizar sua palavra a ela e dessa forma evita
ofendê-la.
Ademais, por meio dessas expressões, Paulo dá
um sabor doce às suas palavras. Ü uso que Paulo faz
dessas expressões no versículo 8 pode ser comparado
a acrescentar mel a um copo de chá. Assim como o
sabor do chá pode ser muito forte sem mel, também
as palavras de Paulo poderiam ter sido fortes demais
sem o uso repetido dessas expressões. Usando-as
nesse caso, Paulo suaviza e adoça sua palavra.
Quando Paulo estava escrevendo aos coríntios,
todos os fatos e argumentos estavam a seu favor. Os
coríntios não tinham defesa nenhuma. Uma vez que
Paulo tinha ganho a causa, ele podia facilmente ter
escrito alguma coisa que seria muito dura para os
coríntios aceitar. Portanto, ao escrever-lhes, ele foi
tanto sábio como terno.
Se tivermos uma preocupação íntima, seremos
ternos para com os outros. Uma pessoa rude,
insensível, não tem preocupação íntima. Se o marido
não tem a preocupação adequada com sua esposa, ele
pode ser muito rigoroso e exigente com ela. Mas ao
ter uma preocupação íntima, isso vai fazer com que
ele seja terno. Uma vez que nos tivermos tornado
ternos, nossa maneira de falar será suave e doce.
O versículo 8 definitivamente tem o elemento de
brandura. Paulo diz: “Porquanto, ainda que vos
contristei com a minha carta, não me arrependo;
embora já me tivesse arrependido” (VRC). Há
brandura aqui. Mas suponha que Paulo tivesse dito:
“Ao escrever-lhes a primeira epístola, nada fiz de
errado e não tenho de me arrepender por isso”.
Certamente essa maneira de falar teria sido ofensiva.
Paulo, todavia, não se expressou dessa maneira. Ele
abrandou suas palavras acrescentando as expressões
mencionadas acima. Desse modo, Paulo expressou
seu sentimento terno para com os crentes.
Precisamos ficar impressionados com o fato de a
maneira de Paulo falar nesse versículo ser branda e
doce. Portanto, não importa o que diga, ele não
ofende ninguém. O tipo de expressão que Paulo usa
no versículo 8 não ofende os outros. Em vez de ser
dura e amarga, sua palavra é branda e doce.
Ao escrever aos coríntios, Paulo não falou de
maneira precipitada. Freqüentemente, ao falar
precipitadamente, expressamos ira. Por exemplo, se
uma irmã se queixa ao marido de algo que ele fez, ele
pode replicar precipitadamente: “Que há de errado
comigo? Prove-me que eu errei!” Esse tipo de palavra
provoca ira. É melhor o irmão não ser precipitado no
falar a fim de acalmar a situação com a esposa. Ele
precisa falar de maneira branda, agradável. Essa é a
maneira que Paulo escreveu aos coríntios no capítulo
sete.
Nesse capítulo, não encontramos teologia, ética
nem religião. Em certo sentido, nem mesmo
encontramos espiritualidade. Sem experiência
adequada, não somos capazes de descrever o que está
revelado em 2 Coríntios 7. Comecei a compreender
esse capítulo não só por intermédio de estudo, mas
também mediante experiência, embora minha
experiência fosse limitada. Pela experiência percebi
que o que Paulo está falando aqui não é teologia nem
doutrina, ética nem moral, religião nem
espiritualidade. Ele está transmitindo uma
preocupação profunda, terna e íntima com os
coríntios. Sua palavra é muito tocante.
Como a expressão de Paulo é terna e cheia de
preocupação íntima, ela tem poder e impacto. É capaz
de tocar profundamente os crentes. Provérbios 25:15
diz: “A língua branda esmaga ossos”. Até mesmo um
osso duro pode ser quebrado por uma palavra branda
de mansidão. Ao falar a verdade aos coríntios e
apresentar os fatos, Paulo sabia que seria difícil evitar
condenar os coríntios; mas a sua preocupação terna
com eles fez com que proferisse palavras brandas e
frases doces. Que todos aprendamos com ele.
No versículo 9, Paulo diz: “Agora, me alegro não
porque fostes contristados, mas porque fostes
contristados para arrependimento; pois fostes
contristados segundo Deus, para que, de nossa parte,
nenhum dano sofrêsseis”. O arrependimento aqui
mencionado foi o resultado que o apóstolo buscava ao
escrever sua primeira Epístola. A primeira Epístola os
fez sentir-se contristados segundo Deus, não por
nenhuma outra coisa. Isso indica que eles tinham
sido conduzidos de volta para Deus, isto é, foram
reconciliados com Ele.
Parece que no versículo 9, Paulo tinha somente
uma pequena observação a fazer, ainda que
deliberadamente alongasse sua maneira de se
exprimir. Isso também mostra sua ternura, seu
cuidado íntimo.
Nesse versículo vemos que o espírito de Paulo era
brando e que todo o seu ser estava cheio de doçura.
Você pode perguntar-se como sabemos disso. Pelo
que Paulo diz nesse versículo, sabemos que ele é uma
pessoa terna, com um espírito suave e um ser interior
doce. Contudo, ele não é político nem mesmo polido.
Ser terno, suave e doce é diferente de ser polido. Uma
pessoa pode ser muito polida, mas talvez não seja, de
modo algum, branda ou doce. Esse tipo de polidez
pode ser muito feio. Por um lado, alguém pode ser
cortês; por outro, ao mesmo tempo pode ser duro,
altivo e orgulhoso. Paulo, pelo contrário, não era nem
polido nem político (o que é até pior). Era terno,
brando e doce.

TRISTEZA SEGUNDO DEUS


O versículo 10 diz: “Porque a tristeza segundo
Deus produz arrependimento para a salvação, que a
ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz
morte”. Salvação aqui se refere a ser reconciliado com
Deus (5:20). Isso resulta em mais vida, que é o oposto
da morte. Com isso o apóstolo vê o fruto de sua
primeira Epístola aos coríntios.
No versículo 11, Paulo continua: “Porque quanto
cuidado não produziu isto mesmo em vós que,
segundo Deus, fostes contristados! Que defesa, que
indignação, que temor, que saudades, que zelo, que
vindita! Em tudo destes prova de estardes inocentes
neste assunto”. Ser entristecido segundo Deus forjou,
produziu, cuidado nos coríntios. O termo grego
traduzido por cuidado também pode ser traduzido
por diligência. Refere-se ao cuidado zeloso dos
crentes coríntios arrependidos para com o apóstolo,
devido à sua preocupação amorosa com o
relacionamento com Deus e a condição deles diante
de Deus. Anteriormente, eles foram descuidados com
relação à preocupação do apóstolo; agora, arrependi
dos, eles se tornaram cuidadosos e zelosos em relação
a isso. Todas as sete conseqüências produzidas pela
tristeza (proveniente do arrependimento) dos crentes
coríntios, conforme listadas nesse versículo, são uma
rica colheita que adveio da primeira Epístola do
apóstolo para eles.

SETE PALAVRAS CRUCIAIS


O versículo 11 contém sete palavras cruciais:
cuidado, defesa, indignação, temor, saudade, zelo e
vindita. O vocábulo que é usado seis vezes nesse
versículo. Literalmente, a palavra grega significa
contudo no sentido de “não só, 'mas também”. Se
lermos esse versículo cuidadosamente, veremos que
cuidado explica-se por si mesmo, ao passo que os
últimos seis resultados da tristeza (proveniente do
arrependimento segundo Deus) dividem-se em três
pares: o primeiro relaciona-se com os sentimentos de
vergonha dos crentes coríntios; o segundo com o
apóstolo; o terceiro com o ofensor (Bengel). A
tradução de Wuest também indica isso pela expressão
“Sim... de fato” três vezes como a seguir: “Sim, a vossa
defesa verbal, de fato indignação; sim, temor, de fato
anelo; sim, zelo, de fato a imposição de punição
disciplinar”.
A palavra cuidado no versículo 11 significa
cuidado zeloso. Paulo aqui parece estar dizendo:
“Coríntios, vocês não tiveram nenhum zelo por nós,
apóstolos, principalmente por mim; mas na primeira
Epístola que escrevi para vocês, eu os repreendi e isso
fez com que se entristecessem segundo Deus. Essa
tristeza opera arrependimento para salvação. Isso
produziu em vocês um cuidado zeloso por nós. Agora,
seu cuidado para conosco foi restaurado. Quando vim
vê-los pela primeira vez, vocês tiveram um cuidado
zeloso por mim, mas alguns falsos mestres distraíram
vocês e fizeram-nos desviar, fazendo com que
abandonassem o seu cuidado zeloso por nós. Agora,
uma vez que a tristeza produziu arrependimento para
salvação, vocês têm um cuidado zeloso para conosco
novamente”.
Na verdade, Paulo estava enfatizando aos
coríntios a carência deles, mas ele fez isso de forma
terna, branda e doce. Sua maneira de apresentar os
fatos foi muito terna. Se eu fosse um dos crentes
coríntios, ao ler essa palavra, ficaria muito
envergonhado por ter me distraído, desviado e
perdido meu cuidado zeloso para COij1 o apóstolo,
aquele mesmo por meio do qual fui salvo.
A palavra grega traduzida por defesa no versículo
11 também quer dizer vindicação. Refere-se à
auto-vindicação dos crentes coríntios, o ato de
reabilitar-se com Paulo mediante Tito, e à declaração
deles de sua inocência na ofensa. Depois de
experimentar arrependimento para salvação, os
coríntios perceberam que a situação da igreja em
Corinto estava errada. Em Primeira Coríntios, Paulo
os tinha repreendido e incumbido de se humilhar.
Um mal muitíssimo sério estava presente entre eles,
mas eles não se sentiram envergonhados. Antes,
mesmo com a existência de tal pecado grosseiro como
incesto, eles ainda estavam orgulhosos. Como
conseqüência, toda a igreja foi repreendida. Visto que
os crentes em Corinto se arrependeram, eles foram
reconciliados com Deus e quiseram vindicar a si
mesmos. Eles foram zelosos em esclarecer a situação
para o apóstolo Paulo.
No versículo 11, Paulo também se refere à
indignação dos coríntios. Essa foi uma indignação
para com a ofensa e contra o ofensor. Enquanto se
esforçavam em vindicar a si próprios, os coríntios
ficaram indignados. Ficaram irados com a ofensa e
com aquele que a tinha causado. Eles sabiam que a
situação deles era pecaminosa, arrependeram-se
dela, quiseram vindicar-se a respeito dela e ficaram
indignados por causa dela. Seu sentimento de
indignação estava presente com sua defesa, sua
vindicação de si mesmos.
Com respeito a Paulo, os coríntios tinham tanto
temor como saudades. Tinham temor do apóstolo, de
que ele chegasse com vara (1Co 4:21), mas também
tinham saudades dele. Os crentes arrependi dos
tinham temor do apóstolo, e ainda assim tinham
também saudades dele. Eles, por certo, queriam vê-lo
novamente.
No versículo 11, Paulo também fala de zelo e
vindita. O zelo era para impor a punição da justiça ao
ofensor, e a vindita era a imposição de justiça, fazer
justiça para cada parte, como punição disciplinar
(2:6).
Outra vez quero enfatizar que a palavra de Paulo
acerca da situação em Corinto é cheia de ternura,
brandura e doçura. Por certo, os coríntios foram
expostos. Paulo, todavia, não foi ríspido para com
eles. O versículo 8 está cheio do elemento de
brandura, e o versículo 11 está cheio de sabedoria. O
versículo 11 demonstra o melhor escrito de Paulo. É
difícil traduzir para qualquer língua as expressões
gregas usadas por Paulo. Esse é especialmente o caso
na palavra traduzida por “que”. Como vimos, essa
palavra grega significa “não só, mas também”.
No versículo 11, temos uma apresentação
maravilhosa da situação em Corinto. Pelo uso de sete
palavras: cuidado, defesa, indignação, temor,
saudades, zelo e vindita, Paulo faz que os crentes em
Corinto conheçam sua verdadeira situação. Ao falar
dessa maneira, ele traz a situação à superfície e
apresenta uma visão plena dela. Aqui vemos a
sabedoria terna de Paulo. Não há rudeza ou aspereza;
pelo contrário, há fineza, ternura, brandura e doçura.
A palavra de Paulo é cheia de preocupação íntima.
Em vez de ofender os coríntios, ele os cura e sara suas
feridas. Isso é o ministrar de vida.
Não é suficiente aprendermos a pregar o
evangelho ou ensinar doutrinas. Paulo, é claro, era
um extraordinário pregador do evangelho e grande
teólogo. Ele com certeza conhecia todas as doutrinas
da Bíblia, mas aqui ele não exercita sua habilidade em
pregar ou demonstrar seu conhecimento de
doutrinas. Antes, exercita em sabedoria sua
preocupação terna e íntima com a igreja em Corinto.
O GRANDE CUIDADO DOS CORÍNTIOS FOI
MANIFESTADO AOS APÓSTOLOS
No versículo 12, Paulo prossegue: “Portanto,
ainda que vos escrevi, não foi por causa do que fez o
agravo, nem por causa do que sofreu o agravo, mas
para que o vosso grande cuidado por nós fosse
manifesto diante de Deus” (VRC). Paulo aqui diz que
escreveu aos coríntios não por causa do irmão que
cometera incesto (1Co 5:1), o que fez o mal, nem por
causa do pai do irmão, o que foi ofendido. Por que
então Paulo escreveu? Ele escreveu-lhes com o
propósito de manifestar-lhes o cuidado deles a favor
dos apóstolos. Os crentes coríntios amavam os
apóstolos e tinham um cuidado zeloso para com eles,
mas tinham sido desviados pelos falsos mestres.
Assim, o apóstolo escreveu a primeira Epístola para
trazê-los de volta, para que o amor e o cuidado zeloso
deles para com os apóstolos pudesse ser manifestado
a eles (2Co 7:7). Quem teria imaginado que essa tinha
sido a intenção de Paulo ao escrever aos coríntios?
Ele escreveu com o objetivo de manifestar-lhes o zelo
que eles tinham pelos apóstolos. Que sabedoria Paulo
mostra aqui! Ele parece dizer: “Crentes coríntios,
havia em vocês um zelo por nós. Mas estava
enterrado e assim não era manifestado. Escrevi a
primeira Epístola a fim de manifestar para vocês o
cuidado zeloso que vocês têm por nós”.

ENCORAJADO E MUI JUBILOSO


O versículo 13 continua: “Foi por isso que nos
sentimos confortados. E, acima desta nossa
consolação, muito mais nos alegramos pelo
contentamento de Tito, cujo espírito foi recreado por
todos vós”. Darby diz que aqui é impossível traduzir a
expressão grega exata para o inglês. O fato de Paulo
dizer que se alegrava pelo contentamento de Tito
indica que ele era muito humano e emotivo em seu
ministrar de vida. Essa seção principal, de 2:12 a 7:16,
a respeito do ministério da nova aliança dos apóstolos
e acerca deles mesmos como os ministros da nova
aliança, começa com o apóstolo estando ansioso para
encontrar Tito por causa da sua preocupação
amorosa com os crentes coríntios (2:13) e termina
com o consolo e ânimo que ele recebeu com a vinda
de Tito trazendo notícias positivas a respeito deles.
No versículo 13, Paulo diz que o espírito de Tito
tinha sido recreado por todos os coríntios. Isso
ressalta que, embora os apóstolos fossem humanos e
emotivos, eles ainda permaneciam no espírito ao
ministrar vida.
No versículo 14, Paulo diz: “Porque, se nalguma
coisa me gloriei de vós para com ele, não fiquei
envergonhado; pelo contrário, como, em tudo, vos
falamos com verdade, também a nossa exaltação na
presença de Tito se verificou ser verdadeira”. É certo
que Paulo tinha se gloriado dos coríntios para Tito.
Agora Paulo diz que seu gloriarse perante Tito
mostrou-se verdadeiro.
O versículo 15 diz: “E o seu entranhável afeto
cresce mais e mais para convosco, lembrando-se da
obediência de todos vós, de como o recebestes com
temor e tremor”. A palavra grega traduzida por afeto
aqui, literalmente significa entranhas; e é a mesma
palavra traduzida por afetos em 6:12.
No versículo 16, Paulo conclui: “Alegro-me
porque, em tudo, posso confiar em vós”. As palavras
gregas traduzidas por “confiar em vós” também
podem ser traduzidas como “encorajados por vossa
causa”. O apóstolo fora encorajado pelos crentes
coríntios e agora podia ter confiança neles. Que
preocupação profunda, íntima, Paulo tinha com eles!
ESTUDO-VIDA DE SEGUNDA CORÍNTIOS

MENSAGEM QUARENTA E SEIS

A COMUNHÃO DOS APÓSTOLOS ACERCA DO


MINISTÉRIO AOS SANTOS NECESSITADOS (1)

Leitura Bíblica: 2Co 8:1-15


Paulo escreveu as Epístolas de 1 e 2 Coríntios
como pai amoroso. Em sua primeira Epístola, ele
disciplinou os coríntios. Os pais sabem que, ao
disciplinar os filhos, correm o risco de afastá-los de si.
Se o pai disciplina o filho sem limites, a criança pode
querer fugir de casa. Depois de escrever 1 Coríntios,
Paulo estava preocupado com a reação que os crentes
teriam à sua disciplina. Ele não estava tranqüilo
quanto a isso e até se arrependeu um pouco por ter
escrito a Epístola. Ele estava preocupado porque toda
a igreja em Corinto poderia afastar-se dele. Por causa
da sua profunda preocupação, ele esperava
ansiosamente que Tito lhe trouxesse notícias da
reação dos coríntios à sua primeira Epístola. No
capítulo dois, ele não teve descanso no espírito
porque ainda não encontrara Tito. No capítulo sete,
porém, vemos que Tito veio com boas notícias.
A primeira Epístola de Paulo causou pesar aos
coríntios, mas esse pesar produziu arrependimento
para salvação. Essa salvação foi uma reconciliação
plena, Quando ouviu as boas notícias, ele ficou fora
de si de alegria. Como diz em 7:13, “Muito mais nos
alegramos pelo contentamento de Tito”. Quando
escreveu a segunda Epístola, ele estava em tal
atmosfera de encorajamento e alegria. Assim ao ler o
capítulo sete, podemos tocar o sentimento no espírito
de Paulo, um sentimento de profunda preocupação
com a igreja em Corinto.

PROFUNDA COMUNHÃO
Todos os que se importam com as igrejas ou
servem ao Senhor precisam ficar impressionados com
o espírito de Paulo no capítulo sete. Aqui vemos a
atitude correta ao servir o Senhor. Também vemos
que nos tempos antigos, a comunhão entre os crentes
e os apóstolos não era tão superficial como é entre os
crentes hoje. Nos tempos antigos, os crentes estavam
no coração dos apóstolos, e estes estavam no coração
dos crentes. A comunhão entre eles era muito
profunda. Viviam juntos numa comunhão tão
profunda que estavam até dispostos a morrer juntos.
A situação entre muitos cristãos hoje é bem
diferente. Os cristãos mudam de um grupo para outro
sem ter comunhão profunda. Para eles, um grupo
cristão é como um hotel ao qual as pessoas vão, ficam
por um tempo e depois vão para outro lugar. Nossa
comunhão na restauração do Senhor não deve ser
assim. As igrejas não devem ser hotéis para os que
“viajam” de um lugar para outro. Como membros da
família de nosso Pai, nossa comunhão deve ser
profunda. Devemos estar no coração uns dos outros,
e nada deve ser capaz de nos separar uns dos outros.
Mesmo se formos disciplinados pelos outros, ainda
devemos amar a família da igreja, e nunca
abandoná-la.

UM MINISTÉRIO EXTRAORDINÁRIO
Os capítulos oito e nove de 2 Coríntios
baseiam-se na comunhão do apóstolo acerca do
ministério aos santos necessitados. Aparentemente,
isso nada tem a ver com o que ele abordara nos
capítulos seis e sete. Em 2 Coríntios 6 e 7, temos a
obra de reconciliação de Paulo, e nos capítulos oito e
nove, o ministério aos santos necessitados. Sem a
reconciliação descrita nos capítulos seis e sete, não é
possível ter o ministério aos santos necessitados,
apresentado nos capítulos oito e nove. Assim, o
ministério nesses capítulos é o resultado da obra de
reconciliação dos capítulos anteriores, Isso quer dizer
que se quisermos levar a cabo um ministério
adequado para os santos necessitados, precisamos ser
reconciliados com Deus, isto é, ser plenamente
conduzidos de volta a Ele. Precisamos ser os que
vivem em Deus, que não têm separação entre si e
Deus. O ministério aos santos necessitados registrado
nos capítulos oito e nove é extraordinário. A fim de
ter esse extraordinário ministério, um ministério aos
santos necessitados em outras partes do mundo,
precisamos de uma vida plenamente reconciliada
com Deus.
Em sua segunda Epístola, Paulo primeiro
salientou aos crentes em Corinto que, como ministros
da nova aliança, os apóstolos tinham recebido o
ministério para reconciliar totalmente o povo de Deus
com Ele. Então, no capítulo seis, ele realizou esse
ministério, fazendo um ótimo trabalho de reconciliar
os coríntios distraídos com Deus integralmente.
Depois de cumprir essa obra, ele passou a ter
comunhão com eles para que pudessem ter um
ministério de suprir os santos necessitados.
A seqüência desses capítulos é importante. Se os
capítulo oito e nove estivessem no início desse livro,
com certeza estariam fora de lugar. Mas um capítulo
segue o outro como degraus numa escada. Creio que
quando escrevia essa Epístola, Paulo tinha a sensação
de dar um passo depois do outro. Somente depois de
ter feito um excelente trabalho para reconciliar os
santos distraídos de volta para Deus é que ele lhes
apresentou o ministério de cuidar dos santos
necessitados. Desse modo, não devemos considerar
esses capítulos em separado ou isolados.
Aparentemente, os capítulo oito e nove tratam de um
tema diferente dos capítulo seis e sete. Na verdade,
no conceito do autor, todos esses capítulos estão
ligados.
Mediante a obra reconciliadora de Paulo, os
santos em Corinto foram levados de volta a Deus,
arrependeram-se e receberam mais salvação. Então,
em 8:1, Paulo diz: “Também, irmãos, vos fazemos
conhecer a graça de Deus concedida às igrejas da
Macedônia”. A palavra também indica que certos
preparativos foram feitos e uma atmosfera e condição
particular existiam para o escritor apresentar algo
mais. Assim, Paulo passa a falar da graça de Deus
concedida às igrejas da Macedônia. Seu alvo era que
os crentes coríntios participassem no suprimento aos
santos necessitados.

UMA GRAÇA QUÁDRUPLA


Hoje é comum que os cristãos se envolvam em
levantamento de fundos para satisfazer a necessidade
de suprimento material. Freqüentemente, enviam-se
cartas de levantamento de fundos para encorajar os
cristãos a ofertar. Se comparar essas cartas com o que
Paulo escreveu em 2 Coríntios 8 e 9, ficará claro que
elas não têm nenhum valor. Comparadas com o que
Paulo escreveu, elas são totalmente destituídas de
valor, de vida e de espírito. Na maioria, elas nada
mais fazem do que instar com os outros para que
dêem dinheiro. Em certo sentido, nesses capítulos,
Paulo está envolvido em levantamento de fundos,
mas sua maneira de lidar com necessidades materiais
é totalmente no Espírito e cheia de vida, totalmente
diferente da prática das organizações cristãs de hoje.
Ele não fala apenas de dinheiro, mas da graça de
Deus, de forma cheia de vida e Espírito. O escrito de
Paulo nesses capítulos tem considerável peso
espiritual.
Se lermos 8:1-15 cuidadosamente, vamos ver que
graça aqui envolve quatro partes: Deus, os que
ofertam, os apóstolos e Cristo. Desse modo, podemos
falar de uma graça quádrupla: a graça de Deus, a
graça dos que ofertam, a graça dos apóstolos e a graça
de Cristo. Na verdade, Paulo não apenas angaria
ofertas. Muito mais, ele busca estimular os santos a
participar do ministério aos necessitados. A fim de
participar desse ministério de suprir os santos
necessitados, precisamos de uma graça quádrupla.

A GRAÇA DE DEUS
Em 8:1, Paulo menciona a graça de Deus dada às
igrejas da Macedônia. Essa graça é o Cristo ressurreto
que se tornou o Espírito que dá vida (1Co 15:45) para
introduzir em nós o Deus processado em
ressurreição, a fim de ser nossa vida e suprimento de
vida. Graça é, na verdade, o Deus Triúno como vida e
tudo para nós. Por essa graça, os crentes macedônios
venceram a usurpação das riquezas temporais e
incertas e se tornaram generosos em ministrar aos
santos necessitados.
No dia de Pentecostes, os crentes ajuntaram
todas as suas propriedades e tiveram tudo em
comum. Atos 2:44-45 diz: “Todos os que creram
estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam
as suas propriedades e bens, distribuindo o produto
entre todos, à medida que alguém tinha necessidade”.
Eles praticavam o que se pode chamar de vida
comunitária. Essa prática continuou em Atos 4: “Da
multidão dos que creram era um o coração e a alma.
Ninguém considerava exclusivamente sua nem uma
das coisas que possuía; tudo, porém, lhes era comum”
(v. 32). Através dos séculos, muitos crentes
apreciaram a vida comunitária em Atos 2 e 4 e
tentaram ter tudo em comum. Certo grupo no norte
da China praticou esse tipo de vida comunitária. Todo
aquele que se juntava ao grupo tinha de concordar em
desistir das posses materiais e ter tudo em comum.
Todavia, a vida comunitária em Atos não durou
muito. Já no capítulo seis, começaram a surgir
problemas e, pouco tempo depois, a vida comunitária
foi interrompida. Nos escritos de Paulo podemos ver
que a vida comunitária descrita em Atos 2 e 4 já não
era praticada. Pelas suas Epístolas vemos que o viver
cristão adequado não é o viver comunitário, um viver
de ter tudo em comum, mas é, na verdade, um viver
pela graça. Essa graça é-proveniente de quatro
direções: de Deus, de Cristo, dos apóstolos e dos
santos.

A APROVAÇÃO DA TRIBULAÇÃO
Continuando sua palavra sobre a graça de Deus
dada às igrejas da Macedônia no versículo 2, Paulo
diz: “Porque, no meio de muita prova10 de tribulação,
manifestaram abundância de alegria, e a profunda
pobreza deles superabundou em grande riqueza da
sua generosidade”. Os macedônios estavam em
tribulação, em sofrimento. Essa tribulação era um
teste para eles, para ver o quanto poderiam ser
aprovados por Deus. Isso é o que Paulo quer dizer por
“aprovação de tribulação”. Sempre que estamos em
tribulação ou sofrimento, devemos perceber que Deus
está testando-nos para pôr à prova onde estamos e o
que somos. O resultado desse teste em tribulação, em
sofrimento, é aprovação. Se formos capazes de
resistir ao teste e formos aprovados por Deus, a
conseqüência será aprovação de tribulação. Os
macedônios estavam nessa situação.

ALEGRIA, POBREZA E AS RIQUEZAS DA


GENEROSIDADE
No versículo 2, Paulo liga “abundância de
alegria” com “a profunda pobreza”. Parece uma
combinação muito incomum. Como poderiam os
macedônios estar em profunda pobreza e ainda assim
ter abundância de alegria? Não obstante, os
macedônios tinham tanto pobreza como alegria.
No caso dos macedônios, a abundância de sua
alegria e a profundidade de sua pobreza
“superabundou em grande riqueza da sua
generosidade”. A palavra grega traduzida por
generosidade é também usada para singeleza e
simplicidade (ver 1:12 e Rm 12:8). Generosidade é
liberalidade em dar. Embora fossem muito pobres, os
macedônios eram generosos. Eles tinham as riquezas
10
A palavra prova também pode ser traduzida por aprovação. (N.T.)
da generosidade.
Para ser generosos, precisamos ser singelos e
simples. Uma pessoa complicada não pode ser
generosa. Os que são singelos e simples terão as
riquezas da liberalidade. Quando ouvem sobre uma
necessidade entre os santos, eles imediatamente
decidem dar alguma coisa. Contudo, os que são
complicados podem ponderar sobre a questão e
depois decidir dar muito menos do que pretendiam
inicialmente. Isso não é singeleza, simplicidade,
generosidade ou liberalidade. Todos devemos ser
generosos e liberais ao dar. Para isso, precisamos ser
singelos e simples.
Quando jovem, eu imaginava por que o Senhor
Jesus permitiu que Judas fosse o responsável pela
bolsa. Ele sabia que Judas era ladrão, mas ainda
assim permitiu que ele se encarregasse do dinheiro.
Eu achava que o Senhor devia ter deixado João ou
Pedro cuidar da bolsa. O Senhor Jesus, porém, era
generoso e liberal, não era amante do dinheiro, e
permitiu que Judas a guardasse. O Senhor
certamente era simples, singelo, generoso e liberal.
Em 8:3-4, Paulo prossegue: “Porque eles,
testemunho eu, na medida de suas posses e mesmo
acima delas, se mostraram voluntários, pedindo-nos,
com muitos rogos, a graça de participarem da
assistência aos santos”. Embora fossem pobres e
estivessem em tribulação, os macedônios deram
generosa, espontânea, isto é, voluntariamente. Eles
fizeram isso por meio da graça de Deus, por
intermédio do Cristo ressurreto como o Espírito que
dá vida que neles habitava. Esse Cristo é a graça de
Deus que opera nos crentes e os motiva a vencer o
domínio das posses materiais, especificamente,
vencer Mamom. Os macedônios estavam em
profunda pobreza, mas a graça que se movia neles
capacitou-os a vencer Mamom e as posses materiais,
e a usá-las para o cumprimento do propósito de Deus.
Precisamos de graça para vencer a usurpação de
posses materiais. Dar continuamente, pela graça, é
mais difícil do que ajuntar as posses de todos e ter
tudo em comum. Em 1 Coríntios 16, Paulo diz-nos
que separemos certa quantia no primeiro dia da
semana. Esse dar constante requer graça, porque é
contrário à nossa natureza humana caída. Se
quisermos dar continuamente e não só uma vez por
todas, precisamos da graça divina para nos motivar
interiormente. Ter um ministério que vence Mamom
e as posses materiais e as usa para o propósito de
Deus requer graça.

A GRAÇA DOS APÓSTOLOS


O versículo 4 diz: “Pedindo-nos, com muitos
rogos, a graça de participarem da assistência aos
santos”. O termo grego para graça, chá ris, significa
graça, dom e favor. Aqui, o sentido é favor (Vincent).
Os crentes macedônios buscavam dos apóstolos o
favor de poder participar, ter comunhão, do
ministério aos santos necessitados. Em vez de os
apóstolos pedirem aos santos que tivessem parte
nessa questão, os crentes macedônios rogaram aos
apóstolos por tal parte. Eles consideravam um favor,
uma graça, aos apóstolos que lhes permitissem ter tal
parte.
Os macedônios queriam dar um suprimento de
coisas materiais aos crentes judeus. Entretanto, em si
mesmos, eles não eram capazes disso. Tanto material
como espiritualmente, eles precisavam dos apóstolos.
Por isso, rogaram aos apóstolos que lhes permitissem
partilhar dessa graça, que lhes concedessem essa
graça a fim de participar de tal ministério espiritual.
Embora esse ministério estivesse relacionado com
coisas materiais, Paulo fez dele um ministério
espiritual.
Na verdade, Paulo não era um angariador de
fundos, mas alguém que fez do ministério de bens
materiais algo espiritual, cheio de vida, do Espírito e
de edificação. A fim de participar de um ministério de
bens materiais de maneira cheia de vida, os
macedônios precisavam da graça dos apóstolos, do
favor deles. Sem isso, o ministério dos macedônios
para com os santos necessitados teria sido apenas
algo material. Não poderia ter sido um ministério
espiritual cheio de vida com vistas à edificação do
Corpo de Cristo.
Segundo o seu sentimento, os macedônios
consideravam uma graça poder participar do
ministério aos santos necessitados. Essa participação
era também uma comunhão no Corpo de Cristo. Esse
era o motivo de rogarem ao apóstolo que lhes desse a
graça de participar dela.
Sob o ministério dos apóstolos, dar coisas
materiais tornou-se algo espiritual, cheio de vida e
edificação. Isso é totalmente diferente de angariar
fundos hoje, que é sem vida, sem espírito e sem a
edificação do Corpo de Cristo. Para que nossas ofertas
materiais se tornem um ministério espiritual de vida
e edificação, precisamos da graça de Deus e também
dos apóstolos.
O versículo 5 diz: “E não somente fizeram como
nós esperávamos, mas também deram-se a si mesmos
primeiro ao Senhor, depois a nós, pela vontade de
Deus”. Esse versículo indica que o Senhor quer muito
mais os próprios crentes, do que o que eles têm. Os
macedônios não se deram só ao Senhor, mas também
aos apóstolos para ser um com eles a fim de cumprir o
ministério deles. Isso foi feito mediante a vontade de
Deus. Foi pela vontade de Deus, por meio do
soberano agente divino, que os crentes se deram
primeiro ao Senhor e depois aos apóstolos.

A GRAÇA DE DAR
No versículo 6, Paulo continua: “O que nos levou
a recomendar Tito que, como começou, assim
também complete esta graça entre vós”. Graça aqui
denota o ato de dar. O termo também indica que além
da graça de dar havia outras graças completadas por
Tito entre os crentes macedônios.
No versículo 7, Paulo diz: “Como, porém, em
tudo, manifestais superabundância, tanto na fé e na
palavra como no saber, e em todo cuidado, e em
nosso amor para convosco, assim também abundeis
nesta graça”. Ele fala aqui do “nosso amor para
convosco”. Isso indica que o amor que estava nos
crentes fora infundido neles da parte dos apóstolos.
No versículo 7, graça é o ato de amor mostrado
ao dar coisas materiais aos santos necessitados. Essa
graça dos crentes é o resultado da graça de Deus que
os motiva. Na comunhão acerca do ministério aos
santos, o apóstolo refere-se à graça de Deus dada aos
crentes macedônios para motivá-los e capacitá-los a
dar com liberalidade; refere-se também à graça dos
apóstolos que permitiu que os crentes participassem
do ministério aos santos necessitados, e à graça dos
crentes em ministrar coisas materiais aos
necessitados. Isso indica que a oferta de bens
materiais dos crentes ao Senhor para qualquer
propósito deve ser totalmente uma questão de graça,
e não de manipulação.

A GRAÇA DE CRISTO
Nos versículos 8 e 9, Paulo prossegue: “Não vos
falo na forma de mandamento, mas para provar, pela
diligência de outros, a sinceridade do vosso amor;
pois conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo,
que, sendo rico, se fez pobre por amor de vós, para
que, pela sua pobreza, vos tomásseis ricos”. É uma
graça para nós que o Senhor Jesus, sendo rico, se
fizesse pobre em nosso favor. No mesmo princípio, é
uma graça para os outros que sacrifiquemos nossas
riquezas materiais por causa deles.
Aparentemente, o fato de o Senhor Jesus ter-se
tomado pobre nada tem a ver com o ministério de
suprimento material aos santos necessitados. Na
verdade, se Ele não se tivesse tomado pobre, não
poderíamos tê-Lo como nossa graça. Suponha que
Ele nunca tivesse entrado na humanidade; como,
então, poderia ser nossa vida? como poderia ser a
graça que opera em nós, nos motiva, fortalece e supre
para ministrar aos santos necessitados? Seria
impossível. É crucial perceber que Cristo pode operar
em nós hoje porque se fez pobre. O fato de Ele ter-se
tomado pobre por nossa causa deve ser um exemplo.
Por um lado, Ele é a vida em nós; por outro, Ele é o
padrão, o exemplo, exteriormente. A vida do Senhor
em nós é a vida Daquele que, sendo rico, tomou-se
pobre. Por ser tanto nossa vida como nosso padrão,
Cristo é graça para nós. Precisamos receber graça do
Senhor Jesus. Então ela nos capacitará a fazer o que
Ele fez: tomar-se pobre por causa dos outros. Embora
estejamos em profunda pobreza, ainda temos algo
para partilhar com os santos necessitados. Temos a
vida no interior que nos toma pobres por causa dos
outros, e o padrão externo para seguir. Recebamos
essa graça.

UM SUPRIMENTO DE VIDA
Se ofertarmos por meio de tal graça, o que
dermos se tornará graça para os outros. Damos bens
materiais para ajudá-los, mas esses bens são
acompanhados de graça espiritual. Quando suprimos
os santos necessitados de bens materiais de maneira
adequada, no espírito e com vida, vida e espírito vão
juntos com o suprimento. Como resultado, os
necessitados são supridos não só de coisas materiais,
mas também com as riquezas da vida.
Nesta mensagem, salientamos que para ter um
ministério aos santos necessitados precisamos
receber graça de Deus, dos apóstolos e do Senhor
Jesus Cristo. Com essa graça tríplice, podemos suprir
os outros de oferta material em graça. Toda oferta
material que fizermos aos outros não será
simplesmente um ministério de bens materiais para
cuidar das necessidades dos santos, mas também um
suprimento de vida para eles. Dessa forma,
transmitimos riquezas espirituais aos santos
necessitados. Essa oferta é necessária entre nós hoje.
Nossas ofertas materiais devem ser espirituais,
cheias de vida e capazes de aperfeiçoar os santos e
edificar o Corpo de Cristo. Isso requer que, quando
dermos bens materiais ao Senhor, tenhamos certeza
de que o fazemos no espírito, com vida e para a
edificação da igreja. Essa oferta é o resultado, a
conseqüência, de ser plenamente reconciliados com
Deus. Somente os que foram reconciliados com Deus
em plenitude podem ter um ministério de bens
materiais que leva aos santos necessitados um
suprimento de vida para o aperfeiçoamento espiritual
e para a edificação do Corpo de Cristo.
ESTUDO-VIDA DE SEGUNDA CORÍNTIOS

MENSAGEM QUARENTA E SETE

A COMUNHÃO DOS APÓSTOLOS ACERCA DO


MINISTÉRIO AOS SANTOS NECESSITADOS (2)

Leitura Bíblica: 2Co 8:16-24


Em 8:16-24 temos uma seção dessa Epístola a
nos mostrar que tipo de pessoas os apóstolos eram.
Na primeira metade desse capítulo, Paulo teve
comunhão com os santos em Corinto acerca do
ministério aos santos necessitados da Judéia. Quando
lemos esse capítulo, pode parecer-nos que essa
comunhão termina com o versículo 15, que é perfeita
e completa. Paulo não só teve comunhão com os
santos em Corinto acerca desse ponto, como também
apresentou-lhes a descrição de uma situação que lhes
assegurava que o que ele fazia era de maneira muito
adequada.

QUESTÕES RELATIVAS A LIDAR COM


DINHEIRO
Segunda Coríntios 8:16-24 pode ajudar-nos
muito em nossa atitude com respeito ao dinheiro.
Grande proporção dos problemas na sociedade se
relaciona com dinheiro. Por isso, todos precisamos
aprender a ser cautelosos ao lidar com ele.
Está além de nossa capacidade imaginar os
diferentes problemas que podem surgir com respeito
a lidar com dinheiro. Dinheiro é fonte de tentação.
Não devemos considerar-nos tão espirituais a ponto
de nunca ter problemas ao lidar com dinheiro.
Certamente nenhum de nós é mais fiel ou espiritual
do que o apóstolo Paulo. Entretanto, ele era cauteloso
e cuidadoso com relação a dinheiro. Creio que ele era
bem ponderado quanto a isso. Por esse motivo,
depois de ter comunhão com os santos em Corinto a
respeito do ministério aos santos necessitados da
Judéia, ele acrescentou os versículos 16 a 24 para
ressaltar algumas questões importantes relacionadas
com lidar com dinheiro.
Nesses versículos vemos que Paulo recomendou
certos irmãos aos crentes coríntios com respeito ao
ministério para os santos necessitados. Primeiro, ele
recomendou Tito. Os versículos 16 e 17 dizem: “Mas
graças a Deus, que pôs no coração de Tito a mesma
solicitude por amor de vós; porque atendeu ao nosso
apelo e, mostrando-se mais cuidadoso, partiu
voluntariamente para vós outros”. A palavra grega
traduzida por solicitude no versículo 16 também
significa diligência. Refere-se à diligência, solicitude,
de Paulo pelos crentes. O apelo mencionado no
versículo 17 é o apelo do apóstolo.
O versículo 18 diz: “E, com ele, enviamos o irmão
cujo louvor no evangelho está espalhado por todas as
igrejas”. No versículo 22, Paulo refere-se ainda a
outro irmão: “Com eles, enviamos nosso irmão cujo
zelo, em muitas ocasiões e de muitos modos, temos
experimentado; agora, porém, se mostra ainda mais
zeloso pela muita confiança em vós”. Esses versículos
indicam que, além de Tito, dois outros irmãos foram
recomendados aos coríntios.
O dinheiro é muito usado pelo diabo para seduzir
o homem à desonestidade, mas também está
envolvido no ministério de ofertas materiais aos
santos. A fim de evitar o risco de acusações
decorrentes de suspeita humana nessa questão, os
apóstolos enviaram com Tito um irmão respeitável
como testemunha. No versículo 22, vemos que outro
irmão fiel foi enviado com esses dois, para que, pela
boca de três testemunhas, um bom testemunho fosse
estabelecido (Mt 18:16). Desses três irmãos, só o
nome de Tito é citado. Entretanto, os outros irmãos
eram conhecidos nas igrejas e Paulo até falou deles
como apóstolos das igrejas (v. 23).

COMO PAULO SE CONDUZIA EM SEU


MINISTÉRIO
Nessa seção de 2 Coríntios, não há doutrina ou
teologia, nenhuma menção de dom ou poder
espiritual. Que temos aqui, então, digno de uma
mensagem inteira? Temos uma figura do tipo de vida
que Paulo vivia. O livro de 2 Coríntios é um livro
sobre a vida dele. Todavia, a maioria dos cristãos hoje
presta muito mais atenção à obra do que à vida.
Segunda Coríntios retrata a vida de Paulo; não
enfatiza sua obra. Aqui temos um quadro do
comportamento dele em seu ministério.
Sem dúvida, Paulo fora comissionado com a mais
alta porção desse ministério. Portanto, nesse livro ele
espontaneamente nos dá um quadro que mostra
como se comportava ao levar a cabo o ministério. Isso
não quer dizer que em 2 Coríntios ele nos diga como
ou de que forma levava a cabo o ministério. Antes, ele
revela como ele mesmo se conduzia. Sua ênfase não
está na maneira de ministrar, mas em como se
conduzia.
O ministério neotestamentário é totalmente uma
questão de vida, e não apenas de dons ou de trabalhar
de determinada maneira. O crucial não é como
fazemos as coisas ou como trabalhamos, mas como
vivemos e nos conduzimos. No ministério de Cristo
para a igreja, a ênfase deve estar em como vivemos,
não em como trabalhamos. Tenho muito encargo de
que todos vejamos que, na restauração do Senhor, o
que importa não é como fazemos as coisas, mas como
vivemos. Nesses versículos, a ênfase principal de
Paulo está em como ele se conduzia.
De acordo com o versículo 20, muitas dádivas
materiais tinham sido confiadas aos cuidados de
Paulo. Ele recebera grande soma de dinheiro dos
santos, de várias cidades, para os necessitados da
Judéia. Percebendo que ter a responsabilidade de
grande soma de dinheiro poderia causar problemas,
ele agia de maneira muito cuidadosa. Primeiro, ele
escolheu Tito para ir com ele. Lendo esse livro,
podemos ver que Tito era um irmão respeitável,
respeitado entre os cooperadores e também entre as
igrejas. Portanto, Paulo o escolheu para tomar a
dianteira em ministrar suprimento material aos
santos necessitados. Ainda assim, segundo o
versículo 18, outro irmão foi enviado com Tito,
alguém cujo louvor no evangelho estava espalhado
por todas as igrejas e fora designado por elas como
companheiro de viagens nessa graça (v. 19). Esse
irmão foi enviado pelas igrejas, e não só por Paulo.
Com isso vemos que Paulo deve ter pedido às igrejas
de propósito que escolhessem alguém assim. Com
relação a esse irmão, os versículos 19 e 20 dizem: “E
não só isto, mas foi também eleito pelas igrejas para
ser nosso companheiro no desempenho desta graça
ministrada por nós, para a glória do próprio Senhor e
para mostrar a nossa boa vontade; evitando, assim,
que alguém nos acuse em face desta generosa dádiva
administrada por nós”. Paulo deliberadamente agiu
de maneira cautelosa para evitar críticas por causa da
grande quantidade de ofertas materiais.

ANTEVER O QUE É RESPEITÁVEL PERANTE


DEUS E OS HOMENS
No versículo 21, Paulo diz: “Pois o que nos
preocupa é procedermos honestamente, não só
perante o Senhor, como também diante dos homens”.
A palavra grega para preocupar-se também pode ser
traduzi da por antecipar, antever, prever,
prevenir-se, e daí preocupar-se. Esse é o sentido do
termo em Romanos 12:17. Isso deve ter sido citado de
Provérbios 3:4, onde a Septuaginta11 diz: “E pensarás
de antemão no que é honorável diante do Senhor e
dos homens”.
Paulo percebera que grande soma de dinheiro
estava envolvida no ministério aos santos
necessitados. Ele sabia que lidar com esse dinheiro
não era algo fácil. Por isso, anteviu o que era
respeitável tanto diante do Senhor como dos homens.
Podemos achar que os santos não teriam maus
pensamentos em relação ao dinheiro. Talvez os
próprios santos não tivessem maus pensamentos,
mas o diabo é cheio deles e está neles. Por esse
motivo, Paulo ponderou sobre a questão de antemão
para evitar acusações.
Aqui vemos o princípio de antever. Sempre que
estivermos para fazer algo ou nos conduzir de certo
modo, devemos ante ver o que os outros poderão
pensar sobre a questão. Sim, os santos são santos,
mas neles há alguém que não é santo, isto é, o diabo.
11
Primeira tradução do Antigo Testamento hebraico, feita em grego popular antes da Era Cristã. (N. T.)
Que idéias malignas podem advir do diabo sobre
certa questão? Precisamos refletir sobre isso.
Precisamos ponderar sobre isso, até mesmo em
relação ao marido ou mulher. O cônjuge pode não ter
problemas com certa questão, mas e o diabo? Que
tipo de idéia sobre isso pode advir dele? Precisamos
perceber que o diabo se insinua sorrateiramente,
aguardando uma oportunidade de nos destruir. Se
percebermos isso, seremos cautelosos e nos
anteciparemos aos possíveis problemas.
Nossa intenção em relação a determinada
questão pode ser muito pura, mas ainda precisamos
ser cautelosos com o nosso comportamento. Embora
nosso propósito seja puro, nosso comportamento
pode fazer com que os outros fiquem desconfiados.
Paulo, por exemplo, era responsável por grande soma
de dinheiro. Portanto, ele era cauteloso e levou
algumas testemunhas para dissipar qualquer base de
suspeita. Segundo a lei, duas ou três testemunhas
eram necessárias. Ao obter testemunhas adequadas,
Paulo ante via as coisas.
Aprecio a palavra antever. Significa considerar
uma questão de antemão. Se antevirmos, não faremos
coisas de maneira que proporcione abertura para o
inimigo.
Pela experiência, aprendemos que, em relação a
questões de dinheiro, precisamos antever. Sempre
que você chegar à questão de dinheiro, precisa
antever, a fim de evitar acusações. Nunca devemos
lidar com dinheiro de forma descuidada. Se não
formos cuidadosos nisso, poderão vir acusações sobre
nós.
No versículo 20, Paulo disse: “Evitando, assim,
que alguém nos acuse em face desta generosa dádiva
administrada por nós”. Nós também devemos
procurar antecipar-nos sempre que formos
responsáveis por grande quantia de dinheiro, a fim de
evitar acusações. Por isso, com respeito às finanças da
igreja, ou da obra, ou de dádivas para a igreja ou para
a obra, precisamos de duas ou três testemunhas. Se
cuidarmos de questões de dinheiro sem testemunhas,
teremos problemas, porque dinheiro é uma tentação.
Não devemos pensar que nossa situação é
diferente da de Paulo e que não precisamos antever as
coisas pertinentes a dinheiro. Enquanto estivermos
na terra, não podemos evitar as questões relativas a
dinheiro. Você pode tentar ficar longe do dinheiro,
mas ele ainda vai chegar até você. O dinheiro é muito
usado pelo diabo e a Bíblia fala dele como as riquezas
da injustiça [Lc 16:9]. Louvado seja o Senhor, porque
na Nova Jerusalém não haverá mais preocupação
com dinheiro! Mas atualmente, não podemos viver ou
trabalhar sem ele. Portanto, ao lidar com dinheiro,
precisamos aprender a evitar acusações, antevendo o
que é respeitável diante de Deus e dos homens.
Também precisamos antecipar-nos quanto a
relacionamentos entre sexos diferentes. Já enfatizei
que um irmão não deve ter longa conversa a sós com
uma irmã. Veja o exemplo do Senhor Jesus. Ele falou
com Nicodemos sozinho à noite em casa, mas ao falar
com a mulher samaritana, Ele o fez a céu aberto e de
dia. Ele ainda era bastante jovem, com pouco mais de
trinta anos. Se tivesse conversado a sós com ela num
quarto à noite, os discípulos provavelmente ficariam
imaginando o que estaria acontecendo. O Senhor
Jesus poderia ter-lhes explicado a situação, mas a
explicação seria tardia, porque eles já poderiam ter
tido idéias sobre a questão. Por isso, o Senhor Jesus
anteviu a maneira de contatar a mulher samaritana.
Na vida da igreja contatamos muitas pessoas e
nos envolvemos com muitas coisas. O princípio com
relação a todo esse contato e envolvimento é antever
o que os outros podem pensar de nós. É sábio sempre
antever, porque isso nos irá guardar e proteger.
Especificamente, devemos antever para fazer coisas
respeitáveis aos olhos de Deus e dos homens. Se um
irmão tem longa conversa com uma irmã, a sós, num
lugar íntimo, isso não é respeitável aos olhos do
homem. Tal comportamento pode não ser
pecaminoso, mas não é respeitável. O que fizermos
deve ser respeitável, tanto diante do Senhor, como
diante dos homens. Visto que o Senhor conhece tudo,
é mais importante antever o que é respeitável perante
os homens do que o que é respeitável diante do
Senhor. Os outros, é claro, não sabem tudo o que o
Senhor sabe. Não basta que os outros pensem que
não temos problemas. Precisamos fazer o que é
respeitável perante eles. Se nos comportarmos de
forma não respeitável, os outros não nos honrarão.
Os presbíteros, diáconos e diaconisas,
principalmente, precisam antever o que é respeitável.
Ao lidar com dinheiro, no relacionamento com
pessoas do sexo oposto e nas demais coisas, o
princípio é o mesmo: antever o que é respeitável aos
olhos de Deus e dos homens.
Talvez saibamos que numa questão estamos
certos, inocentes e puros. Entretanto, podemos não
ser respeitáveis aos olhos dos outros. Precisamos
comportar-nos de maneira tal que sejamos
considerados respeitáveis pelos outros. Então não
haverá base para acusações. Essa é uma lição que
todos devemos aprender.
O caso em 8:16-24 pode não parecer importante,
mas o princípio aqui é de grande importância, senão
Paulo não teria escrito coisa alguma sobre isso. O
próprio fato de ele ter escrito a respeito de antever o
que é respeitável indica sua importância. Todos
devemos dar atenção a isso. Em relação a dinheiro,
sexo e as demais coisas, precisamos comportar-nos
de forma a mostrar que antevemos o que é respeitável
perante o Senhor e os homens. Por favor, receba essa
palavra e aja de conformidade com ela. Se fizer isso,
será preservado e protegido; senão você terá
problemas.

A RAZÃO DA UTILIDADE DE PAULO


O apóstolo Paulo não era só dotado, culto e
poderoso, mas também cauteloso, cuidadoso e
ponderado. De modo algum era descuidado. Quando
lemos 2 Coríntios, vemos muitas virtudes e
características excelentes na pessoa e vida dele. Não é
de espantar, então, que ele fosse tão grandemente
usado pelo Senhor. Ele foi usado principalmente por
causa do seu viver. Ele viveu de forma não só santa,
espiritual e vitoriosa, mas também cautelosa,
cuidadosa e ponderada. Quando vemos as virtudes
dele descritas nos diversos capítulos de 2 Coríntios
como um todo, entendemos que essa utilidade adveio
de suas virtudes.
Nesta mensagem, meu principal encargo é
impressioná-lo com a necessidade de ser cauteloso,
cuidadoso e ponderado, comportando-nos sempre de
maneira a antever o que é respeitável. Você pode ser
inocente e puro, mas ainda precisa ante ver o que é
respeitável. Em vez de ter confiança em si mesmo,
faça as coisas de maneira cautelosa, cuidadosa e
ponderada.

CINCO QUESTÕES IMPORTANTES


Em 2 Coríntios 6 a 8, abordamos quatro itens
principais: 1) a obra de reconciliação visando
conduzir as pessoas totalmente de volta para Deus; 2)
a vida todo-ajustável; 3) ser alargado; 4) ter uma
preocupação íntima e tema com os outros. Agora, na
segunda metade do capítulo oito, vemos o quinto
item importante: antever as coisas respeitáveis aos
olhos de Deus e do homem. Todos precisamos ser
totalmente reconciliados com Deus, ter uma vida
todo-ajustável, ser alargados, ter uma preocupação
íntima com os outros e antecipar o que é respeitável.
Esses princípios aplicam-se não somente à vida da
igreja, mas também à vida familiar e à vida na escola,
no trabalho ou onde quer que estejamos.
ESTUDO-VIDA DE SEGUNDA CORÍNTIOS

MENSAGEM QUARENTA E OITO

A COMUNHÃO DOS APÓSTOLOS ACERCA DO


MINISTÉRIO AOS SANTOS NECESSITADOS (3)

Leitura Bíblica: 2Co 8:15; 9:1-15


No capítulo nove de 2 Coríntios, Paulo fala um
pouco mais acerca do ministério aos santos
necessitados. Pode parecer-nos que esse capítulo não
é necessário, pois podemos pensar que o que ele diz
no capítulo oito é suficiente. Segundo o que você
entende, por que Paulo fala um pouco mais no
capítulo nove? Se ler esses dois capítulos novamente,
talvez pense que, no que diz respeito ao ministério
para os santos necessitados, só a primeira parte do
capítulo oito já seja o suficiente, e que a última parte
do oito e todo o nove, na verdade, não sejam
necessários. Precisamos perguntar por que Paulo
devotou tanto espaço a essa questão. Como veremos,
o motivo de ele fazer isso está relacionado com alguns
conceitos profundos.

COLHER E SEMEAR
O conceito de Paulo nos capítulos oito e nove é
profundo. A chave para entendê-lo é encontrada em
dois pontos. Primeiro, em 8:15, ele conclui: “Como
está escrito: O que muito colheu não teve demais; e o
que pouco, não teve falta”. Isso é uma citação de
Êxodo 16:18 sobre colher o maná para o suprimento
diário. Por que o apóstolo liga ministrar suprimento
de bens materiais aos santos com colher maná? Se
considerarmos essa questão com calma, vamos
perceber que ministrar coisas materiais aos santos
necessitados certamente visa ao suprimento diário. O
maná era colhido para o suprimento diário dos filhos
de Israel, e bens materiais eram ministrados aos
santos necessitados também para o suprimento
diário. O fato de Paulo citar Êxodo 16:18 é um fator
crucial para entender seu conceito, que é profundo.
A segunda questão relativa ao conceito profundo
de Paulo nos capítulos oito e nove diz respeito à sua
palavra em 9:6 sobre semear: “E isto afirmo: aquele
que semeia pouco pouco também ceifará; e o que
semeia com fartura 12 com abundância também
ceifará”. Paulo aqui compara o ministrar coisas
materiais aos santos necessitados com semear. A
semeadura, assim como colher o maná, visa ao
suprimento diário. Por isso, tanto o colher como o
semear visam ao mesmo propósito, porque ambos
visam ao nosso viver.

DUAS MANEIRAS DE O POVO DE DEUS


VIVER
Na Bíblia, há duas maneiras de o povo de Deus
viver. A primeira é de acordo com a lei natural
ordenada por Deus, ou seja, plantar e colher. Em
Gênesis 3, Deus ordenou que o homem arasse o solo a
fim de ter algo para viver. A semeadura visa ao viver
do homem. Essa é a maneira segundo a lei natural
ordenada por Deus. Nenhuma raça ou nacionalidade
consegue sobreviver sem semear, sem cultivar a terra.
Cultivar a terra é semear e colher.
A segunda maneira de o povo de Deus viver é por
12
A expressão também pode ser traduzida por semeia com bênçãos. (N.T.)
meio de milagres da mão de Deus. Quando estavam
no Egito, os filhos de Israel viviam de acordo com a
maneira natural, mas quando saíram do Egito e
vagaram pelo deserto, viveram de outra maneira:
pelos milagres de Deus. O povo não semeou nenhuma
semente, mas colhia o maná. Podemos dizer que
colhiam sem semear, porque recolher o maná era
uma colheita. No deserto, os filhos de Israel
continuamente colhiam sem semear. A queda do
maná do céu era um substituto da semeadura. Os
seres humanos podem semear, mas somente Deus
pode enviar o maná do céu. No deserto, os filhos de
Israel colhiam o maná enviado por Deus.
De acordo com Êxodo 16, os filhos de Israel
colhiam o maná toda manhã, exceto aos sábados. No
sexto dia eles recolhiam uma porção dobrada a fim de
ter suprimento suficiente para o sábado. Êxodo
16:17-18 diz: “Assim o fizeram os filhos de Israel; e
colheram, uns, mais, outros, menos. Porém,
medindo-o com o gômer, não sobejava ao que colhera
muito, nem faltava ao que colhera pouco, pois
colheram cada um quanto podia comer”.

DEUS EQÜIPONDERA O SUPRIMENTO


ENTRE SEU POVO
No deserto, os filhos de Israel não praticavam
nenhuma atividade agrícola, de semear ou segar. Em
vez disso, colhiam maná. Alguns podem ter ficado
gananciosos e tentado colher grande quantidade de
maná, muito mais do que precisavam. Entretanto, no
fim do dia, o que sobrava não era mais utilizável.
Êxodo 16:19-20 diz: “Disse-lhes Moisés: Ninguém
deixe dele para a manhã seguinte. Eles, porém, não
deram ouvidos a Moisés, e alguns deixaram do maná
para a manhã seguinte; porém deu bichos e cheirava
mal. E Moisés se indignou contra eles”. No caso dos
que colhiam maná em excesso, talvez querendo
armazenar por dias e semanas por vir, Deus fez com
que o excesso fosse descartado.
Os que eram débeis e incapazes de colher muito
maná, não tiveram falta. A maneira divina é que os
que colhem pouco não tenham falta, e os que colhem
muito nada tenham em excesso. Essa é a maneira
celestial de Deus eqüiponderar, isto é, equilibrar, o
suprimento entre Seu povo. Deus exerceu Sua
habilidade miraculosa para equilibrar o suprimento
de maná entre o povo. Deus eqüipondera o
suprimento diário entre os Seus filhos pela Sua mão
soberana e miraculosa.
Nos escritos de Paulo em 2 Coríntios, ele
combina a colheita do maná com a oferta dos crentes
para o suprimento material aos santos necessitados.
Em Êxodo 16, era uma questão de colher, mas em 2
Coríntios 8 é uma questão de ofertar. Quanto à
colheita do maná, o resultado era o mesmo, quer os
filhos de Israel colhessem mais ou menos. Isso indica
que, ao colher, eles não deviam ser gananciosos.
Colher o maná era seu dever. Eles deviam fazer seu
dever sem ser gananciosos.
Suponha que alguns dos filhos de Israel tivessem
dito: “Deus é misericordioso, soberano e miraculoso.
Ele controla tudo. Já que não vai sobejar se eu colher
muito, nem faltar se colher pouco, então, na verdade,
não preciso sair e colher”. Se alguém dentre o povo de
Deus praticasse isso, ele não teria nada para o dia.
Deus não faria o dever por ele. Deus não trabalharia
por ele nem o alimentaria. Os filhos de Israel tinham
de cumprir seu dever. Enquanto cumprissem sua
responsabilidade de acordo com a ordenação de
Deus, teriam suprimento suficiente, não importava se
tivessem colhido muito ou pouco maná.
Em 2 Coríntios 8, Paulo compara nossa oferta
aos necessitados com a colheita do maná. Segundo a
nossa percepção, estamos dando e não colhendo, mas
o que Paulo diz indica que nossa oferta é uma
colheita. A palavra de Paulo pelo menos implica que,
como filhos de Deus, não devemos ser gananciosos.
Não devemos pensar que, se ganharmos grande soma
de dinheiro, seremos capazes de preservá-la toda
para nós mesmos. Precisamos ver que se ofertarmos
ou não, no fim o resultado será o mesmo.
Suponha que um irmão ganhe $ 2.000,00 por
mês, mas, na realidade, precisa muito menos que isso
para viver. Como é bastante ganancioso, quer guardar
grande quantia para si mesmo. Ele dá o dízimo, dez
por cento, ou seja $ 200,00, com a intenção de
guardar para si os outros $ 1. 800, 00. Esse dízimo é
uma boa prática, contudo, o irmão pode seguir uma
maneira ainda melhor. De acordo com essa maneira
melhor, o irmão deve guardar o que precisa para seu
viver, talvez 1. 000, 00, e ofertar o restante. Sem
dúvida, humanamente falando, quase todos seguem a
primeira maneira, a de dar o dízimo, em vez da
segunda, a de dar tudo o que puder. Se o irmão
decidir dar o dízimo e guardar os $ 800,00 extras
para si mesmo, por fim vai aprender que, em Sua
soberania, Deus tem muitas maneiras de fazer com
que esse dinheiro excedente desapareça. Pode ser
doença, acidente ou calamidade. Se o dinheiro não
desaparecer nesta geração, vai desaparecer na
seguinte ou com certeza na terceira. A soberana e
poderosa mão de Deus estará ativa para realizar um
equilíbrio celestial das riquezas no meio do Seu povo.
Por aproximadamente setenta anos, tenho
observado a situação entre os cristãos. Posso
testificar que não conheço uma farm1ia cristã que
tenha sido capaz de manter riquezas continuamente
por três gerações. A primeira geração de uma família
cristã pode tomar-se muito rica e poupar vasta
riqueza para a segunda. Mas seja na segunda ou na
terceira, o dinheiro desaparece misteriosamente.
Parece que cria asas e voa para longe. Sei de casos em
que a terceira geração de uma família rica teve todos
os bens tomados por outros. Embora tivesse herdado
vasta riqueza, ela foi tomada. Desse modo, por fim,
isso comprova que o que colhe muito não tem
excesso. Tenho visto que os que colhem pouco não
têm falta, e os que colhem muito não têm excesso.
Tenho de fato testemunhado a mão miraculosa e
soberana de Deus que eqüipondera a riqueza entre o
Seu povo.
Você pode considerar-se muito sábio em
questões financeiras.
Sabe ganhar dinheiro, poupá-lo e preservá-lo
para os filhos e netos. Mas não importa quão sábio
você seja em lidar com dinheiro, Deus é mais sábio.
Como “piloto” celestial, Ele sabe fazer com que seu
dinheiro se dissipe. Ele fez isso com o maná no Antigo
Testamento e faz isso com o dinheiro hoje. A questão
que se lhe apresenta é esta: você quer eqüiponderar o
suprimento material voluntariamente ou vai forçar
Deus a equilibrá-lo de forma miraculosa e soberana?
Posso assegurar-lhes que cedo ou tarde vocês serão
eqüiponderados nas questões financeiras. Sobre isso,
precisamos compreender o coração de Deus. O que
Deus deseja é que Seu povo seja eqüiponderado no
suprimento diário. Portanto, devemos dizer-Lhe:
“Senhor, dou-Te graças porque me capacitaste a
colher o maná. Mas, Senhor, em vez de guardá-lo
para mim mesmo, quero partilhá-lo com os outros”.
Você deve lembrar-se que, quer esteja ou não
disposto a partilhar com os outros, o resultado, por
fim, será o mesmo. A conseqüência é que o que colhe
pouco não tem falta e o que colhe muito não tem
sobejo. Portanto, é tolice não partilhar o que temos
com os outros.

SEMEAR COM BÊNÇÃOS


E quanto à semeadura? De acordo com o capítulo
nove, nossa oferta equivale não só à nossa colheita,
como no capítulo oito, mas também à semeadura.
Nossa oferta é tanto colheita como semeadura. A
colheita do maná é miraculosa. Já ressaltamos que o
maná colhido pelos filhos de Israel era
eqüiponderado de forma miraculosa, para que
ninguém tivesse falta ou excesso. Agora, pelo capítulo
nove precisamos ver que nossa oferta é também
comparada à semeadura.
De acordo com 9:6, o que semeia pouco, pouco
também ceifará, e o que semeia com fartura, ou com
bênçãos, com bênçãos também ceifará. No versículo 6
temos o conceito de semear para o benefício dos
outros. Mas que lavrador, ao semear em seu campo,
tem o conceito de semear para os outros? Com
certeza, a maioria dos lavradores tem o conceito de
semear para si mesmo. Esse tipo de semeadura,
entretanto, não é com bênçãos, isto é, não é farta.
Semear com bênçãos, com fartura, é dar aos outros.
Isso é semear com bênçãos para os outros. Ao ofertar
do nosso dinheiro, semeamos, e essa semeadura não
visa a nós mesmos, mas aos outros. Se semearmos
com bênçãos para os outros, colheremos com bênçãos
da parte de Deus.

APRENDER A DAR
Como filhos de Deus, todos precisamos aprender
a ofertar. Ofertar é colher. Quanto maná conseguimos
colher depende de quanto damos. Em Lucas 6:38, o
Senhor Jesus diz: “Dai, e dar-se-vos-á; boa medida
recalcada, sacudida, transbordante, no vosso regaço
vos darão; porque com a medida com que medirdes
medir-se-vos-á em troca”. Esse versículo indica que
se quisermos receber, isto é, colher, primeiro
precisamos ofertar. Nossa oferta é nossa colheita,
nosso receber. Todos precisamos colher maná todos
os dias. Porquanto a colheita é a oferta, todos
precisamos ofertar a fim de colher. Colhemos pouco
porque damos pouco. Que todos fiquemos
impressionados com o fato de que ofertar é colher.
Na questão de ofertar e colher, os milagres
divinos estão envolvidos. Não devemos crer, de forma
supersticiosa, que quanto mais dermos, mais
receberemos. Se for essa a maneira de entender a
questão, nossa intenção ao ofertar seria ganhar
riquezas para nós mesmos. O ponto aqui está
relacionado com a mão equilibradora de Deus. Ele
distribui o suprimento para que não sejamos ricos
nem pobres. Ele certamente pratica um equilíbrio
divino e celestial. Ele sabe equilibrar a riqueza entre
os Seus.
Por mais de cinqüenta anos, tenho vivido pela fé
no Senhor. Freqüentemente fiquei em situação de
grande pobreza. Entretanto posso testificar que, a
despeito da extrema pobreza, nunca tive falta alguma.
Colhi pouco, mas não tive falta. Outras vezes, tive
suprimento abundante, até mesmo grandes somas de
dinheiro. Todavia, tenho de testificar que não tive
sobra alguma. Por isso, por experiência própria posso
testificar que sempre que colhi muito, não tive
excesso, e sempre que colhi pouco, não tive falta.
Quem equilibra o suprimento dessa maneira? Isso é
feito por Deus com Seu equilíbrio celestial.
Se tentarmos colher mais do que é necessário,
por fim veremos o dinheiro excedente ir embora. Se
guardar dinheiro em excesso, ele parece criar asas e
voar para longe de você. O motivo disso é que Deus
nos céus equilibra a riqueza social de Seus filhos.
Vimos que ofertar é tanto questão de colher
como de semear. Semear produz a sega. É uma lei
natural que primeiro semeemos e depois colhamos.
Quando semeamos, devemos fazê-lo generosamente,
e não com avareza. Se semearmos pouco, vamos
colher pouco, mas se semearmos generosamente,
vamos também colher generosamente. Em nossa
semeadura, somos os que são generosos e liberais.
Mas quando colhemos, descobrimos que Deus é que é
generoso.
Por que Paulo acrescentou o capítulo nove? Foi
para nos proporcionar uma ilustração adicional de
ofertar. Já salientamos que em 2 Coríntios 9, ele usa
semeadura para ilustrar a oferta. Portanto, pelos
capítulos oito e nove, vemos que ofertar é colher e
também semear. Esses dois conceitos,
profundamente arraigados no apóstolo,
determinaram a maneira como ele escreveu esses
dois capítulos.

DAR E COLHER
Paulo não era um escritor superficial. Pelo
contrário, era profundo, e seus conceitos também. Ao
ler o Antigo Testamento, ele percebera que Êxodo 16
fala que o povo de Deus colhia o que precisava para o
suprimento diário. Segundo o seu conceito, nós hoje
estamos no deserto. Diariamente trabalhamos, mas
na verdade colhemos maná. A nossa colheita, porém,
tem de virar oferta. Se não ofertarmos, não
continuaremos a colher. Trabalhamos para ganhar
dinheiro, mas ele tem de tornar-se nossa oferta.
Então, tudo o que ofertarmos se tornará nossa
colheita, como retrata a colheita do maná dos filhos
de Israel no deserto. Agora podemos ver que Paulo
compara nossa oferta com a colheita de maná. Esse
conceito é profundo.

DAR E SEMEAR
No capítulo nove, Paulo passa a comparar nossa
oferta com a semeadura. Visto que esse conceito
profundo não foi totalmente expresso no capítulo
oito, ele escreveu outro capítulo relacionado com a
oferta. Esse capítulo revela outro aspecto da oferta, o
aspecto de semear. A idéia de Paulo aqui é que
precisamos semear e depois colher. Além disso,
quando semeamos, devemos semear não só para nós
mesmos, mas com bênçãos, isto é, com fartura, para
os outros.
Muitas traduções da Bíblia não traduzem o
versículo 6 literalmente. Em vez de dizer “com
bênçãos”, algumas versões falam de abundância ou
fartura. De acordo com essas traduções, se
semearmos abundantemente, ou com fartura, vamos
colher abundantemente, ou com abundância. Isso,
entretanto, é a compreensão natural dessas palavras.
O que Paulo fala aqui é literalmente semear com
bênçãos. Nossa oferta tem de ser com bênçãos para os
outros.
Outras passagens bíblicas ajudam-nos a
compreender a palavra bênçãos em 9:6. No Antigo
Testamento podemos ver que dar era uma bênção.
Quando Jacó encontrou seu irmão Esaú, deu-lhe um
presente. Esse presente era uma bênção. Sobre isso,
Gênesis 33:11 (VRC) diz: “Toma, peço-te, a minha
bênção, que te foi trazida; porque Deus
graciosamente ma tem dado; e porque tenho de
tudo”. Outros versículos que indicam que dar é
bênção são 2 Reis 5:15 (VRC), Juízes 1:15 (VRC) e
Ezequiel 34:26. O que ofertamos aos outros é uma
bênção para eles.
Quando semeamos com bênçãos aos outros,
vamos colher com bênçãos de Deus. Ademais, a
colheita sempre ultrapassa em muito a quantidade
semeada. Pode ser multiplicada por trinta ou até por
cem. Isso não acontece miraculosamente, mas de
acordo com a lei natural. Deus controla o suprimento
de vida entre os Seus filhos pelos milagres. Por causa
disso, nenhuma família cristã pode manter sua
riqueza por gerações. Porém semear está de acordo
com a lei natural, e não de acordo com milagres.
Sobre isso, não há necessidade de Deus fazer alguma
coisa miraculosa. Todos precisamos semear, ou seja,
ofertar. Quanto mais ofertamos, mais colhemos.
Todavia, não devemos fazer isso de maneira
supersticiosa com o propósito de ganhar riquezas
para nós mesmos.
As ilustrações de colher e semear relacionam-se
com os conceitos profundos de Paulo nesses
capítulos. No capítulo nove, o conceito profundo é
que como cristãos ofertamos no sentido de semear. Se
não ofertarmos, não 'iremos cultivar, semear. Além
disso, não devemos semear pouco. Se semearmos
pouco, de acordo com a lei natural, também
colheremos pouco. Precisamos semear com bênçãos
para os outros. Se semearmos com bênçãos para os
outros, também segundo a lei natural, colheremos
com bênçãos de Deus para nós. Essa bênção será
muitas vezes mais do que o que semearmos. Posso
testificar que, em minha vida cristã, nunca vi um
crente que ofertou para Deus que não tenha sido
grande mente abençoado por Ele. O Senhor sempre
honra a lei natural que estabeleceu.

TORNAR-SE FATOR DE AÇÃO DE GRAÇAS


PARA DEUS
Precisamos reconhecer a mão miraculosa do
Senhor e também nos importar com Sua lei natural.
De acordo com os dois aspectos, precisamos ofertar.
Talvez atualmente você não veja a mão equilibradora
de Deus, mas a longo prazo, talvez após muitos anos,
você a veja. Será então capaz de testificar como Deus
eqüipondera o suprimento diário entre Seus filhos.
Também precisamos perceber que ofertar é questão
de semear. Portanto, se quisermos colher temos de
semear com bênçãos para os outros. Então
colheremos com bênçãos de Deus.
Devemos semear mais, e em troca colher mais. O
objetivo não é ficar ricos. O resultado é a abundância
de ações de graças a Deus. Espero que no futuro,
muitos santos se tomem fator de ações de graças para
Deus. Isso significa que sua oferta vai abundar em
muitas ações de graças a Deus. Tenho plena confiança
de que, se os santos na restauração do Senhor
estiverem dispostos a ofertar, a restauração nunca
terá falta de suprimento material; pelo contrário,
haverá abundância de ações de graças ao Senhor por
meio de muitos santos. Por isso, vamos todos praticar
a oferta, que é realizada colhendo e semeando.

DIVERSAS QUESTÕES RELACIONADAS COM


DAR
Em 9:5, Paulo diz: “Portanto, julguei conveniente
recomendar aos irmãos que me precedessem entre
vós e preparassem de antemão a vossa dádiva já
anunciada, para que esteja pronta como expressão de
generosidade e não de avareza”. Essa bênção é uma
liberalidade, uma dádiva voluntária de generosidade
como bênção para os outros. O ofertar voluntário e
generoso torna a dádiva uma bênção para quem a
recebe. O ofertar forçado e de má vontade,
proveniente de coração cobiçoso e avarento, torna a
dádiva um ponto de cobiça para o doador.
No versículo 7, Paulo diz: “Cada um contribua
segundo tiver proposto no coração, não com tristeza
ou por necessidade; porque Deus ama a quem dá com
alegria”. Isso provém de Provérbios 22:9, em que a
Septuaginta diz: “Deus ama o homem alegre e
liberal”. A palavra grega traduzida por alegria
significa gozo, contentamento.
Nos versículos 8 e 9, Paulo continua: “Deus pode
fazer-vos abundar em toda graça, a fim de que, tendo
sempre em tudo, ampla suficiência, superabundeis
em toda boa obra, como está escrito: Distribuiu, deu
aos pobres, a sua justiça permanece para sempre”. A
expressão “toda graça”, no versículo 8, refere-se a
toda e qualquer graça. O distribuir no versículo 9 é
distribuir semeando. A palavra pobre nesse versículo
denota alguém que é obrigado a fazer trabalho servil
para ganhar a vida com dificuldade. Não é a palavra
geralmente usada para pobre.
No versículo 9, Paulo fala de a justiça
permanecer para sempre. Ofertar com generosidade
é, por um lado, uma bênção para os que recebem; por
outro, é justiça aos olhos tanto de Deus como do
homem.
No versículo 13, Paulo fala da aprovação do
ministério de dar suprimento material aos santos
necessitados. Refere-se ao fato de que os santos
necessitados na Judéia aprovavam o ministério dos
crentes gentios a favor deles. A palavra grega dôkime
significa teste, prova, experimento; daí, aprovação,
prova. Isso indica que o ministério aos santos será
testado, posto à prova e aprovado pelos santos para se
tornar prova do caráter generoso do ministério.
O termo grego para comunhão no versículo 13
também significa comunicação (ver compartilhar em
Romanos 12:13, e associar-se em Filipenses 4:15).
Isso se refere ao ministério de suprir, que é uma
comunhão entre os crentes gentios e os da Judéia.
No versículos 14 e 15, Paulo conclui: “Enquanto
oram eles a vosso favor, com grande afeto, em virtude
da superabundante graça de Deus que há em vós.
Graças a Deus pelo seu dom inefável!” Esse dom
inefável é a graça de Deus dada aos crentes.
ESTUDO-VIDA DE SEGUNDA CORÍNTIOS

MENSAGEM QUARENTA E NOVE

A COMUNHÃO DOS APÓSTOLOS ACERCA DO


MINISTÉRIO AOS SANTOS NECESSITADOS (4)

Leitura Bíblica: 2Co 8:1-5, 15; 9:6-15


Em 9:6, Paulo diz: “E isto afirmo: aquele que
semeia pouco pouco também ceifará; e o que semeia
com fartura 13 com abundância também ceifará”.
Literalmente, a preposição grega traduzida por com
significa sobre. As bênçãos aqui são primeiro dádivas
copiosas como bênçãos aos outros e depois colheitas
abundantes como bênçãos da parte de Deus. É uma
lei natural ordenada por Deus que, se semearmos
pouco, também ceifaremos pouco; mas se semearmos
com fartura, com bênçãos, também ceifaremos com
bênçãos.
No versículo 7, Paulo continua: “Cada um
contribua segundo tiver proposto no coração, não
com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama a
quem dá com alegria”. Não devemos ficar tristes ao
ofertar; antes, devemos ficar alegres. Se ficarmos
tristes ao ofertar, é melhor não ofertar coisa alguma.
Além disso, o nosso ofertar não deve ser por
necessidade. A palavra grega traduzida “por
necessidade” aqui é a mesma que é usada no capítulo
seis. Significa ser pressionado e assim confinado em
algo, forçado a entrar em alguma coisa. Ofertar por
necessidade indica que ofertar é uma calamidade
13
A expressão também pode ser traduzida por semeia com bênçãos. (N.T.)
para nós. Não devemos ofertar porque somos
forçados, nem devemos ofertar se sentimos que é
uma calamidade. No conceito de alguns, ofertar bens
materiais é como sofrer calamidade. Ofertar
certamente não deve ser assim para nós. Como Paulo
diz nesse versículo, Deus ama ao que dá com alegria.
A palavra grega traduzida por alegria também pode
ser traduzida por gozo, contentamento. Ao ofertar
devemos ficar contentes, alegres, felizes.
Os versículos 8 e 9 dizem: “Deus pode fazer-nos
abundar em toda graça, a fim de que, tendo sempre,
em tudo, ampla suficiência, superabundeis em toda
boa obra, como está escrito: Distribuiu, deu aos
pobres, a sua justiça permanece para sempre”. Há
diferentes tipos de graça. Tito estava entre os
coríntios para levar-lhes diferentes graças. Hoje
também precisamos ter os diversos tipos de graça,
uma das quais é ofertar.
Nos versículos 8 e 9, há muitas expressões
amáveis e preciosas. Uma delas é que o ofertar
generosamente é justiça aos olhos tanto de Deus
como do homem. Esse conceito é confirmado pela
palavra do Senhor proferida no monte e registrada
em Mateus 6. O Senhor considera a oferta generosa
não só como uma graça, mas também como justiça.
No versículo 10, Paulo prossegue: “Ora, aquele
que dá semente ao que semeia e pão para alimento
também suprirá e aumentará a vossa sementeira e
multiplicará os frutos da vossa justiça”. Aqui vemos a
fonte da semente: ela provém de Deus que
abundantemente supre o semeador com semente e
pão para alimento. Não devemos pensar que o trigo
usado para fazer pão advém automaticamente da
ceifa da colheita. Não, ele provém de Deus. Embora
precisemos semear, não devemos confiar na
semeadura. É nosso dever semear e devemos semear
por esse motivo. Todavia, não devemos confiar no
que semeamos. Se confiarmos na semeadura, Deus
pode reter a chuva ou permitir que uma tempestade
danifique a colheita. Por isso, precisamos ver que
Deus é Aquele que provê o pão. Ele nos dá a semente
para semear e também pão proveniente da colheita
para alimento. Além disso, é Ele quem multiplica
nossa semente e faz com que os frutos de justiça
cresçam.

A COMUNHÃO DE PAULO COM OS SANTOS


Gostaria de falar um pouco mais acerca das duas
ilustrações usadas por Paulo nos capítulos oito e
nove: a de colher o maná e a de semear e colher a
colheita. Paulo não era superficial. Ele sabia que ter
comunhão com as igrejas a respeito do ministério de
cuidar dos santos necessitados da Judéia era muito
importante. Ele percebeu que os santos na Macedônia
e Acaia estavam em pobreza. Isso é indicado pelo que
ele diz em 8:1-2: “Também, irmãos, vos fazemos
conhecer a graça de Deus concedida às igrejas da
Macedônia; porque, no meio de muita prova de
tribulação, manifestaram abundância de alegria, e a
profunda pobreza deles superabundou em grande
riqueza da sua generosidade”. Paulo aqui fala de
profunda pobreza. Essa expressão indica que a
situação econômica na Macedônia, e sem dúvida na
Acaia também, não era boa. Os santos nessas regiões
eram pobres. Se essa era a situação econômica deles,
como Paulo podia encorajá-los, até mesmo
exortá-los, a suprir coisas materiais aos outros? Essa
oferta por certo os tornaria ainda mais pobres. Além
do mais, e o futuro dos santos? Paulo sabia que
alguns dos santos pobres poderiam dizer: “E meu
futuro? Tenho muito pouco. Se der parte do que
tenho, como cuidarei do meu viver no futuro?” Visto
que compreendeu a situação, e como era ponderado,
Paulo lidou com a questão de forma muito prudente.
Quando teve comunhão com os crentes sobre
suprimento material para os santos necessitados, ele
foi muito ponderado.
Era arriscado Paulo ter comunhão com os santos
sobre ofertar e até mais arriscado exortá-los a ofertar.
Não obstante, ele tinha uma certeza e confiança em si
que o fizeram correr o risco. Em nossa opinião, é bem
fácil pedir a pessoas ricas que ofertem para os
necessitados, mas é outra coisa exortar os pobres, os
que não têm suprimento suficiente para o próprio
viver, a que ofertem de suas posses. Como já
enfatizamos, eles podem preocupar-se com o futuro,
principalmente se vão sustentar-se se derem o que
têm. Entretanto, como conhecia a economia de Deus
e compreendia a maneira de Deus, Paulo tinha
segurança para se arriscar a encorajar os santos
pobres na Acaia a ofertar aos necessitados da Judéia.

RECEBERAM O CUIDADO DE DEUS DE


FORMA MIRACULOSA
Pelo seu estudo do Antigo Testamento, Paulo
percebeu que Deus cuida das necessidades de Seu
povo. Deus é capaz de alimentar o povo de forma
miraculosa. Havia mais de dois milhões de filhos de
Israel num deserto estéril, num ermo onde nada
cresce. O deserto não era um lugar adequado para
plantar ou criar gado, mas por quarenta anos Deus os
alimentou fazendo descer o maná do céu
miraculosamente. Não creio que alguém consiga
explicar o que era o maná ou de onde vinha, mas é um
fato histórico que Deus os alimentou com o maná no
deserto por quarenta anos. Foi certamente um
milagre que mais de dois milhões de pessoas
pudessem sobreviver no deserto por tanto tempo.
Tanto a descida do maná como sua utilização
foram miraculosas. Paulo refere-se a isso em 2
Coríntios 8:15 onde, citando Êxodo 16:18, ele diz: “O
que muito colheu não teve demais; e o que pouco, não
teve falta”. De acordo com Êxodo 16:18, um gômer foi
usado para medir o maná. Tanto os que colhiam
muito como os que colhiam pouco posteriormente
tinham um gômer. Essa é a eqüiponderação celestial,
por parte de Deus, do maná recolhido pelo Seu povo.
Não importa quantos gômeres alguns tivessem
colhido, depois que o maná era medido, o resultado
era que miraculosamente havia um gômer para cada
pessoa (Êx 16:16).
No sexto dia da semana, os filhos de Israel
deviam colher uma porção dupla de maná para
prover o suprimento para o sábado. Nos outros dias
da semana, porém, não lhes era permitido colher
mais do que o que precisavam para o dia. Os que
tentavam guardar maná para o dia seguinte
descobriam que dava bichos. Isso indica que não é
princípio de Deus que Seu povo guarde algo para si
mesmo. Guardar dessa forma é ser motivado pela
ganância.
Sem dúvida, quando Paulo estudava as
Escrituras, as idéias e conceitos entravam nele,
inspiravam-no e o governavam. Por fim, essas idéias
motivaram-no a escrever 2 Coríntios 8 e 9. No
capítulo oito, ele encorajava até mesmo os santos
pobres a ofertar para os necessitados da Judéia.
Como tinha profundo conhecimento da economia de
Deus, ele teve a coragem de pedir aos santos que
fizessem isso. Nesse capítulo, Paulo parece dizer:
“Vocês não precisam levar em consideração a sua
pobreza. Simplesmente dêem para cuidar dos
necessitados. Na verdade, vocês não precisam cuidar
das próprias necessidades. O seu Pai celeste é que
supre suas necessidades. Ele supre o maná e dessa
forma, cuida de vocês. Posso assegurar-lhes que não
precisam preocupar-se com o futuro. Visto que o seu
futuro está sob o cuidado do Pai, encorajo-os a ofertar
para os necessitados. De forma miraculosa, o Pai
enviará o maná”.
Pela experiência dos filhos de Israel de colher
maná no deserto, aprendemos que nossa renda é, na
verdade, um tipo de maná. O suprimento de maná
não dependia da colheita dos filhos de Israel. Pelo
contrário, dependia de Deus fazer descer o maná do
céu. Se Deus não tivesse enviado o maná, como
poderiam os filhos de Israel ter colhido alguma coisa?
A colheita de maná dependia totalmente da ação de
Deus. O princípio é o mesmo com sua renda. Você
pode pensar que sua renda depende do seu trabalho
ou emprego, mas quem lhe deu o emprego? Foi
providenciado por Deus. Porém, se você pensa que
conseguiu o emprego pela sua habilidade ou
formação, Deus pode fazer com que algo aconteça na
sua empresa para que você o perca. Você, então,
talvez perceba que sua renda não depende de sua
habilidade, mas da soberania de Deus. Entender isso
é muito importante para todos nós. Se pensarmos que
nossa renda depende de nossa formação, capacidade
ou habilidade, então seremos superficiais e míopes.
SEMEAR E COLHER
Usando a ilustração de semear e colher no
capítulo nove, Paulo mostra que Deus também usa a
lei natural para alimentar Seu povo. Semear e colher
são questões da lei natural. Ofertar é, na verdade,
semear, mas onde conseguimos a semente usada na
semeadura? A semente é suprida por Deus. A origem
da semente é o próprio Deus. De acordo com 9:10, Ele
supre o semeador com semente em abundância.
Não devemos pensar que só porque semeamos,
temos certeza de que teremos colheita farta. Antes,
precisamos orar: “Senhor, tenho semeado, mas se vou
ou não ter boa colheita depende de Tua misericórdia”.
O crescimento da semeadura depende de Deus. Se Ele
mudar o clima, o que semeamos pode nada render.
Como conseqüência, não vamos ter nenhuma comida.
Por isso, precisamos adorar o Senhor e dizer:
“Senhor, mesmo que meu suprimento pareça advir da
colheita, a comida é na verdade dada por Ti”.

DEUS COMO FONTE ÚNICA


Como filhos de Deus, estamos sob Seu cuidado.
Ele cuida de nós e alimenta-nos de duas formas: por
milagres e pela lei natural. Precisamos agradecer ao
Senhor por cuidar de nós de forma miraculosa. Você
não percebe que Ele tem cuidado de você
miraculosamente e que você vive por meio dos Seus
milagres? O fato de você ter bom emprego é um
milagre. Além disso, ter moradia adequada e ter sido
protegido e preservado até agora também são
milagres. Todas essas coisas advêm de Deus mandar
miraculosamente o maná. O que fazemos cada dia é
simplesmente cumprir a responsabilidade de colher o
maná. Quando você vai trabalhar cada dia, colhe o
maná, mas este veio por meio dos milagres de Deus.
Se você não crer nisso agora, algum dia crerá. Verá
que até mesmo sua vida física depende dos milagres
de Deus. A primeira maneira de Deus alimentar Seu
povo é por intermédio de milagres. Que todos
possamos ficar impressionados e adorá-Lo por isso!
Precisamos perceber que não vivemos pela nossa
formação ou capacidade, mas porque Deus faz cair o
maná.
A segunda maneira de Deus cuidar de nós é pela
lei natural de semear e colher. Sim, precisamos
semear, mas é Deus quem nos dá semente. Ademais,
Ele faz com que a semente cresça, para que tenhamos
uma colheita. Podemos semear, mas não podemos
fazer nada crescer. Deus supre a semente, Ele a faz
crescer e também nos dá pão para alimento.
Com respeito ao suprimento, tanto por
intermédio de milagres como por intermédio da lei
natural, Deus é a fonte. Por um lado, Ele envia o
maná; por outro, supre de semente para semear e pão
para alimento. Se tivermos uma profunda percepção
disso, não ficaremos preocupados com o futuro. O
Senhor Jesus disse: “Não andeis ansiosos pelo dia de
amanhã” (Mt 6:34). Sabendo que os crentes não
precisavam preocupar-se com o futuro, porque têm
Deus como sua fonte de suprimento, Paulo teve a
ousadia de encorajar os santos pobres a ofertar para
os necessitados. Devemos cuidar das necessidades de
Deus e Seu propósito. Ele, então, cuidará do nosso
futuro. Nosso futuro não está debaixo de nosso
próprio cuidado, mas do cuidado de nosso Pai. Não é
de acordo com a nossa colheita, mas de acordo com
Deus enviar o maná. Além disso, não é segundo a
nossa semeadura, mas conforme o Seu suprimento.
Se Ele não suprir com semente, que semearemos?
Nosso futuro também não depende de nossa colheita,
mas de Deus fazer com que a semente cresça até
haver colheita. Tendo uma percepção profunda
acerca disso e um conhecimento completo da
economia de Deus, Paulo tinha certeza e paz de
encorajar os santos pobres a ofertar o que tinham
para suprir as necessidades de outros.

A CERTEZA DE PAULO
Agora podemos compreender o conceito de
Paulo nos capítulos oito e nove. No capítulo oito, ele
usou a colheita de maná como base para ter
comunhão com os santos acerca de ofertar o
suprimento de coisas materiais aos necessitados. No
capítulo nove, ele usou a semeadura e colheita como
base para essa comunhão. Ele, portanto, tinha base
dupla para ter comunhão com os santos sobre o
ministrar de coisas materiais. Isso deu-lhe a certeza e
a confiança de dizer aos santos que, se dessem tanto
quanto possível, não precisariam preocupar-se com o
futuro. Ele parecia dizer: “Santos, dêem tanto quanto
puderem. Não há necessidade de se preocupar com o
amanhã. Seu futuro está totalmente debaixo do
cuidado de Deus. Como tenho certeza disso,
encorajo-os a ofertar. Não corro qualquer risco
pedindo-lhes que ofertem para os necessitados. Se
acatarem minha palavra e agirem com base nela,
haverá multiplicação de ações de graças para com
Deus. Além disso, se estiverem dispostos a semear
ofertando, Deus proverá aumento em sua colheita.
Ele vai fazer aumentar seu fruto de justiça”.
Por que Paulo teve a ousadia de encorajar os
santos pobres a ofertar? Porque conhecia a Palavra de
Deus. Além do mais, conhecia a economia e a
maneira divinas. Ele percebera que era algo sério
pedir a igrejas com situação econômica pobre que
ajudassem os necessitados. Ele não pedia a um
indivíduo que ajudasse o outro, mas encorajava as
igrejas na Europa a ajudar as igrejas na Judéia. Pode
parecer que ele corria um risco, porque os santos
poderiam sofrer no futuro. Ele, entretanto, sabia que
não corria risco, uma vez que tinha certeza de que
Deus iria fazer descer o maná, suprir com semente
para semear e dar pão para alimento. Essa é a
maneira adequada de compreender a palavra de
Paulo em 2 Coríntios 8 e 9.
ESTUDO-VIDA DE SEGUNDA CORÍNTIOS

MENSAGEM CINQÜENTA

PAULO VINDICA SUA AUTORIDADE APOSTÓLICA (1)

Leitura Bíblica: 2Co 10:1-6


Lendo o livro de 2 Coríntios, podemos pensar
que, ao terminar o capítulo nove, Paulo já abordara
todos os pontos necessários e não havia necessidade
de escrever mais nada. Entretanto, nos últimos
quatro capítulos dessa Epístola, ele aborda outra
questão crucial que estava em seu coração: a sua
autoridade apostólica. Ele falou um pouco disso em 1
Coríntios, mas como a hora não era oportuna, ele não
a abordou adequadamente. Quando 1 Coríntios foi
escrita, a situação ainda não estava pronta para ele
chegar à questão de sua autoridade apostólica.
Porém, ao escrever 2 Coríntios 10, as tempestades
haviam cessado e tudo estava calmo. Assim, com
todos tranqüilos e em paz, havia uma atmosfera
calma. Em tal atmosfera e situação, ele chegou à
questão de sua autoridade apostólica. Nos capítulo
dez a doze e parte do treze, ele apresenta essa questão
aos coríntios e a aborda de diferentes ângulos.
Como é excelente escritor, Paulo sempre trata de
qualquer questão de maneira completa, não deixando
base para discussão. Como veremos, esse princípio
aplica-se à vindicação que Paulo faz de sua
autoridade apostólica. Os coríntios precisavam estar
bem esclarecidos sobre isso, e nós também.

O CONTRASTE
Em 10:1 (IBB-Rev.), Paulo diz: “Ora eu mesmo,
Paulo, vos rogo pela mansidão e benignidade de
Cristo, eu que, na verdade, quando presente entre
vós, sou humilde; mas quando ausente, ousado para
convosco”. Note que esse versículo começa com a
palavra “ora”. “Ora” aqui indica um contraste. Nos
capítulos oito e nove, o apóstolo falou de forma
agradável com os queridos santos em Corinto,
encorajando-os a ter comunhão no ministério aos
santos necessitados da Judéia. Imediatamente depois
disso, ele desejou expressar-se melhor a eles
vindicando, com palavras severas e desagradáveis, o
seu apostolado, e mesmo a sua autoridade apostólica.
Isso foi necessário devido à situação vaga e nebulosa
causada pelos falsos apóstolos judaicos (11:11-15),
cujo ensinamento e afirmativas do que eles eram
tinham desviado os coríntios dos ensinamentos
fundamentais dos verdadeiros apóstolos, e
especialmente da percepção adequada da posição de
Paulo como apóstolo.
Precisamos ficar impressionados com o fato de
que essa seção de 2 Coríntios está em vívido contraste
com a seção anterior. A palavra de Paulo nos
capítulos seis a nove é agradável, mas nos capítulos
dez a treze, às vezes é severa e até mesmo
desagradável. Ao ler os últimos quatro capítulos desse
livro, podemos imaginar: Será que ele perdeu sua
preocupação tema e íntima? Alguns podem até
criticá-lo por sua severidade. Na verdade, por ser tão
espiritual é que ele pôde escrever esses capítulos da
forma que escreveu.

A FORMA DE PAULO ROGAR


Em 10:1, Paulo diz-nos que rogava aos coríntios
pela mansidão e benignidade de Cristo. Mas não nos
diz o objetivo do seu rogo. Ele nos diz como rogava,
mas não diz por que o fazia. Se ler esse capítulo até o
fim, tentando encontrar o propósito do seu rogo, você
não será capaz de encontrá-la. Paulo simplesmente
não manifesta o propósito do seu rogo. Será que,
então, ele cometeu um erro ao escrever? Não, a
preocupação dele é mais em como roga aos santos do
que no motivo. Isso indica que a maneira de ele rogar
é mais importante que o propósito do seu rogo. Por
esse motivo, ele enfatiza que rogava aos crentes pela
mansidão e benignidade de Cristo.
Suponha que, ao dar uma mensagem, um irmão
importe-se apenas com o seu objetivo de dar a
mensagem e não com a maneira como a dá. Isso seria
um erro sério. Devemos aprender com Paulo a até
prestar mais atenção à maneira com que fazemos algo
do que com o nosso propósito em fazê-la. Na verdade,
Deus se importa mais com a nossa maneira de fazer
as coisas do que com o nosso propósito, ou objetivo,
em fazê-las. Contudo, muitos cristãos hoje
dificilmente se importam com a maneira de fazer as
coisas; importam-se basicamente com o propósito, o
objetivo, o resultado. Há um provérbio que diz que o
fim justifica os meios. Os que dão atenção a essa
máxima não se importam com a maneira de fazer as
coisas, mas só com o objetivo. Esse conceito é
deplorável e precisa ser condenado.
Os cristãos podem pensar que, já que sua
intenção é fazer uma obra pelo Senhor, não precisam
importar-se com os meios usados pára realizá-la. Por
exemplo, ao pregar o evangelho, talvez usem métodos
ou entretenimentos mundanos. Por isso, quero
enfatizar que, na Bíblia, Deus mostra que Ele se
importa muito mais com a maneira do que com o
propósito. Como embaixador celestial, Paulo também
se importava mais com a maneira de fazer as coisas
do que com o objetivo. Esse é o motivo de ele
descrever a maneira de rogar aos coríntios, mas não
mencionar o objetivo. Que todos aprendamos com ele
nesse ponto.

A MANSIDÃO E A BENIGNIDADE DE CRISTO


Em 10:1, Paulo diz que roga pela mansidão e
benignidade de Cristo. Isso indica que o apóstolo,
sendo firmemente ligado a Cristo (1:21) e um com
Ele, vive por Ele, agindo em Suas virtudes. Todas as
virtudes de Cristo estavam tomando-se as de Paulo.
Mansidão era uma virtude na humanidade de Cristo
mediante a vida divina. A mansidão de Cristo não é
uma questão simples porque está em Sua
humanidade e existe pela vida divina. Quando Ele
estava na terra, teve um viver humano pela vida
divina. Por meio da mescla de divindade com
humanidade, a virtude da mansidão foi manifestada.
O princípio é o mesmo com a virtude da
benignidade de Cristo. Benignidade é outra virtude
de Cristo vivida em Sua humanidade pela vida divina.
Você sabe a diferença entre mansidão e benignidade?
Mansidão significa não invadir ou lutar com os
outros. Antes, é estar disposto a ceder. O manso cede
aos outros, mas os que são fortes de forma natural
lutam e recusam-se a ceder. Pelo menos, querem
defender seu próprio espaço. O manso, entretanto,
cede, não luta e não invade o território alheio. Ter
benignidade significa estar disposto a permitir que os
outros o invadam. Isso quer dizer que ter benignidade
é sofrer tribulação e injúria. Ter mansidão é não
invadir os outros, mas ceder a eles; ter benignidade
significa estar disposto a ser invadido pelos outros.
Essas são duas das virtudes de Cristo vividas em Sua
humanidade pela vida divina.
Uma vez que Paulo vivia Cristo, as virtudes de
Cristo tornaram-se dele. A expressão “pela mansidão
e benignidade d~ Cristo” indica que ele era um com
Cristo e O tomava como sua vida. Portanto, ele rogava
aos crentes não por si mesmo, mas pelas virtudes de
Cristo, particularmente pela Sua mansidão e
benignidade. Ele rogava aos outros por Cristo, em
Cristo e com Cristo.

A PESSOA DE PAULO
Depois de nos dizer a maneira pela qual roga,
Paulo passa a falar do tipo de pessoa que era. Ele diz
no versículo 1: “Eu mesmo, Paulo (...) quando
presente entre vós, sou humilde; mas, quando
ausente, ousado para convosco”. Essa descrição de
Paulo se encaixa com o tema de 2 Coríntios. O tema
dessa Epístola é o tipo de pessoa que Paulo era e o
tipo de viver que tinha. Ele não se importava muito
com a obra que fazia, mas muito mais com sua pessoa
e viver. Como já enfatizamos, no capítulo dez ele nem
mesmo menciona o objetivo de rogar. Ele estava tão
preocupado com a maneira de rogar que não
mencionou porque rogava.
Com relação à sua pessoa, Paulo diz que era
humilde quando entre os coríntios, mas ousado
quando ausente deles. O apóstolo era ousado, tendo
coragem para expressar em sua Epístola a verdadeira
situação entre os coríntios. Podemos aprender com
ele a ser mansos na presença de outros, mas ousados
quando ausentes deles. Quando está com alguém,
você não deve ser ousado demais, mas alguns podem
dizer: “Consigo ser ousado quando estou com uma
pessoa; mas quando estou longe dela, minha ousadia
parece evaporar”. Isso indica que sua ousadia na
presença da pessoa não é adequada. Se sua ousadia
não se evapora depois de ter deixado a presença de
alguém, então pode ser um tipo adequado de ousadia.
Paulo foi muito ousado ao escrever aos coríntios. Mas
se pudéssemos estar na presença dele, nós o
acharíamos manso e humilde.
Há muito que aprender com a maneira de Paulo
proceder. Sempre que quisermos lidar com alguém de
maneira ousada, devemos esperar até que não mais
estejamos na presença dele e ver se nossa ousadia
permanece. Essa foi a maneira de Paulo lidar com os
coríntios. Ele lhes rogou pela mansidão e benignidade
de Cristo, e era humilde no meio deles, mas era
ousado ao escrever-lhes. Nesses versículos, vemos a
mansidão, benignidade, humildade e ousadia
adequada de Paulo.

GUERRA ESPIRITUAL
No versículo 3, Paulo passa a falar de guerra
espiritual: “Porque, embora andando na carne, não
militamos segundo a carne”. Sendo humanos, os
apóstolos ainda estão na carne. Daí, eles andam na
carne, mas, principalmente na guerra espiritual, não
andam segundo a carne; e, sim, segundo o espírito
(Rm 8:4).
No versículo 3 Paulo parece dizer: “Visto que
ainda estamos na velha criação, ainda estamos na
carne. Mas não andamos segundo a carne.
Particularmente, não fazemos guerra segundo a
carne. Não nego que ainda estou na carne, mas não
vivo, falo e ajo segundo a carne. Pelo contrário, ando
de acordo com o espírito. Portanto, na questão de
guerra espiritual, luto de acordo com o espírito.
Coríntios, vocês estão totalmente enganados ao
pensar que nós, apóstolos, lutamos segundo a carne.
Não, nossa guerra é de acordo com o espírito”.
Nos versículos 4 e 5, Paulo continua: “Porque as
armas da nossa milícia não são carnais, e sim
poderosas em Deus, para destruir fortalezas,
anulando nós sofismas e toda altivez que se levante
contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo
pensamento à obediência de Cristo”. Uma vez que a
guerra espiritual não é contra carne, mas contra
forças espirituais (Ef 6:12), as armas não devem ser
carnais, mas espirituais. Essas são poderosas para
destruir as fortalezas do inimigo.
Arrazoamentos e pensamentos estão na mente e
são da mente. São fortalezas de Satanás, o adversário
de Deus, na mente dos que são desobedientes a Deus.
Pela guerra espiritual, os arrazoamentos têm de ser
destruídos e todo pensamento levado cativo à
obediência de Cristo.
Toda altivez no versículo 5 refere-se às coisas
soberbas na mentalidade reprovável que são contra o
conhecimento de Deus. Também têm de ser
destruídas pelas armas espirituais.
O objetivo da luta espiritual é destruir as
fortalezas de Satanás na mente humana perversa.
Essas fortalezas são os pensamentos orgulhosos,
altivos, e as imaginações na mente do homem. As
imaginações soberbas e os pensamentos orgulhosos
são fortalezas edificadas por Satanás na mente
humana. Elas se levantam contra o conhecimento de
Deus. O objetivo de nossa luta é destruí-las. As
pessoas são rebeldes contra Deus por causa delas, isto
é, desses elevados arrazoamentos e pensamentos de
soberba. Portanto, precisamos lutar contra isso para
que todo pensamento seja levado cativo à obediência
de Cristo.
No versículo 6, Paulo diz: “E estando prontos
para punir toda desobediência, uma vez completa a
vossa submissão”. A palavra punir aqui é ousada e
severa no sentido de culpar. A referência de Paulo à
obediência indica que nossa obediência proporciona
base para o Senhor lidar com a desobediência dos
outros.
Na época de Paulo, muitos judeus criam em
Cristo e então assumiam a posição de mestres. Em
seu ensinamento, eles atribuíam um papel
proeminente à lei. Como conseqüência, no
ensinamento deles havia uma mistura do evangelho
do Novo Testamento com a lei do Antigo Testamento.
Isso causava problemas, principalmente quando o
evangelho chegou ao mundo gentio sob o apostolado
de Paulo.
Os judaizantes, que confundiam o Novo com o
Antigo Testamento, não concordavam com Paulo. De
fato, havia grande discrepância entre o ensinamento
de Paulo e o deles. Alguns chegavam aos gentios
deliberadamente para visitar as igrejas a fim de
propagar os ensinamentos judaicos. Como resultado,
causavam bastante dano às igrejas. De acordo com
Gálatas e 1 e 2 Coríntios, vemos que esses judaizantes
foram à Galácia e à Acaia, agitando os crentes e
causando problemas. Em 1 e 2 Coríntios, vemos que
os crentes em Corinto tinham sido contaminados e
agitados pelos ensinamentos judaicos.
A palavra de Paulo em 10:5 acerca de
arrazoamentos e altivez que se levantaram contra o
conhecimento de Deus foi proferida com relação aos
ensinamentos dos judaizantes. Esse foi o pano de
fundo do que ele escreveu nesse versículo. Vimos que
ele diz que a guerra dos apóstolos era para destruir
fortalezas, arrazoamentos e altivez que se levantavam
contra o verdadeiro e adequado conhecimento de
Deus segundo o Novo Testamento. Além disso, ele diz
que o objetivo dessa guerra era levar todo
pensamento cativo à obediência de Cristo.
Particularmente, ele tem em mente os pensamentos
que têm origem nos ensinamentos judaicos.
Por um lado, os mestres judaizantes afirmavam
ser de Cristo; por outro, ensinavam muitas coisas
acerca da lei que, na verdade, eram contra Cristo. Eles
criam em Cristo e ainda assim ensinavam coisas que
Lhe eram contrárias. Não se tinham rendido a Cristo
totalmente nem Lhe tinham obediência absoluta. Na
sua maneira de pensar havia algo que precisava ser
subjugado. Portanto, o ensinamento de Paulo em 2
Coríntios é uma luta contra os pensamentos,
arrazoamentos e idéias judaicas. É uma luta para
levar cativos à obediência de Cristo esses
pensamentos influenciados pelos ensinamentos
judaicos.
O versículo 6 indica que entre os santos em
Corinto havia alguns que, sob a influência dos
arrazoamentos e pensamentos judaizantes, eram
rebeldes. Por esse motivo, Paulo disse que estava
pronto para punir toda desobediência quando a
obediência dos coríntios tivesse sido cumprida. A
desobediência nesse versículo refere-se à
desobediência dos ensinamentos judaizantes. A
prontidão de Paulo em punir essa desobediência
tinha uma condição: a obediência dos coríntios. Era
primeiramente necessário que eles se tornassem
totalmente obedientes ao evangelho de Cristo. Eles
não podiam ser parcialmente pelo evangelho do Novo
Testamento e parcialmente pela lei do Antigo
Testamento. Ser, mesmo que parcialmente, pela lei
constituía rebelião e desobediência. Quando os
coríntios se tornassem totalmente obedientes ao
evangelho neotestamentário, a situação estaria
adequada para Paulo punir toda desobediência. A
situação em Corinto lhe daria base para lidar com a
desobediência dos judaizantes. Essa é a interpretação
adequada desse trecho da Palavra.
ESTUDO-VIDA DE SEGUNDA CORÍNTIOS

MENSAGEM CINQÜENTA E UM

PAULO VINDICA SUA AUTORIDADE APOSTÓLICA (2)

Leitura Bíblica: 2Co 10:7-18


Em 10:7-18, Paulo fala acerca da medida do
governo de Deus. Vamos abordar esse trecho
versículo por versículo.

ASPECTOS DA AUTORIDADE APOSTÓLICA


O versículo 7 diz: “Observai o que está evidente.
Se alguém confia em si que é de Cristo, pense outra
vez consigo mesmo que, assim como ele é de Cristo,
também nós o somos”. Essa é uma palavra franca,
bem diferente das palavras nos capítulos seis e sete.
Sem dúvida, os judaizantes confiavam em si mesmos
que eram de Cristo. Embora fossem cristãos, eles não
estavam dispostos a ser um com Paulo em seu
ministério. Eles afirmavam ser de Cristo. Por isso,
Paulo procurou esclarecer que os apóstolos
certamente também eram de Cristo. Isso indica que
ser de Cristo é importante. É vital para a vida e
ministério cristãos.
Nos versículos 8 e 9, Paulo diz: “Porque, se eu me
gloriar um pouco mais a respeito da nossa
autoridade, a qual o Senhor nos conferiu para
edificação e não para destruição vossa, não me
envergonharei, para que não pareça ser meu intuito
intimidar-vos por meio de cartas”. O versículo 8
indica que no passado Paulo, de fato, dissera algo aos
coríntios acerca de sua autoridade apostólica. Tal
autoridade não é para governar os crentes, no sentido
natural, mas edificá-los,
No versículo 9, Paulo fala da intimidação dos
crentes por meio de cartas. Isso pode referir-se à
primeira Epístola de Paulo aos coríntios. Nela, Paulo
referiu-se à sua autoridade apostólica. Alguns dos
coríntios podem ter considerado essa palavra
intimidativa, mas aqui Paulo indica que ela não devia
ser intimidativa para eles.
No versículo 10, Paulo prossegue: “As cartas,
com efeito, dizem, são graves e fortes; mas a presença
pessoal dele é fraca, e a palavra, desprezível”. Isso
confirma o que dissemos na mensagem anterior sobre
ele ser humilde na presença dos coríntios. Ele era
manso e nem um pouco forte fisicamente. Além disso,
seu discurso, ou seja, sua palavra, era desprezível, ou
de nenhum valor. O termo grego traduzido por
desprezível significa literalmente anulada.
No versículo 11 Paulo continua: “Considere o tal
isto: que o que somos na palavra por cartas, estando
ausentes, tal seremos em atos, quando presentes”.
Embora parecesse diferente em pessoa do que era nas
cartas, na verdade ele era o mesmo. Devemos
aprender com ele a não ser políticos ou naturalmente
polidos, porém flexíveis. Na presença dos outros, não
devemos ser tão ousados ou fortes. Isso, entretanto,
não quer dizer que de fato somos fracos ou sem
conhecimento; antes, queremos evitar ofendê-los sem
necessidade. Não obstante, às vezes precisamos
afirmar algo que parece ousado ou forte. Às vezes
precisamos, ser fortes ao escrever, mas não estamos
dispostos a sê-lo, Outras vezes, não devemos ser tão
ousados na presença de alguém, porém o somos. Isso
indica que não somos sábios, flexíveis ou pacientes.
Vamos todos aprender a ser verdadeiros, e não
políticos. Ao mesmo tempo, precisamos aprender a
ser flexíveis. Por um lado, devemos evitar ferir os
sentimentos dos outros; por outro, precisamos, às
vezes, falar francamente a verdade com certa ousadia.
No versículo 12, Paulo diz: “Porque não ousamos
classificar-nos ou comparar-nos com alguns que se
louvam a si mesmos; mas eles, medindo-se consigo
mesmos e comparando-se consigo mesmos, revelam
insensatez”. Os que estão enredados ou presos em si
mesmos, não têm compreensão adequada.

NÃO SE GLORIAR SEM MEDIDA


O versículo 13 diz: “Nós, porém, não nos
gloriaremos sem medida, mas respeitamos o limite da
esfera de ação que Deus nos demarcou e que se
estende até vós”. O apóstolo é ousado, mas não sem
limites. Isso mostra que ele está sob restrição do
Senhor. O seu gloriar-se está de acordo com a medida
do regulamento que o Deus da medida, o Deus
regulador, lhe aquinhoou. O ministério de Paulo ao
mundo gentio, que incluía Corinto, era segundo a
medida de Deus (Ef 3:1-2, 8; Gl 2:8). Por isso, ele se
gloriava nesse limite e, em contraste com os
judaizantes, não sem medidas. A palavra medida no
versículo 13 literalmente significa régua de medir,
corno o metro de carpinteiro.
Nunca devemos gloriar-nos sem medida. Ao dar
testemunho do que aprendemos do Senhor, devemos
ter limite, medida. A palavra medida no versículo 13
indica ser regulado por Deus. Ele nos aquinhoou
exatamente essa medida para nossa obra e
experiência. Além disso, deu-nos exatamente certa
medida para desfrutar. Por isso, quando damos
testemunho sobre nossa obra, experiência ou desfrute
do Senhor, precisamos testificar dentro da medida,
isto é, em certo limite.
Ao dar testemunho ou relato, nunca devemos
exagerar. Entretanto, os relatos em certas publicações
cristãs são exageros: extrapolam, vão além dos
limites, são sem restrição. Assim, ao testificar de
nossas experiências, precisamos permanecer na
medida que Deus nos deu. Não nos devemos gabar
sem medida, além das medidas, mas de acordo com a
regra, a medida, que o Deus da medida nos
aquinhoou. Há alguém que governa e mede: é o Deus
da medida, o Deus que governa. Portanto, precisamos
permanecer nos limites da regra de Deus, da Sua
medida. As palavras “que se estende até vós” indicam
que Paulo foi aos coríntios debaixo do regrar e medir
de Deus.
O versículo 14 continua: “Porque não
ultrapassamos os nossos limites como se não
devêssemos chegar até vós, posto que já chegamos até
vós com o evangelho de Cristo”. Em contraste com os
mestres judaizantes, Paulo e os outros apóstolos não
ultrapassaram os limites. Eles foram os primeiros a ir
à Europa e, portanto, aos coríntios, com o evangelho.
Se os judaizantes tivessem ido primeiro,
provavelmente os apóstolos não teriam ido e isso
teria sido um sinal de que a Europa não lhes tinha
sido medida sob o regrar de Deus. Isso se relaciona ao
argumento de Paulo ao discutir com os judaizantes.
Nos versículos 15 e 16, Paulo diz: “Não nos
gloriando fora da medida nos trabalhos alheios e
tendo esperança de que, crescendo a vossa fé,
seremos sobremaneira engrandecidos entre vós,
dentro da nossa esfera de ação, a fim de anunciar o
evangelho para além das vossas fronteiras, sem com
isto nos gloriarmos de coisas já realizadas em campo
alheio”. Aqui vemos que os apóstolos tinham a
esperança de que, mediante o crescimento da fé dos
coríntios, o ministério deles fosse engrandecido (no
sentido de ser louvado), ao se expandir e aumentar
abundantemente, contudo ainda de acordo com a
regra, a medida, que Deus lhes havia aquinhoado.
Paulo esperava ser engrandecido entre os coríntios
segundo o limite da medida de Deus.

A RESTRIÇÃO DE DEUS
Nos versículos l3 a 15, vemos que, embora
esperemos que a obra do Senhor se espalhe,
precisamos aprender a estar debaixo da restrição de
Deus. Não espere uma expansão sem medida, pois,
com certeza, não estará no limite de um andar
segundo o Espírito. Pela experiência podemos
testificar que, se propagarmos a obra segundo o
Espírito, haverá sempre um limite. Interiormente
teremos a consciência de que o Senhor tenciona
expandir a obra somente até certo ponto. Além do
mais, exteriormente, no ambiente, o Senhor pode
fazer com que certas coisas restrinjam a expansão da
obra. Por isso, interiormente não temos paz de
expandi-la além de certo ponto, e exteriormente o
ambiente não nos permite ir além do limite.
Os jovens ainda não estão muito dentro da obra
do Senhor. No entanto eu os encorajo a guardar essa
palavra em seu interior, porque um dia eles a
experimentarão. Todos precisamos aprender que, ao
servir o Senhor e ao trabalhar com Deus, sempre há
um limite. Isso também é verdade no serviço da
igreja.
O Senhor está particularmente interessado em
restringir os jovens. Se eles não tiverem desejo de
servir o Senhor, Ele os estimulará a servi-Lo. Mas,
uma vez estimulados, Ele os limitará. A natureza
humana não gosta dessa limitação. Por exemplo,
tanto ao dormir como ao exercer atividades, podemos
não gostar de limitações. Quando, espiritualmente
falando, estamos adormecidos, Deus nos estimula.
Mas quando nos tomamos ativos demais, Ele nos
restringe. Conheço alguns jovens que ficaram
ofendidos porque Ele lhes fez isso. Um jovem pode
querer ser líder entre os demais. Se ele se tornar líder,
talvez queira ser diácono ou presbítero na igreja.
Nessas questões, ele pode pensar que fará progresso
rápido. ~ maneira de Deus, entretanto, é primeiro
apressar-nos e depois diminuir nossa velocidade,
levantar-nos primeiro e depois rebaixar-nos. Quando
estamos lá em baixo, Ele nos levanta, mas quando
estamos muito alto, Ele nos abaixa. Dessa forma, o
modo de Deus lidar conosco é para cima e para baixo,
para baixo e para cima. Se pudermos acatar os
“sobe-e-desce” de Deus, posteriormente seremos
úteis em Sua obra.
Muitos jovens não conseguem tolerar os altos e
baixos de Deus. Depois de alguns altos e baixos, eles
querem desistir. Sua atitude pode ser: “Se Deus me
quer ativo, então que me permita subir ate os céus e
permanecer lá até o Senhor Jesus voltar. Mas se Deus
me quer estático, então que me deixe ficar parado.
Mas não gosto de subir e descer, descer e subir”. Esse
descontentamento com os altos e baixos de Deus
expressa a disposição de muitos jovens.
Deus não quer que estejamos sempre ativos ou
sempre estáticos. Mesmo na natureza, a alternância
de dia e noite testifica disso. Não há um dia ou uma
noite intermináveis. Antes, há a alternância entre dia
e noite, noite e dia. Deus não nos criou para que
tivéssemos um dia ou uma noite que durasse muitos
anos. Isso pode estar de acordo com a nossa maneira,
mas não com a de Deus.

APRENDER A ACATAR A RESTRIÇÃO DO


SENHOR
Deus tem muitas maneiras de nos diminuir.
Alguns jovens têm sido diminuídos pela sua vida
conjugal. Antes de se casar, determinado irmão pode
ter sido como uma águia alçando vôo. Podia
facilmente falar sobre a maravilhosa e gloriosa vida
da igreja. Mas pouco depois de se casar parece que a
vida da igreja já não é gloriosa. Deus usa o seu
casamento para acalmar esse irmão agitado. Em
alguns casos, tal irmão talvez fique inerte por muito
tempo depois do casamento, mas, por fim, é ativado
novamente, embora não da mesma forma empolgada
de antes. Isso é sinal de aperfeiçoamento.
Às vezes Deus usa um dos presbíteros para
abaixá-lo. Se isso acontecer, você deve perceber que é
Deus quem o abaixa, e não o presbítero. Ele o faz por
meio do presbítero. Sem ter qualquer intenção, o
presbítero pode falar algo a você e isso o abaixa. Deus
lida conosco dessa forma porque é um Deus de
medida, que nos aquinhoa certa medida.
Percebo que ser desativado é seno. Alguns
podem ser desativados por tanto tempo que parece
que nunca voltarão à ativa, mas talvez, após um
tempo, sejam novamente ativados. Nenhum de nós
deve ter a presunção de dizer qual será a situação de
outro irmão. Parece que os altos e baixos estão além
do nosso poder ou controle. Sim, não os controlamos
nem temos poder sobre eles. Por isso, todos
precisamos perceber que Deus está no controle e que
isso é a Sua maneira de manter-nos em nossa medida.
Nesse país, a restauração do Senhor expandiu-se
até certo ponto. Ainda assim, parece que há um limite
para sua expansão. Entretanto, isso não quer dizer
que o Senhor irá deter permanentemente a expansão
da restauração. O importante é que, em nosso
conceito, uma vez que a restauração do Senhor
comece a se espalhar, deve espalhar-se mais e mais
sem restrições. Contudo, esse não é o conceito de
Deus.
Não devemos pensar que Paulo era tão espiritual
que fosse totalmente diferente de nós. Até mesmo ele
tinha de aprender a acatar a restrição do Senhor. Por
exemplo, ele queria ir a Roma, mas não esperava ir lá
em cadeias. Além disso, disse aos crentes em Roma
que esperava ir à Espanha encaminhado por eles (Rm
15:24). Ele nunca foi à Espanha e chegou a Roma em
cadeias. As cadeias eram a medida do Senhor, Sua
limitação. Deus não lhe mediu Roma de maneira
livre; pelo contrário, Ele o levou lá como prisioneiro.
Sim, Paulo esteve em Roma, mas em prisão. Essa
prisão era uma restrição. Roma não era território de
Paulo de forma irrestrita. Deus é soberano e tudo o
que aconteceu a Paulo estava debaixo da soberania de
Deus. Isso quer dizer que as cadeias e a prisão de
Paulo eram a restrição soberana de Deus. Paulo
estava disposto a sujeitar-se ao medir de Deus. Ele
não transgrediu essa restrição nem se rebelou contra
ela. Nesse ponto, ele não recalcitrou contra os
aguilhões.
AGIR EM SUA JURISDIÇÃO
Com base nesse princípio de medir de Deus,
Paulo disse aos coríntios que tudo o que fazia e falava
não ultrapassava sua medida. Ele sempre agia e se
conduzia na sua medida. Para usar a terminologia
atual, ele agia em sua “jurisdição”. Em contraste com
os judaizantes, ele nunca ultrapassou sua jurisdição.
Nos versículos 13 a 15, Paulo parece dizer:
“Coríntios, como igreja vocês sofreram muito por
causa da vinda dos pregadores judaizantes. Embora
cristãos, eles não estão dispostos a desistir do
judaísmo. Por um lado, pregam Cristo; por outro,
ainda ensinam a lei mosaica. Por isso, causam
problemas e prejudicam a vida da igreja. Vocês,
coríntios, foram influenciados por eles. Portanto,
precisam perceber que eles nunca deveriam ter ido a
Corinto. Deus não lhes mediu a cidade de Corinto, ela
não está na jurisdição deles. Para ser honesto,
Corinto é minha jurisdição, meu território”. Esse é o
conceito de Paulo nesses versículos. Contudo, era-lhe
difícil falar sobre isso de forma direta e franca. Porém
aqui está implícito que ele condenou os judaizantes
por irem a Corinto. Assim, ele parece dizer: “Não
ultrapassamos nossos limites como os judaizantes.
Fomos os primeiros a chegar a vocês com o evangelho
de Cristo. Isso é sinal de que Corinto foi medido para
nós. Chegamos conforme o regrar de Deus. Ele nos
aquinhoou Corinto, e não aos judaizantes. Na
verdade, Deus nada aquinhoou aos judaizantes. Eles
não deviam ir a lugar algum. Sua movimentação é
totalmente ilegal diante de Deus e está fora da
jurisdição apropriada”. Esse é o conceito básico
nesses versículos, e esse foi o sentimento no espírito
de Paulo ao escrever.
Os apóstolos sempre se moviam de acordo com o
regrar de Deus. Tudo o que Deus lhes mediu
tornou-se sua jurisdição, e os outros não devem
interferir nela. Se Deus tivesse aquinhoado certo
território aos judaizantes, os apóstolos não teriam ido
aí porque ao fazer isso teriam ultrapassado suas
fronteiras. Isso é o que Paulo diz aqui.
Hoje muitos pregadores e mestres extrapolam e
interferem na jurisdição de outros. Essa extrapolação
e interferência sempre causa problemas.

PERMANECER DENTRO DA MEDIDA


AQUINHOADA POR DEUS
No serviço da igreja, precisamos perceber que
Deus só nos deu determinada medida, e não devemos
extrapolá-la. Precisamos conhecer nossa limitação,
ou jurisdição, e não ir além dela a ponto de entrar em
território alheio. Como Paulo, devemos trabalhar e
agir de acordo com nossa medida, isto é, segundo
quanto Deus mediu para nós.
Paulo sabia, pelo chamado macedônio que
recebera, que Corinto era sua medida, seu quinhão.
Sabemos por Atos 16 que ele sabia claramente que
Deus o havia chamado à Europa. Ele foi à Acaia com o
evangelho de Cristo de acordo com o regrar de Deus.
Tanto a Macedônia como a Acaia lhe foram medidas.
Assim, os judaizantes não deviam entrar nesse
território para causar problemas. Esse foi um
sentimento profundo em Paulo ao escrever esses
versículos.
Nesta seção de 2 Coríntios, Paulo vindica sua
autoridade apostólica. Essa autoridade está
relacionada com a jurisdição. Se ele não tivesse
jurisdição, qual seria sua autoridade? Ao vindicar sua
autoridade apostólica, Paulo se conduziu de modo a
não ultrapassar as fronteiras de sua medida. Ele é um
bom exemplo de alguém que está plenamente sob a
restrição de Deus.
Encorajo especialmente os jovens a estudar esse
trecho da Palavra e daí aprender a proceder no
serviço da igreja e a trabalhar na restauração do
Senhor. Jovens, vocês precisam conhecer sua medida,
seu limite. Isso quer dizer que precisam conhecer o
quanto Deus mediu para vocês, o quanto Ele lhes
aquinhoou. Essa restrição, ou limitação, lida muito
praticamente com a carne. Nosso homem natural
quer ficar sem limitações. Todavia, Deus conhece
nosso problema. Por isso, Ele estabelece fronteiras e
restrições, para que permaneçamos na medida que
Ele nos aquinhoou.
ESTUDO-VIDA DE SEGUNDA CORÍNTIOS

MENSAGEM CINQÜENTA E DOIS

PAULO VINDICA SUA AUTORIDADE APOSTÓLICA (3)

Leitura Bíblica: 2Co 11:1-15


Como o livro de 1 Coríntios indica, houve muitos
problemas entre os coríntios, mas, por meio da
primeira Epístola que Paulo lhes escreveu, muitos
foram conduzidos de volta ao Senhor. Eles
experimentaram uma reconciliação adicional com
Deus. Talvez alguns até foram levados de volta a Deus
de modo pleno. Mas, embora muitos problemas
tivessem sido resolvidos, um ainda permanecia: a
questão do apostolado de Paulo. A coisa mais sutil
numa igreja é ter dúvidas acerca dos apóstolos, dos
que ministram Cristo às igrejas.
Paulo deixou esse assunto por último porque
uma condição necessária para lidar com ele era lidar
primeiro com os demais. Se os santos ainda tivessem
muitos problemas e a situação entre eles não tivesse
sido acalmada, não seria adequado Paulo falar sobre
seu apostolado. Não teria sido a hora adequada de
vindicar sua autoridade apostólica. Contudo, desde
que pelo menos a maioria dos coríntios se acalmou e
os problemas entre eles foram resolvidos, ele
percebeu que era o momento adequado de lidar com
o último problema, o problema que eles tinham com
respeito ao seu apostolado. O último problema na
igreja numa cidade é sempre com os que ministram,
os apóstolos.
Visto que, para qualquer pessoa, é difícil vindicar
a si mesmo, Paulo achou difícil vindicar sua
autoridade apostólica. Se ele tivesse vindicado a
autoridade apostólica de Pedro, a questão teria sido
muito mais fácil. É sempre mais fácil falar a favor de
outra pessoa do que diretamente a favor de nós
mesmos.
Nos capítulos dez a treze, Paulo desempenha a
difícil tarefa de vindicar seu apostolado e desse modo
resolver o último problema que existia na igreja em
Corinto. Se esse problema não fosse resolvido, a
igreja em Corinto ainda estaria enferma. Qualquer
igreja que tem problema com respeito aos apóstolos
não está saudável. Uma vez que a igreja em Corinto
tinha problema com Paulo, aquele que ministrava, ela
estava enferma. Portanto, os últimos quatro capítulos
de 2 Coríntios foram escritos com o objetivo de
resolver esse problema. Teria sido muito melhor se
outro, como Timóteo ou Pedro, tivesse feito isso por
Paulo. Entretanto, ninguém poderia substituí-lo em
escrever esses capítulos.

INFLUENCIADOS PELOS ENSINAMENTOS


JUDAIZANTES
Dos capítulos dez a treze, Paulo, na verdade, lida
com o problema causado pelos judaizantes. Isso quer
dizer que ele lida com os próprios judaizantes, que
eram um problema sério. Ao fazê-lo, ele primeiro diz,
no capítulo dez, que as armas da guerra dos apóstolos
não eram carnais, mas poderosas em Deus para
destruir fortalezas. Em outro lugar no mesmo
capítulo dez, ele diz que, enquanto ele permanecia em
seu limite, os judaizantes ultrapassavam o deles.
No capítulo dez, Paulo primeiro indica aos
coríntios que eles tinham sido doutrinados, ou pelo
menos influenciados, pelos ensinamentos
judaizantes. Conforme a sua palavra em 10:5, esses
ensinamentos eram arrazoamentos e altivez que se
levantavam contra o conhecimento de Deus. Tais
pensamentos rebeldes foram injetados nos coríntios e
os tornaram rebeldes. Portanto, havia a necessidade
de uma guerra espiritual para destruir as fortalezas
dos arrazoamentos elevados e levar todo pensamento
cativo à obediência de Cristo.
A fonte dessa rebelião eram os judaizantes. Eles
tinham claramente se excedido. Deus, de acordo com
Sua soberania, não tinha aquinhoado o território da
Acaia aos judaizantes. Na verdade, Deus nada lhes
tinha aquinhoado. Entretanto, ao se exceder, eles
saíram por vontade própria e, como resultado,
interferiram na 'jurisdição” do apóstolo.
Ao vindicar-se contra os judaizantes, Paulo
percebera que não era conveniente mencioná-los
abertamente ao escrever. É por isso que muitos
cristãos têm dificuldades de entender o capítulo dez.
Quando jovem, li esse capítulo muitas vezes sem
entender sobre o que Paulo falava. Nessa época, não
tinha idéia do pano de fundo desse capítulo. Um dia,
conheci a história e o pano de fundo, e isso me
capacitou a conhecer o sentimento de Paulo e tocar o
seu espírito nesse capítulo. Comecei, então, a
entender 2 Coríntios 10 da forma que acabei de
explicar. Agora podemos ver que Paulo escreveu esse
capítulo a fim de lidar com os judaizantes, que
tinham excitado rebelião entre os crentes em Corinto.
Os versículos 4 a 6 de 2 Coríntios 10 não se referem
aos incrédulos, mas aos crentes em Corinto.
Os apóstolos saíram a pregar o evangelho e
ensinar a verdade dentro da medida de Deus e
segundo Seu regrar. Sua atividade de fato era de
Deus. Os judaizantes, então, se excederam e violaram
a jurisdição dos apóstolos. Um excesso assim sempre
traz rebelião. Essa foi a causa da rebelião dos crentes
em Corinto, e foi necessário que Paulo lutasse contra
a altivez e os arrazoamentos rebeldes. No capítulo
dez, ele está, na verdade, envolvido numa guerra
contra essa rebelião. Nesse capítulo, vemos rebelião e
também o exceder da medida adequada.

ALGUMAS PALAVRAS FORTES


Embora fosse categórico no capítulo dez, Paulo é
ainda mais categórico no onze. Em 11:13-15; ele diz
acerca dos judaizantes: “Porque os tais são falsos
apóstolos, obreiros fraudulentos, transformando-se
em apóstolos de Cristo. E não é de admirar; porque o
próprio Satanás se transforma em anjo de luz. Não é
muito, pois, que os seus próprios ministros se
transformem em ministros de justiça; e o fim deles
será conforme as suas obras”. O termo grego
traduzido por transformando-se no versículo 13
também significa amoldando-se. Os falsos apóstolos,
sendo enganadores, moldavam-se segundo a
aparência de verdadeiros apóstolos, que são
verdadeiros de todas as formas.
O versículo 14 indica que Satanás é a origem dos
falsos apóstolos. Eles o seguem no seu engano para
estorvar a economia de Deus. Deus é luz, e Seus anjos
são de luz. Em contraste, Satanás é trevas, e todos os
seus seguidores estão nas trevas. Não há comunhão
entre a luz e as trevas (6:14).
Os ministros da justiça no versículo 15 são os
apóstolos verdadeiros, os que levam a cabo o
ministério de justiça (3:9). O que os ministros de
Satanás fazem é totalmente injusto. Justiça não tem
sociedade com a iniqüidade (6:14).
Em 11:5, Paulo refere-se aos judaizantes como
superapóstolos: “Porque suponho em nada ter sido
inferior a esses tais 14 apóstolos”. Usando o termo
superapóstolos, isto é, apóstolos num grau superior,
ele se refere ironicamente aos falsos apóstolos,
mencionados no versículo 13 e em 12:11. Esses falsos
apóstolos ultrapassam o grau de autenticidade dos
apóstolos. São os judaizantes que foram a Corinto
para pregar outro Jesus com espírito diferente e
evangelho diferente (v. 4).
Os coríntios pensavam que os judaizantes eram
maravilhosos e fariam um ótimo trabalho
ajudando-os. Na verdade, os judaizantes faziam
exatamente a mesma obra de Satanás.
Transformavam-se em ministros de justiça, em
apóstolos de Cristo. Portanto, Paulo usa quatro
termos para descrevê-los: falsos apóstolos, obreiros
fraudulentos, superapóstolos e ministros de Satanás.
Paulo também se refere aos judaizantes no
versículo 4: “Se, na verdade, vindo alguém, prega
outro Jesus que não temos pregado, ou se aceitais
espírito diferente que não tendes recebido, ou
evangelho diferente que não tendes abraçado, a esse,
de boa mente, o tolerais”. Outro Jesus significa outra
pessoa; espírito diferente significa espírito de outra
natureza; evangelho diferente significa evangelho de
outro tipo.
Os judaizantes usaram muitos termos iguais aos
dos apóstolos: Jesus, espírito e evangelho. Afirmando
que eram apóstolos de Cristo, pregaram Jesus e
14
O termo grego dá a idéia de grau superior, super, assim superapôstolos. (N. T.)
ministraram certo tipo de espírito. Ademais,
afirmaram que o que ensinavam era o evangelho.
Entretanto, eles tinham outro Jesus, um espírito
diferente e um evangelho diferente.
Sem dúvida, esses judaizantes eram eloqüentes e
muito cativantes. Tinham muito conhecimento do
Antigo Testamento e também conheciam o evangelho
do Novo Testamento. Mas ao falar deles, Paulo foi
ousado, chamando-os de falsos apóstolos, obreiros
fraudulentos, ministros de Satanás. Ele até lhes deu o
apelido de “superapóstolos”.
No versículo 4, Paulo diz aos coríntios que eles,
de boa mente, toleravam os judaizantes. A palavra
grega para de boa mente também significa
maravilhosamente, idealmente. É usada aqui
ironicamente. No versículo 1, o apóstolo expressa seu
desejo de que os crentes coríntios, que já o
suportavam, o suportassem ainda mais. Agora, nesse
versículo, ele menciona que os coríntios suportavam
maravilhosamente os falsos apóstolos. A idéia de
Paulo é esta: “Já que vocês suportam os falsos
apóstolos tão bem, tã~ maravilhosamente, tão
idealmente, por favor suportem-me mais”. E por isso
que ele usa a palavra se no início do versículo.

OS JUDAIZANTES DE HOJE
Vocês acham que a situação que enfrentamos
hoje é diferente da enfrentada por Paulo? Nossa
sitúação é bem semelhante. Em princípio, hoje há os
judaizantes, como havia na época dos apóstolos.
Quando jovem, eu pensava que a era apostólica
devia ter sido excelente, maravilhosa e excepcional.
Por fim vim a saber que, em princípio, a situação de
então era a mesma que a de hoje. Se entendermos
isso, não ficaremos desapontados quando
encontrarmos oposição. Alguns louvam o Senhor pela
restauração, mas quando pensam a respeito da
oposição, ficam profundamente incomodados.
Encorajo-o a não se aborrecer, porque a situação que
enfrentamos hoje é a mesma, em princípio, que a
enfrentada por Paulo na era apostólica.

LUTAR PARA SUBJUGAR PENSAMENTOS


REBELDES
No capítulo onze de 2 Coríntios, Paulo teve de
lidar com a situação numa igreja que tinha sido
diretamente levantada por ele. Alguns falsos
apóstolos, obreiros fraudulentos, ministros de
Satanás, visitaram a igreja em Corinto e incitaram
rebelião contra Paulo e seu ensinamento. Embora ele
tivesse chegado a Corinto primeiro e tivesse levado
muitos coríntios ao Senhor, mediante sua pregação,
os coríntios ainda aceitaram os falsos apóstolos.
Atos 16 registra como Paulo veio à Macedônia.
Ele pregava na Ásia Menor, região que Deus lhe tinha
medido. Em dada época, sentiu profundamente em
seu interior que devia continuar sua pregação em
outro lugar. Todavia, não sabia o que fazer ou aonde
ir. Talvez pensasse que não devia ir à Europa, mas
permanecer na Ásia. Então teve a visão de um
macedônio dizendo: “Passa à Macedônia e ajuda-nos”
(At 16:9). Depois de refletir sobre esse sonho, Paulo
concluiu que Deus o chamava para ministrar na
Europa. Assim, ele pregou o evangelho em Filipos,
Tessalônica, Atenas e Corinto. Como resultado dessa
pregação, uma igreja foi levantada em Corinto. Pouco
depois, os judaizantes chegaram a Corinto e
causaram problemas.
É difícil crer que os santos em Corinto
aceitassem o ensinamento dos judaizantes. Não
obstante, é um fato que pelo menos alguns deles o
aceitaram e foram instigados, ou pelo menos
influenciados, por eles. Esses ensinamentos fizeram
com que alguns duvidassem do apostolado de Paulo e
se opusessem a ele e ao seu ministério.
Vimos que Paulo tinha ajudado os coríntios a
resolver muitos problemas, mas o problema do
relacionamento entre os crentes em Corinto e o
apóstolo ainda precisava ser resolvido. É claro, nem
todos os coríntios tinham problema com ele; somente
alguns. Mas até mesmo isso tomou necessário que
Paulo devotasse quatro capítulos para lidar com o
problema.
Vimos que Paulo é categórico no capítulo dez e
mais ainda no onze, onde fala de falsos apóstolos,
obreiros fraudulentos, ministros de Satanás e
superapóstolos. Se você fosse um crente em Corinto
que tivesse aceitado o ensinamento dos judaizantes,
aceitaria a palavra de Paulo a respeito dos falsos
apóstolos? É pouco provável. Essa era a razão de
Paulo lutar para subjugar os pensamentos rebeldes
entre os coríntios.

A MANEIRA DE PAULO LUTAR


Vejamos agora a maneira de Paulo lutar contra
os ensinamentos judaizantes. Em 11:1 (IBB-Rev.), ele
diz: “Oxalá me suportásseis um pouco na minha
insensatez. Sim, suportai-me ainda”. O uso da palavra
“insensatez” é uma referência irônica à
autovindicação e ao gloriar-se forçados do apóstolo.
Ele parece dizer aos coríntios: “Por favor,
suportem-me em um pouco de insensatez. Em tudo
que foi mencionado anteriormente, eu fui sábio.
Agora tenciono falar de forma tola. Antes de fazer
isso, peço-lhes que me suportem em um pouco de
insensatez. Não vou gloriar-me, ou falar tolamente,
sem medida. Haverá um limite para o que tenciono
dizer”.
No versículo 2, Paulo continua: “Porque zelo por
vós com zelo de Deus; visto que vos tenho preparado
para vos apresentar como virgem pura a um só
esposo, que é Cristo”. Esse zelo pode ser comparado
ao zelo ou ciúme do marido pela esposa. A palavra
virgem nesse versículo significa ser a noiva para o
Noivo (Jo 3:29), a esposa do Cordeiro (Ap 19:7).
Pela palavra registrada no versículo 2, Satanás é
derrotado e todos os judaizantes são derrubados. Seja
na época de Paulo ou na nossa, os judaizantes nunca
nos ministram algo que nos leve a valorizar o Senhor
Jesus como alguém querido e precioso. Pelo
contrário, o que é ministrado por eles estimula nosso
zelo pela religião. Os judaizantes hoje podem dizer
algo assim: “Esse ensinamento é herético e destrói
nossa religião. É contrário à tradição que herdamos
de nossos pais”. Os judaizantes em todas as gerações
e séculos têm buscado proteger sua religião e
apegar-se à doutrina tradicional.
Os judaizantes que foram a Corinto talvez
dissessem: “Sim, devemos crer em Jesus Cristo, mas
como poderíamos renunciar à lei dada por Deus por
intermédio de Moisés? Esse homem, Paulo, é
herético. Ele destruiu a lei e opõe-se à circuncisão.
Isso significa o fim de nossa religião. Será que Deus
estava errado ao dar a lei? Será que Moisés, Josué,
Samuel, Davi, Elias e os demais profetas estavam
errados? Será que Paulo é a única pessoa certa?
Paulo, que veio a vocês como apóstolo, tem de ser
condenado”. Essa era a maneira como os judaizantes
falavam na época de Paulo, e é a maneira como falam
hoje. Os que se opõem à restauração do Senhor
freqüentemente dizem algo assim: “Vocês acham que
tudo e todos estão errados, exceto vocês? Será que os
seus ensinamentos são os únicos corretos? Vamos
levantar-nos contra a 'igreja local' e derrota-la. Essa
coisa tem de ser aniquilada”.

ESTIMULADOS A AMAR AO SENHOR JESUS


Por ser sábio, Paulo não discutiu com os
judaizantes acerca de doutrina. Em vez disso, ele
disse aos coríntios que zelava por eles com zelo de
Deus. Também disse que os tinha desposado a um
Marido para apresentar uma virgem pura a Cristo.
Que maneira maravilhosa de falar! A palavra de Paulo
no versículo 2 é muito tocante. Toca nosso coração de
maneira profunda e estimula nosso amor pelo Senhor
Jesus. As mensagens de Estudo-Vida sempre tocam
nosso coração da mesma forma. Depois de ler
algumas páginas de uma mensagem, o sentimento
temo pelo Senhor Jesus é estimulado em seu interior
e você percebe novamente, de forma fresca, quão
querido e precioso Ele é. Entretanto, às vezes sua
mente teológica e doutrinária pode ficar perturbada e
levantar dúvidas sobre a Trindade ou sobre Cristo ser
o Espírito. Você pode pensar: “Não será modalismo?”
Pode questionar se o ministério na restauração do
Senhor é digno de confiança. Mas, depois de ler um
trecho de uma mensagem de Estudo-Vida, você
novamente começa a sentir que, como Noivo,?
Senhor Jesus é amável e precioso. Espontaneamente
você dirá: “O Senhor Jesus, querido Noivo, eu Te
amo. Muito obrigado pela Tua palavra, pelo Teu
ministério e pela Tua restauração”. Mas pouco
depois, você pode começar a refletir novamente sobre
as denominações e perguntar: “Será que todas as
denominações estão erradas? É verdade mesmo que
deve haver somente uma igreja em cada cidade? E
quanto aos demais cristãos então?” Os judaizantes
estimulavam dúvidas, mas o verdadeiro ministério
estimula nosso amor pelo Senhor Jesus como nosso
Noivo.
Os judaizantes de hoje procuram afastar os
crentes de simplesmente amar ao Senhor Jesus.
Entretanto, devemos afastar-nos da lei mosaica e dos
profetas e focalizar a atenção no Senhor. Precisamos
ver em 11:2 que fomos desposados a um Marido a fim
de ser apresentados como virgem pura a Cristo. Por
isso, devemos dizer: “Nosso querido Senhor Jesus é
nosso único Marido, e eu sou parte de Sua virgem.
Não me importo com doutrina ou teologia. Só me
importo com o ministério que ministra Cristo a mim.
Ele é agradável e querido, a quem eu amo”.
Meu encargo nesta mensagem é plantar
profundamente nos santos a palavra de Paulo do
versículo 2: “Vos apresentar como virgem pura a um
só esposo, que é Cristo”. Vimos que, no capítulo onze,
Paulo tem algumas coisas fortes para dizer sobre os
judaizantes, os falsos apóstolos. Mas antes de proferir
tais palavras, ele lembra aos crentes em Corinto que
os tinha desposado a um Marido, não como
estudantes de teologia, mas para apresentá-los como
virgem a Cristo.

SINGELEZA E PUREZA PARA COM CRISTO


No versículo 3, Paulo prossegue: “Mas receio
que, assim como a serpente enganou a Eva com a sua
astúcia, assim também seja corrompida a vossa
mente e se aparte da simplicidade e pureza devidas a
Cristo”. O termo grego traduzido por simplicidade
também pode ser traduzido por singeleza. Refere-se
aqui à lealdade de coração simples, à fidelidade de
mente simples dos crentes para com Cristo. A
preocupação de Paulo era que os pensamentos dos
crentes em Corinto fossem corrompidos. Eles eram
uma virgem pura para Cristo, mas assim como a
serpente enganou Eva, também seus pensamentos
poderiam ser corrompidos e deixar de ser singelos e
puros para com Cristo. De fato, alguns dos coríntios
já tinham sido corrompidos dessa forma. Assim,
Paulo aqui parece dizer: “Queridos coríntios, minha
preocupação é que vocês mantenham sua singeleza e
pureza para com Cristo. Esqueçam-se dos
ensinamentos e religião judaizantes e sejam singelos
para com Cristo. Cristo é o seu querido Noivo, e vocês
precisam simplesmente amá-Lo”.
O objetivo da restauração do Senhor não é
restaurar doutrinas ou teologia; é restaurar o próprio
Cristo como o único Marido para que O amemos.
Devemos pertencer somente a Ele. Desde que
sejamos conduzidos como virgem pura a esse Marido
e O amemos e apreciemos, e pertençamos a Ele,
seremos preservados. Isso nos irá guardar, santificar,
saturar e transformar. Como veremos, nos últimos
quatro capítulos dessa Epístola, não há nada
doutrinário ou teológico. O que temos aí é uma
Pessoa amável, o Marido único e universal. Todos
fomos apresentados como virgens puras a Ele. Somos
para Ele e devemos ser atraídos por Ele, amando-O,
apreciando-O e valorizando-O. Isso nos preservará e
ajudará a ser santificados e transformados.
A restauração do Senhor não é questão de
teologia, tradição, religião ou prática. Antes, é
questão de uma Pessoa viva, o Senhor Jesus Cristo
como nosso Noivo. Ele nos atraiu e fomos
apresentados como virgem pura a Ele. Agora
devemos importar-nos apenas com Ele, amá-Lo e não
permitir que ninguém O substitua em nosso coração.
Além do mais, o nosso amor por Ele deve ser puro,
nossa mente deve ser singela, e todo o nosso ser deve
focalizar-se Nele. Isso nos irá preservar, santificar,
saturar e transformar. Louvado seja o Senhor, essa é a
Sua restauração!
ESTUDO-VIDA DE SEGUNDA CORÍNTIOS

MENSAGEM CINQÜENTA E TRÊS

PAULO VINDICA SUA AUTORIDADE APOSTÓLICA (4)

Leitura Bíblica: 2Co 11:1-15


Em 11:3, Paulo diz: “Mas receio que, assim como
a serpente enganou a Eva com sua astúcia, assim
também seja corrompida a vossa mente, e se apartem
da simplicidade e pureza devidas a Cristo”. Aqui o
apóstolo indica que os ensinamentos dos judaizantes
podem ser comparados às palavras enganosas
proferidas pela serpente a Eva em Gênesis 3. Em
outras palavras, Paulo compara as atividades dos
judaizantes à obra da serpente sobre Eva. Pela leitura
de Gênesis 3, sabemos que a serpente desviou Eva do
desfrute da árvore da vida. A maneira de fazer isso foi
chamar sua atenção para outra árvore, a árvore do
conhecimento do bem e do mal, que resulta em
morte.

DUAS ÁRVORES
Já enfatizamos muitas vezes que a árvore da vida
é simples. Nela há apenas um elemento: vida. A
árvore da vida resulta em vida. A árvore do
conhecimento do bem e do mal, pelo contrário, é
complicada e também complicadora. Com essa
árvore, temos bem, mal, conhecimento e morte.
A Bíblia como um todo é um desenvolvimento
dessas duas árvores. A árvore da vida representa
Deus em Cristo como o Espírito a fim de ser vida para
nós. A árvore do conhecimento do bem e do mal
representa Satanás como morte. Satanás é o poder da
morte. A árvore do conhecimento do bem e do mal,
que representa Satanás como morte, inclui
conhecimento, bem e mal. A serpente desviou Eva da
árvore da vida por meio da árvore do conhecimento
do bem e do mal com as suas complicações. Uma vez
distraída e apanhada, Eva perdeu sua singeleza e
pureza para com Deus. O resultado foi que ela caiu e a
morte entrou por intermédio da queda. Essa é a
história de como a serpente desviou Eva da economia
de Deus.

SATANÁS E OS JUDAIZANTES
Em 2 Coríntios 11, Paulo aplica aos judaizantes e
à igreja em Corinto o que a serpente fez a Eva. Creio
que, bem no fundo de seu espírito, ele percebeu que
essas duas questões eram na verdade uma só, e o que
aconteceu em Corinto era uma repetição do que
aconteceu no jardim do Éden. Eva era uma esposa, e
a igreja em Corinto era uma virgem pura, prometida a
um esposo, Cristo. Por esse motivo, em 11:2, Paulo
diz: “Porque zelo por vós com zelo de Deus; visto que
vos tenho preparado para vos apresentar como
virgem pura a um só esposo, que é Cristo”. Além do
mais, a esposa no jardim do Éden foi distraída pela
serpente sutil. Em Corinto, a virgem foi distraída por
Satanás por intermédio dos judaizantes. Ainda nesse
capítulo, Paulo associa os judaizantes a Satanás:
“Porque os tais são falsos apóstolos, obreiros
fraudulentos, transformando-se em apóstolos de
Cristo. E não é de admirar, porque o próprio Satanás
se transforma em anjo de luz” (vs. 13-14), Paulo aqui
indica que os judaizantes, os falsos apóstolos, são
ministros de Satanás. O versículo 15 diz: “Não é
muito, pois, que os seus próprios ministros se
transformem em ministros de justiça; e o fim deles
será conforme as suas obras”. Dizer que os
judaizantes são ministros de Satanás significa que
eles não ministram Cristo aos outros, antes, o que
ministram é, na verdade, Satanás.
Paulo podia discernir que os judaizantes tinham
outro Jesus, um espírito diferente e um evangelho
diferente. No versículo 4, ele diz aos coríntios: “Se, na
verdade, vindo alguém, prega outro Jesus que não
temos pregado, ou se aceitais espírito diferente que
não tendes recebido, ou evangelho diferente que não
tendes abraçado, a esse, de boa mente, o tolerais”. Os
judaizantes afirmavam pregar sobre Jesus.
Entretanto, Paulo discernia que pregavam outro
Jesus, não o Senhor Jesus que ele pregava. Ademais,
afirmavam que tinham um espírito. Talvez
afirmassem que esse espírito era o Espírito Santo.
Paulo também discerniu que o espírito deles não era o
Espírito Santo. Os judaizantes tinham outro espírito.
Além disso, eles afirmavam que pregavam o
evangelho, mas Paulo declarou que o evangelho deles
era outro.
Quando a serpente veio até Eva, ela não negou
abertamente a palavra de Deus. Antes, disse à
mulher: “É assim que Deus disse: Não comereis de
toda árvore do jardim?” (Gn 3:1). Aqui vemos que a
serpente perguntou: “É assim que Deus disse?” Essa
pergunta parece, por um lado, reconhecer o que Deus
disse. Por outro, solapa a palavra de Deus. Ao fazer
essa pergunta, a serpente injetou veneno em Eva para
solapar o falar de Deus.
Era difícil aos crentes coríntios discernir a
diferença entre o Jesus pregado por Paulo e o
pregado pelos judaizantes. O nome era o mesmo, mas
ainda havia necessidade de discernimento. O mesmo
ocorria com o evangelho. Paulo foi aos coríntios com
o evangelho. Os judaizantes também afirmavam
pregar o evangelho, mas Paulo pôde discernir que o
evangelho pregado por eles era diferente do que os
apóstolos pregavam. Não era o mesmo evangelho
pregado por Paulo.
Em princípio, nossa situação hoje é semelhante à
dos coríntios. A terminologia, as definições e os
títulos de diversas questões podem ser os mesmos,
mas se exercitarmos discernimento adequado, vamos
perceber que na verdade não são os mesmos.

SEPARADOS DO DESFRUTE DE DEUS


Gostaria de enfatizar algo importante
relacionado com o evangelho autêntico, o espírito
sincero e o verdadeiro Jesus. Sempre que houver a
pregação do verdadeiro evangelho e do verdadeiro
Jesus, com um espírito sincero, então o Senhor Jesus
será ministrado aos outros para que O valorizem,
amem, sigam e O tomem como tudo. Através dos
séculos muitos têm pregado pela Bíblia e a ensinado,
entretanto a pregação e ensinamento deles desviaram
os crentes da Pessoa preciosa do Senhor Jesus Cristo.
Em princípio, eles distraem os crentes da mesma
forma que a serpente o fez em Gênesis 3.
O objetivo de Deus é vida. Essa vida,
representada pela árvore da vida, é o próprio Deus
em Cristo como o Espírito. A maneira do inimigo
(Satanás, a serpente) é desviar as pessoas dessa vida.
Ele procura voltá-las para o conhecimento, o bem e o
mal, cujo resultado é morte. Morte é separação do
desfrute de Deus.
A compreensão adequada da morte é que ela
denota separação do desfrute de Deus. Isso quer dizer
que, se não temos o desfrute de Deus, estamos na
morte. De modo semelhante, se formos separados do
desfrute de Deus, morreremos. Isso é revelado de
maneira integral em Romanos 8. Romanos 8:6 diz:
“Porque o pendor da carne dá para a morte, mas o do
Espírito, para a vida e paz”. Nesse versículo, morte é
separação do desfrute de Deus. A vida é o oposto,
porque é o desfrute de Deus. Quando temos o
desfrute de Deus, não há separação entre nós e Deus;
estamos na vida, e a vida opera em nós.
Ao desviar os crentes da árvore da vida, Satanás
procura separar-nos do desfrute de Deus como nossa
vida. Por séculos, a serpente sutil tem usado
ensinamentos para impedir o povo escolhido de Deus
de desfrutá-Lo como sua vida. Na maior parte, esses
ensinamentos estão relacionados com o
conhecimento, o bem e o mal. Mas esses
ensinamentos resultam em separação de Deus.
Desde a época dos apóstolos até hoje, tem havido
muitos ensinamentos relacionados com doutrinas,
teologia, religião, práticas, rituais e adoração a Deus.
Ensinamentos como esses estão todos na linha da
árvore do conhecimento. Eles não nos introduzem no
desfrute de Deus. Em vez disso, separam-nos desse
gozo.
Quando os judaizantes iam às igrejas, nos
tempos antigos, eles fingiam ser autênticos. Podiam
dizer que eram hebreus, israelitas, a descendência de
Abraão. Também afirmavam pregar Cristo e ser Seus
ministros. Além disso, tinham um espírito e diziam
que o que pregavam era o evangelho. Se você
estivesse em Corinto quando. os judaizantes lá
estavam, será que conseguiria diferenciar o
verdadeiro Jesus, o espírito puro e o verdadeiro
evangelho dos falsos? Se estivesse lá, como um dos
coríntios, você poderia ter sido enganado. Não tenha
a certeza de que pode discernir o que Paulo pôde.
No capítulo onze de 2 Coríntios, Paulo foi forte e
ousado, ao dizer que os judaizantes eram falsos
apóstolos, obreiros fraudulentos, ministros de
Satanás. Como não eram apóstolos autênticos, ele os
chamou de “superapóstolos”, os que iam além de suas
medidas e se colocavam em nível superior.
Hoje, pela misericórdia do Senhor, podemos
perceber que Paulo certamente foi o apóstolo mais
proeminente e alcançou o mais elevado nível de
ministério. Não obstante, os judaizantes afirmavam
que eram superiores a ele. Sua atitude era que Paulo
nada era comparado a eles, que era muito menos
instruído do que eles. Há a sugestão, o indício, em 2
Coríntios de que os judaizantes pensavam que
conheciam mais que Paulo. Não é de espantar que
Paulo os tivesse chamado de “superapóstolos”. Isso, é
claro, foi um termo irônico. Ele não usa essa
expressão de forma positiva. Na verdade, os
judaizantes não eram superapóstolos porque nem
mesmo eram apóstolos de verdade.
Você não percebe que, em princípio, a nossa
situação hoje é a mesma daquela na qual Paulo, os
judaizantes e os coríntios estavam envolvidos? Já que
é assim, é importante discernir o autêntico do falso.

O SEGREDO DO DISCERNIMENTO
A melhor maneira de discernir uma questão é
discerni-la de acordo com vida ou morte. Precisamos
fazer perguntas como esta: Esse ensinamento me
ajuda a desfrutar mais o Senhor e a entrar mais na
vida, ou ele faz com que o veneno da morte seja
injetado em mim? Você pode descobrir que, se aceitar
certo ensinamento, ou pregação, absorvendo-o em
seu interior, seu desfrute interior do Senhor é
imediatamente cortado. Algumas coisas funcionam
como isolantes que detêm o fluir da eletricidade
divina. Portanto, precisamos aprender a discernir, a
diferenciar, as questões de acordo com vida e morte.
Suponha que os judaizantes de hoje venham até
você pregando outro Jesus. Você tem certeza de que
consegue discernir entre o Jesus deles e o autêntico, o
pregado por Paulo? Não tenho certeza de que você
teria o discernimento adequado. Mas graças ao
Senhor pelo segredo do verdadeiro discernimento,
que consiste em discernir a pregação ou ensinamento
verificando se ele nos ajuda ou não a desfrutar o
Senhor e a ganhar mais suprimento de vida. Se a
pregação de alguém nos cortar do desfrute do Senhor,
ela tem de ser da serpente, de Satanás. Mas se a
pregação de alguém nos ajuda a desfrutar o Senhor,
ela é de Deus. Portanto, segundo a maneira revelada
em Romanos 8, precisamos discernir de acordo com
morte ou vida. Muitos dos que deixaram a
restauração do Senhor, não têm suprimento de vida
nem desfrute. Isso é uma indicação de que
assimilaram algo que não é do Senhor.
O segredo do discernimento é discernir segundo
vida ou morte. Qualquer ensinamento que faz com
que nosso desfrute do Senhor pare é algo de morte,
não importa quão bom pareça ser. Uma vez que o
ensinamento ou pregação de alguém nos prive do
desfrute do Senhor como nosso suprimento de vida,
então é da serpente. Contudo, o verdadeiro ministério
do Senhor sempre nos fortalece no desfrute Dele
como nosso suprimento de vida.
Não devemos esperar que o número de
judaizantes diminua. Pelo contrário, provavelmente
irá crescer. Toda vez que ouvi-los falar ou ler seus
livros, tenha em mente esse princípio de discernir de
acordo com a vida e a morte. Tudo o que cortar você
do desfrute do Senhor é proveniente da serpente. Mas
tudo o que fizer com que seu desfrute do Senhor
aumente é do Espírito e do ministério
neotestamentário.

A ESTRATÉGIA DE SATANÁS
Os versículos 2 e 3 de 2 Coríntios 11 são
extremamente importantes. Esses versículos indicam
que Paulo estava bem cônscio da estratégia de
Satanás. Ele percebera que a estratégia de Satanás é
espalhar um engodo de doutrina a fim de apanhar os
santos, por isso ficou longe desse engodo. Além do
mais, ele se esforçou por manter os santos longe
disso, lembrando-os de que era zeloso deles com zelo
de Deus, e os tinha desposado a um Marido para
apresentá-los como virgem pura a Cristo. Ele disse
aos santos que o Senhor não queria que eles amassem
nada nem ninguém em lugar Dele, mas queria que a
amassem única, singela e inteiramente. No versículo
3, Paulo revela sua preocupação de que os coríntios
não fossem enganados e perdessem sua singeleza e
pureza para com o Senhor. Por esse versículo vemos
que precisamos ser singelos e puros. Não seja
complicado na mente, ou compreensão, por tantos
ensinamentos e “ismos”. Em vez disso, mantenha-se
singelo e puro para desfrutar o Senhor como seu
suprimento de vida.
Em 2 Coríntios 11, Paulo fala de outro Jesus, de
um espírito diferente, um evangelho diferente, falsos
apóstolos, obreiros fraudulentos, Satanás
transformando-se em anjo de luz e os ministros de
Satanás transfigurando-se em ministros de justiça. Se
lermos e orarmos todos esses versículos e tivermos
comunhão sobre eles, vamos receber mais luz e
ganhar mais suprimento de vida.
ESTUDO-VIDA Dl~ SEGUNDA CORÍNTIOS

MENSAGEM CINQÜENTA E QUATRO

PAULO VINDICA SUA AUTORIDADE APOSTÓLICA (5)

Leitura Bíblica: 2Co 11:16-33


Até aqui abordamos três aspectos da vindicação
que Paulo faz de sua autoridade apostólica: ele
guerreava segundo o Espírito, a medida que Deus lhe
estabelecera e ele zelava pelos crentes com zelo de
Cristo com relação aos falsos apóstolos. Nesta
mensagem vamos considerar o quarto aspecto: Paulo
é forçado a gloriar-se. Numa seção bem longa de 2
Coríntios (11:16-12:18), ele vindica sua autoridade
sendo forçado a gloriar-se. Embora não quisesse, foi
necessário gloriar-se.

CONSIDERADO INSENSATO
Em 11:16-33, Paulo não era sábio de forma
natural nem político. Se tivesse sido sábio ou político,
não se teria gloriado. Entretanto, ele estava disposto a
parecer insensato gloriando-se.
Precisamos aprender com Paulo que há horas em
que não devemos ser tão sábios ou políticos. Nossa
polidez natural pode ser uma sabedoria sutil. Em vez
disso, precisamos ser fiéis, honestos e francos, mas ao
fazer isso podemos parecer insensatos aos olhos dos
outros.
Nesses versículos Paulo roga aos coríntios que o
suportem em sua insensatez. Ele lhes pede permissão
para usar de insensatez gloriando-se. No versículo 16,
ele diz: “Outra vez digo: ninguém me considere
insensato; todavia, se o pensais, recebei-me como
insensato, para que também me glorie um pouco”. Ele
parece dizer: “Suportem-me em minha insensatez.
Até agora tenho sido sábio, mas tenho de falar de
forma vigorosa. Antes de fazer isso, peço-lhes que me
suportem em minha insensatez. Estou prestes a
falar-lhes algo de maneira muito franca”. Ele, então,
passa a usar expressões francas e pronunciamentos
severos.
Alguém que usasse de sabedoria nunca falaria
dessa forma. Pelo contrário, seria polido e tentaria
fazer com que os outros se agradassem dele. Nos
capítulos anteriores, Paulo foi sábio, mas aqui ele
parece ser insensato, gloriando-se e usando
expressões irônicas.
Às vezes, a fim de falar a verdade, podemos
precisar parecer insensatos aos outros. Martinho
Lutero fez isso quando declarou ao cristianismo
degradado que a justificação é totalmente pela fé.
Quando fez isso, ele se fez insensato. Todo aquele que
queira manter a posição elevada na hierarquia
religiosa nunca agirá assim.
Como já indicamos, no capítulo onze vemos a
insensatez de Paulo. Ele já usara termos como falsos
apóstolos, obreiros fraudulentos e ministros de
Satanás. Quando lemos tais expressões, todos
ficamos do lado dele. Todavia, quando ele escreveu
essa Epístola, não foi fácil usar esses termos. Se você
fosse Paulo, teria tido a ousadia de escrever tal
Epístola? Provavelmente a maioria de nós nunca
escreveria dessa forma. Poderíamos ter falado
cortesmente a respeito dos judaizantes, mas não
teríamos a ousadia de usar termos como falsos
apóstolos, obreiros fraudulentos ou ministros de
Satanás. Mas como Paulo estava disposto a parecer
insensato, ele teve a ousadia de falar dessa forma.
Você não diria que o versículo 16 é o escrito de
alguém insensato? Primeiro Paulo diz: “Ninguém me
considere insensato”. Ele, então, prossegue:
“Todavia, se o pensais, recebei-me como insensato,
para que também me glorie um pouco”. O que você
pensaria se alguém viesse à sua cidade e falasse dessa
forma? Você não o consideraria alguém muito tolo?
Uma pessoa sábia certamente falaria de forma
diferente.
Nos versículos 17 e 18, Paulo continua: “O que
falo, não o falo segundo o Senhor e sim como por
loucura, nesta confiança de gloriar-me. E, posto que
muitos se gloriam segundo a carne, também eu me
gloriarei”. Você não diria que ele parece fora de si
quando declara que vai falar algo em desacordo com o
Senhor? Podemos pensar que, se ele não falasse de
acordo com o Senhor, deveria ficar em silêncio. Como
podia um apóstolo falar algo que não está de acordo
com o Senhor? Entretanto, ele proferiu tal palavra. Se
estivéssemos presentes naquela época, poderíamos
tê-lo advertido a não escrever dessa forma.
Que Paulo quer dizer com “nesta confiança” no
versículo 17? A frase parece relacionar-se com o fato
de Paulo fazer-se de insensato, fora de si. Se ele não
tivesse tal confiança, por certo não poderia gloriar-se;
senão, procederia como uma pessoa muito culta e não
se gloriaria de modo algum. Alguém que tem certeza
de que não está fora de si nunca se gloriaria da forma
que ele se gloriou em 2 Coríntios 11.
Depois de proferir uma palavra irônica aos
coríntios sobre de “boa mente tolerar os insensatos”
(v. 19), Paulo diz no versículo 20: “Tolerais quem vos
escravize, quem vos devore, quem vos detenha, quem
se exalte, quem vos esbofeteie no rosto”. Ele aqui
parece dizer: “Se vocês de boa mente toleram tudo
isso, será que não poderiam tolerar-me, alguém
insensato e fora de si?”

UMA COMPARAÇÃO ENTRE PAULO E OS


JUDAIZANTES
No versículo 21, Paulo diz, também
ironicamente: “Ingloriamente o confesso, como se
fôramos fracos. Mas, naquilo em que qualquer tem
ousadia, com insensatez o afirmo, também eu a
tenho”. Ele aqui parece dizer: “Dispenso minha
posição, minha honra e minha glória. Falo em
desonra. Não me importo. com o que vocês pensam a
meu respeito. Falo como se estivesse fraco”. Ele,
então, passa a comparar-se com os judaizantes,
dizendo que também ele é hebreu, israelita, da
descendência de Abraão e ministro de Cristo.
Nesses versículos, temos uma comparação entre
Paulo e os judaizantes. No versículo 23, ele fala de
trabalhos muito mais, prisões muito mais, açoites
sem medida e perigos de morte muitas vezes. Nos
versículos 24 e 25, diz: “Cinco vezes recebi dos judeus
uma quarentena de açoites menos um; fui três vezes
fustigado com varas; uma vez, apedrejado; em
naufrágio, três vezes; uma noite e um dia passei na
voragem do mar”. Os açoites no versículo 24 foram
dos judeus, e as varas no versículo 25 foram usadas
pelos romanos (At 16:22-23; 22:25). Além do
naufrágio em Melita (universalmente reconhecida
como Malta), Paulo sofreu naufrágio três vezes,
nenhum dos quais está relatado em Atos. Os
judaizantes, é claro, não sofreram quaisquer dessas
coisas. Não há comparação entre eles e Paulo em
questões como essas.
O versículo 26 diz: “Em jornadas, muitas vezes;
em perigos de rios, em perigos de salteadores, em
perigos entre patrícios, em perigos entre gentios, em
perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos
no mar, em perigos entre falsos irmãos”. Os rios aqui
são aqueles sujeitos a mudanças violentas e súbitas,
ao repentino aumento do volume de correntes que
descem de montanhas, ou à súbita enchente de leitos
secos de rio. Os salteadores mencionados nesse
versículo eram de tribos que habitavam as montanhas
entre o planalto da Ásia Menor e o litoral, tribos
famosas por assaltos. Os falsos irmãos mencionados
no versículo 26 referem-se principalmente aos
cristãos judaizantes.
O versículo 27 continua: “Em trabalhos e fadigas,
em vigílias, muitas vezes; em fome e sede, em jejuns,
muitas vezes; em frio e nudez”. Já que jejuns são
citados com fadigas, devem referir-se ao jejum
forçado por falta de alimento. Assim, diferem de
fome. Fome pode referir-se à situação na qual não há
como obter comida, e jejum forçado a uma situação
de pobreza. O frio era por causa do tempo e das vestes
insuficientes; a nudez refere-se a vestes insuficientes
ou nudez devida a flagelos ou naufrágios.
No versículo 28, Paulo diz: “Além das coisas
exteriores, há o que pesa sobre mim diariamente, a
preocupação com todas as igrejas”. Nesse versículo, a
palavra grega traduzida por o que pesa, literalmente
significa uma multidão. Denota a multidão de
cuidados que pesava sobre Paulo. Isso se refere ao
cuidado ansioso por todas as igrejas. O vocábulo
exteriores pode ser traduzido por omitidas, e são
coisas não mencionadas nos versículos 23 a 27.
Nos versículos 23 a 28, quase trinta questões são
abordadas. Em somente duas há, na verdade, uma
comparação entre Paulo e os judaizantes: trabalhos e
prisões. Os judaizantes trabalhavam e às vezes eram
presos, mas Paulo estava em trabalhos muito mais e
em prisões muito mais. Além disso, os judaizantes
não tinham nenhum dos outros itens. Eles
certamente não tinham qualquer preocupação com as
igrejas, mas os apóstolos, principalmente Paulo,
diariamente tinham um cuidado ansioso por todas as
igrejas.
No versículo 29, Paulo prossegue: “Quem
enfraquece, que também eu não enfraqueça? Quem se
escandaliza, que eu não me inflame?” O termo
“inflamar-se” significa inflamar-se em pesar e
indignação pela causa do tropeço.
No versículo 30, Paulo continua: “Se tenho de
gloriar-me, gloriar-me-ei no que diz respeito à minha
fraqueza”. Paulo aqui se refere aos seus sofrimentos e
fadigas, que o faziam parecer fraco, medíocre e
desprezível aos olhos de seus adversários. Ele foi
certificado como verdadeiro apóstolo por essas
coisas, e não pela força da qual seus adversários se
gabavam.
Os sofrimentos de Paulo fizeram-no parecer
fraco aos olhos dos outros. Um homem forte pode
fazer muitas coisas para eliminar o sofrimento ou
reduzi-lo. Paulo, entretanto, nada pôde fazer quanto
aos seus sofrimentos. O fato de não poder reduzi-los
indica que ele era fraco. Por isso, aos olhos dos
opositores, ele era uma pessoa fraca e digna de pena.
Nos tempos antigos, bem como hoje, havia o
conceito de que uma pessoa que é abençoada por
Deus não deve ter sofrimento. Os adversários de
Paulo pensavam que se ele de fato fosse de Deus,
seria abençoado por Deus e não sofreria.
Consideravam os sofrimentos dele como sinal de que
ele não era de Deus ou não estava sob a bênção
divina. O conceito de Paulo era diferente. Ele aqui
parece dizer aos judaizantes: “Se vocês fossem de fato
de Deus, Ele permitiria que vocês sofressem muito.
Um verdadeiro ministro de Cristo é alguém que
sofre”. Muitos cristãos hoje têm o conceito de que se
alguém é rico, próspero e afortunado, ele é um fiel
servo de Deus e é abençoado por Ele. Também têm o
conceito de que os que têm de passar por sofrimentos
e fadigas não estão sob a bênção de Deus.
Nos versículos 31 a 33, Paulo conclui: “O Deus e
Pai do Senhor Jesus, que é eternamente bendito, sabe
que não minto. Em Damasco, o governador preposto
do rei Aretas montou guarda na cidade dos
damascenos, para me prender; mas, num grande
cesto, me desceram por uma janela da muralha
abaixo, e assim me livrei das suas mãos”. Se vocês
fossem Paulo, não se sentiriam envergonhados de
escapar dessa maneira? Alguns podem perguntar:
“Por que era necessário que um embaixador de Cristo
escapasse num cesto? Por que ele não proclamou a
vitória de Jesus e o encabeçamento do Rei dos reis
sobre esse governante? Não há necessidade de
escapar num cesto por uma j anela. Esse homem não
pode ser um escolhido de Deus, pois Deus não o
abençoa”.

A MANEIRA DE DEUS
Precisamos compreender por que Paulo escreveu
esses versículos da forma como o fez. Humanamente
falando, ele não tinha glória nem honra. Além disso,
sua maneira de falar nesse capítulo parece ser
insensata. Ele estava num ambiente muito difícil,
sofria muito e até lhe faltava comida. Parece que Deus
não estava com ele e não o honrava. Onde estão os
milagres prometidos em Marcos 16? Parece que o
Senhor não o supria. Ele até permitiu que sofresse
naufrágio e passasse um dia e uma noite na voragem
do mar. Por que Paulo enfatiza coisas que não são
dignas nem de honra nem de glória? A maneira de
Paulo é a maneira divina. Em contraste, o conceito de
muitos cristãos é o oposto da maneira de Deus. O que
Paulo escreve nesse capítulo certamente corresponde
à vida do Senhor Jesus. Quando Ele estava na terra,
sofreu tribulações. Embora fosse o Filho de Deus, Sua
vida não era de prosperidade ou bênção exterior.
Aparentemente, Ele não era abençoado por Deus.
Quando foi crucificado, os judeus escarneceram Dele
e disseram que se fosse de Deus, este O livraria da
cruz. Mas em vez de enviar anjos para salvar o Senhor
Jesus, Deus permitiu-Lhe morrer na cruz. Em
princípio, a experiência de Paulo foi a mesma.
Ao escrever esse capítulo dessa forma, Paulo
deixou claro qual é a maneira de Deus, não só para os
crentes em Corinto, mas para todos os crentes em
Cristo por todos os séculos. A maneira de Deus é vista
nos verdadeiros apóstolos, nos autênticos ministros
da nova aliança, e não nos assim chamados
superapóstolos. Os falsos apóstolos podem ser
prósperos e afortunados e podem não ter de escapar
num cesto, mas os verdadeiros apóstolos
experimentam adversidades e sofrimentos, porque
toda a terra se opõe à economia de Deus. Além disso,
esta não é a era de prosperar e ser afortunado; antes,
é hora de sofrer por causa do Corpo de Cristo. Nas
palavras de Colossenses 1:24, estamos preenchendo o
que resta dos sofrimentos de Cristo por causa do Seu
Corpo, a igreja.
Na cruz, o Senhor Jesus sofreu por causa de
nossa redenção, mas em Sua vida na terra, Ele sofreu
para a edificação do Corpo. Não podemos participar
dos sofrimentos de Cristo para redenção. Seria uma
blasfêmia dizer que podemos participar de tais
sofrimentos, mas precisamos partilhar dos
sofrimentos de Cristo por Seu Corpo. Isso quer dizer
que precisamos seguir Seu caminho, o caminho
estreito. Precisamos trilhar Seus passos e tomar a
cruz. O Senhor Jesus teve uma vida de sofrimentos e
precisamos fazer o mesmo. Isso é preencher o que
resta dos sofrimentos de Cristo para a edificação da
igreja, Seu Corpo.
Os judaizantes não sofriam pelo Corpo de Cristo.
Por isso, Paulo escreveu esse capítulo para deixar
claro quem são os verdadeiros ministros
neotestamentários. Essa questão não é determinada
pela prosperidade do ministro, mas pelo seu
sofrimento.

DOIS SEGREDOS
No capítulo onze, temos dois segredos para
discernir o autêntico do falso: desfrutar o Senhor
como nosso suprimento de vida e sofrer ao segui-Lo.
Por um lado, nós O desfrutamos; por outro, nós O
seguimos para ter uma vida de sofrimentos. O
desfrute e sofrimentos são fatores determinantes
pelos quais podemos discernir o que é autêntico e o
que é falso. Tudo o que nos ajuda a desfrutar o Senhor
e nos fortalece para segui-Lo em Seus sofrimentos é
autêntico. O que não nos encoraja nesses dois pontos,
é falso.
No início do capítulo onze, Paulo fala do Senhor
como nosso querido Marido. Mais no final dele, ele se
refere às igrejas. O primeiro segredo de discernir está
relacionado com o desfrute de Cristo como nosso
Marido; o segundo está relacionado com a
preocupação e o cuidado adequados com todas as
igrejas, uma preocupação que envolve preencher o
que resta dos sofrimentos de Cristo em favor do
Corpo. Essas questões estão um pouco ocultas nesse
longo capítulo. Por isso, precisamos lê-lo
cuidadosamente, senão esses pontos cruciais
passarão despercebidos. Graças ao Senhor por
mostrar-nos que precisamos desfrutá-Lo como nosso
Marido, amando-O com um coração puro e singelo, e
tendo a mente não corrompida pelo enganador.
Também Lhe somos gratos por mostrar-nos que
precisamos seguir Seus passos e estar dispostos a
sofrer o que Ele sofreu para a edificação da igreja, o
Seu Corpo.
ESTUDO-VIDA DE SEGUNDA CORÍNTIOS

MENSAGEM CINQÜENTA E CINCO

PAULO VINDICA SUA AUTORIDADE APOSTÓLICA (6)

Leitura Bíblica: 2Co 12:1-10


Segunda Coríntios 12:1-10 é um trecho excelente
da Palavra, o qual mostra que Paulo era profundo e
também profundamente sábio. Os judaizantes
gabavam-se do quanto conheciam, afirmando ser
mais doutos que ele. Em vez de discutir com eles,
Paulo primeiro se gloriou de suas fraquezas. Agora,
em 12:1-10, ele chega às visões e revelações. A sua
estratégia sábia é derrotar os judaizantes presunçosos
mostrando que, na verdade, eles não tinham qualquer
visão ou revelação. O que eles sabiam era vaidade.

O PROPÓSITO DE PAULO
Creio que o propósito de Paulo ao escrever esses
dez versículos é mostrar aos crentes em Corinto que
ele tinha muito mais conhecimento que os
judaizantes. Ele não tinha apenas o conhecimento da
vida humana na terra mas também de coisas do
Paraíso e até do terceiro céu. Ele não só conhecia
essas coisas mas também tinha uma visão delas. Ele
mencionou isso para que as tolices dos judaizantes
fossem expostas.
Se os coríntios comparassem o que Paulo
conhecia e vira com o conhecimento que os
judaizantes tinham, diriam: “Os judaizantes são
superficiais. Eles têm somente algum conhecimento
do Antigo Testamento acerca da lei mosaica e dos
rituais tradicionais, mas aqui está um homem com
pleno conhecimento da nova aliança. Ele tem
conhecimento da vida humana e das coisas do
Paraíso e do terceiro céu”.

O GLORIAR-SE DE PAULO
Eu diria que em 12:1-10, temos o principal
gloriar-se de Paulo. Afora o Senhor Jesus, será que
houve outra pessoa além de Paulo que viu as coisas do
terceiro céu e do Paraíso? Como Deus, o Senhor Jesus
estava nos céus. Ele, então, tornou-se um homem na
terra, morreu na cruz e foi ao Hades. Assim, passou
pelos céus, pela terra e pela região sob a terra. Paulo,
um homem, nascido na terra, foi até o terceiro céu e
viu o que havia lá. Também foi ao Paraíso e
contemplou ali as coisas sob a terra. Por certo,
nenhum homem na história humana pode ser
comparado ao Senhor Jesus e ao apóstolo Paulo. Que
poderiam os judaizantes falar a respeito disso?
Em 12:1, Paulo diz: “Se é necessário que me
glorie, ainda que não convém, passarei às visões e
revelações do Senhor”. O apóstolo foi forçado a
gloriar-se por causa das tolices dos coríntios. Embora
não fosse conveniente para si mesmo, era necessário
para o benefício deles. Ele tinha de se gloriar para que
eles fossem conduzidos de volta a uma compreensão
sóbria e adequada acerca de seu relacionamento com
o apóstolo, com vistas à edificação deles. A palavra
passarei nesse versículo, significa que ele agora
passaria a gloriar-se das visões e revelações que
recebera do Senhor.
No versículo 1, Paulo fala tanto de visão como de
revelação. Revelação significa remover o véu,
desvendar coisas ocultas. Visão é a cena, o que se vê
depois do desvendar. Muitas coisas sobre a economia
e a administração de Deus no universo estavam
ocultas. O Senhor as revelou, desvendou, ao apóstolo,
e ele recebeu visões dessas coisas ocultas.

UM HOMEM EM CRISTO
Segundo os versículos 2 a 5, Paulo
considerava-se duas pessoas. No versículo 2, ele diz:
“Conheço um homem em Cristo”. Referindo-se a esse
homem em Cristo, ele diz no versículo 5: “De tal coisa
me gloriarei; não, porém, de mim mesmo, salvo nas
minhas fraquezas”. O homem em Cristo no versículo
2 é o apóstolo (v. 7), não como a velha criação, mas
como a nova (5:17). Nessa seção, o apóstolo deseja
gloriar-se da nova criação em Cristo, gloriando-se de
suas fraquezas na carne, a velha criação (vs. 5, 9).
O homem em Cristo mencionado no versículo 2
não era Saulo, mas Paulo. Saulo era o homem natural,
e Paulo é o novo homem em Cristo. Seria bom se
todos tivéssemos dois nomes: um para denotar a
pessoa que éramos antes de ser salvos, o que éramos
em Adão, e o nome da pessoa que agora está em
Cristo. Anteriormente éramos um Saulo, agora somos
um Paulo.
Algum tempo atrás, ouvi um escritor dizer que
havia dois William Laws. O primeiro era um homem
de doutrina, conhecimento, teologia, letras e tradição.
O segundo era uma pessoa do Espírito e no Espírito.
O primeiro nada sabia acerca do Espírito, embora
tivesse muito conhecimento de teologia e tradição.
Um dia, porém, ele teve um novo início e tornou-se
uma pessoa do Espírito. Esse foi o que progrediu com
base nos ensinamentos de certos escritores místicos,
e tornou-os práticos. Podemos dizer que, por fim,
William Law tornou-se um homem em Cristo. Mais
tarde, Andrew Murray foi ajudado pelos escritos dele.
Quando fala de um homem em Cristo, Paulo
refere-se ao seu segundo homem, à sua segunda
pessoa. Ele gloriava-se desse homem, mas não do
velho ego. No versículo 5, o termo mim refere-se ao
velho ego de Paulo, e não ao seu novo ego. Refere-se a
Saulo, e não a Paulo. O novo ego de Paulo estava
totalmente em Cristo. Esse homem em Cristo era uma
nova criação.
Se prestarmos atenção a nós mesmos como
crentes, veremos que também somos duas pessoas.
Por um lado, somos alguém com um velho ego; por
outro, somos alguém com um novo ego. Essa pessoa
está em Cristo e é uma nova criação. Não nos
devemos importar mais com a primeira pessoa.
Antes, devemos seguir a segunda.
O que aconteceu a Paulo, um homem em Cristo,
como está registrado nesses versículos, é misterioso.
Nem mesmo ele era capaz de dizer se estava no corpo
ou fora dele. No versículo 3, ele diz: “E sei que o tal
homem (se no corpo ou fora do corpo, não sei, Deus o
sabe)”. É certo que ele não entrou em transe. Não
devemos pensar que o que está descrito aqui é a
experiência de alguém em transe. O que lhe
aconteceu estava além de sua capacidade de
expressão, porque nem ele mesmo tinha clareza total
a respeito disso.

O PARAÍSO E O TERCEIRO CÉU


De acordo com os versículos 2 e 4, duas coisas
aconteceram com Paulo. Primeiro, ele foi arrebatado
ao terceiro céu; segundo, ele foi arrebatado ao
Paraíso. No versículo 2, Paulo diz: “Conheço um
homem em Cristo que, há catorze anos, foi
arrebatado até ao terceiro céu (se no corpo ou fora do
corpo, não sei, Deus o sabe)”. O termo grego
traduzido por arrebatado aqui é o mesmo usado em
Atos 8:39 e 1 Tessalonicenses 4:17. Literalmente, a
palavra grega traduzida por “até ao” significa “até
dentro do”, isto é, tão longe quanto. As nuvens
visíveis podem ser consideradas o primeiro céu, e o
firmamento, o segundo céu. O terceiro céu deve se
referir ao céu acima dos céus, o mais elevado de todos
(Dt 10:14; Sl 148:4), onde estão o Senhor Jesus e
Deus hoje (Ef 4:10; Hb 4:14; 1:3).
Note que o versículo 2 não diz que Paulo foi
levado para cima, e, sim, que foi arrebatado ao
terceiro céu. Há uma diferença importante entre ser
levado para cima e arrebatado. Em Atos 8:39, Filipe
foi arrebatado pelo Espírito. Ele sabia que estava no
corpo quando foi arrebatado dessa maneira. Paulo,
todavia, não sabia se estava no corpo ou fora dele ao
ser arrebatado ao terceiro céu.
O terceiro céu é uma expressão hebraica que
denota o céu mais elevado. Como já enfatizamos, as
nuvens podem ser consideradas o primeiro céu, e o
firmamento além das nuvens, como o segundo. O
terceiro céu, por isso, tem de ser o céu acima do
firmamento, em termos bíblicos, o céu acima dos
céus. Hoje, o Pai e o Filho, o Senhor Jesus Cristo,
estão nesse céu mais elevado. Paulo foi arrebatado a
esse céu mais elevado.
Nos versículos 3 e 4, Paulo continua: “E sei que o
tal homem (se no corpo ou fora do corpo, não sei,
Deus o sabe) foi arrebatado ao paraíso e ouviu
palavras inefáveis, as quais não é lícito ao homem
referir”. A conjunção e é importante aqui. Indica que
o que é mencionado nos versículos 3 e 4 é outra
questão, além do que foi mencionado no versículo
anterior. O versículo 2 conta-nos que o apóstolo foi
arrebatado ao terceiro céu. Agora os versículos 3 e 4
dizem-nos algo mais, que ele também foi arrebatado a
outro lugar, ao Paraíso. Isso indica veementemente
que o Paraíso não é sinônimo do terceiro céu no
versículo 2. Refere-se a outro lugar, diferente do
terceiro céu.
Muitos intérpretes, ou expositores, da Bíblia
consideram o terceiro céu e o Paraíso o mesmo lugar.
Segundo eles, quando foi arrebatado ao terceiro céu,
Paulo também foi arrebatado ao Paraíso. Contudo, o
Paraíso não é sinônimo de terceiro céu. A conjunção
no início do versículo 3 indica que Paulo descreve
duas experiências distintas. Primeiro, ele foi
arrebatado ao terceiro céu; depois, ao Paraíso.
O Paraíso é a seção agradável do Hades, onde
está o espírito de Abraão e de todos os justos,
aguardando a ressurreição (Lc 16:22-23, 25-26), e
aonde o Senhor Jesus foi após a morte e onde ficou
até a ressurreição (Lc 23:43; At 2:24, 27, 31; Ef 4:9;
Mt 12:40). Esse Paraíso difere do Paraíso em
Apocalipse 2:7, que será a Nova Jerusalém no
milênio. Nessa seção, o apóstolo fala da
transcendência das revelações que recebera. No
universo, há principalmente três seções: os céus, a
terra e o Hades sob a terra (Ef 4:9). Como homem que
vivia na terra, o apóstolo conhecia as coisas da terra,
mas os homens não conhecem as coisas dos céus ou
do Hades. Todavia, o apóstolo foi arrebatado a esses
dois lugares desconhecidos. Assim, ele recebeu visões
e revelações dessas regiões ocultas. Por esse motivo,
ele menciona essas duas partes mais remotas do
universo. Quando o Senhor Jesus morreu, Ele não foi
imediatamente ao terceiro céu. Antes, foi a um lugar
chamado Paraíso. Um dos ladrões disse-Lhe: “Jesus,
lembra-te de mim quando entrares no Teu reino” (Lc
23:42). O Senhor Jesus respondeu: “Em verdade te
digo que hoje estarás Comigo no paraíso” (v. 43).
Além disso, de acordo com Atos capítulo dois, o
Senhor Jesus foi ao Hades depois de morrer (v. 31).
Se colocarmos juntos esses dois trechos da Palavra,
veremos que o Paraíso tem de ser no Hades.
Em Lucas 16 temos um quadro das duas seções
do Hades, a de conforto e a de tormento. Quando
Lázaro morreu, ele foi para a seção de conforto, onde
estava Abraão. Quando o homem rico morreu, ele foi
para a seção de tormento. O Paraíso, portanto, é a
seção confortável, de repouso, do Hades.

UMA VISÃO PLENA DO UNIVERSO


Paulo, o novo homem em Cristo, por um lado foi
arrebatado ao terceiro céu; por outro, foi arrebatado
ao Paraíso, a seção confortável do Hades. Ele tinha
uma visão plena do universo, visto que conheceu as
coisas do céu, debaixo da terra e sobre a terra.
Qualquer pessoa que queira ter visão plena do
universo tem de conhecer essas três seções: o terceiro
céu, a terra e a região sob a terra.
Paulo era uma pessoa instruída a respeito das
coisas sobre a terra. Um dia, o Senhor o arrebatou ao
terceiro céu e permitiu-lhe ver o que havia lá.
Também o arrebatou ao Paraíso para mostrar-lhe o
que lá havia. Com respeito ao Paraíso, Paulo disse que
ouvira coisas “as quais não é lícito ao homem referir”
(2Co 12:4). Assim, ele não tinha liberdade de falar a
respeito delas aos coríntios. Paulo, um novo homem
em Cristo, certamente tinha um conhecimento
completo e uma visão plena de todo o universo.
Comparado com Paulo, os judaizantes eram
como sapos num poço. Não podiam ver nada fora do
círculo do poço do Antigo Testamento e do judaísmo
com seus rituais. Paulo, porém, podia gloriar-se das
visões e revelações do Senhor. Ele podia dizer:
“Coríntios, o Senhor me deu lima visão maravilhosa
de todo o universo. Ele me arrebatou ao terceiro céu e
levou-me ao Paraíso. No Paraíso, ouvi palavras que
não me é permitido falar”. Não é de admirar que ele
se refira à grandeza das revelações que lhe foram
dadas (v. 7). Somente duas pessoas, Jesus e Paulo,
receberam tal visão plena do universo.

REVELAÇÃO SEGUIDA DE SOFRIMENTO


Nos versículos 6 e 7, Paulo prossegue: “Pois, se
eu vier a gloriar-me, não serei néscio, porque direi a
verdade; mas abstenho-me para que ninguém se
preocupe comigo mais do que em mim vê ou de mim
ouve. E, para que não me ensoberbecesse com a
grandeza das revelações, foi-me posto um espinho na
carne, mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a
fim de que não me exalte”. A palavra grega traduzida
por grandeza também significa superabundância,
grandeza extrema, excesso, transcendência. O termo
para espinho é freqüentemente usado no grego
clássico no sentido de estaca ou pau de ponta afiada.
Aqui pode referir-se a um sofrimento físico, como o
problema que Paulo tinha nos olhos. A palavra grega
traduzida por esbofetear significa bater com punho
fechado. E diferente da palavra traduzida por
esmurrar em 1 Coríntios 9:27, que significa bater
abaixo do olho.
O versículo 7 indica que a revelação é sempre
seguida de sofrimento. É muito perigoso para o ser
humano ter uma visão como a que Paulo contemplou.
Mesmo ele corria risco ao tê-la. O perigo é que, depois
de receber essa revelação sobre-excelente, ele poderia
ensoberbecer-se e ficar orgulhoso. Em Sua soberania,
o Senhor, a fim de expandir Paulo e ampliar sua visão
a uma extensão universal, arrebatou-o ao terceiro céu
e também ao Paraíso. O Senhor, porém, também
sabia que havia o perigo de que Paulo fosse
danificado ou prejudicado por isso. Assim, enviou-lhe
um espinho, mensageiro de Satanás, para
esbofeteá-lo e causar-lhe dor. O propósito desse
espinho era humilhar Paulo e mantê-lo humilde.
Aqui vemos que não é simples estar na mão do
Senhor. Às vezes, a mão do Senhor exalta-nos, mas,
depois de nos exaltar, humilha-nos. Como os
judaizantes não estavam na mão do Senhor, para eles
não havia nem exaltação nem humilhação. Antes,
eram como uma planície. A experiência de Paulo,
porém, era cheia de montanhas e vales. Isso quer
dizer que o Senhor o exaltava e depois o humilhava.

EXPERIMENTAR CRISTO COMO GRAÇA E


PODER
Os versículos 8 e 9 dizem: “Por causa disto, três
vezes pedi ao Senhor que o afastasse de mim. Então,
ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder
se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais
me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim
repouse o poder de Cristo”. Sofrimentos e provas
freqüentemente são a ordenação do Senhor para nós,
para que experimentemos Cristo como graça e poder.
Por esse motivo, Ele não quis remover o espinho do
apóstolo, quando ele Lhe rogou.
Paulo deve ter orado assim: “Ó Senhor, remove o
espinho. Livra-me desse mensageiro de Satanás.
Estou sofrendo e já não posso suportá-lo”. O Senhor
respondeu à oração de Paulo, mas não conforme a
maneira dele. De modo semelhante, o Senhor vai
responder nossa oração, mas talvez não segundo a
nossa maneira. O Senhor parecia dizer a Paulo: “Não,
Eu não removerei o espinho. Ele é usado por Mim
para humilhá-lo. Percebo que você sofre e vou dar-lhe
a graça necessária. Paulo, a Minha graça é suficiente
para você. Não Me peça que remova o espinho. Se o
removesse, teria de remover também as visões e
revelações, e não teria como fazer isso senão
removendo você. Paulo, se você não tiver esse
espinho, pode ficar orgulhoso demais e exaltar-se
demasiadamente. Não posso permitir que isso
aconteça. A melhor maneira de mantê-lo humilde é
deixá-lo com o espinho. Mas Eu lhe darei graça e o
sustentarei, para que seja capaz de suportar esse
sofrimento. Também, em sua experiência, a Minha
graça se tornará poder aperfeiçoado na fraqueza. O
espinho expõe sua fraqueza. Sem ele, você não
perceberia quão fraco é. Agora, você precisa que Eu
seja a sua graça. Em sua experiência e desfrute, a
Minha graça se tomará poder armando tabernáculo
sobre você”.
A graça experimentada por Paulo era na verdade
o próprio Senhor Jesus Cristo. Creio que, em sua
experiência, Paulo percebeu que a graça do Senhor se
tomou poder, estendido sobre ele como uma tenda.
Daí, esse “poder-graça” tomou-se habitação para
Paulo em seus sofrimentos. Enquanto sofria, ele
podia habitar no tabernáculo estendido sobre ele.
Esse tabernáculo, essa tenda, o sustentou, susteve,
manteve e guardou.
Para engrandecer a suficiência da graça do
Senhor, são necessários os nossos sofrimentos. Para
manifestar a perfeição do poder do Senhor, nossa
fraqueza é necessária. Assim, o apóstolo de bom
grado se gloriaria em suas fraquezas, para que o
poder de Cristo armasse tabernáculo sobre ele. Graça
é o suprimento, e o poder é a força, a capacidade, da
graça. Ambos são o Cristo ressurreto, que é agora o
Espírito que dá vida habitando em nós (1Co 15:45;
GI2:20) para nosso desfrute.
A palavra grega traduzida por repousar no
versículo 9 é episkenóo, um verbo composto de epi e
skenóo. Skenóo, que significa morar em tenda, é
usado em João 1:14 e Apocalipse 21:3. Episkenóo aqui
quer dizer armar tenda, ou habitação, sobre alguma
coisa. Retrata corno o poder de Cristo, e mesmo o
próprio Cristo, habita sobre nós como uma tenda
estendida sobre nós cobrindo-nos em nossa fraqueza.
'
No versículo 10, Paulo conclui: “Pelo que sinto
prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades,
nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo.
Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte”. A
palavra grega traduzi da por sentir prazer também
significa comprazer-se, como em Mateus 3:17. Injúria
é ser maltratado, e necessidades são restrições,
necessidades urgentes que pressionam muito.
Literalmente, o termo grego para angústias significa
estreiteza de espaço; daí constrição, dificuldades,
angústias. No final do versículo, Paulo fala de ser
fraco e de ser forte. Ele era fraco em seu velho ser,
mas forte no Cristo que o protegia.
O COZINHAR DO SENHOR
O que temos nesses versículos é o Senhor
“cozinhando” Paulo.
Ele o “cozinhou” e fez dele um “prato” delicioso
para que todos o desfrutemos. Por mais de cinqüenta
anos tenho desfrutado o apóstolo Paulo, mas preciso
testificar que nunca o desfrutei tanto como
recentemente. Ele certamente é um delicioso
banquete preparado pelo Senhor Jesus.
Às vezes, ao preparar comida chinesa, ela é
primeiro colocada no fogo e depois na água fria.
Parece que esse processo resulta em melhor sabor.
Isso ilustra como o Senhor lidou com Paulo, como o
“cozinhou”. Primeiro Ele exaltou-o ao terceiro céu,
depois arrebatou-o ao Hades, e em seguida permitiu
que um espinho lhe fosse aplicado. Se eu fosse Paulo,
provavelmente ficaria imaginando o que estava
acontecendo comigo. Eu certamente teria dito ao
Senhor que não era capaz de suportar o espinho. Mas,
como já ressaltei, Paulo foi suprido com a graça
suficiente do Senhor, e ela se tornou poder armando
tabernáculo sobre ele.

TORNAR-SE RICO NA EXPERIÊNCIA DE


CRISTO
Enquanto Paulo refletia sobre as elevadas visões
e maravilhosas revelações, o espinho operava nele
para impedi-lo de se orgulhar e exaltar. Mas, quando
o espinho operava para humilhá-lo, a graça o supria e
sustentava, e o poder o cobria. Essa foi a maneira
maravilhosa de o Senhor “cozinhá-lo”, para fazê-lo
experimentar o Cristo todo-extensivo. Como
conseqüência, Paulo era rico na experiência de Cristo.
Os judaizantes certamente não podiam
comparar-se a Paulo. Quão tolos os coríntios foram
ao se deixar distrair por eles! Os judaizantes não
tinham revelação nem visão. Semelhantemente, não
tinham o espinho, a graça e o poder armando
tabernáculo sobre eles. Eram totalmente destituídos
da experiência de Cristo. Paulo, pelo contrário, tinha
tido visões e recebido revelações. Além disso, o
Senhor lidara com ele mediante o espinho, Desse
modo Paulo o experimentava como graça e poder de
modo muito prático. Por isso, ele era um homem
cheio de visão, de sofrimento, de experiência e de
desfrute do Senhor. O Senhor tornou-se graça para
ele e também o poder que se estendia sobre ele como
tenda.
O que o apóstolo Paulo experimentou é hoje uma
grande carência entre os cristãos. Muitos crentes são
naturais e tradicionais. Como os judaizantes, têm
uma religião velha, tradicional, uma Bíblia em letras
mortas e muitos rituais e regulamentos. Em
princípio, são o mesmo que os judaizantes, até ao
pregar um Jesus que não é totalmente autêntico.
Neles não há visão, revelação, espinho ou graça.
Interpretam a Bíblia de forma natural e seguem
tradições e regulamentos. Não há um poder que arme
tabernáculo sobre eles. Que contraste entre a
experiência de Paulo e a dos judaizantes de hoje!
Não fique desapontado se um espinho chegar até
você após receber uma revelação do Senhor. Visões e
revelações são sempre seguidas de sofrimentos. Não é
necessário que você ore muito acerca do espinho. Ele
não será removido. Pelo contrário, o Senhor
permitirá que ele permaneça, com o objetivo de
introduzir graça para seu desfrute. Essa graça, então,
irá tornar-se sua força diária e até mesmo sua
habitação, um tabernáculo que o cobrirá. Isso vai
enriquecer sua experiência espiritual. Quando
desfrutamos a graça do Senhor e habitamos sob a
cobertura de Seu poder, sempre vamos ter algo para
dizer com respeito a Cristo e a igreja.
ESTUDO-VIDA DE SEGUNDA CORÍNTIOS

MENSAGEM CINQÜENTA E SEIS

PAULO VINDICA SUA AUTORIDADE APOSTÓLICA (7)

Leitura Bíblica: 2Co 12:11-18

UMA PALAVRA PARA TODOS OS CRENTES


O que Paulo aborda em 12:11-18 é negligenciado
por muitos obreiros cristãos hoje. Todos os santos na
restauração do Senhor precisam entender o que esses
versículos revelam, porque eles se aplicam a todos
nós, e não somente aos presbíteros ou cooperadores.
Não devemos pensar que o que Paulo cita aqui nada
tem a ver conosco. O que ele foi, o que fez e como
procedeu constituem um padrão para todos os
crentes, e não só para os líderes. O Novo Testamento
revela que todos os crentes em Cristo devem, como
Paulo, ter um viver para a edificação do Corpo de
Cristo. Isso é revelado enfática, categórica e
definitivamente no livro de Efésios. Conforme
Efésios, cada parte do Corpo tem de ter um viver para
a edificação do Corpo.
Inconsciente e subconscientemente, ainda somos
muito influenciados pelo passado religioso. Estamos
sob o controle, direção e manipulação dos conceitos
tradicionais. Especificamente, por causa dessa
influência, podemos pensar que o que Paulo fala no
capítulo doze está circunscrito aos líderes,
presbíteros, cooperadores, diáconos e diaconisas.
Podemos pensar que, como membros comuns do
Corpo, esse capítulo nada tem a ver conosco. Na
verdade, a palavra de Paulo é para todos nós. Por esse
motivo, é bem difícil para mim dizer quantos
cooperadores tenho. Meu entendimento é que todos
os que se reúnem conosco na restauração do Senhor
são cooperadores. Entretanto, por causa da influência
do passado religioso, podemos pensar que se não
formos apóstolos, presbíteros ou diáconos, a palavra
de Paulo em 12:11-18 não se aplica a nós. Precisamos
ler esses versículos com a percepção de que são
destinados a todos nós. Mesmo os jovens em nosso
meio devem perceber que esses versículos são para
eles. Não somos capazes de predizer por quanto
tempo o Senhor irá usar os jovens e quanto irá usá-los
no futuro. Digo isso como introdução ao considerar o
que é revelado nesses versículos.

FALAR EM BENEFÍCIO DOS OUTROS


No versículo 11, Paulo diz: “Tenho-me tornado
insensato; a isto me constrangestes. Eu devia ter sido
louvado por vós; porquanto em nada fui inferior a
esses tais apóstolos, ainda que nada sou”. Ele aqui diz
que os coríntios o compeliram a tornar-se insensato.
Eles eram os responsáveis por isso. Deviam tê-lo
louvado, mas foram desviados e não o fizeram. Seu
silêncio estava errado. Deviam ter feito algo para
louvá-lo porque não lhe convinha ser obrigado a falar
acerca de si mesmos. Esse, indubitavelmente, era o
sentimento no espírito de Paulo quando escreveu o
versículo 11.
Devemos aprender com esse versículo que há
ocasiões em que precisamos dizer algo a favor dos
presbíteros ou dos que estão no ministério. Se
determinado irmão for o alvo de ataque ou oposição,
ele pode não ser capaz de dizer coisa alguma para
defender-se. Em tal situação, precisamos falar e
defendê-lo. Por exemplo, anos atrás, quando o irmão
Nee foi o alvo, eu fiz algo para vindicá-lo. Os jovens
principalmente precisam aprender a falar a favor de
alguém em tal situação. Devem ser ousados para
falar. Não devem silenciar nem se retrair.
No versículo 11, Paulo foi obrigado a salientar aos
coríntios que em nada era inferior aos
superap6stolos. Certamente não lhe era agradável
dizer isso em seu próprio favor. Não deveria ter sido
necessário que proferisse tal palavra, já que era o alvo
da oposição. Muitos dentre os coríntios poderiam ter
feito isso por ele. Eles deviam ter declarado: “Vocês,
judaizantes, têm de perceber que Paulo não é inferior
a vocês em nenhum aspecto”. Como já enfatizamos,
Paulo recebera visões e revelações grandiosas. Ele
certamente não era inferior aos judaizantes
arrogantes, gabarolas, que exaltavam a si mesmos.
Mas, por causa do silêncio dos coríntios, Paulo foi
obrigado a dizer algo em favor próprio. Ele disse sem
rodeios que em nada era inferior aos judaizantes
jactanciosos.
No versículo 11, Paulo diz que não era inferior
aos superap6stolos, mesmo não sendo nada. É claro,
não é verdade que ele não fosse nada. Ele de fato era
alguma coisa, mas não podia dizer isso sobre si
mesmo. Assim, foi compelido a enfatizar que, mesmo
que nada fosse, não era inferior aos judaizantes.

AS CREDENCIAIS DO APÓSTOLO
No versículo 12, Paulo prossegue: “Pois as
credenciais do apostolado foram apresentadas no
meio de vós, com toda a persistência, por sinais,
prodígios e poderes miraculosos”. Os sinais são
milagres testificadores que forneciam as credenciais
do apostolado, os prodígios são milagres
surpreendentes e estimulantes, e poderes
miraculosos são milagres que demonstram o poder de
Deus.
Creio que a expressão “as credenciais do
apostolado” foi usada pela primeira vez pelos
coríntios, e não por Paulo. Talvez os crentes em
Corinto estivessem discutindo a questão das
credenciais de um apóstolo. Eles podem ter
perguntado a si mesmos quais eram as credenciais de
Paulo como apóstolo. Se não tivessem levantado essa
questão, ele não a teria mencionado aqui.
A expressão “as credenciais do apostolado” pode
soar-nos estranha, mas ela não parecia estranha aos
coríntios; pelo contrário, era-lhes familiar, uma vez
que provavelmente foram eles que a inventaram.
Alguns deles podem ter pensado que os judaizantes
tinham mais dessas credenciais que Paulo. Esse foi o
motivo de, no versículo 12, Paulo falar das credenciais
desse apostolado.
Sobre as credenciais do apóstolo, a primeira
coisa que Paulo menciona é “toda a persistência”. Isso
indica que persistência é a credencial principal de um
apóstolo. Com respeito aos coríntios, ele suportou
difamação. Alguns deles foram tão longe que
disseram que ele era astuto e com dolo tirou
vantagem deles. Ele usa o termo dolo no versículo 16.
Numa nota sobre esse versículo em sua New
Translation, Darby ressalta: “O apóstolo não diz que
fez isso, mas responde a uma acusação de que teria
mantido as aparências, nada tomando para si, mas
sabia como se ressarcir usando Tito a fim de receber
por ele. A acusação era falsa como ele mostra na
seqüência”. Os coríntios diziam que Paulo não viria a
Corinto para tomar dinheiro para si mesmo. Por isso,
enviara Tito para fazer isso por ele e dessa forma o
usara para encobrir-se. É difícil acreditar que alguns
entre os coríntios difamassem Paulo a tal ponto.
Agora podemos compreender por que ele enfatiza a
questão de persistência.
Em 12:12, Paulo parece dizer aos coríntios:
“Vocês me pediram que lhes falasse sobre as
credenciais do meu apostolado. A primeira credencial
é minha persistência. Vocês me têm criticado e
difamado, mas tenho sido capaz de suportar,
persistir”. Ele, então, passa a mencionar sinais,
prodígios e poderes miraculosos. Essas são coisas
miraculosas, mas de acordo com o contexto, embora
falasse dessas coisas, Paulo não as enfatizou. Antes,
ele parece dizer: “Vocês falam sobre milagres como
credenciais do apostolado. Quando eu estava com
vocês, houve muitos sinais, prodígios e poderes
miraculosos. Mas em vez de enfatizá-los, eu primeiro
quero falar da minha persistência”.

NÃO FORAM FEITOS INFERIORES


No versículo 13, Paulo continua: “Porque, em que
tendes vós sido inferiores às demais igrejas, senão
neste fato de não vos ter sido pesado? Perdoai-me
esta injustiça”. A igreja em Corinto não foi tratada
como inferior em relação às demais igrejas ou mais
fraca que elas. Depois de enfatizar isso, ele diz
ironicamente: “Perdoai-me esta injustiça”,
referindo-se a não ser pesado para os crentes.
No versículo 13, Paulo parece dizer: “Na questão
de receber dons, graça e bênçãos de Deus, vocês
coríntios não são inferiores às outras igrejas. Eu os
gerei em Cristo e fiz o melhor que pude para cuidar de
vocês como igreja que de nada carecesse. Não os
tratei de modo inferior ao restante das igrejas. Fiz o
máximo para gerá-los em Cristo, cuidar do seu
crescimento espiritual como igreja e edifica-los. Com
relação à salvação e bênção de Deus, a graça divina e
os dons espirituais, vocês não são inferiores a
nenhuma outra igreja. Em que, então, vocês são
tratados de forma inferior? Somente em que não fui.
pesado a vocês. Não pus fardos sobre vocês.
Perdoem-me essa injustiça!” Era uma vergonha para
os coríntios que Paulo tivesse de falar dessa maneira.
A única coisa que ele deixou de fazer para com eles foi
ser-lhes pesado. Em 11:8, Paulo até diz que despojou
outras igrejas a fim de trabalhar entre os coríntios.
Embora ele trabalhasse para os coríntios, eles nada
lhe deram. Desse modo, sua única injustiça para com
eles foi não colocar fardos sobre eles. O versículo 13
não é uma palavra agradável, mas Paulo, não
obstante, foi ousado em proferi-la.

NÃO INTERESSADO NOS BENS DOS


CORÍNTIOS
O versículo 14 diz: “Eis que, pela terceira vez,
estou pronto a ir ter convosco e não vos serei pesado;
pois não vou atrás dos vossos bens, mas procuro a vós
outros. Não devem os filhos entesourar para os pais,
mas os pais, para os filhos”. Nesse versículo temos
uma palavra muito importante: “Não vou atrás de
vossos bens, mas procuro a vós outros”. Todos
precisamos ficar profundamente impressionados com
essa palavra e não esquecê-la. Sempre que
trabalharmos para o Senhor, não devemos ir atrás do
que pertence aos outros, mas atrás deles mesmos.
Isso quer dizer que não devemos buscar ou querer o
dinheiro dos outros. Paulo pôde dizer ousadamente
aos coríntios: “Vou atrás de vocês mesmos e os quero.
Não vou atrás do que é de vocês: riquezas, bens,
coisas materiais. Vou atrás de vocês mesmos”.
Pelo menos algumas vezes, o irmão Nee ressaltou
para nós que, se alguém que trabalha para o Senhor
não conseguir ser fiel na questão de dinheiro, não
poderá ser fiel ou forte na obra do Senhor. Muitos
obreiros cristãos, quando chegam na questão de
dinheiro, imediatamente enfraquecem. Por temerem
que seu sustento financeiro seja cortado, não ousam
pregar certas coisas, ensinar certas verdades ou
repreender certos pecados. Além disso, não lidam
com certas questões, também porque temem que, se o
fizerem, o sustento financeiro será cortado. Os que
têm esse problema são subjugados pelo dinheiro.
Não pensem que somos os únicos que conhecem
a verdade sobre a igreja revelada na Palavra. Há pelo
menos alguns outros que também a conhecem;
contudo, não ousam praticá-la. Sabem que em cada
cidade deve haver somente uma igreja, mas, temendo
que o seu suprimento financeiro seja cortado, não
estão dispostos a ensinar ou praticar isso.
Preocupo-me que, quando você entra no
verdadeiro ministério para o Senhor e tem de
enfrentar a questão do dinheiro, você não seja ousado
pela verdade. Ser influenciado pelo dinheiro é
realmente um fracasso. É uma vergonha e uma
derrota diante do inimigo. Todos precisamos ganhar
graça para esquecer as preocupações com dinheiro e
ter a ousadia de dizer aos crentes: “Não ando atrás do
que é de vocês, mas de vocês mesmos”.
Nesses versículos, não temos doutrinas, mas
muitas questões práticas. No versículo 14, Paulo diz
que os filhos não devem entesourar para os pais, mas
os pais para os filhos. Aqui vemos novamente que ele
foi franco e honesto. Ele não iria renunciar à sua
posição com relação aos coríntios. Nesse versículo,
ele parece dizer-lhes: “Coríntios, vocês não podem
negar que sou seu pai espiritual. Eu os gerei em Cristo
por intermédio do evangelho e os criei, como filhos.
Como seu pai, não vou atrás do que é de vocês. E uma
vergonha os pais irem atrás do dinheiro dos filhos. Os
filhos não devem entesourar para os pais, mas os pais
para os filhos. Coríntios, não quero receber nada de
vocês, quero é dar-lhes”.

DEIXAR-SE GASTAR
No versículo 15, Paulo prossegue: “Eu de boa
vontade gastarei, e ainda me deixarei gastar em prol
de vossa alma. Se mais vos amo, serei menos amado?”
Nesse versículo, gastar significa gastar o que tem
referindo-se aos seus bens. Deixar-se gastar significa
gastar o que ele é, referindo-se ao seu ser. Ele estava
disposto a sacrificar-se: sua alma, sua vida, todo o seu
ser, pelos crentes. Também estava disposto a dar todo
o seu dinheiro e bens materiais. O Senhor Jesus deu
Sua alma por nós; Ele se gastou totalmente por nos.
De igual modo, o desejo de Paulo era ser totalmente
gasto pelos coríntios. Todos os santos na restauração
do Senhor precisam aprender essa lição decisiva:
receber graça para gastar o que temos e ser
totalmente gastos para os santos e para as igrejas.
No versículo 15, Paulo diz que estava disposto a
se deixar gastar, mesmo que, se amando mais os
crentes, ele, fosse menos amado. Ele ainda estava
disposto a gastar-se pelos coríntios, mesmo se os
amasse mais e eles o amassem menos. Ele não se
importava com a condição deles. A condição deles
não poderia mudar sua atitude para com eles. Ele
aqui parece dizer: “Não importa qual seja sua atitude
para comigo, ainda os amo e estou feliz em gastar o
que tenho e o que sou por vocês”.

PAULO ACUSADO DE ASTÚCIA


O versículo 16 diz: “Pois seja assim, eu não vos
fui pesado; porém, sendo astuto, vos prendi com
dolo”. Como já ressaltamos, é disso que alguns
coríntios o acusavam. Diziam que ele era astuto ao
procurar ganhos, ressarcindo-se ao enviar Tito para
receber a coleta para os santos pobres. A frase “seja
assim” significa deixar de lado o ponto anteriormente
mencionado. Isso é esquecer o passado, deixá-lo para
trás.
Embora Paulo não fosse pesado para os
coríntios, alguns deles diziam que ele era astuto e os
prendera com dolo. Diziam que ele mesmo não viria,
mas usaria Tito como cobertura para ressarcir-se
enquanto se ocultava nos bastidores. Acusavam-no de
ser aquele que de fato coletava o dinheiro por meio de
Tito. No juízo deles, essa era a astúcia dele. Tendo
sido avisado interiormente sobre isso, ele enviou mais
de uma pessoa com Tito para recolher o dinheiro. Ele
fez isso a fim de silenciar as línguas difamatórias.
Entretanto, embora ele agisse cuidadosa e
refletidamente, alguns dos coríntios ainda o
difamavam.
Aprendemos com a experiência de Paulo que,
embora os santos possam ser honestos, Satanás, não
obstante, se interpõe, isto é, se intromete, entre eles.
Satanás usa o dinheiro para danificar a situação entre
os que ofertam e os santos. Entre os coríntios
distraídos, alguns criticavam Paulo dizendo que ele
era astuto nas questões de dinheiro.

ANDAR NO MESMO ESPÍRITO


Nos versículos 17 e 18, Paulo pergunta:
“Porventura, vos explorei por intermédio de algum
daqueles que vos enviei? Roguei a Tito e enviei com
ele outro irmão; porventura, Tito vos explorou?
Acaso, não temos andado no mesmo espírito? Não
seguimos nas mesmas pisadas?” O espírito no
versículo 18 denota nosso espírito regenerado
habitado pelo Espírito Santo. Esse espírito nos deve
governar, controlar, dirigir, regular e guiar em nosso
andar cristão (Rm 8:4). Os apóstolos andam em tal
espírito.
A palavra de Paulo nos versículos 16, 17 e 18
ajudam-nos a entender o que alguns dos coríntios
diziam sobre Paulo e Tito. Eles acusavam Paulo de
enganá-los, lográ-los e tirar vantagem deles enviando
Tito para recolher dinheiro. Certamente não era
agradável para ele escrever a esse respeito. Pode
parecer-nos que palavras como essas não devessem
ser encontradas nos escritos de um santo apóstolo, de
alguém que recebera do Senhor a comissão de um
elevado ministério.
Nesse trecho de 2 Coríntios, Paulo faz uma
cirurgia na igreja em Corinto. Ele a abre e remove as
partes contaminadas. A igreja ali estava tão
gravemente enferma que remédios não podiam
curá-la. Ela só podia ser ajudada por cirurgia. Por
isso, Paulo, um cirurgião espiritual, fez uma cirurgia a
fim de curá-la e restaurá-la. Enquanto o
relacionamento entre os crentes e o apóstolo não
fosse ajustado, a igreja continuaria doente. Portanto,
era necessária uma cirurgia.
Nesse capítulo vemos quão honesto Paulo era
como servo de Deus. De acordo com o título desta
mensagem, temos aqui a vindicação dele quanto à sua
autoridade apostólica. Na verdade, não gosto de usar
a palavra vindicação. Provavelmente, ele não teve
sentimento de que estava a vindicar-se. Pelo
contrário, procurava curar os coríntios, operando-os,
removendo do Corpo toda contaminação.
Creio que esta mensagem pode ser proveitosa
para todos os que têm um coração pela restauração
do Senhor, principalmente os jovens. Por fim, os
jovens estarão na mão do Senhor. Certamente será
necessário que tenham uma compreensão adequada
acerca de dinheiro. Todos precisamos aprender a não
ser gananciosos, mas, em vez disso, gastar o que
temos com os outros, e gastar até a nós mesmos, o
nosso próprio ser. Devemos estar dispostos a
derramar todo o nosso ser — espírito, alma e corpo —
pelo Corpo de Cristo. Então, o que fizermos e formos
será um benefício para o Corpo. Sempre que
tocarmos a obra do Senhor para Seu Corpo,
precisamos ter uma intenção pura e uma atitude
correta. Em vez de buscar o que os outros têm,
devemos buscar somente eles mesmos e desejar
ganhá-las para o Corpo do Senhor e gastar totalmente
o que somos e temos com o Corpo. O Corpo, então,
será curado, e nós seremos preservados.
ESTUDO-VIDA DE SEGUNDA CORÍNTIOS

MENSAGEM CINQÜENTA E SETE

PAULO VINDICA SUA AUTORIDADE APOSTÓLICA (8)

Leitura Bíblica: 2Co 12:19-13:10

FALAR DIANTE DE DEUS EM CRISTO


Em 12:19, Paulo diz: “Há muito, pensais que nos
estamos desculpando convosco. Falamos em Cristo
perante Deus, e tudo, ó amados, para vossa
edificação”. (O termo grego para desculpar-se
também pode ser traduzido por defender-se). Com os
coríntios, podemos pensar que nesses capítulos Paulo
está se defendendo. O título desse grupo de
mensagens até mesmo fala da sua vindicação a
respeito de sua autoridade apostólica.
Aparentemente, nesses capítulos Paulo se vindica,
mas na verdade ele não se vindica nem se defende.
Nesse versículo, Paulo diz que fala perante Deus
e em Cristo. “Em Cristo” denota a vida pela qual os
apóstolos falam; refere-se aos meios e o conteúdo do
seu falar. “Perante Deus” denota a atmosfera na qual
os apóstolos falam, refere-se à esfera do seu falar.
Pode parecer que Paulo não é coerente. Em 11:17,
ele diz que fala não segundo o Senhor, mas
insensatamente. Agora ele diz que fala perante Deus
em Cristo. Não acho que ele iria defender-se da
acusação de ser incoerente. Ou o compreendemos ou
não. Ele sabia o que fazia e dizia. Hoje também somos
acusados de ser incoerentes e contraditórios.
Reflita sobre a situação de Paulo em 2 Coríntios.
Quando ele falava como se fosse insensato, disse que
não falava segundo o Senhor. Em outras palavras,
dizia que sua insensatez, e não o Senhor, era o que o
impelia a falar. Em 12:19, porém, ele diz que fala em
Cristo, por meio de Cristo como sua vida. Também
diz que fala perante Deus, isto é, em Deus como a
esfera do seu falar. Paulo aqui parece dizer: “Não me
defendo; antes, falo por Cristo como minha vida e
perante Deus como minha atmosfera. Além do mais,
falo pelo bem da edificação de vocês. Todas as coisas,
amados, não são para nossa vindicação, mas para a
edificação de vocês. Gostaria de me gastar e ser gasto
totalmente por vocês. O meu interesse não é me
defender, mas importo-me com vocês e com a sua
edificação. Esse é o centro de minha preocupação.
Não tento convencê-los a receber-me como apóstolo.
Minha preocupação é que vocês sejam edificados.
Desde que sejam edificados, ficarei satisfeito. Estou
disposto a dar qualquer coisa por isso”.

UMA LISTA DE COISAS NEGATIVAS


O versículo 20 diz: “Temo, pois, que, indo ter
convosco, não vos encontre na forma em que vos
quero, e que também vós me acheis diferente do que
esperáveis, e que haja entre vós contendas, invejas,
iras, porfias, detrações, intrigas, orgulho e tumultos”.
O desejo de Paulo era que os coríntios estivessem em
Cristo, vivessem Cristo e fossem edificados como o
Corpo. Contudo, ele estava preocupado que, quando
fosse até eles, não os encontraria como desejava.
Além disso, ele percebera que os coríntios poderiam
encontrá-lo não como desejavam, porque talvez fosse
necessário ele ser ousado com eles e os disciplinar.
Desse modo, iria parecer que ele não era terno nem
amável.
No versículo 20, Paulo menciona contendas,
invejas, iras, porfias, detrações, intrigas, orgulho e
tumultos. Todas essas são características de pessoas
que vivem na carne por interesse próprio. A palavra
grega traduzida por contenda também significa
debate, discussão, altercação. De modo semelhante,
a palavra para de trações significa maledicências ou
difamação, e para intrigas significa calúnias ocultas.
Por orgulho Paulo quer dizer arrogância inflada. Em
grego, o termo é análogo a orgulho em 1 Coríntios
4:6. A palavra para tumultos pode também ser
traduzida por alvoroços.
Nesse versículo, Paulo diz aos coríntios: “Se
vocês forem tais pessoas, serei envergonhado quando
voltar para o meio de vocês. Eu tenho servido e
ministrado a vocês. Já lhes escrevi uma epístola. Se
descobrir que vocês estão cheios de contendas,
invejas, iras, porfias, detrações, intrigas, orgulho e
tumultos, serei envergonhado. Deus me humilharia e
eu teria de Lhe pedir misericórdia por causa do
resultado lamentável do meu ministério. Por certo
ficarei envergonhado se essas coisas ainda existirem
entre vocês quando eu for”.
No versículo 21, Paulo continua: “Receio que,
indo outra vez, o meu Deus me humilhe no meio de
vós, e eu venha a chorar por muitos que, outrora,
pecaram e não se arrependeram da impureza,
prostituição e lascívia que cometeram”. Nesse
versículo, não há doutrina nem teologia. O que temos
nesse trecho de 2 Coríntios é algo relacionado com a
prática da vida da igreja. Muitos cristãos hoje não
prestam atenção a esses capítulos porque não sentem
necessidade deles. O motivo disso é que não têm a
vida da igreja, mas esses capítulos são necessários
para os que estão na vida prática da igreja. Somos
gratos ao Senhor porque, sob a Sua misericórdia,
realmente conhecemos a nossa necessidade pelo
conteúdo desses capítulos. Estar consciente de nossa
necessidade é um sinal de que estamos debaixo da
misericórdia do Senhor.
Nos versículos 20 e 21, Paulo menciona onze
coisas negativas: contendas, invejas, iras, porfias,
detrações, intrigas, orgulho, tumultos, impureza,
prostituição e lascívia. Alguns podem imaginar como
é possível que tais coisas sejam encontradas na vida
da igreja. Oh! precisamos despertar e não ficar
sonhando a respeito dessas coisas. Além do mais,
precisamos ponderar sobre nossa própria situação.
Será que em você há alguma calúnia ou crítica?
Talvez, quando certa pessoa se levanta na reunião,
você fale baixinho para si mesmo: “Lá vai ele outra
vez”. Isso não é intriga? Você não tem alguma
contenda ou inveja, alguma ira ou porfia? Acaso pode
dizer que na vida da igreja você não tem discutido
com os outros? Os itens mencionados no versículo 20
podem, até certo ponto, ser pecados refinados, e não
grosseiros. Os que são mais cultos vão criticar os
outros pelas costas. Os que são cultos e refinados não
criticam os outros de forma rude. Pelo contrário,
talvez façam intrigas sobre eles e os difamem.
Ademais, precisamos verificar se somos ou não
orgulhosos. Interiormente, podemos ter um espírito
orgulhoso e demonstrar isso exteriormente na
atitude. Embora seja educado, refinado e culto, você
não consegue ocultar sua atitude arrogante. Com os
pecados mais refinados, relacionados no versículo 20,
Paulo menciona três pecados grosseiros no 21. É
possível que todas essas coisas pecaminosas
penetrem na vida da igreja. Esse era o motivo de
Paulo dizer que temia chegar a Corinto e ver tais
coisas ainda presentes entre os crentes. Isso seria
uma vergonha para ele e seu ministério.
O capítulo doze de 2 Coríntios não tem um final.
Com o falar prático que temos aqui, é difícil haver
conclusão. A questão é deixada aberta para mais
considerações. . Por isso Paulo não dá uma conclusão
ao capítulo doze.

NÃO MAIS POUPAR


Em 13:1, Paulo prossegue: “Esta é a terceira vez
que vou ter convosco. Por boca de duas ou três
testemunhas, toda questão será decidida”. De acordo
com meu conhecimento, ele nunca foi a Corinto pela
terceira vez. Ele esteve em Corinto em Atos 18 e de
novo em Atos 20. Pouco depois disso, foi para
Jerusalém, onde foi preso, e depois foi para Roma.
Portanto, ele não teve chance de ir a Corinto pela
terceira vez.
No versículo 2, Paulo diz: “Já o disse
anteriormente e tomo a dizer, como fiz quando estive
presente pela segunda vez; mas, agora, estando
ausente, o digo aos que, outrora, pecaram e a todos os
mais que, se outra vez for, não os pouparei”. Isso
indica que Paulo tinha tolerado a situação, mas
voltaria pela terceira vez e não a toleraria mais. Ele
não iria poupá-los.

UMA PROVA DE QUE CRISTO FALA EM


PAULO
No versículo 3, Paulo continua: “Posto que
buscais prova de que, em mim, Cristo fala, o qual não
é fraco para convosco; antes, é poderoso em vós”.
Cristo é poderoso nos crentes enquanto fala no
apóstolo. Isso é, de fato, uma prova categórica e
subjetiva para os crentes de que Cristo fala no
apóstolo.
O versículo 3 indica categoricamente o quanto
alguns dos coríntios questionavam acerca de Paulo.
Eles pediam provas de que Cristo falava nele. Sem
dúvida, esse questionamento abriu caminho para os
judaizantes entrar.
É bem difícil entender a resposta de Paulo no
versículo 3. Ele diz que Cristo não é fraco para com os
coríntios, mas poderoso neles. O que ele parece dizer
é: “Coríntios, vocês questionam a prova de que Cristo
fala em mim. Enquanto falo, Cristo não está em
vocês? Quem lhes ministrou Cristo? Foram os
judaizantes? Vocês têm de admitir que fui eu. Se
Cristo não falasse em mim, como poderiam tê-Lo em
vocês por meio de meu ministério? Antes dos
judaizantes virem, vocês já tinham Cristo em seu
interior. Quando cheguei a Corinto, ministrei-lhes
Cristo. Partilhei-O com vocês. É um fato que Ele foi
infundido em vocês por meu intermédio;
especificamente, pelo meu falar. Além do mais, o
Cristo que está em vocês não é fraco para com vocês,
antes, é poderoso. Certamente vocês não diriam que
têm um Cristo fraco. Vocês sabem que Cristo é
poderoso em vocês. Por intermédio de quem
receberam esse Cristo poderoso? Não O receberam
por meio dos judaizantes. Precisam confessar que foi
por meu intermédio que esse Cristo poderoso entrou
em vocês. Não é essa uma prova categórica de que Ele
fala em mim?” Aqui vemos a sabedoria de Paulo em
apanhar os coríntios. Sendo orgulhosos, eles nunca
admitiriam que tinham um Cristo fraco. Ele sabia que
diriam que Cristo neles era poderoso. Isso lhe daria
base para enfatizar que O tinham recebido mediante
o seu falar. Essa era uma prova do falar de Cristo em
Paulo.

FRACO EM CRISTO
No versículo 4, Paulo diz: “Porque, de fato, foi
crucificado em fraqueza; contudo, vive pelo poder de
Deus. Porque nós também somos fracos nele, mas
viveremos, com ele, para vós outros pelo poder de
Deus”. A fraqueza nesse versículo é a do corpo, a
mesma de 10:10. Para Si mesmo Cristo não precisava
ser fraco de nenhum modo, mas, para cumprir a
redenção em favor de nós, Ele estava disposto a ser
fraco em Seu corpo para ser crucificado. Todavia, Ele
agora vive, depois de ter sido ressuscitado pelo poder
de Deus. No versículo 4, Paulo diz que os apóstolos
são fracos em Cristo, mas vivem juntamente com Ele
pelo poder de Deus para com os crentes. Os apóstolos
seguiam o padrão de Cristo, dispostos a ser fracos na
união orgânica com Ele, para viver com Ele uma vida
crucificada. Assim, viveriam com Ele pelo poder de
Deus para com os crentes. Aparentemente, os
apóstolos são fracos para com eles; na verdade, são
poderosos.
Se não tivesse sido fraco, Cristo não poderia ter
sido preso e muito menos pregado na cruz. Somente
alguém que é fraco pode ser crucificado. Para o
cumprimento da redenção, Cristo tomou-se fraco de
propósito, tão fraco que pôde ser preso e crucificado.
Mas agora que a redenção foi cumprida e Cristo foi
ressuscitado, Ele não é mais fraco.
No versículo 4, Paulo salienta aos coríntios que
os apóstolos são fracos em Cristo. Mediante a união
orgânica, eles são um com Cristo para ser fracos. O
propósito de ser fraco dessa maneira é para o bem da
edificação da igreja. Quando os apóstolos foram a
Corinto, não foram em força, mas em fraqueza, com o
objetivo de infundir Cristo nos coríntios, edificá-los é
aperfeiçoá-los, para que fossem edificados como
Corpo de Cristo. Na verdade, os apóstolos não eram
fracos, mas voluntariamente se tomaram fracos e,
segundo o versículo 4, continuaram a ser fracos em
Cristo.
A palavra “nele” no versículo 4 é muito
importante. Provavelmente você nunca ouviu que
podemos ser fracos em Cristo. Nosso conceito é que
estar em Cristo é ser forte, e não fraco. Todavia, nesse
versículo Paulo diz que somos fracos em Cristo. Por
que somos fracos Nele? Somos fracos Nele a fim de
viver uma vida crucificada.
Nesses versículos, Paulo parece dizer: “Queridos
crentes em Corinto, vocês não sabem quanto me
fizeram ser crucificado? Muitos de vocês ainda me
crucificam. Vocês me colocam na cruz quando me
acusam de enganá-los ou de agir com dolo. Nunca fiz
coisa alguma para enganá-los. Fui fraco em Cristo e
continuo a ser fraco Nele para viver uma vida
crucificada”.
No versículo 4, Paulo não só diz que os apóstolos
são fracos em Cristo, mas também que, pelo poder de
Deus, vivem para os crentes e com Cristo. Não
podemos entender plenamente o que ele quer dizer.
Minha compreensão é que ao ir aos coríntios pela
terceira vez, ele lhes dizia que não mais seria fraco
para com eles; pelo contrário, seria poderoso para
punir.

PROVAR A NÓS MESMOS


No versículo 5, Paulo diz aos coríntios:
“Examinai-vos a vós mesmos se realmente estais na
fé; provai-vos a vós mesmos. Ou não reconheceis que
Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais
reprovados”. Examinar é determinar a condição;
provar é qualificar a situação. Paulo aqui diz aos
coríntios que se examinem para ver se estão na fé.
Essa é a fé objetiva (At 6:7; 1Tm 1:19). Se alguém está
na fé objetiva, certamente tem a fé subjetiva crê em
Cristo e em todo o conteúdo da economia
neotestamentária de Deus. Isso é o que o apóstolo
pede aos coríntios que examinem.
Paulo especificamente perguntou aos coríntios se
reconheciam que Jesus Cristo estava neles. Enquanto
um crente percebe que Jesus Cristo está nele, está
qualificado, aprovado como membro autêntico de
Cristo. No versículo 5, a palavra reprovados significa
desqualificados, Paulo aqui diz: “Jesus Cristo está ou
não em vocês? Se não está, então vocês estão
reprovados e não podem passar no teste. Mas se está,
vocês estão qualificados”.
Com base nos fatos implícitos no versículo 5,
Paulo pôde provar aos coríntios quanto se tinham
desviado. Por um lado, percebiam que Cristo estava
neles. Por outro, duvidavam do ministério de Paulo
ou o questionavam. Na verdade, eles é que eram
contraditórios.
No versículo 6, Paulo prossegue: “Mas espero
reconheçais que não somos reprovados”. Com essa
palavra, o apóstolo vira-se para si mesmo e para os
apóstolos, indicando que eles, tendo Cristo vivendo e
falando neles, estão plenamente qualificados e não
desaprovados, principalmente entre os coríntios
problemáticos. O apóstolo fervorosamente esperava
que reconhecessem isso e que não tivessem mais
questionamentos a seu respeito.
Nos versículos 5 e 6, Paulo parece dizer aos
coríntios: “Saibam que não somos reprovados. Alguns
de vocês podem ser reprovados, mas eu estou certo de
que nós não somos. Temos Cristo em nós, e O temos a
falar em nós. Agora peço-lhes que se examinem e
vejam se têm Cristo em vocês. Isso vai determinar se
estão qualificados ou não. Tenho provado a mim
mesmo e tenho certeza de que tenho Cristo em mim, e
Ele fala em mim. Assim, posso passar no teste e ter a
aprovação de Cristo realmente falando em mim”.
O versículo 7 diz: “Estamos orando a Deus para
que não façais mal algum, não para que,
simplesmente, pareçamos aprovados, mas para que
façais o bem, embora sejamos tidos como
reprovados”. Isso indica que o fato de que os crentes
praticam o bem prova a qualificação e o ensinamento
dos apóstolos. Entretanto, o apóstolo não se importa
com isso como posição para exercer sua autoridade
apostólica a fim de discipliná-los. Ele se importa em
que eles pratiquem o bem para que sejam
estabelecidos e edificados.
A palavra mal no versículo 7 refere-se às
questões abordadas em 12:20-21. O fato de que os
coríntios não praticavam o mal significa que não se
envolviam com as onze coisas pecaminosas citadas
nesses versículos. Não era com o propósito de que os
apóstolos fossem aprovados que Paulo orou pelos
coríntios para que não praticassem o mal. Antes,
preferia que os crentes praticassem o bem e os
apóstolos parecessem reprovados.
No versículo 7, Paulo fala ironicamente, e não de
modo direto. O fato de precisar falar dessa maneira
era vergonha para os coríntios. Suponha que alguém
lhe dissesse: “Oro a Deus para que você não pratique
o mal”. Isso não seria agradável, seria? Tal palavra
implica que o que você pratica agora não é bom. Além
disso, suponha que a mesma pessoa também diga:
“Meu motivo de orar para que você não pratique o
mal não é que eu pareça aprovado por Deus ou tenha
um resultado positivo de meu trabalho, e, sim, que
você faça o que é bom”. Por certo, essa maneira de
falar não é agradável, mas foi assim que Paulo se
dirigiu aos coríntios nesse versículo. Ele os encorajou
a se preocupar com eles mesmos, e não com a
situação dele.

EM FAVOR DA VERDADE
No versículo 8, Paulo continua: “Porque nada
podemos contra a verdade, senão em favor da própria
verdade”. A palavra porque, no princípio do versículo,
indica que ele é uma explicação do que é mencionado
no versículo anterior. O que o apóstolo esperava era
que os crentes coríntios fizessem o bem, e não que os
apóstolos parecessem aprovados. Aperfeiçoar os
crentes para praticar o bem é a favor da verdade, mas
se os apóstolos fizessem com que eles mesmos
parecessem aprovados e se defendessem diante dos
crentes (12:19), isso seria contrário à verdade. O
Senhor não os capacitaria a fazer isso. Assim, eles não
eram capazes de fazê-lo.
Ao dizer que os apóstolos não eram capazes de
fazer coisa alguma contra a verdade, mas a favor da
verdade, Paulo dizia aos coríntios que ser pela
verdade é aperfeiçoar os crentes para praticar o bem,
e ser contra a verdade é fazer algo para que nós
mesmos sejamos aprovados. Defender-nos é ser
contrário à verdade. A verdade, no versículo 8,
refere-se à realidade do conteúdo da fé. A
autovindicação é contrária à verdade, e não a favor
dela. Por essa razão, precisamos esquecer quanto a
nos defender e vindicar, e cuidar do aperfeiçoamento
dos crentes. Isso é a favor da verdade.

O APERFEIÇOAMENTO DOS SANTOS


O versículo 9 diz: “Porque nos regozijamos
quando nós estamos fracos e vós, fortes; e isto é o que
pedimos: o vosso aperfeiçoamento”. Fraco aqui é o
mesmo que parecer desaprovado. Quando parecem
desaprovados, os apóstolos são fracos em ministrar
disciplina aos crentes. Quando praticam o bem, os
crentes são poderosos e tornam os apóstolos
impotentes para discipliná-los. Os apóstolos se
regozijam com isso e oram por isso, isto é, pelo
aperfeiçoamento dos crentes.
Literalmente, a palavra traduzi da por
aperfeiçoamento é restauração. Implica reparar,
ajustar, colocar em ordem novamente e consertar,
ligando com perfeição, equipando totalmente,
suprindo de bem, ou seja, aperfeiçoando,
completando, educando. Os apóstolos oram pelos
coríntios para que sejam restaurados, colocados
novamente em ordem e integralmente equipados e
aperfeiçoados para crescer em vida para a edificação
do Corpo de Cristo.

NÃO ATRIBUIR AUTORIDADE A SI


No versículo 10, Paulo conclui essa seção
dizendo: “Portanto, escrevo estas coisas, estando
ausente, para que, estando presente, não venha a usar
de rigor segundo a autoridade que o Senhor me
conferiu para edificação e não para destruir”. Esse
versículo indica que ele não presumia ter autoridade.
Ele nem mesmo admitia defender-se ou vindicar-se.
É claro, há a implicação nesses capítulos de que ele
era um apóstolo. Entretanto, ele não presumia ter o
apostolado com relação aos coríntios. Que, então, ele
fazia nos capítulos dez a treze? Ele procurava
aperfeiçoar os crentes e edifica-los. Nesses capítulos,
ele não se defende, mas aperfeiçoa os santos. Ele não
vindica sua posição como apóstolo ou sua autoridade
apostólica, mas aperfeiçoa os santos. Em outras
palavras, de acordo com o verdadeiro ministério de
Paulo, ele aqui trabalha para reconciliar os crentes
coríntios desviados plenamente de volta para Deus.
Enquanto seu relacionamento com os que lhes
ministravam Cristo não fosse retificado ou ajustado,
os coríntios ainda estariam longe de Deus.
Permaneceriam separados do pleno gozo de Deus. O
que Paulo faz aqui é tentar remover a última
separação entre os crentes e Deus e introduzi-los
totalmente de volta Nele, para ter o pleno desfrute
Dele.
Vimos que o apóstolo Paulo é um padrão para
todos os crentes. No capítulo doze, ele nos conta
como desfruta Cristo ao máximo como sua graça
suficiente, como seu poder e como seu tabernáculo
estendido sobre ele. Quando ele escreveu essa
Epístola aos coríntios, a maioria deles não tinha
entrado em tal desfrute de Cristo. Assim, na última
parte do capítulo doze e na primeira parte do capítulo
treze, ele tenta introduzir os crentes em tal desfrute
de Cristo como sua graça suficiente, sua força diária e
sua habitação protetora. Ele não tem nenhuma
intenção de presumir ter o seu apostolado, exercer
sua autoridade apostólica ou vindicar sua posição
apostólica.

O QUE É UM APÓSTOLO
Quando usa a palavra apóstolo, Paulo quer dizer
uma coisa, mas quando os cristãos a usam hoje,
querem dizer outra. O termo é o mesmo, mas os
dicionários ou léxicos são diferentes. Quando Paulo
se refere a si mesmo como apóstolo, quer dizer
alguém enviado por Deus para ministrar Cristo aos
pecadores, para que eles se tornem filhos de Deus e
membros de Cristo, e então sejam edificados para
crescer e se tornar o Corpo de Cristo. Essa é a
compreensão de Paulo do que é um apóstolo: Ele não
usa essa palavra com a conotação de que um apóstolo
é alguém poderoso autorizado por Cristo para
controlar e dominar. Não, nele não há tal conceito de
apostolado. Esse conceito é totalmente abominável.
Contudo, quando muitos usam a palavra apóstolo
hoje, têm em mente alguém como um papa ou pelo
menos um arcebispo. Alguns até têm esse conceito
sobre a palavra presbítero. Daí, dão às palavras
apóstolo e presbítero uma conotação muito
desagradável e repulsiva. Nossa compreensão desses
termos tem de ser bíblica, isto é, segundo a pura
Palavra de Deus, e não de acordo com a tradição
religiosa.
Quero testificar que nunca presumi ser um
“apóstolo”. Definitivamente não sou um apóstolo no
sentido de ser alguém que presume ter autoridade e
posição para governar. Mas certamente concordaria
se você dissesse que sou um apóstolo no sentido de
ser alguém enviado por Deus para ministrar Cristo
aos outros e infundi-Lo neles, para que se tornem
filhos de Deus e membros de Cristo, e sejam levados a
crescer em vida e edificados como Corpo de Cristo.
Precisamos usar a palavra apóstolo com a
compreensão e definição adequadas. Como já
enfatizamos antes, todos podemos ser apóstolos, no
sentido de ser os que são enviados para ministrar
Cristo aos outros e ajudá-los a crescer para ser
edificados como Corpo de Cristo. Mas nenhum de nós
deve ser um apóstolo no sentido de assumir uma
posição para exercer autoridade sobre os outros. Em
vez de se referir a mim (ou a qualquer dos servos do
Senhor) como apóstolo, é melhor falar de mim como
escravo de Cristo. Que todos sejamos apóstolos, não
no sentido de ser papas, mas de ser escravos que
ministram Cristo aos outros. Todos somos
qualificados para ser esse tipo de apóstolos.
ESTUDO-VIDA DE SEGUNDA CORÍNTIOS

MENSAGEM CINQÜENTA E OITO

EXORTAÇÕES FINAIS, SAUDAÇÃO E BÊNÇÃO (1)

Leitura Bíblica: 2Co 13:11-13


Nesta mensagem, vamos considerar os últimos
três versículos de 2 Coríntios, ou seja, 13:11-13.

UMA VIDA DE REGOZIJO


Em 13:11, Paulo diz: “Quanto ao mais, irmãos,
regozijai-vos, sede perfeitos, sede consolados, sede de
um mesmo parecer, vivei em paz; e o Deus de amor e
de paz será convosco” (VRC). Uma vez que os
apóstolos se regozijam (v. 9), também são capazes de
exortar os crentes a regozijar-se. Isso não se faz na
vida natural, mas no Senhor (Fp 3: I; 4:4; 1Ts 5:16).
Segundo o Novo Testamento, a vida cristã deve
ser de regozijo. Se não for de regozijo, a vida cristã
não é normal. Regozijar-se inclui mais do que
simplesmente alegrar-se. E possível alegrar-se sem
regozijar-se. Alegria é algo interior, mas regozijar-se
significa que a alegria interior se expressa
exteriormente. Creio que Paulo quis dizer que, para
que nos regozijemos, temos de usar nossa voz, isto é,
dar voz à nossa alegria, expressá-la. Assim, dar voz à
alegria é regozijar-se. Devemos regozijar-nos
cantando, louvando, gritando ou invocando o nome
do Senhor. Por isso, regozijar-se é dar voz à alegria
interior, expressá-la. Esse regozijo é uma
característica importante da vida cristã. Se a vida
cristã for normal, será de regozijo.
SER APERFEIÇOADO
No versículo 11, Paulo também apela para que os
coríntios sejam perfeitos, ou aperfeiçoados.
Literalmente, o termo grego traduzido por perfeito
significa totalmente completos, isto é, consertados ou
ajustados, colocados novamente em ordem,
reparados, perfeitamente unidos, ou seja,
restaurados. O termo grego tem o mesmo radical de
aperfeiçoar no versículo 9 e também de
aperfeiçoamento em Efésios 4:12.
Ser aperfeiçoado é ser restaurado, consertado,
reparado e ajustado. É ser conduzido de volta à
posição correta e ser restaurado no caminho certo
para que sejamos edificados com outros no Corpo. As
Epístolas de 1 e 2 Coríntios são livros de
aperfeiçoamento. O único objetivo delas é aperfeiçoar
os santos danificados, distraídos e divididos de
Corinto. Eles tinham sido danificados, e a situação
entre eles não era saudável. Por isso, esses dois livros
foram escritos para desempenhar a tarefa necessária
de aperfeiçoar os crentes, levá-los de volta a uma
condição saudável cheia de vida, instruí-los e
equipá-los para a edificação do Corpo. Tudo isso está
incluído na exortação de Paulo: “Sede perfeitos”.
Podemos considerar a exortação “sede perfeitos”,
ou “sede aperfeiçoados” como voz ativa e passiva.
Rigorosamente falando, está na passiva. Entretanto,
também contém um elemento ativo. É por isso que a
consideramos “ativa e passiva”. Deus espera para
aperfeiçoar-nos, mas precisamos tomar a iniciativa
para ser aperfeiçoados. Além disso, o apóstolo estava
acostumado a aperfeiçoar os coríntios. Isso quer dizer
que uma obra aperfeiçoadora era realizada, mas os
coríntios ainda tinham de ser aperfeiçoados.
Podemos comparar Paulo a um médico e dizer que
estava pronto para administrar remédio aos crentes,
mas ainda era necessário que eles tomassem a
iniciativa de receber o remédio. O médico estava à
mão e o remédio estava pronto, mas a questão crucial
era esta: os coríntios estavam dispostos a tomar o
remédio e ser curados? Esse foi o motivo de Paulo ter
instado com eles para que fossem aperfeiçoados.

CONSOLADOS
No versículo 11, Paulo também diz aos coríntios
que sejam consolados. Os apóstolos são encorajados
pelo Deus de toda consolação (1:3-6). Os coríntios
foram muito consolados pela primeira epístola do
apóstolo para eles. Agora, na segunda epístola, ele os
consola com o consolo de Deus (7:8-13).
Se estudarmos todo o livro de 2 Coríntios,
compreenderemos que nessa epístola o consolo é algo
importante. Por esse motivo, as palavras de Paulo
“sede consolados” em 13:11 são muito significativas.
Ser consolado significa que primeiro somos
confortados, então acalmados e depois satisfeitos,
fortalecidos e capacitados. Então, como resultado de
tudo isso, somos encorajados. Não desanimamos nem
ficamos desencorajados. Paulo aqui parece dizer:
“Crentes em Corinto, a obra de aperfeiçoamento que
tenho posto em prática com vocês não deveria
entristecê-los. Antes, vocês devem alegrar-se. Devem
até dar voz à sua alegria. Além disso, precisam ser
consolados e encorajados. Coríntios, não
desanimem”.
Segunda Coríntios é um livro de encorajamento e
consolo. Os capítulos um e sete são cheios de
encorajamento. Como livro de encorajamento, essa
Epístola traz conforto, satisfação, força, capacitação e
alegria. Ela nos traz tudo o que precisamos. Se
tivermos sido satisfeitos, fortalecidos e assim
encorajados, teremos energia para prosseguir na vida
cristã e na vida da igreja sem desanimar.

PENSAR A MESMA COISA


No versículo 11, Paulo também exorta os
coríntios a pensar a mesma coisa, ser de um mesmo
parecer. Pensar a mesma coisa deve ser o principal
fator para os coríntios distraídos e confusos ser
aperfeiçoados, ajustados, colocados em ordem e
restaurados. Em sua primeira Epístola (1Co 1:10),
Paulo já os tinha exortado a pensar a mesma coisa:
“Rogo-vos, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus
Cristo, que faleis todos a mesma coisa e que não haja
entre vós divisões; antes, sejais inteiramente unidos,
na mesma disposição mental e no mesmo parecer”. A
palavra grega traduzida por sejais inteiramente
unidos em 1 Coríntios 1:10 é a mesma que é traduzida
por consertar em Mateus 4:21. Significa reparar,
restaurar, ajustar, arrumar, tornando uma coisa
quebrada totalmente completa, perfeitamente
unida. Como um todo, os crentes coríntios estavam
divididos, quebrados. Precisavam de conserto para
uni-los perfeitamente a fim de estar em harmonia,
tendo a mesma mente e a mesma opinião.
Podemos tomar como ilustração o teclado de um
piano. Cada tecla precisa estar adequadamente
afinada a fim de estar em harmonia com todas as
demais. De modo semelhante, Paulo exortou os
coríntios a estar afinados na mesma mente, isto é,
pensar a mesma coisa, ter o mesmo parecer, e a não
ter pensamentos diferentes. Todos precisamos
aprender pela graça a pensar a mesma coisa.

VIVEREM PAZ
Em 13:11, Paulo também exorta os coríntios a
viver em paz. Isso quer dizer estar em paz uns com os
outros e provavelmente com Deus também. Ele sabia
que houvera contendas e porfias entre os coríntios.
Primeira Coríntios 1:11 diz: “Pois a vosso respeito,
meus irmãos, fui informado, pelos da casa de Cloe, de
que há contendas entre vós”. Isso indica claramente
que entre os crentes em Corinto não havia paz
nenhuma. Aqui, em 13:11, ele urge para que estejam
em paz.
A vida cristã é uma vida de regozijo e também de
paz. Assim, contender ou ter porfias é contrário ao
princípio básico dessa vida. Contendas e porfias são
características da vida humana caída. Hoje, o mundo
está cheio de contendas e porfias. Em todos os
aspectos da sociedade humana, esses itens são
comuns. A vida cristã é totalmente diferente disso.
Como povo celestial, devemos sempre estar em paz
uns com os outros.

O DEUS DE AMOR E DE PAZ


De acordo com a palavra de Paulo no versículo
11, se nos regozijarmos, formos aperfeiçoados,
encorajados, formos de um mesmo parecer e
estivermos em paz, então o Deus de amor e de paz
estará conosco. Aos coríntios faltava amor (1Co 8:1;
13:1-3, 13; 14:1) e paz, pois eram perturbados pelos
ensinamentos que distraem e conceitos que
confundem. Dessa forma, o apóstolo deseja que o
Deus de amor e de paz esteja com eles para seu ajuste
e aperfeiçoamento. Eles precisam do amor e da paz de
Deus para enchê-los, a fim de que andem segundo o
amor (Rm 14:15; Ef 5:2) e tenham paz uns com os
outros (Rm 14:19; Hb 12:14).
Uma vez que os crentes em Corinto tinham
contendas e porfias, com certeza careciam de amor. O
livro de 1 Coríntios tem um capítulo inteiro, o treze,
dedicado ao tema do amor. Agora, ao concluir 2
Coríntios, Paulo enfatiza o Deus de amor. Ele não
ressalta o Deus de poder ou de milagres. Ele parece
dizer aos coríntios: “Vocês carecem de amor e por isso
precisam do Deus de amor. Por causa de sua situação,
vocês não precisam do Deus de poder. O que
precisam é do Deus de amor e paz”.
Quando muitos cristãos pensam em Deus,
pensam Nele como o Poderoso, o Forte, Aquele que
opera prodígios, mas a ênfase de, Paulo aqui é o Deus
de amor e de paz. Ele indica aos coríntios que eles
precisam do Deus de amor e de paz. Eles ressaltavam
os dons, principalmente o falar em línguas, por isso,
podem ser considerados como os primeiros
pentecostais. Pela experiência, sei que especialmente
os pentecostais precisam do Deus de amor e de paz.
Eles podem abraçar-se num dia e ficar divididos no
seguinte. Têm muita dificuldade de conhecer o que é
autêntico, porque lhes falta o Deus de amor e de paz.
Precisamos regozijar-nos, ser aperfeiçoados,
consolados e estar em paz. Também precisamos
pensar a mesma coisa. Se tivermos tudo isso em
nossa experiência, desfrutaremos o Deus de amor e
de paz.
Na verdade, o amor é o fator motivador do
regozijo. Se nos faltar amor, não teremos alegria nem
seremos capazes de regozijar-nos. Você pode tentar
regozijar-se se tiver ódio no coração, mas não vai
funcionar. De igual modo, não conseguimos
regozijar-nos se estivermos cheios de inveja. Quem se
regozija é alguém cheio de amor, bondade e paz.
Certamente valeria a pena colocar 2 Coríntios
13:11 na parede de casa. Mas, muito mais importante,
devemos guardar essas palavras em nosso interior.

ÓSCULO SANTO
No versículo 12a, Paulo diz: “Saudai-vos uns aos
outros com ósculo santo”. Esse é um ósculo, beijo de
amor puro, sem mistura ou contaminação. As
palavras do versículo 12a dão a entender que na vida
cristã deve haver equilíbrio. Não basta apenas ter
amor e paz. Nosso amor precisa ser equilibrado com
santidade. Percebendo a necessidade desse
equilíbrio, Paulo exorta os coríntios a saudar uns aos
outros com ósculo santo. Então, no versículo 12b ele
diz: “Todos os santos vos saúdam”.

GRAÇA, AMOR E COMUNHÃO


Entre os sessenta e seis livros da Bíblia, 2
Coríntios é único no sentido de concluir com uma
bênção: “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de
Deus, e a comunhão do Espírito Santo seja com vós
todos” (VRC). Essa bênção é composta dos atributos
do Deus Triúno: graça, amor e comunhão. O amor de
Deus Pai é a fonte, a origem, e graça é o fluir, isto é, a
expressão, do amor. Com o amor como fonte,
podemos fazer algo pelos outros ou lhes dar algo. Isso
é graça como o transbordar e expressão do amor. Por
exemplo, posso desejar dar um relógio a um irmão. O
ato de dar o relógio é uma expressão do meu amor
por ele. O amor em meu interior é expresso pela ação
de dar o relógio. Podemos usar isso para ilustrar o
amor de Deus e a graça de Cristo. O amor está no Pai,
que é a fonte, e a graça está no Filho, que é a corrente,
o fluir, a expressão.
A comunhão do Espírito Santo é questão de
comunicação, transporte, transmissão. Portanto, o
amor é a fonte, graça é o fluir e comunhão é a
transmissão do fluir com a fonte. Dessa forma temos
amor, graça e comunhão como nosso desfrute, e
participamos deles.
Segunda Coríntios 13:13 claramente diz que a
graça é de Cristo, o amor é de Deus e a comunhão é do
Espírito Santo. Como essa Epístola enfatiza a graça,
esta é mencionada em primeiro lugar em 13:13. Em
outros lugares nesse livro, Paulo fala vigorosamente
de graça. Por exemplo, em 1:12, ele diz: “Porque a
nossa glória é esta: o testemunho da nossa
consciência, de que, com santidade e sinceridade de
Deus, não com sabedoria humana, mas, na graça
divina, temos vivido no mundo e mais especialmente
para convosco”. Então, em 8:1-15, vemos graça
proveniente de quatro partes, especialmente a graça
de Cristo; Em 8:9, Paulo diz: “Pois conheceis a graça
de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez
pobre por amor de vós, para que, pela sua pobreza,
vos tornásseis ricos”. Depois, em 12:9, temos talvez o
mais famoso versículo sobre graça em toda a Bíblia:
“Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque
o poder se aperfeiçoa na fraqueza”.
A graça apresentada em 2 Coríntios é, na
verdade, o Deus Triúno corporificado no Filho e
infundido em nosso ser mediante o Espírito para
nosso desfrute. Assim, graça é o Deus Triúno como
nossa vida, suprimento de vida e desfrute. Essa graça
resulta do amor do Pai e é transmitida ao nosso ser
pelo Espírito. Portanto, temos a graça de Cristo, o
amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo: o
desfrute pleno do Deus Triúno.
ESTUDO-VIDA DE SEGUNDA CORÍNTIOS

MENSAGEM CINQÜENTA E NOVE

EXORTAÇÕES FINAIS, SAUDAÇÃO E BÊNÇÃO (2)

Leitura Bíblica: 2Co 13:11-13

UMA BÊNÇÃO TRÍPLICE


Em 13:13 temos uma bênção tríplice: “A graça do
Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão
do Espírito Santo seja com vós todos” (VRC). Essa
bênção tríplice envolve o Deus Triúno, porque aqui
temos a graça de Cristo, o Filho, o amor de Deus Pai e
a comunhão do Espírito Santo.
No Antigo Testamento temos também uma
bênção tríplice, a bênção proferida pelo sacerdócio
levítico no final do capítulo seis de Números. Nela, o
Deus Triúno está implícito. Números 6:2426 diz: “O
SENHOR te abençoe e te guarde; o SENHOR faça
resplandecer o rosto sobre ti e tenha misericórdia de
ti; o SENHOR sobre ti levante o rosto e te dê a paz”.
Primeiro temos a bênção relacionada com o Pai: “O
SENHOR te abençoe e te guarde”. Segundo, temos a
bênção relacionada com o Filho: “O SENHOR faça
resplandecer o rosto sobre ti e tenha misericórdia de
ti”. Terceiro, temos a bênção relacionada ao Espírito:
“O SENHOR sobre ti levante o rosto e te dê a paz”. Os
sacerdotes levíticos com certeza valorizavam essa
bênção. Todavia, ela não pode ser comparada com a
bênção em 2 Coríntios 13:13. O que temos em
Números 6:24-26 é uma mera bênção, isto é, uma
bênção sem desfrute. Mas em 13:13, o que temos não
é somente uma bênção, mas temos Deus em Sua
Deidade Triúna: o Pai, o Filho e o Espírito.

O DEUS TRIÚNO COMO NOSSA ÚNICA


BÊNÇÃO
Falar do amor de Deus, da graça de Cristo e da
comunhão do Espírito Santo é na verdade dizer que o
amor é Deus, a graça é Cristo, e a comunhão é o
Espírito Santo. Assim, temos Deus Pai como amor,
temos Deus Filho como graça, e temos Deus Espírito
como comunhão. Isso quer dizer que temos o Deus
Triúno de forma direta como nosso desfrute, e não
apenas uma bênção Dele ou dada por Ele.
No Novo Testamento, a verdadeira bênção é o
próprio Deus Triúno. Como já enfatizamos, ela é
tríplice, uma bênção de graça, amor e comunhão.
Com amor como fonte, graça como fluir e comunhão
como transmissão, o Deus Triúno nos alcança para
ser nossa vida, nosso suprimento de vida e nosso
desfrute. Agora, de forma prática, podemos
desfrutá-Lo o dia todo. Essa é a nossa bênção única
do Novo Testamento.

TRÊS ASPECTOS DE UMA ÚNICA COISA


A graça do Senhor é o próprio Senhor como vida
para nós para nosso desfrute (10 1:17; 1Co 15:10), o
amor de Deus é o próprio Deus (1Jo 4:8, 16) como
fonte da graça do Senhor, e a comunhão do Espírito é
o próprio, Espírito como transmissão da graça do
Senhor, com o amor de Deus, para nossa
participação. Essas não são três questões separadas,
mas três aspectos de um único item, assim como o
Senhor, Deus e o Espírito Santo não são três Deuses,
mas três “hipóstases15 (...) do mesmo [Deus] indiviso
e indivisível” (Philip Schaff). O amor de Deus é a
fonte, uma vez que Deus é a origem; a graça do
Senhor é o curso do amor de Deus, já que o Senhor é a
expressão de Deus; e a comunhão do Espírito é a
infusão da graça do Senhor acompanhada do amor de
Deus, visto que o Espírito é a transmissão do Senhor
juntamente com Deus, para a nossa experiência e
desfrute do Deus Triúno (o Pai, o Filho e o Espírito
Santo), com Suas virtudes divinas. Aqui, a graça do
Senhor é mencionada primeiro porque o assunto
desse livro é a graça de Cristo (2Co 1:12; 4:15; 6:1; 8:1,
9; 9:8, 14; 12:9). Tal atributo divino de três virtudes:
amor, graça e comunhão, e tal Deus Triúno de três
hipóstases divinas (o Pai, o Filho e o Espírito) eram a
necessidade dos crentes coríntios distraídos e
confusos, contudo consolados e restaurados. Logo, o
apóstolo usou todas essas coisas divinas e preciosas
numa única frase para concluir sua amável e querida
Epístola.

TRÊS HIPÓSTASES
No parágrafo anterior por duas vezes usamos a
palavra hipóstases. Essa palavra exige uma
explicação complementar. Hipóstase é a forma
aportuguesada do grego. É composta de dois radicais:
hypo, preposição que quer dizer sob, e stásis, termo
que significa sustentar ou suster. Daí, essa palavra
refere-se a suportar por baixo, ou apoio inferior, isto
é, algo que está por baixo e sustenta. A palavra grega
hypóstasisé usada em 9:4 e 11:17. Ela significa o
15
O que há de permanente nas coisas que mudam, e que é o suporte sempre idêntico das sucessivas
qualidades resultantes das transformações. (Dic. Aurélio). (N. T.)
fundamento sobre o qual uma superestrutura se
apóia; a saber, a fundação, a base. Ou seja, como em
9:4 e 11:17, confiança. Se tivermos o fundamento
adequado ou suporte inferior, poderemos, então, ter
confiança.
Alguns dicionários associam a palavra hipóstase
com as três Pessoas da Trindade. Esse significado da
palavra, dado em determinados dicionários, é uma
interpretação. O termo hipóstase não significa
pessoa, mas os teólogos têm-no usado para referir-se
às três Pessoas da Deidade, ao Pai, ao Filho e ao
Espírito. Na verdade, o Pai, o Filho e o Espírito são
três hipóstases, isto é, substâncias sustentadoras da
Deidade. Em outras palavras, a Deidade é composta
da substância sustentadora do Pai, do Filho e do
Espírito. Isso quer dizer que se essas três hipóstases
fossem removidas, a Deidade perderia a sua
substância.
Antigos mestres da Bíblia usavam a palavra
hipóstases para se referir ao Pai, ao Filho e ao
Espírito. Outros teólogos falavam das três hipóstases
como se denotassem as três Pessoas da Deidade. Esse
uso da palavra pessoa tem induzido alguns ao erro do
triteísmo, a doutrina que diz que o Pai, o Filho e o
Espírito são três Deuses. Como já enfatizamos muitas
vezes, W. H. Griffith Thomas disse que não devemos
usar demais a palavra pessoa para que não venhamos
a cair na doutrina do triteísmo. Assim, não é
totalmente seguro usar a palavra pessoa dessa forma.
Entretanto, podemos precisar usá-la
temporariamente. Por exemplo, usamo-la em um de
nossos hinos (Hino 60816): “Que mistério, o Pai, o
16
Corresponde ao hino 314 do Hinos (publicado por esta editora). Devido à métrica a palavra pessoa
não foi traduzida para o português. (N. T.)
Filho e o Espírito, / Em Pessoa, três; em substância,
todos são um”. Mas embora usemos esse termo
temporariamente, queremos esclarecer
enfaticamente que temos somente um Deus, o único
Deus. Não obstante, Ele é triúno: o Pai, o Filho e o
Espírito. O termo hipóstase é uma tentativa de
transmitir a verdade do Deus três-um.

O DEUS TRIÚNO DISPENSA-SE AO HOMEM


Segunda Coríntios 13:13 é prova categórica de
que a trindade da Deidade não visa ao entendimento
doutrinário da teologia sistemática, mas ao dispensar
do próprio Deus em Sua trindade ao Seu povo
escolhido e redimido. Na Bíblia, a Trindade nunca é
revelada meramente como doutrina. É sempre
revelada ou mencionada com relação ao
relacionamento de Deus com Suas criaturas,
especialmente com os homens criados por Ele, e
muito mais com o Seu povo escolhido e redimido. O
primeiro título divino usado na revelação divina
acerca de Sua criação, Elohim em hebraico, está no
plural (Gn 1:1). Isso dá a entender que Ele, como o
Criador dos céus e da terra para o homem, é triúno.
Com relação à criação do homem, à Sua imagem,
conforme a Sua semelhança, Ele usou a desinência do
verbo no plural “mos” e o pronome no plural “nossa”,
referindo-se à Sua trindade (Gn 1:26) e deixando
implícito que Ele seria um com o homem e Se
expressaria por intermédio do homem em Sua
trindade. Mais tarde, em Gênesis 3:22 e 11:7, e Isaías
6:8, Ele se referiu a Si mesmo muitas vezes como
“nós” acerca de Sua relação com o homem e Seu povo
escolhido.
UM NO DEUS TRIÚNO
A fim de redimir o homem caído, para ainda ter a
posição de ser um com o homem, Deus encarnou-se
(10 1:1, 14) no Filho e pelo Espírito (Lc 1:31-35),
tornando-se ser humano, e teve um viver humano na
terra, também no Filho (Lc 2:49) e pelo Espírito (Lc
4:1; Mt 12:28). No início de Seu ministério na terra, o
Pai ungiu o Filho com o Espírito (Mt 3:16-17; Lc 4:18)
para alcançar os homens e conduzi-los de volta a Si.
Imediatamente antes de ser crucificado na carne e
ressuscitado para se tornar o Espírito que dá vida
(1Co 15:45), Ele desvendou Sua trindade misteriosa
aos discípulos em palavras simples (Jo 14-17)
afirmando que o Filho está no Pai, e o Pai, no Filho
(14:9-11), que o Espírito é a transfiguração do Filho
(14:16-20), que os Três, coexistindo e “coinerindo”17,
permanecem com os crentes para o desfrute deles
(14:23; 16:7-10; 17:21-23), e que tudo o que o Pai tem
é do Filho, e que tudo o que o Filho possui é recebido
pelo Espírito para ser revelado aos crentes (16:13-15).
Tal Trindade está totalmente relacionada com o
dispensar do Deus processado aos Seus crentes
(14:17, 20; 15:4-5), para que sejam um no Deus
Triúno e com Ele (17:21-23).

A UNIÃO ORGÂNICA COM O DEUS


PROCESSADO
Depois da ressurreição, Cristo encarregou os
discípulos de fazer das nações discípulos,
batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito
Santo (Mt 28:19), isto é, de introduzir os crentes no
17
Coinerir (neologismo), isto é, inerir mutuamente, existir um no outro, estar ligado intimamente um ao
outro. (N. T.)
Deus Triúno, numa união orgânica com o Deus
processado, que passou pela encarnação, viver
humano e crucificação, e entrou em ressurreição. É
com base em tal união orgânica que na conclusão de
sua segunda Epístola aos crentes coríntios, o apóstolo
os abençoa com a Trindade bendita na participação
da graça do Filho com o amor do Pai mediante a
comunhão do Espírito. Nessa Trindade, Deus Pai
opera tudo em todos os membros da igreja, que é o
Corpo de Cristo, por intermédio dos ministérios do
Senhor, Deus Filho, pelos dons do Deus Espírito (1Co
12:4-6).

O DEUS TRIÚNO GERA A IGREJA


A completa revelação divina no livro de Efésios
acerca da geração, existência, crescimento, edificação
e luta da igreja como Corpo de Cristo é composta
dessa economia divina, o dispensar do Deus Triúno
aos membros do Corpo de Cristo. O capítulo um
revela como Deus Pai escolheu e predestinou esses
membros na eternidade (vs. 4-5), Deus Filho os
redimiu (vs. 6-12), e Deus Espírito os selou como
penhor (vs. 13-14), infundindo-Se assim nos crentes
para a formação da igreja, que é o Corpo de Cristo, a
plenitude Daquele que a tudo enche em todas as
coisas (vs. 1823). O capítulo dois nos mostra que na
Trindade divina todos os crentes, tanto judeus como
gentios, têm acesso a Deus Pai, mediante Deus Filho,
em Deus Espírito (v. 18). Isso também indica que os
Três coexistem e “coinerem” simultaneamente,
mesmo depois dos processos de encarnação, viver
humano, crucificação e ressurreição. No capítulo três,
o apóstolo ora para que Deus Pai conceda que os
crentes mediante Deus Espírito sejam fortalecidos em
seu homem interior, para que Cristo, Deus Filho,
habite no coração deles, isto é, ocupe todo o seu ser, a
fim de que sejam tomados de toda a plenitude de
Deus (vs. 14-19). Esse é o clímax de Deus em Sua
Trindade para que os crentes O experimentem e Dele
participem em Cristo. O capítulo quatro retrata como
o Deus processado (o Espírito, o Senhor e o Pai) está
mesclado com o Corpo de Cristo (vs. 4-6) para que
todos os Seus membros experimentem a Trindade
divina. O capítulo cinco exorta os crentes a louvar o
Senhor, Deus Filho, com os cânticos de Deus Espírito,
e, no nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Deus Filho,
dar graças a Deus Pai (vs. 19-20). Isso é louvar e dar
graças ao Deus processado em Sua trindade divina
para nosso desfrute Dele como o Deus Triúno. O
capítulo seis ensina-nos a lutar a guerra espiritual
sendo fortalecidos no Senhor, Deus Filho, ao vestir
toda a armadura de Deus Pai e empunhar a espada de
Deus Espírito (vs. 10, 11, 17). Essa é a experiência e
desfrute do Deus Triúno pelos crentes até mesmo na
guerra espiritual.

O DEUS TRIÚNO PARA NOSSO DESFRUTE E


PARTICIPAÇÃO
O apóstolo Pedro, em seus escritos, confirma a
trindade de Deus para o desfrute dos crentes,
referindo-se à escolha de Deus Pai à santificação de
Deus Espírito e à redenção de Jesus Cristo, Deus
Filho, por intermédio de Seu sangue (1Pe 1:2). E o
apóstolo João também fortalece a revelação da
Trindade divina para a participação dos crentes no
Deus Triúno processado. No livro de Apocalipse, ele
abençoa as igrejas em várias cidades com graça e paz
da parte de Deus Pai, que é, que era e que há de vir, e
da parte de Deus Espírito, os sete Espíritos que estão
diante do Seu trono, e da parte de Deus Filho, Jesus
Cristo, a fiel Testemunha, o Primogênito dentre os
mortos e o Soberano dos reis da terra (1:4-5). Essa
bênção de João às igrejas também indica que o Deus
Triúno processado em tudo o que Ele é como Pai
eterno, em tudo o que é capaz de fazer como Espírito
sete vezes intensificado, e em tudo o que alcançou e
obteve como Filho ungido, visa ao desfrute dos
crentes para que sejam Seu testemunho corporativo
como os candelabros de ouro (1:9, 11, 20).
Assim, é evidente que a revelação divina da
trindade da Deidade na Palavra Sagrada, de Gênesis a
Apocalipse, não visa ao estudo de teologia, mas ao
entendimento de como Deus, em Sua trindade
misteriosa e maravilhosa, dispensa-Se aos Seus
escolhidos. Isso visa a que nós, como Seus escolhidos
e redimidos, como salienta a bênção do apóstolo aos
coríntios, participemos do Deus Triúno processado, e
O experimentemos, desfrutemos e possuamos agora e
pela eternidade.