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Direito de Autor e Direito Conexo

Introdução
A protecção jurídica dos direitos de autor remonta aos Tratados da Organização Mundial da Propriedade
Industrial (OMPI). Aqui, as partes contratantes visaram igualmente, e para além do tradicionalmente protegido no
âmbito dos direitos de autor (obras escritas), promover e assegurar a protecção dos artistas intérpretes e executantes e
dos produtores de fonogramas.
É, pois, o reflexo do objectivo de equilíbrio entre titulares de direitos de autor e direitos conexos e o
interesse público geral, nomeadamente em matéria de ensino, de investigação e de acesso à informação, com vista à
adaptação ao novo paradigma da tecnologia digital e dos sistemas electrónicos de informação em rede. Assim, a nível
internacional e comunitário, o processo de adaptação do direito de autor ao novo paradigma tecnológico está adiantada,
o mesmo não se pode afirmar com tanta segurança no panorama nacional.
De facto, a protecção do direito de autor e dos direitos conexos traduz-se na concretização do comando
constitucional previsto no n.º 2 do artigo 42º da CRP - o direito fundamental de “liberdade de criação cultural”,
abrangendo o processo de criação, a obra e a divulgação, que se traduz em valor económico também abrangido pela
protecção. Tanto mais que, a cultura tem um valor económico, daí que os operadores culturais obtenham benefícios
económicos, pelo que a regulamentação se torna estritamente necessária.
Incluindo o mercado uma ampla variedade de bens e serviços protegidos pelo direito de autor, dada a
generalização da tecnologia digital e o surgimento de novos canais de distribuição (um potencial de crescimento), que
deram origem a novos produtos e serviços abrangidos pela propriedade industrial, necessariamente o catálogo previsto
na legislação em que tais direitos estão consagrados não é taxativo. Pelo que, a protecção deve aplicar-se a todas as
“produções do domínio literário, científico e artístico, qualquer que seja o seu modo de expressão”.
Os direitos de autor são um misto de propriedade e personalidade, com faculdades de “utendi” (uso),
“fruendi” (fruição) e “abutendi” (disposição). Porém, o legislador não está sujeito ao “numerus clausus” (elenco
taxativo) dos direitos de propriedade.
Em boa verdade, a especial natureza dos direitos de propriedade intelectual decorre da incorporalidade do
seu objecto, que de diferencia do “corpus mechanicum” (suporte físico) em que se expõem.
As obras são o objecto do direito de autor, definidas como “criações intelectuais do domínio literário,
científico e artístico, por qualquer modo exteriorizado” (artigo 1º do Código do Direito de Autor e dos Direitos
Conexos, doravante designado CDACD).
A qualidade de autor coincide, assim, com a de sujeito de direitos, contudo, por vezes, autor não é criador.
De facto, o direito de autor é originariamente atribuído ao criador da obra, pois o direito nasce na esfera jurídica do
criador intelectual, no momento e pelo simples facto da criação. Neste âmbito, a empresa, como processo produtivo,
pode ser titular de direito de autor.
A sistematização legal conduz-nos à natural distinção entre direitos patrimoniais de direitos morais. Os
primeiros são direitos exclusivos de dispor, fruir e utilizar a obra (compreendendo a tradução, a adaptação ou a
transformação da obra), bem como de autorizar terceiro a fruir ou utilizar a mesma, total ou parcialmente (artigo 9º, n.º
2 do CDADC), ou seja, o de autorizar toda a utilização com fim económico da obra, compreendendo realidades como a
venda ou qualquer outra transmissão, o usufruto, penhor e outros contratos adiante previstos e cujo regime está
consagrado na lei civil.
Já os segundos correspondem à paternidade da obra e direito de opor a qualquer deformação, mutilação ou
outra modificação da obra ou qualquer atentado que possa ser prejudicial à honra e reputação do autor (quem criou a
obra), assegurando a sua genuinidade e integridade (artigo 9º, n.º 3 do CDADC), isto é, os direitos aqui consagrados
visam a garantia da honra e imagem do criador, acentuando a vertente pessoal do direito de autor.
Estes direitos desdobram-se em várias faculdades, consagradas ao longo do CDACD. Assim, encontramos
as faculdades patrimoniais, que consistem no poder de impedir, em certos termos, os actos de radiodifusão ou de
comunicação ao público, de fixação e de reprodução das suas prestações, quando praticados sem o seu consentimento,
assim como quando o seu direito à remuneração suplementar, cujos montantes estabelecidos são irrenunciáveis, não
estiverem acautelados, nos termos do disposto no artigo 179º do CDADC.
O artista tem igualmente o direito de distribuição, incluindo o direito de aluguer e comodato, além do direito
de ser identificado e de reagir contra a ilicitude das utilizações que desfigurem uma prestação, que desvirtuem nos seus
propósitos ou atinjam o artista na sua honra ou na sua reputação (artigo 182º do CDACD).
Conteúdo do Direito de Autor
O conteúdo do direito de autor abrange diversas realidades, que, de seguida, se passam a enunciar:
a) patrimonialidade e direito de utilização (artigo 9º, n.º 2 do CDADC) – estas características manifestam-se
em diversas concretizações ao longo de todo o código, donde se destaca o facto de este direito ser insusceptível de
aquisição por usucapião (artigo 55º do CDADC), de o autor ter a liberdade de escolha dos processos e condições de
utilização e exploração da obra (seja por publicação pela imprensa ou por qualquer outro meio de reprodução gráfica,
gravação ou qualquer outra forma, enumeradas no artigo 68º do CDADC), bem como na necessidade de permissão do
autor para que possa existir a radiodifusão indiscriminada (artigos 75º e seguintes do CDADC);
b) Pessoalidade e direito moral (artigo 9º, n.º 3 do CDADC) - neste âmbito, o autor, cujo nome tiver sido
indicado como tal na obra, tem direito a reivindicar a respectiva paternidade e assegurar a sua genuinidade (artigo 56º
do CDADC), tanto que qualquer modificação da obra depende do acordo expresso do criador e apenas nos termos
convencionados (artigo 59º do CDADC) e, inclusivamente, o autor tem direito à retirada da obra a todo o tempo (artigo
62º do CDADC), direito este imprescritível, enquanto na cair no domínio público, mantendo as faculdades de inédito e
de retirada, transmissíveis aos sucessores do autor (nos termos do disposto no artigo 70º do CDADC), sendo o seu
exercício e defesa estão consagrados no artigo 57º do CDADC.
c) temporalidade e territorialidade - o direito de autor caduca 70 anos após a morte do criador, caindo no
domínio público, segundo o critério do país de origem. Esta protecção é concedida pela Convenção de Berna,
prevendo-se mesmo que o direito de autor possa ser gerido por entidades de gestão colectiva.

Evolução dos Conceitos e Novo Paradigma


Os conceitos de paternidade, genuinidade e integridade são postos em causa, e cada vez mais, pela natureza
metamorfósica e plástica que as obras revestem no contexto digital e interactivo, que caracterizam o dia a dia da nossa
sociedade actual.
Temos, pois, de distinguir dois conceitos: comunicação ao público e distribuição, sempre tendo por perto a
meta da neutralização de dispositivos anti-cópia, objectivo máximo da protecção legal do direito de autor.
Tradicionalmente o conceito de “copyright” é associado à materialização da obra. Aquele protegia os
investimentos dos criadores e dos produtores em ordem à comercialização nos mercados nacionais e internacionais dos
produtos que criam (interesses económicos em primeira linha). Trata-se de um conceito amplo de autoria, abrangendo o
autor e os produtores de fonogramas, etc. Aqui os direitos morais são secundários em relação aos económicos, o que
distingue este conceito do direito de autor consagrado na nossa legislação.
De facto, a criação intelectual não carece de ser efectivamente comunicada, pois que a obra é independente
da sua divulgação ou publicação (artigo 1º, n.º 3 do CDADC), até porque a obra é uma realidade incorpórea.
As obras produzidas por computador já têm consagração e protecção legal, contudo é conferida muita
liberdade de conformação ao intérprete. Contudo, os programas de computador não têm qualificação legal como obra,
embora tenham uma protecção análoga à obra literária ao nível da tutela penal.
A originalidade é a forma de expressão gerada no exercício da liberdade de criação, embora apenas seja
reconhecida às pessoas e não no âmbito dos programas de computador. A originalidade parece ser remetida para o
“estilo pessoal”, pois muitas vezes há o recurso a materiais já existentes.
A individualidade, onde radica a razão de ser da protecção das obras derivadas para efeitos de qualificação
como plágio (que consiste no aproveitamento da própria estruturação ou apresentação do tema) fica aqui um pouco
desprotegida ou, pelo menos, a reclamar um tratamento específico. Pois que, surgem a cada dia novos actos de fixação,
reprodução e comunicação ao público, tais como o armazenamento, o carregamento em memória, a execução e a
visualização e a transmissão em linha.
Convém, porém, alertar para o facto de que a memorização em computador ser uma operação prévia de
reprodução, mas também não é fixação. Pelo que, a digitalização afecta o sistema tradicional de classificação do direito
de autor no que respeita aos diversos tipos de obras elaboradas por referência a diferentes meios de comunicação.
O modo como os dígitos são processados determina o tipo de obra a ser sensorialmente apreendida,
permitindo a digitalização a desfragmentação de obra (Exemplo: “Sampling” de música e de imagem), que pode ser um
bem económico valioso, porquanto as partes das obras deverão beneficiar de protecção, quando satisfizerem os
requisitos de protecção. Contudo, a susceptibilidade dos actos de transformação destas obras prejudica o direito moral
do autor.
A plasticidade da obra sob a forma digital facilita, assim, as infracções ao direito de autor. Aliás, torna
possível a criação de obras sem que nenhum autor humano possa ser designado, embora sejam protegidos pelo
“copyright” quando gerados automaticamente pelo computador.
A exploração pode ser feita por dois tipos de meios: tangíveis (cópia e sua distribuição) e intangíveis
(representação ou exibição pública), formas de difícil distinção no contexto do ciberespaço.
A facilidade e o baixo custo com que podem ser feitas múltiplas cópias e distribuídas sob a forma digital
torna-se um factor de adicional dificuldade de fiscalização. Desta forma, os titulares de direitos podem perder a
oportunidade de exercer os seus direitos e receber a remuneração apropriada.
A disseminação da utilização de cabeçalhos contratuais (os denominados “header contracts”) visa controlar
o acesso à informação digital oferecida e resguardarem-se contra a pirataria dos seus conteúdos informáticos no
mercado virtual do ciberespaço, isto é, se houver uma vinculação aos termos de utilização designados no cabeçalho,
caso responda ao mesmo.
Defende-se também a utilização de dispositivos tecnológicos para proteger as obras digitais no ambiente em
rede. Contudo, põem em causa as formas de utilização livre, actualmente permitidas por lei (Exemplo: Cifragem /
Assinatura Digital como formas de impedir a utilização sem prévia remuneração para certos fins).
O utilizador é, nestes termos e independentemente da obra de que estejamos a falar, responsável pelo
pagamento da remuneração equitativa a pagar pela reprodução, distribuição, importação e exportação.

Código do Direito de Autor e Direito Conexo


A razão de ser da protecção legal do direito de autor, bem dos direitos conexos radica no conceito base de
obra original. No âmbito que aqui mais interessa, obra original é toda a composição musical, com ou sem palavras, bem
como toda a obra fonográfica, nos termos do disposto nas alíneas e) e f) do artigo 2º do CDADC.
Com efeito, as sucessivas edições, ainda que corrigidas, aumentadas, refundidas ou com mudança de título
ou formato não são distintas da obra original, nem das suas reproduções. Assim, são equiparadas aos originais, os
arranjos, as compilações, nos termos do disposto no artigo 3º daquele diploma legal.
A protecção é extensiva ao título, independentemente do registo, desde que seja original e não confundível,
salvo algumas excepções, excluídas do âmbito de protecção, previstas no n.º 2 do artigo 4º do CDADC, sendo que se
tratam de designações genéricas ou pertencentes a um género específico ou, ainda, quando constituídos por nomes de
personagens ou personalidades vivas.
A obra publicada é aquela que é reproduzida com o consentimento do seu autor, tendo em conta a natureza
da obra (artigo 6º), sendo que o direito de autor é reconhecido independentemente do registo, depósito ou qualquer
outra formalidade.
Em princípio, a obras subsidiadas não atribuem a quem a subsidia qualquer direito compreendido no direito
de autor, salvo convenção escrita em contrário (artigo 13º do CDADC). O criador deve estipular qual a forma de
utilização da obra subsidiada (artigo 15º do CDADC), o que reflecte as características já realçadas deste tipo de direito.
A paternidade da obra é, em princípio, atribuída a quem é indicado como autor (criador intelectual da obra),
isto é, anunciado conforme o uso consagrado – nome próprio (completo, abreviado ou simples iniciais), pseudónimo ou
qualquer sinal convencional (artigo 27º do CDADC). Sendo que, este nome é protegido nos termos do disposto no
artigo 29º do CDADC.
Sucede que o direito de autor caduca (artigos 31º a 36º do CDADC), em princípio, 70 anos após a morte do
criador intelectual, colaborador ou da publicação ou divulgação caindo, por força da caducidade no domínio público
(artigo 38º do CDADC).
Os artigos 40º e seguintes do CDADC consagram as formas de transmissão e oneração do conteúdo
patrimonial do direito de autor, donde se destaca o regime da autorização (artigo 41º do CDADC) e a transmissão
parcial ou total (artigos 43º e 44º do CDADC), mantendo o autor e seus sucessores sempre a possibilidade de
compensação suplementar quando, em caso de transmissão ou oneração, haja grave lesão patrimonial por manifesta
desproporção entre os proventos e os lucros auferidos pelo beneficiário daqueles actos (artigo 49º do CDADC).
O autor goza, igualmente, durante toda a vida do direito de reivindicar a paternidade da obra e de assegurar
a genuinidade e integridade desta, independentemente dos direitos de carácter patrimonial ou sequer que os tenha
alienado, podendo mesmo estes direitos morais (artigos 53º e seguintes do CDADC).
Acresce que a ordem jurídica portuguesa é competente para determinar a protecção a atribuir a uma obra,
sem prejuízo de convenções (artigo 63º do CDADC), protegendo-se, assim, as obras estrangeiras.
No que concerne à utilização da obra, o autor tem o direito exclusivo de fruir e utilizar a obra, no todo ou
em parte (faculdades de a divulgar, publicar e explorar economicamente por qualquer forma, nos limites da lei) – artigo
67º do CDADC, destacando-se, na matéria que aqui nos interessa a gravação, a reprodução, radiofonia, entre outros,
previstos no artigo 68º, alínea d) e e) do CDADC. Além do que, a autorização ou proibição da retransmissão, da
fixação em suporte material das suas emissões, reprodução dessas fixações e comunicação ao público das suas
emissões, quando feitas em local público e com entradas pagas.
Quanto à gestão do direito, os poderes conferidos pelo presente código podem ser exercidos pelo seu titular
ou por intermédio de representante habilitado (artigos 72º e seguintes CDADC). Estes últimos poderão ser associações
nacionais ou estrangeiras, constituídos para essa gestão. Na realidade, tais organismos terão uma capacidade de
intervenção civil e criminal, que, no caso português, depende do registo na Direcção Geral de Espectáculos e do Direito
de Autor.
Tal registo é realizado mediante a apresentação de requerimento do representante, acompanhado do
documento comprovativo da representação, acrescido do pagamento das taxas previstas em tabela anexa ao Código.
De salientar que, o CITED é o sistema desenvolvido na Comunidade Europeia, no quadro do programa
Esprit II, para garantir a protecção apropriada e o exercício dos direitos sobre obras e fonogramas, estendendo-se a
todas as possibilidades de autorização, notificação e facturação em relação às utilizações relevantes.
No entanto, a obra sempre será de livre utilização, não sendo necessário o consentimento do autor, quando
utilizadas no âmbito da comunicação social (informação), da biblioteca pública ou do centro de documentação não
comercial ou instituição científica (apenas no âmbito das necessidades dessas instituições e não do público), do ensino,
do culto e nas demais circunstâncias previstas nos artigos 75º e seguintes do CDADC. No entanto, devem ser
identificados o nome do autor e do editor, título da obra e demais circunstâncias que os identifiquem, sendo que
nalguns casos é devida remuneração equitativa.
A compensação devida pela reprodução ou gravação de obras é incluída no preço de venda, tudo definido
por Decreto-Lei, nos termos do disposto no artigo 82º do CDADC.
Quanto às utilizações especiais da obra, destacamos a edição, contrato pelo qual o autor concede a outrem
autorização para produzir por conta própria um número determinado de obras ou conjunto de obras, com as excepções
previstas na Lei (artigos 83º e 84º do CDADC).
A lei prevê, especificadamente, o conteúdo essencial do contrato, a forma do contrato, os seus efeitos,
obrigações, retribuição, provas e modificações, prestações de contas, transmissão dos direitos de editor, as reedições e
edições sucessivas e a própria resolução do contrato.
Quanto ao contrato de fixação fonográfica e videográfica, cujo regime está previsto nos artigos 141º e
seguintes do CDADC, a fixação é vista como a incorporação de sons ou de imagens num suporte material
suficientemente estável e duradouro que permita a sua percepção, reprodução ou comunicação de qualquer modo, em
período não efémero.
Desta forma, a compra de um fonograma ou videograma não atribui ao comprador o direito de os utilizar
para quaisquer fins de execução ou transmissão pública, reprodução, revenda ou aluguer com fins comerciais.
Também aqui deve existir a identificação da obra e do autor, podendo o autor fiscalizar os armazéns e
fábricas dos suportes materiais, devendo haver comunicação à Direcção Geral dos Espectáculos e Direito de Autor das
quantidades fabricadas, periódica e especificamente.
As obras podem ser sujeitas a transformações, arranjos ou adaptações para efeitos de fixação, transmissão,
execução ou exibição por qualquer meio, sempre com a autorização expressa do autor e com a definição do fim ou dos
fins a que se destina a transformação (artigo 146º do CDADC).
Em tudo o mais se rege pela disciplina fixada no regime da edição.
Para a radiodifusão e outros processos, previstos nos artigos 149º e seguintes do CDADC, é necessária a
autorização do autor (ao público ou em lugar público), salvo quando a obra foi objecto de fixação para fins comerciais
com autorização do autor (expressa), sem prejuízo dos direitos morais e do direito à remuneração equitativa, vigorando
igualmente o regime supletivo da edição.
Os direitos conexos ao direito de autor, também previsto neste Código, abrangem, nomeadamente, os
direitos dos artistas intérpretes ou executantes (artigo 176º, n.º 2 do CDADC), bem como os produtores de
videogramas, fonogramas e filmes (artigo 176º, n.º 3 do CDADC).
Os direitos conexos ao direito de autor (artigo 176º do CADDC) traduzem-se na protecção das prestações
dos artistas, intérpretes ou executantes, produtores de fonogramas e organismos de radiodifusão, sendo que cada
conceito relevante neste campo é definido na lei. Aqui se salientam as faculdades de impedir a radiodifusão ou a
comunicação ao público, a fixação e a reprodução da fixação, sem o seu consentimento (artigo 178º do CDADC) e de
autorização de radiodifundir (artigo 179º do CDADC).
A sua duração é de 50 anos após a representante ou execução, a primeira fixação ou a primeira radiodifusão.
Neste âmbito, tem de existir igualmente autorização do produtor para a distribuição, importação ou
exportação, sendo que a protecção aos produtores tem como condição a menção constituída pelo símbolo P, nos termos
estipulados pelo artigo 185º do CDADC. Sendo que, também os organismos de radiodifusão gozam de direitos, desta
feita previstos no artigo 187º do CDADC.
As utilizações livres, tal como já descritas anteriormente, estão previstas no artigo 189º do CDADC.
São requisitos de protecção a nacionalidade portuguesa ou de qualquer Estado Membro da Comunidade
Europeia ou que resida habitualmente em território português ou, ainda, tenha abrangência das convenções
internacionais celebrados neste âmbito.
No que respeita à violação e defesa de todos estes direitos consagrados (artigo 195º e seguintes do
CDADC), seja usurpação, contrafacção, violação do direito moral, aproveitamento, o respectivo procedimento criminal
não depende de queixa, a não ser que a infracção diga apenas respeito à violação de direitos morais. Os objectos são,
por efeito do procedimento, apreendidos, considerando-se perdidos a favor do Estado, sem direito a indemnização.
De realçar que a eventual responsabilidade civil é independente do procedimento criminal, a ser exercida
nos termos da lei geral.
São ainda previstas as condutas consubstanciadoras de contra-ordenação (artigos 204º e seguintes do
CDADC), sendo a competência do Director-Geral dos Espectáculos e do Direito de Autor, tendo como destino as
coimas aplicadas o Fundo de Fomento Cultural.
O registo, em princípio, não é constitutivo, salvo o previsto no artigo 214º do CADDC, existindo uma tabela
de emolumentos respeitante ao requerimento do mesmo registo.

Outra Legislação Relevante


A) DECRETO-LEI N.º 433/78, DE 27 DE DEZEMBRO

Define o regime do registo das Entidades de Gestão, isto é, das entidades que exercem e defendem os
direitos e interesses dos autores, sendo que é requisito necessário para tal defesa a qualidade de sócio ou a inscrição
nessas entidades.

B) DECRETO-LEI N.º 227/89, DE 08 DE JULHO

A comercialização ilegal do audiovisual, vulgarmente denominada “pirataria”, vem prejudicando os


legítimos interesses do público consumidor, de autores, de produtores e editores, artistas, comerciantes e do próprio
Estado.
Assim, este diploma define o regime do selo dos fonogramas, como forma de cumprimento das obrigações
fiscais e autorais, em cumprimento do Livro Verde sobre o Direito de Autor e o Desafio Tecnológico, publicado pela
Comissão das Comunidades Europeias.
O selo é elaborado pela Imprensa Nacional – Casa da Moeda e a fiscalização fica a cargo da DGEDA e,
igualmente, das autoridades policiais e administrativas, seja a nível da importação, fabrico, produção, edição,
distribuição ou exportação de fonogramas, restringindo-se apenas esta disciplina às cassetes áudio.
A aplicação das sanções e coimas aqui previstas cabe ao Director Geral dos Espectáculos e do Direito de
Autor, revertendo as coimas aplicadas a favor do Fundo de Fomento Cultural.

C) LEI N.º 109/91, DE 17 DE JULHO

É a denominada Lei da Criminalidade Informática, que dita pena de prisão ou multa, acrescida de sanções
acessórias para a reprodução ilegítima.

D) DECRETO-LEI N.º 252/94, DE 20 DE OUTUBRO

Determina o âmbito de protecção jurídica dos programas de computador, em virtude de terem surgido novas
realidades não facilmente subsumíveis às existentes no direito de autor.
Assim, aos programas de computador com carácter criativo é atribuída protecção análoga às obras literárias.
O seu artigo 3º determina o conceito de autoria, que permite determinar o titular do programa, o qual poder fazer ou
autorizar a reprodução ou transformação do mesmo programa.
No entanto, qualquer utente deste pode, sem necessitar de qualquer autorização do titular do programa,
providenciar uma cópia de apoio no âmbito da utilização, para estudo, observação ou ensaio do funcionamento do
programa.
O artigo 7º deste Decreto-Lei introduz o conceito da descompilação. Neste conceito pretende salvaguardar-
se a necessidade à interoperabilidade desse programa com outros. Assim, tem o titular da licença de utilização ou outra
pessoa que possa legitimamente utiliza o programa ou pessoas por estes autorizadas para o fazer, sempre tendo por
perto os limites imposto no n.º 4 daquele artigo.
O âmbito de protecção é muito semelhante ao do CDADC, sendo que, também aqui, pode existir inscrição
do Registo de Propriedade Literária.
A tutela penal é consagrada na Lei n.º 109/91, de 17 de Agosto.

E) LEI N.º 62/98, DE 01 DE SETEMBRO

Este diploma regula o disposto no artigo 82º do CDADC, isto é, a compensação devida pela reprodução ou
gravação de obras.

F) LEI N.º 83/2001, DE 03 DE AGOSTO

Regula a constituição, organização, funcionamento e atribuições das entidades de gestão colectiva do direito
de autor e direitos conexos

G) LEGISLAÇÃO INTERNACIONAL

- CONVENÇÃO DE BERNA

Esta convenção tem como âmbito de protecção as composições musicais, com ou sem palavras, de autores
nacionais dos países da União Europeia, não nacionais que publiquem num país da U.E. e não nacionais com residência
habitual num desses países.
Aqui se consagra a protecção internacional das faculdades consagradas na legislação nacional, com algumas
limitações inerentes às necessidades de harmonização das várias legislações dos vários países, nomeadamente a nível
de autorização de reprodução das obras e defesa do direito de autor.

- CONVENÇÃO DE ROMA

O âmbito desta Convenção circunscreve-se à protecção específica dos artistas intérpretes ou executantes,
dos produtores de fonogramas e dos organismos de radiodifusão, sendo que Portugal impôs algumas reservas à sua
aplicação.

- TRATADO DA OMPI SOBRE DIREITO DE AUTOR

Visando a protecção dos programas de computador como obras literárias, qualquer que seja o seu modo ou
forma de expressão, donde se destacam o direito de distribuição, de aluguer e de comunicação ao público, visando a
aplicação a estas novas realidades da disciplina da Convenção de Berna, para a qual se remete.

- TRATADO DA OMPI SOBRE INTERPRETAÇÕES OU EXECUÇÕES DE FONOGRAMAS

O seu regime estabelece o âmbito de protecção daqueles que interpretam ou executam fonogramas, isto é,
criações recebidas, produzidas ou comunicadas mediante um dispositivo, bem como dos produtores das mesmas
criações.

- ACORDO ADPIC/TRIPS (anexo IV)

A sua protecção está directamente relacionada com o comércio e a vertente económica do direito de autor e
dos direitos conexos. Assim, a protecção abrange as expressões e não as ideias, os processos, os métodos de execução
ou os conceitos matemáticos enquanto tal (artigo 14º da Acordo).
Estabelece, igualmente, processos e medidas correctivas civis e administrativas, bem como os processos
penais a serem adoptados pelos países subscritores de forma a harmonizar a aplicação do regime de protecção destes
direitos.

- DIRECTIVA DO CONSELHO DE 14/MAIO/1991

Foi aqui estabelecido, no âmbito da U.E., a protecção jurídica dos programas de computador, como nova
realidade, destinando-se a ser transposta para a legislação nacional.

- DIRECTIVA DO CONSELHO DE 19/NOVEMBRO/1992

Esta Directiva consagra o regime de exercício dos direitos patrimoniais inseridos no direito de autor e
direitos conexos, salientando a importância económica das novas realidades nesta matéria.

Conclusões
O direito de autor e os direitos conexos, cuja disciplina legal foi alvo de estudo, são direitos que,
tradicionalmente, estavam associados à criação de obras literárias. Sucede que, a evolução dos tempos, bem como a
susceptibilidade de crescente aproveitamento económico ditou o necessário alargamento do elenco de realidades a
abarcar naquele âmbito.
Desta forma, a criação de obras musicais, a sua produção e até execução ou divulgação passaram a ter
assento legal, tal como já se demonstrou, estando tal evolução bem mais adiantada a nível internacional, fruto da óbvio
e conhecido atraso na sua transposição para o direito interno.
Contudo, a disciplina legal já abarca realidades como a protecção dos programas de computador, muito útil
quando falamos da criação de música electrónica ou na mistura de músicas.
O denominador comum em toda a disciplina radica no facto de o direito de autor e direitos conexos serem
um misto de direito pessoal, isto é, indissociável da pessoa humana e de direito patrimonial, ou seja, susceptível de lhe
ser retirada vantagem económica. É precisamente por causa desta última característica que ressalta a importância e a
necessidade de legislar no campo.
De facto, o direito de autor pressupõe a possibilidade de defesa da originalidade da obra, da reivindicação da
sua autoria ou produção e do bom nome e honra do criador, mas também a possibilidade de poder transmitir, gratuita
ou onerosamente, por contrato ou sem qualquer formalismo, a exploração com fins comerciais da dita obra.
Para a sua protecção, o registo deve ser uma opção do autor, embora não seja necessário para o
reconhecimento ou constituição do direito. Ele nasce com a obra e permanece com ela, sendo transmissível aos
sucessores do autor falecido e, depois, revertendo para o Estado, nos termos da lei já analisada. Protege-o contra
terceiros que queiram reivindicar um direito que não nasceu na sua esfera de direitos, mas que, com o registo, queiram
obter as vantagens económicas que o mesmo permite e ressalva no preço de venda.
Todas estas faculdades são alvo de grande protecção, quer civil, quer criminal, havendo mesmo organismos
especializados na ajuda a resolver as questões ligadas não só à tutela e defesa de direitos, bem como ao procedimento
administrativo de registo, dependo, contudo, a sua actuação do prévio registo na Direcção Geral de Espectáculos e
Direito de Autor.
Já a figura do “copyright”, provavelmente a mais conhecida do público comum, divulgada no direito anglo-
saxão, apenas consagra a vertente patrimonial do direito de autor, isto é, a remuneração devida ao autor pela utilização
da obra, remuneração essa incluída no preço de venda da obra.
Com efeito, a obra não necessita de ser divulgada ou comunicada ao público para ser protegida ou alvo do
direito de autor. Aliás, é na divulgação da obra ao público e com fins comerciais que o problema do plágio, da violação
do direito de autor e direitos conexos e da falta de consentimento do autor para a sua utilização se coloca. Mesmo
nestes cenários, apenas uma análise casuística poderá determinar com exactidão os limites a observar nessa utilização,
dadas as “nuances” legais.
Em boa verdade, a disciplina legal do direito de autor e dos direitos conexos, dado seu carácter complexo, é
de difícil apreensão ao comum cidadão. De salientar que, na maioria das vezes, só uma análise cuidada e particular
pode orientar o autor ou produtor na defesa do seu direito.
Contudo, aconselha-se a todo e qualquer autor a conhecer os seus direitos e a escudar-se em contratos ou
formalizações escritas, devidamente analisados, acautelando a sua defesa em eventuais situações de violação do seu
direito.

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