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NO PRINCÍPIO ERA O DESEJO...

“Para o meu desejo, o mar é uma gota” (Adélia Prado)

No começo havia o Amor de Deus e o desejo que nascia deste Amor.


Sem o desejo de criar do Criador, não existiria o universo.
Sem o desejo de criar a humanidade à imagem de Deus, a humanidade não
existiria.
Sem o desejo de criação do artista, não existiria a arte.
O desejo está no começo de tudo. Uma pessoa que não tenha desejo não pode
esperar nem viver.
O desejo é como motor permanente que nos impulsiona a não permanecermos
quietos, inertes ou paralisados pela desesperança.
O desejo se converte, assim, em base de novos dinamismos mais fundamentais.
É o suporte de nossa inquietude e a base para o desenvolvimento da esperança.
“Nosso coração está inquieto até que encontre o repouso em Ti, ó Deus” (S. Agostinho)
O coração é o centro da pessoa. O psiquismo humano está inquieto porque habitado por um desejo de
felicidade que não é satisfeito por nada de limitado, um desejo que procura, portanto, algo de divino.

Desejo é uma palavra-chave na literatura mística. É a expressão da disposição e


dos dinamismos que impulsionam a pessoa no percurso em direção a Deus.
O desejo é o dinamismo englobante que nada neste mundo pode pacificá-lo.
Trata-se de um dinamismo infinito, de natureza e de origem divinas, colocado no
ser humano pelo Criador.
Comparado com a necessidade, limitada ao aqui e agora, voltada para a
satisfação e, uma vez satisfeita, esquecida, o desejo não conhece fronteiras
naturais nem de tempo nem de espaço, e é dotado de uma infinitude que é capaz
de Deus.
Na experiência de união com Deus, o desejo que aí se manifesta vai além do
necessário e útil; trata-se de um impulso que orienta para experiências e modos
de existência que fazem viver intensamente e celebrar: a beleza, o amor, a
experiência do divino e a relação com Ele, a expansão de si, a sensibilidade
solidária...
O desejo não conduz por si mesmo a Deus, mas, precisamente porque o desejo
está aberto para aquilo que está além do necessário e do útil, ele orienta para o
divino.
Essas experiências do divino alargam a existência e dão um sentido de plenitude
à vida.
É nessa relação de fé que os místicos cristãos vivem seu desejo de Deus, pois para o fiel crente Deus é
próximo e inteiramente outro.
A verdadeira mística não é essencialmente a “experiência extática” de uma união intensamente afetiva,
mas o caminhar metódico e constante do desejo em direção a Deus.
Podemos afirmar: a mística é uma história do desejo que se tornou religioso.

Desejo: do latim “desiderium”, provém da raiz “sid”, sideral, firmamento,


relativo a estrelas...
Seguir o desejo é seguir a estrela, estar orientado, saber para onde se
vai, conhecer a direção...
“De-siderare” remete ao paralelo “con-siderare”. Ambos os termos
apontam para a incomple-
tude, a separação, a falta, o outro... O homem é um ser inacabado, que
exige a mobilização das
forças que o colocam sempre em movimento, isto é, “ex-istir”, um
estar sendo para fora de si
mesmo, caminhar para além de si...
“Con-siderar” é já antecipar o que é “de-siderado”.
A petição nos Exercícios Espirituais (“pedir o que quero e desejo”) tem implicações
práticas para a vida.
Nossa capacidade de “querer e desejar” está na raiz mesma de nossa
existência humana e é a dinâmica profunda e básica de nossa vida.
O desejo funciona na vida diária e está presente em todo crescimento humano.
As petições, nos Exercícios, são grandes desejos; a partir deles podem brotar
outros desejos, que vem concretizar, atualizar aquele grande desejo.
É importante conhecer nossos desejos: eles nos põem em contato com a
verdade sobre nós mesmos e acabam por colocar-nos em contato com Deus.

Três níveis de desejos

Esses três níveis estão plantados em nossos corações para fazer-nos crescer.
É importante aceitá-los como são. Eles nos impulsionam para o nosso fim.
Os desejos nos acompanham nestes três níveis durante toda a vida.
1º nível
A esta categoria pertence nosso desejo de satisfazer nossas necessidades
humanas básicas, já que não podemos viver sem sua satisfação.
Neste nível falamos de desejos, cuja satisfação pode fazer-nos felizes, ao menos
por algum tempo. Mas não bastam. Por si sós não podem nos dar uma felicidade
duradoura.
Podemos advertir também que a satisfação destes desejos cria novos desejos.
Estes são importantes para nossa vida. Nos inspiram para inventar, buscar,
explorar e descobrir; numa palavra, nos impulsionam à ação.
Seria um erro considerar estes desejos como algo inferior. Deus nos fala
também neste nível. Quando Jesus deu de comer a uma multidão, antes de tudo
satisfez esta necessidade básica do alimento. E em seu encontro com a
samaritana junto ao poço de Jacó, o tema de sua discussão partiu na necessidade
básica de beber água.
2º nível
Vai mais fundo em nossa experiência pessoal. Não só “experimentamos”
nossos próprios desejos senão também os de outras pessoas, que se fazem
importantes e nos desafiam.
Somos seres sociais e necessitamos relacionar-nos. Nossos desejos estão
orientados para um tu.
Queremos amar e ser amados; necessitamos reconhecimento; queremos ser
membros úteis da família humana.
Na satisfação de nossos desejos a este nível se adquire maturidade como
homem ou mulher.
Este é o nível no qual encontramos o desejo de fazer algo pelos outros. Aí está o
serviço.
3º nível
Nosso desejo existencial, nossa aspiração mais profunda subjaz a todos os
outros nossos desejos.
Esta aspiração mais profunda se esconde, às vezes, no que parecem desejos
meramente triviais.
A fé nos revela que é o fogo do Amor do Criador que arde em nossos corações e
nos mantém vivos.
“Em todos os seres humanos existe a mesma chispa de uma aspiração inextinguível, o
mesmo
desejo de felicidade e alegria” (Ernesto Gardenal).
Quando tomamos consciência e a entender esta nossa aspiração mais profunda,
é um momento de graça em nossas vidas. Poetas, artistas, místicos, teólogos...
tem tentado, durante séculos, dar-lhe expressão.
Sem a esperança e a promessa de satisfação, nossos desejos e nossas
aspirações seriam uma tortura sem sentido. A satisfação deles é Deus mesmo.
Nas profundezas de cada pessoa se perfila a causa infinita e incompreensível do
desejo: Deus.
Somente quando conhecemos os nossos desejos profundos e os colocamos à
luz do amor e do olhar compassivo do Senhor é que cresceremos na relação
pessoal com Ele.
Assim como expressamos nossos desejos numa relação humana de confiança e
amor, também devemos fazer o mesmo na relação com Deus.

“Todo desejo de que Deus venha até nós já é oração.


Há uma oração interior que nunca se acaba: teu desejo.
Se desejas orar sem cessar, não cesses nunca de desejar”. (S. Agostinho)