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AS ESCRITURAS AJUDAM A “LER” A VIDA

“E, começando por Moisés e por todos os Profetas, interpretou-lhes em todas


as Escrituras o que a Ele dizia respeito” (v. 27)

O trauma causado nos discípulos pela Paixão e Crucifixão do Mestre tinha ferido e
endurecido seus corações e fechado suas inteligências. Eram absolutamente
incapazes de compreender os caminhos do desígnio salvífico de Deus.
“Eram seus discípulos, tinham-no escutado, tinham vivido com Ele, tinham-no reconhecido como Mestre,
tinham sido instruídos por Ele, e não foram capazes de imitar e ter a fé do ladrão pendurado na cruz.
Onde o ladrão encontrou a esperança, ali o discípulo a perdeu” (S. Agostinho)

A revelação do Ressuscitado continua a ser progressiva; a pedagogia usada,


porém, muda.
Para acordá-los do torpor em que se encontram, para que vejam além dos fatos
brutos que os deixaram traumatizados, para tirá-los do fechamento em si
mesmos e do lamento estéril, Jesus recorre à “terapia de choque” e lança ao
rosto dos discípulos, ainda coberto pela tristeza e pelo abatimento, uma
repreensão muito dura: “Ó insensatos e lentos de coração para crer tudo o que os profetas
anunciaram!”
O “Ó” com que começa a repreensão expressa uma forte emoção.
Num primeiro momento, os discípulos devem ter ficado ainda mais desorientados
com a mudança de comportamento do peregrino, que até então tinha se mostrado
tão amável, paciente e interessado em escutá-los.

Depois da terapia de choque, Jesus retorna de novo à pedagogia do amor


compre-
ensivo e paciente, explicando aos discípulos, à luz de “todas as Escrituras”, o
sen-
tido de sua Paixão e Morte.
Pedagogicamente, o Mestre vai abrindo a inteligência dos discípulos para que,
logo
depois, ao abrir-lhes as Escrituras, possam compreendê-las; vai abrindo seu
cora-
ção para que , ao compreender as Escrituras, possam arder de amor e de alegria.
O peregrino consegue tirar do caminho a pedra de escândalo na qual os discípulos tropeçam: a incompre-
ensão da Paixão e Morte de Jesus. Só o Senhor Ressuscitado pode fazer-lhes compreender que a Cruz
não é a destruição de suas esperanças, mas o caminho para a mais plena realização da justiça e do amor
de Deus. A Cruz é vitória do amor de Deus sobre todos os ódios acumulados pela humanidade, a vitória
da justiça de Deus sobre todas as injustiça cometidas pelos homens, a vitória do Deus da Vida.

À medida que Jesus ia explicando-lhes as Escrituras, iam crescendo nos discípulos


a surpresa e a afeição para com aquele peregrino estranho que se interessava
por seus problemas como se não existisse nada mais importante para Ele que os
escutar e esclarecê-los. Mesmo desesperançados, os discípulos tiham aceito
participar do diálogo iniciado pelo desconhecido companheiro de caminho.
A contemplação desta cena deve ser, também para nós, um Kairós, um
“tempo propício” para buscar e encontrar a resposta dada pela fé às questões
terríveis que nossa razão é incapaz de resolver: o sofrimento dos inocentes, as
opressões e injustiças praticadas pelos tiranos, os sofrimentos e mortes causados pela fome e
pelas guerras, a devastação da terra em que vivemos, causada pelo egoísmo, pelo consumismo
irresponsável, pela ânsia de ganância...
A resposta a estas questões nos é dada na vida de Jesus.
Ela nos mostra que mesmo as maiores injustiças e as violências mais atrozes são finalmente
envolvidas e remidas pelo “amor extremo” de Deus, que é sempre maior que nossos fracassos e
sofrimentos. Deus, sempre fiel, leva adiante seu plano salvífico, respeitando a liberdade humana.
Na oração: É o próprio Jesus, o Mestre, quem nos revela o significado de nossa própria vida.
Entremos em sua escola com grande docilidade e ouvido de discípulo.
* Façamos uma re-leitura da nossa própria vida, procurando nela as “marcas” de Deus.
* Na oração, somos convidados a interpretar a nossa própria história, percorrendo as pegadas de Deus. Trata-
se de ler o que está escrito na vida como se lêem as palavras de um texto que tem um sentido e uma direção.
* Nosso coração é como um tecido; na medida em que Deus vai escrevendo no tecido do nosso coração, nós
podemos parar para ler a lição de Deus.
* Quais são as marcas deixadas por Deus em seu coração e que você sempre “faz
memória”? Para onde caminha sua vida?
* Que lugar ocupam as Escrituras na sua vida cotidiana?