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ESTUDOS PARA CONSTRUÇÃO DE UMA ESTRADA

Segundo PONTES (1998), os trabalhos para a construção de uma estrada iniciam-se por meio de
estudos de planejamento de transporte. Esses estudos têm por objetivo verificar o comportamento do
sistema viário existente para, posteriormente, estabelecer prioridades de ligação com vistas às
demandas de tráfego detectadas e projetadas de acordo com os dados socioeconômicos da região.

Paralelamente a execução do anteprojeto geométrico são também iniciados os estudos da


infraestrutura e superestrutura da estrada objetivando principalmente o levantamento de problemas
que poderão mostrar a conveniência de alteração do anteprojeto geométrico escolhido.
Da elaboração do projeto devem constar:

a. - Estudos topográficos;
b. - Estudos geológicos e geotécnicos;
c. - Estudos hidrológicos (cursos d’água);
d. - Projeto geométrico;
e. - Projeto de terraplanagem;
f. - Projeto de pavimentação;
g. - Projeto de drenagem;
h. - Projeto de obra de arte especial (pontes e viadutos);
i. - Projeto de interseções, retornos e acessos;
j. - Projeto de sinalização, cercas e defesas;
k. - Projeto de paisagismo;
l. - Projeto de desapropriações;
m. - Projeto de instalações para operação de rodovia;
n. - Orçamento dos projetos e plano de execução.

O projeto final da estrada é o conjunto de todos esses projetos complementado por memórias
de cálculo, justificativa de solução e processos adotados, quantificação de serviços, especificações
de materiais, métodos de execução e orçamento.

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1. O Traçado de uma estrada
O método clássico para escolha do traçado de uma estrada consiste das seguintes fases:
reconhecimento, exploração e locação (projeto final).

1.1. Reconhecimento
É a fase inicial da escolha do traçado, tem por objetivo o levantamento e a análise de dados
necessários à definição dos possíveis locais por onde a estrada possa passar. Engloba todos os
estudos preliminares como: reconhecimento geográfico e topográfico, reconhecimento geológico,
econômico e social da região. Nesta fase são definidos os principais obstáculos topográficos,
hidrológicos, geológicos ou geotécnicos e escolhidos possíveis locais para o lançamento de
anteprojetos.

O reconhecimento pode ser feito através de mapas, cartas fotográficas, fotos, inspeção local,
trabalhos de escritório, mas a existência de levantamentos aerofotogramétricos da região facilita
sobremaneira o trabalho nesta fase do projeto, pois os mesmos permitem, através de técnicas
modernas, que se obtenham informações importantes que serão lançadas no anteprojeto.

Nesta fase devem ser verificados os elementos necessários para o traçado que são: localização dos
pontos inicial e final da estrada, indicação dos pontos “obrigados” de passagem e as retas que ligam
estes pontos.

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AB  Diretriz geral ou principal
a,b,c,d  Pontos obrigatórios de passagem de condição
Aa , ab , bc , cd , dB  Diretrizes parciais

Como exemplos de “pontos obrigados” podemos citar: áreas que contornam elevações íngremes,
áreas a montante de grotas acentuadas, seções mais estreitas de rios, travessias adequadas de
ferrovias, eventual aproveitamento de obras existentes, etc., de forma geral, toda solução que
acarreta melhoria das condições técnicas ou redução de custo.

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1.1.1. Representação Gráfica do Projeto

A representação gráfica de cada trecho da estrada é feita por um conjunto de desenhos: planta, perfil
longitudinal e seções transversais.
A planta é a representação, em escala conveniente, da projeção da estrada sobre um plano
horizontal.
O perfil longitudinal é a representação, em escala conveniente, da projeção da estrada sobre uma
superfície cilíndrica vertical, que contém o eixo da estrada em planta.
As seções transversais são representações, em escala conveniente, de projeções da estrada sobre
planos verticais, perpendiculares ao eixo da estrada, localizados em pontos escolhidos.
O projeto geométrico total da estrada é representado pelo conjunto de desenhos de seus diversos
trechos.

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Planta
A planta como vimos, é a projeção da estrada sobre um plano horizontal, onde cada desenho
representa um trecho da estrada de extensão compatível com o tamanho da folha de desenho e a
escala desejada. Normalmente são usadas as escalas 1:10.000 e 1:5.000 para a planta de
anteprojetos, 1:2.000 para projetos executivos, 1:1.000 no projeto de interseções, cruzamentos ou
outros locais onde seja necessário um maior nível de detalhamento.
É constituída por:
 Eixo da estrada estaqueado com suas características geométricas e elementos necessários à
perfeita localização do traçado escolhido;
 Linhas indicando os bordos da plataforma da estrada e da faixa de domínio;
 Representação da topografia local, através de curvas de nível e indicações de acidentes
topográficos importantes.
 Representação da hidrologia, através da localização de rios, córregos, lagos.
 Indicação e localização de elementos diversos que possam de alguma forma influir no custo
da estrada, como: tipo de vegetação, áreas cultivadas, acidentes geológicos ou geotécnicos
notáveis, obras de arte previstas, etc.
 Indicação e localização de benfeitorias, divisas de propriedades e outros elementos que
possam auxiliar na determinação dos custos de desapropriação da faixa.

Perfil Longitudinal
Para uma melhor visualização do projeto, o perfil longitudinal é um desenho deformado, onde a
escala vertical é maior que a escala horizontal adotada. É aconselhável o uso de uma escala
horizontal igual a adotada para a planta do trecho e uma escala vertical dez vezes maior que a
escala horizontal, assim, os acidentes verticais são destacados, resultando uma melhor visão do
projeto.
O perfil longitudinal consiste no desenho de:
 Perfil do terreno original sobre o eixo da estrada;
 Perfil da estrada (greide) com suas características geométricas e localização em relação a
planta;
 Perfil geológico e características dos materiais que possam influir no estudo da estabilidade
da estrada e no projeto de cortes e aterros;
 Indicação do estaqueamento e desenho esquemático da planta, para a localização dos
acidentes do perfil em relação aos da planta;
 Indicação de obras de arte previstas para o trecho;
 Cotas de obras existentes que interferem no projeto.

Seções Transversais
Devem ser desenhadas várias seções tipo, em pontos escolhidos, que permitam a perfeita definição
de todas as características transversais do projeto.
As seções transversais devem conter:
 Dimensões e indicações transversais das faixas de tráfego, pistas, acostamentos,
separadores centrais e demais elementos que compõem a plataforma da estrada;
 Taludes de cortes e/ou aterros;
 Áreas de cortes e/ou aterros;
 Indicação de eventuais obras de arte, obras de proteção de taludes e dispositivos de
segurança;
 Indicação e localização de dispositivos de drenagem;
 Posição de início de taludes e faixas de domínio;
 Outras informações necessárias à definição do projeto.
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1.2. Exploração

É a fase que engloba o estudo detalhado de uma ou mais faixas de terreno escolhidas para a
passagem da estrada. E onde são interpretados os dados obtidos na fase de reconhecimento. Com
esse conjunto de informações é iniciado o lançamento dos anteprojetos da estrada sobre plantas
topográficas das faixas escolhidas. O lançamento do anteprojeto segue normalmente a seguinte
sequência:
 Escolha dos pontos de interseção das tangentes (PI) em planta;
 Definição das coordenadas dos PI's;
 Marcação das tangentes entre os diversos PI's e o cálculo do comprimento das tangentes;
 Escolha dos raios mais convenientes para as curvas circulares;
 Cálculo das coordenadas dos pontos de curva e os pontos de tangência (PT);
 Cálculo do estaqueamento do traçado, distância entre estacas de 20m ou 50m;
 Levantamento do perfil do terreno sobre o traçado escolhido;
 Escolha do ponto de interseção das rampas (PIV);
 Determinação de cotas e estacas dos PIV's escolhidos;
 Cálculo das rampas resultantes: inclinação e extensão
 Escolha das curvas verticais, cálculo de cotas e estacas dos (PCV's) e (PTV's).

Trabalhos de Escritório
O trabalho de escritório referente às informações colhidas nos estudos topográficos tem por fim
organizar a planta detalhada da faixa levantada, com a representação do relevo do terreno, planta
esta que vai permitir projetar a diretriz da futura estrada e avaliar o custo provável da mesma.
Concluído os serviços de campo, as cadernetas são levadas ao escritório para trabalhos de
conferência e cálculos. Portanto, para a confecção dos desenhos será necessário calcular as
cadernetas de caminhamento, de nivelamento e contranivelamento, de seções transversais e de
amarração da poligonal.

1.3. Projeto Final

Consiste nos estudos e alterações visando corrigir todos os problemas identificados através da
locação. Praticamente é uma repetição da fase do projeto da exploração com alguns pontos
repensados e refeitos, concluindo desta forma todas as fases do projeto geométrico.

1.3.1. Projeto da exploração / execução do projeto

Diretriz

O eixo de uma futura estrada passa a ser definido como DIRETRIZ e é composto por sua Planta,
Perfil Longitudinal (Greide) e Seção Transversal (Plataforma).

A. Planta
Até o momento, tratamos de estrada em projeção horizontal (planta), como sendo uma sucessão
de trechos retilíneos com deflexões definindo as mudanças de direções, mas, sabemos que não
se pode fazer uma estrada só com alinhamentos retos, pois nos vértices da poligonal, os
veículos trafegantes teriam grandes dificuldades em mudar de direção. Por isso, os

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alinhamentos retos são concordados uns aos outros, por meio de curvas de concordância,
podendo-se ainda afirmar que a diretriz em planta é composta por uma sequência de trechos
retos intercalados por trechos curvilíneos. Os trechos retos são chamados de Tangentes e os
trechos em curva são chamados de Curvas de Concordância Horizontal, que, por sua vez,
podem ser diferenciadas em Curvas Circular e de Transição.

Curvas de concordância horizontal


Fonte: Pontes

B. PERFIL
Com base no perfil do terreno, o eixo da futura estrada é projetado verticalmente e passa a ser
representado pelo perfil longitudinal da diretriz ou linha gradiente ou ainda Greide como é
comumente denominado.
Semelhante a planta, em perfil os trechos retos projetados são concordados por trechos em
curvas, tornando as mudanças de inclinações suportáveis, mais suaves e confortáveis,
eliminando situações de perigo e danos aos veículos e aos usuários da estrada.
Os trechos retos do greide, em função das suas inclinações, recebem as seguintes
identificações:

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Patamar: trechos retos em nível.
Rampa ou Aclive: trechos retos em subida.
Contrarrampa ou Declive: trechos retos em descida.

Os trechos em curva que concordam dois trechos retos são chamados de Curvas de
Concordância Vertical.

Curvas de concordância vertical


Fonte: Pontes

C. SEÇÃO TRANSVERSAL (PLATAFORMA).


Seção transversal é a representação geométrica, no plano vertical, de alguns elementos
dispostos transversalmente em determinado ponto do eixo longitudinal. A seção transversal da
via poderá ser em corte, aterro ou mista como ilustrado nas Figuras abaixo.
As seções transversais são perpendiculares ao eixo, nas estacas inteiras, e indicam a linha do
terreno natural e a seção projetada na escala 1:100, com a indicação das cotas da
terraplenagem proposta, a indicação dos taludes, os limites das categorias de terreno, a faixa de
domínio (no caso de rodovias), as áreas de corte e aterro, o acabamento lateral da seção para
sua adaptação ao terreno adjacente, a largura da plataforma, a largura dos acostamentos, a
largura dos estacionamentos, a largura das calçadas e o alinhamento predial (vias urbanas).
Nas rodovias, a inclinação transversal mínima aconselhável de um pavimento asfáltico é 2%, e
1,5% no caso de pavimentos de concreto bem executado, podendo essa inclinação ir até 5% no
caso de rodovias com solo estabilizado O mais frequente é o uso de pistas com inclinação
transversal constante para cada faixa de rolamento e simétricas em relação ao eixo da via.

Seção transversal em aterro

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Seção transversal em corte

Seção transversal mista

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Topografia para Projeto de Estradas

Qualquer trabalho de engenharia civil, arquitetura ou urbanismo se desenvolve em função do terreno


sobre o qual se assenta como, por exemplo, obras viárias, núcleos habitacionais, edifícios,
aeroportos, usinas hidrelétricas, barragens, sistemas de água e esgoto, planejamento, urbanismo,
paisagismo, etc. Aí reside a importância da topografia: ela é a base inicial de qualquer projeto e de
qualquer obra realizada por engenheiros civis ou arquitetos.
O bom senso, o conhecimento da morfologia geológica de terreno e a boa observação permite que
se consiga, com poucos pontos levantados, representar com a fidelidade necessária, o terreno
observado com uma forma próxima, o máximo possível, de sua forma real.
Existem vários métodos para a representação do relevo de um terreno, sendo de uso corrente o
método das curvas de nível, que consiste em seccionar o terreno por um conjunto de planos
horizontais equidistantes, que interceptam a superfície do local, determinando linhas fechadas
sinuosas que recebem o nome de “curvas de nível”. Cada uma destas linhas, pertencendo a um
mesmo plano horizontal, tem, evidentemente, todos os seus pontos situados na mesma cota
altimétrica, isto é, estão no mesmo nível, desta maneira, as curvas de nível possibilitam representar o
relevo de uma área em sua planta planimétrica.

Plano de referencia

Estes planos horizontais são paralelos e equidistantes, e a distância entre dois planos paralelos é
chamada de equidistância vertical.
Eq. Vertical = 1m

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Quando se estuda o terreno, deve-se abordar a configuração do solo e seu conjunto, orientação
geral das serras, formas, altitudes e declive das elevações, trechos não montanhosos ou planos.

Denominações e definições topológicas de algumas formas de terreno.


Cordilheira - cadeia de montanhas de grandes altitudes.
Contraforte – montanha alongada que se destaca da cordilheira, formando uma cadeia de Segunda
ordem.

Espigão – contraforte secundário

Serra – cadeia de montanhas de forma alongada, cuja parte elevada aparenta dentes de serra.
Montanha – grande elevação de terra, de altura superior a 400 m.
Vértice ou cimo – ponto culminante da montanha pode ser arredondado (pico) ou pontiagudo
(agulha).
Maciço - conjunto de montanhas agrupadas em torno de um ponto culminante.
Morro – pequena elevação
Colina – pequena elevação, de 200 m a 400 m de altura, com declives pouco pronunciados quando
isolada numa planície ou planalto, recebe o nome de outeiro.
Planaltos – superfícies regulares, mais ou menos extensas, situadas a grandes altitudes.
Planícies - superfícies regulares, mais ou menos extensas, situadas a pequenas altitudes.
Vertentes - superfícies inclinadas que vem do cimo ate a base das montanhas.
Dorso ou divisor de águas – superfície convexa formada pelo encontro de duas vertentes

Dorso ou divisor de águas

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Vale – superfície côncava formada pelo conjunto de duas vertentes opostas, os vales podem ter
fundo côncavo, fundo de ravina ou fundo chato, conforme mostrado na figura abaixo.

Talvegue – Caminho do vale, e a linha de encontro de duas vertentes opostas, e a linha que recolhe
as águas que descem pelas duas encostas opostas do vale.

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