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A Ditadura Civil-Militar perante a história

A Ditadura Civil-Militar perante a história

Pesquisas em perspectiva

Organizadores:
Isadora Dutra de Freitas
Leonardo Fetter da Silva
Diagramação: Marcelo A. S. Alves
Capa: Carole Kümmecke - https://www.conceptualeditora.com/
Fotografia de Capa: Evandro Teixeira

O padrão ortográfico e o sistema de citações e referências bibliográficas são prerrogativas de


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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


FREITAS, Isadora Dutra de; SILVA, Leonardo Fetter da (Orgs.)

A ditadura civil-militar perante a história: pesquisas em perspectiva [recurso eletrônico] / Isadora Dutra de Freitas; Leonardo
Fetter da Silva (Orgs.) -- Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2020.

317 p.

ISBN - 978-65-87340-73-9
DOI - 10.22350/9786587340739

Disponível em: http://www.editorafi.org

1. Ditadura; 2. Regime militar; 3. História; 4. Estado; 5. Brasil; I. Título.

CDD: 900
Índices para catálogo sistemático:
1. História 900
Sumário

Prefácio ............................................................................................................................. 9
A ditadura civil-militar no Brasil e a pesquisa histórica nos dias atuais
Tatyana de Amaral Maia

1 ........................................................................................................................................ 13
Questão de “hierarquia e disciplina”? Considerações sobre o “fator marinheiro” no golpe
de 1964
Robert Wagner Porto da Silva Castro

2 ...................................................................................................................................... 45
Narrativas históricas em tempos autoritários: o discurso cívico-patriótico nas crônicas de
Pedro Calmon para O Cruzeiro e a ditadura civil-militar (1964-1968)
Mariana Canazaro Coutinho

3 ...................................................................................................................................... 67
Olavo Bilac e a Doutrina de Segurança Nacional: como o enquadramento de memória do
poeta colabora com um novo projeto de nação
Lara Coletto

4 ...................................................................................................................................... 82
Mulheres na política: quem foram as deputadas federais eleitas durante o bipartidarismo
(1965-1979)?
Taiane Fabiele da Silva Bringhenti

5 ..................................................................................................................................... 105
Propaganda política e gênero? representações sociais das mulheres brasileiras através da
propaganda oficial da ditadura militar (1964-1985)
Júlia Boor Nequete

6 ..................................................................................................................................... 123
Os cinemanovistas e as transformações no campo cinematográfico carioca decorrentes da
ditadura civil-militar (1964-1969)
Carolina Severo
7 ..................................................................................................................................... 146
"Filho de Deus, sobrinho de Satã": história e memória de Marconi Notaro entre a
contracultura dos anos 70, o Udigrudi, a cena musical e artística pernambucana, os
processos criativos e a vida em família
Carlos Eduardo da Silva Pereira

8 ..................................................................................................................................... 163
Humor gráfico e movimentos sociais: as greves e protestos através de charges políticas da
Folha de S. Paulo (1979-1984)
Fábio Donato Ferreira

9 ..................................................................................................................................... 181
Os reflexos da parceria entre o Brasil e a República Popular da China na grande imprensa:
uma análise sobre a política externa do Governo Geisel (1974-1979)
Pricila Niches Müller

10 ................................................................................................................................... 204
Conflito às margens da tríplice fronteira: as relações entre Brasil e Argentina quanto ao
aproveitamento hidrelétrico dos rios internacionais de curso sucessivo (1966-1979)
Bruna Gorgen Zeca
Gabriel Gaziero

11 ................................................................................................................................... 228
Aos sujeitos debaixo do palanque: crescimento da cidade e pobreza (Porto Alegre, 1975-
1979)
Alexandra Lis Alvim

12 ................................................................................................................................... 249
Os bens culturais na ditadura brasileira: as diretrizes para a descentralização da
Secretaria da Cultura
Jeaniny Silva dos Santos

13 .................................................................................................................................... 271
Controle e sigilo sobre os direitos humanos: a inoperância do Conselho de Defesa dos
Direitos da Pessoa Humana na ditadura civil-militar (1964-1985)
Leonardo Fetter da Silva

14 ................................................................................................................................... 294
A propaganda como ferramenta política: a contribuição da Agência Nacional para a
consolidação do discurso autoritário da ditadura civil-militar (1964-1979)
Isadora Dutra de Freitas
Prefácio

A Ditadura Civil-Militar no Brasil e


a pesquisa histórica nos dias atuais

Tatyana de Amaral Maia 1

Em dias tão sombrios, marcados pelo negacionismo histórico que


ataca, sobretudo, os Direitos Humanos no Brasil, esta coletânea reúne o
que de mais recente tem se produzido nos Programas de Pós-Graduação
da Escola de Humanidades da Pontifícia Universidade Católica do Rio
Grande do Sul. Reunindo trabalhos de mestrandos, mestres e doutoran-
dos, em formação e/ou formados nesta Escola, a coletânea traz diferentes
objetos da chamada História Política Renovada e da História do Tempo
Presente.
Agradeço imensamente o convite aos organizadores desse livro, Isa-
dora Dutra de Freitas e Leonardo Fetter da Silva, meus orientandos desde
a graduação. Trabalhar com jovens e promissores historiadores me en-
chem de alegria. Vê-los trilhando suas trajetórias com rigor acadêmico,
compromisso ético e político na defesa dos Direitos Humanos e no com-
bate ao autoritarismo é uma satisfação profissional incomensurável.
A renovação da História Política desde meados dos anos de 1980 pos-
sibilitou ao historiador a requalificação do seu fazer, trazendo consigo a
possibilidade de estudos sobre o Tempo Presente e sua dinâmica com ou-
tros tempos históricos. Neste processo de requalificação, vivenciado após
a Segunda Guerra Mundial, a valorização da democracia, da defesa dos

1
Professora adjunta da Escola de Humanidades e do PPGH/PUCRS
10 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

direitos humanos, do direito à memória e à verdade histórica, do testemu-


nho e do lugar da vítima na História marcaram o fazer histórico sobre o
Tempo Presente. No que diz respeito às pesquisas sobre as ditaduras do
Cone Sul, as diferentes formas de aplicação da “Justiça de Transição”, as-
sim como as diferentes transições políticas para a democracia têm
marcado o acesso dos pesquisadores aos documentos oficiais sobre o perí-
odo e, por conseguinte, as pesquisas históricas.
A abertura e digitalização de importantes conjuntos documentais so-
bre o período ditatorial brasileiro favoreceram o desenvolvimento de
novas pesquisas associadas às múltiplas contribuições trazidas pela Histó-
ria Política renovada – ainda que seja fundamental abrir arquivos da
repressão ainda sob sigilo. Jovens historiadores, cientistas sociais e filóso-
fos podem se debruçar sobre arquivos recém-abertos e ainda
inexplorados, além de contar com a riqueza da História Oral para compre-
ender um dos mais terríveis períodos da História do Brasil: os vinte e um
anos da ditadura civil-militar. Iniciada com o golpe de 1964, que pôs fim a
tentativa de implementação de um conjunto de reformas de base que fa-
voreceriam a expansão da cidadania, a ditadura, dentre outras ações,
promoveu a adoção do terrorismo de Estado (em especial, a partir de
1968), ampliou a concentração de renda e a desigualdade social e cercou
as liberdades artísticas e de imprensa. Períodos duros para uns, de enri-
quecimento para outros – com destaque para segmentos do empresariado;
intelectuais alinhados à direita; políticos conservadores; setores das clas-
ses médias; capital financeiro e especulativo.
O processo de redemocratização iniciado a partir de 1974, sob o con-
trole do Estado, não significou o fim das violações de direitos humanos.
Até o presente momento, registra-se inúmeras ações estatais de abusos de
autoridade, impunidade e graves violações de direitos humanos, em espe-
cial, na segurança pública. No Brasil, são os grupos mais vulneráveis da
sociedade, em especial, as populações indígenas e afrodescendentes os
mais afetados pela violência de Estado. É inegável que o Estado ainda adota
limitadas políticas públicas de inclusão social, gerando a manutenção da
Tatyana de Amaral Maia | 11

desigualdade social e do racismo estrutural. As mulheres também enfren-


tam uma enorme desigualdade de gênero, sendo as principais vítimas de
violência doméstica. Nesses trinta e cinco anos de democracia, as políticas
públicas não foram capazes de garantir o pleno acesso à educação para
todas as crianças e jovens e nem eliminar por completo o trabalho infantil.
Ao lado das mulheres, as crianças são objeto de constante violência física,
sexual e psicológica. Ao mesmo tempo, a existência de políticas cidadãs,
ainda que limitadas, vivenciadas nas últimas décadas, ocorreram graças à
ação dos movimentos sociais que emergiram no contexto da redemocrati-
zação e passaram a defender múltiplas e diversas pautas, formando a
chamada “Nova Esquerda”. Os movimentos sociais e de Direitos Humanos
foram fundamentais para construção de uma Constituição Cidadã. No en-
tanto, a crise econômica e política a partir do segundo governo Dilma
Rousseff (2014-2016) levou a emergência de grupos de extrema-direita e
a eleição de Jair Bolsonaro em 2018. Desde de 2014, o Estado democrático
de Direito vem sendo corroído com o apoio de setores da grande mídia e
de setores do judiciário que fomentaram a descrença da população na via
democrática e na política como necessárias para a produção do bem-estar
coletivo. Em parte, o projeto neoliberal vem avançando com as reformas
da previdência, a trabalhista e com projetos de Estado mínimo. Num país
marcado por imensas desigualdades sociais, o avanço do neoliberalismo
tem marcado uma série de retrocessos com a precarização do mundo do
trabalho, do sistema de saúde e a ameaça aos sistemas de ensino básico e
superior federal, esses últimos exemplos de boas práticas em ensino, pes-
quisa e extensão.
Diante de um quadro tão complexo e desanimador, encontramos jo-
vens pesquisadores empenhados em revisitar a ditadura, expondo a
tradição autoritária brasileira, identificando suas práticas, ideologias, ato-
res civis e militares e também as formas de resistência promovida por
diferentes setores sociais.
12 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

Assim, encontramos pesquisas alinhadas à seis eixos principais, todos


relacionados à História Política, porém, em diálogo com os campos da His-
tória Social, História Social da Cultura e História Econômica. A partir de
diversas fontes e recortes temáticos, os pesquisadores aqui reunidos ex-
põem os resultados parciais ou finais de suas pesquisas, demonstrando a
pluralidade dos debates sobre a ditadura e reconhecendo a necessidade de
produzir novas reflexões, assim como a popularização desse conheci-
mento. Esse livro, portanto, é uma leitura importante para aqueles que
pretendem conhecer como as Humanidades podem contribuir para nossa
sociedade no presente, buscando construir reflexões sobre as experiências
do passado recente para enfrentar melhor os desafios que vivemos hoje –
e que são muitos.
Esta coletânea também traz uma esperança na capacidade produtiva
das novas gerações de historiadores brasileiros. Afinal, trazem ao público
o resultado de pesquisas sérias, comprometidas com a ética, o uso rigoroso
das fontes e do arsenal teórico-metodológico disponíveis na elaboração de
seus trabalhos. Dessa forma, combatem o negacionismo sobre a existência
e os horrores produzidos pela ditadura brasileira e contribuem para o de-
senvolvimento da produção historiográfica recente. Boa leitura a todos!
1

Questão de “hierarquia e disciplina”?


Considerações sobre o “fator marinheiro” no golpe de 1964

Robert Wagner Porto da Silva Castro 1

No quadro dos acontecimentos que desdobraram no golpe civil-mili-


tar de 1964 e, consequentemente, conduziram o Brasil a uma “tormenta”
que duraria mais de vinte anos, cujas memórias ainda se encontram em
franca disputa atualmente. A mobilização de militares integrantes das gra-
duações2 iniciais3 da carreira naval brasileira, membros e apoiadores da
Associação de Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil (AMFNB), se re-
veste de fundamental importância para quaisquer análises acerca do
referido golpe de Estado. Especialmente em função do processo de radica-
lização do movimento “fuzinauta”4 que, como poderemos observar mais
adiante, na esteira da crise entre a alta administração naval e sua associa-
ção, foi interpretado como instrumento político de desestabilização por
meio da subversão da hierarquia e da disciplina das Forças Armadas. Foi
nesse cenário que a AMFNB adquiriu notoriedade na cena pública, mas

1
Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em História da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do
Sul. Bolsista CAPES.
2
Conforme previsto no Parágrafo Único do artigo 15 do Decreto-Lei nº 9.698, de 2 de setembro de 1946 – Estatuto
dos Militares, posto é o grau hierárquico dos oficiais e graduação é o grau hierárquico dos praças.
3
Consideradas, no presente estudo, as graduações anteriores a de terceiro-sargento – cujo ascenso se dava somente
mediante o cumprimento de alguns requisitos e da aprovação em exame de habilitação à promoção – a saber: gru-
metes, taifeiros, marinheiros, soldados (fuzileiros navais) e cabos. Conforme previsto nos artigos 7º e 8º do Decreto
do Conselho de Ministros nº 205, de 23 de novembro de 1961 – Regulamento do Corpo do Pessoal Subalterno da
Armada e no artigo 1º do Decreto nº 28.880 de 20 de novembro de 1950 – Regulamento do Corpo do Pessoal Subal-
terno do Corpo de Fuzileiros Navais.
4
Termo empregado na Marinha para fazer referência a algo comum a marinheiros e fuzileiros navais.
14 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

especificamente por ocasião da assembleia realizada no dia 25 de março


de 1964, em celebração pelo segundo aniversário de sua fundação.
Basilares em quaisquer instituições de natureza militar, a hierarquia
e a disciplina são conceitos estruturantes da atividade das Forças Armadas
e estavam assim manifestas na própria Constituição5 e no Estatuto dos
Militares6 vigentes à época. Desse modo, a virtual ameaça a esses dois pi-
lares foi amplamente explorada junto à opinião pública nacional às
vésperas do golpe. Sobretudo pelos setores da sociedade contrários à polí-
tica reformista do então presidente da República, João Goulart, no sentido
de aglutinar segmentos militares que divergiam internamente em relação
à opção pela ruptura democrática em detrimento da manutenção da lega-
lidade.
No que concerne às fontes empregadas neste estudo, foram utilizadas
documentações oficiais da associação “fuzinauta”, legislações e editori-
ais/materiais publicados em veículos de imprensa com grande circulação
no Rio de Janeiro e outros centros do país à época.
A pesquisa sobre fontes de memórias daqueles que experienciaram
esse instante histórico assume papel preponderante neste estudo. Em es-
pecial aquelas atinentes às narrativas de oficiais7 que, em alguma medida,
participaram efetivamente do processo de ruptura democrática, e ainda de
membros e apoiadores da AMFNB.
Trabalhadas aqui a partir do ferramental metodológico oferecido pela
História Oral, essas fontes serão empregadas enquanto meio para uma
história “militante, solução para dar voz às minorias e possibilitar a exis-
tência de uma História vinda de baixo” (ALBERTI, 2011, p. 157). No sentido
de possibilitar emergir as memórias desses praças, integrantes de um seg-
mento de militares da Marinha brasileira silenciado na arena de disputa

5
Artigo 176 da Constituição dos Estados Unidos do Brasil de 1946.
6
Artigo 13 do Decreto-Lei nº 9.698, de 2 de setembro de 1946 – Estatuto dos Militares.
7
Entrevistas realizadas no contexto do projeto “Visões do Golpe: a memória militar sobre 1964”, organizado por
Maria Celina D’Araujo, Gláucio Ary Dillon Soares e Celso Castro. Ver: D’ARAUJO, Maria Celina, SOARES, Gláucio Ary
Dillon e CASTRO, Celso (Orgs.) Visões do Golpe: a memória militar sobre 1964. Rio de Janeiro: Relume-Dumará,
1994.
Robert Wagner Porto da Silva Castro | 15

entre as memórias acerca do golpe de 1964 e sem espaço na memória que


hoje se apresenta como hegemônica sobre essa passagem de nossa histó-
ria. E ainda, sob o prisma de uma História Social Militar, ensejar uma
melhor compreensão de aspectos relacionados à vivência cotidiana daque-
les marinheiros e fuzileiros navais em uma realidade interna à instituição
naval brasileira marcada por relações de dominação e resistência estabe-
lecidas entre oficiais e subalternos8, principalmente com aqueles de menor
graduação e a bordo dos navios. Espaços que têm a característica de se
constituir, de maneira simultânea, enquanto local de labor e moradia para
esses militares, principalmente durante os longos períodos no mar. Confi-
gurando assim um microcosmo onde são estabelecidas relações sociais de
diversas naturezas, especialmente aquelas afetas ao trabalho9.
O caráter consideravelmente tensionado das relações sociais
estabelecidas entre oficiais e subalternos, particularmente marinheiros,
estava no cerne da crise social há muito latente no seio da Armada.
Remontando à própria gênese da instituição, cujos modos de
recrutamento10 e processos de formação militar-naval, além de
significativamente distintos, se davam nos extremos da pirâmide social
brasileira. Assim, na medida em que as diferenças étnico sociais entre
oficiais e marinheiros se apresentavam como um “oceano” que separava
os dois segmentos. As relações entre eles se caracterizavam por uma
tensão que transcendia aspectos afetos exclusivamente à caserna,
espraiando-se para uma lógica de hierarquia social que transbordava os
limites da instituição. Ao abordar os levantes ocorridos na Marinha, mais

8
Denominação atribuída aos praças, conforme expresso nos Regulamentos do Pessoal Subalterno do Corpo da Ar-
mada e do Corpo de Fuzileiros Navais.
9
Um dos principais motivos para a mobilização em tela ter sido constituída majoritariamente por marinheiros, in-
clusive na estrutura administrativa da associação “fuzinauta”, em detrimento de uma presença notadamente menor
de fuzileiros navais. Ver: CASTRO, Robert Wagner Porto da Silva. Associação de Marinheiros e Fuzileiros Navais do
Brasil: identidades em uma luta submersa. In: CASTRO, Robert Wagner Porto da Silva e NASCIMENTO, Moacir Silva
do (Orgs.). Marinheiros e cidadania no Brasil: contribuições para uma história social militar-naval. Curitiba: Editora
CRV, 2020.
10
Sobre recrutamento de praças e a questão étnico social na Marinha, ver: NASCIMENTO, Álvaro Pereira do. Recru-
tamento para a Marinha brasileira: República, cor e cidadania. In.: MUGGE, Michéias H. e COMISSOLI (Orgs.),
Adriano. Homens e armas: recrutamento militar no Brasil século XIX. São Leopoldo: Oikos, 2011. e NASCIMENTO,
Álvaro Pereira do. Cidadania, cor e disciplina na Revolta dos Marinheiros de 1910, Rio de Janeiro: Mauad, 2008.
16 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

especificamente a Revolta de Marinheiros de 191011, José Murilo de


Carvalho (2006, p. 52-53) coloca como problema central esse
relacionamento tensionado entre oficiais e praças que, em uma estrutura
política interna dualista, estavam dispostos em lados opostos da
organização. Em suas palavras:

As praças eram de fato recrutadas entre as camadas proletárias da população,


diferentemente do que acontecia com os oficiais. [...] Como a socialização nos
princípios da disciplina não era suficientemente forte para superar a consci-
ência da exploração, o conflito permanecia latente e podia explodir quando
surgisse conjuntura favorável. (CARVALHO, 2006, p. 69)

Buscaremos perceber a AMFNB enquanto produto de um processo de


identificação que remonta a uma longa “singradura” de lutas desses pra-
ças, mormente no que concerne a avanços em direitos e garantias sociais,
além de questões afetas à carreira e condições de trabalho. Em um quadro
marcado por uma rígida hierarquia social e, consequentemente, como já
mencionado, por relações de dominação e resistência internas à Marinha.
Sem desconsiderar suas experiências de vida e trabalho, ou seja, sua coti-
dianidade como parte integrante de um processo de contraposição à
realidade na qual estavam inseridos.
Tendo em conta que a resistência pode ser entendida enquanto ma-
nifestação individual ou coletiva, podendo se apresentar em ações
deliberadas e em práticas com sentido e lógica próprios (CHAUI, 1986, p.
63). Podemos ponderar que, na situação em exame, ela está diretamente
relacionada às práticas cotidianas empreendidas por esses militares, ma-
rinheiros e fuzileiros navais. Especialmente quando consideramos que:

O cotidiano é a vida de todos os dias; dos gestos, ritos e ritmos repetidos dia-
riamente. Seu espaço é o do automático, da rotina, do instintivo, do familiar,
do conhecido [...] esta sucessão repetitiva do dia a dia comporta conteúdos

11
Popularmente conhecida como “Revolta da Chibata”, ver: MOREL, Edmar. A Revolta da Chibata. Rio de Janeiro.
São Paulo: Paz e Terra, 2016; MARTINS, Hélio Leôncio. A Revolta dos Marinheiros 1910. Rio de Janeiro: Brasiliana,
1988 e NASCIMENTO, Álvaro Pereira do. Cidadania, cor..., op. cit.
Robert Wagner Porto da Silva Castro | 17

bastante heterogêneos: engloba a vida familiar, o trabalho, as relações de vizi-


nhança, o lazer, entre outros aspectos. Além disso, no cotidiano, o homem
pode permanecer imerso na alienação (favorecida pelo automatismo das ati-
vidades diárias), sujeitando a mecanismo de disciplina, mas também pode
exercer sua criatividade e criar formas de resistência à ordem estabelecida
(uma “anti-disciplina”) (sic.). (SCHIMIDT, 1996, p. 48-49) [grifo do autor]

Essencial na medida em que se vincula à construção da identidade de


determinados grupos (ALBERTI, 2011, p. 167), no caso específico em tela a
memória aparece atrelada a um quadro de identificação por parte de inte-
grantes de um segmento específico de militares. O qual culminou em um
processo de mobilização organizada em torno de uma entidade de cunho
assistencial e representativo. Que, a partir de uma leitura própria do ins-
tante político vivenciado pelo país à época e em um cenário de acentuada
mobilização social, transbordaria suas reivindicações para a arena política.
Evidenciando que, pouco mais de cinco décadas após as emblemáticas re-
voltas da “Chibata” e do Batalhão Naval12, a delicada questão social que
seguia latente no íntimo da força naval brasileira ainda era capaz de – uma
vez mais – levar a marujada a “encapelar os mares”.
Desejo que estas linhas possam contribuir no sentido de, para
além de oportunizar algumas considerações e questionamentos acerca das
interpretações e usos políticos dos conceitos de hierarquia e disciplina na-
quele cenário significativamente tensionado, conferir espaços para que
vozes de parcelas da sociedade, ainda relativa ou absolutamente silencia-
das em ambientes de intensa disputa de memórias, possam se fazer ouvir.
Trazendo à “tona” aspectos importantes de uma trajetória de lutas ainda
muito “submersas” de marujos e fuzileiros, filhos das camadas sociais mais
basilares da sociedade brasileira.
Para tanto, a fim de apresentar ao leitor alguns aspectos fundamen-
tais desse quadro, cabe primeiro historiar brevemente sobre a constituição
da AMFNB e as reivindicações de marujos e fuzileiros, que embasaram a

12
Movimento de praças da Marinha ocorrido no Batalhão Naval, dias depois da Revolta da Chibata. Ver: SAMET,
Henrique. A Revolta do Batalhão Naval. Rio de Janeiro: Garamond, 2011.
18 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

organização da entidade e evidenciam a questão social interna à Marinha


do Brasil.

As demandas dos “sapatos pretos13”

Ponto central das motivações para as principais mobilizações de pra-


ças na Marinha do Brasil durante o século XX, as tensões que fermentaram
durante décadas no seio da instituição podem ser melhor compreendidas
quando observamos as demandas apresentadas por marujos e fuzileiros
nesses momentos de crise. As quais, no entendimento do ex-marinheiro e
uma das principais lideranças do movimento “fuzinauta”, Avelino Bioen
Capitani (1997, p. 17) tinham suas raízes na estrutura social da instituição
que não acompanhou seu progresso tecnológico. Em suas palavras:

A Marinha evoluiu tecnicamente por necessidade, mas manteve o marinheiro


na antiga e arcaica estrutura social de mando, sufocando problemas e reivin-
dicações de quase um século. A velha ordem imperial persistia na Marinha
apesar do progresso da humanidade.

Fundamentalmente relacionadas às questões afetas à carreira, condi-


ções de trabalho e avanços em direitos e garantias sociais. As
reivindicações desses subalternos navais, em especial aqueles que serviam
embarcados, evidenciam uma vivência cotidiana que, sobre o esteio de re-
gulamentos, tradições e simbolismos, buscava reafirmar a relação de
dominação e o abismo social existente entre esses militares e a oficialidade.
Em instituições tão marcadas por referenciais simbólicos e tradicionais,
alguns desses aspectos acabavam por definir e reforçar posições favoráveis
a determinadas realidades ou status quo vigentes (RANGER, 2006, p.
229). Na Marinha do Brasil, no que toca ao presente estudo, esses simbo-
lismos são deveras relevantes para a compreensão das “normas surdas”

13
O Decreto nº 34.868 de 31 de dezembro de 1953 – Regulamento de Uniformes para a Marinha do Brasil, preconi-
zava para oficiais, suboficiais e sargentos a utilização de sapatos brancos em conjunto com a farda branca,
característica da força naval. Enquanto cabos, marinheiros, soldados, taifeiros e grumetes deveriam utilizar o calçado
preto, quando utilizando o referido uniforme. Considerando que, na formação da Marinha brasileira, a grande mai-
oria dos praças era composta por negros ou pardos, o fato de manter seus pés “negros” quando fardados de branco,
aparentando estarem descalços, reveste-se de grande simbolismo.
Robert Wagner Porto da Silva Castro | 19

(THOMPSON, 2001, p. 235) que permeavam as relações entre oficiais e


marinheiros. Visto que tendiam a reforçar uma disciplina que atuava no
sentido de cimentar não apenas a subordinação caracteristicamente mili-
tar, mas também uma subalternidade e, consequentemente, hierarquias
sociais que transcendiam o âmbito militar e às relações estabelecidas in-
ternamente à instituição.
Uma vez mais, a memória se apresenta enquanto elemento indispen-
sável no presente exame na medida em que nos permite observar o quadro
em tela para além da letra fria dos regulamentos navais. Possibilitando,
como poderemos observar nas páginas seguintes, a percepção do modo
como, na prática cotidiana, essas normas se constituíam enquanto susten-
táculos das condições de significativa precariedade profissional e
vulnerabilidade social em que, há tempos, se encontravam muitos desses
subalternos.
Entre seus principais pleitos podemos destacar os seguintes: contrair
matrimônio14 sem a necessidade de autorização de autoridade competente,
trajar roupas civis quando fora do horário e do local de trabalho15, melho-
res condições de trabalho e conforto a bordo, garantia do acesso aos
estudos e a reformulação do Regulamento Disciplinar para a Marinha
(RDM). Demandas que impactavam sobremaneira nas condições e pers-
pectivas de trabalho e carreira daqueles militares e, ao fim e ao cabo, em
sua própria realidade social, conforme poderemos notar nos trechos de
narrativas de memórias que se seguirão a partir deste momento.
No que tange às reivindicações e à própria natureza da associação, o
ex-marinheiro Paulo Fernando da Costa16 afirma em sua narrativa que:

[...] a associação pra quem queria algo diferente na Marinha, poder estudar
[...] Só que as reivindicações, nós não podia andar civil na rua, era umas das

14
Item 52 do Art. 7º do Decreto nº 38.010, de 5 de outubro de 1955, que aprovou o Regulamento Disciplinar para a
Marinha (RDM).
15
Item 39 do Art. 7º do RDM.
16
Paulo Fernando Santos da Costa, gaúcho da cidade de Rio Grande. Ingressou na Marinha no ano de 1961 por meio
da Escola de Aprendizes-Marinheiros de Santa Catarina, situada na cidade de Florianópolis. Atualmente se encontra
na condição de militar reformado, por força de ação na justiça.
20 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

reivindicações era andar civil. [...] Então era uma série de regras, você não
podia casar, o pessoal não podia, era proibido casar. Então tinha uma série de
reivindicações que a associação fazia. Servir, por exemplo, em locais de ori-
gem. [...] (sic.)

A questão de “servir em locais de origem” se refere ao fato de que,


quando os militares oriundos de outros estados chegavam ao Rio de Ja-
neiro17, após a conclusão do período inicial de formação militar-naval,
dificilmente conseguiam regressar às suas cidades de origem, mesmo du-
rante o período de férias, haja vista seus baixos salários. Permanecendo,
em muitos casos, anos na cidade do Rio de Janeiro sem sequer visitar seus
familiares.
A maioria daqueles que serviam embarcados ficava na dependência
de algum navio que viajasse para a sua cidade natal ou locais próximos
para que, mediante autorização de seu comandante e vaga disponível no
navio que realizaria a viagem, pudesse ser destacado nessa embarcação e,
enfim, visitar sua família durante alguns dias. O seguinte trecho da narra-
tiva do “Entrevistado B”18 ilustra bem essa situação. O ex-marinheiro
relata uma audiência com José Uzeda de Oliveira, comandante do cruzador
Tamandaré no ano de 1962, navio em que o entrevistado servia à época:

[...] Uma vez eu fui pro livro de ocorrência19. Cheguei lá, começamos a con-
versar e ele disse: “Da onde é que tu é?” Eu disse: “Ah eu sou do Rio Grande
do Sul, de Pelotas.” E ele disse: “Tu tem ido em casa?” Eu digo: “Não. Nas férias
eu fico por aqui mesmo. Não vou em casa.” Ele disse: “Mas tu não vai em
casa?” Digo: “Não.” Ele: “Quanto tempo faz?” Parece que fazia uns oito anos
que eu não vinha aqui. Ele disse: “Não, mas tu tem que ir em casa. Peraí um
pouquinho.” Chamou o ajudante dele lá e disse: “Vê se tem algum navio que

17
Onde se situava – e ainda se situa – a sede da Esquadra Brasileira, as principais Organizações Militares de terra da
Força Naval e, portanto, a maior parte do contingente da Marinha.
18
“Entrevistado B” é o pseudônimo adotado para garantir o anonimato perpétuo, condição imposta para que fosse
realizada a entrevista. Gaúcho da cidade de Pelotas, ingressou na Marinha no ano de 1961 por meio da Escola de
Aprendizes-Marinheiros de Santa Catarina, situada na cidade de Florianópolis. Atualmente se encontra na condição
de militar reformado
19
Documento onde eram lançadas as faltas disciplinares cometidas pelos militares para que estes fossem à audiência
com o comandante do navio ou quartel. O referido comandante era o responsável, à luz dos regulamentos discipli-
nares, por admoestar ou punir o eventual contraventor.
Robert Wagner Porto da Silva Castro | 21

sai pro sul agora.” Aí ele me disse: “Vai embora que depois eu vou mandar te
chamar pra nós conversar aqui.” Eu disse: “Tá bom.” Fui embora. Passou uns
dois dias ele mandou me chamar e disse: “Arruma tuas coisas que tu vai ser
destacado no contratorpedeiro Bauru que vai pro sul. Vai lá pra ver a tua fa-
mília. Ele vai a Pelotas, o Bauru”. Eu digo: “Então tá.” Aí fui. [...] (sic.)

Esse afastamento em relação às suas origens, associado à questão sa-


larial, se desdobrava em outros tantos aspectos de suas vidas. Conforme
ilustra Paulo Costa ao relatar uma das muitas dificuldades enfrentadas,
especialmente por aqueles que residiam a bordo, chamados de “mexi-
lhões”20:

[...] Eu ganhava meio salário mínimo no Tamandaré. O navio atracado a la-


vanderia de bordo não funcionava, vinha lavadeiras pro cais pra pegar a roupa
dos marinheiros, mas nós não tinha como pagar. Então, o que nós fazia? Ou
nós pagávamos com peças de roupas, de roupas nossas que eram cedidas, ou
com alimentos que eram cedidos todo fim de semana; era lata de goiabada,
lata disso, lata daquilo; fazia um escambo [...] pra poder tua roupa ser lavada.
[...] Mas nós éramos obrigados a fazer isso pra poder manter o uniforme em
dia. [...] (sic.)

A situação apresentada pelo entrevistado ilustra bem um ditado


muito recorrente entre os militares da Marinha do Brasil, que diz: “A Ma-
rinha mandou marchar, não mandou chover!”. Ou seja, não importa se
aqueles marinheiros que residiam nos navios não tinham onde lavar suas
fardas ou dinheiro para pagar pelo serviço. O regulamento disciplinar21
exigia que eles estivessem com seus uniformes devidamente alinhados,
sob pena de serem impedidos de deixar suas unidades por ocasião do tér-
mino do expediente ou até mesmo punidos administrativamente, com
prejuízo às suas carreiras.
Outro aspecto que também concorria no sentido de deixar patente a
distância que separava oficiais e marinheiros, eram as condições de traba-
lho e habitabilidade nas unidades navais, sobretudo nos navios da Armada.

20
Marisco comumente encontrado vivendo preso aos cascos dos navios.
21
Itens 39 e 40 do Artigo 7º do RDM.
22 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

Ao ser questionado sobre tais condições no navio em que servia, Paulo


Costa utilizou uma expressão que denota a significativa diferença entre os
dois segmentos. Afirmando que “existia (sic.) duas Marinhas”, ele se refere
aos privilégios e conforto desfrutados pela oficialidade em detrimento das
péssimas condições de trabalho e acomodação oferecidas aos marinheiros.
Devido ao pouco espaço e ao elevado número de militares a bordo
dos navios de guerra, oficiais e praças eram distribuídos em diferentes lo-
cais de convivência e habitação, considerando-se a antiguidade nos postos
e graduações no que concerne ao conforto a bordo. Sendo assim, aos pra-
ças das graduações iniciais eram reservados alojamentos coletivos e
banheiros comuns. Tal situação se evidencia em relatos como o de Antônio
Duarte (2005, p. 92):

O espaço reservado aos marinheiros eram os alojamentos e beliches apodreci-


dos pelo uso de décadas e privadas coletivas, uma valeta comum. Para os
oficiais, ainda se conservava o conforto dos camarotes e banheiros individuais.

A possibilidade de dar seguimento aos seus estudos era talvez o ponto


mais sensível para os marinheiros. Tendo em conta, principalmente, a as-
censão à graduação de sargento, na qual obtinham algumas prerrogativas
e ainda alcançavam significativa melhora salarial e maior estabilidade na
carreira.
Entretanto, não obstante as dificuldades apresentadas pela própria
natureza da atividade marinheira, o acesso às salas de aula se observava
deveras dificultoso também em razão do modo como eram aplicados os
regulamentos, mormente o RDM. Entre as limitações que lhes eram im-
postas por essas normas, destaco as seguintes: impedimento de usar traje
civil mesmo fora dos navios ou quartéis; proibição de transitar pelas ruas
após determinados horários, sob pena de serem detidos e recolhidos ao
Presídio da Marinha; e vedar o casamento sem o prévio conhecimento e
devida permissão de autoridade competente. No seguinte trecho de sua
narrativa, o “Entrevistado B” relata uma ocasião em que foi preso por não
estar trajando seu uniforme militar no meio civil:
Robert Wagner Porto da Silva Castro | 23

[...] Eu, uma vez, o meu oficial, da minha divisão, me prendeu e mandou eu
me apresentar no navio porque eu tava paisano na frente do Ministério da
Marinha. Eu tava na rua, em frente ao ministério, ele passou e me prendeu.
Que não podia andar a paisano ali. [...] (sic.)

Com tantos óbices e sem o apoio formal da instituição, parte desses


militares que desejassem estudar dependia da simpatia de seus superiores
para frequentar as salas de aula. Condição que não era usual, como relata
Avelino Capitani (1997, p.19):

[...] A maioria dos oficiais era contrária a que os marinheiros estudassem. Para
sair da repartição após o expediente, o marinheiro tinha que passar pela ins-
peção do oficial de serviço. Se este percebesse que o marinheiro estava
estudando, aumentava as dificuldades para a saída. Todos em forma, o oficial
passava revista e dizia: “Teu chapéu tem uma pequena sujeira”. O marinheiro
voltava ao alojamento e só depois de uma hora poderia tentar sair novamente.
[...]

Paulo Costa também relata como sofreu com essa prática:

[...] esse oficial da primeira divisão começou a pegar no meu pé, entendesse.
Começou a pegar no meu pé e [...] Dava licença e eu ia formar; por que lá você
pra baixar terra22 no Tamandaré, você tinha que formar e o oficial vinha te
vistoriar de cima a baixo pra ver como é que tu tá pra poder sair. Esse oficial
chegava e ele olhava, se eu tava ele passava pelos outros e olhava eu, dizia:
“Paulo, vem aqui.” E sempre arrumava uma desculpa: “Vai engraxar o sapato,
vai cortar o cabelo”; e eu não conseguia baixar terra [...] (sic.) [Grifo meu]

Por “tradição”, muitas vezes institucionalizada por meio de normas


internas de cada unidade, todos os praças nas graduações iniciais deve-
riam formar no convés (ou local previamente estabelecido) a fim de serem
inspecionados para que, só então, pudessem deixar seu navio ou quartel

22
Termo utilizado na Marinha, mesmo em estabelecimentos em terra, para referir-se a sair de bordo, isto é, sair do
navio ou quartel. Remontando ao período da propulsão à vela, quando os navios permaneciam fundeados ao largo
do porto e, nessa condição, o licenciamento da tripulação era realizado por meio de escaleres, que baixavam do navio
a fim de conduzir o pessoal de bordo à terra. Procedimentos que, fundamentados em “tradições”, ainda na década
de 1960 eram comuns aos navios e estabelecimentos de terra da Marinha, sendo mais ou menos rigorosos conforme
o perfil do comandante e demais oficiais da unidade.
24 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

ao final do expediente. Essa inspeção, normalmente a cargo do oficial de


serviço no dia, consistia na verificação das condições relativas à apresen-
tação pessoal do militar, ou seja, barba, cabelo e uniforme. Além de
inspecionar eventuais volumes particulares que esses militares estivessem
levando consigo, a fim de que fosse possível verificar se não sairiam com
algum material de propriedade da Marinha, sem a devida autorização.
Não obstante as referidas inspeções, existiam ainda horários para que
os praças pudessem deixar o navio ao final do expediente. Isto é, nos re-
gulamentos que estabeleciam as rotinas de cada organização militar da
Marinha, existiam horários preestabelecidos para que esses militares pu-
dessem “baixar terra”. Caso, por qualquer motivo, um militar perdesse um
desses horários, ele somente poderia sair no próximo – normalmente uma
hora depois – quando passaria por uma nova inspeção.
Além do acesso aos estudos, os marinheiros também reivindicavam
a reformulação dos regulamentos, especialmente do RDM, que, em razão
da notada discricionariedade quanto à sua aplicação, causava constrangi-
mentos e significativos prejuízos às carreiras de muitos militares devido à
possibilidade de ser aplicado de maneira diferenciada de acordo com as-
pectos notadamente subjetivos. Nas palavras de Avelino Capitani, se
aplicava o RDM dependendo “do humor ou da ideologia dos oficiais” (1997,
p.18).
Nesse quadro, o excessivo rigor eventualmente dispensado aos mari-
nheiros por ocasião da aplicação do Regulamento Disciplinar, concorria
para que permanecessem em uma condição de constante precariedade na
carreira. Uma vez que, como condição para seguir servindo à Marinha,
militares das graduações inferiores à de terceiro-sargento não poderiam
contabilizar, em suas cadernetas-registro23, mais de trinta pontos perdidos
com punições,24 sob pena de serem excluídos do serviço ativo. Dessa ma-
neira, grumetes, taifeiros, marinheiros, soldados e cabos estavam

23
Documento administrativo comum a todos os militares da Marinha (oficiais e praças) onde se realizava o acompa-
nhamento da carreira do militar, registrando todas as ocorrências relativas ao mesmo, não somente as punições.
24
Conforme os art. 71 e 118 do Regulamento para o Corpo do Pessoal Subalterno da Armada e § 1º do art. 28 do
RDM.
Robert Wagner Porto da Silva Castro | 25

constantemente expostos aos excessos de muitos superiores, que pode-


riam lançar punições com base circunstâncias bastante subjetivas,
passíveis de serem utilizadas de acordo com afinidades e/ou de seus inte-
resses pessoais. Essa subjetividade fica patente em diversas contravenções
disciplinares elencadas no artigo 7º do RDM, tais como: “responder de
maneira desatenciosa ao superior”, “portar-se sem compostura em lugar
público”, “ser descuidado no asseio do corpo e da roupa” ou ainda “estar
fora do uniforme ou tê-lo em desalinho”. De acordo com a contravenção,
o militar poderia ser punido com penas que variavam desde a repreensão,
passando pelo impedimento de ausentar-se do quartel ou navio, até a ex-
pulsão do serviço à Marinha25.
Diante do exposto, podemos considerar que a partir de um processo
de identificação, fundamentado em suas vivências, e frente a inércia da
instituição naval em atuar no sentido de assisti-los de modo a fomentar
condições para que pudessem transformar a realidade em que se encon-
travam. Marinheiros e fuzileiros navais se organizaram, constituíram uma
associação durante os conturbados anos iniciais da década de 1960, já no
governo do presidente João Goulart.
Experimentando sua cotidianidade, esses militares decidiram buscar
maneiras de mudar sua realidade na força naval. Manifestando o caráter
renitente de sua mobilização por meio da constituição da AMFNB como
um “ato de resistência” (CHAUI, 1986, p.63) daqueles marinheiros en-
quanto grupo ou segmento social específico na Marinha.

A associação “fuzinauta”

No dia 25 de março de 1962, na cidade do Rio de Janeiro, estado da


Guanabara, a AMFNB foi fundada26 como ““órgão de representação social

25
Somente aplicada para os praças das graduações de sargento até marinheiros e soldados, conforme o Art. 13 do
RDM.
26
Com base no § 12 do Art. 141 da Constituição dos Estados Unidos do Brasil de 1946.
26 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

das classes”27 de marinheiros e fuzileiros navais”28. Composta, essencial-


mente, por militares nas graduações até cabo, seu comprometimento com
a questão social se expressava tanto nas finalidades apresentadas em sua
ata de fundação29, quanto na seção um do seu estatuto30, que apresentava
todas as sete finalidades da entidade. Cinco das quais tinham caráter emi-
nentemente assistencial, relacionadas diretamente às antigas demandas
sociais do segmento de militares que se propunha representar. Finalidades
que se materializavam em ações empreendidas junto aos membros e suas
famílias, tais como: assistência médica e jurídica, desenvolvimento de pro-
jetos de incentivo à educação com parcerias que proporcionavam o acesso
às salas de aula, cursos de etiqueta básica, cursos de inglês, atividades re-
creativas (bailes, futebol e passeios pela cidade) e ajuda para aqueles que
desejassem abandonar vícios como o jogo e o alcoolismo.
Cumpre ressaltar ainda a relevância atribuída pela associação à ques-
tão da continuidade dos estudos por parte de marujos e fuzileiros.
Importância que ficava patente nos artigos 28 e 2931 de seu estatuto, ao
expressar o tipo de ações que se pretendia empreender a fim de facilitar o
acesso às salas de aula a esses militares e o público principal a ser alcan-
çado. Esses artigos apresentavam propostas concretas para assistir,
especialmente, os marinheiros que estudavam após o expediente e eram
obrigados a passar a noite na cidade devido à falta de condução para levá-
los aos navios (quando fundeados), ilhas e boias onde estivessem lotados.
Dessa maneira, esses militares tinham na associação um meio de alcançar
soluções para questões que há muito contribuíam para a perpetuação de
uma condição de significativa precariedade na carreira e vulnerabilidade
social que, em grande parte, os afligia.

27
Expressão manifesta no cabeçalho do Estatuto da AMFNB – Projeto Brasil Nunca Mais Digital – Disponível em:
<http://bnmdigital.mpf.mp.br>. BNM 149, p.2588-2594.
28
Conforme Estatuto da AMFNB - BNM 149, p.2588-2594.
29
BNM 149, p.2585-2586 - Ata de Fundação da AMFNB.
30
BNM 149, p.2588 - Estatutos da AMFNB.
31
BNM 149, p.2594 - Estatutos da AMFNB.
Robert Wagner Porto da Silva Castro | 27

Sob a presidência do cabo João Barbosa de Almeida, a primeira dire-


toria da AMFNB atuou no sentido de buscar a aproximação com a alta
administração naval para que, dessa maneira, fosse possível alcançar o re-
conhecimento oficial da associação32 e, a partir daí, obter acesso a
facilidades e benefícios para a entidade, principalmente o desconto das
mensalidades diretamente em folha de pagamento de seus associados. E,
somente então, buscar, mediante o diálogo e a conciliação com o comando
da força naval, eventuais ações que pudessem atender, em alguma medida,
às necessidades do segmento de praças que representava.
Na esteira dos diversos movimentos vinculados a segmentos de tra-
balhadores e estudantes que se mobilizavam em torno de reivindicações
ligadas a questões sociais. A partir dos meses finais do ano de 1962, um
grupo mais combativo e politizado, formado em sua maioria por marinhei-
ros que serviam embarcados nos navios, passou a fazer forte oposição
interna à primeira diretoria da associação. Discordando da postura ado-
tada pelo presidente, cabo João Barbosa, que privilegiava a busca pela
aproximação em relação ao Conselho do Almirantado33 em detrimento de
ações mais significativas no sentido reivindicar as demandas dos mari-
nheiros, o grupo oposicionista conseguiu que fossem convocadas eleições
em abril de 1963. As quais foram vencidas por essa ala mais combativa e
da qual nomes como: Marco Antônio da Silva Lima, Avelino Bioen Capitani
e os irmãos José e Antônio Duarte dos Santos – os dois primeiros ocupando
os cargos de vice-presidente e segundo vice-presidente, respectivamente –
além do marinheiro de primeira-classe José Anselmo dos Santos, como seu
novo presidente; passaram a integrar a nova diretoria da AMFNB.
No contexto do ano de 1963, marcado pelo acirramento das tensões
sociais e da polarização política no país e diante das negativas da alta ad-
ministração naval em dialogar sobre as demandas dos marinheiros. A

32
Objetivo que se fez presente desde o primeiro ofício emitido pela entidade. O qual, endereçado ao ministro da
Marinha, além de participar a criação e fundação da associação “fuzinauta”, também solicitava seu reconhecimento
por intermédio da publicação do estatuto em boletim e divulgação do ato de fundação (BNM 149, p. 2580-2581).
33
De acordo com o art. 1º do Decreto nº 22.070, de 10 de novembro de 1932, este é um órgão consultivo da admi-
nistração naval para o estudo de problemas técnicos e administrativos que não sejam de caráter privativo do ministro
da Marinha.
28 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

AMFNB passou apresentar suas reivindicações de maneira mais incisiva,


buscando apoio em movimentos sociais e no próprio alinhamento aos po-
sicionamentos do presidente João Goulart. Postura que, especialmente
naquele cenário de intensa polarização política e ebulição social, levou a
um rápido afastamento entre marinheiros e autoridades navais.
Nesse quadro, frente a inflexibilidade da cúpula naval em estabelecer
um diálogo em torno de suas demandas, a AMFNB levou suas reivindica-
ções para a arena política, em âmbito nacional. Fazendo coro a sindicatos,
entidades de representação de classe e associações de subalternos das For-
ças Armadas e Auxiliares, que apoiavam o projeto reformista proposto por
Goulart.

“Hierarquia e Disciplina”, a crise!

No dia 25 de março de 1964, segundo aniversário de fundação da


AMFNB, foi organizada uma assembleia comemorativa nas dependências
da sede do Sindicato dos Metalúrgicos no Rio de Janeiro, situado no bairro
de São Cristóvão, na atual capital fluminense. No entanto, a reunião con-
verteu-se em ato permanente de protesto quando chegaram notícias das
ordens de prisão emitidas contra diversas lideranças da associação e, prin-
cipalmente, sobre os violentos incidentes registrados a bordo de alguns
navios e na área do Ministério da Marinha, onde militares foram feridos
quando tentavam seguir em direção ao local da assembleia e foram impe-
didos por um grupo de oficiais armados.
Com a simbólica presença de João Cândido34, além de políticos e
lideranças de entidades de representação, o clima no interior do sindicato
foi ficando mais tenso, especialmente depois da decretação de prontidão
rigorosa e dos já mencionados acontecimentos na área do Ministério da
Marinha. Diversos pronunciamentos passaram a ser realizados, com

34
Uma das principais e a mais emblemática das lideranças da “Revolta da Chibata”.
Robert Wagner Porto da Silva Castro | 29

destaque para o discurso do “cabo”35 Anselmo, que declarava apoio ao


presidente Goulart e ao seu projeto reformista. E ainda rejeitava os rótulos
de subversiva e insubordinada, que eram conferidos à associação pelo alto
comando da Marinha e por parte importante da imprensa. Em sua fala,
Anselmo apresentou, uma vez mais, as principais reivindicações do
movimento:

[...] Autoridades reacionárias, aliadas ao antipovo e escudadas nos regulamen-


tos arcaicos e em decretos institucionais, qualificam de entidade subversiva.
Será subversivo manter cursos para marinheiros? Será subversivo dar assis-
tência médica e jurídica? Será subversivo visitar a Petrobrás? Será subversivo
convidar o Presidente da República para dialogar com o povo fardado? [...]
Quem tenta subverter a ordem não são os marinheiros, os soldados, os fuzi-
leiros, os sargentos e os oficiais nacionalistas [...] Quem tenta subverter a
ordem são aqueles que proibiram os marujos do Brasil, nos navios, de ouvir a
transmissão radiofônica do Comício das Reformas36[...] É necessário que se
reforme a Constituição para estender o Direito do Voto aos soldados, cabos,
marinheiros e aos analfabetos. [...] Nós, marinheiros e fuzileiros navais, rei-
vindicamos:
Reforma do Regulamento Disciplinar da Marinha, regulamento anacrônico
que impede até o casamento;
Não interferência do Conselho do Almirantado nos negócios internos da Asso-
ciação de Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil;
Reconhecimento pelas autoridades navais da AMFB;
Anulação das faltas disciplinares que visam apenas intimidar os associados e
dirigentes da AMFB;
Estabilidade para cabos, marinheiros e fuzileiros; [...] (sic.)

Fuzileiros navais foram enviados ao sindicato, por ordem do ministro


da Marinha, almirante Sylvio Motta, com o objetivo de pôr fim à assem-
bleia. Mas, diante dos apelos de seus companheiros reunidos no interior

35
Em virtude da insígnia de marinheiro de primeira classe contar com duas divisas, a exemplo da insígnia de cabo
no Exército, alguns autores atribuem a graduação de cabo a José Anselmo dos Santos, de modo que ficou popular-
mente conhecido como “cabo” Anselmo. Ver: Decreto nº. 34.868, de 31 de dezembro de 1953 – Regulamento de
Uniformes para a Marinha do Brasil, Diário Oficial da União de 01 de janeiro de 1954, Coleção Leis do Brasil, v. 04,
ano 1954, p. 573-703.
36
Comício das Reformas de Base realizado no dia 13 de março de 1964 na Central do Brasil, região central da cidade
do Rio de Janeiro.
30 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

do edifício, na maioria absoluta marujos, depuseram suas armas e se jun-


taram à mobilização. Deixando evidente que o caráter de identificação com
seus colegas se sobrepunha, naquele momento, à consciência do cumpri-
mento de ordem, aspecto basilar da percepção militar sobre os conceitos
de hierarquia e disciplina.
Diante dessa situação, tropas do Exército foram enviadas ao local no
dia 26 de março a fim de conduzir os militares sublevados ao 1º Batalhão
de Guardas37. Onde ficaram detidos até o dia 27 desse mês, quando o re-
cém empossado ministro da Marinha, almirante Paulo Mário da Cunha
Rodrigues, determinou sua imediata liberação e concedeu anistia a todos.
Na escalada da crise política que culminaria no golpe civil-militar e
em uma consequente repressão levada a cabo tanto no meio civil quanto
no militar. No dia 29 de julho desse ano a União entraria com um mandado
para averbação de dissolução da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros
Navais do Brasil. Que seria julgado procedente pelo juiz Renato Lomba, a
23 de novembro de 1964, determinando o fim das atividades da associação
“fuzinauta”. Entretanto, para o que se propõe este texto, importa destacar
a relevância conferida à questão disciplinar e hierárquica envolvendo a as-
sembleia do dia 25 de março38 e os usos políticos que se fizeram desses
dois esteios das instituições militares no quadro dos dias que antecederam
o golpe. Concorrendo para debilitar as já frágeis bases de sustentação so-
cial, política e militar de Goulart. Situação ilustrada pelo seguinte trecho
do editorial do Jornal do Brasil, publicado no dia 29 de março de 1964:

As Forças Armadas foram todas, – todas, repetimos – feridas no que de mais


essencial existe nelas: os fundamentos da autoridade e da hierarquia, da dis-
ciplina e do respeito às leis militares. Sem esses fundamentos a hierarquia se
dissolve e em lugar dela surgem as milícias político-militares, preconizadas
pelos comunistas e fidelistas. [...]39

37
Unidade do Exército Brasileiro também situada no bairro de São Cristóvão, na cidade do Rio de Janeiro.
38
Sem desconsiderar o fato de que, logo no dia 30 desse mês, João Goulart estaria presente, como convidado de
honra, a um ato promovido por sargentos das Forças Auxiliares nas dependências do Automóvel Clube do Brasil, no
Rio de Janeiro.
39
Jornal do Brasil, 29 mar. 1964, p. 1.
Robert Wagner Porto da Silva Castro | 31

De maneira semelhante se posicionou o Correio da Manhã, cujo edi-


torial, publicado no dia 31 de março e intitulado “Basta!”, foi dirigido
diretamente ao presidente e do qual convém aqui destacar o trecho abaixo:

[...] Até que ponto quer desagregar as Forças Armadas por meio da indisci-
plina que se torna cada vez mais incontrolável? [...] Não contente de
intranquilizar o campo, com o decreto da Supra, agitando igualmente os pro-
prietários e os camponeses, de desvirtuar a finalidade dos sindicatos, cuja
missão é a das reivindicações de classe, agora estende a sua ação deformadora
às Forças Armadas, destruindo de cima a baixo a hierarquia e a disciplina, o
que põe em perigo o regime e a segurança nacional. [...]40

O editorial de outro importante periódico de circulação no Rio de Ja-


neiro, o Diário de Notícias, intitulado “Hora de Decisão” trazia a seguinte
mensagem:

[...] Os fatos que abalaram a Marinha não podem ser encarados simplesmente
como um episódio interno da disciplina que precisa ser mantida no seio das
Forças Armadas. Neles estão em causa os fundamentos do regime democrático
que tem no respeito à disciplina e hierarquia militares os elementos específicos
de sua segurança.
O protesto do Almirantado, secundado pela esmagadora maioria da oficiali-
dade naval, não pode de modo algum, neste momento, ser considerado como
manifestação de indisciplina e rebeldia. Se o presidente da República se coo-
nesta e se cumplicia com a insubordinação, então o que esperar das mais altas
autoridades responsáveis da Marinha senão essa manifestação que objetiva a
repor a ordem onde ela foi duramente ofendida?
[...] Para reconstruir a Marinha na integridade hierárquica [...] terá o governo
que alterar substancialmente tudo o que fez até agora, não apenas no caso do
motim de quinta-feira, mas também na política de desmoralização dos esca-
lões superiores da hierarquia.
Não se pode sob forma nenhuma pactuar com a inversão de todas as normas
e princípios que dão sentido e base à ordem institucional. [...]41

40
Correio da Manhã, 31 mar. 1964, p. 1.
41
Diário de Notícias, 31 mar. 1964 p.1.
32 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

Importantes veículos de imprensa que, naquele contexto político-so-


cial notadamente tensionado, manifestavam franca oposição ao governo
Goulart, passaram a utilizar o aspecto hierárquico-disciplinar das Forças
Armadas no sentido de noticiar uma virtual ameaça a esses seus pilares,
proveniente da “subversão” em curso em suas fileiras, notadamente a par-
tir dos escalões inferiores. Desconsiderando o processo conspiratório
abertamente gestado em meio à alta oficialidade e, nesse sentido, fazendo
eco ao posicionamento de parte importante do alto comando da Marinha
frente àquela crise, que logo se fez notar publicamente por meio de notas
e manifestos firmados por membros do Almirantado e do Clube Naval,
publicados pela grande imprensa.
Em um desses documentos, denominado O Memorial42, expressava
sua desaprovação quanto às últimas decisões do titular da pasta, almirante
Paulo Mário da Cunha Rodrigues, e informava não reconhecer a autori-
dade do almirante de esquadra Pedro Paulo de Araújo Suzano e do vice-
almirante Cândido da Costa Aragão43 no exercício das funções de Chefe do
Estado-Maior da Armada e Comandante Geral do Corpo de Fuzileiros Na-
vais, respectivamente.
Em outro manifesto, ainda mais contundente, denominado À Nação,
ao Congresso Nacional, às Assembleias, aos governadores, aos chefes mili-
tares e a todos os cidadãos44 além de tecer abertas críticas aos atos do
ministro Paulo Mário e do próprio presidente Goulart. Conclamava a Na-
ção para se defender da ameaça de “comunização” do país. Esses
posicionamentos da alta oficialidade da Marinha logo receberam a solida-
riedade dos clubes de oficiais do Exército e da Aeronáutica.
Os trechos dos editoriais acima mencionados, bem como os manifes-
tos emitidos por importante segmento da cúpula naval, contribuem para
indicar o modo como foi politicamente explorada a crise militar deflagrada

42
Diário de Notícias, 31 mar. 1964, p. 10.
43
Sobre sua trajetória e participação nos desdobramentos do movimento da AMFNB, ver: ALMEIDA, Anderson da
Silva. ...como se fosse um deles: Almirante Aragão. Memórias, silêncios e ressentimentos em tempos de ditadura e
democracia. Niterói: EdUFF, 2017.
44
O Globo, 30 mar. 1964, p. 22.
Robert Wagner Porto da Silva Castro | 33

na Armada durante os instantes que precederam o golpe, especialmente


no que concerne aos princípios da hierarquia e disciplina.
Tendo em conta que Goulart era um presidente legítimo e, portanto,
comandante supremo45 das Forças Armadas. E ainda, considerando as pa-
lavras de Nelson Wernek Sodré (2010, p. 470) acerca da disciplina, onde
ele afirma que “não há uma disciplina para oficiais e outra para marinhei-
ros; não há uma disciplina para superiores e outra para inferiores”. Fica
evidente o caráter paradoxal que fundamenta a compreensão desses con-
ceitos pelos sujeitos históricos no instante em tela. O que aponta para a
percepção de que esse entendimento acerca da disciplina (social) que as-
segura a manutenção da hierarquia (social) não estaria limitada aos muros
dos quartéis ou bordas dos navios. Mas se espraiava pelo todo da sociedade
brasileira no sentido de que, nas palavras de Anderson Almeida (2010, p.
79), “a origem social determina quem ou não pode destruir ou fazer tre-
mer os alicerces da hierarquia”.

“Hierarquia e Disciplina”, para quem?

Mesmo em uma análise menos aprofundada sobre as narrativas dos


doze oficiais do Exército e da Força Aérea Brasileira entrevistados no con-
texto do projeto “Visões do Golpe: a memória militar sobre 1964”
(D’ARAUJO, SOARES e CASTRO, 1994), é possível perceber a preponde-
rância do aspecto hierárquico-disciplinar em suas falas acerca do contexto
em que se deu o golpe. Princípios que figuram como inegociáveis quando
se trata das mobilizações de praças, mas que aparecem significativamente
flexibilizados quando oficiais se articulavam, mesmo que em movimentos
de cunho conspiratório. Paradoxo que se torna mais evidente quando per-
cebemos que todos os entrevistados colocam, em alguma medida, o
atentado à disciplina e à hierarquia militares como uma das principais
questões motivadoras do golpe.

45
Artigo 176 da Constituição dos Estados Unidos do Brasil de 1946.
34 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

Em sua narrativa, ao ser questionado sobre sua opinião acerca de


qual teria sido o fator preponderante para a deposição do presidente Gou-
lart, o general Ivan de Souza Mendes46 respondeu o seguinte:

Para mim foi o problema do fomento à indisciplina nas Forças Armadas. Tal-
vez aquele fato dos sargentos47, que já tinha havido em Brasília em setembro
(1963), e depois aquele dos marinheiros. Aquele discurso no Automóvel Clube
do Brasil foi uma coisa horrorosa. Para os militares aquilo era a completa sub-
versão da disciplina. Foi a gota d’água, acredito. Para quem vive em ambiente
militar e conhece os fatos históricos em outros países, aquilo parecia a União
Soviética. Parecia que ia se subverter completamente a hierarquia militar e a
hierarquia republicana. [...] (D’ARAUJO, SOARES e CASTRO, 1994, p.142)

O mesmo oficial, ao ser perguntado se, internamente ao Exército, ha-


via vários grupos conspirando contra Jango e se havia alguma conexão
entre eles, afirmou que: “deveria haver vários grupos, não sei quantos, e
mais ou menos se interligando. Acredito que sim. Mas nessa coisa eu es-
tava fora.” (D’ARAUJO, SOARES e CASTRO, 1994, p. 142).
Do mesmo modo, ao ser indagado sobre a importância dos movimen-
tos de praças para a decisão pelo golpe, o general Enio dos Santos
Pinheiro48 afirmou que:

[...] primeiro, o Jango cometeu um erro grave. Ele foi ao Automóvel Clube e
levou o cabo Anselmo para sentar ao seu lado. Aí ele demonstrou a quebra da
hierarquia. Para os militares a hierarquia e a disciplina são sagradas. Quando
ele levou o cabo Anselmo junto com ele, cometeu um erro fatal. Depois, houve
aquela passeata em que tinha um comandante do Corpo de Fuzileiros Navais,

46
Ivan de Souza Mendes, tenente-coronel no governo Goulart, foi nomeado interventor na prefeitura de Brasília
depois do golpe. Desempenhou diversas funções durante a ditadura e após a redemocratização, quando ocupou o
cargo de ministro-chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI) no governo de José Sarney. Em 1986 foi transfe-
rido para a reserva no posto de general de exército.
47
Sobre a Revolta dos Sargentos em 1963, ver: PARUCKER, Paulo Eduardo Castello. Praças em pé de guerra: O
movimento político dos subalternos militares no Brasil (1961-1964) e a Revolta dos Sargentos de Brasília. São Paulo:
Expressão Popular, 2009.
48
Enio dos Santos Pinheiro, tenente-coronel no governo Goulart, servia no Estado-Maior do Exército, no Rio de
Janeiro, por ocasião do golpe. Durante o governo do general Costa e Silva, auxiliou na organização da agência central
do SNI, em Brasília, e de uma escola nacional vinculada a esse órgão. Promovido a general de divisão no governo do
general Geisel, desempenhou ainda diversas funções durante a ditadura e após a redemocratização, quando ocupou
o cargo no governo de Paulo Maluf, em São Paulo. Em 1979 foi transferido para a reserva.
Robert Wagner Porto da Silva Castro | 35

comandante Aragão, que saiu pela rua com os soldados. Enfim, eram bando-
leiros, não eram mais soldados, não eram mais coisa nenhuma. (sic.)
(D’ARAUJO, SOARES e CASTRO. 1994, p. 198)

Mas, ao responder sobre sua participação na conspiração e qual foi o


centro desse movimento sedicioso, afirmou que estava envolvido e que “a
cabeça da conspiração estava justamente na 1ª Seção do Estado-Maior do
Exército” mas que “havia naturalmente ligações com os chefes” em outras
regiões do país onde “havia grupos, mas grupos que não eram indepen-
dentes, grupos que estavam sob a coordenação de alguém aqui no Rio de
Janeiro” (D’ARAUJO, SOARES e CASTRO, 1994, p. 199-201).
Ainda sobre os episódios envolvendo mobilizações de praças no con-
texto anterior ao golpe, o general Deoclecio Lima Siqueira49 afirmou que:

A revolta dos sargentos foi um episódio que assustou muito. A dos marinheiros
aqui e a que houve no Automóvel Club, com a participação do presidente, fo-
ram outras que alarmaram. O que assustava era o envolvimento das altas
autoridades naquele quadro geral de subversão. [...] sabia-se perfeitamente
que a maioria dos sargentos não era comunista. Eles eram manipulados [...] o
Partido Comunista tinha certas frentes. Tinha certas ligações, tudo muito re-
servadamente, não apareciam. Quem aparecia eram os sargentos, eram os
cabos, era associação disso, daquilo etc. (D’ARAUJO, SOARES e CASTRO, 1994,
p. 229)

Apesar de aludir à questão hierárquica e disciplinar, no que se refere


como “quadro geral de subversão”, o general Deoclecio nos evidencia ou-
tro aspecto interessante acerca do discurso que se construiu em relação à
mobilização “fuzinauta”. É a desconstrução desses militares enquanto su-
jeitos históricos daquele processo, ou seja, em sua perspectiva aqueles
militares não foram atores políticos que realizaram uma leitura própria do
contexto em que se encontravam e, a partir daí, tomaram suas decisões.

49
Deoclecio Lima Siqueira, coronel no governo Goulart, chefiava o Departamento de Ensino da Escola de Comando
e Estado-Maior da Aeronáutica por ocasião do golpe. Entre as funções que desempenhou durante a ditadura, pode-
mos destacar a de chefe de gabinete do ministro da Aeronáutica, brigadeiro Eduardo Gomes, durante o governo
Castelo Branco e, já como tenente-brigadeiro, as de chefe do Estado-Maior da Aeronáutica e ministro do Superior
Tribunal Militar. Em 1986 foi transferido para a reserva.
36 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

Ele os considera “manipulados” por forças políticas em ação à época, no-


tadamente o Partido Comunista a quem – mesmo admitindo não observar
sua atuação, alegando agirem “muito reservadamente” – credita o pro-
cesso de mobilização tanto dos sargentos quanto dos marinheiros. Essa
perspectiva encontra eco não somente nas narrativas de outros entrevis-
tados, mas também, em alguma medida, no posicionamento de alguns
historiadores, como José Murilo de Carvalho (2006, p. 70) ao colocar que:

Quando trabalhadas por elementos do Partido Comunista, as praças mais fa-


cilmente extrapolavam a dominação de que eram vítimas dentro da
organização para a sociedade como um todo, alinhando-se com sua classe de
origem e identificando os oficiais como inimigos, não só organizacionais como
também de classe.

Deoclecio, assim como alguns outros entrevistados, nega que tenha


conspirado. Em suas palavras, afirma que “alertava às claras”. Entretanto,
quando perguntado se havia alguma articulação de sua parte com outros
oficiais do Exército durante a conspiração, não obstante afirmar nova-
mente que não conspirava, diz que havia reuniões em que analisavam a
gravidade da situação e trocavam ideias realizando um tipo de convenci-
mento e criando uma consciência aplicando a teoria de Engels no sentido
inverso (D’ARAUJO, SOARES e CASTRO, 1994, p. 234). Situação que, dife-
rente do que coloca sobre os praças, não percebe como manipulação no
caso dessa oficialidade.
Esse paradoxo da disciplina somente para o “andar de baixo” também
está presente na narrativa do general Carlos de Meira Mattos50. Ao refor-
çar a importância da questão hierárquica para a efetivação do golpe, o
general diz o seguinte:

50
Carlos de Meira Mattos, coronel no governo Goulart, comandava o 16º Batalhão de Caçadores, em Cuiabá-MT, por
ocasião do golpe. Entre as muitas funções exercidas durante a ditadura, destaco as seguintes: interventor em Goiás,
entre novembro de 1964 e fevereiro de 1965; comandante do destacamento das tropas brasileiras enviadas à Repú-
blica Dominicana, em 1965; comandante da Polícia do Exército em Brasília, em 1966, quando foi encarregado pelo
cerco ao Congresso Nacional a fim de assegurar a retirada dos parlamentares cassados e, já no posto de general de
brigada, inspetor das Polícias Militares. Em 1977 foi transferido para a reserva como general de divisão.
Robert Wagner Porto da Silva Castro | 37

Numa semana só, com seu apoio ou com apoio de gente do palácio, houve a
revolta dos marinheiros, comício da Central do Brasil e o comício do Automó-
vel Club. Três coisas! O comício do Automóvel Club era uma confrontação do
princípio da hierarquia das Forças Armadas. Era um comício de sargentos para
apoiar o presidente da República. [...] Depois, teve a revolta da Marinha, a cha-
mada revolta famosa, do cabo Anselmo. No fim dessa revolta da Marinha
derrubaram o ministro da Marinha, e Goulart colocou o ministro51 que os ca-
bos e marinheiros queriam. Um almirante52 de esquerda que ficou ao lado
deles, foi carregado em triunfo pelas ruas. [grifo meu] (D’ARAUJO, SOARES e
CASTRO, 1994, p. 107)

Para o general Carlos de Meira Mattos, uma reunião organizada por


sargentos onde foi manifesto o apoio desses militares ao presidente da Re-
pública, comandante supremo das Forças Armadas, representa uma
afronta à hierarquia militar. Percepção que, por si só, se apresenta contra-
ditória, mas que se torna ainda mais paradoxal quando observamos o
modo natural como esse mesmo oficial percebe o cenário de intensa sedi-
ção que vigorava, especialmente entre a oficialidade, desde a crise de
sucessão presidencial após a renúncia de Jânio Quadros, em 1961. Ao ser
indagado se havia conspirado contra a posse de Goulart naquele ano,
afirma: “Conspirei. Conspirei e fui favorável a que se cercasse, se sitiasse
militarmente o Rio Grande do Sul” (D’ARAUJO, SOARES e CASTRO, 1994,
p. 101). Já em relação a uma eventual sucessão de Jango em caso de depo-
sição naquele contexto, achava:

“[...] que iria predominar sempre o espírito de legalidade [...] ia ser igual a
outros movimentos em que as Forças Armadas faziam o movimento e entre-
gavam a um civil. [...] As Forças Armadas sempre fazem os movimentos com
espírito de legalidade. Parece estranho, parece contraditório, mas é uma coisa
sempre presente na história do Brasil. Sempre se busca a solução menos trau-
mática, mais próxima da legalidade. [grifos meus] (D’ARAUJO, SOARES e
CASTRO, 1994, p. 102)

51
Almirante Paulo Mário da Cunha Rodrigues.
52
Vice-almirante Cândido da Costa Aragão.
38 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

É notório que há uma compreensão distorcida do conceito de legali-


dade por parte de Meira Mattos. Mas que vai ao encontro do seu
entendimento quanto ao alcance do aspecto hierárquico-disciplinar nas
Forças Armadas. Haja vista admitir ter conspirado em 1961 e à época do
golpe de 1964, quando estava servindo em Mato Grosso, afirmando haver
núcleos de conspiração em todas as unidades do estado e que aquela era
uma situação que ocorria em todo país naquele momento (D’ARAUJO,
SOARES e CASTRO, 1994, p. 104-105).
Os trechos de narrativas acima expostos, mesmo sem uma análise
mais detida sobre os muitos aspectos que integram o todo das narrativas
do oficiais entrevistados – o que não é o foco do presente texto – cumprem
o papel de trazer ao leitor uma breve percepção acerca do entendimento
de parcela importante dessa oficialidade, que tomou parte nas ações gol-
pistas em 1964, em relação aos dois pilares estruturantes das Forças
Armadas, hierarquia e disciplina.
Reduzindo o olhar sobre as narrativas de modo a estabelecer o enfo-
que sobre as considerações dos entrevistados em relação aos episódios
envolvendo as mobilizações de praças e as articulações sediciosas no qua-
dro dos dias que antecederam o golpe. Foi possível observar que, a
exemplo dos demais entrevistados no projeto “Visões do Golpe”, os oficiais
aqui citados colocam a questão hierárquica e disciplinar como um dos
principais precipitadores para a deposição de João Goulart.
Do mesmo modo, admitem ter conspirado e/ou que existia algum
tipo de conspiração dentro das unidades militares, em escala nacional,
para destituir o presidente da República. Mesmo aqueles que não admitem
abertamente esse cenário confirmam a existência de articulações ou “troca
de ideias” nesse sentido no meio militar. O que denota um significativo
contrassenso quando observamos que foi por meio da fratura desses dois
esteios das Forças Armadas que a ruptura democrática se fez possível. Sob
a justificativa de impedir que fossem arranhados.
Robert Wagner Porto da Silva Castro | 39

Considerações Finais

Sem desconsiderar o fato de que parcela importante da sociedade


brasileira teve participação efetiva no golpe de Estado que levou à deposi-
ção de um Presidente da República legítimo, eleito com as garantias
constitucionais de um regime democrático. Mas nos atendo à questão da
justificativa que foi utilizada como a “gota d’água”, ou seja, a ameaça de
subversão da hierarquia e da disciplina nas instituições militares. Cabe re-
fletirmos sobre a percepção distinta que se nota em relação a esses dois
preceitos quando o que se tem em vista são mobilizações de praças.
Nesse prisma, a indisciplina e a insubordinação de parte da alta ofi-
cialidade eram interpretadas como posicionamentos e/ou deliberações de
cunho político acerca “do que seria melhor para a Nação”, e não como atos
passíveis de enquadramento nos regulamentos disciplinares castrenses.
Ao passo que, a mobilização de cabos, soldados e marinheiros por questões
relacionadas às suas carreiras, condições de trabalho e garantias sociais,
bem como suas manifestações públicas em apoio ao comandante-em-chefe
das Forças Armadas, eram interpretadas por seus superiores hierárquicos
– e por grande parte da sociedade – como atos “potencialmente corrosivos
para a organização e para a sociedade” (CARVALHO, 2006, p. 70).
Porém, à luz dos regulamentos militares, podemos considerar que os
marinheiros somente incorreram nos crimes de motim53 e insubordina-
ção54 quando, por ocasião da decretação de prontidão rigorosa, no quadro
dos desdobramentos da assembleia do dia 25 de março, não regressaram
às suas unidades, bem como durante os acontecimentos na área do Minis-
tério da Marinha e a bordo de alguns navios. Entretanto, muitos de seus
superiores e chefes, desde a crise na sucessão presidencial em 1961, já vi-
nham incorrendo sistematicamente no crime de insubordinação e em
outros crimes e contravenções previstas, tanto no Código Penal Militar
(CPM) quanto no RDM. Portanto, não foram apenas os marinheiros que

53
Artigos 130 a 132 do Decreto nº 6227 de 24 de janeiro de 1944 - Código Penal Militar (CPM).
54
Artigos 141 a 144 Idem.
40 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

“feriram” a disciplina, mas também seus superiores, que há tempos já o


vinham fazendo, ou seja, “a indisciplina não era prerrogativa de sargentos
e marinheiros” (D’ARAUJO, SOARES e CASTRO, 1994, p.13).
Desse modo, mesmo sendo a disciplina e a hierarquia preceitos fun-
damentais da própria atividade militar, podemos considerar que, sob uma
perspectiva simbólica, a concepção de quebra hierárquica ou de indisci-
plina pode depender de quem pratica um determinado ato nesse sentido.
Ou seja, manifestações e atos que legalmente configurariam transgressões
disciplinares e até mesmo crimes, durante os tensionados anos iniciais da
década de 1960, quando cometidos por aqueles que ocupavam posições de
dominância em um determinado contexto social, como a alta oficialidade
naval brasileira, não deveriam ser compreendidos enquanto ameaça a um
status quo vigente. E, de tal modo, esses atos e manifestações não foram
interpretados sob a ótica crua dos regulamentos disciplinares e do CPM,
isentando assim aqueles que os praticaram da pecha de insubordinados e
transgressores. Ao passo que a mobilização dos marinheiros da AMFNB,
enquanto manifestação organizada de resistência daqueles militares a par-
tir de uma leitura própria do contexto da época, figurou como ameaça
patente a uma realidade social vigente. Uma virtual ameaça à “hierarquia
e disciplina sociais” que teria precipitado ações que levaram o Brasil a mer-
gulhar em mais de duas décadas de um regime autoritário.
De modo algum pretende-se aqui esgotar o assunto, mas apenas
apresentar uma contribuição no que concerne às análises historiográficas
acerca desse segmento de militares da Marinha e suas mobilizações, sem-
pre tão marcantes no cenário nacional. Por fim, espero ter contribuído
para iluminar um período ainda tão nebuloso de nossa história e assim
suscitar novos estudos acerca do tema.

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Robert Wagner Porto da Silva Castro | 41

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42 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

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Entrevistas

Paulo Fernando da Costa (marinheiro e uma das lideranças da AMFNB) – 1ª e 2ª entrevis-


tas realizadas pelo autor e Edgar Ávila Gandra, em 02 de novembro de 2013 e 27 de
março de 2014, na residência do entrevistado, na cidade de Rio Grande (RS).

“Entrevistado B” (marinheiro) - Entrevista realizada pelo autor, em 13 de março de 2014,


na residência do entrevistado no bairro Areal, cidade de Pelotas-RS.

Ivan de Souza Mendes - Entrevista concedida a Maria Celina D’Araujo e Gláucio Ary Dillon
Soares, em outubro e novembro de 1992.

Enio dos Santos Pinheiro - Entrevista concedida a Maria Celina D’Araujo, Gláucio Ary Dil-
lon Soares e Celso Castro, em dezembro de 1992.

Deoclecio Lima de Siqueira - Entrevista concedida a Maria Celina D’Araujo e Gláucio Ary
Dillon Soares em junho de 1993.

Carlos de Meira Mattos - Entrevista concedida a Maria Celina D’Araujo e Gláucio Ary Dillon
Soares, em fevereiro e março de 1992.
2

Narrativas históricas em tempos autoritários:


o discurso cívico-patriótico nas crônicas de Pedro Calmon
para O Cruzeiro e a ditadura civil-militar (1964-1968)

Mariana Canazaro Coutinho 1

A ditadura civil-militar, instaurada com o golpe de 31 de março de


1964, contou com o apoio de diversos intelectuais para reinventar um dis-
curso que pudesse legitimar suas ações autoritárias. Este foi um período
de imensa repressão e de ações violentas que se diziam em favor de uma
segurança nacional, no qual foram sistematizadas atividades que divulga-
vam um civismo e um patriotismo que afirmassem a preservação da nação
acima dos direitos de seus cidadãos. Para os intelectuais que participaram
das atividades de difusão deste discurso cívico, “o conhecimento sobre o
passado produzido pelos estudiosos era fundamental na produção da cons-
ciência e nas ações propostas” (MAIA, 2012, p. 69).
Entre os intelectuais que colaboraram para o desenvolvimento deste
discurso, encontramos Pedro Calmon Moniz de Bittencourt (1902 – 1985),
um intelectual de prestígio no âmbito acadêmico brasileiro desde a década
de 1920. Calmon foi um bacharel em Direito, historiador e político prove-
niente de uma família tradicional da Bahia, figura de destaque dentro da
elite intelectual brasileira e membro em diversas instituições relacionadas
à cultura e à intelectualidade no país. Além de suas diversas obras sobre
História do Brasil é importante destacar que foi Reitor da Universidade do

1
Mestranda no Programa de Pós-Graduação em História da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
(PUCRS). Bolsista CNPq.
46 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

Brasil e presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil (IHGB).


Ademais, Calmon se manteve ativo, trabalhando em cargos de relevância
mesmo durante a ditadura civil-militar, sendo, aliás, vice-presidente do
Conselho Federal de Cultura (CFC) em 1967, ano em que este foi criado,
permanecendo neste até 1968, ano em que assume o cargo de presidente
do IHGB (COUTINHO, 2010).
Além de sua grande atuação dentro da academia, Calmon escreveu
também crônicas para a revista O Cruzeiro, na seção Segredos e Revelações
da História do Brasil, difundindo para o grande público acontecimentos e
curiosidades da história do país. Nestas crônicas, Calmon utilizava um dis-
curso cívico-patriótico para narrar eventos históricos e levar para o leitor
uma visão positiva da história do país, buscando construir uma identidade
“comum”, baseada em uma experiência harmoniosa da nossa trajetória. O
regime ditatorial se utilizou deste mesmo discurso acerca da cultura para
se manter, procurando, por meio da difusão de ideias de nacionalismo e
patriotismo, criar a noção de que era necessário para a prosperidade do
país. Diversos intelectuais do período, assim como Calmon, foram perso-
nagens centrais em tal estratégia.
É a partir da ideia de que “os periódicos são fontes magníficas para
os historiadores” (FERREIRA; GOMES, 2014, p. 12) que abordamos nosso
objeto, as narrativas de Calmon para O Cruzeiro. Assim, o espaço utilizado
pelo autor neste momento é relevante, pois a revista O Cruzeiro foi uma
publicação de destaque dentro da sociedade brasileira, sendo considerada
um meio formador de opiniões, e que contou com a colaboração de figuras
como Calmon, Gilberto Freyre e Rachel de Queiroz, intelectuais que atua-
vam ao lado do regime.
Desta maneira, o objetivo deste estudo é analisar a posição de Pedro
Calmon na elite intelectual brasileira e o discurso cívico-patriótico utili-
zado por ele nas crônicas escritas para a seção Segredos e Revelações..., da
revista O Cruzeiro, entre os anos de 1964 e 1968, atentando para os ele-
mentos presentes nesta narrativa que tinham o intuito de transmitir aos
leitores um sentimento de otimismo em relação à história do país. Ainda,
Mariana Canazaro Coutinho | 47

buscamos compreender como este discurso, que envolvia certa pedagogia


cívica no campo jornalístico, se relaciona com o discurso cívico usado pela
ditadura civil-militar, considerando que Calmon foi um colaborador2 do
regime e atuou, também, no CFC.
Iniciaremos com uma discussão em torno do papel dos intelectuais
na sociedade brasileira e a tradição intelectual modernista-conservadora,
na qual Calmon se insere, incluindo o debate de autores como Ângela de
Castro Gomes e Carlos Fico. A seguir, faremos uma breve análise do con-
teúdo das crônicas para pensar o uso de certos temas e elementos
apresentados pelo autor para construir um discurso cívico-patriótico. Por
fim, investigaremos este tipo discurso, do qual Calmon faz uso em suas
narrativas, e o civismo utilizado pela ditadura civil-militar, além de como
estes se relacionam com a posição de Calmon na sociedade brasileira e com
sua escrita. Assim, por meio das crônicas buscamos examinar como Pedro
Calmon estava difundindo a História do Brasil, com símbolos nacionais e
noções de heroísmo e patriotismo, utilizando a escrita da história em um
meio de comunicação popular de modo a transmitir uma ideia de identi-
dade nacional, baseada na memória “comum” de uma história harmônica
e positiva para seus leitores.

Calmon e a Elite Intelectual Brasileira

A História é considerada necessária para a formação de uma identi-


dade coletiva, e o desenvolvimento de uma ideia comum de nação
necessita de símbolos e tradições, visto que “o passado [concede] autenti-
cidade aos objetos que testemunham a ação de grandes homens” (VALE,
2018, p. 41), e é neste contexto que se estabelece a História que Calmon
procura divulgar por meio da revista O Cruzeiro. Nayara Galeno do

2
Consideramos Calmon em uma posição de colaborador/apoiador a partir de suas principais atividades durante a
ditadura, porém, ao se analisar a atuação de intelectuais durante este período, deve-se também levar em conta que
existia uma ambivalência e uma negociação de consenso entre os civis e os militares, como afirmado por Maia (2012)
ao tratar a relação entre o CFC e o regime ditatorial utilizando os conceitos de “zonas cinzentas” e “pensar duplo”,
de Pierre Laborie. Ver: MAIA, Tatyana de Amaral. Os Cardeais da Cultura Nacional: o Conselho Federal de Cultura
na ditadura civil-militar (1967-1975). São Paulo: Itaú cultural: Iluminuras, 2012.
48 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

Vale(2018) afirma que a interpretação da História do Brasil lançada por


Calmon condizia com sua posição dentro da sociedade brasileira, sendo ele
proveniente de uma família de influência e membro de uma elite intelec-
tual. Consequentemente, para Vale (2018, p. 61), Calmon preservava as
“tradições e hierarquias pertencentes ao passado” em sua “[...] escrita de
uma história apropriada ao que se esperava de um país civilizado”. Pode-
mos, então, interpretar a visão otimista demonstrada por Calmon em suas
atividades acadêmicas e na revista como condizente com a tradição inte-
lectual e com os ideais de nacionalismo e patriotismo que eram exigidos
pelo discurso da ditadura civil-militar.
Logo, para compreendermos este posicionamento de Calmon, bem
como o de outros intelectuais no Brasil a partir dos anos 1920 e 1930, nos
baseamos nos estudos de Ângela de Castro Gomes (1999, p. 38) e conside-
ramos a “concepção mais restrita de intelectual, [uma] que privilegiasse a
idéia do produtor de bens simbólicos envolvido direta ou indiretamente na
arena política”. Esses intelectuais seriam, então, “homens da produção de
conhecimento e comunicação de ideias, direta ou indiretamente vincula-
dos à intervenção político-social” (GOMES, 2016, p. 10). Desta forma, esses
atores têm como tradição um papel central na formação do pensamento
de uma população e na construção de uma identidade nacional, atuando
como personagens ativos na disseminação de ideias e do desenvolvimento
de conceitos, estando diretamente envolvidos em estratégias que podem
ser ou não ser institucionalizadas. Portanto, seguindo este pensamento,
deve-se considerar o papel tomado por tais intelectuais mediadores3 du-
rante um governo ditatorial que centra sua legitimação na nacionalidade
e no patriotismo.
Ao se pensar a sociedade brasileira é necessário examinar o papel de-
sempenhado pelos intelectuais contemporâneos na construção nacional e

3
Utilizamos o conceito de intelectuais mediadores como trabalhado por Gomes (2016), sendo atores diversos em
posições estratégicas na política e na cultura. Os intelectuais mediadores são considerados em uma categoria
socioprofissional e suas ações são associadas às atividades de mediação cultural, ou seja, envolvendo a produção,
comunicação, circulação e apropriação de bens culturais. Ver: GOMES, Ângela de Castro; HANSEN, Patrícia Santos.
Intelectuais mediadores. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2016, p. 9-13.
Mariana Canazaro Coutinho | 49

como esta construção envolve uma “invenção” em relação a seus aspectos


materiais e simbólicos. As ideias de nação abarcam um sistema de identi-
ficação e resultam de certa imaginação produtiva e de um imaginário
nacional que, no Brasil, notamos ser realizado pelo Estado por meio da
organização da cultura (SANTOS, 2007). A atuação dos intelectuais em tais
estratégias realizadas por uma instituição como o Estado não é algo novo,
criado pelo regime ditatorial, visto que os intelectuais já exerciam a função
de mediadores culturais anteriormente. Carlos Fico (1997, p. 19) fala da
“tentativa de elaborar uma ‘leitura’ sobre o Brasil que, ao mesmo tempo,
criasse as bases para um sistema de auto-reconhecimento social e se ins-
taurasse como mística da esperança e do otimismo” como um processo de
longa duração. Do mesmo modo, vemos que este processo tem início antes
da ditadura, pois, para Gomes (1999, p. 22), “o Estado Novo foi um mo-
mento particularmente rico para a delimitação de uma construção
intelectual da história do Brasil”.
Sendo assim, a ideia da figura dos intelectuais como mediadores cul-
turais e formadores de conceitos que ajudariam a desenvolver um
imaginário e criar uma identidade nacional é uma estratégia preexistente
no discurso intelectual e político, como na propaganda durante o Estado
Novo, que é renovada na ditadura civil-militar. A estratégia de levar para
a população noções de nação e amor à pátria por meio do discurso destes
intelectuais e, com isso, construir uma identidade nacional brasileira é re-
tomada pela ditadura iniciada em 1964, um governo centralizado que se
utilizava de tais ideais de nacionalismo e patriotismo para se justificar e
manter o seu poder.
Para Gomes (1999, p. 23-24), “é através da história que o Estado pode
mobilizar um povo-nação que compartilha um único passado, ainda que
este sofra variações locais”. Ademais, Fico (1997, p. 48) afirma que

Na trajetória conflituosa das tradições do pensamento otimista e pessimista


sobre o Brasil - consideradas em relação aos anos de domínio dos militares e
na perspectiva da preocupação com a imagem externa -, o dado mais revelador
50 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

é realmente a expectativa criada em torno da noção de "grande potência". Si-


tuar o Brasil entre os grandes países sempre foi um desejo da elite brasileira.

Considerando estas afirmações, percebemos que a visão positiva do


país e a preocupação com a sua imagem no exterior são pontos-chaves
para construir um sentimento de nacionalismo. Consequentemente, a His-
tória do Brasil se torna uma ferramenta para a formação de um imaginário
coletivo e um senso de identidade brasileira. Desta forma, temos inúmeros
intelectuais que, como Calmon, ajudaram a criar essas noções no imagi-
nário da população a partir de diferentes meios de comunicação e em
âmbitos variados.
Calmon foi professor, historiador, escritor, bacharel em Direito, polí-
tico e ensaísta. Nascido em 1902 na Bahia, proveniente de uma família
tradicional, iniciou o curso de direito pela Faculdade da Bahia e o concluiu
no Rio de Janeiro, onde também trabalhou na imprensa, no Museu Histó-
rico Nacional e atuou como reitor da Universidade do Brasil. Obteve a
cátedra em História do Colégio Pedro II, publicou diversas obras de bio-
grafia e da História do Brasil, tornando-se um historiador de renome no
período. Além disso, Calmon foi membro de diversos institutos culturais,
históricos e literários, tendo sido membro, inclusive, da Academia Brasi-
leira de Letras (ABL) e presidente do IHGB. Publicou sobre literatura e
obras jurídicas e foi extremamente ativo dentro da academia. Além de sua
presença na política, foi também um intelectual que esteve envolvido em
diversas atividades culturais do país, inclusive durante a ditadura civil-mi-
litar, período em que participou do CFC ao lado de nomes como Gilberto
Freyre e Rachel de Queiroz.
Bem como Pedro Calmon o faz, Vale (2017, p. 477) afirma que “os
‘bacharéis’ formados por elas [faculdades de Direito] se mostraram atu-
antes como intelectuais em diversos campos do saber como a História, a
Geografia, a Literatura e o Jornalismo, mostrando engajamento na política
e na formação ideológica brasileira”. Desse modo, o autor, que se encontra
inserido nesta elite intelectual atuante na formação de ideias e conceitos
da sociedade brasileira, e que buscava manter sua relevância no âmbito
Mariana Canazaro Coutinho | 51

acadêmico e cultural, se envolve tanto em atividades dentro da academia


quanto fora desta, tal qual outros intelectuais do período. Por este motivo,
o movimento que Calmon realiza de uma escrita de grandes obras reco-
nhecidas por seus pares para um ambiente de escrita fora da academia se
torna significativo, pois, como sugere Gomes (1999, p. 45), “os jornais re-
presentavam, assim, uma forma de ingresso no mercado de trabalho
intelectual, uma profissionalização que expandia contatos [...]”.
Gomes (1999, p. 45) evidencia a importância da atividade jornalística
e como esse grupo de intelectuais estava conectado a tal atividade devido
ao fato destes meios serem considerados os “novos e amplos salões”. O
campo jornalístico se mostrava como o novo local de prestígio entre o pú-
blico, um espaço para a profissionalização, um caminho para a política e,
também, uma fonte de renda. Por esse motivo, podemos considerar o des-
taque que se obtinha através deste meio de comunicação de massa como
possível razão pela qual intelectuais do mundo acadêmico, como Pedro
Calmon, expandiram suas práticas para o âmbito público mais geral.
Igualmente, quando consideramos este movimento de Calmon para o
campo jornalístico, precisamos levar em consideração o local escolhido por
ele para exercer tal atividade.
Para compreendermos a utilização deste espaço por intelectuais
como Calmon na formação de um imaginário, devemos considerar a sig-
nificativa posição de prestígio da qual a revista O Cruzeiro dispunha. Como
Marlise Regina Meyrer (2007, p. 15-16) afirma, “a revista ‘O Cruzeiro’ foi
pioneira na utilização do fotojornalismo, inovação que passa a caracterizá-
la, tornando-a um dos principais veículos de comunicação do país na dé-
cada de 50”. Destaca-se, também, a influência que esta tinha entre as
camadas mais altas da sociedade brasileira e o posicionamento político que
apresentava.
A revista, lançada em 1928 e que se manteve em circulação até 1985,
foi um dos primeiros órgãos dos Diários Associados e uma das revistas
ilustradas mais proeminentes da história da imprensa no Brasil, sendo,
52 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

graficamente, uma das opções mais sofisticadas que se dispunha no perí-


odo. De circulação semanal, seus leitores pertenciam, principalmente, às
camadas alta e média da sociedade e, por sua posição privilegiada no
campo da comunicação, a revista possuía uma grande influência na for-
mação da opinião pública (MEYRER, 2007). Deste modo, O Cruzeiro
também se inseria nesta “luta de representações” que vemos durante o
período estudado e, como consequência da posição social daqueles que a
controlavam, exprimia o “interesse de um grupo poderoso” (MEYRER,
2010, p. 198), se tornando uma alternativa significante para a atuação não
acadêmica dos intelectuais mencionados.

As Crônicas de História

A seção Segredos e Revelações... da revista O Cruzeiro foi inaugurada


em 1948 por Gustavo Barroso4 com a proposta de uma pedagogia cívica.
Foi assumida por Calmon em 1960, que dá seguimento ao projeto, man-
tendo-se fiel aos objetivos da coluna. Concomitante às publicações e à
colaboração na O Cruzeiro, Calmon continuou seu trabalho acadêmico du-
rante os anos da ditadura, participando de diversas instituições, inclusive
do CFC, inaugurado pelo próprio regime ditatorial com a função de pro-
mover políticas culturais sistêmicas que fossem de encontro ao seu
discurso cívico. Portanto, ao estudar suas crônicas, deve-se atentar para
como ele estava utilizando este espaço para construir conceitos que for-
massem uma identidade coletiva, utilizando eventos históricos,
homenagens, datas comemorativas e heróis conhecidos ou desconhecidos
para formar uma ideia de nação brasileira, de pátria, de orgulho pelo país

4
Gustavo Barroso, também bacharel em Direito, político e ensaísta brasileiro, foi um intelectual que escreveu
diversos livros no campo das Ciências Humanas. Assim como Calmon e outros homens das letras de destaque na
sociedade brasileira, Barroso foi membro da ABL e diretor do Museu Histórico Nacional e publicou sobre história em
obras especializadas e em revistas, como a revista do IHGB. A seção Segredos e Revelações da História do Brasil foi
inaugurada por Barroso em agosto de 1948 e escrita por ele até 1960, sendo que as publicações em seu nome de
crônicas que havia deixado prontas continuaram após sua morte, em dezembro de 1959, até a seção ser assumida
por Calmon em março de 1960. Ver: MAGALHÃES, Aline Montenegro; BOJUNGA, Claudia Barroso Roquette-Pinto.
Segredos da história do Brasil revelados por Gustavo Barroso na revista O Cruzeiro (1948-1960). Estudos Históricos,
Rio de Janeiro, v. 27, n. 54, p. 345-364, jul./dez. 2014.
Mariana Canazaro Coutinho | 53

e por seus heróis, um discurso que também se fez presente nas estratégias
culturais deste regime.
Calmon escreveu para a coluna entre 1960 e 1968 e continuou como
colaborador da revista, mesmo após as publicações da seção chegarem ao
fim5. Dentre as crônicas publicadas durante o período da ditadura civil-
militar, estão disponíveis em formato digital noventa e oito, escritas entre
1964 e 1968, que podem ser acessadas pela Biblioteca Digital Nacional,
sendo que não existem publicações da revista digitalizadas do ano de 1965.
Deste modo, a análise do conteúdo das crônicas, a revisão bibliográfica so-
bre a posição dos intelectuais na sociedade brasileira, e o papel assumido
por Calmon ao escrever em um espaço de destaque dentro da imprensa
brasileira, nos ajuda a compreender como tais crônicas se encaixavam nas
ideias de formação de um imaginário realizada por intelectuais. Ademais,
o contexto histórico da revista e da vida de Calmon também auxiliarão a
entender como esta construção se insere dentro de um Estado autoritário
que busca disseminar ideais de nacionalismo e patriotismo para se manter.
A partir da leitura das crônicas foi possível definir os temas principais
como categorias gerais de: homenagem, acontecimento, política e monar-
quia, data comemorativa, biografia, história/origem de algo e símbolo.6
Em relação ao tema principal é importante destacar que os que foram con-
siderados como “homenagem” se referem a personalidades brasileiras e
estrangeiras que, de alguma forma, têm relação com a História do Brasil.
O autor frequentemente chama atenção para o relacionamento dessas fi-
guras com o Brasil, geralmente como tal pessoa via o país e seu povo,
sempre de maneira positiva. Quando se trata de um estrangeiro, Calmon
narra a visita (sempre agradável) de tal pessoa ao país ou a relação que
esta tinha com a família imperial. Podemos notar esse aspecto no seguinte

5
A seção não é oficialmente encerrada por Calmon na revista: as crônicas apenas deixam de ser escritas, sendo a
última publicada em outubro de 1968. Apesar de ainda não se ter conhecimento de uma nota do autor sobre o assunto
é provável que o encerramento da coluna e a saída de Calmon do CFC estejam ligados ao fato de que, no mesmo ano,
o autor assume a presidência do IHGB.
6
Foi utilizada a metodologia de análise de conteúdo para abordar as crônicas e, após uma leitura flutuante e outra
aprofundada de cada crônica, o conteúdo foi organizado em diferentes categorias. As categorias e a designação dos
elementos em suas devidas categorias ficaram a meu critério.
54 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

trecho da crônica em que Calmon (1967a, p. 46) realiza uma homenagem


a Rubén Dario por seu centenário:

Antes de vir ao Brasil, conheceu-lhe a bandeira, viu gente nossa, acompanhou-


a pelas ruas de Valparaíso, quando lá estêve o cruzador “Almirante Barroso” -
em 1889. É pela crônica que a respeito publicou em “La Nacion”, de Buenos
Aires que começa o seu interêsse por “um país encantado” - “donde hay Tijuca
y Corcovado - y donde canta el sabiá”.

Tanto no trecho acima quanto no seguinte, que trata do significado


das flores para o país, podemos perceber que, dentro destas narrativas
históricas, Calmon traz o simbolismo. O autor seguidamente cita símbolos
nacionais ao descrever um acontecimento, ou realizar uma homenagem,
como as “flores da abolição”, a bandeira e monumentos históricos para,
assim, complementar suas crônicas com itens que remetem ao naciona-
lismo.

Também para nós. Fato raro no mundo, as duas libertações se fizeram neste
país sob uma chuva de flôres. A de 29 de setembro de 1871, segundo o teste-
munho espantado do ministro dos Estados Unidos. A de 13 de maio de 1888,
conforme o testemunho romântico do ministro da República Argentina
(CALMON, 1967b, não paginado).

Notamos, então, como o uso de tais elementos transmitem ao leitor


o sentimento de orgulho pelo país e a visão positiva que outros têm deste.
Ou seja, Calmon demonstra esta prática de construção de um imaginário
através de representações e símbolos comuns à tradição intelectual mo-
dernista-conservadora, uma prática que se constata na construção da
república e na imagem e propaganda do Estado Novo e que é retomada
pela ditadura civil-militar.
Quando analisamos as crônicas que tem “acontecimento” e “histó-
ria/origem” como tema principal, notamos que Calmon narra algum
evento que considera importante na história do país, como algum mo-
mento que ele deseja destacar e os “heróis” envolvidos, ou a origem de
Mariana Canazaro Coutinho | 55

algum lugar ou de alguma palavra de destaque na língua portuguesa, cer-


tas referências que remetam à cultura nacional. Tais narrativas sempre se
apresentam em um tom positivo sobre o desenvolvimento dos aconteci-
mentos. Ademais, observa-se o modo como Calmon escreve sobre as datas
comemorativas, isto é, ocorridos que considera importante mencionar
como festas, cerimônias e aniversários, demonstrando algum motivo de
orgulho para o povo brasileiro.
Quando aprofundamos a leitura das crônicas percebemos algumas
recorrências. É possível notar que Calmon mantém uma escrita de certo
modo estável, com temas escolhidos a serem reforçados e, apesar de não
seguir um padrão em relação aos temas selecionados, ou uma linearidade
temporal, observa-se uma tendência em relação aos períodos escolhidos e
algumas palavras utilizadas. Um aspecto de destaque são os períodos his-
tóricos sobre os quais o autor escreve. Notamos uma ênfase dada ao
período do Império e início do Período Republicano. Especificamente, Cal-
mon se detém bastante ao Segundo Reinado e à família imperial. O autor
se dedicou ao estudo deste período em sua vida acadêmica e publicou di-
versas obras sobre este momento da história do país. Além disso, percebe-
se que a tradição conservadora busca um discurso que enfatiza um Estado
autoritário e centralizado que traga uma união harmoniosa ao povo.
As palavras e os conceitos escolhidos por um autor são componentes
importantes para a análise de uma narrativa. Por este motivo foram sele-
cionadas para levantamento algumas palavras que remetem à ideia de
nacionalismo, como “pátria”, “herói” e “nação”. Pode-se pensar na escolha
de tais palavras como um estímulo mental às noções de nacionalismo e de
patriotismo, noções que conduzem também à ideia de identidade nacional.
Mesmo não sendo palavras centrais nas crônicas, quando analisamos suas
ocorrências em um texto de tom positivo que exalta o país e seus heróis e,
ainda, considerando que estas publicações ocorrem em tempos em que o
país se encontra sobre um governo ditatorial que pretende criar um sen-
timento de lealdade e legitimidade, elas se tornam relevantes para o
estudo. Podemos perceber a presença de tais palavras no seguinte trecho:
56 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

D. João II passa a ser desde então o patrono do país que se formava; e formou-
se, com os bons e maus, que enviou em grandes levas para ocupá-lo, heróis
das guerras da Ásia e degradados da beira do cais de Lisboa. Do caos, extraiu
uma pátria; e deu-a aos seus patriarcas, com a Lei e a Fé, ou seja, com o go-
verno, a religião, o livro (CALMON, 1966, p. 34).

Foram também evidenciados e selecionados locais e pessoas secun-


dárias ao tema principal aos quais o autor referencia ou menciona. Um
aspecto que chama atenção são as menções a Machado de Assis que apa-
recem com certa frequência. É razoável atribuir tal recorrência a uma
admiração que Calmon possa ter tido pelo autor. Também é possível que,
além de seu apreço por Machado de Assis, sua menção seja uma forma de
trazer a imagem de um autor brasileiro relevante e criar a figura de um
conterrâneo pelo qual se possa ter orgulho. As referências literárias são
frequentes e estão presentes em diversas crônicas. Atribuímos a incidência
da referência literária ao fato de Calmon ter sido membro da ABL e ser
considerado um homem das letras de significância, porém, suas referên-
cias a Machado de Assis se sobressaem, o que nos leva a considerar a
intenção de Calmon em ressaltar o autor como um símbolo brasileiro, tal
qual podemos perceber no seguinte trecho:

[...] os irmãos inimigos, Etéocles e Polinice da era romântica (diríamos me-


lhor, pensando em Machado de Assis) - Esaú e Jacó; quando em tôrno da
tradição e da Carta se travou em Portugal a luta interna mais áspera e pro-
funda de que lá se tem notícia (CALMON, 1968, p. 71).

Finalmente, Calmon, em grande parte de suas crônicas, cita as fontes


utilizadas como evidência e base para sua narrativa. Logo, outro elemento
que nos interessa destacar é a documentação que Calmon traz para suas
crônicas como fontes para seu discurso. O autor utiliza cartas, biografias,
documentos históricos, menciona os arquivos que utilizou para obter sua
fonte e ainda cita autores e outras obras. Sendo assim, apesar de estar es-
crevendo uma crônica para uma revista direcionada a um público fora da
Mariana Canazaro Coutinho | 57

academia, Calmon mantém o método de escrita da história ao fazer cita-


ções para legitimar seu argumento, levando, de certa forma, a escrita
acadêmica para o jornalismo e, assim, assegurando ao leitor a veracidade
de seu texto. Calmon também menciona diversas personalidades da histó-
ria brasileira em cada crônica que escreve, pois, mesmo escrevendo em
um espaço destinado a um público geral, o autor continua sendo uma fi-
gura importante no contexto da elite intelectual, algo que se esforça para
manter em evidência na sua escrita.

Discurso Cívico-Patriótico e o Civismo da Ditadura

Por meio da investigação das crônicas percebemos que o discurso uti-


lizado nas narrativas históricas de Calmon pertence a uma tradição
modernista-conservadora da elite intelectual do país, sendo importante
compreender como esse discurso se relaciona com o civismo que foi utili-
zado pela ditadura civil-militar para legitimar suas ações. Outrossim,
vemos que o discurso cívico-patriótico usado por Calmon já se encontrava
presente entre os intelectuais, como Tatyana de Amaral Maia (2012, p. 185)
argumenta, ao dizer que os “setores sociais conservadores se organizavam
desde o início da década de 1960 em torno de associações cívicas, exigindo
a defesa da pátria e a preservação das tradições nacionais”.
Isto posto, ressaltamos que a presença de elementos que evidenciam
um nacionalismo e um patriotismo nas narrativas de Calmon remetem à
construção de uma cultura cívico-patriótica. Para Gomes (2009), a consti-
tuição de uma História Pátria no Brasil entre o final do século XX e os anos
1940 ocorreu associada ao movimento que desenvolveu um discurso re-
publicano, o qual estabeleceu vínculos entre a República e a criação desta
cultura cívico-patriótica. Ainda, segundo a autora, a necessidade de se pro-
duzir um novo discurso político com valores e símbolos cívico-morais foi
fundamental no exercício de reelaboração da escrita de uma história pá-
tria. Essa tradição intelectual permaneceu ativa entre o grupo modernista-
conservador no cenário intelectual e cultural brasileiro até meados dos
58 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

anos de 1970. Assim é proposta uma leitura sobre o Brasil, e os brasileiros,


ancorados na ideia da tradição luso-brasileira e do Estado centralizado
como sínteses da modernidade, uma leitura que favorece a legitimidade de
experiências políticas autoritárias ao longo do período republicano (MAIA,
2012).
De acordo com Afonso Carlos Marques dos Santos (2007), os intelec-
tuais modernistas-conservadores se constituíram em promotores da
civilização ao construir o Estado. Segundo o autor, no Brasil, os homens
se defrontaram com uma realidade que tentaram ocultar por meio de ale-
gorias, as quais simbolizavam os seus esforços no sentido de civilizar o país
e, assim, uma tarefa civilizatória permanente deveria ser assumida pelos
construtores da Nação, a qual seria conduzida pelo Estado imperial, cen-
tralizado e autoritário, capaz de promover uma unidade nacional. Daniel
Pécaut (1990, p. 15) divide os intelectuais do Brasil em duas gerações e
argumenta que, aqueles pertencentes à geração de 1925-1940 se mostra-
vam interessados na formação de uma identidade nacional e assumiram a
tarefa de organizar a nação, pois “forjar um povo também é traçar uma
cultura capaz de assegurar sua unidade”.
Da mesma maneira, ao analisar obras dos anos 1930 de autores que
ajudaram a construir uma narrativa histórica sobre a nação brasileira, José
Carlos Reis (2006) analisa como um grupo utiliza a linguagem, as ima-
gens, as tradições, os personagens e acontecimentos históricos para
desenvolver um discurso que remete a uma ideia de identidade comum
relacionada a uma utopia, e, também, a história do Estado-Nação, de sua
organização política e cultura nacional relacionada à felicidade. Desta ma-
neira, o autor investiga as interpretações de historiadores que buscam a
criação de uma identidade nacional, a qual, através de representações, tor-
nam-se ideias ou sentimentos reais em relação à nação, e que, por fim,
tornam-se uma forma de memória compartilhada.
Desta forma, inserimos Calmon nesta tradição intelectual que valo-
riza o passado nacional brasileiro e busca a representação da nacionalidade
Mariana Canazaro Coutinho | 59

na visão positiva de um passado autoritário. Ao narrar eventos que exal-


tam o Estado com um poder centralizado, valorizando personalidades que
remetem aos valores culturais da sociedade brasileira e aos símbolos que
representam uma tradição, Calmon se torna parte de um processo de
construção de uma nação e de uma unidade nacional, por meio da popu-
larização de uma história otimista acerca do Estado centralizado, tarefa
que foi tomada como missão por setores intelectuais brasileiros.
Segundo Reis (2006), Calmon faz parte da tradição dos “descobrido-
res do Brasil”, na qual a “verdade” histórica, legitimada pelos documentos,
constrói essa memória. Calmon defende ideias de civilização, cultura e na-
ção por meio de narrativas sobre acontecimentos do passado. Dividindo a
História do Brasil em dois momentos, antes e depois de 1808, para Cal-
mon, o segundo momento seria um em que a nação é a monarquia, e a
História do Brasil é dedicada à história da família real. Ademais, Reis
(2006, não paginado) afirma que, para Calmon, “a memória da nação é
reduzida à memória do Estado”, e o historiador deveria “[...] consolidar a
identidade nacional, fundindo história e memória, ciência e valores éticos,
impondo à nação a memória do Estado”. As narrativas de Calmon de-
monstram uma ambiguidade entre Estado e nação, pois além de uma
história sobre o Estado com fontes oficiais, ele produziu, também, uma
história cultural e construiu uma “memória da nação”, sendo sua inter-
pretação de nossa trajetória otimista e romântica (REIS, 2006).
Portanto, com os aspectos evidenciados nas crônicas, vemos que Cal-
mon se encontra entre a tradição modernista-conservadora, e podemos
perceber os elementos discursivos do conservadorismo presente em suas
narrativas, nas quais ideias autoritárias são mostradas como algo positivo.
Podemos relacionar Calmon ao pensamento autoritário, definido por Ma-
rio Stoppino (1986, p. 96), que defende uma organização hierárquica que
busca alcançar a ordem da sociedade política, sendo que o autoritarismo é
a “ideologia da ordem” ligada ao passado. O autor também evidencia a
60 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

relação do Estado autoritário com o nacionalismo, tendências imperialis-


tas, conservadorismo e tradição. Se estabelece, desta forma, uma relação
entre conservadorismo, poder e autoridade.
Estando o conservadorismo ligado a uma familiaridade e a uma or-
dem social preexistente, Roger Scruton (2015) afirma que para este
pensamento há um “arranjo social” a se manter. Existe um compromisso
com uma unidade que necessita do poder para se assegurar, e “[...] os con-
servadores acreditam que o poder do Estado é necessário para a
autoridade deste e procurarão estabelecê-lo e reforçá-lo diante de toda in-
fluência que lhe fizer oposição” (SCRUTON, 2015, p. 75). O autor ainda
afirma que os conservadores tendem a valorizar a monarquia e o patrio-
tismo gerado por ela, argumentando que, para os conservadores, o
patriotismo é indispensável, sendo uma responsabilidade manter os cos-
tumes e os símbolos ligados ao pertencimento de uma sociedade
(SCRUTON, 2015).
Ao analisar o elemento autoritário no discurso de Calmon, conside-
ramos que, conforme Robert Nisbet (1987, p. 65), “autoridade” é um dos
principais conceitos da filosofia conservadora. Segundo o autor, é neces-
sário salientar que as ideias de autoridade e ordem estão ligadas à ideia de
liberdade no conservadorismo, pensando-se “a liberdade ligada à ordem”.
O autor ainda afirma que a perspectiva do papel da história é básica para
a política conservadora. “História não é mais que uma experiência, e é na
confiança da experiência [...] que o conservadorismo baseia a sua fé”
(NISBET, 1987, p. 48). Para o conservador, a realidade é compreendida
pela “abordagem histórica”, pois precisamos saber onde estivemos para
saber onde estamos e para onde vamos (NISBET, 1987).
Desta forma, Calmon realiza uma “interpretação construtiva do Bra-
sil”, apresentando aspectos de um discurso conservador, a qual
representa, para Reis (2006), a visão da aristocracia católica brasileira que
busca uma história de união nacional a partir de virtudes e valores morais.
Ainda, segundo o autor, a história de Calmon é uma narrativa “doce” e
“serena” que confirma sua ideologia ultraconservadora, evidenciando que
Mariana Canazaro Coutinho | 61

seu caráter pacífico e conciliador se deve a sua posição de aristocrata. Da


mesma maneira, a brasilidade em suas obras aponta as ideias de otimismo,
de um povo brasileiro integrado e contente com sua pátria, de uma felici-
dade nacional em um Brasil onde os conflitos vividos servem apenas para
reforçar a esperança de que os problemas serão superados e a união har-
moniosa será alcançada (REIS, 2006).
Logo, a construção desta História Pátria do Brasil está ligada à ques-
tão da identidade, a qual, segundo Fico (1997, p. 38), “constituiu uma
verdadeira obsessão” durante os “governos militares”. Tal construção tra-
zia uma leitura otimista sobre a trajetória do país envolvendo elementos
de “brasilidade e “valores brasileiros” que se aproximavam da ideia de um
povo harmonioso e pacífico. Ainda, o autor argumenta que diversos aspec-
tos relacionados à identidade brasileira que foram construídos durante o
Estado Novo, como a “valorização da mistura racial, a crença no caráter
benevolente do povo, [e] o enaltecimento do trabalho” (FICO, 1997, p. 34),
foram renovados na propaganda política da ditadura civil-militar. Perce-
bemos, portanto, como uma narrativa histórica que auxilie na construção
de uma memória nacional se torna significante na constituição de uma
identidade nacional.
Como já mencionado, Calmon participou do CFC entre 1967 e 1968.
De acordo com Maia (2014, p. 90), o CFC tinha a incumbência de “elaborar
políticas associadas ao projeto desenvolvimentista do governo militar, va-
lorizando na cultura aqueles elementos considerados representativos da
nação”, sendo desta maneira que o culto ao civismo se fez presente nas
ações realizadas pelo Conselho. Ainda, para a autora, o civismo, que foi
reelaborado no período da ditadura civil-militar e que se associava às re-
presentações e as políticas relacionadas à cultura nacional, se apresentou
como um sinônimo de patriotismo e se sobrepôs à ideia de cidadania, per-
mitindo que as ações autoritárias do Estado se afirmassem como legítimas.
Desta forma, a ideia de civismo, radicalizada pelos pensamentos conserva-
dor e nacionalista deste período, servia de base para a relação entre o
Estado e a sociedade civil e restringia os direitos da população em favor da
62 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

“segurança nacional”, promovendo a defesa da nação acima dos direitos


civis, políticos e sociais (MAIA, 2014).
O civismo, como proposto por Maia (2014), tem sua base em uma
visão conservadora e otimista acerca da cultura nacional. Segundo a au-
tora, as políticas culturais elaboradas pelo CFC, que promoveriam a
difusão de uma memória nacional e a preservação do patrimônio cultural,
reforçariam na população este ideário de amor à pátria, de tradição e de
unidade nacional. Ademais, Maia (2014, p. 96) afirma que

O civismo ao incorporar o otimismo organizou o aparato discursivo e ideoló-


gico nacionalista-conservador em torno do projeto autoritário dos governos
militares. O civismo, neste caso, sobrepõe-se à cidadania moderna por descon-
siderar a legitimidade dos interesses políticos conflitantes existentes na
sociedade; limitar a capacidade de organização política coletiva; aviltar a liber-
dade de expressão e os direitos individuais em nome de supostos valores
superiores nacionais.

Observamos que, como afirma Marcos Napolitano (2014, não pagi-


nado), “para os militares, a cultura era subsidiária de uma política de
integração do território brasileiro, reforçando circuitos simbólicos de per-
tencimento e culto aos valores nacionais, ou melhor, nacionalistas”.
Portanto, o discurso otimista de Calmon faz parte de uma tradição, inici-
ada nos anos 1930, retomada pela ditadura civil-militar, que difunde uma
narrativa histórica com a intenção de reforçar lugares de memória, sím-
bolos e representações na construção de uma identidade nacional comum.
Dessa maneira, valorizar o passado, as tradições e os heróis com a intenção
de provocar um sentimento de pertencimento e de patriotismo, criavam
bases para a permissão de ações autoritárias que ameaçavam os direitos
civis, mas se diziam necessárias para a proteção da nação.

Considerações Finais
Mariana Canazaro Coutinho | 63

Pedro Calmon foi um professor, historiador e intelectual que atuou


ativamente dentro da academia, porém também teve um papel de desta-
que fora desta, especialmente no âmbito jornalístico a partir da revista O
Cruzeiro, espaço em que, com suas crônicas, difundiu a História do Brasil
para o grande público. Apesar de estar escrevendo para o campo do jorna-
lismo e de maneira mais livre, no formato de crônicas, Calmon manteve,
de certa forma, sua escrita nos padrões da escrita acadêmica da História
ao citar suas fontes documentais e mencionar outros autores como base
para o que é apresentado.
Nestas crônicas publicadas por Calmon para O Cruzeiro, revista de
proeminência entre as camadas dominantes da sociedade brasileira, o au-
tor tende a narrar eventos que exaltam o Estado com um poder
centralizado, valorizando personalidades que remetem aos valores cultu-
rais da sociedade brasileira e aos símbolos que representam uma tradição
e uma unidade nacional. Logo, esse discurso faz parte de um processo de
construção da nação e de uma identidade nacional pela popularização de
uma história otimista acerca de nossa trajetória histórica. Essa narrativa
histórica apresenta uma visão positiva de um passado harmonioso com a
presença de um Estado centralizado e autoritário que promovia a união do
povo. Tal tarefa de valorizar o passado, a tradição e a consciência nacional,
aspectos de uma ideia de civismo, foi tomada pela elite intelectual brasi-
leira como uma “missão”.
Na escrita das crônicas de Calmon é possível perceber a presença de
elementos do conservadorismo e, também de certa ideologia autoritária.
Em suas narrativas, o autor tende a exaltar a família imperial brasileira,
valorizar o Estado autoritário do Período Imperial e o aspecto militar da
história do país, além de tratar de acontecimentos relacionados à igreja
católica. Diante disso, compreendemos a busca de Calmon em criar um
sentimento de harmonia e patriotismo, utilizando símbolos nacionais e he-
róis para narrar a História do Brasil. Este tipo de discurso se faz presente
nas vésperas do golpe de 1964 e, especialmente, durante a ditadura civil-
militar como uma forma de validar ações autoritárias e repressoras que
64 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

agrediam os direitos políticos, civis e sociais dos cidadãos em razão de um


dito bem maior que seria o de preservar a nação.
Os intelectuais e sua interpretação de uma história otimista foram
centrais na construção de uma identidade coletiva nacional dentro da so-
ciedade brasileira, e do Estado a partir dos anos 1930. Desta maneira, a
estratégia de se utilizar a elite intelectual e a história-memória para reali-
zar a preservação do patrimônio e da cultura nacional, da retomada de
acontecimentos, símbolos e heróis da história brasileira é uma prática re-
vitalizada pela tradição modernista-conservadora a partir dos anos 1960.
Tal prática é, então, utilizada pelo regime ditatorial na intenção de difundir
um ideário cívico que coloca a nação acima dos direitos dos cidadãos. O
CFC, do qual Calmon fez parte, foi um órgão utilizados nesta estratégia
durante a ditadura, pois tinha a função de desenvolver políticas culturais
que preservassem lugares de memória e difundissem o civismo, na busca
de garantir um nacionalismo e o sentimento de patriotismo entre a popu-
lação.
A partir da análise das crônicas, podemos compreender como Cal-
mon atua no desenvolvimento de uma identidade coletiva por meio das
narrativas históricas, inserindo-se, assim, em uma tradição intelectual. Ao
relatar um acontecimento, falar sobre a vida das pessoas, contar sobre a
origem de algum símbolo, palavra ou lugar, de forma que possam interes-
sar o leitor, o autor procura criar um sentimento de orgulho comum pela
trajetória do país. Portanto, Calmon se apresenta dentro de uma prática
de construção da identidade brasileira, comum aos intelectuais de sua ge-
ração que, no período da ditadura civil-militar, é incluída em um discurso
reelaborado para desenvolver o nacionalismo dentro de um Estado auto-
ritário que procura justificar-se como necessário em defesa da nação.

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Mariana Canazaro Coutinho | 65

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3

Olavo Bilac e a Doutrina de Segurança Nacional:


como o enquadramento de memória do poeta colabora
com um novo projeto de nação

Lara Coletto 1

A ditadura civil-militar brasileira foi resultado de um projeto que


uniu civis e militares diante da mesma causa: a derrubada de um presi-
dente legítimo em prol da manutenção de seus privilégios. Diversos grupos
conservadores da sociedade se uniram, como os movimentos de mulheres,
setores da Igreja e do empresariado brasileiro, assim como diferentes ins-
tituições, sendo o Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais (IPES) e o
Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) seus principais expoentes.
A ideia de um "golpe preventivo" como forma de barrar a suposta
investida de João Goulart teve apoio dos Estados Unidos, que, sendo a
grande potência capitalista mundial, vivia a bipolaridade geopolítica, dis-
putando a hegemonia global com a União Soviética. Dessa maneira, os
EUA foram grandes disseminadores da Doutrina de Segurança Nacional e,
após a Revolução Cubana em 1959, investiram com maior força em dife-
rentes países ao redor do mundo, buscando frear o avanço comunista.
Dentro dessas medidas estava o apoio a diferentes golpes civis-militares
na América Latina.
Os primeiros anos da ditadura brasileira, caracterizados pelo governo
de Humberto de Alencar Castelo Branco (1964-1967), possuíam um tom

1
Mestranda no Programa de Pós-Graduação em História da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
Bolsista CNPq.
68 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

de legalidade, colocando o golpe enquanto uma medida necessária para


frear o perigo comunista resultante do governo Jango. Muitos foram os
mecanismos que a ditadura utilizou para se legitimar ao longo dos 21 anos
de regime, sendo os cinco primeiros anos de extrema importância para
este processo.
Castelo Branco, a maior figura de uma possível linha branda da dita-
dura, carregou em seus discursos uma ideia central de defesa à
democracia. Intensificaram-se as propagandas políticas e a busca por um
passado nacional glorioso. Porém, o grupo militar que ascendeu ao poder
em 1964 tinha como principal ideologia a de "que seria possível eliminar
quaisquer formas de dissenso (comunismo, 'subversão', 'corrupção')
tendo em vista a inserção do Brasil no campo da 'democracia ocidental e
cristã'" (FICO, 2004, p. 34).
Dessa maneira, Carlos Fico nos diz que

A mais duradoura ditadura brasileira [preocupou-se] em conformar um novo


padrão de comportamento social, compatível com um patamar de desenvolvi-
mento econômico (que mais se desejou do que se consolidou). Tratava-se,
então, não só de convencer a todos das potencialidades brasileiras, mas de su-
gerir que, como essas riquezas nos dariam ingresso ao 'mundo desenvolvido',
eram desejáveis certas regras de conduta, de civilidade. (FICO, 1997, p. 23).

O autor acrescenta que "[...] essa busca de adequação seria viabili-


zada pelo recurso às imagens do passado [...]. Trata-se, portanto, da
recuperação de um material histórico específico, de uma certa memória,
que importa não tanto pelo conhecimento que traz, mas pela ação que ela
governa" (FICO, 1997, p. 23). Sendo assim, a figura de Olavo Bilac entra
em cena.
No ano de 1965 ocorreu o centenário de nascimento de Olavo Bilac,
sendo este uma grande comemoração no calendário nacional. Foi nessa
data em que o poeta se tornou Patrono das Forças Armadas, o primeiro
membro civil do panteão. Iniciou-se então um processo de enquadramento
de memória de Bilac, onde diversas obras biográficas foram lançadas. As
Lara Coletto | 69

obras buscam retratar seu trabalho como intelectual, suas funções patrió-
ticas e sua vida privada.
O conceito de enquadramento de memória é, para esse trabalho, um
ponto central. Compreendemos enquadramento de memória segundo as
postulações de Michael Pollak, que nos diz que “o trabalho de enquadra-
mento de memória se alimenta do material fornecido pela história. [...]
esse trabalho reinterpreta incessantemente o passado em função dos com-
bates do presente e futuro" (POLLAK, 1989, p. 10).
Tendo esse conceito em mente, compreendemos de maneira mais
aprofundada as fontes utilizadas para esse trabalho. Utilizaremos duas
obras de cunho biográfico, produzidas nos primeiros cinco anos da dita-
dura: Olavo Bilac, o homem cívico2, do General Moacir Araújo Lopes, de
1968; e Olavo Bilac e o Serviço Militar: o homem, o artista, o patriota3 de
Adelino Brandão, de 1969.
Mas por que a figura de Olavo Bilac seria tão importante para a di-
tadura civil-militar brasileira?

Olavo Bilac: O Exemplo de Cidadão

Olavo Bilac assistiu a mudança do Império para a República. Filho de


um médico que participou da Guerra do Paraguai, viu as frustrações dos
combatentes ao não receberem as recompensas prometidas pelo impera-
dor, tornando-se, posteriormente um grande simpatizante da república e
um ativo abolicionista. Porém, seu principal trabalho se deu frente à Liga
de Defesa Nacional (LDN) – fundada no ano de 1916, no dia 7 de setembro,

2
Contém 24 páginas que buscam tratar das instituições, da juventude e da importância do civismo, além de comentar
certos aspectos da vida de Olavo Bilac, como seu serviço patriótico e suas relações familiares. Da página 25 a 45,
seguem-se anexos, entre poemas de Bilac e os decretos-lei que instauram o Dia do Reservista e deram o título de
Patrono das Forças Armadas ao poeta.
3
Faz parte de um concurso intitulado "Serviço Militar" do ano de 1968, porém foi publicado apenas em 1969. Essa
obra foi encomendada pelo Ministério do Exército e deveria falar sobre os seguintes temas "1- Bilac: sua figura como
intelectual e como homem; 2- A campanha cívica de Bilac. O papel do poeta na institucionalização do Serviço Militar;
3- Atual legislação do Serviço Militar: flexibilidade da legislação, visando a compatibilizar a prestação do Serviço
Militar com as atividades estudantis; Deveres do cidadão quanto ao alistamento e à Convocação para o Serviço Militar
Inicial; Deveres do reservista" (Adelino Brandão, 1969, p. 9).
70 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

ela tinha como sua principal função a mobilização de uma burguesia com
pouco apego patriótico para prestar o Serviço Militar no contexto da Pri-
meira Guerra Mundial (1914-1918).
A Liga buscava ser uma instituição apartidária e seus membros eram
tanto civis quanto militares, mas seu maior lema era a ideia de que o Exér-
cito era a única instituição verdadeiramente nacionalista. Olavo Bilac
tornou-se o maior propagador da LDN, viajando o país e discursando para
diferentes grupos, como militares, políticos e, principalmente, a juventude.
Sendo assim, o poeta tornou-se um "exemplo de cidadão consciente de
seus deveres frente à sociedade" (MAIA, 2014, p. 91).
O enquadramento de Bilac pode ser observado em diferentes mo-
mentos da República brasileira, como o ocorrido no Estado Novo de
Vargas4. Durante a ditadura civil-militar, porém, o uso político do poeta
tem uma finalidade diferente: criar legitimidade e buscar apoio popular.
O ano de 1968 foi importante para a ditadura, momento em que a
repressão, a censura e os desaparecimentos forçados tornam-se práticas
"legítimas" do regime, intensificadas pelo Ato Institucional nº 5, de 13 de
dezembro. De um lado, o forte cerceamento das liberdades democráticas
e, de outro, as grandes comemorações de cunho cívico, como o Sesquicen-
tenário da Independência, facilitaram para que Olavo Bilac, grande
defensor do Exército, se tornasse também um exemplo de cidadão e uma
justificativa para o golpe efetuado anos antes.

A Doutrina de Segurança Nacional e Bilac

Compreende-se a Doutrina de Segurança Nacional (DSN) enquanto


um projeto de nação alicerçado na manutenção do status quo e na busca
para afastar o perigo do comunismo, justificando atos repressivos que
atentam contra os direitos humanos. Essa política foi exportada por norte-

4
Durante o Estado Novo de Vargas, a figura de Bilac também foi revivida no contexto da Segunda Guerra Mundial
(1939-1945) e buscou mobilizar o alistamento de cidadãos para lutar em território europeu. Nesse contexto, com um
decreto-lei, Vargas tornou o dia 16 de dezembro como o Dia do Reservista.
Lara Coletto | 71

americanos e franceses e tornou-se a base para as ditaduras da América


Latina, caracterizadas posteriormente pela nomenclatura "Ditaduras de
Segurança Nacional".
Articular a figura de Olavo Bilac em uma pesquisa acerca da DSN pa-
rece um trabalho complicado. As obras aqui apresentadas como fonte
buscam criar legitimidade e são escritas por membros militares, logica-
mente não apresentando dados de atos repressivos severos. Mesmo assim,
nos auxiliam a compreender o projeto de Nação da ditadura civil-militar.
Com isso, é importante mencionar que

Uma das principais premissas da doutrina de segurança nacional (DSN),


marco de diretrizes gerais presentes nas ditaduras da região, é a rejeição da
idéia da divisão da sociedade em classes, pois as tensões entre elas entram em
conflito com a noção de unidade política, elemento basilar daquela. Segundo
os princípios da DSN, o cidadão não se realiza enquanto indivíduo ou em fun-
ção de uma identidade de classe. É a consciência de pertencimento a uma
comunidade nacional coesa que potencializa o ser humano e viabiliza a satis-
fação das suas demandas. Nesse sentido, qualquer entendimento que aponte
a existência de antagonismos sociais ou questionamentos que explicitem a dis-
simulação de interesses de classe por detrás dos setores políticos dirigentes é
identificado como nocivo aos interesses da “nação” e, portanto, deve ser com-
batido como tal. Mais do que isso, tal coesão política pressupõe o fim do
pluralismo político, condição essencial para a resolução dos conflitos e de seus
elementos centrífugos. (PADRÓS, 2008, p. 144).

É na ideia de "interesses da nação" que encontramos a articulação


com nossa fonte. As obras, ao serem lidas, demonstram um interesse de
proteção da nação através do civismo. Olavo Bilac não é analisado en-
quanto suas produções e articulações: o que buscamos analisar nesse
trabalho são produções onde há usos políticos da figura do poeta enquanto
exemplo de homem cívico.
Adelino Brandão, em seu livro Olavo Bilac e o Serviço Militar, de 1969,
traz à tona uma ideia que vai ao encontro à citação de Padrós. Nas palavras
do intelectual militar, as Forças Armadas "[...] não se constituem em casta,
classe, privilégio ou discriminação. Sim, que formam um grupo aberto,
72 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

onde se permite a ascensão e a mobilidade sociais, resguardados os aspec-


tos fundamentais da disciplina e da hierarquia" (BRANDÃO, 1969, p. 44).
Iremos, então, ancorar a análise tendo como base dois trabalhos: um
do historiador Enrique Padrós, intitulada Repressão e violência: segurança
nacional e terror de Estado nas ditaduras latino-americanas (2008); e um
da jornalista Leneide Duarte-Plon, A tortura como arma de guerra da Ar-
gélia ao Brasil: como os militares franceses exportaram os esquadrões da
morte e o terrorismo de Estado (2016).
Entenderemos a caracterização de civismo como fundamentado por:
"caráter - com base na moral, originária da ética, tendo como fonte DEUS,
(Constituição do Brasil, Preâmbulo). Amor à Pátria - e as suas tradições,
com capacidade de renúncia. Ação - intensa e permanente, em benefício
do BRASIL" (LOPES, 1968, p. 10). Assim, conseguimos, logo de início, com-
preender o que a ditadura buscou mobilizar na população. É uma
população cristã, ligada às tradições e que age sempre em benefício do
país.
Padrós nos diz que "o elemento desestabilizador, contrário à unidade
nacional da DSN, é considerado “subversivo”, inimigo e, na semântica da
doutrina, como o estranho que não pertence e não tem direito de pertencer
à nação" (PADRÓS, 2008, p. 144). Na introdução do livro do general Moa-
cir Araújo Lopes, Olavo Bilac: o homem cívico, nota-se a ideia de um tipo
ideal de cidadão, corroborando o conceito da família nuclear, do homem
de bem e de lugares sociais bem definidos. O subversivo não é apenas o
comunista, como Lopes nos diz:

A antiga pirataria, o jogo do bicho, a prostituição, a juventude transviada são


construções alimentadas por deficiências em Instituições basilares, entre as
quais a Família, a Escola, a Igreja, a Imprensa, o Trabalho. Aquelas construções
obedecem a um código análogo de comportamento. Desse modo, um jovem,
não dignificado adequadamente pela Religião e pela Família, integre-se em
bando, ante o qual atos reprováveis são títulos de honra e, como tal, glorifica-
dos. Um estudante não dignificado pela Religião, pela Família e pela Escola,
relega o estudo a um plano secundário para praticar atos atentatórios à ordem,
ao sossego público e a moral. (LOPES, 1968, p. 11-12)
Lara Coletto | 73

Padrós, corroborando com o exposto, afirma que "além da reafirma-


ção da pátria (nação) como unidade, destaca-se a função disciplinadora
que está implícita na sua aceitação. Trata-se de formar as novas gerações
inculcando-lhes valores como fidelidade, docilidade, obediência e disci-
plina" (PADRÓS, 2008, p. 146). As Forças Armadas são sempre
glorificadas, unindo-se à já citada Liga de Defesa Nacional que via, no Exér-
cito brasileiro, a única instituição com sentimentos verdadeiramente
patrióticos. "Para universalidade do Serviço Militar, prestam-no brasilei-
ros de todas as raças, crenças, classes sociais e graus de instrução, pois que
as Forças Armadas são a Nação, o povo em armas." (LOPES, 1968, p. 13).
Nesse entendimento, o Exército é formado pelo povo, por toda a diversi-
dade da população brasileira e, portanto, ele é sinônimo da vontade
nacional.
Na prática, durante sua função de intelectual mediador, Olavo Bilac
nunca foi favorável ao militarismo. Em seus textos, expressava que a ideia
do soldado-cidadão, ou seja, de um povo em armas, afastaria toda e qual-
quer tentativa de tomada de poder pelos militares. Nota-se então que a
partir de 1964, o governo ditatorial e seus intelectuais trabalharam para
"manipular" as palavras do poeta.
Olavo Bilac se torna um importante expoente para a legitimidade do
governo militar. Distorcidas, as palavras do poeta só foram utilizadas en-
quanto favoráveis, sendo os militares patrióticos e com grandes
habilidades de governar visto sua real preocupação com o país. Em reali-
dade, as Forças Armadas buscavam manter os privilégios de grupos
específicos, criar e intensificar a ideia de ameaça de um inimigo interno –
o que, na prática, transformou toda a população em inimigo provável.

Ele se disfarça de sacerdote ou professor, de aluno ou de camponês, de vigi-


lante defensor da democracia ou de intelectual avançado, de piedoso ou de
extremado protestante; vai ao campo, às escolas, às fábricas e às igrejas, à cá-
tedra e à magistratura; usará, se necessário, o uniforme ou o traje civil; enfim,
desempenhará qualquer papel que considerar conveniente enganar, mentir e
74 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

conquistar a boa-fé dos povos ocidentais. Daí por que a preocupação dos exér-
citos em termos de segurança interna frente ao inimigo principal: este inimigo
para o Brasil continua sendo a subversão provocada e alimentada pelo movi-
mento comunista internacional. (FORTES apud DUARTE-PLON, 2016, p. 38)

A citação acima foi proferida em Caracas no ano de 1973 pelo então


comandante do Estado-Maior do Exército brasileiro, Breno Borges Fortes.
Na obra de Duarte-Plon, a autora busca explicitar que a Doutrina de Segu-
rança Nacional não foi resultante apenas de projetos norte-americanos,
pois a França também desempenhou importante papel na construção de
conceitos que fundamentaram o Terror de Estado nos países latino-ame-
ricanos.
A principal ideia trazida pela autora busca demonstrar questões rele-
vantes à guerra moderna, chamada de contrarrevolucionária. Não são
mais exércitos identificados pelo uniforme que utilizam, visto que podem
estar camuflados na sociedade. Dessa forma, a Doutrina de Segurança Na-
cional justifica a transformação da sociedade em inimigo, em prol da busca
da proteção do país.
Nas últimas duas páginas escritas pelo general Moacir Araújo Lopes,
há um tópico intitulado "o sentido profético da campanha cívica", onde
transmite as seguintes palavras:

Os sistemas filosóficos materialistas, aceitos sem contestação pelo liberalismo


e que fundamentam o comunismo, continuam a produzir os seus frutos ma-
léficos. As hecatombes das duas Grandes Guerras não fizeram diminuir a
inquietação e o temor de um novo e dramático conflito. As Nações ocidentais,
onde a ciência e a técnica mais avançaram, são as mais inquietas. Sobretudo,
os resultados do liberalismo no campo moral ameaçam fazer naufragar as Ins-
tituições basilares. Sem o suporte dos valores eternos do espírito, a moral
segue rumos escuros, não faltando mesmo, no atual momento histórico, um
'orientador' da juventude que prega a 'moralidade libidinal'.
Nunca foi tão necessário, como hoje, reativar a campanha cívica de Bilac. Im-
põe-se às elites brasileiras defender e projetar os mais sagrados valores
espirituais e morais nas Instituições caracterizantes da nacionalidade. E esses
valores estão expressos, com bases filosóficas profundas, na Constituição do
Lara Coletto | 75

Brasil, decretada e promulgada pelos representantes da vontade nacional, 'in-


vocando a proteção de Deus'. (LOPES, 1968, p.24)

Nas palavras do autor, o comunismo segue sendo um perigo e o libe-


ralismo configura, também, uma ameaça. A figura de Olavo Bilac, nas
palavras do general, deve ser relembrada pelo bem do país, onde seus ci-
dadãos devem tornar-se vigilantes da sociedade. Os militares são, dessa
forma, os "representantes da vontade nacional" e têm em Deus o ponto
central de sua legitimidade. Nada mais é, como Carlos Fico (2004) expli-
cita, do que o desenvolvimento do país nos moldes ocidentais e cristãos,
além da evocação do personagem histórico em prol da mobilização social.
Em vida, Bilac desempenhou um importante papel que posterior-
mente foi chamado de "a grande campanha cívica", dialogando com a
juventude e com diferentes grupos da sociedade. Porém, a figura do poeta
não atravessou décadas sem passar por conflitos.
A ditadura buscou criar um modelo de cidadão a partir de uma lógica
heteronormativa e branca. A juventude "transviada", como o general Mo-
acir Araújo Lopes traz em sua pequena obra, torna-se um mal a ser
afastado da sociedade. O que importa é a família nuclear: o pai trabalha-
dor, a mãe que cuida da casa e dos filhos e o jovem que é educado a partir
do civismo.
A ideia de inimigo torna todos que desviarem das regras em adver-
sários da nação. Leneide Duarte-Plon aponta que "o controle dos cidadãos
[foi] um elemento fundamental para os militares" (DUARTE-PLON, 2016,
p. 48). Dessa forma a população passa a ser vigiada, edificando um medo
constante em que o próprio cidadão passa a ser seu vigilante, mas também
passa a estar atento ao modo de vida do vizinho, do colega de trabalho, do
membro da própria família. Da mesma forma, o Estado faz a sua parte,
monitorando a vida de todos, inclusive aqueles que conseguiram sair do
país.

Durante os anos de 1970, o método de grampear telefones e deixar os apare-


lhos de cabines públicas falando 'de graça' para o Brasil, facilitou o trabalho de
76 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

serviços de inteligência franceses e brasileiros. Os exilados faziam discretas


filas perto das cabines e, ao ligar, caiam na armadilha. Depois de algum tempo,
alguns deles passaram a desconfiar daqueles telefones públicos que ligavam
para o Brasil sem ficha: eram devidamente grampeados para monitorar os
passos dos exilados. (DUARTE-PLON, 2016, p. 59-60)

Além do monitoramento dos membros de uma resistência, a vida pri-


vada também era monitorada. O modelo do cidadão de bem deveria ser a
regra. Leneide aponta que "um informe de um coronel da Aeronáutica lo-
tado em Bonn chegou a acusar diplomatas de 'pederastia' e 'lesbianismo'
ou, ainda de abuso de bebidas alcoólicas. O texto do militar trata a homos-
sexualidade como 'um fator de risco para a segurança nacional" (DUARTE-
PLON, 2016, p. 60).
Sendo assim, a figura controversa de Olavo Bilac torna-se debate. Po-
eta parnasiano, com grande apreço às "formas", era conhecido como um
grande boêmio, não fora casado e teve dois noivados desfeitos. O dever
cívico se sobressai como elemento principal para os militares, porém, a
vida privada do poeta torna-se centro de debate. As fontes aqui trabalha-
das vão buscar, então, construir uma nova imagem da vida particular do
autor.
O general Lopes busca, em seu livro, justifica a vida boêmia de Bilac
através de dois pontos: o meio no qual atuava, ou seja, a intelectualidade,
e a sua idade, dizendo que "todos os atos de sua vida revelam a atitude
interna de exuberância de valores espirituais e morais, mesmo quando o
ambiente e a juventude o levaram à boemia e ao culto à forma" (LOPES,
1968, p. 17).
Ao tratar dos romances vividos por Bilac, o autor nos diz que "a opo-
sição da família, reagindo às suas estroinices, levou-o à ruptura do
noivado, mas, disse alguém, a poesia ganhou 'uma inspiradora', uma 'Be-
atrix', que até o final da sua vida, solteiro, ia ser um dos polos de um
lirismo amoroso" (LOPES, 1968, p. 17).
Dessa forma, nota-se que, ao enquadrar Bilac em uma época especí-
fica e trazendo a boêmia quase como um "erro" relegado à juventude,
Lara Coletto | 77

corrigido posteriormente por questões mais importantes, como seu dever


cívico, busca apagar a possível mancha do patrono das Forças Armadas.
Nunca tendo se casado, o autor retrata o poeta como um eterno apaixo-
nado, e que, distante de seu amor, manteve-se fiel.
Já Adelino Brandão (1969) constrói uma leitura diferenciada, anco-
rada em um negacionismo. Na página número 15 do tópico intitulado
"Bilac - O intelectual e o homem", o autor escreve:

No entanto, como haveremos de ver, na realidade, nada mais falso, pois em


toda a sua vida Bilac foi mesmo um abstêmio, sóbrio, austero, quase ascético
na pureza de sua vida particular, onde o trabalho e o estudo - não a dissipação
e a boêmia - foram seus reais companheiros, até o fim da vida, em 1918, aos
53 anos de idade. (BRANDÃO, 1969, p.15)

O autor não disserta sobre as relações amorosas do poeta, mas acres-


centa:

Outros autores lembram que já na mocidade, demonstrava Bilac inteireza mo-


ral apreciável e não se furtava a admoestar Coelho Netto, seu grande amigo e
colega, quando o romancista, que tinha a mesma idade de Bilac, passava um
pouco da conta, nas excentricidades boêmias ou na bebida. (BRANDÃO, 1969,
p.16)

Os dois livros aqui analisados enquanto fonte para a pesquisa histo-


riografia buscam dialogar com a juventude, seja a civil ou aquela que
ingressa no Serviço Militar. Olavo Bilac torna-se patrono das Forças Ar-
madas e a construção de sua imagem a partir de um enquadramento de
sua memória no período ditatorial colabora para a criação de um modelo
específico de sociedade.
A juventude brasileira é vista enquanto futuro da nação e esse futuro
necessita ser direcionado nos moldes do conservadorismo, caro aos mili-
tares e civis apoiadores do regime. Cria-se um projeto para o país, ligado
ao nacional-desenvolvimentismo, mas, para que o progresso de fato
ocorra, a população precisa ser educada de acordo.
78 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

Na conclusão de seu livro, Adelino Brandão busca dissertar sobre as


leis de regulamentação do Serviço Militar Obrigatório, dizendo que:

Além disso, cabe-lhe o dever moral de explicar aos demais brasileiros, sempre
que houver oportunidade, a significação do Serviço Militar e denunciar os pro-
cessos de fraude de que tiver conhecimento. Isto lhes permitirá, como escreve
o Gen. Moacir Araújo Lopes, a compreensão de que a prestação do Serviço
Militar constitui um direito, antes de um dever tal a sua finalidade, ideal-
mente antevista pelo gênio bilaquiano. (BRANDÃO, 1969, p.50, grifo do autor)

Obra dedicada aos jovens ingressantes no SMO, o livro, encomen-


dado pelo Ministério do Exército, sob a chefia do Marechal Lyra Tavares,
busca transferir uma função: a de propagar os ideais das Forças Armadas
sempre que necessário, certificando a dedicação de tal casta.
O Olavo Bilac, com seu "serviço patriótico", torna-se um exemplo de
cidadão a ser seguido. Além disso, os usos políticos de sua imagem colabo-
ram na construção da legitimidade dos militares à frente do poder
Executivo. A ideia de um inimigo nacional, legitima, acima de tudo, atos
atentatórios aos direitos humanos, justificados a partir de uma importante
diretriz para a Doutrina de Segurança Nacional: a guerra moderna.
A partir do conceito de guerra moderna ou contrarrevolucionária, o
terror de estado, as torturas, prisões e desaparecimentos forçados tornam-
se políticas de Estado, atos vistos como um mal menor frente ao perigo
iminente do inimigo interno. Coloca-se o Estado, que deveria salvaguardar
os direitos básicos da população, como, na verdade, o maior inimigo do
povo.

Considerações Finais

Articular a Doutrina de Segurança Nacional para além dos atos re-


pressivos, da tortura e do desaparecimento é de extrema importância para
que possamos compreender os diferentes espaços onde o terror de Estado
circulou. Dessa forma, entender de que maneira a ditadura adentrou a vida
privada da população é também um tema necessário.
Lara Coletto | 79

A criação de um modelo de cidadão corrobora a ideia de um novo


país. Sendo assim, é excluído tudo o que se considera diferente, todos os
elementos que não se encontram em uma moral cristã. Entretanto, na prá-
tica, a diversidade faz parte da composição da sociedade, o padrão é
resultante da idealização e não condiz com a realidade e, dessa maneira,
toda a sociedade, em algum momento, é vista enquanto inimiga.
O enquadramento de Olavo Bilac torna-se um importante elemento
na legitimação do regime militar. Ao utilizar suas postulações acerca do
Serviço Militar, os militares certificam-se de tentar levar a ideia de seu pa-
triotismo à população, buscando criar consenso entre o povo brasileiro.
Para além disso, fortalecem um modelo de cidadão que, na prática, exclui
grande parcela da população, principalmente indígenas e negros.
O golpe, sendo uma articulação na busca da manutenção dos privilé-
gios de parcela da sociedade, manteve essa função ao longo do regime,
fazendo a manutenção constante do sistema no qual surgiu. A ideia de
classe é descartada e intensifica-se, no imaginário social, a possibilidade de
ascensão social, seja dentro ou fora das Forças Armadas.
Dessa forma, nota-se a importância da expansão de pesquisas acerca
da ditadura civil-militar que possam articular diferentes temas – no caso
deste trabalho, a construção de uma história intelectual dialogando com
um conceito caro às pesquisas sobre os regimes ditatoriais na América La-
tina: a Doutrina de Segurança Nacional.

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80 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

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militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado.
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Lara Coletto | 81

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POLLAK, Michael. Memória, esquecimento e silêncio. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, v.


2, n.3, 3-15, 1989.
4

Mulheres na política:
quem foram as deputadas federais eleitas
durante o bipartidarismo (1965-1979)?

Taiane Fabiele da Silva Bringhenti 1

Quero dizer ao nobre líder do governo que, embora no seu julgamento uma
flor, usarei do veneno, quando for necessário, sem o menor constrangimento.
(ANDRADE; 1967, apud AZEVEDO; RABAT; 2012, p. 94)

Introdução

De 1965 a 1979 existiram somente dois partidos políticos no Brasil:


Aliança Renovadora Nacional (Arena) e Movimento Democrático Brasi-
leiro (MDB). Sob essas duas legendas foi estabelecida uma nova arena de
disputas e competição, onde os cargos de Deputado Federal, Deputado Es-
tadual, Senador e Vereador continuaram sendo preenchidos via eleitoral e
de maneira direta. Com a manutenção das atividades legislativas foi pos-
sível a continuidade da profissão política, com espaços que garantiam
acessos a cargos e a sociabilidade inerente às funções representativas, que
sobreviviam em meio a pressão exógena do modelo institucional autoritá-
rio2.

1
Mestre e doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica do Rio
Grande do Sul. Bolsista CAPES.
2
Este trabalho é um recorte e aprimoramento da dissertação de mestrado sob o título “Profissionalização política e
regime autoritário: perfil social e carreira dos Deputados Federais (1967-1982)”, defendida pela presente autora, no
Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS),
em 2019.
Taiane Fabiele da Silva Bringhenti | 83

Nesse panorama, 1.703 parlamentares ocuparam a posição de Depu-


tado (a) Federal pela Arena e MDB, dos quais, somente doze (média de 3%
em relação ao total) eram mulheres. A baixa participação do gênero femi-
nino na política não é um dado inédito, embora atualmente os números
sejam mais atrativos, as mudanças transcorrem a passos lentos. De 1933
até agora, somente 408 mulheres ocuparam essa importante posição na
política institucional, estabelecendo o legislativo como mais um espelho do
desequilíbrio da representação de gênero no âmbito político.
Discordante dos demais campos profissionais, que tiveram cresci-
mento da participação feminina ao longo das últimas décadas, o campo
político não demonstrou sinais que acompanhassem essas novas tendên-
cias, mantendo um distanciamento entre a atividade política e as mulheres
(PERISSINOTO et al, 2009). Dados compilados pela Inter-Parliamentary
Union acusam que em julho de 2012, o Brasil ocupava a posição 120º no
ranking que classifica o percentual da presença de mulheres nas casas le-
gislativas de 190 países.
No caso específico da Câmara dos Deputados3, somente na década de
90, através da Lei nº 9.504 em 30 de setembro de 1997, passou a vigorar
uma legislação eleitoral que favorecesse a participação das mulheres no
processo de eleição ao cargo parlamentar. Com a nova distribuição, o total
de vagas para cada partido ou coligação ficou dividido entre 30% e o má-
ximo de 70%, para a candidatura de cada sexo. Conquanto, por mais que
essa regra tenha fixado a disposição do número de candidaturas, colo-
cando um espaço legal para as mulheres, de maneira objetiva, ela acabou
não resultando no aumento do número de deputadas eleitas, embora te-
nha existido o crescimento do número de candidaturas.
Considerando esses indicadores, pretende-se com esse trabalho con-
tribuir para a investigação das características do pessoal político, no que
se referem aquelas que foram atuantes durante os governos militares. As-
sim como também, ressaltar a participação e biografia das mulheres que

3
A partir daqui, será utilizado a abreviação CD para referir a Câmara dos Deputados.
84 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

atuaram sob um período fortemente influenciado pelos valores conserva-


dores e autoritários, que excluíam, mais uma vez, as mulheres dos espaços
de tomada de decisão. Com esses parâmetros, o principal objetivo das pró-
ximas páginas será analisar quem foram essas dez mulheres, que
garantiram a participação feminina na política durante o bipartidarismo.
Cabe destacar que a importância desse tipo de estudo atribui-se não
só à relevância acadêmica – para a compreensão e identificação dos crité-
rios de seleção, recrutamento e escolha daqueles (a) que possuem uma
posição privilegiada no processo interno de organização e produção legal
da instituição parlamentar, em âmbito nacional – como também à rele-
vância política. Considerando que saber mais sobre os indivíduos que
possuem a importante tarefa de representar e dar voz às demandas sociais
é estar atento à qualidade e ao grau de representatividade dentro do pro-
cesso de tomada de decisão.
O recorte considera aquelas que ocuparam a posição de Deputada Fe-
4
deral como titular ou suplente, nas legislaturas de 1966 (43º legislatura),
1970 (44º legislatura), 1974 (45º legislatura) e 1978 (46º legislatura). Se-
rão mensurados 22 indicadores empíricos, que elencam dados de carreira
(idade de ingresso e primeiro cargo político, cargos acumulados até eleição
durante o bipartidarismo, filiação partidária anterior, número de manda-
tos como DF e vínculos associativos) e background social (nome, idade que
se elegeu durante a ditadura, cor/etnia, formação, profissão, região geo-
gráfica e estado). A abordagem metodológica será quantitativa, com
análise descritiva dos resultados – dispondo do auxílio operacional da pro-
gramação do Statistical Package for the Social Sciences (SPSS). As fontes
desta pesquisa, são as tradicionais no estudo de elites políticas no Brasil: o
site oficial da Câmara dos Deputados e o dicionário histórico bibliográfico
do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do
Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Como resultado da discussão é possível inferir sobre quem foram as
parlamentares que se filiaram a Arena e MDB. Conservavam perfis

4
A partir daqui, será utilizado a abreviação DF para referir a Deputada (o) Federal.
Taiane Fabiele da Silva Bringhenti | 85

bastante similares em relação às características sociológicas, que


ultrapassou as quatro legislaturas: mulheres brancas, jovens (idade entre
20 e 40 anos) que compartilhavam um alto grau de formação educacional
(algumas com mais de uma formação e também pós-graduação). Na
carreira, destaca-se a filiação ao MDB, a longa experiência de algumas
parlamentares como Cândida Ivete Vargas e Lygia Maria Lessa Bastos, e a
interrupção das trajetórias políticas através da cassação de mandatos em
1969.

A Formação da Arena e do MDB e a Presença das Mulheres no


Bipartidarismo

No decorrer do período de ditadura civil-militar (1964-1985)5 foram


decretados dezessete atos institucionais que oportunizaram a legalização
da ação dos militares para elaboração de normas e regramentos a serem
seguidos. Esses decretos, além de fortalecer as prerrogativas do Executivo,
afetaram diretamente o andamento e a dinâmica da política nacional. Se-
gundo Sá Motta (1996) a intenção dos militares não era a implementação
de uma “pura e simples” ditadura, mas sim, promover uma depuração do
quadro político e administrativo, e para isso “algumas das atitudes do novo
governo apontavam neste sentido, inclusive a manutenção e funciona-
mento do Congresso Nacional e dos partidos” (SÁ MOTTA, p. 202).
O momento significou para classe política um período de insegurança
e incerteza quanto à continuidade e a manutenção das atividades políticas,
pois embora os militares reiterassem seguidamente a necessidade de per-
manência do político profissional, garantindo espaços para a sua
sobrevivência, por outro lado, haviam nomes entre a cúpula do governo

5
Aqui será utilizada a denominação de ditadura civil-militar para o período de vai de 1964 até 1985. Por mais que
seja um consenso que o golpe de 1964 foi orquestrado pelos militares com apoio civil, muitos pesquisadores ainda
debatem sobre o papel e a relevância de cada um nesse processo, com isso, existem diferentes nomenclaturas que
suscitam discordâncias sobre o lugar dos militares e da sociedade civil na história. Por tanto, ao mobilizar a compre-
ensão do golpe como civil-militar será no sentido de que os civis tiveram um papel essencial em 1964, como agentes
históricos que apoiaram e solidificaram o movimento que era delineado e liderado pelos militares.
86 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

que discordavam quanto à presença e a funcionalidade desses sujeitos so-


bre as decisões.
O legislativo continuou em funcionamento e a política partidária so-
breviveu, mas não sem interferências e seguidas alterações provocadas
pelos militares. Mais de um ano após o golpe, em julho de 1965, foi pro-
mulgada a nova lei orgânica de partidos políticos no Brasil. Com a nova
legislação (Lei nº 4740), ampliou-se a cláusula de funcionamento dos par-
tidos para 3% do eleitorado, conforme a última votação geral para o cargo
de DF. Essa estratégia, de acordo com Grinberg (2009), não tinha como
finalidade eliminar por completo o sistema de disputa política, mas sim, a
diminuição do número de legendas, que tornaria mais fácil para os milita-
res a formação de uma base coesa de apoio civil, com a incorporação da
elite política. Com a nova legislação limitava-se o número de partidos,
mantendo a formação partidária existente, ainda que por um curto perí-
odo.
Como já aludido pela literatura em diferentes oportunidades
(MADEIRA, 2002; GRINBERG, 2009; SÁ MOTTA, 1996) as alterações na
configuração partidária não atenderam de forma precisa as necessidades
do regime, abrindo caminho para uma decisão mais radical. Com o Ato
Institucional número dois (AI-2) – assinado pelo presidente militar Hum-
berto de Alencar Castelo Branco, em 27 de outubro de 19656 – as antigas
legendas foram extintas, determinando a criação de uma nova formação
partidária.
Apoiado nas atribuições conferidas pelo AI-2, em 20 de novembro de
1965 foi publicado o Ato complementar número quatro (AC-4), que atribui
ao Congresso Nacional (em número não inferior a 20 senadores e 120 de-
putados), dentro do prazo estipulado de 45 dias, a criação das novas
agremiações. Além de garantir a criação de novos partidos, o AC4 também
instituiu o mecanismo de sublegenda, que foi uma importante ferramenta

6
Sobre os acontecimentos que a literatura considera como determinantes para essa situação, ver mais em: SÁ
MOTTA, 1996, que retrata a vitória eleitoral da oposição em 1965 nos estados da Guanabara e de Minas Gerais e do
amadurecimento de ideias dos militares de linha dura.
Taiane Fabiele da Silva Bringhenti | 87

para a sobrevivência dos novos partidos, onde mais de um candidato por


legenda poderia concorrer em cargos de eleição direta, facilitando a convi-
vência entre colegas de Arena e MDB, que inicialmente foi marcada por
conflitos e disputas.
No início de 1966, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) atestou a exis-
tência das legendas: Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e Aliança
Renovadora Nacional (Arena), colocando, de um lado, a oposição ao re-
gime e, de outro, a base de apoio. A nova formação partidária posicionou
em dois polos as lideranças e atores políticos provindos de diferentes par-
tidos, com distintas ideias e propostas, mas que agora tinham de encontrar
uma maneira de sobreviver.
Arena e MDB foram legendas criadas de cima para baixo, obedecendo
à pressão dos militares em acomodar a classe política em uma nova situa-
ção partidária, com isso, a distribuição dos sujeitos que eram filiados aos
antigos partidos não se deu de forma homogênea, muitos remanescentes
do Partido Social Democrático (PSD) foram para Arena, assim como al-
guns Udenistas abrigaram-se na oposição, como demonstra a Tabela 1:
Tabela 1 - Migração dos partidos extintos em 1965 para Arena e MDB na CD

Partido político extinto Arena MDB Total

União Democrática Nacional (UDN) 86 9 95

Partido Social Democrático (PSD) 78 43 121

Partido Social Progressista (PSP) 18 2 20

Partido Republicano (PR) 4 - 4

Partido Libertador (PL) 3 - 3

Partido de Representação Popular (PRP) 5 - 5

Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) 38 78 116

Partido Democrata Cristão (PDC) 13 6 19

Partido Trabalhista Nacional (PTN) 8 4 12

Partido Social Trabalhista (PST) 2 - 2


88 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

Partido Republicano Trabalhista (PRT) 2 2 4

Movimento Trabalhista Renovador (MTR) - 3 3

Partido Socialista Brasileiro (PSB) - 2 2

TOTAL 257 149 409

Fonte: KINZO,1988, p. 32.

No primeiro momento, em seguida a extinção do quadro partidário


anterior, somente duas mulheres exerciam o mandato de DF. Dessas, cada
uma seguiu um caminho: uma para Arena e outra para o MDB. A escolha
dos partidos, em relação às duas parlamentares, seguiu o padrão migrató-
rio do quadro geral da Câmara dos Deputados, como indica a Tabela 1,
com partidos mais à esquerda filiando-se ao MDB e partidos mais à direita
filiando-se a Arena.
Necy dos Santos Novaes, da bancada baiana, foi a deputada que ade-
riu a Arena. Eleita na 42º legislatura no ano de 1962 pela coligação da
Aliança Trabalhista, que reuniu os partidos PTB, PR e PRP. Sua primeira
votação foi bastante expressiva, registrando 17.619 votos. Para Costa
(1998) a trajetória política da deputada foi bastante associada à atuação de
seu marido, Manoel Novaes, que foi um político de longa data e somou
mais de dez mandatos na CD, assim como possuía grande atuação em seu
estado. Com as mudanças advindas em 1966, os dois escolheram a Arena.
Em contrapartida, a deputada que migrou para o MDB acumulava
uma longa e destacada carreira na política. Cândida Ivete Vargas era filiada
ao PTB há mais de 15 anos quando seu partido foi extinto, foi uma das (o)
parlamentares mais votadas na eleição de 1962 (28.067 votos) pelo estado
de São Paulo. Foi líder do PTB na CD e logo após o golpe de 1964 assumiu
como vice-líder da oposição. Junto de seus colegas de partido (78 parla-
mentares) escolheu o MDB para continuar o seu mandato.
Pouco tempo após a formação da Arena e MDB, surgiu mais uma lista
de cassações de mandatos que resultaram na ocupação do Congresso Na-
cional, na segunda quinzena de outubro de 1966. A lista surgiu em meio
ao encaminhando para pleito eleitoral de 15 de novembro, gerando uma
Taiane Fabiele da Silva Bringhenti | 89

tentativa de mobilização dos parlamentares contra as cassações. Dentre os


deputados do MDB que estiveram de vigia no Congresso estava Cândida
Ivete Vargas, que foi uma das poucas que fizeram o uso da palavra, mar-
cando sua participação naquele momento conturbado da história
parlamentar (AZEVEDO; RABAT; 2012). Porém, mesmo com as seguidas
tentativas de frear os decretos do governo militar, em 20 de outubro de
1966 o Congresso nacional foi fechado, por meio do Ato Complementar
número 23 (AC23), tendo a duração de 32 dias:

Às 5 horas da manhã, o Congresso foi invadido por tropas do Exército, os te-


lefones também foram cortados e os deputados em vigília foram mandados
para o plenário (AZEVEDO; RABAT; 2012, p.84).

No que se refere à formação e estrutura interna da Arena e do MDB


– como participação em diretórios e comissão executiva – não foi identifi-
cado a participação de nenhuma mulher pelo partido arenista. Pelo MDB
Cândida Ivete Vargas participou de modo bastante ativo, colocando sua
assinatura no pedido de registro da legenda em março de 1966, como
atesta o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ao lado de Franco Montoro,
Ulisses Guimarães, Pedro Ludovico e Argemiro Figueiredo. Também foi
incluída na comissão executiva nacional do partido.
Gráfico 1 - A presença das mulheres na Câmara dos Deputados de 1933-2018

Fonte: HAJE, Lara. Bancada feminina na Câmara sobe de 51 para 77 deputadas. Câmara de Notícias. Brasília: 2018.
90 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

Para Azevedo e Rabat um dos efeitos da nova situação política “seria


o afastamento dos grupos sociais ascendentes, como o das mulhe-
res”(AZEVEDO; RABAT, 2012, p. 79), visto que, por mais que o
bipartidarismo tenha eleito doze mulheres, as condições dessa participa-
ção não dispunham de bases sólidas. Um exemplo disso são as cassações
de mandatos, que retiraram da cadeira legislativa cinco parlamentares,
logo na primeira legislatura em 1966, foi um expurgo de 90% da bancada
feminina. Ao longo das quatro legislaturas (1966, 1970, 1974 e 1978) tam-
bém ocorreu a diminuição no número total de candidaturas, “até chegar a
quinze em 1974, montante inferior ao de 1958 e mesmo ao de 1954” (Ibi-
dem, p. 78).
No decurso das quatro legislaturas existiu um grande desequilíbrio
entre a presença de homens e mulheres na CD. Em 14 anos, somente doze
mulheres passaram pela posição de DF, em contraposição foram 1.691 ho-
mens eleitos, como mostra a Tabela 2. Ainda que a análise não tenha
contemplado a lista daquelas que concorreram sem sucesso ao cargo, os
resultados já indicam que esse espaço representativo durante os governos
militares foi predominantemente masculino.
Tabela 2 - Distribuição de gênero na Câmara dos Deputados entre 1966-1979

Legislatura 1966 1970 1974 1978 Total

Mulher 6 1 1 4 12

Homem 480 336 396 479 1691

Total 486 337 397 483 1703

Fonte: BRINGHENTI, 2019.

A média de mulheres eleitas fica em torno de 3 %, comparado ao


período anterior (1945-1965) esse número retrata não só o momento po-
lítico e social específico vivido sob ditadura, mas também corresponde a
um condicionante histórico de longa duração que marcam o cenário bra-
sileiro. Até 1965, somente oito mulheres haviam sido eleitas (COSTA,
1998), com média de 1,6 % entre as cinco legislaturas.
Taiane Fabiele da Silva Bringhenti | 91

O baixo percentual de mulheres não era um dado exclusivo da Câ-


mara dos Deputados, se comparado aos números do Senado Federal, por
exemplo, a soma de doze eleitas parece bem mais animadora. Até o fim do
bipartidarismo somente quatro mulheres alçaram ao cargo de Senadora,
eleitas na legislatura de 1979 (46º), sendo elas: Dulce Braga (SP), Eunice
Michilles (AM), Laélia de Alcântara (AC), Maria Syrlei (SC).
Quadro 1 - Deputadas eleitas pela Arena e MDB entre 1966-1979

Partido Deputada Legislatura Estado Partido extinto

Cândida Ivete Vargas 1966 SP PTB

Júlia Vaena Steinbruch 1966 RJ -

Lígia Doutel de Andrade 1966 SC -

Maria Lucia M. de Araujo 1966 AC -


MDB
Nysia Coimbra F. Carone 1966 MG -

Maria Cristina Tavares 1978 PE -

Júnia Marise Azevedo 1978 MG -

Lúcia Daltro Viveiros 1978 PA -

Necy Santos Novaes 1966 e 1970 BA PTB


Arena
Lygia Maria Lessa Bastos 1974 e 1978 RJ UDN

Fonte: BRINGHENTI, 2019.

Quando se relaciona gênero com a filiação partidária, constata-se que


o partido de oposição foi aquele que mais elegeu mulheres, sendo ao todo
oito parlamentares. A distribuição regional das eleitas se dá de forma bas-
tante diversificada, mobilizando quatro regiões (norte, sul, sudeste,
nordeste), como demonstra o Quadro 1.
92 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

As Mulheres na Câmara dos Deputados durante a Ditadura: Dados de


Perfil Sociológico e Carreira Política

Ao todo foram dez mulheres que passaram pela CD entre as quatro


legislaturas analisadas (1966, 1970, 1974 e 1978), das quais, duas delas por
dois mandatos. Um grupo pequeno e bastante homogêneo, se considera-
das as características sociológicas (idade no momento da eleição ao cargo,
cor/etnia7 e dados de formação educacional), como podemos observar no
Quadro 2:
Quadro 2 - Dados sociológicos das Deputadas Federais eleitas pela Arena e MDB

Idade Cor/ Educação Mais de uma Pós


Parlamentar
(faixa etária) etnia Superior formação Graduação

Cândida Ivete Vargas 40 á 50 Branca possui possui possui

Júlia Vaena Steinbruch 30 á 40 Branca possui não possui possui

Lígia Doutel de Andrade 30 á 40 Branca possui não possui não possui

Maria Lucia Mello de 30 á 40 Branca possui possui não possui


Araujo

Nysia Coimbra F. Ca- 30 á 40 Branca possui não possui não possui


rone

Maria Cristina Tavares 40 á 50 Branca possui não possui não possui

Júnia Marise Azevedo 30 á 40 Branca possui possui não possui

Lúcia Daltro Viveiros 40 á 50 Branca possui possui possui

Necy Santos Novaes 50 á 60 Branca possui não possui não possui

Lygia Maria Lessa Bas- 50 á 60 Branca possui não possui não possui
tos

Fonte: BRINGHENTI, 2019.

7
Existem em média três espécies de métodos para a classificação e identificação étnica/racial, a) auto atribuição; b)
ancestralidade biológica e 3) hetero atribuição (OSÓRIO, 2009). Para classificar as deputadas foi utilizado o método
de hetero atribuição, com base em quatro categorias (branco, negro, pardo, indígena). A predileção por esse método
reflete a dificuldade em relacionar a auto atribuição dos parlamentares, posto que essa informação não está relacio-
nada nas fontes utilizadas para esta pesquisa.
Taiane Fabiele da Silva Bringhenti | 93

O grupo é majoritariamente formado por mulheres com alto grau de


formação escolar, todas possuem educação superior: quatro advogadas,
uma engenheira, duas jornalistas, duas professoras (uma de história e ou-
tra de educação física) e uma pedagoga. A maior frequência é de deputadas
formadas em direito, que segue a tendência encontrada por Santos (1999)
e Marenco dos Santos (2000) posicionando a advocacia no topo das pro-
fissões entre os e as parlamentares.
Quanto a segunda formação no ensino superior, são quatro casos,
respectivamente: Cândida Ivete Vargas (jornalismo e filosofia), Maria Lú-
cia Mello de Araújo (direito e contabilidade), Junia Marise Azeredo
Coutinho (jornalista e advogada) e Lúcia Daltro Viveiros (engenheira e ar-
quiteta)8. Três possuíam pós-graduação (mestrado e doutorado) em
cursos na área de humanidades.
A idade foi outro dado explorado na pesquisa. A variável faixa etária
se refere a idade da parlamentar durante a legislatura em que foi eleita
(1966,1970,1974 e 1978) e os resultados expõem um quadro de Deputadas
mais jovens, com porcentagem de 41,7 % entre 30 e 40 anos. São dez anos
de diferença em relação à média de idade dos homens registrada para esse
mesmo período (BRINGHENTI, 2019). Quanto à cor/etnia a frequência de
mulheres brancas é predominante, com 100% dos casos.
Quadro 3 - Carreira política das Deputadas Federais eleitas pela Arena e MDB

Idade 1º Cargo de es- Nº mandatos Vínculos asso-


Parlamentar Cargos até
cargo treia DF ciativos

Administração
Cândida Ivete Var- Deputada Es- municipal, esta- Vínculo de san-
20 á 30 4
gas tadual dual e Deputada gue
Estadual

Júlia Vaena Stein- Sem carreira


30 á 40 DF - Vínculo Social
bruch prévia

8
Em relação à elite parlamentar, diferentes estudos já apontaram, que durante muito tempo, àqueles que possuíam
um alto grau de escolaridade eram maioria no Congresso Nacional (SANTOS, 1999; SANTOS; 2000; CARVALHO,
2008; CODATO, 2014). Em relação ao número total de parlamentares, 1.449 possuíam diploma de ensino superior,
contrastando com o cenário educacional do país que registrava um índice de 39,9 % de analfabetos entre 1960-1979.
94 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

Lígia Doutel de Sem carreira


30 á 40 DF - Vínculo Social
Andrade prévia

Vínculo de san-
Maria Lucia Mello Deputada Esta-
30 á 40 DF - gue e Vínculo
de Araujo dual
social

Nysia Coimbra F. Sem carreira


30 á 40 DF - Vínculo Social
Carone prévia

Maria Cristina Ta- Sem carreira


40 á 50 DF - -
vares prévia

Júnia Marise Aze- Vereadora e De- Vínculo de san-


20 á 30 Vereadora -
vedo putada Estadual gue

Lúcia Daltro Vivei- Sem carreira


40 á 50 DF - Vínculo social
ros prévia

Necy Santos No- Sem carreira


50 á 60 DF 3 Vínculo Social
vaes prévia

Lygia Maria Lessa Vereadora e De- Vínculo de san-


20 á 30 Vereadora 1
Bastos putada Estadual gue

Fonte: BRINGHENTI, 2009.

A idade do primeiro cargo na política abrangeu maior variação entre


20 e 40 anos, com total de 66,6 % do percentual. A única entre a faixa de
50 a 60 foi Necy Santos Novaes, que possuía 58 anos quando eleita para
43º legislatura. Uma das mais jovens a ingressar na carreira política foi
Cândida Ivete Vargas; com 23 anos foi eleita a DF em 1951, com 18.607
votos (AZEVEDO; RABAT, 2012). Até o período bipartidário, Ivete já so-
mava uma longa trajetória, com quinze anos de experiência no legislativo
e grande atuação em comissões e projetos. Para Angeli (2019):

Vivendo no meio social de seu avô e partindo dessa rede de contatos, Ivete
Vargas constituiu seu meio e suas relações, antecipando seu ingresso na polí-
tica. Nesse ambiente, Ivete era uma mulher jovem rodeada por homens velhos
que, durante sua longa trajetória política, foram desaparecendo (ANGELI,
2019, p. 579).
Taiane Fabiele da Silva Bringhenti | 95

Lygia Maria Lessa Bastos também ingressou na política muito jovem


e assim como Cândida Ivete Vargas, chegou no bipartidarismo acumu-
lando uma longa experiência na política. Todavia, diferente da colega de
parlamento, Lygia engendrou sua carreira circulando por cargos estadu-
ais, somando três mandatos como Vereadora pela UDN (1950, 1954 e 1958)
e dois mandatos consecutivos como Deputada Estadual do Rio de Janeiro
(1960 e 1962). Ao todo, somou dezenove anos de experiência antes de in-
gressar na Arena, partido no qual teve importante atuação:

foi porta-voz da Arena, integrou a Comissão de Educação e Cultura e foi rela-


tora substituta da CPI que investigou “o problema da criança e do menor
carente no Brasil”. Em 1977 presidiu a Comissão Mista sobre o Divórcio e foi
relatora da CPMI da Mulher (AZEVEDO; RABAT, 2012, p. 103).

A variável que relaciona “cargo de estreia”, indica um resultado pró-


ximo a tendência geral do legislativo para aquele período – com 601 casos
(33,3 %), na soma total das quatro legislaturas para homens e mulheres
– que concentrou o debut no cargo de DF. Para as mulheres a Câmara dos
Deputados teve um papel fundamental, tanto para a estreia, quanto para
inserção no campo político, dos dez casos, sete deram o primeiro passo
através do mandato de DF, seguido de Vereadora (dois casos) e Deputada
Estadual (um caso). Interessante mencionar, que o MDB foi a primeiro
contato com legendas partidárias tanto de Maria Lúcia Mello de Araújo,
quanto de Júnia Marise Azeredo Coutinho. Ambas tiveram sucesso já na
primeira eleição, Maria Lúcia como a primeira mulher a ocupar o cargo
legislativo pelo Acre e Júnia Marise elegendo-se como Vereadora pela opo-
sição.
As variáveis também permitem comentar sobre o tempo de perma-
nência na Câmara dos Deputados. Cinco parlamentares tiveram sua
carreira interrompida em 1969, em decorrência das cassações de manda-
tos com base no Ato Institucional número cinco (AI-5). Dessas, todas eram
filiadas ao MDB: Cândida Ivete Vargas, Júlia Steinbruch, Lígia Doutel de
Andrade, Maria Lúcia e Nysia Carone. Com esse episódio, o quadro geral,
96 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

mais uma vez, passa a ser majoritariamente masculino. Somente as are-


nistas continuaram atuando, Necy Santos Novaes eleita a dois mandatos
consecutivos (1966 e 1970) e Lygia Maria Lessa Bastos também por dois
mandatos (1966 e 1970).
Por fim, o medidor de vínculos associativos. Considerada um impor-
tante componente para a análise das características das parlamentares,
essa variável foi acrescida através do mapeamento dos laços de sangue
(pai, mãe, irmão, tio (a), avô ou avó), como também os vínculos sociais
adquiridos pelo casamento (esposa, marido, cunhado (a), sogro ou sogra).
Bem como aponta Meneguello et all (2012), um dos principais traços da
organização política no Brasil no período republicano é a presença de laços
familiares no ambiente político e os resultados encontrados nesta pes-
quisa, correspondem a essa primeira avaliação.
Desses dez casos, nove possuíam vínculos entre a elite política. Cinco
com vínculos sociais e quatro com vínculos de sangue. Maria Lúcia Mello
de Araújo reuniu os dois tipos de influências: foi casada com José Augusto
de Araújo (deputado federal, governador do Acre) e também possuía pa-
rentes de primeiro grau com longa carreira como Deputados Federais,
Senador e Governador.
Cândida Ivete Vargas também contava com importantes laços de pa-
rentesco entre a elite política. Era neta de Viriato Dornelles Vargas (irmão
de Getúlio Vargas), um dos fundadores regionais do PR e ministro do Tri-
bunal de Contas do Rio Grande do Sul9. A presença do avô em sua
formação foi bastante relevante, como sugere Angeli (2019):

desde jovem, “vivia o mundo” do seu avô, Viriato. Isso não significa apenas
um laço afetivo de uma neta com um avô. Nesse caso em especial, viver o
mundo do avô significava ter acesso fácil a indivíduos que ocupavam posições
de liderança em seus meios profissionais e políticos (ANGELI, 2019, p. 579).

9
Em sua família, existiram outros parentes (tios e primos) que também estiveram envolvidos com alguma atividade
política.
Taiane Fabiele da Silva Bringhenti | 97

No entanto, é importante olhar para os dados sobre vínculos associ-


ativos com cuidado. Embora grande parte das biografias e pesquisas, que
tangem o tema da participação das mulheres durante a ditadura pela
Arena e MDB, sublinham que essas, em sua maioria, ascenderam ao plano
político por vínculos associativos, também é verdade que essa era uma re-
alidade que ultrapassava a variável gênero.
De 1966 a 1979, 21,55 % (363 dos casos)10 dos homens e mulheres
parlamentares, possuíam algum tipo de vínculo entre a elite política. O
meio familiar e social possuía um peso considerável sobre a carreira, tanto
da Arena, quanto do MDB, seja entre parentes mais próximos, como pai
mãe, avô ou avó, como também aqueles que adquiriram o vínculo através
de casamento, como marido ou mulher, sogro e sogra, cunhado ou cu-
nhada.
Isto significa, por mais que os resultados apontem uma forte relação
entre os vínculos e a carreira política das mulheres, não há como anular a
atuação feminina como meramente um espelho desses vínculos. Haviam
protagonismos, que começavam pelo próprio ato de candidatar-se a um
cargo majoritariamente e historicamente masculino. Eram mulheres ex-
tremamente capacitadas, mas que viviam sob os limites dos valores e
preconceitos que circulavam naquele período e que até hoje assombram a
participação das mulheres na política.

Conclusão

Como discutido ao longo deste capítulo, a participação das mulheres


no espaço legislativo, durante o período de existência da Arena e do MDB
(1966-1979), foi bastante inferior a presença masculina, se relacionarmos
somente os números. Foram doze mandatos conquistados por dez mulhe-
res que ultrapassaram as barreiras de desigualdade de gênero para ocupar
um importante lugar na história política nacional.

10
Considerando que em 1.340 casos, não foi possível avaliar se existiam vínculos associativos.
98 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

A ditadura foi bastante agressiva com a participação dos grupos mi-


noritários e, principalmente, para aquelas que ainda ousavam acolher-se
na legenda de oposição, considerando os cinco mandatos cassados, que re-
duzia ainda mais a presença das mulheres na Câmara dos Deputados.
Logo, dentro dos limites desta investigação, pode-se arriscar em um
retrato geral daquelas que passaram pela CD entre 1966-1979: i) eram to-
das brancas ii) possuíam formação escolar de nível superior iii) alto índice
de especialização iv) origem ocupacional que relaciona a profissão mais
latente entre os políticos profissionais, traduzida por Rodrigues (2009)
como um dos “celeiros” de reprodução da elite parlamentar, o diploma de
direito e engenharia v) quando se relaciona o gênero com a filiação parti-
dária, constata-se que o partido de oposição foi aquele que mais elegeu
mulheres vi) ingresso na vida política com idade entre 20 e 40 anos, mais
jovens se considerado a média geral (homens e mulheres) viii) baixo acú-
mulo de experiência prévia, destaque para as biografias de Cândida Ivete
Vargas e Lygia Maria Lessa Bastos, que retratam uma exceção em relação
ao universo, e por fim ix) grande frequência de vínculos associativos.
Importa também ressaltar a participação significativa de Cândida
Ivete Vargas e Lygia Maria Lessa Bastos na formação e organização dos
partidos. Ambas desenvolveram um papel de destaque, tanto na Arena,
quanto no MDB, com participação em comissões, diretórios e liderança de
partido. Em meio a uma percentagem esmagadora de homens, consegui-
ram abrir caminho, posicionando-se e carimbando seus nomes nesse
momento histórico infesto.
A presente pesquisa também demonstrou lacunas que poderiam ser
respondidas com estudo mais qualitativo da atuação parlamentar dessas
mulheres, Questões como: qual a tendência do cotidiano legislativo das
mulheres durante a ditadura? Quais eram as pautas políticas/sociais de-
fendidas pelas mulheres no legislativo? Quais os projetos que
apresentaram durante seus mandatos? Seriam observadas grande dife-
rença de características biográficas se analisadas as senadoras? As DF
Taiane Fabiele da Silva Bringhenti | 99

investigadas poderiam ser tomadas como um espelho da participação das


mulheres na política daquele período?
Tais questões podem ser tomadas para estudos futuros, tendo em
vista que ainda existem muitas lacunas sobre a participação das mulheres
na política. Gerar esse tipo de discussão também contribui para avaliar a
qualidade e padrões da representação de gênero em espaços de tomada de
decisão.

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5

Propaganda política e gênero?


representações sociais das mulheres brasileiras através
da propaganda oficial da ditadura militar (1964-1985)

Júlia Boor Nequete 1

A Agência Nacional produziu uma série de produções audiovisuais


em formato de cinejornais, propagandas e documentários, os quais eram
levados ao público através do cinema, sendo projetados antes dos filmes2.
Assim, mais do que propaganda política, estas produções divulgam e cons-
troem as percepções do Brasil que o regime militar se empenhou em
projetar. Há uma diversidade de temáticas tratadas nestas produções – te-
máticas estas caras ao regime, mas também à própria sociedade brasileira,
de maneira que, ao examinarmos este material, podemos observar quais
pautas sociais ganhavam visibilidade e legitimidade pelo Estado e de que
maneira estas pautas eram (re) construídas pela ótica dos militares. A
Agência Nacional foi um dos órgãos responsáveis por difundir a propa-
ganda política do regime militar, organizada, sobretudo, pela AERP
(Agência Especial de Relações Públicas). O presente trabalho tem como
objetivo traçar breves reflexões acerca das visões que o regime militar

1
Mestranda no Programa de Pós-Graduação em História da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
Bolsista CAPES.
2
A partir do decreto lei nº 21.240, de 4 de abril de 1932, torna-se obrigatória a apresentação dos curtas-metragens
nos cinemas antes das projeções dos filmes em cartaz. Sobre isto ver mais em: SANTOS NETO, Antônio Laurindo
dos. Os cinejornais da Agência Nacional no sistema de informações do Arquivo Nacional (SIAN) e no portal zappiens:
contribuições para análise, descrição e representação arquivística da informação. 2014. Dissertação (Mestrado em
Ciência da Informação) – Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, UFF, Niterói, 2014.
106 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

construiu sobre a mulher brasileira a partir da propaganda política da


Agência Nacional.
É necessário que se destaque o local historiográfico de onde este tra-
balho parte. Durante muitos anos a análise historiográfica sobre o período
militar brasileiro fez perdurar uma interpretação baseada nos elementos
da Segurança Nacional e da guerra interna sob influência da Guerra Fria.
Com o avançar das pesquisas, a historiografia recente tem apresentado
novos olhares na compreensão do período, levando em conta os limites
encontrados pela interpretação anteriormente citada. Assim, passa a ga-
nhar ênfase a necessidade de análise sobre as relações entre o regime e a
sociedade para além da lógica da repressão, da censura e do medo, afinal,
nenhuma ditadura sobrevive apenas através da coerção.
No ano de 2000, Daniel Aarão Reis lança o livro Ditadura militar,
esquerdas e sociedade (REIS, 2005), colocando em pauta os questionamen-
tos quanto a estas relações. O autor problematiza, de forma inclusive
irônica, a concentração dos estudos e das interpretações quanto ao regime
no foco da repressão versus resistência, fazendo restar a dúvida: como,
afinal, o regime se manteve por 21 anos? Assim, passa a haver uma preo-
cupação de se estudar os movimentos de consenso e consentimento, bem
como as relações de identidade estabelecidas com o autoritarismo militar.
É neste contexto em que passa a ser discutida a interpretação do golpe
militar e/ou civil militar, que leva em consideração os movimentos de in-
tervenção militar, bem como o financiamento de empresas privadas na
articulação do golpe.
As pesquisas de Aline Presot (2004), Janaína Cordeiro (2009), Ta-
tyana Maia (2012), Carlos Fico (1997), Denise Rollemberg e Samantha
Quadrat (2010) são alguns exemplos de trabalhos de fôlego que colocam
em perspectiva estas relações. Estas análises também auxiliam na compre-
ensão da construção da própria identidade do regime para além da
construção do aparato repressivo, o que auxilia igualmente na compreen-
são da articulação e manutenção da ditadura. Conforme Denise e
Samantha refletem:
Taiane Fabiele da Silva Bringhenti | 107

Entender os regimes autoritários e as ditaduras não mais compreendidos a


partir da manipulação, da infantilização e da vitimização em massas, incapazes
de fazer escolhas; nem exclusivamente em função da repressão, do medo, da
ausência de ação ou pressão popular; tampouco com regimes fechados. Ao
contrário, buscaram entender como se constroem consensos e consentimen-
tos, como se estabelecem relações entre o Estado e a sociedade. Nessa
perspectiva, acredita-se uma vez gestadas no interior das sociedades, as dita-
duras não lhe são estranhas. (QUADRAT; ROLLEMBERG, 2010, p. 25)

A partir destas novas perspectivas, também podemos destacar que há


uma ótica do social que passa a ser levada em conta para compreender o
regime militar. Este movimento não é exclusivo da experiência militar au-
toritária brasileira do século XX. De maneira geral, entre os anos de 1970
e 1980 há uma renovação nas produções acadêmicas que visam compre-
ender os movimentos de consenso e consentimento que propiciam e
mantém regimes autoritários e ditaduras, sobretudo, a partir das experi-
ências do fascismo e do nazismo (principalmente a ocupação nazista na
França). Para estas perspectivas é de extrema importância que se leve em
conta como as sociedades se comportam frente às soluções autoritárias.
Podemos citar o pensamento de Hannah Arendt3 como um dos principais
para estas análises ao trazer o conceito de banalidade do mal, ao observar
o julgamento de Eichmann, como podemos ver em:

Ver o Homem, e não o “monstro do torturador”, tem sido uma preocupação


nesses trabalhos. O homem com a cara-de-qualquer-um, saído das sociedades,
nada estranho a ela, portanto. Não sendo suportável acreditar que a barbárie
foi aceitável, criou-se a figura do torturador não à imagem e semelhança de
homens e mulheres, mas de seres loucos, monstros, anormais, como se o Mal
não fizesse parte da humanidade. (...) Enquanto estivermos procurando tor-
turadores sem rostos humanos, longe estaremos de compreender a barbárie
como criação de homens e mulheres, gestado em nosso meio. (QUADRAT,
ROLLEMBERG, 2015, p. 13).

3
ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras,
1999.
108 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

Além disto, também é importante destacar que estes novos caminhos


da historiografia sobre a ditadura passam a incorporar conceitos centrais
cunhados por Pierre Laborie, como “ambivalências”, “zona cinzenta” e
“pensar-duplo” (LABORIE, 2010). Elaborados para pensar a relação da so-
ciedade francesa com o regime de Vichy, estes conceitos trazem a
necessidade se superar as análises simplistas que dividiam a experiência
entre regime e resistência. Para além disso, Laborie propõe que se anali-
sem não somente resistências e colaborações, mas as relações complexas
que transitam entre as duas, uma vez que a sociedade civil:

(...) chorou a derrota sem deixar de desejar o armistício, que foram capazes de
aplaudir fervorosamente o marechal Pétain enquanto rejeitavam o regime de
Vichy, que conseguiram ser irredutivelmente hostis ao ocupante sem por isso
se tornarem resistentes ou ainda que alguns foram capazes de contribuir na
salvação de judeus enquanto mantinham uma atitude de lealdade ao chefe de
Estado. (LABORIE, 2010, p. 38).

A partir desta análise, pode-se examinar que as relações sociais e po-


líticas estabelecidas dentro de uma sociedade não correspondem a uma
simples relação de oposição. Ao contrário, suas posições são tão complexas
que transitam simultaneamente no pensar-duplo. Estas posições, longe de
serem facilmente localizadas, diluem-se no que o autor denominou de zo-
nas cincentas, um largo espaço de difícil apreensão localizado entre os dois
opostos resistência e apoio. A relevância deste conceito é indiscutível, uma
vez que é nestes espaços que se encontra, por exemplo, a opinião pública,
de extrema importância para a manutenção ou não dos regimes autoritá-
rios e ditaduras.
É a partir destas novas perspectivas que pensamos em analisar a
propaganda política produzida pelo regime militar. Como vemos, esta
produção busca, justamente, influenciar a opinião pública a partir da
divulgação das visões do regime, de maneira não explícita e convincente,
buscando legitimação para seu projeto político. A partir da organização
propagandística da AERP, a Agência Nacional é submetida diretamente ao
poder Executivo, passa a produzir os audiovisuais segundo a lógica
Taiane Fabiele da Silva Bringhenti | 109

estabelecida pela AERP, sobretudo, a partir do governo Costa e Silva4. Ao


divulgar através dos cinemas a propaganda política em formato de
documentários, o regime militar faz circular uma narrativa discursiva que
(re) apresenta o Brasil que estava sendo construído, um novo Brasil,
baseado em temas caros tanto para o regime quanto para a sociedade
brasileira daquele período. Sobre a lógica estabelecida e “uma certa ideia
de Brasil”, Fico assinala:

Os tópicos do otimismo – a exuberância natural, a democracia racial, o con-


graçamento social, a harmônica integração nacional, o passado incruento, a
alegria, a cordialidade e a festividade do brasileiro, entre outros – foram re-
siginificados pela propaganda militar tendo em vista a nova configuração só-
cio-econômica que se pretendia inaugurar. (FICO, 1997, p. 147)

Ou seja, não se pode analisar as temáticas como imposições ou sim-


ples manipulações criadas pelos militares. Ao contrário, são tópicos que
configuram o imaginário social brasileiro e por esse motivo são ressignifi-
cados dentro da visão militar, de modo que encontrem mecanismos de
identificação no meio social. Vale ressaltar que, neste sentido, a manipula-
ção por si só não explica a relação que se estabelece entre o objeto e o
observador, uma vez que é uma relação marcada pela intenção, imagem e
subjetividade dos sujeitos. Ainda que a narrativa do documentário seja
construída, neste caso, para ser observada como um relato fiel da realidade
brasileira, a reação e absorção do conteúdo foge à intencionalidade de
quem a produziu ou não se resume a mesma. Conforme argumenta Didi-
Huberman (1998), esta relação é uma tensão incômoda e essencial entre o
observador e o objeto, mas que o essencial da relação estaria na “devolução
do olhar” que o objeto confere a quem o observa, pois este olhar acaba por

4
A Agência Nacional é criada em substituição ao DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), ainda no governo
varguista. No contexto pós-1964, os militares buscam distanciamento do governo ditatorial de Vargas e evitam uma
propaganda política explícita, ostensiva e personalista. Entretanto, devido a impopularidade de Castelo Branco e de
Costa e Silva, surge a necessidade do uso deste recurso, focado, neste caso, em divulgar e informar os cidadãos
brasileiros a respeito das políticas dos militares. Sobre a AERP e a propaganda política do regime, ver mais em: FICO
(1997).
110 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

incluir a bagagem subjetiva, cultural, social e política, enfim, incluir o olhar


do observador.

Gênero em Perspectiva nos Estudos da Ditadura Militar e a Produção


da Agência Nacional

Neste artigo, nos interessa refletir a respeito da imagem referente à


categoria mulher, presente – ou não – nas produções de documentário da
Agência Nacional, pensando esta categoria como uma dimensão compre-
endida enquanto representação social. Neste sentido, estes conceitos serão
centrais para pensarmos contribuições teórico-metodológicas a serem re-
fletidas nesse trabalho. O conceito de mulher é examinado a partir da
perspectiva de Joan Scott, que leva em conta a noção das mulheres en-
quanto um conceito construído como parte do mundo dos homens, dentro
e por este mundo, sendo o gênero como uma categoria para indicar as
construções sociais, assim compreendido como: “uma categoria social im-
posta sobre um corpo sexuado” (SCOTT, 1995, p. 75).
Pensaremos este conceito a partir da ideia de representação e repre-
sentação social, conceitos estipulados, respectivamente, por Roger
Chartier e Denise Jodelet. O conceito de representação é de extrema rele-
vância para tratarmos da temática pois estamos analisando a perspectiva
de um veículo audiovisual que tem por objetivo fazer circular noções que
já estão presentes no corpo social, reforçando certas ideias em detrimento
de outras. Assim, destaco a definição do autor:

As representações do mundo social assim construídas (...) são sempre deter-


minadas pelos interesses do grupo que as forjam. Daí, para cada caso, o
necessário relacionamento dos discursos proferidos com a posição de quem os
utiliza (...). As percepções do social não são de forma alguma discursos neu-
tros: produzem estratégias e práticas (sociais, escolares, políticas) que tendem
a impor uma autoridade à custa de outros, por elas menosprezados, a legiti-
mar um projeto reformador ou a justificar, para os próprios indivíduos, as
suas escolhas e condutas. Por isso esta investigação sobre as representações
supõe-nas como estando sempre colocadas num campo de concorrências e de
Taiane Fabiele da Silva Bringhenti | 111

competições cujos desafios se enunciam em termos de poder e dominação.


(CHARTIER, 1990, p. 17)

A partir desta conceituação, apontamos que o conceito leva em conta


a reflexão que a representação é uma exclusão, no sentido de que, é uma
seleção arbitrária de elementos que irão compor a ideia que determinado
grupo deseja reforçar ao colocá-la em circulação. Isto nos leva também ao
conceito de representação social de Jodelet, pois a autora nos coloca que as
representações que circulam no social são criadas pela necessidade dos in-
divíduos de se compreenderem e de compreenderem o mundo, sendo
construídas pela sociedade e estando presente cotidianamente. Assim,
para a autora, “as representações sociais circulam nos discursos, são tra-
zidas pelas palavras e veiculadas em mensagens e imagens midiáticas,
cristalizadas em condutas e em organizações materiais e espaciais”
(JODELET, 2001, p. 18). A autora trata de representações colocadas no co-
tidiano social, entretanto, sua análise nos fornece importante subsídios
para pensarmos representações também no sentido de Chartier.
Isto quer dizer que a propaganda política militar, ainda que um me-
canismo de dominação e de difusão de determinado ideário, se nutre
também de aspectos que encontrem respaldo no meio social, não podendo
ser compreendida como uma simples manipulação do real ou imposição
social e política. Afinal, a preocupação central da utilização da propaganda
colocada por Carlos Fico, é a de produzir sentimentos de identificação com
o regime militar, ou seja, a realidade social representada parte de elemen-
tos retirados do social e incorporados na visão do regime, sendo uma
seleção arbitrária destes elementos com o objetivo de conferir legitimidade
ao regime.
Devemos, primeiramente, realizar breves apontamentos sobre “a
mulher” do período, pois se trata de uma questão essencial onde o papel
político e social feminino passa a ser repensado e questionado. O primeiro
é o fato de que, a partir dos anos de 1960, passa a ocorrer, a nível interna-
cional, uma “onda” marcada pela gradativa visibilidade que o feminismo
112 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

passa a conquistar, o que convencionou-se chamar de “segunda onda fe-


minista”5. Inclusive, o período que perpassa o regime militar assiste à
promulgação da ONU que demarca o ano de 1975 como o Ano Internacio-
nal da Mulher com o objetivo de estimular a participação política feminina
pela efetivação da busca pela igualdade. Assim, de maneira gradual, du-
rante os anos que correspondem ao funcionamento da ditadura militar no
Brasil, ocorrem fortes movimentos de contestação social que influenciam
os movimentos brasileiros. Sobretudo a partir da década de 1970, a pauta
feminista começa a ganhar força e visibilidade. A esquerda passa a com-
portar uma série de novos movimentos que colocam em pauta a
identidade de grupos subalternos, como as mulheres e os negros. Este mo-
vimento, segundo Maria Paula Nascimento Araújo (2000), corresponde
aos movimentos que passam a repensar e ressignificar o que era entendido
como político. Portanto, é interessante pensarmos que este contexto cor-
respondia à atuação das esquerdas, as quais o regime estava preocupado
em excluir e mesmo aniquilar.
Por outro lado, no período anterior ao golpe, há o forte movimento
social que irá apoiar a intervenção militar. Dentro deste movimento, as
mulheres se colocaram como fortes atuantes através de grupos de atuação
feminino, como a Campanha da Mulher pela Democracia (CAMDE)6, a
Liga da Mulher Democrata (Limde), de Belo Horizonte ou a União Cívica
Feminina (UCF), de São Paulo. A respeito da participação feminina pela
radicalização do discurso anticomunista de consentimento ao golpe:

5
Cabe destacar que a narrativa que coloca os movimentos feministas entre “ondas” tem sido criticada e repensada
nos últimos anos. Sobre isto: “Ao contrário do que o senso comum e parte da historiografia sustentam o feminismo
no Brasil não possui uma evolução em etapas ou ondas. A busca por uma lógica linear tende a obscurecer as dife-
rentes expressões feministas ao longo do tempo.” (MÉNDEZ, 2011, p.1). Ver mais em: MÉNDEZ, Natália Pietra.
Encontros e tensões entre feminismos e intelectualidade no Brasil – uma releitura do livro A Mulher na Sociedade de
Classes: mito e realidade, de Heleieth Saffioti (1934-2010). In.: SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA, 26., 2011, São
Paulo. Anais [...]. São Paulo: 2011.; e em: HEMMINGS, Clare. Contando estórias feministas. Revista Estudos Femi-
nistas, Florianópolis, v.17, n. 1, jan./abr. 2009.
6
Movimento de mulheres católicas organizado em 1962, no Rio de Janeiro que se opõe ao então presidente João
Goulart. A CAMDE não só fornece mobilização de apoio à intervenção militar como segue atuando durante o regime,
até o ano de 1970. Recebeu apoio do jornal carioca O Globo e financiamento pelo Instituto Brasileiro de Ação Demo-
crática (IBAD) e pelo Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais (IPES), também apoiadores do golpe. A respeito disto,
ver mais em: CORDEIRO, Janaína Martins. Direitas em movimento: a campanha da mulher pela democracia e a
ditadura no Brasil. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2009.
Taiane Fabiele da Silva Bringhenti | 113

As mulheres que fundaram e dirigiram esses grupos comungavam de algumas


características, como a de pertencerem à elite e serem esposas ou mães de
empresários ou militares graduados. (...) as mulheres da Camde se valeram de
eficientes táticas em seu trabalho de mobilização da opinião pública, uma delas
era o envio de telegramas, visando a alertar as mulheres do Brasil inteiro
acerca da ameaça do comunismo. Do mesmo modo a Camde enviou cartas
para senhoras, distribuiu cartas na porta das estações de rádio, assim como
livros, folhetos e outros instrumentos de propaganda. Outro recurso usado
foram as transmissões pelo rádio, em cadeia nacional, com o mesmo objetivo
de falar às mulheres sobre os perigos que o comunismo representaria para
suas famílias. A Camde fazia um pedido às ouvintes para que transmitissem o
conteúdo do pronunciamento a, pelo menos, mais cinco mulheres. (PRESOT,
2010, p. 80)

É notório que as mulheres estão se colocando enquanto sujeitos polí-


ticos dentro de um contexto de intensas mobilizações sócio-políticas, seja
a partir da lógica da esquerda e do feminismo, seja a partir da lógica do
conservadorismo. Podemos então compreender que o conceito de mulher
passa a ser questionado enquanto um conceito que, até então, pressupu-
nha uma ligação com o privado.
Assim, faz sentido questionarmos qual visão o regime estava preocu-
pado em fazer circular pensando, principalmente, na questão das
resistências, já que as mulheres enquanto feministas passam a militar po-
liticamente pela equidade de gênero dentro do campo de oposição ao
regime, e pelo papel de apoio ao golpe que foi exercido por uma larga gama
de mulheres brasileiras que se colocaram em defesa da família e dos lares
e saíram às ruas apoiando a intervenção militar. Como aponta Lygia Quar-
tim Moraes, havia uma forte questão de gênero dentro da visão dos
militares para com os movimentos de resistência:

A moral cristã era tão onipresente que, nas invasões realizadas pela polícia no
CRUSP (Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo) as pílulas anti-
concepcionais e as bombas molotov constituíam, com o mesmo status, provas
incriminadoras. Uma estudante em cuja bolsa fosse encontrada cartela de pí-
lulas era considerada puta. Essa é uma dimensão de gênero que tem sido
114 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

deixada de lado na produção acadêmica sobre o tema das revoltas estudantis


contra a ditadura militar. (MORAES, 2012, p. 110)

A produção acadêmica tem sido muito eficiente em analisar a pre-


sença feminina enquanto oposição à ditadura militar brasileira. E não é
por menos, afinal, os direitos da mulher, a liberdade sexual e os movimen-
tos de mulheres de oposição à ditadura7 passam a inundar os espaços
sociais, criticando o status quo da desigualdade de gênero e a repressão às
mulheres8. Entretanto, como já apresentado neste trabalho, a dimensão
do gênero mulher está para além desses movimentos, uma vez que a con-
cepção de mulher do regime distanciava-se fortemente da concepção que
era colocada pelos movimentos sociais de resistência e oposição.

As Mulheres Brasileiras pelas lentes da Agência Nacional

As produções da Agência Nacional, assim, nos parecem um material


interessante de ser investigado, já que se trata ainda de um estudo em
aberto e que encontra terreno fértil. Nesta perspectiva, há poucos traba-
lhos que exploram o tema de representação e imagem que o governo
construir e fez repercutir sobre as mulheres brasileiras. Porém, devemos
ressaltar que há produções acadêmicas recentes9 que pesquisam a cons-
trução de imagem da mulher brasileira para o exterior, através da

7
Quanto a isso, devemos citar que os movimento iniciados em outros países latino-americanos que sofriam com
ditaduras militares altamente repressivas, como a Argentina e o Chile, passam a ter mulheres na “linha de frente”.
O movimento das “Mães da Praça de Maio”, ligado ao caso argentino, diz respeito às mulheres que lutavam para
encontrar seus filhos desaparecidos devido à perseguição política que teve como prática comum o desaparecimento
forçado, o roubo de crianças recém nascidas, o assassinato e a tortura. Estes movimentos irão influenciar radical-
mente os movimentos brasileiros, como podemos citar a criação do Movimento Feminino pela Anistia em 1975, em
São Paulo, e passa a ter uma grande participação política na luta pela anistia brasileira. Sobre isso, ver mais em:
PAULA, Adriana das Graças. Os movimentos de Mulheres na Ditadura: uma análise sobre as Mães da Praça de Maio
(Argentina) e o Movimento Feminino pela Anistia (Brasil). In.: SIMPÓSIO INTERNACIONAL PENSAR E REPENSAR
A AMÉRICA LATINA, 2., 2014, São Paulo. Anais [...]. São Paulo: 2014.
8
Não iremos nos aprofundar neste debate neste artigo, porém se trata de um debate complexo e deveras interessante
pois a figura da mulher passa a ser concebida como uma figura de ameaça ao status quo, ao próprio regime e,
inclusive, dentro da própria luta de oposição, uma vez que as questões de gênero passam a ser colocadas como
divisionistas dentro dos espaços de esquerda. Sobre isso, ver mais em: COLLING, Ana Maria. 50 anos da ditadura no
Brasil: questões feministas e de gênero. Revista Opsis, Goiânia, v.15, n. 2, 2015.
9
A respeito disto, ver mais em: LEITE, Cléa Aguiar. A representação da “mulher brasileira” construída pela embratur
entre 1966 e 1985. 2017. Dissertação (Mestrado Profissional em Turismo) – Universidade de Brasília, Brasília, 2017.;
Taiane Fabiele da Silva Bringhenti | 115

EMBRATUR (Instituto Brasileiro de Turismo, órgão especial do Ministério


do Turismo do Brasil) e que nos dá uma interessante dimensão a ser com-
parada com a visão da mulher brasileira para o “interno”. É de extrema
relevância e essencial para a análise que desejamos empregar, a partir des-
tas questões, o trabalho de Cléa Aguiar Leite a respeito da representação
da mulher brasileira construída para o exterior como fomento ao turismo.
A autora nos coloca a perspectiva pela qual a mulher brasileira foi com-
preendida e teve sua imagem vendida para o exterior nesse sentido,
levando em conta, inclusive, as diferenças raciais que permearam este dis-
curso, colocando a mulher branca como para “casar” e as mulheres negras,
como “mulatas”, enquanto parte do entretenimento turístico e sexual
(LEITE, 2017, p.54).
Ao examinar os documentários produzidos pela Agência Nacional10,
entre os períodos de 1964 e 1979, não encontramos nenhum, dentro dos
101 contabilizados, que trate especificamente da mulher brasileira, o que
já nos fornece um importante elemento a ser levado em conta na constru-
ção de nossa análise. A figura feminina aparece, é verdade, dentro da
narrativa sobre temas distintos, como uma figura subjacente – temas es-
tes, ligados, sobretudo, ao aspecto familiar e social.
Como uma análise prévia e trazida para pensarmos as possibilidades
de análise e contribuições, colocamos como exemplo os documentários
Criança (1973) e Turismo no Rio Grande do Sul (1974). O primeiro se trata
de um documentário curto, de 04min42s, do ano de 1973. A produção
chama a atenção por não conter áudio e, assim, a narrativa discorre apenas
pela sucessão de imagens.
As cenas que aparecem à tela apresentam crianças participando do
aniversário de um ano da bebê “Ana Maria”. O ambiente é o privado e o
familiar, mostrando a criança e sua família e destacando a felicidade do
mundo infantil. Entretanto, estas imagens têm muito a nos dizer acerca

BELISÁRIO, K.; GERALDES, E.C; MOURA, D. Para “inglês” ver: apontamentos sobre representações da mulher bra-
sileira em casos repercutidos na imprensa internacional. Revista Sociais e Humanas, Santa Maria, v.26, n.3, p. 467-
477, set./dez. 2013.
10
Todos estão distribuídos através da plataforma virtual Portal Zappiens.
116 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

do “mundo infantil” que é exposto aos olhos do espectador. Em primeiro


momento, destaco que o audiovisual se desenrola dentro do privado ape-
nas com presenças femininas, além das crianças. Ou seja, a “felicidade” do
“mundo infantil” é apresentada como ligada ao ambiente familiar presen-
ciado pela figura da mãe. O ambiente externo se apresenta somente ao fim
da película, em uma cena que exibe a mãe embalando a filha aniversari-
ante em um balanço, cena que encerra a produção.
Ao voltarmos nosso olhar para as cenas iniciais, as quais nos colocam
como observadores dos enfeites do aniversário, da mesa recheada de doces
infantis e cercada pelas crianças, podemos perceber que além da mãe há
uma outra adulta no espaço, a empregada doméstica, que se trata de uma
mulher negra, como podemos observar na imagem abaixo:
Figura 1 – “Criança”, Agência Nacional, 1973

Fonte: Portal Zappiens (BRASIL, 1973).

Há aí um importante aspecto a ser destacado. Além do ambiente pri-


vado estar relegado à presença feminina, evidenciando um papel social
ligado ao aspecto de cuidadora do lar e da família, há uma distinção racial
e social que coloca uma mulher negra e uma mulher branca no mesmo
ambiente, mas com um distanciamento largo entre as duas. A mulher
branca aparece como a dona da casa e chefe da família e a mulher negra é
a empregada da família, também ligada ao aspecto cuidador, porém, não
Taiane Fabiele da Silva Bringhenti | 117

como um aspecto maternal, mas de doméstica. Este retrato familiar apre-


senta quais aspectos de família que estavam sendo levados em conta para
a construção das imagens do regime, um retrato que naturaliza um padrão
familiar ligado ao mundo da classe média brasileira. Ainda, nos remete à
uma visão de família conservadora e “tradicional” que coloca mulheres em
um ambiente privado, familiar e que coloca a ideia da “democracia racial”,
pincelando os divergentes papéis sociais com alegria e harmonia. O papel
que aparece à mulher negra é bem diferente daquele da mulher branca.
Já o documentário Turismo no Rio Grande do Sul, produzido em 1974
– ano anterior ao ano internacional da mulher (1975) –, tem duração de
10m55s, possuindo a narrativa em áudio voz-over juntamente com a su-
cessão de imagens que buscam apresentar as riquezas turísticas do Rio
Grande do Sul. O documentário inicia com cenas do Aeroporto Salgado
Filho enquanto o narrador apresenta a “grande quantidade” de pessoas
que chegam à capital do estado. A partir daí, são apresentados pontos que
destacam aspectos do estado gaúcho, entre cultura, belezas naturais e as-
pectos sociais, evidenciando a “riqueza turística” estimulando o espectador
a buscar conhecer o sul.
A princípio, nada parece que vá se relacionar com aspectos do femi-
nino ou que vá retratar mulheres. Entretanto, ao apresentar as paisagens
gaúchas, mais especificamente, as orquídeas da serra gaúcha, o narrador
nos apresenta as moças “típicas” gaúchas, como podemos analisar nas
imagens a seguir:
118 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

Figura 2 – “Turismo no Rio Grande do Sul”, Agência Nacional, 1974

Fonte: Portal Zappiens (BRASIL, 1974).

Figura 3 – “Turismo no Rio Grande do Sul”, Agência Nacional, 1974

Fonte: Portal Zappiens (BRASIL, 1974).

A câmera vai se aproximando das orquídeas até chegar nas meninas,


enquanto o narrador acrescenta: “As moças, com seus trajes típicos, dão
um toque de graça e encanto ao cenário”. É interessante observar que em
nenhum momento estas figuras foram apresentadas na narrativa do do-
cumentário, mas aparecem como partes da paisagem gaúcha, estando,
Taiane Fabiele da Silva Bringhenti | 119

inclusive, no mesmo plano que as orquídeas. A imagem suscita no olhar


do espectador a relação das mulheres gaúchas, brancas, enquanto “típi-
cas”, fazendo parte do tópico do turismo. A figura que é colocada é da
mulher como um igual atrativo turístico, tanto quanto as orquídeas ou de-
mais belezas naturais do estado gaúcho. Além disto, o destaque é dado por
acrescentarem “graça” e “encanto” conferindo o aspecto, para além do or-
namento paisagístico, a imagem da mulher branca enquanto um ser
delicado como uma flor. Destacamos, também, que são as únicas mulheres
que aparecem no documentário recebendo um olhar de “destaque”, o que
nos leva, novamente, à questão étnica. A mulher gaúcha que aparece é ne-
cessariamente branca e delicada.
Assim, podemos destacar que, levando em conta os dois documentá-
rios evidenciados, as imagens que se constroem nos revelam um olhar
tradicional e conservador para com as mulheres, que perpassa dimensões
sociais e políticas que estão para além da categoria de gênero. Em linhas
gerais, o conceito de mulher que é apresentado aos espectadores é a mu-
lher cuidadora, maternal, delicada, branca e que está sempre ligada às
demais figuras centrais, nunca estando sozinha ou sendo central em uma
narrativa. Reforça os padrões normativos esperados do feminino a partir
da feminilidade e da mulher brasileira que é ligada à família e que merece
destaque enquanto branca, uma vez que a mulher negra somente aparece
enquanto doméstica desta mulher branca.

Considerações Finais

O objetivo deste breve artigo foi de traçar breves considerações e re-


flexões a partir de uma análise prévia de um estudo em andamento. Desta
maneira, buscamos colocar em perspectiva diversos trabalhos que compõe
a discussão para compreensão da categoria de mulher presente nos dis-
cursos propagandísticos do regime militar. Acreditamos que se trata de
uma temática em aberto que tem iniciado seu caminho recentemente. En-
tretanto, podemos observar que já há uma produção a ser considerada
120 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

para darmos conta de pensarmos a mulher brasileira segundo a visão do


regime militar.
Ainda, foi destaque neste artigo o âmbito do social presente nos re-
centes trabalhos historiográficos acerca do regime militar brasileiro. Mais
ainda, a partir deste domínio, como as análises têm se diversificado e
aberto uma nova gama de compreensão das experiências autoritárias e
ditatoriais, pois temos uma visão consensual de que estas são produtos e
construções sociais. Assim, a temática social dentro da visão construída
por um regime deve ser levada em conta, visto que este próprio regime foi
produzido dentro de uma determinada sociedade. A relação entre um Es-
tado autoritário com a sociedade, suas dinâmicas e relações de identidade
foram levadas em conta aqui e, neste sentido, que se desejou examinar a
visão construída sobre as mulheres brasileiras. Não se trata de manipula-
ções ideológicas ou de uma visão “imposta” – ao contrário, o regime de
exceção esteve preocupado em estipular relações com o social que nutris-
sem os sentimentos de identidade e consenso.

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6

Os cinemanovistas e as transformações no
campo cinematográfico carioca decorrentes
da ditadura civil-militar (1964-1969)

Carolina Severo 1

Introdução

Ao longo da primeira metade da década de 1960, o Brasil testemu-


nhou um momento de renovação do meio cinematográfico, tendo como
principal fator o desenvolvimento do Cinema Novo. Este foi um movi-
mento cinematográfico formado majoritariamente por homens brancos
de classe média e classe média alta, e situado no Rio de Janeiro. Tendo
como objetivo filmes voltados para a crítica à realidade brasileira e reali-
zados por meio de uma linguagem inovadora, o movimento revolucionou
o cinema nacional. Para os cinemanovistas, o cinema era compreendido
como um instrumento político. Viam o rompimento com a fórmula hege-
mônica, isto é, a hollywoodiana, como uma forma de combater o
colonialismo cultural que marcava o território brasileiro em relação aos
Estados Unidos. Em conjunto com demais correntes e movimentos artís-
ticos característicos do início dos anos 1960, o Cinema Novo buscou, por
meio de suas obras, a conscientização do público acerca dos problemas
político-sociais do período. Acreditava-se que a partir da tomada de cons-
ciência seria possível a ação e, consequentemente, a transformação. Como

1
Mestranda no Programa de Pós-Graduação em História da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
Bolsista CAPES.
124 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

Randal Johnson (1993) afirma, o Cinema Novo, além de representar um


novo começo para o cinema nacional, apresentou também uma nova defi-
nição do papel social do cinema, entendido por estes cineastas como um
modo de intervenção política e cultural.
Pode-se afirmar que a partir da renovação provocada pela emergên-
cia do Cinema Novo, iniciou-se o processo de construção de um campo
cinematográfico carioca. Tendo em vista Pierre Bourdieu (1998), deve-se
considerar que o desenvolvimento do Cinema Novo estava inserido em um
contexto demarcado por lutas em torno do controle legítimo das regras de
produção dos bens simbólicos, isto é, os filmes. Estas lutas envolviam os
mecanismos básicos do espaço cinematográfico: os setores de produção,
distribuição e exibição. Estes últimos, conforme João Guilherme Barone
Reis e Silva (2012) aponta, compõem a tríade formadora do núcleo central
deste espaço2. Dentro da lógica de Bourdieu (1998), seriam os sistemas de
produção, distribuição e circulação dos bens. E pensando na concepção de
campo artístico, percebe-se a oposição entre os cinemanovistas, como o
polo erudito, e as produções nacionais que seguiam a fórmula hollywoodi-
ana como o polo comercial. Esta oposição se deu com o Cinema Novo na
posição de dominado e as produções comerciais na posição de dominan-
tes3.
Foi entre o final da década de 1950 e os anos iniciais da de 1960 em
que o movimento cinemanovista se formou. Este momento compreende a
sua organização e o estabelecimento dos seus objetivos. Contudo, o golpe
civil-militar de 1964 interferiu diretamente no desenvolvimento do Ci-
nema Novo. A partir da implantação da Ditadura Civil-Militar, duas
questões marcaram fortemente o campo cinematográfico que então se
constituía: as políticas voltadas ao cinema brasileiro e o fortalecimento da
censura. Em 1966, visando a centralização do desenvolvimento cinemato-
gráfico, foi fundado, por meio do Decreto-Lei nº46/66, o Instituto

2
Enquanto a produção é responsável pela elaboração do produto, a distribuição opera a circulação do filme, reali-
zando também a publicidade, e a exibição legitima o consumo final do produto, ampliando a visibilidade deste.
3
É necessário considerar que o cinema dominante era, na verdade, o hollywoodiano. Contudo, se trata da constitui-
ção de um campo cinematográfico constituído no Rio de Janeiro, no qual os bens produzidos são os filmes nacionais.
Carolina Severo | 125

Nacional de Cinema (INC). O órgão ficou sob a gestão de um grupo defi-


nido como industrialista-universalista4, associado aos interesses do
regime. Diante deste contexto, além de voltarem a sua prática de denúncia
à ditadura, os cinemanovistas criaram estratégias para se manterem re-
sistindo, dentro do campo, às mudanças provocadas pela conjuntura
política. Todavia, em decorrência da censura mais rígida, da prática da au-
tocensura, da constante repressão política e dos desentendimentos
internos entre os cinemanovistas, ocorreu a gradual ruptura do movi-
mento ao longo dos anos 1970.
O recorte cronológico delimita-se a partir do golpe civil-militar até a
fundação da Embrafilme (Empresa Brasileira de Filmes S.A.), em 1969.
Por meio do Decreto-Lei nº862/69, a Empresa foi criada para dar conti-
nuidade ao projeto de centralização da produção dos filmes nacionais.
Desta maneira, o estudo tem como objetivo apontar as ações realizadas
pelo regime em relação ao cinema brasileiro; investigar de que forma tais
ações afetaram o Cinema Novo; e identificar as estratégias utilizadas pelos
cinemanovistas para seguirem com o movimento.
A aplicação da noção de campo de Bourdieu (1998) dá conta da com-
plexa tarefa de investigar o espaço cinematográfico carioca dos anos 1960.
O conceito permite compreender melhor a estrutura geradora dos filmes
cinemanovistas dentro deste meio. No momento em que se verifica as con-
dições para a existência do campo, se explora de maneira profunda o
desenvolvimento do Cinema Novo neste período. Envolve averiguar três
pontos cruciais: a posição que os cinemanovistas ocupavam; a luta em
torno das regras de produção dos bens simbólicos; e a emergência do pro-
cesso de autonomização. Como Zuleika de Paulo Bueno (2003) salienta,

4
De acordo com José Mário Ortiz Ramos (1983), durante a segunda metade da década de 1950, houve a emergência
de reivindicações para o apoio do Estado ao desenvolvimento do cinema brasileiro. Desta forma, foi neste momento
em que ocorreu não só a fundação de órgãos estatais voltados ao incentivo do cinema nacional - como a Comissão
Federal de Cinema, em 1956, e o Grupo de Estudos da Indústria Cinematográfica (GEIC), em 1958 -, mas também o
fortalecimento dos debates sobre o assunto. Segundo o autor, tal contexto foi marcado tanto pelos traços nacionalis-
tas do segundo governo de Getúlio Vargas (1951-1954), como pela influência do modelo desenvolvimentista aplicado
pelo governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961). Pode-se destacar a atuação de dois polos: o nacionalista focado no
desenvolvimento do cinema brasileiro, atentando para os males da importação dos filmes estrangeiros e da presença
das distribuidoras estrangeiras; e o industrialista-universalista, que buscava seguir o modelo hegemônico, conser-
vando os interesses norte-americanos.
126 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

abordar o cinema por meio da perspectiva de campo cinematográfico é


considerá-lo como um espaço social relevante de produção material e sim-
bólica que, por mais que esteja relacionado a outros campos de poder,
como o campo político e econômico, segue uma lógica própria de funcio-
namento. Porém, apesar deste estudo trazer brevemente questões acerca
da noção de campo, acaba limitando-se para o apontamento das tomadas
de posição dos integrantes do Cinema Novo diante da implantação do re-
gime civil-militar.
Por conseguinte, o trabalho constitui-se em duas partes. A primeira
trata de uma breve introdução sobre o desenvolvimento do Cinema Novo
e a constituição de um campo cinematográfico no Rio de Janeiro. Já a se-
gunda se refere às tomadas de posição dos cinemanovistas frente às
transformações decorrentes da implantação da Ditadura Civil-Militar.

O desenvolvimento do Cinema Novo e a construção de um campo


cinematográfico carioca

O momento inicial do Cinema Novo corresponde à organização do


movimento. Como Alex Viany (1999) indica, a constituição do Cinema
Novo inaugurou um movimento de renovação do cinema nacional. Mas
para o autor, este fenômeno pode ser verificado não apenas nos filmes,
como também na crítica cinematográfica e nos cineclubes. Enfim, realiza-
vam-se produções que colocavam em prática a tentativa de uma nova
linguagem para introduzir temáticas críticas à realidade brasileira. E con-
forme Ramos (2000) aponta, a produção cinemanovista se intensificou no
ano de 1962 a partir de lançamentos como Barravento (Glauber Rocha); o
filme de episódio Cinco vezes favela (Marcos Farias, Miguel Borges, Leon
Hirszman, Joaquim Pedo de Andrade, Cacá Diegues), composto por cinco
curtas-metragens; Porto das caixas (Paulo César Saraceni) e Os cafajestes
(Ruy Guerra).
Pode-se afirmar que o clima de renovação ao qual Viany (1999) se
refere se estendia para além do cinema, podendo ser observado no meio
Carolina Severo | 127

cultural em geral. A formação de diferentes correntes artísticas que bus-


cavam uma nova forma para atuar na conjuntura político-social
desencadeou, durante a primeira metade dos anos 1960, um período de
efervescência cultural. Estas correntes tinham em comum a característica
de serem engajadas política e socialmente. A ocorrência deste fenômeno
está diretamente associada ao crescimento da participação popular na
transição entre a década de 1950 e a de 1960. De acordo com Heloísa Bu-
arque de Holanda e Marcos Augusto Gonçalves (1982), pode-se observar,
neste momento, uma aproximação das "forças progressistas" ao poder po-
lítico.
Através da sua estruturação enquanto movimento cinematográfico, o
Cinema Novo deixou claras as suas intenções de renovação estética e de
inserir temáticas críticas à realidade brasileira, mostrando-se contrário às
produções nacionais que eram realizadas tendo em vista apenas o apelo
comercial. Desta maneira, a partir da aplicação do conceito de campo, ob-
serva-se a oposição entre os cinemanovistas, como polo erudito, e as
produções que seguiam a fórmula hollywoodiana – visando apenas o lucro
–, como o polo comercial. Para defender a formação do campo durante
este período, recorre-se a três argumentos principais: é possível identificar
relações objetivas entre posições objetivas, como a oposição entre o grupo
do Cinema Novo, na posição de dominado, e as produções de caráter co-
mercial na posição de dominantes; a presença da luta em torno das regras
de produção dos bens simbólicos; e a emergência do processo de autono-
mização.
O pertencimento do Cinema Novo na posição de dominado pode ser
justificado partindo da tríade formadora do espaço cinematográfico. Além
de serem produções independentes, as películas cinemanovistas
apresentavam uma linguagem que buscava romper com o padrão
hollywoodiano, com o qual os espectadores já estavam acostumados. Desta
maneira, o movimento enfrentou um problema relacionado ao público
durante toda a sua existência. Outra questão foi a forte presença de
128 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

distribuidoras estrangeiras5 e a preferência dos exibidores às obras


comerciais, principalmente as estadunidenses6. Estas geravam maior
rendimento, já que eram elas que o público demandava. Em outras
palavras, a competição com os filmes comerciais nacionais e estrangeiros
era extremamente difícil para os cinemanovistas. Enquanto os primeiros
estavam de acordo com os interesses daqueles que detinham o controle da
distribuição e das salas de exibição, os últimos poderiam significar apenas
prejuízo econômico.
Tendo em vista que os cinemanovistas se colocavam em total oposi-
ção à forma hegemônica de produção e aos interesses daqueles que se
encontravam com o domínio das regras de produção – e desta maneira,
possuíam maior capital econômico e social –, pode-se compreendê-los
como hereges. Isto é, conforme a definição de heterodoxia feita por Her-
mano Roberto Thiry-Cherques (2006), enquanto agentes localizados no
polo dominado, os cinemanovistas desenvolveram estratégias que se dire-
cionaram à subversão e à transformação da estrutura do campo. Percebe-
se que é fora do comum se afirmar que estes cineasta, enquanto integran-
tes do polo erudito, sejam compreendidos como hereges. Porém, tanto o
campo de produção erudita como o campo de indústria cultural podem
produzir mensagens heréticas.
O segundo argumento, referindo-se às lutas em torno das regras de
produção dos bens simbólicos, compreende o que Bourdieu (1998) reflete
sobre a busca de diferenças. Neste caso, os cinemanovistas optaram pelo
uso de princípios estilísticos e técnicos para se oporem e romperem com a
forma hegemônica. Em primeiro lugar, utilizaram-se de influências vindas

5
Esta questão estava diretamente associada à atuação da Motion Picture Association of America (MPAA), associação
representativa dos grandes estúdios de Hollywood, e da Motion Picture Export Association (MPEA), responsável pela
representação e defesa dos interesses das companhias cinematográficas norte-americanas no exterior. Sobre, ver
SELONK (2004).
6
O setor de exibição, neste momento, havia sido afetado pelo tabelamento de preço dos ingressos realizado em 1948.
Este acontecimento resultou em mudanças na forma como as distribuidoras estrangeiras comercializavam os seus
filmes, passando a vendê-los por lote, o que impediu que o exibidor os selecionasse e acabasse adquirindo películas
de baixa classificação. Contudo, devido ao baixo custo oferecido pelos distribuidores, houve a importação compulsória
de filmes estrangeiros, principalmente os norte-americanos, o que atuou como um grande empecilho para a renda
das obras nacionais. O baixo preço de tais obras está relacionado com o retorno financeiro que alcançavam em seu
território de origem. Sobre, ver SIMIS (2017).
Carolina Severo | 129

de outros movimentos cinematográficos, tais quais: o neo-realismo itali-


ano, em decorrência das produções de baixo orçamento, de seu caráter
humanista e de seu objetivo de retratar a realidade nacional; e a nouvelle-
vague francesa, no que equivale, principalmente, à noção de autor. Além
disso, levando em consideração Maria do Socorro Carvalho (2004), cabe
apontar que o Cinema Novo buscou raízes no passado cinematográfico do
país para a construção da sua própria identidade. Assim, localizou em
Humberto Mauro a tradição que necessitava para não ter que iniciar do
zero. Além do cineasta mineiro, Ismail Xavier (2001) também destaca a
figura de Nelson Pereira dos Santos. É neste sentido que os cinemanovistas
se encaixam no apontamento de Bourdieu (1998) sobre a formação de uma
categoria distinta de artistas profissionais que buscam considerar as re-
gras firmadas pelos seus predecessores, visando a garantia de um ponto
de ruptura, o que facilitaria o seu processo de autonomização. Então, se
em Humberto Mauro tiveram a tradição de brasilidade da qual necessita-
vam, utilizaram o modelo de produção independente posto em prática por
Nelson Pereira dos Santos para realizarem os seus próprios filmes.
Em relação ao processo de autonomização, pode-se apontar, como
Bueno (2003) enfatiza, que foi durante o desenvolvimento do movimento
cinemanovista em que o cinema brasileiro conquista uma considerável au-
tonomia em relação ao campo político e econômico. Em primeiro lugar,
houve a constituição de um público consumidor que assegurou aos produ-
tores as condições mínimas de independência econômica, já que as
produções nacionais apenas aumentaram ao longo da década; em se-
gundo, em decorrência da formação do Cinema Novo, o número de
produtores aumentou consideravelmente, isto é, houve a inserção de no-
vos cineastas e técnicos no meio cinematográfico; e em terceiro, ocorreu a
fundação de novas instâncias de consagração.
Ponto relevante do processo de autonomização do Cinema Novo, en-
quanto polo erudito, é referente à tecnologia. Segundo Geoffrey Nowell
Smith (2017, p.1), o cinema deve ser compreendido como um complexo de
coisas, sendo, simultaneamente, “uma tecnologia, uma indústria, uma
130 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

forma de arte, e um meio de enxergar o mundo – ou de criar mundos para


serem vistos”. Assim, é pertinente ter em vista Barone (2012), que afirma
que o cinema brasileiro, historicamente, deve ser compreendido como
produto das relações entre os meios tecnológico e institucional. O primeiro
define as ferramentas e os processos de realização, provocando transfor-
mações diretas e indiretas em todas as estruturas do espaço audiovisual.
Já o segundo, define os marcos legais e os sistemas oficiais de regulação,
fomento e fiscalização, e organiza a representação política dos agentes.
Como o próprio autor aponta, os cinemanovistas adotaram a utilização das
câmeras alemãs Arriflex, leves e portáteis, acopladas aos gravadores de
som direto Nagra Kudelsky. Por serem mais leves e mais fáceis de operar,
tais equipamentos permitiram as filmagens fora dos estúdios.
Acerca do financiamento das películas, Ramos (1983) afirma que o
movimento se nutriu, principalmente, do apoio dos setores da burguesia
industrial e financeira. O que ocorreu com frequência foi o empréstimo de
bancos, dos quais se destaca o Banco Nacional de Minas Gerais, ao qual
Gustavo Dahl (1966) faz referência, apontando o nome de José Luiz Maga-
lhães Lins, que teria patrocinado diversas obras. Porém, como Ramos
(2018) infere, outros bancos também foram recorridos pelos cinemano-
vistas, como o Banco Irmãos Guimarães e o Banco Mineiro do Oeste. O
autor também situa a CAIC (Comissão de Auxílio à Indústria Cinemato-
gráfica) como outra fonte de financiamento, afirmando que o grupo
cinemanovista conseguiu se infiltrar e tornar-se tendência dentro do ór-
gão.
É necessário ainda salientar a problemática do público. Como se dis-
tanciava da fórmula hollywoodiana com a qual o grande público estava
acostumado, o movimento acabou tendo os seus produtos consumidos por
um público específico. Conforme Pedro Simonard (2006) aponta, este era
formado em sua maioria, por intelectuais, estudantes e pelos próprios pro-
dutores. Esta questão já havia sido indicada na época por Jean-Claude
Bernardet (1967), para quem o movimento, por mais que objetivasse cons-
cientizar o povo, incentivando-o a reagir, realizava filmes direcionados, na
Carolina Severo | 131

verdade, aos intelectuais e aos dirigentes do país. Contudo, a aproximação


com o público será uma preocupação maior do Cinema Novo a partir das
transformações impostas pela ditadura civil-militar no campo cinemato-
gráfico.

As tomadas de posição dos cinemanovistas frente à Ditadura Civil-


Militar

Paralelo ao momento de fortalecimento da esquerda brasileira do iní-


cio dos anos 1960, o anticomunismo estava se encaminhando para o que
Rodrigo Patto Sá Motta (2002) denominou como a sua segunda eclosão
mais significativa no país. Este fenômeno exerceu papel fundamental para
a realização do golpe civil-militar em 31 de março de 1964. Primeiramente,
o Brasil já apresentava uma tradição anticomunista desde a década de
1930, comprovada pela existência de grupos criados para combater o “pe-
rigo vermelho”. Em segundo lugar, desde o momento da renúncia de Jânio
Quadros, tanto grupos conservadores como militares utilizaram a possibi-
lidade da instalação do comunismo como um dos principais argumentos
para se opor ao governo Goulart. Desta maneira, o medo do comunismo
serviu de instrumento para organizações de direita propagarem a oposição
ao governo em relação à camada civil e, assim, facilitar a realização de uma
intervenção militar. Entre estas organizações, destaca-se o IBAD (Instituto
Brasileiro de Ação Democrática) e o IPES (Instituto de Pesquisa e Estudos
Sociais). Neste cenário, ainda houve a influência dos Estados Unidos. Con-
forme Motta (2002) afirma, este país passou a considerar a América
Latina, após a Revolução Cubana, zona prioritária do combate ao avanço
soviético, tendo lançado, em 1961, a “Aliança para o progresso”, programa
de caráter anticomunista que objetivava fomentar o desenvolvimento so-
cioeconômico latino-americano.
De acordo com Cláudia Wassermam, “desfechado em nome da
Segurança Nacional e da promessa de defesa e respeito às normas
democráticas, o golpe militar de 1964 inaugurou um período de
132 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

insegurança e arbítrio” (WASSERMAN, 2004, p. 27). Segundo a autora,


tomando o Brasil como exemplo e modelo, demais golpes militares foram
implantados em países da América Latina. No que se refere ao caso
brasileiro, Wolney Vianna Malafaia (2012) atenta para a conjuntura
político-cultural. Para o autor, a instalação do regime autoritário
“representou, na realidade, uma ruptura fundamental com todos os
pressupostos que norteavam a sociedade brasileira até aquele momento”
(MALAFAIA, 2012, p. 47). Acerca do campo cinematográfico, Anita Simis
(1996) aponta que, inicialmente, a produção cinematográfica foi
preservada, já que "havia construído forte presença cultura e intelectual
integrada ao processo cultural brasileiro" (SIMIS, 1996, p. 251). E,
conforme a autora indica, logo após o golpe, foram estabelecidas certas
medidas voltadas ao desenvolvimento do cinema brasileiro:

a) Lei 4.549, de 10/12/1964, que aprovou o projeto n.3.386, enviado pelo Gei-
cine em 27 de setembro de 1961 e concedeu pelo prazo de dois anos, isenção
de impostos para importação de material e equipamento cinematográfico, até
então gravados por uma taxação aduaneira que variava de 30% a 50% ad
valorem; b) Decreto 55.202, de 11/12/1964, que precisou as exigências estabe-
lecidas anteriormente na definição de filme brasileiro e obrigou que a
apresentação de adaptação cinematográfica fosse feita por brasileiro ou es-
trangeiro residente no Brasil já cinco anos pelo menos; c) Lei 4.622, de
2/5/1965, que isentou de tributos, por três anos, a importação de material de
laboratórios e para fábricas de filmes virgens; d) Decreto 56.499, de
21/06/1965, que ampliou o alcance da exibição compulsória, impondo a todas
as salas de cinema das grandes cidades a exibição de filmes nacionais, mesmo
que a película já tivesse sido exibida em outro cinema da mesma localidade.
(SIMIS, 1996, p. 251-252)

Porém, certas obras produzidas anteriormente ao evento tiveram o


seu lançamento ou a sua realização prejudicados. Foi o caso de Maioria
absoluta (Leon Hirszman/1964), censurado, e o de Cabra marcado para
morrer (Eduardo Coutinho), que teve a sua produção interrompida.
Porém, é curioso que um filme como Os fuzis (Ruy Guerra/1965), que
apresenta uma clara crítica ao exército brasileiro, foi permitido pela
Carolina Severo | 133

censura e lançado em 1965. Ramos (1983) aponta para como, diante da


mudança do poder político, os cinemanovistas tiveram que repensar os
seus projetos. De acordo com Xavier (2001), o Cinema Novo passou a
realizar filmes reflexivos, tematizando de frente o golpe. Destaca-se O
Desafio (Paulo César Saraceni/1965), Terra em transe (Glauber
Rocha/1967), A Derrota (Mário Fiorani/1967), O bravo guerreiro (Gustavo
Dahl/1968), Fome de Amor (Nelson Pereira dos Santos/1968) e Os
herdeiros (Carlos Diegues/1969). Para Xavier (2001), tais obras estão
inseridas no conjunto de produções que buscaram criticar o populismo
anterior à implantação da ditadura, tanto o político como o estético-
pedagógico. Segundo o autor, “desenvolve-se uma auto-análise do
intelectual em sua representação da experiência da derrota; ao mesmo
tempo, o espaço urbano e as questões de identidade na esfera da mídia
ganham maior relevância” (XAVIER, 2001, p. 29).
Tanto a autocrítica, como a crítica ao regime militar, que marcam as
obras cinemanovistas deste período, estão inseridas em um conjunto
maior de outras produções culturais. De acordo com Hollanda e Gonçalves
(1982), para os intelectuais e a classe artística, o momento posterior ao
golpe foi marcado pela necessidade de refletir e localizar os erros que le-
varam à tomada do poder pelos militares. Marcos Napolitano (2017)
salienta o lugar privilegiado que a cultura assumiu durante todo o regime,
já que desde o início, os meios culturais de esquerda constituíram-se, como
Marcelo Ridenti (2001) aponta, em um dos poucos focos de resistência.
Fazendo referência a Roberto Schwarz, tanto Hollanda (1980) como Na-
politano (2017) enfatizam a particularidade de que, por mais que a
ditadura tivesse sido implantada pela direita, houve a “relativa hegemonia
cultural da esquerda no país”, sendo esta questão vista por Schwarz como
uma anomalia que perpetuou o panorama brasileiro entre 1964 e 1968.
Para Napolitano (2017), a ocorrência deste fenômeno está associada
ao ponto de que, durante o período de 1964 a 1968, o regime civil-militar
priorizou duas ações. A primeira se refere à perseguição aos “quadros do
regime deposto, expurgando as políticas de Estado de qualquer traço
134 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

reformista” (NAPOLITANO, 2017, p. 62-63). Já a segunda, diz respeito ao


rompimento dos canais “entre ativistas políticos e culturais de esquerda
(oriundos da classe média) e movimentos populares, operários e
camponeses” (NAPOLITANO, 2017, p. 62-63). Assim, houve a perseguição
e a desmobilização de organizações como o Centro Popular de Cultura
(CPC), o Pacto de Unidade e Ação (PUA), o Comando Geral de
Trabalhadores (CGT) e outras entidades estudantis e sindicais. Para o
autor, o fechamento de organizações desligadas do mercado capitalista e
que promoviam a relação artística-público foi um dos fatores para o
aumento da complexidade da arte engajada pós-1964. Desta maneira, até
a promulgação do AI-5, houve a continuidade de uma produção cultural
de esquerda, mas por meio da articulação dos setores da classe média.
Além de serem produzidos pela “classe média intelectualizada”, os bens
culturais também eram consumidos pela mesma, encontrando-se
limitados a espaços autorizados. Na maior parte das vezes, estes espaços
eram circuitos mercantilizados vigiados pela censura.
Como já mencionado, o Cinema Novo foi responsável pela realização
de filmes de reflexão que tematizaram de frente o golpe. Todavia, como
Malafaia (2012) atenta, a partir da implantação do regime, os cinemano-
vistas elaboraram propostas estéticas que se tratavam de "respostas
individualizadas colocadas pelos mesmos às novas condições de produção
e de sobrevivência de uma linguagem crítica, preocupada com a realidade
brasileira" (MALAFAIA, 2012, p. 51). Desta maneira, um dos fatores que
guiou as novas opções estéticas e narrativas dos cineastas foi a tentativa
de aproximação com o público. Tentativa esta que foi, inicialmente, frus-
trada. Diretores como Leon Hirszman e Domingos Oliveira buscaram
obras mais leves e acessíveis, tais quais Garota de Ipanema (1967) e Todas
as mulheres do mundo (1965). Todavia, apenas a segunda película alcan-
çou o objetivo, tendo se tornado um sucesso de bilheteria. Por outro lado,
segundo Xavier (2001), houve também a realização de obras "mais com-
portadas" que apresentavam um diálogo com a tradição literária. Mas
estas também não tiveram um bom alcance em relação ao público.
Carolina Severo | 135

De 1965 a 1968, a demanda de comunicação e o simultâneo impulso de mo-


dernidade autoral marcaram uma nítida oscilação na postura do Cinema
Novo. A proposta de um ajuste maior à linguagem do cinema narrativo con-
vencional permanece mais uma palavra de ordem nos textos do que uma
realidade na tela. O conjunto de filmes “mais comportados” que dialogam com
a tradição literária - Menino de engenho (Walter Lima Jr., 1965), A hora e a
vez de Augusto Matraga (Roberto Santos, 1965), A falecida (Leon Hirszman,
1965), O padre e a moça (Joaquim Pedro de Andrade, 1966), Capitu (Saraceni,
1968) - mantém-se afastado do cinema brasileiro mais popular (no sentido de
bilheteria) e, por outro lado, não se alinha ao padrão clássico do cinema norte-
americano. O filme de autor trabalha sobretudo a sua integração no debate
mais erudito da cultura brasileira - o cineasta assume de bom grado o novo
status de sua atividade no contexto nacional - do que seu envolvimento na
dinâmica da cultura de massa. (XAVIER, 2001, p. 60-61)

Porém, além das tomadas de posição individuais dos cineastas, en-


volvendo o conteúdo e a estética dos filmes realizados, houve a
organização coletiva em torno de dois projetos que visavam a continuidade
do movimento cinemanovista e do cinema independente nacional. Em
1965, integrantes do Cinema Novo fundaram a produtora Produções Cine-
matográficas Mapa Ltda e a distribuidora Difilm - Distribuição e Produção
de Filmes Brasileiros Ltda. Estas duas ações foram extremamente impor-
tantes. Foram pensadas dentro de uma estratégia de sobrevivência do
movimento, tendo em vista o domínio do cinema hollywoodiano e a mu-
dança no poder político.
A Produções Cinematográficas Mapa Ltda foi fundada por Zelito Vi-
ana, Glauber Rocha, Walter Lima Jr., Paulo Cezar Saraceni e Raymundo
Wanderley Reis. Está ativa até hoje, atendendo pelo nome de Mapa filmes.
Entre os filmes cinemanovistas pelos quais foi responsável pela produção,
destaca-se: O menino do engenho (Walter Lima Jr./1965); O desafio (Paulo
César Saraceni/1965); A grande cidade (Cacá Diegues/1966); Terra em
transe (Glauber Rocha/1967); e o Dragão da maldade contra o santo guer-
reiro (Glauber Rocha/1969). Contudo, apesar dos cinquenta e quatro anos
136 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

da produtora e de sua relevância para o Cinema Novo, não foram localiza-


das pesquisas que busquem investigar a atuação da empresa e a sua
influência para o desenvolvimento do Cinema Novo.
Já a Difilm foi criada por Luiz Carlos Barreto, Glauber Rocha, Zelito
Viana, Paulo Cezar Saraceni, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman,
Carlos Diegues, Marcos Farias, Roberto Farias e Rivanides Farias. Tendo
em vista as películas cinemanovistas e demais produções independentes,
Glauber Rocha (2004) defendia que uma distribuição organizada dos fil-
mes e uma fiscalização eficaz da exibição possibilitariam a maior presença
de tais obras nos cinemas. Esta prática, colaborando para a expansão do
mercado para novos tipos de filmes, ocasionaria, a longo prazo, o desen-
volvimento de um novo público, além de permitir a circulação das películas
por todo o território nacional, resultando no retorno do capital e origi-
nando lucros. Segundo Leonor Estela Souza Pinto (2006), a Difilm entrou
agressivamente no mercado de distribuição, em direta competição com as
distribuidoras multinacionais. Além disto, conforme Malafaia (2012)
aponta, filmes distribuídos pela Difilm participaram de vários festivais,
tendo sido premiados. E por meio da retenção de parte dos lucros adqui-
ridos pela exibição das obras, a distribuidora foi capaz de financiar outras
produções.
Observando a questão referente à exibição em festivais de cinema es-
trangeiro, aponta-se que outra forma de resistência para a continuidade
do movimento cinemanovista foi a inscrição nestes eventos. Como Meize
Regina Lucena Lucas (2015) afirma, esta foi uma prática verificada a partir
da investigação sobre a censura durante a ditadura. A autora indica que as
cartas de aceite ou de convite dos eventos eram anexadas aos processos
como uma maneira de pressionar os censores a liberá-las.
Porém, um ano após a criação da Mapa e da Difilm, o governo seria
responsável por concentrar o poder do meio cinematográfico no polo in-
dustrialista-universalista. Durante o governo Castello Branco (1964-1967),
a GEICINE implantou o Decreto-Lei nº46/66, que transformou o Instituto
Nacional de Cinema Educativo (INCE) em INC. Conforme Ramos (1983)
Carolina Severo | 137

pontua, o Instituto visava “centralizar a administração do desenvolvi-


mento cinematográfico, criar normas e recursos, e respeitar uma ‘política
liberal’ para a importação de filmes” (1983, p. 51). O autor ainda enfatiza
que o órgão, sob a gestão dos industrialistas-universalistas, concentrava
maior poder sobre o cinema nacional. Desta forma, o polo nacionalista,
onde estava incluído o Cinema Novo, encontrou-se marginalizado e sem
grandes influências no jogo de poder.
Segundo Ramos (1983), agindo de acordo com os interesses do re-
gime, o INC se colocou como um órgão técnico e neutro. Funcionou através
de um Conselho Deliberativo, no qual encontravam-se figuras de órgãos
ministeriais, e de um Conselho Consultivo, composto por representantes
do meio cinematográfico. Este último, conforme Ramos (1983) infere, de-
tinha poderes reduzidos e foi estrategicamente pensado como uma forma
de escantear os profissionais da área. O Instituto apresentou uma proposta
clara em relação ao cinema nacional: “um cinema de dimensões industri-
ais; associação em co-produções com empresas estrangeiras, e medidas
modestamente disciplinadoras da penetração do filme estrangeiro [...]”
(RAMOS, 1983, p. 53). O autor indica que houve reação por parte dos ci-
nemanovistas diante da fundação do órgão. A falta de cineastas na
elaboração do projeto foi um dos pontos mais criticados. E como Ramos
(1983) bem observa, o INC significou a realização de uma reivindicação
antiga do polo nacionalista, mas posta em prática por um Estado ditatorial
e sob a direção do polo industrialista-universalista.
O INC encerrou as suas atividades em 1975. Neste ano, a Embrafilme
sofreu uma reorganização e incorporou as funções do Instituto. E em 1976,
o Conselho Nacional do Cinema (Concine) foi criado para cumprir as ta-
refas legislativas do extinto órgão. Porém, como Ramos (1983) afirma, por
meio da atuação do INC e, posteriormente, da Embrafilme, houve um con-
siderável crescimento da produção cinematográfica nacional. No que se
refere às medidas tomadas pelo INC, Johnson (1993) apresenta de forma
sintética os programas de apoio que foram elaborados:
138 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

[...] Ele [o INC] administrava três principais programas de apoio: primeiro,


um programa de subsídios que proporcionava a todos os filmes nacionais exi-
bidos uma renda adicional de acordo com as receitas de bilheteria; segundo,
um programa de prêmios adicionais em dinheiro para filmes de “qualidade”,
selecionados por um júri de críticos e profissionais da indústria cinematográ-
fica; e terceiro, um programa de financiamentos de filmes em que o instituto
administrava co-produções entre distribuidores estrangeiros e produtores lo-
cais utilizando fundos obtidos através do imposto de renda dos distribuidores.
[...] tais programas eram abertos a todos os cineastas interessados e assim
tendiam a apoiar o setor produtivo como um todo. (JOHNSON, 1993, p. 36)

A respeito do terceiro programa, Ramos (1983) aponta que forçava a


articulação com empresas estrangeiras. Caso os fundos adquiridos não
fossem utilizados para a realização de filmes, em coprodução com produ-
tores brasileiros, a quantia era incorporada como receita do INC. Desta
maneira, por mais que tais empresas não tivessem o interesse em aderir à
produções nacionais, no momento em que optassem por não realizar uma
coprodução, haveria um reforço na receita do Instituto, o que contribuiria,
consequentemente, à produção brasileira. De acordo com Ramos (1983),
filmes oriundos deste mecanismo se fizeram presentes até 1972. Apesar de
grande parte deles serem de autoria de integrantes do grupo universalista,
o autor indica que os cinemanovistas também participaram do programa.
Foi o caso de Os herdeiros (Cacá Diegues/1969), Macunaíma (Joaquim Pe-
dro de Andrade/1969), Como era gostoso o meu francês (Nelson Pereira
dos Santos/1970) e Pindorama (Arnaldo Jabor/1970). E acerca do pro-
grama de premiação, Ramos (1983) afirma que o ano de 1969, por conta
da direção de Ricardo Cravo Albin, significou uma importante mudança
na atribuição dos prêmios. Diferente de outros anos, obras cinemanovistas
foram premiadas. O dragão da maldade contra o santo guerreiro (Glauber
Rocha/1969), Brasil, anos 2000 (Walter Lima Jr./1969) e Macunaíma (Jo-
aquim Pedro de Andrade/1969) são exemplos.
Durante o ano de 1968, em meio a um contexto internacional mar-
cado pelo maio francês e pelos movimentos sociais norte-americanos, o
Carolina Severo | 139

Brasil testemunhou a crescente mobilização dos estudantes contra a dita-


dura. Este fator, junto com a realização de greves operárias, foi somado à
insatisfação dos segmentos dominantes – entre os quais Motta (2018)
aponta a imprensa, o Judiciário, o Parlamento, a Igreja e as elites sociais –
com o governo Costa e Silva (1967-1969). A situação fragilizou-se ainda
mais com a solicitação do presidente negada pela Câmara dos Deputados
de processar o parlamentar Moreira Alves, do MDB, em decorrência do
discurso deste em total oposição ao regime, pronunciado em setembro de
1968. Desta forma, em resposta ao cenário desfavorável ao governo, o AI-
5 foi promulgado.
Concentrando o poder nas mãos do Executivo, o AI-5 permitia cassar
mandatos e direitos civis de cidadãos, suspender o habeas corpus em caso
de crimes políticos contra a segurança nacional, censurar a imprensa e
decretar estado de sítio. Com o Congresso Nacional e as Assembleias Le-
gislativas estaduais em recesso, juntamente com a institucionalização da
tortura, houve o significativo aumento da repressão e o agravamento da
Ditadura. O período pós-AI-5, como Napolitano (2017) afirma, inaugurou
uma mudança na abordagem dos militares em relação às obras culturais
de esquerda e da arte engajada. Ao mesmo tempo em que uma nova faceta
cultural estava sendo esboçada, esta foi logo dissuadida pela censura7.
Neste momento, artistas passaram a ser violentamente perseguidos pelo
regime, sendo muitos forçados ao exílio. Em relação à estas questões, So-
ares (1989) salienta que o AI-5 deu liberdade à linha dura civil e militar
para serem exercidas ações fascistas e antidemocráticas.
Segundo Ramos (2018), a partir do AI-5, em decorrência do endure-
cimento do regime militar e do fortalecimento da censura8, os cineastas

7
De acordo com Lucas (2015), durante a Ditadura Civil-Militar, a censura continuou baseando-se na Constituição de
1946. Ou seja, ainda havia a atuação do Serviço de Censura de Diversões Públicas (SCDP), criado em 1945 pelo De-
creto-Lei nº8.462 e subordinado ao Chefe de Polícia, pois era de responsabilidade do Departamento Federal de
Segurança Pública. Mas, mesmo assim, ainda houve a implantação de novas leis. E, em 1966, o aparelho censório foi
centralizado em Brasília, sobrepondo a censura nacional às censuras estaduais. Outro ato do regime foi a fundação,
em 1972, da Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP), que também respondia à Polícia Federal.
8
Segundo Lucas (2015), a atuação dos censores em relação à censura cinematográfica, também se direcionava de
acordo com as normas estabelecidas anteriormente ao golpe. A autora aponta os três vetores que orientavam a ava-
liação dos filmes: a qualidade técnico-artística; a mensagem que a obra transmitia; e a adequação ao sistema de
140 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

passaram a fazer o uso mais recorrente de alegorias. Esta prática serviu


como uma forma de “driblar” os censores. Visando representar a história
e a sociedade brasileira, os cinemanovistas optaram por uma presença
maior da violência para tratar de temáticas como a perseguição política, a
paranoia e a tortura. Ramos (2018) destaca O dragão da maldade contra o
santo guerreiro (Glauber Rocha/1969) e Os deuses e os mortos (Ruy
Guerra/1970). O autor também indica a influência do tropicalismo em
obras tais quais Macunaíma (Joaquim Pedro de Andrade/1969), Os herdei-
ros (Cacá Diegues/1969) e Pindorama (Arnaldo Jabor/1970). Para Malafaia
(2012), pode-se observar neste momento a realização de grandes produ-
ções. De acordo com o autor, houve o aumento de custos de produção; a
passagem para a realização de filmes coloridos; a utilização de equipamen-
tos tecnicamente desenvolvidos e a presença de uma equipe
profissionalizada, indo de diversos assistentes a atores consagrados. Como
Ramos (1983) elabora, este fenômeno estava associado ao processo de de-
senvolvimento capitalista dependente do país e ao que Renato Ortiz (2001)
indica como o fortalecimento do parque industrial de produção de cultura
e o mercado de bens culturais.
Neste período de transição da década de 1960 para a de 1970, ocorre,
em 1969, a fundação da Embrafilme por meio do Decreto-Lei nº862/69.
Criada inicialmente como um órgão auxiliar do INC, foi mais uma medida
centralizadora do espaço cinematográfico por parte do regime civil-mili-
tar. E, conforme Johnson (1993) infere, tornando-se a principal fonte de
financiamento para produção, a Embrafilme elaborou uma relação de de-
pendência entre o Estado e os cineastas independentes, entre os quais
estavam os cinemanovistas. Ortiz (1983) atenta para como os anos iniciais
da Empresa foram marcados por diversas críticas, principalmente, por
aquelas vindas dos integrantes do Cinema Novo: “os cinemanovistas, mais

classificação etária. Além disso, como William Souza Nunes Martins (2009) constatou a partir da análise dos certifi-
cados, havia a aplicação de dois tipos de censura: a moral – em que certas cenas ou o filme todo eram considerados
ofensivos à moral cristã da sociedade brasileira – e a política, em que a película ou uma parte específica era vista
como ameaça à Segurança Nacional. Cabe atentar, como Lucas (2014) enfatiza, que, compondo o aparelho repressivo
do regime e seguindo a ideologia do Estado, a censura foi uma ação coordenada não só pelas instâncias governamen-
tais, mas também pelos setores da sociedade civil.
Carolina Severo | 141

uma vez preteridos, vão obviamente pressionar e questionar a criação da


empresa e a forma de encaminhamento da política cinematográfica”
(RAMOS, 1983, p. 90). Porém, como o autor também aponta, durante o
governo Médici, o Ministro da Educação e Cultura, Jarbas Passarinho, bus-
cou dar um novo rumo às ações da Embrafilme e do INC. Jarbas
Passarinho foi responsável por incorporar uma antiga reivindicação cine-
manovista: a tentativa de implantar uma indústria nacional de cinema.
Para Ramos (1983), então, entre o período de 1969 a 1974, a Embrafilme
esteve marcada por esta tentativa estatal de implantar uma indústria cine-
matográfica que ocupasse efetivamente o mercado fílmico.

Considerações finais

Diante da implantação do golpe civil-militar, o Cinema Novo se


colocou em oposição ao regime. Contudo, se adaptou às transformações
impostas ao campo cinematográfico frente à mudança do poder político.
Para garantir a sua permanência no campo, os cinemanovistas realizaram
certas tomadas de posição ao longo da década de 1960. Primeiramente,
deve-se apontar as ações individuais de cineastas. Houve por parte de
certos integrantes do movimento a tentativa de aproximação com o grande
público. Desta maneira, mudanças estéticas e narrativas foram feitas, mas
sem abrir mão do conteúdo crítico à realidade nacional. Entretanto, tais
filmes não alcançaram o objetivo, seguindo com o mesmo público formado
por intelectuais, estudantes e profissionais do meio cinematográfico. Esta
situação se modificou apenas na transição dos anos 1960 para os 1970,
momento em que houve uma dispersão estética maior dentro do
movimento e em que os cinemanovistas passaram a aderir à grandes
produções.
Em segundo lugar, a fundação da Produções Cinematográficas Mapa
Ltda e da Difilm, em 1965, foi extremamente relevante. Levando em con-
sideração à oposição do Cinema Novo frente ao INC, ambas serviram de
142 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

alternativa em relação ao Instituto. Permitiram a atuação dos cinemano-


vistas tanto no setor de produção como no de distribuição, colaborando
para a continuidade do movimento e a sua maior inserção no mercado
cinematográfico. E quando se fala na continuidade do Cinema Novo, não
está sendo apontado apenas a realização de filmes, mas sim a realização
de obras de acordo com os pressupostos cinemanovistas. Além disto, inte-
grantes do movimento também utilizaram os programas elaborados pelo
INC. Por mais que a abertura da produção nacional ao capital estrangeiro
não fosse um objetivo do Cinema Novo, o mecanismo de coprodução com
empresas estrangeiras foi uma maneira de tornar possível os projetos de
certos cineastas. E em relação à censura, a alegoria passou a ser um ins-
trumento utilizado pelos cineastas para dar continuidade ao conteúdo
crítico das películas à realidade brasileira. E como foi visto, visando pres-
sionar os censores, a inscrição em festivais estrangeiros de cinema foi uma
prática recorrente.
Tendo em vista as limitações deste trabalho, salienta-se que a inves-
tigação da atuação dos cinemanovistas durante a ditadura civil-militar é
complexa. Primeiramente, em relação a aplicação do conceito de campo de
Bourdieu (1998), salienta-se que há consciência de que a análise aqui rea-
lizada deve ser aperfeiçoada. E acerca de um estudo mais profundo sobre
a temática, atenta-se que envolve: a melhor descrição das tomadas de po-
sição individuais dos cinemanovistas; a análise das transformações
estéticas que acompanharam o movimento; a devida contextualização da
conjuntura político-cultural do período; e a verificação mais atenta das
ações do Estado no campo cinematográfico, sejam estas por meio da cen-
sura ou através do INC e da Embrafilme. E em meio à crise que o cinema
brasileiro está vivenciando atualmente, se enfatiza a necessidade de pes-
quisas que lhe tenham como objeto, principalmente envolvendo o período
autoritário da ditadura civil-militar.
Carolina Severo | 143

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7

"Filho de Deus, sobrinho de Satã":


história e memória de Marconi Notaro entre a contracultura
dos anos 70, o Udigrudi, a cena musical e artística
pernambucana, os processos criativos e a vida em família

Carlos Eduardo da Silva Pereira 1

"Todo Nó da Atitude": Um Ponto de Partida.

Assim como um músico, que reconhece de forma quase automática


as notas básicas do campo harmônico (Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá e, por último,
Si), o historiador dos movimentos artísticos e da contracultura também
reconhece, assim que alguém propõe qualquer discussão sobre os movi-
mentos estéticos da música durante as décadas de 60 e 70, de forma quase
automática, o tropicalismo. O tropicalismo parece então essas notas bási-
cas do campo harmônico. Possui importância e influência, assim como as
notas básicas, mas além delas, existe a dissonância. As Sextas, as Sétimas,
as Terças, as Nonas que compõe as escalas e as notas, o empréstimo de
acordes e até, por que não? Os ruídos.
O tropicalismo na história brasileira é capaz até mesmo de produzir
categorias ou subcategorias a partir de si mesmo, como uma espécie de
marco. A partir dele encontram-se os tropicalistas tardios (como os Novos
Baianos), os pós-tropicalistas e os Malditos, entre outras nomenclaturas.

1
Mestrando no Programa de Pós-Graduação em História da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
Bolsista CNPq.
Carlos Eduardo da Silva Pereira | 147

O tropicalismo propôs uma espécie de deglutição, influenciado pela esté-


tica da arte moderna e do conceito de antropofagia.
Esse movimento estético das artes e da música apareceu como um
contraponto da repressão cultural que acontecia na época. Enquanto o
Brasil vivia a ditadura civil-militar, o tropicalismo tomava forma através
do consumo da arte estrangeira (carne do outro) e de elementos da arte e
da cultura popular brasileira (a carne nacional), essa deglutição tinha um
caráter revolucionário e, portanto, não é possível separar o que é a estética
e o que é a crítica social e política (JEZZINI, 2012).
No entanto, o tropicalismo, por mais revolucionário que tenha sido,
pertence a um universo maior, o universo da contracultura, ele é a associ-
ação automática quando pensamos na arte ou na música durante a
ditadura civil-militar, no entanto, existe mais além dele. Assim como as
notas básicas do campo harmônico, o tropicalismo também é uma super-
fície do movimento e da ruptura cultural profunda que acontecia no país
nesse período. Profunda porque estava muitas vezes à margem ou inaces-
sível, desconhecida. O termo contracultura "pode ser definido como um
novo estilo de contestação social ao sistema político-econômico vigente,
bem diferenciado da prática política da esquerda tradicional" (PEREIRA,
2016, p. 20). Esse termo servia para designar movimentos de jovens sur-
gidos na década de 1960 que se opunham de diversas maneiras ao que era
estabelecido como culturalmente aceitável no ocidente, tinha um caráter
libertário e apareceu com maior predominância nos EUA e na Europa e
em um menor grau na América Latina (PEREIRA, 2016).
Mas o aparecimento na América Latina da contracultura se estabele-
ceu em termos diferentes. A contracultura apareceu em um período
autoritário, as ditaduras eram os principais sistemas políticos e, portanto,
essa manifestação aconteceu de maneira marginalizada e, por vezes, anti-
cultural (PEREIRA, 2016). A contracultura assumia diferentes formas de
organização e de luta em todo o mundo. Nos EUA, por exemplo, o movi-
mento Hippie se reunia em comunidades, acampamentos e grupos,
impulsionando protestos contra a Guerra do Vietnã e, como uma espécie
148 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

de ativismos simbólico, recusando coisas que fossem industrializadas ou


que pudessem coincidir de alguma forma com os valores capitalistas esta-
dunidenses (PEREIRA, 2016). Na Europa, a contracultura teve como
episódio mais importante o Maio de 1968 na França, que foi conduzido por
estudantes, intelectuais, artistas e pela juventude francesa que estava se
opondo aos valores rígidos e conservadores da sociedade da época; e quase
que imediatamente ganhou ampla adesão dos trabalhadores e operários,
o que mobilizou uma greve com cerca de 10 milhões de pessoas (PEREIRA,
2016).
Em linhas gerais, é possível afirmar que a contracultura era uma via
diferente da proposta revolucionária, principalmente na Europa e na Amé-
rica Latina. Enquanto a luta armada visava à revolução através das armas,
os movimentos contraculturais aspiravam uma revolução do tipo cultural
(KAMINSKI, 2019). O contexto da Ditadura Militar no Brasil foi também
bastante importante no que diz respeito à formação dos movimentos de
contracultura.

A esquerda tradicional no Brasil, representada principalmente pelo Partido


Comunista, não dedicava muita atenção a questões de desigualdade social e
sexual, concentrando os esforços na resistência anti-imperialista na luta de
classes. [...] A contracultura, no caso dos tropicalistas, teve outras facetas, in-
clusive as que dependiam do consumo de novos estilos e produtos culturais.
(PEREIRA, 2016, p. 24)

A partir da citação acima podemos perceber que a militância política


de esquerda formada a partir da ditadura militar brasileira englobou, de
fato, parte das referências dos grupos contraculturais (entre eles, os tropi-
calistas). No entanto, a proposta de ruptura cultural ia além da luta anti-
imperialista. O "desbunde", por exemplo, que era um termo bastante uti-
lizado entre os movimentos artísticos contraculturais no Brasil, era uma
espécie de escárnio dos valores tradicionais e estava completamente ligado
a uma noção de revolução do corpo e dos comportamentos. A juventude
da contracultura estava muito menos preocupada com o caráter proletário
Carlos Eduardo da Silva Pereira | 149

ou socialista de uma Revolução, essa era entendida num sentido mais pró-
ximo do anarquismo (PEREIRA, 2016).
O contexto contracultural no Brasil, no entanto, permeia diferentes
espaços, vivências, regiões e estratos sociais. Considerado um dos maiores
expoentes e idealizadores da contracultura no Brasil, Luiz Carlos Maciel
com o seu intitulado "Manifesto Hippie", publicado no jornal O Pasquim
em 1970, difundiu a partir da coluna "UNderground" os movimentos con-
traculturais (OLIVEIRA, 2011, p. 21). Para pensar a cena da contracultura
recifense nesse período é necessário, antes, compreender o termo Un-
derground. De acordo com Oliveira (2011, p. 28) "o termo que, longe de
ser apenas uma referência espacial ("sob o chão"), era indicativo de uma
maneira de ser que se pretendia absoluta, afetando todas as esferas da ex-
periência humana", ou seja, não bastava compartilhar de gostos, mas era
necessário também viver aquilo que se acreditava e experienciar de todas
as maneiras possíveis.
Portanto, a cena contracultural e underground pernambucana di-
ziam respeito não só ao artista, mas também ao público e a maneira como
viviam. E é justamente a partir do termo "underground" que surge o
termo "Udigrudi", que servia para fazer referência ao público e a essa cena
musical e artística que se desenvolvia na cidade de Recife (PE). De acordo
com Guilherme Menezes Cobelo e Oliveira (2011) é impreciso definir
quando exatamente surgiu o termo "Udigrudi", sendo constantemente as-
sociado a maneira como Glauber Rocha se expressou em relação aos
cineastas que contestavam o Cinema Novo. Ainda de acordo com o autor,
o próprio Carlos Maciel também foi uma figura importante no que diz res-
peito à difusão desse termo.

Dessa forma, compreende-se o uso constante que passou a ser feito do nome
udigrudi e não apenas pelos cineastas [...], mas por uma vasta gama de artistas
independentes, músicos, poetas, pintores, teatrólogos, enfim, todos aqueles
que mantinham com a arte uma relação udigrudi, descompromissada com os
parâmetros de produção e as expectativas econômicas do mercado, do grande
público, estranhos ao estrelado por circularem em outras esferas, por terem
necessidade de um voo mais livre. (OLIVEIRA, 2011, p. 28).
150 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

O Udigrudi passa então a ser a referência principal no que diz res-


peito a essa cena ou meio artístico surgido em Recife na década de 1970,
às margens dos grandes centros de produção, divulgação e comercializa-
ção da arte (que na época eram São Paulo e Rio de Janeiro) (OLIVEIRA,
2011); composta por um público atuante, que seguia determinado estilo de
vida e por uma gama de artistas que compartilhavam dessas experiências
e conduziam suas produções (dos tipos mais variados) de forma indepen-
dente.

"Permaneço Fiel às Minhas Origens": O Acervo Online de Marconi


Notaro entre um Relato Familiar e a Transcendência da Importância.
Figura 1 – Marconi Notaro

Fonte: Marconi Notaro. [s. l.], 1 jun. 2020. Instagram: Marconi Notaro.

Da criança da cidade de Garanhões que brincava no telhado de casa


com uma capa para surpreender visitantes2 ao músico, compositor, poeta,
cordelista e expoente do udigrudi. A história de vida de Marconi Notaro se
cruza, constantemente, com a cidade de Recife, com a vida nacional, com

2
Detalhes obtidos no depoimento das filhas Dallanora e Eleonora Notaro, disponíveis no acervo digital do artista.
Carlos Eduardo da Silva Pereira | 151

o contexto artístico do país, e isso é expresso de diferentes maneiras em


toda a sua obra. Mas antes de falar especificamente da vida do artista é
necessário compreender um pouco sobre o acervo e sua importância e a
iniciativa deste artigo.
As novas tecnologias da informação (e isso inclui a internet e as redes
sociais) vêm criando, já há algum tempo, um espaço para encontros ines-
perados. Em tempos pandêmicos isso se tornou ainda mais perceptível. A
criação de grupos em redes sociais como o Facebook, por exemplo, criou
um tipo de contato entre as pessoas que se dá em níveis muito diferentes.
Cito aqui dois grupos que foram importantes para a iniciativa deste texto
e para o acervo online de Marconi Notaro. O primeiro deles é o grupo Psi-
codelia Brasileira (Psychedelic Brazil)3 e, o segundo, o Psicodelia
Nordestina4. Ambos os grupos reúnem uma série de pessoas e personali-
dades interessadas na musicalidade psicodélica brasileira e nordestina.
Esses espaços acabam servindo como um campo de discussão e debate so-
bre música, influências, novidades no que diz respeito ao underground, a
cena musical psicodélica atual e dos grupos artísticos de outros períodos
como das décadas de 1960 e 70.
Um dos músicos que geralmente tem uma presença garantida nas
discussões desses dois grupos é o Marconi Notaro, alvo de admiração e
reconhecimento de muitos "hippies", psicodélicos, alternativos e até de ou-
tros músicos do cenário musical psicodélico atual. E foi justamente dentro
de um desses grupos que surgiu o contato e a aproximação entre Eleonora
Notaro, filha de Marconi Notaro, e eu. Em uma publicação ela solicitava
aos membros do grupo que enviassem fotos, artigos e/ou informações so-
bre o pai dela, pois era de interesse das filhas a criação de um acervo
online/digital de seu pai.
Pensamos então em escrever algo utilizando os documentos disponí-
veis no acervo e as memórias e depoimentos das filhas, como uma forma

3
Psicodelia Brasileira (Psychedelic Brazil) [Grupo]. [s. l.]. Facebook: Psicodelia Brasileira. Disponível em:
<https://www.facebook.com/groups/psicodeliabrasileira>. Acesso em: jul. 2020.
4
Psicodelia Nordestina [Grupo]. [s. l.]. Facebook: Psicodelia Nordestina. Disponível em: <https://www.face-
book.com/groups/537882123257320/>. Acesso em: jul. 2020.
152 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

de divulgar o acervo e a importância de Marconi Notaro, bem como para


tentar difundir a iniciativa, a fim de coletar mais documentos. Sobre o
acervo5, Eleonora Notaro, definiu que inicialmente a ideia era de conseguir
juntar documentos e tornar o acesso disponível para a família e os netos
de Marconi. De acordo com o depoimento de Eleonora, existia uma grande
dificuldade em juntar os documentos do seu pai, pois ele era bastante ca-
ótico e desorganizado enquanto pessoa e artista, o que dificultou bastante
na obtenção de informações e objetos para compor o acervo.
Em relação ao acesso, o acervo está disponível no Instagram. Eleo-
nora afirmou em depoimento que foi necessário encontrar um meio fácil
de acesso, afinal de contas, a pretensão inicial era deixar o maior número
de informações possíveis disponíveis para os netos do músico. Ou seja, a
primeira intenção em relação à criação do acervo era a de preservação de
uma memória familiar e afetiva. Dessa forma, o acervo tinha a intenção de
"transmissão de bens simbólicos às gerações seguintes" e isso "situa a fa-
mília como o lugar dessa passagem, fazendo de cada descendente o alvo e
ao mesmo tempo o veículo da preservação dos valores familiares"
(BARROS, 1989, p. 36). Portanto, a preservação dessa memória se encon-
tra na transformação de objetos (nesse caso, de documentos) em bens
simbólicos para as gerações futuras. No entanto, de acordo com o depoi-
mento de Eleonora, a importância do acervo logo se mostrou maior que a
intenção original. De acordo com ela, artistas apareceram querendo tocar
ou regravar as músicas de seu pai e, além disso, o público e os admiradores
conseguiram conhecer e despertar um maior interesse pela obra de Mar-
coni. Para ela, "é como se tivesse aberto um pouquinho da porta da casa
da gente", ou seja, um espaço familiar tornou-se de público e de interesse
do público. Também sob o ponto de vista da memória familiar e da Histó-
ria Oral, podemos observar o próprio depoimento das filhas Dallanora e
Eleonora Notaro.

5
Marconi Notaro [Perfil]. [s. l.]. Instagram: Marconi Notaro. Disponível em:
<https://www.instagram.com/marconinotaro/>. Acessado em: jul. 2020.
Carlos Eduardo da Silva Pereira | 153

[...] o fato de o sentido e a identidade de sociedades modernas pressupõe o


indivíduo como âncora e elemento constitutivo. Ao tempo indistinto, linear e
racional do mundo moderno contrapõe-se a densidade de significados da bio-
grafia, capaz de sintetizar os significados do passado. Se a história oral
representa uma opção totalizadora frente à fragmentação de documentos es-
critos é porque ela está centrada no indivíduo, que funciona, em nossa cultura,
como compensação totalizadora à segmentação e ao nivelamento em todos os
domínios. (ALBERTI, 2003, p. 4)

Portanto, o entrecruzamento das fontes documentais do acervo com


o depoimento das filhas de Marconi Notaro possibilita ao mesmo tempo
agregação e desagregação. Este entrecruzamento revela diferentes dinâ-
micas no processo de significados, não só da vida do artista, mas também
da sua presença no mundo, na família, entre os amigos e a transfiguração
do ser de múltiplas faces no fazer artístico marcado pela contracultura.

"Um Primata só Pirata sem Pretensão nesse Mundo...": Uma Vida


Atravessada pela Arte, pela Música e o Underground.

Papai era um cara que, sabe aquilo que se diz que você vive no mundo da lua?
Era mais ou menos isso! Ele criava muito, criava, criava, produzia, mas só, só
isso. E ele era feliz com isso e isso que (risos) era engraçado nele. Como nós
vivemos numa (risos) história completamente diferente né? Onde se a gente
cria a gente tem que (risos) botar pra frente, se a gente produz a gente tem
que botar pra frente, papai não tinha essa, essa preocupação. Ele simples-
mente criava e ficava feliz com a criação, ficava feliz com a produção. Ele era
uma figura muito massa, mas assim, só. (Risos). Eu sinto, sinto que ele poderia
ter feito muito mais, sinto que o nome dele poderia ter sido muito mais forte
na cena musical, na cena literária. Eu acredito que meu pai poderia ter feito
coisas incríveis, mas, infelizmente ele não fez, não fez porque ele não quis,
mesmo, de verdade.6

[...] meu pai era muito desorganizado, ele era caótico, ele vivia no caos e era
muito difícil pra ele juntar. Ele dava tudo, ele dava não só poema e dinheiro,
ele dava letra de música, tem cantor famoso de música famosa que eu sei que

6
Trecho do depoimento de Dallanora Notaro, disponível na íntegra no acervo online do artista (transcrito pelo autor).
154 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

a música era dele, mas a gente não pode dizer nada porque ele deu, deu autoria
deu tudo.7

A contracultura do período, que chegava no Brasil em meio à ditadura


militar, em meio à repressão e à censura e a atitude de jovens que se espe-
lhavam no modo de vida Hippie, da vida em comunidade, do socialismo
libertário, dos festivais de música, do consumo de alucinógenos e da expe-
rimentação (no que diz respeito tanto à música quanto aos modos de viver
e se compreender no mundo) (MELO; VILELA, 2018) criou um contraste
que servia de cenário potencializador para o Udigrudi. E todo esse novo
comportamento, ou, como define Marconi Notaro em "Antropológica N°
1", "todo nó da atitude", eram peça chave para uma noção de criatividade
e fazer artístico para além das demandas comerciais. Um processo caótico,
talvez, mas que possibilita a experimentação de maneiras inimagináveis.
O primeiro e único LP de Marconi Notaro intitulado "Marconi Notaro
No Sub Reino Dos Metazoários" talvez seja uma prova de que a atitude da
criação desregrada e caótica seja um palco promissor para a experimenta-
ção e produção de estéticas musicais inovadoras ou transgressoras. As dez
faixas do álbum transitam entre o folk, o rock, o rock psicodélico, o samba,
os ritmos e elementos da música e da cultura nordestina e, ainda, explo-
ram cortes, recortes, ruídos e instrumentos diferentes. A primeira faixa,
"Desmantelado", é um samba marcante que traça paralelos entre a sinuca,
a vida e o cotidiano, explorando características e instrumentos típicos do
samba, o álbum é aberto com uma faixa que remete muito à música cari-
oca. Enquanto isso, a segunda faixa, "Ah vida, Ávida" mistura a cítara
(tocada por Lula Cortês), a viola (conduzida por Zé Ramalho), ruídos que
vão desde brinquedos ao barulho de água, gritos, assovios e diferentes ob-
jetos. A segunda faixa, ao contrário da primeira, promove uma espécie de
"ambientação" alucinógena, quase que elevando o ouvinte a se conectar
junto com os músicos a sua vida e às suas experiências e angústias.

7
Trecho do depoimento de Eleonora Notaro, disponível na íntegra no acervo online do artista (transcrito pelo autor).
Carlos Eduardo da Silva Pereira | 155

Acontece uma quebra na terceira faixa do disco, proposital. Coloca de


tal maneira que o samba da primeira faixa, a música experimental da se-
gunda e o "frevinho" psicodélico da terceira parecem conectados em
íntimo sentido, apesar de distintos entre si. O ritmo da terceira faixa, "Fi-
delidade", traz uma conexão do artista com as suas raízes. Como na
própria música, o autor afirma: "permaneço fiel às minhas origens [...]
permaneço fiel às minhas orgias"8. A letra, se observada atentamente, ca-
minha em conjunto de significado com o ritmo. Se o artista permanece fiel
às suas origens, o ritmo passa a mesma mensagem: é psicodélico enquanto
tal, é experimental e transgressor como a época exigia, mas ao mesmo
tempo inclui o frevo, afirmando a relação e o compromisso do músico não
só com a nova música emergente, mas também com a sua própria vivência
e territorialidade.

Estas territorialidades surgem como um evento motivador de ações territori-


ais ligadas às manifestações coletivas e individuais. As cenas musicais são
microterritorialidades ligadas a eventos socioculturais que se espacializam em
lugares e expressam-se em paisagens. Esses eventos são formadores de iden-
tidade atribuída a um sentimento de pertencimento e de aproximação que se
estabelece com outras pessoas, lugares, objetos e atividades. (MELO; VILELA,
2018, p. 123)

A quarta faixa, "Maracatu", remete-nos novamente a uma quebra,


mas uma quebra que segue reafirmando a reinvenção da música constru-
ída a partir da territorialidade – uma característica típica dos músicos do
Udigrudi. E em seguida, a faixa "Made In PB". Destacando guitarras dis-
torcidas, reverberações e uma atmosfera lisérgica, o atrevimento da
experimentação nessa música nos remete muito ao novo universo musical
surgido na época.
As duas faixas seguintes: "Antropológica Nº 1" e "Antropológica Nº
2" exploram novamente efeitos diversos e ruídos. Mas dessa vez, as gui-
tarras são conduzidas através de reverbs, delays, distorções e outros
efeitos de guitarra à reprodução de barulhos através dos amplificadores. A

8
Faixa 3 - Fidelidade, do álbum "Marconi Notaro No Sub Reino Dos Metazoários".
156 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

mistura das guitarras com a cítara, em consonância com uma letra repleta
de termos pertencentes às ciências biológicas, cantada de forma sofrida,
explora ainda mais o universo experimental. A própria letra confirma a
personalidade da canção: "Todo Nó Da Atitude". Era o que prevalecia na
música, atitude. A faixa de número oito, "Sinfonia Em Ré" nos traz mais o
retrato alucinógeno pretendido pela cena musical do período, que se ins-
pirava no uso de psicoativos para obter impulsos criativos.
A penúltima faixa, "Não Tenho Imaginação Para Mudar De Mulher",
para além da melodia, possui uma letra ácida e crítica ao mesmo tempo
em que é triste e bucólica. Falando do "desbunde" e da vida a dois, de par-
tida e melancolia. E para encerrar, "Ode A Satwa", remete-nos a elementos
indianos enquanto flerta com a psicodelia e elementos da música Pernam-
bucana. Algo que talvez possa ser identificado como essencial para a
realização desse disco é a participação de outros artistas, amigos de Mar-
coni Notaro. As filhas relatam que o pai era sempre cercado de amigos.

[...] era muito músico na minha casa. Era Lula Cortês, era Zé Ramalho, era
Alceu Valença. Era muita gente na minha casa o tempo todo. Era noite virando
dia, dia virando noite e às vezes ele sumia, às vezes ele voltava. [...] meu pai
só vivia com violão embaixo do braço. Cem por cento embaixo do braço, dia
noite, dia noite, entrava gente com violão, entrava gente com todo tipo de ins-
trumento, mas ele sempre com violão. Ele tocava muito bem, ele fazia música
e letra, então toda a lembrança que eu tenho é essa, dele na mesa do bar ou
ele na beira praia conversando com os amigos e tocando.

O compartilhamento de espaços e vivências com outros músicos ga-


rantiu que a experimentação característica de "No Sub Reino Dos
Metazoários" desse certo. As parcerias com Lula Côrtes (outro expoente
da cena Udigrudi) e Zé Ramalho foram responsáveis pela introdução de
instrumentos e sonoridades pouco usuais na região e até no Brasil. A pró-
pria capa do álbum foi fruto da parceria com Lula Cortês, que fez a
ilustração (OLIVEIRA, 2011). Apesar da crítica negativa que o álbum rece-
beu, talvez seja possível atestar através das letras como de antropológica
"um primata só pirata sem pretensão nesse mundo" (OLIVEIRA, 2011), de
Carlos Eduardo da Silva Pereira | 157

que a intenção não era corresponder às expectativas do mercado artístico.


O estilo e o modo de vida alternativos do Underground não estavam vin-
culados aos mesmos interesses comerciais da maioria dos artistas e da
crítica musical. Portanto, é de se supor que, apesar das críticas, o álbum
foi bem recebido entre a cena do Udigrudi, já que antes e a partir dele uma
série de outros álbuns de outros músicos vinha explorando uma musicali-
dade nessa linha (OLIVEIRA, 2011).
Além da música, Marconi também foi compositor, escreveu poesias
e, de forma independente, escreveu diversos poemas. Os poemas do exí-
lio9, distribuídos em três volumes trazem reflexões sobre o amor, sobre a
vida e críticas políticas – "Será um grande líder aquele que preservar a
unidade de um povo sem o apelo da força a humilhá-lo, mas com toda a
força da humildade". Esse pequeno poema marca o Vol. 2 dos poemas do
exílio, com caráter crítico, o autor fala sobre a liderança e a coerção. E o
poema "Meu Escritório"10 marca a presença da vida alternativa e indepen-
dente da produção do artista em contraponto com as necessidades
artísticas comerciais.

NO SUB-REINO DOS METAZOÁRIOS: A Obra, a Vivência Enquanto


Artista, os Processos Criativos, os Contrastes e a Relação com a Vida
Nacional e Regional

Da vida dionisíaca de Marconi Notaro na pernambucália, os rumores são de


que o artista morava em comunidade numa granja chamada "Sítio Ação", no
Sítio Camaragibe, onde também efetuou encontros dionisíacos com o pessoal
udigrudi, sempre interessados no rumo das artes, teatros, filmes, discos e li-
vros. As evidências indicam que o artista possuía uma grande preocupação em
"ser artista" e pesquisador. Lula Côrtes, certa vez mencionou que Marconi No-
taro se dedicou durante um bom tempo à pesquisa do acervo de discos lançado
pela Fábrica de Discos Rozenblit Ltda. Só a título de esclarecimento, a relação
do artista marginalizado Marconi Notaro, com a censura estética da época,
também se mostrou um tanto conflituosa - são raras as exceções, na época.

9
Disponível no acervo online do artista.
10
Poemas disponíveis no acervo online do artista.
158 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

Pois, no ano de 1972, já havia passado um ano obrigado pela censura a não
fazer shows, por conta da época do TPN - Teatro Popular do Nordeste -,
quando cantava fumegantes músicas de protesto, antes do Parto de Música
Livre, a exemplo de "Macaco Pticantropos Erectus". Nas palavras de Marco
Polo, essa foi a "canção que levara o público ao quebra-quebra de uma boate
em João Pessoa. Entusiasmado com o sucesso do Parto, resolveu promover
outro festival. Foi o Concerto Chaminé em Olinda (LUNA, 2010; apud
OLIVEIRA, 2011, p. 51)

Apesar da produção caótica, livre e experimental de Marconi Notaro,


outra face se apresenta do artista. O historiador João Carlos de Oliveira
Luna nos apresenta, através de um excerto de jornal, um caráter de pes-
quisador do artista. A construção musical de Marconi Notaro ia além da
própria e imediata experimentação, passando por um processo de pes-
quisa musical. Como nos revela também o excerto, Marconi teve uma
relação de embate com a censura da época, o que ao invés de fazer com
que ele recuasse de alguma forma, fez o artista se mostrar mais combativo
e presente, chegando a organizar um festival.
O artista estava conectado com os acontecimentos e a conjuntura na-
cional e era presença ativa em diferentes espaços da cidade de Recife. No
depoimento das filhas, elas afirmam que o artista estava sempre transi-
tando em diferentes espaços. Essa relação com o território, com a cidade e
os diferentes locais é parte constituidora do movimento do Udigrudi, as-
sim como de outras cenas musicais. "Na música, a 'globalização'
transforma a cidade em um grande centro lúdico para os jovens criarem
seus primeiros passos de produção artística" (LUNA, 2010, p. 49). A junção
de jovens em torno de espaços de convivência é percebida quando obser-
vamos as cenas musicais e artísticas. O depoimento das filhas de Marconi
evidencia a presença do artista nesses espaços.

[...] logo depois do lançamento do disco nos anos 70, ele, papai produziu uns
cordéis e eles foram vender (risos) na ponte de ferro do centro da cidade, no
centro da cidade é no centro de Recife, e que era uma doideira (risos), todos
os malucos da década de 70 estavam lá, todos criando, todos felizes e que era
muito, muito massa, eram criações, na hora assim, pum. A pessoa chegava,
Carlos Eduardo da Silva Pereira | 159

contava uma história e tal, e aí ele criava o cordel, ele fazia ilustração, ele fazia
tudo, tudo, tudo e vendia o cordel. [...] Não que necessitassem, mas é porque
eles eram "malucos beleza" e que viviam de arte mesmo, e eram felizes e muito
felizes (risos). Minha mãe inclusive disse que nessa época o vestido dela era
feito de tampinhas de garrafa. Detalhe: tampinhas de garrafa das cervejas que
meu pai bebia (risos), meu deus, que massa (risos).

Os músicos do Udigrudi, como a banda Ave Sangria, por exemplo,


colocam constantemente em suas músicas referências às suas relações
com a cidade (LUNA, 2010), o que também é percebido na obra de Mar-
coni. A arte desse grupo, portanto, marcadamente situava sua identidade
quase que como uma metamorfose, entre os aspectos regionais e até tra-
dicionais (valorizando-os) e o novo, que vinha como uma influência
externa. Essa era prática de constituição da identidade a partir da música
(MELO; VILELA, 2018), em contraponto a uma unidade tentada a partir
do reacionarismo e do autoritarismo, se usava o novo, o experimental,
aquilo que vinha da nova experiência, para valorizar o que era diferente, o
que era singular.

Nestes anos, esteve presente na cultura uma tentativa de estabelecer formas


para composição das músicas e escolhas específicas de temáticas das canções
que pudessem expor uma musicalidade autenticamente brasileira, num sis-
tema valorativo de orientação estético-político experimental, "que encontra na
música expressão privilegiada" e que, "atravessa os anos 1970, marcados pelas
censura e pelas lutas democráticas" (LUNA, 2010, p. 72).

A criação de espaços de convivência também era uma marca desse


período. A vida comunitária ou em comunidade era uma peça importante
na contracultura (PEREIRA, 2016). Marconi também foi responsável pela
criação de um espaço desse tipo. O sítio "Super Ação" era um local onde
ele convivia com outras pessoas da cena do Udigrudi conforme foi relatado
no depoimento de sua filha Eleonora. No entanto, de acordo com ela, as
autoridades da época suspeitaram de que o sítio estivesse sendo utilizado
pela luta armada, então Marconi foi preso e torturado com choques
elétricos, sendo liberado um tempo depois. No entanto, a filha afirma que
a família não possui muitos registros do episódio.
160 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

"Desmantelado": Algumas Considerações Finais

O Brasil, nas suas mais diversas regiões, experimentou entre o final


de 1960 e a década de 1970 um processo repleto de ambiguidades: a con-
juntura nacional e regional era marcada pela censura e pela repressão da
ditadura civil-militar ao mesmo tempo em que uma série de movimentos
estéticos e artísticos repletos de contestação, crítica e anseio por liberdades
(políticas, culturais e de expressão) florescia desde os grandes centros cul-
turais e artísticos (como Rio de Janeiro e São Paulo) até em locais mais
afastados dessas espécies de "metrópoles culturais" (LUNA, 2010). É nesse
contexto que o Udigrudi aparece, sendo influenciado pela contracultura e
pela antropofagia artística. E é também nesse contexto que vemos a figura
de Marconi Notaro.
Olhar para a vida de Marconi Notaro nos faz refletir também sobre
os artistas que atuam na contracultura e no underground atualmente. Vi-
vemos um momento de escalada do autoritarismo e do reacionarismo,
mas as ondas de experimentação também seguem correndo a plenos pul-
mões, entre artistas politizados que se expressam criticamente em um
cenário musical também "marginal", às margens. Em um cenário musical
que também sofre suas censuras11. Algumas notícias reverberam entre
grupos de amigos, de músicos e de fãs das mais diferentes expressões mu-
sicais, essas notícias muitas vezes parecem provenientes de um passado já
superado, como o show em tributo ao músico Pernambucano Chico Sci-
ence, que foi interrompido pela polícia12.
A arte é talvez o último refúgio da juventude, que busca a crítica de
uma maneira que possa identificá-la de forma mais coerente com a sua
realidade. No entanto, a censura segue, já há algum tempo, atingindo

11
BRÊDA, Lucas. Sergio Moro pede inquérito contra punks de Belém por cartazes anti-Bolsonaro. Folha de S. Paulo,
[s. l.], 27 fev. 2020. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2020/02/sergio-moro-pede-inque-
rito-contra-punks-de-belem-por-cartazes-anti-bolsonaro.shtml>. Acesso em: jul. 2020.
12
GAMA, Aliny. MP investiga censura da PM em músicas de Chico Science no Carnaval. UOL, Maceió, 3 mar. 2020.
Disponível em: <https://www.uol.com.br/carnaval/2020/noticias/redacao/2020/03/03/mp-investiga-censura-da-
pm-em-musicas-de-chico-science-no-carnaval.htm?cmpid=copiaecola>. Acesso em: jul. 2020.
Carlos Eduardo da Silva Pereira | 161

diferentes expressões e espaços de arte. Como não lembrar do Queer


Museu?13 Como esquecer da exposição sobre arte indígena atacada?14 E o
evento de cinema que teve artistas sendo atacados com pedras de gelo?15
Além disso, o espaço para o significado de uma arte que conecte o
público com uma imagem mais realista e representativa do povo brasileiro
também parece ser um problema que enfrentamos hoje. A estreia cance-
lada do filme de Marighella, filmes e séries de temática LGTB tendo
orçamento e apoio cancelados, entre outros ataques16. É isso que as diver-
sas expressões de arte no Brasil precisam enfrentar no momento.
Portanto, lembrar do Udigrudi, da figura de Marconi Notaro e da re-
lação íntima de todo essa conjuntura com a obra desse artista é importante
no momento em que vivemos. A transgressão de transformar mazelas em
beleza, ou ainda, de tornar palpáveis sentimentos que pertencem a reali-
dades que constituem identidades variadas em um Brasil grande e diverso
é uma das principais funções da arte, principalmente frente ao tempo em
que vivemos.

Referências

ALBERTI, Verena. O fascínio do vivido, ou o que atrai na história oral. Rio de Janeiro:
CPDOC, 2003. Disponível em: <https://bibliotecadigital.fgv.br/dspace/
bitstream/handle/10438/6697/1394.pdf>. Acesso em 16 de jul. de 2020.

BARROS, Myriam Moraes Lins de. Memória e família. Revista Estudos Históricos, [s. l.], v.
2, n. 3, 1989. Disponível em: <http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/reh/ar-
ticle/view/2277>. Acesso em: 17 de jul. 2020.

13
MENDONÇA, Heloísa. Queermuseu: O dia em que a intolerância pegou uma exposição para Cristo. El País, São
Paulo, 13 sep. 2017. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/brasil/2017/09/11/poli-
tica/1505164425_555164.html>. Acesso em: jul. 2020.
14
Ataque racista em exposição de arte indígena: "Lamentável e triste", desabafa artista. Esquerda Diário, [s. l.], 24
jul. 2019. Disponível em: <https://www.esquerdadiario.com.br/Ataque-racista-em-exposicao-de-arte-indigena-La-
mentavel-e-triste-desabafa-artista>. Acesso em: jul. 2020.
15
Festival de Gramado emite nota de repúdio após artistas serem atacados com pedras de gelo. O Globo, Rio de
Janeiro, 26 ago. 2019. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/cultura/filmes/festival-de-gramado-emite-nota-
de-repudio-apos-artistas-serem-atacados-com-pedras-de-gelo-23904327>. Acesso em: jul. 2020.
16
6 vezes em que o governo Bolsonaro atacou o cinema e o audiovisual. Carta Capital, [s. l.], 3 nov. 2019. Disponível
em: <https://www.cartacapital.com.br/cultura/6-vezes-em-que-o-governo-bolsonaro-atacou-o-cinema-e-o-audio-
visual/>. Acesso em: jul. 2020.
162 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

JEZZINI, Jhanainna Silva Pereira. Antropofagia e Tropicalismo: identidade cultural?. Visu-


alidades, Goiânia, v. 8, n. 2, abr. 2012. Disponível em: <https://www.revistas.
ufg.br/VISUAL/article/view/18275>. Acesso em 26 de jul. de 2020.

KAMINSKI, Leon. MUNDO AFORA, BRASIL ADENTRO: a circulação cultural da contracul-


tura e suas apropriações. In.: KAMINSKI, Leon (org.). Contracultura no Brasil, anos
70: circulação, espaços e sociabilidades. Curitiba: CRV, 2019, p. 19-41.

LUNA, Carlos de Oliveiral. O Udigrudi da pernambucália: história e música do Recife (1968-


1976). 2010. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação em História, Uni-
versidade Federal de Pernambuco, Recife, 2010. Disponível em:
<https://repositorio.ufpe.br/handle/123456789/7850>. Acesso em: 16 jul. 2020.

MELO, Bruno de Andrade Lima; VILELA, Pedro Teixeira. Das Paredes da Pedra Encantada
à Cidade Grande1: Uma Análise Socioespacial da Cena Udigrudi no Recife (1972-
1975). Revista de Geografia, Recife, v. 35, n. 1, 2018. Disponível em: <http://www.re-
vista.ufpe.br/revistageografia>. Acesso em: 16 jul. 2020.

OLIVEIRA, Guilherme Menezes Cobelo e. Pelo Vale de Cristal: Udigrudi e contracultura em


Recife (1972-1976). 2011. Monografia (Graduação em História) - Instituto de Ciências
Humana, Universidade de Brasília, [S. l.], 2011. Disponível em:
<https://bdm.unb.br/bitstream/10483/2089/1/2011_GuilhermeMenezesCobeloe-
Oliveira.pdf>. Acesso em: 15 jul. 2020.

PEREIRA, Carolina Morgado. Os jovens e a contracultura brasileira. IARA – Revista de


Moda, Cultura e Arte, São Paulo, v. 8, n. 2, jan. 2016. Disponível em:
<http://www1.sp.senac.br/hotsites/blogs/revistaiara/wpcontent/uplo-
ads/2016/03/61_Iara_artigo_revisado.pdf>. Acesso em: 7 jul. 2020.

Fontes e acervo

Marconi Notaro [Perfil]. [s. l.]. Instagram: Marconi Notaro. Disponível em:
<https://www.instagram.com/marconinotaro/>. Acessado em: jul. 2020.

MARCONI NOTARO NO SUB REINO DOS METAZOÁRIOS. Marconi Notaro. Recife: Rozen-
blit, 1973. 1 vídeo (33 min). Disponível em: <https://www.youtube.com/
watch?v=XjfZ20tjsPo&t=895s>. Acesso em: 24 jul. 2020.
8

Humor gráfico e movimentos sociais:


as greves e protestos através de charges
políticas da Folha de S. Paulo (1979-1984)

Fábio Donato Ferreira 1

Introdução

O período de reabertura política no Brasil foi marcado por uma


grande quantidade de protestos que mostravam a insatisfação popular
com o governo e algumas mudanças que estavam por vir. Nesse sentido,
as greves no ABC paulista deram início a uma série de reivindicações po-
pulares que, mesmo com o gradual fim da ditadura civil-militar, tinham
grande repressão aos manifestantes. Felizmente, então, a imprensa brasi-
leira teve um grande papel ao cobrir os movimentos.
Para esta pesquisa foram utilizadas charges retiradas do acervo digi-
tal da Folha de São Paulo, jornal conhecido nacionalmente por fazer parte
da chamada “grande imprensa”, que, aliás, mesmo não chegando a todos
os estados do país, atacava o governo antes do Golpe Militar de 1964. No
período da ditadura civil-militar, grandes nomes da imprensa brasileira
acabavam por apoiar o governo, o que, entretanto, não se seguiu por muito
tempo, visto que principalmente após a implementação do AI-52, a Lei de

1
Doutorando no Programa de Pós-Graduação em História da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
Bolsista CAPES.
2
Ato Institucional Nº5, implementado em 13 de dezembro de 1968, dava poder sem exceção aos governantes para
punir quem fosse considerado “inimigo” da nação.
164 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

Segurança Nacional (LSN) acabaria tomando conta da situação e da cen-


sura antes institucionalizadas (KUSHNIR, 2012). A LSN, assim, trabalhava
com a ideia do “inimigo interno” e, para que a repressão continuasse atra-
vés do medo que conquistava o imaginário popular, era de interesse do
governo que as lutas revolucionárias e as contestações ao poder continu-
assem sob o perigo psicológico característicos de tal momento histórico.
Jornais como a Folha de S. Paulo, então, tiveram membros do go-
verno que serviam como censores em suas redações. Nesse sentido, o
jornal sofreu com ameaças da censura prévia e até da autocensura, que
limitavam a vida de qualquer jornalista, escritor e ilustrador. Os descon-
tentamentos e as críticas ao governo militar, portanto, já apareciam nas
charges políticas há alguns anos e o riso, assim, sempre fez parte das mí-
dias ditatoriais.
Para estudar o humor gráfico dentro de um período de repressão,
consequentemente, é necessário entender um pouco sobre como o cômico
age na sociedade e no indivíduo. É evidente, logo, que não mudamos de
humor na mesma rápida velocidade em que mudamos de ideias e pensa-
mentos; sofremos, pois, processos diferentes e dissociados dentro de nosso
cérebro. O pensamento, assim, quando abandona a emoção, projeta o riso
e permite que ele seja compartilhado com o outro ou com o grupo, como
defende o filósofo francês Henri Bergson3.
Para Bergson (1993), nesse sentido, é possível rir de diversos assun-
tos da sociedade, desde uma piada até de um atentado com vítimas: o que
se necessita é apenas dos mecanismos corretos para que esse riso apareça.
Nossas modalidades expressivas, pois, são diversas, já que somos a única
espécie que ri no planeta. Este diferencial, por isso, merece ser estudado e
compreendido.
O cômico, então, poderia surgir em períodos de grande repressão
como uma forma de crítica às autoridades, ou seja, muito além do riso, a
comicidade surgiria para que a mensagem fosse facilmente digerida pela
população, que espera da charge algo engraçado. Desse modo, os relatos

3
Filósofo e diplomata francês, conhecido por seus ensaios sobre comportamento e memória.
Fábio Donato Ferreira | 165

de desaparecidos no período ditatorial de nosso país são inúmeros, assim


como as charges que brincam com esses acontecimentos fazendo o leitor
pensar sobre o problema. A crítica social que vem através do riso, como
pode-se observar, contém uma mensagem implícita de opinião sobre o re-
gime ditatorial.

As Greves

Com a censura e o AI-5 em vigor, as greves contra o governo eram


proibidas. Ainda que elas continuassem ocorrendo com forte repressão4,
sempre houve militantes para enfrentar os militares. Nesse período, sin-
dicatos que eram fechados durante os anos de chumbo da ditadura civil-
militar voltavam com força e movimentavam trabalhadores de diversos
setores. A greve, portanto, deixou de ser apenas de operários metalúrgicos,
ainda que fossem o maior grupo desse movimento.
Entretanto, com os diversos problemas que a violência repressora e
a política liberal acarretaram ao país, em 1978 houve as primeiras greves
do ABC paulista, que foram, possivelmente, o estopim para diversas greves
em todo país que, ademais, fizeram-se presentes até o fim do regime dita-
torial.
Entre muitas mudanças sociais influenciadas pelo movimento sindi-
cal, consequentemente, são preponderantes os movimentos contra o
racismo no ano de 1978. Além do mais, “uma análise de reivindicações
dessas greves, de seus resultados e da reação do governo leva à conclusão
de que os grevistas pretendiam, sobretudo, elevar seus níveis salariais”
(ALVES, 2005, p. 252). É nesse sentido que a linguagem marxista era uti-
lizada com frequência nos manifestos políticos, com o jargão raça e classe.
A crítica dos movimentos, portanto, era sobre as práticas coletivas e as
representações sociais dos próprios setores mais progressistas do país,
como bem aqui observado:

4
A cassação dos direitos políticos e a instauração de inquéritos policiais militares contra os principais dirigentes
sindicais cassados criaram, para os que conseguiram escapar à prisão imediata, a alternativa da clandestinidade ou
do exílio (BADARÓ, 2008)
166 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

Realizado nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo, em 1978, o ato do


Movimento Unificado Contra a Discriminação Racial (MUCDR) representou a
forma de protesto social que o movimento negro no Brasil assumiria dora-
vante, tomando os espaços públicos abertos como palco privilegiado de
manifestações (RIOS, 2011, p.42).

Consequentemente, uma nova onda grevista surge nos anos seguin-


tes: outras categorias, além dos metalúrgicos, como funcionários públicos,
jornalistas e professores, aderiram às greves (GASPARI, 2016).
Figura 1 – Professor

Fonte: Folha de S. Paulo, São Paulo, n. 18.270, p.2, 10 abr. 1979.


Acervo: Folha de S. Paulo.

Com as greves, a classe trabalhadora redescobre seu poder. Os pro-


fessores queriam não apenas ajuste dos seus salários, mas também ir
contra medidas que aumentavam sua carga horária semanal. Angeli, por
sua vez, representa um professor em frente aos alunos escrevendo à lousa.
Ele escreve em letras garrafais a palavra "greve", anunciando que iria ade-
rir ao movimento que se ampliava pelo país. Um personagem pergunta se
"é para copiar" a frase que, além de remeter à comicidade do jargão que
Fábio Donato Ferreira | 167

todo docente já ouviu de seus alunos, também dá a impressão de multipli-


cação do ato da greve.
Angeli, como pode-se observar, é um artista que sempre esteve en-
volvido com os movimentos sindicais. Nascido no bairro Casa Verde, em
São Paulo, cresceu vendo levantes contra o governo e as péssimas admi-
nistrações tanto municipais quanto nacionais. O artista, influenciado pelo
Pasquim5, contribuiu por mais de 40 anos para a Folha de S. Paulo, mídia
em que algumas de suas charges chegaram a ser censuradas, como a que
comemora a morte do ditador espanhol Francisco Franco.
Figura 2 – Não Existe

Fonte: Folha de S. Paulo, São Paulo, n. 18.279, p.2, 19 abr. 1979.


Acervo: Folha de S. Paulo.

A charge (Figura 2) acompanha uma reportagem com o então presi-


dente João Baptista Figueiredo. A representação do presidente nega em
seu balão de fala a existência de greves, assim como alguns veículos de

5
Semanário alternativo brasileiro que foi publicado de 1969 até 1991. Foi importante no cenário de contracultura e
um opositor ferrenho da ditadura civil-militar.
168 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

comunicação também ignoravam os movimentos no princípio, devido não


somente à censura que ainda existia mas também aos interesses de cada
meio de comunicação. A charge de Angeli, portanto, critica essa negação,
colocando o presidente de costas para a janela que mostra que o movi-
mento é massivo.
Podemos notar, além do mais, que a ilustração não utiliza apenas tra-
ços à mão, tal como as charges habituais. Ela faz uma colagem com uma
foto dos movimentos sociais, que aparece recortada na janela. A charge,
tal como pode ser observado, não dá créditos ao autor da foto, apenas
acompanha um breve texto que retrata o poder das greves e a dimensão
que isso está tomando pelo país, encurralando o governo. O mais notável,
além dos balões, é a figura do repórter que aparece junto à representação
do presidente da república. Esse jornalista é, pois, o povo brasileiro, que
procura saber o que se passa dentro da alta cúpula da política brasileira,
sem poder fazer nada além do seu papel de divulgação. Ademais, é visível
que ele é representado de forma diminuta em comparação à imagem do
político. Esse personagem, logo, remete-nos ao Zé-Povinho, de Rafael Bor-
dalo Pinheiro. Nesse viés, o Doutor em história Rômulo Brito, em sua tese
Um Traço Sobre o Atlântico: O Brasil na Obra Caricatural de Rafael Bor-
dalo Pinheiro (1879-1905), apresenta em sua pesquisa o personagem Zé-
Povinho, da revista O Mosquito, que faz sátiras personificando a sociedade.
O personagem, assim, tem vestes simples, quase sempre é passado para
trás e sofre perante a corrupção e a injustiça, o que, logo, vai ao encontro
do que propôs Brito:

O ponto fundamental desta construção é que, no papel do cidadão brasileiro,


está o personagem criado em Portugal. O Zé-Povinho aparece, portanto, como
um símbolo amplo do povo brasileiro, do qual os políticos, na figura dos Mi-
nistros, acabam tirando vantagem (BRITO, 2017, p. 163).
Fábio Donato Ferreira | 169

Temos então, na seguinte charge, o povo personificado, sempre com


expressões de espanto frente às solicitações que os políticos fazem. As au-
toridades, tal como observa-se, são representadas ou explorando o povo
ou não lhe dando a devida importância.
Figura 3 – Prisão

Fonte: Folha de S. Paulo, São Paulo, n. 18.296, p.2, 07 mai. 1979.


Acervo: Folha de S. Paulo.

Mesmo retratado como um personagem muito menor que seu inter-


rogador (Figura 3), e dentro de um cenário escuro que remete aos porões
do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), o personagem ainda
fala o motivo da greve e, mais ao fundo, a multidão expõe problemas do
país no final de ditadura civil-militar.
170 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

Figura 4 – Feijão

Fonte: Folha de S. Paulo, São Paulo, n. 18.428, p.2, 16 set. 1979.


Acervo: Folha de S. Paulo.

O Movimento Contra a Carestia6, ademais, é o tema alvo da charge


de Angeli. Nela vemos as famosas faixas do movimento com o pedido de
comida e em um jogo verbal no qual palavra feijão acaba sendo utilizada
como uma analogia à própria Anistia, já que podemos ler “Feijão amplo e
irrestrito” e “O feijão é nosso” em cartazes dos manifestantes. Desse modo,
a palavra é utilizada também como uma crítica à repressão do Estado, tal
como quando se pode ler “Mais feijão, menos repressão”. Essas frases, con-
sequentemente, embora façam parte da charge, não são a piada principal
para o leitor, essa seria, neste caso, os agentes governamentais, retratados,
como em outras charges, perguntando ao seu superior se feijão é uma sigla
comunista. A leitura de cada um dos cartazes, logo, não é essencial para o
entendimento geral da charge, mas faz com que Angeli consiga expressar,

6
Movimento comunitário formado por sindicatos, mulheres e mães, contra a tortura e por melhores condições de
vida.
Fábio Donato Ferreira | 171

através da arte, mensagens que transpõem seu sentido para além da ane-
dota principal.

Diretas Já!

O movimento político iniciado em maio de 1983 mobilizou muitas


pessoas por todo território nacional e, inclusive, partidos políticos de opo-
sição, representantes civis, escritores renomados, músicos populares e
atores de televisão e teatro. É evidente, assim, o fato de que os chargistas
estavam envolvidos no movimento desde seu início, visto que até mesmo
o bordão “Diretas Já!” tem inspiração em uma charge7 do Henfil, no qual
ele desenha o político Teotônio Vilela8 clamando por diretas já, tal como
este excerto elucida:

O Teotônio nunca disse Diretas Já. Eu fiz uma entrevista com ele para O Pas-
quim. Quando terminou a entrevista eu não tinha uma frase de efeito dele. E
a gente tem que terminar com uma. Então eu criei essa: “e aí, Teotônio, diretas
quando?” “Diretas já!” (HENFIL, 2009).

A proposta de Emenda Dante de Oliveira, apresentada pelo Deputado


Dante de Oliveira em 1983, pedia por eleições diretas para presidente da
República. A votação ocorreria em abril do ano seguinte, e o apoio popular
foi gigantesco. O general João Figueiredo se afasta ao máximo do processo,
pois não era de interesse do governo que a eleição direta ocorresse ainda
em 1985, mas sim que o colégio eleitoral escolhesse o novo presidente civil
indiretamente.
Ao início desse processo, a Rede Globo, maior canal de televisão do
país, com, logo, maior abrangência nacional, não cobriu o comício das Di-
retas Já. Desse modo, importantes episódios deste momento histórico
ficaram sem tal visibilidade e, além do mais, grandes comícios, como o da

7
Disponível em: <http://zonacurva.com.br/wp-content/uploads/2014/02/16-de-abril-teotonio-vilela-henfil-foto-
4.jpg> Acesso em: 9 jul 2020.
8
Teotônio Brandão Vilela (1917-1983) foi um empresário e político brasileiro, além de um forte opositor ao governo
militar, principalmente ao partido de situação ARENA.
172 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

Sé, foram anunciados pelo título de aniversário de 430 anos da cidade de


São Paulo. No Jornal Nacional, o movimento até teve um breve momento
midiático, no dia 25 de janeiro de 1984; sua relevância, entretanto, foi bai-
xíssima (GASPARI, 2016).
Os periódicos, por outro lado, felizmente cobriram as passeatas e os
protestos das Diretas. Neles foram publicadas entrevistas, colunas de opi-
nião, fotografias, fotorreportagens e charges de toda a movimentação
popular que ocorria nas ruas de todos os estados do país. Nesse sentido,
então, como pode-se observar no trecho a seguir, houve grande polariza-
ção midiática.

Restringindo-se à grande imprensa diária e aos jornais de maior circulação do


eixo Rio-São Paulo (Folha de São Paulo, OESP, Jornal da Tarde, O Globo, Jornal
do Brasil), o senso comum costuma estabelecer, dentre eles, como o bastião
do conservadorismo político e, além disso, como o defensor dos chamados ide-
ais do movimento de 1964, de que foi conspirador confesso, o jornal OESP. Já
em relação à luta pelo restabelecimento das liberdades democráticas, particu-
larmente, pela volta das eleições diretas para Presidência da República, com o
movimento das “Diretas-já”, entre o fim de 1983 e o início de 1984, o senso
comum julgou a Folha de S. Paulo como um dos baluartes da defesa de uma
sociedade mais justa e democrática (AQUINO, 1999, p.29-30).

Além disso, em se tratando dos participantes deste movimento, mui-


tos líderes e membros de grupos estudantis que participaram acabaram
por se tornarem reconhecidos políticos. Leonel Brizola, que até então apoi-
ava a permanência de Figueiredo na presidência por mais um tempo, para,
assim, haver eleições diretas, embarcou na proposta. Tancredo Neves e
Ulysses Guimarães, que eram mais moderados, também aderiram. Luiz
Inácio Lula da Silva e outras lideranças sindicais, ademais, participaram
dos comícios e falaram ao lado de grandes nomes da MPB, como Chico
Buarque e Martinho da Vila.
Fábio Donato Ferreira | 173

Figura 5 - Telecomunicação

Fonte: Folha de S. Paulo, São Paulo, n. 20.110, p.2, 24 abr. 1984.


Acervo: Folha de S. Paulo.

A respeito de charges encontradas sobre os participantes desse mo-


vimento, Fortuna9, desse modo, faz uma homenagem a Henfil,
desenhando o político Teotônio Vilela novamente com a frase “Diretas Já!”.
Dessa vez, o personagem sai de uma nuvem e grita diretamente para o
Congresso Nacional. Um policial, todavia, repreende-o e manda-o parar
com a “telecomunicação”. A insignificância do repreensor, consequente-
mente, é notável, uma vez que ele acredita poder censurar inclusive aquilo
que está além do poder representado por ele.

9
Jornalista e chargista brasileiro. Crítico ferrenho da ditadura civil-militar, ele teve uma compilação de seu trabalho
no livro "Hay Gobierno?" (1984).
174 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

Figura 6 – Parabéns

Fonte: Folha de S. Paulo, São Paulo, n. 20.087, p.2, 01 abr. 1984.


Acervo: Folha de S. Paulo.

Já nessa charge, Angeli comemora, de forma irônica, os 20 anos do


golpe militar no Brasil, retratando os políticos com suas famosas cartolas,
que representam a alta classe do país. A cantoria das felicitações, porém, é
interrompida pelo grito da população que pede por eleições diretas. Um
dos personagens políticos reclama que terão de começar a canção de co-
memoração novamente. Na leitura da charge, assim, o movimento de
Diretas Já! não interrompe apenas o parabéns como também os 20 anos
da ditadura civil-militar, o que explicita que, mesmo que exista quem
queira sua volta, o movimento é forte o suficiente para abalar as estruturas
do status quo político do país.
Com isso, a mobilização social pelas diretas continuava aumentando,
cada vez com mais público indo às ruas. Foi um movimento nunca visto
antes no país, ainda mais sob ditadura civil-militar, tal como observa-se a
seguir:
Fábio Donato Ferreira | 175

Em janeiro de 1984 os partidos de oposição, juntamente com as entidades da


sociedade civil representativas, tomaram uma posição de forte defesa de elei-
ções diretas para Presidente da República, rompendo a passividade com que
em outros períodos de sucessão haviam aceito as regras do jogo impostas pelos
grupos no poder (ALVES, 2005, p. 313).

Figura 7 – Onde Estão?

Fonte: Folha de S. Paulo, São Paulo, n. 20.112, p.2, 26 abr. 1984.


Acervo: Folha de S. Paulo.

O movimento Diretas Já!, então, levou milhares de pessoas às ruas.


O noticiário da charge que Angeli publica no jornal Folha de S. Paulo em
seu último quadro mostra-nos isso e ainda apresenta o ponto final que
amarra a piada ao general Figueiredo. Desse modo, ao perceber que está
sozinho em casa, o personagem cai em prantos, já que nem o apoio dos
criados tem, visto que os protestos convidavam a todos para essa nova
mudança.
A campanha foi um sucesso, ao menos em questões de público, e le-
vou milhares de pessoas para as ruas destinadas a pressionar o Congresso
Nacional para a aprovação da emenda constitucional que restituiria as elei-
ções diretas para presidente. A força popular de cada estado brasileiro,
assim, conseguiu realizar uma das maiores manifestações da história, o
176 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

que torna evidente que o peso político que esses movimentos tiveram pode
colocar em cheque qualquer governo (ALVES, 2005).
João Figueiredo, entretanto, não estava gostando da movimentação e
sempre tentava adiar as eleições diretas o máximo possível. Mesmo antes
de ser empossado, já sabia que seria o militar que terminaria o processo
de reabertura. Curiosamente, a vontade do ex-presidente infelizmente se
cumpriu, e tivemos as primeiras eleições diretas para presidente somente
no ano de 198910.
Figura 8 – Comício

Fonte: Folha de S. Paulo, São Paulo, n. 20.050, p.2, 24 fev. 1984.


Acervo: Folha de S. Paulo.

Já nessa charge, pode-se observar que o espaço destinado-lhe nessa


edição da Folha acaba virando uma republicação, que serve de comparação
para o que ocorreu nos protestos. A republicação, então, é da charge de
Fortuna publicada pouco mais de um mês antes e mostra que, mesmo com
chuvas, o movimento de Diretas continuaria reivindicando seus direitos.
A ilustração mostra o slogan dos comícios escrito em um guarda-chuva e,
ao lado, como pode-se ver, há uma fotografia enviada pelo jornalista Sérgio

10
Eleição presidencial que elegeu Fernando Collor de Mello com 46% dos votos válidos em todo território nacional.
Fábio Donato Ferreira | 177

Gomes à redação, seguida do comentário “A arte acompanha a vida”. Essa


charge, assim, evidencia o impacto que o humor gráfico tem na sociedade,
visto que todo o movimento das Diretas foi permeado de desenhos
políticos na grande e na pequena imprensa que serviram de inspiração
desde o início, com a charge de Henfil.
Figura 9 – Indiretas já

Fonte: Folha de S. Paulo, São Paulo, n. 20.003, p.2, 08 jan. 1984.


Acervo: Folha de S. Paulo.

Se tratando dessa charge, vê-se, portanto, que Tancredo Neves é o


candidato favorito do colégio eleitoral para a esperada transição democrá-
tica, não importando o resultado que esses movimentos por eleições
diretas para presidente tivessem. Angeli, pois, mostra-nos de maneira sim-
ples o contexto político sobre o futuro do país já no início de 1984.
Ademais, é importante observar Figueiredo — que pede por eleições indi-
retas e que o colégio eleitoral ainda faça sua escolha de presidente civil —,
a personagem de longa barba e cabelos compridos — representando a ala
progressista da população que pede por eleições diretas — e a figura de
Neves — que vem com os dizeres O que vier eu traço, mostrando que seu
futuro na presidência é algo certo. O país, todavia, acabou realizando uma
transição para a democracia bem diferente de outras ditaduras do Cone
178 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

Sul, cujos culpados foram julgados quando foram derrubadas. Com isso,
no melhor estilo brasileiro, tivemos coligações, acordos, novos cargos no
governo e diversas outras manobras de pequena escala que perpetuariam
os mesmos mandantes no poder, tal como este acerto explica:

Fundamentalmente, o processo de liberalização dos controles sociais e políti-


cos que foram negociados durante o período de distensão do Presidente Geisel
e de abertura do Presidente Figueiredo chegou em 1984 a um impasse. Está
cada vez mais claro que não existe no Brasil um processo de "transição para a
democracia" mas sim uma tentativa de institucionalização de estruturas de
Estado visando ampliar o apoio político e ao mesmo tempo manter o controle
básico de classe (ALVES, 2005, p.327).

Nesta charge de Claudius11, então, Tancredo aparece com uma ban-


deira muito maior do que a de seus competidores Luís Inácio Lula da Silva
e Leonel Brizola. Enquanto esses últimos pedem por eleições diretas, o fa-
vorito à sucessão presidencial mostra uma versão própria do slogan
“Diretas Já”, que seria “Eu já!”.
Figura 10 – Eu já!

Fonte: Folha de S. Paulo, São Paulo, n. 20.351, p.2, 21 dez. 1984.


Acervo: Folha de S. Paulo.

11
É um cartunista e humorista brasileiro formado em urbanismo pela Univrsità Degli Study Roma Tre.
Fábio Donato Ferreira | 179

É evidente, portanto, que os desdobramentos desse processo histó-


rico brasileiro precisam ser vistos sob a negociação e as medidas que os
próprios partidos que naquele momento eram contra o governo aceitaram
para que as eleições diretas surgissem anos depois. A sociedade, logo, pre-
cisava ser reorganizada para ser democrática de fato; o Estado, todavia,
em seus ciclos, acabava perpetuando o poder. Para isso, pois, precisamos
voltar à “corrida presidencial” e entender os acordos e os favoritismos à
sucessão governamental.

Conclusão

As charges políticas no Brasil colaboraram como forma de expressão


significativa para o que se denomina como o fim da ditadura civil-militar.
As críticas feitas ao governo, dessa forma, são de extrema importância e
mostram todos as nuances dessa reabertura, inclusive a censura que su-
postamente chegaria ao fim com o término do AI-5 e que, entretanto, com
a entrada da LSN, o arbítrio teve continuidade.
Os movimentos sociais, logo, também foram representados e expli-
cados através das ilustrações. Nesse sentido, também foi alvo de
representação e ilustração a posição dos governantes sobre os assuntos
que eram pautas de comícios, muitas vezes com alcances nacionais, em-
bora não surtisse o efeito esperado, como pode-se observar nos casos da
anistia e da emenda Dante de Oliveira das Diretas Já! — aquela, que, ade-
mais, não agradou a todos, sendo vista como um grande acordo.
As charges da grande imprensa, pois, continuam seguindo seu papel
de instigar o leitor com suas denúncias e de fazer rir da situação política e
atitudes de nossos governantes, com militares no poder ou não, com cen-
sura ou não.
180 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

Referências

ALVES, Maria Helena Moreira. Estado e oposição no Brasil: (1964-1985) 2.ed. Bauru:
Edusc, 2005.

AQUINO, Maria Aparecida. Censura, imprensa, Estado democrático (1968-1978). São


Paulo: EDUSC, 1999.

BERGSON, Henri. O riso: ensaio sobre o significado do cômico. 2.ed. Lisboa, Guimarães
Editores, 1993.

BRITO, Rômulo de Jesus Farias. Um Traço Sobre o Atlântico: O Brasil na Obra Caricatural
de Rafael Bordalo Pinheiro (1870-1905). PUCRS Porto Alegre. 2017. Tese (Doutorado
em História). Escola de Humanidades, Universidade, Pontifícia Universidade Cató-
lica do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2017.

GASPARI, Elio. A ditadura acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016.

KUSHNIR, Beatriz. Cães de Guarda: Jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988.


São Paulo: Boitempo, 2012.

RIOS, Flavia. O Protesto Negro no Brasil Contemporâneo (1978-2010), Lua Nova, São Paulo,
p. 315-324. Jan. 2012. Disponível em: <https://www.scielo.br/pdf/ln/n85/
a03n85.pdf>. Acesso em: 25 jul. 2020.

HENFIL. Diretas Já!. Rio de Janeiro: Record, 1984.

Fontes e acervo

Acervo Folha de S. Paulo. Disponível em: <https://acervo.folha.com.br> Acesso em: 25 jul.


2020.
9

Os reflexos da parceria entre o Brasil e a República


Popular da China na grande imprensa:
uma análise sobre a política externa do
Governo Geisel (1974-1979)

Pricila Niches Müller 1

A política externa dos governos militares, de 1964 a 1985, não foi, porém, cons-
tituída por um todo único. Paulatinamente, enquanto se fechava em termos
internos, o regime militar passou a defender a democratização das regras de
convivência internacional, a partir de uma visão nacionalista e da ideia de
construção de um Brasil grande potência. (LIGIÉRO, 2011, p.137)

Não eram – e não são – só os jornalistas que possuem uma agenda,


os políticos também a têm e isso reflete no conteúdo midiático, que por
vezes repassa ao leitor/ouvinte os planos que o presidente, por exemplo,
tem para os próximos dias ou semanas. Mas é importante ressaltar que
esta agenda é algo abstrato e quem a controla é quem detém a informação.
Nelson Traquina (2005) faz uma análise da teoria do agendamento e da
manipulação, mas não no sentido perverso de manipular o outro, e, sim,
de um detentor da informação que está ditando uma agenda. Em se tra-
tando de política, podemos dizer que nem sempre será o próprio jornalista
a ditar essa agenda, mas sim a sua fonte, o seu fornecedor de aconteci-
mentos a serem transformados em notícias.
Nessa perspectiva, pode-se dizer que o governo do presidente Gene-
ral Ernesto Geisel, ocorrido na década de 1970 – período em que o Estado

1
Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em História da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
Bolsista CNPq.
182 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

ainda fazia interferências diretas sobre o que era divulgado na imprensa,


devido à censura –, foi um governo que renovou a agenda de relações in-
ternacionais do Brasil, tornando-a mais abrangente. Geisel buscava uma
diversificação de parcerias, visando a uma maior independência política e
econômica (VIZENTINI, 2004). A ditadura civil-militar2 instaurada no
Brasil em 1964, em decorrência de um Golpe de Estado que também foi
denominado pelos militares de Revolução de 643, foi um movimento que
colocou o país sob um regime de exceção4. Esse fato ocorreu na noite do
dia 31 de março de 1964, comandado por militares, com extenso apoio de
civis. Obtiveram também apoio externo na consolidação do Golpe, que foi
imediatamente reconhecido pelos EUA, após mobilizar a Operação Brother
Sam (VIZENTINI, 2004)5. Ao iniciar o mês de abril do referido ano, já foi
promulgado o primeiro de uma série de Atos Institucionais que ocorreram
nos dez anos iniciais da ditadura, os quais fortaleciam e ampliavam o po-
der Executivo.

2
Conforme Tatyana de Amaral Maia (2013) “A partir de 2000, com a publicação do livro Ditadura militar, esquerdas
e sociedade, de Daniel Aarão Reis, as pesquisas tomaram um novo impulso e incorporaram às suas análises as com-
plexas relações estabelecidas entre civis e militares naqueles tortuosos anos. Nesta perspectiva, a ditadura não seria
exclusivamente militar, fruto da truculência e do autoritarismo gestados na caserna e impostos a toda a sociedade a
partir de 1964. Ao contrário, diversos setores da sociedade civil aplaudiram o golpe que derrubou o presidente João
Goulart; promoveram manifestações entusiásticas em favor da intervenção militar e ingressaram nas fileiras estatais
para propor projetos de desenvolvimento para a nação. É neste sentido que o artigo incorpora a perspectiva de que
se trata de um regime civil-militar. A ditadura, composta e legitimada também pela participação de civis, se guiou
por projetos gestados por estes antes mesmo do golpe de 1964. Durante o processo de redemocratização, iniciado em
1974, elaborou-se uma memória de resistência que apresenta os civis como defensores incontestes da democracia,
mas se silenciaram as relações de apoio, participação e legitimidade de vários setores da sociedade durante os 21 anos
do regime.” (p. 184-185). Caracterizou-se assim o caráter civil-militar do regime ditatorial, no qual, apesar da “última
palavra” ser do ditador ocupando o cargo de presidente, ele não governou sozinho o país, ao contrário do que propõe
Fico (2014) ao ressaltar que o golpe havia sido civil-militar, porém o governo teria caráter essencialmente militar.
3
Em entrevista fornecida pelo General Ernesto Geisel e publicada em livro pelo CPDOC na década de 1990, o ex-
presidente refere-se ao período ditatorial constantemente como sendo uma revolução em favor da democracia, que
estava sob perigo comunista. Essas informações podem ser melhor consultadas no capítulo nove da obra, no qual
constam informações acerca do Golpe realizado em 1964. D’ARAUJO, Maria Celina; CASTRO, Celso Corrêa Pinto de.
Ernesto Geisel. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1998.
4
O Estado de Exceção é conceituado como uma medida de cunho não habitual que possui poder normativo, perten-
cente ao Direito, ainda que venha a suspender o Poder Jurídico.
5
Sobre a presença dos EUA no país e a relação do Brasil com os Estados Unidos, é importante também citar as obras
de Moniz Bandeira sobre o assunto, entre elas: BANDEIRA, Moniz. A presença dos Estado Unidos no Brasil: dois
séculos de história, Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 1978. BANDEIRA, Moniz. Relações Brasil-EUA no con-
texto da globalização, II – Rivalidade Emergente, São Paulo, Ed. SENAC, 1999. Ver também: FICO, Carlos. O golpe de
1964: momentos decisivos. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora da FGV, 2014. / HIRST, Mônica. Os cinco “AS” das relações
Brasil-Estados Unidos: aliança, alinhamento, autonomia, ajustamento e afirmação. In: OLIVEIRA, Henrique Altemani
de; LESSA, Antônio Carlos. (Org.). Relações Internacionais do Brasil: temas e agendas, v.1, São Paulo: Saraiva, 2006.
Pricila Niches Müller | 183

Conforme Vizentini (2004), nesse cenário, não havia um programa


econômico de governo pré-estabelecido pelos militares para o pós golpe, a
saber, suas intenções eram manter a ordem e a paz social com o afasta-
mento do “perigo comunista”6 – o que era de interesse dos EUA também
–, e estimular o capitalismo privado para retomar o crescimento e comba-
ter a corrupção. O autor ainda assevera que houve civis que apoiaram o
golpe com o intuito de se aproveitar do poderio militar, almejando uma
posição de maior importância no cenário político brasileiro (VIZENTINI,
2004, p.25). Ampliando o debate, Rodrigo Patto Sá Motta (2002) identifica
que o anticomunismo no Brasil teve sua matriz calcada em três pilares:
liberalismo, catolicismo e nacionalismo. Violência de Estado foi o principal
modo utilizado para eliminar seus opositores (MOTTA; REIS; RIDENTI,
2014) de forma sistemática ou organizada, como forma de legitimar o po-
der e, naquele período, isso significava “combater os subversivos”. Já Fico
(2017) chama atenção para a seletividade dessa repressão conforme o im-
pacto que poderia ter na opinião pública ou por não terem dado relevância
para alguns setores. Os periódicos examinados mostraram isso, acompa-
nharam as movimentações antes, durante e depois da parceria ser
estabelecida, como foi possível identificar na relação entre Brasil e China.
Ao contextualizar esse período histórico brasileiro, Motta, Reis e
Ridenti (2014) salientam que o uso de força contra os opositores não trazia
em si o significado de ignorar seus interesses, mas uma nova ordem
modernizada autoritariamente que buscava resolver as reivindicações de
forma palatável. Na ótica das classes sociais, o autor destaca como
integrantes civis que apoiaram o golpe, membros do empresariado
nacional e multinacional, a grande imprensa, oligarquias rurais e até
mesmo setores da classe média e trabalhadora. Com o passar dos 21 anos
de repressão, os militares foram perdendo apoio civil e angariando cada

6
Em relação ao perigo comunista e ainda citando a entrevista fornecida pelo ex-presidente Geisel, ao ser questionado
sobre a ocorrência de o golpe ter sido uma estratégia adequada, Geisel responde que “Muitos estavam ali apenas por
serem contra o comunismo. Outros porque viam a nação se desintegrar e ir para um estado caótico. Era preciso por
um paradeiro nisso. Achávamos que este era o problema principal e que, depois de liquidado, a situação iria se re-
solver com um governo oriundo da revolução ou que obedecesse mais ou menos ao seu espírito.” (D’ARAÚJO e
CASTRO, 1998 p. 162).
184 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

vez mais opositores ao regime, que tentavam, na medida do possível,


desestruturar o governo.
Aliada ao uso da força, estava a censura, que se expressa, entre outras
formas, pela prática da repressão à imprensa. Apesar de não pertencer a
setores mais conservadores do regime civil-militar e não sincronizar suas
ações com os interesses de seus integrantes, conforme Soares (1995), no
momento de flexibilizar e demonstrar seu comprometimento com a de-
mocracia, Geisel ainda preferiu governar com os instrumentos do aparato
repressivo. Esta forma de afirmação de poder do Estado sobre as ações
civis, controlando informações que seriam compartilhadas com o grande
público, foi exercida de 1967 a 1978. Com o AI-5, em 1968, a repressão
atingiu seus maiores índices, vindo a reduzir somente no primeiro ano do
governo Geisel.

[...] a grande imprensa escrita evoluiu, apesar da censura prévia imposta pelos
militares, de um apoio entusiasmado à implantação do regime militar para
uma oposição liberal e moderada, porém, crescente ao regime militar. [...] mas
essa posição mais crítica ficou confinada a imprensa escrita, pois o governo
manteve durante todo o período mais duro do regime militar uma rígida cen-
sura, que se somava à autocensura e ao apoio espontâneo ao governo (caso da
TV Globo). Com a posse de Geisel, em 1974, [...] a grande imprensa ampliou
paulatinamente seus limites de liberdade e a capacidade de propor agenda de
debates e refletir a opinião pública. (AZEVEDO, 2006, p. 39)

O objeto de censura era tido como uma suposta ameaça ao Estado e


os órgãos de segurança agiam através da Divisão de Censura, ainda que
esta Divisão não exercesse a censura política e moral diretamente
(SOARES, 1995). Dessa forma, as informações aqui destacadas a respeito
da ditadura civil-militar são pertinentes para compreender a atuação dos
jornais no período estudado neste capítulo bem como o conteúdo das ma-
térias por eles publicadas. Este estudo aborda dois periódicos, o Jornal do
Brasil – RJ (JB) e O Estado de São Paulo – SP (OESP), pois são considerados
dois jornais de grande circulação no período e enquadram-se no conceito
Pricila Niches Müller | 185

de grande imprensa7. A análise está centrada nos dias que antecederam a


chegada de uma comitiva chinesa da RPC no Brasil em agosto de 1974
(evento que resultaria no estabelecimento de relações diplomáticas entre
os dois países) e especificamente no dia após o estabelecimento que movi-
mentou as páginas dos jornais pesquisados.

A Pragmática Visita Chinesa ao Brasil

Passada a primeira etapa de aproximação entre o Brasil e a China


comunista no início de 1974, os jornais reduziram o número de publica-
ções sobre o assunto, as quais voltaram a aparecer em maior
expressividade no mês de agosto de 1974. O teor das notícias publicadas e
reportagens realizadas diferiu nos dois periódicos. O JB seguiu a linha de
demonstrar os benefícios que esta parceria diplomática iria proporcionar.
Já o OESP, que havia demonstrado incerteza na sua narrativa, mesmo
quando publicava matérias que mostravam os pontos positivos das nego-
ciações que viriam a ocorrer, continuou com publicações neste teor,
salientando que a parceria não deveria ser vista como especial, mas apenas
um mercado a mais para a diplomacia brasileira8.
Outro aspecto das publicações do JB neste período que antecedeu a
visita dos chineses e que não encontramos no OESP, é a narrativa extre-
mamente descritiva sobre a China comunista9, em caráter de publicidade
acerca daqueles que lá viviam. De fato, havia muita propaganda de uma
companhia de viagens turísticas no JB, inclusive com reportagem no “ca-
derno b” do jornal, o que pode ter sido motivador para que o jornal
escrevesse sobre esses aspectos culturais na página de notícias nacionais,
utilizando de uma narrativa que aproximava a vida dos brasileiros com a

7
Sobre o conceito de grande imprensa ver: BARBOSA, Marialva. História Cultural da Imprensa: Brasil, 1900 – 2000.
Rio de Janeiro: Mauad X, 2007.
8
Esta postura do OESP assemelha-se ao que Geisel informou na entrevista publicada pelo CPDOC, a respeito dos
planos que tinha para a diplomacia brasileira no seu governo e que o seu foco real eram os países de primeiro mundo.
Sobre isso, ver: D’ARAUJO, Maria Celina; CASTRO, Celso Corrêa Pinto de. Ernesto Geisel. Rio de Janeiro: Editora
Fundação Getúlio Vargas, 1998. p. 338
9
Os grifos em negrito foram acrescentados para dar ênfase em aspectos que são importantes destacar no texto.
186 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

dos chineses da RPC e que instigava o leitor a querer saber mais sobre este
“outro planeta”10, como descreve o JB11. Nesta mesma notícia12 publicada
pelo JB, com informações baseadas em uma palestra sobre a missão chi-
nesa, proferida em Porto Alegre pelo Sr. Ernesto Popp, diretor da Indústria
de Tanino Tanac13, o jornal fez uma comparação entre as pessoas que eram
naturais do Rio de Janeiro e as de São Paulo, alegando que as primeiras se
pareciam com os habitantes de Cantão na China comunista e que os resi-
dentes de Pequim lembravam os paulistas. Para explicar o que estavam
querendo dizer, colocaram um trecho da fala do Sr. Popp, que havia dito
na palestra que “Os 7 milhões de Pequim são gente sisuda; os 6 milhões
de Cantão são mais falantes e brincalhões”14. Considerando ser esta uma
representação da opinião do jornal, podemos estender essas comparações
sobre a população para a imprensa e suas publicações, pois, de fato, JB e
OESP diferem nas suas abordagens sobre a diplomacia do Governo Geisel.
As referências ao comunismo também tiveram destaque nessa repor-
tagem, pois o jornal, em sua descrição sobre a recepção que tiveram os
brasileiros em abril, fez referência à multidão que agitava bandeiras ver-
melhas e também ao episódio em que o empresário havia sentado entre
dois oficiais com a estrela vermelha no quepe, com os quais não conseguia
se comunicar, restando apenas muitos brindes de vermute de soja durante
todo o tempo em que estiveram reunidos. E, como podemos observar no
trecho a seguir, a reportagem foi finalizada com mais uma descrição do Sr.
Popp, na qual a China está representada como sendo um outro planeta,
conforme subtítulo da reportagem.

10
Grifo meu. “Dirigente chinês zomba de Formosa em encontro com a missão brasileira”, Jornal do Brasil, 22 de
maio de 1974, p.11, 1º caderno.
11
Na sua narrativa, o jornal afirma que o hotel chinês em que os brasileiros se hospedaram, conforme informante,
assemelhava-se a um hotel do RJ chamado Glória, mas que o dos chineses era tão grande que possuía uma portaria
para cada andar do hotel.
12
“Dirigente chinês zomba de Formosa em encontro com a missão brasileira”, Jornal do Brasil, 22 de maio de 1974,
p.11, 1º caderno.
13
Indústria líder mundial na produção de cavacos de acácia negra e extratos vegetais, funciona em Montenegro no
RS desde 1948. Fonte: (http://www.tanac.com.br), acesso em: 21/02/2019.
14
“Dirigente chinês zomba de Formosa em encontro com a missão brasileira”, Jornal do Brasil, 22 de maio de 1974,
p.11, 1º caderno.
Pricila Niches Müller | 187

A China escolheu sua única opção para não sofrer a fome e a miséria que
encontramos na Índia – continuou o empresário, lembrando os grandes mu-
rais de Marx, Lenin, Stalin, Trotsky e Mao, que estão nas ruas. “Perguntei
a um gerente de indústria se a produtividade era considerada para a fixação
dos salários. Ele me respondeu que não e que todos produzem o máximo de-
vido a sua consciência política. Não parecia que estávamos em outro país:
parecia outro planeta”.15

Dois dias depois desta reportagem, o JB noticiou uma publicação do


jornal Le Monde, assinada pelo correspondente do jornal francês no Brasil
naquele período, destacando as mudanças que já se apresentavam na di-
plomacia brasileira com o pragmatismo responsável evidenciando um
afastamento da “doutrina das fronteiras ideológicas” e que tabus estavam
sendo quebrados, entre eles o da imprensa poder falar abertamente sobre
as relações do Brasil com a RPC e também com Cuba16.
Como mencionado anteriormente, as publicações do OESP seguiram
um outro caminho, diferente do JB, que narrava todas as possibilidades
que a China tinha a oferecer e, comparado ao jornal paulista, parecia
apoiar o estabelecimento das relações diplomáticas. No mesmo mês de
maio, houve quatro publicações em que a China comunista foi mencio-
nada, enquanto, no JB, as publicações foram diversas, principalmente nas
relações da China com os outros países. Dois dos textos publicados pelo
OESP eram avaliações sobre o início do governo, as outras duas sobre o
comércio de produtos entre os dois países e apareceram no jornal de forma
intercalada. A primeira notícia tratou do mercado chinês na visão do que
os observadores governamentais relataram à imprensa, alegando que as
informações vinham de um deles, mas sem mencionar o nome do repre-
sentante17.
Constatamos, nos textos, um certo descaso com as possibilidades de
negociações em um primeiro momento, como tentando não dar

15
Idem. Grifos meus.
16
”Le Monde” diz que Brasil rompe fronteira ideológica”, Jornal do Brasil, 24 de maio de 1974, p.3, 1º caderno.
17
“Ainda é indefinido o mercado chinês”, O Estado de São Paulo, 03 de maio de 1974, p.33.
188 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

importância a este mercado que estava em análise, alegando que ainda não
era possível estimar os lucros dessa relação, considerando que a vida e o
padrão de consumo dos dois países não se assemelhavam. Em um segundo
momento, há o destaque para a não necessidade em estabelecer relações
diplomáticas, tendo em vista que o comércio entre Brasil e RPC já vinha
ocorrendo e que inclusive já era lucrativo ao Brasil, expondo dados do
último ano e mais uma vez destacando que a China não se preocupava com
a balança bilateral, apenas com o cálculo mundial. Ao mesmo tempo,
segundo o seu informante, havia a previsão de que as relações
diplomáticas seriam estabelecidas, mas que o tempo para que isto
ocorresse não estava estimado.
A segunda publicação do OESP naquele mês tratou-se de um artigo18
de Alberto Dines19, jornalista que havia trabalhado no JB até 1973. A página
em que constava o artigo inicialmente sofreu a ação dos censores e foi re-
formulada, mas o objeto de censura não foi o artigo de Dines e, sim, uma
notícia em que apareciam os nomes do ex-presidente Médici e do ex-Mi-
nistro Delfim Netto, constando uma parte do Canto Décimo de Camões no
local e estando em torno de 50% da página ocupada por propaganda. Di-
nes usa palavras como “tipicidade da nova política externa” e “esquema
governamental” para aludir à relação do Brasil com a China e o bloco co-
munista, dizendo que essa investida fazia parte da atitude do governo em
sempre “equilibrar e compensar as pressões muito fortes sobre determi-
nado setor”, abrindo novos mercados para a indústria brasileira. Apesar
de ser um artigo assinado por um jornalista que não fazia parte do corpo
editorial da empresa, de certa forma o OESP deveria estar de acordo com

18
“Dois meses do Governo Geisel, uma avaliação”, O Estado de São Paulo, 19 de maio de 1974, p.6, artigo assinado.
19
Alberto Dines foi jornalista, escritor e professor universitário. Trabalhou no Jornal do Brasil por 12 anos (1972-
1973), foi editor-chefe e o grande responsável por consolidar a reformulação do jornal, que ganhou maior destaque
na imprensa brasileira, servindo de estímulo para as outras empresas jornalísticas. Foi o responsável pela criação da
Editora de Fotografia, Departamento de Pesquisa, os Cadernos de Jornalismo e a Agência JB. Após sua demissão em
1973, passou um período nos EUA, retornando em 1975 e dali em diante trabalhou em diferentes locais, entre eles a
Folha de São Paulo, Editora Abril e criou o Observatório da Imprensa em Portugal. Em 1998 retornou ao JB, no qual
manteve uma coluna de crítica jornalística. Informações retiradas do CPDOC: (https://cpdoc.fgv.br/
producao/dossies/JK/biografias/alberto_dines), acesso em: 21/02/2019.
Pricila Niches Müller | 189

a análise feita por Dines, ou não sujeitaria seu público leitor a ler algo que
não condissesse com seu pensamento.
Alguns dias depois, o OESP publicou uma notícia20, explanando sobre
os produtos para exportação e importação a serem negociados na vinda
dos representantes chineses ao Brasil, sem ainda informar a data. Apre-
sentou então como forte produto na pauta de exportação o açúcar, além
de possivelmente algodão e minério de ferro. Já para a importação foi dada
ênfase ao carvão, destacando inúmeras vantagens que tornariam o negó-
cio lucrativo ao Brasil, inclusive na questão do frete, pois aproveitar-se-
iam navios que retornassem do Japão para buscar o produto na China co-
munista. Mais próximo do fim daquele mês há um artigo publicado na
página de opinião21 do OESP, que, de forma mais sucinta que Dines, expôs
uma análise do Governo Geisel. Abordando ações empregadas por diver-
sos setores, o primeiro que apareceu na narrativa do jornal foi sobre a
política externa e sobre a possibilidade de relações com a China. Após co-
mentar sobre outros ministérios, o autor do artigo concluiu que as
mudanças estavam ocorrendo na totalidade da política nacional e ressaltou
que a maior prova disso era a centralidade das decisões no presidente,
tendo os ministérios perdido grau de liberdade nos seus assuntos. Con-
forme o trecho final do artigo, essas mudanças todas representavam muito
mais do que estaria sendo possível identificar, seja em comportamento, ou
na filosofia do governo.
Notamos, na narrativa de ambos os jornais, a tensão e a expectativa
para os próximos passos que seriam dados pelo Itamaraty em relação à
China comunista. De um lado, o desejo explícito de que houvesse o acordo
diplomático e, de outro, evidenciando uma contrariedade sobre a necessi-
dade de relacionar-se via escritórios, sendo que o comércio já era
realizado, e o lucro era mais expressivo ao Brasil do que para os chineses

20
“China poderá fornecer carvão”, O Estado de São Paulo, 23 de maio de 1974, p.44.
21
“Revisão é ampla em vários setores”, O Estado de São Paulo, 28 de maio de 1974, p.3, artigo assinado apenas por
duas letras – C.C. – sem de fato identificar o autor, prática muito comum de ver no OESP nas publicações da página
do editorial do jornal.
190 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

e não reconheciam grandes necessidades de alterar isso, conforme anali-


samos nas publicações.
Ao iniciar o mês de agosto de 1974, surgiram novos fatos sobre a mis-
são que estaria para chegar ao Brasil no dia sete daquele mês e mais uma
vez os periódicos surpreenderam. Antes dos chineses chegarem, o OESP
apresentou manchete de capa, com chamada para artigo assinado no inte-
rior do jornal. Já o JB, apresentou apenas uma nota na coluna do Informe
JB22, voltando com o mesmo entusiasmo descrito anteriormente, em rela-
ção à parceria, nos dias que se seguiram. Os chineses estavam chegando e,
com eles, uma série de mudanças que acarretariam em novos questiona-
mentos por parte da imprensa, que transformava em notícia cada novo
fato apresentado pelos setores governamentais, ou, também, por parte do
empresariado, grandes interessados neste mercado que estava para ser
ampliado aos produtos brasileiros.
Além disso, como defendemos neste trabalho após extensa pesquisa,
o JB coloca em evidência na reportagem23 do dia 5 de agosto que a vinda
dos chineses naquele período – a forma com que tudo aconteceu rapida-
mente nesta questão diplomática após Geisel assumir o Governo – tinha
um “inegável caráter político”24, pode-se dizer que maior do que as enti-
dades governamentais tinham assumido publicamente à população. Junto
a essa publicação, está mais uma vez mencionado o episódio da prisão dos
chineses em 1964 no Brasil, ressaltando que seria a primeira vez que mem-
bros da China comunista viriam ao Brasil depois do ocorrido, dando ênfase
na narrativa por, nesta vez, eles estarem a convite governamental, com
toda a assistência que se costumava oferecer aos visitantes estrangeiros
em missão oficial.
Outra abordagem volta-se à especulação acerca do roteiro que teria a
missão aqui no Brasil, dito secreto, no intuito de preservar a segurança
dos visitantes. Também volta a mencionar o peso político dessa missão,

22
“Informe JB”, Jornal do Brasil, 02 de agosto de 1974, p.10, 1º caderno, coluna.
23
“China deseja ampliar negócios”, Jornal do Brasil, 05 de agosto de 1974, p.15, 1º caderno.
24
“China deseja ampliar negócios”, Jornal do Brasil, 05 de agosto de 1974, p.15, 1º caderno. Grifos nossos.
Pricila Niches Müller | 191

mas expondo ao público os limites impostos pelo Itamaraty, de que, se


acaso as relações diplomáticas fossem firmadas, ainda não havia um prazo
para tal ocorrer, estando o General Ernesto Geisel com esta responsabili-
dade de decisão, assim como arcou com a repercussão política da ida de
um representante do governo na missão de abril e também “incluindo o
desagrado de Formosa”.
No dia seguinte, foi publicada uma notícia25, repetindo algumas in-
formações da edição anterior, noticiando que a missão chinesa chegaria no
dia seguinte e acrescentando novas informações ao roteiro que ainda era
desconhecido na sua totalidade, mas mencionam-se os encontros que já
estariam marcados, iniciando a narrativa pelos contatos governamentais
para só então mencionar os assuntos empresariais, que ficariam para a
parte final da missão, segundo o JB. O OESP publicou manchete26 de capa
com informações de que Hong Kong tratava sobre a partida dos chineses
com destino ao Brasil, chefiada pelo vice-ministro de comércio Chen
Chien, destacando que ele possuía autorização para negociar as relações
diplomáticas com o Brasil. A manchete fazia referência a um artigo27 assi-
nado por Ronan S. Ferreira28.
Ferreira inicia o seu artigo com argumentos que mostram o que fazia
crer que naquela visita aconteceria o estabelecimento de relações diplomá-
ticas, dando como exemplo recente a época de que ocorrera o mesmo entre
RPC e Venezuela, que também havia sido visitada por uma missão coman-
dada por um dos outros cinco vice-ministros da China comunista. Deixa
claro ao leitor que se tratava de missão com status e poder de decisão, para
em seguida fazer um alerta: reconhecer a China comunista implicaria re-
nunciar a China de Formosa. Faz, no texto, na sequência, um balanço dos

25
“Chineses chegam amanhã”, Jornal do Brasil, 06 de agosto de 1974, p.16, 1º caderno.
26
“Missão chinesa chega 4.a”, O Estado de São Paulo, 04 de agosto de 1974, capa.
27
“Missão chinesa poderá abrir o caminho do reconhecimento”, O Estado de São Paulo, 04 de agosto de 1974, p.26.
28
Repórter e jornalista, trabalhou no OESP no início do regime civil-militar, mas não há informação de quando
ocorreu o seu desligamento da empresa. Também teve passagem por outras empresas, como o Correio da Manhã,
mas teve seu nome reconhecido pelos trabalhos na Rede Globo, para qual trabalhava desde 1975. Informações sobre
o jornalista retiradas do memorial on-line da Globo: http://memoriaglobo.globo.com/perfis/talentos/ronan-soa-
res.htm, acesso em: 21/02/2019.
192 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

países que apoiam uma ou outra, quando Formosa contava com o apoio
de 35 países – até então, o Brasil era um deles – e a RPC com mais de 100
apoiadores. Com relação à aproximação entre Brasil e China, Ferreira
menciona a pressão por parte do empresariado e denuncia a ingenuidade
daqueles que viam essa relação apenas como comercial, enfatizando que o
comércio exterior da China havia crescido em torno de 50% do início da
década de 1960 para 1970 e, principalmente, que

Essa ocidentalização leva à gradativa modificação dos hábitos de consumo dos


chineses. E os empresários observam que há um fator que justifica e estimula
a aproximação: há mais de dez anos que os chineses desvincularam seu
comércio exterior de qualquer ação política ou ideológica. Agem de ma-
neira bastante pragmática e não fazem questão de equilíbrio comercial.
Se precisam de um produto, pagam à vista, não lhes interessando uma reci-
procidade bilateral, mas apenas um equilíbrio no total geral de suas
importações e exportações. 29

Quanto ao discurso de não ser necessário um equilíbrio na balança


comercial, este é uma narrativa que a imprensa já vinha apresentando
desde o princípio em ambos os jornais. Porém, não é uma posição encon-
trada na bibliografia especializada, tampouco na obra do CPDOC, fruto de
entrevista com o próprio ex-presidente na década de 1990, tanto que,
consta no segundo artigo do Acordo Comercial que ambos os países farão
o possível para manter o equilíbrio da balança. E esse é o primeiro aspecto
questionável desse discurso em evidência na imprensa. Assim como Fer-
reira considerou ingenuidade por parte de quem não acreditava que
aquela visita da China comunista resultaria em um acordo diplomático,
podemos considerar também ingenuidade acreditar que um país não se
importaria em sair perdendo nas suas relações externas com outros paí-
ses, e prova disso é conteúdo do Acordo Comercial assinado ainda no
Governo Geisel.

29
“Missão chinesa poderá abrir o caminho do reconhecimento”, O Estado de São Paulo, 04 de agosto de 1974, p.26.
Grifos nossos.
Pricila Niches Müller | 193

Em relação à informação do OESP de que há mais de dez anos ante-


riores a 1974 os chineses da RPC não envolviam ideologia nos seus
compromissos externos, se fosse considerado o período anterior ao golpe
civil-militar, tornava-se mais do que infundada a prisão dos nove chineses
em missão comercial no Brasil naquela época, acusados de subversão. Mas
este questionamento o próprio OESP fará em suas páginas, sobre qual a
diferença da China comunista do início do regime civil-militar para aquele
momento, o que também conecta as ideias de Ferreira à opinião do jornal.
Entretanto, a narrativa de Ferreira se parece em muito com a visão de
Oliveira sobre a retomada de parceria, quando o autor alega que, para os
objetivos de desenvolvimento e inserção internacional que tinha a diplo-
macia brasileira naquele período, não faria sentido o Brasil deixar a RPC
de fora do seu círculo da política externa30. Além de mencionar uma mu-
dança de postura da China comunista em relação à diplomacia a partir do
IX Congresso do PC chinês, dando início ao que foi chamado de ofensiva
do sorriso, o artigo se encerra com o comentário de Ferreira de que Geisel
“acelerou” a aproximação entre os dois países já no início do governo e
que a RPC respondeu enviando uma missão de alto nível, o que demonstra
interesse recíproco.
No dia previsto para a chegada da missão chinesa, o JB declarou, na
31
capa , que os chineses poderiam estar ofertando “petróleo em troca de
café, soja, calçados e açúcar”. Já o OESP anunciou32 que o Brasil poderia
vir a instalar uma fábrica siderúrgica na China comunista, bem como
vender calçados para eles. Da mesma maneira como ocorreu no envio dos
representantes governamentais junto à missão que foi à China no início de
1974, diplomatas do Itamaraty apenas anunciaram que o sentido óbvio da
vinda dos chineses seria para conhecer mercados de importação e
exportação, a fim de melhor acertar as relações comerciais, conforme

30
Sobre isso ver: OLIVEIRA, Henrique Altemani de; LESSA, Antônio Carlos. (Org.). Relações Internacionais do Brasil:
temas e agendas, v.1, São Paulo: Saraiva, 2006.
31
“Chineses podem trocar petróleo por café e soja”, Jornal do Brasil, 07 de agosto de 1974, capa.
32
“China pode ter técnica brasileira”, O Estado de São Paulo, 07 de agosto de 1974, capa.
194 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

notícia33 do JB. O jornal também mencionou as “intensas especulações”


sobre o assunto, ao mesmo tempo em que conclui que “na verdade pouco
se sabe sobre as pretensões dos chineses” e que, conforme uma “fonte
oficial”, “a missão não tem a importância econômica” que estavam
colocando sobre ela, ao mesmo tempo que a presença deles poderia
acelerar o processo de estabelecer “relações políticas”.
O OESP fez, na sua narrativa, uma denúncia ao sigilo em volta da
missão “que tem mais caráter político do que comercial” e que o mistério
em volta da agenda dos chineses no Brasil estaria prejudicando os empre-
sários com interesse de dar andamento em negócios com aquele país34.
Apesar do título da reportagem e do mencionado no início deste parágrafo,
mais de 50% da narrativa do jornal nesta publicação envolveu o histórico
do comércio entre os dois países, mencionando desde as investidas no Go-
verno de Jânio Quadros, os chineses presos em 1964 até a falta de
vitalidade do comércio desde então. E, como de costume, mencionou o si-
lêncio a respeito das relações diplomáticas.

As Prioridades na Política Externa de Geisel

Como foi possível ver desde o início da análise a respeito das


publicações dos jornais O Estado de São Paulo e Jornal do Brasil,
defendemos que as posições desses periódicos referentes à parceria então
firmada entre Brasil e China comunista variava, mas nem sempre a
narrativa desses veículos de imprensa seguia caminhos diferentes. Neste
momento das relações estabelecidas, OESP chamou a atenção da dita
“opinião pública” para as ações empregadas na política externa, quando,
ao mesmo tempo o JB elogiou a diplomacia brasileira. Outro aspecto desta
relação que envolvia Governo e empresários é a evidência de que havia
interferência de diversos setores em relação ao que era divulgado para o

33
“Missão da China Popular no Brasil procura impulsionar comércio em vários setores”, Jornal do Brasil, 07 de
agosto de 1974, p.16, 1º caderno.
34
“Usina e calçado para a China”, O Estado de São Paulo, 07 de agosto de 1974, p.15.
Pricila Niches Müller | 195

público pela imprensa, o que para nós também comprova o caráter civil-
militar do regime.
Na capa do OESP do dia 17 de agosto, foi publicada uma manchete35
tematizando a importância do êxito econômico, conforme fala do Ministro
Velloso, que destacou a atração de parceiros econômicos, mencionando
que a parceria recém firmada com a China teria seu primeiro acordo assi-
nado em dois meses para a venda de açúcar. Na página de opinião do
jornal, havia dois textos não assinados, tratando sobre a nova parceria do
Brasil36, em especial no primeiro que abordou o desenvolvimento da polí-
tica externa, contendo críticas diretas ao Governo, ressaltando que não
havia nada a ser comemorado com o estabelecimento de relações diplo-
máticas, acusando de estar sendo empregada uma política julgada
encerrada desde 1964. O mesmo texto declarou ser hipócrita o argumento
usado para o estabelecimento de relações diplomáticas, fazendo alusão à
ideia de que, sem o reconhecimento, podiam comercializar com ambos os
países e ainda se beneficiavam do fato de poucos terem reconhecido a
China nacionalista. E também, que neste acordo a única voz ouvida foi a
da China, a qual o Brasil ouviu sem nem contestar, rompendo com For-
mosa. Ainda houve outras críticas, concluindo que eles não acreditavam
que este novo estilo de governar fosse conquistar lucros.
No outro texto37 de opinião, em que o assunto era a maneira de go-
vernar da RPC, fazendo alusões a Maquiavel e alertando que a URSS parece
uma sociedade aberta perto da China comunista, OESP enfatizou que não
iria tecer comentários de ordem política, mas que estaria ali para chamar
a atenção da opinião pública.

Não pretendemos mais do que chamar a atenção da opinião pública para a


imprevisibilidade de todas as perspectivas relativas a evolução do intercâmbio
comercial com a China. [...] daquele país onde tudo é ocultado ou camuflado,

35
“Velloso acha que só êxito econômico atrai missões”, O Estado de São Paulo, 17 de agosto de 1974, capa.
36
“As relações entre Brasil e China”, O Estado de São Paulo, 17 de agosto de 1974, p.3, editorial.
37
“Os critérios comerciais de Pequim”, O Estado de São Paulo, 17 de agosto de 1974, p.3, editorial.
196 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

as transações mais incríveis, e, para nós, absurdas, permanecem sempre no


plano do possível.38

Prosseguindo, no artigo, foi sugerido que a população ficasse alerta


para não sofrer desilusões, pois não eram somente fatores de ordem eco-
nômica e política que estavam envolvidos, mas psicológicos. Entretanto,
as publicações naquele dia não se restringiram “só” a estes dois artigos de
opinião, em outra página havia oito matérias sobre os chineses da missão
que partia de volta para a Ásia e mais uma página com direito a censura,
contendo mais sete notícias nas quais se mencionou a relação.
Na página nove, são abordadas questões referentes à venda de açúcar
para a China, conforme indicado na manchete de capa, afirmou-se ainda
que estaria para ser assinado em mais ou menos dois meses um contrato
e este, segundo informado da parte do Brasil, teria vigência de cinco anos,
mas a RPC preferiu um prazo mais curto, o qual estava em negociação39.
E sobre o mesmo assunto, foi publicada mais uma notícia40, expondo sobre
as quantidades a serem exportadas e outro texto41 noticiando o primeiro
contrato que estaria para se realizar. No meio destas, havia um outro es-
crito42 que noticiava a reunião que os chineses teriam com Golbery, a qual,
por fim, teria sido realizada pelo próprio presidente Geisel. O jornal apro-
veitou para ressaltar que Geisel não explicou os motivos de ter estado
presente no lugar de Golbery e comentou que os chineses foram embora
após um equívoco, com passos apressados sem falar com os jornalistas.
Abaixo deste, a notícia43 foi composta por informações divulgadas na im-
prensa chinesa, pelo Jornal do Povo, órgão do PC chinês. OESP destacou
que o jornal chinês mencionou que a intenção de estabelecer relações di-
plomáticas veio do General Ernesto Geisel após a sua posse como

38
Idem. Grifos meus.
39
“China inicia intercâmbio comprando açúcar”, O Estado de São Paulo, 17 de agosto de 1974, p.9.
40
“Em 2 meses, sai o primeiro contrato oficial com Pequim”, O Estado de São Paulo, 17 de agosto de 1974, p.9.
41
“Venda pode ir até 800 mil t”, O Estado de São Paulo, 17 de agosto de 1974, p.9.
42
“Despedida posada valeu como adeus”, O Estado de São Paulo, 17 de agosto de 1974, p.9.
43
“China comemora as novas relações”, O Estado de São Paulo, 17 de agosto de 1974, p.9.
Pricila Niches Müller | 197

presidente, assim como também concluiu que a parceria seria o caminho


para desenvolver a amizade entre os povos. Das outras três notícias desta
mesma página, uma discorreu sobre a ata final da reunião44, outra com
discurso de Chen Chien novamente45 e também mais uma com discurso
de Silveira46.
Partindo para a análise da página seguinte, que havia sido censurada
por causa de um texto com informações acerca do que o Washington Post
divulgou sobre a parceria47, declarando que o crescente déficit do período
estava provocando uma mudança na postura do país como um “amigo de
países comunistas”, o trecho em que foi sugerida a retirada dizia que “o
que lhe permite concluir que ‘o presidente Ernesto Geisel parece desejoso
de esquecer considerações políticas quando se fala de negócios’”. A notí-
cia48 ao lado destacava a não surpresa por parte dos franceses, que
alegavam sobre esta atitude estar de acordo com o emprego de uma diplo-
macia pragmática, responsável e ecumênica. Além disso, o mesmo texto
também dizia que os russos se recusaram a comentar o ocorrido e “outros
representantes norte-americanos em Brasília” disseram que a mudança de
postura do Brasil em relação a Pequim, o que pode representar também
uma mudança em relação a Havana. Exceto uma notícia que tratou sobre
uma análise feita por Velloso49 e outra sobre Sarney apoiar a decisão do
Governo50, as outras três referiram-se à China nacionalista. Uma delas
abordou o fato de Formosa ter entregue um protesto ao Governo brasileiro
por reconhecer a China comunista51, a outra era mais explicativa em rela-
ção ao comércio com os chineses nacionalistas, que poderia continuar

44
“Diplomacia abre caminho a comércio, afirma a ata”, O Estado de São Paulo, 17 de agosto de 1974, p.9.
45
“Chineses apontam direito de cada povo escolher o regime”, O Estado de São Paulo, 17 de agosto de 1974, p.9.
46
“Silveira afirma que as bases para o futuro estão lançadas”, O Estado de São Paulo, 17 de agosto de 1974, p.9.
47
“Washington Post ressalta déficit”, O Estado de São Paulo, 17 de agosto de 1974, p.10.
48
“Diplomatas dizem que o caminho está aberto”, O Estado de São Paulo, 17 de agosto de 1974, p.10.
49
“Velloso explica o êxito das missões”, O Estado de São Paulo, 17 de agosto de 1974, p.10.
50
“Sarney dá apoio a decisão brasileira”, O Estado de São Paulo, 17 de agosto de 1974, p.10.
51
“Rompimento de Formosa chega com protestos”, O Estado de São Paulo, 17 de agosto de 1974, p.10.
198 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

mesmo sem que haja relações a nível de embaixada52. E por fim, o Consul53
e presidente da câmara de comércio chinesa em SP não acreditaram que o
corte de relações diplomáticas entre Brasil e Formosa iria afetar as relações
comerciais, não viam problemas nisso54. Ao mesmo tempo em que um pa-
dre que fez parte da comunidade chinesa criticou a postura do governo
brasileiro, destacando que a “revolução de 64” havia mudado o jeito de
eles verem os brasileiros e com esta decisão de agora poderiam estar acar-
retando problemas para o futuro, defendeu que deveriam se preocupar em
desenvolver o catolicismo.
Neste mesmo dia, a capa55 do JB contava com informações diferentes
das do OESP, as quais só foram encontradas nas páginas internas do jornal
paulista. Na sua capa, o jornal carioca mencionou já o fato de Geisel ter
estado na reunião última com os chineses, em vez de Golbery, também já
apresentando informações referentes ao Jornal do Povo chinês, sobre a
parceria já ser intenção de Geisel desde março, além de, claro, falar sobre
o primeiro acordo a ser assinado em dois meses. O JB também contou com
duas páginas no seu interior repletas de conteúdo envolvendo a parceria
recém estabelecida.
A notícia56 principal na página 14 tematizou o alto rendimento que o
estabelecimento de relações poderia estar proporcionando ao Brasil, além
de abordar questões de comércio e navegação, volume de vendas, o comér-
cio chinês e a sua disponibilidade para negociar. Também havia um roteiro
de partida dos chineses, enfatizando que, naquele momento, os membros
dos dois países poderiam negociar em qualquer outro país em que tenham
representações diplomáticas, ainda ressaltando que a China importou em

52
“Comércio continua entre particulares”, O Estado de São Paulo, 17 de agosto de 1974, p.10.
53
O Consul também menciona sobre desejar que este rompimento não mude o apoio governamental dado “aos 8 mil
chineses radicados em São Paulo, bem como aos 40 mil em todo o país”, o que é interessante destacar para comple-
mentar o que viemos trabalhando nesta pesquisa, acerca da dita “opinião pública” a que os jornais se referem.
54
“Em SP, nacionalistas não perdem otimismo”, O Estado de São Paulo, 17 de agosto de 1974, p.10.
55
“Brasil negocia na China em 2 meses acordos comerciais”, Jornal do Brasil, 17 de agosto de 1974, capa.
56
“Comércio com a China pode ir a U$400 milhões”, Jornal do Brasil, 17 de agosto de 1974, p.14, 1º caderno.
Pricila Niches Müller | 199

FOB e exportou em CIF. Uma pequena nota57 analisou a questão de o di-


plomata ter sido escolhido como Embaixador em Pequim, destacando
qualidades que o mesmo deveria possuir, recordando os destaques feitos
a respeito da cultura chinesa até então, para trabalhar naquele país. Havia
também um artigo assinado58, algo que pouco foi visto no decorrer da pes-
quisa, com assinatura de Luiz Barbosa, que se manifestou sobre as
possíveis relações entre Brasil e Cuba, chamando esta questão de “um
passo mais difícil”. No escrito sobre Formosa59, segundo o JB, o Governo
do Brasil justificou que a relação com Formosa já não tinha perspectiva tão
rentável quanto com a China comunista. Enfim, na parte central da página
estava a notícia60 sobre a reunião na qual Geisel esteve presente e abaixo
dela o JB apresentou a ata final do acordo61. Sobre o então presidente, o
jornal descreveu a política externa como rápida, audaciosa e superadora
de tabus, comparando com as de governos anteriores da ditadura.
A última página a ser analisada deste dia foi finalizada com uma
nota , discursos de Chen Chien63 e Silveira64, bem como quatro notícias e
62

duas fotos. Uma das fotos é deveras interessante porque nela estão os chi-
neses e em evidência Chen Chien, o qual está sorrindo bastante e, a
legenda da foto descreveu que ele riu ao ler matéria em um jornal sobre
“os chineses estarem chegando”. Sobre os discursos de Chen Chien e Aze-
redo, o primeiro referiu-se a não interferência e a interesses recíprocos e
ressaltou a importância de países em desenvolvimento se ajudarem, pre-
terindo as superpotências, e o segundo colocou “panos quentes”, alegando
que todos deveriam se ajudar sem importar posição, política do Governo
Geisel. Uma das notícias65 remetia à questão das propagandas e incentivos

57
“Embaixador deve ser experiente”, Jornal do Brasil, 17 de agosto de 1974, p.14, 1º caderno.
58
“Convivência com Cuba está sendo encaminhada”, Jornal do Brasil, 17 de agosto de 1974, p.14, 1º caderno.
59
“Formosa encerra suas relações com o Brasil”, Jornal do Brasil, 17 de agosto de 1974, p.14, 1º caderno.
60
“Geisel recebe missão chinesa”, Jornal do Brasil, 17 de agosto de 1974, p.14, 1º caderno.
61
“Ata final do Acordo”, Jornal do Brasil, 17 de agosto de 1974, p.14, 1º caderno.
62
“Chen Chien critica potências e Silveira pede entendimento”, Jornal do Brasil, 17 de agosto de 1974, p.15, 1º caderno.
63
“Discurso de Chen Chien”, Jornal do Brasil, 17 de agosto de 1974, p.15, 1º caderno.
64
“Discurso de Azeredo da Silveira”, Jornal do Brasil, 17 de agosto de 1974, p.15, 1º caderno.
65
“Agente de viagens fala de surpresas”, Jornal do Brasil, 17 de agosto de 1974, p.15, 1º caderno.
200 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

a viagens turísticas de brasileiros para a China, que apareciam nas páginas


do JB. Por fim, o escrito66 sobre a comemoração de exportadores, mencio-
nando Coutinho da AEB, sobre o estabelecimento de relações diplomáticas
entre os dois países. Coutinho sentiu-se orgulhoso por ter tido participação
ativa na abertura deste novo mercado, lembrando a missão que foi para a
China em abril e já deixou encaminhadas estas questões.
Sendo assim, apesar de a questão energética ser de grande importân-
cia para Geisel, em relação ao desenvolvimento nacional, adotou-se a ideia
de que os motivos para a concretização da parceria naquele momento jus-
tificavam-se por outros fatores. Pode-se dizer que um deles era a balança
extremamente favorável ao Brasil, que sabia não conter muitos produtos
pelos quais se interessariam em importar, mas que tinham conhecimento
dos lucros do que seria exportado para a China comunista. Dados sobre
isso são verificáveis nos jornais, nas diversas vezes em que construíram
um panorama das transações comerciais entre os dois países, bem como
na bibliografia especializada, principalmente no estudo de Becard (2008).
Portanto, descrever o petróleo como sendo um dos produtos a entrar
na pauta de compra pelo Brasil parecia um meio para um fim67. Outro
aspecto que gera credibilidade a esse ponto de vista são as informações
divulgadas pela imprensa de que, para a China, não importava o desequi-
líbrio na balança, porém, através do Acordo Comercial de 1978,
identificou-se uma preocupação em alcançar este equilíbrio. Conclui-se
então, neste estudo, o retrato construído pela imprensa para o público lei-
tor, com narrativa atrelada a intenções, as quais se mostravam mais
claramente em alguns momentos, assim como eram disfarçadas em ou-
tros. Sob esse viés, um dos melhores benefícios de fazer uso da imprensa
enquanto objeto de estudo é poder reconhecer o debate político ao qual ela
dá forma, analisando como os atores da esfera pública posicionavam-se
em um período ditatorial no qual a censura estava em evidência.

66
“Exportadores aplaudem reatamento”, Jornal do Brasil, 17 de agosto de 1974, p.15, 1º caderno.
67
Sobre este assunto ver: MÜLLER, Pricila N., Negócio da China: a relação entre mídia e poder na diplomacia do
Governo Geisel (1974-1979). Revista Crítica Histórica, Alagoas, ANO X, Nº20, Dezembro/2019.
Pricila Niches Müller | 201

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10

Conflito às margens da tríplice fronteira:


as relações entre Brasil e Argentina
quanto ao aproveitamento hidrelétrico dos rios
internacionais de curso sucessivo (1966-1979)

Bruna Gorgen Zeca 1


Gabriel Gaziero 2

Introdução

Em abril de 1961, Jânio Quadros e Arturo Frondizi, presidente da Ar-


gentina, reuniram-se na cidade gaúcha de Uruguaiana e firmaram um
acordo cultural, duas declarações e o Convênio de Amizade e Consulta,
pelo qual se instituiria um sistema de troca de informações e coordenação
da atuação internacional. Tal aproximação entre Brasil e Argentina ficaria
conhecida como “espírito de Uruguaiana”. No entanto, o espírito de Uru-
guaiana teria vida curta, e logo os rumos políticos e os projetos
desenvolvimentistas dos dois Estados refletiriam em suas relações bilate-
rais.
Esta pesquisa objetiva analisar as relações entre Brasil e Argentina
entre 1966 e 1979, quando o relacionamento esteve pautado pelo aprovei-
tamento hidrelétrico dos rios que cortam, sucessivamente, ambos os

1
Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em História da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
Bolsista CNPq.
2
Mestrando no Programa de Pós-Graduação em História da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
Bolsista CNPq.
Bruna Gorgen Zeca; Gabriel Gaziero | 205

países, especialmente o rio Paraná, “pai de todas as águas”. O conflito na


Bacia do Prata seria marcado por teses que se contrapunham e que extra-
polariam o âmbito regional, chegando às Nações Unidas. Desde a Ata de
Iguaçu, assinada entre o Brasil e o Paraguai, que daria origem à Itaipu, o
Brasil teria de negociar em duas frentes, tanto com o Paraguai quanto com
a Argentina, que alegava que o megaprojeto brasileiro-paraguaio inviabi-
lizaria o potencial de uso das águas que chegavam ao seu país. Era a
geopolítica platina revivida sob as possibilidades do que a modernidade e
o avanço tecnológico ofereciam.
As relações só viriam a se estabilizar anos depois, com o Acordo Tri-
partite Itaipu-Corpus, em 1979, colocado por alguns autores como um
ponto de inflexão na interação bilateral e no problema do aproveitamento
hidrelétrico dos rios internacionais de curso sucessivo na Bacia do Prata.
A questão dos rios internacionais exemplificava, além disso, a relevância
do papel da imprensa nas questões diplomáticas, tendo o jornalismo a ca-
pacidade de afetar as equações políticas, como será possível visualizar.
Ademais, a ideia de que a bacia fluvial formava uma unidade geoeconô-
mica e, por conseguinte, deveria ter seu planejamento dirigido de maneira
conjunta, seria levada à inocuidade em razão das desconfianças mútuas.

Da Ata de Iguaçu (Ata das Cataratas) ao Tratado de Itaipu (1966-1973)

As relações entre Brasil e Argentina, entre 1966 e 1973, passaram por


um nível de deterioração que foi raramente identificado ao longo da his-
tória das relações bilaterais. O vínculo argentino-brasileiro tornou-se
refém da definição do regime de utilização do caudal hídrico da Bacia do
Prata, que resultou em um clima de confronto e que turvou os projetos
conjuntos de complementação econômica e cooperação técnica que o “es-
pírito de Uruguaiana” havia tentado legar, como mencionado na
introdução. A ideia de construção de uma represa sem qualquer antece-
dente na história da engenharia representava a natureza do
desenvolvimento de corte nacionalista que, à época, devido à fluidez do
206 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

crédito internacional, permitia ao governo brasileiro realizar gastos robus-


tos. O ambicioso projeto de Itaipu que o Brasil buscava levar a cabo com o
Paraguai transformava os termos do diálogo no Cone Sul e fazia com que
Buenos Aires e Brasília investissem esforços para a atualização da estru-
tura do poder na região (SPEKTOR, 2002, p.35-36).
A Ata de Iguaçu, ou Ata das Cataratas, como ficou conhecida, foi as-
sinada em junho de 1966, entre o Ministro das Relações Exteriores do
Brasil, Juracy Magalhães, e o Ministro das Relações Exteriores do Paraguai,
Raúl Sapena Pastor, e manifestava a disposição de ambos os países em
proceder com os estudos sobre as possibilidades econômicas dos recursos
hidráulicos pertencentes aos dois Estados, referentes ao Salto Grande de
Sete Quedas (ou Salto del Guairá). Ademais, concordavam os países em
estabelecer, já naquele momento, que a energia elétrica produzida pelos
desníveis do rio Paraná, desde Sete Quedas até a foz do rio Iguaçu, seria
dividida em partes iguais entre o Brasil e o Paraguai, e que o excedente da
energia produzida poderia ser comprado a preço justo por uma das partes
(BRASIL, 1966, p.1).
Com a Ata de Iguaçu, frustrava-se o argumento jurídico defendido
pela Argentina de que toda obra de aproveitamento hidráulico realizada
em um rio internacional deveria estar sujeita à consulta prévia do país a
jusante (para onde se dirige a foz de um rio, enquanto a nascente é seu
ponto mais a montante). Toda a contenda passava a se basear na busca
por fórmulas jurídicas e doutrinas que pautassem um regime de aprovei-
tamento fluvial em harmonia com as necessidades do Brasil ou da
Argentina. De forma resumida, a posição do Brasil em relação ao aprovei-
tamento dos rios internacionais era a defesa de princípios gerais
abrangentes, pois na Bacia do Prata o país tinha condição de montante,
enquanto na Bacia do Amazonas era de jusante. Defendia, então, os prin-
cípios de não imposição de prejuízos sensíveis aos demais Estados
ribeirinhos e de notificação (e não consulta prévia), aos ribeirinhos inte-
ressados, sobre a realização de obras sobre o leito dos rios internacionais.
A Argentina, por seu turno, defendia regras rígidas sobre o assunto, que
Bruna Gorgen Zeca; Gabriel Gaziero | 207

assegurassem que não fossem causados danos ao Estado a jusante decor-


rentes de obras de engenharia sobre rios internacionais e que o Estado a
jusante fosse previamente consultado sobre tais obras (SPEKTOR, 2002,
p.37).
No mesmo ano da assinatura da Ata de Iguaçu com o Paraguai (ou
Ata das Cataratas, 1966), a Argentina convidava os países da Bacia do Prata
para criar um foro multilateral para tratar do aproveitamento dos rios e
do desenvolvimento da região. O Brasil aceitava a proposta do encontro
após todos os vizinhos envolvidos já o terem feito. A reunião ocorreu no
ano seguinte, em 1967, e foi denominada “Primeira Reunião dos Chance-
leres da Bacia do Prata” e produziu o documento chamado “Declaração
Conjunta de Buenos Aires”. A Declaração previa, entre outros pontos: a
decisão de se realizar estudos conjuntos e integrais da Bacia do Prata que
servissem à realização de um programa de obras multilaterais, bilaterais e
nacionais com vistas ao progresso da região; e a formação de um Comitê
Intergovernamental Coordenador (CIC), que tomaria decisões através do
voto unânime dos membros, centralizaria as informações pertinentes e
coordenaria a ação conjunta dos governos interessados. No ano de 1967, a
Argentina já reivindicava a participação no projeto hidrelétrico das Sete
Quedas, e argumentava que os trabalhos previstos para a região poderiam
causar danos ao regime e à qualidade das águas do rio Paraná (VILLELA,
1984, p.150-151).
Ademais, a Declaração manifestava a intenção de os Chanceleres se
reunirem, no próximo ano, em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, para
continuarem as negociações. Conforme previsto, a reunião na Bolívia, re-
alizada de 18 a 20 de maio de 1968, produziu a Ata de Santa Cruz de la
Sierra, a qual estipulava que o CIC deveria elaborar um projeto de Tratado
que institucionalizasse o Sistema da Bacia do Prata (PEREIRA, 2010, p.47).
Em abril de 1969, então, Argentina, Bolívia, Brasil, Paraguai e Uruguai as-
sinavam, em Brasília, o Tratado da Bacia do Prata, que objetivava uma
integração que resultasse em um desenvolvimento harmônico e equili-
brado no aproveitamento dos recursos naturais da Bacia do Prata
208 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

(MARTINS, 2014, p.71). Pode-se considerar que o texto do Tratado era, de


certa forma, bastante singelo, sendo composto apenas por um preâmbulo
e oito artigos suficientemente vagos para abrigar as conflituosas posições
do Brasil e da Argentina. O Tratado da Bacia do Prata previa, por exemplo,
reuniões anuais de seus chanceleres e a função do CIC como órgão respon-
sável por “promover, coordenar e acompanhar o andamento das ações
multinacionais, que tenham por objeto o desenvolvimento integrado da
Bacia do Prata”, mas sem prejuízo das disposições internas de cada país
(BRASIL, 1969).
Cumpre destacar que, de 1967 ao início de 1969, durante o Governo
Costa e Silva, o embaixador do Brasil em Buenos Aires era Manoel Pio Cor-
rêa, quando em fevereiro de 1969, dois meses antes da assinatura do
Tratado da Bacia do Prata, Pio Corrêa foi substituído por Antonio Fran-
cisco Azeredo da Silveira, que seria embaixador em Buenos Aires por todo
o Governo Médici e que no Governo Geisel viria a ser o Ministro das Rela-
ções Exteriores do Brasil. Pio Corrêa defendia uma posição de
entendimento brasileiro em relação a Buenos Aires, apoiada na comple-
mentação industrial e no planejamento comum do desenvolvimento da
região por meio da criação de um sistema de consulta permanente e de
concertação política (facilitados pela convergência ideológica pela qual
passavam com os regimes militares implantados em 1964, no Brasil, e em
1966, na Argentina). Por outro lado, o pensamento de Azeredo da Silveira
era de que o Brasil não poderia ter um projeto internacional que se asso-
ciasse ou dependesse da Argentina. Tão logo assumisse a embaixada em
Buenos Aires, Azeredo da Silveira adequaria o vínculo bilateral à sua visão
de mundo (SPEKTOR, 2002, p.42-46).
Em razão das desconfianças mútuas, que se deslocavam da rivalidade
do século XIX, refletidas no temor de que a Argentina anexasse os vizinhos
para reconstituir o Vice-Reino do Prata e no receio em relação ao expansi-
onismo territorial brasileiro, para o aproveitamento do potencial
hidrelétrico dos rios da região, acabou que o Brasil havia aceitado a pro-
posta argentina de negociar um tratado para a Bacia, porém, ao mesmo
Bruna Gorgen Zeca; Gabriel Gaziero | 209

tempo, de modo a retirar do acordo qualquer potencial de prejuízo às as-


pirações brasileiras. Nas negociações, o Brasil deixou claro que somente
aceitaria um mecanismo se esse fosse flexível (o que se pode entender
como “frouxo”). Ao ser retirado todo potencial de dano e, simultanea-
mente, de eficácia, as consequências do tratado, após alguns anos, seriam
os previsíveis esvaziamento e inoperância. A frustração da cooperação plu-
rilateral gerou, como efeito quase imediato, a deterioração das relações
entre ambos os países e a transferência do conflito brasileiro-argentino da
esfera sub-regional para organismos multilaterais, como a ONU
(RICUPERO, 2017, p.457-458).
Como o Tratado da Bacia do Prata não especificava acerca da cons-
trução de obras sobre os rios internacionais, e o Brasil prosseguia com os
trabalhos previstos na Ata de Iguaçu (1966) adiantando os estudos e estru-
turando o ente paraguaio-brasileiro que se encarregaria das obras de
Itaipu, o governo argentino fazia acusações juridicistas e se utilizava da
imprensa para denunciar e tratar do assunto (FERRES, 2004, p.664). De
acordo com Moniz Bandeira (1994, p.195), o temor da Argentina era de
que o aproveitamento do Salto de Sete Quedas (na verdade, Itaipu acabaria
por se localizar 13 quilômetros abaixo) por parte do Brasil alterasse pro-
fundamente o equilíbrio de poder da Bacia do Prata por transformar a
região em um polo de desenvolvimento econômico que irradiaria a in-
fluência brasileira até a região subdesenvolvida e despovoada de
Missiones; daí teria sido, então, a ideia elaborada durante o governo de
Juan Carlos Onganía de utilizar o Direito Internacional para impedir o em-
preendimento hidrelétrico.
Para tanto, a Argentina trazia argumentos importantes, como o de
que a consulta prévia era a prática defendida pelos países da região desde
os anos 1930, quando o próprio Brasil tomava a frente sobre o assunto, e
tornava públicas as posições brasileiras precedentes. Em 1932, por exem-
plo, a Comissão Permanente de Direito Internacional Público do Rio de
Janeiro defendia que nenhum Estado poderia alterar o curso de um rio, se
esse fosse fronteiriço, sem consultar e obter consentimento dos demais
210 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

Estados afetados. Matias Spektor (2002, p.46-48) assinala que Azeredo da


Silveira, ao assumir a embaixada em Buenos Aires, reverteria a posição
defensiva que o Brasil estava tendo até o momento ao redigir um docu-
mento que listava abertamente os motivos do abandono da tradição,
apontando, segundo ele, os erros do instrumento que o país até então en-
dossava. No lugar da consulta prévia ou, como a Argentina por vezes
abordava “consulta prévia compulsória”, o Brasil passava a propor e a de-
fender a adoção de um princípio geral para toda a Bacia, que era o de que
Estados a montante dos rios internacionais não deveriam causar “danos
sensíveis” aos Estados a jusante. Era a elaboração de uma nova doutrina
para o tema e que era assim pensada pois tinha de ser dupla: ao mesmo
tempo que não permitisse que um Estado a jusante, no caso a Argentina,
paralisasse suas obras, era necessário levar também em consideração a
posição brasileira na Bacia Amazônica, onde o país estava a jusante, por
isso a defesa de um princípio de responsabilidade internacional, e não de
consulta prévia.
Em 1971, na IV Reunião de Chanceleres da Bacia do Prata, ocorrida
em Assunção, Luis Maria de Pablo Pardo, então Ministro das Relações Ex-
teriores e, portanto, Chefe da Delegação argentina à Reunião, apresentou
um projeto de resolução pelo qual os Chanceleres ajustavam os pontos
fundamentais sobre os quais havia consenso e que representariam a base
das discussões e das decisões sobre os recursos hídricos. Tal projeto de
resolução dizia, entre outros pontos, que:

1. Nos rios internacionais contíguos, sendo a soberania compartida, qualquer


aproveitamento de suas águas deverá ser precedido de um acordo bilateral
entre os ribeirinhos.
2. Nos rios internacionais de curso sucessivo, não sendo a soberania compar-
tida, cada Estado pode aproveitar as águas na medida de suas necessidades
sempre que não cause prejuízo sensível a outro Estado da bacia (FAJARDO,
2004, p.165).

Mario Gibson Barboza, Ministro das Relações Exteriores do Governo


Médici, relata, em livro sobre sua vida na diplomacia, que quando viu o
Bruna Gorgen Zeca; Gabriel Gaziero | 211

projeto apresentado na Reunião de Chanceleres da Bacia, não acreditava


no que lia e duvidava ser, ele próprio, capaz de formular texto que mais
bem atendesse aos interesses brasileiros do que aquele apresentado por
seu colega argentino. Contrariando as expectativas de que o Brasil se ma-
nifestasse contra o projeto, a resolução foi aprovada por unanimidade
pelos países da Bacia do Prata e foi cunhada “Declaração de Assunção”. Se
for possível considerar a fidelidade dos relatos, de acordo com Gibson Bar-
boza (1992, p.110-111), a Declaração de Assunção aprovada passaria a ser,
daí em diante, a mais forte proteção do Brasil contra as objeções da Argen-
tina no tocante à construção da hidrelétrica de Itaipu, pois o que se aplicava
em relação ao Paraguai era o primeiro parágrafo citado, isto é, o que trata
dos internacionais contíguos, e era exatamente o que o Brasil estava fa-
zendo: negociando um acordo bilateral com o país vizinho. Já no que se
referia à Argentina, o que se aplicava era o segundo ponto citado, e, em
conformidade com a Declaração, o Brasil poderia aproveitar as águas do
rio consoante suas necessidades desde que não causasse prejuízos sensí-
veis a outro Estado.
Ainda conforme Gibson, o equívoco da Argentina era pensar que os
termos da Declaração obrigavam a consulta prévia, devendo ser submeti-
dos, à sua apreciação, todos os planos para que o país apurasse se o Brasil
lhes causaria “prejuízos sensíveis” ou não. No entanto, como em Direito o
ônus da prova cabe a quem faz a acusação, o Chanceler brasileiro afirmava
que caberia a Argentina provar os prejuízos sensíveis, já que a posição bra-
sileira era de que Itaipu não lhes causaria os alegados prejuízos. Após a
Declaração de Assunção, Gibson nela se amparava e assegurava: “Nisso
finquei pé – e jamais admiti a tese argentina da consulta prévia”
(BARBOZA, 1992, p.111). Ademais, representativo da visão brasileira, o Mi-
nistro das Relações Exteriores relata:

A partir de certo momento das negociações com o Paraguai, ficou claro para
mim que, enquanto estivéssemos discutindo o Tratado (e demorou mais de
dois anos), os problemas com a Argentina cresceriam a um ponto quase into-
lerável, pois ela não perdia a esperança de impedir a concretização do acordo
212 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

que proporcionaria a construção da gigantesca hidrelétrica. E, com efeito,


exerceu, para isso, todo tipo de pressão imaginável. [...] Era uma verdadeira
guerra diplomática. Estava convencido de que chegaríamos finalmente a um
entendimento com a Argentina, mas só quando o projeto se transformasse
num tratado e este se materializasse em trabalhos de engenharia, instalado o
canteiro de obras (BARBOZA, 1992, p.111-112).

As pressões a que Gibson Barboza se refere são os acordos bilaterais


que a Argentina buscava firmar com Estados lindeiros, como o Chile, o
Uruguai e a Bolívia, e a tentativa de introduzir a “consulta prévia” no di-
reito internacional através da inclusão do princípio nas resoluções das
diversas instituições e conferências internacionais (ESPÓSITO NETO,
2014, p.145). No âmbito das pressões pela via bilateral, a Argentina nego-
ciava declarações que angariassem o apoio dos países sul-americanos à
tese da consulta prévia obrigatória em troca de concessões comerciais sig-
nificativas. Com o Uruguai, por exemplo, a Argentina obteve o apoio a suas
teses mediante concessões tarifárias unilaterais. Já no âmbito das institui-
ções e conferências internacionais, Buenos Aires destacava seu ponto de
vista em reuniões multilaterais, e o primeiro embate na arena internacio-
nal global ocorreu em Estocolmo, na Conferência das Nações Unidas sobre
o Meio Ambiente, em 1972 (SOUTO, 2014, p.111).
Na Conferência de Estocolmo, o Brasil participou de forma intensa e
buscou articular as posições dos países em desenvolvimento de modo a
defender seus interesses, apesar das públicas oposições entre Brasil e Ar-
gentina (DORATIOTO; VIDIGAL, 2014, p.95). A divergência em âmbito
global entre ambos os países se dava pelo texto do Princípio 20 da Decla-
ração a ser adotada na Conferência da ONU sobre o Meio Ambiente. O
impasse em torno da redação do Princípio ou Parágrafo 20 era devido à
parte adicional que a Argentina e um amplo grupo de países (muitos dos
quais convencidos pela Argentina) gostariam de inserir no texto. A pri-
meira versão do Princípio 20 da Declaração era:

Informações pertinentes devem ser fornecidas pelos Estados sobre atividades


ou desenvolvimento dentro de suas jurisdições ou sob o seu controle, sempre
Bruna Gorgen Zeca; Gabriel Gaziero | 213

que acreditem, ou tenham razão para acreditar, que tais informações são ne-
cessárias a fim de evitar o risco de resultados adversos significativos no meio
ambiente de áreas fora de sua jurisdição (BRASIL, 1972, p.24).

A essa redação, a Argentina buscava acrescentar:

Essa informação deve ser igualmente fornecida a pedido de qualquer Parte


envolvida, com antecedência e com os dados disponíveis, de maneira a que as
Partes mencionadas acima possam informar e julgar por si próprias a natu-
reza e os prováveis efeitos dessas atividades (LAGO, 2006, p.138).

Com a redação original, as partes “sempre que acreditem, ou tenham


razão para acreditar” e “significativos” eram elementos essenciais de sal-
vaguarda para a obrigação informativa, ou seja, para que o Brasil não se
visse obrigado à consulta prévia. No entanto, a proposta argentina anga-
riava numerosos adeptos, seja porque muitos países são Estados que se
encontram a jusante de importantes rios, como o Nilo, que nasce abaixo
da linha do Equador e se estende até o Mediterrâneo, sendo-lhes interes-
sante que sejam informados ou que possam solicitar informações de
Estados a montante, ou porque, conforme Henrique Altemani de Oliveira
(2005, p.147), o Brasil ainda apoiava Portugal e essa era uma forma de os
países africanos se oporem ao Brasil devido à questão da descolonização.
Ao final, a questão não foi resolvida durante a Conferência, pois todas as
decisões sobre o texto da Declaração eram tomadas por consenso, e não
por votação, o que evitou a derrota brasileira. Decidiu-se, então, pela reti-
rada do Princípio 20 da Declaração e que o antagonismo brasileiro-
argentino seria levado para a XXVII Assembleia Geral da ONU (AGNU).
Durante a posterior Assembleia Geral da ONU, ainda em 1972, os re-
presentantes do Brasil e da Argentina passaram por penosas negociações,
pois se a questão fosse submetida à votação, a derrota brasileira seria pra-
ticamente certa. Diante da derrota iminente, o Chanceler brasileiro,
Gibson Barboza, procurou buscar um entendimento direto com o seu par
argentino, Brigadeiro MacLaughlin, que resultou no texto conjunto apre-
sentado ao plenário da XXVII AGNU, o qual foi aprovado por 115 votos
214 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

favoráveis e passou a ser a Resolução nº 2995, também chamada “Acordo


de Nova York”, ou “espírito de Nova York” (ESPÓSITO NETO, 2014,
p.145). A Resolução 2995 estabelecia que, na exploração de recursos natu-
rais, os Estados não deveriam causar prejuízos sensíveis a outros países,
que a cooperação entre Estados seria efetivamente alcançada se informa-
ções públicas e oficiais dos empreendimentos realizados forem fornecidas
e que as referidas informações técnicas devem ser dadas e recebidas no
melhor espírito de cooperação, sem que isso sirva para que cada Estado
atrase ou impeça os programas de desenvolvimento de outros países
(AGNU, Res. 2995). Na Argentina, a Resolução negociada por seus repre-
sentantes recebeu duras críticas da imprensa por ser interpretada como
um texto genérico, que não refletia suas reivindicações.
No ano seguinte, em abril de 1973, foi enfim assinado o Tratado de
Itaipu entre Brasil e Paraguai, e em maio já era criada a empresa binacio-
nal, ficando claro que o Brasil não havia dado voz ao princípio de consulta
prévia defendido pela Argentina. A Argentina denunciava o “Acordo de
Nova York”, pois a generalidade da Resolução 2995 impossibilitava sua
eficácia, além de sua redação estimular divergências, o que Azeredo da Sil-
veira concordava (SPEKTOR, 2002, p.59). Ademais, pouco tempo após a
assinatura do Tratado de Itaipu, a Argentina assinava com o Paraguai o
acordo de Corpus (1973), que previa a construção de uma represa a poucos
quilômetros de Itaipu. A partir de então, o Governo argentino solicitava ao
Brasil a abertura de negociações para “harmonizar” ambos os projetos. O
principal problema era compatibilizar a altura da barragem e o número de
turbinas. Será nesse contexto que vai se dar o que alguns autores chamam
de “erosão da cordialidade oficial” do Brasil em relação à Argentina, cor-
dialidade que já vinha se deteriorando desde 1966 (ESPÓSITO NETO,
2014, p.146).
Bruna Gorgen Zeca; Gabriel Gaziero | 215

Do Tratado de Itaipu (1973) ao Acordo Tripartite Itaipu-Corpus


(1979)

Ernesto Geisel foi empossado como Presidente do Brasil em março


de 1974 e, para o Itamaraty, designou Azeredo da Silveira - que já fora
embaixador brasileiro em Buenos Aires - em sinal de manutenção da po-
sição firme na contenda com a Argentina. Sua política externa se
desenvolveu de acordo com uma modificação no contexto internacional.
Com a détente, o Brasil se vê diante da oportunidade de se projetar inter-
nacionalmente de maneira autônoma em um cenário global de mitigação
dos atritos Leste-Oeste. Assim, foi substituída uma lógica regida pela se-
gurança hemisférica por uma do desenvolvimento econômico, que
constitui o cerne dessa abordagem própria ao governo Geisel, autodeno-
minada Pragmatismo Responsável e Ecumênico. A partir dela, o Brasil
atuou frente ao alívio das restrições ideológicas que orientaram o pensa-
mento diplomático na década anterior, levando o país a fomentar o
desenvolvimento industrial e a ampliar a sua alçada de poder regional,
ambicionando também um espaço no sistema internacional de poder
como uma potência de médio-porte (FAJARDO, 2004, p.46-48; SPEKTOR,
2002, p.63).
A América Latina tinha uma posição de protagonismo na política ex-
terna brasileira: para concretizar suas pretensões era necessário explorar
sua posição de vantagem regional, expandindo sua influência e dando va-
zão à sua produção nos mercados latino-americanos, ao mesmo tempo que
prevenia a formação de um bloco hispânico que o opusesse, por meio de
acordos comerciais e investimentos (FAJARDO, 2004, p.46-48). Servindo
a esse propósito, a autonomia energética constituía uma demanda funda-
mental para o desenvolvimento capitalista avançado do país, trazendo ao
âmago de suas preocupações o desenvolvimento de tecnologia nuclear, em
parceria com a Alemanha Ocidental, e a conclusão de Itaipu. Esta, com seu
projeto já consolidado, estabeleceu-se como “fato consumado” - fechado
para discussões no âmbito do direito internacional -, uma vez que a usina
216 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

seria responsável por fornecer a energia que sustentaria a sua industriali-


zação e crescente população, além de estabelecer laços profundos com o
Paraguai (SPEKTOR, 2002, p.36).
Dessa forma, a orientação dessa nova fase do paradigma desenvolvi-
mentista (SPEKTOR, 2002, p.68) parece corroer as vias tradicionais da
cordialidade oficial, enquanto o Brasil rejeita os contínuos protestos argen-
tinos e decide por avançar o projeto de Itaipu. Silveira, com respaldo de
Geisel, estava determinado a não discutir o tema com a Argentina, afir-
mava que Itaipu era uma questão de soberania e assunto brasileiro-
paraguaio, assim como Corpus era argentino-paraguaio (FERRES, 2004,
p.667). Ao mesmo tempo, corroborando para a negativa de Silveira, a pa-
ralisação dos projetos argentinos dificultava a realização de negociações,
uma vez que enquanto Itaipu era um projeto consolidado e em execução,
a Argentina tratava a partir de um conjunto de intenções pouco definidas
que lhe pareciam apenas a interposição de obstáculos ao desenvolvimento
brasileiro (FAJARDO, 2004, p.91-92).
Na Argentina, Juan Domingo Perón chegou ao poder para um terceiro
mandato em outubro de 1973, após vencer as eleições convocadas devido
à renúncia do peronista Héctor José Cámpora, em um movimento que pro-
porcionou sua anistia política e retorno ao país. Para a política externa com
relação à América Latina, Perón pretendeu reaver o prestígio internacional
argentino - rompendo com o isolamento e a imobilidade que a caracteri-
zava desde o início do governo militar em 1966 - de uma forma
propositiva, a partir de acordos comerciais e de desenvolvimento de infra-
estrutura (FERRES, 2004, p.665).
Além da denúncia do “Acordo de Nova York”, que representava a
amálgama das proposições brasileiras, o novo presidente impulsionou as
negociações com o Uruguai e o Paraguai: com o primeiro foram firmados
o Tratado del Río de la Plata y su Frente Marítimo, de 19 de novembro de
1973, e o acordo para um empreendimento de eclusas no Salto Grande, de
abril de 1974; e com o segundo, o Tratado de Yacyretá-Aipipé, de 03 de
dezembro de 1973, e estudos conjuntos para a realização da barragem de
Bruna Gorgen Zeca; Gabriel Gaziero | 217

Corpus (BARROS, 2017, p.101-102; FAJARDO, 2004, p.74). A convergência


temática das investidas internacionais argentinas nesse período não era
por acaso: ao firmar acordos de cooperação para o aproveitamento hídrico
na Bacia do Prata, dentre eles a construção de uma usina hidrelétrica (Cor-
pus) no mesmo curso d’água (rio Paraná) a apenas dezessete quilômetros
a jusante de Itaipu, a Argentina fortalecia seu argumento sobre a necessi-
dade de compatibilização dos projetos - a fim de garantir sua viabilidade
técnica e econômica -, por meio de um acordo tripartite que resguardasse
seus interesses na Bacia e, ao mesmo tempo, projetasse uma imagem con-
ciliadora no âmbito internacional (ESPÓSITO NETO, 2014, p.146). A nova
atitude da Argentina trouxe a esperança de que a questão de Itaipu final-
mente teria um desfecho. Em junho de 1974, Silveira se encontrou com o
presidente argentino na Casa Rosada, onde conversaram sobre um encon-
tro para tratar da cooperação no aproveitamento dos recursos do rio
Uruguai e também da compatibilização dos projetos de Itaipu e Corpus,
dada a sua proximidade geográfica (SPEKTOR, 2002, p.76).
Complementar às negociações bilaterais com os países da Bacia do
Prata e em consonância com a denúncia do “Acordo de Nova York” - e, por
consequência, da Resolução nº 2995 AGNU -, a diplomacia argentina avan-
çou no processo de internacionalização da questão. Foi no sentido de
reverter a polêmica derrota na ONU de 1972 que a Argentina propõe sua
tese, que já havia sido vitoriosa na IV Conferência de Países Não-Alinhados
em Argel (setembro de 1973) para a XXVIII Assembleia Geral das Nações
Unidas, foro no qual sai mais uma vez vitoriosa. Consegue inserir o termo
“consulta prévia” (prior consultation) nas recomendações da Resolução nº
3129, Cooperação no campo do meio ambiente com relação aos recursos
naturais compartilhados por dois ou mais Estados:

2. Considera também que a cooperação entre países compartilhando tais re-


cursos naturais e interessados na sua exploração devem se desenvolver com
base em um sistema de informação e consulta prévia dentro da estrutura das
relações normais existentes entre eles; [...]
218 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

4. Incita aos Estados Membros, dentro da estrutura de suas relações mútuas,


a considerar integralmente as prescrições da presente resolução (AGNU, Res.
3129, grifo do autor, tradução nossa).

Porém, o Brasil se negou a se submeter à Resolução nº 3129 que, a


partir do seu inciso 4 (supracitado), possui caráter de recomendação (Ur-
ges Member States), não possuindo sanções ou efeitos coercitivos. Decide,
portanto, por não acatar o documento, sustentando pela manutenção da
validade do entendimento jurídico firmado na Declaração de Assunção
(FAJARDO, 2004, p.75). Com a presença de Geisel e Stroessner, em maio
de 1974, tomam posse o Conselho de Administração e a Diretoria Execu-
tiva do ente binacional que gerenciaria o empreendimento. Dois meses
depois, com a morte de Perón, em julho de 1974, as discussões perdem
fôlego e se mantêm paralisadas perante a disputa de teses antagônicas en-
tre “danos sensíveis” e “consulta prévia” (FERRES, 2004, p.666).
O desenrolar da política argentina que se sucedeu à ascensão de Ma-
ría Estela Martínez de Perón à presidência, após a morte de seu marido,
contribuiu muito para estagnar as negociações, enquanto o Brasil e o Pa-
raguai seguiam com o projeto de Itaipu, cujas obras se iniciaram em
janeiro de 1975. A Argentina, sob Isabelita, seria tomada pela violência en-
tre o exército, as guerrilhas e o radicalismo anticomunista, este com a
cumplicidade do governo, na pessoa do Ministro Juan Lopéz Rega, líder da
Alianza Anticomunista Argentina (AAA ou Triple A) (SCHMIDLI, 2013,
p.47). O governo peronista agonizava em meio a uma profunda crise eco-
nômica e política - os gabinetes eram modificados diversas vezes ao ano -
e era incapaz de conter a violência entre os grupos armados que tomavam
as ruas impunemente. O jornal La Opinión, segundo Novaro & Palermo
(2007, p.24), registrou um assassinato de cunho político a cada cinco ho-
ras no mês que antecedeu o golpe militar, em 24 de março de 1976. Apesar
de não ser o objetivo deste trabalho se debruçar sobre o colapso instituci-
onal que precedeu a tomada de poder pelas Forças Armadas na Argentina,
esse processo certamente impôs muitos transtornos ao trabalho de seus
Bruna Gorgen Zeca; Gabriel Gaziero | 219

diplomatas. Nesse sentido, ao relembrar que o governo de Isabelita teve


quatro chanceleres em menos de 21 meses, Fajardo (2004, p.56) reforça:

Perante tal quadro de radicalização política e de falta de liderança e de poder


decisório por parte da chefe de governo, a diplomacia argentina padece da
constante troca de chanceleres e da indefinição quanto à designação de inter-
locutores legítimos e autorizados para negociarem com o Brasil a controvérsia
de Itaipu-Corpus (FAJARDO, 2004, p.56).

O golpe conduziu ao poder uma nova coalizão que conjugava milita-


res, tecnocratas neoliberais, burguesia monopólica e o capital estrangeiro.
Esses setores dominantes possuíam interesse na resolução das tensões
com o Brasil e no estabelecimento de um ambiente de estabilidade política
favorável ao investimento externo e à cooperação regional (SCHENONI,
2018, p.534). Mas o Proceso de Reorganización Nacional, liderado por
Jorge Rafael Videla, não conseguiu projetar internacionalmente essa ima-
gem favorável à atração de fundos para seu projeto de industrialização e
integração capitalista. O regime se chocou com a instabilidade e desconfi-
ança no âmago da própria Junta Militar, com a beligerância das Forças
Armadas, envolvidas em conflitos internacionais com o Chile pelo Canal
de Beagle (1978) e com a Inglaterra, na Guerra das Malvinas (1982). Tam-
bém, o Proceso por suas múltiplas violações de direitos humanos
deteriorou suas relações com os Estados Unidos, em especial com o go-
verno de Jimmy Carter, que aplicou duras sanções ao regime argentino a
partir de 1977 (SCHENONI, 2018, p.532-533; SCHMIDLI, 2013).
Oscar Héctor Camilión, um dos precursores do “espírito de Uruguai-
ana” e dirigente do jornal portenho El Clarín, foi nomeado embaixador
argentino em Brasília. Foi empossado com a missão de reverter a hostil
opinião pública da imprensa argentina e de setores militares com relação
à política externa do Brasil, demonstrar a Silveira que o empreendimento
brasileiro-paraguaio poderia se beneficiar da legitimidade oficial que so-
mente a Argentina poderia oferecer (SPEKTOR, 2002, p.83) e,
principalmente, conseguir um acordo tripartite com o Brasil e Paraguai
que vinculasse o desenvolvimento dos projetos de Itaipu e Corpus
220 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

(FERRES, 2004, p.668). O novo embaixador era versado em assuntos bra-


sileiros e possuía muito prestígio nos círculos políticos e jornalísticos de
Brasília. Fazendo uso de uma longa lista de contatos, fez de sua residência
um ponto de sociabilidade onde reunia políticos, burocratas e jornalistas
com quem trocava informações sobre as preocupações argentinas e fazia
uso da repercussão nos jornais para pressionar o governo brasileiro por
um acordo. O estilo irreverente e midiático de Camilión gerou atritos com
o chanceler brasileiro, muito mais reservado, que repudiava o abandono
da abordagem diplomática tradicional na condução dos negócios
(SPEKTOR, 2002, p.86). O embate entre as duas personalidades, tempe-
rado pela desconfiança de Silveira com relação às proposições do
embaixador argentino - essas eram exacerbadas pelas inconsistências en-
tre a posição conciliadora de Camilión e uma muito mais conflitiva vinda
do Palacio San Martín -, em vez de avançar para um acordo, acirrou ainda
mais as negociações, rompendo de vez com a “cordialidade oficial”.
O Tratado de Cooperação Amazônica (TCA, de 1978), de iniciativa
brasileira, teve como uma de suas motivações os temores de internaciona-
lização da Amazônia. Além de consolidar sua soberania sobre sua porção
do bioma, o TCA fortaleceu suas relações com os países da região amazô-
nica através de um instrumento que afirmava a autonomia dos países
signatários para tratar da questão do desenvolvimento econômico vincu-
lado ao equilíbrio ecológico. Em uma ruptura com a “cordialidade oficial”,
o país avança na cooperação regional sob sua tutela, através de um acordo
multilateral que, enquanto envolvia Peru, Bolívia, Venezuela, Guiana, Su-
riname, Colômbia e Equador, voltava-se para o Norte e afastava a
possibilidade de isolamento regional devido ao conflito com a Argentina
(ESPÓSITO NETO, 2014, p.148). No mesmo período, a diplomacia brasi-
leira assegurou o fortalecimento de suas relações com a Bolívia, apoiando
suas pretensões de uma saída para o mar, e com o Uruguai, com um tra-
tado sobre a cooperação na exploração da Lagoa Mirim (Tratado da Lagoa
Mirim, de 20 de maio de 1974) (SPEKTOR, 2002, p.95). Dessa forma, Sil-
veira pretendia demonstrar um caráter conciliador sobre o
Bruna Gorgen Zeca; Gabriel Gaziero | 221

aproveitamento de recursos hídricos internacionais, ao mesmo tempo que


fortalecia seus argumentos jurídicos contra Buenos Aires. Mais ainda, con-
forme Moniz Bandeira (1994, p.196), a situação era especialmente
preocupante para a Argentina pelo esforço brasileiro em subverter a rota
natural do escoamento da produção da região meridional da América do
Sul, que se dava através do fluxo em direção à foz do Prata, investindo na
criação de corredores de exportação e no equipamento de seus portos de
Santos, Paranaguá e Rio Grande, que passaram a competir com o de Bue-
nos Aires.
A deterioração das relações entre os dois países chegou a um ponto
crítico em 1977, após uma série de negativas brasileiras à realização de
negociações tripartites. Em represália, a Argentina fecha o túnel Las Cue-
vas-Caracolas, via de acesso ao Chile na travessia dos Andes, aos veículos
de carga brasileiros. O bloqueio, sob alegação de não pagamento de tarifas
obrigatórias, implicou em um desvio de cerca de dois mil quilômetros
agregando custos e riscos às cargas, muitas delas perecíveis (BANDEIRA,
1994, p.197; FAJARDO, 2004, p.97). Apesar dos dirigentes militares argen-
tinos e brasileiros terem contribuído na tensão crescente das negociações,
por sua orientação geopolítica, não aspiravam por uma solução por via
armada, mesmo que alguns setores mais belicosos, especialmente na Ar-
gentina, tratassem da possibilidade.

Ambos os países estavam a sofrer pressões dos Estados Unidos, onde o presi-
dente Jimmy Carter, do Partido Democrata, adotava a defesa dos direitos
humanos como um dos vetores de sua política externa. O Brasil, principal-
mente, por causa do Acordo Nuclear com a República Federal da Alemanha
[...] Por outro lado, a Argentina estava na iminência de travar uma guerra com
o Chile, pelo Canal de Beagle e, naquelas circunstâncias, não lhe convinha ali-
mentar tensões na sua retaguarda, arriscando-se, simultaneamente, a um
conflito com o Brasil (BANDEIRA, 1994, p.197).

Comprometendo ainda mais as negociações por via diplomática, a


desconfiança brasileira com relação à observância argentina do direito in-
ternacional cresceu, uma vez que a Argentina rejeitara o resultado do
222 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

laudo arbitral realizado, a pedido de Buenos Aires, sobre a disputa pelo


Canal de Beagle. Para resolver esse impasse, que avançava no sentido da
beligerância, mobilizou-se paralelamente uma “diplomacia militar”
(SPEKTOR, 2002, p.97), que se deu no âmbito das Forças Armadas de am-
bos os países. Em julho de 1977, em Foz do Iguaçu, se encontraram
Orlando Agosti e Délcio Jardim de Mattos, respectivamente, o membro da
Junta Militar argentina e comandante da Força Aérea, e o chefe do Estado-
Maior da Aeronáutica brasileira. Também houve a viagem de Gualter Me-
nezes de Magalhães, chefe do Estado-Maior da Marinha brasileira a
Buenos Aires, onde se reuniu com o presidente Videla. E, por fim, Emilio
Massera, também membro da Junta e comandante da Marinha argentina,
visitou o Rio de Janeiro, e se encontrou com Geraldo de Azevedo Henning,
Ministro da Marinha. O resultado dessas conversações foi a mitigação das
tensões, com uma iniciativa do Itamaraty para reuniões tripartites e a
abertura do túnel Las Cuevas-Caracolas, em 27 de julho de 1977
(FAJARDO, 2004, p.98).
Incitadas pela “diplomacia militar”, em setembro de 1977 se iniciam
as discussões tripartites acerca da questão das barragens de Corpus e
Itaipu. Porém, com a continuidade do dissenso após diversos encontros
que expuseram as contradições entre Palacio San Martín e Oscar Camilión,
Buenos Aires retrocede à tese da consulta prévia e desvia sua atenção para
a Copa do Mundo de 1978, sediada pelo país. Em protesto, Silveira dá um
ultimato ao embaixador argentino (FAJARDO, 2004, p.98; SPEKTOR,
2002, p.100). Em 12 e 13 de setembro de 1978, a partir de uma sugestão
de Camilión, as três partes se reúnem no Rio de Janeiro para uma tratativa,
o objetivo do encontro seria a preparação de um anteprojeto de acordo,
que ficou conhecido como Documento do Rio de Janeiro. A proposta para
finalmente dar cabo à questão consistia em uma vitória brasileira, defi-
nindo a cota de Corpus em 105 metros e vinte turbinas em Itaipu, com
apenas dezoito em operação simultânea. Silveira propôs que o documento
a ser assinado fosse uma troca de Notas Técnicas, mas Camilión insistiu
Bruna Gorgen Zeca; Gabriel Gaziero | 223

na necessidade de um Acordo Tripartite, que, politicamente, repercutiria


bem na Argentina (SPEKTOR, 2002, p.100).
Parecia que a questão estava a ponto de ser resolvida, o que repre-
sentaria uma grande vitória para a gestão de Silveira no Itamaraty. Porém,
houve uma virada em outubro, quando o Ministro de Minas e Energia,
Shigeaki Ueki, convenceu o presidente a manter vinte turbinas simultâ-
neas em Itaipu, violando os termos do Documento do Rio de Janeiro
(ESPÓSITO NETO, 2014, p.147). O rompimento do trato levou a Argentina
a demandar uma ampliação da cota de Corpus, em janeiro de 1979. Já não
havia mais possibilidade de alcançar um entendimento durante o governo
Geisel, a responsabilidade agora caía sobre os ombros de seu sucessor,
João Baptista Figueiredo.
Figueiredo comprometeu-se desde o princípio com a resolução da
questão, mudando o tom das negociações para acomodar a integração re-
gional com a participação da Argentina (FERRES, 2004, p.670). Para isso,
encarregou o chanceler Ramiro Saraiva Guerreiro de implementar a Di-
plomacia do Universalismo, para a qual a América Latina e, em especial, a
Argentina, eram prioritárias (FAJARDO, 2004, p.50). Em 10 de outubro de
1979, firmou-se o Acordo Tripartite Itaipu-Corpus entre Argentina, Brasil
e Paraguai, cujos termos, designados pelo Brasil, haviam sido estabeleci-
dos um ano antes, no Rio de Janeiro (o Brasil acatou as dezoito turbinas
em operação em Itaipu e a Argentina, os 105 metros para Corpus), a forma,
por sua vez, se deu em consonância com os interesses argentinos
(ESPÓSITO NETO, 2014, p.147; SPEKTOR, 2002, p.103).

Considerações finais

As relações entre Argentina e Brasil dão o tom da articulação de for-


ças políticas e econômicas mais substancial no concerto sul-americano
(FERRES, 2004, p.661). As duas maiores potências do subcontinente pos-
suíam uma longa trajetória de condução de seus assuntos externos a partir
224 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

de uma lógica de “cordialidade oficial”, de cunho preventivo, correspon-


dente à dimensão do equilíbrio de forças que constituíram por boa parte
de suas existências independentes. Porém, a partir da segunda metade do
século XX, o país austral se vê em uma crescente diferença de poder com
relação ao seu vizinho ao Norte: entre 1950 e 1970, o Brasil triplicou seu
PIB com relação ao argentino e a perspectiva era de que essa distância não
pararia de crescer (FAJARDO, 2004, p.67).
O processo de esgotamento desse equilíbrio, com o consequente co-
lapso da “cordialidade oficial” é o pano de fundo que perpassa o objeto
deste trabalho. Isso se dá uma vez que, enquanto o Brasil, em um projeto
de projeção internacional como potência de médio porte, pretende expan-
dir seu leque de relações bilaterais e influência regional, além de garantir
o abastecimento energético para a industrialização e o crescimento demo-
gráfico exponencial (FAJARDO, 2004, 66; SPEKTOR, 2002, p.63), a
Argentina, por sua vez, sofre com a instabilidade política, a crise econô-
mica e, como consequência, a inconsistência diplomática, que a fazem
responder de forma contraditória aos avanços do seu adversário.
O conjunto de fatores externos e domésticos que permearam o pro-
cesso de negociação de Itaipu favoreceram uma modificação da lógica
conflitiva para uma cooperativa, efetivando uma verdadeira reestrutura-
ção da natureza estratégica das relações entre os dois países. Ao Brasil,
coube reacomodar em uma nova posição seu antigo rival sul-americano,
abandonando a prevenção e a contenção, tornadas supérfluas pela vanta-
gem brasileira, mas ainda mantendo a Argentina em uma posição de
destaque em suas relações. Essa nova posição foi a da cooperação regional,
cujo marco inicial é a assinatura do Acordo Tripartite Itaipu-Corpus, em
1979 e, após uma aproximação estável durante a década de 1980, é conso-
lidada no Tratado de Assunção, de 1991, que constituiu o Mercosul
(FERRES, 2004, p.670-1; SCHENONI, 2018, p.535; SPEKTOR, 2002,
p.135).
Bruna Gorgen Zeca; Gabriel Gaziero | 225

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11

Aos sujeitos debaixo do palanque:


crescimento da cidade e pobreza (Porto Alegre, 1975-1979)

Alexandra Lis Alvim 1

Fotografia 1 – Inauguração da Unidade Vicinal da Nova Restinga, 28/08/1976.

Fonte: Acervo do Gabinete do Prefeito (Fototeca Sioma Breiteman / Museu de Porto Alegre)
Fotógrafo: Otacíliofreitas. Reg. 10.60.

Um pouco de mofo corrói duas folhas de contatos fotográficos da


caixa número noventa abrigada no sótão do Solar Lopo Gonçalves, na ou-
trora chamada Rua da Margem do Riacho, em Porto Alegre2. Com o título
de “Inauguração da Terceira Unidade Vicinal da Nova Restinga”, as duas
folhas são compostas por pequenas miniaturas de imagens que contam
uma pequena história do dia vinte e oito de agosto de 1976. Têm cheiro de
pó e de tempo, como frequentemente costumam ser as coisas do passado.
Ainda que se tratassem de fotos da inauguração de uma parte de um

1
Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em História da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
Bolsista CAPES.
2
O Solar Lopo Gonçalves, construído entre 1845 e 1945, abriga hoje o Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo, que
guarda o Acervo da Fototeca Sioma Breitman.
Alexandra Lis Alvim | 229

grande projeto habitacional desenvolvido em Porto Alegre durante a Dita-


dura Civil-Militar, pouco vemos nelas seus moradores. As autoridades,
proferindo seus discursos, tomam boa parte dos enquadramentos das fo-
tografias, as quais por vezes dividem espaço com os automóveis
imponentes das comitivas e o contorno das casinhas que compõem a pai-
sagem do bairro. Um grande palanque e suas pessoas absorvem as lentes
do fotógrafo Octacílio Freitas e destaca, junto aos corpos das autoridades,
uma grande faixa: “Este é um país que vai pra frente!”.
Estamos na metade dos anos setenta e o golpe de Estado conduzido
pelas Forças Armadas já estava no seu décimo segundo aniversário. A faixa
remetia a um dos slogans do quarto presidente militar, o General Ernesto
Geisel, e sua empreitada em manter o estado autoritário confiante ao
mesmo tempo que a economia começava a sentir os efeitos do fim do tão
propalado “milagre econômico”3. Muita coisa havia ocorrido naqueles doze
anos: os generais que se intercalaram no poder abriram as portas do país
ao capital internacional, instauraram um regime de censura e perseguição
aos opositores e insuflaram os abismos sociais entre ricos e pobres no país.
Estradas foram abertas, viadutos foram construídos e muitos corpos fo-
ram violados para afastar a “ameaça” comunista e manter um
determinado status quo favorável aos grupos no poder.
Neste ínterim, entre o início da ocupação da Restinga e a inauguração
de sua terceira unidade planejada, a cidade também se modificara: de Bra-
sília partiram coordenadas que fizeram das cidades, em especial das

3
Período entre 1967 e 1973 em que o Brasil conseguiu manter altas e inéditas taxas de crescimento em decorrência
das políticas implementadas pelo Ministério da Fazenda nos governos dos generais Costa Silva e Médici e por uma
conjuntura internacional favorável. Sobre a conjuntura econômica ler: PRADO, Luiz Carlos Delorme; EARP, Fábio
Sá. O “milagre” brasileiro: crescimento acelerado, integração internacional e concentração de renda (1967 – 1973).
In.: FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucilia de Almeida Neves (orgs.). O Brasil Republicano. Vol. 4. O tempo da Dita-
dura: Regime Militar e movimentos sociais em fins do século XX. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. Por
outro prisma, a relação entre a aplicação de certas medidas liberalizantes e os novos condicionantes políticos e econô-
micos que emergiam com a crise do “milagre” foram trabalhadas por Carvalho em artigo publicado em 2005 na
Revista Dados: CARVALHO, Aloysio. Geisel, Figueiredo e a liberalização do regime autoritário (1974-1985). Dados,
Rio de Janeiro, v. 48, n. 1, p. 115-147, mar. 2005. Em uma edição posterior da mesma revista, há uma interessante
reflexão de Salomão e Marques Junior sobre a adoção de políticas econômicas que privilegiaram o crescimento a
curto prazo no Brasil: SALOMAO, Ivan Colangelo; MARQUES JUNIOR, Karlo. De Milagres e Espetáculos: O Ciclo
Vicioso do Eterno País do Futuro. Dados, Rio de Janeiro, v. 61, n. 3, p. 735-772, set. 2018.
230 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

capitais, lugares estratégicos na organização da modernização do tipo au-


toritária e conservadora (MOTTA, 2014) que o regime buscava imprimir.
Porto Alegre mergulhou em um período de intensas reformas urbanas en-
tre a segunda metade dos sessenta e os setenta: novos parques, avenidas,
viadutos, monumentos. Novos projetos que remodelavam espaços tradici-
onais e alteravam sua morfologia e mobilidade. Substituía-se os bondes
pelos automóveis, a cidade se verticalizava e perseguia a aura de metró-
pole. Mas entre prédios enormes e avenidas, aglomeravam-se as vilas de
pobreza naquela cidade que só fazia crescer, e se transformavam num em-
pecilho físico e moral, para a concretude da imagem da cidade moderna
que os prefeitos nomeados pelos ditadores almejavam construir.
A placa no palanque amparava as autoridades, protegidas e destaca-
das no evento que simbolizava a realização dos ideais habitacionais e
sociais defendidos por militares e apoiadores. Dez anos antes das fotogra-
fias, a Restinga era uma imensa e pouco povoada região rural na fronteira
do município com Viamão, uma margem da cidade pouco tocada pelos ho-
mens do concreto. Em 1969, quando as políticas que resultariam no
“milagre econômico” começavam a aparecer, o engenheiro Telmo Thom-
pson Flores, o prefeito nomeado pelos generais, anunciava a assinatura
dos empréstimos que iniciariam a construção das unidades planejadas da
Restinga. Em 1971, era inaugurado o primeiro loteamento da Vila Nova
Restinga, projeto que se enquadrava nas diretrizes do Banco Nacional de
Habitação e que urbanizava uma parte do bairro aos moradores que se
adequassem a algumas exigências prévias, como possuir renda fixa. Che-
gou a receber mais de duas mil famílias até 1976 (FEDOZZI, 2000, p.24).
A Restinga Velha e a Nova, planejada na segunda metade dos anos ses-
senta, às margens do Arroio do Salso, se transformaram em um espaço de
confluência de centenas de famílias da região central da cidade, das vilas
Ilhota, Teodora, Marítimos e Santa Luzia. Famílias que, frente à “violência
sistemática do deslocamento e isolamento em espaço sem nenhuma estru-
tura” (ARAÚJO, 2018, p.2), viram suas vidas transformadas de maneira
“traumatizante e brutal” (PORTO ALEGRE, 1990, p.8) – mas, ainda que
Alexandra Lis Alvim | 231

desamparadas pelo poder público, seguiram em frente e reconstruíram


suas vidas e suas sociabilidades naquele que hoje é um dos maiores bairros
da capital.
Com o olhar para o alto do palanque, as fotografias não revelam os
rostos dos sujeitos cujas vidas eram atravessadas pela Ditadura na violên-
cia do cotidiano. Expulsos por coerção física ou econômica, os moradores
da Restinga personificam a forma de condução da construção da cidade
pelas margens da cidade tradicional em um período de singular e emble-
mático crescimento das disparidades sociais. A cidade se espraiou pelas
suas margens do sul ao norte, alimentada pelos fluxos migratórios dos
processos que expulsavam os trabalhadores do campo em direção aos cen-
tros urbanos. A cidade também se espraiava de maloca em maloca,
alimentada pela falta de políticas públicas suficientes que resolvessem o
imenso déficit de moradia e saneamento que o período demandava. Simul-
taneamente à cidade que erguia imponentes arranha-céus e viadutos, as
margens construíam os espaços dos excluídos da cidade formal e dos ser-
viços que a eles se associavam.
A arquitetura imprime nas cidades a função que o relato imprime ao
tempo. Para Paul Ricœur (2002, p. 11), as duas ações funcionam como ope-
rações configuradoras que dispõem a trama no tempo. Ao caminhar pelas
cidades, entre lugares de ode e horror ao Estado autoritário brasileiro, sen-
timos sensíveis marcas materiais que também narram outras
temporalidades e outras formas de pensar e habitar os espaços urbanos.
Por entre as ruas dos bairros centrais de Porto Alegre, a Ditadura é reme-
morada nas avenidas batizadas com os nomes dos seus generais, com os
viadutos que carregam as personalidades homenageadas por um regime
que defendia um perigoso nacionalismo ao mesmo tempo que praticava a
tortura de seus dissidentes em uma casa nobre do bairro Independência.
No parque da elite, o Monumento ao General Castello Branco, de 1979,
vigia “os destinos da pátria” na ideia de ser uma “consubstanciação do es-
pírito contemporâneo de um país em luta pelo progresso” (ALVES, 2004,
p.179).
232 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

Mas do mar das memórias que disputamos, entre todas as impres-


cindíveis defesas da legalidade e da não violabilidade de seres humanos,
pouco a historiografia tem conseguido se dedicar a outros tipos de vítimas
deste mesmo denso passado. Do mesmo modo como a Ditadura expandiu
os logradouros da cidade, também nós, como historiadores, relegamos ao
esquecimento, fruto de interesse e ocasião, um olhar mais atento aos su-
jeitos que permaneceram debaixo do palanque – ou talvez a distância
mesmo, observando a festa burocrática ao longe, levianamente sempre
tratados como bestializados (CARVALHO, 1987).
Ainda que os pobres da cidade já tenham sido tematizados por algu-
mas célebres referências da historiografia da cidade (PESAVENTO, 2001),
e dos ainda poucos trabalhos recente (ROSA, 2014; WEIMER, 2017;
ARAÚJO, 2018), falta muito que ser dito e investigado sobre estes sujeitos
que carregam nas costas os fardos mais pesados do nosso capitalismo.
Como outras cidades do Brasil, Porto Alegre assistiu a um crescimento
vertiginoso no número de seus habitantes entre as décadas de 1940 e 1980,
saltando de um pouco mais de 270 mil para 1.125.477 habitantes
(CABETTE; STROHAECKER, 2015), período em que o país passou a con-
centrar 2/3 de sua população nas áreas urbanas (FEDOZZI, 2000, p.17).
No início da década de 1970, a cidade irregular e informal remetia a 11,14%
do total da população porto-alegrense, que se dividia em cerca de cento e
vinte e quatro vilas, com um crescimento de 8% a 9% ao ano (FEDOZZI,
2000, p.22). Através de remoções forçadas e violentas, a expulsão da po-
pulação de baixa renda para áreas distantes do centro da cidade foi um dos
métodos mais utilizados pelas administrações da Ditadura para lidar com
este aumento populacional, vinculado à migração, à concentração de ri-
quezas e o empobrecimento interno dos habitantres da cidade (FEDOZZI,
2000, p.22).
As fotografias do contato 1060 funcionam como uma certa metáfora
do olhar que se fixa nos eventos e nas personalidades e ignora a multidão
daqueles invisibilizados que sofreram outros tantos tipos de violência pelo
mesmo momento ditatorial. Elas suscitam questionamentos sobre como a
Alexandra Lis Alvim | 233

Ditadura operou mudanças físicas, estruturais e sociais no espaço urbano


brasileiro enquanto, simultaneamente, fomentava políticas desenvolvi-
mentistas e transformava os hábitos de consumo – mas, principalmente,
como estas alterações envolveram diretamente a vida das camadas sociais
urbanas mais pobres, consumando um processo de segregação espacial
brutal. A cidade formal, isto é, a cidade que foi dotada de amplas perime-
trais durante a Ditadura, a cidade do Parque Moinhos de Vento e do
Complexo Viário da Conceição, não pode ser dissociada, ao contrário do
desejo de muitos, da cidade ocupada pelas vilas de malocas, constante-
mente expulsas e realocadas para regiões ainda mais longínquas. Esses
sujeitos providos de “vidas de sanduíche”, vidas em iminente despejo
(WEIMER, 2017)4 tiveram suas vidas drasticamente alteradas por caneta-
das burocráticas pois, junto com as remoções, iam-se também formas de
habitar, sociabilidades, espaços de educação, lazer e pertencimento.
O contato 1060 pertence a uma das centenas caixas com fotografias,
contatos fotográficos e negativos que constituem o Acervo Fotográfico Per-
manente da Coordenação de Comunicação Social do Gabinete do Prefeito,
que hoje pertence a Fototeca Sioma Breitman do Museu de Porto Alegre
Joaquim Felizardo. As imagens do Acervo conformam o registro fotográ-
fico mais completo sobre as atividades desenvolvidas por todas as
secretarias municipais entre 1960 e 2005, constituindo a documentação
visual retrospectiva mais importante da Prefeitura. Apesar disso, este con-
junto documental foi pouquíssimo explorado pela historiografia, uma vez
que, estando sob a guarda do Museu de Porto Alegre desde 2009, apenas
em 2015 passou a ser organizado e disponibilizado para pesquisa.
O debruçar sobre o conteúdo das caixas revela toda uma narrativa
visual sobre a ação do poder público municipal, registrando espaços antes,
durante e depois da execução de obras, arrolando cerimônias, celebrações,

4
“Vidas em sanduíche” é uma expressão utilizada por Weimer (2017), cunhada pela antropóloga Cláudia Fonseca,
para referir-se à “(...) precariedade e a instabilidade de projetos de ascensão social, sobretudo em um contexto de
iminente despejo (...) que evidencia deslocamentos espaciais, no mais das vezes compulsórios, que não vêm sendo
suficientemente observados e adequadamente dimensionados pela historiografia em sua importância para o processo
de metropolização das cidades brasileiras” (WEIMER, 2017, p.03).
234 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

festas e inaugurações, como também escolas, centros culturais, parques,


monumentos, vias e edificações. Abrir as caixas das décadas de 1960 e 1970
torna-se uma verdadeira experiência de imersão na história da metropo-
lização da cidade, das burocracias da ação estatal, da morfologia e na
toponímia dos lugares. Elas passeiam pela nossa história política recente e
testemunham imagens curiosas, como as de um encontro entre Paulo
Freire com o prefeito Sereno Chaise, poucos dias antes do golpe que cas-
saria seu mandato5. Percorre-se, com elas, a construção do polêmico Muro
da Mauá, observa-se nelas o aumento do fluxo viário, a construção dos
viadutos e das perimetrais, a inauguração de linhas de ônibus e as borbu-
lhantes aglomerações humanas na Rua dos Andradas.
Na imensidão de informações visuais que o Acervo abriga, saltam aos
olhos os conjuntos fotográficos que deslocam as lentes dos funcionários da
prefeitura das áreas centrais para as crescentes áreas de subabitação. Se
entre as caixas que abarcam as imagens da década de 1960 o tema é bas-
tante presente, na década seguinte o tema torna-se muito mais frequente,
especialmente absorvendo uma quantidade significativa das fotografias
produzidas na administração de Guilherme Socias Villela, economista no-
meado como prefeito de Porto Alegre em 1975. Nelas, sua imagem política
é construída no corpo a corpo das visitas que realiza em distintos espaços
da cidade que, desta vez, não se limitam ao espaço da cidade formal. As
vidas precárias (BUTLER, 2018), tornadas foco pelas lentes dos fotógrafos,
trazem consigo para o arquivo também novas legendas a serem somadas
à agenda das preocupações administrativas que as caixas do Gabinete tor-
nam monumento: inaugurações de redes de iluminação, encanamentos,
escolas e ruas pavimentadas. Imagens que percorrem comunidades que
cresciam alheias ao desenvolvimento urbano que a Porto Alegre metrópole
construía, dão rostos e corpos aos sujeitos herdeiros das vilas de malocas
e das consequentes políticas de habitação decorrentes.

5
PREFEITURA MUNICIPAL DE PORTO ALEGRE. Ministro da Educação e Paulo Freire com o Prefeito no Salão Nobre.
19/03/1964. Negativos com seis chapas. Fototeca Sioma Breitman (Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo).
Alexandra Lis Alvim | 235

A farta documentação imagética do Acervo permite elaborar a hipó-


tese de que a modernização empreendida pelos grupos no poder durante
a Ditadura Civil-Militar não pode ser dissociada do processo de segregação
espacial que insuflou a construção da periferia nas margens da cidade. A
recorrência dos temas das imagens parece ser sintomática da emergência
de determinados temas na esfera pública, temas que necessitavam ser re-
gistrados imageticamente e difundidos pelos meios oficiais e pela mídia no
período. As fotografias, deste modo, permitem a análise da função da fo-
tografia como dispositivo de controle, legitimidade e propaganda da
administração de Porto Alegre, bem como o caráter e a função do arquivo
que juntas a elas insinuam constituir.
Em maio de 1964, a cassação do prefeito trabalhista Sereno Chaise e
a nomeação de Célio Marques Fernandes resultariam no início de uma
longa sequência de sucessivos administradores municipais que passaram
a ser escolhidos dentro da política do novo regime. Na medida em que os
anos transcorriam e a polarização política se intensificava, aumentavam
os debates sobre a questão habitacional e sobre crescimento das vilas de
malocas na cidade. Uma das soluções encontradas para responder às de-
mandas do crescimento demográfico foi a construção de loteamentos pelo
serviço municipal, que na década de 1950 passaria a se chamar Departa-
mento Municipal da Casa Popular (que, em 1965, se transformaria no
DEMHAB). Estes loteamentos regulares, contudo, não conseguiram evitar
a formação de novos núcleos irregulares de subabitação, tanto nas áreas
mais próximas quanto distantes do centro da cidade, determinando um
“quadro de ocupação caótica do espaço urbano” (FEDOZZI, 2000, p.21).
Em abril de 1975, Guilherme Socias Villela tomou posse como prefeito
na administração municipal. No ano anterior, a posse na Presidência da
República do General Ernesto Geisel foi acompanhada pela expectativa de
afrouxamento do regime e pelo crescimento do Movimento Democrático
Brasileiro, MDB, nas eleições legislativas que, no Rio Grande do Sul, che-
gou a eleger um senador. Concomitantemente, o início de uma crise
econômica ofuscava o sucesso do “milagre” e elevava os custos de vida da
236 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

população. Com medo do crescimento do MDB nas eleições municipais de


1976, o governo federal promulgou a chamada “Lei Falcão”, que restringia
o debate político no rádio e na televisão, obrigando os candidatos a verea-
dor a intensificarem a campanha no contato direto com os eleitores. Neste
ano, o partido governista passou a controlar 83% das prefeituras brasilei-
ras e a maioria das câmaras de onze capitais (RODEGHERO; GUAZZELLI;
DIENSTMANN, 2013, p.131). Em Porto Alegre, dois vereadores eleitos pelo
MDB, Glênio Peres e Marcos Klassmann, mal chegariam a assumir seus
cargos, sendo cassados em janeiro de 1977.
O movimento estudantil e o movimento sindical, por outro lado, pas-
sariam a ocupar cada vez mais importância na luta pela redemocratização
nacional na segunda metade dos anos setenta. Foram acompanhados por
diversos movimentos sociais que entre a oscilação entre acirramento e
abertura política encontravam brechas para levantarem novas bandeiras
e assim proporem novas formas de participação política. Nesta conjuntura
nacional de lutas, cresceram em Porto Alegre movimentos de associações
de moradores de bairros. Estes passaram progressivamente a desenvolver
um conjunto de demandas relacionadas a reivindicação de direitos urba-
nos, como o uso do solo, dos equipamentos públicos e dos serviços
urbanos.
O ano de 1977 seria marcado pela retomada da autonomia das
atividades da Federação Rio-grandense de Associações Comunitárias e
Amigos de Bairro (FRACAB). Fundada na década de 1950, a FRACAB havia
permanecido muitos anos sob a influência das práticas autoritárias e
clientelistas da administração municipal (FEDOZZI, 2000, p.29). Entre as
manifestações do Movimento Contra a Carestia, que com um forte apelo
popular questionava o aumento do custo de vida, a FRACAB ajudou a
concatenar práticas oposicionistas ao modo como as políticas do regime
executavam a administração urbana. Segundo Fedozzi (2000, p.29), neste
momento, os movimentos sociais formalizariam suas demandas
percebendo-as como direitos e reagindo às concepções de ação meramente
Alexandra Lis Alvim | 237

burocráticas que delegavam aos agentes comunitários o status de sujeição


e sub-representação política nas decisões sobre a cidade.
O crescimento das lideranças nas áreas periféricas enfrentou as ve-
lhas práticas de cooptação frequentemente utilizadas pelos políticos, tanto
da ARENA como do MDB. Estas práticas de tutela, que também funciona-
ram como formas de obter benefícios para as localidades, passaram a cada
vez mais sofrer resistência por parte das associações de moradores, per-
mitindo a emergência de novos discursos que “ressaltavam os direitos
sociais da cidadania como algo a ser conquistado e universalizado”
(FEDOZZI, 2000, p.30). Tal contexto fomentou novas ações por parte do
poder municipal, entre as quais a criação de um programa de audiências
nos bairros da cidade, a elaboração de projetos de educação na periferia e
a criação do Gabinete de Atendimento das Reivindicações dos Bairros
(GAREB), além de meios para a participação da população no Conselho do
Plano Diretor.
Uma onda de mobilizações partiu da periferia de Porto Alegre no final
dos anos setenta, incorporando às discussões sobre a retomada das liber-
dades democráticas as demandas das comunidades da cidade informal e
contribuindo com o caráter democrático do momento. Estas manifesta-
ções incitaram a opinião pública e as autoridades a ouvir as demandas
destes núcleos marginalizados de Porto Alegre. Sessenta e um núcleos re-
alizaram algum tipo de manifestação entre 1978 e 1979, produzindo cerca
de 485 notícias nos jornais locais que denunciavam o abandono e as con-
dições precárias a que eram submetidas estas regiões. Para o sociólogo
Luciano Fedozzi, a comparação entre as regiões mais mobilizadas neste
período com as que mais significativamente estariam organizadas no fim
dos anos 1980 sugere “um elo histórico entre as reivindicações do final da
década de 1970 com a construção da experiência do Orçamento Participa-
tivo” (FEDOZZI, 2000, p.31) nas vésperas dos anos noventa.
Guilherme Socias Villela esteve à frente da Prefeitura de Porto Alegre
por dois mandatos consecutivos: entre abril de 1975 e abril de 1979 e entre
abril de 1979 e abril de 1983, quando foi substituído por João Antônio Dib,
238 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

o último prefeito não escolhido em uma eleição direta. Enquanto a admi-


nistração de Telmo Thompson Flores foi marcada pela força do Estado
autoritário e das políticas econômicas da Ditadura em grandes obras pú-
blicas e mudanças físico-urbanísticas, os oito anos de Villela
corresponderam ao ajustamento do crescimento da cidade a estas e a uma
reestruturação do planejamento, consolidando um modo de pensar o es-
paço urbano que vinha sendo elaborado nas décadas anteriores
(TOCHETTO, SOUZA, 2019). Isto é, se, por um lado, a administração do
primeiro imprimiu, com a autoridade do regime, uma sequência de obras
públicas e transformações que haviam sido delineadas no Plano Diretor de
1959, a segunda reorganizou a forma como a cidade era planejada, trace-
jando diretrizes que absorviam certas questões decorrentes dos problemas
que haviam emergido nos anos 1960 e 1970 e, por conseguinte, institucio-
nalizando um formato de planejamento e uma nova imagem urbana
coerentes com os princípios e o legado que o regime buscava instalar.
Em junho de 1979, a gestão de Villela promulgou o 1º Plano Diretor
de Desenvolvimento Urbano, resultado das discussões que envolviam uma
discussão técnica conduzida pela prefeitura desde a década de 1960 e que
incorporavam a premissa de planejar a cidade de forma integrada e global,
substituindo a ideia de processo e de modificações pontuais na estrutura
da cidade (do Plano de 1959) pela ideia de desenvolvimento e pela multi-
plicação de olhares envolvidos, mas ainda predominantemente técnicos e
científicos. O PPDU expressou a consolidação jurídica local de um olhar
que era perpassado por distintas e intensas variáveis que haviam modifi-
cado as cidades brasileiras nas duas décadas de regime. Desde 1973, a
criação das regiões metropolitanas de Porto Alegre e outras sete capitais
pelo governo federal sinalizava a necessidade do entendimento destas ci-
dades para além dos limites municipais, abrangendo em seu planejamento
as interações e as relações de dependência que tais espaços desenvolviam
com seus entornos (VIEGAS, 2016). Em outras palavras, ao longo dos anos
setenta ninguém mais poderia contestar que Porto Alegre havia se tornado
oficialmente uma metrópole e que qualquer planejamento que não levasse
Alexandra Lis Alvim | 239

em conta sua relação com os municípios vizinhos era descabido. O PPDU,


por isso, se materializava como um conjunto escrito e científico das pro-
posições das administrações tecnicistas da Ditadura e, principalmente,
como instrumento de gestão que se direciona a cidade do porvir: que cava
um lugar para o futuro.
Em paralelo, 1979 também foi o ano da criação do Museu de Porto
Alegre. O Museu foi um dos resultados das muitas discussões preservaci-
onistas que foram travadas desde a década de 1960 por alguns setores
locais, como jornalistas e intelectuais, incomodados com as agressivas re-
formas urbanas promovidas no período (POSSAMAI, 2000, p.29). A ideia
de abrigar em um espaço o acervo histórico e cultural da cidade é indisso-
ciável do processo de metropolização imediatamente anterior, cujos
impactos ajudaram a articular uma emergente noção de patrimônio regi-
onal e contribuíram para que Porto Alegre se tornasse uma das primeiras
municipalidades brasileiras a legislar sobre o tema (POSSAMAI, 2000,
p.29 ). Com a crescente preocupação preservacionista, a prefeitura, atra-
vés da criação de órgãos voltados ao patrimônio, catalogou cerca de
quarenta e sete imóveis antigos “considerados de valor histórico e cultural
e de expressiva tradição para a cidade de Porto Alegre” (PMPA, 1977 apud
POSSAMAI, 2000, p.29).
Entre estes imóveis constava o Solar Lopo Gonçalves, cujo projeto de
patrimonialização sempre esteve associado à ideia de futuramente abrigar
um museu da cidade. E isto foi o que de fato ocorreu em 1982 quando,
depois de restaurado, a antiga casa da rua João Alfredo tornou-se a sede
do Museu de Porto Alegre. Erguido entre 1845 e 1855, o Solar foi constru-
ído com a finalidade de ser a casa de campo do comerciante português
Lopo Gonçalves, que à época era proprietário de uma loja de fazendas e de
um armazém de molhados no centro da cidade. Outra ocupação de Gon-
çalves era o comércio de escravizados, cujas marcas se fazem presentes na
senzala do Solar e no fato de que a própria edificação fora por eles cons-
truída. O Solar também era associado à fundação da Associação Comercial
de Porto Alegre, uma vez que era recorrente a história de que nele esta
240 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

teria sido fundada em 1858. Este dado, segundo Possamai, seria determi-
nante no processo de patrimonialização e escolha da casa como sede do
museu, uma vez que a associação patrocinou tanto seu restauro quanto
sua transformação em museu, o espaço “passou a ter um caráter eminen-
temente comemorativo e celebrativo da memória da entidade e de seus
fundadores” (POSSAMAI, 2000, p.31).
Com efeito, no século XIX, o bairro Cidade Baixa configurava uma
região rural no entorno do núcleo central urbano com uma significativa e
crescente comunidade negra, não distante do Areal da Baronesa, hoje re-
conhecida área quilombola. Na antiga “Rua da Margem”, toponímia da rua
novecentista do Solar, corria um riacho que, no início do século XX, con-
tornaria o terreno alagadiço da Ilhota. Por ser um terreno pantanoso, a
Ilhota foi, durante muitas décadas do século XX, um território desvalori-
zado economicamente, ao mesmo tempo que simbólico para a
comunidade negra, como lugar de residência, entre outros, do sambista
Lupicínio Rodrigues. O Plano Diretor de 1959 transformou o conjunto de
malocas da Ilhota em um dos grandes projetos de gentrificação organiza-
dos pela Prefeitura nos anos seguintes, de modo que, ao fim da década de
1970, com o sucesso do Projeto Renascença6, a região estivesse totalmente
remodelada.
É dentro deste contexto de profundas alterações da malha urbana que
a opção pelo Solar como sede do museu municipal tornou-se relevante:
dentre as múltiplas eleições possíveis, foi escolhido, em um território sig-
nificativamente negro, uma edificação centenária representante do
poderio branco, colonial e escravista da cidade associada à memória de um
importante grupo social local, os comerciantes. Também não por acaso
que esta escolha foi realizada em um momento de reorganização política e
social, passados o período mais agressivo e turbulento da Ditadura e pe-
rante as novas configurações que sugeriam a emergência de novos atores

6
O Projeto Renascença foi implementado pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre entre os anos de 1975 e 1979 com
o objetivo de transformar a área que então abrangia a Ilhota e seu entorno. Ver: SOUZA, Anita. Projeto Renascença:
um caso de gentrificação em Porto Alegre durante a década de 1970. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-
Graduação em Planejamento Urbano e Regional, UFRGS, Porto Alegre, 2008.
Alexandra Lis Alvim | 241

e novas demandas na agenda pública. Se o PPDU era uma maneira insti-


tucional de determinar o futuro, a criação do Museu de Porto Alegre fixava
um passado oficial, materializado pela escolha do Solar.
Neste sentido, este contexto também foi significativo de um momento
de disputa pela cidade, em que a ação da prefeitura foi reorientada para
uma melhor assimilação destas demandas e dos atores emergentes, ao
mesmo tempo em que construía lugares de memória do regime no âmbito
municipal. Entre o PPDU e o Museu, a municipalidade atualizava uma ima-
gem da cidade e, na cruza entre tempo e espaço, reordenava atores e o
jogo social de um presente incerto e de embate entre forças conservadoras
e democráticas – refazia os contornos e o desenho de uma cidade trans-
formada em metrópole, com mais de um milhão de habitantes e que se
concentravam agora já muito além dos limites da primeira Avenida Peri-
metral7. Os dois eventos funcionavam, desta forma, como marcos no
tempo que permitem observar um emblemático momento de absorção e
avaliação realizado por vários e distintos setores da sociedade que pesa-
vam os resultados das reformas modernizantes implantadas desde o Plano
de 1959 e da forma autoritária e conservadora como estas foram levadas a
cabo pela Ditadura: o PPDU e o Museu se tornam, assim, produtos e ins-
trumentos de um momento de disputa pela cidade.
A partir destas constatações, o ano de 1979 apareceu como um ano
alegórico frente às contradições que as fotografias do Acervo do Gabinete
sugeriam. Primeiro, porque não só este foi o ano da promulgação do
PPDU, como foi o ano em que o Plano de 1959 comemorava vinte anos.

7
Entre as décadas de 1950 e 1970, a taxa de crescimento anual de Porto Alegre manteve-se acima dos 3%, chegando
em 5% na década de 1960. Se a primeira versão do 1º Plano Diretor, de 1959, abrangia apenas 1/6 da área do muní-
cipio, tal ritmo impôs à Prefeitura a necessidade de estender o planejamento a outras áreas, sendo adicionadas a
extensão A em 1964, a extensão B em 1967, a C em 1972 e a D em 1975, quando reconheceram que já era o momento
de elaborar outro plano diretor. Na década de 1980, Porto Alegre chegaria a 1.125.477 habitantes (em contraste com
os 641.173 de 1960) e inauguraria a segunda Avenida Perimetral. Sobre dados demográficos, ver: CABETTE, Amanda;
STROHAECKER, Tânia Marques. A dinâmica demográfica e a produção do espaço urbano em Porto Alegre. Cadernos
Metropolitanos, São Paulo, v. 17, n. 34, p. 481-501, nov. 2015. Uma comparação entre os planos diretores de 1959 e
1979, ver: TOCHETTO, Daniel; SOUZA, Celia Ferraz de. Do planejamento urbanístico ao planejamento integrado: a
trajetória de Porto Alegre nas décadas de 1960 e 1970. ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE
PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM PLANEJAMENTO URBANO E REGIONAL, 18., 2019, Natal. Anais [...]. Natal:
ANPUR, 2019.
242 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

Isto é, completavam-se ali duas décadas da organização de uma lei que


legitimou todo o processo reformador que mudou drasticamente as dinâ-
micas da cidade, destruiu e construiu patrimônios edificados e redefiniu
as concepções sobre o que era e o que poderia ser Porto Alegre. Segundo,
porque toda a década passava simbolicamente por revisão: a emergência
de brechas democráticas com a expectativa da chegada dos anos oitenta
promoveu uma onda nostálgica que permeou páginas de jornais, progra-
mas de TV e filmes no país – em 1979 até as paredes de Porto Alegre
suplicavam o fim dos anos setenta (ALVIM, 2016).
Setenta e nove foi um ano de ebulição: um “agora” por onde concor-
riam linhas de distintas temporalidades, portadoras de perspectivas e
interesses diversos, com objetivos e expectativas díspares. A partir dos
anos oitenta, estas linhas, que neste derradeiro ano tomavam um corpo
mais consistente, envergariam por caminhos específicos que, em combate,
definiriam os contornos da política nacional, entre a consolidação do Par-
tido dos Trabalhadores, do atentado do Riocentro, nas marchas pelas
Diretas Já, na forma como generais passaram os altos postos para civis, na
agenda e na crise política e econômica do Governo Sarney até a Assembleia
Constituinte e a promulgação da Constituição de 1988. Linhas que também
concorriam na dimensão cotidiana da vida urbana da metrópole mais ao
sul do Brasil: nas ruas novamente ocupadas pelo movimento estudantil,
na articulação dos quartéis, na reorganização dos partidos políticos e nas
vozes que, distantes do poder, ecoavam da periferia a sua existência. Como
um ponto estratégico para a observação de um estado de coisas prestes a
tomar rumos intensos, 1979 encerrava a primeira administração de Socias
Villela, um prefeito da Ditadura concentrado em vincular sua imagem a
uma inaudita aparente proximidade com a população, entre a consecução
de uma nova lei de planejamento e um museu da história municipal, en-
quanto os setores conservadores articulavam suas estratégias de
permanência no poder, setores da esquerda se reorganizavam em torno
do novo movimento trabalhista e as periferias se insurgiam exigindo um
Alexandra Lis Alvim | 243

lugar para suas demandas. Dez anos depois, algumas destas linhas se en-
contrariam e, a partir de algumas associações comunitárias da periferia, o
Partido dos Trabalhadores organizaria o Orçamento Participativo em sua
primeira administração do município.
Entre as dezenas de caixas com fotografias, contatos e negativos abri-
gadas no sótão do Solar, o Acervo do Gabinete do Prefeito desperta
inúmeras possibilidades de investigação, uma vez que as imagens regis-
tram o cotidiano institucional da cidade e de suas transformações desde os
anos sessenta. A tônica dos acontecimentos políticos e das reformas urba-
nas acompanha o olhar dos fotógrafos do município que em um primeiro
momento, se ocupam mais por registrar encontros burocráticos e as gran-
des obras que se proliferavam na cidade. Progressivamente, imagens de
vilas e comunidades deixam de ser esporádicas e vão tomando alguma re-
gularidade até que, em determinado momento, passam a ocupar uma
parte significativa do conteúdo das caixas. Em seus títulos, carregam to-
ponímias de lugares que, ainda existentes ou não, preencheram a agenda
do prefeito. Em suas legendas, uma cidade sem direitos aparece: uma Vila
Santa Rosa sem água, uma Vila São José sem luz. Malocas ganham o lugar
dos grandes edifícios e sujeitos que talvez nunca tenham sido fotografados
aparecem diante das câmeras em caminhadas ao lado do prefeito. Sai o
Menino Deus e o Moinhos de Vento, surge a Vila Mapa ou a Vila Nova
Brasília.
244 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

Fotografia 2 – Prefeito Villela visita Vila São José (extraída de contato). 24/06/1976.

Fonte: Acervo do Gabinete do Prefeito (Fototeca Sioma Breitman / Museu de Porto Alegre). Fotógrafo Octacílio
Freitas. Registro: 0928.

Estas fotografias, portanto, trazem para dentro da construção da vi-


sualidade oficial e institucional da Prefeitura a construção das margens
urbanas e a história de uma demanda social – o direito à cidade. O fato de
que a incidência mais significativa das visitas às vilas começa no ano de
1975, o ano em que Socias Villela assumia seu primeiro mandato em Porto
Alegre, permite a associação destas imagens com as novas conjecturas que
começam a se delinear na segunda metade dos anos setenta. Isto é, entre
1975 e 1979, durante o primeiro mandato do referido prefeito, começam a
ser articulados movimentos associativos nas comunidades que passam a
exigir, entre outras, melhores condições de saneamento e mobilidade, as-
sociados ao complexo e lento esmorecimento do regime. É neste momento,
concomitante às discussões sobre o PPDU e o museu municipal, que se
impõe uma necessidade de tornar visual e presencial a ação institucional
– enquanto o prefeito se faz presente, em corpo e imagem, nas visitas, faz-
se possível conhecer, naquele presente e no futuro em que hoje escrevo
Alexandra Lis Alvim | 245

este artigo, os contornos visuais das margens de Porto Alegre em um mo-


mento de efervescência e reorganização.
O contato número 0928 de 24 de junho de 1976, que traz a legenda
“Prefeito Villela visita Vila São José”. O contato é composto por uma folha
de dezessete imagens em preto e branco em que a comitiva do prefeito
percorre caminhos de chão batido na Vila São José, localizada na zona leste
da cidade. Em uma das imagens, as lentes do fotógrafo Octacílio Freitas (o
mesmo da fotografia anterior da inauguração da Restinga) enquadram o
prefeito cumprimentando um casal de idosos negros à porta de uma ma-
loca construída com restos de madeira que não deveria ter mais do que
um cômodo. O enquadramento todo dela é preciso: o casal está sentado e
o prefeito, de pé, inclina-se para oferecer sua mão ao homem enquanto a
mulher olha com espanto para Villela. Atrás das mãos se esconde um bebê
e uma mulher jovem que olha para a autoridade com ternura. A luz chega
pela direção do prefeito e provoca um jogo de contrastes que ilumina e dá
um tom bucólico à cena.
Na imagem mofada da inauguração de uma unidade da Restinga, o
registro municipal destaca o palanque com a propaganda do governo Gei-
sel: “Este é um país que vai pra frente!”. Entre as décadas de 1960 e 1970,
o Brasil restringiu as liberdades políticas e os instrumentos de ampliação
da cidadania para embarcar em um projeto de modernização e autorita-
rismo que transformou radicalmente nossa sociedade. Fez-se um país
urbano, de fáusticas construções e cidades abertas à hegemonia dos auto-
móveis, pagando o preço com o sangue dos oposicionistas e com a
dilatação da pobreza. Porto Alegre cresceu, para o alto e para os lados, vi-
rou metrópole, construiu viadutos e ocupou as regiões limítrofes com as
cidades vizinhas. Olhando para o alto do palanque, costumamos esquecer
as vidas que sustentavam o crescimento deste país: os herdeiros de uma
tradição de direitos negados, os despossuídos do progresso e os que, indo
sempre em frente, reconstruíram os instrumentos de participação política
e ousaram exigir a cidade.
246 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

Referências

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Alexandra Lis Alvim | 247

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248 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

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a_periferia.pdf>. Acesso em: jan. 2020.

Fontes e acervo

Acervo Fotográfico Permanente da Coordenação de Comunicação Social do Gabinete do


Prefeito (Fototeca Sioma Breitman – Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo).
12

Os bens culturais na ditadura brasileira:


as diretrizes para a descentralização
da Secretaria da Cultura

Jeaniny Silva dos Santos 1

Os anos finais da ditadura civil-militar brasileira marcam um período


de modernização estimulada pelos militares, que tinha na cultura um dos
seus setores mais dinâmicos de abertura política, principalmente, ligada
ao desenvolvimento econômico e criação de iniciativas que buscavam ala-
vancar os bens culturais como instrumento. O presente texto pretende
estudar as políticas de preservação do patrimônio cultural realizadas na
Secretaria da Cultura. A contar da entrada do designer Aloísio Magalhães
como gestor cultural, a partir de 19752, procedendo para uma análise da
criação de diretrizes e exigências de ações no sentido de democratizar a
proteção ao patrimônio cultural, sob tutela da Secretaria do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional (SPHAN). Entretanto, tratava-se de um pro-
jeto altamente verticalizado e controlado. A política de preservação no
início dos anos 1980 vai buscar sua legitimação por meio das demandas de
integração nacional, sobretudo, fomentando a ideia de uma identidade cul-
tural diversa.
Dito isso, compreender como as políticas culturais, com enfoque ao
patrimônio, também se alinharam ao processo de desenvolvimento da

1
Mestranda no Programa de Pós-Graduação em História da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
Bolsista CAPES.
2
Destaca-se a criação do Centro Nacional de Referência Cultural (CNRC).
250 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

modernização conservadora3 em curso, os pontos de diálogo entre as


políticas de defesa do patrimônio cultural brasileiro e as diretrizes gerais
do Executivo nos anos finais da ditadura. Nesse sentido, busca-se ainda
analisar o surgimento da vertente patrimonial, que servirá como linha
central da descentralização operacionalizada na área da cultura que recairá
sobre as instituições e traça novos olhares sobre os bens culturais não
consagrados, para apreender como o desenho de uma política patrimonial
foi essencial para a integração regional. Isso leva a pensar que a seleção
dos bens culturais ajudou a reformular os conceitos do setor da cultura e
de identidades nacionais, no recorte temporal escolhido nesta análise.
A questão que se coloca acerca dos “bens culturais” emerge como
oposta à noção de “patrimônio histórico”, mas, ao mesmo tempo, tem a
incorporado, na medida em que o patrimônio foi historicamente conce-
bido como a preservação do patrimônio de “pedra e cal”, muito tradicional
e enraizada nos princípios clássicos. Para tanto, a noção de bem cultural,
tornando-se um conceito mais amplo, completo e elaborado do que patri-
mônio histórico e artístico, aos poucos foi introduzida no contexto
sociocultural do Brasil, transformando a expressão “patrimônio histórico
e artístico” em “patrimônio cultural”. Com isso, o conceito de patrimônio
necessitava ser alargado e a noção de bem cultural foi mais abrangente
nesse sentido. Isaura Botelho (2000, p. 99) destaca a dificuldade na defi-
nição de “bem cultural”, principalmente num país com as características
do Brasil.

O conceito de bem cultural no Brasil continua restrito aos bens móveis e imó-
veis, contendo ou não valor criativo próprio, impregnados de valor histórico
(essencialmente voltados para o passado), aos bens da criação individual es-
pontânea, obras que constituem o nosso acervo artístico (música, literatura,
cinema, artes plásticas, arquitetura, teatro), quase sempre apreciação elitista.
Aos primeiros deve-se garantir a proteção que merecem e a possibilidade de

3
O processo de modernização conservadora em curso auxilia na análise das ambiguidades ou contradições da soci-
edade brasileira, com a elaboração de pactos políticos, sobretudo, com as representações capitalistas das elites
dominantes dentro do autoritarismo vigente, em que vários momentos ocorreram choque entre o processo de mo-
dernização e o conservadorismo. Para ver mais em: MOTTA, Rodrigo Patto Sá. As universidades e o regime militar:
cultura política brasileira e modernização autoritária. 1. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.
Jeaniny Silva dos Santos | 251

difusão que os torne amplamente conhecidos. Deles podem provir as referên-


cias para a compreensão de nossa trajetória como cultura e os indicadores para
uma projeção no futuro. (MAGALHÃES, 1984, p. 42)4

O campo patrimonial no período passou a constituir um novo cami-


nho para a elaboração de novas identidades coletivas, tornando-se um
instrumento fundamental para os grupos sociais que as construíram. E a
questão das políticas culturais foi reformulada dentro do campo, narrada
por intelectuais nacionalistas. Assim, encontramos uma valorização do
passado no regime autoritário que comandava o país. Como afirma Laís
Lavinas:

A questão da inovação político-administrativa liga-se ao formato de política


pública defendido pelo regime militar, em que se buscava uma modernização
do aparato burocrático estatal brasileiro, dotando o mesmo de maior agilidade
e alcance de atuação, promovendo o seu fortalecimento. (2014 p. 150)

Assim, pretende-se analisar o processo pelo qual se definiram as po-


líticas culturais institucionais inseridas através de diretrizes operacionais
formuladas no início da década de 1980, principalmente sob a questão de
mosaico cultural5 brasileiro quando Magalhães esteve à frente da Secreta-
ria de Cultura do MEC. De acordo com a historiografia consultada
(MICELI,1984; FONSECA, 1997; BOTELHO, 2000; GONÇALVES, 2002;
OLIVEIRA, 2008; CHUVA, 2012; LAVINAS, 2014), percebe-se o redesenho
do discurso institucional, a partir da concepção que estava sendo apropri-
ada de bens culturais durante a gestão de Aloísio Magalhães, apresentado
como a referência para as políticas culturais, dentro do corte cronológico
proposto. Para Botelho (2000, p. 98) “ele articulou teoricamente as ques-
tões de identidade cultural, desenvolvimento econômico e preservação”,

4
Conforme artigo publicado em 1984, na vigésima edição da Revista do Patrimônio sob título de Bens culturais:
instrumento para um desenvolvimento harmonioso, em que contém as concepções de Aloísio Magalhães sobre tal
noção.
5
A denominação de “mosaico cultural” foi consagrada por Aloísio Magalhães. GONÇALVES, José Reginaldo Santos.
A retórica da perda: os discursos do patrimônio cultural no Brasil. Rio de Janeiro: Editora UFRJ/MinC-IPHAN, 2002.
252 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

em que a política cultural tinha por propósito modernizar o tratamento


desses temas.
Dessa forma, pretendia identificar as referências culturais múltiplas
que refletem a heterogeneidade brasileira. Estava disposto a discutir com
outros setores a importância de rever essa noção, ou seja, deveria ter no-
vos olhares. Essa modificação deveria ter início junto ao discurso da
instituição. Entretanto, Aloísio era enfático no seu discurso e acreditava
que os bens culturais deveriam ser trabalhados além da recuperação ma-
terial, em conjunto a ações de valorização, como a educação patrimonial e
o turismo. Procurava relacionar a preservação dos bens culturais a proje-
tos de matriz turística, ou seja, o passado, assim, deveria ser usado não
apenas como referencial, mas também como instrumento para o desen-
volvimento. Ainda, "em sua rápida trajetória nesses anos, facilitada por
seu dinamismo, criatividade e relações com setores militares, Aloísio criou
ou alterou organismos culturais até sua morte prematura em 1982"
(RUBIM, 2012, p. 35)
E por fim, abordar através da reunião dos órgãos vinculados e subor-
dinados à Secretaria da Cultura (SEC/MEC), como foi se construindo um
sistema de ações de descentralização dos bens culturais, como parte do
estímulo à criação, produção e difusão cultural durante a ditadura, tor-
nando-se plano de fundo para garantir uma coesão nacional entorno da
cultura. Executar uma descentralização (controlada) no Brasil, além de
muito custosa, não era algo rápido de ser feito, portanto, necessitava ser
tratado pelas políticas culturais para que os níveis estaduais e municipais
alcançassem autonomia.

As políticas culturais na ditadura

O viés modernizante da ditadura afetou o conjunto das estruturas do


Estado, entre elas, instituições com vínculos socioculturais, como a Secre-
taria da Cultura. Reformas administrativas sobre o mesmo escopo foram
Jeaniny Silva dos Santos | 253

empreendidas ou ensaiadas. Várias tiveram o intuito de modernizar e atu-


alizar as estruturas burocráticas, mecanismo por excelência usado pelos
militares para legitimar se no poder. O discurso nacionalista endossado
pela ditadura civil-militar no caso brasileiro, foi o aporte para que a cultura
fosse vista como questão da Doutrina de Segurança Nacional (DSN)6. Se-
gundo Marcos Napolitano:

Inserindo as instituições e políticas culturais dentro do binômio “segurança e


desenvolvimento” que norteavam a ditadura em curso no país. Ao mesmo
tempo, a Doutrina de Segurança Nacional deu novo élan ao velho conservado-
rismo local, permitindo e justificando, em nome da DSN, a manutenção de
velhos privilégios econômicos e hierarquias sociais (2014, p.7).

No período compreendido entre os anos de 1964 e 1985, instalou-se


um complexo sistema repressivo para combater a subversão e, ao mesmo
tempo, se promoveu a reestruturação e desenvolvimento no aparato bu-
rocrático. "O fato é que a “questão cultural” foi o 'calcanhar de Aquiles' da
ditadura, expressão das suas grandes contradições e impasses, mesmo que
ela não tenha se limitado a uma política cultural meramente repressiva"
(NAPOLITANO, 2014, p. 99). Conforme Lia Calabre (2007, p. 90), "o Es-
tado foi retomando o projeto de uma maior institucionalização do campo
da produção artístico-cultural" (2007, p. 90). O controle estratégico da cul-
tura se dava por meio da censura e criação de órgãos de planejamento
ligados ao poder executivo.
Como afirma Antonio Albino Rubim (2007), ocorreram diferenças
que correspondem aos três momentos distintos do regime cívico-militar.
No primeiro, de 1964 até 1968, a ditadura atingiu principalmente os seto-
res populares e militantes envolvidos com estes segmentos, frente à

6
A Doutrina de Segurança Nacional (DSN), elaborada pelos EUA no pós-guerra e readaptada nos países em questão,
parte do princípio de que a nação, seus valores, símbolos e deveres está ameaçada por forças subversivas e considera
como inimigo interno qualquer forma de pensamento crítico e questionador do status quo. Para a DSN, há dois tipos
de inimigos: o interno e o externo. O inimigo interno, para a DSN, engloba àqueles que questionavam o status quo e
a ordem vigente - como, por exemplo, os movimentos sociais da classe trabalhadora, estudantes, intelectuais e, até
mesmo, setores da Igreja.
254 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

repressão e à censura, sendo retomado o projeto de uma maior institucio-


nalização do campo da produção artístico-cultural. No segundo momento,
final de 1968 até 1974, o mais agressivo da ditadura, a censura sistemática
bloqueou toda a dinâmica cultural anterior, marcado pela imposição cres-
cente de uma cultura midiática controlada e propaganda da ideologia
oficial. Por último, a relativa distensão da ditadura a partir de 1974, abre-
se o terceiro momento que termina com o final da ditadura civil-militar no
início de 1985, uma longa transição cheia de altos e baixos, avanços e re-
cuos, controles e descontroles. As iniciativas culturais, vão ser ampliadas,
com as modificações organizacionais e investimentos nas políticas cultu-
rais.
Posto que dentro da lógica da segurança nacional, o desenvolvimento
se torna um tema central, o nacional-desenvolvimentismo dominou o Bra-
sil, por meio de um processo de modernização onde o Estado era o
principal articulador. Iniciando o binômio “segurança e desenvolvimento”
no governo militar de Castello Branco em 1967.

[...] podemos esboçar um quadro geral de como o regime militar se relacionou


com a vida cultural brasileira entre os anos 1960 e parte dos anos 1980. Esta
relação se deu de forma direta e indireta. Direta, pois o regime desenvolveu
várias políticas culturais ao longo de sua vigência. Indireta, pois a cultura se
beneficiou também das políticas gerais de desenvolvimento das comunicações
e do estímulo ao mercado de bens simbólicos, visando à “integração nacional”.
Para os militares, a cultura era subsidiária de uma política de integração do
território brasileiro, reforçando circuitos simbólicos de pertencimento e culto
aos valores nacionais, ou melhor, nacionalistas. (NAPOLITANO, 2014, p. 100)

Os governos brasileiros durante a ditadura foram fiéis a essa dou-


trina, o governo Geisel procurou se apresentar de outro modo, alterando
o discurso para “desenvolvimento e segurança” como parte da ideia de
‘distensão’ proposta para a ditadura, contudo o desenvolvimento conti-
nuou vinculado à institucionalização. Ao mesmo tempo o Estado via o
setor cultural como uma alternativa de propaganda frente a essa crise,
como aponta Maria Cecília Londres Fonseca: “passou a atuar na área da
Jeaniny Silva dos Santos | 255

cultura, não apenas como repressor, mas como organizador da cultura”


(2005, p.134). Dessa forma, foi autorizado um planejamento estratégico
para a área cultural em 1975, na gestão do ministro da Educação e Cultura
de Ney Braga - momento em que houve a aprovação da primeira Política
Nacional de Cultura7 (PNC). Conforme Isaura Botelho (2000), a política
formulada para balizar a gestão de Braga frente ao MEC promoveu a re-
organização das instituições. A mudança nas políticas de preservação e na
concepção do uso dos bens culturais é resultado de várias transformações
ocorridas durante aquela década8. A autora ainda destaca para essa orga-
nização das instituições que iria balizar os projetos até a década de 1990.
Assim, o Estado usou o seu poder para forjar uma cultura nacional
em torno desses símbolos, afinal, como afirma Tatyana Maia, “a reforma
e a atualização das instituições culturais seriam fundamentais para alcan-
çar o ‘progresso’ e o ‘desenvolvimento’” (2012, p. 76). Diante dessa
conjuntura das instituições culturais, um panorama sobre a questão cul-
tural surge:

Durante a ditadura civil-militar (1964- 1985), o setor cultural sofreu profundas


transformações com o aparecimento de novos atores e a participação decisiva
do Estado na repressão e no fomento das ações culturais. Como demonstra
Sergio Miceli, o Estado investiu na criação de diversas agências, institutos e
conselhos como: Instituto Nacional de Cinema (1966); Conselho Federal de
Cultura (1966); Embrafilme (1969); Departamento de Assuntos Culturais
(1970); Conselho Nacional de Direito Autoral (1973); Centro Nacional de Refe-
rência Cultural (1975); Fundação Nacional de Arte (1975); Conselho Nacional
de Cinema (1976); Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
(1979); Fundação Nacional Pró-Memória (1979). (MAIA, 2012, p. 38)

7
Já havia sido formulado em 1973 o documento denominado “Política Nacional de Cultura: Diretrizes”, com a inten-
ção de delinear as bases das políticas culturais dos anos 1970. Segundo Gabriel Cohn, a elaboração desse documento
foi marcada por pressões e tensões dentro do MEC e em outras instâncias federais que acabaram por engavetá-lo,
motivo pelo qual foi suspensa a sua publicação. Ver mais em: COHN, G. A concepção oficial de cultura nos anos 70.
IN: MICELI, S. Estado e Cultura no Brasil, 1984.
8
Podemos citar, a título de exemplos, o Compromisso de Brasília (1970), o Compromisso de Salvador (1971), os Anais
do II Encontro de Governadores para Preservação do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Natural do Brasil
(1973), assim como a Política Nacional de Cultura (1975).
256 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

Em 15 de março de 1979, deu-se o início a gestão do último presi-


dente-ditador João Figueiredo e, segundo Napolitano, “o governo
Figueiredo prometia uma nova forma de governar, mais próxima das de-
mandas da sociedade, embora sem abrir mão dos valores e princípios do
regime, a começar pela Doutrina de Segurança Nacional” (2014, p. 245).
Na área econômica, concomitantemente às mudanças que iam sendo ope-
radas na política, o período ficou marcado por grave crise que assolou o
Brasil e o mundo. Seguindo as transformações na política e na economia
brasileira, também na área da cultura, verifica-se a ocorrência de profun-
das modificações na organização institucional de proteção ao patrimônio.
No mesmo ano foi criada a Secretaria de Assuntos Culturais (SEAC) no
início da gestão de Eduardo Portela, no Ministério da Educação. Lucia Lippi
Oliveira coloca que “o maior mérito da SEAC foi instaurar e aprofundar o
debate sobre política cultural” (2014, p. 102), complementando:

O período entre 1979 a 1981 pode ser considerado assim um tempo de inova-
ções organizacionais na área de cultura do MEC pela criação da Secretaria de
Assuntos Culturais (Seac), pelas mudanças no Sphan (que como Iphan já tinha
incorporado o CNRC e o PCH), que detinha o poder normativo, e pela criação
da Fundação Nacional Pró-Memória. (OLIVEIRA, 2014, p. 102)

A preocupação do Estado em desenvolver políticas de preservação de


elementos de sua cultura surge como uma ponte capaz de estabelecer um
sentido de unificação nacional. Nessa mesma direção, se estimulam sím-
bolos geradores de identificação da população com sua nação ou com uma
região para legitimar e fortalecer a instituição Estado. Com isso, "o patri-
mônio passa adquirir um status de conteúdo “universal” das políticas
públicas no campo da cultura" (MICELI, 1984, p. 100). Assim, os bens cul-
turais surgem como uma possibilidade de contestação e de afirmação
política, de maneira ambígua, tanto para os grupos que se consideravam
excluídos dos processos decisórios nacionais, quanto para os militares
como forma de tentar reafirmar suas ideias sobre a identidade nacional.
Outro ponto a salientar foi a entrada de muitos intelectuais e artistas
para esse segmento. Dentre eles, um dos nomes que já destacamos nesse
Jeaniny Silva dos Santos | 257

campo é o de Aloísio Magalhães, a sua principal contribuição para o campo


do patrimônio foi a inserção da cultura no âmbito das políticas sociais. Foi
no fim do governo Geisel, em 1979, que a articulação política de Magalhães
se cruza com as políticas culturais patrimoniais de uma forma muito opor-
tuna, com sua nomeação para a direção do SPHAN, pois possuía um longo
e extenso histórico de parcerias e projetos9. Portanto, atuou criando nar-
rativas de memórias coletivas nacionais a favor da ditadura, incentivando
e ajudando a construir uma identidade cultural nacional que se portava
como reflexo de uma elite política burocrática nacionalista e encantada
com as teorias desenvolvimentistas.

Aloísio iniciava um papel de liderança político-cultural na área do patrimônio,


sendo que este o proporcionaria outros, tornando-se o agente com maior al-
cance político do setor público cultural já em 1981 quando é nomeado
Secretário de Cultura, acumulando cargos e ampliando as suas ações para
além das frentes patrimoniais. (LAVINAS, 2014 p. 158).

Assim, uma outra leitura dessas construções discursivas planejada,


vai levar as revisões da legislação que permitam o amparo e a proteção
desses bens culturais. Além disso, ao reforçar as ideias de diversificação do
patrimônio a ser preservado, e de uma postura mais marcante em prol do
desenvolvimento econômico, o secretário da cultura procurou em seus dis-
cursos sobre patrimônio nacional se afastar das polêmicas relacionadas ao
autoritarismo, promovendo uma visão otimista acerca da identidade naci-
onal. Como reação a tal tendência consistiu na transformação da
Secretaria de Assuntos Culturais em Secretaria da Cultura.
Durante as gestões no Ministério da Educação e Cultura, de Eduardo
Portela e posteriormente Rubem Ludwig, ocorreu uma reestruturação da
área cultural que culminou com a criação da Secretaria da Cultura, em
1981, através da Portaria nº. 274, onde se aglutinaram todos os órgãos

9
Entre os projetos realizou como designer, podemos destacar o projeto da cédula do Cruzeiro Novo em 1966, junto
ao governo federal. Além de atender a numerosas empresas estatais, em maioria, propostas de criação de identidade
visual, tais como os símbolos: a Companhia Vale do Rio Doce, a Companhia União dos Refinadores, Embratur, Metrô
São Paulo, Metrô Rio, Itaipu Binacional, Furnas, Petrobrás e Light.
258 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

culturais do ministério, sob a direção de Aloísio Magalhães. A criação desse


órgão central de direção superior no MEC destinado à cultura representou,
na ocasião, o reconhecimento e a importância dada a esse campo no âm-
bito das políticas públicas. Para Aloísio Magalhães, a definição de uma nova
política cultural por parte do MEC vinha se delineando, ultimamente, no
que diz respeito a uma redefinição de competências institucionais no âm-
bito do próprio Ministério. Deve ser ressaltado que, anteriormente a isso,
quando Aloísio Magalhães assume a SEAC em 1980, o ministro lhe passou
a missão de preparar uma fusão entre ambas as secretarias, SEAC e
SPHAN, já que Aloísio estava acumulando dois cargos como gestor. Com a
criação da Secretaria da Cultura10, ambas secretarias se tornaram subse-
cretarias, em que cada uma delas continuava com suas respectivas áreas
de atuação.
As resoluções de Magalhães, ao propor uma ênfase à integração na-
cional e ao potencial popular do patrimônio, se moldavam à proposta da
ditadura naquele momento. Vale ressaltar que os prováveis conflitos exis-
tentes entre os níveis, nacional e regional, deveriam ser eliminadas à
medida que a cultura nacional só podia ser definida a partir de seus aspec-
tos regionais. Afinal, em seu centro estava a ideia de reformulação das
práticas culturais brasileiras, todavia, sem que isso significasse a perda de
autoridade sobre o que seria ser “brasileiro” e sua identidade. Como indi-
cado por Magalhães:

Esse propósito de que a nação, no momento em que se abre e se volta para


uma maior identificação de base, de elementos explicadores da nossa reali-
dade, esse propósito de o Brasil se voltar para olhar para si mesmo, na procura
de uma maior compreensão de pluralismo cultural em níveis de complexidade,
em níveis de necessidade, de ajuda, de impulso, eu acho que tudo isso resulta
de um posicionamento do Brasil como um todo. (MAGALHÃES, 1985, p 215)

10
O regimento interno da Secretaria da Cultura (SEC) previa no artigo 21 um papel destacado para a Funarte e para
a Pró-Memória: ambas deveriam apoiar as ações da secretaria por meio de formulação de projetos e atividades. Ver
mais em: CALABRE, Lia. Políticas culturais no Brasil: dos anos 1930 ao século XXI. Rio de Janeiro: FGV, 2009.
Jeaniny Silva dos Santos | 259

Então, a adoção de uma posição reformulada que acompanhasse as


demandas do Executivo por desenvolvimento econômico, principalmente,
para criar uma “imagem integrada do Brasil”- nesse caso, o projeto político
do governo militar utilizava os recursos simbólicos da memória social para
forjar novos conceitos de cultura e identidade nacional, buscando alcançar
na medida em que assumia a cultura um papel para a construção de um
projeto de hegemonia. De modo que “valores conservadores, folcloristas,
nacionalistas e autoritários se combinavam com defesa do patrimônio,
construção de um mercado de bens simbólicos e valorização de temas que
tinham muitos pontos em contato com o nacional popular de esquerda”
(NAPOLITANO, 2014, p. 204).
O fato da ditadura ter, naquele momento, tomado para si a tarefa de
incentivadora da cultura nacional, ao mesmo tempo em que era o repres-
sora e que buscava a desburocratização, não foi assumido como algo
contraditório, pois, as duas questões eram propostas desvinculadas uma
da outra, ou seja, não se confrontavam, eram desenvolvidas separada-
mente. Conforme Anastassakis, (2007, p.119) "o projeto do Estado de
manipular os símbolos nacionais a fim de conseguir a hegemonia desejada
pelo regime autoritário encontrou um obstáculo no que tange à questão
econômica". A ditadura civil-militar passou a realizar uma descentraliza-
ção do Estado, em que o papel estatal em uma das instituições subordinada
à Secretaria da Cultura consistia de acordo com Laís Lavinas:

Trabalhar para atender as diretrizes de democratização (isto é, entendida


como descentralização) das ações culturais relacionadas à conservação dos
bens culturais. A incorporação de atores sociais externos aos antigos quadros
profissionais do IPHAN permitiu a complexificação e o fortalecimento da área
dentro do MEC, pois além de trazer reforço intelectual e financeiro, resgatou
o protagonismo político do órgão nas políticas públicas de cultura. (LAVINAS,
2014 p. 174)

Passamos a olhar mais de perto para como se desenvolveu o planeja-


mento e construção dessa política descentralizadora para a cultura, em que
um ponto relevante que já podemos adiantar é a participação comunitária.
260 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

Formulou-se, assim, "uma proposta de democratização da política cultural


que, durante a década que se seguiu, foi um mote sempre reiterado nos
discursos produzidos pelos órgãos culturais públicos e privados, federais,
estaduais e municipais" (FONSECA, 2005, p. 165). Iremos analisar a seguir
com mais atenção como essa proposta foi introduzida pelos agentes insti-
tucionais e o documento, chamamos atenção para como essa
democratização referida foi verticalizada, construída pelos próprios atores
institucionais, no sentido de ampliar os bens culturais que compõem o pa-
trimônio, mas não pode ser comparada a períodos democráticos.

A vertente patrimonial e a descentralização operacional

A Secretaria de Cultura foi dividida em duas vertentes, sendo elas, a


patrimonial e a da produção cultural: “As instituições ligadas à promoção
da produção cultural, dedicadas a atividades como cinema, teatro e mú-
sica, ficariam abrigadas na Funarte e essa se subordinaria à Secretaria de
Assuntos Culturais” (LAVINAS, 2014 p. 179). E as atividades de vertente
patrimonial do SPHAN ficaram sobre guarda da Fundação Pró-Memória.
Para Magalhães, “essa divisão por vertente era nítida, de caráter metodo-
lógico” (1985, p. 134). Diante disso, criavam-se bases institucionais para o
estabelecimento dessas vertentes desde meados de 1975. A explicação para
essa divisão é posta por Magalhães da seguinte forma:

De um lado, a vertente do bem patrimonial, preocupada em saber guardar o


já cristalizado em nossa cultura, buscando identificar esse patrimônio, recu-
perá-lo, preservá-lo, revitalizá-lo, referenciá-lo e devolvê-lo à comunidade a
que pertença. Do outro lado, a vertente da produção, circulação e consumo da
cultura, voltada para a dinâmica da produção artística nos vários setores, no
qual se está atento para captar o que ocorre na realidade brasileira e estimular
onde for necessário, para mais tarde, eventualmente, verificar o que, do ma-
terial assim obtido, cristalizou-se e incorporou-se à dimensão patrimonial.
(MAGALHÃES, 1985, p. 135)
Jeaniny Silva dos Santos | 261

Ao examinar esse novo vetor da estrutura institucional, a vertente


patrimonial servirá como mote para o órgão, o aspecto que devemos es-
clarecer é o de como a divisão proposta para duas vertentes culturais
aparecem, reforçando a proposta operacional. Importante trazer essa
nova estrutura para ver os pontos do documento intitulado “Diretrizes
para operacionalizar a política cultural do MEC”, de 1981. Observamos que
estes carregam um apanhado de linhas no qual afirmam que a cultura de-
veria seguir, sob a direção de Aloísio Magalhães, com ampla participação,
embora estando sob um período antidemocrático no país.
Verificamos que a localização dos bens culturais preservados acom-
panhou o processo de transformações ocorridas dentro da área cultural,
especialmente daquela denominada patrimonial, bem como serviu ao dis-
curso nacionalista do governo durante o período analisado, pontuando
avanços importantes nas políticas públicas; porém, sem esquecer as difi-
culdades no momento de promoção dessas políticas nas localidades e nas
relações com as populações, tornava-se cada vez mais necessário encaixar
o patrimônio dentro do novo contexto caracterizado pelo desenvolvi-
mento.
Nesse relato de Magalhães acerca da cultura brasileira, temos o regis-
tro de quem procurava ampliar o processo cultural combatendo as
hegemonias e buscando valorizar as comunidades. Por meio da sua estra-
tégia político-administrativa, Magalhães conscientizava as pessoas a
respeito do que costumava dizer: “a cultura brasileira não é eliminatória,
é somatória” (MAGALHÃES, 1985, p. 19). Dessa maneira, ele iria trazer
suas ideias para o centro das políticas públicas da cultura e priorizaria a
defesa da memória nacional. Segundo Joaquim Falcão (1984) a democra-
tização como um desafio vai apresentar algumas questões para a
elaboração dessa política e, posteriormente, sobre a separação das verten-
tes:

Como definir uma política de preservação que seja culturalmente abrangente


e socialmente representativa da nação brasileira? Como evitar a preservação
elitista e regionalista? Como evitar que a experiência cultural de apenas um
262 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

segmento social se consolide como uma expressão da cultura nacional?


(FALCÃO, 1984, p. 45)

Dessa forma, o desenho de uma política patrimonial deveria ser uma


soma dessas indagações, além de contar com a participação popular na
salvaguarda dos bens culturais e com a implantação de projetos controla-
dos pelo Estado. Assim, a mudança na estrutura institucional da SEC
mostrou-se mais uma vez relevante para o sistema de preservação com
níveis de diálogos junto a órgãos estaduais e municipais se referindo a uma
autonomia da burocracia diante das novas demandas e interesses.

Nesse sentido, a ação institucional tinha um objetivo político em sentido am-


plo, pois visava a incluir manifestações desses grupos sociais não apenas no
patrimônio histórico e artístico nacional, como também em outras esferas da
vida social, organizadas a partir da cultura valorizada pelas classes mais favo-
recidas e que detinham o controle dos instrumentos de poder. (FONSECA,
2005, p. 162)

Na medida em que a redemocratização da cultura avançava como


uma questão nacional diante do autoritarismo vivido, o cenário da cultura
brasileira se mostrava mais dividido, com novos objetos para sua preser-
vação e com experiências históricas renovadas. Desse modo, ao se deter
em novas pautas, os problemas que envolvem a preservação dos patrimô-
nios se ampliam e, desse modo, diretrizes passam a ser estabelecidas. No
décimo quarto Boletim SPHAN/FNPM11, uma matéria apresenta as novas
diretrizes da Secretaria da Cultura que definem as linhas das ações conti-
das nas “Diretrizes para Operacionalização da Política Cultural do MEC”,
elaboradas durante um seminário de 31 de agosto a 2 de setembro, em
Brasília, detalhando vários itens do documento. Este documento com 24
páginas, é uma afirmação e conceituação de uma cultura ampla e abran-
gente, como podemos observar no seguinte trecho do boletim: “no
entender do secretário da Cultura do MEC [Aloísio Magalhães], o docu-
mento servirá como marco inicial da adoção de uma nova política cultural

11
Boletim da Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e Fundação Pró-memória, nº 14 de 1981, p. 7-8.
Jeaniny Silva dos Santos | 263

para o país que, segundo explicou, deverá estar calcada nas duas grandes
vertentes do bem cultural” (BOLETIM SPHAN/FNPM, 1981, nº 14, p. 7).
De igual modo, constituem o discurso de Aloísio se constitui em os dois
pilares, do setor cultural e dos bens culturais.
As diretrizes elaboradas refletiam a estratégia da ditadura, em cujo
Estado na área cultural se propunha atuar como mediador do fazer cultu-
ral até as comunidades por meio da política cultural estatal. Logo, a
primeira parte do documento, denominada “Considerações Básicas”, é
fundamental para nos apresentar um horizonte a respeito das transfor-
mações dos discursos de representação dos conceitos de cultura e de
identidade nacional. Em seu primeiro parágrafo, é apresentada “a concei-
tuação ampla e abrangente de cultura, entendida como todo sistema
interdependente e ordenado de atividades humanas na sua dinâmica” (Di-
retrizes para operacionalizar a política cultural do MEC, 1981, p. 2). Com
essa ideia de ampliação do que deveria ser considerado cultura, é definida
como o processo global em que não se separam condições de interação
entre os bens culturais impregnados de valor simbólico e as manifestações
em processo. Justamente desse modo, a dinâmica cultural brasileira seria
constituída.
Outro aspecto que devemos esclarecer é a divisão por duas vertentes
culturais que aparecem no documento, reforçando a proposta operacional.
Conforme Botelho (2000, p. 118) "se de um lado é necessário proteger,
apoiar e recuperar as informações contidas no patrimônio cultural brasi-
leiro, tornando-as acessíveis à comunidade, de outro se reconhece a
estimular o desenvolvimento". Portanto, toma-se como base uma visão de
conjunto sobre o fazer cultural para a comunidade e, assim, o país iria al-
cançar o ‘desenvolvimento verdadeiro’. Como visto, a questão do
desenvolvimento aliado à cultura é fortíssima nas Diretrizes, trazendo
ainda ideia das políticas formuladas desde os anos 1970.
A segunda parte do documento tem como título “Princípios para Ope-
racionalização”. Esta sessão é dividida por oito tópicos, estes são:
descentralização, interdisciplinaridade, inter-relação das duas vertentes,
264 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

reconhecimento da pluralidade cultural, interação das diferentes culturas,


valorização dos bens culturais não consagrados, proteção do produto cul-
tural brasileiro e devolução. Ao realizarmos a análise de cada item,
observamos como cada tópico desse documento é complementar e seus
objetivos seriam alcançados em conjunto, não sendo possível fazê-los se-
paradamente. Iremos nos ater ao princípio da descentralização, o qual está
servindo de problemática para essa pesquisa.
Assim a descentralização não é vista apenas tal qual uma fragmenta-
ção ou um mecanismo de operacionalização, mas como uma maneira das
políticas culturais dialogarem diretamente com as realidades regionais
brasileiras. Parte da ideia de que a diretriz seria uma ferramenta de arti-
culação entre os níveis e o objetivo seria estabelecer um diálogo entre
cultura brasileira ou, por assim dizer, uma comunicação entre os contextos
culturais existentes no Brasil.
Já a interdisciplinaridade, podemos ver como a estrutura para o de-
senvolvimento da descentralização e para a obtenção de resultados mais
completos, em que diferentes áreas de conhecimento fariam os trabalhos,
orientados pelas vertentes. Com uma valorização da complexidade cultu-
ral através da soma de diferentes abordagens. A inter-relação das duas
vertentes vai nos ser de especial importância para compreender como, a
partir dessa divisão, ocorreram alterações no comportamento institucio-
nal, com a responsabilidade sobre a proteção ao patrimônio cultural e a
emergência dos bens culturais, sobretudo, para a Fundação Pró-Memória,
que seria o braço executivo das políticas formuladas.
Com relação ao reconhecimento da pluralidade cultural o documento
vai dizer que: “de modo a possibilitar a emergência de suas diferentes ma-
nifestações reconhecendo-se que também as culturas marginalizadas,
além de influenciar, devem ocupar seu lugar na trajetória cultural brasi-
leira” (Diretrizes para operacionalizar a política cultural do MEC, 1981, p.
6). Notamos a preocupação de trazer esses olhares para as margens, de
criar novos referenciais da cultura e de suprir uma lacuna da identidade
Jeaniny Silva dos Santos | 265

nacional que estava no esquecimento nas instituições de proteção aos bens


culturais.
Outro ponto que percebemos é a direção que estava encaminhando a
conjuntura das instituições culturais por meio da interação das diferentes
culturas. Com o estímulo à preservação, à produção e à difusão cultural,
em que todas as regiões deveriam ter o mesmo tratamento em empenho,
os monumentos de origens portuguesas da região sudeste deveriam divi-
dir espaço com as demais regiões do país para a formação da identidade
nacional. Seguidos da valorização dos bens culturais ainda não consagra-
dos, surge nesse período para designar aqueles bens culturais que não
integravam escopo do patrimônio nacional, tratando de formular novos
critérios para a valorização e proteção dos bens, os mesmos mereciam ter
o reconhecimento dos seus valores históricos e artísticos.
Então o próximo tópico nos leva a pensar como a proteção do produto
cultural brasileiro deveria ser estimulado, sempre com interesse de valo-
rizar a cultura brasileira. Mas, essa cultura não poderia ser vista como
única, pois, conforme já exposto até aqui, buscava fortalecer os aspectos
regionais para que isso somado tivesse a força necessária para que o auto-
ritarismo se mantivesse no poder. A atribuição de responsabilidades
através de níveis envolvidos, entre eles, os órgãos do executivo, área cul-
tural, entidades privadas e, sobretudo, a população vai perpassar o
documento. Com estímulos a formulação de legislação de proteção e pre-
servação, bem como a criação de instrumentos que partiriam do
desenvolvimento de tecnologias para a difusão dos bens culturais agilizam
a sua aplicação.
Todavia, se faz o uso desse instrumento burocrático cultural com o
intuito, como aponta o último tópico desse documento, de promover a de-
volução dos bens culturais à população, com o princípio de estimular à
produção e à preservação do bem cultural, com a criação de canais ade-
quados e formas de assegurar a participação da comunidade, promovendo
“a ativação dos mecanismos existentes de registro e circulação dos bens
266 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

culturais” (Diretrizes para operacionalizar a política cultural do MEC, 1981,


p. 10).
É possível notar o discurso nacionalista percorrendo todo o docu-
mento de maneira suave, mas que se torna mais evidente na parte final.
No início, o discurso contido no documento é mais voltado para a questão
da promoção da igualdade e da inclusão social por meio da preocupação
com os bens culturais, passando a ideia de valorização dos diversos con-
textos que formam Brasil e destacando a preocupação de inseri-los por
meio de suas manifestações culturais e participação comunitária. Em ou-
tros trechos são ressaltadas a importância da difusão cultural, dando
prioridade para as ações nas escolas e universidades. A questão do desen-
volvimento aliado à cultura é fortíssima nas páginas desse documento,
sobretudo, na forma de estimular a participação da comunidade nesse pro-
cesso.
Contudo, nas últimas páginas o documento apresenta o discurso da
identidade nacional, configurando o seu caráter nacionalista. Na sessão in-
titulada “Captação, guarda, fluxo e uso de informações de conteúdo no
sistema SEC\MEC”, observamos a evocação do discurso da memória naci-
onal viva e indispensável como justificativa para apoiar as propostas até
então apresentadas no documento e efetivar o desenvolvimento da dinâ-
mica cultural brasileira. Em concordância a Laís Lavinas (2012, p. 182)
"ocorre o incentivo à implementação de projetos que sejam voltados para
a conservação das memórias e registros culturais em níveis do local e re-
gional". Desse modo, a memória que os bens culturais carregam teria as
funções de referencial e descrição da dinâmica cultural.
Assim, o documento “Diretrizes para operacionalizar a política cultu-
ral do MEC” foi visto como um novo modelo de gestão a seguir, no qual a
descentralização era prioridade da SEC/MEC. Como apontado por Botelho
(2000, p. 168-9), internamente, "ela significa a transferência das respon-
sabilidades de decisão para as áreas, ao invés de centralizá-as nas mãos da
direção Executiva" Externamente, implicava uma maior articulação com
Jeaniny Silva dos Santos | 267

as outras instâncias. Em conformidade a Lavinas (2012, p. 180) as diretri-


zes de operacionalização da política cultural, neste momento, refletem a
estratégia do governo para fragmentar os conglomerados oposicionistas
ao regime, formados no âmbito da sociedade civil.
Dessa forma, uma crítica que se pode fazer sobre as diretrizes, atra-
vés do documento analisado, ilustra-se parte do diálogo entre as políticas
de defesa do patrimônio cultural brasileiro, mostrando como essa vertente
era pressuposta para um fortalecimento estatal diante das diretrizes gerais
da cultura nos anos finais da ditadura e início da redemocratização. A ver-
tente patrimonial foi estruturada sob o seu comando via Fundação
Nacional Pró-Memória e CNRC para descentralizar os projetos e o trata-
mento sobre os bens culturais brasileiros. Conforme Fonseca (2005, p.
216), elaborou-se uma visão mais politizada da questão do patrimônio, na
verdade, desde o final dos anos 70, membros do grupo de “referência”
procuravam relacionar a questão do patrimônio à luta pela cidadania. As
políticas culturais exercem um papel fundamental de referência teórico-
discursiva no período estudado, tendo em vista o fato de serem construí-
das de forma a valorizar o regional e a participação de outros níveis de
proteção dos bens.
Ao considerar os anos anteriores, marcados pelo contexto ditatorial
com a organização do aparelho repressivo do Estado, falar de uma política
de preservação patrimonial era um passo além de mecanismos formais.
Devemos também considerar a representatividade do patrimônio oficial
em relação à diversidade cultural, o valor econômico das ações práticas e
de que forma iriam refletir em outras esferas para além da Secretaria da
Cultura. Essa discussão começou no interior do SPHAN e, posteriormente,
passou para a SEC, mas foi projetada para ir de encontro com outras for-
mas de desenvolvimento nacional, significando que educação, turismo e
desenvolvimento urbano tinham que estar articulados.
Por tudo isso, a descentralização na área da cultura, sobretudo dos
bens culturais, diz respeito à orientação para a participação da comuni-
dade na elaboração de legislação em seus níveis estaduais e municípios,
268 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

proporcionando a segurança dos direitos à representatividade social. Pos-


terior a essa reorganização inicial na recém-criada Secretaria da Cultura,
foi articulado novos propósitos, a partir de seminários que resultaram na
ampliação conceitual e práticas das políticas culturais, mesmo em um Es-
tado antidemocrático.

Considerações finais

Assim, essa pesquisa é dedicada a aprofundar os debates acerca das


políticas para os bens culturais brasileiros enquanto parte do desenvolvi-
mento proposto pela ditadura civil-militar. Ressalta a importância do
caráter renovador que as políticas culturais da Secretaria da Cultura deve-
riam adquirir e evidencia a necessidade de uma atuação descentralizada e
pontual. “A transição brasileira foi longa, tutelada pelos militares, com
grande controle sobre o sistema político, apesar do desgaste de anos ocu-
pando o poder de Estado. Foi altamente institucionalizada na forma de leis
e salvaguardas” (NAPOLITANO, 2014, p. 342).
Argumenta-se que, a partir da liderança de Aloísio Magalhães, as po-
líticas culturais assumem um papel estratégico maior dentro do processo
de abertura política, em que a problematização de interesses no setor pos-
sibilita a ascensão de uma ideia nova de identidade cultural regional nos
discursos nacionais de cultura. Ao mesmo tempo, Magalhães revelou-se
um bom estrategista na sua articulação com os militares, sobretudo, ao
transitar não apenas pelas diversas áreas ministeriais, como junto aos se-
tores militares.
Portanto, durante o período, recursos discursivos proporcionados
por determinadas concepções de cultura e de identidade nacionais foram
ferramentas para se construir uma visão otimista sobre o país e, assim,
conduzir transformações de comportamento na população, buscando
amenizar os crescentes problemas de insatisfação de setores da sociedade
em relação à forma de conduta usada pela ditadura para governar o país.
A Secretaria da Cultura em sua concepção já possuía o intuito de inserir a
Jeaniny Silva dos Santos | 269

cultura para outros níveis além do Executivo federal. Assim, o processo de


descentralização do órgão foi crucial para a estratégia de manutenção do
poder voltada para a cultura, preocupadas em realizar uma descentraliza-
ção burocrática, sendo esta vista como uma forma de ampliação e de
construção e/ou fortalecimento de narrativas e discursos sobre o Brasil.

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13

Controle e sigilo sobre os direitos humanos:


a inoperância do Conselho de Defesa dos Direitos da
Pessoa Humana na ditadura civil-militar (1964-1985)

Leonardo Fetter da Silva 1

Introdução

Após quatro anos do golpe civil-militar, em 1968 ocorreram diversas


manifestações pelo Brasil de crítica à ditadura civil-militar, tendo como
frente os estudantes e operários organizados. Naquele momento, atores e
setores civis que tiveram um importante papel de apoio ao movimento
golpista também demostravam sua insatisfação com a ditadura, essencial-
mente com a escalada repressiva no país. No início do mesmo ano, em 28
de março, o estudante Edson Luís de Lima Souto foi morto por policiais,
no restaurante Calabouço, Rio de Janeiro, em repressão a uma manifesta-
ção estudantil pelo mau funcionamento do restaurante universitário – e
milhares de pessoas acompanharam seu enterro. O fato circulou nos jor-
nais e teve grande repercussão nacional, já que a censura rigorosa sobre a
imprensa não havia sido implementada: “a morte de Edson Luís gerou
protestos pelo Brasil afora. Passeatas estudantis – que também eram
acompanhadas pela classe média, artistas e religiosos – aconteceram em
todo o país. O governo decidiu reprimi-las” (FICO, 2016, p. 63).

1
Mestre e doutorando em História pelo Programa de Pós-Graduação em História da Pontifícia Universidade Católica
do Rio Grande do Sul. Bolsista CNPq.
272 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

Em meio a investigações do Ministério Público sobre a morte de Ed-


son Luís e às duras repressões às manifestações do movimento estudantil,
a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) pronunciou sobre a necessidade
de instalação do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana
(CDDPH). A entidade solicitou, por meio de um telegrama ao ministro da
Justiça Luís Antônio Gama e Silva, o efetivo funcionamento do órgão em
resposta à forte repressão e denúncias de violações dos direitos humanos2.
O Conselho havia sido proposto em 1956 pelo dep. fed. Bilac Pinto (UDN),
aprovado pelo Congresso Nacional e sancionado pelo então presidente
João Goulart dias antes do golpe civil-militar, em março de 1964. Dentre
seus objetivos estavam promover investigações de denúncias de violações,
propiciar e garantir os direitos humanos no Brasil (BRASIL, 1964). Sua
composição inicial incluía nove membros, entre representantes do go-
verno e de entidades civis, como a OAB e a Associação Brasileira de
Imprensa (ABI)3, tendo o ministro da Justiça como presidente.
Durante o ano de 1968, várias universidades foram invadidas pelas
forças policiais com o intuito de reprimir manifestações estudantis. Por
outro lado, greves de trabalhadores também foram organizadas. No Rio de
Janeiro, mesmo com a proibição de manifestações e comícios feita pelo
ministro da Justiça Gama e Silva, em 26 de junho ocorreu a chamada Pas-
seata dos Cem Mil, que marcou a insatisfação sobre as prisões e
arbitrariedades da ditadura civil-militar. O ano de 1968 foi chamado de “o
ano que não acabou” e, segundo o historiador Marcos Napolitano (2017),
ficou marcado por um lugar paradoxal na memória brasileira: de um lado,
as utopias libertárias, acentuada por um movimento pelo mundo; e por
outro, o início dos “anos de chumbo” com a escalada repressiva produzida
pelo regime. Dentro desse contexto de grandes manifestações contra a di-
tadura e forte repressão empregada pelo Estado, a necessidade de
instalação do CDDPH ganhou força.

2
“Depoimentos não esclarecem as mortes”. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 2 abr. 1968, p. 15.
3
Pela Lei 4.319/64, eram membros: ministro da Justiça, presidente da OAB, professor catedrático de direito consti-
tucional de uma faculdade federal, Presidente da ABI, Presidente da Associação Brasileira de Educação (ABE) e líderes
da maioria e da minoria na Câmara dos Deputados e no Senado Federal (BRASIL, 1964).
Leonardo Fetter da Silva | 273

No dia 11 de maio de 1968, o ministro da Justiça anunciou que o órgão


entraria em atividade imediata. Gama e Silva justificou a medida como
“imperativo do Estado de Direito”4 – uma primeira tentativa de caracteri-
zação do órgão como representante da suposta constitucionalidade do
regime. No mês seguinte, a OAB postulou novamente a instalação imediata
do CDDPH frente às ações repressivas da Polícia Militar contra as mani-
festações estudantis nas universidades do Rio de Janeiro5. Poucos dias
depois, a entidade fez nova solicitação em telegrama enviado ao ditador-
presidente Artur Costa e Silva (1967-1969). Samuel Duarte, então presi-
dente da Ordem, solicitava “o império da Constituição” e a contenção dos
atos repressivos no “círculo da legalidade”6. Frente às constantes solicita-
ções, principalmente da OAB7, e pelo contexto específico de 1968, no dia
24 de outubro, em uma cerimônia oficial no Palácio das Laranjeiras no Rio
de Janeiro, foi instalado o CDDPH8. Na ocasião, o ditador-presidente Costa
e Silva e o ministro da Justiça Gama e Silva discursaram e defenderam o
ato como representando o respeito às leis, à Constituição, aos direitos hu-
manos e ao Estado de Direito, promovido pela “Revolução” – trazendo em
seus discursos características que buscavam legitimar a ditadura como de-
fensora da democracia e direitos humanos no Brasil 9.
Dessa forma, o presente artigo tem como objetivo apresentar o Con-
selho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH) na ditadura

4
Órgão defenderá direitos humanos. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 12 de mai. 1968, p. 5.
5
Govêrno disposto a liquidar a agitação. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 21 jun. 1968, p. 13.
6
Advogados também terão acesso. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 25 jun. 1968, p. 19.
7
Houve outras solicitações pela instalação do CDDPH desde 1964, realizadas por parlamentares oposicionistas que
denunciam perseguição e crimes contra opositores. Entretanto, a instalação do Conselho ganhou força em 1968, em
função da forte repressão às manifestações e progressiva escalada de violência política (Comissão examina casos de
cassação. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 19 abr. 1964, p. 1. / Deputado quer direitos humanos. Correio da Manhã,
Rio de Janeiro, 19 mar. 1965, p. 8.)
8
Costa e Silva instala Conselho dos Direitos. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 25 out. 1968, p. 4.
9
A análise da cerimônia de instalação e dos discursos do ditador-presidente Costa e Silva e do ministro da Justiça
Gama e Silva, que buscaram demonstrar aquele ato como representando os supostos objetivos democráticos, insti-
tucionais e constitucionais da ditadura civil-miliar, pode ser conferida em: SILVA, Leonardo Fetter da. Ditadura civil-
militar e a aparência de normalidade constitucional: análise dos discursos na instalação do Conselho de Defesa dos
Direitos da Pessoa Humana. Oficina do Historiador, Porto Alegre, v. 12, n. 1, p. 1-15, 2019a.
274 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

civil-militar, propondo delimitar essa trajetória em três momentos: da ins-


talação de 1968 até as alterações em 1971 e o aumento do controle do
regime ditatorial sobre o órgão; do sigilo e ineficiência marcado a partir
desse momento até a não convocação entre 1974 e 1979; e, por fim, o Con-
selho nos últimos seis anos da ditadura e sua postura frente às demandas
do processo de abertura política. Ainda, busco adentrar em alguns questi-
onamentos sobre a manutenção do órgão pelo regime e como a OAB, ABI
e o partido oposicionista MDB se utilizaram desse mecanismo como meio
de denúncia e luta pelos direitos humanos10. Por fim, também proponho
questionar como um instrumento – o Conselho – com a finalidade de pro-
mover os direitos humanos e apurar violações esteve funcionando em um
regime promovedor de tais crimes.
Pouco tempo depois da instalação do CDDPH, a ditadura editou o Ato
Institucional nº.5 (AI-5), que acabou com as últimas garantias legais e au-
mentou o cerco repressivo no Brasil. O mesmo ministro da Justiça que
instalou o CDDPH no dia 24 de outubro e declarou aquele ato como um
verdadeiro exemplo de respeito aos direitos humanos, além de ser o pró-
prio presidente do Conselho, Gama e Silva anunciou, no dia 13 de
dezembro, o Ato que instaurava no país os chamados “anos de chumbo”.
Foi nesse período que a violência política atingiu indiscriminadamente vá-
rios setores da sociedade brasileira e o aparelho repressivo foi estruturado
sistematicamente para a violação dos direitos humanos (JOFFILY, 2014).
Definitivamente, a apuração das denúncias de violações aos direitos hu-
manos e o respeito à ordem constitucional não estavam na pauta do
governo ditatorial.

10
Os debates aqui propostos fazem parte da minha dissertação de mestrado, intitulada “Inoperância e Fracasso na
Defesa dos Direitos Humanos: o Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana na Ditadura Civil-Militar (1964-
1985)”, defendida em 2019 no PPGH da PUCRS (SILVA, 2019b). Dessa forma, as fontes utilizadas neste artigo fazem
parte do corpus documental da dissertação – são matérias dos jornais Folha de São Paulo (SP), o Estado de São Paulo
(SP) e Correio da Manhã (RJ), assim como documentos oficiais dispostos no Arquivo Nacional. A escolha desses
jornais como fonte ocorreu pelo fato dos três serem enquadrados, frequentemente, na “grande imprensa” e possuí-
rem grande circulação nacional, assim como o acesso de seus acervos de forma online e com fácil pesquisa por meio
da busca de termos.
Leonardo Fetter da Silva | 275

Anos de Chumbo: da “ineficácia” à “subserviência”

O primeiro momento do CDDPH pode ser delimitado em torno de


três anos – da instalação em 1968 até a aprovação do instrumento legal
denominado Lei Ruy Santos, em 1971, que será abordada a seguir. A pri-
meira reunião do órgão, após a cerimônia de instalação, foi no final do mês
de novembro de 1968 e possuía duas grande pautas: os crimes cometidos
pela polícia da Guanabara e do Rio de Janeiro, que foram anexados à de-
núncia sobre os “Esquadrões da Morte”; e as denúncias sobre o
“genocídio” das populações indígenas. Essas duas temáticas retornaram
constantemente no CDDPH durante o período da ditadura civil-militar.
Após esse encontro, o órgão voltou a se reunir somente em dezembro de
196911, depois de um ano, já sob o governo do general Emílio Garrastazu
Médici (1969-1974) e do novo ministro da Justiça, Alfredo Buzaid, que
marcou uma nova postura do Conselho. Essa pausa ocorreu devido à ins-
tabilidade política instaurada no país pelo AI-5 que, entre outras
disposições ditatoriais, fechou o Congresso Nacional e extinguiu o habeas
corpus para crimes políticos.
A partir desse momento, as primeiras denúncias de violações contra
opositores políticos chegaram ao CDDPH. Esta questão era cara a ditadura
civil-militar e , portanto, encontrou forte resistência por parte do governo
e membros governistas de ser denunciada e investigada pelo Conselho. A
ditadura, além de estruturar um forte aparato repressivo, também buscou
garantir a impunidade dos agentes e instituições envolvidos e, portanto,
procurou assegurar nenhuma investigação nesse sentido (BRASIL, 2017).
Após a primeira reunião em 1969, o ministro da Justiça foi questionado
sobre uma denúncia realizada pelo senador Aurélio Vianna (MDB)
referente à tortura de presos políticos. Foi o primeiro caso do CDDPH. O
ministro respondeu que, se ela havia sido formulada ao governo, a

11
Direitos serão garantidos. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 3 dez. 1969, p. 38.
276 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

apuração das responsabilidades seriam feitas de forma inflexível12. A


denúncia era sobre a prisão e tortura de três advogados, formulada pela
seção da OAB de Brasília e apresentada por Vianna. As declarações do
ministro na busca de esclarecimentos animaram alguns membros, que
acreditavam no dispositivo como verdadeiro instrumento na investigação
das violações dos direitos humanos. Porém, na reunião seguinte, que
ocorreu no dia 12 de dezembro, a denúncia não entrou na pauta13.
O ministro Alfredo Buzaid também chegou a anunciar que pretendia
reunir o CDDPH duas vezes ao mês, conforme estabelecia a lei. O fato agra-
dou a oposição por ser uma das suas demandas. O presidente em exercício
do MDB, Ulysses Guimarães, chegou a elogiar a atitude e afirmou que isso
inauguraria uma nova etapa da administração do governo14. Além disso, a
intenção do governo em investigar todas as denúncias de tortura, anunci-
ada pelo ministro, foi vista como positiva pelos setores políticos e
representava um indicativo de que o governo havia decidido “atacar” de
frente as denúncias contra ele15. Após, o CDDPH se reuniu novamente no
dia 27 de agosto de 1970, cumprindo a promessa do governo de duas reu-
niões mensais16 e, devido às eleições que ocorreram em 15 de novembro
daquele ano, o próximo encontro do CDDPH ocorreu no dia 27 de novem-
bro de 197017. Essa foi a última reunião do ano.
Em fevereiro de 1971, o ministro anunciou que convocaria uma reu-
nião do CDDPH naquele mês. A principal pauta estipulada era sobre a
“operação-gaiola”, que acabou na prisão de diversos advogados pouco an-
tes das eleições parlamentares do ano anterior18. Ao final do mês, a reunião
já era tratada para ocorrer em março e era esperada a análise da denúncia
de prisão e desaparecimento do ex-deputado e engenheiro Rubens Paiva,

12
Buzaid tem pleno apoio. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 4 dez. 1969, p. 6. / Buzaid: governo será inflexível. O
Estado de S. Paulo, 5 dez. 1969, p. 4.
13
ABI nega o genocídio. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 13 dez. 1969, p. 50.
14
Reunião do Conselho agradou à Oposição. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 7 ago. 1970, p. 3.
15
Repercute decisão de ver violências. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 7 ago. 1970, p. 3.
16
Ministro reúne Conselho. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 28 ago. 1970, p. 3.
17
Conselho recebe denúncia da OAB. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 28 nov. 1970, p. 6.
18
O Conselho de Direitos será reunido. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 14 fev. 1971, p. 21.
Leonardo Fetter da Silva | 277

denunciado pelo deputado Oscar Pedroso Horta, líder do MDB na Câ-


mara19. O secretário-geral do Conselho, Manoel G. Ferreira Filho, também
havia informado que recebeu uma carta da mulher do ex-parlamentar,
Eunice Paiva, a qual denunciava que seu marido havia sido levado de sua
residência por seis agentes da Aeronáutica, em 20 de janeiro, para a 3ª
Zona Aérea, e desapareceu20. Os órgãos militares informaram, falsamente,
que ele havia sido sequestrado pela guerrilha em uma emboscada. O caso
de Rubens Paiva foi importante nos rumos do CDDPH.
Após a reunião do CDDPH, que ocorreu no dia 10 de março, todos os
membros mantiveram sigilo e não prestaram declarações à imprensa, sob
orientação e predeterminação do ministro Alfredo Buzaid21. O único a falar
foi o dep. Pedroso Horta (MDB), informando que o caso do Rubens Paiva
havia sido transformado em investigação. Além disso, o deputado infor-
mou que também foi examinada a prisão de outros três advogados –
denúncia diferente daquela formulada em 1969 por Aurélio Vianna. O en-
contro durou três horas e foi cercado pelo sigilo. O deputado Horta
classificou a restrição como “melancólica”. Assim, iniciava um período em
que todas as reuniões do órgão foram marcadas pelo sigilo, por determi-
nação do próprio ministro da Justiça, presidente do Conselho. As
informações das reuniões passaram a ser distribuídas para a imprensa em
notas que continham basicamente informações burocráticas.
No dia 9 de junho de 1971, sete membros da bancada do MDB no Se-
nado assinaram um projeto apresentado pelo senador Nelson Carneiro
(MDB) que alterava a lei que criou o CDDPH, visando um órgão mais atu-
ante e objetivo (BRASIL, 1971a). No projeto, as reuniões seriam realizadas
em sessões públicas, que também seriam divulgadas em órgãos oficiais da
União e dos estados nos quais os processos estavam envolvidos. Segundo
o senador, o projeto buscava tornar o Conselho mais dinâmico “para que

19
Conselho aguarda convocação. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 23 fev. 1971, p. 4.
20
A Comissão Nacional da Verdade, instituída em 2011, concluiu em seu relatório final que Rubens Paiva foi tortu-
rado e assassinado quando esteve sob a guarda do Estado brasileiro e seu corpo ocultado pelos agentes.
21
Conselho não rompe sigilo. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 11 mar. 1971, p. 16. / Reuniu-se o Conselho de Direitos
Humanos. Folha de São Paulo, São Paulo, 11 mar. 1971, p. 3.
278 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

esse órgão tenha integral desempenho de sua alta e nobre missão tal como
imaginada pelos que, dentro e fora do Congresso, tanto se empenham pela
sua vigilância”22. Ainda, determinava que a reuniões ocorressem duas ve-
zes ao mês em Brasília, podendo ser convocadas extraordinariamente23.
Segundo o projeto, qualquer membro do CDDPH poderia promover a ve-
rificação da denúncia, que deveria ser “durante o dia ou a noite, com livre
acesso aos estabelecimentos públicos ou particulares, de qualquer natu-
reza, e livre de trânsito em todo o território nacional”24. A proposta
buscava ampliar a atuação do Conselho frente às denúncias de crimes con-
tra opositores políticos e era uma tentativa de limitar o poder do ministro
da Justiça nas ações do órgão, já que ele era o responsável por convocar as
reuniões, orientar as investigações/diligências e demais dinâmicas.
Ao final do mês de junho, o presidente da OAB, José Cavalcanti, en-
viou um ofício ao ministro da Justiça reiterando a preocupação da classe
com a plenitude de funcionamento do CDDPH “por se reconhecer a sua
valia como instrumento de garantia e aperfeiçoamento democrático” 25.
Ainda declarou a necessidade de realização plena da missão do Conselho,
bem como o seu funcionamento ordinário garantido por lei e estatuto.
Tanto a OAB como o MDB cobravam uma atuação mais consistente do
Conselho e acreditavam no órgão como um instrumento legítimo na de-
fesa dos direitos humanos, bem como solicitavam reuniões regulares como
forma de dinamizá-lo – de acordo com a lei que criou o órgão.
Após a cobrança da OAB, o ministro convocou uma reunião para 13
de julho26. No encontro, o dep. Pedroso Horta requisitou prioridade no jul-
gamento do processo de Rubens Paiva e do estudante Odijas Carvalho de
Souza27 – torturado e assassinado no Recife por agentes do DOPS/PE – que
havia sido denunciado pelo deputado em maio. No encontro, dos processos

22
Projeto altera lei de direitos. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 10 jun. 1971, p. 12.
23
Direitos da Pessoa Humana. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 10 jun. 1971, p. 2.
24
Projeto altera lei de direitos. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 10 jun. 1971, p. 12.
25
Direitos Humanos: OAB ativa Conselho. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 23 jun. 1971, p. 3.
26
Conselho do Homem reúne-se. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 27 jun. 1971, p. 1.
27
Reuni-se o Conselho de Direito Humanos. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 14 jul. 1971, p. 12.
Leonardo Fetter da Silva | 279

apreciados, três foram arquivados e dois transformados em diligências,


bem como no caso de Rubens Paiva em que foi suspensa a leitura do rela-
tório do senador Eurico Rezende (ARENA) – relator da denúncia – que
solicitava o arquivamento do processo tendo como base os documentos
oficiais. A suspensão ocorreu porque o Conselho aprovou o requerimento
de Pedroso Horta pela junta de mais documentos, voltando ao relator para
ser apreciada na próxima reunião. Entre outras questões, dias após o en-
contro, o presidente da OAB, José Cavalcanti, anunciou que havia apoiado
a medida interna apresentada no encontro do Conselho pelo líder na Câ-
mara do MDB, Pedroso Horta, em tornar as sessões públicas28. Para
Cavalcanti, o apoio se dava desde que não envolvesse o interesse para a
segurança nacional, todavia também revelou que a proposta não chegou a
ser apreciada por falta de tempo.
Reunido novamente em 10 de agosto de 1971, apesar de também ter
outros assuntos pré-definidos para serem tratados, boa parte do encontro
foi sobre o caso Rubens Paiva. Contudo, o relator Eurico Rezende conside-
rou que os novos documentos apresentados por Pedroso Horta não
ofereciam novidades, relatando pelo arquivamento29. O relator se baseou
no julgamento do Exército sobre o caso, que estava estruturado na infor-
mação de que Paiva havia sido sequestrado e que as autoridades
desenvolviam esforços para encontrá-lo. Na votação pela aprovação do pa-
recer do relator no processo, outra surpresa: metade dos membros
votaram a favor do arquivamento e metade contra. Votaram pela aprova-
ção do parecer, pelo arquivamento: sen. Eurico Rezende, da ARENA; dep.
Geraldo Freire, da ARENA; Pedro Calmon, professor catedrático de direito
constitucional; e Benjamin Albagli, presidente da ABE. Assim, votaram
contra: sen. Nelson Carneiro, do MDB; dep. Pedroso Horta, do MDB; Ca-
valcanti Neves, presidente da OAB; e Danton Jobim, presidente da ABI30.

28
Conselho dos Direitos: OAB quer sessões públicas. Folha de São Paulo, São Paulo, 20 jul. 1971, p. 5.
29
Buzaid já acompanhava os processos dos Esquadrões. O Estado de S. Paulo¸ São Paulo, 11 ago. 1971, p. 9.
30
Conselho arquiva caso Paiva. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 11 ago. 1971, p. 1.
280 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

O processo acabou arquivado com o voto de minerva atribuído ao ministro


da Justiça, que o tinha por direito, desempatando a votação.
Dessa forma, pela primeira vez houve a esperança de que um pro-
cesso de denúncia envolvendo crimes contra opositores políticos fosse
investigado efetivamente pelo CDDPH e, consequentemente, passaria a
negar os documentos dispostos pelo Exército – o que não ocorreu. Após a
reunião, o deputado Pedroso Horta disse que não se surpreendeu com as
conclusões do processo e que para ele o ex-deputado foi assassinado, sendo
a sindicância procedida pelo Exército a “lápide funérea com que se pode
enterrar Rubens Paiva”. Além desse processo, o caso de Odijas, que seria
apreciado na reunião, foi adiado, bem como o caso de Stuart Angel. Sua
mãe, a estilista Zuleika Angel Jones (Zuzu Angel), havia entrado com uma
representação por meio do deputado Pedroso Horta em relação ao desa-
parecimento/morte de seu filho31.
Além disso, poucos dias depois da reunião, alguns membros ligados
ao governo manifestaram preocupação de tornar o CDDPH uma “tribuna
política” e estavam propensos a tornar as sessões mais sigilosas, referindo-
se à votação que quase levou a investigação do desaparecimento de Rubens
Paiva adiante32. Nesses encontros, as informações seriam passadas so-
mente por notas oficiais e haveriam normas rígidas para que não
ocorresse quebra de sigilo. Isso ocorreu após a oposição divulgar uma nota
criticando o CDDPH e a análise do caso Rubens Paiva pelo órgão, que-
brando o sigilo pré-posto ao Conselho pelo ministro Alfredo Buzaid.
Ademais, o líder do MDB, dep. Pedroso Horta, recusou-se a fazer sigilo,
pois, segundo ele, deveria informar ao seu partido as atribuições que lhe
foram delegadas e não poderia ocultar ao mandante tudo que concerne ao
cumprimento do mandato.

31
Buzaid já acompanhava os processos dos Esquadrões. O Estado de S. Paulo¸ São Paulo, 11 ago. 1971, p. 9.
32
Conselho pode reforçar sigilo. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 13 ago. 1971, p. 11.
Leonardo Fetter da Silva | 281

Lei Ruy Santos (1971) e a imposição do sigilo

Em setembro de 1971, o senador Nelson Carneiro decidiu retirar o


projeto de sua autoria que alterava a lei do CDDPH proposto em junho
daquele ano e que buscava ampliar a atuação do órgão e tornar as reuniões
públicas (BRASIL, 1971a). A atitude foi realizada para evitar a aprovação
de uma emenda proposta pelo vice-líder do governo, senador Ruy Santos
(ARENA), que desvirtuava o projeto aumentando o número de membros
do Conselho e determinava apenas seis reuniões ordinárias anuais – todas
elas secretas33. Ao retirar a proposta, Nelson Carneiro declarou que o seu
projeto “não será no bojo de uma preposição da bancada oposicionista que
se aprovará qualquer medida, que constitua um passo atrás no difícil ca-
minho da restauração democrática”34.
Porém, com a retirada do projeto, no dia 22 de outubro de 1971 o
senador governista Ruy Santos apresentou o Projeto de Lei 419/1971, que
objetivava mudanças na lei que criou o CDDPH. Entre elas, estavam: a in-
clusão de quatro novos membros – representantes do Ministério das
Relações Exteriores, do Conselho Federal de Cultura (CFC), do Ministério
Público Federal (MPF) e um professor catedrático de direito penal de uma
das faculdades federais; a determinação de seis reuniões ordinárias no ano
e, extraordinariamente, sempre que convocado pelo seu Presidente, por
iniciativa própria ou por solicitação de dois terços de seus membros; e que
as reuniões fossem secretas, apenas divulgadas pelo órgão oficial da União
e estados a súmula do julgamento de cada processo, salvo decisão contrá-
ria tomada pela maioria absoluta dos membros (BRASIL, 1971b). Iniciava-
se um cerco aos trabalhos do CDDPH.
O senador Danton Jobim (MDB), também presidente da ABI e mem-
bro do CDDPH, declarou no mesmo mês a sua posição contrária ao projeto
apresentado por Ruy Santos. Segundo ele, a proposta seria inconstitucio-
nal por elevar as despesas com o aumento do número de membros, além

33
Pessoa Humana: Conselho não sofrerá alteração. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 19 set. 1971, p. 3.
34
Senador retira projeto para evitar a emenda. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 19 set. 1971, p. 40.
282 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

de desconfigurar o órgão e desequilibrar a composição35. A OAB e o MDB


também se colocaram contra as modificações e suas principais críticas
consistiam em dois pontos: os novos membros possuíam vínculo direto
com o governo e isso faria com que todas as propostas governamentais
apresentadas fossem aceitas36; e as reuniões sigilosas fariam com que as
denúncias perdessem força, sem a pressão da sociedade proporcionada
pela publicidade. De fato, era justamente essa a intenção da ditadura, que
buscava ter controle absoluto das pautas e decisões do Conselho. O projeto,
que foi encabeçado pelo governo, era uma aberta reação à sua perda de
força dentro do CDDPH, que ficou evidente na votação do caso Rubens
Paiva.
No dia 19 de outubro, o Senado aprovou as modificações propostas
por Ruy Santos37. Dias depois da aprovação, o senador Franco Montoro,
líder do MDB, fez um apelo ao ditador-presidente Médici solicitando que
liberasse a maioria da Câmara para rejeitar o projeto, afirmando que as
alterações seriam um grave erro por parte do governo. Segundo ele: “As
modificações introduzidas na lei, oriunda de projeto de autoria do ex-de-
putado Bilac Pinto, praticamente invalidam o Conselho, melhor sendo sua
pura e simples extinção”38. Acrescentou que não se tratava de um “órgão
contrário ou favorável” ao governo, mas “uma instituição que, objetiva a
apuração de eventuais atentados contra direitos fundamentais da pessoa
humana, assegurados pela Constituição vigente e com os quais o Brasil
possui compromisso de natureza internacional”39, referindo-se a Declara-
ção Universal dos Direitos Humanos de 1948.
Em reunião da bancada da Câmara no dia 4 novembro, o MDB deci-
diu ficar no CDDPH e lutar com todos os recursos contra o projeto de Ruy

35
Conselho de Defesa Humana discutido. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 15 out. 1971, p. 2.
36
O professor catedrático de direito penal seria eleito pelo colegiado do CDDPH por maioria simples, assim como
ocorreria com o professor catedrático de direito constitucional pela Lei 4.913/64. Portanto, com maioria ampliada
pelo projeto de Lei Ruy Santos, o governo poderia eleger as suas duas indicações de professores membros com faci-
lidade, aumentando ainda mais as suas cadeiras no órgão.
37
Conselho: 13 membros e sigilo. Folha de São Paulo, São Paulo, 20 out. 1971, p. 3.
38
Montoro pede salário real médio para o trabalhador. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 23 out. 1971, p. 2.
39
Montoro acha melhor extinguir o Conselho. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 23 out. 1971, p. 2.
Leonardo Fetter da Silva | 283

Santos – o partido cogitava sua retirada do Conselho40. Antes da votação


no Congresso, no dia 9 de novembro de 1971, o CDDPH esteve reunido por
convocação do ministro Buzaid. No encontro, o tema central pautado era
o projeto Ruy Santos, o qual o MDB discordava e ameaçava sair do órgão
se fosse aprovado, todavia, a discussão não foi suscitada pelos outros cole-
gas.41. Segundo a nota do encontro, entre os processos analisados estava o
caso de Odijas de Souza Carvalho, que foi adiado novamente e arquivado
no ano seguinte. Assim como o MDB, a OAB informou na reunião que tam-
bém poderia se retirar do CDDPH na hipótese de aprovação do projeto Ruy
Santos42.
Apesar de diversas movimentações da OAB e do MDB, no dia 22 de
novembro a Câmara Federal aprovou por 191 votos a favor e 68 contra o
projeto do Ruy Santos43 e todas as nove emendas do MDB foram rejeita-
das44. Os deputados emedebistas tentaram barrar de diversas formas o
progresso do projeto que incluía manobras parlamentares para o atraso
das votações, o que foi em vão. O partido oposicionista chegou a enviar
documento ao Médici solicitando o veto do projeto, que também não foi
atendido. No dia 16 de dezembro, depois de seu retorno dos EUA, o dita-
dor-presidente sancionou o projeto de lei, transformando-o na Lei nº.
5.763/1971 (BRASIL, 1971b)45. No dia 13 de janeiro de 1972, o ditador-pre-
sidente assinou decreto alterando o regimento interno do Conselho46,
visando adaptar o dispositivo com a lei sancionada, que ficou conhecida
como Lei Ruy Santos.
No dia 12 de abril de 1972, o CDDPH se reuniu pela primeira vez de-
pois das mudanças da Lei Ruy Santos. Nessa reunião, três processos foram
analisados, entre eles estava o caso de Stuart Angel, que foi arquivado –

40
A oposição decide ficar no Conselho. Folha de São Paulo, São Paulo, 5 nov. 1971, p. 3.
41
Direitos: Carneiro prevê dias difíceis. O Estado de S. Paulo¸ São Paulo, 10 nov. 1971, p. 4.
42
Justiça aprova nôvo Conselho. O Estado de S. Paulo¸ São Paulo, 11 nov. 1971, p. 5.
43
Alterado o Conselho de Direitos. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 24 nov. 1971, p. 2.
44
Câmara altera o Conselho. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 24 nov. 1971, p.4.
45
Médici sanciona Lei dos Direitos Humanos. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 17 dez. 1971, p. 3.
46
Direitos: Médici altera Conselho. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 14 jan. 1972, p. 4.
284 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

contra o voto do relator47. Os representantes do MDB, senador Nelson Car-


neiro e o deputado Jairo Brum, não compareceram e devolveram os
processos que lhes haviam sido confiados a relatoria. Assim, o partido
cumpria sua promessa e se retirava definitivamente do órgão enquanto as
mudanças e restrições não fossem revogadas. Além dos dois representan-
tes da oposição, o sen. Danton Jobim, presidente da ABI, também não
compareceu. No encontro, ocorreu a posse dos novos membros48. A Lei
Ruy Santos e suas modificações concretizaram um novo momento do Con-
selho: o sigilo total, a recusa imediata das denúncias de crimes contra
opositores políticos e uma função basicamente burocrática. A comunicação
da Embaixada dos EUA no Brasil com o Departamento de Estado do país,
de janeiro de 1972, destacou que o sigilo e controle imposto sobre o CDDPH
era uma aberta reação à votação do caso Rubens Paiva e definia: “Em
suma, o Conselho que era ao seu melhor um órgão ineficaz, é agora mais
subserviente que nunca”49.
Ao longo de 1972 ocorreram reuniões com maior periodicidade, po-
rém foram marcadas pelo sigilo, adiamento e pelo arquivamento imediato
de importantes denúncias, especialmente os casos de crimes contra oposi-
tores políticos. Durante todo aquele ano foram realizadas seis reuniões,
nas quais os conselheiros analisaram 35 processos: quase a metade, 17,
foram prontamente arquivados – a maioria por unanimidade (BRASIL,
2010). Da pauta constavam assuntos não relacionados aos direitos huma-
nos, como congratulações ao governo ditatorial. No dia 11 de outubro, o
Conselho se reuniu e os conselheiros aprovaram uma moção de congratu-
lações ao presidente da República, proposta por Benjamin Albagli (ABE),
pela reformulação da política nacional de alimentação e nutrição50. Em
1973, a situação não foi diferente: as reuniões continuaram a ser sigilosas.
O primeiro encontro ocorreu no dia 28 de março51 e o último em 28 de

47
Direitos Humanos. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 13 abr. 1972, p. 3. Coluna Um.
48
Direitos: MDB não participou da reunião. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 13 abr. 1972, p. 5.
49
Arquivo Nacional. BR RJANRIO CNV.0.RCE.00092001303201471/14 (tradução nossa).
50
Conselho elogia Médici. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 12 out. 1972, p. 1.
51
Direitos humanos: 1.ª reunião. Folha de São Paulo, São Paulo, 21 mar. 1973, p. 3.
Leonardo Fetter da Silva | 285

novembro. Neste encontro, que seria o último do governo Médici, foram


examinados 10 processos, oito destes eram da ABE e a maioria foi arqui-
vado52.

A sessão de 8 de junho de 1973 simbolizou a postura burocrática e a ineficiên-


cia do CDDPH na época. Toda a sessão foi dedicada a congratulações ao
governo, as quais os cumprimentos ao presidente Médici pelo voto contra a
pena de morte e a tortura, na Assembleia Geral da ONU, e ao ministro Alfredo
Buzaid pela posse na Academia Brasileira de Letras. Para os conselheiros da
oposição, as congratulações ao governo representavam uma afronta às vítimas
das atrocidades do regime. Em 28 de novembro de 1973, o ministro da Justiça,
Alfredo Buzaid, presidiu a histórica 25ª reunião do conselho – a última reali-
zada antes da desativação do órgão por quase seis anos. (BRASIL, 2010, p. 78-
79)

Dessa forma, as reuniões posteriores à Lei Ruy Santos foram marca-


das pelo sigilo e, sobretudo, pela ineficácia do órgão. O CDDPH, tanto
estimado em seus primeiros encontros, acabou o governo Médici marcado
pelo silenciamento e esquecimento. Portanto, durante o período de maior
violência política e violação sistemática dos direitos humanos na ditadura,
o Conselho foi amarrado pelo regime e se manteve calado sobre importan-
tes questões e denúncias. As modificações e o sigilo impostos ao órgão
faziam parte de uma política de censura e de controle fortemente imple-
mentada no governo Médici, nas quais as violações aos direitos humanos
não encontravam espaço para serem denunciadas. Portanto, naquele mo-
mento o Conselho passou a cumprir uma função mais burocrática:
analisar brevemente as denúncias e arquivá-las com informações prelimi-
nares que basicamente vinham de órgãos do Estado – responsáveis pelas
violações ou que auxiliavam encobertar esses crimes cometidos por agen-
tes. Como crítica a essas posturas do Conselho, o MDB se retirou
definitivamente do órgão ainda em 1972, a ABI retirou sua participação
por alguns meses, entre 1972 e 1973, e a OAB decidiu não comparecer mais
nos encontros no final 1973, retornando mais tarde. Assim se encerrava

52
Última reunião do conselho. Folha de São Paulo, São Paulo, 30 nov. 1973, p. 3.
286 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

um momento do CDDPH, que não se reuniu em todo governo de Ernesto


Geisel (1974-1979).

Redemocratização e busca pelos direitos humanos

Iniciava-se em 1979 o último governo da ditadura civil-militar,


quando chegava ao poder o ditador-presidente João Baptista Figueiredo
(1979-1985). O momento era de um processo de abertura que cada vez
mais avançava. A Anistia, que foi aprovada em Lei no final daquele ano,
suscitou diversas discussões pelos país. Desde 1975, o Movimento Femi-
nino Pela Anistia reivindicava uma “Anistia Ampla, Geral e Irrestrita”
(RODEGHERO, 2014) – diferente da lei aprovada – e, em conjunto com
outros grupos e movimentos sociais, passou a promover debates em torno
dos direitos humanos no Brasil53. Dentro desse contexto, antes mesmo da
votação da Lei da Anistia, a reconvocação do CDDPH retornou ao debate
político: o novo ministro da Justiça, Petrônio Portela, demonstrou a sua
intenção de convocar o Conselho, que estava parado há cinco anos54. Isso
se deve à pressão que a OAB e ABI fizeram por um mecanismo institucio-
nal de denúncias dos crimes da ditadura. As duas entidades se
configuravam naquele contexto como pilares da chamada “resistência de-
mocrática” à ditadura, algo que ganhou força durante a década de 1970
(ROLLEMBERG, 2010).
Ao mesmo tempo, diferentemente do que reivindicavam esses movi-
mentos, o ministro Portela anunciou que somente seriam examinadas
denúncias de violações ocorridas a partir daquele momento. Segundo ele,
“mexer com o passado seria criar um anticlima [sic] para a Anistia que
está por vir”55. Ademais, anunciou que as sessões ainda ocorreriam em
sigilo. Em seguida às declarações do ministro, o dep. Ulysses Guimarães

53
Sobre os movimentos sociais de direitos humanos no Brasil, ver mais em: VIOLA, Solon E. A. Direitos Humanos e
Democracia no Brasil. São Leopoldo (RS): Editora Unisinos, 2008.
54
Carneiro tenta no Congresso a volta do CDDPH. Folha de São Paulo, São Paulo, 17 fev. 1979, p. 5.
55
Idem.
Leonardo Fetter da Silva | 287

confirmou que o MDB não participaria da reunião do CDDPH, acusando o


órgão de ser um “apêndice do executivo”, assim, criticando a composição
do órgão que era favorável ao regime. Além dessa questão, uma das prin-
cipais críticas do partido sobre o Conselho, assim como a OAB e ABI, ainda
era sobre o sigilo. Antes da convocação, o ministro da Justiça se dispôs a
discutir a exigência do MDB para o retorno desde que fosse quebrado o
sigilo das reuniões do CDDPH56, fato que não ocorreu.
Na primeira reunião realizada depois de cinco anos, no dia 9 de maio
de 1979, o Conselho examinou os problemas de violência e criminalidade
nos centros urbanos, que se agravaram nos últimos anos, e constituiu uma
comissão própria, composta de especialistas, para acompanhar esses tra-
balhos57. Além disso, os movimentos sociais e de defesa dos direitos
humanos cobravam respostas sobre os crimes contra opositores políticos
ocorridos nos anos anteriores, porém, diferentemente dessas demandas,
o ministro da Justiça propôs que somente violações que ocorressem a par-
tir daquele momento seriam investigadas pelo órgão, o que foi aprovado
na reunião. Os membros representantes da OAB, ABI e ABE criticaram a
intenção do ministro de investigar apenas casos futuros58. Dessa forma,
perpetuou-se o silêncio dentro do CDDPH sobre questões graves de viola-
ções aos direitos humanos no Brasil.
Antes da reunião, o senador Orestes Quércia (MDB) solicitou, por
meio de protocolo no Ministério da Justiça, que o Conselho promovesse
esforços para procurar os 47 desaparecidos relacionados pelo Comitê Bra-
sileiro pela Anistia.59. No dia seguinte ao encontro, o ministro Portela fez
declarações sobre a reunião, informando que o Conselho investigaria essa
denúncia entregue por meio da ABI e que indicaria um relator para exa-
minar a matéria – sendo a primeira denúncia concreta feita ao órgão
depois da retomada dos trabalhos60. Entretanto, na última reunião de

56
Portela aceita discutir sigilo. Folha de São Paulo, São Paulo, 26 abr. 1979, p. 6.
57
Criminalidade, tema do Conselho. O Estado de S. Paulo¸ São Paulo, 10 mai. 1979, p. 20.
58
CDDPH mantém silêncio sobre questões graves. Folha de São Paulo¸ São Paulo, 10 mai. 1979, p. 8.
59
Quércia pede por 47 desaparecidos. Folha de São Paulo, São Paulo, 10 mai. 1979, p. 8.
60
Conselho investigará situação de presos. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 11 mai. 1979, p. 14.
288 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

1979, no dia 5 dezembro, o CDDPH decidiu deixar de investigar aproxima-


damente 60 casos de presos e perseguidos políticos, entre eles os ex-
deputado Rubens Paiva, atendendo a proposta do ministro da Justiça61. As
três entidades que vinham tendo uma postura mais atuante no órgão –
ABI, OAB e ABE – votaram contra.
Dessa forma, a postura tomada pelo CDDPH de não investigar crimes
ocorridos no passado mudava a interpretação da lei do órgão, limitando
sua atuação a casos em que seria possível fazer cessar o desrespeito aos
direitos humanos naquele momento62. O jornal Folha de São Paulo do dia
9 de dezembro definiu como “retoque final” da chamada “operação anis-
tia” a aprovação da proposta do ministro da Justiça no CDDPH de
examinar exclusivamente as denúncias de violações dos direitos humanos
que pudessem interromper ou eliminar abusos existentes naquele mo-
mento63. Além disso, destacava como o órgão também buscava “esquecer
o passado” com o arquivamento de processos sobre tortura e despareci-
mento de pessoas ligadas a atividades de oposição política nos anos
anteriores.
A década de 1980 começou com um ar de esperança para o CDDPH.
Em março, o novo ministro da Justiça, Abi-Ackel, declarou que estudaria
uma reformulação para se adequar à situação partidária com o fim do bi-
partidarismo e sua intenção era a de convocar o órgão em abril64. No início
de abril, convocou uma reunião para o dia 10, com a pretensão de induzir
seus membros a modificarem o caráter do colegiado, buscando centrar
seus interesses em casos de violência urbana e na indicação de suas solu-
ções65 – problema latente nos grandes centros urbanos e, principalmente,
no Rio de Janeiro. O ministro também entendia que passada a “fase de

61
Conselho decide não investigar os desaparecidos. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 6 dez. 1979, p. 18.
62
A interpretação buscava uma rigidez do trecho do artigo 4 da Lei do CDDPH, o qual colocava que o órgão deveria
receber representação onde houver violação aos direitos humanos, apurar a procedência e tomar medidas “capazes
de fazer cessar os abusos” (BRASIL, 1964).
63
Governo faz sua própria anistia para o passado. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 9 dez. 1979, p. 36.
64
O CDDPH terá de ser reformulado. Folha de São Paulo, São Paulo, 14 mar. 1980, p. 5.
65
Ackel quer uma nova fase para o CDDPH. Folha de São Paulo, São Paulo, 5 abr. 1980, p. 4.
Leonardo Fetter da Silva | 289

prisões políticas” – em que casos de arbitrariedades eram o tema domi-


nante dessas reuniões –, o Conselho deveria se dedicar a uma nova missão,
mais calcada em problemas imediatos e voltada à adoção de linhas de ação
permanente para a preservação de atentados aos direitos humanos. Tam-
bém anunciou que manteria o disposto de Petrônio Portela, no qual os
casos antigos de torturados e presos seriam mantidos arquivados66.
Porém, diferentemente do que o ministro Abi-Ackel havia anunciado,
reunido no dia 10 de abril, o CDDPH decidiu que todos os casos de desa-
parecidos políticos sobre os quais houvesse fatos novos e comprobatórios
seriam desarquivados para apuração e reexame – por proposta do próprio
ministro. Entre estes, o primeiro caso solicitado foi o de Rubens Paiva, já
que um conselheiro alegava ter novas provas. Boa parte da pauta da reu-
nião se deu por meio da discussão sobre a interpretação anterior, segundo
o qual o CDDPH não examinaria os casos anteriores. A nova proposta,
apresentada pelo ministro, colocava “os considerados pretéritos e, por-
tanto, insuscetíveis de serem examinados pelo Conselho até que fatos
novos e comprobatórios apresentado induzam ao desarquivamento e o re-
exame” 67. Além disso, outra discussão que ocupou espaço foi a proposta
de Seabra Fagundes (OAB) de tornar as reuniões em sessões públicas –
rejeitada por 6 votos contra 3. Mesmo com a recusa dos conselheiros pela
quebra de sigilo, pela primeira vez o ministro incumbiu o secretário-geral
do CDDPH, chefe de gabinete do ministro, para informar a imprensa sobre
todos os temas debatidos.
Apesar da nova postura do último ministro da Justiça no período di-
tatorial Abi-Ackel, que proporcionou a reabertura de processos passados
que tivessem novos fatos e documentos, a partir de 1980, o CDDPH não
foi capaz de atender a demanda social de resposta aos crimes contra os
direitos humanos cometidos pelo aparato repressivo institucional da dita-
dura. Por mais que, hipoteticamente, as intenções do ministro fossem de
dar uma verdadeira liberdade e propósito ao Conselho para cumprir sua

66
Sessões do CDDPH podem deixar de ser fechadas. Folha de São Paulo, São Paulo, 10 abr. 1980, p. 5.
67
Conselho decide reabrir casos de desaparecidos. Folha de São Paulo, São Paulo, 11 abr. 1980, p. 5.
290 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

missão da lei, as questões continuaram travadas. Ao mesmo tempo, lista-


gens de mortos e desaparecidos chegavam ao órgão na medida que os
grupos e movimentos sociais que reivindicavam os direitos humanos pas-
savam a fazer suas próprias investigações e denúncias. Além disso,
questões do contexto de abertura política como, por exemplo, os atentados
promovidos pela ala militar que não concordava com o processo de tran-
sição e a descoberta da “Casa da Morte”, em Petrópolis (RJ), também
chegavam ao Conselho. Apesar da forte pressão de membros como a ABI,
OAB e ABE na dinamização do órgão, na quebra de sigilo e de realização
de devidas investigações, o Conselho foi incapaz de defender e promover
os direitos humanos. Coube ao período de democratização instaurado em
1985 a esperança do CDDPH promover seus objetivos de forma livre e efi-
caz.

Considerações Finais

Dessa forma, podemos considerar que o primeiro momento do


CDDPH na ditadura civil-militar se define por sua instalação em 1968, den-
tro de um contexto específico em que manifestações foram fortemente
reprimidas. Isso se deve por dois motivos: pela pressão exercida essenci-
almente pela OAB e o fato do governo ditatorial buscar para si as
características de normalidade constitucional e respeito aos direitos hu-
manos. Esse momento inicia com certo otimismo por parte da OAB e do
MDB sobre o Conselho, com a ideia de transformá-lo em um verdadeiro
mecanismo de defesa e promoção aos direitos humanos. As reivindicações
iniciais consistiam na busca por torná-lo dinâmico e com uma periodici-
dade das reuniões, porém, logo foram substituídas por críticas em torno
do sigilo e controle exercido pelo governo sobre o Conselho, especialmente
com a aprovação da Lei Ruy Santos. Esse mecanismo se demonstrou como
uma declarada reação à perda do controle interno por parte do governo e
a impossibilidade de o CDDPH investigar denúncias de crimes políticos
contra opositores.
Leonardo Fetter da Silva | 291

A Lei Ruy Santos acabou por esvaziar o Conselho com a saída defini-
tiva do MDB e temporária da OAB e ABI, marcando o início do segundo
momento, caracterizado como sigiloso, controlado pelo governo, com uma
função burocrática e ineficaz na defesa dos direitos humanos. Não tardou
até que a própria funcionalidade do órgão não se sustentasse, já que ficou
sem ser convocado por cinco anos. Quando retornou, em 1979, o CDDPH
encontrou outra realidade social em que os movimentos sociais passaram
a reivindicar e promover os direitos humanos, denunciando os crimes dos
anos anteriores. Tentando cooptar essas demandas, o órgão voltou a se
reencontrar, com o intuito de ser um espaço – mesmo que precário – para
que as denúncias fossem realizadas. Porém, o órgão acabou ficando atra-
sado nessas discussões, preso em trâmites burocráticos até o final a
ditadura, sem conseguir dar uma resposta social.
Essa trajetória, inoperante e ineficaz na defesa dos direitos humanos,
nos permite considerar que a manutenção do CDDPH pela ditadura civil-
militar ocorreu na tentativa do regime, em um primeiro momento, de bus-
car para si características de constitucionalidade e institucionalidade – na
mesma função que desempenhava o funcionamento e manutenção do
Congresso Nacional. Na mesma medida, em uma segunda fase, como um
espaço mínimo e precário para atender as demandas sociais – desde que
não ultrapassassem os limites constantemente reafirmados pelos gover-
nos ditatoriais. Por outro lado, a permanência de setores da oposição no
Conselho – MDB, OAB e ABI – demostra que, inicialmente, acreditavam na
potencialidade do órgão, mas a partir da sua trajetória passaram a utilizá-
lo como forma de tornar públicas as violações dos direitos humanos co-
metidas pelo Estado frente à censura e à falta de mecanismos de denúncia,
mesmo que as investigações não avançassem.

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VIOLA, Solon E. A. Direitos Humanos e Democracia no Brasil. São Leopoldo (RS): Editora
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14

A propaganda como ferramenta política:


a contribuição da Agência Nacional para a consolidação do
discurso autoritário da ditadura civil-militar (1964-1979)

Isadora Dutra de Freitas 1

Reminiscências da ditadura civil-militar brasileira infelizmente ainda


são evidentes na atual conjuntura política do Brasil. Um dos traços disso
está no imaginário social que desassocia as Forças Armadas da corrupção
e clama por uma intervenção antidemocrática, o que não é uma novidade.
Historicamente, convivemos com uma Cultura Política autoritária, porém,
dominante. Assim, o objetivo central deste capítulo consiste na análise da
formação desse imaginário produzido durante o período ditatorial e de
como os cinejornais da Agência Nacional contribuíram para esse processo.
Como veremos, isso não foi uma casualidade, nem mesmo uma inovação
do regime. Diretamente articulado com a propaganda política oficial, di-
versos argumentos foram produzidos e difundidos pelo Estado brasileiro
a fim de silenciar discursos contrários e fortalecer a imagem de normali-
dade democrática após o golpe de 1964. Resgatando elementos culturais e
simbólicos tradicionais da história oficial, a ditadura os atualizou por meio
das instituições responsáveis pela comunicação do governo.
Assim, nossa análise consiste em uma tentativa de avançar em alguns
aspectos abordados em dissertação de mestrado2, cujo objeto central

1
Mestra pelo Programa de Pós-Graduação em História da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
2
Cf. FREITAS, Isadora Dutra de. Otimismo nas Telas: a Propaganda Oficial da Ditadura Civil-Militar nos Cinejornais
da Agência Nacional (1964-1979). 2020. 180 f. Dissertação (Mestrado em História) – Pontifícia Universidade Católica
do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2020.
Isadora Dutra de Freitas | 295

recaiu na representação da ditadura nos cinejornais da Agência Nacional.


Ao examinar esses objetos, o grande corpus documental (composto por
cento e oitenta e cinco cinejornais) acenou um recorte mais específico, que
enfatizou a autoimagem do regime associada ao projeto
desenvolvimentista. Evidentemente que o desenvolvimento era o
argumento central da propaganda oficial, contudo, ao analisarmos os
meandros desse discurso, identificamos argumentos presentes desde o
século XIX, principalmente ligados às potencialidades naturais do Brasil e
a busca por um futuro glorioso. A defesa de uma democracia racial, em
um país cuja escravidão foi a mais duradoura da história, associada à
moral cristã também norteava essa representação. Logo, buscamos
aprofundar quais elementos que corroboraram para o discurso de uma
aparente normalidade política e a busca por apoio da sociedade.
Nesse sentido, nosso corte temporal (1964-1979) respeita o período
de funcionamento da Agência Nacional durante a ditadura. Assim, cabe
retomar alguns aspectos da instituição para compreender as principais ca-
racterísticas da sua produção e influência na arena política. Incluída no
aparato altamente burocrático que compunha o governo brasileiro, a
Agência Nacional foi uma das principais instituições oficiais durante a di-
tadura. Responsável pelo setor de comunicação do Executivo, sua história
é eivada de interferências autoritárias, característica que se fundamenta
pela origem do órgão, criado durante o Estado Novo brasileiro. Por isso, é
importante ressaltar que o uso dos cinejornais e outras mídias como fer-
ramentas de propaganda não foi uma criação do regime, mas uma
importante ferramenta na busca por legitimidade de grupos políticos e go-
vernos autoritários.

A Propaganda da Agência Nacional e a expressão do Otimismo

O cinejornalismo possui uma história marcada por interferências ide-


ológicas e usos políticos. De acordo com a historiografia, seu surgimento
296 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

ocorreu no final do século XIX. Entretanto, Marc Ferro3 salienta que os


primeiros usos oficiais desse meio de comunicação datam a Primeira
Guerra Mundial. Para o autor, a finalidade dessas exibições era levar ima-
gens do conflito à população que permaneceu em casa, explorando um
discurso positivo sobre o contexto. Portanto, desde o primeiro momento,
os cinejornais foram utilizados como uma ferramenta de representação da
realidade pelos Estados. Sua efetividade e o investimento em larga escala
por diferentes governos ao longo do tempo são justificados pelas principais
características de sua narrativa e composição, que veremos a seguir.
Em linhas gerais, define-se cinejornal como: "(...) filme de curtíssima
duração veiculado nas sessões de cinema antes dos filmes de longa-metra-
gem, composto por pelo menos quatro pequenas reportagens, totalizando
em geral de seis a oito minutos de exibição" (GOMES, 2007, p.41). Logo,
fundamentalmente, o cinejornalismo desempenhava um papel informa-
tivo. Com uma narrativa semelhante a dos documentários, mas com
influências do jornalismo, constituiu um dispositivo narrativo4 inovador
para o século XX. Por isso, devemos: "(...) compreender o cinejornal como
portador de uma narrativa própria, de cunho jornalístico, e que, ao mesmo
tempo, ao se expressar através do cinema é uma modalidade deste, afinal,
é uma forma de jornalismo, utilizando um veículo específico" (MAIA P,
2015, p.312). Assim, é importante ressaltar que esta mídia foi o primeiro
veículo de comunicação audiovisual. Através da exibição de imagens so-
brepostas por uma narrativa em voz over5, o sentido e o ordenamento das
imagens eram guiados pelo narrador, que também reforçava o discurso
oficial.

3
Ferro coordenou o programa francês Histoire parallèle (1989-2001), onde apresentava cinejornais da Primeira
Guerra, analisando com outros especialistas, período no qual aprofundou os estudos sobre essas fontes. Cf. Schvar-
zman (2013).
4
É importante salientar que ficção, documentário e cinejornais não são gêneros cinematográficos, pois mobilizam
metodologias e narrativas diferentes em suas produções. Neste caso, consideramos o conceito de dispositivo narra-
tivo que: “A princípio, a adoção do termo parecia somente indicar uma readequação da expressão procedimento, já
tão cara aos críticos e estudiosos, por indicar linhas gerais sobre a prática cinematográfica. Contudo, a nova termi-
nologia veio para especificar ainda mais a prática dos autores. Falar em dispositivo significa também falar no jogo,
no pacto que se cria ao realizar uma produção cinematográfica” (CARLOS, 2005, p.50).
5
Método cinematográfico muito utilizado em documentários. Consiste em uma narração em segundo plano, que
orienta e dá sentido às imagens em exibição.
Isadora Dutra de Freitas | 297

Em decorrência da nova tecnologia, seu uso foi sendo cada vez mais
difundido por regimes políticos em diversos países como uma importante
ferramenta de propaganda oficial e uma expressão do poder simbólico do
Estado. Na Europa, o regime nazista foi o grande responsável pelo desen-
volvimento do cinema como expressão visual do poder. Por meio da UFA6,
passou a exibir o Die Deutsche Wochenschau (O cinejornal alemão), que
influenciou diretamente outros cinenoticiários oficiais, como nos regimes
de Mussolini, Franco e Salazar7.
O ponto principal quando analisamos a relação do cinejornalismo
com a propaganda política é identificar a finalidade e os elementos que
compõem o discurso exibido nas telas. No caso dos regimes totalitários,
por exemplo, Wagner Pereira identificou argumentos como a superiori-
dade da raça, o nacionalismo e o combate aos inimigos de guerra. Para
Pedro Alves (2018), essas são características fundamentais para a elabora-
ção de uma propaganda eficaz:

Na sua origem e no impacto desejado junto ao público, a propaganda tem


como principal objetivo veicular uma imagem homogênea, coerente e causal
da realidade, profundamente implicada numa perspectiva de salvaguarda e
defesa das opções, ações e condições do regime político dominante (ALVES P,
2018, p.17).

No Brasil, essa conjuntura não foi diferente. Durante o Estado Novo,


a produção cinejornalística atingiu seu auge com a criação do “Cine-Jornal
Brasileiro”. Ao mesmo tempo, desenvolveu-se a criação de um verdadeiro
aparelho burocrático responsável pela censura e representação oficial do
governo. Logo, foi a partir do final dos anos 1930 que o Estado passou a
reconhecer a influência de elementos culturais na formação e difusão de

6
A UFA foi uma instituição estatal criada pelo governo alemão em 1917 e que exerceu uma função central na produção
de propaganda audiovisual, especialmente por meio de filmes de ficção, documentários e cinejornais. É considerada
por diferentes autores, como Pereira (2003), Gellately (2011) e Meurer (2016), como um dos principais órgãos de
propaganda do regime nazista.
7
Cf. PEREIRA, Wagner Pinheiro. Cinema e Propaganda Política no Fascismo, Nazismo, Salazarismo e Franquismo.
História: Questões e Debates, Curitiba, n.38, p.101-131, 2003. Editor UFPR.
298 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

suas ideias. Por outro lado, o governo passou a empregar mecanismos le-
galizados para controlar sumariamente o que era produzido sobre o país
no âmbito das notícias e de sua imagem oficial. Considerando ainda o ca-
ráter ditatorial do primeiro governo Vargas e o investimento maciço na
produção de sua autoimagem, de acordo com Maria Helena Capelato,
neste período: "Havia uma íntima relação entre censura e propaganda. As
atividades de controle, ao mesmo tempo em que impediam a divulgação
de determinados assuntos, impunham a difusão de outros na forma ade-
quada aos interesses do Estado" (CAPELATO, 1998, p.75).
A Agência Nacional foi criada em 1937, período marcado por uma
conjuntura de constante intervenção estatal nos meios de comunicação e
na indústria cultural. Em princípio, funcionava como uma ramificação do
Departamento de Propaganda e Difusão Cultural (DPDC), substituído pelo
Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), em 1939. Entre as suas
produções, estava o programa radiofônico “Hora do Brasil” e registros fo-
tográficos distribuídos para a imprensa. Contudo, a Agência Nacional só
adquiriu maior autonomia, desvinculando-se desses departamentos, nos
anos 1950, quando passou a ser administrada pelo Ministério da Justiça e
Negócios Interiores. Foi, então, durante esse intervalo democrático, que a
agência teve seu regimento interno publicado e passando a receber ainda
mais prestígio institucional. Em linhas gerais, os provimentos da Portaria
n.170, de 1956, previam:

(...) colaborar com os órgãos federais, estaduais e municipais, associações pri-


vadas, imprensa, rádio, televisão, agências noticiosas e público em geral,
mediante a divulgação de assuntos de interêsse do País, ligados à sua vida po-
lítica, econômica, financeira, administrativa, social, cultural, cívica e artística
(BRASIL, 1956)8.

Assim, como podemos ver nessa breve contextualização acerca da


fundação da agência, desde o início atuou como uma porta-voz do governo
brasileiro. Conforme o excerto do Regimento Interno, cabia a ela: “(...) IV

8
Disponível no acervo do Ministério das Comunicações.
Isadora Dutra de Freitas | 299

— Divulgar, por todos os meios, dados que atestem o grau de desenvolvi-


mento e progresso do país” (BRASIL, 1956). Consequentemente, ainda que
se tratasse de uma democracia, seu conteúdo priorizava assuntos positi-
vos, silenciando questões negativas ao país. Nesse sentido, Mariana
Silveira ressalta que: "Embora a finalidade da Agência Nacional fosse in-
formar e divulgar as atividades do governo, fazia também uma
propaganda dissimulada em notícia, através da promoção de conquistas
do governo" (SILVEIRA, 2015, p.47).
Portanto, consideramos que a Agência Nacional era uma instituição
cuja inciativa consistia na elaboração e distribuição de materiais informa-
tivos. Entretanto, analisando mais a fundo a historiografia e seu corpus
documental, destacamos que se tratava de uma expressão de poder sim-
bólico, difundida em forma de propaganda legitimadora. Os cinejornais se
inseriam nessa lógica, afinal, como vimos, consistiam em um conteúdo ei-
vado de influências ideológicas. Embora o uso mais comum fosse
empreendido pelos governos, cabe salientar que não foi apenas o Estado
que investiu na produção destes meios de comunicação. Havia cinejornais
produzidos por indústrias privadas, muitas vezes financiadas por partidos
políticos e grandes empresas.
O caso mais notório no país foi o cinejornal “Bandeirante na Tela”,
cuja ênfase das notícias era as ações do então governador de São Paulo,
Adhemar de Barros. Nesse caso, assim como ocorreu com Vargas, tanto
no Estado Novo, quanto em seu governo democrático, as produções con-
tinham um teor personalista. Sobre isso, Rodrigo Archangelo salienta que
o objetivo desses informativos era associar a figura de Adhemar de Barros
com o mito do bandeirante, exaltando suas qualidades. Consequente-
mente, abriu-se uma nova possibilidade de caracterização desse meio de
comunicação, aspecto que será central para a nossa compreensão: "Adhe-
mar de Barros assumiu, de fato, o exemplo de Getúlio Vargas quanto à
necessidade de uma forte propaganda, inclusive pela proximidade no for-
mato do BT com o CJB e o CJI" (ARCHANGELO, 2007, p.53).
300 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

Em suma, foi a partir dos anos 1930 que se criaram uma identidade
visual e narrativa própria do cinejornalismo: "(...) uma certa 'tradição' de
cinejornais unificada pelo continuísmo político retratado de forma ritual -
um 'ritual de poder', por assim dizer - transposto às telas do cinema"
(ARCHANGELO, 2007, p.64). Dessa forma, não podemos definir e analisar
o que é cinejornal considerando apenas suas características técnicas e dis-
cursivas. Esse dispositivo narrativo foi incorporando elementos simbólicos
que lhe garantiam cada vez mais importância política. Afinal, ao falarmos
de “ritual de poder”, salientamos suas potencialidades como meio de re-
presentação oficial dos atores políticos:

Portanto, podemos aceitar a expressão de Paulo Emilio deslocando um tanto


a sua significação: não só quando são filmados presidentes da república ou
outras autoridades verifica-se o 'ritual de poder', e não é o assunto que deter-
mina o ritual (...) mas o tipo de produção e o enfoque pelo qual é abordado o
assunto" (BERNARDET, 1979, p.26).

A partir da consideração de Jean-Claude Bernardet (1979) propuse-


mos a seguinte questão: qual o assunto e, sobretudo, como esse assunto é
abordado pelos cinenoticiários? Pensando na Cultura Visual formada por
meio de produções oficiais e seu discurso propagandístico, é esperado que
existissem similaridade e padrões que fossem mantidos ao longo dos anos.
Nesse sentido, ressaltamos o tom otimista que sublinhou as potencialida-
des de cada governo representado nas telas. Evidentemente, a propaganda
política não se baseia em argumentos negativos: "(...) a função do chamado
filme de propaganda não é inocular crenças na opinião mas sim promover
uma comunhão de crentes, em ritual" (SIMIS, 1996, p.53-54). Assim como
afirma a tese de Anita Simis, essa foi a principal função da Agência Nacio-
nal e de suas produções.
Divulgar assuntos de interesse nacional e destacar o desenvolvimento
e o progresso para o público interno e externo. Essa era uma das premissas
do regimento interno da AN. Em outras palavras, esperava-se a formula-
ção de um discurso otimista em relação ao horizonte de expectativas que,
Isadora Dutra de Freitas | 301

historicamente, levaria o país para um futuro promissor. O conceito de-


senvolvido por Carlos Fico ressalta essas bases que sustentaram a
formação de uma história nacional pintada pelas cores da cordialidade e
das potencialidades naturais do Brasil. Segundo o autor, esses elementos
fazem parte da fundação de um imaginário social eivado de influências da
cultura dominante:

Tais perspectivas positivas sempre retornam em períodos de alguma estabili-


dade econômica e/ou política - justamente porque não são simples
instrumentalizações ideológicas, e sim porque se fundam num imaginário se-
cular que não é de todo imotivado nem desconectado do poder efetivo (FICO,
1997, p.77).

Ou seja, o otimismo político típico do discurso oficial brasileiro não é


um conceito imutável. Como Fico aponta em sua tese (1997), ele foi res-
significado pela ditadura civil-militar. Todavia, ressaltamos as afirmações
do autor de que esse processo de transformação ocorreu repetidas vezes.
Talvez, a variabilidade e a capacidade de incorporar novos elementos se-
jam características formadoras do conceito. Afinal, ainda que ele tenha
preservado elementos da cultura colonial, também incorporou demandas
conforme as diferentes conjunturas.
Dessa forma, cabe questionar: Que otimismo foi esse que orientou a
representação oficial da ditadura? Quais elementos foram mantidos, ou
quais foram incorporados? E, ainda, para quais grupos ele era direcio-
nado? Como veremos, os conceitos de imaginário e de representação são
formados de acordo com diferentes categorias e grupos sociais. Assim,
conforme analisamos as mudanças e continuidades do otimismo brasi-
leiro, notamos aspectos estruturais que persistem no imaginário social,
principalmente relacionados à cultura política autoritária.

Imaginário e Representação no discurso autoritário brasileiro

A partir dessa breve contextualização sobre o cinejornalismo, pode-


mos considerar alguns aspectos centrais na relação entre a propaganda e
302 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

o discurso autoritário brasileiro. O primeiro deles é a relação estrutural


entre os governos e o controle na produção de sua autoimagem. Nessa
lógica, o cinema foi um dos principais meios para expressão do discurso
oficial e promoção da imagem otimista, como afirma Anita Simis9. Conse-
quentemente, criou-se uma estrutura responsável por produção cultural
que fortalecesse elementos da identidade nacional e o apoio ao Estado
como instituição. Logo, a propaganda ultrapassou o papel publicitário e
assumiu uma função legitimadora, na medida em que difundiu uma ver-
são e silencia outras, como afirma Maria Helena Capelato:

No terreno das representações do poder, a propaganda política desencadeia


uma luta de forças simbólicas; aí se instaura uma violência do tipo simbólico
que visa ao reforço da dominação, consentimento em relação ao poder e inte-
riorização de normas e valores impostos mediante mensagens propagandistas
(CAPELATO, 2009, p.42).

A partir dessa relação entre a representação social controlada e di-


fundida pelo Estado brasileiro e a formulação de um imaginário que
fortalecia elementos de uma identidade dita nacional, cabe aprofundar
nossa análise dos conceitos. A articulação destes com a pesquisa empírica
nas fontes auxilia na compreensão da história oficial brasileira – redigida
após a Independência, pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro – e
sua influência na produção discursiva dos cinejornais. Afinal, a Agência
Nacional colaborou com a produção e distribuição desse discurso e, sobre-
tudo, de sua ressignificação durante a ditadura civil-militar. Dessa forma,
utilizamos a concepção de Roger Chartier, que considera o campo das re-
presentações um campo de disputas:

As percepções do social não são de forma alguma discursos neutros: produzem


estratégias e práticas (sociais, escolares, políticas) que tendem a impor uma

9
Segundo Anita Simis (1996), o cinema foi uma das principais ferramentas educativas do Estado brasileiro. Desde a
Primeira República, obras de caráter pedagógico foram produzidas com conteúdos voltados à alfabetização e higiene
pública. Tanto potencial foi explorado por meio de instituições como o INCE – Instituto Nacional de Cinema Educativo
e o DIP, no Estado Novo. Consequentemente, tornou-se um importante aliado do Estado na produção e na distribui-
ção de materiais oficiais.
Isadora Dutra de Freitas | 303

autoridade à custa de outros, por elas menosprezados, a legitimar um projecto


reformador ou a justificar, para os próprios indivíduos, as suas escolhas e con-
dutas (CHARTIER, 1996, p.17).

Consequentemente, essas representações contribuem para a forma-


ção de imaginários, principalmente quando são elaboradas pelo Estado ou
por atores políticos que detêm a fala autorizada. Portanto, como Carlos
Serbena afirma, esse imaginário decorrente do discurso propagandístico
era mais uma estratégia de fortalecimento do poder simbólico do grupo
dominante: "O imaginário possui uma função social e aspectos políticos,
pois na luta política, ideológica e de legitimação de um regime político
existe o trabalho de elaboração de um imaginário por meio do qual se mo-
biliza afetivamente as pessoas" (SERBENA, 2003, p.5). Logo, o imaginário
também constitui um campo de disputas entre as narrativas, o que cola-
bora com a violência simbólica a qual Maria Helena Capelato se referiu.
Entretanto, ao tratarmos do caso da ditadura civil-militar, bem como
da análise do discurso autoritário ufanista típico do país, não podemos vê-
los apenas pelo ponto de vista ideológico, pois: “Aquilo que, ao longo deste
trabalho, será definido como 'ponto de vista otimista' não serviu apenas a
propósitos ideológicos; constituiu também a base de uma significativa rede
de auto-conhecimento social” (FICO, 1997, p.17). Esse autoconhecimento
a que o autor se refere constitui nosso objeto de estudo, pois, em última
instância, contribuiu para a consolidação de um imaginário negacionista e
saudatório aos governos autoritários.
A formulação da história oficial a qual nos referimos teve revérberos
durante o regime civil-militar. A história oficial, repleta de narrativas con-
flitantes que, por um lado, negavam o racismo e exaltavam a cordialidade
e o pacifismo do povo brasileiro e, por outro, foi construída sustentada por
uma economia altamente escravista que consolidou o racismo estrutural
com o qual convivemos até hoje. Um dos argumentos centrais da obra de
Carlos Fico é, justamente, a renovação desses elementos de acordo com a
conjuntura política: “Tal singularidade sustenta-se não só na materiali-
dade da geografia e na opulência da natureza brasileira, mas também em
304 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

certos ‘traços especiais’ da nossa história (...)” (FICO, 1997, p.78). Essas
singularidades que o autor comenta constituem o imaginário benevolente
que, de certa forma, ameniza as inúmeras violências cometidas pelo Es-
tado, desde o período colonial.
Portanto, consideramos que o otimismo constitui um elemento es-
trutural da sociedade brasileira. Cunhado desde a produção da história
oficial da nação, corroborou para a exaltação dos aspectos que já citamos
ao mesmo tempo em que promoveu – e ainda tenta promover - o esque-
cimento de versões que lhe contradizem. Por outro lado, é a partir das
conjunturas políticas e econômicas que esse sentimento é ressignificado,
incorporando ao seu argumento dados do período em que está inserido.
Nas palavras de Lília Schwarcz: “(...) todos esses elementos juntos tendem
a reaparecer, de maneira ainda mais incisiva, sob a forma de novos gover-
nos autoritários, os quais, de tempos em tempos, comparecem na cena
política brasileira” (SCHWARCZ, 2019, p.224). Se, durante a ditadura do
Estado Novo, a identidade nacional foi forjada a partir de símbolos nacio-
nais e modelos de comportamento, esse modelo se repetiu da ditadura
civil-militar.
Assim, destacamos que há um imaginário ufanista que tende a ser
acentuado durante períodos de radicalismos políticos ou governos autori-
tários. Além dos aspectos salientados, veremos que a promessa de
desenvolvimento econômico também constitui um elemento recorrente. E
é sob esse prisma que se cria a perspectiva dicotômica característica desses
contextos, acentuando a violência simbólica e os conflitos entre “nós e
eles”. Ou seja, o imaginário, associado à representação oficial por meio de
instituições e pessoas que detém autoridade, agrava ainda mais as lacunas
entre os grupos sociais. No caso da ditadura civil-militar, esse discurso di-
fundido pela propaganda auxiliou na instalação do aparato repressivo, ao
mesmo tempo em que aparentava uma normalidade política em prol da
segurança e do desenvolvimento.
Por conseguinte, a atuação de órgãos como a Agência Nacional e ou-
tras instituições de natureza informativa foi decisiva tanto para o golpe
Isadora Dutra de Freitas | 305

quanto para a longa duração do regime. A mobilização resultante do dis-


curso propagandístico teve efeito já em 1964, por meio das campanhas do
IPES e IBAD na desarticulação do governo João Goulart. E, no caso da
Agência Nacional, salientamos que sua influência era ainda anterior. Se-
gundo Maria Helena Moreira Alves, a articulação entre essas instituições
foi crucial para o desenvolvimento de um cenário favorável ao golpe: "Al-
guns oficiais da ESG integravam também a equipe do IPES; trabalhando
intensamente com o general Golbery do Couto e Silva no delineamento da
rede de informações e no desenvolvimento de uma sofisticada Doutrina de
Segurança Nacional e Desenvolvimento" (ALVES, 2005, p.30).
O tripé IPES/IBAD/ESG se relaciona com a atuação da AN na medida
em que demonstra a importância da rede de informações e, consequente-
mente, da propaganda oficial para a constituição e longa duração da
ditadura brasileira. Afinal, como a autora afirma, a difusão de discursos e
visualidades favoráveis ao golpe serviu como ferramenta de fortaleci-
mento para o discurso autoritário. Entre os conceitos chaves para
entendermos a formulação dessa narrativa oficial, destacamos a Utopia
Autoritária e a Doutrina de Segurança Nacional, pois, como veremos na
análise dos cinejornais da AN, ambos serviram como justificativas para a
ditadura.
A Utopia Autoritária, conforme afirmam Maria Celina D’Araújo,
Celso Castro e Gláucio Soares: “(...) estava claramente fundada na ideia de
que os militares, naquele momento, eram superiores aos civis em questões
como patriotismo, conhecimento da realidade brasileira e retidão moral”
(D’ARAUJO; CASTRO; SOARES, 2014, p.11). Ou seja, apoiavam-se na
ideia de salvacionismo que as Forças Armadas estavam empreendendo
contra a corrupção e os inimigos da nação. Esse argumento, entretanto,
não foi exclusivo da ditadura civil-militar. Afinal, quando analisamos a es-
trutura política brasileira, notamos um caráter militarista presente desde
a proclamação da República. Ou seja, essa visão incorruptível das Forças
Armadas brasileiras consiste em um imaginário estrutural que foi refor-
çado nesse contexto. Logo, podemos associar esse elemento ao otimismo
306 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

do regime, considerando a construção da autoimagem positiva na qual os


militares seriam os atores políticos responsáveis pela promoção do desen-
volvimento nacional.
Associado a isso, a Doutrina de Segurança Nacional serviu como um
fator fundamental para que os militares se autopercebessem como respon-
sáveis pela construção nacional e, sobretudo, difundissem essa
autorrepresentação: "'Segurança para o desenvolvimento' era a essência
da mensagem e nela, segurança virou condição fundamental para qual-
quer possibilidade de desenvolvimento, o que implicou na implantação da
'ordem' e na eliminação do conflito mediante o emprego da força"
(PADRÓS, 2012, p.498). Nessa lógica, o uso sistemático da repressão era
justificado como meio de alcançar a modernização, mesmo que signifi-
casse o uso da força. Por conseguinte, notamos que o discurso otimista foi
utilizado como ferramenta de legitimação dos atos da ditadura, reforçando
o imaginário social ligado à ordem e à defesa da soberania nacional.

Os cinejornais e a busca pela representação de legitimidade

Para compreender a atuação dos cinejornais da AN, é necessário ana-


lisar a influência e imbricações que esses meios de comunicação tinham
no cotidiano dos brasileiros. Para isso, é necessário pensar: Para quem essa
propaganda era direcionada? Como esses elementos eram combinados
pensando na realidade do país? O primeiro ponto que deve ser conside-
rado ao refletirmos sobre isso é o meio de exibição dos cinejornais e os
grupos sociais que tinham acesso a eles. Em segundo lugar, quais símbolos
e argumentos compunham essas produções cujo objetivo era aparentar
uma normalidade política. E, finalmente, como isso era exibido por meio
de elementos audiovisuais e narrativos.
Segundo Jean-Claude Bernardet (1979), a maioria dos cinejornais
eram distribuídos pensando nas classes média e alta, principalmente por
meio da ênfase ao milagre econômico. Alinhada a esse argumento, a his-
toriadora Nina Schneider expôs dados estatísticos sobre os grupos que
Isadora Dutra de Freitas | 307

frequentavam o cinema e, sobretudo, como a propaganda da ditadura pe-


netrou o cotidiano dos cidadãos: “No caso do cinema, em 1974, 48% dos
brasileiros com mais de 15 anos frequentavam o cinema regularmente nos
centros urbanos (S. A., 1974, p. 34). A maioria deles era relativamente jo-
vem, de alta renda e masculina (em 1975, 64% eram homens)”
(WICKERHAUSER apud Schneider, 2017, p. 340). Portanto, segundo a
análise da autora, podemos afirmar que as imagens veiculadas nos cine-
mas tinham como público alvo pessoas de maior renda que se
beneficiaram dos índices de crescimento econômico durante o regime10.
Dessa forma, é esperado que o discurso otimista da Agência Nacional
priorizasse informações que fortalecessem o imaginário relacionado ao de-
senvolvimento e modernização. Por outro lado, como afirma Carlos Fico,
aspectos históricos estruturais da cultura política dominante foram decisi-
vos para a formação do imaginário difundido pela AN e outras instituições
oficiais. Para Lilia Schwarcz, o resgate e, ainda, a criação de um passado
glorioso que fundamenta o discurso autoritário é uma prática recorrente
em regimes desse caráter: “Em suma, esse tipo de narrativa histórica re-
presenta a projeção simbólica de uma espécie de civilização, uma certa
ordem, uma determinada harmonia social, capaz de assegurar a continui-
dade desse mundo que, na verdade, jamais existiu” (SCHWARCZ, 2019,
p.225).
Portanto, consideramos que a Agência Nacional atuava como ferra-
menta de produção e, sobretudo, de difusão da “história oficial”,
assumindo uma função além do caráter informativo, a de propagandístico.
Nesse sentido, o otimismo era uma forma de reconstrução do passado, al-
tamente seletivo, cuja função era tentar mobilizar a população em favor
da ditadura. Para isso, como já salientamos, silenciava aspectos que fossem
prejudiciais à imagem positiva. Assim, finalmente, cabe exemplificar, por

10
Para Daniel Aarão Reis, ainda que o país tenha apresentado índices de crescimento econômicos muito superiores
a períodos anteriores, a ditadura civil-militar beneficiou apenas uma pequena parcela dos brasileiros, aumentando a
desigualdade social. Nas palavras do autor, contudo, o milagre econômico era exibido como um projeto positivo,
sustentando a imagem de modernização e desenvolvimentismo do regime: "O país era figurado como uma ilha de
prosperidade e de paz em um mundo de crise e de convulsões. Havia que caminhar para frente" (REIS, 2000, p.38).
308 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

meio da análise dos cinejornais, como esses símbolos e tradições eram in-
seridos nesse processo. Ressaltamos que, para esse capítulo, selecionamos
apenas algumas edições, considerando o extenso corpus documental que
compôs a nossa pesquisa, já finalizada. Nesse caso, daremos destaque à
utopia autoritária e a DSN, aliadas a aspectos como a democracia racial, as
qualidades naturais e as formas de comportamento.
Todavia, considerando a longa duração da ditadura brasileira, não
podemos analisar sua propaganda de maneira descontextualizada. Ainda
que esses elementos fizessem parte dos meandros do discurso autoritário,
houve transformações conforme a conjuntura, o que afetou a produção do
discurso oficial. Em primeiro lugar, o uso propagandístico foi uma pauta
polêmica no interior do regime, afinal, Castelo Branco não queria ser as-
sociado à imagem de Vargas e da ditadura do Estado Novo. Contudo, após
o golpe e o princípio de uma crise política decorrente do fechamento do
regime, percebeu-se que a propaganda seria um meio eficaz, principal-
mente como expressão de uma suposta normalidade política. Costa e Silva,
seu sucessor, investiu pesadamente na Agência Nacional e outras institui-
ções de comunicação oficial. Por outro lado, foi responsável pela
promulgação do AI 5 e do acirramento da repressão.
Durante os dois primeiros governos, manteve-se a produção do cine-
jornal Informativo. Com características estéticas muito precárias, voltava-
se exclusivamente para a cobertura da agenda presidencial e assuntos ofi-
ciais. Todavia, colaborou para a difusão de argumentos favoráveis ao
regime, tais como a defesa da soberania nacional e a responsabilização dos
militares em defesa do bem estar social dos cidadãos brasileiros. Por isso,
podemos pensar em duas fases distintas na produção da Agência Nacional
durante o regime. A primeira, por meio do “Informativo”, enfatizou os
bastidores da política, num período em que tentava manter o apoio civil.
O período Médici inaugurou uma nova edição cinejornalística, o “Brasil
Hoje", que foi mantido até o fim do governo Geisel, em 1979. Com o uso
de cores, inovou a propaganda nacional, contudo, a estrutura do discurso
autoritário se manteve otimista com elementos em comum, como vemos
Isadora Dutra de Freitas | 309

nos exemplos dos diferentes governos. Logo, iniciou o que consideramos


a segunda fase do cinejornalismo do período, no qual o uso imagético ga-
nhou ênfase por meio das cores e as temáticas ultrapassaram o viés
político. Além disso, a população ganhou mais espaço nas representações,
ainda que não ocupassem a função de protagonista.
Portanto, Castelo Branco buscou exaltar a relação amigável entre as
Forças Armadas e a sociedade civil, enfatizando que haveria uma norma-
lidade política após o golpe:

O ponto alto das festividades é a concentração popular na Praça da Sé, a que


está presente o chefe de estado marechal Humberto de Alencar Castelo Branco.
Milhares de pessoas saíram às ruas não apenas para celebrar o dia do opera-
riado nacional, mas principalmente para se regozijar diante das novas
perspectivas abertas ao desenvolvimento e a emancipação definitiva das mas-
sas obreiras do Brasil (...). (BRASIL, 1964)

Por outro lado, Costa e Silva, que investiu pesadamente na elaboração


dos cinejornais e na reestruturação da Agência Nacional, incorporou os
projetos políticos e econômicos nos informativos. Associado a isso, a AN
passou a expressar o discurso oficial associado a elementos da cultura po-
lítica autoritária que causassem identificação com o público. No exemplo
a seguir, podemos perceber claramente traços da Utopia Autoritária. Em
visita à aldeia indígena do Bananal, a atuação das Forças Armadas no pro-
jeto civilizatório é o aspecto em destaque no informativo:

A presença da FAB [Força Aérea Brasileira] e dos missionários do Suriname,


levou a esses índios os animais, as sementes, os utensílios e os ensinamentos
que lhes permitem vencer o desafio da selva (...) É na aldeia do Bananal que o
presidente da República visita sendo ali recebido pela tribo e autoridades en-
trando na verdadeira intimidade dos silvícolas, obsequiando-os e levando os a
presença da grande pátria a que hoje se integram definitivamente o Brasil. Os
Carajás amam a música e a catequese já lhes trouxe instrumentos da civiliza-
ção para expressar ritmos e melodias da terra. (BRASIL, 1969)

O governo Médici inovou o cinejornalismo brasileiro por meio da es-


treia do cinejornal “Brasil Hoje”, o primeiro a exibir imagem em cores.
310 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

Logo na primeira edição é possível perceber um alinhamento entre os ele-


mentos que citamos e a representação da ditadura. A notícia central dessa
edição consiste na inauguração do Parque dos Guararapes, em Pernam-
buco, que contou com a presença do então presidente Médici. Entre os
aspectos identitários estruturais da história oficial, percebemos a referên-
cia aos heróis militares e a ideia da democracia racial:

Com suas atrações, o Parque Nacional dos Guararapes cria um pioneirismo no


ramo da comunicação, de acordo com a sugestão do próprio presidente Médici.
Os visitantes, ao mesmo tempo em que se distraem vão aprendendo história
pátria no lugar onde a Força Armada forjou para sempre a base da nação bra-
sileira (...): "As bandeiras de todos os estados sintetizam ali as três raças que
alicerçaram o Brasil, muitos anos se passaram depois que o índio, o negro e o
português detiveram os planos de conquistas de outros povos provando que
já se caldeara nos trópicos o ideal da defesa do solo". (BRASIL, 1970)

Já o cenário político e econômico do governo Geisel foi muito dife-


rente dos governos anteriores. Economicamente, vivia-se uma recessão
mundial decorrente da Crise do Petróleo, de 1973. Internamente, uma crise
política passava a contestar o regime. Consequentemente, Geisel foi o pre-
sidente que mais investiu na produção de cinejornais. Assim, as imagens
buscaram construir uma representação que fortalecesse a base de apoio
através do desenvolvimentismo e de uma aproximação maior do presi-
dente com a sociedade civil. Por isso, buscou-se resgatar traços da
identidade brasileira como o labor e a cordialidade. A edição a seguir con-
siste nas comemorações do Dia do Trabalho de 1976, que contou com a
visita do presidente a Volta Redonda – RJ e um jogo comemorativo entre
o time do Flamengo e o time dos Operários:

O presidente Ernesto Geisel, no dia do trabalho, lembra em Volta Redonda que


ali ainda ressoam os apelos do presidente Vargas aos trabalhadores, por um
apoio incansável pelo progresso do país. O chefe do governo frisa que em meio
a um panorama internacional eivado de complexos problemas o Brasil en-
frenta hoje desafios novos num clima de ordem e paz, de segurança e
desenvolvimento, de trabalho e pleno emprego, o que nos traz a certeza de
Isadora Dutra de Freitas | 311

êxito pleno num futuro melhor. (,,,) Dia do trabalho, dia de festa, milhares de
torcedores recorrem ao estádio de Volta Redonda, uma cidade jovem que es-
pelha-se com entusiasmo, o Brasil jovem, que ama o trabalho e sabe que tem
direito ao lazer" (BRASIL, 1976).

Em consonância com o discurso em voz over, proferido pelo narra-


dor, cujo objetivo era dar sentido às imagens, construiu-se uma
visualidade baseada na espetacularização dos eventos oficiais. A presença
de populares com faixas e bandeirinhas – elemento muito explorado nos
enquadramentos – compunham os informes noticiados. Nessa lógica, o
uso de símbolos nacionais passou a ser associado à ditadura e seus apoia-
dores, característica que vemos reaparecer nos dias atuais. Marilena Chauí
(2013) denomina esse fenômeno como verde-amarelismo, salientando
como a ritualização de costumes e tradições como a música e os semiófo-
ros11 adquiriu uma conotação política.
Assim, como pudemos ver nos exemplos, a propaganda da ditadura
retomou e incorporou em seu discurso aspectos da história nacional ali-
cerçada em símbolos da cultura dominante. O militarismo e a construção
de heróis nacionais, por exemplo, relacionam-se com a ideia da utopia au-
toritária, colaborando para a representação positiva dos militares e
atuando como uma ferramenta na busca por legitimidade. Ademais, a
menção à formação da identidade brasileira, alicerçada na união das três
raças, fortalecia o imaginário social citado pela historiografia, no qual não
haveria racismo, desigualdade ou qualquer tipo de discriminação por parte
do Estado e da sociedade. As formas de comportamento, fundamentadas
nos ideais cristãos, também remetem à representação de cordialidade per-
sonificada pelo homem brasileiro.
Portanto, consideramos que a atuação da Agência Nacional foi
fundamental para o fortalecimento e difusão do discurso autoritário.
Ainda que a ditadura civil-militar buscasse se afastar da imagem dos

11
Semióforo é um termo utilizado por Chauí cuja definição reporta a objetos, lugares ou pessoas que se tornam
simbólicos a um grupo: "(...) são coisas providas de significação ou se valor simbólico capazes de relacionar o visível
e o invisível (...)" (CHAUÍ, 2013, p.153).
312 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

regimes totalitários, cuja propaganda ideológica foi fundamental, houve


investimento na formação de uma autoimagem positiva. Como afirma
Tatyana Maia: "No período ditatorial, a Agência Nacional continuou
elaborando imagens e narrativas dedicadas à promoção do regime e à
pedagogia cívica. Ao longo da ditadura, o Executivo não descuidou da AN"
(MAIA, T. 2015, p.3). Nessa mesma lógica, Lília Schwarcz ressalta que, em
países de tendência autoritária, como é o caso do Brasil, os governos
utilizam estratégias semelhantes na construção de sua representação: “(...)
uma imagem de lisura e correção na gestão do governo, tratando de
obliterar seus próprios maus exemplos” (SCHWARCZ, 2019, p.228).

Considerações Finais

A Agência Nacional, portanto, atuou como uma porta-voz oficial das


diretrizes da ditadura. Ainda que sua função fosse informativa, como indi-
cado em seu regimento interno, a instituição desempenhou um papel
fundamental na construção da imagem pública do Estado ditatorial. Essa
afirmativa pode ser verificada, por exemplo, na importância burocrática
que a AN adquiriu durante o regime, deixando de ser vinculada ao Minis-
tério da Justiça e Negócios Interiores e passando a responder diretamente
ao Gabinete Civil da Presidência da República. Assim, no momento em que
o cargo de Diretor Geral passou a ser escolhido pelo chefe do governo,
além da autonomia financeira que o órgão alcançou, sua influência e papel
estratégico para o Executivo se tornaram ainda mais evidentes.
Assim, por meio da produção de cinejornais, documentários e pro-
gramas radiofônicos, o discurso oficial passou a ganhar cada vez mais o
cotidiano brasileiro. Mesmo que não possamos medir sua recepção, esses
dados, combinados com a análise das fontes e da historiografia, mostram
que a agência possuía um largo alcance entre os diversos públicos. Entre-
tanto, no caso do cinejornalismo – nosso objeto de pesquisa –, podemos
delimitar mais o público ao qual sua mensagem era difundida. Esse ele-
mento é tão importante quanto compreender a formulação da
Isadora Dutra de Freitas | 313

propaganda, pois pode nos auxiliar a compreender quais grupos mantive-


ram apoio e, sobretudo, as memórias e revérberos de uma visão positiva e
revisionista sobre a natureza e caráter da ditadura civil-militar.
Por isso, quando questionamos que otimismo era esse que constituía
a propaganda oficial e a quem ele se dirigia, podemos responder, pelo me-
nos, de forma parcial. Evidentemente que, tratando-se de uma versão
oficial, ressaltava aspectos positivos, enquanto silenciava o terrorismo de
Estado. Entre esses aspectos, identificamos a formação de uma imagem
que resgatou símbolos e elementos de um passado glorioso, tais como: as
potencialidades geográficas e naturais do país, o homem cordial e a demo-
cracia racial. Porém, sendo esse um conceito predisposto a ressignificações
conjunturais, novos elementos foram incorporados a isso. As potenciali-
dades foram aliadas ao projeto modernizador empreendido pelo regime
ao passo que a cordialidade e a referência sobre as três raças formadoras
estiveram alinhadas com a formação de comportamentos adequados di-
fundidos pelos cinejornais.
Ademais, o ponto chave do discurso otimista, como afirma Carlos
Fico (1997), é a projeção ao “porvir”. Cria-se um imaginário que justificava
as ações do governo pela busca de um Horizonte de Expectativas – nos
termos de Kosellek – triunfante. Entretanto, ressaltamos que essa não foi
uma característica exclusiva da ditadura, embora o regime tenha colabo-
rado para isso. Lília Schwarcz (2019) salienta que países de tendência
autoritária costumam, em períodos de crise, voltar-se a um passado histó-
rico esplendoroso, que serve de sustentação para medidas
intervencionistas. Portanto, pensando na onda revisionista em que nos en-
contramos atualmente, podemos considerar que a representação positiva
e altamente seletiva da ditadura teve efeitos efetivos em grupos conserva-
dores da sociedade brasileira. Por meio do imaginário social, ainda há
quem considere esse um tempo de avanços econômicos e segurança, sem
mencionar a repressão, a censura e os déficits econômicos do país naquele
período.
314 | A Ditadura Civil-Militar perante a história: pesquisas em perspectiva

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