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A CIDADANIA MODERNA E SEUS DESAFIOS

Karina Junqueira Barbosa

Rio de Janeiro
2010
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Karina Junqueira Barbosa

A CIDADANIA MODERNA E SEUS DESAFIOS

Artigo desenvolvido como requisito parcial para


aprovação no exame de qualificação no
doutorado em Serviço Social da Escola de
Serviço Social da UFRJ.

Rio de Janeiro
2010
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RESUMO

Este artigo tem como objetivo fazer uma análise do conceito da cidadania moderna,
bem como dos diversos desafios que esta cidadania tem enfrentado atualmente a partir de
fenômenos como a globalização, o neoliberalismo e a violação de direitos por parte dos
governos nacionais.

Palavras-chave: Cidadania moderna, Direitos, Estado-Nação, Desafios.


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SUMÁRIO

1- INTRODUÇÃO.................................................................................................. 04

2- A CIDADANIA MODERNA............................................................................. 07

3- DESAFIOS À CIDADANIA MODERNA .................................................... 20


3.1-Violação dos direitos da cidadania por parte dos
governos..................................................................................................... 20
3.2 – Globalização neoliberal e direitos sociais..................................... 28
3.3 – “Crise” do Estado-Nação e da identidade nacional..................... 36

4 –CONCLUSÃO................................................................................................ 44

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS............................................................... 45
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1- INTRODUÇÃO

O conceito de cidadania suscita inúmeros debates e não há uma unanimidade em torno


do mesmo. Historicamente, os autores remetem o surgimento da cidadania à cidade-estado
grega de Esparta no século VII, a.c., estando vinculada à idéia da democracia e da
participação política na cidade. A cidadania, portanto, era pensada não em termos do ser
grego, mas de ser espartano - no lugar do Estado, a polis.
Roma começou, tal como a polis grega, como uma cidade-estado. .A cidadania romana
era mais flexível que a grega, tendo várias gradações. Na Roma republicana mesmo os
escravos poderiam adquirir cidadania. Com a expansão do Império Romano, foram criadas
novas formas de cidadania, como a que permitia a manutenção de governos locais de povos
conquistados (caso do território latino de Tusculum) e a semi-cidadania, que criava uma
classe de cidadãos sem direito a voto (HEATER, 2004). Deste modo, os cidadãos romanos
que viveram no Império, não renunciaram necessariamente a suas próprias culturas étnicas.
No entanto, a expansão imperial levou a uma mudança no sentido da cidadania – esta deixa de
ser percebida como o pertencimento a uma comunidade política e se torna um estatuto
jurídico, ser cidadão como aquele que vive sob a égide e a proteção da lei romana (HEATER,
2004; WALZER, 2001).
Na Idade Média, a cidadania, como na Grécia, também era relacionada à cidade, não a
Estados ou regiões etnicamente identificáveis. Desta maneira, até este período, os conceitos
de cidadania e nacionalidade não estavam interligados, uma vez que estavam relacionados a
diferentes entidades sócio-políticas, como as cidades.
Neste contexto, até o século XVIII, a palavra nação tinha conotações diferentes das de
hoje; só a partir deste período passou a ser sinônimo de país ou pátria-mãe e a se relacionar
aos indivíduos que habitam estes territórios. A partir do momento que a palavra cidadão foi
sendo separada de seu significado municipal e ligada ao Estado, o termo nação também
passou a ser relacionado ao Estado (HEATER, 2004).
Durante a Revolução Francesa, houve um alinhamento entre cidadania e
nacionalidade, uma vez que, para os franceses, nação era um conceito político e não cultural.
Deste modo, a Constituição de 1791 ofereceu a oportunidade de cidadania para os
estrangeiros, já que a cidadania não tinha relação com cultura, raça ou etnia, sendo um status
dos indivíduos que viviam sob as mesmas leis e eram representados por uma mesma
assembléia (HEATER, 2004). Neste sentido, em sua fase jacobina, a Revolução fez um
enorme esforço para criar a cidadania como uma identidade para qualquer francês,
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substituindo a fé religiosa e a fidelidade familiar por virtude e espírito público; um


compromisso rigoroso com a atividade política e com a militar, a cidadania como um dever
universal (WALZER, 2001).
Esta ideologia revolucionária tinha claramente um caráter neoclássico tendo se
inspirado em autores clássicos como Aristóteles 1. Mais tarde, autores como Rousseau e Kant
proporcionariam o fundamento filosófico da noção de cidadania que a vincula com a
participação na atividade pública. Esta concepção da cidadania se baseia, portanto, na idéia da
virtude cívica dos cidadãos, sendo denominada de comunitarista ou de republicanismo cívico
(HEATER, 2004).
Entretanto, ao longo dos séculos XVII e XVIII, foi desenvolvida outra visão da
cidadania, a liberal, que se fortaleceu durante os séculos XIX e XX. Segundo esta abordagem,
o Estado existe para o benefício de seus cidadãos, para assegurar que eles tenham e possam
usufruir de direitos. O nome mais conhecido desta escola teórica é T. H. Marshall, para quem
a cidadania era o gozo de direitos civis, políticos e sociais, que se desenvolveram
historicamente dentro do território dos Estados nacionais (MARSHALL, 1967).
Portanto, a cidadania moderna é fruto de um processo histórico de identificação da
cidadania com a nacionalidade e da mudança da percepção do papel do cidadão 2, que deixa de
ser um sujeito politicamente virtuoso e participativo e se torna um detentor de direitos
garantidos e protegidos pelo Estado.
A década de 90 presenciou a um revival do conceito de cidadania pela teoria política e
sociológica (TURNER, 2000; VIEIRA,1999). Segundo Turner (2000), a renovação deste
interesse teria origem nas mudanças na estrutura social de diversas sociedades européias,
como as questões advindas do desenvolvimento contemporâneo no Leste Europeu e na ex-
União Soviética, que mais uma vez trouxeram à tona a complicada relação entre
nacionalismo, identidade política e participação cidadã. Além disto, contribuíram para esta
retomada o problema global dos refugiados (e a nova crise das pessoas “sem-estado”), e o
crescimento institucional da União Européia (trazendo questões como status de cidadania, não

1
Para Aristóteles (século IV, a.c), a natureza da cidadania era uma questão que não oferecia uma única
definição. Entretanto, ele reconhecia três características fundamentais da mesma: 1- o homem é um ser impelido
por sua natureza a viver na polis, participando da vida política e judiciária da mesma; 2- a polis deve ser uma
cidade-estado relativamente pequena, consistindo em uma área urbana cercada por terras agricultáveis, pois os
cidadãos devem conhecer uns aos outros; 3- os cidadãos devem possuir virtudes cívicas – temperança, justiça,
coragem e sabedoria – que devem ser cultivadas por uma educação cuidadosa (HEATER, 2004).
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Embora inúmeros autores, como Walzer (2001), defendam hoje uma recuperação da cidadania ativa por meio
do ativismo político. Aliás, segundo este autor, o conceito ativo e passivo de cidadania não são excludentes, mas
complementares – “(...) la ciudadanía seguirá siendo simultáneamente activa e pasiva, y su pratica seguirá
exigiendo el ejercicio de las virtudes antiguas com el único fin de lograr el disfrute de los derechos modernos.”
(WALZER, 2001, p. 164).
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apenas para minorias, mas também para os trabalhadores migrantes). No entanto, para Turner
(2000), a maior responsável por este fenômeno foi a globalização, que trouxe questões sobre a
relação entre as estruturas macro-societais e os indivíduos e entre o homem e a natureza.
Como conseqüência destes fenômenos, duas questões se colocam para a moderna
cidadania: a primeira se refere à natureza do membro da sociedade em sociedades altamente
diferenciadas, nas quais a autoridade do Estado-nação parece estar sob questionamento, e a
segunda diz respeito ao problema da eficiência e da alocação equitativa dos recursos
(inclusive culturais), os quais continuam a ser dominados por diversas formas de desigualdade
(TURNER, 2000, p. 2).
O objetivo deste trabalho é, deste modo, fazer, em sua primeira parte, uma análise do
conceito da cidadania moderna, apresentando as principais abordagens teóricas do fenômeno,
dando ênfase à concepção marshalliana de cidadania (the core of contemporary views of
citizenship, segundo Turner) e a suas críticas.
Já na segunda parte, serão analisados os diversos desafios que esta cidadania tem
enfrentado atualmente a partir de fenômenos como a globalização, o neoliberalismo e a
violação de direitos por parte dos governos nacionais.
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2- A CIDADANIA MODERNA

Segundo Vieira (1999), a década de 90 assistiu a um renovado interesse pelo conceito


de cidadania. Este debate estaria marcado tanto pela dificuldade em se formular uma teoria da
cidadania propriamente dita quanto pela coexistência de duas interpretações distintas sobre o
tema – a liberal e a comunitarista.
A primeira, originada na Roma dos últimos anos do Império e na herança da tradição
liberal, defensora da cidadania como um status legal, entendida como a garantia de direitos
individuais para membros de uma comunidade particular. A segunda, a percepção da
cidadania como ‘ativa’, ou seja, como exercício de uma atividade, como participação em uma
comunidade, sendo herdeira da tradição aristotélica, e uma interpretação moderna do
republicanismo grego e romano (KYMLICKA, 1997; VIEIRA, 1999; WALZER, 2001).
Na tradição liberal, de exercício de direitos e igualdade de tratamento, se insere a
teoria marshalliana da cidadania. De acordo com Turner (2000), uma resposta liberal à
questão da relação entre democracia e capitalismo; uma tentativa de (re)conciliar a estrutura
formal da democracia política com as conseqüências sociais do capitalismo como sistema
econômico; ou seja, como reconciliar a igualdade formal da democracia liberal e a
desigualdade da continuidade das divisões sociais de classe. A resposta de questão da
democracia x capitalismo estaria no desenvolvimento do Estado do Bem-Estar social.
Assim, segundo Marshall (1967), a história do surgimento e do desenvolvimento da
cidadania pode ser contada como a história da luta pela conquista, consolidação e expansão
dos direitos3. É o que Bobbio (1992) denomina caráter histórico da cidadania. Esta, na sua
dimensão civil, política e posteriormente social, teria sido o resultado de lutas – a primeira dos
parlamentos contra os soberanos absolutos e as duas últimas dos movimentos populares-,
constituindo um processo de conquista de direitos; um fenômeno histórico-processual e não o
reconhecimento de direitos preexistentes, em uma concepção jusnaturalista.
Nesta perspectiva, de acordo com Marshall (1967), a cidadania teria evoluído a partir
de um duplo processo: de fusão geográfica, na qual os direitos se tornam nacionais, e de
separação funcional, na qual se desenvolvem os elementos da cidadania: os direitos civis,
políticos e sociais.

3
Turner (2000) critica Marshall não pelo caráter evolucionista ou teleológico de sua concepção de cidadania,
mas porque, para aquele autor, o conceito marshalliano é apenas uma descrição história da evolução dos direitos
na Grã-Bretanha, fazendo pouca referência ao papel das classes sociais, dos movimentos e das lutas sociais na
promoção dos direitos. Seu modelo sugeriria, na verdade, uma transição pacífica e gradual rumo à cidadania.
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Na perspectiva da fusão geográfica, o nascimento do conceito de cidadania teria se


dado pela expansão de direitos, que passaram a ser protegidos pelos Estados nacionais, o que
permite afirmar que o conceito de cidadania nasce como territorial.
Neste sentido, o exercício dos direitos da cidadania sempre foi pensado dentro dos
limites de uma circunscrição territorial, com base na vinculação entre Estado e nação, entre
cidadão e nacionalidade. "O cidadão é um nacional de um Estado particular" (VIEIRA, 2001,
p. 232). Nesta percepção só teriam assegurados os direitos civis, políticos e sociais os
nacionais de um Estado, entendidos não na acepção pré-política do termo4, mas no seu sentido
jurídico - os que nascem em determinado território (jus soli) e os que descendem dos
nacionais (jus sanguinis). É uma visão de cidadania, portanto, na qual são excluídos os
imigrantes e os estrangeiros.

(…) o princípio das nacionalidades, tal como se desenvolveu nos


séculos XVIII e XIX, remodelou o conceito de cidadania. A soberania
é atributo da nação, do povo, e não do príncipe. A nação precede a
cidadania, pois é no quadro da comunidade nacional que os direitos
cívicos podem ser exercidos. A cidadania fica, assim, limitada ao
espaço territorial de uma nação, contrariando a esperança generosa
dos filósofos do Iluminismo que haviam imaginado uma república
universal.
Tradicionalmente, somente são cidadãos os nacionais de determinado
país. A cidadania é vista como relação de filiação, de sangue, entre
os membros de uma nação.” (VIEIRA, 1999, p. 403).

Quanto à separação funcional, os direitos civis, como o de ir e vir, de liberdade de


imprensa, de acesso à justiça, entre outros, teriam se desenvolvido no século XVIII, com a
doutrina liberal, a partir da concessão de novos direitos a um mesmo público - os cidadãos,
considerados formalmente iguais-, sendo que as instituições a eles associadas seriam os
tribunais.
O liberalismo é uma doutrina política e filosófica, de influência econômica,
extremamente complexa. Em linhas gerais, pode-se defini-la mais como um conjunto de
valores morais - individualismo, progresso, tolerância, igualitarismo, universalismo- que visa
à melhoria do padrão de vida dos indivíduos, do que como uma doutrina propriamente dita
(GRAY, 1988).

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Nação pode ter um sentido jurídico, de caráter territorial, como o oriundo de determinado Estado. No entanto,
também é possível perceber a nação como um sentimento de comunidade, de pertencimento, de compartilhar
uma língua, uma etnia, uma história e um projeto de futuro. Para discussões sobre nação e sua relação com o
conceito de Estado, vide AZAMBUJA, D., 2005.
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Embora tenham se desenvolvido de maneiras diferentes nas sociedades nas quais


foram implementadas, estas versões mantiveram uma essência formal, que pode ser resumida
aos valores supracitados.
Ao se tratar de sua origem, deve-se ressaltar que a mentalidade liberal é anterior ao
uso da palavra liberal (VINCENT, 1995). Esta palavra, historicamente, foi utilizada para
definir desde um modelo de educação (de caráter amplo), passando pela crítica a um
comportamento libertino e imoral (século XVI), até a concepção partidária dos Liberales
espanhóis e posteriores partidos europeus.
No sentido filosófico, a noção do indivíduo liberal remonta ao século XVII, tendo sido
desenvolvida por John Locke (1994) 5 e sua defesa do direito de propriedade como garantia
do indivíduo. Ainda que Thomas Hobbes (1999) possa ser considerado um precursor da teoria
liberal, no momento que é defeso ao Estado Leviatã a ameaça injustificada da vida,
configurando o primeiro limite do Estado absoluto, é com Locke que surge a noção do Estado
de Direito. Estado este criado não só para fazer cumprir o contrato social, mas também
submetido a este mesmo contrato.
Segundo Locke (1994), o Estado (entendido em seu sentido abstrato, como ente
político-jurídico) teria como origem um pacto ou contrato social realizado entre os indivíduos
com o objetivo de defender a vida e a propriedade dos cidadãos, sendo esta última um direito
natural outorgado por Deus. A propriedade como um direito duplamente protegido -
primeiramente como direito natural e, posteriormente, como um direito garantido pelo Estado
incipiente. Assim, com a teoria lockeana surge, ao mesmo tempo, a noção de Estado mínimo e
do Estado de Direito.
A defesa da vida e, principalmente, da propriedade6 na teoria lockeana constitui-se,
deste modo, como a primeira defesa dos direitos dos indivíduos perante o Estado. Ao invés do
súdito, toma forma o conceito do cidadão, civitas. Neste sentido, cidadão é aquele que é
protegido de outros cidadãos e do próprio Estado,

De lo que se trata es de tener seguridad em cuanto a la vida física


(Hobbes),en la família o en el hogar próprio (Bodin y Montesquieu) o
en lo referente a la consciencia y a la propriedad personales (Locke).
(WALZER, 2001, p. 160).
5
A idéia de direitos naturais, inclusive a da propriedade, é normalmente criticada pelos marxistas, uma vez que
os direitos seriam fenômenos sociais e históricos (COUTINHO, 2000). Segundo Locke (1994), a propriedade
seria um direito natural do homem, o que a legitimaria. Neste sentido, Marx critica o jusnaturalismo ao afirmar
que as revoluções políticas não libertaram o homem da propriedade ; na verdade, o homem recebeu a “liberdade
de propriedade”. E “os droits de l´homme aparecem como droits naturels (...)” (MARX, 2000).
6
Em Locke (1994), a propriedade é entendida em um sentido mais amplo, incluindo também o direito à vida e
liberdade, além dos bens.
14

Trata-se, portanto, do nascimento da mentalidade liberal, uma vez que o conceito de


liberal só surgiria no século XIX.
Esta origem é também cercada de inúmeras controvérsias. Neste debate, o liberalismo
pode ser concebido como intrinsecamente ligado às próprias origens do Estado-Nação (e,
conseqüentemente, ao conceito territorial de cidadania) ou, na visão marxista, como fruto de
um determinado modo de produção - o capitalismo - e seu valor central - a propriedade
privada.
Ainda é possível analisá-lo como um ponto de convergência do constitucionalismo
europeu (movimento de defesa dos direitos individuais, liberdade e limite ao Estado), herança
do racionalismo iluminista (em especial, Descartes e Hobbes) e das Revoluções Americana e
Francesa, que colocaram no foco político as idéias de soberania popular, do contratualismo e
dos direitos naturais (VINCENT, 1995).
Embora a Revolução Francesa possa ser considerada uma vitória do ideário liberal
(representado pelos constitucionalistas moderados), o mesmo não se pode dizer das aspirações
democráticas dos sans-culottes, que defendiam, sob inspiração rousseauniana, uma
democracia direta, bem como teorias comunistas de propriedade.
Assim, no período pós-Revolução francesa, a vitória do liberalismo permitiu o
nascimento dos chamados direitos civis, as liberdades e os direitos fundamentais do
indivíduo, que se constituiriam como base para o desenvolvimento do conceito de cidadania e,
posteriormente, para o de democracia moderna (BOBBIO, 2004).
Uma cidadania de inspiração cristã universalista, que faz uma defesa do indivíduo, de
sua liberdade em buscar a melhoria de sua própria vida. Liberdade esta, normalmente
entendida em seu caráter negativo, como inexistência de coação estatal, personificado no
próprio corpo do indivíduo, como bem demonstra a definição hobbesiana de liberdade,
definida como ausência de impedimentos externos (HOBBES, 1999). Esta acepção negativa
da liberdade foi, inúmeras vezes, relacionada à defesa da propriedade privada, entendida
como extensão do próprio corpo do indivíduo e de sua liberdade (LOCKE,1994).
Deste modo, a liberdade levaria ao aperfeiçoamento individual e, conseqüentemente,
ao aperfeiçoamento social. A competição por bens econômicos e sociais entre os indivíduos,
seres desiguais por natureza, sem a intervenção desnecessária e injusta do Estado, seria o
motor do desenvolvimento social.
No entanto, apesar de serem naturalmente desiguais, os homens teriam, segundo os
teóricos liberais, uma garantia fundamental - a igualdade jurídica ou formal. A igualdade
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apenas na lei/perante a lei, sem preocupação material ou qualitativa (BOBBIO, 2002). Uma
igualdade que possibilitaria o acesso ao mercado e à busca pelo lucro (segundo Marshall,
1967,o primeiro direito civil básico foi o de trabalhar), respeitando-se claro o lucro alheio (a
liberdade lockeana), e, por outro lado, possibilitaria uma preservação da liberdade individual,
incompatível com a defesa de uma justiça distributiva (o que requer, obviamente, a
intervenção estatal).
A cidadania universal nasce, deste modo, como cidadania liberal, de defesa dos
direitos do cidadão, principalmente, liberdade e propriedade privada, perante o Estado - a
cidadania como status legal (VIEIRA, 2002). Segundo Vieira (1999), “Cidadania vincula-se
intimamente à idéia de direitos individuais e de pertença a uma comunidade particular” (p.
395).
Já os direitos políticos, entendidos, segundo Marshall (1967), como o direito de
participar do exercício do poder político, como membro de um organismo, como o parlamento
e os governos locais, ou como eleitor destes membros, se expandiram no século XIX, com o
nascimento da democracia liberal, e nada mais foram do que a concessão dos direitos políticos
a um grupo cada vez mais abrangente. Não foi, portanto, uma expansão no número dos
direitos, mas a concessão de velhos direitos a camadas cada vez maiores da população.
Embora o liberalismo tenha garantido apenas uma igualdade formal para os cidadãos, esta foi
essencial para o posterior desenvolvimento da democracia moderna.
Para Coutinho (2000), uma das características mais marcantes da modernidade seria a
“afirmação e a expansão de uma nova concepção e de novas práticas de cidadania” (p.49).
Este período histórico, iniciado no Renascimento, teria presenciado uma articulação profunda
entre os conceitos de cidadania e democracia. Neste sentido, a cidadania poderia ser definida
como:
(...) capacidade conquistada por alguns indivíduos, ou (no caso de
uma democracia efetiva) por todos os indivíduos, de se apropriarem
dos bens socialmente criados, de atualizarem todas as
potencialidades de realização humana abertas pela vida social em
cada contexto historicamente determinado (COUTINHO, 2000, p.
50).

Segundo Bobbio (2004), um conceito de democracia só seria possível se


considerássemos um conjunto mínimo de elementos, que fossem capazes de caracterizar estes
regimes políticos, apesar das especificidades das sociedades na qual se desenvolveram.
Assim, democracia seria um conjunto de regras primárias e fundamentais, escritas ou
consuetudinárias, que estabelecem quem está autorizado a decidir e por quais procedimentos.
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A definição da democracia envolve, portanto, a participação de um número elevado de


membros do grupo que decidem por meio da regra da maioria (a unanimidade é tanto possível
quanto exigível em casos específicos), e que possuem alternativas reais de escolha e
condições de poder escolher.
Estas alternativas e condições a que Bobbio se refere, nada mais são do que os direitos
e garantias fundamentais do cidadão, os direitos civis liberais, que permitiram o surgimento
da democracia moderna, no sentido liberal. Esta, por sua vez, teria a função vital de garantir
hoje a continuidade destes mesmos direitos. Na teoria de Bobbio, portanto, se teria um duplo
caminho: do liberalismo à democracia e da democracia ao liberalismo.
No mesmo sentido é desenvolvida a teoria poliárquica de Dahl (1997). A poliarquia
nada mais seria do que a democracia real, imperfeita, altamente inclusiva e amplamente aberta
à contestação pública, que teria como condição de sua existência oito garantias fundamentais:
o direito de associação, o direito de voto, o direito dos líderes políticos disputarem apoio, o
direito dos líderes políticos disputarem votos, eleições livres e idôneas, fontes alternativas de
informação, liberdade de expressão e instituições para fazer com que as políticas
governamentais dependam de eleições e manifestações de preferência. Estas garantias seriam
a reafirmação da necessidade dos direitos liberais para o desenvolvimento e continuidade dos
regimes democráticos.
Embora historicamente a democracia política tenha sido reduzida ao voto, em uma
perspectiva instrumental da mesma, a noção de democracia não se resume aos direitos
políticos, ou seja, de votar e ser votado. Mesmo Bobbio (2004), em sua definição mínima,
defendia que a democracia havia sido pensada como uma democracia social, nas mais
variadas esferas da vida, e não como um regime específico da esfera política, em seu sentido
estrito, de política eleitoral-partidária.
A cidadania política teria, portanto, um sentido mais amplo, entendida como a
participação política nos negócios públicos. Em uma perspectiva habermasiana, a cidadania
seria deliberativa ou discursiva, na qual a identidade cívica é construída não pelo
pertencimento a um território ou pelo exercício instrumental dos direitos políticos, mas pelo
diálogo, pela busca do consenso e pela construção de decisões coletivas. A possibilidade de se
alcançar, de maneira racional, uma espécie de vontade geral7 por meio da discussão na esfera
pública. Uma cidadania que garante o status legal do cidadão, mas que avança na perspectiva
7
Segundo Rousseau (1991), a vontade geral pode ser entendida como aquilo que há de comum na vontade de
todos (soma das vontades particulares). Por sua teoria do contrato, o papel do governo seria o de governar
respeitando esta vontade geral, que seria o verdadeiro poder soberano. Para que esta vontade fosse efetivamente
cumprida, a forma de governo desejável seria a democracia direta, embora reconhecesse pragmaticamente a
possibilidade de uma democracia indireta ou representativa.
17

da democracia liberal, defendendo a participação em uma comunidade política particular e


legitimando, assim, a democracia (VIEIRA, 2001, 2002).
Segundo Vieira, uma percepção ativa da cidadania, como defendem os comunitaristas,
em contraposição à passividade da cidadania liberal de Marshall , que coloca os indivíduos
apenas como sujeitos de direitos, sem responsabilidades e sem a obrigação de participar da
vida pública. Esta percepção passiva produziria, segundo Walzer (2001), uma vida
fundamentalmente apolítica “que llevan los ciudadanos modernos y que sólo se reanima
políticamente cuando se perfilan dificultades en el horizonte de la esfera privada (p.162).”
E, finalmente, quanto à última dimensão da cidadania, a social, os direitos sociais se
desenvolveram no século XX, defendidos e assegurados pelo Estado do Bem-Estar Social.
O liberalismo, ao incentivar o livre comércio, a auto-regulamentação do mercado e a
competição, levou a um período de desenvolvimento econômico mundial, mas também a uma
expansão da pobreza e da desigualdade social, motivo pelo qual começa a entrar em declínio
no final do século XIX.
Assim, a partir do final do século XIX, e, em especial, após a Primeira Grande Guerra
e a Crise da bolsa de 1929, o papel do Estado é repensado, sob influência do economista
inglês John Keynes. Segundo Keynes (1982), o pleno emprego só seria garantido através da
intervenção do Estado na economia.
Em 1942, através do Relatório Beveridge, sobre a pobreza na Inglaterra, e sob
influência do keynesianismo e da política do New Deal do Presidente americano F. Roosevelt
(anos 30), foi instituída a seguridade social inglesa, lançando as bases do Estado do Bem-
Estar Social (WFS). Pouco depois, em 1944, como uma reação ao modelo de bem-estar
inglês, Hayek escreve "O Caminho da Servidão" (1990), defendendo que a intervenção do
Estado, fundamento do WFS, seria uma ameaça à liberdade individual, e, portanto, um
caminho para a servidão humana perante o Estado. Assim como o socialismo tinha sido a
ameaça ao liberalismo, o Estado do Bem-Estar Social, de inspiração socialista, passa a se
constituir como uma ameaça ao neoliberalismo.
Deste modo, em linhas gerais, pode-se definir o WFS com um modelo centrado na
intervenção estatal na economia e na sociedade, através de políticas públicas e, em especial,
das políticas sociais. Um modelo capitalista preocupado com a justiça social que assumiu
várias formas ao longo do tempo e dos contextos históricos, indo do residual americano ao
universalismo da social-democracia escandinava (ESPING-ANDERSON, 1991).
Deve-se ressaltar, portanto, que o WFS não visa ao fim do capitalismo, mas a uma
humanização do mesmo (essencial a sua própria sobrevivência). Em nenhum momento o
18

WFS questiona o fundamento capitalista da propriedade privada livre. Não se trata, assim, de
um modelo igualitarista, nos moldes do socialismo e do comunismo. É um modelo estatal que
defende, por meio da intervenção do Estado, uma redução das desigualdades sociais e não o
seu fim, o que só seria possível com a abolição completa da propriedade. Segundo Marshall
(1967), a função do Estado do Bem-Estar Social seria a de limitar o impacto negativo das
diferenças de classe nas chances de vida dos indivíduos.
Este modelo, apesar de suas limitações, traz um novo conceito de cidadania - ou
melhor, um novo elemento para a cidadania. Ao invés do Estado mínimo do liberalismo,
defensor da não intervenção estatal como forma de proteção da liberdade individual, e
baseado, portanto, na noção de indivíduo, surge um Estado preocupado com a desigualdade
social e com a efetiva implementação da cidadania social (MARSHALL,1967).
Nesta perspectiva, a cidadania passa a ser percebida também por uma lógica de
inclusão, como uma forma de integração plena do indivíduo na sociedade. Este teria garantido
não apenas os seus direitos civis, de origem liberal (status legal da cidadania), ou seus direitos
políticos, originados dos modelos democráticos ao longo do século XIX. Seriam necessários
ainda os direitos sociais, para que o homem pudesse ser considerado um "cavalheiro", dotado
de capacidade de escolha e parte da herança social (MARSHALL,1967).Direitos sociais estes
que historicamente passaram a ser adotados como finalidade estatal e fundamento de
inúmeras constituições.
No entanto, há uma dificuldade em se definir o que seriam estes direitos sociais, cuja
definição seria, segundo Domingues (2001), “patentemente frouxa e dispersiva” (p.222).
Para Marshall (1967), os direitos sociais se referem a tudo o que vai
desde o direito a um mínimo de bem-estar econômico e
segurança ao direito de participar, por completo, na herança
social e levar a vida de um ser civilizado de acordo com os
padrões que prevalecem na sociedade. As instituições mais
intimamente ligadas a ele são o sistema educacional e o
serviço sociais (p. 64).

Segundo Heater (2004), enquanto os direitos civis e políticos podem ser definidos e
reconhecidos com certa precisão, o mesmo não ocorre com os direitos sociais. Coutinho
(2000), por exemplo, afirma que os direitos sociais podem ser definidos como aqueles que
“permitem ao cidadão uma participação mínima na riqueza material e espiritual criada pela
coletividade” (p. 62). Em uma perspectiva mais concreta, Heater (2004) afirma que estes
direitos são relacionados à qualidade de vida, como saúde e educação, mas que não há um
parâmetro definido para o que se espera, por exemplo, dos serviços das escolas e hospitais.
19

O modelo do WFS começou a entrar em crise no final da década de 60, e pode ser
atribuída a inúmeros fatores, como uma crise fiscal - o Estado se expandiu em demasia e não
teve como financiar as cada vez maiores exigências da sociedade, sendo os impostos e as
demandas crescentes -, ou como conseqüência do processo de "estatização" da sociedade, na
qual o Estado assume a questão social e passa a intervir nas mais variadas esferas da vida
social, levando a uma desmobilização da sociedade (DOMINGUES, 2001). Por outro lado,
alguns pensadores também apontam uma crise das utopias e da própria esquerda hoje no
mundo, em especial da antiga social-democracia (GIDDENS,1996).
No entanto, ressalta-se que a crise do WFS não significou o fim do mesmo, tendo
subsistido, ainda que de maneira residual, em Estados que adotaram políticas econômicas
neoliberais.
Atualmente, embora seja ainda uma teoria importante e útil, a cidadania marshalliana é
alvo de inúmeras críticas. A primeira refere-se a seu caráter eurocêntrico, uma vez que
Marshall analisa a evolução da cidadania moderna a partir do desenvolvimento da cidadania
inglesa.
Segundo Kymlicka (1997), outras críticas a esta abordagem liberal usualmente são
feitas a partir de duas perspectivas – da necessidade de complementar a cidadania como
direitos com o exercício ativo das responsabilidades e virtudes cidadãs; e a necessidade de se
revisar o conceito a fim de incorporar o crescente pluralismo social e cultural da sociedade
moderna.
De acordo com a Nova Direita, a cidadania social de Marshall seria incompatível com
a idéia de meritocracia, além de ser economicamente ineficiente, uma vez que o Estado do
Bem-Estar Social teria gerado uma passividade nos pobres, o que perpetuaria o problema da
pobreza ao invés de solucioná-lo. Para os teóricos neoliberais, a igualdade não deve ser só de
direitos, mas também de obrigações, inclusive a de trabalhar. É o workfare, o trabalho como
contrapartida para os benefícios sociais Já a Nova Esquerda reconhece a passividade e a
dependência geradas pelo WFS, mas defende que os direitos devem preceder as obrigações e
que o workfare nem sempre é possível, uma vez que não há trabalho disponível para todos
(KYMLICKA, 1997).
Já a defesa da necessidade das virtudes cívicas é feita por inúmeras teorias como a da
democracia participativa, a do republicanismo cívico, dos teóricos da sociedade civil e os da
virtude liberal. Nesta linha, as virtudes cívicas, como respeito à lei e a vontade de participar
do debate público, podem ser entendidas como um valor intrínseco (republicanismo cívico) ou
algo a ser aprendido através do sistema educativo (virtude liberal).
20

Segundo Walzer (2001), a cidadania liberal pode ser resumida pelas seguintes
características: compreende a cidadania como um status, como um conjunto de direitos que se
desfruta de maneira passiva; pressupõe a existência de um corpo de cidadãos diversificado, na
qual seus membros estão imersos em outras relações; é uma comunidade que combina
abertura e exclusão; e, na qual as leis e a administração ficam a cargo não dos cidadãos, mas
de políticos profissionais (p. 162).
Por outro lado, em uma segunda perspectiva, não liberal, a comunitarista ou
republicana, a cidadania é compreendida, de acordo com Walzer (2001, p. 162), como uma
responsabilidade, na qual os cidadãos, unidos por estreitos vínculos, estão profundamente
implicados na vida pública. Trata-se de uma comunidade mais homogênea, na qual os
cidadãos são os atores políticos essenciais.
Nesta segunda perspectiva, encontram-se os pluralistas culturais, segundo os quais a
cidadania não é apenas um status legal, um conjunto de direitos e responsabilidades, mas
também uma identidade, um modo de pertencimento a uma determinada comunidade política.
Comunidade esta que é composta por minorias e excluídos que devem ser considerados,
constituindo uma cidadania diferenciada. Esta diferenciação se opõe a um conceito
universalizado de cidadania, defendendo direitos especiais de representação, de auto-governo
e multiculturais para grupos como minorias nacionais, étnicas e religiosas (KYMLICKA,
1997).
Segundo Yegen (2008), a cidadania seria mais que uma relação formal entre o
indivíduo e o Estado – seria a regulação simultânea de 03 fenômenos: o status formal, que
consiste em direitos e deveres, o pertencimento a uma comunidade particular e a participação
no processo de definição do futuro da comunidade. Historicamente, estes fenômenos teriam
passado por inúmeras mudanças. No campo da participação, houve uma passagem da
cidadania ativa para a passiva (do ideal aristotélico para a visão liberal); no campo dos
direitos e deveres, os mesmos se diferenciaram e se desenvolveram ao longo dos séculos
(como defende a teoria de Marshall) e no campo da pertencimento houve e ainda há mudanças
– embora a cidadania vista como pertencimento a uma unidade territorial bem-definida ainda
não tenha sido abandonada, a mesma tem passado por um processo de relativização, na qual a
capacidade do Estado-nação de ser a única entidade a especificar os direitos da cidadania e a
alocar os recursos tem se enfraquecido, como será posteriormente discutido por este artigo.
Todas estas mudanças apontam para o fato de que a cidadania é um processo, que
Yegen (2008) denomina “citizenization”, e não um fenômeno estático, acabado; e que tem
hoje como principal objetivo novas formas de luta por igualdade. Deste modo, para este autor,
21

o debate recente sobre a cidadania pode ser analisado a partir de 2 perspectivas: da dialética e
da tragédia da cidadania.
A primeira diz respeito à dialética entre inclusão e exclusão, entre os cidadãos e os
não-cidadãos; esta questão remete às origens da cidadania e continua atual no debate
contemporâneo sobre a cidadania de minorias, imigrantes, refugiados, entre outros.
Neste sentido, para Turner (2000), a cidadania moderna liberal pode ser criticada por
seu caráter pretensamente universalista, na qual as particularidades são subordinadas, tendo
um aspecto repressivo como instrumento político estatal. O grande problema estaria na
equação que a modernidade fez entre cidadania e “sameness”, que impediria um
reconhecimento da diferença e um respeito à diversidade. Deste modo, o futuro da cidadania,
segundo o autor, estaria em abarcar a globalização das relações sociais e a crescente
diferenciação dos sistemas sociais, para além do espaço do Estado-nação, construindo um
novo discurso sobre os direitos humanos.
Turner (2000), portanto, ao defender a tolerância a diversidade, introduz uma nova
questão em relação à cidadania, ao discutir se esta teria uma única versão, como sugere a
teoria marshalliana, ou se haveria diversas formulações possíveis do princípio da cidadania,
dependendo das diferentes tradições culturais e sociais, que produzem diferentes noções e
entendimentos deste conceito.
Neste sentido, não se falaria em cidadania, mas cidadanias a partir da conjugação e
articulação entre 04 elementos organizados em 02 eixos: o eixo (histórico) construção da
cidadania a partir de cima ou a partir de baixo; e o eixo (cultural) desenvolvimento em espaço
público ou privado. Em sociedades nas quais a cidadania foi construída de baixo para cima,
como nas resultantes de lutas revolucionárias, tem-se uma cidadania ativa; nas que foram
“concedidas”, ou seja, construídas de cima para baixo, tem-se uma versão passiva ou negativa
da cidadania. Quando o espaço público é visto com desconfiança ou como moralmente
inferior ao espaço privado, e o espaço político é limitado, o desenvolvimento histórico é
diferente, e tem-se uma cidadania passiva e privada.
A partir desta tipologia, Turner (2000) afirma que uma teoria unitária da cidadania é
inapropriada e que, embora a sociologia tenha que construir conceitos gerais, também é
necessário que se considere as circunstâncias particulares e contingentes, históricas e
culturais, sob as quais a cidadania se desenvolve.
Assim, para Turner (2000), um conceito de cidadania deve considerar as seguintes
questões: o conteúdo dos direitos sociais e obrigações; a forma dos direitos e obrigações; as
forças sociais que produzem tais práticas; e os vários arranjos sociais nos quais os benefícios
22

são distribuídos aos diversos setores da sociedade. Não se trata, portanto, de uma concepção
da cidadania como mera coleção de direitos e deveres, mas como práticas, em uma
perspectiva dinâmica na qual a construção da cidadania muda historicamente como
conseqüência das lutas políticas - ou seja, é uma visão sociológica e não apenas legal ou
política. Além disto, é um conceito que permite debater as questões da desigualdade,
diferenças de poder e classes sociais.
Portanto, não se trata apenas de ter direitos, mas como estes direitos são conquistados
e se desenvolvem historicamente. Nesta perspectiva Yegen (2008) afirma que o processo de
conquista não pode ser visto de maneira unilinear, indo do desenvolvimento dos direitos civis
aos sociais; houve não só mais de uma forma de evolução (como demonstra a tipologia de
Turner), mas inúmeras involuções (como as advindas do neoliberalismo em relação aos
direitos sociais e das violações de direitos civis por parte dos governos democráticos
atualmente, mostrando que os direitos são vulneráveis) no mesmo processo. Além disto, hoje
há uma expansão no rol de direitos, em particular nos denominados culturais.
A segunda perspectiva apresentada por Yegen (2008) é a da tragédia da cidadania –
como equacionar igualdade e desigualdade. A cidadania moderna teria construído a igualdade
a partir da homogeneização dos membros da comunidade (a confusão entre igualdade e
sameness a que Turner se refere), obtendo uma igualdade formal (liberal) e abrindo caminho
para desigualdades substanciais. Estas dizem respeito às demandas, normalmente ignoradas,
de reconhecimento de grupos étnicos, sociais e culturais, que são vistas como estando em
conflito com o princípio da igualdade.
É importante ressaltar que a visão liberal da cidadania não considera diferenças de
classe, de gênero, de etnicidade, entre outros. No mesmo sentido de Turner (2000), Yegen
(2008) considera a questão da desigualdade social no conceito da cidadania. Para este último
autor, a criação da igualdade formal em sociedades caracterizadas por desigualdades
substanciais tende a reproduzir as formas de desigualdade entre os cidadãos, perpetuando
opressões e desvantagens.
Além disto, esta homogeneização da cidadania moderna teria sido fruto do
desenvolvimento do Estado-nação e de sua correlata identidade nacional, que buscaram
suprimir as diferenças sub-nacionais, além das já citadas.
A solução para a dialética e para a tragédia da cidadania, segundo Yegen (2008), e que
será posteriormente retomada neste artigo, estaria na criação de uma nova cidadania – global,
multinacional, transnacional, multicultural, diferenciada ou cultural, entre inúmeras outras
formas propostas por estudiosos e movimentos sociais como os feministas e os ecológicos.
23

Esta visão pluralista seria, entretanto, de acordo com Heater (2004), uma ameaça ao
conceito de cidadania e de identidade baseadas no Estado-nação.
24

3- DESAFIOS À CIDADANIA MODERNA

3.1- Violação dos direitos civis e políticos por parte dos governos

A cidadania moderna pode, portanto, ser compreendida, como “a legal status


synonymus with nationality in the modern nation-state” (HEATER, 2004, p. 115). Neste
sentido, em termos gerais, os residentes de um país ou são cidadãos ou são estrangeiros. Na
perspectiva marshalliana, os cidadãos seriam aqueles a quem seriam garantidos os direitos
civis, políticos e sociais dentro do território estatal.
Entretanto, o que se tem assistido no século XX, é a uma negação destes direitos por
parte dos governos não só aos estrangeiros (que não são cidadãos no sentido moderno), mas
também aos nacionais destes Estados.
Estas violações foram, na forma da negação de direitos, em especial, políticos e civis,
bastante visíveis nos regimes autocráticos do século passado. Neste contexto, estão os regimes
nazistas e fascistas e os comunistas, nos quais a identidade nacional foi submetida a uma
identidade racial (a doutrina Blut und Boten ou sangue e solo) no caso dos primeiros e a uma
identidade de classe no caso dos últimos (HEATER, 2004). A mesma violação também
ocorreu nas ditaduras militares da América Latina, bem como nos Estados pós-coloniais na
África e na Ásia.
No entanto, é importante ressaltar que a negação de direitos a nacionais também
ocorreu nas democracias ocidentais, como Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e Suíça. Um
dos exemplos mais notáveis está nos Estados Unidos. Durante a história americana, os direitos
civis, bem como os políticos, foram negados à população negra, em especial, nos Estados do
sul, resultando nos movimentos de luta por direitos dos negros nas décadas de 50 e 60 do
século passado.
Atualmente, aos cidadãos norte-americanos têm sido negados, após sucessivos
governos neoliberais, direitos sociais e, após o 11 de setembro, assiste-se a uma restrição ou
supressão generalizada dos direitos civis (HEATER, 2004). Trata-se de uma verdadeira
“naturalização” do estado de exceção que deixa de ser uma situação de anormalidade e se
torna a política governamental corrente. Esta situação se tornou evidente com a aprovação
pelo senado americano do USA Patriot Act em outubro de 2001, que criou a figura da
detenção indefinida de estrangeiros suspeitos de atos de terrorismo, sem processo ou
25

indiciamento, bem como aumentou os poderes do executivo e do FBI. Este mesmo ato
também permitiu uma vigilância generalizada da população, sem um controle do judiciário8.
Embora esta lei tenha sido aprovada rapidamente pelo Congresso americano, o mesmo
não ocorreu com sua renovação, que teve oposição inclusive de senadores republicanos, o que
só aconteceu em 09 de março de 2006, com o The Patriot Act Improvement and
Reauthorization Act, que apresentou algumas modificações em relação ao ato original, em
uma tentativa de suavizá-lo. Entretanto, esta tentativa não restabeleceu o equilíbrio entre os
poderes executivo e judiciário nos EUA, além de ter tornado permanente 14 dos 16
dispositivos de urgência (e transitórios, com validade de 04 anos) do Patriot Act. Deste modo,
o governo e o Congresso americano realizaram uma verdadeira legalização da exceção e da
anomia; da violação de direitos civis e de medidas de vigilância intrusivas. O que era para ser
um caso de urgência, de exceção, se torna permanente, uma nova ordem política (PAYE,
2004, 2007a, 2007b).
Foram tornados permanentes, por exemplo, os artigos 213, que autoriza o FBI9 a entrar
em uma casa na ausência do morador e apreender fotos, examinar computadores, e inserir um
dispositivo digital de espionagem; o 212, que autoriza, sem controle do judiciário,
companhias telefônicas e fornecedores de acesso à internet a divulgar para o governo o
conteúdo dos seus dados; e o 209, que amplia o poder de gravar as mensagens de uma
secretária eletrônica sem necessidade de um mandado judicial (PAYE, 2007a).
Em 2006, a legalização da anomia se aprofundou com a criação de tribunais de
exceção militares, por meio do Military Comissions Act, para julgar estrangeiros suspeitos de
terrorismo pelo Ministro da Justiça e contra os quais não há provas recebíveis por uma
jurisdição civil ou militar (PAYE, 2007b). Estes tribunais podem aceitar provas obtidas por
meio de tortura (que é formalmente proibida, mas é aceita uma ‘certa dose de coerção’) ou por
“ouvir dizer”, sem que haja provas concretas e materiais. O acusado não pode, ainda, escolher
seu advogado, sendo este um militar designado pelo poder executivo.
Embora esta lei seja destinada apenas a estrangeiros, a mesma apresenta uma brecha
que permite sua aplicação aos nacionais, ao dizer que será julgada pelos tribunais militares,
além dos combatentes inimigos ilegais (conceito genérico do inimigo), toda pessoa que esteja

8
Diferentemente das antigas leis americanas, como o Foreign Intelligence Surveillance Act, de 1978, que previa
poderes excepcionais para a administração, mas sob controle do poder judiciário.
9
De uma maneira geral, houve um aumento do papel e da força, nos EUA e na Europa, dos serviços de
informação, como o FBI. Estes serviços também estabeleceram uma rede de troca de informações e de interação
em nome da guerra ao terrorismo. Para esta discussão, vide BONELLI, 2005.
26

em uma posição de dever frente aos EUA, o que inclui, obviamente, os americanos (PAYE,
2007b).
Na Europa, segundo Paye (2006), o desmantelamento do Estado de Direito seria ainda
mais avançado do que nos Estados Unidos. Em 2000, a Grã-Bretanha foi o primeiro país a
adotar uma lei antiterrorismo da “nova geração”, o Terrorism Act. O ataque às liberdades
públicas e privadas presentes em tal ato foi justificado como uma resposta aos atos de
terrorismo, mas com uma particularidade- as legislações antiterroristas precedem aos
atentados aos quais, teoricamente, seriam uma resposta, tendo a legislação britânica um
verdadeiro caráter antecipatório.
Além disto, diferentemente das antigas leis, que visavam a um grupo específico, como
o IRA, a nova lei se destina a toda a população, limitando as liberdades de todos os cidadãos.
É uma lei de caráter político e que cria o delito de intenção. Neste sentido, um ato terrorista é
aquele que tem a intenção de fazer pressão sobre um governo ou sobre a administração. Neste
contexto, de acordo com Paye (2006), o caráter genérico deste conceito permitiria, por
exemplo, a criminalização dos movimentos sociais, que poderiam ser classificados como
terroristas por uma decisão do executivo.
Em fevereiro de 2001, portanto 07 meses antes do 11 de setembro, o governo Blair
promulgou uma nova lei – o Terrorism Act 2001. Esta permite, assim como o posterior USA
Patriot Act americano, a detenção indefinida, sem julgamento nem indiciamento, de
estrangeiros suspeitos de terrorismo. Uma prisão administrativa, que em dezembro de 2004,
foi julgada, pela Corte de Apelação da Câmara dos Lordes, como contrária à Convenção
Européia dos Direitos dos Homens, além de discriminatória por diferenciar nacionais e
estrangeiros.
Entretanto, em março de 2005, com a aprovação do The Prevention Terrorism Act, o
Ministro do Interior passou a ter poderes para tomar medidas de controle que permitem prisão
domiciliar de indivíduo suspeito de envolvimento em ação ligada com o terrorismo, podendo
também proibir acesso à internet, ao uso de telefones celulares, bem como proibir contato
com certas pessoas, exigir que esteja em casa em determinados horários, autorizar a polícia e
o serviço secreto a ter acesso ilimitado ao seu domicílio. Tudo isto sem necessidade de provas,
bastando a suspeita ou intenção que é atribuída à pessoa (PAYE, 2006).
O ato de 2005 colocou fim a um duplo sistema jurídico: o do Estado de Direito para os
nacionais e da violência para os estrangeiros. A partir desta lei, se generaliza o estado de
exceção – nacionais e estrangeiros têm seus direitos limitados, pois o The Prevention
Terrorism Act é aplicável a toda população, suprimindo inclusive o direito ao habeas corpus.
27

Em março de 2006, é aprovado o Terrorism Act 2006, que criou novas infrações – a
incitação indireta e a glorificação do terrorismo. Na primeira, a pessoa pode cometer este
crime sem se dar conta ou ter intenção; basta que ela seja descuidada com as palavras e as
mesmas possam ser interpretadas como uma incitação ao terrorismo. Não há necessidade,
portanto, de uma ligação material entre a declaração e o ato terrorista, bastando a criação,
mesmo que involuntária, de um clima favorável ao terrorismo (PAYE, 2006). Quanto ao
segundo, o termo glorificação não foi definido pela lei, embora tenha como alvo os religiosos
islâmicos10 radicais.
Segundo Paye (2006), o mais grave é que esta legislação deu ao governo britânico a
oportunidade de criminalizar não apenas toda ação política, mas também todo discurso radical
de oposição ou de sustentação das ações políticas. Neste contexto, se posicionar de maneira
diferente do governo pode se transformar em delito. Delito este que pode ser cometido não só
por nacionais, mas por qualquer pessoa ainda que esteja fora da Grã-Bretanha, independente
de sua nacionalidade.
A legislação antiterrorista britânica serviu como base para o desenvolvimento de leis
semelhantes em outros países europeus. Em 06 de dezembro de 2001, os ministros da Justiça
e do Interior da Europa se encontraram a fim de harmonizar suas legislações nacionais
referentes aos atos de terrorismo, tendo adotado a noção britânica, política e subjetiva, da
intenção do autor. Neste sentido, ato terrorista é todo aquele que tem por objetivo destruir as
estruturas políticas, econômicas ou sociais ou desestabilizar gravemente um país. Também
passa a ser classificado como terrorismo toda a atividade que pretende forçar uma organização
internacional ou entidades públicas a agir ou deixar de agir de determinada maneira. Como as
definições são muito abrangentes, mais uma vez se abre a possibilidade, segundo Paye (2004),
de criminalização dos movimentos sociais.
Em junho de 2003, a União Européia assinou um acordo de extradição com os EUA,
permitindo que toda pessoa residente em um estado membro da União Européia e acusado de
terrorismo possa ser enviado às autoridades americanas para serem submetidos a um direito
de exceção (os tribunais militares de exceção já existiam na prática, antes do Military
Comissions Act). É uma violação de direitos que não se limita, portanto, aos nacionais ou
estrangeiros residentes em território americano, mas que pode atingir qualquer cidadão,
europeu ou não, residente na União Européia.
10
A população muçulmana nos EUA, França e Espanha, especialmente, independente de sua nacionalidade, faz
parte do chamado perfil suspeito pelos serviços de informação. Entretanto, a vigilância sobre seus membros é
anterior ao 11 de setembro, constituindo uma rotina da contra-espionagem. A vigilância é exercida notadamente
em lugares de culto, como as mesquitas, sobre os líderes religiosos e as associações religiosas. Para esta
discussão, vide Bonelli, 2005.
28

Em termos de violação dos direitos individuais, a Europa segue, deste modo, os norte-
americanos. Na Espanha, uma pessoa acusada de terrorismo não tem direito de escolher um
advogado. Na Alemanha, várias derrogações têm sido introduzidas nas leis como as referentes
à prisão, a buscas em domicílio, aos direitos de defesa durante um processo, entre outros. Um
advogado de defesa pode, por exemplo, ter acesso negado a alguns procedimentos , bem como
pode ter violada a confidencialidade da correspondência entre ele e seu cliente.
Na França, o Perben Act, aumentou os poderes de polícia e modificou as
possibilidades de buscas e o monitoramento e vigilância no caso de “crime organizado”, sem
a notificação da pessoa suspeita (PAYE, 2004). Nesse país, foram aprovadas a lei relativa à
segurança cotidiana em outubro de 2001, a lei de segurança interna em fevereiro de 2003 e a
lei de adaptação da justiça à evolução da criminalidade em fevereiro de 2004 (BONELLI,
2005). É importante ressaltar que as autoridades francesas estabelecem uma ligação entre a
criminalidade comum e o terrorismo, realizando uma verdadeira criminalização dos habitantes
dos subúrbios e, em especial, dos jovens, independente da nacionalidade (TSOUKALA,
2006).
Na América Latina, a violação de direitos civis e políticos não estão ligados ao
fenômeno do terrorismo, mas a particularidades históricas e ao processo de implementação
incompleta (ou desmantelamento) do regime democrático. O desrespeito a estes direitos tem
ocorrido, por exemplo, na Venezuela no governo socialista-bolivariano de Hugo Chávez (no
poder desde 1999), com sua empreitada, por exemplo, contra o direito de expressão e a
liberdade de imprensa como o fechamento ou suspensão de canais de TV (como a RCTV, que
se nega a transmitir seus discursos) e de rádio oposicionistas. Esta mesma violação, aliás,
ocorre atualmente na ditadura “comunista” cubana, no governo dos irmãos Castro, com a
prisão e morte de inúmeros oposicionistas do regime.
Segundo Pinheiro (2005), as novas democracias latino-americanas têm como maior
desafio a distância entre a lei e o seu cumprimento efetivo. Nestes países, a igualdade de todos
os cidadãos perante a lei não corresponderia à vida real.
De acordo com O’Donnell (2007), estas democracias contemporâneas seriam
poliarquias (vide Dahl, 1997), com grandes desigualdades sociais e com parte de sua
população vivendo na pobreza (agravada pelas políticas neoliberais na região a partir de
meados da década de 80), o que afetaria a dimensão social da cidadania. No que tange às
dimensões civis e políticas, há enormes brechas na efetividade da legalidade estatal, tanto ao
longo do território como entre as categorias sociais. Haveria o que o autor chama de falências
na lei - existência de leis discriminatórias em relação às mulheres e às diversas minorias, bem
29

como tratamento, no âmbito do direito penal, inadequado, injusto e contrário aos direitos
humanos para presos e detidos; falência na aplicação da lei – a América Latina teria uma
extensa tradição em ignorar a lei e de manipulá-la em favor dos poderosos e para reprimir os
mais vulneráveis e os adversários políticos; falência na relação entre burocracias e cidadãos
comuns – aqueles que não têm status social ou “conexões” adequadas têm dificuldade de
exercerem seu papel de portadores de direitos frente a estas burocracias; falência no acesso ao
poder judiciário e a um processo justo – a justiça nestas poliarquias é distante, cara e lenta
para os mais vulneráveis; e, finalmente, há a ilegalidade pura e simples – uma presença
limitada do Estado de Direito, no qual as leis, quando aplicadas, o são de maneira intermitente
e diferenciada; além disto, há lugares nos quais esta lei formal está submetida à lei informal
decretado por poderes privados, como seria o caso das favelas brasileiras.
Deste modo, para O’Donnell (2007), estas falências seriam o ‘sinal’ de que as novas
democracias da América Latina seriam regimes incompletamente democratizados sob a ótica
do Estado de Direito, apenas formalmente liberais, com direitos civis nem sempre efetivos e
universalistas. Ou, na colocação de Gómez (2005),
democracias políticas pouco democráticas, junto a cidadanias
truncadas e de baixa intensidade (pois, embora vigore a cidadania
política, ela não se traduz em capacidade de ação autônoma para a
maioria dos agentes individuais e coletivos em razão da ausência ou
dos déficits alarmantes de efetividade em termos de direitos, recursos
e garantias institucionais imanentes à cidadania civil,social e
cultural.

Os países da América Latina, com algumas exceções, não seguiram o modelo


marshalliano de desenvolvimento da cidadania – direitos civis, políticos e sociais. Em regra,
os países latino-americanos começaram com o reconhecimento tardio e seletivo dos direitos
sociais, ao mesmo tempo em que restringiam direitos civis e políticos, quando estes últimos
não foram simplesmente suprimidos pelas ditaduras do continente. Com a redemocratização,
os direitos políticos foram universalizados, mas o mesmo não ocorreu com os direitos civis e
sociais. Os sociais têm sido alvos constantes de desmantelamento por parte de políticas
neoliberais e os civis jamais foram realmente universalizados, nem social nem
territorialmente, sendo, portanto, uma cidadania basicamente política (embora o voto não seja
instrumento eficaz de mudanças para os mais vulneráveis). (GÓMEZ, 2005; O’DONNELL,
2007).
No caso específico do Brasil, historicamente, a dificuldade (ou falência), segundo
Pinheiro (2005), estaria em controlar as práticas arbitrárias dos agentes do Estado. Este
30

fenômeno pode ser observado desde a repressão política sob a ditadura até as formas
arbitrárias de repressão ao crime, além da repressão das classes populares e da criminalização
de movimentos sociais, sob a democracia. Mesmo após o processo de democratização do país,
continuaram a existir no país práticas autoritárias, em especial, nas instituições de controle da
violência e do crime.
Para Safatle (2010), nossa democracia de caráter deformado e bloqueado seria fruto da
amnésia sistemática em relação aos crimes que foram cometidos pelo Estado ilegal da
ditadura, pela tentativa onipresente de esquecer um passado de excessos e de realizar a
profecia da violência sem trauma; uma democracia que ainda hoje não foi capaz de livrar a
sociedade brasileira de sua profunda tendência autoritária.
Assim, o Brasil, apesar das mudanças históricas, tem uma herança acumulada de
autoritarismo, de elementos da escravidão, da concentração de terras e propriedade, da
desigualdade social e racial, dos micro-despotismos e de um complexo sistema de hierarquias
(PINHEIRO, 2005).
Nas palavras de Teles (2010),
Resta algo da ditadura em nossa democracia que surge na
forma do Estado de exceção e expõe uma indistinção entre o
democrático e o autoritário no Estado de direito. A violência
originária de determinado contexto político mantém-se (...)
nos atos ignóbeis da tortura ainda praticados nas delegacias
(...) (p. 316).

A sala de tortura é o local, por excelência, da exceção – o campo, no sentido de


Agamben (2008). Ela não está nem dentro nem fora da ordem jurídica, não se inscreve na
norma, “mas projeta-se como um dentro e fora do ordenamento jurídico e atinge a sociedade
por meio do seu simbolismo do terror (TELES, 2010, p.304).
Tem-se, no país, portanto, uma cidadania limitada. Embora as garantias fundamentais
do cidadão estejam bem definidas na Constituição, os procedimentos jurídicos e do
funcionamento da lei refletem a realidade cruel da sociedade brasileira, além de não
conseguirem atenuar a imensa desigualdade social. O sistema jurídico (como o próprio
Estado) é o reflexo da sociedade e, portanto, neste caso, também é reflexo da desigualdade e
dos interesses de classes (PINHEIRO, 2005). Segundo da MATTA (1991), há um Brasil
legal, formal, da cidadania universal e um Brasil real, da transgressão da lei, do jeitinho e do
“você sabe com quem está falando”, da cidadania relacional; nesta nem todos são iguais
perante a lei, dependendo de quem você é, das pessoas que você conhece, ou seja, do lugar
que ocupa na sociedade. Aliás, segundo Telles (2007), estas categorias hoje deixaram de fazer
31

sentido como contraposição, sendo indistintas e fazendo parte das relações entre Estado,
economia e sociedade.
Quanto ao aparelho coercitivo estatal brasileiro (polícia e justiça), apesar da
democratização, o mesmo continua a vigorar em outra temporalidade. De um lado, o aparelho
oficial, que funciona de uma forma legal; do outro, o que funciona de forma paralela, na
ilegalidade, através de mecanismos como a tortura e outras formas de violência, além da
corrupção generalizada. Segundo Pinheiro (2005), considerando a longevidade deste
fenômeno, não se trata, no Brasil, de uma questão de exceção, mas de continuidade. Não se
tem uma suspensão das leis em um momento de urgência, mas uma situação de continuidade,
de herança, na qual a democratização não foi uma transição, mas uma transformação, na qual
não houve alteração das classes dominantes. No Brasil, o sistema é sim muito funcional, mas
não para todos; funciona para as elites, que continuam a reproduzir a pobreza, a concentração
de renda e a exclusão de parte da população ao acesso de direitos fundamentais.
Este cenário foi definido por Chico de Oliveira (2007) como uma “era de
indeterminação”, na qual a política é implodida, os direitos são violados e a gestão estatal se
torna a administração de urgências combinada com uma coerção renovada. Para este autor, o
Brasil vive sim um estado de exceção permanente, no qual a violência também é permanente
e o Estado se torna ad hoc, administrando o cotidiano e obtendo governabilidade por meio do
uso recorrente de medidas provisórias.
No que tange aos direitos políticos, a democratização brasileira possibilitou o
exercício dos mesmos, criando após a Constituição de 1988, o sufrágio universal. Entretanto,
foi o desenvolvimento de uma “democracia sem cidadania”, que não se consolidou na
perspectiva de defesa dos direitos humanos. O novo regime não resolveu os problemas da
violência endêmica, tanto da criminalidade comum quanto por parte dos agentes estatais.
Tampouco solucionou o que Pinheiro (2005) denomina de “racismo estrutural”, observável na
presença maciça de negros e pardos tanto nas taxas de homicídios quanto nas de pobreza. A
mesma classe, aliás, objeto freqüente das torturas policiais e de execuções sumárias, com
acesso precário à justiça, e habitante de terrenos nos quais o Estado frequentemente inexiste –
as favelas e as periferias (sistemas sub-nacionais de poder ou sistema legal informal, na
concepção de O’Donnell, 2007).
Portanto, embora o Brasil garanta formalmente os direitos humanos, inclusive sendo
signatário de acordos e de tratados internacionais, o mesmo não ocorre no país real, no qual o
Estado é incapaz de garantir os direitos à vida e os direitos da vítima, entre outros. Em suma,
nas palavras de Pinheiro (2005),
32

Ainsi, au niveau des droits de l’homme, persiste le ‘chiaroscuro’ avec


um engagement formel qui se traduit dans quelques initiatives
positives, et malgré des progrés realisés,comparativement aux débuts
de la Republique, les violations de droits de l’homme, em particulier
de droits civiques, économiques et sociaux persistent (p. 15).

3.2 – Globalização neoliberal e direitos sociais

O liberalismo clássico, embora tenha suas origens na mentalidade liberal do século


XVII, foi uma doutrina que se desenvolveu ao longo do século XIX, tendo entrado em crise já
no final deste século. Esta escola teria tido seu fim no pós- Primeira Guerra Mundial, dado o
nível de pobreza e desigualdade social em que o mundo se encontrava, o que gerou inúmeros
questionamentos e críticas a este ideário.
Entretanto, é possível analisar a situação por outra perspectiva - a de que o liberalismo
não morreu. Apenas sua forma clássica teria entrado em colapso, cedendo lugar a uma nova
versão - o neoliberalismo.
Assim, pode- se dizer que, da mesma maneira que o seu antecessor clássico, o
neoliberalismo é uma doutrina (ou apenas um conjunto de valores) política-filosófica-
econômica, cujas origens remontam ainda ao século XIX, e aos pensadores da Escola de
Viena, entre os quais o maior expoente foi o austríaco Leopold Von Wiesel.
A partir da década de 1880, portanto, o liberalismo adotaria um novo caminho que o
transformaria na vertente neoliberal (VINCENT, 1995). Neste ponto, é importante ressaltar
que há um intenso debate sobre a relação entre o liberalismo clássico e o neoliberalismo. O
surgimento deste último pode ser percebido como uma evolução do primeiro, uma transição
"natural" ou uma ruptura com o egoísmo ético. Se a doutrina clássica nunca foi um consenso,
o mesmo ocorre em relação ao neoliberalismo.
Na perspectiva de uma ruptura, pode-se dizer que se a escola clássica era partidária do
atomismo individualista, a nova corrente perceberia os limites e as dificuldades produzidas
pela chamada questão social (VINCENT, 1995). Surgia, assim, a noção de individualismo
social, do bem individual ligado ao bem da comunidade, de uma percepção mais positiva do
que negativa da liberdade - o neoliberalismo. Concepção esta que, em última instância, nos
levaria a concluir que o neoliberalismo e sua liberdade social foram a base do
desenvolvimento da social-democracia e não uma reação a esta última.
De qualquer modo, a doutrina neoliberal só viria a se desenvolver após o "fracasso" da
proposta social-democrata e da crise do WFS ou Estado do Bem-Estar Social a partir dos anos
33

60. Embora tenha origens mais remotas, a obra fundamental desta linha teórica, como já
mencionado, é "O Caminho da Servidão" de F. Hayek (1944), sendo que suas idéias foram
desenvolvidas pela conservadora Escola de Chicago e, em especial, por Milton Friedman
(ambos foram membros da Sociedade de Mont Pèlerin), bem como pelos economistas e
pensadores de Bretton Woods (1944, criação do FMI e do BIRD) e do Consenso de
Washington11.
De um modo geral, apesar dos debates continuidade/ruptura, o neoliberalismo retoma
os pontos básicos do liberalismo clássico. Na economia, a não-intervenção do Estado, o
Estado Mínimo, o mercado auto-regulado pela lei da oferta e da procura. No âmbito
filosófico, a defesa do individualismo.
Na ordem internacional, a aplicação dos princípios neoliberais tem como marco o
período de recessão da economia mundial, provocada pelo choque do petróleo em 1973. No
campo político, adotam-se como marcos os governos de Augusto Pinochet no Chile (1973),
Margareth Thatcher na Inglaterra (1979) e Ronald Reagan nos Estados Unidos (1980).
Pode-se dizer que tivemos três grandes ondas neoliberais - a primeira, além dos EUA e
da Inglaterra, englobou todo o norte da Europa (final da década de 70 e primeira metade de
década de 80); a segunda, o leste e o sul da Europa, incluindo os governos de ex-comunistas
(segunda metade da década de 80 e primeira metade da década de 90); e, finalmente, a
terceira onda, na América Latina12 (década de 90), com a "honrosa" exceção chilena
(ANDERSON, 1995).
Embora a questão não seja normalmente enfatizada, a América Latina foi uma
precursora da implementação do neoliberalismo, com a ditadura do General Pinochet,
influenciada pela teoria de Friedman e, posteriormente, acompanhada de perto pelo
thatcherismo.
Aliás, deve-se lembrar que a democracia nunca foi um valor caro ao neoliberalismo,
podendo ser vista inclusive como uma ameaça a este, se a participação popular viesse
interferir no mercado e na propriedade (HAYEK,1990).

11
O encontro de economistas de diversos organismos internacionais, como FMI e BIRD, que buscava uma
solução para a "década perdida" da América Latina e a crise dos anos 80, ocorreu na cidade de Washington no
final de 1989.A expressão Consenso de Washington, entretanto, foi surgiu em 1990, tendo sido criada por John
Williamson.
12
No Brasil, como parte da terceira onda, o neoliberalismo se inicia com o processo de privatização e abertura
da economia realizada pelo governo de Fernando Collor de Mello, e consolidado com o Plano Real dos governos
Itamar Franco/ Fernando Henrique Cardoso (1994).
34

Na conjuntura internacional atual, poder-se-ia, ainda, pensar na possibilidade de


estarmos presenciando uma quarta onda neoliberal, envolvendo Estados do continente
asiático, como o Japão e mesmo a própria China.
Neste contexto, a expansão do neoliberalismo deve-se, em grande parte, à crise do
Estado do Bem-Estar Social, o que contribuiu para o surgimento de um terreno fértil, no qual
as idéias liberais foram retomadas sob a forma do neoliberalismo. O mercado novamente
assume a primazia das relações, cabendo a este Estado apenas a regulamentação mínima das
relações humanas e a preocupação com a segurança, embora seja necessário reconhecer que o
desmonte do Estado do Bem-Estar não levou a uma completa extinção das políticas sociais.
Estas permaneceram, embora reduzidas e mutiladas, como uma herança da social-democracia.
Na área social no âmbito doméstico, o Estado se retrai, transferindo a responsabilidade
pela questão social para a sociedade (Terceiro Setor13 passa a ser um substituto, e não um
parceiro do Estado, na área social) e, de maneira indireta, para o mercado (social
decorrente)14.
Esta situação foi agravada pelo processo de globalização (e pela a queda do
comunismo, principalmente na Europa) e o acirramento da competição entre os Estados por
mercados, o que demandou o aumento da produtividade e a diminuição de custos. Segundo o
neoliberal Friedman (1988), esta situação requereria o combate à força dos sindicatos e à idéia
de salário mínimo e piso salarial. O mercado seria o fiel da balança, mais uma vez.
Entretanto, embora o remédio neoliberal (privatização, controle da inflação, superávit
da balança comercial, entre outros) tenha conseguido, nos anos 90, recuperar os lucros do
mercado, este não o fez por meio da recuperação dos investimentos, e sim por meio do capital
especulativo (ANDERSON, 1995). O neoliberalismo tampouco conseguiu, como já analisado,
reduzir de maneira radical os gastos sociais, tendo que se ocupar com uma nova massa de
desempregados (o Exército de Reserva liberal) e de aposentados (alteração demográfica das
populações).
Mas, este "fracasso" neoliberal, ao invés de reduzir a força desta doutrina, deu-lhe
novo fôlego, de maneira que se tornou quase impossível a existência de um modelo
alternativo. O neoliberalismo, por meio da globalização, passa a ser um modelo hegemônico.
No âmbito internacional, o discurso neoliberal se globalizaria na década de 80, com o
colapso do mundo socialista e a derrubada do muro de Berlim, tornando hegemônicos os
13
Entendido como a sociedade civil organizada, composta por associações e fundações de direito privado, mas
com finalidade pública. Para discussão sobre Terceiro Setor, vide FERNANDES, 1994.
14
Questão social não entendida como esfera autônoma, mas como uma questão subentendida ao campo
econômico. O crescimento econômico e a lógica de mercado seriam responsáveis pelo desenvolvimento do
social e não a intervenção estatal direta, através de políticas públicas sociais - "o social decorrente".
35

modelos de democracia liberal e de capitalismo, obscurecendo qualquer tentativa de


estabelecimento de um modelo alternativo (FUKUYAMA, 1992).
A globalização nada mais foi do que a globalização do capitalismo e de sua vertente
moderna - o neoliberalismo. O capitalismo entendido não apenas um modo de produção, mas
também como um processo civilizatório (IANNI, 2004a), uma visão e concepção de mundo.
Embora a globalização tenha se acelerado na década de 70, com a liberação dos
mercados mundiais, este fenômeno não é apenas econômico; é um processo complexo,
resultante de mudanças no âmbito tecnológico, político, geopolítico, micro e macroeconômico
e ideológico (GOMEZ, 2000). Ou conforme Vieira (2002), a globalização teria cinco
dimensões: econômica, política, social, ambiental e cultural.
Neste sentido, a globalização é um processo diferente da mundialização ou
internacionalização que o mundo vivenciou com o mercantilismo, o colonialismo e o
imperialismo, e com a própria origem do capitalismo. Diferentemente destes movimentos, a
globalização, dinamizada pela revolução tecnológica e a criação dos sistemas de rede,
realizou um processo de transculturação, que, em última instância, transformou em uma linha
tênue a compreensão entre o que é próprio e o que é alheio; entre o que é
local/regional/nacional e o que é mundial (CANCLINI, 1999; IANNI, 2004a).
Cria-se, assim, a noção do transnacional - capital, empresas e corporações, divisão do
trabalho e da produção, e mesmo cidadãos, cuja identidade transcendem o limite territorial. A
globalização do capital é a sua transnacionalização; um capital fluido, que rompe as fronteiras
nacionais. Mercados que se interpenetram, formando uma economia global, que se move pela
lógica do consumo neoliberal. "Daí a impressão de que o mundo se transforma no território de
uma vasta e complexa fábrica global, ao mesmo tempo em que shopping center global e
disneylândia global" (IANNI, 2004a,p.314).
A globalização é, portanto, um fenômeno múltiplo de compressão do espaço e do
tempo (LINS RIBEIRO, 1995), possível graças à criação do sistema de redes e à evolução
tecnológica das últimas décadas. Significa que a noção do tempo tem se acelerado, tornando-
se exíguo, e, ao mesmo tempo, "real" - simultâneo. É permitido, assim, o acesso quase
imediato à notícia e à informação, oriundos de qualquer parte do planeta. O mundo "on line
eveywhere worldwide all time" (IANNI, 2004b, p.17). Quanto ao espaço, percebe-se o mesmo
movimento de aceleração, com as novas tecnologias de transporte possibilitando um aumento
no fluxo de pessoas e bens entre os países.
No entanto, concomitante a esta facilidade de acesso a outros territórios, observa-se
crescentes movimentos de resistência local, sobretudo ao que se denominou de
36

Mcdonaldização do mundo, ou seja, uma crescente tendência de homogeneização da cultura


dos Estados rumo a um modelo específico - o american way of life (CANCLINI, 1999).
Para muitos, a globalização nada mais foi do que um processo de ocidentalização
mundial, reforçando o padrão dimensional de tempo e espaço a partir de um território
nacional (VIEIRA, 2002). Mas, em seu contínuo processo de rupturas e continuidades,
fragmentação e integração, a globalização não é necessariamente uma negação da diversidade
cultural. O global e o local são, na verdade, complementares e não excludentes. O local age
no global (como a adaptação do próprio Macdonald´s aos gostos nacionais), bem como o
global age no local, levando a uma mudança de cultura e comportamentos. Nesta perspectiva,
o local e o global são parte do mesmo fenômeno - o da glocalização (ROBERTSON, 2000).
É possível, portanto, pensar na possibilidade da criação de uma nova cultura, mundial,
de caráter desterritorializado, capaz de conjugar elementos globais e locais. Uma cultura
capaz de lidar com as tensões entre diferenciação e padronização, entre particular e universal.
O processo de americanização do mundo é, assim, insuficiente para explicar as
mudanças culturais trazidas pela globalização. Entretanto, não há como negar que houve uma
"difusão" da cultura americana, em especial do seu individualismo neoliberal, que se reflete,
sobretudo, na globalização da sociedade de consumo. Ao invés de uma Mcdonaldização do
mundo, uma macdonaldização do consumo (GÓMEZ, 2000). E, neste processo, o mercado
adota uma língua, o idioma da globalização - "on line everywhere through the world all time
in English" (IANNI, 2004b, p.210).
Entretanto, esta sociedade, ao adotar o livre mercado como uma de suas prioridades,
agravou, de maneira geral, a situação de pobreza, desigualdade e injustiça social não só pela
questão econômico/financeira, mas também por disseminar a idéia da sociedade de consumo e
da cidadania não mais como o valor de igualdade (ainda que formal/jurídica, como defendiam
os liberais e os ideólogos da Revolução Francesa) e participação social (MARSHALL,1967),
mas como o pertencimento pelo consumo (CANCLINI, 1999).
Não se trata aqui obviamente, de dizer que a sociedade globalizada atual é a única que
produz para consumir. Mas, sem dúvida, pode-se afirmar que é a primeira a colocar ênfase e
prioridade no consumo, alterando a cultura e a maneira de se construir a identidade
(BAUMAN, 1999).
O consumidor em uma sociedade de consumo é uma criatura
acentuadamente diferente dos consumidores de quaisquer
outras sociedades até aqui. Se os nossos ancestrais filósofos,
poetas e pregadores morais refletiram se o homem trabalha
para viver ou vive para trabalhar, o dilema sobre o qual mais
se cogita hoje em dia é se é necessário consumir para viver
37

ou se o homem vive para poder consumir. Isto é, se ainda


somos capazes e sentimos a necessidade de distinguir aquele
que vive daquele que consome.15

A sociedade moderna não é, portanto, apenas uma sociedade de mercado, mas uma
sociedade de mercado com uma cultura de consumo. Ou, no conceito de BAUDRILLARD
[s.d.], a sociedade moderna é uma sociedade de consumo, na qual o consumo invade o
cotidiano e se configura em uma recusa do real, do social e do histórico, se constituindo em
simulacro do mundo, no qual o significado e significante se dissociam 16. O mundo se torna
insuportável e procuramos no consumo a segurança e o "consolo" que nos falta no mundo
real.
A propósito, também podemos definir o lugar do consumo: é
a vida quotidiana. Esta não é apenas a soma dos fatos e dos
gestos diários, a dimensão da banalidade e da dimensão; é
um sistema de interpretação.A quotidianidade constitui a
dissociação de uma praxis total numa esfera transcendente,
autonoma e abstracta (do político, do social e do cultural) e
na esfera imanente, fechada e abstracta, do "privado". O
indivíduo reorganiza o trabalho, o lazer, a família, as
relações, de modo involutivo, aquém do mundo e da história,
num sistema coerente fundado no privado, na liberdade
formal do indivíduo, na apropriação protetora do ambiente e
no desconhecimento.17

Neste contexto, a mercadoria é o próprio signo, o commodity sign (BAUDRILLARD,


[s.d]), no qual os signos estão livres de vinculação com objetos particulares e aptos para serem
utilizados em associações múltiplas, produzindo diferentes significados.
Assim, cultura do consumo é uma forma de reprodução e de diferenciação social, no
qual o consumo se revela mais na representação dos produtos do que no próprio produto
(BARBOSA, 2004). O valor de troca da mercadoria passa a se dissociar de seu valor de uso
(BAUDRILLARD, [s.d]).
Segundo Barbosa (2004), nas sociedades tradicionais a unidade de produção e de
consumo é a família, que produz e consome para sua reprodução física e social. Estas
sociedades eram formadas por grupos de status18que compartilhavam um determinado estilo
de vida e nos qual o consumo do indivíduo era subordinado às "leis" dos grupos sociais.

15
BAUMAN, 1999, p 88 e 89.
16
Para teoria geral da relação entre significado e significante vide SAUSSURE, 2004. Para a crítica pós-
estruturalista à teoria de Saussure, vide ARROJO (1992).
17
BAUDRILLARD, [s.d], p.32.
18
Sobre grupo de status, vide conceito weberiano de estamento (WEBER, 2000).
38

Nas sociedades contemporâneas, continua a autora, estas leis estão enfraquecidas e são
incapazes de nos impor regras ou restrições para o consumo. No mundo atual, "Todos somos
consumidores (p.22)", bastando para isto ter dinheiro19.
O estilo de vida, como o próprio consumo, passa a ser uma escolha individual, de
exercício de liberdade. Esta individualização do consumo, bem como o advento da indústria
da moda e dos meios de comunicação de massa, e a própria lógica de mercado da
globalização neoliberal, levam a uma democratização do consumo e uma mudança na maneira
de se conceber a identidade.
Assim, a identidade deixa de ser construída cada vez menos a partir da noção de
território - identidade nacional - e passa a ser construída também por aquilo que se consome
ou que se pode vir a consumir. Consumo este que é transnacional, no qual se desconstrói a
percepção do próprio, nacional ou local, e do que é alheio.
É imprescindível perceber, portanto, que o consumo não é apenas um ato de satisfação
irracional de desejos, pela aquisição de bens inúteis. Ao invés desta leitura moralista, Canclini
(1999) propõe uma análise do consumo como um "conjunto de processos socioculturais em
que se realizam a apropriação e o uso dos produtos" (p.53).
Há neste ato uma racionalidade econômica do mercado, na oferta de bens e na busca
da maximização dos lucros. Por outro lado, consumir, para aquele que consome, é um ato de
pertencimento, de luta por aquilo que se produz e, simbolicamente, pelo poder social e pelo
status que este produto e seu uso podem conferir. É, portanto, também uma maneira de se
construir a identidade e de se exercer a cidadania - o cidadão-consumidor.
Entretanto, este modelo de globalização neoliberal do consumo é um modelo seletivo,
que não atinge todos os Estados ou todas as camadas sociais dentro de um Estado da mesma
maneira. Globaliza-se um consumo segmentado e diferido de bens, que reelaboram o próprio
sentido do social (CANCLINI, 1999).
Assim, esta seletividade produziu no interior dos Estados uma massa de indivíduos
marginalizados, social e economicamente, que se alienam politicamente das questões internas.
No que tange aos migrantes, esta não-participação é agravada quando a eles são negados os
direitos políticos e sociais pelo Estado.
Já no âmbito internacional, houve, sem dúvida, uma alteração da estrutura social do
mundo, com Estados e indivíduos sendo plenamente integrados à economia globalizada,
outros precariamente vinculados e, finalmente, os excluídos (GÓMEZ, 2000).

19
Com a indústria chinesa em ascensão, cujos produtos são altamente competitivos, e com a "indústria da
pirataria", também o dinheiro deixa de ser um verdadeiro obstáculo.
39

Cria-se uma nova estratificação social. Uma nova polarização social em escala
nacional e global, concomitante a um processo de enfraquecimento da solidariedade social
(VIEIRA, 2001). Assim, poder-se-ia falar em "duas" globalizações. Uma globalização pelo
alto, que cria uma elite globalizada, altamente móvel, que transcende facilmente a noção de
espaço. Por outro lado, um movimento por baixo, de localidade amarrada, para os quais o
espaço ainda é um obstáculo (BAUMAN, 1999).
Uma elite transnacional que define como os produtos (e mesmo os bens culturais)
serão distribuídos e como serão utilizados, em um processo de interação e
(...) reorganização transnacional dos sistemas simbólicos
feita sob as regras neoliberais de máxima rentabilidade dos
bens de massa, gerando a concentração de cultura que
confere a capacidade de decisão em elites selecionadas (...) 20

Neste contexto, em que a conexão entre cidadania e consumo se torna inevitável, o


efetivo exercício da primeira, entendida como participação e não apenas proteção de direitos,
parece estar na superação das formas clássicas da política, da democracia moderna na qual se
fundem a identidade nacional e a cidadania territorial. A superação de um modelo fundado em
um Estado, no qual os direitos são assegurados apenas aos seus nacionais, e o qual cada vez
mais tem relativizada sua soberania pelas forças transnacionais de mercado.
Em suma, em termos dos direitos clássicos da cidadania moderna (marshalliana), o
neoliberalismo globalizado promoveu uma verdadeira “involução dos direitos sociais”
(YEGEN, 2008), promovendo políticas econômicas de liberalização, desregulação e
privatização, e reduzindo os gastos com saúde, educação, seguridade social e serviços
públicos (GÓMEZ, 2005), em um processo acelerado de desmonte do Estado do Bem-Estar
Social e de enfraquecimento do Estado e dos interesses públicos frente ao Mercado e os
interesses privados.
Neste contexto, surge um novo tipo de cidadão – o cidadão global neoliberal, cuja
identidade deixa de ser construída por um reconhecimento territorial ou pelo pertencimento a
uma comunidade política específica, a nacional, e para o qual o gozo de direitos
(especialmente os sociais) é substituído pelo “direito” ao consumo.

3.3 – “Crise” do Estado-Nação e da identidade nacional

Como já analisado, a noção moderna de cidadania nasce com o liberalismo, tendo este
uma relação estreita com o surgimento e fortalecimento do Estado-Nação, o qual pode ser
20
CANCLINI, 1999, p. 64.
40

definido como o monopólio do uso da força física em um determinado território


(WEBER,2000). Assim, nesta perspectiva, a cidadania nasce como uma cidadania nacional,
territorial. E é justamente este caráter territorial que é relativizado pelo processo da
globalização.
Em primeiro lugar, portanto, assiste-se a um processo de desterritorialização crescente.
As identidades não mais sendo construídas tendo como referência um determinado território,
mas determinada empatia por certos interesses. Ao invés do sujeito coletivo, da coletividade
imaginada (LINS RIBEIRO, 1995) na relação entre a população e seu território, o nós virtual;
a integração social transcendendo os níveis do local e do nacional na construção do
internacional e do transnacional.
Assim, no campo virtual, a identidade passa a ser construída através de comunidades
que compartilham gostos musicais, militâncias políticas, defesas da ecologia ou amor comum
a determinado pensador, independente da nacionalidade dos participantes. "Atualmente é a
cultura que é considerada a base para a solidariedade, muito mais do que a identidade
nacional ou de classe" (VIEIRA, 2001, p.224).
Este processo, indubitavelmente, ao relativizar a percepção do território, afetou as
próprias bases do Estado-nação e do sistema internacional de Estados configurado pelo
Tratado de Vestfália. Sistema este que se baseia, principalmente, nos princípios da
territorialidade e da soberania.
Deste modo, o Estado moderno, construído como um Estado territorial, sobre o qual a
cidadania (ainda que apenas no sentido político-jurídico) se afirma, é relativizado pela nova
ordem global. (BAUMAN, 1999; CANCLINI,1999;GIDDENS, 1991; GÓMEZ, 2000;
IANNI, 2004a, 2004b).
Embora o Estado ainda seja o principal ator internacional 21, o mesmo, agora, precisa
conviver com um número cada vez mais crescente de novos atores neste ambiente, tais como
os organismos internacionais (ONU, FMI, BIRD), ONGs internacionais (Anistia
Internacional, WWF, Greenpeace, Transparência Internacional), empresas e corporações
transnacionais, e mesmo com cidadãos globais .
É neste contexto que se deve repensar o conceito de soberania estatal. Soberania,
agora, significa tomar decisões nacionais, sendo estas influenciadas pelo ambiente
internacional, por meio de tratados e acordos internacionais, decisões de órgãos internacionais
colegiados e, principalmente, pelos humores do mercado globalizado.
21
Mesmos aquelas abordagens das Relações Internacionais que reivindicam uma maior flexibilização do papel
do Estado em suas análises, partem do pressuposto do Estado como unidade básica de análise, a partir da qual é
construído o próprio conceito de ‘internacional’ (vide WALKER, 1995;WENDT, 2003)
41

As teorias realistas, que predominaram até o fim da Guerra Fria, e que


consideravam o Estado como o ator primordial das relações internacionais, começam a ser
revistas, a partir da década de 80, uma vez que importantes decisões, das mais diversas
áreas, passam a ser tomadas a partir da articulação entre instâncias não estatais. O aumento
da interdependência22 entre os Estados, fenômeno acentuado pelo processo de
globalização, gera uma rede de relações entre instâncias domésticas e internacionais que
acabam por produzir jogos de múltiplos níveis, nos quais as decisões tomadas em
determinadas áreas, por certos atores, acabam por influenciar, inevitavelmente, outros
níveis decisórios em diversos campos.
Esta interdependência cria uma intricada rede de relações que tira o foco das
tradicionais questões de segurança, ressaltadas pelas correntes realistas, e destaca as
relações econômicas, consideradas, a partir de então, como cruciais nas relações entre
atores internacionais. (KEOHANE; NYE, 2001)
Entretanto, não se trata de anunciar o fim do Estado-Nação, mas a necessidade de sua
adaptação a uma nova ordem internacional. Ordem esta cada vez menos estatocêntrica e mais
multicêntrica. Tem-se hoje, segundo Bauman (1999), a sensação, a partir desta nova ordem,
de que "ninguém parece estar no controle agora" (p.66). A sensação de ordem do mundo
estatocêntrico, de política interestatal e focado na questão da segurança e do interesse
nacional, marcadamente o do período de bipolarização da Guerra Fria, dá lugar à insegurança
e a uma sensação de caos e desordem23.
No entanto, como lembra Ianni (2004a), o mundo hoje, apesar da aparência por vezes
caótica, está, por meio de uma articulação neoliberal, organizado em moldes sistêmicos -
apesar da complexidade e das tensões, tem-se também a idéia de harmonia e de integração24.

22
Interdependência é entendida, aqui, como dependência mútua entre atores internacionais (KEOHANE, NYE,
2001)
23
Embora a sensação seja de ‘desordem’, nenhum paradigma das teorias de relações internacionais trabalha com
este conceito na descrição do ambiente Internacional. Até as correntes realistas descrevem a relação entre
Estados como anárquica, o que significaria apenas relações que se concretizam na ausência de um governo
legítimo. O fato de o ambiente internacional ser anárquico não significa que os atores ajam em uma ausência de
limites e padrões de comportamento. (vide BULL, 2002; WALTZ, 2002)
24
Neste ponto, as teorias neoliberais das relações internacionais ressaltam apenas o caráter sistêmico das relações
entre Estados. No entanto, ao contrário das teorias sistêmicas realistas (WALTZ, 2002), os neoliberais trabalham
com uma noção de sistema internacional que pressupõe a possibilidade cada vez maior de cooperação entre os
atores devido à presença de interesses cada vez mais complementares entre os mesmos no ambiente
internacional. Isto, entretanto, não significa que possamos falar da presença de valores comuns entre estes atores,
ou harmonia de interesses entre os mesmos (KEOHANE,2005). Já o conceito de ‘sociedade’ pressupõe a
existência não somente de interesses complementares entre os atores, como, também, o compartilhamento de
uma base mínima de valores entre estes. Para uma concepção de ‘sociedade de Estados’, ou ‘sociedade
internacional’ vide BULL, 2002; WENDT, 2003. Por fim, harmonia, neste sentido, seria a ausência de conflitos,
ou seja, a existência somente de interesses idênticos – visão defendida pelos chamados ‘idealistas’ do período
entre situado as duas Guerras Mundiais (vide CARR, 2001).
42

De acordo com Keohane (2005), em um sistema de Estados é possível haver


cooperação entre os mesmos, principalmente no campo da economia, constituindo uma
interdependência complexa entre as unidades. Cooperação esta baseada não em valores, mas
em interesses - a teoria da escolha racional transposta para os entes estatais em um cenário de
globalização.
Nesta perspectiva neoliberal, a interdependência não afetaria a soberania estatal
(prerrogativa do Estado em ser a autoridade suprema dentro seu território), mas sim, sua
autonomia (possibilidade de agir de um modo ou de outro).
A globalização, portanto, exige a reestruturação do Estado - se o Estado-Nação nasce a
partir da doutrina liberal, o mesmo será reformatado a partir das exigências desta mesma
doutrina, transformada em um neoliberalismo globalizado.
E é neste contexto, de crise do modelo de Vestfália, que se tem o advento de uma nova
concepção de indivíduo e, conseqüentemente, de cidadão. O cidadão desterritorializado, que
passa a assumir um papel cada vez mais importante na esfera internacional, a partir da
percepção de que suas ações no nível micro (indivíduos e grupos) podem afetar o nível macro
ou sistêmico. A ampliação dos processos educacionais, bem como a expansão das tecnologias
de informação, produziu um indivíduo com maior capacidade analítica (variando de acordo
com a região e o Estado) capaz de agir sem uma liderança organizada (ROSENAU, 2000). É
o indivíduo neoliberal - o ator social, que exerce sua liberdade e age racionalmente em um
mundo globalizado; o cidadão do mundo.
Estas ações individuais podem ocorrer tanto em uma perspectiva territorial (nos
limites do Estado e tendo este como parâmetro), quanto em uma perspectiva globalizada, de
atividades transnacionais, que transcendem a noção de território e reforçam a
interdependência dos Estados nacionais. Nesta última percepção, encontram-se movimentos
como o ecologismo ou feminismo; já na primeira, os movimentos nacionalistas.
O enfraquecimento do Estado-nação também produz, neste sentido, uma mudança no
modo de se construir a identidade. Ao invés da identidade nacional, fundamentada tanto na
ligação com o território quanto no sentimento de se pertencer a uma comunidade, constroem-
se identidades múltiplas, na qual o sentimento nacional fragmenta-se e se desdobra em laços
religiosos e étnicos - origem do fundamentalismo religioso e dos conflitos nacionalistas.
No fim do século XX, houve um aumento da consciência ética em diversos
continentes, que resultaram na demanda por direitos e pela institucionalização de identidades
culturais diferenciadas. Ao invés de uma identidade universalizante, de base nacional, na qual
a cidadania relaciona o indivíduo ao Estado, tem-se a construção de inúmeras outras, nas
43

quais o conceito de etnicidade liga o indivíduo a um grupo cultural, com base na língua ou na
religião, por exemplo (HEATER, 2004; TURNER, 2000; YEGEN, 2008). O
multiculturalismo, com a presença de minorias (tais como povos nativos e imigrantes) no
interior dos Estados, seria, neste sentido, uma ameaça à identidade nacional (HEATER,
2004).
Esta "crise" da identidade nacional reflete, em certa medida, a própria crise da
cidadania nacional - uma dissociação entre os conceitos de cidadão e nacional, produzida,
principalmente, pelo fenômeno das migrações. A questão é duplamente problemática. A
cidadania moderna se constituía na proteção de determinados direitos pelo Estado aos seus
nacionais (o que também hoje tem sido relativizado, como já analisado). No entanto, a
globalização enfraquece a capacidade do Estado de defender estes direitos, ao desviar seu
foco para competição no mercado e relativizar sua soberania (ou autonomia). Além disto, as
migrações produzem uma classe de não-nacionais que querem ser cidadãos e participar da sua
comunidade de residência, sem renunciar a sua condição de cidadão da comunidade de
origem (VIEIRA, 2001).
É, desta maneira, a cidadania pós-nacional um emaranhado de identidades
multiculturais, ao mesmo tempo locais e globais, em um mundo cada vez mais integrado,
como também mais fragmentado; uma constante tensão entre centralização e descentralização.
Um mundo que aponta para a possibilidade de uma sociedade civil mundial e de um cidadão
global, mas que, paradoxalmente, ao mesmo tempo, estimula o individualismo. (IANNI,
2004; ROSENAU, 2000).
Não há como negar, portanto, que a globalização neoliberal teve um impacto profundo
na formação das identidades e nos modos de se exercer a cidadania. Sua força
desterritorializante, ao enfraquecer a relação cidadania/território/nação/identidade, alterou
também as maneiras de se exercer os direitos civis, políticos e sociais, que constituem os
elementos “clássicos” (marshallianos) da cidadania.
No que tange aos direitos políticos, com o surgimento de novos atores internacionais
em um mundo cada vez mais multicêntrico, e a possibilidade de realização de demandas de
caráter transnacional, como a ecologia, houve, no ambiente internacional, um fortalecimento
dos valores democráticos. E, a partir destas novas demandas, é que começa a se configurar um
espaço público mundial, uma esfera pública transnacional, no qual se discute questões de
interesse global. É a emergência de um novo ator - a sociedade civil global e, com ela, a
noção de cidadão global (VIEIRA, 2001, 2002), caracterizando uma governança cada vez
mais sem governo, sem a autoridade organizada tradicional (ROSENAU, 2000).
44

Esta perspectiva, portanto, abre a possibilidade de se pensar o surgimento de uma nova


cidadania participativa, democrática, na qual a base territorial é substituída por uma base
cosmopolita (GÓMEZ, 2000). Os indivíduos têm deslocado a participação, o exercício de
seus direitos políticos do âmbito local/nacional para o global.
Entretanto, no ambiente doméstico o que se tem percebido é uma degradação da
política e uma descrença em suas instituições; as demandas da sociedade respondidas não pela
participação coletiva em espaços públicos, mas pelo mercado e pelos meios de comunicação
de massa - a espetacularização da política (CANCLINI, 1999). Deste modo, perde-se a noção
da esfera pública de Habermas (1997), como o campo do debate público entre os atores
sociais; cidadãos conscientes, solidários e participativos, que buscam a formação de uma
vontade coletiva. Surge o indivíduo racional e auto-interessado da mentalidade neoliberal.
É o processo de integração/fragmentação da globalização. A constante tensão entre um
cidadão que se percebe, ao mesmo tempo, como global (desterritorializado) e nacional
(territorializado). Processo este agravado pela lógica da sociedade de consumo, que
transformou a noção de cidadão em consumidor.
No campo da proteção dos direitos, portanto, o enfraquecimento do Estado parece
apontar para a necessidade de uma transnacionalização também do próprio direito - no lugar
dos direitos individuais do liberalismo, os direitos humanos25. O conceito de dignidade da
pessoa humana ao invés dos valores liberais da liberdade e da igualdade, criando uma política
de tolerância e de respeito às diferenças, capaz de transcender a formalidade da igualdade
liberal (VIEIRA, 2001). Esta questão se torna mais espinhosa quando se considera as atuais
práticas dos governos em relação à questão da segurança. Como anteriormente analisado, seja
na “defesa” da sociedade contra a ameaça terrorista ou contra os criminosos domésticos, o que
se tem percebido é um aumento da violação não só dos direitos civis como também dos
direitos humanos.
Segundo Gómez (2005), os Estados, no que tange à falta de efetividade do regime
internacional de direitos humanos, têm um papel ambivalente – eles são, ao mesmo tempo, os
atores imprescindíveis para proteção destes direitos, mas também os maiores violadores dos
mesmos, tanto em âmbito local, como no nacional e no internacional (vide a guerra ao terror
norte-americana, com suas guerras preventivas e campos de detenção “extra-legais”). Esta
ambivalência seria fruto da tensão entre a soberania territorial dos Estados e a necessidade de
se limitar esta soberania na defesa dos direitos humanos dos seus cidadãos. Além dos Estados,

25
Direitos humanos entendidos em uma perspectiva mais ampla e não de maneira restritiva, como na matriz
liberal. Para esta discussão, vide Gómez, 2005.
45

os direitos humanos também seriam violados pelos mecanismos e estruturas, publicas e


privadas, de exploração e poder do capitalismo neoliberal globalizado.
No campo da política doméstica, o Estado perde espaço, tanto como decorrência da
desterritorialização da globalização como da primazia do mercado, na defesa dos direitos,
enquanto o cidadão, marginalizado e alienado se afasta da esfera pública, já degradada em seu
sentido clássico, tornando-se mais interessado em sua qualidade de vida do que nas questões
públicas. É um processo resultante da globalização neoliberal na qual o interesse econômico e
a lógica do mercado e do consumo se sobrepõem à luta pelos direitos:

O processo de globalização econômica está enfraquecendo os laços


territoriais que ligam o indivíduo e os povos ao Estado, deslocando o
locus da identidade política, diminuindo a importância das fronteiras
internacionais e abalando seriamente as bases da cidadania
tradicional.
A globalização econômica tende, assim, a produzir um declínio na
qualidade e significação da cidadania, a não ser que a filiação
política e identidade existencial possam ser efetivamente vinculadas a
realidades transnacionais de comunidade e participação num mundo
pós-estatal ou pós-moderno (VIEIRA, 1999, p. 400).

Frente a este cenário, segundo Vieira (1999), existem duas opções: 1- a declaração da
morte da cidadania política e sua substituição por uma cidadania essencialmente econômica
(neoliberalismo e sociedade do consumo) e social ou 2- construção de uma nova cidadania
política, pós-nacional, fundada sobre os direitos humanos.
Adotando esta segunda perspectiva, Vieira (1999) aponta duas maneiras de
viabilização desta nova cidadania. A primeira seria a realização de um “contrato de
cidadania”, segundo o qual haveria uma extensão de direitos aos estrangeiros, que manteriam
sua cultura de origem (em uma cisão entre nacionalidade como comunidade cultural e
cidadania como participação política), desde que os mesmos se comprometessem a aderir aos
valores democráticos e às legislações nacionais de proteção dos direitos humanos.
A segunda possibilidade tem sua origem em Habermas – o patriotismo constitucional,
segundo o qual se deve dissociar nação, como lugar da afetividade, e Estado, como lugar da
lei. Assim, o patriotismo não estaria mais relacionado à nação, como dimensão cultural e
histórica, mas ao Estado de Direito e os princípios políticos da cidadania. Seria uma filiação
mais política do que social, que abriria caminho para uma cidadania global.
Outra proposta, segundo Yegen (2008), seria repensar o universalismo da cidadania
moderna. Segundo este autor, esta pretensão universalista foi, na verdade, uma
universalização do particular, a imposição de uma imagem de uma particularidade sobre o
46

resto, suprimindo diferenças de classe, étnicas, de gênero, sub-nacionais, em nome de uma


identidade nacional, uma vez que, na cidadania nacional, o princípio do universalismo
significa a igualdade de todos os membros do Estado-nação.
A solução, para muitos autores, estaria na criação de uma cidadania na qual os direitos
fossem desfrutados, de maneira diferenciada, pelos cidadãos (cidadania diferenciada de
Young) ou na criação de direitos específicos para determinados grupos (cidadania
multicultural de Kymlicka) ou na defesa explícita de identidades marginalizadas e
estigmatizadas (cidadania cultural de Pakulski) (YEGEN, 2008).
Entretanto, de acordo com Yegen (2008), estas teorias teriam os mesmos problemas:
Como escolher os grupos que teriam uma representação privilegiada ou gozariam de direitos
específicos? Como lidar com diferenças intra-grupais? Como evitar o surgimento de um
fetichismo de grupo? No fim, se teria um verdadeiro paradoxo: a escolha entre assimilação
(cidadania nacional) ou fetichismo de grupo (absoluta alteridade); igualdade ou diferença;
cidadania nacional ou o fim da cidadania.
Para Yegen (2008), a solução não estaria em abandonar a universalidade (central para
o conceito de cidadania), mas em repensá-la, o que significa lidar com o paradoxo
supracitado. O desafio está em pensar uma cidadania capaz de conjugar diferença e igualdade,
ou seja, uma cidadania na qual a igualdade não seja sinônimo de homogeneização, mas
entendida como uma “igualdade de diferenças”, e que a universalidade seja compreendida
como uma impossibilidade necessária. Uma cidadania com espaços abertos às
particularidades, mas sem perder a noção de igualdade, o que será possível apenas se
reconhecermos o fato de que a igualdade total é impossível e que esta impossibilidade é a
condição de uma cidadania democrática.
Deste modo, se a globalização, afeta as bases da cidadania tradicional, moderna,
somente este mesmo processo pode produzir sua ressignificação, com a transnacionalização
deste conceito e a dissociação entre nação e cidadania; cidadania e Estado; território e
direitos.
47

4- CONCLUSÃO

A cidadania moderna nasce como uma cidadania territorial, tendo historicamente


assumido um caráter passivo, de defesa dos direitos do cidadão – civis, políticos e sociais –
pelos governos estatais. Neste contexto, cidadão é o nacional de determinado Estado, sendo
excluídos da proteção jurídica os estrangeiros. Há, portanto, nesta concepção, uma
identificação entre os conceitos de nação, Estado e cidadania.
Entretanto, atualmente as bases desta cidadania têm sido abaladas. Primeiro, pela
violação de direitos que os próprios governos nacionais têm realizado em relação a seus
cidadãos. Segundo, pelo neoliberalismo que reduz os direitos sociais e que cria a imagem do
cidadão consumidor, ocupando a economia o lugar outrora destinado à política.
E, finalmente, a globalização, que afeta a base territorial e a identidade nacional da
cidadania moderna. No lugar da defesa dos direitos do nacional de um determinado Estado,
assiste-se a uma progressiva dissociação entre nacionalidade e cidadania, sendo que esta
última passa a ter uma dimensão “puramente jurídica e política, afastando- a da dimensão
cultural existente em cada nação” (VIEIRA, 1999, p. 399). Os cidadãos passam a ter uma
multiplicidade de filiações e de identidades, como as religiosas e étnicas. Além de que, com
as migrações internacionais, uma nova classe de indivíduos surge no interior dos Estados – a
dos estrangeiros, que querem permanecer fiéis tanto a sua cultura quanto a sua nacionalidade
de origem e ainda assim desejam ser cidadãos de seu novo Estado por meio do usufruto de
direitos (VIEIRA, 1999).
A globalização afeta ainda as bases do Estado-nação, relativizando questões como sua
soberania e seu papel nas relações internacionais, em um movimento de enfraquecimento
desta entidade político-jurídica.
Com o enfraquecimento do Estado e a dissociação identitária entre nação e cidadania,
a opção possível está na construção de uma nova forma de cidadania, não mais de caráter
territorial e na qual os direitos modernos cedem espaço aos direitos humanos - a cidadania
global ou pós-moderna.
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