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PLATÔS 'EM CLAUSURA': AS RELAÇÕES DO CORPO DE HOMENS INTERNADOS EM UMA COMUNIDADE

TERAPÊUTICA

Platôs 'em clausura': as relações do corpo de


homens internados em uma comunidade
terapêutica
DOI: https://doi.org/10.5935/1984-9044.20200008

Homero Pereira de Oliveira Júnior - Universidade Federal de Goiás (UFG)

Resumo: O presente artigo apresenta um relato de experiência profissional em uma comunidade tera-
pêutica. Faz uma apresentação da CT em relação ao espaço físico e número de homens internados, de
modo a discutir brevemente a análise feita dos relatos e compartilhamentos dos “adictos” internados,
suas relações com a clausura da internação e as zonas de intensidade que constituem outras formas
de clausura. Traz uma questão colocada por Suely Rolnik, em relação ao regimento de uma política de
cafetinagem e expropriação do desejo, a partir da reafirmação de discursos que manicomializam os
corpos e as relações dos corpos.

PALAVRAS-CHAVE: esquizoanálise; corpo; comunidade terapêutica; drogas

Cloistered plateaus: body relations of men in a


therapeutic community
Abstract: This article presents a report of professional experience in a Therapeutic Community - TC.
The TC is presented focusing on the physical space and the number of hospitalized men to briefly dis-
cuss the analysis made with reports and sharing of the “addicts” interned, their relationship with the
confinement enclosure and the intensity zones that constitute other forms of enclosure. A question is
raised by Suely Rolnik regarding the regimentation of a policy of pimping and expropriation of desire,
from the reaffirmation of discourses that madden the bodies and the relations of bodies.

KEY WORDS: schizoanalysis; body; therapeutic community; drugs

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A apresentação: o trabalho de um psicólogo em uma comu-


nidade terapêutica

O
presente artigo consiste em tempo, esse número diminuiu para 34.
um relato de experiência Contudo, tivemos informações de que
profissional, referente a um essa CT já chegou a atender mais de 60
trabalho de vínculo informal homens. Muitos dos internos estavam ali
que realizamos em uma Comunidade Te- há mais de 1 ano, alguns há mais de 2 ou
rapêutica (CT), localizada no Estado de 3 anos. Em sua maioria, eles mantinham
Minas Gerais. Essa experimentação, em- raros contatos com suas famílias. Havia,
bora tenha durado pouco do ponto de na ocasião, 3 internos cumprindo pena,
vista cronológico, foi disparadora de mui- além de outros que já haviam passado
tos processos de análise e reflexão pes- pelo sistema penal. Um desses internos,
soal e profissional. Pensamos, desde o que cumpre pena na CT, é analfabeto e
início, na possibilidade de ocupar a insti- perdeu totalmente o contato com seus
tuição e tecer estratégias de resistência, familiares; alguns deles já morreram e
investigação e experimentação. outros também estão em situação de vul-
nerabilidade social.
A referida Comunidade Terapêutica
oferece tratamento para “dependentes O espaço físico da CT é arborizado.
químicos”, os ditos “adictos”, e recebe Conta com uma horta, que é cuidada por
pessoas em estados variados de adoeci- alguns dos internos, campinho de fute-
mento mental, em regime de internação bol, mesa de sinuca, uma piscina, refeitó-
voluntária, embora nessa seara a volun- rio e quartos compartilhados. Segundo
tariedade seja algo que necessite de am- relatos dos homens ali internados, a es-
pla discussão e problematização. trutura física dessa CT é boa, em compa-
ração com outras instituições dessa
Quando iniciamos o trabalho, havia
natureza. Contudo, observamos que o
40 homens internados e, com o passar do
conforto de suas instalações muitas

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vezes era usado para silenciar a opinião contando o número do seu diagnóstico
de alguns usuários, sobretudo quando psiquiátrico, o CID (Código Internacional
essa se referia a algum conteúdo de des- de Doenças), e, entre eles, esses códigos
conforto ou queixa sobre o tratamento. fomentavam gírias e comparações.

Nessa CT, os próprios internos reali- Além disso, a CT contava naquele


zam as tarefas domésticas, consideradas momento com dois monitores, que eram
como “terapêuticas”, que muitas vezes internos, também em tratamento, e es-
são chamadas de “laborterapia”: Eles re- colhidos pelos coordenadores. Segundo
alizam a limpeza de seus quartos, dos ba- os coordenadores da CT, para um interno
nheiros e da área comum, além do se tornar monitor é necessário conside-
preparo dos alimentos para as refeições rar fatores como tempo de casa, adapta-
em horários pré-determinados pela insti- bilidade às regras de funcionamento
tuição. Não há mecanismos explícitos geral, além do estabelecimento de uma
que denotem uma obrigatoriedade da re- relação de confiança com os coordena-
alização de tais atividades e tarefas, en- dores da CT.
tretanto, percebemos estratégias
Os coordenadores são “adictos” que
discursivas que influenciavam esses cor-
já passaram por outras CTs, onde foram
pos à adequação das regras gerais.
também internos “que se reabilitaram”.
O acompanhamento médico psiquiá- O dono dessa CT foi coordenador em ou-
trico é feito por meio de atendimentos tras CTs e é bastante conhecido na região
realizados em intervalos de dois em dois como um exemplo de abstinência e supe-
meses, aproximadamente. Grande parte ração, o qual está, segundo ele, há 20
dos internos faz uso diário de drogas far- anos sem fazer uso de drogas (álcool e
macológicas utilizadas para “estimular ou demais drogas). Eles dirigem a instituição
acalmar”, agindo sobre comportamentos se baseando nos princípios da abstinên-
e condutas de desânimo ou irritação. cia conforme preconizados por grupos de
Quando começamos a escutar esses ho- Narcóticos Anônimos (NA), com forte re-
mens, eles em geral se apresentavam nos ferência personalista em figuras que são

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exceção à regra – como o dono dessa CT vistos como “adictos” em recuperação e


que é um raro exemplo de “sucesso da são considerados pessoas psicologica-
abstinência”. mente “dependentes”, “viciados”, que
apresentam comportamentos compulsi-
O NA dirige o trabalho realizado com
vos e problemas em suas relações inter-
os “dependentes” a partir de doze pas-
pessoais.
sos. Nesse sentido, na CT os internos são

As zonas de intensidade (platôs) e as estratégias de inter-


venção

Dispomo-nos, neste texto, a desen- dos corpos, através de pilares como a nu-
volver narrativas cartográficas com o tra- trição e a medicalização, além de sentir
balho realizado nessa instituição, no zonas de intensidade que permeavam
sentido de construir um plano de ima- suas dimensões. Como afirmavam De-
nência (Deleuze; Guattari, 1992) para leuze e Guattari, para nós: “Trata-se sem-
compor nosso campo de análise e inter- pre de liberar a vida lá onde ela é
venções. Não tivemos, com isso, a pre- prisioneira, ou de tentar fazê-la num
tensão de generalizar aquilo que combate incerto” (1992, p. 222).
experimentamos na CT, mas, sim, de res-
No início desse trabalho, pergunta-
saltar e refletir sobre o caráter singular e
mos aos internos como eles entendiam o
multiplicitário dos encontros disparados
trabalho do psicólogo e qual seria o nosso
nesse local.
papel ali. As respostas que tivemos nos
Durante nosso trabalho, foi possível mostraram que aqueles homens até en-
tecer uma análise dessa instituição, apre- tão haviam sido acompanhados por psi-
ender a sua dinâmica de funcionamento, cólogos orientados por uma
sua produção~cafetinagem~talha de compreensão reduzida à moral, que pri-
subjetividade e subjetivação, sua articu- vilegiavam aspectos comportamentais.
lação política de provisão e manutenção

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Além disso, foi possível compreender passagem para acontecimentos inusita-


que o funcionamento da CT estava bas- dos. Além disso, desenvolvemos outras
tante associado a práticas de afirmação práticas e encontros como oficinas, jogo
de culpas, receios, desconfianças e pato- de futebol e outras atividades, quando
logias em níveis individuais, enquanto, disputamos, nos divertimos e trocamos
coletivamente, a dimensão moral da experiências de forma solidária e coope-
adicção era o que mais se realçava. No rativa.
cotidiano, isso aparecia quando os coor-
Nessa CT havia ainda práticas ritualís-
denadores, alguns internos e seus famili-
ticas com uso do chá da Ayahuasca, das
ares, nos alertavam para “ter cuidado,
quais alguns internos participavam. Por
pois adictos estão sempre manipulando.
meio de conversas com esses internos,
Adictos são doentes que precisam mani-
foi possível perceber que não havia um
pular os outros e a si mesmo”.
momento posterior de discussão e elabo-
Assim, optamos por realizar atendi- ração da experiência vivida nessas práti-
mentos individuais para além desse dis- cas. Algo que nos fez pensar em sugerir a
curso pré-concebido e do arranjo de formação de um espaço de cuidado para
grupalidade/grupalismo baseado nos tal que, contudo, não tivemos tempo de
princípios do NA. Com essa estratégia, desenvolver.
buscamos acolher a particularidade e dar

A política de enclausuramento do desejo

A principal questão que se colocou estabelecimento, como afirma Rolnik


nesse processo foi de que forma poderí- (2018), de relações cafetinísticas que
amos construir, com aquelas pessoas, buscam colonizar o inconsciente a partir
narrativas que reverberassem em suas vi- de linguagens e expressões manicomiali-
das, problematizando o zadas, patologizadas, estigmatizadas.

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Em outras palavras, sensíveis ao que duzentos reais), com algumas vagas soci-
escutamos, sentimos e tecemos nesses ais direcionadas geralmente a pessoas
encontros, procuramos aliar e potenciali- em situação de rua, encaminhadas por
zar forças dissidentes que atravessavam serviços públicos da cidade, diante do
aqueles corpos instalados em um espaço consentimento da pessoa internada.
e temporalidade sofisticadamente con-
Nessa Comunidade Terapêutica per-
trolados. Muitas vezes nos perguntamos
cebemos uma sólida cultura de entendi-
sobre quais eram os arranjos, ou melhor,
mento sobre o que venha a ser a
os platôs que compunham os agencia-
“dependência química”, concebida por
mentos daqueles corpos que habitavam
meio do discurso da “adicção” que, se-
aquele cenário enclausurado e enclausu-
gundo eles, é um problema imutável e in-
rador.
contornável, uma doença atrelada,
A noção foucaultiana de biopolítica e sobretudo, ao caráter daqueles homens.
o paradigma ético-estético-político que Essa cultura, fortemente arraigada a um
orientam a Filosofia da Diferença contri- cunho moral, sentimos nos corpos que
buíram para que pudéssemos refletir e encontramos; e houve um momento, in-
construir nossas intervenções. Desse clusive, que captamos uma certa distin-
ponto de vista, tentamos refletir sobre o ção que faziam desde a nossa presença
funcionamento da CT, considerando as em relação às outras que circulavam na-
relações de poder estabelecidas entre os quele espaço. Reconhecemos que, como
diferentes integrantes dessa instituição psicólogo, psicoterapeuta, exercíamos ali
(Foucault, 2015; Deleuze; Guattari, também um saber-poder diferente dos
1992). demais.

Vale ressaltar que há um valor/custo Falar sobre esses homens internados,


cobrado como mensalidade, para que es- que em sua maioria desenvolveram ao
sas pessoas possam receber o trata- longo de suas vidas uma relação proble-
mento em regime de internação na CT, mática com determinadas drogas, o que
correspondente a R$ 1200,00 (mil e certamente reflete os efeitos de outras

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relações problemáticas, é um ato desafi- preconizam diferentes formas de clau-


ador. A experiência de trabalhar com es- sura. Nesse sentido, destacamos as pala-
ses corpos nos instigou e levou-nos a vras de Rolnik (2018):
interrogar sobre o que pode o corpo
adicto. A partir dessa indagação, foi pos-
Essa política do desejo é própria de uma
sível nos abrir para esses encontros de
subjetividade reduzida à sua experiência
forma a acessar narrativas em que mui- como sujeito, na qual começa e termina
tos desses homens puderam nos contar seu horizonte. Por estar bloqueada em
que sofreram violência sexual na infância sua experiência fora-do-sujeito, ela se
e adolescência, além de outros traumas e torna surda aos efeitos das forças que agi-

feridas vivenciadas na vida adulta. tam um mundo em sua condição de vi-


vente, ignorando aquilo que o saber-do-
Esse tipo de acolhimento nos fez corpo lhe indica. O gérmen de mundo que
compreender que, onde não há constru- a habita é por ela vivido como um corpo e

ção de uma relação de confiança e vín- tal ponto estranho e impossível de absor-
ver que se torna aterrorizador, razão pela
culo, a manipulação se torna uma
qual deverá ser calado a qualquer custo o
estratégia que norteia as condutas e os
mais rapidamente possível. Esse tipo de
valores que nutrem e referenciam as re-
subjetividade vive o universo exclusiva-
lações. Acostumar-se a esse tipo de vín-
mente como um objeto que lhe é exterior
culo débil, fraco, sem consistência, e o decifra apenas da perspectiva de sua
medonho, é o que pode compor um tipo experiência como sujeito. A imagem de si
de relação com o mundo que se confi- que resulta dessa redução é a de um indi-

gura e se agencia em torno de uma redu- víduo – um todo indivisível, como o pró-
prio termo indica. É a imagem de uma
cionista compreensão de si.
suposta unidade cristalizada separada das
O que colocamos à luz para discus- demais supostas unidades que constitui-

são, nesse sentido, é a escassez de uma riam um mundo, o qual é indissociavel-


mente concebido aqui como uma suposta
política de desejo e o império de uma po-
totalidade, organizada segundo uma re-
lítica macro e micro, em nível regional-
partição estável de elementos fixos, cada
nacional-continental, em que se

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um em seu suposto lugar, igualmente fixo refletir, problematizar e intervir sobre


[...] (p. 66). nossa experiência. Pensar a CT e seus
atravessamentos nessa “nova” e velhís-
Assim, é sobre essa política de desejo sima política manicomial de drogas é algo
que se volta à produção de um inconsci- fundamental e urgente, especialmente
ente colonial capitalístico/cafetinístico, neste momento em que algumas formas
engendrado na máquina abstrata Comu- de clausura vêm sendo incentivadas e até
nidade Terapêutica, que buscamos mesmo valorizadas no Brasil..

Referências

Deleuze, G., Guattari, F. (1992). O que é a filosofia? São Paulo: Editora 34.

Foucault, M. (2015). A história da sexualidade I: a vontade de saber. São Paulo: Graal.

Rolnik, S. (2018). Esferas da insurreição – Notas para uma vida não cafetinada. São Paulo:
N – 1 Edições.

Recebido em: 06/03/2020


Aprovado em: 18/05/2020

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