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Impulsos para que vos quero?


Impulsos ou autocontrolo?
30/03/2015

Muito lhes devemos, mas é-nos quase sempre pedido que os controlemos, sob pena de sermos considerados selvagens ou pouco
sãos. Autocensuramo-nos, mas não queremos perder a espontaneidade ou renunciar ao prazer. Há quem diga que «não se pode
servir a dois amos», mas, neste caso, é no equilíbrio entre ouvir os impulsos e praticar o autocontrolo que se consegue o melhor de
dois mundos.

Um murro na mesa, um beijo apaixonado, a compra de um chocolate e a cleptoma​nia podem ter mais em comum do que se imagina
à partida. São, ou podem ser, impulsos. Dos adultos é esperado que os controlem. A bem da civilidade, do deco​ro ou mesmo da
saúde. Nem sempre é fácil, mas também nem sempre é útil. Evolutivamente, pelo menos, têm-nos sido benéHcos, na luta pela
sobrevivência, in​dividual e da espécie.

E, hoje, mesmo sendo os nossos desaHos mais so​Hsticados do que aqueles que enfrentávamos no tem​po das cavernas, continuam a
ser centrais. «São fun​damentais na nossa vida. São os impulsos que nos le​vam a procurar o prazer e, no fundo, a satisfazer as
necessidades de foro biológico», diz o psiquiatra Dio​go Guerreiro.

Mas o que são aHnal? «Necessidades ou desejos fortes, súbitos, muitas vezes irracionais, que levam a compor​tamentos para os
satisfazer de forma imediata, visando uma de duas coisas: a procura de prazer ou o evitamento
de situações de perigo.» É assim que o psiquiatra Diogo Guerreiro deHne os impulsos, acrescentando que po​dem ser de vários tipos,
mas que os sexuais, alimenta​res e agressivos são os mais comuns.

Nenhuma narrativa sobre impulsos pode passar ao lado de Freud, o pai da psicanálise, e da história que muitos de nós se lembrarão
vagamente de ter estudado na escola: Freud chamava-lhes pulsões e defendia que nasciam no id, o seu reino no nosso inconsciente,
regi​do pelo princípio do prazer, habitado pelo nosso lado menos civilizado e povoado de desejos, sobretudo liga​dos à libido. Nesta
história, o ego desempenha o papel de polícia: regido pelo princípio da realidade, é a parte de nós que tenta reprimir aquilo que lhe
parece inade​quado. Mas não tudo, é certo. Porque os impulsos são necessários e porque diHcilmente há um ego suHcientemente
grande e zeloso para abafar todos os desejos que moram em nós.

O impulso é inato, o autocontrolo adquirido. Vamo-lo desenvolvendo à medida que se apura a relação de causa-efeito e se estabelece
o processo educativo e de socialização. Aprendemos a pensar antes de agir. Os que não aprendem e têm grande insuHciência do
controlo de impulsos acabam muitas vezes por cair na patologia psi​quiátrica. «Por várias razões, incluindo a educação, mas também
fatores genéticos ou alterações da neurotrans​missão cerebral, pode existir uma perturbação do con​trolo dos impulsos. As mais
conhecidas são a cleptoma​nia, a perturbação explosiva intermitente [explosões de raiva e agressividade], o jogo patológico, algumas
for​mas de compulsão alimentar ou o controlo dos impulsos sexuais», esclarece Diogo Guerreiro.

E se é verdade que a sexualidade é um terreno on​de se quer mais espontaneidade do que racionalidade, o caso é que sempre que a
impulsividade se sobrepõe demasiado à razão acabamos em maus lençóis. Trai​ções, !irts ou casos fortuitos constantes ou
mergulhos de cabeça numa relação podem ser exemplos claros da falta de controlo de impulsos. «Apesar de o sexo poder despertar
alguns dos instintos mais primitivos, ten​dencialmente a racionalidade continua a sobrepor-se à impulsividade», diz o psicólogo e
sexólogo Fernando Mesquita. «É normal cruzarmo-nos com pessoas que nos despertam desejo sexual, mas salvo raras exceções
existe a capacidade de controlar esses impulsos e fan​tasias. Quando existe uma incapacidade em perceber a diferença entre o
mundo da fantasia e a realidade, sem que se consiga controlar os impulsos, podemos estar perante um problema.»

A LUTA IMPULSOS VERSUS AUTOCONTROLO é muitas ve​zes um dilema: de um dos lados está o que queremos, do outro também. É
uma questão de recompensa e, sobre​tudo, de quando a podemos ter. O impulso oferece-nos uma recompensa imediata, o
autocontrolo uma recom​pensa no futuro. Por norma, a recompensa a que tere​mos acesso no futuro é muito maior do que aquela que
nos proporciona o imediato: o prazer de comer mais chocolate versus não engordar; o prazer de fumar um cigarro versus não
adoecer; o prazer de ter um um caso de uma noite versus manter a relação com a pessoa que amamos. Tudo escolhas que parecem
óbvias e lineares, se não introduzimos na equação uma variável que baralha tudo: o tempo. É que não estamos preparados para
considerar importantes as recompensas tardias, gosta​mos ter a cenoura em frente do nariz.

Nos seus livros (Previsivelmente Irracional e O Lado Bom da Irracionalidade) e investigações, o economis​ta comportamental Dan
Ariely explica-o muito bem: a escolha transforma-se em poder ter uma coisa que nos vai dar prazer agora ou uma que nos vai dar
prazer daqui a muito tempo. E, assim como para a nossa vi​são as coisas mais distantes parecem mais pequenas, o mesmo acontece
com as recompensas. A distância muda-lhe a proporção: a que está à mão torna-se gi​gante, o mais distante Hca pequeno. Por isso, o
profes​sor de Duke defende que introduzir uma recompen​sa no imediato pode ser eHcaz quando os benefícios da escolha que
pensamos ser correta só vão ser senti​dos passado muito tempo. Substituir a perspetiva da recompensa futura por outra, também ela
imediata, tornará mais fácil resistir à tentação.

De resto, o próprio Dan Ariely, quando jovem, con​frontado com a necessidade de se submeter a um tra​tamento para a hepatite, usou
o método. Cumpriu todo o tratamento (foi o único de todos os participantes no ensaio clínico) porque se recompensava com um
Hlme nos dias em que tinha de dar a si próprio a injeção, que lhe provocava efeitos secundários violentos. E sim, é ri​dículo comparar o
prazer de ver um Hlme com a perspetiva de não morrer demasiado cedo, mas é assim que para nós faz sentido, alega Ariely. «É fazer
as pessoas portarem-se da forma certa pela razão erra​da. Mas funciona.»

Precisamos de nos autorregular, mas isso é sempre menos fácil de fazer do que de admitir. E fazê-lo po​de requerer técnicas
apuradas. «Um dos aspetos prin​cipais é a motivação, sem ela não há ferramentas que funcionem. E muitas vezes a motivação está
associa​da a uma provável “punição” caso não exista autocon​trolo. Por exemplo, muitos compulsivos sexuais pro​curam ajuda quando
veem a sua relação conjugal em risco. Nestes casos podemos sugerir que andem sem​pre acompanhados por um objeto com uma
simbologia emocional muito forte que os faça recordar da família», defende o sexólogo Fernando Mesquita.

APESAR DE O AUTOCONTROLO ser geralmente visto como sinónimo de força de vontade e poder interior, muitos investigadores
defendem que pode ser deHnido como a manipulação que fazemos do ambiente à volta, de for​ma a alterar o nosso comportamento
em função de uma consequência. Porque, segundo vários investigadores, o autocontrolo não é o forte do ser humano. No caminho
para o trabalho, juramos que não vamos perder tempo no Facebook, mas quando nos sentamos à secretária é a primeira página que
abrimos. Numa saída à noite, pro​metemos que não vamos beber demasiado, mas no Hm da noite não temos outro remédio senão
chamar um táxi porque não estamos em condições de conduzir. Claro que podemos e devemos tentar encontrar recom​pensas que
possam ajudar-nos a fazer o que está certo, ter monólogos interiores para nos relembrarmos das consequências de uma má escolha,
mas muitas vezes nada disto é suHciente. E isso tem levado muitos a contar com a tecnologia para se obrigarem a cumprir promes​-
sas e a ter maior controlo sobre si próprios.

A SelfControl, por exemplo, é uma aplicação grátis através da qual é possível bloquearmos durante um certo período de tempo o
nosso próprio acesso aos sites que achamos que nos distraem. Enquanto o tempo estipulado não acabar, será impossível aceder ao
que lis​támos como os buracos negros da nossa produtividade: nem apagar a aplicação ou reiniciar o computador re​sulta. Ficamos
reféns da escolha que Hzemos.

Nos EUA, a tecnologia e o software para nos obrigar​mos a ser pessoas melhores tem vendido como pãezi​nhos quentes:
despertadores com rodas que se movem pelo quarto, obrigando-nos mesmo a sair da cama pa​ra os desligar; bloqueadores da
ignição do automóvel li​gados a um alcoolímetro que só deixam o carro traba​lhar se estivermos em condições para conduzir; aplica​-
ções que bloqueiam as chamadas do telemóvel depois de uma noite de copos; software que não permite que o cartão de crédito
funcione uma vez atingido um cer​to plafond. Conhecedores da nossa fraqueza, aqueles que somos hoje, agora, longe da tentação,
tomam precauções contra o que previsivelmente seremos daqui a pouco ou amanhã, quando nos depararmos com a dita e
estivermos prontos a ceder.

Nada disto implica que a espontaneidade seja per​dida ou que não nos deixemos tomar pelos impulsos quando isso faz sentido. Até
porque ser excessivamen​te rígido e racionalizar de mais pode ser tão negativo como ser demasiado impulsivo. «Temos de encontrar
uma espontaneidade saudável que permite satisfazer a nossa procura por prazer, mas que tem em considera​ção os resultados das
nossas ações. E devemos afastar-nos dos extremos», aconselha Diogo Guerreiro. Não se trata de escolher entre uma coisa ou outra,
mas antes de saber equilibrá-las e tirar partido de cada uma na al​tura certa. «É como nos carros: o que é melhor, o travão ou o
acelerador?»

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