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Na pandemia, Exército volta a matar brasileiros

Por Luis Fernando Vianna/Revista Época

Em vários momentos da nossa história, o Exército brasileiro


se pôs a matar a população em grande quantidade. Na
Revolta de Canudos, por exemplo, destruiu um povoado de
25 mil habitantes, na Bahia, em 1897. Nem as crianças
foram poupadas.

A Comissão Nacional da Verdade, que atuou entre 2012 e


2014, apontou 434 mortos e desaparecidos pelo Estado
brasileiro entre 1946 e 1988. A maior parte dos crimes
aconteceu durante o regime militar (1964-1985), quando as
Forças Armadas se uniram às polícias para torturar e
assassinar.

Com a redemocratização, o Exército se adequou ao seu


papel constitucional. Nos últimos anos, começaram a
acontecer coisas antes impensáveis, como um general,
Eduardo Villas Bôas, pressionar o Supremo Tribunal
Federal para que não se tomasse uma decisão em favor do
ex-presidente Lula.

No governo de Jair Bolsonaro, o Exército voltou a se


lambuzar de política. Oficiais da ativa e da reserva ocupam
postos-chave, participam de manifestações
antidemocráticas e, assim, emitem sinais de que as Forças
Armadas endossam o que presidente diz e faz.
No momento, o Exército participa de um massacre. Um
general, Eduardo Pazuello, aceitou ser ministro da Saúde
mesmo, como admitiu, sem saber o que é o SUS (Sistema
Unificado de Saúde). Suas credenciais eram as de um
craque da logística. Ele pode ser bom em distribuir fardas e
coturnos, mas, como estamos vendo, não sabe salvar vidas.

Demorou a comprar seringas e agulhas, e ainda mandou um


lote vir de navio, porque é mais barato. Só agora, e quase à
revelia dele, cidadãos daqui começam a ser vacinados,
embora mais de 35 milhões já tenham sido ao redor do
planeta. O Brasil passou dos 209 mil mortos, e Pazuello
continua defendendo o uso de remédios que não servem
para combater os efeitos do coronavírus

Não se trata de um caso isolado, de um incompetente que


está fazendo trapalhadas. Bolsonaro o nomeou para que ele
as fizesse. O lambe-botas do presidente soube com dias de
antecedência que os hospitais de Manaus entrariam em
colapso por falta de oxigênio para os pacientes. Nada fez, a
não ser prescrever a inútil cloroquina. A tragédia do
Amazonas reforça o que não é novidade, mas ainda assim é
terrível: temos um governo que atua para que um número
cada vez maior de brasileiros morra. Não é acidente, é
projeto. Em cada mil brasileiros, um já morreu de Covid-
19.

Os generais de Brasília (Mourão, Augusto Heleno, Braga


Netto, Azevedo e Silva) pouco fazem além de inscrever
seus nomes na história como operadores de um morticínio –
não se pode usar a palavra genocídio porque algumas
damas da intelectualidade ruborizam.

O Exército ainda está sendo cúmplice da, quem diria,


venezuelização do Brasil. Em vez das milícias boliviarianas
de Hugo Chávez e Nicolás Maduro, estão em formação as
milícias bolsonaristas: facilitação da compra de armas por
civis, aumento de poder e de vencimento para policiais,
mobilização de apoiadores contra o Legislativo e o
Judiciário para que estes se submetam ao Executivo.
Enquanto tentamos sobreviver na pandemia, temos um
governo que joga contra nós e é integrado por oficiais que
envergonham as fardas que vestem ou vestiam.