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COMPAIXÃO: acolhida do limite

“A compaixão é aquilo que nos torna verdadeiramente humanos;


temos compaixão pelos fracos: nós mesmos” (Anatole France)

Fala-se do ideal de perfeição como uma estrada a percorrer, isto é, como uma
direção, um sentido.
Na realidade, porém, a perfeição é em si mesma uma perda do sentido de
orientação; ela afasta da direção correta, ou seja, afasta o ser humano de si
mesmo.
Quem tende à perfeição coloca-se longe de si mesmo, afasta-se de si, jamais se
abraçará nem sentirá compaixão por si próprio. O perfeccionista nunca está
contente, porque sempre acha que não fez “o melhor”, o mais correto, o mais
adequado. Ele se valoriza apenas pelo resultado das suas ações. A própria
exigência de ser perfeito em tudo o que faz está a indicar que ele não se dá
nenhum valor. Termina descontente e frustrado consigo mesmo. Tornar-se
humano é a única maneira de sustentar, a partir da base, todo o edifício da
pessoa finita e limitada que somos.
Mas como se realiza essa proposta? Como nos tornarmos humanos?

É através da compaixão que nos leva a aprender alguma coisa com os erros, a
contrapôr-se à culpa, ao castigo, à autocondenação. É ela que possibilita que
cada um abrace a sua fragilidade.
A fragilidade está sempre presente: olhá-la de frente, acolhê-la, aceitá-la é o
único caminho que nos leva a
sermos mais humanos.
“Tornar-se humano” nada mais é que um gesto de aceitação de si (decisão de
ser um ser finito).
“Tornar-se humano” é um processo de reconciliação com aquilo que somos.
“Tornar-se humano” é simplesmente ficar do lado de nós mesmos, não
importando os fracassos.
Em que consiste essencialmente o exercício da “aceitação de si”?
A essência da aceitação de si é a compaixão. Experimentar a compaixão é um modo de conhecer-
se que abraça toda a existência. O centro do homem é o coração; o centro do coração é a misericórdia.
A misericórdia é o exercício vital que nos orienta para a fragilidade.

A compaixão permite ver o erro de outra maneira. Compreende sem danificar.


Não o altera, não o desvir-
tua. Não o exalta, mas também não permite que o erro seja a
coisa mais importante.
A compaixão passa por cima do esquema mental centrado no juízo, na
condenação e na culpa, porque in-
tui que o essencial é aceitar-nos a nós mesmos, em vez de odiar-
nos.
A compaixão produz um conhecimento que, não ignorando os próprios limites,
abre o caminho à des-
coberta de tudo o que constitui a realidade que somos. Quem
experimenta compaixão é
alguém que percebe “aquilo que é”, abraça “aquilo que é” e
vive sem iludir e sem se
envergonhar de ser “aquilo que é”.
A compaixão é receptiva; descobre o que se esconde por trás da rejeição de nós
mesmos: um ser que so-
nha ser a pessoa que não é.
A compaixão toma consciência da realidade que existe por trás do erro e ama
essa realidade, ainda que
venham a ruir muitas boas normas, opiniões e considerações.
A compaixão orienta-nos para a realidade profunda da nossa fragilidade;
na compaixão alcançamos a nós mesmos; a compaixão nos leva de
volta à casa.
A compaixão é a entrada do homem no mundo do humano. A compaixão é o perfume do humano que
invade a humildade da vida, a sua fragilidade e a sua insolúvel vulnerabilidade.
Quem é compassivo não precisa manter tudo sob controle. Não se assusta com o movimento da vida,
que escapa ao esforço de programação. A presença da compaixão é o sinal de que o ser humano desco-
briu a sua fragilidade, a abraçou e se orientou a partir dela. Através da compaixão ele torna operativo
o seu processo de humanização.

Texto bíblico: 2Cor. 13,1-10

Na oração: Ninguém pode exigir de você imediata


solução de problemas nem chegada súbita
ao cume da perfeição; porém tudo em você pede a
atitude de busca persistente em todas as áreas de seu
ser, fazer e conviver. Sua missão é transformar, pouco a realidade, muito a si mesmo.

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