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"É um disparate as pessoas


convencerem-se de que a inteligência vem
do cérebro"
Vinte e seis anos após O Erro de Descartes, António Damásio tem um novo livro, em
que nega a frase do evangelho "no início foi o verbo". Sobre a pandemia, alerta: "O grande
problema da velocidade a que se pode criar uma vacina é ter a garantia de que não se
transformará num problema ainda maior."

João Céu e Silva - 05 Dezembro 2020 — 00:40

© Orlando Almeida / Global Imagens

O mais recente trabalho científico e filosófico de António Damásio começa com uma
declaração de interesses: desta vez escreve um livro em que as ideias que vai entregar
ao leitor são o alvo e não quer rodeios que o distraiam. Ou seja, a espessura do volume
é menor, o foco nas ideias mais apertado e só recorre a ilustrações quatro vezes,
quando as explicações o exigem. Há outra diferença, a de uma toada poética percorrer
muito de Sentir & Saber - A Caminho da Consciência. São 46 capítulos breves, Um
Epílogo - não o Epílogo - e um prólogo, em que confessa o facto de existir em si alguma
frustração com a receção dos conhecimentos: "Não era uma frustração mortal nem me
preocupava muito, mas desagradava-me quando perguntava a um leitor por uma certa
ideia e verificava que ele, tendo lido imensas páginas, não tinha apreendido aquela que
eu queria passar." De modo que Sentir & Saber surge num livro mais pequeno: "Está
muito na moda as pessoas quererem livros pequenos porque têm pouco tempo para
ler, tanto assim que achei ser uma ótima oportunidade para fazer um livro poético
sobre aquilo que me interessa. De modo a que o leitor possa chegar ao fim de cada uma
das 46 peças e ter espaços em branco que o levem a parar e a sentir-se obrigado a
refletir um pouco sobre o que se passou."
A palavra "poético" vai aparecendo na entrevista e é impossível não questionar essa
intencionalidade que a leitura já mostrara através de uma sensação frequente, a de
que o pensamento científico resvalava para um nível poético. Foi intencional? "Sim.
Gosto muito de poesia e sinto uma inveja enorme dos meus amigos poetas que podem
escrever meia página e dizer coisas muito importantes. Há aí algo que me interessa
enquanto estilo, mesmo que duvide de que vá repetir este registo no próximo livro.
Decerto, voltarei às centenas de páginas e perderei este aspeto mais económico",
afirma. "Aliás, é mais fácil escrever muito do que pouco, porque o trabalho de redução
é extremamente difícil", acrescenta, rematando com a experiência de um colega que
dizia:"Não tenho tempo para escrever tão curto."

Se António Damásio considera o livro poético, pergunta-se porque coloca lá para o fim
alguns diagramas, como é o caso das estruturas principais do tronco cerebral. Tudo o
que era simples até aí é destruído com quatro imagens... "É uma decisão que é preciso
tomar a certa altura porque uma coisa é explicar sem diagramas, equações ou
descrições químicas, outra coisa é explicar com um pouco mais de pormenor para que
seja possível aos leitores compreender que não é só uma questão de palavras e de
suposições sobre o que se passa dentro do cérebro; é importante que compreendam o
conhecimento sobre a estrutura anatómica e como tudo se inter-relaciona e funciona.
Podemos ser simpáticos e tentar simplificar quando se fala das grandes ideias, no
entanto, ao querer mostrar que não são só hipóteses mas realidades que têm que ver
com anatomia, fisiologia, química e física, nessa altura precisamos mesmo de
diagramas. Afinal, os livros que eu escrevo não são de divulgação científica."

Se lhe perguntar qual é o legado de um trabalho de décadas, este livro é a resposta?


Existem vários aspetos no meu trabalho: o científico e o de pensamento, portanto dizer
que este livro é o legado seria um exagero. É, muito especificamente, uma maneira de
tratar assuntos que me apaixonam - problemas científicos e filosóficos - e uma tentativa
de os expor sob uma forma mais clara. Por boa sorte, enquanto fui construindo o livro
também tive a oportunidade de descobrir que algumas das soluções que tenho
apresentado para certos problemas são, de facto, soluções novas e sob certos aspetos -
digo eu e vários dos meus colegas - muito convincentes. Então, posso dizer que é ao
mesmo tempo uma tentativa de pôr a claro e de uma forma mais direta temas
importantes do meu trabalho e deixar claro que existem questões em bom caminho de
serem resolvidas. Muito especificamente, no que respeita à consciência e aos
sentimentos.

Quanto ao legado...
... não gosto de responder a perguntas como essa porque nos fazem parecer pomposos
e muito conscientes daquilo que se está a fazer, o que me parece uma má atitude. No
entanto, objetivamente, julgo que tenho feito uma contribuição no que respeita ao
papel do corpo relativamente ao cérebro na construção daquilo que é a nossa mente. E
esse é um tema importante, no qual tenho vindo a fazer contribuições desde o tempo
de O Erro de Descartes - um livro sobre o qual já passam 26 anos - e que trazem para o
campo da ciência a importância daquilo que é o corpo e, evidentemente, da vida dentro
desse corpo. Aliás, com o tremendo sucesso do que hoje se chama a neurociência, a
preocupação dominante tem sido o cérebro, propriamente dito. Questiono se o cérebro
é capaz de resolver todos os problemas que existem em torno do que é a mente
humana. Para perceber o que é a mente, necessita-se de entender o que se passa com
o cérebro, mas, muito antes disso, compreender o que se passa com o corpo, vivo e
inteligente. Diria que esta é a resposta completa à pergunta.

Quando coloca a relação entre o corpo e o sistema nervoso, nomeadamente no facto


de o primeiro conter o segundo dentro de si, como fica essa hipótese quando no
futuro partes do corpo humano forem amplamente substituídas por próteses num
cenário da inteligência artificial?
É muito improvável que uma pessoa seja substituída em mais do que uma pequena
percentagem do seu corpo com próteses.
É possível ter uma substituição do coração, dos rins, por exemplo, ou seja, estamos no
caminho para haver uma substituição de órgãos fundamentais, contudo as próteses
terão de fazer o mesmo serviço que os órgãos naturais fazem. Mas há outra coisa, é
que mesmo que se pudessem substituir três ou quatro deles, o que seria altamente
exagerado, terão de funcionar dentro do contexto geral daquilo que é a vida com um
corpo, que não é só a propósito de órgãos mas também com o que se passa com o
nosso metabolismo. Há certos órgãos extremamente importantes para o que é a nossa
pessoa sentimental - no sentido restrito de sentimento - e existe um que é
insubstituível: a pele. Que é uma víscera que cobre todo o corpo e quem perder grande
parte dela não sobrevive. Então, mesmo no cenário mais "moderno" do que será uma
medicina do futuro, com uma substituição escandalosamente complexa de órgãos,
haveria nesse fenómeno extremo sempre um enorme poder do que é o corpo natural
com a sua estrutura básica. Não estou preocupado que esse sucesso das próteses vá
transformar pessoas com sentimentos e consciência em robôs.

Refere frequentemente neste livro o conceito "detetar". Acha que essa capacidade
pode ser perdida com a medicina do futuro?
Essa capacidade de detetar corresponde ao inglês detect, mas a palavra que nos dá
mais amplitude é sensing, porque tem que ver com sensores - mas não com
sentimentos. Uma coisa é ter sensing outra é ter feeling. No que respeita a "detetar",
que é um aspeto fundamental da vida, à medida que caminhamos para uma robótica
mais complexa irá ser necessário que os robôs tenham não só uma capacidade de
"detetar", que alguns já podem ter, mas também de sentir, no sentido mais biológico
do termo. No último capítulo explico o que vai de facto acontecer, que iremos ter robôs
mais como nós desde que se lhes introduza a vulnerabilidade.

Não é um contrassenso?
Pode parecer paradoxal, porque quando se pensa na inteligência artificial o que vem à
ideia é que são criaturas absolutamente invulneráveis, feitas de aço e de plástico em
vez da nossa pobre carne humana. À primeira vista pode parecer uma asneira introduzir
vulnerabilidade numa coisa que é robusta, no entanto, só a introduzindo teremos a
possibilidade de fazer qualquer coisa de mais rico em matéria das reações que esse
"organismo" poderá tomar.

© Carlos Manuel Martins / Global Imagens


Defende a sua dama ao considerar errados avanços da inteligência artificial
desprovidos de sentimentos e sugere que se deve corrigir e instalar nos robôs o
detetor corporal. Esse desejo não é ficção científica?
Aquilo que as pessoas que inventaram os robôs quiseram ou querem é uma coisa, o
que o mercado quer é aquilo que for. Podem não gostar de sentimentos ou de
emoções, mas pouco importa se se provar que robôs com sentimentos são mais
eficientes e se se gosta ou não. O que determina o rumo da nossa vida é o que os
mercados querem e, se funcionar, eles vão querer. Se não, as pessoas vão esquecer-se
da ideia.

Já que falamos de máquinas, vamos à humana. Como é conviver com as suas


perguntas científicas em confronto com as que a humanidade faz desde sempre - de
onde vimos, para onde vamos -, porque elas continuam a existir neste Sentir & Saber?
Absolutamente, pois o livro é exatamente sobre essas perguntas clássicas. O que quero
é mostrar, tanto quanto for possível, que as respostas que hoje estamos a dar podem
ser diferentes mas o mesmo não se passa com as perguntas. Desde que temos mentes
conscientes - uma mente consciente é a que tem sentimentos e se estes não existirem,
provavelmente, não haveria consciência -, é importante termos a ideia de como o corpo
está a funcionar e essa é a porta de entrada para as grandes perguntas humanas,
aquelas que são as de sempre e desde que uma pessoa se lembra de que a vida tinha
uma problemática extremamente complexa. Mas só desde que existem sistemas
nervosos é que foi possível transformar essa problemática em consciente. É um quase
paradoxo que, ao pensarmos no tempo da vida humana no planeta, apenas no último
quarto desses quatro biliões de anos se deu a entrada dentro do sistema nervoso e que
só nos últimos 200 milhões de anos é que, quando muito, há qualquer coisa que venha
a parecer-se com aquilo que é o nosso sistema nervoso. A conclusão é que grande parte
do tempo dos seres vivos sobre o nosso planeta tem sido vivida de uma forma
inconsciente.

O que quer dizer?


Que havia vida complexa e evolução, mas ninguém sabia que existia. É espantoso
pensar que isto só começou a ser conhecido no momento em que começámos a ter
consciência do que estava a acontecer no nosso corpo e com a nossa vida. Depois, à
medida que os sistemas nervosos evoluíram, conseguiu-se ter um conhecimento
através da observação e das ciências do que é a vida em seres vivos como nós. É uma
história muito complexa, mas uma vez que chegámos à idade da consciência e da razão,
foi possível fazer as perguntas e as pessoas puderam olhar umas para as outras, olhar
para a história delas próprias, e então fazer essas interrogações e questionar o sentido
da existência.

Alerta para o facto de uma teoria que ignore o sistema nervoso para justificar a
mente e a consciência estar condenada ao fracasso, mas, diz, uma teoria que dependa
exclusivamente do sistema nervoso está também condenada a falhar. Enquanto
cientista, como é viver num equilíbrio investigatório?
Sem dúvida que essa é uma das ideias principais deste livro - como já era no anterior,
A Estranha Ordem das Coisas -, a de que a vida começa antes do cérebro. Neste
momento é muito comum que estejamos constantemente a ser bombardeados com
novos factos e ideias sobre o cérebro, daí que as pessoas acabem por se convencer de
que aquilo que é a sua inteligência vem do cérebro. Isso é um disparate e é
completamente errado dizer que a inteligência vem do cérebro. A nossa inteligência é
complementada pelo cérebro! Porque a nossa inteligência começou há biliões de anos
com a própria vida e tem vindo a desenvolver-se com processos que antecedem o
aparecimento dos sistemas nervosos. Em inglês, tenho no livro uma frase que é
assim: "Brains are an after thought of nature", traduzindo: "Os cérebros são o último
pensamento da natureza." O que quer dizer que a natureza pode funcionar
perfeitamente sem cérebros, contudo o que os cérebros lhe trouxeram foi um melhor
funcionamento. Portanto, a razão por que temos cérebros - e mente e consciência e
raciocínio - é porque nos ajuda a viver melhor. Ajuda a vida e permite a vida com a
grande complexidade como é a dos seres humanos. Não esquecer que, antes de existir
essa grande complexidade, já havia vida, inteligência e funcionamento.

Daí que dê como título ao primeiro capítulo "No início não foi o verbo", contrariando
a abertura do Evangelho de João?
Claro, só podia ser assim. A frase clássica é bíblica e tem que ver com a maneira como
os seres humanos de há alguns milhares de anos descrevem a sua própria situação.
Evidentemente, eles confrontavam-se com a sua realidade e a palavra, como forma de
descrever fenómenos diversos, era o modo principal. Hoje, sabemos que temos milhões
de anos de evolução, que começaram e mantiveram-se com a inteligência - mas não
havia nem cérebro, nem mente, nem capacidade verbal; portanto, é muito importante
afirmar que no início não foi o verbo. Trata-se de uma leitura perfeitamente aceitável,
mas devemos entendê-la como uma leitura parcial, que é a sua realidade.

Choca o leitor, e vamos à página 3, quando compara o ser humano aos seres
unicelulares ; que nos diferenciamos por ter uma inteligência baseada no raciocínio e
na criatividade mas somos iguais no aspeto de uma competência não explícita como
acontece com as bactérias. Somos assim tão iguais?
Somos iguais e não somos. Nessa característica somos, mas depois existem todas as
outras que vieram juntar-se a essa e que nos dão uma capacidade extraordinária. Não
podemos fazer a comparação entre o ser humano e uma bactéria, pois um tem
inteligência, capacidade de criação e uma autonomia completamente diferentes, mas
ao mesmo tempo devemos reconhecer que a humilde bactéria tem vida, tem de a
regular e confronta-se com o problema de se alimentar, de se defender do excesso de
frio ou de calor... Uma vez que há vida, existe uma complexidade e uma novidade
extraordinárias e é isso que se encontra na bactéria e em nós. Não é que os seres
humanos devam ficar ofendidos por serem comparados a uma bactéria, é um pouco ao
contrário, pois devemos reconhecer que aquilo que a bactéria tem é um aspeto
fundamental para o que nós somos e deve ser respeitada se não quisermos que dê
cabo de nós. Seria bom que pudéssemos fazer isso com os vírus, o que não é neste
momento de todo possível como se vê com a pandemia com que nos confrontamos.

Afirma que "os vírus continuam a ser uma das principais fontes de humilhação na
ciência e na medicina". A rapidez com que foram criadas várias vacinas determina o
fim próximo dessa humilhação ou há situações que o homem não poderá ultrapassar?
Não é o fim da humilhação de todo, a vacina vai ser uma resposta temporária, muito
boa porque não temos maneira de sair desta situação de outra forma. Aliás, existem
duas maneiras de sair: uma, se todas as pessoas ficarem imunes por terem vírus - o que
provocaria uma mortandade horrível devido a uma boa percentagem de pessoas que
têm complicações graves poderem morrer; a segunda, as vacinas - que não resolvem o
problema mas vão melhorá-lo de imediato. Há neste caso um enorme progresso, mas
falta verificar a eficácia das vacinas.
© Orlando Almeida / Global Imagens

Desconfia das que estão a ser anunciadas?


Há ótimas indicações de que pelo menos duas, talvez três, possam funcionar muito bem
e sem efeitos secundários graves. Apesar de ser a única maneira de sairmos deste
problema rapidamente, não será tão breve assim e levará pelo menos seis a doze
meses.

Surpreende-o este "festival" de vacinas?


Não fico surpreendido de todo. Quando se compara com a vacina da poliomielite, em
que as técnicas eram extremamente rudimentares, é espantoso que se tenha
conseguido sucesso e erradicado a doença. Nas últimas dezenas de anos, as técnicas
têm vindo sempre a desenvolver-se e temos lidado com epidemias - como a do VIH -

que provocaram a aceleração no desenvolvimento das vacinas. A criação de uma vacina


hoje é um problema resolvido do ponto de vista intelectual. Sabe-se o que é preciso
fazer e que caminhos percorrer, o grande problema da velocidade a que se pode criar
uma vacina é ter a garantia de que não se transformará num problema ainda maior.

Receou morrer durante os últimos meses?


Não, de todo, e esse foi um dos aspetos mais curiosos destes tempos, Claro que se
receia a morte mas há formas de nos precavermos contra ela, embora de forma nada
científica, porque tomam-se todos os cuidados e nada garante que não se seja infetado.
O confronto com a morte é real e torna-se ainda mais quando se vive um momento
social muito complexo, em que há conflitos de toda a espécie e uma relativa
incapacidade em os resolver. É preciso sensatez.