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Eugênio S.

Rosa

Escoamento
Multifásico Isotérmico
Modelos de multifluidos e de mistura
R788e Rosa, Eugênio S.
Escoamento multifásico isotérmico [recurso eletrônico] :
modelos de multifluidos e de mistura / Eugênio S. Rosa. –
Dados eletrônicos. – Porto Alegre : Bookman, 2012.

Editado também como livro impresso em 2012.


ISBN 978-85-407-0072-7

1. Mecânica dos fluídos. 2. Escoamento simultâneo –


Gás e líquido. I. Título.

CDU 532

Catalogação na publicação: Ana Paula M. Magnus – CRB 10/2052


Prof. Eugênio S. Rosa

Escoamento
Multifásico Isotérmico

Versão impressa
desta obra: 2012

2012
© 2012, Artmed Editora S.A.

Capa: Maurício Pamplona

Gerente editorial – CESA: Arysinha Jacques Affonso

Assistente editorial: Viviane Borba Barbosa

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IMPRESSO NO BRASIL
PRINTED IN BRAZIL
O Autor

Eugênio Spanó Rosa é professor da Faculdade de Engenharia Mecânica da Universi-


dade Estadual de Campinas (Unicamp) desde 1982. Graduou-se em engenharia me-
cânica em 1980 pela Unicamp e obteve o título de PhD em 1989 pela Case Western
Reserve University, nos Estados Unidos. Desde 1992 trabalha em projetos de pes-
quisa com a Petrobras na área de produção e elevação de petróleo. Endereço do CV:
http://lattes.cnpq.br/5295563566350138.
Apresentação

Desde a sua criação, a Petrobras sempre buscou proporcionar uma sólida capacita-
ção técnica aos seus profissionais. Tal objetivo tem sido alcançado por meio de seus
centros de desenvolvimento de recursos humanos, assim como por acordos de coope-
ração com universidades brasileiras e estrangeiras, onde profissionais da companhia
participam de programas de especialização, mestrado e doutorado.
Professores e pesquisadores dessas universidades, bem como de centros de pes-
quisas de alto nível, têm participado deste processo de aprimoramento da força de
trabalho e constituem parte integrante da rede que suporta o desenvolvimento tecno-
lógico da companhia.
O Prof. Dr. Eugênio Spanó Rosa, integrante do quadro de professores e pesqui-
sadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), autor deste livro, cons-
titui elo importante na qualificação técnica de nossos profissionais, que trabalham
com os grandes desafios de escoamento das reservas do pré-sal brasileiro. A postura
proativa, a rigorosa fundamentação teórica e experimental e a contagiante vibração na
obtenção dos resultados nos projetos fazem do Prof. Eugênio um parceiro na solução
dos desafios de escoamento multifásico e separação submarina.
Esta obra contempla os principais modelos utilizados nos simuladores de es-
coamento bifásico transiente, com uma análise mais aprofundada dos processos de
obtenção das médias no espaço e no tempo das variáveis de escoamento. Representa
um marco na literatura técnica brasileira, reunindo o conhecimento acumulado desde
a década de 1940, disperso em várias publicações.
viii Apresentação

Com a publicação deste livro por meio do Programa de Editoração de Livros


Didáticos da Universidade Petrobras, a companhia incentiva a preservação do conhe-
cimento e continua a investir na capacitação de seus profissionais. Ao mesmo tempo,
disponibiliza para a comunidade científica e acadêmica envolvida com a formação
de novos quadros para a indústria do petróleo a experiência acumulada nos desafios
vencidos no escoamento de fluidos em ambientes e situações adversos.

Nereu Carlos Milani De Rossi


Consultor Sênior na Área de Elevação e Escoamento
Recursos Humanos / Universidade Petrobras
Petróleo Brasileiro S/A - Petrobras
Prefácio

Escoamentos em que duas ou mais fases ocorrem simultaneamente constituem um


desafio à compreensão e à modelagem dos fenômenos físicos envolvidos. Estudos
com base científica nesta área tiveram início no começo do século XX. Medidas ex-
perimentais e modelos correlacionais constituíram a principal fonte de conhecimento.
Na década de 1940, surgiram as primeiras abordagens para modelar escoamentos
multifásicos utilizando processos de médias, mas esta metodologia só foi formalizada
nas décadas de 1960 e 1970 e é conhecida atualmente por modelo de dois fluidos e
modelo de mistura.
Os modelos de dois fluidos e de mistura, dada a sua relativa simplicidade e ca-
pacidade de simular situações reais de campo, ganharam grande popularidade. Atual-
mente, estes modelos e suas variantes são largamente empregados em simuladores de
escoamentos multifásicos. Eles baseiam-se em processos de médias que condensam a
influência da interface para alguns termos extras nas equações de transporte. Apesar
da simplicidade dos termos resultantes, sua interpretação física é obscurecida pelos
processos de média. O objetivo deste livro é a apresentação dos modelos de dois
fluidos e de mistura enfatizando os aspectos físicos e matemáticos de suas estruturas
com vistas à sua aplicação em escoamentos multifásicos. Estes aspectos são consi-
derados fundamentais para o desenvolvimento de novos cenários de aplicações e à
incorporação de dados experimentais aos modelos, uma vez que estes procedimentos
requerem conhecimento aprofundado sobre a representação física de cada termo dos
modelos. De forma complementar, procurou-se tornar o desenvolvimento da teoria
destes modelos o mais genérico possível para aplicações em sistemas gás-líquido,
líquido-sólido, gás-sólido e líquido-líquido. Além disto, a teoria desenvolvida tam-
x Prefácio

bém permite estender a aplicação para sistemas com três fases presentes, sendo esta a
razão da palavra “multifluidos” no título do livro.
A motivação desta obra foi reunir num único documento informações que estão
espalhadas em diversas fontes e apresentá-las em linguagem acessível. O processo de
média, extensivamente utilizado nos modelos, é tratado em grande parte das referên-
cias existentes em língua portuguesa de modo superficial ou incompleto. Buscando
uma abrangência maior neste tópico, o livro traz uma revisão dos processos de média
baseados no tempo, volume e conjunto e trata das suas aplicações no Teorema de
Gauss e na Regra de Leibniz. Também introduz a teoria de funções generalizadas
para desenvolver o conceito de média em funções descontínuas, que é largamente
empregado para obter as equações médias de transporte.
O livro contém dez capítulos e apresenta, em detalhes, a forma transiente 3D e
1D dos modelos de dois fluidos e de mistura, assim como os modelos de fases sepa-
radas, homogêneo e de escorregamento (slip). Além disto, são introduzidas relações
cinemáticas, incluindo relação de deslizamento de Zuber e Findlay. Seu conteúdo
apóia-se em parte em trabalhos originalmente publicados durante as décadas de 1970
a 1990, entretanto outra parte significativa apóia-se nas pesquisas realizadas junto ao
grupo de escoamento multifásico da Unicamp, que tiveram início durante a década
de 1990. Apesar dos modelos terem capacidade de representar sistemas bifásicos em
geral, isto é, gás-líquido, gás-sólido, líquido-sólido, por exemplo, a sua forma final
é definida em função das equações constitutivas de fechamento que, por sua vez,
dependem da natureza das fases e do padrão do escoamento. Neste sentido, o escopo
das aplicações dos modelos apresentados é restrito ao escoamento de gás-líquido.
O conteúdo de cada capítulo é apresentado de forma resumida a seguir. Uma
introdução ao assunto de modelagem e aos padrões de escoamento é realizada no
Capítulo 1. No Capítulo 2, são apresentadas as equações locais e instantâneas das
fases. Os processos de média no tempo, no espaço e conjunto são introduzidos no
Capítulo 3. A caracterização da interface e o conceito de densidade de área interfacial
são dados no Capítulo 4. As equações da massa e da quantidade de movimento para
um campo 3D são deduzidas no Capítulo 5 em função do produto dos termos médios,
a partir dos Teoremas de Gauss e de Leibniz. O Capítulo 6 apresenta o modelo de dois
fluidos 3D com suas equações de fechamento. A versão 1D do modelo de dois fluidos
é apresentada no Capítulo 7 juntamente com sua especialização conhecida por mode-
lo de fases separadas. Associados aos Capítulos 2 a 7, há seis apêndices cuja exten-
são é comparável ao texto principal. Os Apêndices A e B têm por finalidade dar um
embasamento ao leitor na teoria de funções generalizadas e introduzir o Teorema de
Gauss e a Regra de Leibniz para funções descontínuas e sua aplicação nos processos
de médias. Estes tópicos foram abordados no apêndice com o intuito de apresentar a
teoria matemática dos processos de médias para funções descontínuas. Os Apêndices
C, D e E tratam das forças em partículas e de seus coeficientes empíricos. Eles apli-
cam-se em escoamentos dispersos. Finalmente, no Apêndice F é apresentado o pro-
Prefácio xi

cesso de média na seção transversal para se obter a forma diferencial das equações de
transporte. O conceito de mistura multifásica e a determinação de suas propriedades,
assim como as definições das velocidades da mistura em relação ao centro de massa e
ao centro de volume, são apresentadas no Capítulo 8. As equações de transporte para
o modelo de mistura num campo 3D são apresentadas no Capítulo 9. Esse modelo é
expresso por equações de conservação em termos das variáveis dependentes: veloci-
dade de mistura, fração de vazios e pressão, juntamente com um estudo de ordem de
grandeza dos termos das equações de transporte para se chegar ao modelo homogê-
neo. Uma simplificação significativa no modelo de mistura é realizada no Capítulo 10
onde as variações espaciais na direção transversal ao escoamento são condensadas de
forma que a equação de transporte resultante passa a ser 1D e transiente. O modelo
1D de mistura é apresentado em termos das variáveis de mistura e por variáveis pri-
mitivas: velocidade das fases, pressão e fração de vazios. Estas formulações formam
a base dos simuladores comerciais.
O autor agradece ao professor Donald Drew pelas discusões relativas às inter-
pretações dos termos resultantes dos processos de média e também aos professores
Jader R. Barbosa Jr. e Angela O. Nieckele pelas inúmeras sugestões na obra. Agra-
dece ainda o apoio recebido da Petrobras para publicação desta obra e também ao
seu corpo de engenheiros, com quem em convívio nos últimos 20 anos muito pôde
aprender sobre escoamento multifásico.
Nomenclatura

A – área da seção transversal (m2)


ai – densidade de área interfacial (1/m)
c – concentração mássica ou título
CD – coeficiente de arrasto de uma partícula
Cf – fator de atrito de Fanning
C0 – parâmetro de distribuição das fases
Dk – tensor deformação da fase k (1/s)
Dp – diâmetro da partícula (sólida, líquida ou gás) (m)
Eo – número de Eotvos
f – função genérica ou fator de atrito de Darcy
g – aceleração da gravidade (m/s2)
G – fluxo de massa (kg/s/m2)
H – função degrau unitário Heaviside
I – tensor identidade
J – tensor genérico de segunda ordem
j – velocidade superficial ou fluxo volumétrico da mistura (m/s)
jk – velocidade superficial ou fluxo volumétrico da fase k (m/s)
M – número de amostras
m· – vazão mássica (kg/s)
M ki – densidade de força interfacial da fase k (N/m3)
Mo – número de Morton
mp – massa da partícula
– vetor normal
xiv Nomenclatura

ND – grupo adimensional de deslizamento


Nph – grupo adimensional de mudança de fase
P – pressão (Pa)
q – vazão volumétrica (m3/s)
Rek – Reynolds da fase k
s – área da interface (m2)
S – perímetro do tubo (m)
SG – perímetro molhado pela fase gás (m)
Si – perímetro da interface (m)
SL – perímetro molhado pela fase líquido (m)
t – tempo (s)
T – tensor das tensões (Pa)
v – velocidade (m/s)
vk,j – velocidade de deslizamento da fase k em relação ao volume (m/s)
k,j
– velocidade média de deslizamento na seção transversal (m/s)
vk,m – velocidade de difusão da fase k em relação a mistura (m/s)
m
– velocidade de mistura média na seção transversal (m/s)
∀ – volume de amostragem (m3)
Xk – função indicadora da fase k
We – número de Weber

Gregos
α – concentração volumétrica da fase ou fração de vazios
δ – função delta de Dirac
ρ – massa específica (kg/m3)
μ – viscosidade dinâmica (Ns/m2)
σ – tensão superficial (N/m)
Γ – vazão mássica devido à mudança de fase (kg/s/m3)
ψ – variável genérica na equação de transporte

Sub e Superíndices
C – média de conjunto
f – fluido (gás ou líquido) usualmente a fase contínua
G – fase gás
i – interface
k – fase
Nomenclatura xv

L – fase líquido
m – mistura
p – partícula (gás, líquido ou sólido) usualmente a fase dispersa
T – média temporal
∀ – média de volume

Operadores

ψ – barra superior, operador generalizado de média (tempo, volume ou conjunto)
< > – operador de média na seção transversal
< >α – operador de média ponderada em α na seção transversal

Definições dos operadores de média

– identidade fundamental relacionada à média


– média ponderada pela função indicadora de
fase
– média ponderada pela função indicadora de
fase e densidade
– média na seção transversal

– média na seção transversal ponderada pela


função indicadora de fase
Sumário

Capítulo 1 Conceitos Básicos em Escoamentos Multifásicos ...................1


1.1 Grandezas e notação em escoamentos multifásicos .................. 4
1.2 Problema fundamental em escoamento multifásico .................. 7
1.3 Métodos de análise .................................................................. 13

Capítulo 2 Equações de Transporte Locais e Instantâneas ....................17


2.1 Salto na interface ..................................................................... 17
2.2 Sumário das equações de transporte e condição de salto na
interface ................................................................................... 19

Capítulo 3 A Função Indicadora da Fase e os Processos de Média .......21


3.1 Classificação dos dados aleatórios .......................................... 21
3.2 Função indicadora da fase, Xk ................................................. 24
3.3 Médias ponderadas .................................................................. 26
3.4 Comentários finais .................................................................. 35

Capítulo 4 Representação da Interface ...................................................37


4.1 Superfície, velocidade e deslocamento da interface ................ 37
4.2 Função indicadora da fase para média temporal ..................... 40
4.3 Função indicadora da fase para média de volume ................... 41
4.4 Função indicadora da fase para média de conjunto ................. 42
4.5 Densidade de área interfacial .................................................. 43
4.6 Quadro comparativo ................................................................ 46
xviii Sumário

Capítulo 5 Equações Médias de Transporte ...........................................47


5.1 Equação média de transporte .................................................. 47
5.2 Definição de variáveis médias e a decomposição
de Reynolds ............................................................................. 50
5.3 Equação de transporte em função dos termos médios ............. 53
5.4 Comentários finais .................................................................. 56

Capítulo 6 Modelo de Dois Fluidos 3D e suas Equações Constitutivas ..59


Equação da conservação da massa ................................................... 60
Equação da quantidade de movimento ............................................. 60
6.1 Equações constitutivas para o tensor das tensões .................... 61
6.2 Arranjo espacial das fases e os termos interfaciais ................. 63
6.3 Equação constitutiva para o termo de mudança de fase .......... 65
6.4 Equação constitutiva para o termo de força interfacial –
forma canônica ........................................................................ 66
6.5 Equação constitutiva para a força interfacial –
padrão disperso ....................................................................... 66
6.6 Equação constitutiva para a força interfacial –
padrão estratificado ................................................................. 73
6.7 Outros termos interfaciais ....................................................... 75
6.8 Outras aplicações do modelo de dois fluidos .......................... 77
6.9 Comentários finais .................................................................. 79

Capítulo 7 Modelo de Dois Fluidos 1D ....................................................81


7.1 Modelo de fases separadas ...................................................... 86
7.2 Modelo de fases separadas – padrão estratificado................... 89
7.3 Modelo de fases separadas – padrão anular ............................ 99
7.4 Comentários finais ................................................................ 107

Capítulo 8 Propriedades de Misturas e Conceitos Cinemáticos............109


8.1 Definições de velocidades ..................................................... 112

Capítulo 9 Modelo de Mistura 3D ..........................................................117


9.1 Equação de conservação da massa da mistura ...................... 119
9.2 Equação de conservação da massa da fase k ......................... 120
9.3 Equação de quantidade de movimento da mistura ................ 122
9.4 Equações de transporte para o modelo de mistura ................ 123
9.5 Equações constitutivas para a velocidade de deslizamento
(duas fases) ............................................................................ 125
9.6 Equação constitutiva para o tensor de tensões da mistura ..... 131
Sumário xix

9.7 Análise de escala do modelo de mistura ............................... 134


9.8 Modelo homogêneo............................................................... 136
9.9 Comentários finais ................................................................ 139

Capítulo 10 Modelo de Mistura 1D ..........................................................141


10.1 Definição das médias na seção transversal............................ 142
10.2 Relações cinemáticas ............................................................ 143
10.3 Equações de transporte para o modelo de mistura 1D .......... 148
10.4 Equações de transporte para o modelo
Drift Flux 1D ......................................................................... 149
10.5 Equações constitutivas para o modelo Drift Flux 1D ............ 154
10.6 Sumário do Modelo Drift Flux .............................................. 162
10.7 Forma alternativa ao modelo de mistura 1D – TACITE ........ 165
10.8 Comentários finais ................................................................ 167

Apêndice A Funções Generalizadas .......................................................171


A.1 A função delta ....................................................................... 172
A.2 Operações com a função delta............................................... 173
A.3 Função generalizada .............................................................. 174
A.4 Derivada de uma função escalar com salto ........................... 177
A.5 Operações da função delta no espaço 3D .............................. 179

Apêndice B Teorema de Gauss e Leibniz para Funções Descontínuas .183


B.1 Regra de Leibniz ................................................................... 184
B.2 Teorema de Gauss ................................................................. 190
B.3 Sumário: Regra de Leibniz e Teorema de Gauss................... 194

Apêndice C Forças em Partículas ...........................................................197


C.1 Equação do movimento de uma única partícula num
fluido em movimento ............................................................ 199
C.2 Força interfacial média por unidade de volume para uma
População de partículas ......................................................... 207
C.3 Forma alternativa à força interfacial média ........................... 208
C.4 Análise de casos .................................................................... 209

Apêndice D Coeficientes Empíricos ........................................................215


D.1 Força de basset em em uma única partícula .......................... 215
D.2 Força de massa aparente em uma única partícula ................. 217
D.3 Força de sustentação em uma única partícula ....................... 218
D.4 Força de parede ..................................................................... 222
xx Sumário

D.5 Força de arrasto em uma única partícula ............................... 224


D.6 Efeito da concentração nas forças interfaciais ...................... 231

Apêndice E Velocidade Relativa de uma Única Partícula .......................235


E.1 Velocidade relativa de uma única partícula em um tubo ....... 239

Apêndice F Equação de Transporte 1D ..................................................241


F.1 Parâmetro de distribuição, Cψ,v .............................................. 244

Referências .............................................................................................247

Índice .......................................................................................................257
Conceitos CAPÍTULO
Básicos em
Escoamentos
Multifásicos
1

Escoamento multifásico aplica-se quando mais de uma fase está escoando simulta-
neamente. Por fase subentende-se uma região do espaço delimitada por uma interface
de espessura infinitesimal que encerra em seu interior um material com composição
química homogênea, propriedades de transporte e de estado definíveis e que é sepa-
rável por processos mecânicos. O termo fase frequentemente é usado como sinônimo
do estado da matéria: gás, líquido ou sólido. Essa ambiguidade do uso do termo fase
pode causar uma insegurança no emprego do termo multifásico uma vez que nem
sempre o número de estados da matéria corresponde ao número de fases de uma
mistura de materiais. A Tabela 1.1 traz exemplos de misturas de materiais com uma
ou múltiplas fases.

TABELA 1.1 Exemplos de misturas com múltiplas fases e múltiplos materiais


Fase
Material Único/a Múltiplos/as
Único escoamento água estado líquido escoamento de água em ebulição
(um material e uma fase) (um material e duas fases)
Múltiplos escoamento de ar (mistura de mistura de gás, óleo e areia (três
gases e uma fase) materiais e três fases)

Os modelos que serão desenvolvidos aplicam-se a um escoamento com múl-


tiplas fases em que a razão entre as dimensões características das fases e as dimen-
sões da escala molecular é várias ordens de magnitude maior do que a unidade. Por
2 Escoamento Multifásico Isotérmico

exemplo, bolhas de gás ou sólidos dispersos em líquido são misturas em que as


fases são facilmente identificáveis e, portanto, a razão entre a dimensão da fase e a
dimensão molecular é muito maior que a unidade. Por outro lado, uma mistura de
gases não pode ser modelada pela metodologia a ser desenvolvida, uma vez que as
dimensões características das fases e a distância molecular entre elas são da mesma
ordem de magnitude! Nesse último caso o fluido também é denominado solução, e
é composto por diversos materiais distintos, intrinsecamente misturados, de forma
a dificultar uma identificação imediata de seus constituintes. Entre esses dois extre-
mos da escala existe uma classe de misturas conhecidas como emulsões e colóides
que apresentam uma razão de dimensões características intermediárias e por vezes
nem o tratamento de misturas multifásicas e tão pouco o tratamento de soluções são
os mais adequados para sua modelagem física.
Com o intuito de facilitar a compreensão do texto e destacar a abrangência da
área de escoamentos multifásicos, estes foram classificados de acordo com as fases
envolvidas: gás-líquido, gás-sólido, líquido-sólido e líquido-líquido, evidenciando as
aplicações industriais e em fenômenos naturais.

Sistemas gás-líquido O movimento de bolhas alongadas de gás em um meio líqui-


do é um exemplo de escoamento de gás-líquido que ocorre com frequência na área de
produção de petróleo. Esses escoamentos podem ocorrer em linhas verticais, horizon-
tais e inclinadas, e envolvem a coluna de produção e a linha de transporte que conecta
o poço ao separador. Os escoamentos de gás e líquido também ocorrem na indústria
de geração de energia (nuclear, fóssil e geotérmica), em geradores de vapor, em con-
densadores; em sistemas de atomização aplicados a combustão, combate a incêndio
ou agricultura na forma de gotas de líquido dispersas no gás; em fenômenos naturais
tais como a nucleação de gotas de chuva; em questões de segurança na indústria nu-
clear simulando acidentes por perda de refrigerante (LOCA) onde a ebulição junto ao
núcleo é controlada e inibida pela injeção água fria; no transporte de gás natural em
gasodutos que, pela presença de condensados, pode formar um padrão anular onde
uma camada de condensado escoa junto à parede enquanto que no núcleo predomina
a fase gás transportando gotas de condensado.

Sistemas gás-sólido Material sólido disperso numa fase contínua gasosa é o tipo
mais frequente de escoamento gás-sólido. Esse tipo de escoamento engloba o trans-
porte pneumático e leitos fluidizados com grande aplicação industrial. Ele também
é encontrado em equipamentos de separação, tais como ciclones e precipitadores
eletrostáticos utilizados em controle de poluição, indústria química, de cimento, de
alimentos e agroindústria; em escoamentos naturais onde sólidos são transportados
na atmosfera, tais como transporte da areia do Saara para Europa e região Amazô-
nica ou em escoamento em regime granular que controla a formação de dunas em
desertos e em leitos de rios e mares. Escoamentos granulares ocorrem quando as
forças entre partículas e partícula-gás são mais importantes do que as forças atuantes
na fase gás. Há também aplicação na área de combustão de sólidos onde carvão é
disperso na forma de pequenas partículas para aumentar a eficiência de queima em
Capítulo 1 Conceitos Básicos em Escoamentos Multifásicos 3

aquecedores e geradores de vapor. Por último, quando o sólido permanece estacio-


nário, o problema reduz para o escoamento num meio poroso onde a força viscosa
na superfície das partículas sólidas é o principal mecanismo que controla o movi-
mento da fase gás. Este tipo de escoamento também é considerado um escoamento
multifásico com aplicações em trocadores de calor com leito fixo, regeneradores de
calor, processos de filtração, e em rochas porosas encontradas nos reservatórios de
gás natural e petróleo.

Sistema líquido-sólido Sólido disperso numa fase contínua líquida é o tipo mais
frequente de escoamento líquido-sólido usualmente denominado por suspensão só-
lido-líquido. Ele ocorre no transporte de minérios em geral, em operações de perfu-
ração de poços de petróleo. Em algumas situações, o transporte de sólidos em sus-
pensão não é desejado, uma vez que ele causa desgaste prematuro nos equipamentos
devido à erosão. Nesses casos é necessário projetar equipamento para separação de
sólido, tal como ocorre na área de produção de petróleo com ocorrência de areia e
na área siderúrgica para eliminar incrustações sólidas do aço líquido. Por último,
o escoamento da fase líquida através de um sólido é outro exemplo de meio poroso
encontrado nos reservatórios de petróleo assim como no estudo da difusão de líquidos
em sólidos, conhecido como percloração, com aplicações em dimensionamento de
barragens e no estudo de contaminação de solos.

Sistema líquido-líquido Dois líquidos imiscíveis assumem diversas configurações


dentro da tubulação devido à diferença de viscosidade e de densidade. Este tipo de
escoamento ocorre em sistemas de elevação de óleo pesado onde água é injetada e se
desloca junto à parede para que no núcleo escoe o óleo de forma a causar uma signi-
ficativa redução de atrito se comparado com o escoamento monofásico de óleo. Ha-
vendo dissipação de energia no sistema líquido-líquido, seja por ação de um agitador
ou pela diferença de velocidades, eventualmente obtêm-se emulsões líquido-líquido.
As emulsões líquido-líquido são formadas naturalmente no processo de extração do
petróleo e como produto manufaturado na indústria química. Além disso, a maio-
ria dos fluidos biológicos, incluindo o sangue, pode ser considerada uma emulsão.
Outras aplicações de sistemas líquido-líquido ocorrem em processos de extração ou
separação de líquidos na indústria química.

Sistemas multifásicos O agrupamento em sistemas bifásicos como exposto aci-


ma é uma conveniência, pois, em situações reais, é frequente a ocorrência de múl-
tiplas fases, tais como escoamentos de óleo-água-gás frequentes na produção de
petróleo ou de gás no escoamento sólido-líquido, como ocorre em transporte de gás
natural com ocorrência de areia e condensado. Apesar da teoria desenvolvida para
os modelos de dois fluidos e de mistura dar suporte para escoamentos multifásicos,
suas aplicações ainda são raras e os desenvolvimentos nesta área baseiam-se na ex-
periência prática e empírica. Novas técnicas experimentais aliadas a recursos com-
putacionais estão permitindo alguns avanços nesta área ainda carente de pesquisa
básica e fundamental.
4 Escoamento Multifásico Isotérmico

1.1 GRANDEZAS E NOTAÇÃO EM ESCOAMENTOS


MULTIFÁSICOS
Por se tratar de um fenômeno que pode envolver diversas fases, a notação é sempre
um problema a parte em escoamentos multifásicos. Infelizmente, não há consenso
quanto ao emprego de símbolos para representar velocidades, concentrações, densi-
dades, etc. Obras publicadas no ocidente empregam uma nomenclatura relativamente
próxima entre si, porém obras como Nigmatulim (1991) e Kolev (2005), publicadas
na Rússia e Alemanha, respectivamente, apresentam uma notação totalmente distinta
daquela utilizada no ocidente, o que dificulta bastante a sua compreensão. A notação
empregada neste trabalho segue aproximadamente a notação empregada por Wallis
(1969), Drew e Passman (1999) e Ishii e Hibiki (2006).
Todas as variáveis são definidas à medida que forem surgindo ao longo do tex-
to. Entretanto, foram escolhidas algumas variáveis para serem definidas de forma
antecipada para facilitar a compreensão das seções subsequentes e também por serem
largamente empregadas na análise de escoamentos multifásicos.
As definições que seguem referem-se aos valores médios das variáveis. Neste
momento, porém, o processo de média não será abordado, isto será feito no capítulo
3. Além disto, algumas relações são demonstradas a partir de hipótese unidimensio-
nal por ser mais intuitiva nesta seção introdutória. Apesar disto, as definições apre-
sentadas são válidas para situações tri-dimensionais incluindo as variáveis vetoriais;
uma definição generalizada será apresentada nos Capítulos 8 e 10.
O subscrito k associado a uma variável denota sua fase. Dependendo do contexto,
k pode ser “f” e “p”, representando as fases contínua e dispersa, respectivamente, ou, em
sistemas gás-líquido, k pode assumir G ou L significando fase gás ou líquido. Generica-
mente, k pode representar uma mistura com n fases presentes, de forma que 1 ≤ k ≤ n.

1.1.1 Vazão mássica, (kg/s)


A vazão mássica da mistura é representada por , enquanto que a vazão mássica da
fase k é representada por k, onde 1 ≤ k ≤ n. Na ausência de reações químicas a massa
total da mistura é conservada de forma que:

(1.1)

1.1.2 Vazão volumétrica, q (m3/s)


Para um dado ponto no escoamento ou seção transversal de um tubo, as vazões vo-
lumétricas da mistura e da fase k são representadas, respectivamente, por q e qk onde
1 ≤ k ≤ n. Considerando uma seção transversal de um tubo e na ausência de reações
químicas, o volume total da mistura é conservado de forma que:

(1.2)
Capítulo 1 Conceitos Básicos em Escoamentos Multifásicos 5

1.1.3 Fluxo de massa, G (kg/m2s)


Gk representa o fluxo de massa por unidade de área das fases individuais onde
1 ≤ k ≤ n, enquanto que G representa o fluxo total da mistura. O fluxo de massa total,
assim como a vazão mássica, é conservado. Além disso, se considerarmos a área da
seção transversal de um tubo, então Gk é definido como a razão entre a vazão mássica
da fase k e a área transversal do tubo:

onde (1.3)

1.1.4 Fluxo volumétrico ou velocidade superficial jk (m/s)


O fluxo volumétrico por unidade de área da fase k, onde 1 ≤ k ≤ n, é definido como
a razão entre a vazão volumétrica da fase k e a área da seção transversal do tubo. Por
sua vez, o fluxo volumétrico da mistura é definido como sendo a soma dos fluxos
volumétricos das fases:

e (1.4)

Em particular, jk representa a velocidade média que a fase k exibiria se escoasse


sozinha na tubulação. Por meio do produto entre o fluxo volumétrico e a densidade da
fase k pode-se redefinir o fluxo mássico da fase k como:
(1.5)

1.1.5 Probabilidade de ocorrência da fase k, αk (adimensional)


A probabilidade de ocorrência da fase k é representada por αk. Se o processo de mé-
dia for baseado no volume, αk passa a representar a fração volumétrica da fase k num
volume de amostragem popularmente conhecido como fração de vazios. Se o proces-
so de média for baseado no tempo, αk representa a fração do tempo total de amostra-
gem que a fase k ocorre numa determinada região do escoamento. Por último, se o
processo de média for obtido por meio de uma média de conjunto, então αk representa
a probabilidade de ocorrência da fase k no processo. Para processos ergóticos, as
médias no volume, tempo e conjunto são coincidentes (veja Capítulo 3). A soma das
probabilidades de ocorrência das fases tem que ser unitária, isto é:

(1.6)

Se α for conhecido para (n-1) fases, então a última fase pode ser obtida da
equação acima. Para uma mistura bifásica, α1 + α2 = 1, logo α2 = 1 − α1. A fra-
ção do líquido sendo o complemento da fração do gás torna a notação indicial
redundante; nestas condições os índices são abandonados. Para um escoamento
gás-líquido unidimensional num tubo de seção transversal A, a fração volumétrica
6 Escoamento Multifásico Isotérmico

da fase gás é definida pela razão entre a área ocupada pela fase e a área transversal
da seção:

e , onde (1.7)

1.1.6 Densidade de área interfacial, ai (1/m)


A densidade de área interfacial por unidade de volume expressa a razão entre as áreas
interfaciais contidas num volume de amostragem,

(1.8)

onde j representa o número de interfaces contidas no volume de amostragem ∀, sendo


1 ≤ j ≤ m, e dsj é o elemento de área da interface j pertencente a fase k. Este parâme-
tro pondera a magnitude dos termos interfaciais que definem o transporte de massa,
quantidade de movimento e energia. O recíproco de ai é um comprimento que equiva-
le à distância média entre as partículas.

1.1.7 Velocidade da fase k, vk (m/s)


Para um escoamento unidimensional num tubo com seção transversal A, a velocidade
média da fase k pode ser definida como sendo a razão entre a vazão volumétrica da
fase k e a área transversal ocupada pela fase k:
(1.9)

Empregando o conceito de fração volumétrica, pode-se expressar a velocidade


real da fase k em função da sua velocidade superficial:
(1.10)

1.1.8 Densidade, entalpia e entropia da mistura, ρm(kg/m3),


hm (J/kg) e sm (J/kgK)
A densidade de uma mistura com n fases pode ser expressa pela soma do produto das
as densidades e as frações de vazio das fases:

(1.11)

A entalpia e a entropia média da mistura podem ser igualmente definidas como:

e (1.12)
Capítulo 1 Conceitos Básicos em Escoamentos Multifásicos 7

1.1.9 Concentração ou título mássico, ck (adimensional)


A concentração, ou título mássico, da fase k é definida como sendo a razão entre a
massa da fase e a massa da mistura:

(1.13)

1.1.10 Velocidade de deslizamento (drift), vk,j (m/s)


A velocidade de deslizamento (drift velocity) da fase k é definida como sendo a ve-
locidade da fase k relativa a um referencial que se move com a velocidade do centro
de volume da mistura:
(1.14)

1.1.11 Fluxo volumétrico de deslizamento (drift flux), jk,j (m/s)


O fluxo de deslizamento de uma fase k é definido como sendo o fluxo volumétrico da
fase k que cruza uma superfície que se desloca com a velocidade da mistura:

(1.15)

Note que a soma dos fluxos de deslizamento é sempre nula:

(1.16)

Para uma mistura gás-líquido, jG,j = −jL,j, e, além disso, considerando que
αL = (1−α), pode-se mostrar que o fluxo de deslizamento de uma mistura bifásica
pode ser expresso por meio da velocidade relativa das fases:
(1.17)

1.1.12 Velocidade de difusão, vk,m (m/s)


A velocidade de difusão da fase k é definida como sendo a velocidade da fase k rela-
tiva a um referencial que se move com a velocidade do centro de massa da mistura:

(1.18)

1.2 PROBLEMA FUNDAMENTAL EM ESCOAMENTO


MULTIFÁSICO
As equações de transporte devem ser capazes de descrever os fenômenos de transpor-
te de massa, quantidade de movimento e energia no escoamento multifásico.
8 Escoamento Multifásico Isotérmico

A quantidade de informação necessária para realizar uma análise em um escoa-


mento multifásico é grande. A complexidade do escoamento multifásico pode ser
compreendida se o compararmos com o escoamento monofásico. Um escoamento
isotérmico com duas fases requer aproximadamente o dobro de variáveis requeridas
pelo escoamento monofásico, o dobro de equações constitutivas para o fechamento
do conjunto de equações e o dobro do conhecimento da viscosidade e densidade das
fases, do diâmetro e inclinação da tubulação e das vazões mássicas das fases.
A complexidade inerente ao escoamento multifásico não vem somente da quan-
tidade de equações e variáveis que devem ser resolvidas simultaneamente, mas do aco-
plamento existente entre as fases. Considere, por exemplo, um escoamento com partí-
culas dispersas num meio contínuo fluido. A presença das partículas altera as equações
de transporte das fases. Por exemplo, se houver mudança de fase, o balanço de massa
das fases é alterado. As forças interfaciais, devido ao arrasto, sustentação e empuxo da
partícula, podem mudar substancialmente o balanço de forças nas equações de quanti-
dade de movimento das fases. Finalmente, adição ou remoção de calor, devido a efeitos
de reação química entre as fases, podem alterar o balanço de energia delas. A Figura
1.1 representa esquematicamente o acoplamento entre as fases e seus efeitos.

Fase contínua Fase dispersa

Massa
• Pressão • Temperatura
• Temperatura • Velocidade
Q. Movimento
• Velocidade • Dimensão do
• Componentes componente
Energia
• Concentração • Concentração

FIGURA 1.1 Representação esquemática do acoplamento entre fases e seus efeitos.

O acoplamento entre as fases pode variar de acordo com a concentração destas.


Crowe (2006) sugere que a intensidade com que a fase dispersa influencia a fase con-
tínua depende da razão entre a distância média entre as partículas, Lp, e do diâmetro
da partícula, Dp. A Figura 1.2 traz uma representação esquemática de um escoamento
com partículas dispersas com três razões Lp/Dp que correspondem a misturas com con-
centração de partículas: diluída, intermediária e densa. Pode-se esperar que o grau do
acoplamento cresça com o aumento das densidades de partículas ou com a diminuição
da razão Lp/Dp. Crowe (2006) classifica o acoplamento partícula-fluido em três catego-
rias: uma via, duas vias e quatro vias, que correspondem aproximadamente a misturas
diluídas, intermediárias e densas, conforme a representação na Figura 1.3.
Nas misturas diluídas a concentração de partículas é tão pequena que pratica-
mente não afeta as equações de transporte da fase contínua. O campo da fase contínua
pode ser determinado como se fosse um campo de um escoamento monofásico. So-
mente a fase contínua influencia o transporte da partícula. Por este motivo o acopla-
Capítulo 1 Conceitos Básicos em Escoamentos Multifásicos 9

mento é denominado de uma via. Em misturas com densidades intermediárias, a fase


contínua influencia o transporte da partícula, mas as partículas também influenciam
o transporte da fase contínua. Esse tipo de acoplamento é denominado de duas vias.
Apesar de haver uma concentração de partículas suficientemente alta para alterar o
transporte da fase contínua, elas ainda mantêm uma distância grande entre si, de for-
ma a inibir uma interação entre partículas, tais como esteiras e colisões. Finalmente,
o acoplamento de quatro vias é caracterizado por uma alta concentração de partículas,
de forma que as partículas estão acopladas com a fase contínua e com elas próprias.
As diferentes formas de acoplamento sugerem que a física dos fenômenos interfaciais
também seja distinta. As diferentes formas de acoplamento demandam um esforço
maior no desenvolvimento dos modelos a fim de capturar o comportamento dos dife-
rentes fenômenos físicos envolvidos.

U Lp U U
Lp

Mistura Mistura Mistura


diluída intermediária densa
FIGURA 1.2 Representação esquemática de uma mistura de partículas dispersas em um
fluido com concentração diluída, intermediária e alta. Lp refere-se à distância livre entre as
partículas.

Partícula Partícula Partícula Partícula

quatro
uma duas vias
via vias

Fase contínua Fase contínua Fase contínua

FIGURA 1.3 Representação esquemática do acoplamento entre fases dispersa e contínua


numa mistura: uma via, duas vias e quatro vias.

O grau de complexidade não está restrito somente ao tipo de acoplamento entre


as fases. De fato, para desenvolver um modelo que capture o comportamento físico
dos termos interfaciais é também necessário conhecer como as fases estão distribuídas
espacialmente no escoamento, sua dimensão característica e sua densidade de área in-
terfacial. As propriedades geométricas da interface, por sua vez, dependem das vazões
das fases, do diâmetro e da inclinação da tubulação e das propriedades de transporte
10 Escoamento Multifásico Isotérmico

das fases. Na Figura 1.4 foi escolhido um escoamento vertical ascendente de uma mis-
tura de ar e água para demonstrar qualitativamente como as propriedades topológicas
da interface mudam com a variação da vazão. A vazão de água foi mantida constante
enquanto que a vazão de ar foi progressivamente crescendo da imagem (a) para a (f).

FIGURA 1.4 Características visuais dos padrões de escoamento encontrados no escoamento


vertical ascendente de ar e água: (a) bolhas; (b) capa esférica; (c) golfadas; (d) golfadas instá-
veis; (e) semianular e (f) anular.

Uma forma prática de referenciar as características qualitativas das diferentes


distribuições das interfaces é associá-las a diferentes nomes. Estes nomes são de-
nominados por padrão ou regime do escoamento e têm por função associar a uma
palavra todas as características geométricas de um específico arranjo das interfaces.
Os padrões de escoamento são descritores linguísticos que caracterizam a topologia
da interface. Os seis padrões mostrados na figura ocorrem em regiões definidas por
valores limites nas velocidades das fases, nos diâmetros e inclinações da tubulação e
nas propriedades de transporte das fases.
Infelizmente, não há um completo consenso na utilização dos nomes para iden-
tificar os padrões, nem tão pouco se eles são considerados padrões ou subpadrões ou
mesmo descritores de transição entre um padrão e outro. Neste exemplo estão dis-
criminados seis padrões cujos nomes vêm acompanhados entre parênteses por sua
denominação em língua inglesa como fonte adicional de referência. Eles são: bolhas
(bubbly), capa-esférica (spherical cap), golfadas (slug), golfadas instáveis (unstable
slug), semianular (semi-annular) e anular (annular). Caso houvesse um incremento
Capítulo 1 Conceitos Básicos em Escoamentos Multifásicos 11

maior na vazão de gás seria possível observar, a direita da imagem (f), um sétimo pa-
drão caracterizado por gotas de líquido dispersas na corrente de gás também conheci-
do como nevoeiro (mist flow). As características de cada padrão são descritas a seguir.
O padrão bolhas representa dois tipos de distribuições: bolhas monodispersas
e bolhas discretas. As bolhas monodispersas apresentam forma esférica, tamanho
uniforme, trajetórias retilíneas e não possuem interação com as bolhas vizinhas. As
bolhas discretas, veja a Figura 1.4(a), possuem tamanhos variados, formas não esfé-
ricas ou distorcidas, descrevem trajetórias em zigue-zague, viajam ao longo do tubo
em formas de ondas de vazio e interagem entre si, podendo apresentar coalescência.
Conforme a vazão de gás aumenta, as bolhas discretas coalescem, formando bo-
lhas maiores, com forma de uma capa esférica, que tomam parcialmente ou completa-
mente a seção transversal do tubo, veja a Figura 1.4(b). O aumento da vazão de gás faz
com que as capas esféricas coalescam em bolhas alongadas, também conhecidas por
bolhas de Taylor, que ocupam quase toda a seção transversal do tubo e possuem vários
diâmetros em extensão axial. As bolhas alongadas são precedidas por pistões de líquido
que podem ou não conter bolhas de gás disperso caracterizando o padrão de golfadas,
veja a Figura 1.4(c). As bolhas escoam concêntricas ao tubo com um filme de líquido
anular separando a fase gás da parede do tubo. Enquanto que a trajetória da bolha é
ascendente, a velocidade média do filme de líquido ao redor da bolha é descendente.
O padrão de golfadas instáveis sucede o padrão de golfadas conforme a vazão
de gás aumenta, veja a Figura 1.4(d). O termo “golfadas instáveis” foi cunhado por
Costigan e Whalley (1997). Esse padrão é caracterizado quando a forma do nariz da
bolha fica distorcida, o filme de líquido está aerado e na maioria das vezes está em
contra-corrente com o fluxo de gás. As bolhas de gás têm um comprimento grande,
enquanto que os pistões de líquido têm comprimento reduzido, são aerados e sua
integridade é frequentemente rompida pelo fluxo de gás.
O padrão semianular, Figura 1.4(e), é usualmente empregado para identificar a
transição entre os padrões golfadas instáveis e o anular, conforme Azzopardi e Hills
(2003). Ele é considerado uma forma degenerada do padrão anular com grandes on-
das interfaciais onde o filme de líquido adjacente às paredes pode apresentar mudan-
ça de direção.
O padrão anular, Figura 1.4(f), é caracterizado por um núcleo com gás e gotas de
líquido em alta velocidade envolto por um filme de líquido co-corrente que escoa junto à
parede. O filme de líquido é, ocasionalmente, interrompido por uma onda de perturbação.
A identificação de seis padrões para o escoamento vertical ascendente é bas-
tante representativa. Entretanto, ela pode ser ainda mais completa desmembrando
o grupo de bolhas em mais dois padrões: bolhas dispersas e bolhas discretas e tam-
bém reconhecendo a existência do padrão anular com filetes de líquido (wisp annular
flow) que ocorre entre os padrões anular e nevoeiro (mist flow), conforme Hewitt
e Hall-Taylor (1971). Nesta nova classificação seriam identificados nove padrões,
incluindo o padrão nevoeiro não mostrado na Figura 1.4. Raramente o escoamento
vertical ascendente é classificado por nove padrões, mas sim por um número me-
nor de padrões. Taitel, Bornea e Dukler (1980) propuseram a existência de quatro
12 Escoamento Multifásico Isotérmico

padrões: bolha, golfadas, agitado (churn-flow) e anular. Uma equivalência entre os


padrões definidos por Taitel, Bornea e Dukler (1980) e aqueles citados na Figura 1.4
é mostrada na Tabela 1.2.

TABELA 1.2 Equivalência entre os padrões de escoamento definidos por Taitel,


Bornea e Dukler (1980) e os padrões identificados na Figura 1.2
Taitel, Bornea e Dukler (1980) Padrões identificados Figura 1.4
Bolhas Bolhas e capa esférica
Golfadas Golfadas
Agitado Golfadas instáveis e semianular
Anular Anular

Nessa forma de classificação de padrões há, ainda hoje, uma questão: a defini-
ção do regime agitado. Hewitt e Jayanti (1993) foram os primeiros a distinguir uma
diferenciação no regime agitado e propuseram uma subdivisão em agitado-golfadas
(churn-slug) e agitado-anular (churn-annular). Posteriormente, Costigan e Whalley
(1997), através de um estudo experimental sobre as características dos diferentes pa-
drões que ocorrem no escoamento vertical, propuseram o nome de golfadas instáveis
ao então padrão agitado-golfadas.
Apesar da falta de consenso em aspectos classificatórios há unanimidade na
identificação de três padrões básicos para escoamentos gás-líquido que podem ser
aplicados para linhas verticais e inclinadas, eles são: disperso, estratificado ou fases
separadas e intermitente.
O padrão disperso consiste em partículas discretas, sólidos e gotas ou bolhas
não conectadas, isto é, distribuídas num volume preenchido por uma fase contínua.
São exemplos de escoamentos no padrão disperso: atomização de líquido, uma mistu-
ra de bolhas discretas num meio líquido ou transporte pneumático de sólidos.
O padrão estratificado ou fases separadas consiste em duas ou mais correntes
de fluidos separadas por interfaces. O fato de as fases estarem separadas permite
que se desloquem de um ponto a outro na tubulação sem cruzar interfaces. O esco-
amento anular, caracterizado por uma camada de líquido escoando junto à parede
e um núcleo gasoso com gotas de líquido disperso, é um exemplo onde se aplica o
padrão de fases separadas.
O padrão intermitente é caracterizado pela ocorrência alternada dos padrões dis-
perso e fases separadas. O escoamento em golfadas, caracterizado por uma sucessão
de pistões de líquido seguidos por bolhas alongadas de gás, é o melhor exemplo de
escoamento intermitente. Pode-se associar ao pistão de líquido aerado o padrão disper-
so, enquanto que à bolha de gás, exceto o nariz e a cauda, o padrão de fases separadas.
Nesse contexto, os nove padrões identificados para o escoamento vertical são
agrupados dentro dos três padrões básicos, conforme mostra a Tabela 1.3.
Cada tipo de sistema bifásico, como gás-líquido, gás-sólido, líquido-sólido e
líquido-líquido, ou trifásico apresenta padrões que dependem das vazões das fases,
Capítulo 1 Conceitos Básicos em Escoamentos Multifásicos 13

TABELA 1.3 Correspondência entre classificação de padrões


para o escoamento vertical ar-água
Três padrões Nove padrões
Disperso Bolhas dispersas
Bolhas discretas
Nevoeiro
Intermitente Capa esférica
Golfadas
Golfadas instáveis
Estratificado ou fases separadas Semianular
Anular
Anular com filetes

diâmetro e inclinação do tubo e das propriedades de transporte das fases. Pode-se


antecipar que essa não é uma tarefa simples. No entanto, vêm sendo desenvolvidos,
ao longo dos anos, estudos fenomenológicos e experimentais para o estabelecimento
de mapas de padrões aplicados aos diversos sistemas multifásicos em função das pro-
priedades de transporte, das vazões das fases e dos diâmetros e inclinações dos tubos.
O assunto do desenvolvimento de mapas de fluxo ainda está em aberto em diversas
áreas. Uma revisão nesta área está fora do escopo deste livro, mas recomenda-se
Azzopardi e Hills (2003) para uma revisão de mapas aplicados para sistemas gás-
-líquido e Crowe (2006) para outros sistemas bifásicos.
O conhecimento do padrão de escoamento tem um papel central na análise de
escoamentos multifásicos, uma vez que, na região de ocorrência de cada padrão, os
processos de transporte são similares, dentro de determinados limites. O conheci-
mento do padrão permite estabelecer as propriedades geométricas da interface para
melhor modelar a física dos termos interfaciais que governam transporte de massa,
quantidade de movimento e energia. O acoplamento da informação do padrão ao
modelo para a equação de transporte constitui em um problema fundamental em es-
coamentos multifásicos.

1.3 MÉTODOS DE ANÁLISE


As análises, os modelos e as previsões em escoamentos multifásicos são realizados
por três tipos de abordagens: experimental, teórica e computacional.
As técnicas experimentais são indispensáveis à análise de escoamentos mul-
tifásicos. O atrativo das técnicas experimentais é que elas não necessitam de mo-
delos, quem simula o fenômeno é a própria natureza. O experimentalista apenas
observa, realiza medidas e procura quantificar a intensidade dos eventos por meio
da reprodução do fenômeno multifásico em condições controladas de laboratório.
A análise das medidas experimentais, juntamente com a proposição de modelos
simples, permite estabelecer uma base de conhecimento relativo à natureza dos
mecanismos físicos atuantes no fenômeno, à estrutura das interfaces, aos meca-
nismos de acoplamento, às escalas do escoamento e ao conhecimento de grande-
14 Escoamento Multifásico Isotérmico

zas globais, tais como queda de pressão, velocidades médias, fração volumétrica,
entre outras. Atualmente, o alcance das técnicas experimentais vem aumentando
com o emprego de tomografia baseada na atenuação de radiação, técnicas em pro-
cessamento de imagens aliadas ao emprego de laser para determinação do campo
instantâneo da velocidade das fases, determinação da posição da interface, segui-
mento de partículas, atrito e transferência de calor junto a paredes. Uma revisão
atualizada sobre técnicas experimentais avançadas encontra-se em Crowe (2006).
As medidas experimentais também podem ser utilizadas diretamente para produzir
relações de projeto. Por meio de simples correlações matemáticas podem-se esta-
belecer relações entre variáveis medidas que permitem, sob determinadas circuns-
tâncias, serem empregadas como parâmetros de projeto. A aplicação do método
correlacional é restrita às condições dos testes e dificilmente pode ser extrapolada
para fora destes limites. Apesar do grande alcance dos métodos experimentais,
a reprodução de fenômenos em laboratório nem sempre consegue reproduzir as
escalas do fenômeno real. Por exemplo, as condições de campo encontradas na
produção de petróleo dificilmente são reproduzidas em ambiente de laboratório.
A pressão e a temperatura podem ultrapassar 100 bar e 80o C, o diâmetro da linha
pode alcançar de oito a dez polegadas, as vazões de gás e líquido nas condições
de pressão e temperatura do processo podem atingir 600 m3/h, além do próprio
fluido que apresenta um complexo equilíbrio de fases devido a presença de hidro-
carbonetos com cadeias carbônicas de tamanho variado. Nesses casos procura-se
simular partes do fenômeno em laboratório. Se o foco da investigação for dirigido
ao escoamento, então as condições de pressão e temperatura são relaxadas, o flui-
do de teste é substituído por outro compatível com as condições operacionais do
laboratório e procura-se alcançar velocidades e o padrão compatíveis com aquele
observado no campo. Devido ao grande número de variáveis existentes no fenô-
meno é raro obter similaridade completa entre um experimento de laboratório e a
aplicação no campo, de tal forma que as informações dos testes dificilmente são
transpostas diretamente para informação de projeto aplicado no campo. A abor-
dagem realizada é o desenvolvimento de modelos, com grau de complexidade
variável, que capture a física dos fenômenos em escala macroscópica observados
no laboratório. Através destes modelos fenomenológicos consegue-se, com algum
sucesso, transpor as informações do laboratório para as aplicações de campo.
Os métodos teóricos empregam hipóteses simplificadoras para permitirem uma
solução analítica do problema ou mesmo simplificam as equações resultantes para
que possam ser tratadas como simples métodos numéricos. Esses métodos capturam
aspectos gerais do escoamento, tais como queda de pressão, mas não fornecem deta-
lhes sobre as estruturas e escalas do escoamento, nem tão pouco informação pontual,
mas grandezas médias vindas de aproximações unidimensionais. Por exemplo, no
modelo homogêneo unidimensional as fases são tratadas como um pseudofluido com
propriedades médias, sem se importar com uma detalhada descrição do padrão do
escoamento. Estes métodos permitem desenvolver rapidamente modelos unidimen-
sionais capazes de capturar a maioria das características globais do fenômeno. Eles
Capítulo 1 Conceitos Básicos em Escoamentos Multifásicos 15

são empregados, por exemplo, para prever a queda de pressão no escoamento anular
(Hewitt; Hall-Taylor, 1971), para prever a fração de líquido em escoamentos estra-
tificados (Hewitt, 1982), para determinar o gradiente de pressão no escoamento em
golfadas (Taitel; Barnea 1990) ou para modelar perfil da bolha alongada num escoa-
mento em golfadas (Taitel; Barnea, 1990).
Os métodos computacionais vêm adquirindo uma grande importância na área
de escoamento multifásico no sentido que a compreensão básica dos fenômenos vem
sendo alcançada não somente através da simulação de casos em laboratório, mas com
o auxílio de métodos computacionais que equivalem a um laboratório multifásico
virtual. Estes métodos possibilitam a investigação em cenários em que nem as téc-
nicas experimentais conseguem extrair informações e nem os modelos teóricos são
capazes de representar os complexos fenômenos. Os métodos computacionais em
escoamentos multifásicos, baseados na solução das equações de transporte para os
fluidos, podem ser divididos em dois grupos: simulação direta das equações locais e
instantâneas e simulação das equações médias.
O primeiro grupo resolve as equações de transporte sem a aplicação de mo-
delos específicos para os termos interfaciais, mas a partir dos princípios básicos de
conservação de massa, quantidade de movimento e energia. Os métodos deste grupo
provêm algoritmos para segmento das interfaces. Os balanços de massa, quantida-
de de movimento e energia são satisfeitos no domínio onde apenas uma fase está
presente da mesma forma que as técnicas numéricas empregadas para escoamentos
monofásicos. Nas regiões do domínio onde há a presença de interfaces, o método
considera as condições de salto na interface. As forças interfaciais são determinadas
por meio dos balanços de massa, quantidade de movimento e energia através da
interface. O grande potencial desses métodos está voltado para a compreensão de
fenômenos básicos até então não disponíveis com o grau de detalhes fornecido pela
simulação numérica. Por exemplo, o estudo da turbulência induzida pela passagem
de bolhas próxima à parede, o seguimento de partículas num aerosol, fenômenos de
coalescência entre bolhas, choques entre partículas, deformação de gotas, ebulição,
condensação entre outros fenômenos. O conhecimento detalhado dos fenômenos
básicos permite desenvolver com segurança equações constitutivas para as forças
interfaciais e o tensor das tensões utilizado em modelos mais simples. As técnicas
representativas desse grupo são: métodos de fronteira imersa, métodos de fronteira
integral para escoamentos no regime de Stokes e método Lattice-Boltzmann. Estas
técnicas estão compiladas e revisadas em Prosperetti e Tryggvason (2007). A aplica-
ção destes métodos para a simulação do escoamento multifásico numa linha ou equi-
pamento industrial ainda está muito distante pela falta de recursos computacionais.
No entanto, mesmo que isto estivesse disponível talvez não fosse interessante, pois
estes métodos fornecem uma grande quantidade de informação local sobre o escoa-
mento enquanto que numa linha multifásica o interesse não está na estrutura local do
escoamento, mas na queda de pressão, nas frações das fases, na taxa de transferência
de calor e nas velocidades médias das fases.
16 Escoamento Multifásico Isotérmico

O segundo grupo emprega as equações médias de transporte empregando dois


tipos de referenciais: Lagrangeano-Euleriano e Euleriano-Euleriano. Os métodos que
utilizam referencial Lagrangeano-Euleriano são denominados de métodos de partí-
culas pontuais e aplicados somente para escoamentos dispersos. Eles tratam a fase
contínua a partir de um referencial Euleriano tal qual um escoamento monofásico e
representam a interação das partículas com o fluido como se fossem forças pontuais.
As partículas transportadas pela fase contínua, por sua vez, recebem um tratamento
Lagrangeano. O método identifica cada partícula individualmente, faz o seu segui-
mento e determina, em cada instante, a posição relativa na grade computacional. Uma
revisão deste método encontra-se em Squires (2007).
Os métodos baseados em conceitos Euleriano-Euleriano reduzem a complexi-
dade do processamento computacional realizando um processo de média nas equa-
ções de transporte de forma similar ao processo de média empregado nas equações
de transporte para regime turbulento. A ocorrência das fases passa a ser ponderada
por um processo de média no tempo, no volume ou também no conjunto, que pos-
sibilita a coexistência de duas ou mais fases num único ponto. Por exemplo, num
escoamento bifásico pode ocorrer em um ponto do domínio 20% da fase 1 e 80%
da fase 2. Através destes processos de média a natureza discreta das fases é perdida,
cada fase é tratada de forma contínua como um pseudofluido interpenetrante e o aco-
plamento entre fases ocorre através das médias dos termos interfaciais. O processo
de média é exato e o campo resultante de sua solução também é, se as prescrições
das equações constitutivas que representam as médias de produtos estiverem cor-
retas. Usualmente, essas equações constitutivas representam os termos interfaciais
e de tensão que, por sua vez, são dependentes do padrão do escoamento. A correta
representação destas equações influência a precisão das estimativas assim como a
estabilidade numérica destes métodos.
O diferencial dos modelos baseados nos processos de média em relação aos
demais métodos computacionais é que eles possibilitam abordar problemas com-
plexos encontrados na maioria das aplicações de interesse prático, tais como leitos
fluidizados, escoamento de óleo e gás em tubulações, transporte de sedimentos,
geração de energia, entre outras. Os modelos mais representativos desta classe
são o modelo de dois fluidos e o modelo de mistura, sendo que o segundo é uma
simplificação do primeiro. Os modelos possuem capacidade de solução tridimen-
sional e transiente em aplicações multifásicas, mas também podem ser aplicados
em situações unidimensionais e transientes típicas de escoamentos em tubulações.
Resultados para campos tridimensionais só são possíveis por meio de soluções
numéricas, entretanto, resultados para campos unidimensionais podem, sob deter-
minadas circunstâncias, serem obtidos por meio de métodos analíticos. Ambos os
modelos são extensivamente utilizados em simuladores comerciais como RELAP-5
(Riemke, 1991), OLGA (Bendiksen et al., 1991), TACITE (Pauchon et al., 1993) e
PeTra (Petroleoum Transport) (Larsen et al., 1997). O desenvolvimento e a aplica-
ção destes modelos são tratados nos capítulos subsequentes.
Equações de CAPÍTULO
Transporte
Locais e
Instantâneas 2

Em escoamentos com uma única fase, as leis de conservação em um ponto no espa-


ço são expressas em termos de equações diferenciais parciais desde que o ponto não
pertença a uma superfície de descontinuidade. Se o ponto pertencer a uma superfície
de descontinuidade, as leis de conservação locais devem ser formuladas incorporando
o termo de salto na interface de forma a relacionar os valores de ambos os lados da
descontinuidade.
Quando somente uma fase está presente no ponto os balanços de massa e
quantidade de movimento são expressos em termos locais e instantâneos por meio
das equações:

(2.1)

(2.2)

onde ρk e k representam, respectivamente, a massa específica e a velocidade da fase


k, e Pk é a pressão na fase k, a aceleração da gravidade e Tk o tensor das tensões.

2.1 SALTO NA INTERFACE


A interface é uma característica sempre presente em escoamentos multifásicos.
As propriedades do escoamento, tais como velocidades, tensões cisalhantes e ten-
sões normais, apresentam uma descontinuidade nos seus valores ao cruzar uma
18 Escoamento Multifásico Isotérmico

interface. Este fenômeno é representado por uma condição de salto na interface.


Ela relaciona as propriedades do escoamento entre um lado e outro da interface por
meios de balanços de massa, de quantidade de movimento e de energia. A condi-
ção de salto na interface é um ponto central na análise de escoamentos multifásicos
por representar a interação entre as fases. A Figura 2.1 representa esquematica-
mente uma interface cuja área interfacial ai divide dois fluidos (1) e (2) e cujos
vetores unitários normais são k apontando para fora desta superfície. Para efeitos
de análise, considera-se a interface propriamente imaterial, ou seja, sem espessura,
representando uma descontinuidade entre os dois fluidos que pode se deslocar no
espaço. A velocidade de deslocamento da interface é identificada por um valor úni-
co e normalmente sua medida refere-se a um referencial inercial. Por uma questão
de representação mais fácil para memorização, sua notação é dada por ki indican-
do a velocidade da interface na fase k.
Se há uma mudança de fase através da interface, há um fluxo de massa que
cruza a sua área interfacial. Tomando como referência a Figura 2.1, o fluxo de massa
que cruza a interface corresponde àquele que saiu de uma fase e foi para a outra; ge-
nericamente eles são representados na Equação (2.3) onde k pode ser o índice (1) ou
(2) representando as fases, k a velocidade da fase k e i a velocidade da interface com
relação a um referencial inercial:
(2.3)

A interface, por apresentar uma espessura muito pequena, não acumula massa de tal
forma que os fluxos de massa que cruzam ambas as faces da interface são iguais:

(2.4)

n2

n1

n2

n1
2

FIGURA 2.1 Representação da interface.


Capítulo 2 Equações de Transporte Locais e Instantâneas 19

ou

onde (2.5)

Pelo fato de a interface não acumular massa, esta não possui inércia e o balanço
de forças mostra que o fluxo de quantidade de movimento que cruza a interface é
igual ao somatório das forças de superfície que atuam na interface:

(2.6)

ou

(2.7)

Nesta análise, foi deliberadamente desprezado o termo de tensão superficial que


atua na interface, que pode ser significativo ou não, dependendo da aplicação espe-
cífica. Entretanto, para a maioria de escoamentos de gás e líquido em tubulações,
o salto de quantidade de movimento devido à tensão superficial é frequentemente
muito menor que os outros termos e, portanto, desprezado. Uma análise das for-
ças de tensão superficial é dada em Ishii e Hibiki (2006) e, em profundidade, em
Slaterry, Sagis e Eun-Saok, (2007).

2.2 SUMÁRIO DAS EQUAÇÕES DE TRANSPORTE E


CONDIÇÃO DE SALTO NA INTERFACE
A forma canônica da equação de transporte local e instantânea e sua condição de salto
na interface são dadas por:

(2.8)

(2.9)

onde ψ é uma variável genérica e J é um tensor de segunda ordem que assume di-
ferentes representações dependendo da quantidade conservada. A Tabela 2.1 traz as
formas que ψ e J assumem em função da equação de conservação.

TABELA 2.1 Variáveis genéricas para


equações de conservação e salto na interface

ψ J
Massa 1 0 0
Q. Movimento −PI+T
20 Escoamento Multifásico Isotérmico

A representação local e instantânea dos balanços de massa e de quantidade de


movimento é correta desde que ela seja aplicada dentro de cada fluido. Entretanto,
em escoamentos multifásicos, a posição espacial das fases muda continuamente no
tempo e no espaço, dificultando o emprego de um modelo para solução direta destas
equações. De fato, existem simulações diretas destas equações. Porém, elas requerem
grades computacionais muito refinadas capazes de capturar todas as escalas repre-
sentativas do fenômeno; nestas simulações também deve-se preocupar em capturar a
interface e combater a difusão numérica. Hoje, esses modelos estão no estágio inicial
de seu desenvolvimento, requerem intensivos recursos computacionais e ainda estão
distantes de serem aplicados em problemas de engenharia. A outra abordagem deste
problema é realizar a média no tempo, espaço ou conjunto das equações instantâneas,
de forma a suavizar as descontinuidades para resolvê-las como se fossem um meio
contínuo interpenetrante.
A Função CAPÍTULO
Indicadora da Fase
e os Processos de
Média
3

Os modelos de Dois Fluidos e de Mistura empregam equações médias de transporte


ao invés de sua representação instantânea. O processo de média filtra as flutuações
no campo causadas pela intermitente passagem das interfaces e transpõe ao campo
médio a tendência do coletivo das interfaces. O processo de média permite que as
equações sejam tratadas como um contínuo, isto é, sem saltos ou descontinuidades
no campo devido a ocorrência das interfaces. As primeiras tentativas de busca das
equações médias de transporte iniciaram por volta de 1940 com Teletov (apud Ishii e
Hibiki 2006). Atualmente, pode-se dizer que o processo de média cumpre todos os ri-
gores matemáticos e constitui uma das peças melhor resolvidas, veja Drew e Passman
(1999), Ishii e Hibiki (2006) e Delhaye, Giot e Riethmüller (1981).
Em se tratando de escoamentos multifásicos, os processos de média estão in-
trinsecamente relacionados com a presença de cada fase isoladamente. Portanto, estes
processos deverão ser ponderados pela presença das fases, sejam as amostras realiza-
das num volume, no tempo ou em um conjunto (ou ensemble).
Este capítulo introduz o conceito de função indicadora da fase. Na sequência, são
apresentados os conceitos de ergodicidade e a definição de média ponderada pela fun-
ção indicadora da fase, bem como o valor médio de sua derivada no tempo e no espaço.

3.1 CLASSIFICAÇÃO DOS DADOS ALEATÓRIOS


A história no tempo ou no espaço de uma variável é chamada de função de amostra-
gem. A coleção de todas as possíveis funções de amostragem de um fenômeno alea-
tório é chamada de processo estocástico. Um único registro de dados de um fenôme-
22 Escoamento Multifásico Isotérmico

no físico aleatório é denominado de uma realização física de um processo aleatório


(Bendat; Piersol, 2000).
Vamos considerar dados tomados em diferentes amostras ao longo do tempo
numa região fixa do espaço. A Figura 3.1 mostra o registro temporal de xμ(t) em
diferentes amostras μ, onde 1 ≤ μ ≤ M (μ inteiro), e onde M é o número total de
amostras. A cada amostra é atribuída um valor de μ que corresponde a uma realiza-
ção física do problema.
Podem ser formados dois tipos de média (e outros momentos estatísticos de
ordem superior) a partir dos dados da Figura 3.1. Um deles é a média de conjunto
(ensemble average), Equação (3.1), e o outro é a média temporal, Equação (3.2),

(3.1)

(3.2)

onde representa uma posição fixa no espaço definida pelo vetor:

xM(t)

x3(t)

x2(t) t

x1(t) t

t
t1 t2

FIGURA 3.1 Funções de amostragem para um conjunto de amostras 1 ≤ μ ≤ M (μ inteiro). A


variável xμ ( o,t) é amostrada na posição o nas M amostras (Bendat; Piersol, 2000).
Capítulo 3 A Função Indicadora da Fase e os Processos de Média 23

A média de conjunto aplica-se a todos os pontos tomados no instante t1 nas


amostras μ. A média temporal representa a média de um conjunto de dados xμ ou
realizações físicas, (1 ≤ μ ≤ N). Tomando-se como referência a Figura 3.1, a média
de conjunto representa a média ao longo de uma linha pontilhada e a média temporal
representa a média ao longo do eixo “t”.
Um processo é dito não estacionário se a média de conjunto varia com o tempo,
isto é, (t1, o) ≠ (t1 + τ, o); caso contrário é denominado de fracamente estacio-
nário, veja representação destes sinais na Figura 3.2. Caso não haja dependência no
tempo em todos os outros possíveis momentos estatísticos, ele é dito fortemente esta-
cionário ou simplesmente estacionário. Entretanto, em muitas aplicações práticas, a
verificação de fracamente estacionário justificará a hipótese de fortemente estacioná-
rio (Bendat; Piersol, 2000).
Se um processo é estacionário e se a sua média temporal não variar com a amos-
tra ou realização física, isto é: 1 = 2 = … = M, então ele é dito ergódico. Note que
somente processos estacionários podem ser ergódicos.
Processos ergódicos constituem uma importante classe de processos aleatórios
uma vez que todas as propriedades de um processo aleatório ergódico podem ser
determinadas por meio de uma média temporal de uma única função de amostragem.
Na prática a maioria dos processos estacionários são ergódicos.
Retornando à Figura 3.1, porém considerando dados tomados em diferentes
amostras ao longo do espaço “∀” num instante t = to. O registro espacial de xμ(∀) em
diferentes amostras μ, onde 1 ≤ μ ≤ M (μ inteiro) para um mesmo instante de tempo,
está representado na Figura 3.3.
Além da média de conjunto, Equação (3.3), também pode-se definir uma média
espacial, Equação (3.4),

(3.3)

x(t)
sinal de ruído
t estatisticamente estacionário
t=0

t
y(t) = x(t’) dt’
0

sinal de ruído
t=0 t estatisticamente não estacionário

y(t)2 = Dy t

FIGURA 3.2 Sinal estatisticamente estacionário versus estatisticamente não estacionário


(Bendat; Piersol, 2000).
24 Escoamento Multifásico Isotérmico

xN(r)

x3(r)

r
x2(r)

x1(r) r

r
r1 r2
FIGURA 3.3 Funções de amostragem para um conjunto de amostras μ, 1 ≤ μ ≤ M. A variável
x ( ,to) é amostrada para o instante t = to nas M amostras.

(3.4)

onde representa o vetor posição no espaço, para um dado instante


t = to.
Um processo é considerado não homogêneo no espaço se a média de conjunto
varia com a posição no espaço, isto é, (to, ) ≠ (to, + Δ ). De outra forma, ele
é considerado homogêneo. O processo pode ser considerado ergódico no espaço
desde que ele seja homogêneo e que as médias espaciais não dependam da amostra:
1
= 2 = …= M.

3.2 FUNÇÃO INDICADORA DA FASE, XK


A ocorrência de uma fase k é dada pela função indicadora da fase Xk. Esta função
amostra no tempo, no espaço ou no conjunto uma propriedade de transporte ou do
escoamento. A função indicadora da fase é definida para cada fase k isoladamente e é
representada por uma função degrau (top hat) de tal forma que:

(3.5)
Capítulo 3 A Função Indicadora da Fase e os Processos de Média 25

Ela tem a propriedade de filtrar apenas a ocorrência da fase k. Evidentemente,


Xk é dependente do tempo t, da posição espacial e da amostra μ. Entretanto, depen-
dendo do processo de média que será utilizado, a função pode depender de cada uma
destas variáveis isoladamente, isto é, para escoamentos estacionários a amostragem
de Xk no tempo é conveniente, para escoamentos homogêneos no espaço a amostra-
gem é aplicada no volume e, para escoamentos que variam no tempo e no espaço é
aplicada a amostragem no conjunto.
A função indicadora da fase tem a função de filtrar somente a fase k de uma
mistura com n fases presentes. Ela é essencial para a descrição do escoamento com
múltiplas fases. Considere por exemplo um escoamento com duas fases, k = 1 ou 2,
de tal forma que ρ e v representam, respectivamente, a massa específica e uma fase
da velocidade das fases. A massa específica, a velocidade e o fluxo de massa da fase 1
são determinados por meio da propriedade de filtragem de Xk de tal forma que:
e (3.6)

ou, de forma generalizada:


e (3.7)

A Figura 3.4 ilustra, por referência, a distribuição no espaço das fases (1) e (2) e
o registro temporal num ponto fixo xo (veja a linha pontilhada na Figura 3.4) do fluxo
de massa da fase 1. A representação dada baseia-se na hipótese de que a espessura das
interfaces é infinitesimal, de modo que a transição entre as fases 1 e 2 é representada
por uma descontinuidade na forma de salto.
Para processos estacionários no tempo, a função indicadora da fase depende
apenas da posição no espaço, = o, e a amostra de apenas um conjunto ao longo do
tempo é representativa para todos os possíveis conjuntos em = o devido à hipóte-
se de ergodicidade. Para processos homogêneos no espaço, a função indicadora da
fase está fixa num determinado instante de tempo, t = to, e amostra todo o volume
de amostragem indicando a presença da fase k. A amostra de apenas um conjunto no

k=1 k=1 k=1


k=1
k=2

(pV)1

0
t
FIGURA 3.4 Distribuição espacial das fases e registro temporal do fluxo de massa da fase 1.
26 Escoamento Multifásico Isotérmico

espaço é representativa para todos os possíveis conjuntos em t = to devido à hipótese


de ergodicidade. Os casos “estacionário no tempo” e “homogêneo no espaço” são
situações que permitem que Xk seja determinado por meio de experimentos, pois
requerem apenas a amostra de um conjunto, seja no tempo ou no espaço. Isto faz com
que estes casos sejam muito explorados no estudo de escoamentos multifásicos.
Casos em que o processo seja não estacionário e não homogêneo, isto é, onde
ele varia no tempo e no espaço, a definição de Xk no ponto = o e no instante t = to
requer o conhecimento de Xk para cada amostra μ do conjunto de amostras M. Ou
seja, requer o conhecimento de Xk em todo o conjunto de dados. A amostragem de
conjunto traz todo o rigor matemático a esta análise, porém ela não é factível em ter-
mos experimentais. À medida que os métodos numéricos aplicados em escoamentos
multifásicos forem sendo desenvolvidos, este conceito terá aplicação para extrair dos
campos locais e instantâneos informações sobre a forma de Xk.

3.3 MÉDIAS PONDERADAS


O processo de média para uma função ou propriedade do escoamento é definido por
meio de médias ponderadas pela função indicadora da fase Xk ou também pela mas-
sa específica da fase. O propósito do processo de média transforma as n fases que
ocupam um meio descontínuo em um meio contínuo para cada uma das n fases iso-
ladamente. Este conceito aplica-se aos processos de média no tempo, no espaço e
no conjunto. Por exemplo, o processo de média no tempo transforma as n fases que
alternadamente ocupam um ponto o no espaço, com descontinuidades nas interfaces
em um meio contínuo, como se elas pudessem ocorrer simultaneamente em o. Por
esta razão as equações de transporte resultantes deste processo de média também são
denominadas equações de transporte de meios interpenetrantes. O processo de média
elimina as flutuações locais e age no escoamento com um “filtro passa baixa”. Para
que as equações de transporte dos termos médios existam, é necessário que as deriva-
das do campo sejam contínuas e, portanto, os valores médios e suas derivadas devem
ser suficientemente suaves, isto é, sem descontinuidades ou saltos. Esta é a hipótese
fundamental da suavidade dos valores médios.
Considere uma função f genérica que pode variar no tempo, no espaço e tam-
bém representar propriedades associadas às n fases presentes na mistura. A média da
função f ponderada pela função indicadora da fase k é definida por:

(3.8)

onde a barra superior representa o processo de média que pode ser tanto no conjunto,
como no tempo ou no espaço, conforme as definições dadas pelas Equações (3.1),
(3.2) e (3.4). O valor médio de Xk que aparece no denominador da Equação (3.8) está
associado a probabilidade de ocorrência da fase k. possui um significado especial
em escoamentos multifásicos e será abordado no Capítulo 4.
Capítulo 3 A Função Indicadora da Fase e os Processos de Média 27

O processo de média também pode ser ponderado pela massa específica. Este
processo, também conhecido como média de Favre, é definido para escoamentos mo-
nofásicos como:

(3.9)

onde g representa uma propriedade genérica do campo monofásico. A ponderação


pela massa específica é especialmente útil para processos onde a massa específica
pode variar, como, por exemplo, em escoamentos compressíveis. Sua extensão para
escoamentos multifásicos é imediata, de forma que a média da função f ponderada
pela função indicadora da fase k e pela densidade é definida por:

(3.10)

mas aplicando a definição da Equação (3.8) no denominador da Equação (3.10), po-


de-se redefinir como:

(3.11)

Os processos de média são discutidos em Ishii e Hibiki (2006) e também em


Drew e Passman (1999). Entretanto, qualquer que seja o processo de média (con-
junto, temporal ou de volume) ou ponderado pela fase, ou pela massa específica,
ele deve satisfazer as relações de Reynolds para processos de média. Estas relações
estão definidas nas Equações (3.12) a (3.14) para duas funções f e g e uma cons-
tante c:

(3.12)

(3.13)

(3.14)

A Equação (3.12) diz que a média da soma é igual a soma das médias. A mé-
dia do produto de uma função com a média da outra é igual ao produto das médias
conforme mostrado na Equação (3.13). A média do produto de uma função f e uma
constante c, é o produto do valor médio de f pela constante c, Equação (3.14).
Na sequência desta seção são apresentados três tipos de média ponderada pela
fase: temporal, de volume e de conjunto. Os dois primeiros tipos possuem uma cone-
xão direta com experimentos físicos e são relativamente simples de se obter experi-
mentalmente. O último tipo é mais geral que os anteriores, mas não é possível de se
realizar experimentalmente.
28 Escoamento Multifásico Isotérmico

3.3.1 Média no tempo ponderada pela função indicadora da fase Xk


Os processos de média no tempo envolvem exclusivamente a função indicadora da
fase baseada no tempo, XTk. A hipótese fundamental do processo de média no tempo
é assegurada desde que a escala de tempo do escoamento seja suficientemente maior
que o intervalo de amostragem, Δt. Em outras palavras, as variações do valor médio
dentro do intervalo de amostragem são muito pequenas, infinitesimais. Ishii e Hibiki
(2006) discutem em detalhes este tópico.
A média temporal de uma função é definida por:

(3.15)

o processo de média temporal é representado simbolicamente pela barra superior


como sugerido pela Equação (3.15) com o superíndice T. O processo de média para
termos associados às derivadas requer o emprego da Regra de Leibniz e do Teorema
de Gauss definidos no Apêndice B.
O valor médio da derivada temporal do produto (XTk f) é definido por:

(3.16)

onde fki e representam os valores da função e da velocidade na interface, k é o


vetor unitário normal à interface, e h representa a ocorrência de uma interface pelo
ponto o. O resultado da Equação (3.16) é alcançado realizando a média no tempo e
utilizando a Regra de Leibniz, Equação (B.16). Observe que a função delta, original-
mente na Equação (B.16) não aparece na Equação (3.16) porque, após a integração no
tempo, a integral resulta em um somatório dos valores das interfaces, resultado pre-
visto pela propriedade de filtragem da função delta. A Equação (3.16) pode também
ser representada de forma compacta como:

(3.17)

e mostra que a derivada temporal do valor médio é igual ao valor médio da derivada
temporal mais as descontinuidades devido a passagem das interfaces.
O gradiente da média temporal de (XTk f) é definido por:

(3.18)

O resultado da Equação (3.19) é alcançado utilizando a média no tempo e o Teorema


de Gauss, Equação (B.45). De forma simbólica, a operação de média do gradiente é
representada pela Equação (3.19)

(3.19)
Capítulo 3 A Função Indicadora da Fase e os Processos de Média 29

A Equação (3.19) expressa o gradiente do valor médio de fk pelo valor do gradiente


médio menos as descontinuidades.

3.3.2 Média no volume ponderada pela função indicadora da fase Xk


O processo de média no volume envolve a função indicadora da fase baseada no
volume, X∀k. A hipótese fundamental do processo de média no volume é assegurada
desde que a dimensão característica da variação espacial no escoamento seja suficien-
temente maior do que a dimensão característica do volume de amostragem, Δ∀. Em
outras palavras, as variações do valor médio dentro do volume de amostragem Δ∀ são
muito pequenas.
Para escoamentos não homogêneos no espaço, a escolha do volume deve ser
cuidadosa. A Figura 3.5 traz um exemplo de escoamento não homogêneo cuja escala
característica é L e sugere que o volume de amostragem deve possuir uma escala l,
l < L capaz de corresponder ao campo homogêneo sendo, ao mesmo tempo, maior
que a distância média entre as partículas (veja Wijngaarden, 1976).

x n-1
V

L l

FIGURA 3.5 Representação de um escoamento não homogêneo no espaço e o volume de


amostragem.

A média da função no volume é representada por uma barra superior


com o índice ∀ e é definida como indicado a seguir:

(3.20)

O processo de média para termos associados às derivadas requer o emprego da Regra


de Leibniz e do Teorema de Gauss definidos no Apêndice B. O valor médio da deri-
vada temporal do produto (X∀k f) é definido por:

(3.21)

O resultado da Equação (3.21) é alcançado fazendo a média de volume e empregando


a Regra de Leibniz Equação (B.9). O subíndice “j” representa o número de superfí-
cies contidas dentro do volume de amostragem ∀. gj é uma função que representa a
superfície do j-ésimo volume, gj = gj , de tal forma que, quando e t estiverem na
interface j, então gj = 0. Por meio da propriedade de filtragem da função delta,
30 Escoamento Multifásico Isotérmico

, a integral de volume pode ser substituída por uma integral nas superfícies Skj
contidas no volume ∀. De forma simbólica esta operação é definida por:

(3.22)

ou

(3.23)

onde Skj representa a área interfacial j-ésima da fase k dentro do volume de amostra-
gem. As Equações (3.22) e (3.23) mostram que a derivada temporal do valor médio de
f é igual a média da derivada temporal de f mais as descontinuidades das interfaces.
O gradiente da média volumétrica (X∀k f) é definido por:

(3.24)

O resultado da Equação (3.24) é alcançado fazendo a média de volume e empregando


o Teorema de Gauss, Equação (B.37). De forma simbólica, a operação de média do
gradiente é representada por:

(3.25)

ou também por:

(3.26)

As Equações (3.25) e (3.26) mostram que o gradiente do valor médio de f é igual à


média do gradiente de f menos as descontinuidades das interfaces.

3.3.3 Média de conjunto ponderada pela função indicadora da fase Xk


A média de conjunto surge da necessidade de se expressar o valor médio em pro-
cessos não estacionários. Considere um experimento com gás e líquido onde uma
válvula é fechada e a vazão diminui com o tempo até ser nula assim como as de-
mais propriedades do escoamento. A monitoração da concentração volumétrica de
gás num ponto baixo da linha mostra uma diminuição progressiva da concentração
volumétrica de gás, αk, com o tempo como sugerido pela Figura 3.6.
Capítulo 3 A Função Indicadora da Fase e os Processos de Média 31

αk

t
FIGURA 3.6 Variação da concentração volumétrica de gás com o tempo.

A aplicação do processo de média no tempo no exemplo é problemática pelo


fato de não ser óbvio o estabelecimento de um tempo de amostragem, uma vez que
o processo varia no tempo. Neste caso é melhor repetir o experimento do processo
de fechamento da válvula várias vezes e obter uma família de curvas da concen-
tração volumétrica de gás como sugere a Figura 3.7. Os experimentos devem ser
conduzidos sob condições “idênticas”. Entretanto, as diferenças observadas entre
as curvas de αk ocorrem devido à natureza aleatória do escoamento bifásico de gás
e líquido.

αk

Exp 1 (αk<1>)
Exp 2 (αk<2>)

Exp 3 (αk<3>)

t
FIGURA 3.7 Repetições do processo de fechamento da válvula e leituras da concentração
volumétrica de gás.

Para cada curva αk é atribuído um sobrescrito que representa o experimento


em que foi obtida, de tal modo que as curvas de concentração volumétrica de gás
do experimento 1 e 2 estão representas por: α1k e α2k. O coletivo das curvas α1k, α2k,
α3k,... αMk é denominado conjunto (ensemble) que, neste exemplo, é formado por
32 Escoamento Multifásico Isotérmico

funções do tempo baseadas em experimentos idênticos. A média do conjunto é


definida por:

(3.27)

A curva média definida pela Equação (3.27) está representada na Figura 3.7 pela
linha pontilhada.
O método de média de conjunto não é novo e sua aplicação em escoamentos
multifásicos pode ser encontrada em Drew (1983). A vantagem deste método em
relação às médias baseadas no tempo ou no volume é sua completa generalidade
no sentido que o mesmo não pressupõe a separação de escalas que os outros dois
métodos requerem, nominalmente “a existência de um intervalo de tempo Δt grande
o suficiente para suavizar as variações locais das propriedades do escoamento mas
ainda pequeno o suficiente comparado com a constante de tempo característica do
campo médio do escoamento” (Ishii; Hibiki, 2006, p. 76-77) ou “um volume ele-
mentar Δ∀ que possui dimensões lineares maiores que as não uniformidades do
campo mas ao mesmo tempo muito menores que as macro-variações lineares do
campo, L” (Nigmatulin, 1991, p. 27-28).
O lado negativo do processo de média de conjunto é que ele não é possível de se
realizar experimentalmente a menos que o processo seja homogêneo ou estacionário,
pois nestes casos ele coincidirá com a média no volume ou no tempo. Isto é, num pro-
cesso transiente e não homogêneo no espaço não é possível obter experimentalmente
todas as informações sobre o campo de escoamento para depois obter as médias de
conjunto. Apesar desta dificuldade de ordem experimental, atualmente vêm sendo
realizadas simulações numéricas cada vez mais precisas. Estas são baseadas em mé-
todos de captura de interfaces que, aliados a robustos esquemas de discretização para
combater difusão numérica, asseguram uma alta confiabilidade nos resultados nu-
méricos, de tal forma que essas simulações possam vir a representar um laboratório
numérico. Neste cenário há uma possibilidade de acessar os valores das propriedades
do escoamento e obter médias de conjuntos para, se desejável, alimentar modelos
computacionais mais simples, porém capazes de resolver problemas industriais.
Conforme visto no exemplo da Figura 3.7, a média de conjunto (ensemble ave-
rage) é obtida por meio da repetição dos eventos. Ela pode ser realizada a partir de um
experimento que é ligado num instante t = 0 e, depois, no instante to, num dado ponto
, é tomada uma medida do escoamento. O experimento é repetido e, no mesmo ins-
tante to e ponto é tomada outra medida do escoamento. Depois de várias repetições
a média é obtida somando as medidas de cada experimento e dividindo pelo número
dos experimentos. O processo de média de conjunto para uma função f é definido por:

(3.28)

onde o somatório significa a repetição dos eventos num dado ponto e instante t0.
μ representa um evento ou uma medida e M é o conjunto total de eventos possíveis do
Capítulo 3 A Função Indicadora da Fase e os Processos de Média 33

processo de interesse, 1 ≤ μ ≤ M. A rigor M → ∞ para o processo de média ser exato.


O processo é definido como o coletivo dos possíveis escoamentos e o evento é defi-
nido como um dos possíveis escoamentos. A repetição dos eventos produzirá escoa-
mentos que diferirão dos anteriores dada a variabilidade das condições iniciais e de
contorno que definem o evento, mas que terão a mesma tendência média dos eventos
anteriores. A Figura 3.8 representa, de forma esquemática, três possíveis eventos μ =
1, 2 e 3 dentre todos os eventos que pertencem ao conjunto M. Focando nos eventos
que ocorrem nas coordenadas (xo, t2), tem-se que, para μ = 1: Xk = 1 e ∇Xk = 0; μ = 2:
Xk = 1 e ∇Xk ≠ 0 (interface) e μ = 3: Xk = 0 e ∇Xk = 0 (fase contínua).

μ=1 μ=2 μ=3


x x=x0 x x=x0 x x=x0
t t0 t t0 t t0
t1 t1 t1
t2 t2 t2
t3 t3 t3

FIGURA 3.8 Representação do processo de três eventos: μ = 1, μ = 2 e μ = 3 que fazem par-


te do conjunto (ensemble).

Baseado no exemplo da Figura 3.8 pode-se concluir que, para determinar a média
de conjunto de uma propriedade de acordo com a Equação (3.28), é necessário que se
tenha disponível a função indicadora da fase, Xk, para cada evento μ. Isto implica em ter
conhecimento da posição no espaço e no tempo de todas as interfaces para cada evento.
Esta é a razão da existência de um terceiro índice em Xk, a variável μ, indicando o even-
to. Por esta exigência é que a média de conjunto não pode ser obtida experimentalmente
para escoamentos que não sejam estacionários no tempo nem homogêneos no espaço.
Como Xk pode assumir dois valores, 0 ou 1, a representação da função indica-
dora da fase passa a ser uma sequência de 0 e 1. Referindo-se novamente ao exemplo
da Figura 3.8 pode-se obter uma representação esquemática de Xk na coordenada (xo,
t2) para treze eventos μ como sugere a Figura 3.9.

Xk
1

0
µ
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13
FIGURA 3.9 Função indicadora da fase para os eventos μ = 1 a μ 13.

Para uma mistura bifásica a função densidade de probabilidade de Xk é consti-


tuída por dois deltas de Dirac. De maneira similar, pode-se construir a densidade de
probabilidade do produto de uma função f com X. (Xkf) irá assumir dois valores 0,
34 Escoamento Multifásico Isotérmico

o que significa a ausência da fase k, ou será distribuído ao redor de χ que representa


o valor esperado da variável f quando a fase k está presente. A Figura 3.10 traz uma
representação de p(Xk) e p(Xkf). As constantes a e b representam a fração de ausência
e de ocorrência da fase k. Já para o produto (Xkf) note que f pode ter valores aleató-
rios no ponto (xo,t2) quando Xk = 1, de tal forma que seus valores estão distribuídos
em torno de um valor médio χ numa distribuição p” como indicado na Figura 3.10.

p(Xk) p(Xkf)
a+b =1
a+b =1
1
fk = ∑(X f )
μ μ k,μ μ

a a
b

Xk Xkf
0 1 0 fk

FIGURA 3.10 Representação da função densidade de probabilidade de Xk e Xkf.

De posse da função densidade de probabilidade pode-se redefinir o processo de


média de conjunto para Xk e fk, em termos de p(Xk):
(3.29)

(3.30)

onde a distribuição p”(Xkf) tem um valor médio esperado χ e b = .

As Equações (3.29) e (3.30) mostram que, para se obter os valores médios a


partir de medidas do conjunto (ensemble), deve-se ter informação sobre TODAS
as variáveis do escoamento bifásico em TODO espaço e tempo. É importante ob-
servar que, enquanto os valores de Xk são distribuídos de forma discreta para cada
amostra, o seu valor médio na vizinhança de um ponto é suave e contínuo
permitindo que suas derivadas no espaço e no tempo sejam definidas propriamen-
te. Baseado no conjunto de informações, pode-se definir os processos de média
das variáveis e de suas derivadas. O processo de média de conjunto para termos
associados às derivadas requer o emprego da Regra de Leibniz e do Teorema de
Gauss definidos no Apêndice B.
O valor médio do gradiente do produto (Xkf) é determinado fazendo a média de
conjunto, veja Equação (B.55):

(3.31)
Capítulo 3 A Função Indicadora da Fase e os Processos de Média 35

Uma vez conhecido Xk pode-se avaliar os termos da Equação(3.31) como se-


gue. O lado esquerdo da Equação (3.31) é obtido determinando a média de conjunto
do produto (Xkf) e depois aplicando o gradiente. O primeiro termo do lado direito
é avaliado de modo similar, realizando a média de conjunto do produto (Xk∇f), e o
segundo termo do lado direito é determinado pela diferença entre os termos, isto é,
.
A derivada no tempo é obtida fazendo-se a média de conjunto Equação (B.28),

(3.32)

Note que, com a informação no tempo e no espaço de todo o conjunto de dados,


pode-se calcular para cada ponto no espaço o produto Xkf, fazer sua média e depois
tirar a derivada do valor médio. Evidentemente, o resultado deve ser igual a soma das
médias do lado direito da Equação (3.32).

3.4 COMENTÁRIOS FINAIS


As derivadas das médias são expressas em termos das médias das derivadas apli-
cando-se a regra de Leibniz ou o teorema de Gauss para processos de média no
tempo, no espaço ou no conjunto. A Tabela 3.1 traz um resumo dos processos
onde estão envolvidas derivadas no tempo (regra de Leibniz) e derivadas no espa-
ço (teorema de Gauss).
Note que a derivada local de f pode ser não uniforme, apresentando saltos na
passagem das interfaces e, portanto, não pode ser diferenciada. Entretanto, o valor
médio de f é contínuo e suave (hipótese fundamental da média) podendo ser dife-
renciável. Esta propriedade permite representar as equações de transporte de fluidos
descontínuos em termos de valores médios que são contínuos no tempo e no espaço.

TABELA 3.1 Sumário dos processos de média de derivadas; fki representa o valor que a
função f assume imediatamente abaixo da interface sob o lado da fase k onde h representa o
número de interfaces que passam pelo ponto no intervalo Δt e j é o número de superfícies
contidas no volume de amostragem Δ∀ durante o instante to
Leibniz Gauss

Tempo (3.17) (3.19)

Volume (3.23) (3.26)

Conjunto (3.32) (3.31)


36 Escoamento Multifásico Isotérmico

Os processos de média temporal e espacial são casos particulares da média


de conjunto quando o fenômeno for estacionário ou homogêneo no espaço, res-
pectivamente. Por este motivo, o processo de média de conjunto possui um caráter
fundamental em relação aos dois processos anteriores. Entretanto, os processos de
média temporal e espacial podem ser realizados a partir de medidas experimentais
enquanto que o processo de média de conjunto não. Talvez a partir de uma base
de dados gerada por simulação numérica direta poder-se-á constituir as médias de
conjunto das fases.
A natureza do processo de média é exata, porém aplicar a média para qual-
quer caso prático pode retornar, eventualmente, um resultado irrelevante na análise.
Por exemplo, a afirmação relativa à previsão do tempo, “o clima médio são chuvas
espalhadas” traz pouca informação para uma região específica e com certeza é de
pouca utilidade. De forma similar, pode-se antecipar problemas de relevância no
significado dos termos médios na aplicação da média em escoamentos bifásicos,
principalmente no padrão intermitente, pois neste há uma alternância entre o padrão
estratificado e o padrão bolhas.
CAPÍTULO

Representação
da Interface 4

A análise envolvendo a interface parte da hipótese que esta seja imaterial, isto é, que
não possua volume e não armazene massa (veja Capítulo 2). Não se conhece objeções
ou restrições a esta hipótese, de modo que esta característica também é considerada
uma propriedade da interface, certamente uma das mais fundamentais para o desen-
volvimento dos modelos. Este capítulo aborda outras propriedades relacionadas com
a interface. Ele inicia introduzindo a equação topológica para a interface que rela-
ciona sua taxa de variação com o tempo e sua velocidade de deslocamento. A função
indicadora da fase, Xk, é redefinida em termos dos processos de média para depois
estabelecer o seu gradiente e a sua derivada temporal. O capítulo encerra apresentan-
do o conceito de densidade de área interfacial.

4.1 SUPERFÍCIE, VELOCIDADE E DESLOCAMENTO DA


INTERFACE
A superfície g(x,y,z,t) representa a j-ésima interface da fase k, que no tempo t = tj está
na posição xo, veja Figura B.3 para referência. A superfície g que envolve a fase k é tal
que g < 0 dentro da fase k, g = 0 na interface e g > 0 quando a fase k não está presente.
O vetor normal à superfície é definido por:

(4.1)

onde aponta para fora uma vez que g < 0 dentro da fase k.
A passagem das superfícies g por um ponto fixo no espaço, o, representada
na Figura 4.1, define os tempos tj+/−. Entretanto, se os tempos fossem amostrados na
posição xo + dx observar-se-ia uma variação. Isso se deve ao fato de que as interfaces
38 Escoamento Multifásico Isotérmico

n1 n1 n1
X0
j=1 j=2 j=n
j=n-1
n1 k=2

XKT

0
t1- t1+ t2- t2+ ... tn- tn+ t

FIGURA 4.1 Função indicadora da fase para processo de média temporal, fase dispersa k = 1,
representa a normal (apontando para fora) da fase (1).

não são estacionárias, mas se deslocam. Assim, a posição e o tempo tj+/− estão relacio-
nados pela velocidade da interface.
Do ponto de vista de um referencial Lagrangeano, a variação de g seguindo a
interface é expressa por meio da derivada total de g,

(4.2)

Pode-se mostrar que a velocidade normal à interface é obtida multiplicando-se ambos


os lados da Equação (4.2) pelo vetor :

(4.3)

A variação da superfície g( , t) que no instante t = tj está na posição x = xo é


expressa geometricamente por:

(4.4)

Seguindo a superfície g( , t) que desloca no espaço, tem-se que dg = 0, portanto, as varia-


ções do tempo e do espaço não são mais arbitrárias, mas relacionadas entre si. Em vista
disto pode-se estabelecer que a variação do tempo com o espaço, seguindo a interface, é:

(4.5)

Substituindo as Equações (4.1) e (4.2) na Equação (4.5) encontra-se a taxa de varia-


ção do tempo com a posição da interface, que é expressa por:

(4.6)
Capítulo 4 Representação da Interface 39

4.1.1 Exemplo: Interface 2D


Considere um filme de líquido bidimensional que escoa num plano (x,y) com inclina-
ção θ e com a horizontal como mostra a Figura 4.2. Este tipo de escoamento desen-
volve instabilidades na interface, de forma que ela se torna ondulada. Considera-se
que a espessura média do filme seja y0 enquanto que sua porção oscilatória é dada
pela função η(x,t) como mostra a figura.
A função g que descreve a posição da interface em qualquer posição e ins-
tante é:

(4.7)

Observe que g = 0 se (x,y,t) estiver na interface; g > 0 para pontos fora do líquido
e g < 0 para pontos dentro do líquido. O vetor normal a interface é determinado a
seguir:

(4.8)
.

Não havendo mudança de fase, a velocidade do líquido na interface deve ser igual à
velocidade da interface. A componente da velocidade normal a interface é dada pela
equação a seguir:

(4.9)

4.1.3 Equação topológica da interface


A Equação (4.2) é conhecida como equação topológica da interface, conforme
Drew (1983) e Drew e Passman (1999). Ela também pode ser definida no contexto
da função indicadora da fase, Xk. A derivada de Xk é descontínua somente na in-

y0

η(x,t) g

x
FIGURA 4.2 Filme de líquido escoando um plano inclinado.
40 Escoamento Multifásico Isotérmico

terface. Portanto, a derivada material seguindo a interface, ou a descontinuidade,


deve ser nula:

(4.10)

A derivada direcional da função indicadora da fase também pode ser definida a partir
do gradiente da função indicadora da fase:

(4.11)

4.2 FUNÇÃO INDICADORA DA FASE PARA MÉDIA TEMPORAL


A função indicadora da fase empregada no processo de média temporal amostra numa
posição fixa do espaço a ocorrência da fase k em função do tempo. Ela é definida em
função da função degrau H como:

(4.12)

onde j é o número de superfícies e tj+ e tj− o tempo de duração da fase k, veja represen-
tação na Figura 4.1.
A média temporal da fase k é definida por:

(4.13)

onde αTk é a média temporal da função indicadora da fase. Na Equação (4.13) o índice
j do somatório representa o número de superfícies e o intervalo de amostragem Δtj =
t+j – t−j representa o tempo que a fase k ficou em contato na posição xo. Os limites da
integral foram estendidos para t = ±∞ porque para t < t−1 e t > t+n a função XkT é identica-
mente nula. Fisicamente, αk representa a probabilidade de encontrar a fase k e expres-
sa a importância geométrica (estática) da fase k. αk é denominado de fração local do
tempo de ocorrência da fase k ou fração de vazios da fase k. Esta última denominação
é alusiva a escoamentos em bolhas de gás dispersas em um meio contínuo líquido,
sendo que a fase dispersa equivale a um “vazio” na fase contínua.
Duas importantes propriedades relativas à função indicadora da fase devem ser
definidas. Elas estão relacionadas com a derivada temporal e o gradiente espacial do va-
lor médio de XkT. Estas operações são definidas no Apêndice B. A derivada no tempo da
média temporal de XkT pode ser obtida diretamente da Equação (3.17) fazendo f = fki = 1:

(4.14)

onde k é a normal à interface da fase k e aponta para fora e h é o número de interfaces


que passou pelo ponto xo durante o tempo de amostragem.
Capítulo 4 Representação da Interface 41

Por outro lado, a média temporal do gradiente da função indicadora da fase é


definida utilizando a Equação (3.19), fazendo f = fki = 1:

(4.15)

O gradiente do valor médio da função indicadora da fase é contínuo no espaço, po-


dendo ser definido como a soma vetorial das interfaces (descontinuidades) que passa-
ram pelo ponto xo durante o intervalo de tempo Δt.

4.3 FUNÇÃO INDICADORA DA FASE PARA MÉDIA DE VOLUME


A função indicadora da fase empregada no processo de média de volume amostra no
instante de tempo to um volume do espaço onde há a ocorrência da fase k. Ela é defi-
nida pela função degrau H, veja Equação (A.20), como:

(4.16)

onde as superfícies gj estão representadas pelas funções gj(x,y,z,to) = 0 no tempo t = to.


As superfícies gj que envolvem a fase k são tais que g < 0 dentro da fase k, g = 0 na
interface e g > 0 quando a fase k não está presente, veja representação na Figura 4.2.
Além disso, o vetor normal à superfície aponta para fora, uma vez que g < 0 dentro da
fase k, conforme definição dada na Equação (4.1).
A média da função indicadora da fase k é definida por:

(4.17)

A Equação (4.17) revela uma razão entre o volume da fase k e o volume total.
Ela é frequentemente denominada por fração de vazios em razão dos primeiros estu-

n1 n1 n1

g1 g2 gn
...
n1 k=2

XKV

0
x1,x2,x3

FIGURA 4.3 Função indicadora da fase para processo de média de volume, fase dispersa k = 1
com normal 1 apontando para fora.
42 Escoamento Multifásico Isotérmico

dos terem sido realizados com gás, daí o nome vazio. Este conceito está intimamente
ligado ao processo de média volumétrica e é exato para situações onde o escoamento
é espacialmente homogêneo. Note também que, para escoamentos estacionários e ho-
mogêneos, a média temporal da função indicadora da fase coincide com a média volu-
métrica, isto é, αTk = α∀k. A média volumétrica, ou a temporal de Xk, também expressa
a probabilidade de ocorrência da fase k seja por um processo de amostragem ou outro.
Duas propriedades importantes da função indicadora da fase estão relacionadas
com sua derivada temporal e com seu gradiente espacial. Estas operações são defini-
das no Apêndice B. A derivada no tempo da média de volume de α∀k é definida a partir
da Equação (3.23) fazendo f = fki = 1:

(4.18)

onde dsj representa um elemento infinitesimal da área da interface j contida no volu-


me ∀. Por outro lado, a média de volume do gradiente da função indicadora da fase é
definida utilizando a Equação (3.25) e fazendo f = fki =1:

(4.19)

Note que o gradiente médio de X∀k, Equação (4.19), é dado pela razão entre a soma
vetorial das áreas interfaciais e o volume de amostragem.

4.4 FUNÇÃO INDICADORA DA FASE PARA MÉDIA DE


CONJUNTO
A função indicadora da fase empregada no processo de média de conjunto amostra no
tempo e no volume do espaço onde há a ocorrência da fase k. Cada valor de Xk é de
um subconjunto de dados μ, de tal forma que Xk assume valores discretos para cada
amostra μ, como sugere a Figura 4.3.

XkC

μ
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13
FIGURA 4.3 Função indicadora da fase para processo de média de conjunto. Os valores de Xk
aplicam-se para as amostras tiradas no ponto xo durante o instante t0 para as várias amostras μ.
Capítulo 4 Representação da Interface 43

O valor médio de Xk é definido pela Equação (3.28) fazendo f = 1 para encontrar,

(4.20)

onde M é o número total de eventos.


Duas importantes propriedades relativas à função indicadora da fase devem ser
definidas. Elas estão relacionadas com o gradiente espacial e a derivada temporal do
valor médio de Xk. O valor da média de conjunto do gradiente da função indicadora
da fase é determinado pela própria definição de média de conjunto:

(4.21)
A Equação (4.21) é determinada realizando-se primeiro a média de conjunto de Xk na
coordenada (xo,to) e em sua vizinhança para depois avaliar o seu gradiente. A derivada
no tempo da função indicadora da fase é obtida de modo similar. Determina-se a mé-
dia de conjunto de Xk na coordenada (x0,t0) e em sua vizinhança para depois realizar
sua média temporal:

(4.22)

4.5 DENSIDADE DE ÁREA INTERFACIAL


A densidade de área interfacial é a razão entre a soma das áreas das interfaces conti-
das num volume. Também denominada de concentração volumétrica de área interfa-
cial, ou área interfacial específica, sua determinação pode ser realizada por meio da
amostragem no tempo, no volume ou no conjunto, como será visto a seguir.
A densidade de área interfacial local amostrada no tempo, ai, é definida por Ishii
e Hibiki (2006) como sendo:

(4.23)

onde (ai)h representa a densidade de área interfacial da interface h que passou pelo
ponto o, Lh é definido por Lh = Δt e Δt é o tempo total de amostragem.
A densidade de área interfacial total é:

(4.24)

Não é evidente a primeira vista a associação entre o conceito de concentração vo-


lumétrica de área interfacial e a definição dada pela Equação (4.24), pelo fato de
esta se basear em média temporal. Entretanto, o conceito de área interfacial surge
naturalmente nos processos de média volumétrica como a razão entre soma das áreas
interfaciais e o volume de amostragem:

(4.25)
44 Escoamento Multifásico Isotérmico

sendo que ds representa o elemento de área da interface e o índice j o número de su-


perfícies presentes no volume ∀ de amostragem.
Drew e Passman (1999) definem a densidade de área interfacial da fase k por:

(4.26)

onde Xk pode ser a função indicadora da fase no espaço, no tempo ou de conjunto.


A densidade de área interfacial definida a partir da média de conjunto é deter-
minada fazendo a média de conjunto da operação definida na Equação (4.26). Ela é
determinada para cada amostra μ como a razão entre a área da interface dentro de um
volume arbitrariamente pequeno (uma esfera de raio r), ai = S/((4/3)πr3), como sugere
a Figura 4.4. Note que esta definição determina uma densidade de área interfacial
“local” a partir das razões entre a área e um volume “pequeno”.
Para um escoamento estacionário no tempo e homogêneo no espaço, temos que
o processo de média da Equação (4.26) deve ser invariante se utilizarmos a média no
tempo ou no espaço, isto é:

(4.27)

Utilizando as definições de gradiente de Xk das Equações (B.45) e (B.37) teremos:

(4.28)

ou

(4.29)

ou seja, a concentração volumétrica de área pode ser determinada tanto por amostra-
gem de volume como por amostragem no tempo. A amostragem por volume requer
uma integração da área de cada interface contida no volume de amostragem e pode

Interface Área interfacial, S

Xk=1
S
k=1

Volume
amostragem, raio r
FIGURA 4.4 Amostragem de volume e área interfacial para definir a densidade de área local
utilizada na média de conjunto.
Capítulo 4 Representação da Interface 45

ser determinada experimentalmente por métodos químicos. A amostragem no tempo


requer o conhecimento de Lh e pode ser determinada experimentalmente por meio de
uma sonda fixa no espaço amostrando no tempo. O recíproco de ai define um compri-
mento L que é o fator de escala linear para escoamentos multifásicos.
A densidade de área interfacial é um fator geométrico relevante em escoamen-
tos multifásicos, uma vez que ela pondera a magnitude dos termos interfaciais que
definem a transferência de massa, quantidade de movimento e energia na interface.
Por exemplo, a taxa de variação no tempo da fase k, Equações (4.14) e (4.18), ou o
gradiente da concentração da fase k, Equações (4.15) e (4.19), podem ser expressos
por meio da densidade de área interfacial:

e (4.30)

onde a barra superior representa a média. Para ∂αk/∂t, a média do produto da normal
pela velocidade da interface fornece uma velocidade característica, enquanto que,
para ∇αk, a média da normal das interfaces fornece a direção do gradiente, a densi-
dade de área é seu módulo. Adicionalmente, os termos relativos às forças interfaciais,
Equações (5.36), (5.39), além das condições de salto na interface, Equações (5.42) e
(5.43), são expressos como termos médios tendo a densidade de área interfacial como
fator de ponderação.
Cada padrão de escoamento está associado a um valor de ai. Se a distribuição
da amostra de ai for unimodal, isto é, está distribuída ao redor de um valor mais
provável, pode-se adotar o recíproco de ai como um comprimento característico.
A escala que 1/ai representa tem um significado físico similar àquele do caminho
livre entre as moléculas na teoria cinética dos gases ou do comprimento de mistura
em turbulência. Frequentemente, o conhecimento do tamanho médio das partículas
(gotas, bolhas ou sólidos) em um escoamento no padrão disperso não é suficiente.
Pode haver casos onde há populações com dois ou mais tamanhos de partículas
característicos e a representação das interações entre partículas, quebra e coales-
cência ficam suprimidas em modelos que empregam um único tamanho médio. De
fato, estes casos constituem uma deficiência no modelo de dois fluidos e no modelo
de mistura para simular escoamentos dispersos. Para superar esta dificuldade, foi
proposta uma equação de transporte para ai baseada nos métodos de balanço de
população que se originaram do modelo de Boltzman. Um modelo de transporte de
ai foi proposto em 1978 por Achard, subsequentemente outras proposições comple-
mentaram e aperfeiçoaram a equação de transporte de ai, Morel, Goreaud e Delhaye
(1999) e Ishii e Hibiki (2006).
A densidade de área interfacial ou a área interfacial específica tem um signifi-
cado físico similar à distância livre entre as moléculas e do comprimento de mistura
em turbulência. Os termos relativos às forças interfaciais, Equações (5.36), (5.39),
além das condições de salto na interface, Equações (5.42) e (5.43), são expressos
como termos médios tendo a densidade de área interfacial como fator de pondera-
46 Escoamento Multifásico Isotérmico

ção. A densidade de área interfacial é um dos fatores geométricos mais relevantes


em escoamentos multifásicos.

4.6 QUADRO COMPARATIVO


Média no tempo Média no volume Média no conjunto
ψ=T ψ=∀ ψ=C

(4.13) (4.17)

(4.14) ( ) (4.18)

(4.15) (4.19)

(4.24) (4.29)

onde h representa o número de interfaces que passam pelo ponto o no intervalo Δt e j é o


número de superfícies contidas no volume de amostragem Δ∀ durante o instante to.
CAPÍTULO
Equações
Médias de
Transporte
5

A forma canônica da equação de transporte para a fase k em termos local e instantâ-


neo foi definida na Equação (2.8) e repetida aqui por conveniência:

(5.1)

Esta equação expressa um balanço de propriedades (massa, quantidade de movimen-


to, energia) de forma infinitesimal quando somente a fase k está presente. Se, no
volume infinitesimal houver uma interface, é necessário incluir os termos de transfe-
rência de massa, quantidade de movimento e energia associados à interface. Devido
à alternância das fases, a inclusão dos termos interfaciais é representada por des-
continuidades de salto. A modelagem local e instantânea requer um grande esforço
computacional. Mesmo com os recursos computacionais atuais, não é possível abor-
dar problemas de interesse prático. Como alternativa, é proposta a obtenção de uma
equação a partir da média de ocorrência de cada fase. Neste contexto de médias, as
descontinuidades de salto passam a ter um valor médio e contínuo, além do que, cada
fase passa, em média, a coexistir num mesmo ponto no espaço. O processo de obten-
ção da média dos termos da equação é discutido neste capítulo.

5.1 EQUAÇÃO MÉDIA DE TRANSPORTE


A equação média de transporte é obtida multiplicando-se cada termo da equação ins-
tantânea de transporte pela função indicadora da fase e tomando-se a média. O pro-
48 Escoamento Multifásico Isotérmico

cesso de média pode ser no tempo, no volume ou de conjunto. A função indicadora da


fase é denotada simplesmente por Xk:

(5.2)

Os termos da Equação (5.2) são expressos por meio da média do produto de deri-
vadas com Xk. Essa forma não é conveniente, pois não se possui informações sobre
esses termos, nem tão pouco pode-se tentar encontrar uma solução na forma em que
a equação se apresenta. Tais termos devem ser expressos através das derivadas do
produto dos valores médios para explicitar as variáveis dependentes e possibilitar a
obtenção de solução.
O processo de conversão das médias das derivadas em derivadas das médias
foi apresentado no Capítulo 3 na forma da Regra de Leibniz e do Teorema de Gauss.
Esses operadores serão utilizados neste capítulo para obter os termos correspondentes
às derivadas das médias na Equação (5.2).
As três seções seguintes apresentam a forma canônica das equações de Trans-
porte obtidas por meio dos processos de média temporal, média espacial e média de
conjunto.

5.1.1 Equação de transporte – média temporal


Reescrevendo a Equação (5.2) como uma média no tempo,

(5.3)
Aplicando as definições da Regra de Leibniz e do Teorema de Gauss, Equações (3.17)
e (3.19), na Equação (5.3) chega-se a:

(5.4)

Multiplicando a equação topológica da interface, Equação (4.10), por (ρψ) e


fazendo a média:

(5.5)
Capítulo 5 Equações Médias de Transporte 49

Subtraindo a Equação (5.5) da Equação (5.4) obtém-se a média temporal da


equação de transporte:

(5.6)

5.1.2 Equação de transporte – média espacial


Reescrevendo a Equação (5.2) como uma média no volume,

(5.7)

Aplicando as definições da Regra de Leibniz e o Teorema de Gauss, Equações (3.23)


e (3.26), na Equação (5.7) chega-se a:

(5.8)

Multiplicando a equação topológica da interface, Equação (4.10), por (ρψ) e


fazendo a média:

(5.9)

Subtraindo a Equação (5.9) da Equação (5.8) chega-se à média no volume da


equação de transporte:

(5.10)
50 Escoamento Multifásico Isotérmico

5.1.3 Equação de transporte – média de conjunto


Utilizando as Equações (3.32) e (3.31) pode-se representar a média de conjunto da
Equação (5.2) por:

(5.11)

Multiplicando a equação topológica da interface, Equação (4.10), por (ρψ) e fazendo


a média:

(5.12)

Subtraindo a Equação (5.12) da Equação (5.11) tem-se a média de conjunto da equa-


ção de transporte:

(5.13)

5.1.4 Forma canônica da equação média de transporte


A forma canônica da equação média de transporte é mostrada na Equação (5.14).
Nela, o processo de média não é definido, podendo ser no tempo, no espaço ou no
conjunto. ψ é uma variável genérica, ρ é a massa específica e J um tensor genérico.

(5.14)

Os termos interfaciais estão representados pela expressão:

(5.15)

As Equações (5.14) e (5.15) deverão ser expressas para cada tipo de equação de trans-
porte (massa, quantidade de movimento, energia) e modeladas de acordo com o pa-
drão de escoamento (disperso, estratificado ou intermitente).

5.2 DEFINIÇÃO DE VARIÁVEIS MÉDIAS E A DECOMPOSIÇÃO


DE REYNOLDS
A equação generalizada de transporte, Equação (5.14), possui termos médios obtidos
a partir da média do produto; por exemplo, o termo . Em vez de trabalhar com
Capítulo 5 Equações Médias de Transporte 51

a média de um produto, é conveniente trabalhar com o produto de médias, pois este


procedimento permitirá a solução das variáveis que compõem as equações de trans-
porte.
A média é representada genericamente por uma barra superior e equivale a uma
média de conjunto ou seus casos particulares: média no tempo ou no espaço. O pro-
cesso de média tendo como função peso a função indicadora da fase é denominado
valor médio baseado na fase, e é definido por:

, (5.16)

sendo que o sobrescrito X representa a função indicadora da fase. O processo de mé-


dia tendo como função peso a massa é denominado valor médio baseado na massa ou
média de Favre, e é definido por:

(5.17)

Há duas definições básicas de variáveis médias que prescindem das definições


dadas para os processos de média. Elas referem-se ao valor médio da função indi-
cadora da fase e à densidade de área interfacial. A média de Xk é a fração média de
ocorrências da fase k, ela é representada simplesmente por:
(5.18)

A densidade de área interfacial da fase k é outra grandeza média, de natureza


geométrica, relevante em escoamentos multifásicos. Ela é definida na Equação (4.26)
e repetida aqui por conveniência:
(5.19)

onde k é o vetor normal unitário externo a fase k. O valor esperado desta variável é a
razão entre a área interfacial contida em um pequeno volume e o volume propriamen-
te, no limite do volume tendendo a zero, veja representação na Figura 4.4.

5.2.1 Decomposição de Reynolds


Fixando a amostragem com base no tempo, no volume ou no conjunto, é observada
uma alternância das fases que faz o valor instantâneo da velocidade ou da energia
(temperatura, entalpia, etc.) não permanecer constante, mas flutuar ao redor de um
valor médio. A natureza desta flutuação é devida a dois fatores: a) distribuição espa-
cial das fases e b) turbulência. O segundo fator conduz a flutuações de velocidade e
de energia devido ao transporte destas quantidades pelos turbilhões. O primeiro fator,
entretanto, não é óbvio. Ele trata especificamente da posição da interface. Se consi-
derarmos um escoamento em bolhas em regime laminar (turbilhões suprimidos) va-
mos ainda observar flutuações de velocidades. Considere que cada bolha parte de um
52 Escoamento Multifásico Isotérmico

ponto inicial e que dificilmente duas bolhas apresentarão a mesma trajetória. Como a
posição espacial das bolhas não se repete, elas induzem uma flutuação de velocidade
em um ponto fixo no espaço. Esta flutuação não é periódica e, portanto deve ser tra-
tada como um processo estocástico.
O valor instantâneo pode ser representado utilizando o processo de decomposi-
ção de Reynolds que divide o valor instantâneo em duas parcelas: um valor médio e
sua flutuação, conforme sugere a Equação:

. (5.20)

Considerando uma variável genérica ψ, o valor instantâneo da ocorrência da fase k é


Xkψ. Este valor instantâneo pode ser decomposto baseando-se na média ponderada
pela fase ou pelo produto entre a fase e massa específica (média de Favre), Equações
(5.21) e (5.22), respectivamente:
(5.21)

(5.22)

onde Xkψ' e Xkψ" representam as flutuações de ψk adicionados às médias ponderadas


definidas nas Equações (3.8) e (3.11) e repetidas abaixo por conveniência:

(5.23)

(5.24)

Utilizando as propriedades de média das Equações (3.12) a (3.14), pode-se mostrar


que os termos médios das flutuações são nulos, isto é:

e (5.25)

porém, fazendo um processo de média invertido daquele que ocorre nas Equações
(5.21) e (5.22) vamos obter que a média das flutuações não são nulas:

(5.26)

(5.27)

A relação entre o processo de média ponderado pela fase e aquele ponderado pelo
produto entre a fase e a massa específica é estabelecida partindo-se da igualdade entre
as Equações (5.21) e (5.22):
(5.28)
.
Capítulo 5 Equações Médias de Transporte 53

Fazendo a média ponderada pela fase na Equação (5.28) vamos encontrar que:

(5.29)

5.3 EQUAÇÃO DE TRANSPORTE EM FUNÇÃO DOS TERMOS


MÉDIOS
A forma canônica da equação de transporte em função do produto dos termos mé-
dios é expressa utilizando o conceito de decomposição de Reynolds em processos de
média baseados na fase e também no produto entre a fase e massa específica (média
de Favre). Como ψ representa uma variável genérica que pode estar associada a uma
propriedade extensiva por unidade de volume (quantidade de movimento, energia,
entropia, etc), o valor médio baseado na massa é útil, pois as quantidades represen-
tadas por são aditivas em relação à massa. Por outro lado, as propriedades dos
fluidos, tais como massa específica, viscosidade, assim como algumas proprieda-
des do escoamento, como o tensor de tensões e a pressão, podem ser representadas
por médias baseadas na fase somente, , . Substituindo as definições de valores
médios definidas nas Equações (5.16) e (5.17) na Equação (5.14), utilizando a de-
composição de Reynolds, Equação (5.20), e as propriedades de médias definidas nas
Equações (5.25) a (5.27), pode-se expressar cada termo da Equação (5.14) como um
produto de termos médios, conforme mostra a Equação (5.30):

(5.30)

Note que o termo de transporte convectivo apresenta uma componente referente à


média das flutuações de ψ “v” que possui a mesma natureza do tensor de Reynolds.
Substituindo as definições da Equação (5.30) na Equação (5.14) chegamos a forma
canônica da equação de transporte em função do produto dos termos médios:

(5.31)

Os termos interfaciais são representados por Eles serão de-


finidos em função da equação de transporte específica que eles estiverem representan-
do (massa, quantidade de movimento ou energia), processo de média (tempo, espaço
ou volume), tipo de sistema (gás-líquido, sólido-líquido, etc.) e padrão do escoamento.
54 Escoamento Multifásico Isotérmico

5.3.1 Equação da massa


A equação da conservação da massa é obtida a partir da Equação (5.31) fazendo
(ψ = 1, = 0, g = 0):

(5.32)
onde o termo de fonte de massa Γk é dado por:

(5.33)
o qual representa a vazão mássica que cruza a interface por unidade de volume devido
à mudança de fase na interface. Ele resulta do produto entre o fluxo de massa que
cruza a interface (kg/s/m2) e a densidade de área interfacial (m2/m3).

5.3.2 Equação da quantidade de movimento


A equação da quantidade de movimento é obtida a partir da Equação (5.31) fazendo
(ψ = , J = −PI + T, sendo I o tensor identidade):

(5.34)

onde o tensor das tensões T engloba as tensões de origem viscosa e aquelas de origem
turbulenta, isto é, Tk = TkμL + TkμT definidos em termos locais e instantâneos por:

e (5.35)

Por sua vez, os termos ki


e estão definidos nas Equações (5.36) e (5.37) como:

(5.36)

(5.37)
Eles estão associados à quantidade de movimento devido à transferência de massa na
interface e à ação das tensões na interface.

5.3.2.1 Partição do termo de quantidade de movimento da interface, M


Os termos que representam a ação das forças normais e tangenciais devido à passa-
gem das interfaces são mostrados na Equação (5.37). Com o interesse de isolar os
Capítulo 5 Equações Médias de Transporte 55

efeitos do campo médio e das forças locais que atuam na interface, são introduzidos
os termos médios de pressão e tensão na interface:

T
e T (5.38)

Somando e subtraindo as definições de pressão e tensão média da interface, dada na


Equação (5.37), na Equação (5.37) chega-se a:

(5.39)

Note que os dois primeiros termos da Equação (5.39) representam o produto de uma
tensão e de uma pressão pela densidade de área interfacial. Eles resultam numa força
por unidade de volume. O terceiro e quarto termo também possuem dimensão de
força por unidade de volume, porém surgem devido ao gradiente da fase. Este termo
será detalhado juntamente com a apresentação do modelo de dois fluidos no Capí-
tulo 6. O termo ki é normalmente separado em duas partes: a primeira envolve as
diferenças entre a fase e o valor médio tanto da tensão como da pressão na fase e na
interface, e o segundo trata especificamente do gradiente de fração de vazios. Esta
última parcela é incorporada diretamente na equação de quantidade de movimento,
enquanto que a primeira parcela passa a ser denominada 'ki,

(5.40)

5.3.2.2 Condição de salto na interface


As fases podem trocar massa, quantidade de movimento, energia e entropia. O valor
médio da condição de salto na interface é interpretado como sendo a habilidade das
fases interagirem entre si.
A forma canônica do valor médio da condição de salto na interface é definida
multiplicando a condição de salto, Equação (2.9), pelo termo k · ∇Xk:

(5.41)

Na Equação (5.41), Sσ representa um termo fonte genérico devido à presença da in-


terface. Um aspecto importante desta equação é que a soma aplica-se a duas fases,
entretanto, o número de fases não está restrito a duas fases apenas. Considera-se que
uma interface separa uma fase de cada vez, por isso o balanço de massa, quantidade
de movimento e energia são feitos com duas fases apenas. Entretanto pode haver ce-
nários onde há um ponto que separa três fases, por exemplo, o ponto de contato num
sistema gás-líquido-sólido como mostrado na Figura 5.1.
56 Escoamento Multifásico Isotérmico

(2)
(1)
(3)
FIGURA 5.1 Pode haver fenômenos onde há contato com três interfaces simultaneamente,
por exemplo gás-líquido-sólido.

A conservação da massa na interface é definida fazendo (ψ=1, J=0, Sσ=0):

(5.42)

Fisicamente, a Equação mostra que a vazão mássica média, por unidade de volume,
transformada da fase (1) na fase (2), deve ser nula, ou seja, o que uma perde a outra
ganha, uma vez que na interface massa não é acumulada.
A conservação de quantidade de movimento na interface é definida fazendo
(ψ = , J = −PI + T):

(5.43)
termo local

ou

(5.44)
onde Sσ é o termo devido a força exercida pela tensão interfacial (Aris, 1990):
(5.45)

e onde H é a curvatura local da interface e σ é a tensão superficial entre as fases. A


existência do termo fonte Sσ mostra que há uma variação na quantidade de movi-
mento devido à presença das interfaces separando as fases. Além disto, a interface
ainda com massa infinitesimal é capaz de contribuir com o balanço de quantidade
de movimento.

5.4 COMENTÁRIOS FINAIS


Foram apresentadas as equações médias de conservação da massa e quantidade de
movimento para as fases baseadas nos processos de média: no tempo, no volume ou
no conjunto.
As equações representam o balanço de massa e de quantidade de movimento
para cada fase em termos dos valores médios ponderados pela ocorrência de cada
fase. Isso equivale a dizer que as frações de cada fase, estatísticamente, coexistem
numa mesma região do domínio. Por isso, são também denominadas de modelo de
meio contínuo “interpenetrante”. Até o momento, não foi feita restrição ao número
Capítulo 5 Equações Médias de Transporte 57

de fases presentes, isto é, k ≥ 2, e por isso estas equações representam um fluido


multifásico.
O grande desafio que este conjunto de equações coloca é a modelagem dos
termos interfaciais, Γk, ki, kiΓk, com o agravante de que nessa modelagem não
estão incluídos os termos de tensão superficial, negligenciados à priori. As equa-
ções médias possuem mais incógnitas do que equações e o único meio de resolver
o sistema é modelando os termos interfaciais. Esse tipo de restrição também surge
na modelagem de escoamentos turbulentos. Ao se criar as equações médias, surgem
correlações com produtos entre os termos médios ou de ordem superior (as flutua-
ções ou turbilhões) que requerem a introdução de modelos para que seja possível
resolver as equações médias.
A aplicação das equações médias de massa e de quantidade de movimento para
fluidos multifásicos está restrita praticamente a duas fases, pois, nesse caso, se po-
dem estabelecer, com alguma segurança, equações constitutivas que representem os
termos interfaciais. Este assunto será tratado no Capítulo 6.
Modelo de Dois CAPÍTULO
Fluidos 3D e
suas Equações
Constitutivas 6

O modelo de dois fluidos tem aplicações em fenômenos transientes, propagação de


ondas e mudança de padrão de escoamentos. Sua aplicação é reconhecida em cená-
rios onde o acoplamento entre as duas fases é fraco, de maneira que a inércia de cada
fase pode mudar rapidamente. Entretanto, se as duas fases estão fortemente acopla-
das, isto é, se a resposta de aceleração das fases é quase que simultânea de modo que
as fases estão próximas de um equilíbrio mecânico e térmico, a aplicação do modelo
de dois fluidos vem acompanhada de instabilidades que frequentemente impedem o
seu uso em casos práticos desta natureza.
O modelo de dois fluidos isotérmico é expresso pelas equações de transporte
para cada fase separadamente, constituindo um sistema de quatro equações acopladas
devido à interação entre as fases, isto é, o campo médio de uma fase não é indepen-
dente da outra fase. As equações dos termos médios vêm a partir da média das equa-
ções locais e instantâneas. O processo de média suaviza ou perde a informação rela-
tiva à transitoriedade espacial e temporal da passagem das fases. Os termos médios
que representam a interação entre as fases são representados por meio de grandezas
médias nos termos: Γk, ki, kiΓk. O processo de média resulta num sistema de equa-
ções indeterminado, pois não possui informações para resolver os termos de interação
entre as fases. Essas informações adicionais devem ser supridas por meio de equações
de fechamento ou constitutivas obtidas de modelos e/ou dados experimentais. O mo-
delo parte das equações de conservação de massa e quantidade de movimento, Equa-
ções (5.32), (5.34), assim como das condições de salto, Equações (5.42) e (5.44),
aplicando-as para duas fases, isto é, k = 1 ou k = 2.
60 Escoamento Multifásico Isotérmico

EQUAÇÃO DA CONSERVAÇÃO DA MASSA


De acordo com a condição de salto na interface, Γ1 + Γ2 = 0, Equação (5.42). Como há
somente duas fases α1 + α2 = 1. A equação da conservação da massa para cada fase é:

(6.1)

(6.2)

A forma canônica dos termos Γ1 ou Γ2 dada pela Equação (5.33), necessita de um


modelo que represente a vazão mássica por unidade de volume devido à mudança de
fase para que ela possa ser incorporada ao modelo de dois fluidos. Este tópico será
tratado na Seção 6.3.

EQUAÇÃO DA QUANTIDADE DE MOVIMENTO


Condição de salto na interface: 1i + 2i = 0 e 1Γ1 + 2Γ2 = 0, Equação (5.44). Por
hipótese, os efeitos de tensão superficial estão excluídos. A forma conservativa da
equação de quantidade de movimento para as fases (1) e (2) é:

(6.3)

onde os termos que correspondem à pressão e à tensão média na interface são:

e (6.4)

Na ausência de tensão superficial ou forças capilares P1 = P2 = P. A quantidade de mo-


vimento devido ao fluxo de massa que cruza a interface (mudança de fase) e as forças
interfaciais estão representados pelas Equações a seguir:

(6.5)
Capítulo 6 Modelo de Dois Fluidos 3D e suas Equações Constitutivas 61

(6.6)

A equação de transporte de quantidade de movimento para as fases possui os termos


Tk, Tki, Pki, i Γk e 'ik, Equações (6.3), (6.5) e (6.6), que devem ser modelados a partir
m

de equações constitutivas, de forma que possam ser incorporados ao modelo de dois


fluidos. Note que estes termos, assim como aquele da Equação (5.33), são produtos
entre termos resultantes do processo de média e que causam uma indeterminação no
modelo de dois fluidos, isto é, o modelo possui mais incógnitas do que equações. Daí
a necessidade de se prover equações de fechamento para estes termos de forma a resol-
ver a indeterminação do modelo de dois fluidos. As equações de fechamento, também
denominadas por equações constitutivas, são apresentadas nas Seções 6.1 e 6.2.

6.1 EQUAÇÕES CONSTITUTIVAS PARA O TENSOR DAS


TENSÕES
A tensão é dividida em uma componente normal, a pressão P, mais uma tensão extra T
de tal forma que: J = −PI + T, sendo I o tensor identidade. A pressão vem da equação
de estado ou de origem hidrostática. Quando a tensão superficial pode ser desprezada,
as duas fases têm a mesma pressão. O termo extra de tensão Tk, devido ao movimento
relativo do fluido, recebe a contribuição de dois tipos de tensão: uma devido à difusão
molecular e outra devido às flutuações de velocidade,
(6.7)

O lado direito da equação representa o tensor de tensões “laminar” e “turbulento”


respectivamente.

6.1.1 Tensor de tensões laminar


Para fluidos Newtonianos, incompressíveis e com uma única fase, a relação entre a
tensão e a deformação é dada pela viscosidade dinâmica de tal forma que:
(6.8)

Infelizmente não se pode generalizar o tratamento quando há duas fases escoando


simultaneamente. Não é conhecida nenhuma solução geral para equação constitutiva
entre a tensão e deformação em escoamento bifásico. Mesmo para escoamentos sim-
ples, a determinação do tensor laminar para escoamentos bifásicos ou de suas cons-
tantes é difícil. Há modelos para escoamentos de fases dispersas (Drew; Passman,
1999), entretanto, eles não trazem uma universalidade ao modelo de dois fluidos.
A maneira como uma mistura de dois fluidos se comporta quando submetida
a uma taxa de deformação é descrita por meio de vários parâmetros. Não há uma lei
física, nem princípio de conservação que determine especificamente a forma desta
relação funcional. Porém, ela deve satisfazer o critério de objetividade, isto é, inva-
riante com relação ao referencial. Os modelos podem reproduzir o fenômeno físico
62 Escoamento Multifásico Isotérmico

em determinadas situações. O fluido Newtoniano é um modelo que descreve muito


bem uma grande classe de fluidos onde a tensão e a taxa de deformação variam li-
nearmente. Um dos modelos propostos para o tensor laminar parte do modelo linear
quando um único fluido está presente. Multiplicando a Equação (6.8) por Xk e fazen-
do a média encontra-se:

(6.9)

A partir da Equação (6.9) surgem proposições para equações constitutivas para flui-
dos incompressíveis particionando a contribuição do tensor deformação, sendo que
uma parcela corresponde a uma única fase e a outra devido a passagem das interfaces:

onde (6.10)

Drew e Passman (1999, p. 146, equação 29) propõem uma relação para o tensor de-
formação da interface. A componente m,l do tensor Dki é:

(6.11)
sendo que as constantes μk2 e Ek12 devem ser definidas a partir de experimentos. Na
expressão, os termos ( ki ∇αk + ∇αk ki) não representam produtos vetoriais, mas pro-
dutos diádicos. Ishii e Hibiki (2006) propõem um tensor de deformação da interface
proporcional à flutuação da velocidade vezes a área interfacial:

onde

(6.12)
As Equações (6.11) e (6.12) são complexas devido aos vários mecanismos físicos
envolvidos em Dki. Em particular, a Equação (6.12) nunca foi verificada experimen-
talmente. Além disto, a modelagem proposta nas Equações (6.11) e (6.12) depende
da forma como as fases estão distribuídas espacialmente, isto é, depende do padrão
do escoamento. Na prática, em problemas de engenharia, rotineiramente o termo Dki
é desprezado e aproxima-se a tensão por:

(6.13)

6.1.2 Tensor de tensões turbulento


O tensor de tensões devido ao movimento dos turbilhões para escoamentos bifási-
cos é complexo de se modelar porque há dois mecanismos que contribuem para as
flutuações das velocidades: um deles é a própria flutuação ou turbilhão da fase k, o
Capítulo 6 Modelo de Dois Fluidos 3D e suas Equações Constitutivas 63

outro é a flutuação devido à distribuição das fases no volume. Estes dois mecanismos
coexistem no escoamento e interagem entre si, podendo aumentar ou diminuir o nível
de turbulência. Além disto, eles dependem do arranjo espacial das fases (padrão do
escoamento). O desenvolvimento dos modelos de turbulência para escoamentos bifá-
sicos ainda está no seu estágio inicial devido às complexidades inerentes. Por hipóte-
se, considera-se que a tensão turbulenta é constituída pela soma das tensões induzidas
pelo escoamento e pela fase, TkFI e TkPI, respectivamente:
(6.14)

Essa equação, por si só, já constitui um modelo. A tensão é modelada baseando-se


no conceito de viscosidade turbulenta, μT, de forma que a média do tensor turbulento,
Equação (5.35), passa a ser:

(6.15)

onde a viscosidade turbulenta é definida a partir do princípio de superposição empre-


gado na Equação (6.14) de tal forma que:
(6.16)

O conceito de difusividade turbulenta aplicado ao princípio de superposição permite


modelar a turbulência em escoamentos bifásicos com uma ferramenta semelhante
àquela empregada em escoamentos monofásicos. O problema agora fica restrito à
modelagem das parcelas do termo de difusão turbulenta. A difusão turbulenta induzi-
da pelo escoamento é estimada por meio de modelos algébricos de comprimento de
mistura. Para o escoamento disperso, há uma proposição do modelo de duas equações
k−ε (Lopez de Bertodano et al. 1994a). O termo de turbulência induzida pela fase é
modelado à parte em função do padrão das fases e há pouca informação para este ter-
mo. Uma revisão de modelos de turbulência aplicados em escoamentos bifásicos foi
realizada em Barbosa Jr. (2002) e Crowe, Troutt e Chung (1996).

6.2 ARRANJO ESPACIAL DAS FASES E OS TERMOS


INTERFACIAIS
Os termos interfaciais representam os efeitos de transferência de massa, quantidade
de movimento e energia de uma fase em outra. Estes termos surgem do processo de
média das equações de transporte local e instantânea (veja as Equações (6.5) e (6.6))
e necessitam de uma equação constitutiva para tornar o modelo de dois fluidos deter-
minado. Os termos interfaciais dependem das propriedades de transporte das fases,
das velocidades relativas, da diferença de temperatura e, fundamentalmente, da den-
sidade de área interfacial. Variações no arranjo espacial das fases dentro da tubulação
conduzem a variações nos termos interfaciais devido às mudanças das velocidades as-
sim como da densidade de área interfacial. Modelos para estes termos a partir de prin-
cípios fundamentais não são possíveis dentro do contexto do modelo de dois fluidos.
64 Escoamento Multifásico Isotérmico

Postula-se que os termos interfaciais apresentem comportamento similar des-


de que o padrão do escoamento seja o mesmo. O padrão do escoamento é um
descritor linguístico baseado em observações visuais do arranjo espacial das fases
no escoamento. A mais simples classificação aponta três padrões: bolhas dispersas,
intermitente e anular; veja discussão no Capítulo 1. Uma representação qualita-
tiva do arranjo espacial das fases no escoamento vertical ascendente é mostrada
na Figura 6.1. Uma inspeção visual nesta figura mostra que a densidade de área
interfacial é alterada significativamente na mudança entre um padrão para outro.
Cabe ressaltar que a atribuição dos padrões tem certo grau de subjetividade, uma
vez que a transição entre um padrão e outro não ocorre subitamente, mas de forma
contínua e sutil.
As equações constitutivas para os termos interfaciais baseiam-se em modelos
fenomenológicos, intrínsecos ao padrão do escoamento, que representam por meio
de simples balanços e coeficientes experimentais os processos de transferência de
massa, quantidade de movimento e energia na interface. Equações constitutivas para
o padrão de bolhas dispersas são definidas para escoamentos 3D e 1D. Para o padrão
estratificado as equações constitutivas aplicam-se somente para escoamentos 1D, en-
quanto que modelos para campos 3D são complexos. Por último, o padrão intermi-
tente não permite representação em campos 3D dentro do contexto de média, uma vez
que a intermitência bolha de gás e pistão de líquido é intrínseca ao escoamento. Isto
remete ao comentário do último parágrafo do Capítulo 3, “A natureza do processo
de média é exata, porém aplicar a média para qualquer caso prático pode resultar,

Bolhas Golfadas ou Anular


Dispersas Intermitente
FIGURA 6.1 Distribuição espacial das fases gás e líquido e identificação dos padrões.
Capítulo 6 Modelo de Dois Fluidos 3D e suas Equações Constitutivas 65

eventualmente, em um resultado irrelevante na análise”. Esta consideração orienta


o desenvolvimento dos modelos e, principalmente, de suas equações constitutivas,
assunto das próximas seções deste capítulo.

6.3 EQUAÇÃO CONSTITUTIVA PARA O TERMO DE MUDANÇA


DE FASE
Para processos onde ocorrem fenômenos de vaporização ou condensação há uma
vazão mássica na interface por unidade de volume, Γk, correspondente ao fluxo de
massa que está sendo transformado de uma fase em outra.

(6.17)

Aplicando respectivamente, a média temporal, Equação (4.15), ou a média volumétri-


ca, Equação (4.19), tem-se que:

(6.18)

ou,

(6.19)

É interessante notar que os processos de média no tempo e no volume resultam em


definições de Γk que devem produzir os mesmos resultados para processos homo-
gêneos e estacionários. O processo físico que envolve Γk é mais bem compreendido
adotando-se um processo de média no volume, Equação (6.19). Γk é expresso pela
vazão mássica que cruza as interfaces contidas no volume de amostragem dividido
pelo volume de amostragem. Para escoamentos com mudança de fase devido à
transferência de calor, a vazão mássica por unidade de volume, Γk pode ser ex-
pressa pela razão entre o transporte de calor líquido para interface e a entalpia de
mudança de fase:

(6.20)

A Equação (6.20) mostra que, se for conhecido o fluxo de calor na interface, então
o fluxo de massa devido a vaporização ou condensação pode ser estimado. Este
fluxo de massa aponta para fora da fase líquida se o fluxo de calor do lado da
fase líquida exceder o fluxo de calor do lado da fase vapor, isto é, está ocorrendo
vaporização. O reverso é verdadeiro para condensação. Na maioria dos sistemas
66 Escoamento Multifásico Isotérmico

líquido-vapor o fluxo de calor do lado da fase líquida domina o processo e, para


uma primeira aproximação:

(6.21)

onde ai é a densidade de área interfacial, isto é, área por unidade de volume; hi o coe-
ficiente de transferência de calor na interface para o lado do líquido; TL a temperatura
do líquido longe da interface e Ti a temperatura da interface.

6.4 EQUAÇÃO CONSTITUTIVA PARA O TERMO DE FORÇA


INTERFACIAL – FORMA CANÔNICA
Observando a Equação (6.6) nota-se que o termo 'ik tem dimensão de força por
unidade de volume. Ele pode ser expresso pelo processo de média no tempo ou no
volume como mostrado a seguir:

(6.22)

ou,

(6.23)

O termo 'ik, Equação (6.22) ou Equação (6.23) só pode ser modelado de forma
heurística aplicando-se um modelo conforme o padrão do escoamento, isto é, dis-
perso ou estratificado. Atualmente as técnicas experimentais estão distantes de poder
realizar medidas experimentais que avaliem os termos P, T e ki associados às inter-
faces; talvez no futuro a simulação direta de escoamentos bifásicos permitirá acessar
cada um destes termos isoladamente e revelará a estrutura do termo 'ik. A validade
dos modelos heurísticos é acessada indiretamente por meio dos resultados globais
do modelo de dois fluidos, tais como: distribuição de fração de vazios, gradiente de
pressão etc. O modelo da força interfacial para os padrões disperso e estratificado é
apresentado nas seções seguintes.

6.5 EQUAÇÃO CONSTITUTIVA PARA A FORÇA INTERFACIAL


– PADRÃO DISPERSO
O padrão disperso é caracterizado por uma distribuição de partículas numa fase con-
tínua. As partículas podem representar sólidos, gotas de líquido e também bolhas
de gás dispersas em um meio contínuo que pode ser líquido ou gás. Por exemplo,
em sistemas gás-líquido pode-se ter bolhas de gás dispersas em líquido ou gotas de
líquido dispersas em gás (sprays). Uma questão fundamental é determinar a força
Capítulo 6 Modelo de Dois Fluidos 3D e suas Equações Constitutivas 67

interfacial, isto é, a força que as fases exercem entre si. Por conveniência, no padrão
disperso as fases dispersa e contínua são identificadas pelos subíndices “p” e “f”,
respectivamente.
O acoplamento entre as fases é tanto maior quanto menor for a distância livre
entre as partículas. A distância entre partículas pode ser estimada somente em ar-
ranjos regulares de partículas. Considerando um arranjo cúbico de partículas, como
mostra a Figura 6.2, pode-se definir a distância livre entre centros de partículas, Lp,
por meio da fração volumétrica de partículas, αp no cubo.

Lp

FIGURA 6.2 Partículas num arranjo cúbico e a distância livre Lp.

onde (6.24)

Note que na equação acima, a distância livre entre partículas e a fração de vazios es-
tão diretamente relacionadas, ou seja, Lp/Dp ou αp são informações complementares
uma vez conhecida a forma do arranjo entre partículas. O mesmo pode-se dizer para o
recíproco da densidade de área interfacial. Para o padrão disperso ai = πDp2/Lp3, logo
1/ai = Dp/(6αp) ou (Dp/Lp) = (Dpai/π)1/3.
Sistemas dispersos com partículas sólidas têm as interações entre as partículas
e a fase contínua classificadas de acordo com a distância livre entre partículas (El-
ghobashi, 1994; Crowe, 2006). Os sistemas são classificados em duas categorias:
diluídos ou densos. O valor limítrofe entre sistemas diluídos e densos é αp ≈ 10−3 ou
Lp/Dp ≈ 10. Valores de Lp/Dp > 10 caracterizam sistemas diluídos enquanto que Lp/Dp
< 10 caracterizam sistemas densos.
Nos sistemas diluídos quando Lp/Dp > 100 pode-se considerar que a presença
da partícula não influencia a fase contínua e, portanto, se diz que o acoplamento
partícula/fluido é simples (one-way). Estes sistemas são caracterizados por fra-
ções volumétricas αp<10−6 ou 0,0001%. Nestas condições, as trajetórias das par-
tículas podem ser determinadas conhecendo-se o campo de velocidades da fase
contínua como se as partículas não existissem. Quando 10 < Lp/Dp < 100 a pre-
68 Escoamento Multifásico Isotérmico

sença das partículas influi na fase contínua e, portanto, se diz que o acoplamento
partícula/fluido é duplo (two-way). Esta condição ocorre para frações de vazios
10−6 < αp <10−3 ou 0,00001% < αp < 0,01%.. No acoplamento duplo as forças exer-
cidas pelas fases contínua e dispersa influenciam-se mutuamente. Nos sistemas
densos Lp/Dp < 10 o acoplamento é quádruplo (four-way) no sentido que as par-
tículas estão tão próximas entre si que uma afeta, dinamicamente, o movimento
das vizinhas, podendo haver colisões entre partículas e redistribuições. A Figura
6.3 ilustra a classificação do escoamento disperso em diluído e denso e identifica
o tipo de acoplamento partícula fase contínua em função do espaçamento entre
partículas ou da concentração volumétrica das partículas.
Considerando partículas sólidas, a principal diferença entre os regimes diluído
e denso reside no fato de que no primeiro o movimento das partículas é governado
pelas forças que a fase contínua exerce nas partículas, tais como força de arrasto e
sustentação, massa aparente, Basset, etc. No regime denso, o escoamento é carac-
terizado pela alta frequência de colisão entre partículas e, portanto, o movimento
das partículas é definido pelas colisões inter-partículas. Os efeitos dinâmicos que a
fase contínua exerce nas partículas são de ordem menor quando comparados com a
redistribuição causada pelas colisões (Sommerfeld, 2000). Em se tratando de bolhas
de gás dispersas em líquido ou gotas de líquido dispersas em gás (sprays), o regime
denso não é atingido. Quando o espaçamento entre partículas começa a diminuir,
as partículas de gás ou líquido começam a coalecer, criando partículas maiores e,
eventualmente, gerando uma mudança de padrão de bolhas/gotas dispersas para
outro padrão. Além disto, as bolhas de gás não apresentam colisão com paredes
enquanto que as gotas de líquido ao se chocarem com uma parede podem aderir a
ela ou ser atomizada pelo choque.

6.5.1 Tamanho e distribuição das partículas


Em escoamentos dispersos, com frequência, é necessário fazer uma hipótese simpli-
ficadora assumindo que as partículas (bolhas, gotas ou sólidos) apresentem um único

Espaçamento entre Partículas Lp/Dp


100 10 1

Escoamento bifásico Escoamento bifásico


disperso diluído disperso denso

Acoplamento Acoplamento Acoplamento


simples duplo quádruplo

1E-8 1E-7 1E-6 1E-5 1E-4 1E-3 0.01 0.1


Fração em Volume [-]
FIGURA 6.3 Classificação de escoamento disperso diluído e denso.
Capítulo 6 Modelo de Dois Fluidos 3D e suas Equações Constitutivas 69

tamanho característico. Entretanto, em processos reais, as partículas não se apresen-


tam num tamanho único, mas em tamanhos variados, caracterizando uma população
com uma média e um desvio padrão. Além disto, se supõe que as partículas sejam
aproximadamente esféricas para que sua população possa ser caracterizada por uma
única dimensão (diâmetro ou raio).
As distribuições mais utilizadas para caracterizar uma população de partículas
são: Log-Normal e a Rosin-Rammler (Crowe; Sommerfeld; Tsuji, 1998) ambas com
dois parâmetros de ajuste.
A partir das distribuições das partículas, pode-se caracterizar seu diâmetro mé-
dio. O modo como o diâmetro médio pode ser caracterizado não é único pois, de-
pendendo do modelo físico em que será utilizada a informação, uma definição ou
outra pode ser mais conveniente. Isto conduz a uma série de definições de diâmetros
médios Djk:

(6.25)

onde p(D) é a função densidade de probabilidade do diâmetro.


• D30 (j = 3 e k = 0) define o diâmetro médio ponderado pelo volume ou pela mas-
sa, desde que as partículas apresentem a mesma massa específica. Neste caso,
para uma população com N partículas, o volume ocupado pelas partículas e sua
massa podem ser definidos por:
e (6.26)

• D20 (j = 2 e k = 0) define um diâmetro médio caracterizado pela área superfi-


cial da partícula. D20 é relevante para processos que são controlados pela área
superficial da partícula, tais como a transferência de calor entre fase dispersa e
fase contínua.
• D10 (j = 1 e k = 0) define o diâmetro médio da população, sendo utilizado para
classificação das partículas. Entretanto, como o volume não é linear com o diâ-
metro, a informação do diâmetro médio não conduz nem ao volume ou à massa
correta da população das partículas.
• D32 (j = 3 e k = 2) define um valor médio baseado na razão entre o volume da
partícula e sua área superficial. É conhecido como diâmetro médio de Sauter e
empregado com frequência na determinação de forças interfaciais, uma vez que
traz consigo a razão entre o volume e a área superficial, que é o recíproco da
definição de densidade de área interfacial.

6.5.2 'ik no padrão disperso


O modelo do termo ki para escoamentos dispersos aplica-se somente ao regime di-
luído de partículas com acoplamento duplo. Para baixas concentrações volumétricas
70 Escoamento Multifásico Isotérmico

ou Lp/Dp > 100, o modelo de dois fluidos ainda se aplica, entretanto o acoplamento
entre as fases é tão fraco que a fase contínua pode ser determinada sem levar em conta
a presença das partículas, isto é, como se fosse um escoamento monofásico. Por sua
vez, o regime denso de partículas, no outro extremo da escala, só existe para partícu-
las sólidas, misturas com gases e líquidos, e tem a tendência de mudar o padrão com o
aumento da concentração. Portanto, o limite denso não se aplica neste caso.
Dentro do contexto de aplicações em sistemas gás-líquido, o termo médio de
força interfacial por unidade de volume é definido em função das forças que atuam
em cada partícula. A melhor maneira de compreender o modelo de 'ki no padrão
disperso é considerar um processo de média de volume. Evidentemente, o modelo
aplica-se a qualquer outro processo de média, entretanto, este é o mais conveniente
para uma primeira abordagem. Uma inspeção direta na Equação (6.23) revela que
o termo 'ki resulta da diferença entre os valores da pressão e tensão que ocorrem
na fase e na interface. Para uma partícula esférica movendo-se num fluido, postula-
-se que a diferença expressa nestes termos pode ser diferente de zero. Portanto,
associa-se de maneira heurística uma representação do termo 'ki como sendo a
média volumétrica da força interfacial de cada partícula presente no volume de
amostragem:

(6.27)

onde é a força interfacial da partícula, e j é um índice que corresponde ao número


“N” de partículas presentes dentro do volume de amostragem. Considerando que as
partículas apresentem um tamanho médio, pode-se estabelecer uma força média de
modo que a Equação (6.27) passa a ser:

(6.28)

A razão N/Δ∀ também é conhecida como densidade de partícula por volume, gran-
deza empregada em aplicações de controle de ambiente de salas limpas (clean room
technology). Supondo que haja uma população de partículas que possa ser represen-
tada por um único tamanho médio, então pode-se definir a fração volumétrica da fase
dispersa como sendo:

(6.29)

onde ∀p é o volume da partícula. Substituindo a Equação (6.29) na Equação (6.28),


encontra-se que o termo de força interfacial é representado pelo produto da fração de
vazios pela força interfacial média da partícula por unidade de volume:

(6.30)
Capítulo 6 Modelo de Dois Fluidos 3D e suas Equações Constitutivas 71

6.5.3 Forças interfaciais no padrão disperso


A força numa partícula recebe a influência de dois campos: um próximo da partícula
e outro afastado, que correspondem, respectivamente, à interação partícula-fluido
na escala da partícula e na escala do escoamento. O Apêndice C traz esta análise de
forma detalhada. O campo próximo da partícula recebe a influência das outras par-
tículas e das condições de contorno; dele resultam as forças de arrasto, sustentação,
massa aparente e Basset, entre outras, que caracterizam esta interação da partícula
com o fluido na sua vizinhança. Por outro lado, o campo afastado contribui com a
força de campo e as tensões de pressão e de origem viscosa exercidas pelo fluido,
isso considerando que a escala característica do escoamento é muito maior do que a
dimensão característica da partícula.
Por sua vez, é reconhecido que o termo da força interfacial média por unidade
de volume expresso pela Equação (6.6) ou Equações (6.22) e (6.23) está relacionado
com o campo de escoamento próximo da partícula. Isto implica em dizer que o termo
de força interfacial que aparece na Equação (6.30) está relacionado apenas com as
forças que resultam da interação do escoamento e partícula numa escala próxima à
partícula. A força interfacial média, , é considerada como uma superposição linear
das forças causadas por diferentes mecanismos físicos nas partículas:
(6.31)

onde D, VM, B, L, W e T representam as forças de: arrasto, massa virtual, de Basset


(transiente), sustentação, de parede e dispersão turbulenta. A soma das parcelas de cada
força é exata no regime de Stokes, sendo que para este caso a equação passa a ser conhe-
cida como equação de Basset-Boussinesq-Oseen (BBO), veja a Equação (C. 7). No en-
tanto, a maioria das aplicações práticas não ocorre no regime de Stokes. Por outro lado,
não há uma equação analítica para as forças que atuam numa partícula fora do regime
de Stokes. O fenômeno se torna complexo e uma discussão extensa sobre este tópico é
apresentada nos Apêndices C e D. Para superar esta dificuldade, recorre-se a uma forma
semianalítica da equação de movimento de uma partícula, Equação (C. 22), onde os ter-
mos de força associados ao campo de escoamento afastado da partícula estão excluídos:

(6.32)

A força interfacial média que correspondente ao campo de escoamento próximo da


partícula é modelada pela superposição linear das forças de massa virtual, de arrasto,
72 Escoamento Multifásico Isotérmico

de Basset e de sustentação. A natureza de cada um destes termos é apresentada no


Apêndice C. Denomina-se esta equação de semianalítica porque ela utiliza coeficien-
tes (CVM, CD, CB e CL) que vêm de medidas experimentais, de teorias ou de uma com-
binação delas. Os valores dos coeficientes não trazem uma universalidade a todos os
casos, mas há uma correspondência deles com o fenômeno físico, de forma que uma
escolha apropriada destes coeficientes conduz a bons resultados. A confiabilidade da
Equação (6.32) não se baseia numa sólida teoria em mecânica dos fluidos, mas no
fato de uma grande quantidade de dados experimentais ser descrita de forma satisfa-
tória por este modelo semianalítico, Michaelides (1997).
Na Equação (6.32) também foi omitido o termo de força na parede. A análise
deste termo foi realizada no Apêndice D. Ela mostra que sua equação constitutiva não
é dimensionalmente correta. Apesar desta força existir, desaconselha-se o emprego da
equação constitutiva para a força de parede. O termo de Basset ou o termo associado
à história da partícula requer um cálculo implícito. Com frequência este termo é des-
prezado de forma “ad-hoc”. Neste caso a equação para o termo de força interfacial
por unidade de volume é obtida substituindo-se a definição de na Equação (6.30) e
resulta na Equação (C.24) repetida aqui por conveniência:

(6.33)

onde r
= ,e f
é a vorticidade da fase contínua, sendo que p
e f
são

as velocidades das fases definidas em termos médios na base do tempo, volume ou


conjunto ponderadas pela fase e pela massa específica, veja a Equação (3.11).
O Apêndice D trata especificamente das equações analíticas que constituem
os coeficientes empíricos. As dificuldades no estabelecimento das equações consti-
tutivas para os coeficientes advêm do fato de as partículas sólidas, gotas e bolhas se
comportarem de maneiras distintas. Enquanto que as primeiras não se deformam, as
partículas de fluidos (gotas e bolhas) podem se deformar e apresentar oscilações na
forma. As dificuldades de modelagem se somam ao fato de as partículas experimenta-
rem regimes de número de Reynolds que podem variar desde a completa ausência de
inércia até valores de Rep da ordem de 103 ou mais. Há também desvio da forma esfé-
rica, necessidade de correção dos coeficientes devido à concentração volumétrica das
partículas e, por último, mas não menos importante, o acoplamento entre as diversas
forças, que certamente não é linear para regimes Rep > 0.
Uma vez colocadas em perspectiva as dificuldades de modelagem da força inter-
facial para um escoamento com múltiplas partículas, é de se esperar que não haja um
valor consensual para os coeficientes empíricos entre as diversas aplicações. O Apên-
dice D apresenta uma discussão sobre cada um dos coeficientes e sugere uma faixa de
utilização, na medida do possível. O emprego de dados experimentais é reconhecido e
valorizado para validar ou mesmo ajustar os melhores valores de coeficientes.
Capítulo 6 Modelo de Dois Fluidos 3D e suas Equações Constitutivas 73

6.6 EQUAÇÃO CONSTITUTIVA PARA A FORÇA INTERFACIAL


– PADRÃO ESTRATIFICADO
Devem ser reconhecidos dois cenários para o padrão estratificado: um que apresenta
uma interface lisa, com = 0, e outro com interface ondulada, onde ≠ 0,
típico de escoamento estratificado ondulado ou anular, veja representação esquemá-
tica na Figura 6.4.
O primeiro cenário apresenta um caso com interface lisa de tal forma que a
interface possui velocidade, mas sua componente normal à interface é nula. Esta
situação ocorre quando a interface é estacionária ou apresenta um movimento pura-
mente tangencial.
A interface lisa pode ser tratada como um caso particular, pois sua densidade de
área interfacial é singular. A definição de área interfacial:

(6.34)

revela que, para o processo de média no tempo, ai é descontínua porque = 0.


Para média no volume, como a interface é plana, Δ∀ → 0 enquanto que a área Sj é fi-
nita, portanto, também descontínua e, para a média de conjunto, Xk é unicamente de-
finida na posição da interface, seu gradiente possui somente uma componente normal
à interface de modo que seu valor local coincide com o valor médio e é representado
pela função delta aplicada na posição da interface.
Neste cenário, os termos interfaciais que contêm densidade de área interfacial,
Equações (6.5) e (6.6), deixam de ser relações constitutivas para serem inseridas na
formulação dos termos médios. De fato, a posição da interface é conhecida e deve ser
tratada como uma condição de contorno similar àquela de uma parede sólida. Na in-
terface, há uma continuidade de velocidade e de tensões de tal forma que a velocidade
da fase líquida e da fase gás coincidem na interface, assim como a tensão determinada
pelo lado do líquido e pelo lado do gás na interface também são contínuas, veja pro-
blema exemplo sobre dois fluidos imiscíveis escoando num canal paralelo em Bird,

Gotas
Parede

Vapor
∝H ρ1 P1 U1
Interface
H
ρ2 P2 U2
(l-∝)H

Filme
Parede
Força
Gravitacional

FIGURA 6.4 Representação de escoamento estratificada com interface lisa e ondulada.


74 Escoamento Multifásico Isotérmico

Stewart e Lightfoot (1960). Em vista do exposto, pode-se afirmar que para interface
lisa, ou = 0, teremos que Pki = Pk e Tki = Tk resultando em:
(6.6)

O segundo cenário apresenta um caso com interface ondulada de tal forma que
a velocidade da interface possui uma componente não nula normal à interface. Este
caso é típico de escoamento nos padrões anular e estratificado ondulado. A densidade
de área interfacial deve ser diferente de zero somente onde há interface. Consideran-
do o filme de líquido com uma espessura média hF e as ondas interfaciais com uma
amplitude δ tal que hF > δ, tem-se que ai é diferente de zero somente quando estiver
dentro da faixa entre hF − δ e hF + δ, veja a Figura 6.5. Para problemas tri-dimensio-
nais ou axissimétricos não se conhece, a priori, a posição da interface nem tão pouco
como ai varia. Hazuku e colaboradores (2007) traz medidas de área interfacial local e
média (1D) para escoamentos no padrão anular. Seria necessária uma equação extra
ao modelo para resolver a área interfacial ou determiná-la experimentalmente e criar
uma equação constitutiva.

Estratificado Anular


G
hF filme
D
D
Si

L Si

FIGURA 6.5 Representação da interface no escoamento estratificado e no anular.

Para interface ondulada, ≠ 0, dessa forma o termo de força interfacial


média, Equação (6.6), expresso em termos de média de volume passa a ser:

(6.35)

A força interfacial por unidade de volume só existirá enquanto a área interfacial, dsj,
for diferente de zero, isto é, somente dentro da faixa de espessura “2δ” indicada na
Figura 6.5. Pki e Tki representam os valores médios ponderados pela área interfacial
que a pressão e a tensão assumem na interface. Para uma interface lisa, foi visto que
Pki = Pk e Tki = Tk. Se as ondulações na interface tiverem um comportamento perió-
dico e não houver separação do escoamento nas cristas nem nos vales da interface
Capítulo 6 Modelo de Dois Fluidos 3D e suas Equações Constitutivas 75

espera-se que Pki ≈ Pk e Tki ≈ Tk. Por este motivo, o termo 'ik, para o escoamento
estratificado, é normalmente considerado nulo. Atribui-se de forma heurística que a
força interfacial seja transmitida no padrão estratificado devido ao termo ∇αk · Tki,
tratado na Seção 6.7.
Apesar do esforço, a modelagem para o padrão estratificado em escoamentos
3D é muito limitada. A maioria dos trabalhos simplifica a distribuição 3D para mé-
dias na seção transversal, reduzindo a análise para os casos 1D na direção axial do
tubo e transientes no tempo. Este tema é abordado no modelo de fases separadas
tratado no Capítulo 7.

6.7 OUTROS TERMOS INTERFACIAIS


Resta ainda associar uma interpretação física para os termos interfaciais proporcio-
nais ao gradiente da fração de vazios na equação de transporte de quantidade de mo-
vimento. Eles são:

e (6.36)

O primeiro termo representa o produto do gradiente de fração de vazios com a diferen-


ça entre a pressão média da interface e a pressão média da fase. Note que este termo
resulta numa força por unidade de volume na direção em que aponta o gradiente αk. O
segundo termo traz o produto escalar entre o gradiente αk e o valor médio do tensor das
tensões na interface. Tal qual seu predecessor, ele tem unidade de força por volume.

6.7.1 ΔPki e Tki no padrão disperso


No padrão de fases dispersas, o termo associado à tensão média na interface é usu-
almente negligenciado face à magnitude das outras forças interfaciais e ao termo
de pressão. Este último resulta da diferença entre a pressão média na interface e a
pressão da fase:

onde (6.37)

A força associada ao termo Pk ocorre devido ao gradiente de frações de vazio pre-


sentes em um escoamento com alto número de Reynolds (escoamento potencial). As
partículas estão num arranjo que causa uma variação de área de forma que o campo
de velocidade gera um campo de pressão ortogonal como previsto qualitativamente
pelo teorema de Bernoulli (veja a Figura 6.6). A direção desta força é sempre paralela
à direção do gradiente.
Stuhmiller (1977) propõe uma relação para o diferencial de pressão no líquido
do tipo:

(6.38)
76 Escoamento Multifásico Isotérmico

escoamento

FIGURA 6.6 Força de pressão devido à existência de um gradiente de concentração volumé-


trica.

Baseado na teoria de escoamento potencial Cpi é igual a 0,25. Entretanto, na realidade,


o escoamento não é potencial e a bolha não é esférica. Lance e Bataille (1991) suge-
rem 0,5 < Cpi < 0,7; Lahey Jr. (1990) sugere Cpi = 1,0 e Lopez de Bertodano, Jones Jr. e
Lahey Jr. (1994) emprega Cpi = Cvm/2, onde Cvm é o coeficiente de massa virtual.
Por outro lado, Drew (1983) aponta que o modelo proposto na Equação (6.38)
deriva do cálculo de arrasto de forma, que usualmente é parte integrante do termo de
arrasto interfacial embutido em 'ik. Ele argumenta que a utilização simultânea da
força de arrasto e da Equação (6.38) leva a uma superposição de efeitos. Drew (1983)
propõe que a diferença de pressão, Equação (6.38), deve ser nula, isto é, fixando num
ponto no espaço, a pressão média da fase líquida neste ponto e a pressão média da in-
terface devem ser iguais. Há discordâncias com relação a este ponto de vista, uma vez
que a força resultante do modelo da Equação (6.37) é paralela à direção do gradiente
da concentração que não necessariamente coincide com a direção da força de arrasto.
Porém, a hipótese Pk = Pki provavelmente está correta quando o movimento relativo
das partículas dispersas ocorre em regime de baixo Reynolds com ausência de esteiras.

6.7.2 ΔPki e Tki no padrão estratificado


Devido à “quase” periodicidade do escoamento estratificado na direção axial, é es-
perado que ≅ 0*. Por outro lado, o produto escalar entre o vetor ∇αk e o
tensor Tki não é nulo. Considerando que o escoamento estratificado pode ser repre-
sentado por duas direções: uma principal z e outra normal y, espera-se que ∇αk tenha
uma componente dominante na direção “y”, enquanto que Tki tenha uma componente
dominante num plano cuja normal é paralela à normal da interface e cuja direção é
paralela a direção z, veja a Figura 6.7 de tal forma que:

(6.39)

* O autor desconhece se os efeitos de desprendimento de gotas do filme de líquido e a deposi-


ção de gotas do núcleo no filme de líquido influenciam na hipótese de Pki ∼ Pk.
Capítulo 6 Modelo de Dois Fluidos 3D e suas Equações Constitutivas 77

Os modelos baseiam-se na definição de um fator de atrito para interface por meio de


um fator de atrito de Fanning:

(6.40)

onde p e f são as velocidades médias da fase gás e líquido e fi é o fator de atrito in-
terfacial. Existem várias formulações para o fator de atrito interfacial e algumas delas
estão apresentadas no Capítulo 7.

y
τyz
Gás
n τzz

Líquido

z
FIGURA 6.7 Representação das tensões e da normal no escoamento estratificado.

Usualmente, o valor local de Tki não é modelado, mas sim o seu valor médio esperado.

6.8 OUTRAS APLICAÇÕES DO MODELO DE DOIS FLUIDOS


Embora o enfoque deste livro seja o escoamento de gás e líquido esta seção aponta
outras aplicações do modelo de dois fluidos com o interesse de divulgar o alcance
e abrangência deste modelo. As aplicações tratam especificamente de escoamentos
sólido-fluido e em meios porosos estacionários.

6.8.1 Comentários sobre misturas sólido-fluido


O modelo de dois fluidos pode ser aplicado com partículas sólidas em suspensão.
Entretanto, uma transposição da aplicação de gás e líquido para sólido-fluido não é
direta. Uma das principais diferenças entre escoamentos fluido-fluido e sólido-fluido
é que no primeiro caso ambas as fases se deformam e havendo um aumento de con-
centração de uma das fases eventualmente pode ocorrer uma mudança de padrão.
Para sólidos a fase dispersa não se deforma.
Os termos interfaciais são mantidos os mesmos dados pela Equação (6.31), po-
rém a pressão e o tensor das tensões apresentam uma interpretação física mais com-
plexa. Numa mistura sólido-fluido as partículas sólidas podem transmitir quantidade
de movimento utilizando três mecanismos. Um dos mecanismos ocorre quando as
partículas agem como “transmissores de tensão” permitindo que a pressão e a ten-
são de cisalhamento no fluido sejam transportadas. O segundo mecanismo refere-se
ao transporte de quantidade de movimento por contato. Considere o caso onde as
partículas tocam entre si, há alta concentração de sólidos e a tensão é transmitida
78 Escoamento Multifásico Isotérmico

elasticamente entre as partículas. A alta concentração forma um material sólido com


estrutura coerente preenchido por fluido no espaço intersticial e seu comportamento é
modelado utilizando os conceitos de deformação elástica ou plástica. O terceiro me-
canismo são as colisões entre partículas. Elas frequentemente ocorrem em concentra-
ções moderadas onde os sólidos transportados pelo fluido descrevem uma trajetória
aleatória colidindo com seus vizinhos. Os modelos para este cenário baseiam-se nos
modelos da teoria cinética dos gases.
Os mecanismos de transporte de quantidade de movimento devido à presença de
partículas sólidas são incorporados ao modelo de dois fluidos por meio de equações
constitutivas referentes a pressão, temperatura e viscosidade granular. Para referência
neste assunto sugere-se Gidaspow (1994) e van der Hoef e colaboradores (2008).

6.8.2 Comentários sobre meios porosos


Um meio poroso é representado como uma matriz sólida, rígida ou deformável, con-
tendo poros que, interconectados, permitem o escoamento de um ou mais fluidos
através do meio. A resistência deste meio poroso ao escoamento é determinada pela
permeabilidade K. O escoamento num meio poroso pode ser analisado na escala do
poro, ou microescala, e também numa escala que envolve vários poros ou macroesca-
la. A aplicação do modelo de dois fluidos em meios porosos ocorre para a macroesca-
la. As grandezas do escoamento advêm de processos de médias em áreas ou volumes
que incorporam vários poros e apresentam uma variação suave em relação ao espaço
e tempo.
A conservação da massa e quantidade de movimento para um fluido homogêneo
escoando numa matriz porosa rígida e estacionária pode ser representada por apenas
uma das componentes das equações de transporte do modelo de dois fluidos. As equa-
ções da massa e quantidade de movimento, Equações (6.1) e (6.3), reduzem para:

(6.41)

(6.42)

onde o subíndice f indica a propriedade associada ao fluido que preenche os poros e α


passa a ser a fração de volume ocupada pelo fluido ou sua porosidade.
O termo de força interfacial é modelado considerando a existência uma força
média de resistência a passagem do fluido por unidade de volume de tal forma que
'f,i pode ser expresso de forma similar a Equação (6.30).

(6.43)
Capítulo 6 Modelo de Dois Fluidos 3D e suas Equações Constitutivas 79

Por sua vez, a força média por unidade de volume é modelada de forma heurística,
presumindo-se que os termos de força interfacial estejam relacionados a resistên-
cia ao escoamento do fluido no meio poroso modelado por Darcy-Forchheimer em
Ward (1964):

(6.44)

onde K é a permeabilidade do meio e CF é o coeficiente de Forshheimer.


A extensão do escoamento monofásico para bifásico em meios porosos não é
trivial. Uma discussão sobre os princípios físicos e escalas do escoamento bifásico
em meios porosos é apresentada em Addler e Brenner (1988).

6.9 COMENTÁRIOS FINAIS


O modelo de dois fluidos tem um bom desempenho para escoamentos bifásicos onde
as fases estão relativamente desacopladas, isto é, quando o padrão é estratificado
liso, ondulado ou anular. Escoamentos onde as fases estão fortemente acopladas, tais
como disperso em bolhas, disperso em gotas e agitado podem ainda ser previstos pelo
modelo, porém requerem equações constitutivas complexas, que nem sempre repre-
sentatam todos os fenômenos físicos relativos às interações bolhas-fluido, podendo
induzir a um mau condicionamento do sistema e, eventualmente, levando a instabili-
dades numéricas. Não é conhecida uma aplicação do modelo de dois fluidos 3D para
o escoamento intermitente. De fato a alternância espacial e temporal das golfadas de
líquido seguidas por bolhas alongadas de gás induz a um valor médio que não repre-
senta nem o pistão de líquido nem a bolha de gás.
O processo de média do modelo de dois fluidos tem rigor matemático, mas
as equações de fechamento – particularmente para problemas em três dimensões –
são baseadas em postulados e ainda estão distantes de serem satisfatórias. O mode-
lo em sua forma 3D está incorporado em códigos computacionais comerciais tais
como PHOENICS, FLUENT, CFX. Uma revisão de vários trabalhos empregando o
modelo de dois fluidos é realizada por Lahey (2001). Neste trabalho são apontadas
simulações 3D do escoamento vertical ascendente e descendente de bolhas disper-
sas, escoamento em canais de seção triangular, para escoamentos isotérmicos, com
transferência de calor e com mudança de fase. Também são analisados escoamentos
externos tais como jatos bifásicos e escoamento de bolhas externas a um casco de
uma embarcação naval. Dias (1998) realiza medidas experimentais e simulações nu-
méricas empregando o modelo de dois fluidos axissimétrico para escoamento vertical
ascendente de bolhas dispersas e líquido num tubo de seção circular e também em um
bocal convergente. Posteriormente, Rosa e Morales (2004) empregam o modelo de
dois fluidos como ferramenta de projeto para determinar numericamente o coeficien-
80 Escoamento Multifásico Isotérmico

te de descarga de uma mistura bifásica de bolhas dispersas em líquido num tubo de


Venturi utilizado como medidor bifásico. Matos (2004) realiza medidas experimen-
tais e simulação numérica 3D para um escoamento em bolhas dispersas em líquido
para um tubo de seção quadrada. O trabalho é estendido a uma curva U de seção
quadrada com um trecho ascendente e outro descendente com vistas à aplicação de
separadores gás-líquido para fundo de poços.
CAPÍTULO

Modelo de Dois
Fluidos 1D 7

O modelo de dois fluidos unidimensional e transiente é aplicado na modelagem de


escoamentos bifásicos em tubulações. A forma unidimensional do modelo é obtida
a partir da aplicação de um processo de média na seção transversal do escoamento
(veja o Apêndice F). O processo de média na seção transversal condensa as proprie-
dades do escoamento na seção transversal a um único valor, mas é capaz de revelar
como o valor médio da seção transversal varia em função da distância axial da linha
e do tempo. A formulação unidimensional necessita de equações constitutivas para
transmitir os efeitos de atrito e de transferência de calor das paredes ao escoamento.
A definição do processo de média na seção transversal para uma variável ψ
genérica é:

(7.1)

onde A é área da seção transversal. No decorrer das análises será considerado, para
fins de simplificação, que as massas específicas das fases são uniformes na seção
transversal de tal modo que:

ρk = <ρk>. (7.2)
Esta aproximação é válida para a maioria das misturas gás-líquido onde o gradiente
de pressão transversal no canal é pequeno, Ishii e Hibiki (2006). Considerando esta
hipótese, a massa específica média na seção transversal de uma mistura com n fases é:

(7.3)
82 Escoamento Multifásico Isotérmico

Em particular para uma mistura com duas fases, dispersa “p” e contínua “f”, a massa
específica média da mistura na seção transversal passa a ser representada por:

(7.4)

Para se chegar nas formas das Equações (7.3) e (7.4), foram utilizadas as relações de
Reynolds para a média, veja as Equações (3.12) a (3.14).
A média ponderada pela concentração da fase k na seção transversal é definida
de forma análoga à Equação (3.8):

(7.5)

Para tornar a notação mais simples o processo de média ponderada pela concen-
tração descrito na Equação (7.5) será representado por:
(7.6)

As relações cinemáticas entre as diversas variáveis médias estão definidas na


Seção 10.2. As equações 1D são obtidas aplicando-se o processo de média na seção
definido na, Equação (7.1), nas equações 3D do modelo. As bases deste procedimento
estão mostradas em detalhes no Apêndice F. Método similar é empregado para a ob-
tenção das equações 1D do modelo de mistura mostrado na Seção 10.3.

䊏 Equação da conservação da massa


Aplicando-se o processo de média na seção nas Equações (6.1) e (6.2) e, consideran-
do uma mistura com duas fases com massa específica constante na seção transversal,
chega-se a:

(7.7)

(7.8)
Por meio do balanço de massa da mistura pode-se afirmar que: Γ1 + Γ2 = 0 e α1 + α2 = 1.

䊏 Equação da quantidade de movimento


Uma característica importante dos modelos 1D é o fato de a velocidade transformar
-se em uma grandeza escalar representada pela única componente não nula paralela à
direção axial da tubulação. Por esta razão o símbolo vetorial associado à velocidade
será abandonado na formulação. Aplicando-se o processo de média na seção na equa-
ção de quantidade de movimento, Equação (6.3), chega-se a sua forma 1D:
Capítulo 7 Modelo de Dois Fluidos 1D 83

(7.9)
T

onde S1 e S2 representam o perímetro da parede molhado pelas fases 1 e 2, respecti-


vamente, A é a área transversal do tubo e Cv,k é o coeficiente de covariância definido
abaixo. Além disto, α1,w e α2,w representam as frações de vazio das fases que estão em
contato com a parede. Para escoamentos de gás e líquido somente uma das fases está
em contato com a parede. Na Equação (7.9), θ é ângulo da tubulação com a horizon-
tal, sendo que, para escoamentos ascendentes, 0 ≤ θ ≤ π/2.
A equação de quantidade de movimento é unidimensional na direção z, coin-
cidente com o eixo do tubo. O sentido positivo do eixo z coincide com o sentido do
escoamento, isto é, da entrada para a saída. A componente da aceleração da gravidade
alinhada com a direção axial é gz. Para escoamento ascendente gz < 0, enquanto que
para escoamento descendente gz > 0. Tk,w e Tk,i são as tensões da fase k que atuam
junto a parede e a interface na direção axial. P é a pressão, e considera-se que seja
a mesma para as fases (1) e (2), isto é, não há efeitos de tensão superficial ou forças
capilares. A tensão viscosa que atua na seção transversal paralela a direção z, ∂Tk,z/∂z
= 0, foi desprezada na análise.
Devido à não uniformidade dos perfis de velocidade e de concentração, é in-
troduzido o coeficiente de covariância Cv,k para relacionar a média do produto com o
produto de médias entre as variáveis (veja o Apêndice F). O coeficiente de covariân-
cia para o termo convectivo é definido por:

(7.10)

Ishii e Hibiki (2006) propõem para o padrão bolhas dispersas em líquido e agitado
os valores de Cv,k definidos nas Equações (10.67) e (10.68), repetidas aqui por con-
veniência:

Cv,f = 1 + 1,5(C0 − 1), (10.67)

Cv,p = 1 + 0,5(C0 − 1), (10.68)


84 Escoamento Multifásico Isotérmico

onde “f” representa a fase contínua, “p” a fase dispersa e C0 é definido na Equação
(10.65). Para escoamentos de gotas ou sólidos dispersos em gás, espera-se que Cv,p =
Cv,f = 1 uma vez que os perfis de velocidade e concentração volumétrica são relativa-
mente planos devido à dispersão turbulenta.
Para os padrões estratificado e anular, o coeficiente de covariância pode ser
estimado (Ishii; Hibiki, 2006) de acordo com o regime de escoamento:
⎧1, 02 regime turbulento,
Cv ,k ≅ ⎨ (7.11)
⎩1, 33 regime laminar.

O padrão anular normalmente ocorre quando as fases gás e líquido estão em regime
turbulento. Entretanto, em aplicações com óleos de alta viscosidade, pode-se obser-
var, eventualmente, o filme de líquido junto a parede em regime laminar enquanto
que o núcleo gasoso está em regime turbulento.
A força interfacial média na seção transversal é representada por três termos:
(7.12)

No modelo 1D, cada termo da Equação (7.12) é representado somente por sua com-
ponente na direção do escoamento; o subíndice z é empregado no sentido de indicar
que é a força por unidade de volume na direção do escoamento. A natureza de cada
um dos termos que representam a força interfacial depende do padrão do escoamento
e será abordada a seguir.

䊏 Padrão disperso
Para escoamento desenvolvido no padrão disperso, o termo tem com-
ponente nula na direção principal do escoamento, uma vez que o gradiente da concen-
tração ocorre na direção normal ao escoamento. O termo de tensão interfacial média,
pode apresentar componente de força na direção do escoamento, entretanto,
ele não é modelado em escoamentos 3D por ser considerado muito pequeno em relação
as outras forças interfaciais e, pelo mesmo motivo, não será representado no modelo 1D.
Restou apenas o termo 'ki. Por questões de simplicidade, considera-se apenas
a força de arrasto na direção do escoamento por este ser o termo mais importante na
Equação (6.33). Aplicando o processo de média, chega-se à forma dada pela Equação
(C. 33) repetida aqui por conveniência:

(7.13)

sendo que <vr> é a velocidade relativa média das fases na seção transversal definida
como:

(7.14)

e CD é o coeficiente de arrasto definido no Apêndice D.


Capítulo 7 Modelo de Dois Fluidos 1D 85

䊏 Aplicações para o padrão disperso


O emprego das Equações (7.7), (7.8) e (7.9) é encontrado em Dias, França e Rosa (1998)
para simular o escoamento vertical ascendente de bolhas de gás dispersas em água em
um bocal convergente-divergente. Estudos em bocais convergentes aplicado a gotas de
líquido dispersas em ar também foram conduzidos por Martindale e Smith (1982) e Ri-
chter (1983) na ocorrência de um filme de líquido sujeito a uma corrente de gás.

䊏 Padrão estratificado
Foi visto na Seção 6.7 que o termo 'ki é muito menor que o termo z
. A mes-
ma justificativa aplica-se para os termos médios correspondentes ao modelo 1D, isto é:
(7.15)

de tal forma que o termo interfacial dominante é a tensão média que atua na interface.
Para escoamento estratificado com interface lisa, tem-se que Pki = P e (∇αk)z é
nulo. Nestas condições o termo interfacial associado a pressão é nulo, isto é:
(7.16)

A simplificação acima deixa de ser verdadeira para escoamento estratificado com


ondas na interface. Neste cenário Pki ≠ P e (∇αk)z ≅ a/λ onde a e λ representam a
amplitude e o comprimento de uma onda interfacial característica, respectivamente.
Entretanto, na maioria das aplicações com interface ondulada, é empregada a sim-
plificação proposta na Equação (7.16). Uma eventual correção no modelo devido à
parcela de força do termo de pressão frequentemente é incorporada como um termo
de correção na determinação da tensão interfacial que é o termo dominante.
O cálculo da componente na direção do escoamento do termo z
pode
ser simplificado considerando que a tensão média que atua na interface na direção do
escoamento Tiz é dada pela Equação (6.40), de maneira que:
(7.17)

Considerando um exemplo de escoamento estratificado com interface lisa,


como mostrado na Figura 6.6, a interface é identificada num único plano e ∇α é
uma descontinuidade representada pela função delta que é diferente de zero somente
na posição “i” da interface. Neste caso, o gradiente médio da concentração pode ser
avaliado por meio das propriedades de funções generalizadas:

(7.18)

onde r é a coordenada radial e Si é o perímetro da interface mostrado na Figura 6.5. O


resultado da integral vem da propriedade de filtragem da função δ, isto é, a integral só
não é nula onde há a interface, veja Equação (A. 36). De forma complementar, pode
-se avaliar <α> para um escoamento anular com interface ondulada como mostrado
na Figura 6.5. Neste caso, a concentração varia entre 0 e 1 (líquido-gás) numa estreita
86 Escoamento Multifásico Isotérmico

faixa anular identificada por δ, e o gradiente médio da concentração pode ser avaliado
aproximadamente como:

(7.19)

De forma geral, o termo médio de força interfacial na seção transversal reduz para:

(7.20)

Os modelos para Ti,z baseiam-se na definição de um fator de atrito de Fanning para


a interface. Considerando um escoamento estratificado de gás e líquido, as fases são
identificadas pelos subíndices G e L de forma que a tensão é modelada por:

(7.21)

onde <vG> e <vL> são as velocidades médias da fase gás e líquido e Cf,i é o fator de
atrito interfacial. Existem várias formulações para o fator de atrito interfacial e algu-
mas delas estão apresentadas nas Seções 7.2.3 e 7.3.2.

䊏 Aplicações para o padrão estratificado


O emprego das Equações (7.7), (7.8) e (7.9) para representar os padrões estratificado
e anular será abordado na Seção 7.1 que trata especificamente do modelo de fases
separadas.

7.1 MODELO DE FASES SEPARADAS


O desenvolvimento do modelo de fases separadas ocorreu junto com o desenvolvi-
mento do modelo de dois fluidos e tornaram-se sinônimos em artigos publicados
nas décadas de 70 e 80 – veja, por exemplo, Rosseau e Ferch (1979), Banerjee e
Chan (1980) e Richter (1983). O modelo de fases separadas trata as fases líquido
e gás separadas por uma interface que, frequentemente, é considerada plana. Esta
hipótese simplifica a obtenção dos termos interfaciais de transferência de massa e
de quantidade de movimento quando comparado ao padrão disperso. Atualmente,
é reconhecido que o modelo de fases separadas é uma especialização do modelo
de dois fluidos para escoamentos estratificados e representa fisicamente os padrões
estratificado liso, ondulado e anular.
Pelo fato de as fases estarem estratificadas, ou separadas, a constituição dos
termos de transferência de massa e de quantidade de movimento interfacial são mais
simples de se obter do que para o padrão disperso. Esta facilidade de modelagem
permitiu que sua aplicação em escoamentos com interfaces lisas e onduladas, assim
Capítulo 7 Modelo de Dois Fluidos 1D 87

como em escoamentos anulares, fosse desenvolvida de forma mais rápida quando


comparado ao padrão disperso.
A aplicação do modelo de fases separadas pode ocorrer para escoamentos gás-
-líquido ou líquido-líquido. Como é mais frequente a aplicação em sistemas gás-lí-
quido, as fases são identificadas pelos subíndices G e L correspondendo às fases leve
e pesada, respectivamente. Com ausência de transferência de massa entre as fases, as
Equações (7.7) e (7.8) reduzem para:

(7.22)

onde
(7.23)

Se ainda for considerado que a densidade das fases é constante na Equação (7.22)
pode-se mostrar que a soma do produto das velocidades das fases e a fração de vazios
é uma contante:

(7.24)

A variável j é o fluxo volumétrico da mistura, veja definição na Equação (10.14). A


Equação (7.24) mostra que, para um escoamento estratificado em regime transiente j
não varia com a posição z mas é função apenas do tempo. Isto é, para qualquer seção
transversal do tubo em um instante específico a soma dos produdos é sempre constante.
Por hipótese não há transferência de quantidade de movimento devido à trans-
ferência de massa entre fases. Além disso, considera-se que os termos de quantidade
de movimento interfacial são representados por uma única parcela, z
. Neste
caso, a Equação (7.9) passa a ser:

(7.25)
88 Escoamento Multifásico Isotérmico

As tensões T são constituídas por meio de fatores de atrito de Fanning,

(7.26)

A definição de tensão aplica-se para os subpadrões estratificado liso, ondulado ou


anular. O fator de atrito para cada subpadrão será definido posteriormente.
A nomenclatura para o padrão estratificado está definida na Figura 7.1. SL e
SG representam os perímetros molhados pela fase líquida e gás, respectivamente,
enquanto que Si representa o perímetro da interface. A maioria das aplicações
gás-líquido ocorre em regime turbulento. Porém, aplicações líquido-líquido po-
dem ocorrer em regime laminar, e este tópico é discutido em Ullmann e Brauner
(2006). A aplicação de diâmetro hidráulico resulta em boas predições para es-
coamento em regime turbulento, mas esperam-se desvios quando aplicadas em
escoamentos em regime laminar.
A Equação (7.25) pode representar um escoamento no padrão estratificado ou
anular, neste caso SG = 0. Há, no entanto, especializações entre os termos, dependen-
do do padrão, que serão abordadas nas seções seguintes. Escoamentos estratificados
frequentemente possuem superfícies livres com presença de ondas ou, se preferir, in-

T w,G

<VG>
SG Ti

T w,L
<VL>

D
λ
Si
θ
hL

SL

FIGURA 7.1 Representação esquemática do escoamento estratificado ascendente.


Capítulo 7 Modelo de Dois Fluidos 1D 89

clinações na interface. Neste cenário é necessário fazer uma distinção entre a pressão
termodinâmica e a pressão hidrostática devido à variação do nível de uma fase em
relação à outra. Frequentemente, no modelo de fases separadas, o efeito da força
capilar não está representado, porém, ele pode ser facilmente incorporado, pois estará
restrito à curvatura da interface.

7.2 MODELO DE FASES SEPARADAS – PADRÃO


ESTRATIFICADO
A Figura 7.1 representa esquematicamente o escoamento estratificado ascendente,
isto é, o balanço de forças expresso na Equação (7.25) que presume que o filme de
líquido escoa co-corrente com o núcleo de gás. θ é o ângulo de inclinação com a
horizontal, hL é a espessura do filme de líquido e λ é o ângulo que circunscreve o
perímetro da interface Si. Devido à ação da aceleração da gravidade o filme de líquido
situa-se na parte inferior da tubulação apresentando uma distribuição de espessura
não simétrica com relação à parede do tubo. A fração de líquido, αL, e os perímetros,
estão relacionados pelo ângulo λ, assim:

(7.27)

ou (7.28)

(7.29)

(7.30)

(7.31)

As áreas ocupadas pelas fases líquido e gás são:

(7.32)

(7.33)

Como a área ocupada pela fase e a fração de vazios médias estão relacionadas, pode
-se mostrar que:

(7.34)

(7.35)
90 Escoamento Multifásico Isotérmico

Substituindo a Equação (7.28) na Equação (7.34) obtém-se <αL> em termos da altura


do filme de líquido:

(7.36)

A expressão é bastante complexa, mas, expandindo em série de Taylor, a função Arc-


Cos ao redor de hL/D = 0, encontra-se uma forma aproximada:

(7.37)

A partir da Equação (7.36) pode-se calcular de modo exato taxa de variação de <αL>
com hL:

(7.38)

O modelo de fases separadas aplicado ao escoamento estratificado liso ou ondulado


é apresentado de forma detalhada por Oliemans em Crowe (2006) e também por Fa-
bre em Bertola (2003). O padrão estratificado tem particularidades que merecem ser
destacadas. Ele é representado pelas equações de conservação da massa de cada fase,
Equação (7.22), entretanto, a equação da quantidade de movimento, Equação (7.25),
tem o termo de pressão modificado de forma a explicitar a pressão hidrostática exer-
cida pela altura do filme.

g gcosθ
h+(dh/dz)∆z

h
∆z

θ
FIGURA 7.2 Distribuição de pressão na seção transversal do filme de líquido devido à dife-
rença de altura.
Capítulo 7 Modelo de Dois Fluidos 1D 91

7.2.1 Partição do termo de pressão: pressão de referência e pressão


hidrostática
Escoamento estratificado bifásico é constituído por dois fluidos imiscíveis, com vis-
cosidades diferentes e, usualmente, densidades diferentes. A aceleração da gravidade
atua como uma força que separa as fases de forma que a mais pesada fica abaixo da
mais leve. Evidentemente, isto se aplica para escoamentos horizontais e inclinados,
mas não para escoamentos verticais.
O movimento relativo entre os dois fluidos está sujeito a instabilidades hidro-
dinâmicas, por exemplo, a de Kelvin-Helmholtz, que leva ao surgimento de ondas
na interface que separa os dois fluidos. Quem fornece energia para formação destas
ondas é a tensão que age na interface, a inércia das correntes estratificadas e a dife-
rença de altura na interface. O último termo, em particular, se manifesta em função da
diferença da pressão hidrostática que atua num elemento de fluido na seção do canal.
Por esta razão é conveniente dividir o termo de pressão em duas parcelas: uma de
referência na seção transversal, PR, e outra devido à contribuição da pressão hidrostá-
tica, PH. Neste caso a pressão passa a ser representada pelas parcelas:
(7.39)

Considera-se a pressão de referência na seção transversal como sendo a pressão na


posição média da interface de tal modo que, para um determinado instante e posição
axial z no tubo, PR é constante e tem o mesmo valor para as fases, mas PH pode variar
com a altura do filme e com a fase. Retornando à equação de quantidade de movimen-
to, Equação (7.25), o termo associado ao gradiente de pressão passa a ser escrito por:

(7.40)

onde PH,k representa a pressão hidrostática associada à fase k. Pelo fato de as fases
compartilharem a mesma pressão de referência, o subíndice R será abandonado para
simplificar a notação.
O próximo passo é determinar uma expressão para o gradiente de pressão de-
vido a contribuição do termo hidrostático. Considera-se um escoamento estratificado
bifásico com um gás e um líquido, representados pelos subíndices G e L, respecti-
vamente. O filme de líquido está submetido a uma força axial devido à diferença de
altura da interface quando esta apresenta ondulações. Um balanço de forças no volu-
me de controle infinitesimal da Figura 7.2, que envolve apenas a fase líquida, mostra
que a diferença de nível gera uma distribuição de pressão hidrostática nas faces do
volume de controle que causa essa força resultante.
O balanço das forças que atuam no centro de gravidade, ξ, do filme de líquido
é dado por:

(7.41)
92 Escoamento Multifásico Isotérmico

onde FH,z é a força líquida devida a distribuição de pressão nas faces do volume de
controle que coincidem com a seção transversal* do duto. Simplificando a Equação
(7.41) encontra-se que:

(7.42)

A equação acima é similar àquela proposta por Andreussi, Bendiksen e Nydal (1993).
Fazendo o limite para Δz → 0 obtém-se a parcela do gradiente de pressão devido a
contribuição da força hidrostática do fluido:

(7.43)

Resta ainda definir a altura do centro de gravidade. Para um canal de seção retangular
ela é igual a metade da altura do filme de líquido e está diretamente relacionada a
altura total do canal, H, e a concentração volumétrica da fase L:

(7.44)

Substituindo a Equação (7.44) na Equação (7.43) chega-se a uma relação em termos


da concentração volumétrica ou da altura de filme:

(7.45)

Para um canal de seção circular, o CG ξ é expresso em função do ângulo λ:

(7.46)

Substituindo as definições de ξ, Equação (7.46) e de <αL> em função do ângulo λ,


Equação (7.27) na Equação (7.43) pode-se expressar o gradiente de pressão em fun-
ção de <αL> utilizando a regra da cadeia:

(7.47)

sendo que:

(7.48)

* A S.C. com face inclinada que envolve a interface foi deliberadamente excluída da análise.
Existe uma força de pressão nesta face mas ela já foi compensada. Note que o termo de pressão
sem a partição, Equação (7.9), é: <∇(αkP)> − <Pki∇αk>, aplicando o T. Gauss para obter a mé-
dia na seção transversal e considerando que Pki = P (interface lisa) pode-se mostrar que a força
na S.C. que corresponde à interface é nula.
Capítulo 7 Modelo de Dois Fluidos 1D 93

Substituindo a Equação (7.48) na Equação (7.47) chega-se a:

(7.49)

Muitos autores preferem expressar o gradiente de pressão hidrostática em função da


altura de filme ao invés da concentração de líquido. O procedimento é similar ao caso
estudado, empregando-se a regra da cadeia, pode-se expressar o gradiente de pressão
hidrostático em função de hL:

(7.50)

Por meio da Equação (7.26) pode-se obter:

(7.51)

Substituindo a Equação (7.51) na Equação (7.50) e realizando as simplificações


chega-se a:

(7.52)

Surpreendentemente, as expressões do gradiente de pressão hidrostático em função


da altura do filme, hL, para os canais com seção circular e retangular, são coinciden-
tes, veja as Equações (7.52) e (7.45). Porém, o mesmo não pode ser afirmado quando
o gradiente é expresso pela concentração volumétrica <αL>.

7.2.2 Equações da massa e de quantidade de movimento


No padrão estratificado, considera-se que a velocidade relativa entre a fase gás e o
filme de líquido esteja abaixo do limiar de atomização do líquido de forma que não há
desprendimento de gotas do filme de líquido para a fase gás. Neste caso, a equação de
conservação da massa permanece como definida na Equação (7.22).
A equação de quantidade de movimento para o padrão estratificado é definida por:

(7.53)
94 Escoamento Multifásico Isotérmico

Há um grande número de artigos na literatura que utilizam o sistema das Equações


(7.22) e (7.53) para analisar aspectos do modelo de fases separadas aplicados no
padrão estratificado. Taitel e Dukler (1976) empregam uma versão simplificada da
Equação (7.53) para predizer a transição de padrão em escoamento horizontal e pró-
ximo da horizontal. Issa (2003) simula formação e evolução de escoamento intermi-
tente de gás e liquido em linhas horizontais e quase horizontais. O modelo desenvol-
vido aplica-se a fenômenos transientes onde as bolhas alongadas de gás são formadas
pelo crescimento de instabilidades de Kelvin Helmholtz capturadas pelo modelo.
Neste artigo, o autor considera o pistão de líquido não aerado de forma que todo o gás
é transportado na bolha. Em estudo posterior, Bonizzi e Issa (2003) estendem o mo-
delo bifásico para trifásico de forma a contemplar pistões de líquido aerados. Shoham
(2006) reduz a Equação (7.53) para regime permanente sem a influência do termo
inercial e propõe um modelo mecanicista unificado para escoamentos estratificados
horizontais e inclinados.
Re-escrevendo a Equação (7.53) na forma não conservativa e introduzindo:
<αG> = <α> e <αL> = 1 − <α> assim como hG=D − hL, encontra-se que:

(7.54)

Eliminando a pressão da Equação (7.54) e utilizando as relações para <α> definidas


nas Equações (7.34) e (7.35) chega-se a uma equação em termos da altura do filme de
líquido, da aceleração das fases e dos termos de tensão e força peso:

(7.55)
Há um grande número de artigos na literatura que utilizam a Equação (7.55) ou
suas formas correlatas para analisar a forma e a estabilidade de filmes de líquidos.
Entre aqueles que se destacam sobre a forma de filmes de líquidos, pode-se citar
Dukler e Hubbard (1975) como pioneiros ao utilizar o modelo de fases separadas para
Capítulo 7 Modelo de Dois Fluidos 1D 95

modelar o perfil de uma bolha alongada por semelhança com filmes de líquido em
queda livre. Subsequente ao trabalho de Dukler e Hubbard surgiram vários outros tra-
balhos que complementaram o modelo, atualmente, considera-se o modelo de perfil
de bolha mais completo aquele proposto por Taitel e Barnea (1990). Andreussi, Ben-
diksen e Nydal (1993) propõem um modelo trifásico para o perfil da bolha conside-
rando um filme de líquido aerado escoamento abaixo de uma bolha de gás alongada.
Fagundes Netto, Fabre e Person (1999) propõem uma solução analítica para o modelo
de Andreussi, Bendiksen e Nydal (1993) por meio de uma simplificação deste mo-
delo aplicado a escoamentos horizontais, onde o filme de líquido é não aerado. Uma
análise comparativa entre as diversas formas do modelo de forma da bolha é encon-
trada em Mazza, Rosa e Yoshizawa (2010). A estabilidade de filmes planos de líquido
acelerados pela gravidade ou mesmo sob a ação cisalhante de uma corrente de gás na
interface foram estudados por vários autores, entre eles: Alekseenko, Nakoryakov e
Pokusaev (1985), Kocamustafaogullari (1985), Crowlly, Wallis e Barry (1992), Bar-
nea e Taitel (1993, 1994), Jayanti e Hewitt (1997), Funada e Joseph (2001).

7.2.3 Equações constitutivas para o padrão estratificado


O fechamento das equações de conservação de massa e quantidade de movimento neces-
sita de definições para os fatores de atrito, forma da interface e velocidade da interface.
Para escoamentos com núcleo de gás e filme de líquido turbulento na periferia
do tubo, adimite-se que a velocidade da interface é igual à velocidade média no filme
de líquido:
(7.56)

Para filme de líquido em regime laminar, considera-se que a velocidade da interface


seja o dobro da velocidade média do filme. Fabre em Bertola (2003) explora em pro-
fundidade a forma do perfil de velocidade em regimes laminar e turbulento a partir
da superposição de escoamentos básicos de Couette e Poiseuille. Frequentemente, a
velocidade média do líquido é muito menor que a velocidade média do gás, de forma
que, para a determinação da tensão e do número de Reynolds para a interface, Equa-
ção (7.26), somente a velocidade do gás é considerada. Isto não é verdade para tubu-
lações de grande diâmetro onde a velocidade média do filme de líquido pode alcançar
até 25% da velocidade média do gás.
Oliemans em Crowe (2006) recomenda a equação de Colebrook para a determi-
nação do fator de atrito para a fase k, k = L ou G, no regime turbulento:

(7.57)

onde ε é rugosidade da parede. A Equação (7.55) determina Cf,k implicitamente e isto


constitui uma desvantagem quando são requeridos cálculos rápidos. Haaland apud
96 Escoamento Multifásico Isotérmico

White (2005), propõe uma relação explícita que se ajusta a equação de Colebrook-
-White dentro de 2%:

(7.58)

Para tubos lisos pode-se empregar a expressão de Blasius para o fator de atrito:

para (7.59)

Para regime laminar, o coeficiente de atrito da fase k é definido por:

(7.60)

O mecanismo que determina a transferência de quantidade de movimento na interfa-


ce é complexo. O coeficiente de atrito interfacial, que depende das amplitudes e dos
comprimentos das ondas interfaciais, não é predito de forma adequada. Uma repre-
sentação das linhas de corrente do gás em relação às ondas progressivas do líquido é
mostrada na Figura 7.3.

FIGURA 7.3 Possível configuração das linhas de corrente sobre um filme de líquido com on-
das progressivas.

A tensão na interface depende do padrão das ondas, entre outros fatores. Rotineira-
mente, considera-se o escoamento estratificado como o escoamento entre duas fases se-
paradas por uma interface plana. Esta hipótese é uma boa aproximação quando a espes-
sura do filme é maior que a amplitude das ondas, entretanto, para filmes de líquido com
espessuras comparáveis à amplitude, isto não pode ser aplicado, Liné e Lopez (1997). Os
autores discutem esta questão envolvendo como o gás deforma as ondas e a distribuição
de tensão na interface devido aos efeitos da viscosidade e da distribuição de pressão.
Cohen e Hanratty (1968), baseado em medidas num escoamento estratificado
ondulado num canal bidimensional sugerem Cf,i = 0,014. Este valor é aplicado para
Capítulo 7 Modelo de Dois Fluidos 1D 97

escoamentos estratificados em tubulações horizontais e inclinadas. Para escoamentos


verticais co-correntes, Wallis (1969) propõe para o padrão anular:
(7.61)

onde hL é a espessura média do filme. Taitel e Dukler (1976) sugerem


(7.62)

Issa (2003) realiza uma simulação do processo de formação de golfadas horizontais


utilizando o modelo de fases separadas. Ele faz uma revisão sobre fatores de atrito
interfacial e aponta os modelos que resultaram nas melhores predições para suas si-
mulações. Para regime laminar os modelos apontados são:

e (7.63)

Por sua vez, ReD,S é um número de Reynolds baseado na velocidade superficial:

(7.64)

Para regime turbulento os modelos apontados são:

e (7.65)

Há certo consenso na aplicação das correlações para fatores de atrito em regime


turbulento, entretanto, o emprego das correlações para o escoamento em regime lami-
nar é questionável. Ullmann e colaboradores (2004) mostram que o uso das correlações
para regime laminar induzem no modelo de fases separadas previsões não realistas,
principalmente em escoamentos inclinados onde a fração de líquido e o gradiente de
pressão resultam de um preciso balanço entre a tensão e o peso da coluna de líquido.
Ullmann e colaboradores (2004) propõem novos fatores de atrito para o escoamento es-
tratificado em regime laminar. Posteriormente, Ullmann e Brauner (2006) apresentam
uma extensa revisão do cálculo dos fatores de atrito e propõem a extensão da metodo-
logia para regime turbulento. Por se tratar de um trabalho recente, o modelo não foi
confrontado contra dados experimentais de outros autores. Além disto, as equações são
algebricamente mais complexas do que aquelas apresentadas neste documento.
A forma da interface é outro assunto complexo de ser tratado. A interface plana
ocorre para baixas velocidades de gás. À medida que o gás aumenta a velocidade, co-
meçam a surgir ondas bidimensionais seguidas por ondas tridimensionais na interface.
A forma da interface deixa de ser plana, e ondas passam a ascender as paredes do tubo,
aumentando o seu perímetro interfacial. Torres (1992) fez uma caracterização experi-
mental da interface e uma determinação do fator de atrito interfacial em escoamentos
estratificados horizontais. A Figura 7.4 mostra a influência do aumento da velocidade
do gás na forma da interface. Os dados desta figura são para um escoamento horizontal
98 Escoamento Multifásico Isotérmico

de ar e água a pressão e temperatura atmosféricas, onde a velocidade superficial do


líquido é mantida constante em 0,07 m/s e a velocidade do gás foi progressivamente
aumentada, da esquerda para direita na figura, de 4,5 m/s, 9,0 m/s e 12,0 m/s. À medida
que a velocidade do gás aumenta, a fração de líquido diminui e o perímetro da interface
aumenta, se comparado com o perímetro de uma interface plana equivalente.

20 20 20

15 15 15

10 10 10

5 5 5
mm

mm

mm
0 0 0

-5 -5 -5

-10 -10 -10

-15 -15 -15

-20 -20 -20

FIGURA 7.4 Posição da interface para JL = 0,07 m/s e JG de 4,5 m/s, 9 m/s e 12 m/s. Escoa-
mento horizontal em tubulação de 38,1 mm de diâmetro, Torres (1992).

Torres (1992) também compara diversas correlações para o fator de atrito in-
terfacial contra seus dados experimentais de fator de atrito interfacial. A correlação
proposta por Hart, Hamersma e Fortuin (1989) apresentou a melhor concordância com
resultados experimentais. A correlação baseia-se no modelo de rugosidade aparente da
interface e considera que a forma da interface está distribuída na forma de um arco ao
redor da parede do tubo. A fração do perímetro molhado pelo líquido, θ, é expressa por:
(7.66)

onde

e (7.67)

A espessura média do filme de líquido, hL, é calculada a partir dos valores estimados
de θ e <αG>:
(7.68)

O fator de atrito interfacial é dado por:

onde (7.69)
Capítulo 7 Modelo de Dois Fluidos 1D 99

e k é a rugosidade aparente do filme de líquido. Uma estimativa para k vem direta-


mente da espessura média do filme, k ≅ 2,3 hL; o valor de 2,3 da constante de propor-
cionalidade mostrou-se adequado aos dados experimentais.

7.3 MODELO DE FASES SEPARADAS – PADRÃO ANULAR


O escoamento anular é caracterizado por fluxo co-corrente ascendente de um filme de
líquido junto à parede do tubo e um núcleo central de gás com gotas de líquido disper-
sas. O núcleo de gás possui alta velocidade e escoa em regime turbulento. A interface
gás-líquido frequentemente apresenta ondas de pequena amplitude com padrão 3D. O
movimento relativo entre o núcleo gasoso e o filme de líquido atomiza em gotas uma
fração do filme de líquido. A massa de líquido atomizada é adicionada ao núcleo. Por
outro lado, as gotas transportadas pela corrente de gás são depositadas novamente ao
filme de líquido devido à difusão turbulenta do escoamento no núcleo. A Figura 7.5
ilustra esquematicamente um corte na seção transversal do tubo revelando o filme de
líquido, o núcleo gasoso e as gotas dispersas para escoamento horizontal. Ela também
representa os processos de atomização e deposição de gotas.
O estudo fenomenológico deste padrão de escoamento, mesmo para modelos
1D, ainda possui questões abertas como, por exemplo, a fração de líquido no núcleo
gasoso e o fator de atrito para a interface. Os fenômenos de desprendimento e de-
posição de gotas, rugosidade aparente do filme e fator de atrito são dependentes do

Deposição

Ar
Gotas

Entranhamento

Filme de Líquido

FIGURA 7.5 Representação da seção transversal do escoamento gás-líquido no subpadrão


anular.
100 Escoamento Multifásico Isotérmico

diâmetro da tubulação e da pressão de operação, entre inúmeros outros parâmetros.


As extrapolações de dados experimentais para as equações de fechamento obtidas em
experimentos com escala laboratorial ou em operação próxima da atmosférica mui-
tas vezes não reproduzem as condições de campo típicas da indústria de óleo, onde
pode-se encontrar linhas com grande diâmetros e ou pressão de operação típicas entre
10MPa a 20MPa. A obra de Hewitt e Hall-Taylor (1971) é referência até hoje para
escoamento anular. Outras revisões mais recentes sobre este assunto são encontradas
em Oliemans, Pots e Trompé (1986) e Oliemans em Crowe (2006).
Esta seção apresenta uma abordagem preliminar ao escoamento vertical anular
ascendente empregando o modelo de fases separadas. A nomenclatura, definida na
Figura 7.6, segue a mesma linha da nomenclatura definida para o escoamento estrati-
ficado. Entretanto, deve-se fazer uma distinção entre a fase líquida que está no filme
de líquido junto à parede e a fase líquida dispersa no núcleo. As velocidades médias
do líquido no filme e no núcleo são representadas por <VLF> e <VLE>, respectivamen-
te, enquanto que a velocidade média do gás no núcleo é simplesmente <VG>. A área
ocupada pela fase líquida é composta por duas parcelas, uma do filme de líquido, ALF,
e outra do núcleo, ALE. A área ocupada pelo gás é AG. A área do núcleo AC é definida
como sendo AC = ALE + AG.
A partir das definições das áreas pode-se definir as frações de áreas das fases
na seção transversal do tubo. Considerando, por hipótese, que o filme de líquido está
uniformemente distribuído, pode-se relacionar também sua espessura hL:

SL
TW,L

Ti

TW,L
Ti

Si
<VLF>
<VLF>

<VG>

g
<VLE>

A
ALF AC=AG+ALE
LF

hF

Vi
A=AC+ALF

Ti
TW,L

FIGURA 7.6 Representação da velocidade, da tensão e das variáveis no escoamento anular.


Capítulo 7 Modelo de Dois Fluidos 1D 101

(7.70)

de tal forma que αLF + αLE + αG = 1. A fase gás no escoamento anular não molha a
parede, portanto SG = 0. Desta forma, os perímetros molhados pela fase líquida e pela
interface passam a ser:

(7.71)

onde DC é o diâmetro equivalente do núcleo.

7.3.1 Equações de transporte para o escoamento anular


As equações de transporte para o escoamento anular 1D derivam das equações do
modelo de fases separadas. Consideram-se as seguintes hipóteses simplificadoras:
a) não há condensação ou evaporação entre as fases gás e líquido; b) o escoamento
é axissimétrico; c) o escoamento disperso no núcleo comporta-se como uma mistura
homogênea, isto é, as gotas de líquido viajam com a mesma velocidade do gás e; d)
o escoamento está em regime permanente. O escoamento possui apenas duas fases,
mas a fase líquida está presente tanto no filme quanto no núcleo. Para fins de mode-
lagem, serão consideradas a fase líquida, pertencente ao filme, e uma pseudo-fase no
núcleo identificada como uma mistura homogênea entre o gás e as gotas dispersas. A
caracterização da mistura homogênea no modelo anular é realizada a partir da teoria
de misturas desenvolvida no Capítulo 10.
A vazão mássica do núcleo é constituída pelas massas de líquido e de gás:
(7.72)

A massa específica da mistura é definida a seguir:


(7.73)

sendo que <αLC> e <αG> são as frações de líquido e gás que escoam no núcleo, <αLC>
+ <αG> =1. A velocidade média da mistura, definida pela Equação (10.29), vem da
vazão mássica da mistura na seção:

(7.74)

Considerando-se o escoamento no núcleo homogêneo, pode-se expressar as frações


das fases em termos das velocidades superficiais. Empregando a definição das Equa-
102 Escoamento Multifásico Isotérmico

ções (10.17) e (10.10) e considerando que Vp,j = 0 e C0 =1, ou seja, hipótese de esco-
amento homogêneo, encontra-se:

e (7.75)

A determinação da Equação (7.75) requer o conhecimento das vazões mássicas de


gás e de líquido no núcleo. A primeira é um dado de entrada para o modelo. A se-
gunda, porém, é obtida por meio de um submodelo. Uma vez definidas as frações
volumétricas das fases, a massa específica da mistura e a velocidade média do núcleo,
Equações (7.73) e (7.74), também estão definidas.
Por hipótese, não é considerada a mudança de fase, entretanto, há uma transfe-
rência de massa do filme de líquido para o núcleo, e vice-versa, devido ao processo de
atomização e deposição de líquido. Neste caso, a equação da massa, Equação (7.22),
em regime permanente, passa a ter dois termos fontes: os fluxos de atomização e de
deposição, RA e RD, respectivamente:

(7.76)

RA e RD têm dimensão de massa por unidade de tempo e por unidade de área de pare-
de lateral e expressam os fluxos mássicos de líquido transferido para o filme de líqui-
do. O modelo do termo fonte da Equação (7.76) é análogo ao da Equação (6.19) e a
razão Si/A é reconhecida como a densidade de área interfacial. No desenvolvimento
do escoamento anular pode haver 2 cenários. RA > RD, onde o núcleo ganha massa
de líquido até que o filme de líquido entra em equilíbrio, RA ≈ RD. Também há casos
dependendo da condição inicial, em que RA < RD, neste caso o núcleo perde massa de
líquido até entrar em equilíbrio com o filme, RA ≈ RD. No estado de equilíbrio, a mas-
sa de líquido atomizada do filme passa a ser igual a massa de líquido depositada no
filme. Os mecanismos de atomização e de deposição são discutidos na Seção 7.3.2.
Entretanto, é importante reconhecer que se tratam basicamente de um sumidouro ou
uma fonte de quantidade de movimento na direção axial. Considerando que a com-
ponente axial de velocidade da gota atomizada ou depositada é VA,z e VD,z, respectiva-
mente, então a Equação (7.54) para θ = π/2 pode ser expressa por:

(7.77)
Capítulo 7 Modelo de Dois Fluidos 1D 103

A Equação (7.77) é completa no sentido que incorpora todos os termos físicos


que uma análise 1D permite. Uma análise transiente, com transferência de calor e
massa é realizada por Barbosa Jr. (2010) e Gessner (2010).
Uma maneira aproximada para tratar a Equação (7.77) pode ser alcançada elimi-
nando a pressão da Equação (7.77) e utilizando-se as definições dadas na Equação (7.70)
chegando a uma relação entre as tensões, velocidades e a fração de líquido no filme:

(7.78)

Considerado o filme em equilíbrio hidrodinâmico, RA = RD e ainda que VA,z ~ VD,z,


a variação de quantidade de movimento devido a atomização e deposição pode ser
descartada da análise. Além disso, considera-se que a variação de quantidade de mo-
vimento axial devido à aceleração do núcleo pela expansão do gás é muito pequena
quando comparada às forças de atrito de forma que a Equação (7.78) reduz para:

(7.79)

Observe que a Equação (7.79) coincide com o termo F definido na Equação (7.55)
uma vez que a inércia e a variação da espessura do filme foram desprezados no ba-
lanço de forças. Considerando esta aproximação, que SL é o próprio perímetro do
tubo e Si é expresso pela Equação (7.71), então a fração de líquido do filme pode ser
determinada pela Equação (7.79), porém ela requer que sejam fornecidos modelos
para as tensões e para a vazão de líquido no núcleo mLC. Alves e colaboradores (1991)
propõem um modelo mecanicista 1D baseado nesta equação para o escoamento anu-
lar. Uma simplificação adicional na Equação (7.79) é alcançada para filmes finos, hL
→ 0, αLF<<1 de forma que Si ≈ SL e a Equação (7.79) simplifica para: −TL,W + Ti +
(A/S)Δρg.

7.3.2 Equações constitutivas para a vazão de líquido no núcleo e a


tensão na interface

䊏 Vazão de líquido no núcleo, LC

A variável E é definida como sendo a razão entre a vazão mássica de líquido no nú-
cleo e a vazão mássica de líquido total, isto é, núcleo mais filme:

onde (7.80)

o parâmetro E é também denominado fração de entranhamento de líquido ou “liquid


entrained fraction”.
104 Escoamento Multifásico Isotérmico

A vazão de gotas de líquido dispersas no núcleo resulta de um balanço entre a


taxa de atomização do líquido que escoa junto à parede e da taxa de deposição das
gotas que é controlada pela velocidade terminal das gotas em baixas velocidades de
gás ou pelo transporte turbulento em altas velocidades de gás.
As taxas de atomização ou de deposição podem ser definidas a partir de um ba-
lanço de massa no filme de líquido. Considerando um volume de controle que envolve
a seção transversal do tubo com comprimento axial infinitesimal Δz, encontra-se que:

(7.81)

onde A representa a velocidade média na área interfacial SiΔz com que a gota é des-
prendida do filme e a normal à interface apontando para fora, isto é, para o centro
do tubo. A partir da Equação (7.81), pode-se definir o fluxo de atomização ou de
deposição por:

e (7.82)

A partir da definição da Equação (7.82) pode-se chegar ao modelo que expressa o


termo fonte de massa na Equação (7.76). Há grande dificuldade na modelagem dos
fluxos de atomização e deposição pois os fenômenos envolvidos são complexos. Os
modelos teóricos ainda são rudimentares, enquanto que a maioria das correlações é
empírica e constituída por fatores dimensionais. Elas propõem que o fluxo de deposi-
ção seja proporcional à concentração das gotas no núcleo.
Os modelos para a fração de entranhamento de líquido, E, sofrem da imprecisão
dos dados experimentais e da falta de um sólido modelo físico para sua representação.
Considera-se que eles ainda estejam num estágio de desenvolvimento, entretanto, é
encontrado em Pan e Hanratty (2002) uma revisão neste tema. É reconhecido que a
fração de entranhamento de líquido depende da velocidade do gás, do diâmetro da
tubulação, da tensão superficial, da massa específica do gás e da vazão mássica de
líquido. O grande número de parâmetros que define E, a falta de dados experimentais
aliados à grande dificuldade de obtenção destes dados em condições variadas tais
como pressão e grandes diâmetros de tubulação fazem com que os modelos para E
sejam imprecisos. Wallis (1969) propõe um modelo simples:

(7.83)

Ishii e Mishima (1989) propuseram a relação para pequenas taxas de entranhamento


de líquido:

(7.84)
Capítulo 7 Modelo de Dois Fluidos 1D 105

e para taxas de entranhamento mais elevadas:


(7.85)

Recentemente, Sawant, Ishii e Mori (2009) propõem uma correção no modelo de


Ishii e Mishima:

(7.86)

onde ReL,min = 250ln(ReL)−1265 o número de Reynolds do filme de líquido míni-


mo; Re*L,min = 13Nμ−0,5 + 0,3(ReL − Nμ−0,5)0,95 o número de Reynolds do filme de lí-

quido mínimo modificado; o número de viscosidade;

o número de Webber modificado, We o

número de Webber modificado e JG = QG/A.


Pan e Hanratty (2002) reconhecem que a existência de uma vazão mássica de lí-
quido crítica, LFC e uma velocidade de gás crítica, VGC são necessárias para ocorrer a
atomização. Valores de LF e VG α abaixo do valor crítico não produzem atomização
e, consequentemente, tornam E = 0. Pan e Hanratty propõem que:

(7.87)

A partir deste valor crítico, eles definem uma taxa de entranhamento crítica:

(7.88)

Para determinação da velocidade crítica do gás eles sugerem a expressão:

(7.89)

Dados experimentais para ar-água, freon-freon em tubulações com diâmetros varian-


do entre 1” a 2,5” e pressões variando de 1bar a 6 bar mostram que foram encontradas
velocidades críticas de gás entre 10 m/s a 35 m/s.
A partir das definições de EM e VGC, eles propõem a expressão para E:

(7.90)
106 Escoamento Multifásico Isotérmico

Sendo que k'A é uma constante adimensional, kD possui unidade de velocidade e S é a


razão entre a velocidade da gota e a velocidade do gás, veja a Equação (10.85). Como
referência S ≡ 1 para escoamento homogêneo. Pan e Hanratty concluem que o mode-
lo proposto necessita de mais dados experimentais relativos ao tamanho das gotas e
da taxa de entranhamento para melhor definir os parâmetros envolvidos no modelo. A
extrapolação desta correlação, assim como as outras, para aplicações industriais com
grandes diâmetros, elevadas pressões e fluidos que não sejam ar e água é insegura.
Para superar esta dificuldade, recorre-se, quando possível, à correlações empíri-
cas para a taxa de entranhamento de líquido baseadas em dados de campo. Oliemans,
Pots e Trompé (1986) propõem um modelo correlacional do tipo:

(7.91)

com a restrição que os expoentes β são escolhidos de forma que o lado direito da
Equação (7.91) seja adimensional.

䊏 Fator de atrito interfacial


Uma expressão para a tensão interfacial pode ser obtida isolando Ti da equação de
quantidade de movimento da fase gás, Equação (7.77) (Fore, Beus e Bauer, 2000):

(7.92)

Considerando o escoamento homogêneo, veja definição na Seção 10.6.3, <vC>=


<vG>= <vLC>, portanto o termo de aceleração:

(7.93)

A massa de gás é constante. Considerando o escoamento isotérmico, pode-se expres-


sar a Equação (7.93) em função do gradiente de pressão:

(7.94)

Substituindo as Equações (7.94) e (7.93) na Equação (7.92) chega-se a:

(7.95)

Fore, Beus e Bauer (2000) utilizam a Equação (7.95) para determinar experimen-
talmente a tensão interfacial. A Equação (7.95) revela a dependência da tensão interfa-
cial em termos do gradiente de pressão, velocidade do gás, concentração da fração de
líquido no núcleo, aceleração da gravidade e taxas de atomização e de deposição.
Capítulo 7 Modelo de Dois Fluidos 1D 107

As correlações para fator de atrito interfacial são diversas e algumas delas en-
volvem um modelo para a rugosidade artificial da interface. Alguns modelos para
determinação da rugosidade são encontrados em Oliemans, Pots e Trompé (1986).
Fore, Beus e Bauer (2000) realizam um trabalho experimental para determinar
o fator de atrito interfacial e fazem uma comparação da correlação proposta contra
dados experimentais próprios e obtidos de outros bancos experimentais. O texto que
segue é um extrato do trabalho original de Fore, Beus e Bauer (2000) para correlações
de fatores de atrito interfacial para escoamento anular vertical e co-corrente.
Fore, Beus e Bauer (2000) propõem um correção no fator de atrito proposto por
Wallis, Equação (7.61) para estender sua aplicação para hL/D até 0,04:
(7.96)

Henstock e Hanratty (1976) propõem:

(7.97)

Fore, Beus e Bauer (2000) apontam que a correlação reflete o comportamento do


fator de atrito para baixas pressões e espessuras de filme relativamente grandes, po-
rém estima para cima, de forma severa, Cf,i para casos com alta pressão. Asali (1984)
propõe uma correlação para o fator de atrito ligeiramente distinta das anteriores:

(7.98)
Finalmente, Fore, Beus e Bauer (2000) propõem um fator de correção para a correla-
ção de Wallis de forma a adequá-la à transição para o regime completamente rugoso
e espessuras de filme maiores. Eles propõem como correção um fator dependente do
número de Reynolds do gás:

com

(7.99)

7.4 COMENTÁRIOS FINAIS SOBRE O MODELO DE FASES


SEPARADAS 1D
O modelo de fases separadas é uma particularização do modelo de dois fluidos para
representar escoamentos que apresentam as fases separadas (ou estratificadas) por uma
interface bem definida. Ele tem grande aplicação para escoamentos gás-líquido nos pa-
drões estratificado liso, ondulado e anular. O modelo também é extensamente utilizado
para estudos de instabilidade de filmes de líquido sujeitos à ação da gravidade.
108 Escoamento Multifásico Isotérmico

Por ser unidimensional, o modelo condensa os gradientes das propriedades na


seção transversal para apenas um valor médio na seção, além de permitir variações
temporais. O modelo de fases separadas 1D é matematicamente mais simples de im-
plementar que seu similar 3D e, por esta razão, ganhou grande popularidade. Ele,
juntamente com o modelo de mistura 1D a ser apresentado no Capítulo 10, constituem
os modelos centrais para representação física de escoamentos bifásicos em tubulações.
Propriedades CAPÍTULO
de Misturas
e Conceitos
Cinemáticos 8

Uma mistura é constituída por um meio contínuo, gás ou líquido, e uma ou mais fases
dispersas que podem ser encontradas no estado sólido, gás ou líquido, dependendo
do estado do meio contínuo. A dimensão característica da fase dispersa pode apre-
sentar um único valor ou estar estatisticamente distribuída, isto é, uma distribuição
monodispersa ou polidispersa, respectivamente. Uma das maneiras de caracterizar
as misturas baseia-se na dimensão característica da fase dispersa. Se a dimensão das
fases for comparável a dimensão molecular, elas não podem ser distinguidas umas
das outras e suas formas de interação são definidas pela teoria clássica de misturas ou
soluções. Tipicamente estes materiais são misturas de gases cujo tratamento termo-
dinâmico é realizado na maioria dos livros textos de Termodinâmica Clássica. Drew
e Passman (1999) trazem uma breve revisão sobre a teoria clássica de misturas. No
outro extremo há misturas com fases que apresentam dimensões macroscópicas, isto
é, muitas vezes maiores que a dimensão molecular. A teoria de mistura para este tipo
de solução ainda está em desenvolvimento. Seu grau de complexidade é muito maior
que o da teoria clássica de mistura, pois ela contempla a interação macroscópica en-
tre os fases. Por simplicidade esta mistura com múltiplos materiais com dimensões
macroscópicas é denominada mistura multifásica. Não há um limite claro que divide
as dimensões características entre a escala molecular e a macroscópica. Há misturas
com escalas intermediárias. Coloides são definidos como suspensões de partículas
cujo diâmetro médio pode variar entre 0,001 μm a 1 μm, enquanto que emulsões são
suspensões “quase” coloidais caracterizadas por partículas com diâmetro médio entre
1μm a 100μm, Schramm (1992). Para este tipo de mistura a força entre partículas é
governada tanto por efeitos a nível molecular quanto a nível macroscópico.
110 Escoamento Multifásico Isotérmico

As definições das propriedades e dos conceitos cinemáticos relacionados à mis-


tura constituem a base dos modelos de mistura. Estes fundamentos são apresentados
neste capítulo com ênfase nas definições de velocidade de mistura em relação ao
centro de massa e ao centro de volume e suas inter-relações.
O volume da mistura é o volume ocupado pelas n fases distribuídas no espaço
de amostragem. A massa da mistura é a soma das massas de cada fase k (1 ≤ k ≤
n) distribuídas dentro do volume amostrado. A partir destas definições elementares,
pode-se definir a massa específica da mistura como sendo a massa específica de cada
fase isolada ponderada pela probabilidade de cada fase k ocorrer:

(8.1)

lembrando que αk é a probabilidade de ocorrência da fase k baseada no tempo, volu-


me ou no conjunto e, por definição, a sua soma deve ser igual à unidade:

(8.2)

O processo de média baseado no volume associa à massa específica da mistura,


ρm como sendo a soma das massas de cada fase presente no volume de amostragem
dividido pelo volume de amostragem. A definição dada na Equação (8.1) é análoga
ao conceito de pressão parcial para uma mistura de gases perfeitos: “Pk é a pressão
que a fase k exerceria se ela ocupasse o mesmo volume da mistura à temperatura da
mistura”, também conhecido como regra de Dalton em termodinâmica de misturas.
Para a mistura de gases perfeitos, a massa de cada fase k é definida como sendo Mk =
Pk∀/RkT. Portanto, a massa específica da mistura de gases é:

(8.3)

Reconhecendo que ΣPk = P e que a constante dos gases da mistura é: Rm = ΣckRk onde
ck é a fração mássica da fase k, então a Equação (8.3) passa a ser:

(8.4)

A fração mássica da fase k, ck, é definida como sendo a razão entre a massa da
fase k e a massa da mistura:

(8.5)
Capítulo 8 Propriedades de Misturas e Conceitos Cinemáticos 111

O conceito exposto na Equação (8.5) é melhor compreendido a partir do processo


de média no volume; neste caso, chega-se facilmente ao resultado da Equação (8.5)
suportado pelo fato das fases compartilharem o mesmo volume. Uma decorrência da
Equação (8.5) é:

(8.6)

As propriedades da mistura são expressas por meio das propriedades das fases,
tendo a fração mássica como função peso nestas equações. O fato de a equação da
massa, quantidade de movimento e energia da mistura ser aditiva em relação à massa
de cada constituinte, o conceito de fração mássica torna-se recorrente no desenvolvi-
mento destas equações.
Para uma mistura com apenas duas fases, n = 2, pode-se mostrar, através das
Equações (8.1) e (8.2), que a massa específica da mistura é:
(8.7)

Por outro lado, o volume específico da mistura pode ser expresso, de modo similar,
pelas Equações (8.5) e (8.6) como:
(8.8)

䊏 A velocidade da mistura
A quantidade de movimento de um sistema com múltiplas partículas é definida como
sendo a velocidade do seu centro de massa vezes a massa do sistema, ou seja:

(8.9)

onde representa a quantidade de movimento linear do sistema com múltiplas partí-


culas e m a velocidade de seu centro de massa. A velocidade do centro de massa de
uma mistura multifásica é definida a partir da Equação (8.9) como:

(8.10)

A aplicação do conceito de velocidade de mistura para escoamentos unidimensionais


é imediata e de grande aplicação prática. Entretanto, estender o conceito de m para
campos de velocidade tridimensionais fica obscurecido pela natureza vetorial da ve-
locidade. Em outras palavras, é difícil de se medir experimentalmente a velocidade
de mistura num campo 3D e, por causa disso, há muita incerteza na formulação de
equações constitutivas associadas às velocidades de misturas num campo 3D.
112 Escoamento Multifásico Isotérmico

䊏 Propriedade tensorial da mistura


A definição de um tensor para a mistura pode ser obtida de modo análogo à da Equa-
ção (8.1). Assim, o tensor genérico J, apresentado no Capítulo 2, é definido por:

(8.11)

䊏 A pressão da mistura
A pressão da mistura é a soma das pressões parciais ponderadas pela probabilidade
de ocorrência de cada fase,

(8.12)

A definição dada na Equação (8.12) coincide com o conceito de pressão parcial da


regra de Dalton para uma mistura de gases perfeitos. Neste caso, a soma das pressões
parciais dos gases é:

(8.13)

Excluindo as aplicações em misturas de gases ideais e focando em escoamentos


multifásicos como misturas de materiais, considera-se que a pressão da mistura é
igual a pressão das fases exceto quando há influência de tensão capilar. Esta pro-
priedade decorre da soma das concentrações, Equação (8.2), de tal forma que Pm =
P1 = P2 =...=Pn.

䊏 Propriedade escalar da mistura


Denotando por ψk uma propriedade genérica escalar da fase k (energia interna espe-
cífica, entalpia específica, entropia específica etc.), então o valor de ψ para a mistura
é definido por:

(8.14)

8.1 DEFINIÇÕES DE VELOCIDADES


O fluxo de massa da fase k, Gk, pode ser definido por meio de:
(8.15)

de tal forma que a multiplicação do produto ρkvk pela probabilidade de ocorrência da


fase k é equivalente a distribuí-la uniformemente em todo o intervalo de amostragem.
Capítulo 8 Propriedades de Misturas e Conceitos Cinemáticos 113

O fluxo de massa da mistura decorre da soma do fluxo de massa das fases, que, por
sua vez, é igual ao produto entre a massa específica e a velocidade de mistura:

(8.16)

De modo similar, pode-se definir o fluxo volumétrico da fase k, k, a partir da


Equação (8.15) como:

(8.17)

O fluxo volumétrico da fase k pode ser interpretado como sendo a vazão volumétrica
da fase k dividida pela área que ela atravessa. Sua unidade no sistema SI é (m3/s)/m2
ou se preferir simplesmente (m/s). Alternativamente, o fluxo volumétrico da fase k,
k
, é interpretado como sendo a velocidade da fase k se ela ocupasse sozinha todo o
volume ou tempo de amostragem. Por esta razão, ela também é chamada de veloci-
dade superficial.
A velocidade superficial da mistura , é obtida somando-se as velocidades su-
perficiais de cada fase:

(8.18)

Comparando as definições de velocidade de mistura e velocidade superficial, Equa-


ções (8.10) e (8.18):

(8.19)

pode-se constatar que m é relativa ao centro de massa da mistura, como visto an-
teriormente, enquanto que é relativa ao centro de volume da mistura. Se houver
uma velocidade relativa entre as fases, as velocidades m e não serão iguais devido
a diferença de massas específicas. Esta afirmação é demonstrada na seção seguinte
com a introdução dos conceitos de velocidade de difusão e de velocidade de desli-
zamento ou “drift”.

8.1.1 Velocidade de difusão


A velocidade de difusão da fase k é definida como sendo a velocidade da fase k com
relação à velocidade do centro de massa da mistura:
(8.20)
114 Escoamento Multifásico Isotérmico

Com a ajuda das Equações (8.6) e (8.10) pode-se reescrever a Equação (8.20) como
um somatório de velocidades relativas entre as fases para uma mistura com n fases:

(8.21)

Se restringirmos nossa análise para duas fases, n = 2, a Equação (8.21) reduz para:

(8.22)

Note que as velocidades de difusão são expressas por meio da velocidade relativa de
uma fase em relação a outra. A velocidade relativa é definida como sendo a diferença
entre as velocidades das fases (2) e (1):
(8.23)

Substituindo a Equação (8.23) na Equação (8.22) encontra-se:

(8.24)

Somando as velocidades de difusão chega-se à identidade:

(8.25)

ou

A identidade mostra que as velocidades de difusão das fases são antissimétricas, ou


seja, possuem sinais contrários. Além disso, elas são ponderadas pelas concentrações
mássicas de cada fase. Uma vez conhecida a concentração e a velocidade de difusão
de uma das fases a segunda pode ser obtida por meio das Equações (8.6) e (8.25).
Essa propriedade tem implicações diretas no desenvolvimento do modelo de mistura
que será apresentado no Capítulo 9.

8.1.2 Velocidade de deslizamento


Para um sistema multifásico, a velocidade de deslizamento (drift velocity) de uma
fase é definida como sendo a velocidade da fase relativa à velocidade do centro de
volume da mistura:
(8.26)
Capítulo 8 Propriedades de Misturas e Conceitos Cinemáticos 115

Com a ajuda das Equações (8.2) e (8.17) pode-se reescrever a Equação (8.26) como
um somatório de velocidades relativas entre as fases para uma mistura com n fases:

(8.27)

Restringindo a análise para duas fases, n = 2, a Equação reduz para:

(8.28)

Combinando as Equações (8.28) e (8.26) chega-se à expressão:


(8.29)

Substituindo a definição de velocidade relativa, Equação (8.23), na Equação (8.29),


obtém-se uma expressão para o fluxo volumétrico total ou da mistura (velocidade do
centro de volume) como:
(8.30)

Somando as velocidades relativas, Equação (8.28) chega-se à identidade:

(8.31)

O conceito de velocidade de deslizamento é extensivamente utilizado no modelo de


mistura porque as equações constitutivas para k,j são relativamente simples de se
obter (Ishii, 1977; Hibiki; Ishii, 2003). Isto será abordado em detalhes no estudo das
equações constitutivas do modelo de mistura 3D e 1D, Capítulos 9 e 10.

8.1.3 Relações entre velocidades


Nesta seção são desenvolvidas relações entre as velocidades de difusão e as velocida-
des de deslizamento considerando uma mistura com duas fases apenas. Substituindo
a definição de velocidade relativa da Equação (8.28) na Equação (8.24) obtém-se:

(8.32)

(8.33)

Pode-se verificar facilmente que as definições dadas pelas Equações (8.32) e (8.33)
satisfazem as identidades das Equações (8.25) e (8.31). A partir das definições de ve-
locidade de difusão e velocidade de deslizamento, Equações (8.24) e (8.28), observa-
-se que ambas dependem da velocidade relativa entre as fases. Quando a velocidade
relativa, Equação (8.23), é zero:
(8.34)
116 Escoamento Multifásico Isotérmico

Portanto, as velocidades das fases, assim como as velocidades de mistura e superfi-


cial, são idênticas:
(8.35)

As velocidades definidas na Equação (8.35) caracterizam um campo de velocidades


Homogêneo.
As velocidades: , m e k,j e k,m podem estar relacionadas de várias formas.
Combinando as Equações (8.19) e (8.20) obtém-se uma relação entre a velocidade do
centro de volume e a velocidade de difusão:
(8.36)

Por meio das Equações (8.5) e (8.25), também pode-se expressar a velocidade de
mistura em função da velocidade de difusão:

(8.37)

ou, utilizando a Equação (8.33) para expressar a velocidade de difusão em função da


velocidade de deslizamento, chega-se a:

(8.38)

ou ainda, utilizando a Equação (8.28) para expressar a velocidade de deslizamento


em função da velocidade relativa entre as fases:

(8.39)

De forma genérica, as velocidades baseadas no centro de massa são importantes


para análise das equações de transporte (massa, quantidade de movimento e energia)
porque estas variáveis dependem da massa, isto é, são grandezas extensivas. Por outro
lado, as velocidades baseadas no centro de volume são importantes para análise cine-
mática da velocidade relativa entre as fases.
CAPÍTULO

Modelo de
Mistura 3D 9

A teoria de mistura multifásica trata especificamente de interações a nível macroscó-


pico das partículas. O grande atrativo de se buscar um modelo para a mistura é o fato
de ela poder ser tratada como um fluido homogêneo ou, de forma alternativa, equiva-
lente a um escoamento monofásico. Isto é, a mistura com n fases presentes é tratada
como sendo um fluido único com características reológicas específicas. Esta é uma
das principais características que diferencia o modelo de mistura do modelo de dois
fluidos, que trata cada fase separadamente.
O tratamento para uma mistura homogênea traz grandes simplificações ao mo-
delo, mas requer informação relativa à interação entre as fases. A interação é expressa
por um modelo de difusão baseado no movimento relativo entre a fase e a velocidade
do centro de massa da mistura. Há uma extensa literatura sobre este assunto, porém se-
rão citados apenas três trabalhos representativos. Soo (1967) aborda aspectos da teoria
de mistura. Ishii (1977) apresenta pela primeira vez um modelo de mistura unidimen-
sional aplicado para vários padrões de escoamento gás-líquido. Passman, Nunziato e
Walsh (1985) apresentam uma sinopse sobre a teoria de mistura multifásica.
Este capítulo apresenta as equações de transporte do modelo de mistura 3D. O
modelo é resolvido em termos da velocidade de mistura desde que equações constitutivas
para a velocidade de difusão estejam disponíveis. Esta última, por sua vez, é expressa
pela velocidade de deslizamento. O modelo apresentado é conhecido como Drift Flux
Model. O nome foi dado por Ishii (1977) devido ao fato do modelo expressar a velocida-
de relativa baseada no centro de massa, ou k,m, em termos do centro de volume, ou k,j.
118 Escoamento Multifásico Isotérmico

A forma canônica da equação de transporte para o modelo de mistura é obtida


somando-se as equações de transporte de cada fase, isso é feito a partir da Equação
(5.31):

(9.1)

O próximo passo é expressar os termos da Equação (9.1) em função das pro-


priedades da mistura e da velocidade de difusão. Com o auxílio da Equação (8.14)
pode-se identificar que:

(9.2)

O fluxo convectivo médio, expresso pela soma dos fluxos de cada fase, é rees-
crito em termos do fluxo da mistura:

(9.3)

A Equação (9.3) é obtida a partir das Equações (8.14) e (8.20). A sua forma ainda
não está completa. É necessário expressar em termos das propriedades da mistura:

(9.4)

onde A definição de ψk,m pode assumir diferentes significados por-


que ψ pode representar um escalar ou um vetor como, por exemplo, energia ou velo-
cidade, respectivamente. Se ψ representar um escalar, ele expressará a diferença de
valores entre a propriedade da fase k e a da mistura. Por outro lado, se ψ representar
um vetor, ele expressará a velocidade de difusão da fase k. Substituindo as definições
das Equações (9.4) e (8.10) na Equação (9.3), e reconhecendo que a massa específica
da mistura é expressa pela Equação (8.1), então a Equação (9.3) pode ser reescrita em
termos das propriedades da mistura como:

(9.5)

A soma do tensor J e do tensor de Reynolds (relativo às flutuações das fases) para


cada fase é expressa pelo tensor da mistura utilizando a definição da Equação (8.11):

(9.6)
Capítulo 9 Modelo de Mistura 3D 119

onde é o tensor de Reynolds turbulento para uma variável ψ genérica de trans-


porte, , similarmente definido pela Equação (5.35). O termo
gravitacional da mistura vem da própria definição de massa específica de mistura,
Equação (8.1), de tal forma que:

(9.7)

Finalmente, considera-se que no modelo de mistura não há salto na interface, de


forma que a Equação (5.41) passa a ser:

(9.8)

A igualdade é verdadeira para equação de conservação da massa (ψk = 1) significando


que o fluxo de massa de uma fase que cruza a interface é transferido para a outra fase
de tal modo que o fluxo líquido é nulo. Considerando a equação da quantidade de
movimento (ψk = vk), a igualdade também é verdadeira desde que as forças relativas
aos termos de tensão superficial sejam desprezíveis.
Substituindo as definições dadas pelas Equações (9.2) a (9.8) na Equação (9.1),
chega-se à forma canônica da equação de transporte da mistura:

(9.9)

onde o tensor JmD é definido por:

(9.10)

Ele representa o transporte de uma fase em relação à mistura devido à velocidade


relativa entre a fase k e o centro de massa da mistura.

9.1 EQUAÇÃO DE CONSERVAÇÃO DA MASSA DA MISTURA


A equação de conservação da massa da mistura é expressa a partir da Equação (9.9)
fazendo (ψm = 1 e Jm = g = 0):

(9.11)

Note que, quando ψm = 1, o tensor devido ao deslizamento, JmD, é identicamente nulo,


veja Equação (8.25).
120 Escoamento Multifásico Isotérmico

9.2 EQUAÇÃO DE CONSERVAÇÃO DA MASSA DA FASE K


A conservação da massa de uma fase k é obtida a partir da equação da massa da fase
k dada pela Equação (5.32):

(9.12)

Expressando a velocidade da fase k por meio da velocidade de difusão, Equação


(8.20), tem-se:

(9.13)

A equação acima expressa a conservação da fase k em função das velocidades de


mistura e de difusão. Esta não é a única forma de expressar a conservação da fase k,
ela também pode ser expressa em função da fração mássica, do fluxo volumétrico,
ou mesmo da concentração volumétrica, como é apresentado nas seções seguintes.

9.2.1 Formulação baseada na fração mássica da fase k


Introduzindo a definição de fração mássica, Equação (8.5), na Equação (9.12) e expres-
sando a velocidade da fase k por meio da velocidade de difusão, Equação (8.20), tem-se:

(9.14)

Subtraindo da Equação (9.14) a equação de conservação de massa da mistura, Equa-


ção (9.11), chega-se a:

(9.15)

Caso a mistura multifásica tenha as fases dispersas com dimensões características


da ordem do comprimento molecular, pode-se utilizar um coeficiente de difusão, Dk,
para expressar o fluxo de difusão:
(9.16)

A Equação (9.16) é uma manifestação da lei de Fick. Ela apresenta analogia direta com
a teoria de mistura clássica, sendo válida somente quando o fluxo difusivo puder ser
expresso, de forma linear, pelo gradiente de concentração. Infelizmente, a analogia ex-
pressa na Equação (9.16) não pode ser generalizada para o escoamento multifásico. Isso
se deve ao fato de que a geometria interfacial, assim como os termos de transferência de
quantidade de movimento e de energia na interface, apresentam dimensões “macroscó-
picas” que afetam diretamente a difusão das fases, impedindo que elas sejam fisicamen-
te representadas pela lei de Fick. Note que, substituindo a Equação (9.16) na Equação
Capítulo 9 Modelo de Mistura 3D 121

(9.15), encontra-se que a equação de conservação para ck tem um comportamento difu-


sivo devido ao termo de segunda ordem na derivada em ck. Este comportamento está em
contradição com a formulação baseada na velocidade de onda cinemática.

9.2.2 Formulação baseada no fluxo volumétrico da fase k


A conservação da fase k também pode ser expressa pelo fluxo volumétrico da mistura
e pela velocidade de deslizamento. Substituindo a definição de k, Equação (8.26), na
Equação (9.12), encontra-se que:

(9.17)

A equação acima tem uma semelhança com a equação de conservação da fase k,


Equação (9.13), baseada na velocidade de mistura. Entretanto, a Equação (9.17) ex-
pressa o balanço da fase k em função da velocidade superficial da mistura e do diver-
gente da velocidade de deslizamento.

9.2.3 Formulação baseada na concentração volumétrica da fase k


Diferenciando cada termo da Equação (9.12) chega-se a:

(9.18)

Identificando que o segundo termo do lado esquerdo da Equação (9.18) é a derivada


substantiva (total) da massa específica da fase k, Dρk/Dt, então

(9.19)

A Equação (9.19) é considerada a equação de conservação da fração de vazios, ou


concentração volumétrica da fase k. Ela apresenta dois termos fonte: um devido à
mudança de fase e outro devido à compressibilidade da fase k.

9.2.4 Formulação baseada no fluxo volumétrico da mistura


Utilizando a definição do fluxo volumétrico da fase k, Equação (8.17), a Equação
(9.19) é reescrita na forma:

(9.20)

Realizando a soma da Equação (9.20) para todas as “n” fases da mistura tem-se:

(9.21)
122 Escoamento Multifásico Isotérmico

A Equação (9.21) descreve a divergência do campo de velocidades associado ao cen-


tro de volume da mistura. Se a densidade de cada fase for constante, isto é, fases
incompressíveis, a Equação (9.21) reduz para:

(9.22)

A Equação (9.22) estabelece que o divergente do fluxo volumétrico é proporcional à


mudança de fase e à massa específica da fase.
Se cada fase apresentar um comportamento incompressível e, além disto, o pro-
cesso ocorrer sem mudança de fase, então a Equação (9.22) reduz para:

(9.23)

estabelecendo que o fluxo volumétrico da mistura é constante. Este resultado tem


relevância no desenvolvimento de modelos de escoamentos multifásicos onde a hipó-
tese de fases incompressíveis é válida.

9.3 EQUAÇÃO DE QUANTIDADE DE MOVIMENTO DA MISTURA


A equação da quantidade de movimento da mistura é expressa a partir da Equação
(9.9) fazendo (ψm = m):

(9.24)

sendo que os tensores Jm, e JDm são decompostos na forma de um tensor isotrópico
e um tensor desvio de tensão, J = − PI + T. Além disto, o tensor de desvio de tensões
é desdobrado em termos da deformação do campo médio e das flutuações (similar ao
procedimento mostrado pela Equação (5.35)) de modo que:
(9.25)

onde I é o tensor simétrico (traço). A pressão e os tensores da mistura, Pm e Tm, são


definidos pelas relações:

(9.26)

Na ausência de forças capilares ou de tensão superficial, a pressão da mistura é


igual à pressão das fases em vista da propriedade de saturação, isto é, Σαk = 1, de
Capítulo 9 Modelo de Mistura 3D 123

tal modo que o índice da pressão pode ser descartado e ela passa a ter uma única
representação, P.
Os tensores de tensão associados à deformação do fluido são expressos por
uma ponderação da tensão que cada fase exerce na mistura, veja a Equação (9.26).
A modelagem destes termos por meio de equações constitutivas não é trivial; além
disso, o modelo de mistura requer que elas sejam expressas em termos da velocidade
de mistura uma vez que esta é sua variável dependente. Ishii e Hibiki (2006) propõem
equações constitutivas para as tensões baseadas na velocidade de mistura e de desli-
zamento. As equações constitutivas para o tensor de deslizamento, TDm serão desenvol-
vidas na próxima seção. Reintroduzindo as definições das Equações (9.25) e (9.26)
na Equação (9.24), chega-se à equação de quantidade de movimento da mistura em
termos dos tensores com ausência de forças capilares ou de tensão superficial:

(9.27)

A equação de quantidade de movimento da mistura, Equação (9.27) é “quase” similar


à equação de quantidade de movimento de um fluido homogêneo. A Equação (9.27)
apresenta um termo extra, TDm, devido ao movimento relativo entre as fases. Os demais
termos são similares àqueles da equação quando uma única fase está presente, incluin-
do o tensor de tensões devido à difusão molecular e à difusão turbulenta: e .

9.4 EQUAÇÕES DE TRANSPORTE PARA O MODELO DE


MISTURA
As equações de transporte 3D para o modelo de mistura isotérmico estão sumarizadas
na Tabela 9.1. Os casos 3D aplicam-se somente para o padrão disperso. Para uma
mistura com n fases, o modelo de mistura tem (n + 1) equações. A saber, equação de
conservação da massa da mistura, equação de quantidade de movimento da mistura
e (n − 1) equações de conservação das (n − 1) fases e, por fim, a condição de satura-
ção, Σαk = 1. Há, porém, duas indeterminações no modelo: uma relativa aos termos
que envolvem a velocidade de difusão e outra, de forma implícita, nos termos que
envolvem as tensões. Para a completa definição do modelo, são requeridas equações
constitutivas para as velocidades de difusão e também para as tensões.
O modelo de mistura é mais simples que o modelo de dois fluidos, pois este tra-
balha com apenas uma equação de quantidade de movimento substituindo a informação
da velocidade das fases por equações constitutivas para k,m. A simplificação tem um
custo. Se por um lado ela viabiliza a solução de diversos problemas devido à relativa
simplicidade de solução numérica, por outro lado requer o conhecimento de equações
constitutivas que, para escoamentos 3D, estão longe de estarem bem definidas. Não
obstante esta dificuldade para os casos 3D, há falta de conhecimento de equações cons-
titutivas para as tensões de origem laminar e turbulenta na mistura. Não há uma forma
simples de representação destas equações, e a natureza das distribuições das fases na
mistura as torna ainda mais complexa, veja comentários em Drew e Passman (1999).
124 Escoamento Multifásico Isotérmico

TABELA 9.1 Sumário das equações de transporte para o modelo de mistura


multifásico

Continuidade da mistura (9.11)

Continuidade da fase k (9.13)

Q. Movimento da mistura (9.27)

A forma não conservativa da equação de quantidade de movimento do modelo


de mistura é alcançada subtraindo-se da equação de quantidade de movimento da
mistura a equação da conservação da massa:

(9.28)

Considerando um escoamento 3D com apenas duas fases, uma contínua (f) e


outra dispersa (p) com concentração volumétrica α, o modelo de mistura é redu-
zido para três equações de transporte. Empregando as identidades fornecidas pelas
Equações (8.1), (8.32) e (8.33), as Equações (9.13) e (9.27) podem ser expressas em
função da velocidade de deslizamento. Neste caso, a forma conservativa do conjunto
de equações de transporte do modelo de mistura isotérmico é mostrado na Tabela 9.2.
Na ausência de mudança de fase, o termo Γ2 é nulo e o balanço de massa da fase
dispersa, Equação (9.29), apresenta somente um termo fonte proporcional a velocida-
de de deslizamento. Na equação de quantidade de movimento, o tensor extra é devido
à velocidade de deslizamento. Ele tem uma natureza similar ao tensor de Reynolds
em turbulência, pois equivale a uma tensão extra devido ao fluxo de quantidade de
movimento dado pela velocidade de deslizamento.

TABELA 9.2 Sumário das equações de transporte para o modelo de mistura


bifásico ou Drift Flux
Continuidade
(9.11)
da mistura

Continuidade
(9.29)
da fase k

Q. Movimento
(9.30)
da mistura
Capítulo 9 Modelo de Mistura 3D 125

O modelo de mistura está baseado na velocidade da mistura e na velocidade de


difusão. Entretanto, esta última é preferencialmente expressa por meio da velocidade
de deslizamento ou drift. Por este motivo, o modelo de mistura também foi batizado
de modelo de Drift Flux.

9.5 EQUAÇÕES CONSTITUTIVAS PARA A VELOCIDADE DE


DESLIZAMENTO (DUAS FASES)
As equações de conservação de massa da fase k e de quantidade de movimento da
mistura, Equações (9.13) e (9.27), apresentam dois termos extras envolvendo a velo-
cidade de difusão das fases, conforme destacado abaixo:

e (9.31)

Os termos são indeterminados no modelo de mistura a menos que seja provida uma
equação constitutiva para k,m. Considerando apenas duas fases presentes, uma disper-
sa (p) e uma contínua (f), k,m pode ser representado pela velocidade de deslizamento
utilizando as Equações (8.32) e (8.33):

e (9.32)

Por sua vez, a velocidade de deslizamento pode ser expressa por meio da velocidade
relativa entre as fases, veja definição na Equação (8.28):

(9.33)

sendo que r
foi definida na Equação (8.23) como:
O objetivo desta seção é resolver a indeterminação no modelo de mistura pro-
vendo equações constitutivas para a velocidade relativa das fases. Uma vez definida
a velocidade relativa, a velocidade de deslizamento e a velocidade de difusão estão
relacionadas com r por meio da Equação (9.33).

9.5.1 Relações cinemáticas para as velocidades relativas


A seção inicia com a determinação da velocidade relativa baseando-se nos desenvol-
vimentos apresentados nos Apêndices C, D e E.
A definição de uma equação constitutiva para r pode ser estimada fazendo a
igualdade entre as definições do termo de força interfacial médio por unidade de
volume, obtido por meio das equações da fase e mistura, e pelas forças que atuam
na partícula, Equações (C.28) e (C.24), respectivamente. A Equação (C.28) envolve
termos médios relativos aos gradientes de tensão e de concentração, além das acele-
rações das fases, que impedem a realização de uma estimativa a priori. Por sua vez,
126 Escoamento Multifásico Isotérmico

a Equação (C.24) contém três termos: arrasto, massa virtual e sustentação que são
dependentes da velocidade relativa. Pelo fato destes termos serem não lineares em r
não é possível obter uma expressão analítica para a velocidade relativa entre as fases
para casos gerais que tratam de fluidos viscosos em campos com aceleração, geração
de vorticidade e na presença de paredes. Este fato constitui uma das limitações do
modelo de mistura para aplicações 3D.
Entretanto, r pode ser determinado para casos simples onde diversos termos
das Equações (C.28) e (C.34) podem ser relaxados de forma a permitir a obtenção de
uma expressão algebricamente tratável. Considerando um caso de sedimentação num
meio infinito com concentração uniforme, veja Seção C.4 do Apêndice C, têm-se
um balanço entre a força de campo e a força de arrasto, tal qual aquele da Equação
(C. 30)*, que resulta numa expressão para a velocidade relativa entre as fases:

(9.34)

A velocidade relativa é determinada somente pela ação do campo gravitacional.


Comparando a Equação (C. 28) com a Equação (9.34) nota-se que estão ausentes os
termos: aceleração do fluido e da partícula, efeitos dos gradientes de tensão, pressão
e concentração. De forma complementar, observa-se que os efeitos de massa virtual
e migração lateral, presentes na Equação (C.24), também estão ausentes no modelo
simplificado para a velocidade relativa.
Tendo em perspectiva estas limitações, busca-se agora uma expressão cinemá-
tica para a velocidade relativa que atenda aos diversos regimes de partículas. O ponto
de partida é relacionar a velocidade relativa para uma população de partículas, r,
com aquela observada para uma única partícula, r,s. Tomando como referência a ve-
locidade relativa de uma única partícula para um caso de sedimentação em um meio
infinito, tem-se que a velocidade relativa é dada pela Equação (E. 3):

(9.35)

A razão entre a velocidade de um sistema multi-partículas com um sistema de uma


partícula isolada, r / r,s é estimada por meio da similaridade entre estes sistemas.
Considera-se que a dependência de CD com o número de Reynolds seja a mesma para
ambos os sistemas, além disso, os sistemas apresentam partículas com o mesmo diâ-
metro médio e massa específica, conforme (Ishii; Hibiki, 2006):

(9.36)

* A Equação (9.34) é obtida da Equação (C.30) usando a definição de ρm dada na Equação (8.1)
Capítulo 9 Modelo de Mistura 3D 127

onde Rep,s e Rep são definidos como:

e (9.37)

As expressões para as velocidades relativas dos sistemas multi-partículas são defini-


das a partir da razão entre os coeficientes de arrasto, da concentração volumétrica e
da velocidade relativa para uma partícula isolada. Cada uma destas variáveis depende
do regime da partícula.

䊏 Regime viscoso (sólidos e fluidos)


No regime viscoso, considera-se a hipótese de similaridade completa entre o sistema
com uma partícula e múltiplas partículas. Portanto, considera-se que a relação funcional
para CD tem a mesma relação funcional em termos de Rep que a relação para CD,s. Subs-
tituindo as definições para CD e CD,s da Equação (D. 33) na Equação (9.36), chega-se a:

(9.38)

sendo que a razão μm/μf está definida na Equação (D.35) e repetida a seguir por
conveniência:

(9.39)
A razão de velocidades expressa na Equação (9.38) tem forma implícita uma vez que
Rep depende de r. Ishii e Zuber (1979) propõem uma aproximação para a Equação
(9.38) de forma explícita, fazendo um ajuste para os limites assintóticos da equação
quando Rep → 0 e Rep → ∞:

(9.40)

onde f(α) é definido por:

(9.41)

O valor aproximado do terceiro termo da Equação (9.41) vem da substituição da ra-


zão de viscosidades dada na Equação (9.39). É conveniente reintroduzir a velocidade
128 Escoamento Multifásico Isotérmico

e o diâmetro de uma partícula na forma adimensional, veja Equações (E.4) e (E.7) do


Apêndice E, e também o número de Reynolds da partícula:

onde e (9.42)

Alternativamente, Rep,s pode também ser definido substituindo a forma explícita da


velocidade terminal da partícula, Equação (E.9), para obter uma expressão em função
do diâmetro da partícula:

(9.43)

Substituindo a definição da Equação (9.43) na Equação (9.40) encontra-se:

(9.44)

onde ψ é uma notação compacta para ψ = 0,1 Rep0,75, que, pela Equação (9.43), se
transforma em:

(9.45)

䊏 Regime de Newton (sólidos)


A velocidade da partícula no regime de Newton é caracterizada por não apresentar
dependência com a viscosidade da fase contínua. A transição entre o regime viscoso
e o regime de Newton é caracterizada por Rep = 1000. Utilizando a definição de Rep
da Equação (9.42), o valor de transição pode ser expresso em função do diâmetro
adimensional da partícula:

(9.46)
A razão entre as velocidades vr/vr,s é obtida substituindo o valor do Rep de transição
na Equação (9.40)

(9.47)

䊏 Regime distorcido (somente gotas e bolhas)


No regime distorcido, o coeficiente de arrasto depende do diâmetro da partícula, das
massas específicas das fases e da tensão superficial, veja a Equação (D.25). No en-
tanto, ele não depende da viscosidade e nem de Rep. Ishii e Zuber (1979) postulam
Capítulo 9 Modelo de Mistura 3D 129

que a dependência da razão de velocidades com a concentração de partículas é similar


àquela observada para o regime de Newton:

(9.48)

sendo que r,s é a velocidade terminal da bolha ou gota distorcida. Este regime não se
aplica para partículas sólidas.

9.5.2 Relações cinemáticas para as velocidades de deslizamento


A velocidade de deslizamento para um regime específico da partícula é determina-
da substituindo a definição da razão das velocidades relativas, Equação (9.36), na
Equação (9.33) e multiplicando-a pela velocidade de uma partícula isolada, como
definido no Apêndice E:

(9.49)

Os parâmetros adimensionais D*p e v*r,s e a função f(α) são utilizados extensivamente


para obtenção de p,j, e suas definições estão nas Equações (9.42) e (9.41), respectiva-
mente. A substituição da definição das variáveis é realizada nas seções seguintes para
cada regime de partícula.

䊏 Regime viscoso (sólido, bolha ou gota)


Substituindo a Equação (9.44) na Equação (9.49), chega-se à velocidade de desliza-
mento da partícula em relação ao centro de volume para o regime viscoso de partículas:

(9.50)

onde f(α), ψ e r,s vêm, respectivamente, das Equações (9.41), (9.45) e (E.10), repeti-
da aqui por conveniência:

(E.10)

䊏 Regime de Newton (sólidos)


Substituindo a Equação (9.47) na Equação (9.49), chega-se à velocidade de desliza-
mento da partícula em relação ao centro de volume para o regime de Newton:

(9.51)

onde f(α) e r,s


vêm, respectivamente, das Equações (9.41) e (E.10).
130 Escoamento Multifásico Isotérmico

䊏 Regime distorcido (bolhas ou gotas)


Substituindo a Equação (9.47) na Equação (9.49), chega-se à velocidade de desliza-
mento da partícula em relação ao centro de volume para o regime de bolha distorcida:

(9.52)

Segundo Ishii e Zuber (1979), o resultado da Equação (9.52) pode ainda ser aproxi-
mado por uma potência da fração volumétrica:

(9.53)

onde r,s
vem da Equação (E.13) repetida aqui por conveniência:

onde Δρ = ρp − ρf. (E.13)

䊏 Regime agitado ou churn (bolhas)


O regime agitado, ou churn (bolhas), é um sub-regime do padrão bolhas dispersas.
Devido ao forte acoplamento das faces, Ishii e Hibiki (2006) propõem que a fase dis-
persa se desloca com velocidade igual ao fluxo volumétrico j ao invés da velocidade
média da fase contínua. Neste contexto, pode-se definir a velocidade das bolhas em
relação à mistura como:

onde Δρ = ρp − ρf. (9.54)

Substituindo a definição de r, Equação (9.33) na Equação (9.54), chega-se a veloci-


dade relativa das bolhas dada por:

onde Δρ = ρp − ρf. (9.55)

9.5.3 Sumário das relações cinemáticas para as velocidades de


deslizamento
A Tabela 9.3 mostra um quadro com as velocidades de deslizamento para cada tipo de
partícula em cada regime específico.
Capítulo 9 Modelo de Mistura 3D 131

9.5.4 Comentários finais sobre p,j

As equações constitutivas para p,j eliminam a indeterminação do modelo de mistura


e tornam possível sua solução. Elas baseiam-se somente num balanço entre força de
campo e de arrasto e consideram o efeito da concentração. A força de campo pode
ser a força gravitacional, eletrostática ou mesmo a centrífuga. A Tabela 9.3 traz um
sumário das equações para p,j e mostra que todas elas dependem da aceleração in-
duzida pela força de campo. Considerando apenas o campo gravitacional, a natureza
vetorial de p,j está restrita somente à direção de . A ausência de termos transientes,
como Basset e Massa Virtual, além do termo de sustentação lateral da partícula, limita
a utilização de p,j para campos 3D. As aplicações 3D estão restritas a casos em que a
fase dispersa atinge rapidamente sua velocidade terminal, isto é, quando a escala de
tempo da partícula é muito menor do que a escala de tempo do escoamento.
Tomando como referência o sistema cartesiano (x,y,z) onde z coincide com a
direção da força de campo, então a representação vetorial de p,j é:

(9.56)
isto é, a única componente não nula está na direção z. O termo extra na equação da
conservação da quantidade de movimento da fase dispersa passa a ser representado
por:

(9.57)

Enquanto que o tensor TDm possui um único termo não nulo, de forma que o divergente
de TDm resulta num único componente na direção z:

(9.58)

9.6 EQUAÇÃO CONSTITUTIVA PARA O TENSOR DE TENSÕES


DA MISTURA
O tensor de tensões da mistura é definido na Equação (9.26) como:

(9.26)

onde Tk representa o tensor de tensão das fases (gás ou líquido). A tensão para sóli-
dos tem um mecanismo físico diferente daquele empregado para fluidos e não será
abordado neste trabalho. A maior dificuldade do modelo de mistura reside no fato
de os tensores de tensão das fases serem compostos por duas parcelas: uma vinda do
campo contínuo, devido à viscosidade dinâmica das fases, e outra devido à passagem
TABELA 9.3 Velocidade de deslizamento, vp,j para sólidos, gotas e bolhas nos diversos regimes
132

Sólido Gota em gás Gota em líquido Bolha em líquido

μf/μm

Stokes,
Rep,s < 1

Viscoso
(Regime
Esférico)
Escoamento Multifásico Isotérmico

Regime de
(------) (------) (------)
Newton

transição: D*p > 69 ou Rep > 1000

Regime (------)
Distorcido (------)
transição para regime distorcido:

Não há, as gotas se Não há, as gotas se


Agitado (------)
desintegram para We > 12 desintegram para We > 12
Transição We > 8
Capítulo 9 Modelo de Mistura 3D 133

das interfaces, como mostrado na Equação (6.10). Substituindo a Equação (6.10) na


Equação (9.26), tem-se:

(9.59)

onde Dk é a parte simétrica do tensor de deformação da fase k:

(9.60)

e Dki é um tensor extra devido a passagem das interfaces. Este tipo de modelagem
constitui um dos pontos incompletos do modelo. A Seção 6.1 discute duas possibili-
dades de modelagem para Dki, sendo que ambas valem sob determinadas condições
enquanto que uma delas nunca foi verificada experimentalmente.
Ao expressar a velocidade da fase em função da velocidade da mistura por meio da
Equação (8.20), pode-se definir os tensores de deformação da mistura e de difusão como:
(9.61)

onde

e (9.62)

Substituindo a Equação (9.61) na Equação (9.59) chega-se a uma expressão para o


tensor de tensões da mistura em função da velocidade da mistura:

(9.63)

9.6.1 Aproximação para o tensor das tensões da mistura - I


Para aplicações práticas, uma abordagem mais direta e simplificada é adotada. Unga-
rish (1993) despreza a contribuição do tensor extra devido a passagem das interfaces,
de forma que a Equação (9.59) reduz para:

(9.64)

Tomando o divergente da tensão de mistura:

(9.65)

e expressando-o em termos do campo de velocidades das fases tem-se que:

(9.66)
134 Escoamento Multifásico Isotérmico

A equação permite duas simplificações: para misturas incompressíveis, pode-se con-


siderar que ; o termo ∇(αkμk), em geral, apresenta uma variação espacial
pequena, de modo que seu gradiente que multiplica o segundo termo da expressão
torna todo o segundo termo desprezível face ao seu primeiro termo. Nestas condições
a Equação (9.66) reduz para:

(9.67)

9.6.2 Aproximação para o tensor das tensões da mistura - II


Uma forma alternativa para modelar o tensor das tensões da mistura pode ser obti-
da considerando que a mistura comporta-se como um fluido homogêneo e incom-
pressível. Neste caso, é proposta uma equação constitutiva para o tensor viscoso
análoga àquela para um fluido Newtoniano, porém, em termos das propriedades
da mistura:

(9.68)

onde μm é a viscosidade da mistura. Note que no modelo da Equação (9.68), Tm


é proporcional a taxa de deformação da mistura através de μm. Deste modo, ele
transfere parte do efeito da interação viscosa entre as fases para a viscosidade da
mistura. Artifício similar é empregado na área de turbulência onde é definida a
viscosidade turbulenta para modelar o tensor de Reynolds a partir do campo mé-
dio das velocidades.
Na Equação (9.68), é frequentemente assumido que o termo . Conside-
rando casos onde somente duas fases estão presentes, uma contínua “f” e outra dispersa
“p”, a aproximação pode ser evitada reescrevendo a Equação (9.68) em termos do fluxo
volumétrico com o auxílio da Equação (8.38) e utilizando a relação dada pela
Equação (9.22). Esta transformação leva a novos termos em função da velocidade de
deslizamento e de produtos entre a massa específica e a fração de vazios. Entretanto, à
medida que a razão entre e se torna cada vez menor, melhor é a aproximação. No
limite, quando , obtém-se uma mistura homogênea, veja Seção 9.8.
Uma discussão sobre alguns modelos de viscosidade de mistura é realizada na
Seção 9.8 em conjunto com o modelo homogêneo.

9.7 ANÁLISE DE ESCALA DO MODELO DE MISTURA


Frequentemente em engenharia a magnitude de uma variável por si só não traz muita
informação, isto é, o quão grande ou pequena uma variável específica é, em termos
absolutos, não possibilita analisar um fenômeno. Por outro lado, se compararmos as
variáveis contra as escalas típicas do fenômeno, tais como comprimento, tempo e
Capítulo 9 Modelo de Mistura 3D 135

massa, podemos ter conhecimento de quão representativa é esta grandeza em relação


ao fenômeno. A comparação de escalas é um método aproximado que permite sim-
plificar o estudo de fenômenos identificando quais termos são relevantes ou não. Este
tipo de análise é denominado simplesmente de análise de escala. Um outro método de
análise muito difundido na literatura é a análise de escala baseada nos parâmetros de
similaridade, veja, por exemplo, White (2005) e Bejan (2004). Apesar de a essência
destes dois métodos ser a mesma, ou seja, comparar ordem de grandeza dos termos,
o segundo método, além de utilizar as escalas do fenômeno, requer um conhecimento
completo das equações de transporte, das equações constitutivas complementares e
das condições iniciais e de contorno do fenômeno. De fato, os grupos adimensionais
emergem das equações de transporte, das equações constitutivas e das condições ini-
ciais e de contorno. Os grupos passam a ser parâmetros que multiplicam os termos
destas equações. Portanto, deve ser feita uma distinção clara de que a análise de es-
cala e a análise de escala baseada em grupos similares não são sinônimos ou equiva-
lentes, conforme Ishii e Hibiki (2006). Objetivamente, o segundo método, além de
comparar as variáveis do fenômeno, garante a similaridade, enquanto que o primeiro
método apenas compara as escalas.
Nesta seção, será realizada uma análise de escala das equações de transporte
do modelo de mistura mostradas na Tabela 9.2 sem envocar a similaridade entre as
relações. As escalas para as variáveis serão identificadas pelo subíndice “o”. Os parâ-
metros adimensionais são definidos com base nas escalas de forma que sua ordem de
magnitude seja unitária, assim:

(9.69)

Pode não ser trivial encontrar uma definição precisa para as escalas para ρmo, μmo,
mo
mas, de fato, isto não é necessário, uma vez que somente a ordem de magnitude
é relevante na análise de escala. Por exemplo, num escoamento com bolhas de gás
dispersas em líquido pode-se escolher o líquido como representativo e empregar sua
massa específica e viscosidade para definir as escalas de ρmo e μmo. Em outros casos
pode-se adotar uma concentração de referência, αo, e definir ρmo e μmo por ∑αkoρko
e ∑αkoμko, respectivamente. Por outro lado, se fossem requeridos os parâmetros de
similaridade, então as formas exatas das definições de ρmo, μmo, m seriam requeridas,
além da forma exata da equação constitutiva para o tensor das tensões.
136 Escoamento Multifásico Isotérmico

Substituindo as variáveis dimensionais pelo produto da variável adimensional e


sua escala correspondente nas equações de transporte do modelo de mistura, chega-se
à forma adimensional do modelo de mistura, veja a Tabela 9.4.

TABELA 9.4 Forma adimensional do modelo de mistura para duas fases


Continuidade
(9.70)
Mistura

Continuidade
(9.71)
Fase k


(
∂ ρ*mv*m ) + ∇ ⋅ (ρ v v ) = −∇P + 1
* * * *
*
∇ ⋅ ⎡⎣TmL + TmT ⎤⎦ +
μ μ 1 * g

ρm 
Q. Movimento ∂t m m m
N Re
N Fr g
(9.72)
Mistura ⎡ α * ρ*p  *  * ⎤
− N ρ N D2 ∇ ⋅ ⎢ ρf * v p, jv p, j ⎥
⎢⎣ 1 − α ρm ⎥⎦

Os grupos adimensionais são definidos por:

→ número de mudança de fase,

→ número de drift (deslizamento),

→ razão de densidades, (9.73)

→ número de Reynolds,

→ número de Froude.

Ishii e Hibiki (2006) denominam os três primeiros grupos, Nph, ND e Nρ, de grupos
cinemáticos, enquanto que os dois últimos, NRe e NFr, de grupos dinâmicos que go-
vernam a ordem de magnitude das forças na equação de quantidade de movimento.
A equação de continuidade da fase, Equação (9.71), é governada pelos grupos
Nph e ND. Quando Nph >> ND, a conservação da fase dispersa é controlada pela de
mudança de fase. Porém, quando Nph << ND, ela passa a ser controlada pela redistri-
buição das fases.

9.8 MODELO HOMOGÊNEO


Um caso especial da análise de escala ocorre quando o número de Drift é muito me-
nor que a unidade, isto é, quando: (ρfovp, jo) << (ρmovmo). Neste caso, todos os termos
Capítulo 9 Modelo de Mistura 3D 137

de transporte associados com a velocidade de deslizamento são multiplicados por


um parâmetro muito pequeno, de forma que eles passam a ser muito menores do
que os demais termos da equação e podem ser descartados. Isto permite uma grande
simplificação nas equações do modelo de mistura e sua forma final é conhecida como
modelo homogêneo, veja Tabela 9.5.
No modelo homogêneo, a fase dispersa “p” e a fase contínua “f” apresentam a
mesma velocidade, não há deslizamento. Alguns tipos de emulsões podem ser repre-
sentadas pelo modelo homogêneo. Estas suspensões apresentam partículas de tama-
nho muito pequeno, de forma que o deslizamento é quase desprezível, enquanto que
as forças de escala molecular ainda são desprezíveis face às forças produzidas pela
escala macroscópica do escoamento.
O tensor das tensões é modelado como se a mistura fosse homogênea de tal
forma que as fases presentes não podem ser distinguidas numa escala macroscópica,
tornando sua representação equivalente àquela de tensor para um fluido monofásico:

(9.76)

Baseando-se na Equação (8.38) pode-se mostrar que, quando a velocidade de desli-


zamento é muito menor do que a velocidade da mistura ou quando a diferença entre
as densidades das fases é muito pequena, então m → . Além disto, para uma mistura
incompressível e utilizando a identidade da Equação (9.23) pode-se mostrar que:

(9.77)

Como consequência da Equação (9.77), a Equação (9.76) passa a ser:

(9.78)

A próxima etapa é modelar a viscosidade da mistura.


Einstein, em 1906, propôs um método para avaliar a viscosidade efetiva de
uma suspensão de esferas sólidas com baixa concentração volumétrica α. O método
consiste em calcular a energia dissipada pelo escoamento ao redor das partículas e

TABELA 9.5 Modelo homogêneo


Continuidade
(9.11)
mistura

Continuidade
(9.74)
fase k

Q. Movimento
(9.75)
mistura
138 Escoamento Multifásico Isotérmico

associá-la com o trabalho realizado para mover as partículas em relação ao fluido. O


resultado de Einstein é:

(9.79)

Uma comparação contra dados experimentais mostra que a relação de Einstein é váli-
da para valores de concentrações muito baixos. A relação subestima o valor da visco-
sidade efetiva à medida que a concentração aumenta. Há vários trabalhos que se pro-
põem a corrigir a fórmula de Einstein e aplicam-se a suspensões com concentrações
elevadas (Frankel; Acrivos, 1967):

(9.80)

onde αm é o máximo empacotamento das esferas correspondente ao arranjo adotado


e C” = 9/8.
Dukler, Wicks e Cleveland (1964) por meio de um estudo da queda de pressão
devido ao atrito numa mistura bifásica, utilizando análise de similaridade propõem
que a viscosidade de mistura seja definida por:

(9.81)

Ishii e Zuber (1979) propõem uma viscosidade para a mistura válida para partículas
sólidas assim como para bolhas e gotas:

(9.82)

onde, para partículas sólidas αm = 0,62 e μ* =1 e para bolhas ou gotas dispersas,


αm = 1 e

(9.83)

Utilizando os fatores de empacotamento máximo para cada tipo de dispersão (sólido,


gota ou bolha), pode-se aproximar a viscosidade da mistura por uma relação de po-
tência (Ishii; Hibiki, 2006):

(9.84)
Capítulo 9 Modelo de Mistura 3D 139

Johnsen e Ronningsen (2003) apresentam uma equação constitutiva para a visco-


sidade da mistura para emulsões de água em óleo em função da temperatura e da
concentração volumétrica:

(9.85)

onde k1, k2, k3 e k4 são coeficientes dependentes da taxa de deformação, T é a tempe-


ratura em oC e α é a fração de vazios.
Os modelos para μm são limitados pois, à medida que a concentração volumétri-
ca aumenta, a mistura começa a exibir um comportamento não Newtoniano. Nesses
casos, os modelos devem ser feitos caso a caso e é difícil encontrar uma generaliza-
ção. Há um ativo ramo de pesquisa na área de mecânica de fluidos que estuda mis-
turas e suspensões cujo objetivo é relacionar as propriedades macroscópicas de uma
mistura bifásica, tal como sua viscosidade e as forças fluido-dinâmicas resultantes
das interações entre partículas. Esta área é denominada micro-hidrodinâmica, termo
cunhado por G.K. Batchelor, responsável pelo desenvolvimento deste ramo da mecâ-
nica dos fluidos. A abordagem desta modelagem para a determinação da viscosidade
efetiva está fora do escopo deste capítulo, mas o assunto está apresentado nos traba-
lhos de revisão: Batchelor (1974) e Herczynski e Pienkowska (1980).

9.9 COMENTÁRIOS FINAIS


O modelo de mistura postula que existe um meio contínuo no qual estão dispersas as
múltiplas fases da mistura aqui representadas por gotas, bolhas ou partículas sólidas.
A mistura entre as fases contínua e dispersa se comporta como um único fluido cujas
propriedades podem ou não depender das propriedades das fases dispersas. No mode-
lo de mistura, cada fase dispersa está representada por uma equação de concentração.
As equações de conservação de massa e de quantidade de movimento da mistura
também são resolvidas, mas necessitam de uma equação constitutiva que descreve o
movimento da fase dispersa em relação à mistura.
O modelo de mistura pode representar uma mistura multifásica com n fases,
sendo computacionalmente mais simples de ser implementado e numericamente
mais estável do que o modelo de dois fluidos. Entretanto, ele requer que sejam
conhecidas as velocidades relativas das fases em relação à mistura; fato que na
maioria das vezes não é possível e, com frequência, recorre-se a aproximações para
poder resolver casos reais normalmente encontrado em projetos de engenharia que
envolvem escoamento multifásico
O conjunto formado pelas equações (9.11), (9.29) e (9.30) expressa o modelo
de mistura bifásico em termos da velocidade de deslizamento da fase dispersa. Uma
aproximação no modelo de mistura ocorre quando a velocidade de deslizamento é
muito menor do que a velocidade de mistura. Neste caso, o termo de difusão é nulo e
o modelo passa a ser denominado modelo Homogêneo.
140 Escoamento Multifásico Isotérmico

O modelo de mistura atende ao rigor matemático envolvido nos processos de


média. Ele vem sendo aplicado como ferramenta de análise em escoamentos bifási-
cos 3D no padrão disperso. O ponto fraco do modelo está na determinação da velo-
cidade de deslizamento para escoamentos 3D. Geralmente, as equações constitutivas
para p,j representam um escoamento dominado pela força de campo e o arrasto. Não
há representação de outros tipos de força sobre partículas como Basset, Massa Virtual
ou de migração lateral, que são fundamentais para escoamentos transientes e 3D. Isto
limita a aplicação do modelo para casos onde as fases estão fortemente acopladas.
Em termos objetivos, é necessário que o tempo característico da partícula, Dpρp/18μf,
Equação (C.12), seja muito menor do que o tempo característico do escoamento ou
que a partícula atinja rapidamente sua velocidade terminal. Encontra-se aplicações
3D do modelo de mistura em geometrias complexas em determinação da velocidade e
da distribuição de partículas sólidas em salas limpas (Holmberg; Li, 1998), separado-
res gravitacionais operando com misturas de sólido-líquido (Lia; Rudmana; Brownb,
1998), reatores químicos (Bakker et al., 1993). Há também aplicações em processos
de separação onde a força centrífuga e a gravitacional são igualmente importantes.
Ungarish (1993) faz uma revisão das equações básicas e dos modelos físicos envol-
vidos na presença de campos centrífugos. As aplicações concentram-se em tanques
com agitação e processos de separação em ciclones onde o fluido encontra-se em
rotação (Pericleous; Drake, 1986; Amberg; Ungarish, 1993; Dahlkild; Amberg, 1994;
Bakker; Fasano; Myers, 1994; Ungarish, 1995)
Um aspecto mal resolvido no modelo de mistura 3D é a representação do tensor
das tensões. Em princípio, o tensor das tensões, devido à difusão molecular, é defini-
do como a soma das tensões de cada fase. Entretanto, esta forma de expressar a tensão
não atende ao modelo, que necessita da tensão em função da velocidade de mistura.
Por outro lado, sabe-se que uma mistura, à medida que sua concentração volumétri-
ca aumenta, tem a tendência de apresentar um comportamento não Newtoniano. A
modelagem do tensor das tensões devido às flutuações turbulentas encontra-se em
estágio de desenvolvimento. Não há uma teoria aceita para qualquer aplicação e cada
caso é resolvido a partir de suas próprias características. Devido à complexidade da
modelagem e à escassez de dados experimentais, muitas vezes o modelo para a tensão
representa de maneira incompleta o fenômeno físico.
As limitações impostas pelo tempo característico do fenômeno e pela repre-
sentação do tensor da mistura impõem restrições à aplicação do modelo de mistura
3D. De fato, elas são relativamente escassas se comparadas ao número de aplicações
do modelo de mistura 1D para escoamentos bifásicos em tubulações publicados nas
últimas quatro décadas, assunto do próximo capítulo.
CAPÍTULO

Modelo de
Mistura 1D 10

O modelo de mistura 1D é empregado para simulação em regime permanente e tran-


siente de escoamentos multifásicos em tubulações. Devido a sua capacidade de re-
presentação do processo físico, relativa facilidade de implementação e reconhecida
estabilidade numérica, esse modelo e suas variações constituem a base dos simulado-
res de fluxo para tubulações aplicados nas indústrias petrolífera, nuclear e química.
A presença das paredes de uma tubulação restringe os fluxos de massa e aquanti-
dade de movimento somente para a direção axial. Esta característica permite, por meio
de um processo de média na seção transversal, condensar toda informação do escoamen-
to a um valor médio para uma dada posição axial do tubo e reduzir as equações do mo-
delo para variações unidimensionais na direção axial e no tempo. O modelo de mistura
1D é intrinsecamente mais simples que seu análogo 3D. As velocidades se reduzem a
grandezas escalares, a variação no espaço a uma única direção, as tensões só atuam na
parede do tubo, enquanto que a pressão age somente na seção transversal. Estas simplifi-
cações refletem na sua implementação numérica, tornando-a mais simples, e conferindo
uma maior estabilidade numérica se comparado ao modelo de dois fluidos 1D.
Uma das formas mais populares do modelo de mistura 1D é conhecida como
modelo Drift Flux. Ela foi apresentada em 1977 num relatório técnico do Laboratório
Argone USA pelo Professor Mamoru Ishii. É necessário também citar como respon-
sável pelo desenvolvimento do modelo, entre outras contribuições na área de esco-
amento bifásico, o Professor Novak Zuber, na época orientador do Professor Ishii.
Este capítulo inicia apresentando os processos de média na seção transversal. A
partir dos processos de média são definidas a densidade e fração de vazios médias na
seção, a velocidade de deslizamento e o fluxo volumétrico médio na seção. Também
142 Escoamento Multifásico Isotérmico

é introduzida a relação entre o fluxo volumétrico e a velocidade de deslizamento


conhecida como relação de Zuber e Findlay. Na sequência o processo de média é apli-
cado ao modelo de mistura 3D para obter as equações do modelo 1D. As equações do
modelo de mistura 1D, quando expressas em termos da velocidade de mistura, fração
de vazios, pressão e velocidade de deslizamento, constituem o modelo Drift Flux,
Ishii (1977). De forma alternativa é apresentada uma formulação 1D para o modelo
de mistura baseada em variáveis primitivas: velocidade das fases, fração de vazios e
pressão. Esta modelagem, desenvolvida por Pauchon e colaboradores (1993), é em-
pregada no modelo TACITE, que emprega diretamente a velocidade relativa entre as
fases ao invés de empregar a velocidade de deslizamento.

10.1 DEFINIÇÃO DAS MÉDIAS NA SEÇÃO TRANSVERSAL


O valor médio de uma variável “ψ” na área da seção transversal A do tubo é definido por:

(10.1)

A Equação (10.1) mostra que o processo de média na área transversal do tubo con-
densa as informações da variação de ψ para somente um valor médio correspondente
àquela seção transversal. No entanto, o valor médio <ψ> pode variar ao longo da
direção axial do tubo assim como no tempo.
No decorrer das análises será considerado, para fins de simplificação na nota-
ção, que as massas específicas das fases são uniformes na seção transversal, de tal
modo que:

ρk = <ρk>. (10.2)
Esta aproximação é válida para a maioria das misturas gás-líquido onde o gradiente
de pressão transversal no canal é pequeno, Ishii e Hibiki (2006). A partir desta hipó-
tese, a massa específica média na seção transversal de uma mistura com n fases é:

(10.3)

Em particular, para uma mistura com duas fases, fases dispersa “p” e contínua “f”, a
massa específica média da mistura na seção transversal é:

(10.4)

A média ponderada pela concentração da fase k na seção transversal é definida


de forma análoga à Equação (3.8):

(10.5)
Capítulo 10 Modelo de Mistura 1D 143

Buscando uma simplificação na representação da média ponderada na seção, sua no-


tação passa a ser:

(10.6)

10.2 RELAÇÕES CINEMÁTICAS


O modelo 1D traz uma simplificação intrínseca à velocidade. Ela passa a ser um es-
calar que pode variar no espaço e no tempo. No contexto unidimensional e para uma
mistura com apenas duas fases, as velocidades de mistura, superficial e de desliza-
mento estão relacionadas entre si. Esta seção explora as relações cinemáticas existen-
tes entre estas velocidades e as propriedades do escoamento.
A velocidade média da fase k na seção transversal ponderada pela fração de
vazios é definida por:

(10.7)

sendo que a velocidade superficial da fase k está definida na Equação (8.17) e a igual-
dade se aplica sob a hipótese da Equação (10.2).
É importante reconhecer que o processo de média da Equação (10.7) resulta na
conservação volumétrica da fase k:

(10.8)

mas, sendo αk a fração da área ocupada pela fase k, o domínio de integração pode ser
transformado na área ocupada pela fase k, isto é, αkdA = dAk. Retornando à Equação
(10.8) tem-se que:

(10.9)

onde Qk é a vazão volumétrica da fase k. Por meio das Equações (10.7) a (10.9), po-
de-se chegar também à definição da velocidade superficial média na seção da fase k:

(10.10)

Como <jk> é expressa pela razão da vazão volumétrica da fase k e da área da se-
ção transversal, ela também é denominada fluxo volumétrico da fase k. De modo
complementar, a velocidade superficial <jk> é equivalente à velocidade que a fase
k possuiria se ela estivesse escoando sozinha no tubo. Outro aspecto importante
é que <jk> pode ser determinada experimentalmente uma vez conhecida a vazão
volumétrica.
144 Escoamento Multifásico Isotérmico

Por último, substituindo as definições das Equações (10.10) e (10.9) na Equa-


ção (10.7) chega-se a:

(10.11)

ou seja, a velocidade média ponderada equivale a razão entre a vazão volumétrica da


fase k e a área ocupada por ela na seção transversal.
O fluxo volumétrico de uma mistura para outra, com “n”fases, é definido por:

(10.12)

Recorrendo à definição da Equação (8.17), pode ser escrito em termos das veloci-
dades das fases e das frações de vazios como:

(10.13)

Para uma mistura com duas fases, dispersa “p” e contínua “f”, o fluxo volumétrico
da mistura é:

(10.14)

10.2.1 Velocidade de deslizamento média ponderada, <vk,j>α


A velocidade de deslizamento é definida por meio da Equação (8.26) como sendo a
velocidade relativa entre a fase k e a velocidade superficial da mistura ponderada por
αk. A sua média ponderada pela fração de vazios é obtida aplicando-se o processo de
média em ambos os lados da expressão para obter:

(10.15)

Substituindo as definições de <vk>α dadas nas Equações (10.7) e (10.5) na Equação


(10.15) chega-se a:

(10.16)

Introduzindo o parâmetro de distribuição C0, definido na Equação (F.15) no Apêndice


F, na Equação (10.16):

(10.17)

onde C0 e <vk,j>α são definidos por:

e (10.18)
Capítulo 10 Modelo de Mistura 1D 145

A Equação (10.17) expressa a velocidade média da fase ponderada pela fração de vazios
em função das velocidades da mistura e de deslizamento. Ela constitui uma das relações
cinemáticas mais importantes em escoamentos multifásicos porque se aplica a qualquer
padrão de escoamento. Ela foi originalmente proposta por Zuber e Findlay (1965).
Considerando duas fases, uma dispersa e outra contínua, identificadas pelos
subíndices “p” e “f”, a velocidade de deslizamento ponderada, Equação (10.18), pode
ser expressa pela velocidade relativa local multiplicando-se a Equação (10.18) por α
e tomando a média na seção:

(10.19)

A velocidade de cada fase está distribuída na seção com seu perfil correspondente.
Para um escoamento desenvolvido, pode-se esperar que a diferença entre as velo-
cidades das fases não varie significativamente na seção, de forma que o perfil de vr
local é aproximadamente uniforme. Nessas condições, a Equação (10.19) pode ser
aproximada por:

(10.20)

onde a velocidade relativa média é definida por:

(10.21)

As variáveis <jk>, <α> e <j> podem ser determinadas experimentalmente de tal


forma que a relação linear da Equação (10.17) pode ser verificada experimentalmen-
te. O parâmetro de distribuição e a velocidade de deslizamento assumem valores que
dependem do padrão do escoamento. Entretanto, se o perfil de concentração for uni-
forme, então C0 é unitário; além disso, se <vk,j>α for muito pequeno, então a mistura é
homogênea. Neste caso, a relação entre a velocidade média e a velocidade superficial
da mistura reduz para uma linha reta de 45 graus passando pela origem. O coeficiente
linear da relação da Equação (10.17) define a magnitude da velocidade de desliza-
mento, <vk,j>α, enquanto que o seu coeficiente angular, C0, expressa a influência da
distribuição das fases. Os modelos para C0 e <vk,j>α estão definidos na Seção 10.4 em
função das propriedades dos fluidos e dos padrões do escoamento.

10.2.2 Velocidade de deslizamento média, Vp,j


Ishii (1977) define a velocidade de deslizamento média na seção transversal como:
(10.22)

A Equação (10.22) explicita que a velocidade de deslizamento média é dada pela di-
ferença entre a velocidade ponderada da fase dispersa menos a velocidade do centro
de volume da mistura. Isto é análogo à definição local de velocidade de deslizamento
146 Escoamento Multifásico Isotérmico

dada pela Equação (8.26). Substituindo as Equações (10.10) e (10.12) na Equação


(10.22) chega-se a:

(10.23)

A velocidade de deslizamento média pode ser determinada experimentalmente se a


vazão volumétrica de cada fase e a fração de vazios forem medidas. Uma relação en-
tre k,j, <j> e <vp,j>α é obtida substituindo-se a Equação (10.17) na Equação (10.22):
(10.24)

A velocidade de deslizamento média k,j varia linearmente com o fluxo volumétrico


médio da mistura e <vp,j>α. Uma comparação entre as definições de k,j e <vk,j>α mos-
tra que elas são distintas. Enquanto a primeira é baseada no valor médio da seção, a
segunda é uma média ponderada de vp,j na seção. Se não houver gradientes na seção
transversal do escoamento, C0 = 1 e k,j = <vk,j>α. Neste caso específico onde α é
uniforme, <vk,j>α = vk,j, isto é, a média ponderada também coincide com o valor local
para um meio infinito. A aproximação será utilizada para estimar a ve-
locidade de deslizamento de uma mistura bifásica a partir das equações constitutivas
para a velocidade de deslizamento local definidas na Tabela 9.3.
De forma alternativa, a velocidade média de deslizamento para uma mistura
com duas fases pode ser expressa em termos da diferença entre as velocidades pon-
deradas das fases. Substituindo a Equação (10.14) na Equação (10.22) chega-se a:

(10.25)

onde <α> é a fração de vazios da fase “p”. O último termo do lado direito da Equação
(10.25) é identificado como uma velocidade relativa expressa pela diferença da média
ponderada das fases:
(10.26)

10.2.3 Velocidade da mistura média, Vm


A definição de velocidade média de mistura na seção transversal preserva o fluxo
mássico da mistura na seção transversal. A partir da definição da velocidade de mis-
tura local, Equação (8.10), pode-se mostrar que:

(10.27)

ou seja, o fluxo mássico da mistura é igual a soma dos fluxos mássicos das fases.
Para uma mistura com duas fases, dispersa “p” e contínua “f”, a velocidade média da
mistura na seção transversal é:

(10.28)
Capítulo 10 Modelo de Mistura 1D 147

sendo m a velocidade média do centro de massa da mistura. A vazão mássica da


mistura e m estão relacionadas por:
(10.29)

De forma análoga à Equação (10.27), pode-se definir uma propriedade escalar ψk de


forma que sua média na mistura é:

(10.30)

10.2.4 Relações cinemáticas entre Vp,j, Vm, vp, vf e j


As relações aqui desenvolvidas aplicam-se somente para misturas com duas fases,
uma dispersa e outra contínua, representadas respectivamente por “p” e “f”. As fra-
ções de vazios de cada fase estão relacionadas por <αp> + <αd> =1. Por razões de
simplicidade <αp> = <α> de forma que <αd> =1 − <α>.
Utilizando as definições dadas pelo conjunto de Equações (10.14), (10.22) e
(10.28), pode-se obter duas importantes identidades para o modelo de mistura que
definem a velocidade ponderada das fases em função de m e p,j:

(10.31)

(10.32)

e também uma relação entre a fluxo volumétrico da mistura, a velocidade de mistura


e a velocidade de deslizamento:

(10.33)

As Equações (10.24) e (10.33) constituem a base para o modelo de mistura 1D para


regime permanente. Por meio delas pode-se obter uma solução para <α> e m desde
que seja conhecida uma relação p,j. As velocidades das fases são determinadas subs-
tituindo-se os valores determinados de <α>, m e p,j nas Equações (10.31) e (10.32).
Este assunto é tratado na Seção 10.6.

10.2.5 Velocidades relativas Vr e <vr>


Em geral, os valores de r e <vr> são distintos. Na Equação (10.21), <vr> refere-se
simplesmente a média na seção da velocidade relativa local, enquanto que, na Equa-
ção (10.26), r advêm do efeito da distribuição de velocidades e da concentração das
148 Escoamento Multifásico Isotérmico

fases. Substituindo a Equação (10.26) na Equação (10.25) e igualando com a Equa-


ção (10.24) chega-se a:

(10.34)

Substituindo as definições de <j> e <vp,j>α, Equações (10.14) e (10.20), na Equação


(10.34) obtém-se uma relação cinemática entre as velocidades relativas médias:

(10.35)

A Equação (10.35) mostra que r é sempre maior ou igual a <vr>. Entretanto, para
escoamentos bifásicos com perfis aproximadamente uniformes de concentração e de
velocidades, o parâmetro de distribuição, C0, é aproximadamente unitário e elas pas-
sam a ser iguais.
A importância da diferença entre as definições de velocidade relativa reside no
fato de que as forças interfaciais que dependem da velocidade relativa, por exemplo, a
força de arrasto, devem ser expressas por meio de <vr>, caso contrário, as estimativas
das forças resultariam em valores artificialmente maiores.

10.3 EQUAÇÕES DE TRANSPORTE PARA O MODELO DE


MISTURA 1D
A redução das equações de transporte do modelo de mistura da forma 3D para a
forma 1D requer um processo de média baseado na seção transversal. O processo
de média da área para um tubo de seção transversal constante sem injeção ou suc-
ção de massa nas paredes é apresentado no Apêndice F. Ele é aplicado na forma
canônica da equação de transporte 3D da mistura, Equação (9.1), para se chegar à
sua forma 1D:

(10.36)

onde Jw,n e Jw,s representam os termos de superfície na forma de tensores que atu-
am na seção transversal do tubo e junto à parede nas direções normais e tangen-
ciais, respectivamente.
O processo de média na área considera que a massa específica de cada fase não
varia na seção transversal do tubo. O modelo de mistura 1D está representado na sua
forma canônica a seguir:

(10.37)
Capítulo 10 Modelo de Mistura 1D 149

Se a Equação (10.37) for ser expressa em termos das propriedades da mistura


e da velocidade de deslizamento, o modelo passa a ser conhecido como modelo de
Drift Flux. Alternativamente, se a forma da Equação (10.37) é mantida, seus termos
são modelados diretamente em função das velocidades das fases e da velocidade rela-
tiva. Esta forma de modelagem é introduzida pelo modelo de Pauchon e colaborado-
res (1993) e empregado no código TACITE.
A próxima etapa é expressar o produto das médias como médias de produto.
Empregando a definição de média ponderada, Equação (10.5), na Equação (10.36).

10.4 EQUAÇÕES DE TRANSPORTE PARA O MODELO


DRIFT FLUX 1D
O modelo de Drift Flux 1D vem sendo desenvolvido desde 1970 principalmente pelo
Prof. Ishii e seus colaboradores. A estratégia do modelo de Drift Flux é expressar
as equações de transporte em termos das propriedades da mistura. As equações são
semelhantes às equações de transporte para escoamentos monofásicos, porém, são
acrescidas de termos fonte que trazem a influência do movimento relativo das fases
em função da velocidade de deslizamento.
O ponto de partida do desenvolvimento das equações de transporte do modelo
de Drift Flux é a Equação (10.37).

䊏 Termo transiente
Utilizando a definição de propriedade média ponderada, Equação (10.30), pode-se mos-
trar que o termo transiente passa a ser expresso em termos das propriedades de mistura:

(10.38)

䊏 Termo convectivo
Utilizando a definição de propriedade média ponderada, Equação (10.30), e expan-
dindo a expressão em termos das fases dispersa e contínua, chega-se a:

(10.39)

Substituindo as definições de <vp>α e <vf>α dadas pelas Equações (10.31) e (10.32) na


Equação (10.39), encontra-se que:

(10.40)
Para explicitar o segundo termo do lado direito da Equação (10.40) em termos das
propriedades da mistura, é necessário definir se ψ é um escalar ou um vetor.
150 Escoamento Multifásico Isotérmico

䊏 Termo de covariância
Ele aparece como um desdobramento dos termos convectivos e está relacionado à di-
ferença entre o valor local e o valor médio. Introduzindo o conceito do parâmetro de
distribuição apresentado no Apêndice F, o termo de covariância passa a ser expresso
pelo produto de termos médios multiplicado pelo parâmetro de distribuição:

(10.41)

onde o parâmetro de distribuição é definido por:

(10.42)

O parâmetro de distribuição depende do perfil das variáveis na seção transversal. Ele


será abordado na próxima seção. A forma final do termo de covariância será definida
na equação de quantidade de movimento, Subsseção 10.4.3.

䊏 Termo de força de campo


Utilizando a definição de massa específica de mistura, Equação (10.3), pode-se mos-
trar que o termo de campo reduz para:

(10.43)

䊏 Forma canônica
Substituindo as definições das Equações (10.38) a (10.43) na Equação (10.37), che-
ga-se à forma geral da equação de transporte para uma mistura bifásica:

(10.44)

10.4.1 Equação da conservação da massa da mistura


A equação de conservação da massa da mistura é obtida substituindo as definições: ψ
= 1, J = g = 0 na Equação (10.44):

(10.45)

Note também que para ψ = 1 então Cψk = 1 e o termo associado à covariância é nulo.
Capítulo 10 Modelo de Mistura 1D 151

10.4.2 Equação da conservação da massa da fase dispersa


A equação de conservação da massa da fase dispersa não está representada na Equa-
ção (10.44). Ela é estabelecida aplicando o processo de média na área na equação de
conservação da massa da fase dispersa, Equação (9.12):

(10.46)

Considerando que a massa específica é constante na seção transversal, e aplicando


um procedimento similar ao empregado na Equação (F.6), chega-se a equação de
conservação da massa da fase dispersa:

(10.47)

O próximo passo é expressar a velocidade média da fase dispersa em termos da velo-


cidade de mistura e da velocidade de deslizamento. Recorrendo à identidade cinemá-
tica da Equação (10.31), chega-se à forma final da equação de conservação da massa
da fase dispersa:

(10.48)

10.4.3 Equação de quantidade de movimento da mistura


A equação de quantidade de movimento da mistura é obtida a partir da Equação
(10.44) fazendo ψ = Vm, J = −P + Tm e g = :

(10.49)

A forma da equação de quantidade de movimento ainda está incompleta, pois o se-


gundo, quarto e quinto termos do lado direito devem ser expressos através das variá-
veis m e p,j.

䊏 Tensão na parede, Tw,s


O termo de tensão da mistura é definido na Equação (9.26). Ele vem da soma das
tensões de cada fase multiplicada pela fração de vazios da fase. Para o modelo de
mistura 1D, este termo se reduz à tensão de cisalhamento da mistura junto à superfí-
cie do tubo após a aplicação do Teorema de Gauss (veja o Apêndice F) de forma que
o segundo termo do lado direito da Equação (10.49) representa a ação das forças de
superfície causadas pela tensão de cisalhamento da mistura junto à parede do tubo,
152 Escoamento Multifásico Isotérmico

veja a Equação (F.13). Considerando a hipótese de escoamento homogêneo para mo-


delar somente o termo de tensão, ele pode ser representado em função da velocidade
superficial da mistura, veja a Equação (9.78), pela densidade da mistura e pelo fator
de atrito de Darcy, f, como sugere a Equação (10.50):

(10.50)

sendo que fm pode ser estimado pelas equações:

(laminar, Rem < 2000),


(10.51)
(Blasius, Rem < 10 ),
5

O número de Reynolds da mistura, Rem, é definido como:

(10.52)

e μm é a viscosidade da mistura definida pela Equação (9.81). O modelo para μm é um


dos pontos fracos do modelo de mistura. Se o escoamento tiver partículas dispersas
em baixa concentração pode-se utilizar a Equação (9.80). Para o padrão intermitente
em golfadas de líquido sugere-se a Equação (9.81). Como a fase líquida predominan-
te fica em contato com a parede, com frequência é assumido que μm = μf. A escolha
de uma destes modelos dependerá caso a caso e também de tentativas de erro e acerto
para encontrar a melhor representação entre os modelos.

䊏 Variação da quantidade de movimento devido a Vp,j


O quarto termo do lado direito da Equação (10.44) contém uma diferença de veloci-
dade das fases. Esta diferença é expressa em termos das velocidades de mistura e de
deslizamento por meio da subtração entre as Equações (10.31) e (10.32) e utilizando
a definição de massa específica de mistura, Equação (10.3), para obter:

(10.53)

䊏 Termo de covariância da quantidade de movimento


O quinto termo do lado direito da Equação (10.49) tem origem no desdobramento do
termo convectivo em duas parcelas, uma relativa à mistura e outra à sua covariância,
Capítulo 10 Modelo de Mistura 1D 153

veja a Equação (10.37). Expandindo o termo de covariância em termos das proprieda-


des das fases dispersa e contínua chega-se a:

(10.54)

onde Cv,p e Cv,f representam os parâmetros de distribuição de velocidade para as fases


dispersa e contínua. Eles são definidos a partir da Equação (10.42) como:

e (10.55)

Definindo um parâmetro de distribuição para a mistura como sendo:

(10.56)

substituindo as definições das velocidades ponderadas das fases, Equações (10.31)


e (10.32), na Equação (10.54) e realizando as simplificações algébricas necessá-
rias chega-se a:

(10.57)

O termo de covariância está representado de forma exata na Equação (10.57). Ishii


(1977) e Ishii e Hibiki (2006) propõem uma simplificação para o termo de covariân-
cia desprezando o último termo do lado direito da Equação (10.57). Os argumentos
que levaram os autores a propor esta simplificação não são claros. A análise dos
parâmetros de distribuição para mistura e para cada fase isoladamente revelaram
que a diferença (Cv,p – Cv,f) apresenta uma ordem de magnitude igual ou menor que
(Cv,m − 1) de forma que:

(10.58)
154 Escoamento Multifásico Isotérmico

Substituindo-se as Equações (10.50), (10.53) e (10.58) na Equação (10.49), chega-se


à forma final da equação de quantidade de movimento da mistura:

(10.59)
As equações constitutivas para os parâmetros de distribuição e para a velocida-
de de deslizamento média serão definidas na próxima seção.

10.5 EQUAÇÕES CONSTITUTIVAS PARA O MODELO DRIFT


FLUX 1D
Devido à sua natureza 1D, o modelo Drift Flux 1D permite estender o conceito de
mistura para os padrões anular e intermitente ou golfadas uma vez que ele realiza
uma média na seção transversal. Este fato por si é paradoxal, uma vez que o modelo
1D, em princípio mais simples que seu correspondente 3D, tem capacidade de repre-
sentar escoamentos onde o modelo 3D não se aplica.
Para resolver as equações do modelo Drift Flux, é necessário prover equações
constitutivas para a velocidade de deslizamento média e para os parâmetros de distri-
buição. Esta seção inicia re-introduzindo a velocidade de deslizamento média para,
em seguida, apresentar as equações constitutivas aplicadas para os padrões estratifi-
cado, anular, bolhas dispersa e golfadas.

10.5.1 Velocidade média de deslizamento


Para uma mistura com duas fases a velocidade média de deslizamento é definida em
função do parâmetro de distribuição C0, Equação (10.18), e da velocidade de desliza-
mento ponderada na Equação (10.24) como:

(10.24)

Os casos em que < 0,1 são denominados por escoamentos com alto fluxo vo-
lumétrico. Nestes escoamentos, a contribuição da velocidade de deslizamento ponderada
é desprezível face a parcela do fluxo volumétrico da mistura, de maneira que a velocida-
de média de deslizamento pode ser expressa, com o auxílio da Equação (10.33) como:

(10.60)

Para escoamentos no padrão disperso, a Equação (10.60) impõe um limite para a fra-
ção de vazios: 〈ρm 〉 > (C0 − 1) 〈α〉 (ρf − ρp ). Ela também permite expressar p,j expli-
Capítulo 10 Modelo de Mistura 1D 155

citamente em função da velocidade da mistura. Do ponto de vista de implementação


numérica, essa é uma característica vantajosa, uma vez que m é uma das variáveis
resolvidas diretamente pelo modelo Drift Flux 1D.
Uma inspeção na Equação (10.24) revela que a determinação de p,j requer
definições para e para C0. As seções seguintes apresentam estas equações para
cada padrão de escoamento.

10.5.2 Equações constitutivas para o padrão disperso

䊏 Velocidade de deslizamento ponderada


A velocidade de deslizamento ponderada para o padrão disperso, , tem um
desenvolvimento similar aos casos 3D realizados na Seção 9.5. Considera-se uma
aplicação em escoamento bifásico vertical ascendente hidrodinâmicamente desenvol-
vido. As velocidades positivas são ascendentes enquanto que g atua no sentido opos-
to. O balanço de forças na mistura está restrito somente às forças de empuxo, arrasto
e atrito na parede. O ponto de partida é relacionar com a velocidade relativa
média por meio da Equação (10.20):

(10.20)

sendo que <vr> é determinado por meio da similaridade entre os coeficientes de ar-
rasto para uma partícula isolada e uma população. Para uma população de partículas
escoando em um tubo, a velocidade relativa média vem da Equação (C.38):

(C.38)

onde θ é o ângulo com a horizontal, f é o fator de atrito de Darcy e Frj é o número


de Froude baseado no fluxo volumétrico da mistura . De modo com-
plementar, para uma partícula isolada, a velocidade relativa vem da Equação (E.17):

(E.17)

Fazendo-se a razão entre as velocidades relativas dos sistemas, Equação (C.38) e


(E.17), chega-se a uma relação análoga àquela proposta na Equação (9.36) multipli-
cada por um parâmetro associado ao atrito na parede:

(10.61)

onde Rep,s e Rep estão definidos na Equação (9.37). Na maioria dos escoamentos
verticais no padrão disperso, o termo dominante é a força peso em comparação com
156 Escoamento Multifásico Isotérmico

a força exercida pelo atrito nas paredes, ou seja, . Nesse caso, a


razão entre velocidades simplifica para:

(10.62)

Substituindo-se a Equação (10.62) na Equação (10.19), encontra-se uma expressão


para a velocidade de deslizamento ponderada em função da velocidade relativa de
uma única partícula:

(10.63)

A Equação (10.63) mostra que apresenta uma dependência funcional em CD e


<vr,s> similar àquela estabelecida na Seção 9.5.1, de maneira que os valores de velo-
cidade de deslizamento locais definidos para um escoamento 3D com concentração
uniforme e meio infinito aplicam-se para a velocidade de deslizamento ponderada.
Baseado nesta similaridade, assume valores para escoamentos com fase dis-
persa iguais àqueles definidos na Tabela 9.3.

䊏 Parâmetro de distrituição C0
O parâmetro de distribuição depende dos perfis da fração de vazios e da velocidade su-
perficial da mistura na seção transversal, veja a Equação (10.18). Para escoamento isotér-
mico de gás e líquido no padrão de bolhas dispersas em regime laminar o perfil de fração
de vazios e o perfil da velocidade superficial da mistura são similares, apresentando um
máximo na região central da seção transversal. Para regime turbulento isso não é verda-
de. Devido a migração lateral das bolhas o perfil de fração de vazios passa a apresentar
um pico próximo as paredes (wall peaking). O perfil de fração de vazios também pode
ser alterado devido a transferência de calor, seja por calor sensível adicionado ou remo-
vido do escoamento seja pela mudança de fase que pode ocorrer junto a parede (wall
flashing). Devido aos diferentes fatores físicos que atuam na distribuição da fração de
vazios pode-se constatar que a determinação de C0 não é trivial, mas dependente caso a
caso. Não obstante destas dificuldades, Ishii (1977) propõe, de forma aproximada, uma
expressão única para C0 para tubos de seção circular com transferência de calor:

(10.64)

e outra para escoamentos isotérmicos:

(10.65)
Capítulo 10 Modelo de Mistura 1D 157

As Equações (10.64) e (10.65) vêm de medidas experimentais em escoamento de ar e


água em tubulações em regime turbulento. Pelo fato de estas equações não trazerem
dependência com o número de Reynolds da mistura elas não são válidas para escoa-
mentos no regime laminar.
Escoamentos dispersos em gotas ou partículas sólidas se comportam de manei-
ra diferente em relação ao parâmetro C0. A maioria destes escoamentos ocorre em
regime turbulento e apresenta ρp > ρf. Devido à diferença de densidades entre as fases
o mecanismo de migração lateral atua em direção ao centro da seção transversal, fa-
zendo com que a fração de vazios máxima ocorra no centro da seção. Por outro lado,
devido ao regime turbulento, o perfil da velocidade superficial da mistura pode ser
quantitativamente descrito pelas leis de potência típicas de regime turbulento, isto é,
relativamente plano exibindo um máximo no centro da seção. Devido ao comporta-
mento que j e α exibem na seção transversal do tubo, o valor esperado de C0 situa-se
na faixa entre 1,0 ≤ C0 ≤ 1,1. Com frequência, considera-se que o parâmetro de distri-
buição é unitário, de modo que a Equação (10.24) reduz para:

䊏 Parâmetro de covariância
Ishii (1977) propõe que o parâmetro de covariância para escoamentos em bolhas dis-
persas (esférica, distorcida e agitado) em líquido seja dado pela expressão:
(10.66)

enquanto que o parâmetro de distribuição para as fases contínua e dispersa são ex-
pressos por:

(10.67)

(10.68)

Para escoamentos de gotas ou sólidos dispersos em gás, espera-se que Cv,p = C v,f =
Cv,m = 1, uma vez que os perfis de velocidade e concentração são relativamente planos
devido à dispersão turbulenta.

10.5.3 Equações constitutivas para o padrão estratificado


O modelo de mistura aplica-se quando uma fase está dispersa em um meio contínuo.
O modelo trata a mistura como um pseudofluido homogêneo e a velocidade da fase
dispersa em relação a velocidade do centro de volume é determinada por uma correla-
ção. Isto ocorre tipicamente no padrão de bolhas dispersas e também no intermitente
em golfadas de líquido. Porém, quando as fases estão separadas, como ocorre no
padrão estratificado ou anular, o conceito de mistura não faz sentido, pois a posição
da interface pode ser conhecida a priori ou pode ser determinada por meio de um
balanço de forças. Nesse sentido o modelo de mistura perde sua atratividade como
modelo, pois será necessário, de alguma maneira, estabelecer relações constitutivas
para p,j que dependerão do modelo de fases separadas.
158 Escoamento Multifásico Isotérmico

Como o modelo de mistura pode ser empregado em um simulador de escoa-


mento bifásico será inconveniente alterar o tipo de algoritmo em função do padrão
do escoamento. Para manter o mesmo algoritmo para qualquer padrão utilizando o
conceito de mistura pode-se tomar dois caminhos para determinar p,j: (i) calcular a
posição da interface utilizando modelo de fases separadas, ou (ii) utilizar uma corre-
lação para p,j baseada na solução do modelo de fases separadas.
As duas abordagens determinam a posição da interface partindo da hipótese de
regime permanente com propriedades constantes para cada fase e sem transferência de
massa, veja representação esquemática na Figura 7.6. As equações de quantidade de
movimento para cada fase na direção axial vêm da Equação (7.77), porém não são con-
siderados na análise o termo de aceleração convectiva nem a contribuição na quantida-
de de movimento das taxas de atomização e deposição de gotas. Nesse caso, as equa-
ções de quantidade de movimento para a fase dispersa e contínua simplificam para:

(10.69)

(10.70)

onde τi, τwf, Si e Swf representam a tensão interfacial, a tensão na parede, o períme-
tro da interface e o perímetro molhado da parede, respectivamente. Eliminando-se
o gradiente de pressão das Equações (10.69) e (10.70), chega-se num balanço de
forças em função das tensões que são definidas por meio de fatores de atrito e das
velocidades. Em particular, a tensão interfacial é definida em função da velocidade
relativa das fases:

(10.71)

Substituindo as definições das tensões no balanço de forças obtém-se uma expres-


são em termos da velocidade relativa ponderada, da velocidade da fase dispersa e
dos fatores de atrito que permitem a determinação da posição da interface, tensões
e velocidades das fases. Finalmente, com o auxílio da Equação (10.20), chega-se à
velocidade de deslizamento média através da velocidade relativa.
A abordagem (i) determina p,j por substituição direta na Equação (10.25) dos
valores das velocidades das fases calculadas a partir da solução das Equações (10.69)
e (10.70). A abordagem (ii), proposta por Ishii (1977), aplica a definição de p,j dada
na Equação (10.25) na solução das Equações (10.69) e (10.70) e, após manipulações
algébricas encontra uma expressão aproximada para a velocidade de deslizamento
média para um filme de líquido em um escoamento em regime turbulento com ou sem
entranhamento de gotas de líquido no núcleo gasoso:
Capítulo 10 Modelo de Mistura 1D 159

para ρp /ρf <<1, (10.72)

onde E é a taxa de entranhamento de líquido no núcleo gasoso definida na Equação


(7.78) e ρp é a densidade da mistura do núcleo composto por gás e gotas de líquido
dispersas, veja a Equação (7.71). Comparando-se a Equação (10.72) com a (10.24)
chega-se ao parâmetro de distribuição:

para ρp /ρf <<1, (10.73)

Tipicamente <α> ≥ 0,9 para escoamentos anulares, portanto a Equação (10.73) indica
que C0 ≈ 1. O parâmetro de covariância para o padrão anular, Cv,m ≈ 1, Ishii (1977).
A abordagem (i) provê resultados mais precisos pois pode-se determinar para
cada caso como p,j varia sem aproximações. Por outro lado ela é mais trabalhosa,
pois cria a necessidade de solução de uma equação algébrica extra. A abordagem (ii)
é mais direta para o modelo de mistura, porém, por ser de natureza aproximada, seus
resultados não são tão precisos quanto aqueles obtidos da abordagem (i).

10.5.4 Equações constitutivas para o padrão golfadas


O padrão intermitente por golfadas de líquido (slug flow) é representado por uma
combinação dos padrões disperso e estratificado. Este padrão é caracterizado por
uma alternância entre pistões de líquido aerados seguidos por bolhas alongadas que
ocupam entre 50% a 90% da seção transversal do tubo e se estendem por 2 a 300 diâ-
metros livres de tubo. A bolha alongada, característica do padrão golfadas, é também
conhecida por “bolha de Taylor” em homenagem a Sir Geoffrey Ingran Taylor pelo
trabalho pioneiro no estudo da hidrodinâmica destas bolhas (Davies; Taylor, 1950).
O escoamento bifásico de gás e líquido é intrinsecamente transiente, havendo uma
“quase” periodicidade no tempo e no espaço dos pistões seguidos pelas bolhas. O
modelo de mistura 1D permite condensar toda a informação da seção transversal num
único ponto de forma a permitir que este padrão seja tratado como mistura bifásica.
A velocidade média de deslizamento, Equação (10.24), é definida por duas par-
celas, uma proporcional a velocidade superficial média da mistura (C0 − 1)<j> e outra
devido à velocidade de deslizamento ponderada, <vp,j>α representada pelo modelo:

(10.74)

Os parâmetros C0 e C∞ não são constantes, mas dependem da viscosidade, tensão


superficial, aceleração da gravidade, diâmetro da tubulação, entre outros parâmetros.
No padrão golfadas, C0 é dado em função do perfil de velocidades do líquido a frente da
bolha alongada C0 ≅ umax/umédio. O valor que C0 assume depende se o regime é laminar
ou turbulento, porém, ele é independente da inclinação do escoamento. Espera-se que
160 Escoamento Multifásico Isotérmico

o nariz da bolha alongada desloque com a velocidade máxima o líquido a sua frente.
Nicklin, Wilkes e Davidson (1962) fez esta constatação por meio de experimentos com
uma bolha isolada em escoamento de líquido ascendente em regime turbulento encon-
trando 1,1 < C0 < 1,2. Polonsky, Shemer e Barnea (1999) confirmaram estes resultados
por meio de medidas experimentais do perfil de velocidade a frente da bolha utilizando
LDV. Para regime laminar, os valores encontrados para o parâmetro C0 variam entre
1,8 a 2,0 (Nicklin; Wilkes; Davidson, 1962, Bendiksen, 1984). Para escoamentos in-
clinados Bendiksen (1984) propõe C0 como uma função da inclinação da linha com a
horizontal e dos valores que C0 assume quando o escoamento é horizontal e vertical:

se Frj ≤ 3,5 → C0(θ°) = C0(0°)−[C0(0°)−C0(90°)]sen2(θ)


(10.75)
se Frj ≤ 3,5 → C0(θ°) = 1,2
A velocidade de deslizamento ponderada depende da orientação do escoamen-
to, da tensão superficial, da viscosidade da fase líquida, entre outros parâmetros.
White e Beardmore (1962) trazem um mapa em função dos parâmetros adimensio-
nais revelando as faixas de influência de cada parâmetro em <vp,j>α para uma bolha
isolada em ascensão em líquido estacionário. Viana e colaboradores (2003) propõem
um correlação universal para <vp,j>α levando em conta efeitos de tensão superficial e
viscosidade. Para escoamentos “inerciais” (onde os efeitos de tensão superficial e de
viscosidade são desprezíveis), <vp,j>α é determinado baseado na teoria de Bernoulli
encontrando C∞ = 0,345 (Dumitrescu, 1943; Davies; Taylor, 1950). Em escoamentos
horizontais há uma controvérsia sobre a existência ou não de <vp,j>α. Alguns auto-
res, entre eles, Dukler e Hubbard (1975) dizem que para escoamento horizontal não
existe <vp,j>α, isto é, C∞ = 0. Por outro lado, Benjamin (1968), utilizando a teoria de
Bernoulli, aponta para a existência de uma velocidade de deslizamento devido a dife-
rença de elevação entre o nariz da bolha e sua cauda para um escoamento no regime
inercial encontrando C∞ = 0,542. Diversos autores, entre eles Bendiksen (1984), Tai-
tel e Barnea (1990), Polonsky, Shemer e Barnea (1999), atestam a existência da velo-
cidade de deslizamento ponderada baseado neste argumento. Atualmente não há um
consenso sobre este assunto, no entanto medidas experimentais suportam a existência
de C∞ ≠ 0 para um determinado regime de Froude que por sua vez não é suportado
pela teoria de Benjamin. De fato, há poucos estudos sobre <vp,j>α em escoamentos
horizontais e menos ainda com relação a sua dependência com a viscosidade e tensão
superficial. Entretanto, uma correção de <vp,j>α para efeitos de tensão superficial em
escoamentos horizontais é proposta por Weber (1981). Para escoamentos contínuos
de gás e líquido no padrão intermitente em linha inclinada não há uma teoria. Os
resultados baseiam-se em medidas experimentais, conforme discussão em Taitel e
Barnea (1990) e Bendiksen (1984). Porém, Zukoski (1966) e Bendiksen (1984) rea-
lizaram estudos experimentais no escoamento de uma bolha isolada. Posteriormente,
Alves, Shoham e Taitel (1993) propõem um modelo para cálculo do parâmetro C∞
para regime inercial considerando efeitos da tensão superficial. Os estudos experi-
mentais de C∞ apontam um fato curioso: a velocidade de deslizamento ponderada
Capítulo 10 Modelo de Mistura 1D 161

diminuiria a medida com que a inclinação do tubo se afasta da posição vertical. O


valor máximo de <vp,j>α ocorre para uma inclinação intermediária entre 40º a 60º com
a vertical e depois volta a diminuir até atingir a posição vertical. Bendiksen (1984)
propõe uma expressão para <vp,j>α aplicada para escoamentos inclinados a partir de
uma média ponderada entre as fases da velocidade de deslizamento para a horizontal
e vertical, e e o ângulo θ que a linha faz com a horizontal:

(10.76)

Para fins de referência, a Tabela 10.1 traz um sumário dos valores para C0 e <vp,j>α
para escoamentos com água, ou líquido de baixa viscosidade, e gás frequentemente
empregados na literatura.
Na Tabela 10.1, Frj refere-se ao número de Froude. Para uma bolha isolada, Frj
é definido a partir da velocidade do pistão de líquido, U, à frente da bolha, enquanto
que, para uma sequência de pistões seguidos por bolhas alongadas, Frj baseia-se na
velocidade superficial da mistura, <j>:

bolha isolada
(10.77)
trem de bolhas.

Não há informação sobre o coeficiente de covariância no padrão golfadas. En-


tretanto, para o regime turbulento, espera-se Cv,p = Cv,f = Cv,m = 1 uma vez que os perfis
de velocidade e de concentração volumétrica são relativamente planos devido ao regi-
me turbulento e a alternância entre os pistões de líquido e as bolhas de gás. Para o re-
gime laminar isto pode não ser verdadeiro, sendo necessário mais estudo neste tópico.

TABELA 10.1 Valores para C0 e para escoamentos em golfadas aplicados


para água ou líquidos de baixa viscosidade e gás (Bendiksen, 1984)

Regime Frj C0

Laminar --- 1,8 a 2,0


Vertical
Turbulento --- ∼ 1,2

Laminar --- 1,8 a 2,0 não há informação

> 3,5 ∼ 1,2 0


Horizontal
Turbulento
< 3,5 1,0

Considera-se Rej = 2000 como limite de transição entre laminar e turbulento. Os valores de C0 para
laminar são válidos para Rej < 400. Os valores para o deslizamento dependem de Re, veja restrições em
Viana e colaboradores (2003).
162 Escoamento Multifásico Isotérmico

10.6 SUMÁRIO DO MODELO DRIFT FLUX


Esta seção apresenta de forma sumária as equações de transporte e as equações cons-
titutivas para o modelo Drift Flux 1D isotérmico com duas fases. Ele é constituído
por uma equação de conservação de massa da mistura, Equação (10.45), uma equação
de conservação de massa da fase dispersa, Equação (10.48), e por uma equação de
quantidade de movimento da mistura, Equação (10.59).

(10.45)

(10.48)

(10.59)
O conjunto de equações possui as seguintes variáveis independentes: velocida-
de média da mistura, fração de vazios e pressão. Para ser um conjunto determinado,
é necessário que todas as outras variáveis sejam determinadas por meio de equa-
ções constitutivas, e por relações entre as propriedades da mistura Equações (10.4),
(10.17), (10.24), (10.32) e (10.33).

(10.24)

(10.78)

(10.4)

(10.31)

(10.32)

(10.33)
Capítulo 10 Modelo de Mistura 1D 163

Além destas equações, é necessário também conhecer o padrão do escoamento, es-


tratificado ou disperso, e estabelecer uma equação para o cálculo do fator de atrito, f.

10.6.1 Modelo Drift Flux 1D, regime permanente


Em regime permanente, as propriedades do escoamento permanecem invariantes no
tempo. Nessa condição, as equações do modelo de mistura são simplificadas substan-
cialmente. A equação da conservação da massa da mistura passa a ser:

constante, (10.79)

ou seja, a vazão mássica da mistura permanece constante ao longo do tubo. A equa-


ção da conservação da massa da fase dispersa, Equação (10.47), na ausência de trans-
ferência de massa reduz para:

constante, (10.80)

de maneira que o fluxo mássico da fase p permanece constante ao longo do tubo. Note
que este resultado é consistente, pois, garantindo a conservação da massa da mistura
e de uma fase, a conservação da massa da outra fase está implicitamente satisfeita.
Por fim, da equação de conservação de quantidade de movimento, obtém-se a
variação de pressão num trecho do tubo:

(10.81)
A queda de pressão da mistura é devido à variação da quantidade de movimento da
mistura, à redistribuição das fases, ao peso da mistura e à força de atrito na parede.
Em escoamentos verticais ascendentes, normalmente o peso da mistura é o termo de
maior significância no lado direito da Equação (10.81), de forma que ela é usualmen-
te aproximada por:

(10.82)

As relações definidas nas Equações (10.4), (10.31), (10.32) e (10.33) permanecem


válidas.

10.6.2 Modelo de deslizamento (Slip Model) 1D


O modelo de Deslizamento ou “slip model” é uma simplificação do modelo Drift
Flux. Considera-se que não há gradientes de concentração na seção, de forma que o
parâmetro de distribuição, C0 tem valor unitário. A aproximação envolvida é válida
164 Escoamento Multifásico Isotérmico

quando o termo (C0 − 1)<j> << <vp,j>α, como na Equação (10.24), veja comentários
na Seção 10.2.2. Nesse caso, a velocidade média de deslizamento passa a ser:

(10.83)

A velocidade de deslizamento local é definida em termos da velocidade relativa na


Equação (8.28):

(10.84)

Introduzindo o parâmetro de deslizamento, S, como sendo a razão entre as velocida-


des das fases dispersa e contínua:

(10.85)

pode-se reescrever a Equação (10.84) como:

(10.86)

Substituindo-se a Equação (10.86) na Equação (10.78) e utilizando as definições de


velocidades superficiais dadas pela Equação (10.12), chega-se à concentração da fase
dispersa, que é expressa por:

(10.87)

A equação acima expressa a concentração da fase volumétrica em função da razão


das velocidades superficiais entre as fases e do fator de deslizamento S. O parâmetro
S pode ser obtido diretamente por meio de correlações ou através das equações cons-
titutivas para velocidade relativa definidas na Seção 9.5.1.

10.6.3 Modelo homogêneo 1D, regime permanente


O modelo homogêneo 1D ocorre quando a velocidade de deslizamento média na seção
transversal é muito menor do que a velocidade média da mistura, <v k,j>α /Vm<< 1, e não
há gradientes de velocidade nem de concentração, C0 = 1. Este caso em particular leva
a grandes simplificações nas propriedades da mistura. A Equação (10.24) se reduz para:

(10.88)

As velocidades das fases, assim como as velocidades médias da mistura e superficial,


ficam idênticas, veja a Equação (8.35):

(10.89)
Capítulo 10 Modelo de Mistura 1D 165

Utilizando as Equações (10.17) e (10.10) pode-se mostrar que a concentração volu-


métrica da fase k é expressa pela razão entre velocidades superficiais:

(10.90)

A massa específica da mistura está definida na Equação (10.4), mas também pode ser
expressa em função das velocidades superficiais das fases:

(10.4)

As equações de conservação da massa da mistura e da fase permanecem como de-


finidas nas Equações (10.79) e (10.80). A equação de quantidade de movimento da
mistura, Equação (10.81), simplifica para:

(10.91).

onde a queda de pressão é devido à variação da quantidade de movimento da mistura,


ao peso da mistura e a força de atrito na parede. Comparando-se esta equação com a
Equação (10.81) observa-se a ausência do termo de redistribuição das fases devido ao
fato de o modelo ser homogêneo, isto é, p,j é nulo.

10.7 FORMA ALTERNATIVA AO MODELO DE MISTURA


1D – TACITE
O conjunto de equações de transporte que utiliza as variáveis: m, <α> e P não é a
única maneira de expressar o modelo de mistura. Há uma forma mais simples de se
representar o conjunto de equações de transporte para o modelo de mistura a par-
tir das variáveis primitivas do problema: velocidade do gás, velocidade do líquido,
fração de vazios e pressão. Esta abordagem foi introduzida por Pauchon e colabora-
dores (1993) para o desenvolvimento de um código numérico para regime permanen-
te e transiente de escoamentos bifásicos em tubulações. O código é denominado de
TACITE e pertence ao Instituto Francês de Petróleo, IFP.
O modelo propõe uma equação de conservação da massa para cada fase. Utili-
zando as Equações (10.38) e (10.39) e fazendo <ψk> =1, chega-se à conservação da
massa de cada fase:

(10.92)

(10.93)
166 Escoamento Multifásico Isotérmico

Note que a soma das duas equações resulta na equação de conservação da mistura,
Equação (10.45).
A equação de quantidade de movimento da Mistura parte da definição da Equa-
ção (10.37), fazendo ψk = vk, J = −P I + T e g = g. Expandindo o somatório em termos
das variáveis primitivas e, com o auxílio das Equações (10.39) e (10.41), o balanço de
quantidade de movimento da mistura passa a ser:

(10.94)

onde C k,v é o parâmetro de distribuição de velocidades das fases definido na Equação


(10.55). Para todos os padrões ele é aproximadamente unitário, à exceção do padrão
de bolhas dispersas, no qual esse parâmetro é dado pelas Equações (10.67) e (10.68).
A Equação (10.94) contém a mesma informação da Equação (10.59). Porém,
a primeira expressa as propriedades da mistura em termos das variáveis primitivas,
enquanto que a segunda utiliza a definição de velocidade média de mistura. Por outro
lado, o modelo de mistura em termos das variáveis primitivas é muito mais simples
de ser deduzido a partir do modelo de dois fluidos. Não se conhece neste momento
que tipo de formulação, baseada na velocidade de mistura ou em variáveis primitivas,
pode ser mais favorável na implementação do esquema numérico de solução.
Uma inspeção nas Equações (10.92) a (10.94) mostra que são quatro as variá-
veis dependentes: as velocidades ponderadas das fases, <vf>α e <vp>α, a pressão P e a
fração de vazios média da fase dispersa <α>. Por outro lado, o modelo possui apenas
3 equações e, por consequência, é indeterminado.
A relação algébrica do deslizamento para regime permanente fornece a quarta
equação para tornar o sistema determinado e possível de solução para o padrão dis-
perso. Substituindo a definição de fluxo da mistura, Equação (10.14), na Equação
(10.17) chega-se a uma relação entre as velocidades ponderadas na seção e a veloci-
dade de deslizamento:

(10.95)

A expressão acima é empregada pelo modelo TACITE para escoamentos dispersos.


Para escoamentos estratificados, a relação entre as velocidades das fases vem,
de forma implícita, do balanço de forças no filme e no núcleo. Ele é obtido eliminan-
do-se a pressão da Equação (7.54) e desprezando-se os termos inerciais:

(10.96)
Capítulo 10 Modelo de Mistura 1D 167

onde Sf, Sp, Si e S representam os perímetros molhados da fase contínua, dispersa, da


interface e do tubo, respectivamente; A é a área transversal do tubo, Ti é a tensão na
interface e Tf,w ou Tp,w as tensões exercidas pelas fases contínua ou dispersa junto à
parede. Esta equação é similar à equação obtida por Taitel e Barnea (1990) quando os
termos inerciais da equação de quantidade de movimento são desprezados. A Equa-
ção (10.96) abrange aplicações para escoamentos estratificados e anulares. Neste úl-
timo caso, a fase dispersa não molha a parede e, portanto, Tp,w é nulo.
O sistema de equações apresentado constitui o modelo TACITE para escoamen-
to isotérmico no padrão disperso e estratificado. No padrão intermitente, ele inclui
um termo extra na equação de quantidade de movimento que leva em consideração
a intermitência entre os padrões estratificado e disperso na modelagem, conforme
Pauchon e colaboradores (1993).

10.8 COMENTÁRIOS FINAIS


O modelo de mistura 1D é adequado para representar o escoamento bifásico de gás e
de líquido em tubulações para os diversos padrões em regime permanente e transiente.
O modelo em regime permanente é simples de ser implementado numerica-
mente. Porém, havendo mudança de padrão na linha, ele requer o uso de uma rotina
extra para prever o padrão e adequar a equação constitutiva apropriada. A aplicação
do modelo de regime permanente em tubos permite estabelecer uma estimativa da
perda de carga e do padrão do escoamento ao longo da linha. Ele pode ser aplicado
no dimensionamento de linhas, especificação de bombas e compressores. Além disto,
ele também pode ser uma ferramenta a mais para análise de projeto e otimização de
sistemas de elevação utilizando GLC (gás lift contínuo).
O modelo transiente é mais complexo para ser implementado numericamen-
te. Há duas formulações para o modelo de mistura, uma baseada na velocidade de
deslizamento e outra na velocidade relativa das fases. As diferenças estendem-se
também para a representação dos termos de transporte. Enquanto a primeira tem o
transporte da mistura, a segunda proposta faz o transporte da contribuição de cada
fase. Neste momento não se sabe qual formulação traz o melhor custo benefício
em termos de representação física do fenômeno e estabilidade numérica. Porém,
pode-se afirmar a priori que o termo de deslizamento das fases é mais simples de
ser constituído e implementado no modelo proposto por Pauchon e colaboradores
(1993). Isso pode ser uma vantagem para trabalhar com mais de duas fases simulta-
neamente no modelo. Do ponto de vista numérico, o modelo de mistura 1D é mais
simples de implementar que o modelo de dois fluidos 1D e, portanto, requer menos
horas de máquina. Outra vantagem numérica associada ao modelo de mistura é que
ele é melhor colocado que o modelo de dois fluidos 1D, característica que confere
ao modelo de mistura uma melhor estabilidade numérica.
Apêndices
APÊNDICE

Funções
Generalizadas A

Um escoamento multifásico é caracterizado por uma mistura com múltiplas fases


escoando simultaneamente. As leis de conservação, tais como massa, quantidade de
movimento linear e energia, aplicam-se igualmente à mistura, porém elas requerem
termos adicionais que contabilizem as interações entre as múltiplas fases.
O escoamento da mistura é intrinsecamente transiente uma vez que, fixando-se
a um ponto no espaço, haverão múltiplas fases ocupando este ponto em diferentes
instantes de tempo. A interface caracteriza a superfície que separa uma fase do meio
contínuo. Fisicamente, as intefaces são tratadas como uma superfície, pois sua es-
pessura é da ordem de algumas moléculas. Do ponto de vista matemático, elas são
tratadas como descontinuidades.
A abordagem do fenômeno multifásico realizada no modelo de dois fluidos é
baseada no conceito de média aplicado às fases presentes na mistura. A aplicação
deste conceito nas leis de conservação requer a definição das médias e de suas deri-
vadas associadas à funções descontínuas que representam a passagem das interfaces.
Nesse contexto é introduzida a definição de funções generalizadas, tópico desta se-
ção, que dá o suporte teórico para o tratamento de derivadas de funções descontínuas
e o estabelecimento das leis de conservação para sistemas multifásicos.
Este conceito matemático foi introduzido no início da década de 50, quando
Schwartz publicou sua teoria de distribuições. Desde então as funções generalizadas
vêm encontrando inúmeras aplicações em diversos campos da ciência e engenharia. Para
um primeiro estudo neste tema recomenda-se Farassat (1994), por trazer um enfoque na
área de engenharia na profundidade necessária para compreender os conceitos que serão
desenvolvidos na teoria do escoamento multifásico. As seções que seguem trazem, de
forma resumida, algumas aplicações e propriedades das funções generalizadas.
172 Apêndice A

A.1 A FUNÇÃO DELTA


A função delta, também conhecida como delta de Dirac, é uma definição matemática
para representar fenômenos que ocorrem em pequenos lapsos de tempo ou que pos-
suem uma pequena dimensão, tal como a espessura de uma interface. A função delta
representa uma função infinitamente concentrada e simbolicamente representada por:

(A.1)

mas de tal maneira que a integral δ(x) seja a identidade:

(A.2)

A identidade da Equação (A.2) é mostrada pela seguinte operação básica:

(A.3)

onde φ(x) é uma função contínua qualquer. Essa integral pode ser ‘calculada’ por
meio do raciocínio proposto por Dirac: como δ(x) é nula para x ≠0, os limites de inte-
gração podem ser substituídos por –ε e +ε, onde |ε| é um valor pequeno. Além disso,
como φ(x) é contínua em x = 0, seus valores no intervalo (–ε a +ε) não serão muito
diferentes de φ(0), e podemos dizer que, aproximadamente,

(A.4)

A integral acima é por vezes chamada de propriedade de filtragem da função


delta, δ(x). Ela atua como um filtro, selecionando entre todos os valores possíveis de
φ(x) o seu valor no ponto x = 0.
A definição dada para a função delta não pode ser usada para definir uma fun-
ção matemática nem tão pouco uma função integrável. No entanto, a função δ(x)
pode ser definida matematicamente por meio da integral, Equação (A.5), com o auxí-
lio de funções fortemente concentradas que tendem para a propriedade de filtragem
da função delta quando o parâmetro ‘n’ tende ao infinito; isto é,

(A.5)

Exemplos de algumas destas funções concentradas são:

(A.6)

cujo limite, quando x→ 0, é 1. Uma representação gráfica destas funções é apresenta-


da na Figura A.1 para valores do parâmetro n de 10, 50 e 100. Nota-se que, à medida
Apêndice A 173

que o parâmetro ‘n’ cresce, mais concentrada fica a função em torno de zero. No
limite de n→∞, a integral (A.5) tende para φ(0).
1 1
1

0.8 0.8 0.8

0.6 0.6 0.6

0.4 0.4 0.4

0.2 0.2 0.2

- 0.4 - 0.2 0.2 0.4 - 0.2 - 0.1 0.1 0.2 - 0.4 - 0.2 0.2 0.4

FIGURA A.1 Da esquerda para direita, representação das funções gn(x) = 1/(1 + n x ),
2 2
2 2
gn(x) = e−n x , gn(x) = [Sen(nx)/nx]2 com parâmetros n variando entre 10, 50 e 100.

Uma característica notável das sequências com parâmetro n definidas na Equa-


ção (A.6) é que, no limite para n→∞, todas elas apresentam a mesma propriedade
de filtragem, isto é, no limite, a integral, Equação (A.5), resulta em φ(0). Ou seja, a
propriedade de filtragem ou o mapeamento da integral das funções concentradas g(x)
no domínio das funções φ(x) não dependem do tipo particular das funções g(x), mas
sim do seu limite. A função δ(x) representa de forma genérica as possíveis sequências
com o parâmetro n de tal forma que no limite resultem em funções concentradas.

A.2 OPERAÇÕES COM A FUNÇÃO DELTA


Deslocando-se a função delta, desloca-se o ponto de aplicação do filtro,

(A.7)

Outras regras com a função delta:

(A.8)

(A.9)

Considere agora a integral envolvendo a derivada de uma função fortemente concen-


trada, gn(x):

(A.10)

onde φ(x) é uma função contínua e diferenciável. Integrando por partes:

(A.11)
174 Apêndice A

observando-se que gn(x) para x→ ± ∞ é zero e que φ(x) é “bem comportada” quando
x→ ± ∞, então:

(A.12)

A função dgn(x)/dx está associada à propriedade da derivada de φ(x). O concei-


to pode ser aplicado à função delta, de modo que:

(A.13)

e igualmente estendido a derivadas de ordem superior:

(A.14)

A.3 FUNÇÃO GENERALIZADA


O conceito de função generalizada estende o conceito de função para dar uma base
matemática à definição de funções tipo δ(x). Uma função tipo gn(x) conduz a defini-
ção da função delta desde que a integral convirja para um valor de φ:

(A.15)

Para definição das derivadas de gn(x), é necessário que φ(x) seja infinitamente di-
ferenciável e que φ(x) tenha um “bom comportamento”, a medida que x→±∞. As
funções φ(x) que satisfazem esta exigência são chamadas de função teste, pois a pro-
priedade de filtragem da função generalizada gn(x) será testada sobre estas funções.
As funções teste devem ser identicamente nulas fora de um intervalo finito (a,b) ou
devem tender a zero quando x→±∞, de tal forma que φ(+∞) = φ(−∞) = 0.
Tradicionalmente, associa-se ao conceito de função g uma tabela de pares or-
denados (x, φ(x)) onde, para cada x, há somente um φ(x). Uma função generalizada
ou distribuição, como também é conhecida, é uma regra que associa para cada função
teste φ um número:

(A.16)

Na notação da Equação (A.16), G[φ] é o mapeamento da função g no domínio das


funções φ, isto é, ela representa a integral do lado direito da Equação (A.16). A nota-
ção g[φ] é também denominada por funcional. A função generalizada é um funcional
linear definida pela Equação (A.16) no espaço contínuo D das funções teste φ(x). De
modo simples, a função generalizada define uma regra para o valor da integral para
Apêndice A 175

uma função teste φ(x). O processo permite que sejam integradas funções regulares ou
ordinárias e também funções singulares (delta de Dirac). Essas últimas são denomi-
nadas de funções generalizadas singulares. Para cada função (regular ou singular), a
função generalizada cria um correspondente G[φ] que é um número real ou comple-
xo. A Figura A.2 representa de forma esquemática o processo de mapeamento das
funções generalizadas regulares e singulares.

Domínio
Funções
generalizadas
g(x)

G[φ] = g(x) φ(x) dx

Números reais
G[φ] ou complexos
FIGURA A.2 Funções generalizadas são funcionais lineares e contínuas no espaço D das
funções teste.

Com a definição dada pela Equação (A.16) pode-se utilizar δ(x) em expressões
matemáticas ordinárias, pois ele passa a ter as mesmas propriedades de funções ordi-
nárias, embora, de fato, não o seja.
A seguir são apresentadas algumas propriedades das funções generalizadas g(x)
e h(x):

– linearidade:

– multiplicação por uma constante:

– produto j(x) contínuo e diferenciável:


176 Apêndice A

Baseado na Equação (A.11) pode-se definir a derivada da função generalizada por:

(A.17)

ou, de forma compacta,

(A.18)

onde n é um inteiro que representa a ordem da derivada. O resultado pode ser mos-
trado aplicando a integração por partes e considerando que φ(+∞) = φ(−∞) = 0. O
resultado mostra que as funções generalizadas possuem derivadas ‘generalizadas’ de
qualquer ordem.
Seguem os exemplos:

i)

ii)
(A.19)
iii) A função Heaviside Step, ou função degrau H(x), é a definida por:

⎧0 x < 0
H (x) = ⎨ −∞ +∞
⎩1 x > 0 0

Reconhecendo que: pode ser definida por meio da função delta:

(A.20)

Consequentemente, a derivada da função degrau deve ser a função delta, dH/dx =


δ(x). Note que, para x≠0, H’(x) é nulo porque a função é constante, mas, para x = 0,
ela é descontínua, sofre um salto e, portanto, está representada com a função delta.
A derivada generalizada da função degrau, H’gen[φ] é:

(A.21)
Apêndice A 177

lembrando que φ(∞) = 0 porque por definição. Veja também que


φ(0)=∫δ(x)φ(x)dx=δ[φ]. Utilizando o resultado da Equação (A.21) tem-se que:

(A.22)

Colocando sob o mesmo integrando as funções H’(x) e δ(x) nota-se que, para ser
verdadeira a expressão:

, (A.23)

é necessário que H’(x) = δ(x), ou seja, que a derivada da função degrau seja a função
delta.

A.4 DERIVADA DE UMA FUNÇÃO ESCALAR COM SALTO


Funções que apresentam uma descontinuidade de salto e são regulares por partes (veja
Figura A.3), apresentam derivada contínua na parte regular, mas não tem definição de
derivada na descontinuidade. Entretanto, pode-se definir sua derivada generalizada.

f(x)

f=f(x0)+– f(x–0)

x0 x

FIGURA A.3 Função f(x) com descontinuidade em salto.

Considere a função f(x) contínua em todo o intervalo, a exceção do ponto x=x0,


que apresenta uma descontinuidade de salto. Nesse ponto ela não apresenta uma de-
finição regular de derivada, mas sua definição de derivada generalizada, f’gen, sim.
Usando a identidade da Equação (A.17) obtém-se:

(A.24)

O limite de integração é subdividido no ponto da descontinuidade de salto de tal for-


ma que a primeira integral termina na descontinuidade por baixo e a segunda integral
inicia a partir do limite superior da descontinuidade, conforme Equação (A.25):

(A.25)
178 Apêndice A

Aplicando integração por partes na Equação (A.25), tem-se que:

(A.26)

reconhecendo que a função teste φ(x) é nula para x→±∞, então:

(A.27)

Deve ser ressaltado que, na Equação (A.27), o limite de integração do primeiro mem-
bro do lado direito exclui o salto, de modo que a integral passa a representar a integral
sobre uma função regular, enquanto que as propriedades do salto estão representadas
no segundo termo do lado direito de Equação (A.27). Em notação compacta esta ope-
ração é representada por:

(A.28)

Utilizando um procedimento similar àquele utilizado nas Equações (A.22) e (A.23),


a Equação (A.27) pode ser reescrita como:

(A.29)

ou
(A.30)

Observe que integrando f 'gen a função f(x) é recuperada, porque f 'gen(x) reteve a me-
mória do salto,

(A.31)

Se uma função possui n descontinuidades em xi, i = 1, 2,...n com um salto Δfi


em xi definido por:

(A.32)

então

(A.33)

As Equações (A.30) e (A.31) mostram que a Teoria de Funções Generalizadas


dá o suporte necessário para se trabalhar com funções que apresentam descontinuida-
des de salto. A derivada da função generalizada é composta pela derivada da função
no trecho onde ela é contínua, mais salto.
Apêndice A 179

A.5 OPERAÇÕES DA FUNÇÃO DELTA NO ESPAÇO 3D


Há inúmeras aplicações físicas de funções generalizadas em espaços multidimensio-
nais. Nesta seção serão tratados espaços 2D ou 3D com descontinuidades de salto
visando a aplicação no desenvolvimento de modelos em escoamentos multifásicos.
Em aplicações 3D a função delta possui a mesma definição dada na Equação
(A.3),

(A.34)

onde é o vetor posição, = (x1, x2, x3). No espaço 3D as descontinuidades passam a


ser representadas por uma superfície que divide pelo menos duas regiões do espaço.
Considera-se uma descontinuidade de salto no espaço representada por uma superfí-
cie definida pela equação: f( ) = 0.

Interpretação δ(f)
Considere a integral:

(A.35)

onde f define uma superfície estacionária no espaço, f(x1,x2,x3) = 0. Logo, a integral


só não é nula nos pontos do espaço pertencentes a esta superfície,

(A.36)

isto é, δ(φ) filtra os valores que φ(x) assume para os pontos pertencentes à superfície
f( ) = 0.

Interpretação δ’(f)
Considere a integral:

(A.37)

O resultado desta integral não é óbvio, pois depende de geometria diferencial.


A integral I é aplicada onde f define uma superfície estacionária no espaço,
f(x1,x2,x3) = 0. Logo, a integral só não é nula nos pontos do espaço pertencentes a
esta superfície,

(A.38)
180 Apêndice A

onde k é a curvatura da superfície* f. O primeiro termo do lado esquerdo é óbvio, pois


trata-se de uma analogia direta com a Equação (A.18). No entanto, o segundo termo
deriva de geometria diferencial, veja Farassat (1994).

Gradiente e divergente, ∇g e ∇.g


Considere uma função g( ) que apresenta uma descontinuidade ‘estacionária’ ao lon-
go da superfície f( ) = 0. Isto é, a superfície f=0 não se desloca no espaço ao longo do
tempo. Um saldo Δg ao longo de f = 0 é definido por meio da relação:

(A.39)

ou seja, a diferença entre os valores de g( ) imediatamente acima e abaixo da superfí-


cie f = 0. Note que os valores de g(f = 0+) e g(f = 0−) definem dois pontos, de tal forma
que a reta que passa por eles é normal a superfície f = 0 naquele ponto.
Tomando por base a Equação (A.30) o gradiente é expresso na forma:

(A.40)

onde é o vetor normal** à superfície f = 0. Note que o salto Δg ocorre sempre normal
à superfície.
De forma similar, podemos expressar o operador divergente,

(A.41)

Veja que, neste caso, que o salto Δg é sempre paralelo à normal da superfície f = 0,
portanto o produto Δ ⋅ pode ser colocado como Δ ⋅ = |Δ |.

Diferenciação de integrais
Considere a integral:

(A.42)

onde ∀ é uma região do espaço que depende do tempo, isto é, ela pode se deformar,
e Q( ,t) é uma função. A fronteira de ∀, isto é, a superfície de controle, é dependente
do tempo e contínua por partes pela superfície f = 0. Dentro de ∀, f > 0. A normal à
superfície de controle é definida por = ∇f/|∇f |. Uma função degrau, H(f( )), é de
tal forma que, para f(x) ≥ 0 (dentro do volume ∀), ela é unitária e, para f(x) < 0 (fora

* Curvatura de uma curva plana é o recíproco do raio de um círculo que tangencia a curva num
dado ponto. Para uma curva (2D) y = g(x) e κ = y’’/(1+y’2)(3/2), mas, se y’ for pequeno compa-
rado com a unidade, κ ≅ y’’.
** O vetor normal à superfície f = 0 é definido por: = ∇f/|∇f|.
Apêndice A 181

do volume ∀), é nula e capaz de filtrar os valores de Q( , t) não nulos. Neste caso, a
integral I pode ser escrita como:

(A.43)

Note que o limite de integração não está definido. De fato, ele estende-se ao
infinito. Porém, pela aplicação da função degrau, ele fica restrito a valores não nulos
de Q( , t) somente para aqueles pontos dentro de V. Derivando a Equação (A.43)
encontra-se que:

(A.44)

onde o termo ∂f/∂t surge porque a superfície f se deforma com o tempo. Seguindo a
superfície com f = 0 tem-se que:

(A.45)

onde i
é a velocidade da superfície. Em vista da Equação (A.45), ∂f/∂t é expresso
por:

(A.46)

onde ni é a velocidade local normal à interface que aponta para dentro da superfície.
Isto porque f > 0 dentro do domínio, então seu gradiente aponta para dentro. Retor-
nando à Equação (A.44), encontra-se que:

(A.47)

ou

(A.48)

sendo que ni está representando a velocidade local instantânea que aponta para ‘fora’
da superfície, isto é, a Equação (A.46) multiplicada por -1. Esta representação é uma
generalização do Teorema de Leibniz para uma dimensão, veja Equação (B.1).
Teorema de APÊNDICE
Gauss e Leibniz
para Funções
Descontínuas B

As equações médias de transporte para escoamentos multifásicos são obtidas por


meio dos processos de médias aplicados à Regra de Leibniz e ao Teorema de
Gauss. Este apêndice desenvolve a aplicação desses teoremas para funções com
descontinuidades.
As aplicações envolvendo esses teoremas consideram um volume geométri-
co ∀(t) que está se movendo no espaço e é limitado pela superfície fechada S(t),
veja Figura B.2. A superfície S(t), representada pela normal , se desloca com
velocidade b.

Vb

n S(t)

∀ (t)

FIGURA B.1 Volume ∀(t) limitado por uma superfície contínua S(t) se deslocando no espaço
com velocidade Vb.
184 Apêndice B

A extensão destes teoremas para funções com descontinuidades de salto é rea-


lizada dentro do contexto de funções generalizadas exposto no Apêndice A. Neste
apêndice, φ representa uma função teste conforme definição dada na Seção A.3.

B.1 REGRA DE LEIBNIZ


Para fins de referência é apresentada a seguir a Regra de Leibniz para uma função
contínua dependente do tempo e unidimensional no espaço, f(x,t):

(B.1)

O lado direito da Equação (B.1) possui três termos cujo significado matemático está
associado a representação dada na Figura B.2. O primeiro termo é a razão da área
{6,2,3,4} por δt, isto é, a contribuição do aumento de df/dt dentro dos limites A e B.
O segundo e terceiro termos estão representados pelas razões das áreas {9,4,5,10} e
{7,1,6,8} com δt; estes termos surgem porque o limite de integração está se movendo
com o tempo.
A extensão da Regra de Leibniz para três dimensões é direta, considerando-se o
limite de integração no espaço por um volume que varia no tempo:

(B.2)

O primeiro termo do lado direito de (B.2) representa a taxa de variação de


f dentro do volume ∀(t) enquanto que o segundo termo equivale ao fluxo de f
que cruza S(t) devido ao movimento da fronteira. Esses termos possuem direta
analogia com os respectivos termos do modelo unidimensional, Equação (B.1).
Além disso, há uma estreita semelhança entre a Regra de Leibniz e o Teorema de

f
3

5
4
2

1
6

f(A) dA f(B)
δt
dt

x
7 8 9 10

A(t) A(t+δt) B(t) B(t+δt)


FIGURA B.2 Representação gráfica dos termos da Regra de Leibniz para uma função f(x,t).
Apêndice B 185

S, g=0

k=1
Xk=1
g<0
k=2
Xk=0
g>0

FIGURA B.3 Representação da interface S e da função indicadora da fase Xk.

Transporte de Reynolds*, porém a Regra de Leibniz aplica-se a um volume geo-


métrico, enquanto que o TTR aplica-se a um volume material, isto é, um sistema
termodinâmico.

B.1.1 Regra de Leibniz para uma função descontínua no espaço


Considera-se dois fluidos identificados pelo índice k = 1 ou 2, que estão contidos num
volume ∀ e que possuem em comum uma interface S descrita pela função contínua
g( , t) = 0. No volume onde está presente o fluido 2 considera-se que g > 0. A normal
à superfície S é definida por = ∇g/|∇g|. Uma função degrau, X∀k (g), é definida de
tal forma que, para g < 0 (dentro do volume ∀), ela é unitária e, para g > 0 (fora do
volume ∀), ela é nula.
O produto da função X∀k com uma função f(x,t), contínua e diferenciável será
uma função descontínua, uma vez que X∀k filtra apenas os valores de f(x,t) que ocor-
rem quando a fase k = 1 está presente. A derivada temporal do produto destas funções
só pode ser definida no contexto de funções generalizadas.

(B.3)

* aplicando Leibniz tem-se:

, mas, reconhecendo que

e aplicando Gauss no segundo termo, chega-se a:

.
186 Apêndice B

O lado direito da Equação (B.3) é determinado pela aplicação do Teorema de Leibniz:

(B.4)

Aplicando a relação entre derivadas de funções generalizadas definida na Equação


(A.17), e reconhecendo que X∀k filtra apenas os valores que as funções assumem
quando a fase k está presente, o volume e a área de integração ficam restritos apenas
ao volume e área ocupados pela fase k, isto é, ∀k e Sk:

(B.5)

O segundo termo do lado direito da Equação (B.5) é um somatório de integrais


que representa a contribuição de todas as interfaces dentro do volume ∀. O pri-
meiro termo do lado direito da Equação (B.5) pode ser calculado utilizando a
regra da cadeia:

(B.6)

onde o primeiro termo do lado direito é nulo porque φ é uma função teste, isto é,
φ(+∞) = φ(−∞) = 0. Substituindo a definição da Equação (B.6) na Equação (B.5)
chega-se a Regra de Leibniz para uma função descontínua no espaço:

(B.7)

Introduzindo a função delta espacial, δ(gj), pode-se transformar o domínio de inte-


gração na superfície para o volume, de forma que a Equação (B.7) passa a ser repre-
sentada por:

(B.8)

ou

(B.9)

δ(gj), nas Equações (B.8) e (B.9), representa uma função delta espacial, veja defini-
ção na Equação (A.34). Ela atua nas equações como um filtro, isto é, só aceita os va-
lores das funções que ocorrem na superfície. O subíndice i, que representa a interface,
aparece nas equações. Esta notação é redundante porque os valores não nulos que
δ(gj) assume aplicam-se somente aos valores de g que definem a interface.
Apêndice B 187

B.1.2 Regra de Leibniz para uma função descontínua no tempo


Considera-se que exista uma função indicadora da fase XTk que detecta a presença da
fase k durante os intervalos de tempo t +j e t −j que ocorrem de modo intermitente no
ponto x0. Os superíndices – e + na variável tempo indicam, respectivamente, o instan-
te em que a fase k entrou em contato com o ponto de amostragem 0 e o tempo em que
ela deixou de ficar em contato. As ocorrências das fases estão representadas na Figura
3.2, repetida aqui por conveniência.

n1 n1 n1
X0
j=1 j=2 j=n
j=n-1
n1 k=2
(A)

X KT

0
t 1− t 1+ t 2− t 2+ ... t n− t n+ t

interface n interface
n

Vi Vi
(B)

x0 x0

t− t+
Interface entra em Interface sai de
contato no ponto x0 contato com ponto

FIGURA B.4 (A) Função indicadora da fase temporal, XTk(t); (B) representação da interface
entrando e saindo em contato com o ponto x0.

A função indicadora da fase atua com um filtro selecionando apenas as ocorrên-


cias da fase. O produto de XTk (t) com uma função f( ,t), contínua e diferenciável no
espaço e no tempo, é uma função descontínua, assim como suas derivadas. Considere
a derivada temporal do produto (XTk.f). Sua determinação só é possível no contexto
das funções generalizadas:

(B.10)
188 Apêndice B

Aplicando o filtro da função indicadora da fase na Equação (B.10),

(B.11)

Um aspecto importante da integral acima é que ela é unidimensional. Isto a diferencia


do caso anterior e requer a aplicação da Regra de Leibniz unidimensional, Equação
(B.1):

(B.12)

onde a função f com superíndices t +j e t −j representa o valor que a função f assume


quando a interface passa nos tempo t +j e t −j , respectivamente. Reconhecendo que a taxa
de variação da fronteira tj com o tempo é unitária, isto é, dtj/dt =1 e que a primeira
integral do lado direito pode ser expressa em todo domínio do tempo com a reintro-
dução da função indicadora da fase, tem-se então:

(B.13)

Introduzindo a função delta, os dois termos do lado direito da Equação (B.13) ficam
representados por uma única integral do tempo:

(B.14)

Eliminando a função teste pode-se definir a regra de Leibniz para uma função des-
contínua no tempo. Essa função é constituída por um termo contínuo de f somado as
descontinuidades durante a passagem das interfaces.

(B.15)

O papel da função delta na Equação (B.15) é filtrar apenas a ocorrência de fk quando


em contato com a interface (veja Figura B.4). Nesse contexto, a notação empregada,
fki, é redundante, mas ela permanece pois ajuda a lembrar que o valor de fk é aquele
que ocorre para a fase k quando ela entra ou sai de contato com o ponto de amostra-
gem. Ishii e Hibiki (2006) substituem a função delta já definindo o valor de f para a
interface, fki; além disso, o sinal alternante da função delta é trocado pelo produto da
normal à interface e a velocidade da interface como representado a seguir:

(B.16)
Apêndice B 189

onde h representa as interfaces, sem distinção se elas estão entrando ou saindo do


ponto de amostragem. O índice h possui duas vezes mais posições que o índice j, uma
vez que a j estão associados os superíndices (+) e (−) que denotam a entrada ou saída
de interface para cada valor que j assume.

B.1.3 Regra de Leibniz para uma função descontínua no tempo e no


espaço

(B.17)

A Regra de Leibniz pode ser aplicada diretamente na Equação (B.17):

(B.18)

Aplicando a propriedade de filtragem de Xk no primeiro termo do lado direito da


Equação (B.18) obtém-se:

(B.19)

O próximo passo é encontrar a definição de ∂Xk/∂t. Utilizando a equação topológica


da interface, Equação (4.10), tem-se que:

(B.20)

Logo,

(B.21)

Aplicando a regra da cadeia, encontra-se que:

(B.22)

Aplicando a propriedade de filtragem de Xk e a regra de derivada em funções genera-


lizadas, Equação (A.12), chega-se:

(B.23)

Agrupando os termos do lado direito da Equação (B.23) e utilizando o Teorema de


Gauss pode-se expressar a integral de volume por uma integral de superfície:

(B.24)
190 Apêndice B

Substituindo a Equação (B.24) na Equação (B.21):

(B.25)

ou, em termos de funções generalizadas:

(B.26)

Comparando o resultado da Equação (B.25) com o segundo termo do lado direito da


Equação (B.19) encontra-se que:

(B.27)

ou,

(B.28)

B.2 TEOREMA DE GAUSS


Para fins de referência é apresentado o Teorema de Gauss para uma função contínua
dependente do tempo e do espaço, f( ,t),

(B.29)

Sua interpretação pode ser intuitiva no sentido de que o fluxo de f que cruza a super-
fície S é igual ao divergente de f calculado no volume ∀ limitado pela superfície S.
O Teorema de Gauss também é conhecido como teorema da divergência e relaciona
uma integral de superfície com uma integral de volume. Suas variantes são para a for-
ma do gradiente (quando f é escalar) e do rotacional (quando f é vetor) como mostram
as Equações (B.30) e (B.31):

(B.30)

(B.31)

B.2.1 Teorema de Gauss para uma função descontínua no espaço


Considera-se uma função indicadora da fase que depende somente da posição da
interface no espaço e não do tempo conforme definição dada na Seção 3.2. O diver-
Apêndice B 191

gente do produto de X∀k com uma função f( ,t) contínua e diferenciavel só pode ser
definido no contexto de funções generalizadas, Equação (A.17), conforme indicado
na Equação (B.30):

(B.32)

O operador espacial ∇ pode ser passado para dentro da integral do lado direito da
equação, uma vez que o limite de integração só depende do tempo. Além disto, utili-
zando a propriedade de derivadas das funções generalizadas, Equação (A.17), pode-
-se expressar a Equação (B.32) como:

(B.33)

Aplicando a função indicadora da fase e utilizando a regra da cadeia no último termo


da Equação (B.33) tem-se que:

(B.34)

Empregando o Teorema de Gauss no primeiro termo do lado direito da Equação


(B.34) e reintroduzindo a função indicadora da fase no segundo termo chega-se a:

(B.35)

O primeiro termo do lado direito da Equação (B.35) é um somatório de integrais de


superfície que representam as contribuições das interfaces dentro do volume ∀. Ao
introduzir a função delta que associa a posição da interface no primeiro termo do
lado direito da Equação (B.35) pode-se transformá-la numa integral de volume. Além
disso, substituindo o lado direito da Equação (B.35) na Equação (B.32) encontra-se a
definição de gradiente da função generalizada:

(B.36)

ou,

(B.37)

A função delta espacial, δ(gj), filtra no volume somente as interfaces, e o somatório


com índice j representa a contribuição de todas as interfaces dentro do volume ∀.
192 Apêndice B

B.2.2 Teorema de Gauss para uma função descontínua no tempo


Considera-se uma função indicadora da fase que depende somente do tempo e não
do espaço conforme definição dada na Seção 3.2. O divergente do produto de Xk
com uma função f( ,t) contínua e diferenciavel só pode ser definido no contexto de
funções generalizadas. A aplicação do Teorema de Gauss surge quando é requerido o
conhecimento deste divergente:

(B.38)

Como o limite de integração só depende do tempo, o operador espacial ∇ pode ser


passado para dentro da integral:

(B.39)

Além disso, utilizando a regra da cadeia, Equação (A.17), pode-se expressar a Equa-
ção (B.38) como:

(B.40)

Mas,

(B.41)

onde o sinal negativo surge porque t− e t+ estão associados com a entrada (δ(t−t−)>0)
e a saída (δ(t−t−)<0) da interface. Substituindo a Equação (B.41) na Equação (B.40),

(B.42)

ou

(B.43)

Cabe ainda apontar que ∇t está definido na Equação (4.6) e repetido aqui por conve-
niência:

(B.44)

Utilizando os mesmos argumentos expostos para Equação (B.16), Ishii e Hibiki


(2006) propõem que a Equação (B.43) seja representada por:

(B.45)
Apêndice B 193

Note que o denominador da Equação (B.44) surge na Equação (B.45) como um mó-
dulo. O produto escalar ( · i) é maior que 0 quando t = t+ e ( · i) < 0 quando t = t−.
Isso faz com que a operação de subtração no somatório da Equação (B.43) se trans-
forme numa soma, e permite que seja eliminada a indexação j que está relacionada
a entrada e saída de interface por h, o que simplesmente denota a passagem de uma
interface entrando ou saindo.

B.2.3 Teorema de Gauss para uma função descontínua no tempo e


no espaço
Considera-se uma função indicadora da fase que depende da posição da interface
no espaço e do tempo conforme definição dada na Seção 3.2. Este tipo de função
indicadora da fase surge naturalmente nos processos de média de conjunto (en-
semble average). O divergente do produto de uma função com o indicador de fase
só pode ser definido no contexto de funções generalizadas conforme mostrado em
Drew e Passman (1999):

(B.46)

Como o limite de integração só depende do tempo, o operador espacial ∇ pode ser


passado para dentro da integral. Além disso, utilizando a propriedade de derivadas
das funções generalizadas podemos expressar a Equação (B.46) como:

(B.47)

Aplicando a função indicadora da fase e utilizando a regra da cadeia no lado direito


da Equação (B.47) chega-se a:

(B.48)

Empregando o Teorema de Gauss no primeiro termo do lado direito da Equação


(B.48) e reintroduzindo a função indicadora da fase no segundo termo obtém-se:

(B.49)

O próximo passo é encontrar a definição de ∇Xk:

(B.50)

aplicando a propriedade de filtragem de Xk:

(B.51)
194 Apêndice B

e, utilizando o Teorema de Gauss, podemos expressar a integral de volume em uma


integral de superfície:

(B.52)

ou, em termos de funções generalizadas:

(B.53)

Comparando o resultado da Equação (B.52) com o primeiro termo do lado direito da


Equação (B.49) encontra-se:

(B.54)

ou

(B.55)

B.3 SUMÁRIO: REGRA DE LEIBNIZ E TEOREMA DE GAUSS


Nas Tabelas B.1 e B.2, fki representa o valor que a função f assume imediatamente
abaixo da interface sob o lado da fase k.

TABELA B.1 Sumário da regra de Leibniz e teorema de Gauss para funções


descontínuas Xk no espaço e no tempo
Indicador
fase

Leibniz
(B.7)
vol.

Gauss
(B.35)
vol.

Leibniz
(B.14)
tempo

Gauss
(B.42)
tempo
Apêndice B 195

TABELA B.2 Sumário das derivadas generalizadas utilizando regra


de Leibniz e Teorema de Gauss
Indicador
fase

Leibniz
(B.9)
volume

Gauss
(B.37)
volume

Leibniz
(B.16)
tempo

Gauss
(B.45)
tempo

Leibniz
tempo e (B.28)
volume
Gauss
tempo e (B.55)
volume
APÊNDICE

Forças em
Partículas C

O conhecimento das forças que atuam numa partícula isolada num campo de esco-
amento é de fundamental importância para a definição do termo de força interfacial
média, 'ik, no padrão disperso, veja Equação (6.30). No texto são empregados os
subíndices ‘p’ e ‘f’ para representar a fase dispersa e a fase contínua, respectivamente.
O movimento de uma partícula isolada num campo de escoamento transiente é des-
crito pela ação combinada das forças de campo e de superfície que atuam na interface
partícula-fluido:

(C.1)

onde ρ é a velocidade do centro da partícula, mp é a massa da partícula (mp = ρp∀p),


ρp e ρf representam as massas específicas da partícula e do fluido, respectivamente;
∀p é o volume da partícula e P e T são os campos instantâneos de pressão e tensão
que atuam na superfície da partícula. P e T também satisfazem as equações de Navier
Stokes:

(C.2)

onde f é a velocidade do fluido. As coordenadas do centro da partícula e do fluido


são denominadas de yp e x, respectivamente. Uma representação da posição e da ve-
locidade da partícula é mostrada na Figura C.1. As equações (C.1) e (C.2) mostram
que a interação entre a partícula e o fluido é definida pela ação das forças de campo
e de superfície. A força de campo, especificamente o peso da partícula, é simples
198 Apêndice C

de modelar. Entretanto, a força que o fluido exerce na superfície da partícula é mais


complexa.
A dinâmica de partículas em um fluido constitui um grande campo de estudo
em mecânica dos fluidos. Este campo provavelmente foi iniciado a partir da análise
de Stokes, realizada em 1851, para o movimento de translação de uma esfera em um
meio infinito com o número de Reynolds tendendo a zero. Os trabalhos pioneiros
da época de Stokes provavelmente foram motivados pela análise do movimento de
translação de uma esfera presa a um fio (pêndulo) com vistas à determinação da força
de resistência que o ar causava na esfera. A aplicação da análise era dirigida para
melhorar a precisão de relógios. Com o desenvolvimento tecnológico e industrial ao
longo dos últimos 150 anos, o movimento de partículas em fluidos mudou o foco da
aplicação para área de processos que envolvem partículas ou escoamentos multifási-
cos em geral.

v
vp
x

yp

x
FIGURA C.1 Representação da posição, da velocidade da partícula e do campo de velocida-
des não uniforme afastado da partícula.

Atualmente há um grande corpo de literatura no assunto sobre forças em partí-


culas. Clift, Grace e Weber (1978) apresenta um vasto material sobre forças em partí-
culas sólidas, bolhas e gotas. Leal (1980) traz na introdução de seu artigo uma revisão
sobre os trabalhos realizados nesta área. Em particular, Leal também traz uma revisão
sobre o movimento de partículas em fluidos não Newtonianos, com efeitos inerciais
e forças laterais ou de sustentação em partículas. Michaelides (1997) faz uma revisão
sobre a equação de movimento transiente de esferas sólidas, bolhas e gotas. O traba-
lho é focado na equação que descreve o movimento e as forças envolvidas, engloban-
do a equação de BBO (Basset-Boussinesq-Oseen) até equações semiempíricas. Silva
(2006) realiza um trabalho de revisão sobre modelagem numérica do movimento de
partículas sólidas e traz uma análise sobre as forças que atuam nas partículas, a equa-
ção que descreve o movimento e uma proposição de técnicas numéricas para a deter-
minação das trajetórias das partículas.
As seções seguintes trazem uma análise das forças envolvidas no movimento
de partículas.
Apêndice C 199

C.1 EQUAÇÃO DO MOVIMENTO DE UMA ÚNICA PARTÍCULA


NUM FLUIDO EM MOVIMENTO
As forças interfaciais que atuam numa partícula num meio fluido são devidas às inte-
rações do fluido com a superfície da partícula. Nesta seção serão consideradas apenas
partículas esféricas. A abordagem dinâmica das forças interfaciais é dividida em dois
regimes: baixo número de Reynolds ou regime de Stokes e alto número de Reynolds.
Para fins de análise, o número de Reynolds da partícula é definido pela velocidade
relativa entre a partícula e o fluido:

(C.3)

onde Dp é o diâmetro da partícula.

C.1.1 Regime de baixo número de Reynolds, equação de BBO


O movimento transiente de uma partícula esférica em regime de Stokes vem sendo
estudado por mais de um século. Basset em 1888, Boussinesq em 1904 e, posterior-
mente, Oseen em 1927 examinaram o movimento de decantação de uma esfera num
fluido estacionário. O escoamento se dava em regime de baixo número de Reynolds,
de modo que a força que o fluido exercia na superfície da esfera podia ser modelada
pelas equações transientes de Stokes. Tchen (1947 apud Hinze, 1975) estendeu o
trabalho, desenvolvendo um modelo para a esfera em movimento descendente devido
a gravidade em um fluido com movimento transiente, mas com perfil de velocidade
uniforme. O interesse de Tchen era desenvolver uma aplicação para o movimento da
esfera em escoamentos turbulentos. Corrsin e Lumley (1956) apontaram inconsistên-
cias no modelo de Tchen referentes à contribuição do gradiente de pressão do escoa-
mento à força na partícula. Maxey e Riley (1983) questionaram o papel do gradiente
de pressão proposto por Corrsin e Lumley na determinação da força na partícula. Eles
propuseram o que é hoje considerada a forma correta da equação que descreve o mo-
vimento de uma partícula sólida num escoamento transiente e não uniforme. A equa-
ção que descreve o movimento da partícula sólida é também denominada equação de
BBO em homenagem aos cientistas pioneiros que iniciaram o seu desenvolvimento
há mais de um século.
Maxey e Riley (1983) consideraram duas regiões para o escoamento: uma afas-
tada da partícula correspondente ao escoamento transiente e não uniforme, e outra
próxima da partícula correspondente ao escoamento perturbado pela presença da par-
tícula (condições de contorno, esteira, etc). A primeira região é também denominada
de região do escoamento não perturbado pela presença da esfera. Considerando que
a partícula esférica é pequena se comparada com a escala de variações espaciais do
escoamento na região não perturbada pela esfera, então, pode-se estimar as tensões
exercidas na esfera sólida pela região não perturbada como sendo equivalentes àquelas
exercidas pelo campo numa partícula líquida de tamanho equivalente. Essa força é
200 Apêndice C

modelada a partir da Equação (C.2), expressando as tensões em função da aceleração


e força peso do fluido:

(C.4)

Por outro lado, a contribuição das tensões normais e tangenciais exercidas pelo fluido
na superfície da esfera devido ao campo de escoamento próximo da esfera é represen-
tada por Fp. Retornando à Equação (C.1) pode-se identificar a contribuição não per-
turbado e perturbado pela presença da partícula, como mostrado na Equação (C.5):

(C.5)

Na Equação (C.5) o primeiro termo do lado direito representa o empuxo. Ele decorre da
força hidrostática exercida pelo campo de pressão do escoamento não perturbado que,
somado à força peso da partícula, Equação (C.1), resulta no empuxo. O termo de ace-
leração do fluido na Equação (C.5) é também denominado de aceleração retilínea. Em
sistemas que apresentam linhas de correntes com curvaturas, é comum introduzir um sis-
tema de coordenadas que define a aceleração centrífuga como um termo inercial extra*.
Para um sistema de coordenadas cilíndrico-polar a forma da Equação (C.5) passa a ser:

(C.6)

As forças que atuam na partícula devido ao campo perturbado pela esfera são
deduzidas em Maxey e Riley (1983) para Rep → 0:

(C.7)

* A força de Coriolis também poderia ser introduzida.


Apêndice C 201

Na Equação (C.7) o termo d/dt é a derivada seguindo o centro da partícula, isto é,

(C.8)

Sendo que a velocidade do fluido, f , é avaliada na posição do centro da partícula, o


mesmo recurso é empregado na definição da aceleração do fluido dada pela Equação
(C.5). Esta definição quer dizer que a velocidade do fluido na coordenada p (centro
da partícula) é a velocidade que o fluido teria na posição p na ausência da partícula.
Note que esta definição do cálculo da velocidade do fluido é difícil de estender para
um fluido com múltiplas partículas (Brennen, 2005). Entretanto, a extensão para um
escoamento com múltiplas partículas exigirá muito mais aproximações do que a sim-
ples extensão deste conceito, como será visto mais adiante.
Note que os termos de massa virtual, arrasto e Basset são proporcionais à velo-
cidade relativa entre a partícula e o fluido. Entretanto, todos eles vem ‘corrigidos’ por
um termo proporcional ao laplaciano das componentes de velocidades, μf∇2vf, devido
a não uniformidade do perfil de velocidades do fluido. Faxen apud Happel e Brennen
(1983) propôs uma correção ao arrasto de uma esfera em regime de baixo número de
Reynolds:

(C.9)

Em particular, a força de Basset também apresenta um terceiro termo relativo à ve-


locidade relativa no tempo inicial, t = 0. Reeks e McKee (1984) demonstraram que o
termo de Basset originalmente poderia ser aplicado apenas quando a velocidade rela-
tiva inicial era zero. Eles introduziram uma velocidade relativa inicial para satisfazer
esta condição inicial.
Substituindo a definição de p, Equação (C.7), na Equação (C.5) obtém-se a
equação de BBO para uma partícula esférica em regime de Stokes, Rep << 1:

(C.10)

Aproximação da equação de BBO para uma partícula se deslocando em um líquido


estacionário
202 Apêndice C

Considere um movimento descedente de uma partícula, ρp > ρf. Num líquido esta-
cionário ou em movimento uniforme, a equação de BBO reduz para apenas três termos:
aceleração da partícula, empuxo e arrasto. Nesse caso a Equação (C.10) simplifica para:

(C.11)

onde os termos de massa virtual e Basset também foram abandonados. Esta equação
tem solução analítica:

→ velocidade relativa,
onde → velocidade terminal relativa,
→ constante de tempo.
(C.12)
A constante de tempo de uma partícula no regime de Stokes expressa o tempo neces-
sário para a partícula atingir 63% de sua velocidade terminal.

䊏 Aproximação da equação de BBO para ρf /ρp << 1


Dividindo ambos os lados da Equação (C.10) pela massa da partícula chega-se a uma
forma da equação de BBO em termos da razão de massas específicas e da constante
de tempo da partícula τp:

(C.13)

Para escoamentos com sólidos ou gotas dispersas em ar, a massa específica da


fase contínua é muito menor do que a massa específica da fase dispersa, isso é,
ρf/ρp << 1. Nesse caso os termos da equação de BBO podem ser reduzidos para: ace-
leração da partícula, força peso e arrasto:

(C.14)

Esta análise mostra que os termos de forças de Basset e de Massa Virtual são relativa-
mente mais significativos para sistemas em bolhas dispersas em líquido do que para
sistemas com partículas sólidas em gás ou gotas em gás.
Apêndice C 203

䊏 Importância dos diferentes termos da equação de BBO


Uma estimativa da importância relativa das forças de Basset e de massa virtual que
atuam numa partícula esférica sólida foi realizada por Hjelmfelt e Mockros (1966)
utilizando um escoamento oscilatório unidimensional para uma partícula com
Rep << 1. O ponto de partida da análise é a Equação (C.10) sem a inclusão dos termos
∇2v e de força de campo. Além disso, considera-se que, no instante inicial, a partícula
e o fluido possuem a mesma velocidade. A equação foi rearranjada num formato mais
compacto onde a velocidade da partícula foi isolada da velocidade do fluido e as ou-
tras variáveis foram agrupadas em coeficientes:

(C.15)

Os coeficientes a, b e c são definidos por:

(C.16)

As velocidades da partícula e do fluido são expressas por meio das integrais de Fourier:

(C.17)

onde ω é a frequência de oscilação do fluido. Introduzindo as integrais de Fourier na


equação de movimento da partícula, Equação (C.15), pode-se obter a razão entre as
amplitudes das velocidades da partícula e do fluido, η, e o ângulo de fase ou atraso
da partícula, β, na forma:

e (C.18)

As funções f1 e f2 são definidas pelas relações:

(C.19)

O parâmetro usado para caracterizar a resposta da partícula é o número de Stokes


modificado:
(C.20)
204 Apêndice C

O resultado da análise é mostrado na Figura C.2 para três sistemas partícula-fluido:


esfera de cobre em ar, esfera de vidro em ar e bolha de ar em água que apresentam
uma razão de massas específicas, ρf/ρp de 1/8000, 1/2500 e 1000/1, respectivamente.
As amplitudes e ângulos de fase para os três sistemas são determinados em função do
número de Stokes considerando quatro cenários para a Equação (C.15):
(i) todos os termos – BBO;
(ii) sem o termo de Basset;
(iii) sem os termos de Basset e Massa Virtual e
(iv) sem Basset, Massa Virtual e dv/dt.
Devido à grande diferença de massa específica entre as fases nos sistemas co-
bre/ar e vidro/ar, os termos de Basset, Massa Virtual e dv/dt têm pouca ou nenhuma
influência na amplitude da oscilação da partícula. Entretanto, pode-se observar con-
sideráveis diferenças no ângulo de fase para Ns < 5, o que significa cenários com alta
frequência de oscilação. Nesses casos somente o termo de massa virtual pode ser
desprezado sem grande impacto na história da partícula. Considerando-se um caso
com partículas de 100 μm, os termos de aceleração do fluido e de Basset passarão a
ser significativos para frequências de oscilação do fluido superiores a 300 Hz. Para
uma bolha, as diferenças na razão de amplitude e na fase aparecem para Ns < 1,0. En-
tretanto, para estes casos o termo de Basset tem pouca influência na amplitude e fase
da partícula e pode ser desprezado. Por outro lado, os termos de aceleração do fluido
e de massa virtual são de grande importância.

C.1.2 Equação de movimento de uma partícula em um escoamento


potencial
As forças exercidas por um escoamento uniforme, transiente e potencial em uma
partícula podem ser obtidas a partir de um referencial fixo no centro da partícula
que se desloca com velocidade p. Nesse caso a força exercida na partícula (Bren-
nen, 2005) é:

(C.21)

onde a aceleração Lagrangeana do fluido é calculada para o centro da esfera. Uma


comparação entre as Equações (C.7) e (C.21) mostra que a última não contém os ter-
mos associados ao arrasto e Basset pela ausência da viscosidade. Entretanto, pode-se
notar que o termo de massa virtual apresenta uma diferença em relação à definição
dada na Equação (C.7). Enquanto que na Equação (C.7) o termo de aceleração é rela-
tivo ao fluido seguindo o movimento da esfera, Equação (C.8), no escoamento poten-
cial o termo de aceleração é relativo ao próprio fluido. Esta diferença para regimes de
altos números de Reynolds pode ser significativa. Entretanto, para regimes de baixos
números de Reynolds o termo convectivo é muito menor do que o termo transiente,
de forma que essas diferenças passam a ser irrelevantes, Maxey e Riley (1983).
Apêndice C 205

partículas de cobre partículas de cobre


-2.0
1.0

0.8 -1.5
razão da amplitude η

ângulo de fase β
0.6
-1.0

0.4

-0.5
0.2

0.0
0.0 0.0 5.0 10.0 15.0 20.0
0.0 2.5 5.0 7.5 10.0 12.5 15.0 17.5 20.0 Número de Stokes, N
Número de Stokes, N

partículas de vidro partículas de vidro

1.0 -2.0

0.8
razão da amplitude η

-1.5
ângulo de fase β

0.6
-1.0

0.4

-0.5
0.2

0.0 0.0
0.0 2.5 5.0 7.5 10.0 12.5 15.0 17.5 20.0 0.0 5.0 10.0 15.0 20.0
Número de Stokes, N Número de Stokes, N

densidade partícula = 1/1000 densidade fluido densidade partícula = 1/1000 densidade fluido

10.0 2.0
1.8
1.6
8.0
razão da amplitude η

1.4
ângulo de fase β

1.2
6.0
1.0
0.8
4.0
0.6
0.4
2.0 0.2
0.0
0.0 -0.2
0.0 0.2 0.4 0.6 0.6 1.0 0.0 1.0 2.0 3.0
Número de Stokes, N Número de Stokes, N
todos os termos BBO
BBO sem Basset
BBO sem Basset e M. Virtual
BBO sem Basset, M. Virtual e dv/dt

FIGURA C.2 Amplitude e ângulo de fase em função do número de Stokes para três sistemas: esfera de
cobre; esfera de vidro e bolha de ar.
206 Apêndice C

C.1.3 Equação semiempírica para o movimento de uma partícula


A equação de BBO, Equação (C.10), é válida apenas para Rep <<1. Estudos analí-
ticos estendem a equação de BBO para a faixa 0 < Rep < 1, isto é, para números de
Reynolds finitos. Eles revelam relações funcionais para os termos de força distin-
tas daquelas para o regime de Stokes, como, por exemplo, em Michaelides (1997) e
Brennen (2005). As expressões analíticas para a equação de movimento da partícula
para número de Reynolds finito são mais complexas, porém, ainda limitadas para
aplicações práticas, uma vez que todas as expressões se originam de expansões assin-
tóticas do regime de Stokes. Rigorosamente, não se dispõe de um modelo exato para
regime Rep > 1, onde ocorrem a maioria das aplicações de interesse prático. Outros
fatores que limitam a equação de movimento da partícula além do regime de Rep são:
a forma da partícula, que nem sempre é esférica; o fato de a partícula não ser sólida,
mas que pode ser constituída por um fluido tal como uma gota ou bolha, e também a
presença de uma população de partículas reduzindo a distância livre entre partículas
e criando um acoplamento entre partículas.
Um caminho alternativo para superar estas dificuldades foi a proposição de uma
equação semianalítica para o movimento de uma partícula. Ela sugere a aplicação de
coeficientes empíricos para cada termo da equação de BBO e assume, implicitamen-
te, que as forças hidrodinâmicas representadas por cada termo estão desacopladas:

(C.22)

Cada termo do lado direito da Equação (C.22) está associado a um mecanismo físico.
Enumerando-os de um a seis eles são:
1º) Força de empuxo da partícula;
2º) Força exercida pelo escoamento externo. O termo de aceleração do fluido;
3º) Força devido à massa virtual da partícula. É introduzido um coeficiente para a
massa virtual, CVM, para poder associar uma dependência deste termo com Rep;
4º) Força de arrasto da partícula. É introduzido um coeficiente para a força de ar-
rasto, CD, para poder associar uma dependência deste termo com Rep. Note que
para regime de Stokes, CD = 24/Rep, de tal forma que a força de arrasto passa a
ser definida por: 3πDp μ .
Apêndice C 207

5º) Força de Basset ou termo de história da partícula. É introduzido um coeficiente


para a força de arrasto, CB, para poder associar uma dependência deste termo
com Rep;
6º) Força de Sustentação da Partícula devido ao perfil de velocidade não unifor-
me do escoamento externo, também conhecido como força de sustentação de
Saffman. É introduzido o coeficiente de sustentação da partícula, CL, que de-
pende do Rep, e ωf é a vorticidade do fluido em yp.
Por questões de simplicidade, foram desprezados na Equação (C.22) os termos
devido ao gradiente de velocidade no perfil ou termos de Faxen. As equações cons-
titutivas para os coeficientes empíricos com relação ao regime de Reynolds e outros
parâmetros do escoamento são apresentadas no Apêndice D. A forma semianalítica
das forças na partícula é um modelo que utiliza o conceito Lagrangeano.
A Equação (C.22) baseia-se na hipótese de que os coeficientes CD, CVM, CB e
CL sejam independentes entre si, de forma que sua contribuição na força resultante da
partícula é soma linear das parcelas de cada um. Esta suposição é verdadeira quando
Rep→0, pois, nesse caso, a equação de movimento da partícula coincide com a defi-
nição da equação de BBO, que se traduz numa soma linear de cada termo. Entretanto,
a força resultante na partícula é um produto das interações dinâmicas entre o fluido
e a partícula que não são, necessariamente, lineares. A suposição da soma linear dos
termos visa simplificar, ou melhor, adequar a complexa equação do movimento da
partícula para cálculos em aplicações de interesse prático para diferentes regimes
de Reynolds. A introdução dos coeficientes dependentes de Rep, entre outros parâ-
metros, traz implícita uma interdependência entre os diversos termos a medida que
Rep aumenta. O sucesso da Equação (C.22) baseia-se em evidencias experimentais,
Michaelides (1997).

C.2 FORÇA INTERFACIAL MÉDIA POR UNIDADE DE VOLUME


PARA UMA POPULAÇÃO DE PARTÍCULAS
O termo médio de força interfacial por unidade de volume, Equação (5.40), para um
escoamento disperso, é definido como:

(C.23)

Pode-se constatar que 'ik só existe quando há interface, portanto, a força 'ik existe
devido ao campo de escoamento próximo da partícula, e ela deve corresponder ao ter-
mo p conforme sugere a partição proposta na Equação (C.5). Utilizando as Equações
(6.30) e (C.22) pode-se defini-lo como:

onde (C.24)
208 Apêndice C

Note que a contribuição do empuxo e da aceleração do fluido não estão presentes na


Equação (C.24). Esses termos advêm do acoplamento do campo de escoamento afas-
tado da partícula. A equação (C.24) tem natureza Lagrangeana, de forma que as velo-
cidades são determinadas segundo uma partícula. Nesse contexto é definido seu valor
médio por meio de uma média de conjunto das velocidades. Ela identifica pelo menos
três mecanismos físicos que causam as forças interfaciais: arrasto, massa virtual e sus-
tentação. O termo de Basset foi descartado em vista do processo de média utilizado no
modelo de dois fluidos ou de Mistura. As equações médias tendem a suavizar as flutua-
ções de velocidade e, consequentemente, os termos associados a elas, tais como Basset
e Massa Virtual. No contexto de valores médios, é comum desprezar a força de Basset e
em alguns casos a força devido à massa virtual. A força de Basset deve ser relevante em
simulações diretas onde se pretende capturar as flutuações nas partículas devido à pas-
sagem dos turbilhões em alta frequência. Por último, pode-se introduzir uma correção
devido à fração de vazios, se necessário for, nas expressões algébricas para que definem
CVM e CD (veja Apêndice D). Porém, não há correção disponível para CL.

C.3 FORMA ALTERNATIVA À FORÇA INTERFACIAL MÉDIA


O balanço de forças para calcular o termo de força interfacial por unidade de volu-
me pode ser derivado combinando as equações de quantidade de movimento da fase
dispersa, Equação (6.3), e da mistura, Equação (9.27). Com ausência de mudança de
fase e de efeitos de tensão superficial tem-se que:

(C.25)

(C.26)

Considera-se que as pressões nas fases dispersa e contínua são iguais, Pm = Pp = Pf = P,


e αp + αf = 1 (αp=α). Subtraindo a Equação (C.25) da Equação (C.26) o gradiente de
pressão é eliminado e uma expressão alternativa para o termo de força interfacial por
unidade de volume é alcançada:

(C.27)
Apêndice C 209

Os termos Ppi e Tpi representam a pressão e tensão média na interface conforme defi-
nido na Equação (6.4). As tensões devido à difusão laminar e turbulenta para a fase
‘p’ e para a mistura estão representadas pelos termos Tp e Tm, respectivamente. Subs-
tituindo a definição da tensão de mistura, Equação (9.26), na Equação (C.27) tem-se
que:

(C.28)

O último termo do lado direito da Equação (C.28) está associado às flutuações de


velocidade e de pressão do campo turbulento. Ishii e Hibiki (2006) postulam que este
termo é modelado por um coeficiente D que é função da concentração apenas:

(C.29)

C.4 ANÁLISE DE CASOS


O movimento das partículas será estudado para três casos. O primeiro caso aplica-se
ao movimento relativo de partículas que descrevem trajetórias retilíneas em um meio
infinito. O segundo caso trata do movimento relativo das partículas quando o meio
tem linhas de corrente com curvatura. O último caso trata do movimento retilíneo das
partículas num tubo.

䊏 Caso I – Movimento retilíneo


Considere um processo de sedimentação de partículas onde o escoamento ocorre em
regime permanente sem presença de paredes num meio infinito onde as partículas
atingiram sua velocidade terminal, isto é, não há aceleração das partículas nem tão
pouco do fluido deslocado. Não há gradientes de fração de vazios nem de velocidade
média de cada fase. O movimento descendente das partículas desloca a fase contínua
na direção ascendente de modo uniforme, veja representação na Figura C.3.

FD

Δρg∀p

FIGURA C.3 População de partículas em sedimentação e o balanço de forças numa partícula.


210 Apêndice C

A força interfacial média por unidade de volume é representada pelas equações


(C.28) ou (C.24). Igualando as Equações (C.28) e (C.24) e retendo apenas os termos
não nulos na direção vertical chega-se a:

(C.30)

onde a aceleração da gravidade é igual a – g, uma vez que atua no sentido contrário ao
escoamento ascendente. A velocidade relativa passa a ter somente uma componente
não nula coincidente com a direção z. Escoamentos dominados pele gravidade apre-
sentam velocidade relativa somente em relação à direção vertical.

䊏 Caso II – Movimento circular


O segundo caso trata da mesma população de partículas do caso anterior, porém
agora ela descreve um movimento circular. A introdução de curvatura nas linhas
de corrente da fase contínua faz com que a concentração não seja mais uniforme. A
trajetória das partículas será uma espiral aberta se a fase dispersa tiver massa espe-
cífica superior a fase contínua. Como consequência, a velocidade relativa entre as
fases está sempre mudando em magnitude e direção. Sob esta nova condição, todos
os termos das Equações (C.28) e (C.24) devem ser retidos. Entretanto, a aplicação de
algumas hipóteses simplificadoras permite que este caso seja tratado analiticamente.
Elas são: as linhas de corrente da fase contínua são circulares e a trajetória das par-
tículas são “quase” circulares, de forma que a aceleração retilínea Dvp/Dt ~ Dvf /Dt
= 0. Vamos considerar que o movimento relativo seja muito lento, de forma que os
gradientes de concentração sejam muito pequenos. Além disso, os termos associados
aos gradientes das tensões são descartados em vista do termo de aceleração centrí-
fuga.* Sob estas considerações os termos não nulos das Equações (C.28) e (C.24)
passam a ser:

(C.31)

䊏 Caso III – Movimento retilíneo confinado em um tubo


Escoamentos confinados em canais e em tubos podem ser substancialmente simpli-
ficados em relação a escoamentos 3D, uma vez que as variações das propriedades na

* Note que a aceleração retilínea da fase contínua e da partícula são nulas. Entretanto, devido a
mudança contínua de direção, surge a aceleração ‘fictícia’ na direção radial para as duas fases.
Veja comentário na Equação (C.6).
Apêndice C 211

seção transversal do tubo podem ser condensadas em um ponto, reduzindo a análise


do escoamento somente às variações no tempo e ao longo da direção axial do tubo.
De fato, esta abordagem é o eixo central de desenvolvimento dos modelos 1D de Dois
Fluidos e de Mistura apresentados nos Capítulos 7 e 10. O processo de média na área
transversal é descrito no Apêndice F.
O caso III tratado nesta seção utiliza o conceito de média na área para um esco-
amento bifásico completamente desenvolvido num tubo. Aplicando a média na área
na Equação (C.28) obtém-se:

(C.32)

O resultado parte da hipótese que o escoamento é desenvolvido de forma que os


termos médios de aceleração Dvm /dt e Dvp /dt são nulos e que a fase presente junto
à parede é a fase contínua, de forma que a componente do tensor de deslizamento
junto à parede também é nula. A força resultante do processo de média é paralela à
direção axial do tubo. Note que o último termo da Equação (C.28) associado ao gra-
diente da fração de vazios não aparece, pois sua direção é ortogonal à direção axial do
escoamento. Por outro lado, as forças que atuam na partícula devido ao escoamento
próximo dela, Equação (C.29), são reduzidas para apenas um termo:

(C.33)

A força interfacial média, expressa na Equação (C.33), está diretamente relacionada


com a média da velocidade relativa local, isto é:

(C.34)

Eliminando-se a força média por unidade de volume das Equações (C.32) e (C.33)
chega-se a:

(C.35)

Substituindo a definição de massa específica de mistura, Equação (10.4), chega-se a


uma expressão para a velocidade relativa média incluindo o atrito na parede:

onde Δρ = ρf − ρc. (C.36)


212 Apêndice C

A Equação (C.36) sugere que a média na seção transversal da velocidade terminal da


população de partículas é estabelecida por meio do balanço de forças entre o arrasto,
o empuxo e o atrito que a fase contínua exerce junto à parede, veja Figura C.4.

FD

τwf τwf τwf τwf

Δρg∀p

FIGURA C.4 População de partículas em sedimentação num canal confinado, balanço de


forças médias na seção transversal.

Considerando que somente a fase contínua molha a parede, a tensão na parede


pode ser avaliada, para regime turbulento, por meio do fator de atrito de Darcy, f, de
acordo com a relação:

(C.37)
onde <j> é o fluxo volumétrico da mistura no tubo, Equação (10.12). Os termos de
atrito e gravitacional definem a velocidade relativa:

onde (C.38)

Para escoamentos gás-líquido onde , o efeito do atrito na parede de-


vido ao confinamento do escoamento pode ser desprezado em face a magnitude da
força de campo. Nesse caso a velocidade relativa média na seção transversal passa a
ser definida por:

(C.39)
Apêndice C 213

A partir da Equação (C.38) pode-se constatar que o termo de atrito deve ser
considerado em casos com fluxo volumétrico elevado ou em condições de microgra-
vidade. Ishii (1977), Hibiki e Ishii (2003) e Hibiki e Ishii (2005) propõem expressões
similares àquela da Equação (C.39). No entanto, em Hibiki e Ishii (2003) é proposta
uma relação para a velocidade relativa para uma única partícula escoando num tubo,
Equação (25) do artigo original, que acredita-se estar incorreta. O termo de gradiente
de pressão não deve existir para estar consistente com a equação de BBO. O interes-
sante é que Ishii (1977), ao realizar a mesma análise, não comete este engano. No
Apêndice E é realizada uma discussão sobre este assunto.
APÊNDICE

Coeficientes
Empíricos D

Esta seção apresenta a dependência dos coeficientes, CVM, CB, CL e CD com os pa-
râmetros do escoamento, entre eles Rep. A definição das equações constitutivas dos
coeficientes em função dos parâmetros do escoamento possibilita a determinação da
equação semianalítica do movimento para uma partícula, Equação (C.22). Na se-
quência são apresentadas as equações constitutivas para os coeficientes de: Basset,
massa virtual, sustentação e arrasto. O apêndice encerra analisando o efeito da con-
centração volumétrica nestes coeficientes.

D.1 FORÇA DE BASSET EM UMA ÚNICA PARTÍCULA


A força de Basset é um termo que retêm a memória da força aplicada no escoamento.
Ela é causada pelo atraso entre o desenvolvimento da camada limite na superfície da
partícula e a mudança da velocidade relativa. A força de Basset depende da ‘história’
da aceleração relativa até o tempo presente, portanto, ela é também denominada de
termo de história da força. O efeito da força de Basset é reduzir a aceleração do mo-
vimento relativo e, portanto, aumentar o tempo requerido para atingir a velocidade
terminal. O termo de força de Basset apresentado na Equação (C.22) é repetido aqui
por conveniência:*

(D.1)

* d/dt é a derivada seguindo o centro da partícula, veja Equação (C.7).


216 Apêndice D

A força resultante é paralela à taxa da velocidade relativa seguindo a partícula. Se a


trajetória da partícula e o escoamento forem unidirecionais, então B é paralelo ao
vetor velocidade relativa. A situação muda quando houver curvatura nas linhas de
corrente. Neste caso haverá uma componente da força paralela ao raio de curvatura da
linha de corrente. A força de Basset resulta da solução de regime transiente da equa-
ção de Stokes. No regime de Rep→0 o valor esperado do coeficiente CB é unitário.
Entretanto, para estender a aplicação da força para regimes de Reynolds finitos, foi
introduzido o coeficiente CB:

(D.2)

onde Ac é um parâmetro de aceleração introduzido por Odar e Hamilton (1964), baseado


em experimentos com uma esfera em movimento harmônico simples e definido por:

(D.3)

Note que Ac diminui se a velocidade relativa diminui ou se a aceleração relativa au-


menta. Note que, no limite, quando Ac → 0, CB → 1.
O termo de Basset é difícil de calcular numericamente porque a velocidade
é implícita. Para escoamentos transientes este termo torna-se insignificante quando
ρf / ρp < 0.001 e [μ / (ρc ω Dp2)]1/2 > 6 onde ω é uma frequência característica do fenô-
meno transiente (Crowe; Sommerfeld; Tsuji, 1998). Em escoamento bifásico sólido-
-gás e líquido-gás onde a fase contínua é o gás estas condições podem ser satisfeitas
e o termo de Basset é desprezado. Já para escoamento transiente de bolhas dispersas
em líquidos certamente ele não poderá ser desprezado devido a grande diferença de
massa específica entre o gás e o líquido. Porém, em se tratando de uma modelagem
baseada no modelo de dois fluidos ou no modelo de mistura, onde os modelos utili-
zam um processo de média para definir as equações de transporte para cada fase, a
contribuição do termo transiente pode ser desprezível. Isto se dá porque os valores
das flutuações desta força podem trocar de sinais várias vezes, fazendo com que a
contribuição média seja muito pequena.
Por outro lado, em modelos lagrangeanos-eulerianos aplicados em escoamentos
de um gás carregado com partículas em regime turbulento, pode haver a necessidade
de se empregar o termo de Basset para melhor capturar o efeito que as partículas cau-
sam na turbulência e para estudar a dispersão turbulenta nas partículas. Nesse caso,
Michaelides (1997) propõe um esquema numérico baseado numa transformação inte-
gral que reduz o termo de Basset para uma equação diferencial ordinária de segunda
ordem explícita em p.
Apêndice D 217

D.2 FORÇA DE MASSA APARENTE EM UMA ÚNICA PARTÍCULA


A aceleração de uma partícula em relação ao meio contínuo requer que todo o fluido
na vizinhança da partícula seja acelerado da velocidade inicial para a velocidade final
da partícula. Isto requer a ação de uma força, mesmo se o escoamento for ausente de
viscosidade. O nome “massa aparente” ou “massa virtual” surge porque seu efeito
é equivalente a somar uma massa virtual à massa da partícula. Esta força extra é
necessária, pois o trabalho exercido por ela irá variar a energia cinética do fluido na
vizinhança da partícula.
O campo de escoamento perturbado pela presença da partícula depende forte-
mente da forma geométrica da partícula, inclusive se ela é simétrica ou não. Batche-
lor (1967) introduz o tensor de inércia como referência à massa virtual da partícula,
uma vez que ela depende da orientação relativa dos eixos de simetria do corpo em
relação ao escoamento. Brennen (2005) traz uma tabela dos tensores de inércia para
discos, esferas e elipsóides. Em particular para uma esfera, o tensor é reduzido a uma
grandeza escalar devido à simetria deste corpo.
A força extra é associada ao produto entre a aceleração da partícula e a uma
massa virtual de fluido. Em particular, a massa aparente é expressa por meio do pro-
duto entre o coeficiente de massa virtual, CVM, e a massa de fluido deslocada pela
partícula, mf:

(D.4)

Para uma esfera acelerando num campo potencial, o coeficiente CVM é igual a 1, ou
seja, a massa aparente é igual a ½ da massa de fluido deslocado pela esfera. Esse
resultado analítico pode ser encontrado em Batchelor (1967), Brennen (2005), Milne-
-Thomson (1996), Yih (1988), entre outros.
Realização de experimentos com esferas descrevendo um movimento harmô-
nico indicaram que o termo de massa virtual depende do parâmetro de aceleração
definido na Equação (D.3), Odar e Hamilton (1964). A dependência funcional de CVM
com o parâmetro Ac é proposta, empiricamente, por Odar e Hamilton (1964):

(D.5)

A Equação (D.5) mostra que, para Ac → 0, então CVM → 1, sendo que este é o valor
previsto para o escoamento potencial. A medida que Ac cresce, CVM também cresce
até atingir um valor assintótico de 2,1 quando Ac > 5. Estes resultados podem ser
vistos na Figura D.1.
218 Apêndice D

2.5

CVM
1.5

1
0 1 2 3 4 5
Ac
FIGURA D.1 Variação do coeficiente de massa virtual em função do parâmetro de acelera-
ção, Equação (D.5).

O valor de CVM proposto na Equação (D.5) tem que ser visto com ressalvas,
pois experimentos com cilindros executando movimento harmônico mostraram que
CVM pode não ser uma função crescente com Ac (Keulegan-Carpenter 1958 apud
Brennen 2005). Os dados experimentais mostram que, quando a amplitude de os-
cilação do cilindro é menor do que 5 diâmetros do cilindro, os efeitos de inércia
dominam e o coeficiente de massa virtual é muito próximo da estimativa dada pela
teoria potencial, CVM = 2, para uma faixa de Reynolds entre 104 a 106. Entretanto,
para oscilações com amplitudes maiores do que 5 diâmetros os valores de CVM po-
dem ser substancialmente menores, podendo até serem negativos! Os resultados ex-
perimentais também mostram que os maiores desvios ocorrem quando a amplitude
de oscilação é próxima do espaçamento da emissão de vórtices do cilindro. Não há
experimentos similares com esferas, entretanto espera-se que os efeitos observados
para o cilindro sejam qualitativamente semelhantes àqueles que seriam observados
numa esfera em movimento harmônico. Ainda há necessidade de investigações deta-
lhadas neste tipo de fenômeno.
A última observação relativa à massa virtual cabe a falta de semelhança entre a
Equação (D.4) e seu termo correspondente na Equação (C.7). Na primeira é tomada
a aceleração do fluido, enquanto que na última é considerada a aceleração do fluido
segundo a partícula. No regime de Stokes os termos convectivos de ambas derivadas
são de ordem inferior aos demais termos. Portanto, para Rep → 0, não há distinção
entre estas duas derivadas (Maxey; Riley, 1983). Mas, para Rep >>1, pode haver uma
grande diferença quanto ao método de avaliação.

D.3 FORÇA DE SUSTENTAÇÃO EM UMA ÚNICA PARTÍCULA


A força de sustentação é uma força que age na partícula numa direção ortogonal à
direção do escoamento longe da partícula. Esta força tem um papel central no movi-
mento lateral das partículas. Um dos trabalhos pioneiros sobre migração lateral das
partículas se deve a Segre e Silberberg apud Leal (1980), que, em 1962, estudaram
Apêndice D 219

o movimento de migração lateral de partículas esféricas com empuxo neutro em um


escoamento de Poiseuille. Eles observaram que as partículas com empuxo neutro
migravam para uma posição radial equivalente a 0,6r, sendo ‘r’ o raio do tubo. Essa
migração ocorre devido a um balanço de forças determinado pela taxa de deformação
do escoamento e pela interação do escoamento com as paredes do tubo.
A força de sustentação pode originar por dois mecanismos físicos distintos: se
a partícula possui rotação própria ou se a partícula está submetida a um escoamento
externo com taxa de deformação. O primeiro aplica-se a partículas sólidas que podem
adquirir rotação própria em função do choque com as paredes ou entre as partículas.
A força de sustentação que surge devido a rotação da partícula é denominada efeito
Magnus. No segundo mecanismo, a partícula não necessita ter rotação, mas deve
estar submetida a um escoamento onde o fluido se deforma, ou melhor dizendo, onde
há vorticidade. O mecanismo de sustentação neste caso é também denominado efeito
Saffman.
O efeito Magnus (1861 apud Michaelides, 1997) não será abordado neste docu-
mento por se tratar especificamente de escoamento disperso com partículas sólidas.
Referências ao efeito Magnus podem ser encontradas em Crowe, Troutt e Chung
(1996) e Sommerfeld (2000), por exemplo.
Esta seção tratará somente da força de sustentação causada pela taxa de de-
formação do escoamento. Há duas linhas de trabalhos analíticos sobre a força de
sustentação: (1) considera o efeito que o escoamento rotacional, com ausência de
viscosidade, causa na esfera; (2) refere-se ao escoamento viscoso de baixo Reynolds
e com grandes taxas de deformação. A principal diferença entre estas duas linhas de
trabalhos está na condição de contorno na esfera. No primeiro não há torque, isto é, a
tensão é nula, porém, no segundo caso há torque e a tensão na superfície da esfera não
é nula. Estes dois tipos de condição de contorno alteram substancialmente o campo
de velocidades, pressão e de vorticidade na esfera, alterando o valor esperado para
um caso e outro. O primeiro caso, por permitir deslizamento na superfície, é mais
aplicado a esferas de fluidos (bolhas ou gotas), enquanto que o segundo é aplicado
para partículas sólidas. Entretanto, em ambos os casos, para haver migração lateral
de partícula é necessário que haja uma parcela de aceleração convectiva. Isto implica
em dizer que partículas esféricas não experimentam forças de sustentação no regime
de Stokes (Bretherton, 1962). Esta é a razão porque a equação de BBO, válida para
Rep→0, não apresenta termo de força lateral.
Saffman (1965, 1968) obteve a força de sustentação numa partícula esférica
sólida para um escoamento simples com taxa de deformação linear e ausência de
paredes, linha (2). A solução obtida aplica-se ao limite onde os efeitos convectivos
devido à taxa de deformação do escoamento longe da esfera são muito maiores do
que o efeito convectivo devido à diferença de velocidade entre o fluido e a partícula
ou Res >> Rep, conforme definições das Equações (C.3) e (D.7). A representação
esquemática da força de sustentação e das velocidades da partícula e do fluido estão
na Figura D.2.
220 Apêndice D

FLS

Vp

FIGURA D.2 Força de sustentação devido a taxa de deformação do fluido, efeito Saffman.

A expressão da força de sustentação para uma partícula sólida em um escoa-


mento 3D é dada a seguir:

(D.6)
onde f é a vorticidade do fluido, f = ∇x f
e CL é o coeficiente de sustentação. O
coeficiente de sustentação é dado por:

onde (D.7)

Res é o número de Reynolds devido a taxa de deformação do escoamento (shear flow


Reynolds number) e f(Rep, Res) é uma função de correção proposta por Mei (1992)
baseada nos cálculos realizados por Dandy e Dwyer (1990) para Rep na faixa de
0,1 < Rep< 100. A função de correção é definida por:

(D.8)

sendo que

Substituindo a Equação (D.8) na Equação (D.7) encontra-se que CL depende de


Rep e Res para Rep < 40, enquanto que esta dependência se torna fraca para regimes
com Rep > 40. Esse comportamento de CL com Rep está mostrado na Figura D.3 (a)
para dois valores de Res, exibindo um limite assintótico de 0,15 quando Rep → 700.
Os resultados da Equação (D.8) aplicam-se a esferas sólidas.
A segunda linha de trabalho foi iniciada por Lighthill (1956 apud Legendre;
Magnaudet, 1998). Auton (1987) consegue pela primeira vez realizar um cálculo com-
pleto do campo secundário de velocidade induzido pela vorticidade e calcular a força
Apêndice D 221

(a) sólido (b) bolha


5 5

4 Res = 1 4 Res = 1
Res=10 Res = 10
3 3
CL

CL
2 2

1 1
0 0
0.1 1 10 100 1000 0.1 1 10 100 1000
Rep Rep

FIGURA D.3 Coeficiente de sustentação em função do Reynolds da partícula. esfera sólida


Equação (D.7), (b) bolha esférica Equação (D.10).

de sustentação resultante. Considerando o escoamento irrotacional com ausência de


viscosidade, o coeficiente de sustentação da Equação (D.6) passa a ser CL = 2 / 3.
Legendre e Magnaudet (1998) realizaram um estudo numérico sobre a força de
sustentação em uma bolha num escoamento viscoso com 0,1 < Rep < 500. O estudo
revela que a distribuição de velocidade tangencial na superfície da bolha tem um pa-
pel fundamental na força de sustentação e depende fortemente dos efeitos viscosos.
Os cálculos numéricos referentes ao coeficiente de sustentação mostram um compor-
tamento distinto para Reynolds baixo e alto:

(D.9)

Legendre e Magnaudet sugerem uma única expressão analítica para o coeficiente de


sustentação* em uma bolha/gota para a faixa de 0,1 < Rep < 500:

(D.10)

A dependência de CL com Rep está mostrada na Figura D.3(b). Para regime


de baixo Rep o coeficiente de sustentação depende de Rep e Res. Em contraste, para
regime de alto Rep o CL depende fracamente de Rep. Legendre e Magnaudet também
estudaram o comportamento transiente da força de sustentação e constataram que o
valor de CL para curtos intervalos de tempo após o início do escoamento difere do
valor de CL de regime permanente.

* A definição de coeficiente de sustentação no trabalho de Legendre e Magnaudet (L&M) não


coincide com a definição dada na Equação (D.19). De fato, as duas definições estão relaciona-
das por um fator de 4 / 3. CL = (4 / 3) CL (L&M).
222 Apêndice D

A diferença entre os coeficientes de sustentação entre esferas sólidas e esferas


de fluidos é mostrada na Figura D.3. Os cálculos de Legendre e Magnaudet (1998)
aplicam-se para uma interface gás-líquido livre de impurezas, caso contrário as con-
dições de contornos de tensão nula na interface e ausência de rotação na esfera de
fluido não se aplicam. Como consequência ela passa a se comportar como uma esfera
sólida. Semelhante fenômeno ocorre para a força de arrasto em esferas líquidas que
será discutida na Seção D.5.2 deste apêndice.
Ishii e Hibiki (2006) propõem um modelo de força de sustentação baseado na
taxa de deformação do fluido de modo similar ao efeito Saffman, porém ele adiciona
uma função de correção cuja aplicabilidade é mais complexa do que aquela proposta
na Equação (D.8). O modelo carece de comprovação experimental ou numérica.

D.4 FORÇA DE PAREDE


O mecanismo de migração de partícula dado pela força de sustentação é válido quan-
do se trata de um meio infinito, isto é, sem confinamento de paredes. O movimento de
uma partícula próxima de uma parede é afetado pela presença desta. De forma qua-
litativa, a influência da parede no movimento da partícula irá sempre aumentar seu
arrasto e produzir uma força lateral que afasta a partícula da parede, conforme repre-
sentação do movimento da partícula na Figura D.4. Para partículas esféricas que não
se deformam com o movimento, o mecanismo físico de ação desta força depende da
razão entre a distância de seu centro em relação à parede e o seu diâmetro, isto é, L /
Dp. Se L / Dp >1, o movimento da partícula pode ser calculado analiticamente baseado
na aproximação de Stokes ou de Oseen onde a presença da parede é considerada nos
modelos (Happel; Brenner, 1983). Por outro lado, se L / Dp ~ 1, o movimento relativo
da esfera com a parede passa a ser um problema de drenagem de líquido semelhante
a fenômenos de lubrificação.

força
α
empuxo

Dp
força lateral

força arrasto

FIGURA D.4 Balanço de forças numa bolha de diâmetro Dp próxima à parede.


Apêndice D 223

Uma extensa discussão sobre correção nas forças de arrasto e sustentação devi-
do a proximidade da parede quando L / Dp > 1 é realizada em Takemura e colabora-
dores (2002). O assunto é complexo e sua aplicação para uma população de partículas
ainda está longe de ser utilizada, dada a incerteza inerente ao acoplamento partícula-
-fluido. Nessas bases as correções de arrasto e sustentação não são empregadas no
modelo de dois fluidos para realizar previsão das forças interfaciais, nem tão pouco
elas são detalhadas neste documento.
Por outro lado, a força de sustentação quando L / Dp ~ 1 é fundamental para que
se possa introduzir condições de contorno na parede em escoamentos gás-líquido.
Essa força, também conhecida como força de sustentação da parede, é análoga a uma
força de lubrificação que atua numa bolha próxima da parede prevenindo que ela
toque essa parede. Devido a essa força de repulsão a parede está sempre em contato
com o líquido. Isto se aplica para escoamentos sem mudança de fase.
O mecanismo de sustentação pode ser explicado pela drenagem diferencia-
da que a bolha tem ao se deslocar no fluido. A presença da parede faz com que a
velocidade do liquido drenado entre a bolha e a parede seja menor do que aquela
que a bolha drena pelo lado que não está próximo da parede. A distribuição de
velocidade não uniforme entre uma face e outra da bolha causa uma força hidro-
dinâmica, nominalmente a força de sustentação da parede, que tende a afastar a
bolha da parede.
Antal; Lahey; Flaherty, (1991) propôs um modelo da força de sustentação da
parede para uma bolha esférica se deslocando em escoamento laminar. A forma fun-
cional da força de sustentação é:

(D.11)

onde w é a normal à parede, L é a distância do centro da partícula à parede e u||, CWL,


Cw1 e Cw2 representam, respectivamente, a componente de velocidade relativa paralela
à parede, o coeficiente de sustentação e constantes definidas por:

(D.12)
onde

Uma inspeção na Equação (D.12) mostra que a definição do coeficiente Cw1 torna-o
dimensionalmente não consistente. O trabalho original de Antal nem sequer coloca
o módulo de u|| na expressão de Cw1. Outra questão que coloca suspeita na Equação
(D.12) é o fato de os autores terem utilizado uma abordagem com escoamento poten-
cial para estimar a força de sustentação. De fato, utilizaram o método das imagens
num escoamento 2D para um cilindro estacionário e sua imagem submetidos a uma
corrente livre com velocidade u||. É duvidoso que um fenômeno de lubrificação, ou
dominado por forças viscosas, possa ser representado por um escoamento potencial.
224 Apêndice D

O mesmo artigo também é citado por Ishii e Hibiki (2006). Ele foi inserido neste docu-
mento como ilustrativo da literatura, entretanto ficam colocadas aqui sérias ressalvas
com relação a sua capacidade de representar fisicamente o fenômeno e ter ‘universali-
dade’ para as diversas aplicações.

D.5 FORÇA DE ARRASTO EM UMA ÚNICA PARTÍCULA


Uma partícula escoando em um fluido está submetida a uma força de sustentação e
arrasto. Essas duas forças, na maioria das partículas, ou corpos aerodinâmicos, vêm
casadas. Para um referencial que se move com a partícula define-se a velocidade
relativa r como: r = ( p – f). A força de arrasto age na direção paralela a r, mas
no sentido contrário, enquanto a força de sustentação é sempre ortogonal à força de
arrasto. Note que, para um deslocamento unidimensional, se p > f então a D aponta
no sentido contrário a r, e L ortogonal a r como era de se esperar, veja representa-
ção na Figura D.5.
A força de arrasto é definida em termos do coeficiente de arrasto e da veloci-
dade relativa entre o fluido e a partícula como mostrado no terceiro termo do lado
direito da Equação (C.22) e repetido aqui por conveniência.

(D.13)

em contrapartida, o coeficiente de arrasto em função da força de arrasto é:

(D.14)

FL

Vr
FD

FIGURA D.5 Representação das forças de arrasto e sustentação numa partícula.

O subíndice ‘s’ no coeficiente de arrasto é para enfatizar que este coeficiente aplica-se
a uma única partícula de fluido, isto é, não há uma população de partículas. O pro-
blema para determinar a força de arrasto passa agora pela definição do coeficiente de
arrasto. Normalmente a definição de coeficiente de arrasto é separada em aplicações
para esferas sólidas e para esferas fluidas (gotas ou bolhas). Esta distinção é neces-
sária, uma vez que gotas e bolhas podem ser deformadas ou mesmo quebradas pela
ação das forças do meio contínuo.
Apêndice D 225

D.5.1 Partícula esférica sólida


Para esferas sólidas, o coeficiente de arrasto é função apenas do número de Reynolds
da partícula. Para regime de Stokes, Rep < 1,

(D.15)

Substituindo a Equação (D.15) na Equação (D.13) encontra-se a força de arrasto na


partícula para o regime de Stokes:

onde (D.16)

A relação linear da Equação (D.16) decorre do fato de a equação de quantidade


de movimento ser linear no regime de Stokes. O arrasto de partículas com formas
geométricas variadas, no regime de Stokes, sempre apresentará uma relação linear
com a velocidade relativa.
A medida que o Rep cresce, a solução de Stokes não é mais válida. Entretanto,
os efeitos viscosos ainda prevalecem na determinação do coeficiente de arrasto. Uma
correlação de CD,s que se ajusta para a faixa 0 < Rep < 1000, também conhecido como
regime viscoso do arrasto, é dada por:

(D.17)

Para Rep > 1000 os efeitos viscosos são suplantados pelos efeitos inerciais e o coeficien-
te de arrasto passa a ser uma constante. Esta região se estende de 1000 < Rep < 100000
e é denominada por regime de Newton, sendo que o CD é:
(D.18)

Para Rep > 105, a camada limite laminar pode transicionar para camada limite turbu-
lenta com consequente queda no CD. Entretanto, dificilmente há aplicações práticas
para Rep > 105. A Figura D.6 traz por referência o CD da esfera em função de Rep.
Um sumário do coeficiente de arrasto para uma partícula esférica lisa é:

se Rep ≤ 1000 → Regime Viscoso,


(D.19)
se Rep > 1000 → Regime Newton.

D.5.2 Partícula esférica de fluido


Uma das distinções que são atribuídas à partícula sólida e à partícula fluida é o fato de
a última admitir um deslizamento na interface, alterando significativamente o campo
de velocidades externo na vizinhança da partícula e permitir que fluido interno à par-
226 Apêndice D

400

200 d

100 VISCOSO U md2


DT A=
60 4
CD =
Coeficiente de arrasto, CD

40 1 ρU2A
2
20

10
6
4
NEWTON

1 STOKES

0.6
0.4

0.2
Efeito da
rugosidade superficial
0.1
0.06
10-1 2 4 6 8 100 2 4 6 8 101 2 4 6 8 102 2 4 6 8 103 2 4 6 8 104 2 4 6 8 105 2 4 6 8 106

Ud
Re=
v

FIGURA D.6 Coeficiente de arrasto para uma esfera sólida com superfície lisa.

tícula apresente uma corrente interna. No regime de Stokes gotas e bolhas apresentam
uma corrente interna de um pólo a outro com simetria azimutal conhecida por vórtice
esférico de Hill (Panton, 1984), veja Figura D.7.
Hadamard-Rybczynski (1911) apud Clift, Grace e Weber (1978) investigaram
a velocidade terminal de esferas de fluidos em diversos líquidos e constataram que a
sua velocidade terminal pode ser até 50% maior do que aquela prevista no regime de
Stokes para partículas sólidas, Equação (D.16). O coeficiente de arrasto para esferas
de fluidos é dado pela expressão:

onde (D.20)

Sendo que μext e μint referem-se às viscosidades do fluido externo e interno à partícula.
A Equação (D.20) apresenta dois limites assintóticos, um para partículas sólidas ou-
tro para bolhas em líquidos:

(D.21)
Apêndice D 227

FIGURA D.7 Circulação interna a uma partícula de fluido.

A extensão da análise das forças numa esfera de fluido em regime transiente é com-
plexa e uma solução analítica no domínio do tempo não é factível; de fato, as forças
de arrasto, massa virtual e Basset deixam de ser expressões independentes, Michae-
lides (1997).
Retornando ao caso de regime permanente, a força de arrasto prevista pela
Equação (D.20) foi observada somente para fluidos “limpos”, isto é, sem a presen-
ça de impurezas químicas, surfactantes ou outras partículas menores na interface. A
ocorrência de impurezas faz com que a condição de tensão nula na interface não seja
mais verdadeira e a força de arrasto passa a ser igual a força de arrasto prevista para
uma partícula sólida. Como o grau de pureza dos fluidos é difícil de controlar em
aplicações práticas, costuma-se ignorar o arrasto previsto pela teoria de Radamard-
Rybczynski (1911) e utilizar o arrasto para uma esfera sólida. Clift, Grace e Weber
(1978) e Ishii e Hibiki (2006) adotam este procedimento.
A afirmativa de que o arrasto de gotas e de bolhas será calculado tal qual se
calcula o arrasto para uma partícula sólida é verdadeira até um determinado limi-
te de velocidade relativa. Se a partícula de fluido atingir uma velocidade superior
a uma velocidade crítica ela passa a ser deformada pelas forças hidrodinâmicas
exercidas pelo escoamento externo. Estas forças distorcem a forma esférica e induz
oscilações. A perda de simetria esférica por si só causa o aparecimento de forças
laterais e a trajetória da partícula deixa ser retilínea para descrever uma trajetória
zigue-zague ou espiral.
Sistemas bifásicos com partículas fluidas são classificados de acordo com a
forma das partículas: esféricas, distorcidas, capa esférica e agitado (churn). O regime
de bolhas ou gotas em queda ou ascenção num meio líquido infinito foi mapeado num
diagrama em termos dos grupos adimensionais: Eotvos, Weber, Morton e Reynolds*,
(Clift, Grace e Weber, 1978):

* Ishii e Zuber (1979) utilizam o número de viscosidade Nμ em vez de Morton, e a relação


entre eles é: Mo = N4μ; o grupo adimensional represetando por Eotvos também é conhecido
como Bond.
228 Apêndice D

(D.22)
T.Superficial

T.Superficial

Viscosidade

sendo que a velocidade relativa, r, é definida como sendo a diferença entre a velo-
cidade da fase dispersa e a contínua, r = p – f. A Figura D.8 mostra o diagrama da
forma das bolhas ou gotas em movimento no líquido pela ação da gravidade. Ele não
se aplica para casos extremos de razão de massa específica ou de viscosidade, ρp / ρf
ou μp / μf. Nota-se que Rep é o único grupo que contém a velocidade e, portanto, ela
pode ser determinada em função de Mo e Eo. Outro fato notável é que a viscosidade
da partícula não aparece em nenhum dos três grupos, indicando que ela não é uma
variável importante para definir a forma das partículas fluidas. As linhas que dividem
o diagrama sugerem a mudança de forma esférica para distorcida e, posteriormente,
para capa esférica. A transição de partícula distorcida para capa-esférica ocorre para
Eo ~ 40. Já a transição entre partícula esférica para distorcida se dá de forma mais
complexa, sendo uma função de Rep e Eo.

䊏 Regimes: Esférico, transição e distorcido


No regime esférico, a força de arrasto na partícula de fluido (gota ou bolha) é definida
pelo coeficiente de arrasto empregado para partículas sólidas no regime viscoso. A
expressão para CD,s, Equação (D.17), é válida até a partícula atingir uma velocidade
ou tamanho tal que sua forma passa a ser distorcida. A definição de um critério de
transição entre o regime de partícula esférica para distorcida não é única. Quiroga
(1994) traz uma revisão sobre os critérios de transição definidos por vários autores.
Neste trabalho será seguido o critério proposto por Ishii e Zuber (1979). Assim, para
o regime esférico, tem-se que:

para (D.23)

No regime distorcido, a velocidade terminal da bolha ou gota é constante e seu coe-


ficiente de arrasto cresce linearmente com o diâmetro e não depende da viscosidade:

para (D.24)

onde D*p está definido na Equação (E.5).


Apêndice D 229

105

LOG M
-14

-13

104 -12

-11 CAPA ESFÉRICA

-10
DISTORCIDA
NÚMERO DE REYNOLDS, Re

-9
103
-8

-7

-6

-5
2
10 -4

-3

-2

ELIPSOIDAL
-1
10

0
ELIPSOIDAL-CAPA

1
ESFÉRICA
1
2

4
5
6
7 8
-1
10
10-2 10-1 1 10 102 103
NÚMERO DE EOTVOS, Eo
FIGURA D.8 Regime de gotas e bolhas em movimento num meio líquido e infinito sob a ação da gravidade,
Clift, Grace e Weber (1978).

Como a velocidade é constante no regime distorcido, Equação (E.12), o coefi-


ciente de arrasto também pode ser expresso por:

(D.25)
230 Apêndice D

䊏 Somente bolhas
A medida que o diâmetro da bolha cresce, eventualmente ela deixa de possuir a forma
distorcida e atinge a forma de uma capa esférica, cujo coeficiente de arrasto e limite
de transição são definidos por:

(D.26)

Ishii e Hibiki (2006) discutem um limite de estabilidade para bolha com forma de
capa esférica e propõem um limite máximo de diâmetro onde a partir do qual ela se
desintegra em bolhas menores:
(D.27)

䊏 Somente gotas
O aumento da velocidade terminal de gotas no regime distorcido pode levar a sua
desintegração em gotas menores. Este fenômeno não acontece com as bolhas, que,
ao atingir uma velocidade crítica, mudam sua forma para capas-esféricas. O limite de
estabilidade de uma gota é conhecido como critério de Weber, onde é comparado a
força de inércia do fluido e a força de coesão dada pela tensão superficial. Dados ex-
perimentais mostram que as gotas são estáveis até We < 12, aproximadamente, ou seja:

(D.28)

A velocidade terminal de uma gota num meio infinito sob a ação da gravidade é
obtida fazendo-se um balanço entre a força peso e a força de arrasto, veja Equa-
ção (C.14). Para o regime distorcido, o coeficiente de arrasto é definido na Equação
(D.24) e sua velocidade terminal pode ser estimada por: veja
Equação (E.13). Substituindo a estimativa de r no critério de Weber pode-se determi-
nar o diâmetro máximo da gota:

(D.29)

que corresponde a um coeficiente de arrasto de CD,s = 4. Frequentemente, este limite


não é alcançado, pois instabilidades se desenvolvem na interface, antecipando o limi-
te de desintegração da gota. Um limite prático é definido pela equação:

(D.30)

Como comentário final cabe destacar que a análise do coeficiente de arrasto e


critério de transição baseou-se numa única partícula que se desloca num meio infinito
sob a ação da gravidade. Deve-se ter em perspectiva que a aceleração da gravidade
é o agente causador do movimento e ela pode-se ser generalizada por uma força de
Apêndice D 231

campo que poderia ser produzida, por exemplo, pelo campo centrífugo (g ~ v2/R) ou
também por campos eletrostáticos ou forças de campo de outra natureza.

D.6 EFEITO DA CONCENTRAÇÃO NAS FORÇAS INTERFACIAIS


A presença de uma população de partículas ao invés de apenas uma partícula afeta as
forças interfaciais e, consequentemente, seus coeficientes empíricos. O acoplamento
entre partículas e a fase contínua é de duas vias, de modo que a presença das partícu-
las também afeta o escoamento da fase contínua. Este cenário é típico para concen-
trações volumétricas entre 0,01% a 10% ou onde a distância livre entre partículas,
Lp / Dp, varia entre 10 e 100, veja definições na Seção 6.5.

D.6.1 Efeito da concentração no coeficiente de massa aparente


O coeficiente da massa aparente para uma partícula depende da concentração de par-
tículas. Zuber (1964) foi o primeiro a atacar este problema (apud Ishii; Hibiki, 2006;
Brennen, 2005). Utilizando o método de célula (uma célula esférica de fluido con-
tendo cada partícula) ele propôs que o coeficiente de massa aparente para uma popu-
lação de partículas, CVM, está relacionado com o coeficiente de uma única partícula,
CVM,s, Equação (D.5) por meio de:

(D.31)

D.6.2 Efeito da concentração no coeficiente de arrasto


Para os diversos regimes de partículas o efeito da concentração das partículas causa
um aumento no coeficiente de arrasto. Isso só não é verdade para bolhas no regime
agitado ou churn, como será discutido mais adiante. Os estudos sobre a influência da
concentração nas partículas são escassos. As fontes de referência são Ishii e Hikibi
(2006), Ishii e Zuber (1979) e Wallis (1969). O material exposto a seguir baseia-se
em Ishii e Hibiki (2006). As transições são previstas pelos critérios obtidos para uma
partícula isolada, Seção D.5.

䊏 Regime viscoso ou partículas no regime não distorcido


É suposta uma similaridade entre o coeficiente de arrasto para uma partícula e para
uma população de partículas, isto é, entre CD,s e CD:
(D.32)

(D.33)

Sendo que o número de Reynolds para a população de partículas é definido por:

(D.34)
232 Apêndice D

onde μm é a viscosidade da mistura que leva em conta a concentração das partículas e


as viscosidades da fase contínua e da partícula:

n = 1,00 → bolhas,
onde n vale: n = 1,75 → gotas em líquido,
n = 2,50 → gotas em gás e partículas sólidas.
(D.35)

䊏 Regime de Newton – Partículas sólidas somente


Partículas sólidas isoladas no regime de Newton apresentam um CD constante, veja
Equação (D.18). Para uma população de partículas sólidas a correção deverá ser feita
em função da concentração das partículas. Ishii e Hibiki (2006) propõem um ajuste
na forma:

para (D.36)

O ajuste baseia-se na forma explícita encontrada para a velocidade terminal de uma


partícula no regime viscoso e calculada para o ponto de transição Rep ~ 1000, para o
regime de Newton. O termo entre parênteses na expressão é a correção do coeficiente
de arrasto em função da concentração das partículas. A Equação (D.36) pode ainda
ser simplificada substituindo a definição da razão de viscosidades, Equação (D.35)
para n = 2,5:

(D.37)

䊏 Regime de partículas distorcidas – Bolhas e gotas


Partículas isoladas de fluido no regime distorcido apresentam um coeficiente de ar-
rasto que depende do diâmetro da partícula, da diferença de massas específicas en-
tre os fluidos e da tensão superficial, mas não da viscosidade, veja Equação (D.24).
Considerando um sistema com múltiplas partículas no regime distorcido, é esperado
que o coeficiente de arrasto seja maior do que aquele experimentado por uma única
partícula. Ishii e Hibiki (2006) postulam que a dependência do CD das partículas com
a concentração seja semelhante àquela do regime de Newton:

para (D.38)
Apêndice D 233

Substituindo a definição da razão das viscosidades, Equação (D.35) e a definição de


f(α) na equação (D.38), chega-se a:

n = 1,00 → bolhas,
sendo que n = 1,75 → gotas/líquido,
n = 2,50 → gotas/gás, sólidos.
(D.39)
O aumento da concentração traz um aumento no coeficiente de arrasto, como pode
ser visto na Figura D.9 que mostra a razão entre CD/CD,s versus a concentração. Pode-
-se observar que, para baixas concentrações, α < 0,04, CD/CD,s permanece menor que
1,02. Entretanto, quando α = 0,2, a razão CD/CD,s pode atingir até 1,15 para sólidos
ou gotas em gás.

䊏 Regime agitado (churn) – Bolhas ou capas esféricas


Ishii e Hibiki (2006) discutem o coeficiente de arrasto para o regime agitado ou churn
propondo uma correção à (D.26)

(D.40)

1.5

bolhas
1.4
CD/CD,s (Equação E.39)

gotas em líquido

sólidos e gotas/gás
1.3

1.2

1.1

1.0
0 0.05 0.1 0.15 0.2 0.25 0.3 0.35 0.4 0.45
α
FIGURA D.9 Variação da razão do coeficiente de arrasto, CD/CD,s em função da concentração
volumétrica.
234 Apêndice D

D.6.3 Efeito da concentração no coeficiente de sustentação


Não há estudos sobre o efeito da concentração no coeficiente de sustentação. Entre-
tanto, pode-se especular que a similaridade aplicada a força de arrasto também pode
ser aplicada à força de sustentação, desde que as bolhas e gotas estejam no regime
viscoso, ou seja, que mantenham sua forma esférica. A análise se torna complexa
quando as bolhas perdem a simetria esférica no regime distorcido. Neste regime sur-
ge, naturalmente, uma força de sustentação devido a falta de simetria da forma da
bolha. Não há estudos para esses casos.
APÊNDICE
Velocidade
Relativa de uma
Única Partícula E

O movimento relativo de uma única partícula, sólida ou fluida, foi estudado extensi-
vamente. Clift, Grace e Weber (1978) traz inúmeras referências sobre o assunto que
serão resumidas neste apêndice. O objetivo deste apêndice é dar subsídios ao desen-
volvimento de expressões analíticas para determinação da velocidade de deslizamen-
to da população, assunto da Seção 9.5.
O subíndice “s” é empregado para diferenciar as variáveis relativas a análise
de uma única partícula das variáveis empregadas na análise de múltiplas partículas.
Assim as variáveis r, CD, Rep que são identificadas como velocidade relativa, coe-
ficiente de arrasto e Reynolds para sistemas com múltiplas partículas passam a ter
seus análogos para um sistema com uma única partícula, acrescendo o subíndice ‘s’ a
notação original: r,s, CD,s e Rep,s.
A velocidade relativa de uma única partícula é definida por: r,s = p − f. Ela é
modelada a partir da Equação (C.22):

(E.1)
Esta equação foi organizada de maneira que o lado esquerdo representa os termos
com r,s e o lado direito os termos fonte. A Equação (E.1) é fortemente acoplada ao
campo de escoamento da fase contínua e possui termos não lineares em r. Para regime
236 Apêndice E

de Rep → 0 o lado esquerdo da equação torna-se linear. O lado direito da equação é


um termo fonte que requer informações sobre o campo de velocidades do fluido e da
partícula.
O objetivo da análise da velocidade relativa é direcionado à obtenção da expres-
são para a velocidade de deslizamento, empregada na Seção 9.5. As hipóteses sim-
plificadoras colocadas na Seção 9.5 são novamente aplicadas. O movimento relativo
é determinado para um caso de sedimentação num meio infinito com concentração
uniforme. O balanço de forças numa única partícula esférica se resume a força de
arrasto e ao empuxo. Ou seja, permanecem apenas o segundo e sexto termos da Equa-
ção (E.1):

(E.2)

Isolando r,s da Equação (E.2) chega-se a expressão do módulo da velocidade relativa


para uma única partícula sujeita as forças de empuxo e arrasto:

(E.3)

É conveniente introduzir duas escalas*, uma para a velocidade relativa e outra para o
diâmetro da partícula, v* e D*, respectivamente:

e (E.4)

de modo que as formas adimensionais para r,s


e Dp passam a ser definidas por:

e (E.5)

Nesse estágio é conveniente definir os números de Reynolds e Weber em termos dos


parâmetros v*r,s e D*p:

(E.6)

Introduzindo as escalas na Equação (E.3) obtêm-se sua forma adimensional:

ou (E.7)

2
* As escalas v* e D* baseiam-se na lei de Stokes, v* ≈ (D* gΔρ)/μ e D* ≈ μ/(ρv*), explicitando
cada expressão para v* e D* somente chega-se às escalas.
Apêndice E 237

A velocidade relativa adimensional é determinada substituindo-se na Equação (E.7)


as definições dos coeficientes de arrasto para uma partícula da Seção D.5, conforme
o regime da partícula.

䊏 Partículas sólidas
O coeficiente de arrasto para partículas sólidas é dado pela Equação (D.19). Ele é
aplicado para os regimes viscoso e de Newton. Substituindo a definição de CD,s na
Equação (E.7) encontra-se uma expressão de D*p em função de v*r,s:

Viscoso

(E.8)

Para o regime viscoso, a solução de v*r,s em função de D*p é implícita. Uma expressão
aproximada na forma explícita é proposta por Ishii e Zuber (1979). Para o regime de
Newton a solução é explícita, veja Equação (E.9)

Viscoso (E.9)

que, na forma dimensional, são representados por:

Viscoso (E.10)
238 Apêndice E

onde ψ(D*p) é definido na Equação (9.45) e repetido aqui por conveniência:

(E.11)

䊏 Bolhas e gotas

No regime viscoso, válido para a velocidade relati-


va tem a mesma expressão para partículas sólidas no regime viscoso, veja Equação

(E.9). No regime distorcido, válido para , a velocidade

relativa é reduzida para uma constante após substituir o coeficiente de arrasto, Equa-
ção (D.24), na Equação (E.7):

(E.12)

ou na forma dimensional:

(E.13)

No regime distorcido a velocidade terminal da bolha ou gota é constante e não depen-


de do diâmetro.

䊏 Somente bolhas
A medida que o diâmetro da bolha cresce, eventualmente ela deixa de possuir a forma
distorcida e atinge a forma de uma capa esférica, cujo coeficiente de arrasto é uma
constante dada pela Equação (D.26) e sua velocidade relativa é:

(E.14)

ou na forma dimensional:

(E.15)

A transição de bolhas distorcidas para capa esférica ocorre quando


Apêndice E 239

E.1 VELOCIDADE RELATIVA DE UMA ÚNICA PARTÍCULA EM


UM TUBO
Escoamentos confinados em canais e em tubos podem ser substancialmente simpli-
ficados em relação a escoamentos 3D, uma vez que as variações das propriedades na
seção transversal do tubo podem ser condensadas em um ponto, reduzindo a análise
do escoamento somente às variações no tempo e ao longo da direção axial do tubo.
De fato, esta abordagem é o eixo central de desenvolvimento do modelo 1D de Mis-
tura. O processo de média na área transversal é descrito no Apêndice F e empregado
no modelo de mistura 1D no Capítulo 10.
Nesta seção é analisado o caso onde uma única partícula escoa num tubo ver-
tical. O sentido ascendente é considerado positivo, enquanto que a força g atua no
sentido contrário. Considera-se que o escoamento no tubo seja hidrodinamicamente
desenvolvido e a partícula atinja sua velocidade terminal. Na ausência de variações
na velocidade relativa tem-se que os termos relativos a massa virtual e à aceleração de
Basset são nulos. Além disso, considerando apenas as variações na direção axial do
tubo no processo de média na área, o termo de força lateral também não aparecerá na
análise. Baseado nestas considerações, a Equação (C.22) reduz para:

(E.16)

O último termo da Equação (E.16) representa a aceleração que o fluido teria se ele
estivesse, no mesmo instante, no centro da esfera. Este termo decorre da análise de
Maxey e Riley (1983). Considerando que o regime é desenvolvido, este termo é nulo.
A velocidade relativa de uma única partícula escoando em um tubo fica sendo expres-
sa por uma expressão análoga à Equação (E.2):

(E.17)

Cabem duas ressalvas à Equação (E.17). A primeira delas refere-se ao efeito da pre-
sença das paredes sobre o coeficiente de arrasto da partícula. Clift et al. (1978) apon-
tam que o efeito da parede em CD,s é desprezível se a razão entre os diâmetros da
partícula e do tubo forem menores que 0,125. A análise baseia-se numa esfera esco-
ando no centro do tubo. Evidentemente, esse cenário não se aplica a uma população
de partículas escoando no tubo, entretanto ela fornece um fundamento teórico para
aproximar as relações obtidas para CD,s em meio infinito para meio confinado, pelo
menos para as partículas que estão próximas do centro do tubo.
A segunda ressalva é relativa ao trabalho de Corrsin e Lumley (1957). Este tra-
balho teve grande impacto no meio científico, pois trata da consolidação do trabalho
240 Apêndice E

pioneiro de Tchen apud Maxey e Riley (1983) relativo ao movimento de uma esfera
num escoamento transiente. Corrsin e Lumley (1957) propuseram que o equilíbrio de
forças numa partícula considerando apenas a força de arrasto é:

(E.18)

Para um escoamento incompressível, o último termo da Equação (E.18) pode ser


expresso pela equação de Navier-Stokes:

(E.19)

Substituindo a Equação (E.19) na Equação (E.18) obtém-se:

(E.20)

Comparando-se as Equações (E.20) e (E.17) nota-se que elas são distintas, revelando
uma inconsistência entre as duas abordagens. Maxey e Riley (1983) foram os primei-
ros a apontar essa inconsistência no modelo de Corrsin e Lumley (1957). Segundo
os autores, o modelo de Corrsin e Lumley considera que o efeito do gradiente de
pressão é superior em várias ordens de magnitude ao efeito da tensão quando, de fato,
eles podem ser da mesma ordem de grandeza. Uma inspeção nas Equações (E.18)
e (E.16) mostra que o modelo de Maxey e Riley não tem o termo de tensão viscosa
que aparece na Equação (E.18). Infelizmente, diversos autores ainda se baseiam na
análise de Corrsin e Lumley e chegam a resultados inconsistentes. Este também é o
caso da análise realizada por Hibiki e Ishii (2003) onde eles realizam um balanço de
forças na bolha como ponto de partida do modelo para calcular a velocidade média de
deslizamento num canal confinado utilizando a Equação (E.20).
APÊNDICE

Equação de
Transporte 1D F

Diversos fenômenos em mecânica dos fluidos apresentam o escoamento numa di-


reção preferencial. O escoamento em dutos de seção constante ou levemente variá-
vel é um exemplo dessa classe de escoamentos. Uma maneira simplificada, porém
eficaz de representar esta classe de escoamentos é condensar as equações de trans-
porte na direção transversal ao escoamento. Isso permite reduzir as variações do
modelo somente na direção axial e no tempo. Para chegar à forma das equações de
transporte transiente e 1D é necessário partir da sua forma 3D. Considere a forma
canônica da equação de transporte apresentada na Equação (2.8) e repetida aqui por
conveniência:

(F.1)

Integrando a Equação (F.1) no volume, e utilizando o teorema de Gauss e a regra de


Leibniz, ela passa a ser representada por:

(F.2)

O domínio de integração é infinitesimal na direção axial e finito na direção transver-


sal conforme sugere a Figura F.1. O elemento de volume é definido por:
(F.3)
242 Apêndice F

z z
Ao + (dA/dz) ∆z
ψo + (dψ/dz) ∆z

∆z

R(z) L ∆z R(z) α ; tgα=dR/dz

A(z) Ao (z)
ψo

FIGURA F.1 (a) Representação de um tubo com seção convergente A e comprimento axial L; (b) detalhe de
duas seções transversais do tubo com espaçamento infinitesimal Δz.

onde A é a área da seção transversal, A = π R2. Como as paredes podem ser inclina-
das, o raio e a área da seção, R e A, são dependentes da posição axial z. O valor médio
de uma variável genérica ‘ψ’ na área da seção transversal A do tubo é definido por:

(F.4)

A Equação (F.4) sugere que o processo de média na área condensa as informações da


variação de ψ na seção transversal para um valor médio correspondente àquela seção
transversal A. No entanto, o valor médio <ψ> pode variar ao longo da direção axial
do tubo assim como no tempo. Na análise desenvolvida a seguir considera-se que a
massa específica não varia na seção transversal.
Aplicando o conceito de média na seção em cada termo da Equação (F.2) che-
ga-se a:
– Termo Transiente:

(F.5)
– Termo Convectivo:

(F.6)
Apêndice F 243

onde a velocidade vk é a componente axial da velocidade considerada na formulação


como um escalar, vw é a velocidade de injeção (+) ou sucção (-) na parede e α é o
ângulo de inclinação da parede. Simplificando a Equação (F.6) e expressando Cos(α)
= [1+Tan2(α)]-0,5 então:

(F.7)

– Termo Tensorial: na forma 1D o tensor Jk apresenta duas componentes, uma normal


e outra tangencial à superfície de controle, denominadas de Jw,n e Jw,s, respectivamen-
te, veja representação na Figura F.2.
A integral de área relativa a contribuição do tensor passa a ser representada por
suas componentes normal e tangencial, Jw,n e Jw,s:

(F.8)

A componente normal à S.C. atua nas áreas transversais, A e A+ΔA, e também na


área da parede cuja extensão é Δl, veja Figura F.2. Para paredes inclinadas a ação do

Tensão Tensão
normal cisalhante

Z
(Jw,n+(dJw,n/dz)) dz

Jw,n

Δl R(z) z
α
Jw,s

Tensão
extra devido Jw,n
inclinação da Jw,s
parede

FIGURA F.2 Representação dos tensores normal e tangencial no volume de controle infinite-
simal.
244 Apêndice F

tensor normal na parede causa um termo extra de força na direção axial, de tal forma
que a força resultante da componente normal passa a ser:

(F.9)

A componente tangencial do tensor atua somente nas paredes do tubo de forma que:
(F.10)

– Termo Campo:
(F.11)

Substituindo as definições dadas pelas Equações (F.5) a (F.11) na Equação (F.2) e


simplificando, chega-se a forma canônica da equação de transporte para regime tran-
siente e unidimensional:

(F.12)

A Equação (F.12) aplica-se para um tubo com seção transversal variável, podendo ter
sucção ou injeção de massa nas paredes. Para um tubo com seção transversal constan-
te e sem injeção ou sucção de massa nas paredes a equação simplifica para:

(F.13)

onde D é o diâmetro do tubo, D = 2R.

F.1 PARÂMETRO DE DISTRIBUIÇÃO, CΨ,V


A forma da Equação (F.13) ainda não é conveniente para uma aplicação direta, pois
envolve a média de um produto. Deve-se procurar expressar a equação por meio do
produto das médias em vez de média dos produtos. Este mesmo recurso já foi utiliza-
do na Seção 5.3 para expressar a equação de transporte para o modelo de dois fluidos
em termos do produto de valores médios.
A introdução do parâmetro de distribuição permite expressar a média do produ-
to em termos do produto da média. Utilizando a hipótese de que a massa específica
não varia na seção transversal, então:

(F.14)

onde o parâmetro Cψ,v é definido como:

(F.15)
Apêndice F 245

A variável Cψ,v é denominada de parâmetro de distribuição, pois depende exclusivamen-


te do perfil de ψk e vk na seção transversal. Estes parâmetros também são empregados
em escoamentos monofásicos. Veja, por exemplo, as Seções 8.5 e 8.6 de Fox, McDonald
e Pritchard (2006). Considerando por hipótese que as distribuições de ψk e vk na seção
transversal do tubo podem ser representadas por perfis de potência da forma:

e onde (F.16)

O perfil de velocidades em regime laminar é bem representado pela Equação (F.16), de


fato a potência m é exatamente igual a 2. Entretanto para regime turbulento a represen-
tação do perfil não é adequada. Costuma-se utilizar uma lei de potência [1 – (r / R)]m.
Usualmente os valores do expoente m na expressão [1 – (r / R)]m variam entre 1/5 a
1/7 em função do Reynolds. Entretanto, perfis de velocidade ‘achatados’ também po-
dem ser obtidos na forma da Equação (F.16). A vantagem da lei de potência consiste
na simplicidade algébrica da expressão resultante da integração da Equação (F.16)
que define Cψk. Por se tratar de um processo de integração os erros são suavizados e é
plausível que neste contexto ela seja uma boa aproximação. Entretanto, essa suposição
ainda carece de uma comparação.
Considerando os perfis de potência dados na Equação (F.16), o coeficiente de
variação em função dos parâmetros m, n e de ψ no centro e na parede do tubo é:

(F.17)

Cabe destacar que o fator ½ que multiplica a expressão vem do fato de que a Equação
(F.15) apresenta um termo no numerador e o produto entre dois termos no denomina-
dor. Uma simplificação pode ser alcançada considerando que as potências m e n são
iguais, neste caso:

(F.18)

A Tabela F.1 mostra alguns valores de Cψ,k em função dos parâmetros n, m e do valor
de ψ na parede.
Introduzindo a definição do parâmetro de distribuição na forma canônica da
equação de transporte 1D ela passa a ser representada pelos produtos das médias:

(F.19)

O conhecimento ou estimativa do parâmetro de distribuição é relevante para a exati-


dão do modelo 1D. Ele passa a ser um coeficiente que multiplica o termo de variação
da quantidade de movimento da equação de transporte.
246 Apêndice F

TABELA F.1 Coeficiente de distribuição em função dos


parâmetros m e n
Cψ,v n m Δψk ψk,w
3/5 2 2 qualquer 0
2/3 1 1 qualquer 0
8/9 1/7 1/7 qualquer 0
29/44 1/7 2 qualquer 0
32/57 1/7 7 qualquer 0
1/2 0 0 qualquer Δψk
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Índice

A D
Área interfacial, densidade de, 43-45 Dados aleatórios, classificação dos, 21-2
Decomposição de Reynolds, 51-53
C Definição de variáveis médias 50-51
Densidade de área interfacial, 6
Coeficientes empíricos, 215-234 Densidade, entalpia e entropia da mistura, 6
efeito da concentração nas forças interfaciais, Densidade de área interfacial, 43-45
231-234 Deslizamento, 7, 114-115, 125-132
no coeficiente de arrasto, 231-234 definições de velocidades de, 7, 114-115
no coeficiente de massa aparente, 231 equação constitutiva para a velocidade de (duas
no coeficiente de sustentação, 234 fases), 125-132
força de parede, 222-224 fluxo volumétrico de (drift flux), 7
força de sustentação em uma única partícula, 218-
222
E
força em uma única partícula, 224-231
de arrasto, 224-231 Entalpia, 6
partícula esférica de fluido, 226-231 Entropia, 6
partícula esférica sólida, 225 Equação de transporte 1D, 241-246
de Basset, 215-217 parâmetro de distribuição, 244-246
de massa aparente, 217-218 Equações de transporte locais e instantâneas, 17-20
Conceitos básicos, 1-20 Equações médias de transporte, 47-57
grandezas e notação, 4-7 decomposição de Reynolds, 51-53
métodos de análise, 13-16 definição de variáveis médias 50-51
problema fundamental, 7-13 em função dos termos médios, 53-56
Concentração ou título mássico, 7 equação da massa, 54
equação da quantidade de movimento, 54-56
258 Índice

F I
Força, 215-231 Interface, 17-20, 37-46
de Basset, 215-217 representação da, 37-46
de massa aparente, 217-218 densidade de área interfacial, 43-45
de parede, 222-224 função indicadora da fase, 40-43
de sustentação em uma única partícula, 218-222 para média de conjunto, 42-43
em uma única partícula, 224-231 média de volume, 41-42
Fluxo de massa, 5 para média temporal, 40-41
Fluxo volumétrico de deslizamento (drift flux), 7 superfície, velocidade e deslocamento, 37-40
Fluxo volumétrico ou velocidade superficial, 5 salto na 17-20
Forças em partículas, 197-213
análise de casos, 210-213 L
movimento circular, 210-211
movimento retilíneo, 210 Leibniz e funções descontínuas, 183-195
movimento retilíneo confinado em um tubo,
211-213 M
equação do movimento de uma única partícula Massa, 5, 54, 60, 82, 119-122, 217-218, 231-234
num fluido em movimento, 199 aparente, força de, 217-218
baixo número de Reynolds, 199-205 efeito da concentração nas forças interfaciais,
em um escoamento potencial, 206 231-234
semiempírica, 206-208 equação, 54, 60, 82, 119-122
interfacial média por unidade de volume para uma fluxo de, 5
população de, 208 Média, processos de, 21-36, 40-43, 48-50
forma alternativa à força interfacial média, 208- médias ponderadas, 26-35
209 de conjunto, 30-35, 42-43, 50
Função indicadora da fase, 21-36, 40-43 no tempo, 28-29, 40-41, 48-49
classificação dos dados aleatórios, 21-24 no volume, 29-30, 41-42, 49
médias ponderadas, 26-35 Misturas, 109-116, 117-140, 141-167
Funções descontínuas, Teorema de Gauss e Leibniz modelo 1D, 141-167
para, 183-195 equações de transporte, 148-154
Funções generalizadas, 171-181 forma alternativa, 165-167
derivada de uma função escalar com salto, 177- médias na seção transversal, 142-143
178 modelo Drift Flux, 149-165
função delta, 172-174, 179-181 equações de transporte, 149-154
operações com, 173-174 equações constitutivas, 154-161
operações no espaço 3D, 179-181 relações cinemáticas, 143-148
função generalizada, 174-177 modelo 3D, 117-140
análise de escala, 135-136
G equação constitutiva, 125-134
Gauss, teorema de para funções descontínuas, 183- para o tensor de tensões, 132-134
195 para a velocidade de deslizamento (duas
Grandezas e notação, 4-7 fases), 125-132
Índice 259

equação, 119-123 N
de conservação da massa da fase k, 119-122
Notação, 4-7
conservação da massa da mistura, 119
concentração ou título mássico, 7
quantidade de movimento da mistura, 122-
densidade de área interfacial, 6
123
densidade, entalpia e entropia da mistura, 6
transporte, 123-124
fluxo de massa, 5
modelo homogêneo, 137-139
fluxo volumétrico de deslizamento (drift flux), 7
propriedades e conceitos cinemáticos, 109-116
fluxo volumétrico ou velocidade superficial, 5
definições de velocidades, 112-116
probabilidade de ocorrência da fase k, 5-6
de deslizamento, 114-115
vazão mássica, 4
de difusão, 113-114
vazão volumétrica, 4-5
relações entre velocidades, 115-116
velocidade da fase k, 6
pressão, 112
velocidade de deslizamento (drift), 7
propriedade escalar, 112
velocidade de difusão, 7
propriedade tensorial, 111-112
Número de Reynolds, baixo, 199-205
velocidade, 111
Modelo de dois fluidos 1D, 82-107
equação da conservação da massa, 82 P
equação da quantidade de movimento, 82-84 Partícula(s), 197-213, 235-240
modelo de fases separadas, 86-89 esférica de fluido, 226-231
padrão anular, 100-107 esférica sólida, 225
padrão estratificado, 89-99 força interfacial média por unidade de volume
Modelo de dois fluidos 3D, 59-79 para uma população de, 208
e equações constitutivas, 59-79 forças em partículas, 197-213
arranjo espacial das fases termos interfaciais, 64 forças em, 197-213
conservação da massa, 60 força de sustentação em uma única, 218-222
para a força interfacial – padrão disperso, 66-73 força em uma única, 224-231
para a força interfacial – padrão estratificado, uma única, velocidade relativa de, 235-240
73-75 Probabilidade de ocorrência da fase k, 5-6
para o tensor das tensões, 61-64 Processos de média, 21-36
laminar, 61-62
turbulento, 62-64 Q
para o termo de força interfacial – forma
canônica, 66 Quantidade de movimento, equação da, 54-56, 60-
para o termo de mudança de fase, 65-66 61, 82-84, 122-123
quantidade de movimento, 60-61
meios porosos, 78-79 R
misturas sólido-fluido, 77-78
Regra de Leibniz para funções descontínuas, 183-
Modelo de mistura 1D, 141-167
190, 194-195
Modelo de mistura 3D, 117-140
no espaço, 185-186
Movimento, 54-56, 60-61, 82-84, 122-123, 199,
no tempo, 186-189
210-213
no tempo e no espaço, 189-190
circular, 210-211
Reynolds, 51-53, 199-205
retilíneo, 210
decomposição de, 51-53
retilíneo confinado em um tubo, 211-213
número de, baixo, 199-205
260 Índice

S U
Sistema (s) Uma única partícula, velocidade relativa de, 235-240
gás-líquido, 2
gás-sólido, 2-3 V
líquido-líquido, 3
líquido-sólido, 3 Vazão
multifásicos, 3 mássica, 4
volumétrica, 4-5
Velocidade
T
da fase k, 6
Teorema de Gauss para funções descontínuas, 183- de deslizamento (drift), 7
184, 190-195 de difusão, 7
no espaço, 190-191 relativa de uma única partícula, 235-240
no tempo, 191-193 em um tubo, 238-240
no tempo e no espaço, 193-194 superficial ou fluxo volumétrico, 5
Termos médios, 53-56

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