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Inclusão e Escola

Família e Escola: perspectivas históricas das definições e funções


de cada uma

Responsável pelo Conteúdo:


Profa. Tathiane Cecília. E. Arruda

Revisão Textual:
Profa. Esp. Márcia Ota.
Unidade Família e Escola: perspectivas históricas das
definições e funções de cada uma

Nesta unidade, trabalharemos os seguintes tópicos:

Fonte: Thinkstock / Getty Images


• Infância e Família: perspectivas históricas

Nesta unidade, conversaremos sobre Família e Escola em uma perspectiva


histórica até os dias atuais.
Esta unidade tem por objetivo apontar a família e a escola, num contexto histórico,
para demonstrar os papéis e funções de cada uma no decorrer do tempo.

Então, convido-o(a) a participar ativamente do curso, estudando todo o material que será
disponibilizado, realizando as atividades e tarefas propostas e acessando constantemente os
fóruns. Assim, será possível construir bons conhecimentos, que serão úteis para a aplicação na
vida profissional e também pessoal.

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Unidade: Família e Escola: perspectivas históricas das definições e funções de cada uma

Contextualização

Essa unidade pretende apontar a família e a escola numa perspectiva histórica para demonstrar
principalmente os papeis e funções de cada uma no decorrer do tempo a fim de que a escola
inclusiva seja, de fato, “compreendida” pelo aluno.

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Infância e Família: perspectivas históricas

Desde os primeiros anos de vida, a criança começa a participar do processo de aprendizagem,


por meio de suas primeiras palavras, gestos e ações, ela se comunica com o meio.

A infância, bem mais além da ideia de cores, brincadeiras, ingenuidade e impetuosidade típica
das crianças, é um universo extremamente importante, pois é nessa fase que reside a essência
de uma realidade evolutiva humana, em que a construção gradativa do caráter desde a infância
é a peça fundamental para um indivíduo bem ajustado e por consequência de uma sociedade
equilibrada, haja vista a LDB nº 9394/96, a qual delimita a Educação da primeira infância como
a primeira etapa da Educação Básica, pelo mesma motivação, a de desenvolvimento de caráter
e potencialidades.

Desse modo, para compreender o lugar social que a criança ocupa na sociedade, serão
analisadas as relações entre sociedade, infância e escola, entendendo a criança como sujeito
histórico e de direitos.

Assim sendo, para que haja, na educação, aprendizagem afetiva e clara, um processo longo
nos primeiros anos escolares, é preciso que exista um propósito definido no contexto em que a
escola, o aluno e a família sejam aliados.

A Infância
Segundo o dicionário Aurélio (1986), infância significa o período da vida humana desde o
nascimento até cerca de 12 anos. A palavra infância etimologicamente vem do latim “IN” (não)
“FANCIA” (capacidade da fala). Nessa perspectiva, a fase da infância seria caracterizada pela
ausência da fala e de comportamentos esperados, considerados como manifestações irracionais.
Nesse contexto e sob a ótica do adulto, pode-se afirmar que a criança é excluída do direito de
ser considerada “sujeito”,

Segundo a LDB nº 9394/96, a Educação Infantil está assim definida: “A educação infantil,
primeira etapa da educação básica, tem com finalidade o desenvolvimento integral da criança até
os seis anos de idade, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando
a ação da família e da comunidade”. Aqui, pode-se observar já uma possibilidade de integração
entre família e escola em prol da aprendizagem da criança.

A infância antigamente

“Até por volta do século XII, a arte medieval desconhecia a infância ou não
tentava representá-la. É difícil crer que essa ausência se devesse à incompetência
ou à falta de habilidade. É mais provável que não houvesse lugar para a infância
nesse mundo.” (Philippe Ariès, 1981, p. 17).

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Unidade: Família e Escola: perspectivas históricas das definições e funções de cada uma

Segundo Ariès (1981), o sentimento de infância apareceu a partir do século XVII. Na Idade
Média, esse sentimento não existia. O que distinguia a criança do adulto era apenas o seu
tamanho. A criança era vista como um ser em miniatura e quando não precisava mais do
apoio constante da mãe ou da ama, já ingressava na vida adulta, isto é, passava a conviver
com os adultos em suas reuniões e festas, como também era colocada em famílias estranhas
para aprender os serviços domésticos, uma vez que estes não eram considerados degradantes e
constituíam uma forma comum de educação tanto para os ricos como para os pobres.
Nos séculos XII e XIII, as representações infantis foram expressas em gravuras feitas sobre
crianças. Na maioria dessas gravuras encontradas, em que eram retratadas as vidas em grupo,
observavam-se desenhos de crianças com característica de adulto (face e vestimenta).
Figura 1 – Rosa e Azul (Renoir, 1881) Figura 2 – Las Meninas (Diego Velasquez, 1656)

Fonte :Pierre-Auguste Renoir (1841–1919) / Fonte: Diego Velázquez (1599–1660) / Wikimedia Commons
Wikimedia Commons

Segundo Áries, (1981) a infância era um período muito curto porque as crianças, ao
completarem entre cinco e sete anos, ingressavam no mundo dos adultos sem absolutamente
nenhuma transição. Era como se a criança pequena não existisse. Acredita-se que Rosseau
considerava a infância um período rico a ser explorado, a partir do que tenha estudado e
vivenciado essa infância “sem sentido”. O indivíduo só passava a existir quando podia se
misturar e participar da vida adulta. Esse período ocorre até meados do século XVII, pois a
sociedade não dava muita atenção às crianças.
Devido às más condições de higiene e de saneamento básico, a mortalidade infantil era
altíssima e corroborava com a ausência de sentimento para e pela criança, que era vista como
um ser “ao qual não se podia apegar, pois, a qualquer momento, poderia deixar de existir”, e,
de fato, muitas crianças não conseguiam ultrapassar a primeira infância.
No séc. XVII, surge um sentimento de “paparicação” em relação à criança, o qual surge
no meio familiar; um segundo sentimento em relação à infância. Áries (1981) afirma que é a
tomada de consciência da inocência e da fraqueza da infância.

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Figura 3 - “Família Renoir em Montmatre” Além disso, esse sentimento surge fora do meio
(Renoir, 1896). familiar. Vem com os eclesiásticos, os homens da lei e
os moralistas do século XVII, uma vez que perceberam
a necessidade de uma atenção especial à infância. Com
isso, viam as crianças como frágeis criaturas de Deus,
as quais era preciso, ao mesmo tempo, preservar e
disciplinar. Em pouco tempo, esse sentimento transfere-
se para a família que passa a juntar os dois fatores antigos
e atribui um terceiro e novo sentimento: a preocupação
com a higiene e a saúde física da criança.
Todos esses sentimentos geraram um sentimento de
família e de infância que não existia, passando a criança
a ser o centro das atenções, considerando que a família
começou a se organizar em torno dela.
Na Idade Moderna, a infância começou a ser retratada
na arte e atinge seu auge, quando artistas representam
Fonte: Pierre-Auguste Renoir (1841–1919) / Wikimedia por meio de pinturas e desenhos o diálogo das crianças
Commons e dos adultos de sua família.
ideia de considerar a infância como um período e não uma “passagem” para a vida adulta,
como já dizia Rosseau, estaria relacionada ao surgimento do colégio. Tempo esse, em que as
crianças foram rigidamente disciplinadas e enclausuradas, com o propósito de afastá-las do
mundo adulto. Segundo Àries (1981, p.11): “A escola substituiu a aprendizagem como meio de
educação. Isso quer dizer que a criança deixou de ser misturada aos adultos e de aprender a
vida diretamente, através do contato com eles”.
Áries ainda afirma que a instituição escolar passa a ter a preocupação de educar, tanto
quanto instruir.
A despeito das muitas reticências e retardamentos a criança foi separada dos
adultos e mantida à distância numa espécie de quarentena, antes de ser solta
no mundo. Essa quarentena foi a escola, o colégio. Começou então um longo
período de enclausuramento das crianças (como dos loucos, dos pobres e
prostitutas) que se estenderá até nossos dias, e ao qual se dará o nome de
escolarização. (Àries,1981, p.11).

A infância atualmente
A concepção de infância foi mudando ao longo dos séculos. Os movimentos sociais fizeram
com que a criança tivesse lugar na sociedade. Atualmente, é considerada como alguém que tem
a sua própria identidade e seus direitos.
Além disso, hoje, no Brasil, a infância dispõe do Estatuto da Criança e do Adolescente,
que foi promulgado em 1990, com o objetivo de garantir a todas as crianças e adolescentes o
tratamento com atenção, proteção e cuidados especiais para se desenvolverem e se tornarem
adultos conscientes e participativos do processo inclusivo (ECA, 1990).

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Unidade: Família e Escola: perspectivas históricas das definições e funções de cada uma

Essas mudanças originaram-se de novas exigências sociais e econômicas, conferindo à


criança um papel de investimento futuro.
Assim, a criança passou a ser valorizada e, portanto, o seu atendimento teve que acompanhar
os rumos da história. Sendo assim, a Educação Infantil de uma perspectiva assistencialista,
transforma-se em uma proposta pedagógica aliada ao cuidar, procurando atender a criança
de forma integral, em que suas especificidades (psicológica, emocional, cognitiva, física, etc...)
devem ser respeitadas.
A primeira infância está passando a ser ‘estável e qualificada’ para o futuro, e,
como tal, uma base para o sucesso a longo prazo em um mercado global cada vez
mais competitivo. Além de reproduzir conhecimento e habilidades, essa base envolve
a reprodução dos valores dominantes do capitalismo atual, incluindo individualismo,
competitividade, flexibilidade e a importância do trabalho remunerado e do consumo.
(DAHLBERG; MOSS; PENCE; 2007, p. 65).

A criança é entendida como um sujeito único, complexo, individual e co-construtor ativo, ou


seja, a aprendizagem não é a transmissão de conhecimento que conduz a criança a resultados
pré-ordenados. As crianças não passam, de modo passivo, por sua experiência, mas se tornam
agentes ativos em sua socialização (Dahlberg, Moss, Pense, 2007, p. 72).
Figura 4 – Roda de Conversa

Fonte: Thinkstock / Getty Images

Essas premissas fundamentam ideias, as quais a criança, como parte do mundo, têm voz e
participação efetivas em contraposição à criança passiva e frágil, receptora dos conhecimentos
socialmente elaborados, sem lhes atribuir sentido.
Nesta construção da criança ‘rica’, a aprendizagem não é um ato cognitivo individual
realizado quase em isolamento na cabeça da criança. A aprendizagem é uma
atividade cooperativa e comunicativa, na qual as crianças constroem conhecimento,
dão significado ao mundo, junto com os adultos e, igualmente importante, com
outras crianças: por isso, enfatizamos que a criança pequena, como aprendiz, é um
co-construtor ativo. (DAHBERG; MOSS; PENCE, 2003, p. 72).

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Nessa perspectiva e em uma atitude ativa de quem aprende e de quem ensina, a escola
passa a ser lugar para transmissão e mediação do sentido do conhecimento científico, no qual
se educa para a liberdade, autonomia e humanização.
Postman (1999) argumenta que, perdendo a infância, a sociedade corre um risco. Muitos
psicólogos acham que a noção de moralidade depende da miscelânea de atividades da infância.
Mas, se não existe opinião unânime sobre o que a infância deve ser, todos concordam que
mudanças importantes estão acontecendo.
Assim, a concepção da criança como um ser particular, com características bem diferentes
das dos adultos, e, contemporaneamente, como portador de direitos enquanto cidadão, é que
vai gerar as maiores mudanças na Educação Infantil, tornando o atendimento às crianças de 0
a 5 anos ainda mais específico, exigindo do educador uma postura consciente de como deve ser
realizado o trabalho com as crianças pequenas, quais as suas necessidades enquanto criança e
enquanto cidadão.

A Família
A família é um caleidoscópio de relações que muda no tempo de sua constituição
e consolidação em cada geração, que se transforma com a evolução da cultura,
de geração para geração.

GROENINGA G.

Conceito
Stanhope, (1999), afirma que termo “família” é derivado do latim “famulus”, que significa
“escravo doméstico”. Tal termo foi criado na Roma Antiga e servia para designar um novo grupo
social ao ser introduzido à agricultura e para legalizar a escravidão. Naquela época, um grande
número de pessoas possuíam um chefe e, por isso, as tribos eram patriarcais, ao passo que na
Idade Média, as pessoas eram ligadas por vínculos matrimoniais, formando novas famílias
O Dicionário de Ciências Sociais da FGV (1987) define família como uma instituição social
básica, que aparece sob as formas mais diversas em todas as sociedades humanas. Dá-se o
nome de família a um grupo caracterizado pela residência em comum e pelo convívio de pais e
filhos, isolados dos demais parentes.

Larande (1999) define o conceito filosófico de família como:


»» um conjunto de servidores;
»» grupo de indivíduos parentes ou aliados que vivem conjuntamente;
»» conjunto de todos os indivíduos vivos num dado momento que mantêm entre si relações
definidas de parentesco ou de aliança.
De acordo com Sarty (2005), antropologicamente, a família é a condição para a existência
da sociedade. A família é, ao mesmo tempo, a negação e a afirmação da sociedade.

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Sob o ponto de vista psicológico, segundo o Dicionário de psicologia moderna (1979), a


família é constituída essencialmente na nossa civilização, pelo pai, pela mãe e pelos filhos.
O pai tem um papel, sobretudo de provisão e autoridade. A mãe tem um papel afetivo e as
relações entre as crianças são de significativa importância. Porém, sabe-se que essa premissa
não vigora nos dias atuais, pois, em sua maioria, tanto o pai, quanto a mãe, estão fora do
ambiente familiar devido ao trabalho e o que se preza, atualmente, é a qualidade da relação
estabelecida com a criança e não somente a quantidade do tempo.
Dias (2006) aponta que a Constituição Federal de 1988 alargou o conceito de família, passando a
integrá-lo às relações monoparentais: de um pai com os seus filhos. Esse redimensionamento, calcado
na realidade que se impôs, acabou afastando da ideia de família o pressuposto de casamento.
A Lei nº 11.340, de 2006, delibera sobre uma nova regulamentação legislativa da família,
juridicamente compreendida como a “comunidade formada por indivíduos que são ou se
consideram aparentados, unidos por laços naturais, por afinidade ou por vontade expressa;
independentemente de orientação sexual” (art. 5º, inciso II, e parágrafo único), ou seja, no
interior da família, os indivíduos podem constituir subsistemas, podendo estes, serem formados
pela geração, sexo, interesse e/ ou função, havendo diferentes níveis de poder, em que os
comportamentos de um membro afetam e influenciam os outros membros.
A família vem-se transformando por meio dos tempos, acompanhando as mudanças
religiosas, econômicas e socioculturais do contexto, em que se encontram inseridas. Afinal, é um
espaço sociocultural que deve ser continuamente renovado e reconstruído.

Estrutura
Figura 5 – “A Virgem da Rosa” (1518, óleo Da família medieval à família moderna, percebem-se
sobre tela, Rafael).
diferenças alarmantes. Na Idade Média, a criança, desde
muito cedo, escapa à sua própria família. Nessa época,
portanto, a família não podia alimentar um sentimento
de afetividade positiva entre os pais e filhos. De acordo
com Ariès (1981), antes “a família era uma sociedade
moral e social, mais do que sentimental”.
Segundo a obra “História Social da Criança e da
Família” de Philippe Ariès (1981), as cenas eram
sempre representadas pela figura do homem “nobre ou
camponês”, tratava-se sempre da imagem masculina,
enquanto a imagem feminina era raríssima ou quase
esquecida.
A mulher começa a surgir nas cenas ao lado do
homem, somente a partir do século XVI, como dama do
amor cortês ou dona de casa. Mesmo com a presença da
Fonte: Raphael (1483–1520)/Wikimedia Commons
mulher nessas imagens, ainda não havia um sentimento
familiar, sendo, então, incluída a figura da criança. O sentimento que antes era destinado à
criança parecia quase invisível, não havia um conceito de intimidade e necessidade familiar.

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As representações sucessivas dos meses do ano introduziram portanto essas
novas personagens: a mulher, [...] e finalmente a criança. E a criança se ligava a
essa necessidade outrora desconhecida de intimidade, de vida familiar, quando
não ainda precisamente, de vida “em família. (Ariés, 1981, p.134).

Figura 6 – “Mucama com menino no colo”


(1830, autor desconhecido). O século XV experimenta uma transformação na realidade
e nos sentimentos da família, embora ele tenha acontecido de
forma lenta e profunda. As crianças deixam de ser educadas com
famílias “educadoras” de ofício e passam a frequentar a escola.
Os educadores defendem a necessidade de isolar a infância
do mundo dos adultos para mantê-los na inocência primitiva.
Paralelamente, percebe-se uma preocupação dos pais em vigiar
os filhos mais de perto e não abandoná-los mais aos cuidados de
outra família.

No século XVII, Ariès (1981) cita dois fatores que despertam


especial atenção: a importância do poder patriarcal na decisão de
Fonte: dalmirlott.blogspot.com um casamento arranjado, sendo uma forma de manutenção e
expansão patrimonial; e o fim da exclusividade dos bens dirigidos
aos primogênitos e, consequentemente, incentivo aos filhos mais novos. Tal mudança causou
indignação social e veio acompanhada por mudanças socioeconômicas.
Figura 7 - “A família de Carlos IV” (1800, de Francisco de Goya y Lucientes).

Fonte: Raphael (1483–1520)/Wikimedia Commons

Ainda no século XVII, a família, assim como a família da Idade Média, não proporcionava à
criança nenhuma espécie de carinho ou educação, e nem conseguia sociabilizá-la por si só. A
organização familiar era baseada nas atividades do dia a dia, na proteção do grupo em horas
de perigo e na defesa da honra.

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Unidade: Família e Escola: perspectivas históricas das definições e funções de cada uma

A honra e a segurança só estavam ameaçadas nas épocas de crise. No resto do


tempo, a função essencial da família era organizar a vida cotidiana. O homem
não era capaz de viver sozinho; tinha que cooperar com sua mulher, fosse no
trabalho do campo ou no seu trabalho de artesão. Quando a família não estava
ameaçada, o núcleo formado pelo casal e os filhos tendia a se separar em
grupos. (Ariés, 1975, p.4).

A partir do fim do século XVII, as famílias se organizaram em torno da criança e os retratos


de famílias se tornaram inúmeros e comuns. Houve uma transformação definitiva, dando lugar
a uma nova sociedade, com a criança mais perto da família, tendo início um novo modelo de
família. Essa mudança aconteceu pelo movimento de moralização dos homens, ocasionado
pelos reformadores católicos e protestantes ligados à Igreja, às Leis ou ao Estado, com grande
cumplicidade sentimental das famílias, causado pela escolarização, modificando-se até chegarem
às famílias atuais (ARIÈS, 1981).
No final do século XVIII e durante todo o século XIX, a família era considerada um meio de separar
a criança da sociedade a fim de garantir seu desenvolvimento social por meio da educação.
Moreira (2001) aponta que, com o aparecimento das indústrias, as mulheres saem de casa,
integrando a população ativa e a educação dos filhos é partilhada com as escolas. Nessa época,
a família era definida como um “agregado doméstico (…) composto por pessoas unidas por
vínculos de aliança, consanguinidade ou outros laços sociais, podendo ser restrita ou alargada”
(MOREIRA, 2001, p. 22). Nessa definição, nota-se a tendência reducionista da definição de
família que começava a instalar-se, refletida pelos vínculos de aliança matrimonial.
No início do século XX, houve uma nova transição de valores, sobretudo com a emancipação
sexual e econômica da mulher, e na década de 70, com o movimento estudantil e a reedição
da liberação da mulher. Esses novos valores vão ao encontro com as forças histórico-culturais,
que se apresentavam em transformação.
Devido às consequências do desenvolvimento em várias áreas como ciência, religião,
moralidade, educação, política, economia, a família enquanto instituição também se desenvolve
e se modifica. As necessidades de marido e mulher, em trabalhar e ficar fora de casa praticamente
o dia inteiro, trazem a substituição por terceiros que realizam seus deveres domésticos.
Um novo conceito de família tem se apresentado atualmente. A velha concepção, de que a
família seria formada por pai, mãe e filhos, tem mudado e com ela as relações que a constituem.
Se antes a família tinha formação basicamente patriarcal, em que o homem tinha o papel
de soberano, hoje, a mãe ganha posição de destaque, sendo ela encarregada pelo sustento e
gestão do lar. Há ainda os lares, nos quais, na família, a figura da mãe ou do pai é inexistente,
sendo substituída por avós, tios ou, até mesmo, por casais homossexuais.
Da mesma forma, as relações que ligam os indivíduos, os quais formam esse grupo, ganharam
novos conceitos. Deixam de ter unicamente relações de sangue para dar lugar aos laços de
afetividade; considerando-se, assim, os aparentados por laços naturais, afetivos ou vontade
expressa. A visão do que seja família muda conforme as relações humanas. Os conceitos são
adaptados às novas formas de convivência, para dar aos indivíduos amparo jurídico e garantir
os direitos de cada um. Seja qual for o conceito ou formação, o importante é garantir que seja
esta a base de uma sociedade, a qual não se dissolva e os seus valores não se percam.

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É necessário compreender a família como sistema democrático, substituindo a feição
centralizadora e patriarcal por um espaço aberto ao diálogo entre os seus membros, onde é
almejada a confiança recíproca.
A família vem se transformando por meio dos tempos, acompanhando as mudanças religiosas,
econômicas e socioculturais, acompanhando dessa maneira toda a mudança na dinâmica
social que se coloca à frente. A instituição família deve se perceber em contínuo processo de
transformação se renovando e/ou se reconstruindo – se for o caso, em seus papeis, funções e
estrutura no sentido de acompanhar toda a transformação social e ser vista também como uma
instituição de formação política de natureza criativa e inspiradora para seus componentes .

Função
A família desempenha uma das mais importantes funções na infância, pois é o primeiro lugar
em que o indivíduo tem seus primeiros contatos, a criança inicia a aprendizagem. Além disso, as
atitudes e os valores são modelados nesse contexto.
Os pais têm como papel principal fornecer as bases dos seus comportamentos, transmitindo
valores de diversas naturezas, como religioso, morais e entre outros. Portanto, a construção do
conhecimento se dá de acordo com o que já se sabe, uma vez que todo novo conhecimento
precisa associar-se a outro já aprendido, para, a partir de então, modificá-lo e aumentá-lo.

O ambiente familiar parece ser o primeiro e mais significativo local para


internalização de valores, criação de hábitos e de aprendizagem variadas.
Quanto mais estimulador for este ambiente, mais ele influi na transformação dos
processos elementares em superiores; em contrapartida, quanto mais conflitivo,
mais carente de afetividade, maiores problemas trará a criança em formação. De
qualquer forma as influências do ambiente familiar adicional aquelas extraídas
do contexto sociocultural, permitem que ela vá construindo todo um saber e se
constituem nos alicerces das primeiras aprendizagens. (Megrine, 1994, p.28).

O Referencial Curricular Nacional para Educação Infantil (1998, p. 76) reafirma os conceitos
citados acima, de que a família é a primeira escola da criança, tem a obrigação de educar,
orientar e onde tem o início da construção de conhecimentos prévios para uma vida social, com
cidadania, direitos e deveres:

As crianças têm direito de ser criadas e educadas no seio de suas famílias. O


Estatuto da Criança e do Adolescente reafirma, em seus termos, que a família
é a primeira instituição social responsável pela efetivação dos direitos básicos
das crianças. Cabe, portanto, as instituições estabeleceram um diálogo aberto
com as famílias, considerando-as como parceiras e interlocutoras no processo
educativo infantil. (RCNE, 1998, p. 76).

A família oferece suporte às necessidades da criança, e também pode proporcionar um


estímulo de cooperação nas relações entre os homens de diferentes sociedades e culturas. Os
pais possuem a responsabilidade de fazer com que seus filhos desenvolvam características de
personalidade e comportamento, tornando-se cidadãos com dignidade e comprometidos com
a sociedade.
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Unidade: Família e Escola: perspectivas históricas das definições e funções de cada uma

Historicamente, a família tem sido considerada o ambiente ideal para o


desenvolvimento e a educação de crianças pequenas. Essa é a posição de alguns
sistemas educacionais, que sustentam que a responsabilidade da educação dos
filhos, particularmente quando pequenos, é da família, e assumem um papel
de meros substitutos dela, repetindo as metas embutidas nas práticas familiares.
(Oliveira, 2002, p.175).

A Lei 8.069/90, do Estatuto da Criança e do Adolescente, traz em seu artigo 4º:

É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público


assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida,
à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à
dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.

Ao analisar os estudos sobre a função da família e de acordo com o seu dever perante à Lei, pode-
se considerar que vem sendo trazida como célula primordial, firmando-se assim como instituição de
maior responsabilidade na formação, desenvolvimento e convívio social da criança.
A participação da família é decisiva, sobretudo porque reforça a autoconfiança e autoestima
de crianças e jovens ao demonstrar-lhes que os pais se importam com eles e com o seu sucesso.
Por outro lado, as escolas ainda não oferecem a orientação necessária para que a família apoie o
projeto pedagógico da instituição. Quando a família e escola educam com os mesmos critérios,
as distâncias entre elas se reduzem e a melhor beneficiada é a criança. A sinergia entre família e
escola é uma das chaves para o sucesso da educação.

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Material Complementar

Leia, atentamente, os textos a seguir, que ajudarão no aprofundamento de seus estudos


sobre a unidade que estamos estudando:

»» h t t p : / / p e p s i c . b v s a l u d . o r g / s c i e l o. p h p ? p i d = S 1 5 1 6 -
www 36872002000200005&script=sci_arttext/
»» http://br.monografias.com/trabalhos3/integracao-escola-familia/

Assista também aos filmes indicados. Eles tocam na questão da família!


»» Um Homem de família;
»» Meu Malvado Favorito;
»» Harry Potter e a Pedra Filosofal.

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Unidade: Família e Escola: perspectivas históricas das definições e funções de cada uma

Referências

ARIÈS, Philippe. História Social da Criança e da Família. 2 ed. Rio de Janeiro: LTC, 1981.

BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é educação. São Paulo: Brasiliense, Coleção Primeiros
Passos, 28° ed., 1993.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Senado Federal, 1988.

BRASIL. Estatuto da Criança e do Adolescente: Lei 8.069/90, de 13 de Julho de 1990.


Brasília: Senado Federal, 1990.

DESSEN, Maria Auxiliadora; POLONI, Ana da Costa. A Família e a Escola como contextos
de desenvolvimento humano. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/paideia/v17n36/
v17n36a03.pdf>. Acesso em 10 out 2011.

OLIVEIRA, Zilma Ramos de. Educação Infantil: fundamentos e métodos. Cortez Editora, São
Paulo: 2002.

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Anotações

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